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Apostila de Linguística, por Diogo

Moreira Martini
Fonética, Fonologia e Morfologia
Conceituação e Exercícios

Fonetica ´

O que é a Fonética, afinal?


É o ramo da Linguística que estuda a parte física relacionada à emissão e
percepção dos sons. As relações acústico-articulatórias são a preocupação das inquirições
fonéticas, já que esses fenômenos físicos do som desvendam como o corpo humano é
capaz de criar linguagem a partir da conformação de seu trato vocal, além de oferecer aos
falantes de uma comunidade linguística comunicarem-se e entenderem-se.
Retomando Hjelmslev, anteriormente trabalhado nos capítulos em que se discutiu
as relações das teorias do signo linguístico, entende-se a Fonética como o estudo da
substância da expressão, já que seu objeto de estudo são todos os sons que o ser humano
é capaz de produzir, através da articulação física de seu corpo, sem levar em conta regras
combinatórias ou de organização. É, portanto, a Fonética, um estudo do concreto e
palpável. E não do sistema abstrato da LÍNGUA, mas sim, da FALA, da
EXTERIORIZAÇÃO da Langue de Saussure: a Parole..

De onde parte a Fonética?


A fonética dedica-se, sobretudo, ao estudo segmental dos sons. Portanto, toma
como unidade mínima de seu trabalho analítico, o FONE. O fone, por sua vez, é a unidade
de som a qual se lhe atribuem características físicas/articulatórias e acústicas. Cada fone
pode ser caracterizado conforme critérios físicos, que especificam a maneira como o ser
humano os produz a partir do que possui enquanto corpo.
Os fones se organizam sempre de forma LINEAR, o que significa que essas
unidades jamais podem sobrepor-se. Observe-se que ao enunciarmos “mato”, dizemos
[m-a-t-ʊ]. Um fone segue o outro, em uma sequência a qual chamamos CADEIA
SONORA.
A ideia de LINEARIDADE, entretanto, não se aplica aos traços que se lhe
atribuem aos fones. Os traços são características binárias que podem ou não ser marcadas
em cada um dos segmentos mínimos da fonética. Veja-se: um traço não pode ser
enunciado em seguida do outro, como em uma cadeia sonora, dado que sua combinação
simultânea e sobreposta é que caracteriza o fone, conforme suas atribuições.
[m] é +consonantal; +labial; +sonorante; +nasal ao mesmo tempo!!!

O que é o IPA?
É o ALFABETO FONÉTICO INTERNACIONAL, que tenta unificar em questão
de ponto e modo de articulação – movimentos de articuladores ativos em relação ao
passivos e maneira pela qual o ar é liberado, de acordo com os obstáculos propostos pelos
articuladores, respectivamente – , todas as consoantes de todas as línguas naturais do
mundo.
Quanto às vogais, o IPA promete dar conta das variações de elevação da
mandíbula e posição da língua, no trato vocal, para cada um dos segmentos vocálicos de
todas as línguas naturais do mundo.
Ao leitor, fica o desafio de circular e classificar os fones que correspondem ao
PORTUGUÊS BRASILEIRO (PB).
PRATIQUE COM OS EXERCÍCIOS

1) Transcreva, de acordo com a sua pronúncia, as seguintes palavras do Português:

a) piranha –_____________ b) Hércules – _____________ c) altura – _____________


d) sonho – _____________e) moleque - _____________ f) olheiras –_____________
g) jagunço – _____________h) rapaz - _____________ i) vazio – _____________
j) coração – _____________

2) Dê a forma ortográfica das transcrições abaixo.

 Fazer exercícios do livro da Thaïs.


Fonologia
O que é a Fonologia, afinal?
A Fonologia é o ramo da Linguística que, assim como a Fonética, se ocupa dos
sons. No entanto, sua perspectiva, isto é, o ponto de vista com o qual ela se dirige para
esse objeto de estudo, difere da postura tomada pela sua indissociável “parceira”,
Fonética. Em que, entretanto, essas duas vertentes do estudo dos sons se distancia?
Recorde-se que a Fonética se ocupa da parte física dos sons. A Fonologia, por
outro lado, procura atribuir à essa fisicidade, mais do que uma relação com significado,
uma SISTEMATICIDADE. É, portanto, o estudo da maneira como os sons se compõem
como ELEMENTO ABSTRATO e a investigação das REGRAS DE COMBINAÇÃO
que os regem, antes de serem EMITIDOS. Se a Fonética é o estudo dos sons da Parole,
de Saussure, a Fonologia, por sua vez, adjunge aos sons a perspectiva da LANGUE
saussuriana.
Os sons para a Fonologia, não são vistos como SONS EM SI MESMOS e sim, do
ponto de vista da sua relação com o significado que possuem em relação uns aos outros
(isso remete à ideia do valor negativo do mestre genebrino) e das relações que tecem com
o plano do conteúdo. Novamente, se nos dirigirmos às teorias hjelmslevianas, estamos,
na Fonologia, inseridos na FORMA DA EXPRESSÃO e não mais na substância.
Portanto, a Fonologia procura dar conta dos RECORTES que cada língua faz, de acordo
com o SEU SISTEMA LINGUÍSTICO e AS REGRAS QUE O FUNDAMENTAM
ENQUANTO LÍNGUA, dos sons todos de que dispõe. É dizer, o brasileiro consegue
enunciar algo como “smrad”, porém, esse encontro de três consoantes seguidas NÃO
compõe o SISTEMA LINGUÍSTICO do Português Brasileiro (PB) e, portanto, não
possuímos esse recorte, essa forma da expressão, embora eles estejam subjacentes ao
território da substância.

De onde parte a Fonologia?


A Fonologia, como área de estudo, precisa de um objeto para fundamentar suas
análises. Seu objeto de estudo é a unidade mínima, cujo nome é FONEMA. Um
FONEMA é uma unidade mínima do som, mas que, diferentemente do FONE, possui
características CONTRASTIVAS.
Mas... O que é esse tal de contraste?
O contraste é o que nos possibilita, em uma língua natural qualquer, diferir
significado, a partir do som. Veja-se que, em uma língua como o Português Brasileiro
(PB), podemos levantar o corpus de todas as oclusivas que possuímos (p, b, k, g, t, d),
porém isso NADA diz além de que possuímos esses sons. Esse levantamento não nos
mostra como essa língua ORGANIZA esses sons e quais as RELAÇÕES que existem
entre eles próprios e outros que também formam parte dessa língua.
Uma amostra que traz à tona o caráter CONTRASTIVO dos FONEMAS é a
seguinte:
Porta VS Morta
Alterando apenas UM segmento sonoro, obtivemos duas palavras com
significados completamente diferentes que, embora não convenham ser detalhados, eu o
farei. Porta é um objeto que pressupõe entrada e saída de um lugar físico e Morta, refere-
se a um ser vivo que deixou de viver, por qualquer que seja a causa. Óbvio, não é mesmo?
Pois bem, esse teste de COMUTAÇÃO, ou seja, SUBSTITUIÇÃO de sons em CADEIAS
SONORAS, com esse tipo de RESULTADO: A MUDANÇA DE SIGNIFICADO,
apontam para a CONTRASTIVIDADE dos Fonemas, pois, embora eles, por si só, não
tenham o poder de significar coisa alguma, TÊM SIM O PODER DE MUDAR O
SIGNFICADO DE UMA SEQUÊNCIA AO ENTRAR NELA, NO LUGAR DE OUTRO
FONEMA. Sendo mais redundante: os fonemas, portanto, ganham contraste, quando da
sua relação com outro fonema, já que sozinhos, não significam e nem contrastam nada.

Alofones: que é isso?


Em uma língua natural podem existir fonemas para os quais há mais de uma forma
física de realização. Isto é, a unidade mental/abstrata, é sempre a mesma: /α/, e é isso que
o falante possui em seu SISTEMA e é dessa unidade abstrata que o sistema parte para
organizar os sons conforme regras de combinação. No entanto, no momento da
exteriorização desta unidade mental que foi organizada, segundo regras de combinação,
diversos fatores podem contribuir para que sua forma física seja variada, sem prejuízo
NENHUM do significado. Sendo assim, em uma palavra hipotética: ‘majuri’, um fonema
/α/, pode ser enunciado como fones [β], [γ] ou [δ] e continuar significado ‘majuri’.
Para não ficarmos em dúvida se um som de uma língua é alofone ou fonema,
precisamos partir para TESTES.
a. PAR SUSPEITO
Dois sons em uma língua, podem ser sempre usados de forma distinta, sempre
usados de forma igual ou ora de forma distinta, ora de forma igual. É por isso
que devemos observar, com atenção os sons de uma língua. Uma forma como
‘bata’, em português, pode constituir um PAR SUSPEITO com a forma
‘mata’, porque o que as difere é apenas o modo de articulação: ambas são
bilabiais e sonoras. O que as difere é que [b] é oclusiva e [m], nasal. Mas... ao
fazer mais testes de CONTRASTE, podemos chegar a VÁRIOS...
b. PARES MÍNIMOS
Veja-se: marco vs barco, morra vs borra, mola vs bola, banta vs manta,
bão vs mão, mostram-nos que, os segmentos físicos [m] e [b], embora tão
semelhantes em questões FÍSICAS são CONTRASTIVOS, em Português
Brasileiro (PB), porque diferem significado, nos testes de comutação. Quando
dois sons conformam PARES MÍNIMOS como os que estão em negrito nesta
seção, eles serão considerados FONEMAS DE UMA LÍNGUA. Quando não
formarem pares mínimos poderão ser considerados ALOFONES de um
mesmo FONEMA qualquer da língua natural em estudo.

Mas os Alofones ocorrem, arbitrariamente, em uma língua natural??


A resposta é: NÃO. Eles têm condições para ocorrerem. Há alofones que ocorrem
todos nos mesmos contextos e, portanto, são intercambiáveis e alofones que ocorrem em
contextos específicos, impossibilitando essa substituição aleatória. Os primeiros são os
chamados ALOFONES EM VARIAÇÃO LIVRE e os segundos: ALOFONES EM
DISTRIBUIÇÃO COMPLEMENTAR.
Um exemplo de alofone em variação livre são os róticos, em final de sílaba,
em PB. Podemos dizer ‘par.to’, de diversas formas e o fonema rótico pode ser
produzido de formas variáveis nesse MESMO contexto. Portanto: paɽ.to, paɾ.to,
pax.to, pah.to, são todas formas que significam a mesma coisa na língua e que são
intercambiáveis, nesse contexto.
Um exemplo de alofone em distribuição complementar, são os fonemas /d/ e
/t/ e seus alofones [t] e [tʃ] [d] e [dʒ]. [tʃ] e [dʒ] SOMENTE ocorrem em contextos
“antes de i”, ao passo em que [t] e [d] ocorrem NOS DEMAIS CONTEXTOS. Por
exemplo: [tʃ]ia e [dʒ]ia, MAS *[tʃ]ato e *[dʒ]ado, MAS [t]ato e [d]ado.

Neutralizaçao: que é isso?


A Neutralização é constantemente confundida com a Alofonia. Afinal, são
diferentes formas através das quais fonemas aparecem sendo produzidos, a depender do
contexto. A diferença entre os fenômenos reside no fato de que, quando falamos em
Alofonia, referimo-nos às diferentes realizações físicas de um MESMO fonema. Observe-
se:
Por outro lado, a Neutralização cuida da PERDA DE CONTRASTE, que
JÁ HAVIA entre os fonemas nesta língua. O contraste de significado não existe entre [t]
e [tʃ], porque [tʃ] não funciona como fonema, em Português. Ele é apenas um Alofone.
Já, no processo de NEUTRALIZAÇÃO, podemos tomar dois fonemas distintivos e que
têm seu contraste marcado pelo teste de pares mínimos. É o caso de /o/ e /ɔ/, contraste
atestado por formas como: gosto (subst.) vs gosto (verbo); boto (animal) vs boto (verbo);
toco (fora) vs toco (verbo); lobo (cer.) vs lobo (animal).
Sendo assim, constata-se que /o/ e /ɔ/ são FONEMAS do Português Brasileiro
(PB), no entanto, em alguns contextos, esse contraste de significação é perdido. É o caso
das pré-tônicas, no português.

Tanto [ko.ɾa.’sãw] e [kɔ.ɾa.’sãw] possuem o mesmo referente no mundo exterior


à língua, referem-se à entidade: “♥”. Porém, essa neutralização de contraste somente
ocorre em contexto de pré-tônica, no PB. Como não podemos representar, na notação, os
dois fonemas /o/ e /ɔ/ sendo produzidos como [o] ou [ɔ], sem prejuízo do significado,
então definimos um Arquifonema: /O/, sempre representado por uma letra maiúscula.
Abaixo, há mais exemplos.
Processos
Já é sabido que os sons de uma língua podem sofrer variação de acordo com o
contexto no qual estão inseridos. A essas variações contextuais, chamamos PROCESSOS
FONOLÓGICOS.
Veja alguns exemplos:

a. Assimilação.
Se dá quando um fonema sofre mudança em decorrência da influência de outro
fonema adjacente sobre ele. Isto é: um fonema acaba adquirindo traços de um som que o
rodeia. Essa assimilação pode ser TOTAL ou PARCIAL.
Em um caso como: latim vulgar: ‘noctem’ e italiano: ‘notte’, houve assimilação
total, dado que o fonema /k/ mudou para /t/, em razão da assimilação do fonema que lhe
era adjacente, exatamente o mesmo /t/.
Mas, em um caso como a...

b. Assimilação do Ponto de Articulação


...o que existe é a assimilação parcial, pois não é criada uma cópia do fonema
adjacente. Na verdade, o fonema vizinho adquire apenas o mesmo ponto de articulação
de outro fonema vizinho, mantendo seu modo de articulação.
É o famoso caso de canga, campo e canto.
Em caNga, há assimilação, por parte da nasal, do ponto de articulação velar do
segmento vizinho [g] e, portanto, sua enunciação é: [kãŋ.ga]. Já em caNpo, existe a
assimilação do ponto de articulação bilabial e a nasal é pronunciada como: [m/. Por isso:
[kãm.po]. Por fim, em caNto, o ponto de articulação de [t], alveolar, é assimilado pela
nasal e a forma é: [kãn.to].
Regras
Se a língua é um sistema, ela deve obedecer a regras de combinação e organização.
Com a fonologia, não é diferente. Para denotar esse tipo de regra formalmente, há uma
forma convencionada:

A  B/ __
Leia-se: A “vira” B, sempre que estiver no contexto assinalado após a barra, onde
“___” é o próprio fonema A.
Exemplo: Em Português Brasileiro (PB), a vogal média alta posterior [o], em final
de palavra, sempre que átona, será pronunciada como [ʊ]. Esse processo é representado
formalmente como:
/o/  [ʊ]/__#
Em PB, também, [l], em final de sílaba é pronunciado como uma semi-vogal [w].
Essa mudança é notada como:
/l/  [w]/__$
Observe-se que, como estamos falando de um FONEMA que é pronunciado de
forma diferente, a depender do contexto, usamos / / para a representação da forma
subjacente (FONEMA) e [ ] para a forma alterada APENAS na pronúncia e NÃO no
sistema. Portanto, o fone.
Finalmente, em PB, também fazemos elisões. É o caso dos róticos em final de
verbos infinitivos.
/r/  ∅/__##

Para praticar!
Exercícios do Professor Paulo Chagas do DL, da USP.
1. Em luganda, [r] e [l] ocorrem em distribuição complementar. Observe os dados e
responda as perguntas que vêm em seguida.
olubiri ‘cercado de um palácio’ akalulu ‘votar’
liɲɲa ‘trepar’ eŋgiri ‘javali’
ssaffaali ‘safári’ eŋkula ‘rinoceronte’
eraŋ ‘tingir’ akasaale ‘flecha’
akasolja ‘telhado’ olumuli ‘junco’
kampala ‘Kampala’ liiri ‘seda’
omulere ‘flauta’ akabonero ‘sign’
omulenzi ‘menino’ weeraba ‘adeus’
luma ‘machucar’ lje ‘meu (poss. classe
V)’

a. Determine os contextos em que cada um ocorre.


b. Qual dos contextos pode ser definido com base em traços distintivos?

Os exercícios abaixo são da Profª Dra. Elaine Grolla, do DL, da USP.


Morfologia
O que é a Morfologia, afinal?
A Morfologia é o ramo da Linguística que tem por preocupação a forma das
palavras e, de forma mais específica, a própria palavra. Mais do que isso, é a área
interessada em entender como essas unidades se organizam e se estruturam para construir
significado. É um campo que possibilita entender como o Léxico se constitui e como
novas palavras são introduzidas nele, sempre que há contextos que propiciem dito
surgimento.
Por cuidar também do significado, a Morfologia se interessa pelo plano do
conteúdo e pelos recortes da língua, de acordo com o referencial externo, em cada uma
das línguas naturais do mundo. Para classificar a morfologia de cada uma dela, foi criada
uma tipologia morfológica das línguas, que promete abarcar o conjunto de todas as
línguas enquanto à organização de suas unidades mínimas: os morfemas (que serão
revisitados nessa apostila).
A Tipologia Morfológica das Línguas Naturais postula que as línguas podem ser:
a. Isolantes: em que cada morfema possui um e apenas um significado a ele
atrelado. De tal forma que todas as palavras são raízes. Não há como
segmentar cada uma delas em unidades menores portadores de significado.
b. Aglutinantes: em que cada palavra está composta por afixos que se aglutinam,
se unem a uma raíz, e que possuem cada um deles UM único significado ou
informação gramatical atrelada a ele.
c. Flexionais: em que cada palavra pode estar formada por uma raíz e diversos
afixos e tais afixos podem conter uma ou mais informações gramaticais ou
significado a eles atrelados.
Vale lembrar que não existem línguas naturais puramente isolantes, aglutinantes
ou flexionais. Há sempre, entretanto, línguas naturais predominantemente de um tipo ou
de outro, dentre os supra apresentados.

De onde parte a Morfologia?


A Morfologia Estruturalista, por conceber a Morfologia como a relação entre a
forma do conteúdo e a forma da expressão, de Hjelmslev, já que o seu interesse é descobrir
a forma das palavras: tanto enquanto significante, como enquanto significado (como cada
língua recorta os sons e os conceitos), entende por unidade mínima de estudo os
MORFEMAS.
Os Morfemas são unidades mínimas, segmentos, SIGNIFICATIVAS. Ou seja,
cada uma dessas unidades possui um significado atrelado a ela. Além de serem
significativos, os morfemas são RECORRENTES, dado que se repetem em diversas
formas/palavras daquela língua, obedecendo ao princípio da Economia Linguística.
Sendo recorrentes, o trabalho de comparação destas unidades em diferentes palavras de
uma língua é facilitado, dado que, ao comparar diversas formas em que elas estejam
presentes, pode-se identificar qual segmento significa o quê e por que estão ali
adjungidos, naquelas palavras.
Por exemplo, em uma língua hipotética, poderíamos ter:
m-tu ‘eu como’
s-tu ‘tu comes’
l-tu ‘ele come’
A forma ‘tu’ repete-se em todos os dados e, conforme as glosas, “comer” também.
Sendo assim: {-tu} parece ser a raiz dessa palavra, pois introduz a informação principal.
Adjacentes a esta forma, à sua esquerda, aparecem outros morfemas: {m-}, {s-} e {l-},
os quais parecem fazer referência aos pronomes pessoais indicados nas glosas: 1ª, 2ª e 3ª
pessoas do singular, respectivamente, nesta língua.
Os Morfemas são representados, formalmente, entre CHAVES {α}.

Alomorfes: que é isso?


Assim como a Fonologia, a Morfologia também pode apresentar diferentes
realizações para uma mesma forma subjacente. Como assim? Ora, uma única informação
de significado/morfológica pode ser aludida em diferentes morfemas. É o caso do plural
em Português Brasileiro (PB). Em PB, possuímos as formas: cores, tênis e pássaros. Em
cada uma das formas, o morfema que carrega o significado de plural, se apresenta em
diferentes “roupas”. A roupagem do plural nessas palavras são, respectivamente, {-es},
{- ∅} e {-s}. Todos eles são, portanto, ALOMORFES de um mesmo morfema de plural.
Esses Alomorfes, entretanto, não acontecem de forma arbitrária e aleatória. Há
contextos, fatores que os condicionam. Por exemplo, em português, temos um morfema
de negação que está composto de i + uma consoante [+nasal], a depender do contexto
condicionante.
Se, após este morfema, houver uma consoante [+labial], por assimilação, a nasal
será [+labial], também. E assim por diante:

[im] possível [+labial]


{i + N}  [in] traduzível [+coronal]
[iŋ] congruência [+dorsal]
Ou

{i} /__V ou {i}/__ C [+lateral]; [+nasal]


Morfema Zero: uma ausência significativa
Sabemos que existe um morfema zero, sempre que pudermos constatar que aquela
ausência, em comparação com outras formas na língua, expressa algum significado. É o
caso da primeira e terceira pessoas do singular dos verbos regulares, em PB, no pretérito
imperfeito do indicativo. Observe:
Eu falava {-s}, {-mos}, {-is} e {-m} são as desinências número pessoais
Tu falavas de cada uma das formas ao lado. Cada um destes morfemas
possui um significado. Respectivamente significam: 2ª pessoa
Ele falava do singular, 1ª pessoa do plural, 2ª pessoa do plural e 3ª pessoa
Nós falávamos do plural. Como resolver, entretanto, as 1ª e 3ª pessoas do
singular? Admitimos que há um morfema zero que faz as vezes
Vós faláveis da desinência número pessoal em cada forma.
Eles falavam

Nesses verbos, também há um caso de Alomorfia. Fica ao leitor a tarefa de


descobri-lo.

Processos Morfologicos
a. Adição: Afixos são adjungidos a uma base e, conforme seu estilo de adjunção,
recebem um nome diferente.
Há prefixos, quando a adjunção é anterior à base. Sufixos, quando é posterior.
Infixos quando é interior a ela. Circunfixos, quando a rodeiam e Transfixos
quando são adjungidas entre os segmentos da base. Observe os exemplos:

{in-}feliz  prefixação

felic{-idade} sufixação

em uma língua hipotética, considere que {-ka} seja um morfema de plural, e


observe as formas:
mar + {-ka-}  ma-ka-r  Eis um caso de Infixação.
‘bebê’ pl. ‘bebês’

Em outra língua hipotética, imagine um afixo descontínuo como {ke....me},


significado plural.

tel + {ke...me}  ketelme  Circunfixação.


‘amor’ pl. ‘amores’

Em Hebraico, a base de ‘fechar’ é {s.g.r} e, entre esses segmentos dessa base


descontínua, são afixados os TRANSFIXOS, também descontínuos. Veja:

Ele fechou: {s.g.r} + {a.a}  {sagar}


Morfologia... morfologias...

1. A morfologia Lexical
A Morfologia Lexical dá conta da criação de novas palavras em uma língua, a
partir dos processos morfológicos que envolvem esse processo. É, portanto, o estudo da
ampliação do léxico a partir de mecanismos recorrentes de formação de palavras.
Dentre os processos de criação de palavras, em uma língua, estão:
a. A derivação
Uma palavra pode derivar de outra primitiva. E, para tanto, às bases destas últimas,
são adjungidos afixos que lhe alteram a classe gramatical, na maioria dos casos, e sempre
o significado.
É o caso, por exemplo, de pedra  pedreiro. Com a sufixação de {-eiro}, sufixo
que geralmente, em PB, carrega a semântica de profissão, forma-se uma nova palavra,
com um novo significado e um novo referente no mundo.
a.a. Derivação Regressiva
Processo que ocorre nos substantivos deverbais, em PB, a derivação regressiva
pressupõe uma redução morfemática. Manejar  manejo; atacar  ataque.
a.b. Derivação Parassintética
Diz-se do processo de adjunção simultânea de um prefixo e um sufixo à uma base,
sendo que apenas um desses processos torna a nova palavra agramatical.
DESALMADO é um exemplo. Já que, se não houver simultaneidade na adjunção,
temos: *desalma, que não existe na língua e *almado, que também é agramatical.
MAS, ATENÇÃO! A palavra ‘infelizmente’, embora possua prefixo e sufixo, não
é fruto de um processo de derivação parassintética, pois que existem as formas: infeliz e
felizmente, na língua. Portanto, a adjunção simultânea de prefixo e sufixo não é
OBRIGATÓRIA para garantir gramaticalidade à nova palavra.
Composição
Há casos nos quais duas bases separadas, que possuem um significado diferente,
cada uma, na língua, ao se juntarem, são ressignificadas e ganham um único referente no
mundo. A forma “filho da mãe” é um exemplo disso. É uma composição do tipo:
substantivo + preposição + substantivo. Filho já possui um significado; mãe, também. No
entanto, essas bases independentes são ressignificadas ao formarem um único referente:
“O filho da Maria é legal.”
“Essa é a mãe de Gabriel.”
Veja a ressignificação: “Este é o [filho da mãe] do Gabriel”
Os processos de composição são muito comuns, já que duas bases, quando se
unem adquirem força expressiva e podem ser remotivadas a novos significados. Por
exemplo, guarda-chuva ou sofá-cama. Um sofá-cama, veja, não é nem sofá, nem cama. É
uma união dessas duas bases, que leva a um novo referente no mundo.

2. A morfologia Flexional
A Morfologia Flexional não estuda a formação de novas palavras no léxico de
uma língua natural, mas sim os desdobramentos de uma mesma palavra, em função da
atribuição de uma nova informação, principalmente gramatical, a ela.
É o caso da Flexão de Número, em uma língua como o Português. Ao dizermos:
livro ou livros, não estamos criando uma nova palavra, apenas desdobrando seu mesmo
significado, atribuindo-lhe a informação gramatical de plural.
Também entram nesse estudo, as flexões de gênero: menin-o e menin-a; bem
como as flexões verbais: morar  morava:{mor-} +{-a-}+{-va}+{∅}. O significado de
morar continua intacto, portanto, não há criação ou formação de palavra. O que há é a
atribuição a ‘morar’ de uma circunstância “pretérito imperfeito” e um modo “indicativo”,
explicitada pelo morfema{-va}, uma desinência modo temporal. Além disso, como
morfema zero, {∅}, há ainda o desdobramento da desinência número pessoal de 1ª ou 3ª
pessoas do singular.

Agora... Pratique!
Morfologia
Exercícios elaborados por Tom Finbow

1. Observe os dados da língua hipotética abaixo:


/ikalsveves/ "casa grande"
/petatsosolt/ "capacho velho"
/ikalssosols/ "casa velha"
/petatʧint/ "capacho pequeno"
/ikalsʧins/ "casa pequena"
/ikalsmeh/ "casas"
/petatvevet/ "capacho grande"
/petatmeh/ "capachos"
/ikalsmehgogosmeh/ "casas amarelas"
/petatmehgogotmeh/ "capachos amarelos"

Aplique o teste de comutação aos vocábulos acima e indique o significado e tipo de


cada um dos dez elementos da primeira articulação presentes na amostra.
2. Estude os exemplos abaixo, tirados do inglês:
unpressed [ʌmʹprɛst]
unbeatable [ʌmʹbiː.tə.bɫ̩ ]
unmentionable [ʌmʹmɛn.ʃənə.bɫ̩ ]
untrained [ʌnʹtɹeɪnd]
undeniable [ʌn.dɪʹnɑɪə.bɫ̩ ]
unnoticed [ʌnʹnə͡ ʊtɪst]
unconscious [ʌŋʹkɒnʃʊs]
ungovernable [ʌŋʹgʌ.və.nə.bɫ̩ ]
unfathomable [ʌɱʹfæð.mə.bɫ̩ ]
unveiled [ʌɱʹveɪɫd]
uncharitable [ʌɲʹʧæ.ɹɪ.tə.bɫ̩ ]
unjust [ʌɲʹʤʌst]
unanounced [ʌnəʹnɑʊnst]
unencumbered [ʌn.ɪŋʹkʌm.bɜd

A seguir, responda as seguintes questões:


(i) Qual é a forma morfo-fonológica subjacente do morfema negativo grafado
un- ?
(ii) Que tipo de fenômeno associado com o condicionamento fonológico é
exibido pelo segmento nasal nos exemplos apresentado acima?

3. Os seguintes dados provêm de uma língua hipotética, o burajiro-rana:


1. raku “carro” 1a. buraku “carrinho”
2. do “sol” 2a. budo “mormaço”
3. nito “sapo” 3a. bunnito “girino”
4. goru “casa” 4a. bugoru “casebre”
5. ma} “caminho” 5a. pomma} “auto-estrada”
6. kura “andar” 6a. pokura “correr”
7. duru “difícil” 7a. poduru “impossível”
8. naDa “muitos” 8a. ponnaDa “todos”

a. Dê o elenco dos morfemas afixais, assinalando sua posição e seu significado;

b. Estabeleça uma lista dos morfemas que apresentam alomorfes fonologicamente


determinados.