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KAY E MCDANIEL

A pesquisa de cor de Berlin-Kay levantou questões que foram deixadas sem


respostas. O que determina a compilação de cores focais universais? Por que os termos
de cores básicas deveriam selecionar apenas aquelas cores? Kay e MacDaniel (1978)
forneceram uma resposta a estas questões que dependiam em conjunto da investigação
sobre a neurofisiologia da visão de cor, realizada por DeValois e seus associados, e de
uma versão ligeiramente revista da teoria do conjunto difuso de Zadeh.
DeValois e seus associados (DeValois, Abramov, e Jacobs 1966; DeValois e
Jacobs 1968) tinham investigado a neurofisiologia da visão de cores no macaque1, um
macaco com um sistema visual similar ao do homem. A pesquisa deles se concentrou
nas vias neurais entre o olho e o cérebro. Eles encontraram seis tipos de células. Quatro
destas, chamadas de células de resposta oponente, determinam a matiz, enquanto as
outras duas determinam o brilho. As células de resposta oponente são agrupadas em
dois pares, um par tem a ver com a percepção do azul e amarelo, o outro tem a ver com
a percepção do vermelho e verde. Cada célula de resposta oponente tem uma taxa
espontânea de disparo – uma taxa de resposta básica que se mantém sem qualquer
estímulo externo. Existem dois tipos de células azul-amarelo. As células + B – Y
disparam acima de sua taxa básica em resposta ao estímulo azul, e abaixo da sua taxa
básica em resposta a um estímulo amarelo. As células + Y – B fazem o inverso: elas
disparam acima de sua taxa básica em resposta ao amarelo e abaixo de sua taxa básica
em resposta ao azul. Do mesmo modo, existem dois tipos de células vermelho-verde:
células + G – R disparam acima de suas taxas básicas em resposta ao verde e abaixo em
resposta ao vermelho, enquanto as células + R – G disparam acima em resposta ao
vermelho e abaixo em reposta ao verde. Os dois tipos de células azul-amarelo
determinam conjuntamente uma resposta azul-amarela, enquanto os dois tipos de
células vermelho-verde determinam conjuntamente uma resposta vermelho-verde.
Azul focal é percebido quando as células azul-amarelo mostram uma resposta
azul e quando as células vermelho-verde estão disparando em taxa básica neutra. O roxo
é uma combinação do azul e vermelho; ele é percebido quando as células azul-amarelo
mostram uma resposta azul e as células vermelho-verde mostram uma resposta
vermelha. Turquesa é percebida quando as células azul-amarelo mostram uma resposta
azul e as células vermelho-verde mostram uma resposta verde. Cores primárias puras –

Símios do gênero Macaca das Índias Orientais.


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azul, amarelo, vermelho, e verde – são percebidas tanto quando as células azul-amarelo
ou vermelho-verde estão disparando em suas taxas básicas neutras. Cores não-primárias
correspondem a casos em que nenhuma célula oponente está disparando à taxas básicas
neutras.
Os dois tipos restantes de células são sensíveis à luz e à escuridão. Preto puro,
branco, e cinza são percebidos quando as células azul-amarelo e vermelho-verde estão
todas disparando em suas taxas básicas neutras e sem fazer nenhuma contribuição de
cor. Preto puro ocorre quando as células sensíveis à escuridão estão disparando em suas
taxas máximas e as células sensíveis à luz estão disparando em suas taxas mínimas.
Branco puro é o contrário.
Diante desses resultados dos estudos neurofisiológicos, Kay e McDaniel
aplicaram uma versão da teoria do conjunto difuso para analisar os resultados de Kay-
Berlin. Por exemplo, eles definem o grau de pertênça na categoria azul como a
proporção de resposta azul por parte das células azul-amarelo. Azul Puro (grau de
pertênça = 1) ocorre quando a resposta vermelho-verde é neutra. Azuis na direção do
roxo ou verde ou branco tem um grau de pertênça intermediário na categoria azul.
Definições correspondentes são dadas para outras cores primárias. Os diagramas
complementares apresentam curvas que correlacionam o grau de pertênça nas categorias
de cor com comprimentos de onda em nanômetros para matizes e percentagem de
reflectância para preto e branco.
O cômputo nerofisiológico caracteriza apenas as cores primárias: preto, branco,
vermelho, amarelo, azul, e verde. O que nos permite “ver” outras cores como sendo
membros das categorias de cor? E quanto ao laranja, marrom, roxo, etc.? Algum
mecanismo cognitivo além da neurofisiologia são necessários para contabilizá-los. Kay
e McDaniel sugeriram que um mecanismo deste tipo fizesse uso de algo semelhante à
teoria do conjunto difuso.
A postulação de um mecanismo cognitivo, que tem alguns dos efeitos da teoria
do conjunto difuso, permite que Kay e MacDaniel façam duas coisas que o cômputo
neurofisiológico por si só não poderia fazer. Primeiro, permite-lhes caracterizar cores
focais não-primárias (laranja, roxo, rosa, marrom, cinza, etc.) da seguinte forma
intuitiva:

 LARANJA = VERMELHO e AMARELO


 ROXO = AZUL e VERMELHO
 ROSA = VERMELHO e BRANCO
 MARROM = PRETO e AMARELO
 CINZA = PRETO e BRANCO

Assim, LARANJA é caracterizada em termos da interseção do conjunto difuso


das curvas vermelha e amarela. (Na verdade, por razões técnicas, a definição é duas
vezes o valor da interseção do conjunto-difuso. Consulte Kay e McDaniel 1978, pp .
634-35, para mais detalhes.). De modo correspondente, ROXO é definido em termos da
interseção do conjunto difuso do AZUL e VERMELHO, e CINZA, em termos da
interseção do conjunto difuso para PRETO e BRANCO. ROSA e MARROM exigem
funções um pouco diferentes com base nas interseções do conjunto difuso.
A segunda vantagem da teoria do conjunto difuso é que ela permite uma
avaliação intuitiva de categorias de cores básicas que incluem mais que uma cor focal.
Dani, por exemplo, tem apenas dois termos de cores básicas: mili contém preto e todas
as cores frias, os verdes e azuis; mola contém branco e todas as cores quentes, os
vermelhos, laranjas, amarelos, rosas, e vermelhos-roxos. Algumas línguas têm
categorias de cores básicas contendo tanto azuis como verdes, enquanto outras têm
categorias de cores básicas contendo tanto vermelhos como amarelos. Tais casos podem
ser explicados de forma intuitiva usando a união do conjunto difuso.

 ESCURO-FRIO = PRETO OU VERDE OU AZUL


 CLARO-QUENTE = BRANCO OU VERMELHO OU AMARELO
 FRIO = VERDE OU AZUL
 QUENTE = VERMELHO OU AMARELO

Assim, Kay e McDaniel alegaram que as categorias de cores básicas são um


produto de operações reais, ambas neurofisiológicas e cognitivas, que podem ser
parcialmente modeladas pela interseção e união do conjunto difuso.
Neste momento, esta é a única explicação plausível que temos de por que os
fatos das categorias de cores básicas devem ser como são. A teoria de Kay-McDaniel
tem consequências importantes para a categorização humana em geral. Ela sustenta que
as cores não estão objetivamente "lá fora no mundo", independentes de quaisquer seres.
Conceitos de cor são corporificados na medida em que as cores focais são, em parte,
determinadas pela biologia humana. A categorização de cor faz uso da biologia humana,
mas categorias de cor são mais do que simplesmente uma consequência da natureza do
mundo mais a biologia humana. Categorias de cor resultam do mundo, mais a biologia
humana, mais um mecanismo cognitivo que tem algumas das características da teoria
dos conjuntos difusos, mais uma escolha cultural específica de quais categorias de cores
básicas existem.
A teoria de Kay-McDaniel parece funcionar bem para caracterizar as cores
focais correspondentes às categorias de cores básicas. Mas isso não funciona tão bem
nas fronteiras entre as cores. Segundo a explicação de Kay-MacDaniel, as fronteiras,
bem como as cores focais, deveriam ser uniformes em todas as línguas. Mas
simplesmente este não é o caso. O trabalho mais detalhado sobre o mapeamento
pormenorizado das categorias de cor, especialmente em áreas não-focais, tem sido feito
por MacLaury (em preparação). Entre os casos de teste para a teoria Kay-McDaniel,
existem casos em que uma língua não tem uma categoria de cor separada para cores
focais não-primárias, como roxo e laranja, cores que, na consideração de Kay-
MacDaniel, são "computadas" com base na teoria dos conjuntos difusos, mais as curvas
de resposta para as cores primárias. A teoria de Kay-MacDaniel prevê que cores como
roxo e laranja devem ser tratadas de maneira uniforme em todos as línguas e que elas
devem estar sempre nas fronteiras entre categorias de cores básicas em línguas que não
têm categorias separadas para elas.
Mas MacLaury encontrou casos em que o roxo está inteiramente dentro da
gama de cores frias (uma única cor com pontos focais no azul e verde) e outros casos
em que o roxo está no limite entre frio e vermelho. Ele também achou casos em que o
marrom está incluído no amarelo e outros casos onde é incorporado ao preto. Ou seja, o
que chamamos de “marrom” está inserido na gama de uma categoria com um centro em
amarelo puro em algumas línguas, e está inserido na gama de uma categoria com um
centro em preto puro em outras línguas.
Nos termos de Kay-MacDaniel, isso significa que as funções teóricas do
conjunto difuso que computam conjunções e disjunções para as categorias de cor não
são exatamente as mesmas para todas as pessoas; ao invés disso, elas variam em suas
condições de fronteiras de cultura para cultura. Elas são, portanto, ao menos em parte
convencional, e não completamente uma questão universal da neurofisiologia e
cognição. O que isso requer é uma revisão da teoria Kay-MacDaniel para permitir
sistemas conceituais para a cor variar nos limites, fazendo com que a natureza exata da
função disjuntiva seja um pouco diferente em diferentes sistemas. Tais diferenças
podem não estar apenas nas fronteiras mas nos picos focais. A Teoria Kay e MacDaniel
sugeriu que cada categoria de cor disjuntiva binária (por exemplo, FRIA= AZUL OU
VERDE) deveria ter dois picos focais (por exemplo, ambos azul focal e verde focal).
MacLaury encontrou casos em que existe uma categoria fria abrangendo azul e verde,
mas em que há um efeito de distorção de tal modo que o centro da categoria é em verde
puro sozinho ou azul puro sozinho. Assim, nos termos de Kay-MacDaniel, sistemas
conceituais parecem ter funções de disjunção que levam as curvas de resposta azuis e
verdes como entrada e produz uma curva de saída com um único centro focal. Isso
exigiria um mecanismo cognitivo com mais do que apenas algo parecido com o
funcionamento da união na teoria dos conjuntos difusos.
As categorias de cor, por conseguinte, são categorias gerativas no mesmo
sentido em que as categorias de parentesco caracterizadas por Lounsbury são. Elas têm
geradores mais alguma coisa. Os geradores são as funções de distribuição
neurofisiologicamente determinados, que têm picos onde as cores primárias são puras:
preto, branco, vermelho, amarelo, azul e verde. Estes geradores são universais; eles são
parte da neurofisiologia humana. A “outra coisa” necessária para gerar um sistema de
categorias de cores básicas consiste em um mecanismo cognitivo complexo que
incorpora algumas das características da união e interseção da teoria do conjunto difuso.
Este mecanismo cognitivo tem um número pequeno de parâmetros que podem ter
diferentes valores em culturas diferentes.
É importante ter em consideração que não são apenas os nomes para as cores
que variam. Os nomes de cores não apenas anexam as funções de distribuição
determinadas neurofisiologicamente diretamente. Mecanismos cognitivos do tipo
descrito acima devem ser postulados adicionalmente. Existem características gerais dos
mecanismos cognitivos, por exemplo, o uso de algo como a união e interseção da teoria
do conjunto difuso. Mas, como mostra MacLaury, a cognição da cor está longe de ser a
mesma em várias culturas. Nem é, de maneira alguma, arbitrariamente diferente entre as
culturas. As possíveis gamas de cor dependem de parâmetros limitados dentro do
mecanismo cognitivo.

BROWN E BERLIN: Vislumbres do Nível Básico


O estudo das categorias de nível básico é normalmente delineado no artigo
clássico de Roger Brown, How Shall a Thing Be Called?2 (1958), e em seu compêndio
Social Psychology3 (1965, pp. 317-21).
Brown observou que os objetos têm muitos nomes: “A moeda de dez centavos
no meu bolso não é só uma moeda de dez centavos. Também é dinheiro, um objeto
metálico, uma coisa, e, mais particularmente, uma moeda de dez centavos de 1952, na
verdade, uma específica moeda de dez centavos de 1952 com um padrão único de
arranhões, descolorações, e pontos lisos. O cachorro no gramado não é apenas um
cachorro, mas também é um boxer, um quadrúpede, um ser animado”(Brown 1958,
p.14). Brown também observou que, de todos os nomes possíveis para qualquer coisa
numa hierarquia de categorias, um nome específico, em um nível particular de
categorização, “tem um status superior”. “Enquanto uma moeda de dez (dime) centavos
pode ser chamada de moeda (coin) ou dinheiro (money) ou uma moeda de dez centavos
de 1952, de alguma forma, sentimos que moeda de dez centavos (dime) é o seu nome
verdadeiro. As outras categorizações parecem ser realizações da imaginação”(Brown
1965, p. 320). Tais “nomes verdadeiros”, como Brown observou, parecem ser mais
curtos e usados mais frequentemente. Eles também parecem estar correlacionados com
ações não-linguísticas.

Quando o filho de Lewis olhou, pela primeira vez, para os junquilhos amarelos numa tigela e
ouviu nomeá-los flores, ele também foi chamado para cheirá-los e podemos supor que sua mãe
se inclinou e fez exatamente isso. Quando uma bola é nomeada bola, é também provável que
seja lançada. Quando um gato é nomeado de gatinho (bichano), também é provável que seja
acariciado. Cheirar, lançar e acariciar são ações distintas ligadas a certas categorias. Podemos
ter certeza que elas são distintas, pois são passíveis de serem usadas como símbolos dessas
categorias. Num jogo de charadas, pode-se simbolizar o gato acariciando o ar a uma altura
adequada de uma certa forma, ou simbolizar a flor inclinando-se para a frente e cheirando.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Flores são caracterizadas por ações de cheirar, porém não existem ações que diferenciem uma
espécie de flor da outra. Os primeiros nomes dados às coisas recaem ao nível de ações distintas,
mas os nomes passam a codificar o mundo em todos os níveis: menos as ações não-linguísticas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quando alguma coisa é categorizada, considera-se como equivalente a algumas outras coisas.
Para que fins equivale? Como todas as moedas são equivalentes ou todas as flores ou todos os
gatos? . . . As moedas de dez centavos são equivalentes na medida em que podem ser trocadas
por certos jornais ou charutos ou cones de sorvete ou por quaisquer dois níqueis. Na realidade,
eles são equivalentes para todos os propósitos de intercâmbio econômico. Flores são
equivalentes na medida em que são agradáveis ao olfato e colhíveis. Gatos são equivalentes na
medida em que são para ser acariciados, mas gentilmente, de modo que eles não arranhem.
“Como deve ser chamada uma coisa?”
2

“Psicologia Social”
3
Brown, 1965, pp.118-19.

A imagem que Brown proporciona é que a categorização, para uma criança,


começa no “nível de ação distintiva”, o nível das flores, dos gatos e das moedas de dez
centavos, e depois prossegue, de forma ascendente, para as categorias supraordenadas
(como planta e animal) e, de forma descendente, para as categorias subordinadas (como
junquilho e Siamês) por “realizações da imaginação”. “Para estas últimas categorias,
não parecem existir ações de caracterização” (Brown 1965, p. 321). Este “primeiro
nível” de categorização foi visto por Brown como tendo as seguintes propriedades
convergentes:

 é o nível de ações distintivas;


 é o nível que é mais cedo aprendido e em que as coisas são primeiro nomeadas;
 é o nível em que os nomes são mais curtos e usados com maior frequência;
 é um nível natural de categorização, em oposição ao nível criado por
“realizações da imaginação”.

O próximo impulso importante para o estudo das categorias de nível básico


veio do trabalho de Brent Berlin e seus associados. A pesquisa de Berlin pode ser vista
como uma resposta à visão filosófica clássica de que AS CATEGORIAS DA MENTE
SE ENCAIXAM NAS CATEGORIAS DO MUNDO, e a uma versão linguística disso,
A DOUTRINA DE TERMOS DE ESPÉCIES NATURAIS. Esta doutrina afirma que o
mundo consiste, em grande parte, das espécies naturais das coisas e que as línguas
naturais contêm nomes (chamados “termos de espécies naturais”) que se encaixam
nestas espécies naturais. Exemplos típicos de espécies naturais são vacas, cães, tigres,
ouro, prata, água, etc.

Berlim compreende essas doutrinas filosóficas como questões empiricamente


testáveis e pergunta: até que ponto as categorias da mente (como expressas em uma
língua) se encaixam nas categorias do mundo? Em particular, Berlim considera
domínios em que existem espécies naturais de coisas: os domínios das plantas e
animais. Além disso, botânica e zoologia podem razoavelmente ser tomadas para
determinarem um alto grau de precisão científica apenas para quais tipos de plantas e
animais existem. Como Berlin é um antropólogo que estuda as pessoas que vivem perto
da natureza e que sabem muito sobre plantas e animais, ele tem uma excelente posição
para testar tais doutrinas filosóficas empiricamente.

Berlim e seus alunos e colegas estudaram a classificação popular de plantas e


animais em detalhe incrivelmente minucioso e comparou essas classificações com
classificações científicas. A maior parte da pesquisa foi realizada com falantes de
Tzeltal que vivem em Tenejapa na região de Chiapas, no México. Este enorme
empreendimento foi documentado meticulosamente em Princípios da classificação de
plantas de Tzetal (Berlin, Breed-love, e Raven 1974), Zoologia popular Tzetal (Hunn,
1977), e “aquisição da linguagem por crianças Tenejapa Tzeltal” (Stross 1969). Os
resultados alcançados até agora têm sido surpreendentes e formaram a base para a
investigação psicológica sobre a categorização de nível básico.