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Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Centro de Ensino Superior do Seridó – CERES


Departamento de História – DHC

FICHAMENTO DO TEXTO “O ESPECTADOR COMUM: A IMAGEM COMO


NARRATIVA”

Trabalho apresentado à disciplina de História a Arte


I, ministrada pelo docente Prof. Lourival Andrade
Júnior, como requisito parcial de avaliação da
Unidade 1.

Discente: David Jerfeson Pereira

Caicó

2021
Nos deleitamos em temperaturas quentes e úmidas ao adentrarmos o texto “O
Espectador Comum: A Imagem como Narrativa”, de Alberto Manguel (2001). O autor,
ainda no primeiro parágrafo de seu trabalho, nos situa em local e tempo, de sua
memória mais longínqua com a arte, a lembrada como primeira. É tarde na Argentina.
E, de um evento de sua vida, nos levará ao conhecimento de que a arte é uma imagem e
uma narrativa; pensada, a partir de um mundo, de uma perspectiva. Para Manguel, essa
narrativa se constrói a partir de memórias, que o autor acredita não se encerrarem em
apenas um significado singular. Discute o autor que

“Em algum momento do século XVI, o eminente ensaísta Francis Bacon


observou que, para os antigos, todas as imagens que o mundo dispõe diante
de nós já se acham encerradas em nossa memória desde o nascimento. 'Desse
modo, Platão tinha a concepção', escreveu ele, 'de que todo conhecimento
não passava de recordação; do mesmo modo, Salomão proferiu sua conclusão
de que toda novidade não passa de esquecimento. Se isso for verdade,
estamos todos refletidos de algum modo nas numerosas e distintas imagens
que nos rodeiam, uma vez que elas já são parte daquilo que somos: imagens
que criamos e imagens que emolduramos; imagens que compomos
fisicamente, à mão, e imagens que se formam espontaneamente na
imaginação; imagens de rostos, árvores, prédios, nuvens, paisagens,
instrumentos, água, fogo, e imagens daquelas imagens - pintadas, esculpidas,
encenadas, fotografadas, impressas, filmadas” (MANGUEL, 2001, p. 20).

No que tange a imagem, fica o pensar de que somos criaturas de imagens, de


figuras. “Nossa alma está atrelada as imagens: ao pensar, ao busca-las e ao rejeita-las”
(MANGUEL, 2001, p. 21). Mas, “qualquer imagem pode ser lida”, “Elas deixam ser
interpretadas, encerradas em signos, traços que a nós podem ser compreendidos?”,
pergunta o autor. Poderíamos olhar para os talhados de Sumé na pedra do Ingá e remeter
poeticamente a Zé Ramalho, que falava desse homem que queria ser lembrado. Porém,

“Tudo isso oferece ou sugere, ou simplesmente comporta, uma leitura


limitada apenas pelas nossas aptidões. 'Como saber se cada pássaro que cruza
os caminhos do ar/ não é um imenso mundo de prazer, vedado por nossos
cinco sentidos?', indago William Blake" (MANGUEL, 2001, p. 22).

Para o autor, imagem e conhecimento do que chamamos de real estão


imbricados, uma vez que pela representação da primeira podemos conhecer uma
experiência de mundo. Ressalta ainda que, essas imagens que nascem não estão
encerradas em si, podendo fazer nascerem outras mais a partir da ação receptível dos
espectadores. A imagem criada e o que a olha estão por extensão ligados, onde o outro
que a vê é acometido pela história que a criou, que nele provoca sensações. Belo como
Manguel cita Kierkegaard para dizer que o fato de criarmos imagens é uma forma de
nos traduzirmos para o mundo, um mundo que nos olhará e será acometido pelo reflexo
de um mundo que está dentro de nós, acontecendo e dando narrativa as imagens
(MANGUEL, 2001, p. 24).
As imagens estão presas dentro de um espaço: molduras, distâncias, medidas,
mas que, todavia, ganham um novo presente, uma nova narrativa, seja ela comparativa
obras ou analítica. A partir da Renascença, a imagem ganha um novo congelamento, o
do momento da vista, do espectador e sua visão, e a ela dando narrativa, uma nova
forma de se traduzir para o mundo:

"A narrativa, então, passou a ser transmitida por outros meios: mediante
'simbolismo, pose dramáticas, alusões à literatura, títulos' - ou seja, por meio
daquilo que o espectador, por outras fontes, sabia estar ocorrendo” (Manguel,
2001, p. 25).

Sendo claro, o autor argumenta que partimos de um espaço fechado, de um


ponto fixo. Esse, não nos cabe atingir, alcançar, se vemos uma pintura, ela nos vem
como algo definido por seu contexto. A ela, podemos saber algo sobre o pintor, seu
tempo, sua identidade, ideologia política, partidarismo e sobre o seu mundo; podemos,
até ter alguma ideia das suas influências, que moldaram sua visão. Entretanto, “no fim,
o que vemos não é nem a pintura em seu estado fixo, nem uma obra de arte aprisionada
nas coordenadas estabelecidas pelo museu nos guiar” (MANGUEL, 2001, p. 27). O que
vemos, na verdade, é um produto fruto de nossas reminiscências, experiências que dão
forma ao que vemos na imagem. Conferimos a ela, um tempo.
Ao conferir a imagem uma narrativa, que carrega o seu tempo, a imagem ganha
temporalidades. Difícil é dizer com exatidão qual o tempo das imagens das obras de
Giorgio de Chirico, que não nos especifica o que aconteceu, o que está por acontecer e o
que aconteceu no momento em que foi, o presente.

"A imagem de uma obra de arte existe em algum local entre percepções:
entre aquela que o pintor imaginou e aquela que os contemporâneos do pintor
podiam nomear; entre aquilo que lembramos e aquilo que aprendemos; entre
o vocabulário comum, adquirido, de um mundo social, e um vocabulário
mais aprofundado, de símbolos ancestrais e secretos” (MANGUEL, 2001, p.
29).

Concluindo, verificou-se pelo texto que as imagens são uma forma que nos vem
para provocar sensações, comunicar ideias, e que, delas, não podemos gerar explicação.
Fazemos dos comentários a respeito delas, isso sim, criticas, segundo Manguel. Não
obstante, são essas críticas que fazem nascer obras-primas, Opus Magnum de um
criador.

"Para o bem ou para o mal, toda obra de arte é acompanhada por sua
apreciação crítica, a qual, por sua vez, dá origem a outras apreciações
críticas. Algumas destas transformam-se, elas mesmas, em obras de arte, por
seus méritos" (MANGUEL, 2001, p. 30).

Por fim, "Não sei se é possível algo como um sistema coerente para ler as
imagens, similar àquele que criamos para ler a escrita (um sistema implícito no próprio
código que estamos decifrando)" (MANGUEL, p. 32).

"O código que nos habilita a ler uma imagem, conquanto por nossos
conhecimentos anteriores, é criado após a imagem se construir - de um modo
muito semelhante àquele com que criamos ou imaginamos significados para
o mundo à nossa volta, construindo com audácia, a partir desses significados,
um senso moral e ético, para vivermos" (MANGUEL, p. 33).

Referência:
MANGUEL, Alberto. O espectador comum: a imagem como narrativa. In: __. Lendo
imagens. Tradução de Rubens Figueiredo, Rosaura Eichemberg e Cláudia Strauch. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 15-33.