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Mulheres, fogo e coisas perigosas: o que categorias revelam sobre a mente.

George Lakoff (1987)

Capítulo 1: A importância da categorização

Muitos leitores, eu suspeito, irão tomar o título desse livro como uma sugestão de que
mulheres, fogo e coisas perigosas tenham algo em comum – digo, que mulheres são fogosas e
perigosas. A maioria das feministas para as quais eu mencionei o título do livro adorou por
essa razão, ainda que algumas tenham odiado pela mesma razão. Mas a cadeia de inferência –
da combinação para a categorização – é a norma. A inferência é baseada na ideia comum de
que isso significa estar na mesma categoria: coisas são categorizadas juntas com base no que
elas têm em comum. A ideia de que categorias são definidas por propriedades comuns não é
somente uma teoria da nossa cultura cotidiana a respeito do que categorias venham a ser. É
também a ideia da teoria principal – a que tem estado conosco por mais de dois mil anos.

A clássica visão de que categorias são baseadas em propriedades compartilhadas não está
inteiramente errada. Nós, frequentemente, categorizamos coisas nesses termos. Mas isto é
somente uma pequena parte da história. Nos últimos tempos, tornou-se claro que a
categorização é bem mais complexa do que isso. Uma nova teoria de categorização chamada
Teoria dos Protótipos surgiu. Ela mostra a categorização humana em princípios que se
estendem para muito além do que é previsto na teoria clássica. Um de nossos alvos é avaliar
as complexidades das maneiras como as pessoas categorizam. Por exemplo, o título desse
livro foi inspirado na língua aborígene australiana Dyirbal, que tem uma categoria balan, que
inclui mulheres, fogo e coisas perigosas. Também inclui pássaros que não são perigosos, bem
como os animais excepcionais, tais como ornitorrinco, rato selvagem e equidna. Esse não é
simplesmente um meio de categorização por propriedades comuns, como nós podemos ver
quando nós discutirmos a classificação do Dyirbal em detalhes.

A categorização não é uma questão para ser tomada de maneira superficial. Não há nada mais
básico que a categorização para o nosso pensamento, percepção, ação e discurso. Toda vez
que nós chamamos alguma coisa como tipo de uma coisa, como uma árvore, por exemplo, nós
estamos categorizando. Sempre que pensamos sobre tipos de coisas – cadeiras, nações,
doenças, emoções, qualquer tipo de coisa – nós estamos empregando categorias. Sempre que
nós, intencionalmente, desempenhamos qualquer tipo de ação, digamos alguma coisa banal,
como escrever com um lápis, bater com um martelo, ou engomar roupas, nós estamos usando
categorias. A ação particular que nós desempenhamos nessa ocasião é um tipo de atividade de
movimento (e.g., escrever, bater, engomar), isto é, é uma categoria particular de atividades de
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movimento. Elas nunca são feitas exatamente do mesmo modo, no entanto, apesar das
diferenças em movimentos particulares, todas elas são movimentos de um tipo, e nós sabemos
como fazer movimentos desse tipo. E a qualquer momento, quando nós, produzimos ou
percebemos alguma pronunciação de duração razoável, nós estamos empregando dezenas, se
não centenas, de categorias: categorias de sons do discurso, das palavras, das frases e orações,
bem como categorias conceptuais. Sem a habilidade de categorizar, nós não poderíamos
funcionar, seja em um mundo físico, seja em nossas vidas sociais e intelectuais. O
entendimento de como categorizamos é central para qualquer entendimento de como nós
pensamos e como nós funcionamos, e, portanto, central para um entendimento do que nos faz
humanos.

A maioria das categorizações é automática e inconsciente, e se nós nos tornamos conscientes


delas, é somente em casos problemáticos. Em todo o mundo, nós, automaticamente,
categorizamos pessoas, animais, objetos naturais e também os físicos, feitos pelo homem.
Isso, algumas vezes, conduz para a impressão de que nós apenas categorizamos as coisas
como elas são, ou que as coisas vêm em tipos naturais, e que nossas categorias da mente,
naturalmente, se ajustam aos tipos das coisas que há no mundo. Mas uma grande proporção de
nossas categorias não é de categorias das coisas; são categorias de entidades abstratas. Nós
categorizamos eventos, ações, emoções, relações espaciais, relações sociais, e entidades
abstratas de uma enorme gama: governos, doenças, e entidades nas teorias populares e
científicas, como elétrons e calafrios. Qualquer explicação adequada sobre o pensamento
humano deve fornecer uma teoria acurada de todas as nossas categorias, tanto concretas
quanto abstratas.

Desde a época de Aristóteles até o trabalho posterior de Wittgenstein, categorias eram


consideradas bem compreendidas e não problemáticas. Elas eram consideradas recipientes
abstratos, com as coisas dentro ou fora da categoria. As coisas eram consideradas da mesma
categoria se e somente se elas tivessem certas propriedades em comum. E as propriedades que
elas tinham em comum eram tomadas para definir a categoria.

A teoria clássica não foi resultado de um estudo empírico. Ela não era nem mesmo tópico de
grandes debates. Ela foi uma posição filosófica que veio, a priori, com base em uma
especulação. Ao longo dos séculos, ela simplesmente se tornou parte de um pano de fundo de
assunções tidas como certas em muitas disciplinas acadêmicas. Na verdade, até muito
recentemente, a teoria clássica de categorias não foi nem sequer pensada como uma teoria.
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Ela foi ensinada em muitas disciplinas, não como uma hipótese empírica, mas como uma
verdade inquestionável e definitiva.

Em um período extremamente curto, tudo mudou. A categorização saiu do segundo plano


para o centro do palco por causa de estudos empíricos em uma ampla variedade de
disciplinas. Na psicologia cognitiva, a categorização se tornou o maior campo de estudo,
graças, primeiramente, ao pioneiro trabalho de Eleanor Rosch, que fez da categorização um
problema. Ela focou em duas implicações da teoria clássica:

 Primeiro, se categorias são definidas somente por propriedades que elas compartilham,
então, nenhum membro deve ser melhor exemplo da categoria que outro.

 Segundo, se categorias são definidas somente por propriedades inerentes dos membros
dela, então categorias devem ser livres das peculiaridades de qualquer ser que faça a
categorização; isto é, elas não devem envolver tais questões como a neurofisiologia
humana, movimento do corpo humano, e capacidades especificamente humanas de
perceber, de formar imagens mentais, de aprender e lembrar, de organizar as coisas
aprendidas, e de comunicar eficientemente.

Rosch observou que os estudos feitos por ela mesma e por outros demonstravam que
categorias, em geral, têm melhores exemplos (chamados “protótipos”) e que todas as
capacidades especificamente humanas já mencionadas desempenham algum papel na
categorização.

Em retrospecto, tais resultados não deveriam ter sido tão surpreendentes. No entanto, os
detalhes específicos enviam ondas de choque a todas as ciências cognitivas, e muitas das
reverberações estão ainda sendo sentidas. A teoria dos protótipos, uma vez que está em
evolução, está mudando nossa ideia sobre a mais fundamental das capacidades humanas – a
capacidade de categorizar – e também sobre a nossa ideia de como a mente e a razão humana
são. A razão, no Ocidente, tem sido assumida como separada do corpo e abstrata,
distinguindo-se da visão em que, de um lado, há a percepção, o corpo e a cultura, e do outro,
os mecanismos de imaginação, por exemplo, metáfora e imagens mentais. Neste século, a
razão tem sido entendida, por muitos filósofos, psicólogos e outros, mais ou menos, como o
ajuste do modelo de lógica dedutiva formal:

 A razão é a manipulação mecânica de símbolos abstratos que são desprovidos de


sentidos inerentes, mas que podem lhe ser dados significados, em virtude da
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capacidade deles de se referirem às coisas no mundo real ou nos estados possíveis do
mundo.

Uma vez que o computador funciona por manipulação de símbolos e uma vez que esses
símbolos podem ser interpretados em termos de uma base de dados, que é frequentemente
vista como um modelo parcial da realidade, o computador tem sido tomado por muitos como
possuindo a capacidade de pensar. Isso é a base da metáfora contemporânea a mente como um
computador, que se espalhou da ciência dos computadores e da psicologia cognitiva para a
cultura em geral.

Uma vez que nós pensamos não somente sobre coisas ou pessoas individuais, mas sobre
categorias e coisas, a categorização é crucial para toda perspectiva de pensamento. Toda
perspectiva de pensamento deve ter associada a ela um modelo de categorização. A
perspectiva de pensamento como uma manipulação desencarnada (descorporificada) de
símbolos abstratos vem com uma teoria implícita de categorização, uma vez que, na versão da
teoria clássica, categorias são representadas por conjuntos, que estão, por sua vez, definidos
por propriedades compartilhadas por seus membros.

Há uma boa razão pela qual a perspectiva de pensamento como uma desencarnada
(descorporificada) manipulação de símbolos faz uso da clássica teoria de categorias. Se
símbolos, em geral, podem obter seus significados somente através da capacidade de
corresponderem às coisas, então símbolos da categoria podem obter seus significados através
de uma capacidade de corresponder às categorias no mundo (o mundo real ou algum possível
mundo). Uma vez que a correspondência símbolo-objeto que define o significado em geral
deve ser independente de peculiaridades da mente e do corpo humano, sugere-se que a
correspondência símbolo-categoria que define o significado para símbolos das categorias deva
ser também independente das peculiaridades do corpo e mente humana. Para que isso
aconteça, as categorias devem ser vistas como existentes no mundo, independentemente das
pessoas, e definidas somente por características dos seus membros e não em termos de
quaisquer características humanas. Assim, a teoria clássica trata apenas do que é necessário,
uma vez que define categorias somente em termos de propriedades compartilhadas dos
membros e não em termos das peculiaridades da compreensão humana.

Questionar a visão clássica de categorias de uma maneira fundamental é então questionar a


visão do pensamento como uma manipulação desencarnada (descorporificada) de símbolos e
correspondentemente questionar a mais popular versão da metáfora mente como um
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computador. A teoria contemporânea dos protótipos faz exatamente isso através de pesquisa
empírica detalhada em Antropologia, Linguística e Psicologia.

O modelo para a teoria dos protótipos que nós estamos apresentando aqui sugere que a
categorização humana é essencialmente uma questão da experiência também humana e
imaginação – da percepção, atividade motora, e cultura de um lado, e da metáfora, metonímia,
e imagens mentais em outro. Como consequência, a razão humana depende crucialmente dos
mesmos fatores, portanto, não pode ser caracterizada meramente em termos da manipulação
de símbolos abstratos. Certamente, determinados aspectos da razão humana podem ser
isolados artificialmente e modelados por manipulação de símbolos abstratos, assim como
algumas partes da categorização humana faz ajustes à teoria clássica. Mas nós estamos
interessados não apenas em alguma subparte isolável artificialmente da capacidade humana de
categorizar e pensar, mas em uma gama completa dessa capacidade. Como nós podemos ver,
aqueles aspectos de categorização que ajustam a teoria clássica são casos especiais de uma
teoria geral de modelos cognitivos, que nos permite caracterizar aspectos experienciais e
imaginativos do pensamento também.

Mudar o próprio conceito de uma categoria é mudar não somente nosso conceito da mente,
mas também nossa compreensão do mundo. Categorias são categorias de coisas. Uma vez que
nós entendemos o mundo não somente em termos de coisas individuais, mas também em
termos de categorias de coisas, nós tendemos a atribuir uma existência real a essas categorias.
Nós temos categorias para espécies biológicas, substâncias físicas, artefatos, cores, parentes, e
emoções e até mesmo categorias de sentenças, palavras e significados. Nós temos categorias
para tudo o que nós pensamos. Mudar o conceito de categoria por si só é mudar nosso
entendimento do mundo. Está em jogo toda a nossa compreensão do que vem a ser uma
espécie biológica, do que vem a ser uma palavra. A evidência que nós consideraremos sugere
uma mudança das categorias clássicas para categorias baseadas em protótipos definidos por
modelos cognitivos. É uma mudança que implica outras mudanças: mudanças em conceitos
de verdade, conhecimento, racionalidade, e até mesmo gramática. Um número de ideias
familiares ficará à margem. Aqui estão algumas que nós teremos de deixar para trás:

a. O significado é baseado em verdade e referência; isso concerne à relação entre


símbolos e coisas e no mundo.

b. Espécies biológicas são de tipos naturais, definidas por propriedades essenciais


comuns.
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c. A mente é separada e independente do corpo

d. Emoção não tem conteúdo conceptual

e. A gramática é uma questão puramente formal.

f. A razão é transcendental, na medida em que transcende-ultrapassa-a forma como os


seres humanos, ou quaisquer outros tipos de seres, virão a pensar. Trata-se das
relações inferenciais entre todos os conceitos possíveis neste universo ou qualquer
outro. Matemática é uma forma de razão transcendental.

g. Há uma maneira correta de entender o que é e não é verdade.

h. Todas as pessoas pensam usando o mesmo sistema conceptual.

Essas ideias têm feito parte da superestrutura da vida intelectual ocidental há dois mil anos.
Eles estão ligados, de uma forma ou de outra, ao conceito clássico de categoria. Quando esse
conceito é deixado para trás, os outros também serão. Eles precisam ser substituídos por
ideias que não são apenas mais precisas, mas mais humanas.