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OLHAR ORANTE: para uma “mística” dos olhos abertos

“Multiplica os teus olhos para verem mais... E verás muito além” (C. Meireles)

Rezar com os olhos


1. Não se habitue a conhecer pessoas ou coisas só “de vista”. Observe-as. Sem pressa.
Com paz. Pouse docemente seus olhos
sobre o objeto amado. Não se olha às pressas; certas tonalidades, formas, ritos,
gestos, sentimentos, reações, detalhes...
são outros tantos matizes que só se capta olhando... serenamente.
2. Procure sempre que seu olhar seja límpido. Sem filtro de cores, isto é, isento de
preconceitos.
3. Que bom se o seu olhar for claro, limpo! Um olhar “claro” é aquele que não só é
capaz de ver a verdade das coisas mas as
ilumina se são obscuras ou as realça ainda mais se já são luminosas.
4. Além de olhar tudo com paz, se você quiser converta cada olhar em oração, olhe
tudo com carinho.
5. Procure transpassar com o seu olhar a simples aparência das coisas, pessoas e
acontecimentos e, em tudo, descobrir sempre
uma mensagem do seu Deus.
6. Não transforme os seus olhares numa “calculadora”. O olhar contemplativo evita
fazer cálculos, juízo de valores, julgamentos,
rentabilidade, proveito próprio... Trata-se do olhar gratuito.
7. Não se contente apenas em olhar. Você deve também sentir-se olhado por Deus,
cujo olhar é amor.
8. Por mais próximo e amoroso que seja, apenas olhar é estéril. Salte da
contemplação à ação e da ação à contemplação.
9. Peça a Deus para olhar também o que não lhe apetece olhar, principalmente... suas
faltas.
10. A arte de olhar em tudo o “positivo” é grande graça de Deus. Peça-a com
insistência.

Orar com os olhos é dar o salto do... simples “ver” a um sereno e profundo
“olhar”.
E deste, a um “sentir-nos olhados” muito mais amorosamente ainda...
Ao orar, precisamos “olhar” e “sentir-nos olhados”.
“O olho através do qual eu vejo Deus é o mesmo olho através do qual Deus me vê” (Angelo
Silésius).
“Temos dois olhos: com um vemos as coisas que no tempo existem e desaparecem.
Com o outro, as coisas divinas, eternas, que para sempre permanecem”.
Não é a mesma coisa “ver” e “olhar”.
Ver é uma aptidão; olhar é uma atitude.
Ver é uma capacidade biológica; olhar, uma predisposição interior. O que salva
é o olhar.
Os olhos da fé são os que fazem com que as realidades do mundo ou da história recobrem novo relevo
diante de quem as contempla. É o olhar que aposta pelo sentido do que existe, que descobre
a razão de ser da história ou da natureza.
As coisas, as pessoas mudam por completo quando as olhamos... “carinhosamente”.

O olho é divino. Nele cabe tudo: mares, galáxias, árvores, montanhas,


minúsculos seres...
Tão pequenos os olhos. Mas que espaços infinitos existem dentro deles! Os
olhos, diferentemente do resto do corpo, preservam para sempre a propriedade
mágica do rejuvenescimento.
O sábio é um adulto com olhos de criança. Para ela tudo é fantástico, espantoso, maravilhoso, incrí-
vel, assombroso...
Os olhos das crianças gozam da capacidade de ter o “pasmo essencial” do recém-nascido que abre
seus olhos pela primeira vez. A cada momento elas se sentem nascidas de novo para a eterna novidade
do mundo.
Textos bíblicos: 1Sam. 16,1-13 Jo. 9

Na oração: Para orar basta aprender a olhar


e a sentir-se olhado.
Se pretende aprender a “olhar com amor”,
sinta-se olhado desse modo.
Recordar todos os “olhares amorosos” que
Deus foi depositando sobre você ao longo da vida.
Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mt. 5,8).
“Dá-me, Senhor, um olhar livre, límpido e simples,
que rompa as correntes do meu egoísmo e abra as portas de minha prisão.
Dá-me um olhar profundo que não se limite a roçar as pessoas de modo fugaz,
apressado.
Que seja meu olhar desarmado, sem vínculos e atento.Dá-me, Senhor, um olhar que
ultrapasse
a casca das coisas e penetre para além das fadas. Um olhar explorador eu quero, que
chegue,
Senhor, ao teu aposento, no centro do ser e, no centro, fixe teu rosto
e, do centro, fixe o rosto do outro e, nele, te veja e de adore, Senhor”. (F. Pierino
Orlandini)