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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO

TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS


Catalogação na Fonte
Elaborado por: Josefina A. S. Guedes
Bibliotecária CRB 9/870

P418p Pensamento político brasileiro: temas, problemas e perspectivas
2019 Christian Edward Cyril Lynch, Elizeu Santiago Tavares de Sousa, Paulo Henrique
Paschoeto Cassimiro (Organizadores).
1. ed. - Curitiba: Appris, 2019.
387 p. ; 23 cm (Ciências sociais; história)

Inclui bibliografias
ISBN 978-85-473-2769-9

1. Ciência política – Brasil. 2. Política e estado. 3. Cultura política. 4. Direito e política.
I. Lynch, Christian Edward Cyril, org. II. Sousa, Elizeu Santiago Tavares de, org.
III. Cassimiro, Paulo Henrique Paschoeto, org. IV. Título. V. Série.

CDD – 320.981

Livro de acordo com a normalização técnica da ABNT

Editora e Livraria Appris Ltda.


Av. Manoel Ribas, 2265 – Mercês
Curitiba/PR – CEP: 80810-002
Tel: (41) 3156 – 4731
www.editoraappris.com.br

Printed in Brazil
Impresso no Brasil
Christian Edward Cyril Lynch
Elizeu Santiago Tavares de Sousa
Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro
(Organizadores)

PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO

TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS


Editora Appris Ltda.
1.ª Edição – Copyright© 2019 dos autores
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COMUNICAÇÃO Ana Carolina Silveira da Silva
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GERÊNCIA DE FINANÇAS Selma Maria Fernandes do Valle

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Geni Rosa Duarte (UNIOESTE) Revalino Freitas (UFG)
Helcimara de Souza Telles (UFMG) Rinaldo José Varussa (Unioeste)
Iraneide Soares da Silva (UFC-UFPI) Simone Wolff (UEL)
João Feres Junior (Uerj) Vagner José Moreira (Unioeste)
Jordão Horta Nunes (UFG)
SUMÁRIO

Introdução
O PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS
E PERSPECTIVAS....................................................................................................9
Christian Edward Cyril Lynch

Capítulo 1
AS LINGUAGENS DO LIBERALISMO POLÍTICO E O PROBLEMA DA
OPINIÃO PÚBLICA NO PENSAMENTO DE EVARISTO DA VEIGA........41
Lidiane Rezende Vieira & Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro

Capítulo 2
O HORIZONTE CIVILIZATÓRIO DO ULTRAMONTANISMO NO
BRASIL OITOCENTISTA.....................................................................................65
Luiz Carlos Ramiro Junior

Capítulo 3
ESCRITA E POLÍTICA NA FORMAÇÃO DO JOVEM ALFREDO
TAUNAY (1865-1872).............................................................................................99
Antônio Marcos Dutra da Silva

Capítulo 4
AMERICANISMO DA SALVAÇÃO: JOAQUIM NABUCO E OS EUA....... 129
Elizeu Santiago Tavares de Sousa

Capítulo 5
O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NA CRISE DA POLÍTICA
DOS ESTADOS NA PRIMEIRA REPÚBLICA: DOS VOTOS AO
PERIÓDICO JURÍDICO “O DIREITO”.......................................................... 149
Leonardo Seiichi Sasada Sato & Priscila Petereit de Paola Gonçalves
Capítulo 6
A PRIMEIRA EDIÇÃO DE RAÍZES DO BRASIL NO CONTEXTO
DE 30: UMA APROPRIAÇÃO TEÓRICA DO IBERISMO DE
GILBERTO FREYRE PARA AS RESPOSTAS AUTORITÁRIAS DE
SERGIO BUARQUE DE HOLANDA............................................................... 173
Weslley Luiz de Azevedo Dias

Capítulo 7
O PENSAMENTO DE AZEVEDO AMARAL E AS ORIGENS DO
DESENVOLVIMENTISMO............................................................................... 197
Tamyres Ravache Alves de Marco

Capítulo 8
HISTÓRIA E POLÍTICA: O NACIONALISMO PERIFÉRICO DE
ALBERTO GUERREIRO RAMOS E NELSON WERNECK SODRÉ......... 219
Helio Cannone & Pedro Paiva Marreca

Capítulo 9
O ESTADO NEOBISMARCKIANO NO PENSAMENTO DE HÉLIO
JAGUARIBE.......................................................................................................... 249
Angélica Lovatto

Capítulo 10
DOS TENENTES A MOSCOU: INFLUÊNCIAS NACIONAIS E
INTERNACIONAIS NA POLÍTICA DO PARTIDO COMUNISTA
DO BRASIL NA DÉCADA DE 1930................................................................. 279
Angelo Remedio Neto

Capítulo 11
RELAÇÕES ESGUIANAS, O PENSAR E O AGIR AUTÔNOMO NO
PRAGMATISMO RESPONSÁVEL E ECUMÊNICO (1974-1979)............... 309
João Catraio Aguiar
Capítulo 12
JOSÉ GUILHERME MERQUIOR E O RESGATE DO
LIBERALISMO SOCIAL.................................................................................... 335
Kaio Felipe

Capítulo 13
INTELECTUAIS E “NOVA DIREITA” NO BRASIL...................................... 361
Jorge Chaloub & Fernando Perlatto

SOBRE OS AUTORES........................................................................................ 385


Introdução

O PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO:


TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS1

Christian Edward Cyril Lynch

PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: DEFINIÇÃO, MODO DE


PRODUÇÃO E HISTÓRIA DISCIPLINAR

O pensamento político brasileiro compreende o conjunto de textos


– anais, discursos, periódicos, panfletos, manuais, opúsculos, ensaios e car-
tas – elaborados no Brasil acerca da natureza, legitimidade e exercício do
poder político, seja no plano nacional, seja no internacional. Tais textos só
começaram a ganhar publicidade em 1808, quando da introdução da tipo-
grafia, e principalmente a partir de 1821, quando a Revolução liberal pôs
fim à censura do Antigo Regime e assegurou as liberdades de consciência,
expressão e imprensa. Por cerca de um século, o Poder Legislativo ocupou
posição privilegiada na produção do nosso pensamento político, por meio
da publicação dos anais do Senado e da Câmara dos Deputados2. Outra fonte
fundamental foi a imprensa, que constituiu por muito tempo o primeiro
degrau da atividade política no Brasil, tendo, por isso, com ela mantido longo
vínculo de dependência. Quase todos os periódicos relevantes pertenciam
a políticos militantes e suas facções, vivendo de sua subvenção e lhes ser-
vindo de caixa de ressonância: prevalecia o modelo do político jornalista.
Alguns jornais, como a Aurora Fluminense, de Evaristo da Veiga, ou o Brasil,
de Justiniano José da Rocha, tinham pretensões doutrinárias sérias, mas a

1 
Esta introdução é uma versão modificada de nosso artigo: Cartografia do Pensamento Político Brasileiro: Con-
ceito, História, Abordagens. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 19. Brasília, janeiro – abril de 2016. p. 75-119.
2 
RODRIGUES, José Honório. O Parlamento e a Evolução Nacional. Volume I. Brasília: Senado Federal, 1972.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

maioria limitava-se a atacar os adversários políticos3. Os panfletos foram


outro instrumento de veiculação de pensamento político, especialmente
até meados do Segundo Reinado. Entre 1860 e 1880, a ampliação da esfera
pública refletiu-se na emergência de novos atores políticos, para além dos
limites do círculo parlamentar. Os livros de doutrina adquiriram maior
importância, pondo os panfletos em posição algo secundária4. Embora
ainda fossem ramificações da atividade parlamentar, as novas publicações
indicavam a necessidade que sentiam os atores políticos de uma elaboração
mais profunda de suas reflexões, bem como sua expectativa de alcançarem
um público maior e com efeitos mais duradouros.
A partir de 1870, arrogando-se a condição de porta-vozes de uma
sociedade civil nascente, jornalistas moços, como Quintino Bocaiuva e
Joaquim Nabuco, buscaram um lugar ao sol por meio da polêmica e da
crítica independente5. Esboçou-se desde então uma tímida distinção entre
a atividade político-partidária e o jornalista político ou intelectual público
– isto é, entre política e sociedade. Esmaecida, a distinção entre política
militante e intelectualidade pública permaneceu, porém, tênue: o mercado
editorial continuava restrito e quase todos os cargos públicos seguiam
preenchidos por indicação. Embora políticos como Alberto Torres e Rui
Barbosa mantivessem o antigo modelo do político publicista, aumentara
o número de intelectuais que, às margens da política, continuavam a dela
depender para sobreviver. Alguns, como Alcindo Guanabara e Gilberto
Amado, serviam aos chefes políticos na esperança de que um dia serem
recompensados com um posto na Câmara dos Deputados ou no Senado.
Outros, como Euclides da Cunha e José Veríssimo, tentavam garantir-se na
burocracia pública, em ramos como educação e diplomacia, dependendo
sempre de apadrinhamento. Houve casos intermediários, ou seja, de inte-
lectuais que oscilaram da burocracia para a política, sem muito sucesso,
como Silvio Romero e Manuel Bonfim. A partir das décadas de 1920-1930,
a ampliação do mercado editorial, a generalização do concurso público e o
aperfeiçoamento dos mecanismos de competição criaram condições para
a emergência de um intelectual público autônomo, geralmente jornalista
3 
LUSTOSA, Isabel. Insultos Impressos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
4 
VIANA, Francisco José de Oliveira. O idealismo na evolução política do Império e da República. O Estado de
São Paulo, São Paulo, 1922. p. 49.
5 
ALONSO, Ângela. Ideias em Movimento. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

ou professor6. Nas décadas de 1940-50, apareceriam as condições objetivas


que permitiriam “ao intelectual, pela primeira vez entre nós, a oportunidade
de valer por si, na proporção do teor concreto das ideias que exprime”7.
Por sua vez, o Parlamento perdeu a condição de principal polo produtor do
pensamento político, passando a refletir as cisões ideológicas no âmbito de
uma esfera pública cada vez mais independente. Com a complexidade cres-
cente da sociedade e a massificação dos meios de comunicação e de ensino,
essa diferenciação só se fez aumentar. Desde a década de 1970, o professor
passou a ter vida independente do jornalista e do político, dirigindo-se a
um público acadêmico mais específico.
A formação do campo de estudos do pensamento político brasileiro
é complexa. Seus primeiros estudiosos foram os deputados e senadores do
Império. A quase coincidência entre elite política e social; a percepção de
que o Parlamento brasileiro constituía o lugar por excelência da reflexão
política e as tradições partidárias, somados à premência da atividade legisla-
tiva, à inexistência de assessores e à disponibilidade dos anais, tornaram os
próprios políticos os primeiros protagonistas e intérpretes do pensamento
político brasileiro. Essa prática foi fundamental para que políticos que
também eram intelectuais, como o Visconde de Uruguai e Joaquim Nabuco,
sedimentassem suas próprias reflexões de natureza social e política – fato
que se pode verificar em obras como o Ensaio sobre o Direito Administrativo
(1862) e O Abolicionismo (1883). Nada mais natural, portanto, que as primei-
ras tentativas de elaboração de histórias do pensamento político brasileiro
fossem redigidas por autores vinculados à atividade parlamentar e tenham
sido concebidas como histórias constitucionais, que eram, por excelência, o
gênero por que o pensamento político era inventariado no século dezenove.
Foram elas A Constituinte perante a História, do Barão Homem de Melo (1863),
A Reforma da Constituição: estudo de história pátria e direito constitucional, de
Franco de Sá (1880), a História Constitucional do Brasil, de Aurelino Leal
(1915) e Formação Constitucional do Brasil e A Constituinte Republicana, de
Agenor de Roure (1914 e 1920, respectivamente). Acompanhando o clima
nacionalista e a emancipação do mercado editorial e dos intelectuais públi-
cos, apareceram, nas décadas de 1930-1940, as primeiras obras destinadas

6 
MICELI, Sérgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil. São Paulo: Difel, 1979.
7 
RAMOS, Guerreiro. A Crise do Poder no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1961. p. 190.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

a apresentar os grandes nomes da nossa história intelectual. Entre aquelas


com destaque para a política, podem ser citadas Inteligência do Brasil, de
José Maria Belo (1935) e Orientações do Pensamento Brasileiro, de Nélson
Werneck Sodré (1942).
Na esteira da especialização dos estudos filosóficos e sociológicos
empreendida no Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF), na Universidade
de São Paulo (USP) e no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB),
na década de 1950, já se falava na existência de um “pensamento social
brasileiro”, com destaque para a sua dimensão política. À mesma época,
foram publicadas as primeiras histórias destinadas a inventariá-lo, como
Contribuição à História das Ideias no Brasil, de Cruz Costa (1972), O Brasil no
Pensamento Brasileiro, de Djacir Menezes (1957); e, principalmente, Esforços
de teorização da realidade brasileira politicamente orientados de 1870 aos nossos
dias, de Guerreiro Ramos (1955), seguidos de três estudos de pensamento
político brasileiro a ideologia da jeunesse dorée, O inconsciente sociológico e A
ideologia da ordem8. Dali por diante, o número daquelas obras só fez aumentar.
Para os marxistas, a atividade de historiar o passado intelectual nacional
tinha por finalidade a denúncia do caráter retrógrado e autoritário de nossa
tradição; por isso, trabalhavam na perspectiva de uma história das ideologias,
como evidenciam obras como O Caráter Nacional Brasileiro: história de uma
ideologia, de Dante Moreira Leite (1954) e Ideologia da Cultura Brasileira, de
Carlos Guilherme Mota (1977). À direita, liberais e conservadores publicaram
as primeiras obras gerais sobre o nosso pensamento político, à maneira de
um inventário da história das ideias políticas, para compulsão do grande
público: a História das ideias políticas no Brasil, de Nélson Saldanha (1967) e
Interpretação da Realidade Brasileira: introdução à história das ideias políticas
no Brasil, de João Camilo de Oliveira Torres (1968).
No âmbito específico da ciência política, o campo de estudos emer-
giria ao longo da década de 1970, em virtude da pesquisa empreendida por
Wanderley Guilherme dos Santos no antigo Instituto de Pesquisas Univer-
sitárias do Rio de Janeiro (Iuperj, atual Iesp-Uerj), e cujo produto final foi o
livro Ordem burguesa e liberalismo político (1978). O curso de “pensamento
político no Brasil” passaria a integrar a grade da Pós-Graduação de Ciência
Política na década de 1980, quando José Murilo de Carvalho e Luiz Werneck
8 
RAMOS, 1961.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Vianna passaram a oferecê-lo regularmente no âmbito daquela instituição,


abordando as vertentes liberal, positivista, autoritária e marxista. A fim
de melhor compreenderem a transição para a democracia, volveram aos
“clássicos” brasileiros outros politólogos importantes.
No que se refere aos métodos de estudo desenvolvidos no âmbito da
academia para o estudo do pensamento político brasileiro, pode-se dizer
que os textos fundadores do estudo da área foram Paradigma e História e
A Práxis Liberal no Brasil, de Wanderley Guilherme dos Santos9. Partindo
dos trabalhos pioneiros desenvolvidos por Guerreiro Ramos no Instituto
Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), Wanderley passava a definir o pen-
samento político brasileiro como o conjunto de representações do processo
político produzidas no espaço nacional por “formadores de opinião”, que
se encarregavam de racionalizar os acontecimentos, interpretando-os e
explicando-os para o grande público. Esse pensamento vinculava-se tanto
ao passado quanto ao futuro: os acontecimentos anteriores uniam-se numa
primeira explicação acerca do que teria acontecido que balizaria o horizonte
de expectativas dentro do qual os atores políticos haveriam de se orientar10.
A necessidade de reformar uma realidade percebida como atrasada, a fim
de elevá-la ao patamar de democracia moderna e capitalista, constituiria o
eixo temático principal do pensamento político brasileiro. Haveria essen-
cialmente duas famílias ou linhagens intelectuais que divergiriam acerca dos
meios conducentes à assunção de tal objetivo: os autoritários instrumentais e
os liberais doutrinários. Os primeiros entenderiam que, no contexto de uma
sociedade fragmentada e autoritária, o Estado era uma agência privilegiada
para a mudança social em sentido liberal, devendo-se, portanto, fortalecê-lo
a fim de dotá-lo de meios para executar aquela tarefa. Já os liberais doutri-
nários seguiriam de modo mais fiel a cartilha liberal democrática europeia,
acreditando que “a rotina institucional [liberal] criaria os automatismos
políticos e sociais ajustados ao funcionamento normal da ordem liberal”11.

9 
LYNCH, Christian Edward Cyril. A institucionalização da área do pensamento político brasileiro no âmbito
das ciências sociais: revisitando a pesquisa de Wanderley Guilherme dos Santos (1963-1978). In: DULCI, Otávio
Soares (Org.). Leituras críticas sobre Wanderley Guilherme dos Santos. Belo Horizonte: UFMG, 2013a.
10 
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Raízes da Imaginação Política Brasileira. Revista Dados, n. 7. Publicação
do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, 1970. p. 138.
11 
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Ordem Burguesa e Liberalismo político. São Paulo: Duas Cidades, 1978. p. 51.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

A década de 1990 iniciou-se com novas orientações intelectuais no


campo. Dentre os diversos frutos da polêmica em torno do livro Espelho
de Próspero, de Richard Morse, um teria longeva repercussão no campo do
pensamento político brasileiro dentro da ciência política: Americanistas
e iberistas: a polêmica de Tavares Bastos com Oliveira Viana, do sociólogo
político Luiz Werneck Vianna (1991). Argumentando com base em Lenin
e Gramsci, Werneck Vianna compreendia que a modernização brasileira se
daria sob a forma de uma revolução passiva, marcada pela dialética de duas
orientações distintas: uma liberal, americanista, representada por Tavares
Bastos; outra comunitária, iberista, representada por Oliveira Viana. Oito
anos depois, Werneck publicaria um segundo texto de repercussão na área:
Weber e a interpretação do Brasil (1999). Nele, o autor de Liberalismo e sindicato
no Brasil revelava o quanto as interpretações do Brasil vinham bebendo da
sociologia weberiana para explicar a persistência do autoritarismo estatal ou
burocrático na vida política brasileira. Na década de 2000, surgiram novas
tentativas de orientar a área do ponto de vista teórico e programático. A
primeira teve lugar no âmbito do programa de Pós-Graduação em Ciência
Política da Universidade de São Paulo (USP), promovida por Gildo Marçal
Brandão, cujo texto principal seria Linhagens do Pensamento Político Brasi-
leiro, que deu origem ao livro homônimo12. Além de aclimatar o estudo do
pensamento político brasileiro à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), cujo ambiente lhe
era refratário, o projeto de Gildo centrava-se em dois pontos principais. O
primeiro passava por desenvolver a hipótese das linhagens de pensadores
brasileiros, já avançada por Wanderley Guilherme, partindo, porém, das
denominações e formulações elaboradas por Oliveira Viana nas décadas de
1920 e 1940, quando as dividira entre idealismo orgânico e idealismo consti-
tucional. Inspirado em pequeno texto de Antônio Cândido, Gildo também
aventou a possibilidade de se identificarem outras linhagens de autores,
comprometidas com a superação do horizonte liberal, como o radicalismo
de classe média e o materialismo de matriz comunista. O segundo ponto digno
do projeto denominado Linhagens do Pensamento Político Brasileiro dizia
respeito à atualidade e utilidade das categorias descritivas de cada linhagem
para proceder ao exame da cena política brasileira contemporânea. Segundo
Gildo, tanto os políticos militantes quanto os intelectuais públicos, inclusive
12 
BRANDÃO, Gildo Marçal. Linhagens do pensamento político brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2007.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

acadêmicos, tenderiam a se inclinar a uma ou outra, ao empreenderem suas


análises de conjuntura ou da história do pensamento13.

PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO E ESTILO PERIFÉRICO:


UMA PERSPECTIVA PÓS-COLONIAL

Ao romper com o pretenso universalismo da teoria política, mostrando


as determinações históricas e circunstanciais de sua produção, o método
contextualista, aplicado ao estudo do pensamento ibero-americano, acabou
por reforçar outra vertente de crescente apelo no subcontinente: o pós-
colonialismo. O pensamento político brasileiro deve ser assim considerado
pelas lentes do que poderíamos chamar um contextualismo pós-colonial. Essa
perspectiva pressupõe a rejeição ou questionamento da tese tradicional
de que o Brasil seria objetivamente uma nação atrasada e periférica14. Por
outro lado, as condições existenciais dos atores e autores políticos, relativas
ao lugar e ao tempo em que estão inseridos, refletem-se na forma por que
enxergam o valor e o alcance do que fazem. E os atores históricos e produtores
da cultura brasileira sempre se representaram como situados numa região
atrasada e periférica do globo. A aceitação dessa concepção etnocêntrica
de seu lugar no mundo, entendido como inferior e atrasado, repercutiu
profundamente na formação identitária dos intelectuais dos continentes
periféricos. No Brasil, os autores escreveram sempre tendo por sombra a
imagem de seu País como inferior e atrasado. Poucos escaparam, assim,
ao etnocentrismo cultural europeu que, no bojo de sua expansão colonial,
dividira desde o século XVIII o papel dos povos no processo de civilização:
alguns seriam adiantados e civilizados, outros atrasados e bárbaros, devendo
estes últimos imitar os padrões de comportamento e as instituições daqueles.
Representantes da civilização europeia numa terra bárbara ou selvagem,
sem história nem cultura, as elites intelectuais periféricas acreditavam não
dever ou precisar produzir filosofia, teoria ou ciência; que elas deveriam
13 
BRANDÃO, Gildo Marçal. Ideias e argumentos para o estudo da história das ideias políticas no Brasil. In:
COELHO, Simone de castro. Gildo Marçal Brandão: itinerários intelectuais. São Paulo: Hucitec, 2010.
14 
“Quem determina o itinerário que uma nação deve seguir? As nações vizinhas? Existe um itinerário da
história mundial que deve ser seguido pelas nações? A hipótese pressupõe uma teleologia histórica exclusiva ex
post, que só permite uma alternativa: realização ou fracasso. Ou o itinerário normatizado é cumprido ou resulta
em atraso”. KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo: estudos sobre história. Tradução de Markus Hediger. Rio
de Janeiro: Contraponto/PUC, 2014. p. 349.

15
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

se limitar a aplicar, na sua atrasada terra, a filosofia, a teoria ou a ciência


produzida no Atlântico Norte. Nada do que se produzisse intelectualmente
na periferia teria valor “universal” ou “original”; na melhor das hipóteses,
ela teria sua validade restrita aos limites efêmeros da periferia15. No caso
específico do pensamento político brasileiro, essa mentalidade etnocêntrica
expressou-se em forma de dúvidas a respeito de sua própria existência
como objeto. Por conta do grau de atraso e autoritarismo do País, herdado
de Portugal, a teoria política moderna oriunda da Europa ficaria no Brasil
sem qualquer interação com a realidade local, constituindo mera ideologia,
e como tal, sem exprimir verdadeiramente a natureza dos conflitos políticos
que aqui tinham lugar16.
Por mais respeitável que seja essa opinião, ela é visivelmente equivo-
cada. Uma nacionalidade não pode existir sem que se conceba politicamente
por meio de um pensamento; por esse motivo, toda comunidade possui um
pensamento político, pela qual ela representa a sua própria existência. O
Brasil não poderia ser exceção. Embora a cultura europeia lhe tenha servido
de modelo, deste fato não se aduz que as ideias tenham um lugar próprio
(o da origem), nem que os transplantes sejam servis a ponto de converter
o pensamento ou as instituições periféricas em “cópias” das cêntricas.
Embora surjam em determinados contextos, as ideias ou conceitos políti-
cos deles se emancipam quase imediatamente, cada comunidade política
adaptando-os à sua circunstância particular. Os produtos intelectuais são
historicamente condicionados e, como tais, refletem direta ou indiretamente
“os característicos específicos da sociedade particular do produtor ou dos
produtores”17. Ademais, devem ser relativizadas quaisquer avaliações com-
parativas baseadas em categorias pretensamente universais, contaminadas
de etnocentrismo. Uma vez que lida no fundo com os mesmos problemas,
a “teoria” não é menos histórica e localmente situada que o “pensamento”.
Seu maior grau de generalidade e de abstração formais, comparativamente
falando, decorre, sobretudo, de ter sido elaborado por autores que, em um
contexto “cêntrico”, concebiam como “universais” questões políticas não
menos marcadas pelo provincianismo e pela efemeridade. Não se trata, aqui,
15 
LYNCH, C. Por que pensamento e não teoria? A imaginação político-social brasileira e o fantasma da condição
periférica. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 56, n. 4, 2013b. p. 727-767.
16 
FAORO, Raimundo. Existe um Pensamento Político Brasileiro?. São Paulo: Ática, 1994.
17 
RAMOS, G. Introdução crítica à sociologia brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 1955. p. 261.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

de negar a possibilidade da universalidade como categoria, mas de purgá-la


de seu eurocentrismo e pensá-la como uma universalidade complexa, que
deixe de se restringir à experiência de três ou quatro países vanguardeiros
do Atlântico Norte e incorpore a dos outros nove décimos do globo.
Produzido por autores que se representavam em um contexto atrasado,
o pensamento brasileiro (e do ibero-americano em geral) é dotado de um
“estilo periférico” que lhe confere alguns traços particulares18. Alguns deles
decorrem do fato de que, vendo-se “atrasado” com relação à referência de
futuro estabelecida pelo patamar de desenvolvimento dos países cêntricos,
o pensamento político periférico desdobra-se num esforço concomitante
de natureza político-institucional, destinado a acompanhar os avanços civi-
lizacionais dos países modelares, e de natureza sociológica, encarregado de
produzir conhecimento sobre si mesmo. Como se verá, ambas as tarefas não
se desdobram de forma harmoniosa, colidindo frequentemente a necessidade
de acompanhar as instituições cêntricas com sua adequação ao efetivo estado
socioeconômico do país. Esse fato foi percebido por Euclides da Cunha, ao
se referir à distância que havia entre a teoria política dos autores da primeira
constituição brasileira e a cultura do País: “Tinham cravado um marco, ao
longe, no futuro. A nossa história daí por diante recorda um fatigante esforço
para alcançá-lo”19. Outros traços do pensamento político brasileiro consistem
em exacerbações ou mitigações daqueles já presentes na “teoria” cêntrica:
1) Menor grau de generalização e maior sentido prático das reflexões políticas.
Na periferia, não se imagina que a elaboração intelectual possa ter
alcance universal. Por isso, pensadas para impactar de modo mais restrito
no tempo e no espaço, num ambiente carente de mudanças urgentes,
costumam ter caráter mais pragmático. Teriam sido “a nossa origem,
as condições de nossa formação, a nossa experiência histórica, nos
afastam do alcantilado das metafísicas e nos impelem para a meditação
das realidades concretas e vivas”20.

2) Maior centralidade da retórica, da oratória e do argumento de autoridade.


Os autores periféricos leem os autores cêntricos como autoridades,

18 
LYNCH, C. Cartografia do Pensamento Político Brasileiro: Conceito, História, Abordagens. Revista Brasileira
de Ciência Política, n. 19. Brasília, janeiro – abril de 2016. p. 75-119.
19 
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 155.
20 
COSTA, João Cruz. Contribuição à História das Ideais no Brasil (O desenvolvimento da filosofia no Brasil e a
evolução histórica nacional). Rio de Janeiro: José Olímpio, 1956. p. 34.

17
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que transmitem o saber do centro e do futuro; por outro lado, não


creem ter chance de com eles dialogarem. Como sabem, porém, que
seus patrícios também reconhecem a autoridade superior dos autores
cêntricos; os periféricos argumentam a partir de referências maciças às
obras daqueles21. Oliveira Viana já notava em 1943: “Ninguém é, aqui,
pontífice por si mesmo. Para influir, para ‘pesar’, para ter autoridade,
é-lhe preciso um reforço estranho, um apoio alheio, que não é outro
senão o da autoridade do autor estrangeiro”22.

3) A tendência dos autores nacionais de se apresentarem como porta-vozes pio-


neiros do moderno, obscurecendo as referências de continuidade em relação aos
seus predecessores. Essa característica foi referida por inúmeros analistas
da vida sociopolítica brasileira como Sylvio Romero, Guerreiro Ramos
e Hélio Jaguaribe23; este último notava que “cada geração repetia, a partir
do marco zero, o esforço da geração anterior, e ia buscar as ideias na
Europa”24. O fato é que a continuidade existe e deve ser procurada não
pelas filiações exógenas das obras, mas pela continuidade endógena do
tratamento das temáticas.

4) Relativa fragilidade das posições políticas extremadas – isto é, demasiado


conservadoras ou radicais –, comparativamente àquelas existentes nos
países europeus. O fenômeno deve-se essencialmente a quatro fato-
res: a ausência de tradições fortes de um passado feudal e católico25;
a previsibilidade do futuro (aquele dos países cêntricos, enxergado da
periferia); a menor complexidade aparente da sociedade local; e, por fim,
o consenso amplo em torno da necessidade de superação do presente
indesejável, para alcançar aquele futuro “civilizado” ou “cêntrico”. Essa
dimensão foi bem salientada por Assis Brasil ao afirmar que “na Amé-
rica, e mais particularmente no Brasil, todos são democratas; todos são
liberais” e que mesmo “os representantes do espírito conservador, real
ou fictício, puseram sempre grande empenho em fazer crer que eram
eles os verdadeiros liberais”26.

21 
CARVALHO, José Murilo de. História intelectual: a retórica como chave de leitura. Prismas: Quilmes, 1988.
22 
VIANNA, Francisco José de Oliveira. Ensaios inéditos. Campinas: Unicamp, 1991. p. 360.
23 
ROMERO, Sylvio. Sylvio Romero: obra filosófica. Introdução e seleção Luís Washington Vita. Rio de Janeiro:
José Olympio, 1969; RAMOS, Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de Janeiro: Andes, 1955;
JAGUARIBE, Hélio. A Filosofia no Brasil. Rio de Janeiro: Iseb, 1957.
24 
Ibidem, p. 18.
25 
RICUPERO, Bernardo. O conservadorismo difícil. In: FERREIRA, Gabriela Nunes; BOTELHO, André (Org.).
Revisão do Pensamento Conservador. São Paulo: Hucitec, 2010.
26 
BRASIL, Joaquim Francisco Assis. Democracia Representativa: do voto e do modo de votar. 3. ed. Paris. Gui-
llard, Aillaud & Cia, 1985. p. 160.

18
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

5) Orientação acentuadamente prospectiva da política. O passado é visto nega-


tivamente como a época de gestação das mazelas que se pretende hoje
superar. O resultado é uma atrofia relativa da importância conferida
ao espaço de experiências, ou seja, à tradição, e a uma correspondente
hipertrofia do horizonte de expectativas. “A tradição, a famosa tradição,
que impõe tantos limites à vida europeia, se evapora no trópico e mesmo
os simples costumes cotidianos sofrem forçosas aberrações e adaptações”
27
. O futuro é o lugar da redenção nacional; por esse motivo, as utopias
políticas parecem encontrar na periferia solo particularmente fértil.
Euclides da Cunha exprimiu essa característica quando afirmou: “Esta-
mos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos”28.

6) Abundância de “projetos nacionais” alternativos, dependentes da aclimatação


de determinados modelos cêntricos que, segundo seus propugnadores,
apressariam a modernização. Esse traço confere crença particularmente
acentuada na capacidade que teriam as instituições formais de origem
cêntrica – especialmente as de caráter político-constitucional – de
transformar a realidade periférica. Parte nada desprezível dos escritos
do pensamento político brasileiro deposita uma grande confiança na
importação de instituições políticas de países como a Inglaterra, a França
e os Estados Unidos como método de aceleração da modernização social,
como a monarquia constitucional, o unitarismo, o parlamentarismo, a
república, o federalismo, o presidencialismo, o judiciarismo, a repre-
sentação classista, as comissões parlamentares, o mandado de injunção,
o júri etc. Não se trata de patologia, mas de estratégia de construção
nacional, conforme notado por Guerreiro Ramos:
Não caminhamos do costume para a teoria; do vivido, con-
creta e materialmente, para o esquema formal. É o inverso
que se dá; caminhamos, até agora, no tocante à construção
nacional, do teórico para o consuetudinário, do formal para
o concretamente vivido. O formalismo é, nas circunstancias
típicas e regulares que caracterizam a história do Brasil, uma
estratégia de construção nacional29.

7) Consequência direta do formalismo institucional, encontramos o peda-


gogismo, decorrente da necessidade de se educar a população nas cul-
turas necessárias à boa prática das instituições transplantadas ou por
transplantar: o constitucionalismo, o republicanismo, a democracia,
27 
RAMOS, G. O problema nacional do Brasil. Rio de Janeiro: Saga, 1960. p. 94.
28 
CUNHA, E. Os Sertões: campanha de Canudos. São Paulo: Círculo do Livro, 1975.
29 
RAMOS, G. Administração pública e estratégia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
1966. p. 389-90.

19
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o socialismo etc. O mais célebre pedagogo brasileiro foi Rui Barbosa,


que em 1893 declarou, a respeito do constitucionalismo republicano,
recém-implantado, mas ineficaz: “É nas classes mais cultas e abastadas
que devem ter o seu ponto de partida as agitações regeneradoras. Demos
ao povo o exemplo, e ele nos seguirá”30. No entanto o pedagogismo não
foi apanágio dos liberais. Em pleno Estado Novo, Oliveira Viana chamava
a atenção para a necessária educação das elites brasileiras para o sentido
coletivo da existência, a fim de retirá-las do seu egoísmo e habituá-las
a servir à nação31. À esquerda também praticou o pedagogismo. Em
1968, Roland Corbisier atribuía o fracasso das reformas de base por
terem faltado, “aos próprios reformistas, formação ideológica e clara
consciência do problema”32.
Tais características típicas do pensamento periférico – na América
Ibérica, pelo menos – não devem ser compreendidas como sendo estáticas
ou decorrentes de alguma cultura inflexível. Mais salientes no princípio,
elas tendem a se esmaecer conforme a comunidade adquire graus mais
elevados de autonomia e se reduza, por conseguinte, sua autoimagem como
largamente atrasada e inferior aos países cêntricos. Elas aparecem, contudo,
em maior ou menor grau nos principais problemas do pensamento político
brasileiro desde sua constituição como campo de reflexão sobre os desafios
constitutivos da formação política brasileira, conforme veremos a seguir.

ENTRE O FORMALISMO E A INEFETIVIDADE: O PENSAMENTO


POLÍTICO BRASILEIRO E OS DILEMAS DA MODERNIZAÇÃO
PERIFÉRICA

Conforme já anotado por Wanderley Guilherme dos Santos33, o tema


por excelência do pensamento político brasileiro é o da modernização,
entendida como civilização, evolução, desenvolvimento ou progresso. Ela
representa o objetivo prioritário da agenda política, a ela subordinando-se
os demais tópicos do debate nacional. A partir do juízo de valor negativo
a respeito da realidade nacional, os atores brasileiros extraíram o impe-

30 
BARBOSA, Rui. Ruínas de um Governo: o governo Hermes, as ruínas da Constituição, a crise moral, a justiça
e manifesto à Nação. Prefácio e notas de Fernando Néri. Rio de Janeiro: Guanabara, 1931. p. 140.
31 
VIANA, F. Problemas de Organização, Problemas de Direção. Intr. Hermes Lima. Rio de Janeiro: Record, 1947b. p. 64.
32 
CORBISIER, Roland. Reforma ou revolução?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 2.
33 
SANTOS, 1978.

20
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

rativo de modernizar o país, de molde a reduzir a distância que separa a


sua sociedade daquela dos países cêntricos, vista– de modo idealizado,
diga-se de passagem – como o padrão de normalidade. Valores como
autoridade, liberdade, ou democracia só são plenamente apreciados na
medida em que estão identificados com aquilo que se entende como
moderno. No dia seguinte à independência, José Bonifácio já apontava
o rumo modernizador que a política brasileira deveria seguir: “Deve o
Brasil olhar para trás, para encher o vazio, que tem desde o ponto de que
saiu, até o ponto atual de outras nações, preenchendo a série intermédia
com brevidade, mas com prudência”34.
Partindo de uma situação de desconforto com o presente nacional,
em comparação ao dos países cêntricos, julgados modelares, o pensamento
político brasileiro desdobra seu esforço analítico em dois momentos suces-
sivos. No primeiro, de caráter sociológico, compreendem-se as causas do
atraso presente, pelo estudo das características de nossa formação nacional,
quase sempre negativamente valoradas: escravidão, despotismo, herança
ibérica, mestiçagem, latifúndio, monarquia, catolicismo. Se o passado é
geralmente visto como inexistente ou problemático, em função da má
formação social, pode-se, porém, alimentar otimismo em relação ao futuro,
entendido como um tempo de superação daqueles percalços e do gozo das
vantagens reservadas ao país em virtude da opulência e da grandeza do
seu território. “O Brasil é grande em possibilidade, e não em atualidade”, já
dizia em 1823 o futuro Visconde de Cairu35. Uma vez munido do diagnós-
tico e do conhecimento das causas do atraso, o analista passa ao segundo
momento, de caráter político ou propositivo, propondo medidas destinadas
a erradicá-las ou corrigi-las. Assegurar-se-ia, assim, para o futuro o destino
de grandeza a que o país estaria naturalmente destinado, em virtude de sua
dimensão colossal e pela riqueza de seu território.
A transposição das instituições políticas e sociais dos países julga-
dos adiantados para a periferia – o chamado formalismo – é reputado o
instrumento privilegiado de mudança política, ou seja, fator estratégico de
modernização. A regra clássica da sociologia política, segundo a qual as ins-

34 
SILVA, José Bonifácio de Andrada e. Projetos para o Brasil. Organização de Miriam Dohlnikoff. São Paulo:
Companhia das Letras, 1996. p. 232.
35 
AACB, 18/08/1823.

21
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tituições deveriam refletir os usos e costumes do povo a que eram dirigidas,


limitando-se a acompanhar seu desenvolvimento orgânico, não valeria para
os países periféricos. Na periferia, o papel das instituições políticas seria o de
precipitar as forças do progresso, a fim de aproximar os padrões de compor-
tamento de sua sociedade daquelas julgadas referenciais. Em 1843, o senador
Paula Sousa deixou um testemunho admirável das razões que impeliam o
Brasil a emular a cultura política dos países cêntricos: tendo saído do estado
de colônia de uma metrópole absolutista e atrasada, e fadado a governar-se
de modo moderno – e, portanto, liberal –, o Brasil não tinha outra saída,
senão seguir o exemplo do país mais avançado do mundo: a Inglaterra.
Nós nascemos ontem; passamos do estado de colônia para
governo representativo; a nação de que fazíamos parte e de
quem éramos colônia não tinha governo representativo; era
escrava [i.e. absolutista] e até muito atrasada na escala da
civilização; logo, para marcharmos, havemos de tomar por
modelo e por norte essa grande nação [a Inglaterra], que lutou
séculos para conseguir o governo representativo, e que desde
1688 o tem estável e glorioso, e cada vez mais firmando e
desenvolvendo as regras desta forma de governo36.
A tese de que a função das instituições políticas seria a de fomentar a
modernização dos padrões de comportamento da sociedade brasileira tem
sido praticamente consensual. As divergências giraram, portanto, em torno
do grau de adiantamento que as instituições a serem transplantadas para o
Brasil deveriam apresentar em relação ao atrasado estado social do País. Esse
dissenso espelhou-se nas diferentes preferências dos atores acerca de quais
instituições de quais países cêntricos deveriam servir de modelo para o Bra-
sil. De um modo geral, estes foram quase sempre três: a Inglaterra, França e
Estados Unidos. Em 1919, o próprio Presidente da República, Epitácio Pessoa,
lançaria mão daqueles argumentos para explicar por que o Brasil haveria de
seguir, em matéria de política internacional tudo o que fosse decidido por
aqueles três países: “O Brasil deve a essas nações o seu rápido progresso, o
seu desenvolvimento considerável; ele as ama, ele as respeita, ele não pode
deixar de segui-las na solução de seus problemas de ordem geral”37.

36 
ASI, 5/7/1843.
37 
PESSOA, Epitácio. Conferência da Paz, Diplomacia e Direito Internacional. Obras completas de Epitácio Pessoa,
v. XIV. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1961. p. 112.

22
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

No século XIX, a Inglaterra era a favorita de liberais como o senador


Costa Ferreira, para quem, em 1840, os ingleses haviam “elevado a sua nação
ao maior grau possível de felicidade, força e glória, como na terra se não
encontra nação alguma”38. No caso inglês, as instituições julgadas dignas de
admiração eram aquelas de sua monarquia constitucional, primeiro como
exemplo de governo misto bem sucedido, depois de parlamentarismo.
Embora se dissesse sempre incerto entre a França e a Inglaterra, Joaquim
Nabuco confessava sua preferência por esta última: “A influência inglesa
foi a mais forte e mais duradoura que senti”. E explicava: “Este traço de
seriedade e de reserva define, a meu ver, uma raça imperial, enérgica e res-
ponsável, cônscia de sua força, educada no self-help, viril e magnânima”39.
Essa admiração chegaria aos mesmos cumes na obra de Rui Barbosa:
Na obra da civilização ocidental não há, talvez, mais que
três papéis supremos: o da Judéia, berço do monoteísmo e
do Cristo; o da Grécia, criadora das artes e da filosofia; o
da Inglaterra, pátria do governo representativo e mãe das
nações livres: bendita esta raça providencial40.
Já a França era preferida por aqueles de viés mais estatizante, ou que
destacavam seu papel como matriz civilizatório do mundo, como o con-
servador Visconde de São Lourenço, para quem, em 1871, àquela nação se
devia “mais da metade do bem da civilização a que temos chegado”; ela era
“a grande nação latina que marcha à frente dos povos desta raça a que nós
pertencemos”41. O que nela se julgava digno de emular era o Estado forte,
assegurado pela centralização política e pelo direito administrativo – modelo
de que o Visconde de Uruguai fez-se o principal arauto entre nós. Também
os positivistas brasileiros, como Teixeira Mendes e Miguel Lemos, acredi-
tavam que a França representava por excelência a evolução moderna42. Os
38 
ASI, 19/06/1840.
39 
NABUCO, Joaquim. Minha Formação Política XIII: Londres. O Comércio de São Paulo, n. 896, 1986.
40 
BARBOSA, Rui. Correspondência. Coligida, revista e anotada por Homero Pires. São Paulo: Saraiva, 1932. p. 94.
41 
ASI, 22/07/1871.
42 
A discussão oitocentista em torno de que país deveria servir de modelo político era colocada às claras pelo
positivista Miguel Lemos: “Onde escolher o fenômeno da evolução política para aí observá-la? Não estando
atualmente todas as sociedades no mesmo estado de desenvolvimento, qual delas escolher que represente o tipo
da marcha presente da humanidade? Para nós a questão já foi decidida. Duas nações se disputavam o lugar de
guia: a França e a Inglaterra. Os direitos da primeira são defendidos por Comte, Buckle quer as honras para a
Inglaterra. Littré, porém, intervindo no debate prova evidentemente a verdade da opinião de Comte. A França,
pois, não há dúvida para nós, representa a evolução moderna”. LEMOS, Miguel. Pequenos ensaios positivistas. Rio
de Janeiro: Brown & Evaristo, 1877. p. 53.

23
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Estados Unidos, porém, também encantavam a elite política brasileira, por


serem vistos como a transposição democrática da invejada civilização inglesa
na América, com todo o seu imenso progresso material. O senador Lopes
Gama afirmava já em 1839: “Citamos todos os dias aqui os Estados Unidos
como modelo”43. O federalismo, o presidencialismo e o judiciarismo, nessa
ordem, eram as instituições mais admiradas dos americanistas, o principal
dos quais foi Tavares Bastos. A admiração de muitos pela Argentina nas
décadas de 1880-1890 residia justamente no fato de ser ela vista como um
modelo extraordinariamente bem-sucedido de adaptação das instituições
norte-americanas para um povo de origem ibérica44.
No século XX, a lista de países cujas instituições eram julgadas dignas
de emulação sofreria algumas alterações. Os Estados Unidos passaram a
concentrar boa parte da atenção outrora concedida pelos liberais à França
e à Inglaterra, ao passo que, no entreguerras, a Itália fascista granjeou um
número considerável de admiradores dos regimes autoritários. Do lado
esquerdo do espectro político, os comunistas buscaram chamar a atenção
para o exemplo da Rússia bolchevista, cujo exitoso modelo de moderni-
zação autoritária não deixava de embascabacar um furioso anticomunista
como Azevedo Amaral. Esse êxito da modernização autoritária soviética,
promovida pelo rigoroso planejamento estatal, contribuiu poderosamente
para que, na segunda metade do século, o eixo do debate político se des-
locasse do campo jurídico-constitucional para o social e econômico. O
planejamento econômico operado pelo Estado interventor passou a ser
considerado o instrumento indutor por excelência do desenvolvimento,
entendido agora como sinônimo de industrialização. É o que explica a
importância da recepção do pensamento político-econômico da Comissão
Ecônomica para a América Latina (Cepal) para o debate desenvolvimentista
do pós-guerra e o prestígio à época de economistas como Celso Furtado. O
constitucionalismo só recuperaria seu prestígio na década de 1990-2000,
quando a redemocratização impôs um compromisso firme com o Estado de
direito e houve consenso em torno da tese de que a modernização industrial
brasileira se fizera às custas de uma brutal concentração de renda, preju-
43 
ASI, 2/7/1839.
44 
LYNCH, C. O Caminho para Washington passa por Buenos Aires: a recepção do conceito argentino do
estado de sítio e seu papel na construção da República brasileira (1890-1898). Revista Brasileira de Ciências Sociais
(Impresso), v. 27, p. 149-169.

24
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

dicial às condições de vida da maioria esmagadora da população. Desde


então, a despeito do continuado prestígio dos economistas, voltaram a ser
valorizadas as instituições constitucionais, cuja efetividade passou a ser
reputada indispensável para garantir os valores republicanos, democráticos
e liberais, quanto os direitos humanos e sociais inscritos na Constituição
de 1988. Intérpretes dos modelos jurisdicionais da Alemanha e dos Estados
Unidos, juristas como Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso passaram a
gozar de grande consideração pública e intelectual.

A INEFETIVIDADE INSTITUCIONAL: A DICOTOMIA PAÍS


LEGAL VERSUS PAÍS REAL

Tema típico da cultura política brasileira, derivado da exigência da


modernização, é a distância entre as suas instituições políticas, inspiradas
nas constituições dos países cêntricos, e seu rendimento deficiente ou
nulo no plano da sociedade local. Trata-se da famosa oposição entre o país
legal e o país real. Se as instituições cêntricas impactavam sobre a realidade
periférica, a fim de modernizá-las, elas não o faziam, porém, na forma e
na velocidade esperada pelo público; além disso, produziam muitos efeitos
inesperados, frequentemente negativos:
Quem estudar a história do Brasil independente verá a des-
proporção entre a civilização real do país e o adiantamento
das suas instituições originando um desequilíbrio sensível
ainda hoje. Os algarismos demonstram que nenhum país
dotado de um governo livre apresenta tão grande número
de qualidades moralmente negativas quantos são no Brasil
os analfabetos, os rústicos isolados no interior e os repre-
sentantes das raças inferiores ainda não extintas ou anuladas
pela absorção na raça civilizada45.
O sentimento de frustração, revolta ou apatia, decorrente daquele
contraste entre país legal e país real, é uma constante em quase todos os
observadores da cena brasileira. A esse respeito reclamava Paulo Prado,
sobrinho de Eduardo, mais de 40 anos depois:

45 
PRADO, Eduardo. Destinos políticos do Brasil. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Anais do Congresso de História do Segundo Reinado. v. II. Rio de Janeiro, 1984. p. 164.

25
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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As nossas crises mais graves encontram logo o remédio sal-


vador que as deve resolver definitivamente. Para ressurgirem
em seguida, sob novos aspectos, com novas soluções radicais.
A cada uma sucede, porém, o que Silvio Romero chamava, no
ritmo da vida nacional, “o processo da desilusão”46.

Mas essa percepção da defasagem entre as instituições políticas que


deveriam fomentar a modernização e a realidade socioeconômica, que
continuava atrasada, despertou diferentes reações. Conforme referido,
havia um consenso implícito de que as instituições políticas aclimatadas
ao Brasil deveriam estar um pouco à frente do seu atrasado estado social,
para que pudessem sobre ela produzir seus salutares efeitos. O problema
tinha lugar, todavia quando aquele hiato entre instituições e realidade
parecia desmesurado. Nesse caso, era preciso tentar restabelecer alguma
conexão entre instituições e sociedade, conforme reconhecia em 1844 o
senador Bernardo Pereira de Vasconcelos: “Se as revoluções procedem da
desarmonia entre as ideias e as instituições dos povos, é evidente que todas
as vezes que se puderem harmonizar as instituições às ideias, desparecem
as revoluções”. Segundo ele, “a sabedoria do governo, a sua previdência,
está em saber atalhar as revoluções, satisfazendo as necessidades públicas”
47
. Ao longo da história brasileira, houve pelo menos três percepções ou
diagnósticos possíveis do mau funcionamento das instituições, a ensejar
reações no sentido de se restabelecer a sintonia entre elas e a realidade,
repondo o País no bom caminho das reformas moderizadoras.
A primeira percepção era a de que as instituições (país legal) estariam
atrasadas em relação às necessidades do estado social (país real). Nesse caso,
os atores políticos tenderam a rejeitar as instituições existentes por seu
caráter “retrógrado”, lutando por sua adequação ou substituição. Este foi o
caso de liberais como Tavares Bastos, para quem o modelo saquarema do
Segundo Reinado era autoritário e ultrapassado, “governo de retardo” que
deveria ser substituído por outro, moderno, americano e audaz48. A crítica
do anacronismo das instituições políticas foi repetida 50 anos depois pelos
autoritários do Estado Novo, embora no sentido inverso. Para Francisco
Campos, o liberalismo da Primeira República estava condenado a desparecer
46 
PRADO, Paulo. Paulística, etc. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 291.
47 
ASI, 23/05/1844.
48 
BASTOS, Aurelino Cândido Tavares. Cartas do Solitário. São Paulo: Companhia Nacional, 1976. p. 103.

26
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

diante dos desafios opostos pela emergência das massas, que necessitavam
de um Estado de tipo autoritário, análogo àqueles que se construíam nos
países cêntricos, para serem enfrentados: “Nos velhos moldes e através de
antiquadas formulas institucionais, seria impossível assegurar a existência e
o progresso da Nação”49. A crítica do anacronismo institucional, decorrente
do desenvolvimento socioeconômico, foi também a tônica da esquerda
durante a República de 1946. Em 1957, Guerreiro Ramos sustentava que a
emergência política do povo provocava uma crise nas instituições que haviam
sido criadas para um contexto oligárquico ou autoritário. A estabilização das
instituições, dispensando a intervenção militar, só seria possível quando “o
Congresso coincidir ideologicamente com o mandato que o instaurou e os
partidos, o aparelho sindical e demais instrumentos de expressão da vontade
do povo se penetrarem do novo sentido da evolução brasileira”50. Por sua
vez, às vésperas do golpe de 1964, a esquerda radical vocalizada por Osny
Duarte Pereira entendia que a Constituição precisava “ser alterada, para
poder cumprir sua missão, dentro da hora histórica que estamos vivendo”.
O próprio presidente João Goulart advogaria às vésperas de sua deposição
“a necessidade de revisão da Constituição [de 1946], que não atende mais
aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação”51.
O segundo diagnóstico possível era o de que, embora as instituições (o
país legal) estivessem em consonância com as necessidades do estado social
(país real), elas não adquiriam efetividade: elas não “pegavam”, não saiam
do papel. Conforme formulado pelo lado direito ou esquerdo do espectro
político, esse mesmo diagnóstico de inefetividade institucional despertava
diferentes reações. Na Primeira República, conservadores como Campos
Sales e Alcindo Guanabara resignavam-se com a realidade, alegando que
o mal não estava nas instituições, que eram boas, mas na realidade social,
que era má. Era o que afirmava Guanabara:
País vasto, de população escassa, disseminada, a que falta
até a instrução primária, não oferece outra base para o
regime representativo, senão a da influência que em cada

49 
CAMPOS, Francisco. O Estado Nacional: sua estrutura, seu conteúdo ideológico. 3. ed. Rio de Janeiro: Livraria
José Olímpio, 1941. p. 36.
50 
RAMOS, G., 1960, p. 25.
51 
FERREIRA, Jorge; GOMES, Ângela Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime
democrático e instituiu a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. p. 273.

27
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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região possam ter os poucos homens que por condições


de educação ou de fortuna exerçam sobre esses povos uma
influência que lhes é ordinariamente benéfica e a que eles
se submetem sem querer, nem poder analisá-la nas suas
consequências e efeitos52.

Por conseguinte, o poder constitucionalmente atribuído ao povo


deveria ser exercido de fato pelas oligarquias, até que o desenvolvimento
trouxesse a transformação social. Antes disso, de nada adiantaria reformar
o sistema, atitude que, ao contrário, poderia provocar a instabilidade e com-
prometer a ordem necessária ao progresso. Por outro lado, os progressistas
alijados da participação política atribuíram a infetividade das instituições
à maldade, à corrupção e à falta de civismo da classe política. O problema
era moral, Rui Barbosa declarava em 1919:
No terreno das coisas públicas, entre nós, a mentira constitui
o instrumento, por excelência, da usurpação da soberania
nacional pela oligarquia da União, pelas oligarquias dos
Estados, pelas oligarquias das municipalidades. Cada uma
delas mente, assumindo o nome do regime constitucional,
que absorveu, e matou53.

Entretanto a sociedade civil também tinha sua parcela de culpa, “pela


sua abstenção, pela sua frouxidão, pela sua desorganização”, ele acrescentava54.
A mesma crítica seria repetida e generalizada um século depois por outro
jurista constitucional, Luís Roberto Barroso. Pela falta de espírito cívico
dos políticos brasileiros e suas elites egoístas, “as Cartas brasileiras sempre
se deixaram inflacionar por promessas de atuação e pretensos direitos que
jamais se consumaram na prática”55.
A terceira e última percepção possível era a de que as instituições
(país legal) estariam demasiado adiantadas em relação às necessidades do
estado social (país real). Nesse caso, a reação dos intelectuais foi no sentido
de demandarem reformas capazes dereduzir o hiato entre o idealismo das
instituições estrangeiras a fim de aproximá-las das necessidades de uma

52 
GUANABARA, Alcindo. A presidência Campos Sales. Brasília: UnB, 1983. p. 62.
53 
BARBOSA, Rui. Campanhas Presidenciais, v. IV. São Paulo: Iracema, s/d, p. 169.
54 
Ibidem, p. 143.
55 
BARROSO, Luís Roberto; BARCELLOS, Ana Paula de. O Começo da História: a Nova Interpretação
Constitucional e o Papel dos Princípios no Direito Brasileiro. Interesse Público, v. 5, n. 19, p. 51-80, 2003. p. 51.

28
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

realidade nacional periclitante. Este foi o caso dos conservadores na época


do Regresso (1837-1843), como Bernardo Pereira de Vasconcelos e Lopes
Gama. Para eles, a causa da desordem e das guerras civis do período residia
nas instituições liberais adotadas no Brasil, baseadas em doutrinas liberais
de caráter metafísico, sem atenção às suas circunstâncias e necessidades
mais imediatadas, que eram de ordem e autoridade: “Transplantamos para
o Brasil legislações exóticas acomodadas a outros costumes e condições
sociais, e ficamos em pior estado do que estávamos”, sentenciava Lopes
Gama em 183956. Em 1930, os nacional-reformistas da Primeira República
reiterariam a crítica de Vasconcelos e Lopes Gama: inspiradas por um
cosmopolitismo estrangeiro e por um teorismo abstrato, as elites brasilei-
ras insistiam em ministrar ao Brasil fórmulas vãs de desconcentração do
poder. Elas deveriam estudar a realidade nacional para perceberem que o
momento exigia, ao contrário, o fortalecimento do poder do Estado a fim
de afungentar os fantasmas do separatismo e do imperialismo, e forjar a
nacionalidade brasileira: “Os nossos construtores de Constituições têm
sido espíritos idealistas, que desconhecem por inteiro o meio e o povo para
os quais legislam”, explicava Oliveira Viana57. Nasceria, assim, outro tema
famoso da cultura política brasileira, relativo ao idealismo utópico da nossa
elite, que deveria ser substituído por outro, de cunho orgânico, baseado na
observação e na experiência da cultura nacional.

DESILUSÃO COM O FORMALISMO E FORMAÇÃO DAS


VANGUARDAS POLÍTICAS

O tema das vanguardas modernizadoras está ligado ao “processo de


desilusão” com o processo de desenvolvimento político promovido pela
importação das instituições políticas. Descrentes da capacidade de o povo
ou a sociedade civil desentravarem os obstáculos ao progresso, diversos gru-
pos investiram-se ao longo do tempo do papel de porta-vozes do moderno,
elaborando projetos nacionais alternativos, destinados a alavancar o pro-
cesso de desenvolvimento, conforme o ideal de modernidade que tinham
em mente. O fenômeno pressupõe que a maior parte do povo encontra-se

56 
ASI, 18/05/1841
57 
VIANA, F. Problemas de Política Objetiva. Rio de Janeiro: Record. 1974a. p. 46.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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decaída demais para conseguir regenerar-se pelas próprias mãos, e que cabe
a um punhado de cidadãos patrióticos a iniciativa de agir em seu nome.
Trata-se de uma vanguarda que se pensa investida de um mandato do povo
para agir em seu nome e interpretando seus interesses, como nos casos do
movimento Abolicionista dos anos de 1880 e do Movimento Tenentista
dos anos 192058. As vanguardas pulularam especialmente em momentos
de crise do sistema político-constitucional, quando o vácuo de legitimi-
dade da classe dirigente abriu brechas para a emergência de outros atores,
“não profissionais”, com pretensões de liderança, bem como dos projetos
alternativos de desenvolvimento de que seriam os portadores privilegiados.
Essas vanguardas podem no Brasil ser diferentemente classificadas, con-
forme estejam localizadas no interior do Estado ou da sociedade civil. As
mais importantes têm sido aquelas situadas no âmbito do próprio Estado,
graças ao peso da burocracia na história nacional. A importância de uma
tecnocracia ilustrada para servir de suporte à ação progressista do gover-
nante seria reafirmada por um sem número de intelectuais, como Euclides
da Cunha, Vicente Licínio Cardoso, Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos.
Este etos se manifestaria de forma particularmente aguda nos engenheiros
e nos sanitaristas das décadas de 1910-1930, como Everardo Backheuser
e Belisário Pena, que veriam suas atividades como constitutivas de uma
missão de redenção nacional59. No âmbito da sociedade civil, diversos de
seus segmentos apresentaram-se como a corporificação por excelência da
Nação, dispondo inclusive de intelectuais orgânicos, como os fazendeiros
(Tavares Bastos), os industriais (Azevedo Amaral), os bacharéis (Rui Barbosa),
os intelectuais do partido comunista (Caio Prado Jr.) etc. Não havendo aqui
espaço para referir-me a cada uma delas, me centrarei nas mais importantes,
que eram aquelas vinculadas ao Estado.
Sintonizado com os ideais ilustrados, o mais antigo discurso vanguar-
dista da burocracia estatal prescreve que o chefe de governo, apoiado por um
grupo de tecnocratas esclarecidos, deveria agir como o motor por excelência
da modernização nacional, devendo-se lhe delegar o poder necessário para

58 
NABUCO, J. O Abolicionismo. Petrópolis: Vozes, 1988; SANTA ROSA, Virginio. O Sentido do Tenentismo. 3.
ed. São Paulo: Alfa Ômega, 1976.
59 
LIMA, Nísia Trindade. Um sertão chamado Brasil. Rio de Janeiro: Evan, 1998; HOCHMAN, Gilberto. A Era do
Saneamento: as bases da política de saúde pública no Brasil. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 2012; MAIA, João Marcelo
Ehlert. A Terra como Invenção: o espaço no pensamento social brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

30
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

derrotar os obstáculos à sua promoção. No século XIX, integraram esse grupo


políticos conservadores, como José Bonifácio, o Barão de Santo Ângelo e o
Visconde de Uruguai. Todos eles reivindicaram o poder da Coroa de criação e
manutenção da ordem nacional, mas também liberais como Joaquim Nabuco
e positivistas, como Miguel Lemos e Teixeira Mendes, que apelaram ao poder
pessoal do chefe de Estado para que o empregassem como um instrumento
de modernização da sociedade brasileira. No século XX, a apologia do poder
pessoal do governante voltaria pelas mãos dos intelectuais que davam susten-
tação à direção impressa por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, como
Monte Arrais, Oliveira Viana, Francisco Campos e Azevedo Amaral. Como se
percebe, a tese de que o governante seria o principal agente da modernização
na periferia não é necessariamente autoritária, nem privativa da direita. Ela
permanece nos regimes democráticos dos países periféricos, expressa na
defesa do sistema de governo presidencialista, justificado como instrumento
indispensável para o enfrentamento com uma classe política comprometida
com os interesses conservadores, encastelada no poder legislativo. A tese
do governante como vanguarda transpôs as fronteiras da burocracia para
tornar-se, no começo do processo de democratização, a pedra de toque do
sindicalismo e do corporativismo brasileiros. É o que demonstram o pres-
tígio que junto aos trabalhadores gozaram Getúlio Vargas, João Goulart e,
recentemente, Luís Inácio Lula da Silva.
Entretanto, conforme foram se especializando e ganhando autonomia
relativa do governante enquanto corporações, os magistrados e os militares
passaram a concorrer com ele na condição de vanguarda, entendida como
verdadeira depositária do interesse público. O mais célebre grupo buro-
crático a reivindicar o papel de “vanguarda iluminista” foram, sabe-se, os
militares. Desde o fim do Império, seus porta-vozes de inspiração positivista
e jacobina, como Benjamin Constant e Lauro Sodré, passaram a veicular a
tese de que os soldados seriam “cidadãos fardados”: os militares seriam os
mais patrióticos de todos os cidadãos; os únicos dotados de, num ambiente
de decadência cívica da classe política civil (a “pedantocracia”) e da apatia
do povo, darem a vida pela Pátria. Por esses motivos, sua obediência ao
governo dependeria da legalidade de suas ordens, interpretada pelos pró-
prios militares segundo seus representantes abalizados (geralmente, o Clube
Militar). Essa ideologia teve papel importante no golpe republicano de 1889;

31
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

desde então, os militares não mais cessaram de se imaginarem os tutores


do novo regime. Embora basicamente restrita à mocidade militar durante a
Primeira República, o ideário salvacionista voltou a manifestar-se durante
a presidência do marechal Hermes da Fonseca. A mocidade militar ressus-
citaria em seu ímpeto revolucionário na década de 1920 com o movimento
tenentista. Seus principais intérpretes foram Juarez Távora e Virgínio Santa
Rosa, que descreviam o exército como porta-voz das aspirações nacionais.
Entre 1930 e 1945, inverteu-se a equação: generais protofascistas, como
Góis Monteiro, passaram a veicular a tese de que o Exército, ao revés, é que
deveria servir de espelho à reorganização nacional. Restabelecido o regime
liberal-democrático, no contexto da guerra fria, militares como Golbery do
Couto e Silva pregavam, nas décadas de 1950 e 1960, que a política brasi-
leira deveria se submeter às exigências da segurança nacional, destinada a
salvaguardar o desenvolvimento do País contra a ameaça do comunismo.
Na qualidade de defensores dos interesses nacionais permanentes contra
os políticos profissionais, os militares intervieram na política brasileira
em 1937, 1945, 1954, 1955, 1961 e 1964, quando tomaram o poder com
ânimo de permanência. Os 20 anos de regime militar, com sua prática de
tortura sistemática aos adversários e descalabro econômico dos últimos
anos, encarregaram-se de sepultar a ideologia do soldado-cidadão.
Com o fim do domínio militar e a redemocratização do País, os
militares foram paulatinamente substituídos na condição de vanguarda
burocrática pelos magistrados e promotores, especialmente os da esfera
federal. A despeito da pregação de um Pedro Lessa nesse sentido já na década
de 1910, a posição do juiz constitucional como a de um guardião do Estado
de direito permaneceu latente depois de 1930, quando, esperava-se, haveria
de se realizar. A causa, claro, foi a concorrência desleal promovida pelos
militares, que se investiram daquela missão, em detrimento dos magistrados
e dos bacharéis. A hora e a vez do Judiciário chegariam com a promulgação
da Constituição de 1988: a centralidade e a independência assumida pela
magistratura e pelo ministério público, principalmente a federal, de um
lado, e a ascensão do paradigma neoconstitucionalista, de outro, criaram
condições objetivas para a implantação de suas aspirações de protagonismo
na cena política. Segundo os defensores dessa orientação, o magistrado e
promotor público deveriam orientar a sua ação conforme um ativismo

32
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

constitucional, que os erigissem à condição de substitutos processuais da


própria sociedade civil na consecução de uma sociedade “republicana”, contra
a inépcia e a corrupção da classe política. A reivindicação para a magistra-
tura de uma posição “vanguardeira” tem sido, desde então, justificada por
juristas como Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa e Luís Roberto Barroso60.
Recentemente, este último declarou que, diante da decadência dos costumes
públicos, a crise do sistema representativo e o histórico de inefetividade
constitucional, o juiz constitucional teria hoje de assumir uma função de
vanguarda no Brasil: “Às vezes, é preciso uma vanguarda iluminista para
empurrar a história. É isso que legitima o nosso papel”61.

CONCLUSÃO

A despeito da imensa variedade de obras, temas e linhagens que


participam do universo do pensamento político brasileiro como um campo
de estudos próprio, procuramos, nesta introdução, estabelecer alguns dos
problemas centrais que acompanham a formação da reflexão sobre a política
no País. Em todos os casos, como buscamos mostrar, pensar o problema do
pensamento político no Brasil envolve o reconhecimento de uma relação
assimétrica entre centro e periferia, a partir da qual os desafios do atraso,
do progresso e da modernização são enfrentados. Ao mesmo tempo, esse
conjunto de problemas perpassa a formação histórica do País desde sua
constituição como nação independente no século XIX e é conformado pela
necessidade de dar respostas a processos políticos essenciais, tais como a
formação das instituições representativas e do judiciário, a disputa por
modelos distintos de Estado, a constituição de ideologias políticas, a orga-
nização da demanda por ampliação da cidadania e da participação política,
a disputa por modelos econômicos que colocarão o país na seara do pro-
gresso etc. Nesse sentido, o pensamento político brasileiro pode oferecer
um conjunto de instrumentos teóricos para a compreensão dos desafios e
disputas em torno da constituição da democracia no Brasil, reconhecendo
a importância essencial de pensá-la a partir dos problemas políticos que o
processo de democratização na periferia implica.
60 
LYNCH, C. Ascensão, fastígio e declínio da ‘Revolução Judiciária’. Insight inteligência (Rio de Janeiro), v. 79,
p. 158-180, 2017C.
61 
Jornal O Globo, 14/12/2013.

33
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Esta coletânea abarca um conjunto de capítulos resultados de trabalhos


desenvolvidos por pesquisadores ligados ao BEEMOTE – Laboratório de
Teoria Política e Pensamento Político Brasileiro – do Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).
Procuramos organizá-los de forma que sirvam como um panorama histórico
para um conjunto importante de problemas que conformam a constituição
do pensamento político brasileiro como um campo da Ciência Política, mas
em debate constante com a História, a Filosofia, o Direito, as Relações Inter-
nacionais e a Literatura, para citar alguns dos diálogos mais importantes.
Assim, temas como a constituição das linguagens políticas em contextos
periféricos, a formação da nação e das instituições representativas e jurídicas,
a formação de um pensamento internacional sobre o Brasil, a disputa por
modelos de modernização política e econômica e a emergência de novos
grupos e ideologias políticas são tratados aqui a partir de problemas his-
tóricos de nossa formação como comunidade política. Longe de limitar-se
às grandes e consagradas interpretações sobre o Brasil, a abordagem que
propomos remete ao estudo contextual dos debates políticos. Nesse sentido,
os estudos que compõem este volume envolvem não só a leitura de textos
clássicos de interpretação nacional, mas a reconstrução e compreensão de
debate parlamentares, da produção jornalística e periodística, de anais do
Parlamento, de documentos jurídicos e todo o material necessário à com-
preensão contextual do pensamento político brasileiro.

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40
Capítulo 1

AS LINGUAGENS DO LIBERALISMO POLÍTICO


E O PROBLEMA DA OPINIÃO PÚBLICA NO
PENSAMENTO DE EVARISTO DA VEIGA

Lidiane Rezende Vieira


Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro

INTRODUÇÃO

O presente artigo pretende apresentar alguns dos problemas teóricos


gerais para o estudo das ideias políticas em contexto periférico, tendo o
Brasil como objeto central de interesse. Por “periferia”, como discutire-
mos adiante, entendemos as formulações teóricas desenvolvidas em um
espaço geográfico que se compreende também temporalmente atrasado
e, ao mesmo tempo, pertencente ao mesmo “padrão civilizacional” das
nações cêntricas, compreendidas como pontos de referência culturais dos
quais emanam o conhecimento “originário” ou “verdadeiro”1. Devemos
lembrar que, aqui, o interesse central é trabalhar com as representações do
pensamento político periférico, não cabendo a nós discutir as condições
socioeconômicas reais do atraso, mas a autoconsciência dos atores quanto
à sua condição de “reféns espirituais” do velho mundo. Assim, o século XIX
deve ser tomado como um momento central na história do Brasil-nação
do ponto de vista da formulação de linguagens e instituições políticas que
expressam a autocompreensão do País como um ator político determinado
pela condição do atraso e da periferia, ao mesmo tempo em que pretende
dar forma à sua condição emancipada a partir da assimilação da herança
civilizatória dos países europeus.

1 
Ver: LYNCH, Christian. Por que Pensamento e Não Teoria? A Imaginação Político-Social Brasileira e o
Fantasma da Condição Periférica (1880-1970). In: Dados, v. 56, n. 4, 2013, p. 727-767.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

A hegemonia da cultura política europeia moderna e de suas variações


ideológicas impõe-se à “periferia” do ocidente no contexto da expansão colo-
nial que estabelece algumas das nações europeias – como França e Inglaterra
– como o centro cultural, econômico e militar do “mundo civilizado”. Nesse
contexto, o conceito de civilização não expressa apenas o “adestramento dos
costumes”, como encontramos nas sociedades de corte dos séculos XVII e XVIII,
mas confunde-se com a própria ideia de história universal que emerge com
as filosofias da história do século XVIII. A civilização passa então a descrever
o sentido continuo e progressivo dos povos e nações no tempo e no espaço,
hierarquizando-os de acordo com os critérios culturais e econômicos reco-
nhecidos como parâmetros para julgar o maior ou menos avanço no “processo
universal de civilização”2. A própria autocompreensão histórica dos povos
e nações fica submetida ao critério processual da civilização, na medida em
que a crença na necessidade de superar o atraso passa a ser condição central
para o desenvolvimento das nações modernas.
Orientadas para um teloz futuro de paz, riqueza, liberdade
e igualdade, haveria nações no “centro” do mundo, “mais
adiantadas”, “civilizadas”, que marchavam à frente, produzindo
ciência, arte e verdade. Outras, porém, estavam na periferia
do mundo, sendo “atrasadas”, “bárbaras”, devendo seguir os
exemplos e os modelos das primeiras para se “adiantarem”.
Era essa suposta superioridade da cultura europeia que jus-
tificava o colonialismo exercido por suas potências sobre as
áreas que se encontravam na sua periferia3.
No caso da América Ibérica, em especial, a elite colonial estava indisso-
luvelmente vinculada à cultura europeia pela formação e origens, percebendo
a colônia como uma continuidade imperfeita e atrasada da grande “marcha”
da civilização europeia4. Assim, pensar a reflexão política na periferia envolve,

2 
A bibliografia sobre o conceito de civilização e suas transformações no bojo da filosofia da história é longa e
desdobra-se em vários debates, especialmente em torno dos estudos pós-coloniais. Citamos, portanto, algumas
referências importantes para o presente trabalho: ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. 2. vols. Rio de Janeiro:
Zahar, 1990; JASMIN, Marcelo. Armadilhas da História Universal. In: NOVAES, Adauto (Org.). A Invenção das
Crenças. São Paulo: Cia. das Letras, 2011. LYNCH, Christian. Por que pensamento e não teoria? A imaginação
político-social brasileira e o fantasma da condição periférica (1880-1970). Dados (Rio de Janeiro. Impresso), v.
56, p. 727-767, 2013; TAGUIEFF, Pierre-André. Le sens du progrès. Une approche historique et philosophique. Paris:
Flammarion, 2004.
3 
Ibidem, p. 735.
4 
Ibidem, p. 738.

42
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

ao mesmo tempo, pensar o papel das elites no processo de modernização da


sociedade colonial: a autoconsciência do atraso levava, por consequência, à
crença de que apenas a ação política de uma determinada elite esclarecida,
formada a partir da herança cultural europeia, poderia assumir o protagonismo
das transformações que resultassem em progresso, medida para auferir o
quanto nos afastaríamos ou aproximaríamos do padrão civilizatório desejado.
Como ressalta Christian Lynch, tal perspectiva varia em função dos
fatores contextuais que cercam os agentes metropolitanos que reconhe-
cem seu caráter periférico e atrasado: tal expansão produziu resultados
que variaram em função de fatores como a época em que a expansão se
processou, os agentes metropolitanos que a produziram, o tipo de cultura
autóctone sobre a qual ela incidiu e do seu maior ou menor grau de absorção
pela de origem europeia5. À emancipação colonial, seguiu-se a tentativa
por eles perseguida de construírem seus Estados, adaptando as ideologias
e experiências históricas europeias. Como nota José Murilo de Carvalho,
em seu trabalho já clássico sobre a formação das elites políticas imperiais
no Brasil6, a uniformização intelectual e a burocratização das elites políticas
na constituição do Estado são marcas centrais de países nos quais o Estado
moderno desenvolve-se sem a companhia de uma economia capitalista
dinâmica. Assim, para superar a cultura política do atraso, resultante da
“deformação” colonial, era preciso, portanto, emular a cultura política dos
países cêntricos, a começar pela transposição dos modelos e instituições
políticas para a realidade nacional da colônia emancipada.
É nesse contexto de relação entre modernização e condição periférica
que ressaltamos a importância de trabalhar a recepção do contexto intelectual
europeu para entendermos o pensamento político brasileiro. Algumas das
teorias contemporâneas do estudo da teoria política e da história das ideias
de maior impacto, como o contextualismo linguístico de Quentin Skinner e
G. J. A. Pocock e a história conceitual de Reinhardt Koselleck, têm chamado
a atenção para a importância do reconhecimento do contexto intelectual
no qual os atores históricos estão imersos, sobre a circulação e recepção
de ideias em contextos transnacionais e suas respectivas reconfigurações,
de forma a estabelecer as condições de possibilidade do discurso e evitar
5 
Ibidem, p. 757.
6 
CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem/Teatro de Sombras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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certas distorções historicamente equivocadas do tipo que o comparativismo


filosófico pode incorrer7. A renovação historiográfica latino-americana nos
últimos anos tem levado em conta a importância de compreender as cone-
xões entre centro e periferia para o melhor entendimento da circulação e
ressignificação dos conceitos políticos nos contextos nacionais8. A condição
do pensamento político na América Latina impõe, portanto, a necessidade
de um rigor histórico: conceitos como “progresso”, “civilização”, “represen-
tação”, “liberdade”, “opinião pública” e “democracia” são objeto não apenas
de uma transformação temporal, mas fundamentalmente da necessidade
de adequação pelos agentes do discurso em um contexto periférico ao qual
estes últimos pertencem.

O PENSAMENTO POLÍTICO NO SÉCULO XIX: A RECEPÇÃO DE


IDEIAS E CONCEITOS EM CONTEXTO PERIFÉRICO

Estabelecidas as condições teóricas nas quais o problema se forma,


precisamos ressaltar a importância do período imperial para entender-
mos esse deslocamento. O contexto de formação da nação, do Estado, de
suas instituições políticas, dos discursos ideológicos aos quais os agen-
tes se referirão e da própria agenda política de modernização oferecem
um material fecundo para o estudo do pensamento político. O debate
em torno da criação de um regime constitucional, a possibilidade de um
regime representativo que conviva com a existência de uma monarquia
hereditária, a existência de liberdades públicas e garantias jurídicas, além
de diversos outros pontos da imaginação política brasileira do período
estão fundamentalmente permeados pelo contexto intelectual europeu. A
França, nesse sentido, exerce um papel de protagonismo, não só pelo caráter
francófilo da formação intelectual luso-brasileira, mas especialmente pelo
próprio contexto político do país: a França revolucionária – que, de acordo

7 
A principal referência teórica de síntese deste debate é a coletânea FERES JR., João; JASMIN, Marcelo (Org.).
História dos Conceitos. Diálogos Transatlânticos.Rio de Janeiro: Loyola, 2007. Confer: SKINNER, Quentin. Meaning
and Understanding in the History of Ideas. History and Theory. v. 8, n.1, p. 3-53. Sobe os problemas teóricos
centrais da história dos conceitos, ver: KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Contribuição à semântica dos
Tempos Históricos. Rio de Janeiro, PUC-Rio: Contraponto, 2006.
8 
Confer: MYERS, Jorge. Historia de los Intelectuales en América Latina I. La Ciudad Letrada. Buenos Aires: Katz,
2005; PALTI, Elias. El Tiempo de la Politica. El Siglo XIX Reconsiderado. Buenos Aires: Siglo Veitiuno, 2008.

44
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

com François Furet9, não se limita aos 10 anos da Revolução de 1789, mas
estende-se até a constituição definitiva da República em 1880, abarcando
o período bonapartista, a Restauração e o Segundo Império – representa
uma fonte imensa de material teórico e exemplos históricos para o debate
constitucional do século XIX.
Desde a primeira tentativa de monarquia constitucional em 1791,
passando pelas diversas constituições republicanas da Revolução, pela cons-
tituição do Império e culminando com a Carta de 1814, o intenso debate
sobre a criação de um regime representativo, da natureza da autoridade
que ele constituiria e dos limites da participação e do exercício do poder
serviria de fonte e referencial teórico para contextos políticos que buscavam
a consolidação de um governo constitucional não só na América Ibérica,
mas mesmo em países europeus como Espanha, Portugal e Itália. O topos
comum à imaginação política liberal do período é a busca pela solução para
o problema da limitação do poder. Como colocar limites legítimos a um
poder legitimamente constituído?
O período da Revolução à Restauração oferece, portanto, um modelo
especial para o Império brasileiro: é nele que o constitucionalismo liberal
moderado encontrará o exemplo histórico e uma teoria jurídico-política
para o modelo da monarquia constitucional. É claro que a referência de
“bom funcionamento” das instituições representativas permanece sendo
a constituição inglesa; contudo, do ponto de vista do material teórico
mobilizado para formatar as ideias e linguagens políticas, a presença de
autores franceses é consideravelmente mais expressiva. O debate sobre a
existência, a limitação e as funções da autoridade real no contexto francês
terão um impacto decisivo sobre a Carta de 1824 no Brasil10. Nesse cenário,
o universo de autores do liberalismo político tem um maior protagonismo:
a inexistência de um poder absolutista prévio à fundação da nação faz com
que a polaridade entre liberalismo constitucionalista e conservadorismo
monárquico-absolutista fique relegada a um contexto menor no Brasil11.
Assim, o debate político nacional já nasce sob o signo do liberalismo político:
9 
FURET, François. La Révolution Française (1789-1880). Paris: Fayard, 2010.
10 
Confer: LYNCH, Christian. O Momento Monarquiano. O Poder Moderador e o Pensamento Político Imperial. Tese
(Doutorado em Ciência Política), Iuperj, 2007.
11 
Confer: NEVES, Lucia Maria Bastos Pereira das. Corcundas e Constitucionais. A cultura política da Independência
(1820-1822). Rio de Janeiro: Revan, Faperj, 2003.

45
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tendo a necessidade de um governo constitucional como ponto de partida,


a polaridade concentrar-se-á na divergência entre aqueles que advogavam
uma maior expansão do poder real – normalmente identificados com os
defensores da centralização e com o partido conservador – e aqueles que
partiam da necessidade de uma restrição considerável das funções da coroa
para que existisse um verdadeiro governo representativo no Brasil – os
partidários da descentralização, eventualmente federalistas e alinhados com
partido Liberal. Em ambos os casos, encontramos reiteradamente o recurso
às linguagens políticas do liberalismo formulado nos países cêntricos12.
O modelo do liberalismo da Restauração, buscando coadunar a exis-
tência da autoridade real com a liberdade pública e demais garantias cons-
titucionais, também seria responsável por uma das interpretações mais
importantes da Revolução de 1789: desta última, o liberalismo buscaria
salvar o elemento da liberdade e as conquistas constitucionais, em contra-
posição ao assédio do elemento democrático, entendido como o avanço
do republicanismo radical sustentado pela ideia de soberania do povo13.
O modelo seria explorado por diversos interpretes do movimento, desde
Benjamin Constant, em seu panfleto Des Reactions Politiques; passando por
Royer-Collard, cuja obra defende a monarquia constitucional como uma
transação entre a autoridade monárquica e a liberdade revolucionária, e o
modelo historiográfico de François Guizot, no qual a obra da Revolução é
explicada como a conciliação entre a liberdade pública e uma autoridade
legítima e centralizadora14. Esse modelo de interpretação histórica encon-
traria sua expressão mais influente na literatura política brasileira na obra
do jornalista e parlamentar Justiniano José da Rocha que, em seu panfleto
de 1855, intitulado Ação, Reação e Transação, define a independência e
consolidação do estado-nação no Brasil como a síntese de um processo
12 
Embora não tenham alcançado o poder neste período histórico e sejam menos esrudados no campo da his-
toriografia, o grupo político exaltado cumpre importante papel na redefinição do espectro político e, portanto,
das disputas pelos conceitos e práticas políticas. Confer: BASILE, Marcello. Luzes a quem está nas trevas: a
linguagem política radical nos primórdios do Império. In: Topoi, Rio de Janeiro, p. 91-130, set. 2001ª; ______.
O império em construção: Projetos de Brasil e ação política na corte regencial. 490f. Tese (Doutorado) – UFRJ/
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/ Programa de Pós-Graduação em História Social, 2004.
13 
CASSIMIRO, Paulo. A impossível liberdade dos antigos: Germaine de Staël, Benjamin Constant e o nascimento
da cultura liberal pós-revolucionária na França. Revista Estudos Políticos, v. 7, n. 1., 2017.
14 
Sobre os modelos de explicação da revolução, nos referimos à nossa tese: CASSIMIRO, P.H.P. O Abismo do
Tempo. História, Liberalismo e Democracia no Pensamento Político Francês (1789-1848). Tese (Doutorado), Instituto
de Estudos Sociais e Políticos- Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2016.

46
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

político que colocava a existência de uma monarquia parlamentar sob o


risco das forças democráticas (a ação) e das absolutistas (a reação)15. Assim,
pela leitura de discursos parlamentares, pela importação das obras políticas
e pela circulação do Diário de Debates e da Revista dos Dois Mundos, órgãos
de difusão do liberalismo doutrinário, a influência do liberalismo francês
foi imensa no Império até pelo menos a década de 1870. O Brasil, em todo
o mundo, foi o maior assinante estrangeiro daquelas duas revistas16.
Contudo cabe aqui nos perguntarmos como a tentativa de transplan-
tação de conceitos oriundos desse espaço público que se forma e dessa nova
retórica da legitimidade do político que ganha precedência nesse espaço
público podem florescer no solo de uma colônia que se torna “moderna”
sob o signo do atraso e da carência? O liberalismo político não existe apenas
como teoria que providencialmente resulta em uma transformação radical
da realidade social e política: antes, ele floresce no seio de transformações
estruturais de longa duração que – como bem mostrou Tocqueville –
percorrem o caminho da dissolução de uma sociedade hierarquicamente
organizada para a constituição de uma sociedade sustentada pelos valores
do principio formal da igualdade, pela liberdade pública e pelo sistema
representativo. Nesse sentido, cabe interrogarmos se, ao buscar o libera-
lismo para constituir politicamente uma nação na qual a impossível via
para o passado absolutista estava descartada e a sempre provável opção pelo
republicanismo oligárquico – que, de resto, será seguida pelo restante do
continente – aparecia como pouco recomendável e extremamente arriscada,
não estariam os nossos liberais “moderados” e monarquistas constitucionais
optando por uma “ficção” impossível, que mascararia, sob o signo artifi-
cial da modernidade, as relações essenciais de dominação e opressão que
definem a essência da sociedade brasileira? O liberalismo não seria, então,
uma “ideia fora do lugar”, aparência de cosmopolitismo intelectual sob a
qual se oculta a incapacidade das elites dirigentes em superar a condição
periférica do modelo colonial? Um dos pontos que buscaremos ressaltar
no presente trabalho é que a boa compreensão do contexto de formação
do pensamento político no Brasil pode aprofundar a relação entre ideias
15 
ROCHA, Justiniano José da. Ação, Reação e Transação. In: MAGALHÃES Jr., Raimundo. Três Panfletários do
Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2009.
16 
CALMON, Pedro. História Social do Brasil. II Tomo: Espírito da Sociedade Imperial. São Paulo: Companhia
Nacional, 1937. p. 23.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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e contexto na medida em que, ao dar dignidade às ideias, colocamo-nos


diante de uma nova dimensão, mais ampla e complexa, da realidade nacio-
nal: não existe, de um lado, uma defesa abstrata das ideias e do outro um
reconhecimento realista das circunstâncias. A retórica e a doutrina não
ocultam as circunstâncias, mas buscam, pelo menos no que concerne às
doutrinas políticas, “forçá-las” à adequação e à transformação. Ao mesmo
tempo, tal “esforço” permite-nos compreender as opções políticas que os
agentes do discurso político tomam, revelando a seleção – e, juntamente,
a exclusão – dos atores sociais considerados aptos ou competentes para
realizar a superação do legado colonial.
Elias Palti, em seu trabalho sobre o problema da legitimidade no pen-
samento político mexicano do século XIX17, chama a atenção para o fato de
que a formação política das nações que se tornam independentes naquele
período sofre de desafios semelhantes aos dos países cêntricos que operam a
transição do regime monárquico absolutista para um regime constitucional
e representativo restrito: em ambos os casos, transformar ou construir uma
nova legitimidade política pressupõe reformular os princípios políticos e
mecanismos institucionais que mediam a ação política. Cabe então aos
atores políticos no contexto de formação da nação independente repensar a
própria ideia de comunidade política, não mais como um espaço que deriva
sua existência do corpo soberano do rei, mas como uma esfera relativamente
aberta na qual a invenção jurídica do indivíduo-cidadão dotado de direitos
ganhe alguma existência real como fonte da legitimidade política. Nesse
sentido, o predomínio da linguagem política e constitucional do liberalismo
marcará a formação das novas nações latino-americanas: a saída política
se dará essencialmente pela busca de um novo modelo institucional que
reconheça a necessidade do governo representativo, das liberdades públicas
e do reconhecimento de uma soberania externa ao rei.
Assim, como nos lembra Lucia Bastos, o período de formação nacio-
nal – mais precisamente, o período de intenso debate político que antecede
à independência e a formulação da primeira constituição – desenvolve,
ainda que limitadamente, uma noção de “opinião pública” no mundo luso

PALTI, Elias José. La invención de una legitimidad. Razón y retórica en el pensamiento mexicano del siglo XIX.
17 

México: FCE, 2005.

48
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

-brasileiro18. A combinação da sociabilidade das elites e da liberdade de


imprensa quase irrestrita que vigorava então criou um espaço público
– ainda muito precário, restrito a uma camada alfabetizada e urbana e for-
temente condicionado por fatores socioeconômicos relacionados às elites
econômicas locais – que deu à cultura política da independência alguma
dimensão pública. Assim, aquilo que Elias Palti chamou de “modelo jurídico
da opinião pública” pressupõe que, a despeito da restrição das liberdades
políticas e do regime representativo, o modelo constitucional deve estar
aberto em algum grau a um tipo de legitimidade política que reconhece o
protagonismo da sociedade e funda-se na ficção jurídica da nação como
detentora legítima da soberania.
Contudo como coadunar a retórica política com os desafios não
superados pelas dificuldades constituintes das nações na periferia do oci-
dente moderno? Devemos então nos perguntar sobre as limitações da
compreensão das doutrinas e linguagens políticas colocadas diante das
aporias da realidade material do atraso. Uma reação comum ao enfoque da
história das ideias dedicado ao estudo sobre o Brasil consistiu na análise de
como as ideias europeias, uma vez transportadas para um ambiente distinto
daquele onde se originaram, distorciam-se diante das dificuldades reais da
sociedade brasileira. Assim, o universalismo das doutrinas progressistas
da Europa e Estados Unidos, na virada do século XVIII e XIX, como o
liberalismo ou o federalismo, revelariam suas limitações ao serem coop-
tadas pelas forças conservadoras e oligárquicas que mantinham o mando
político das ex-colônias. Contudo, para intérpretes que buscam entender
esse processo de “alienação” das ideias com relação aos processos reais do
capitalismo, a própria natureza da inadequação das ideias ao real é invertida
em contextos periféricos como o Brasil: como dirá Roberto Schwarz, se na
Europa as ideias universais do liberalismo buscavam encobrir o “real” – a
exploração do trabalho – no Brasil, as ideias, na verdade, expunham com
maior clareza a realidade material do atraso e da dominação, produzindo
uma forma “original” de alienação.
A declaração dos Direitos do Homem, por exemplo, transcrita
em parte na Constituição Brasileira de 1824, não escondia

18 
NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Corcundas e Constitucionais: cultura e política (1820-1823). Rio de
Janeiro: Revan, 2003. p. 416.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

nada, como tornava mais abjeto o instituto da escravidão. A


mesma coisa para a professada universalidade dos princípios,
que transformava em escândalo a prática geral do favor19.
Assim, diante da incapacidade de “ocultar” a dominação por trás do
direito – como procederam as constituições burguesas a partir da Revolução
de 1789 –, as ideias universais do liberalismo no Brasil reforçariam a sua
natureza “fora do lugar” e, por conseguinte, exporiam com mais clareza as
contradições do atraso.
A perspectiva que o presente trabalho busca desenvolver afasta-se
consideravelmente daquela indicada por leituras como a de Roberto Sch-
warz, sustentadas por uma ideia de que a relação entre pensamento político
e contradições reais é sempre determinada pelo critério da ocultação e do
mascaramento da esfera efetivamente determinante dos processos históricos.
Tal modelo teórico de explicação da história das ideias toma os discursos
políticos como desvios que, nas palavras de Elias Palti, ocultariam um pathos
que, em verdade, revelariam a crença em uma historicidade transplan-
tada20, pura importação descolada de uma realidade histórica cuja natureza
permanece oculta por sob os véus da ideologia alienígena. Ora, em nossa
compreensão, tais concepções não permitem entender a própria natureza
política das ideias. A ambiguidade da relação entre linguagens políticas e
condições socioeconômicas fortalece o caráter político do processo, ou seja,
é por meio dessas ambiguidades que podemos compreender estratégias
políticas de dominação e modernização, na medida em que a constituição de
uma nova sociedade, articulada por um espaço público no qual linguagens
políticas confrontam-se, só pode ser compreendida a partir das estratégias
discursivas que se apresentam como ideologias que, no entanto, buscam
referências em linguagens políticas já estabelecidas nos contextos cêntricos.
A linguagem reflete não só padrões sociológicos de sociabilidade política
de elites que ocultariam, mediante uma linguagem moderna, o atraso real
da sociedade, mas antes estratégias de dominação política e modernização
social e econômica. É na ambiguidade, no eixo onde se encontram uma e
outra que reside o verdadeiro interesse do estudo do pensamento político.
Citemos novamente Palti:

19 
SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1973. p. 1-2.
20 
PALTI, 2005, p. 33

50
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

De este modo, una historia de los lenguajes políticos proveería


un marco para concebir cómo las tensiones proprias de um
periodo dado se despliegan en el interior de los discursos y
pueden eventualmente dislocarlos, desestabilizando su lógica
interna y régimen de funcionamiento (lo que Pocock define
en términos de “irrupción de la temporalidad” en el pénsa-
miento político); de esta manera se evitan las concepciones
mecanicistas de las relaciones entre “ideas” y “realidades”, que
lleva a ver a las primeras meramente como representaciones,
más o menos distorsionadas, de las segundas21.

O PROBLEMA DA “OPINIÃO PÚBLICA” NO PENSAMENTO DE


EVARISTO DA VEIGA

Tomemos como exemplo, para ilustrar nosso raciocínio, o caso do


conceito de opinião pública presente na obra do jornalista e político bra-
sileiro Evaristo da Veiga22 (1799-1837), editor e redator do jornal A Aurora
Fluminense. Além dos problemas constitucionais da liberdade política, o
problema da liberdade de imprensa marcava presença constante no Aurora.
Logo em seu primeiro número, o periódico apresentava a imprensa livre
como uma “arma poderosa, que nossas ainda jovens e débeis mãos devem
aprender a manejar com destreza, para lutarem contra o despotismo, e
contra o governo absoluto”23, transformando-a em um remédio para sanar
as enfermidades na Administração da justiça e finalmente, na “luz que
dissipa as trevas do atraso na Civilização”24. A liberdade de imprensa, no

21 
Ibidem, p. 38.
22 
Após Hipólito da Costa (1764 – 1823), o nome de maior importância para a corrente liberal moderada
foi Evaristo da Veiga, que se dedicou à tarefa de aclimatar às circunstâncias brasileiras o liberalismo clássico
europeu. Nascido no Rio de Janeiro em 1799, autodidata e representante da classe média, a burguesia que se
formava, Evaristo era fundamentalmente moderado, acreditando em uma posição de equilíbrio entre a conser-
vação e o progresso. Quanto ao pensamento político, filiava-se à concepção dos monarquistas constitucionais
representativos, engajado em uma luta política contra os excessos dos riscos do radicalismo e do absolutismo. A
contribuição feita por Evaristo foi exercida em duas esferas distintas: uma jornalística, por meio da qual o autor
difundiu o liberalismo europeu filtrado pela realidade brasileira; e outra política, desempenhando o papel de
deputado de oposição ao governo do Primeiro Reinado e, posteriormente, exercendo a liderança do grupo que
ascendeu ao poder, até 1837, quando se desintegrou. De vida curta, Evaristo morreu aos 38 anos de violenta febre.
Para maiores informações sobre Evaristo ver: SOUSA, Otávio Tarquínio de. Evaristo da Veiga. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: Universidade de São Paulo, 1988.
23 
AURORA FLUMINENSE. Rio de Janeiro. s. ed., n. 1-1136, p. 4276 – dez 1827 a dez 1835. Disponível em:
<http://migre.me/t26Y1>. Acesso em: 18 jun. 2016, n.1, 21/12/1827.
24 
Ibidem, n. 5, 04 jan. 1828.

51
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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entanto, não é exclusivamente um fim em si mesma, mas possui um papel


pedagógico desempenhado pelos periódicos:
Como se pode aumentar a Instrução pública sem um livre
canal, por onde ela se espalhe? Como pode ser patente a
inobservância da lei com a coibição da Imprensa? Como se
poderá conter o Patronato sem o temor da publicação de seu
perigoso império? Seriam precisas longas páginas para fazer
a enumeração dos males, que provem da proibição da justa
Liberdade de Imprensa: Será bastante que reflitamos, e pres-
temos toda atenção a esses desgraçados Povos, cujos Chefes
cegos, e seduzidos por estúpidos validos, esses Camelos do
Despotismo, e peste das Nações, os tem envolvido no escuro
manto do atraso, e da Servidão, suplantando-lhes a defensora
de seus direitos, e a promotora de sua propriedade25.
A opinião pública não é o simples resultado da liberdade de imprensa.
Ao contrário, ela é a força que traduz o que a sociedade é, como ela se expressa
em termos de ação política. Se a liberdade de imprensa, como diz Evaristo,
fortalece consideravelmente os “progressos incríveis da opinião pública”26, ela
passa, então, a ser condição do governo liberal por ser o meio por excelência
de expressão da opinião pública. Em diversas passagens, Evaristo opõe ao
despotismo não à liberdade ou à constituição, mas à opinião pública. Ela é a
grande garantia, nas páginas do Aurora Fluminense, contra o uso arbitrário do
poder e em favor da preservação das liberdades individuais. Nesse sentido,
a retórica liberal do jornalista mobiliza, em primeiro lugar, a dimensão da
sociedade como agente limitador dos excessos e do assédio do poder absoluto,
antes mesmo das seguranças constitucionais. Citando Pierre Danou – um
dos principais autores da Constituição do Ano III da Revolução Francesa
e interlocutor de Madame de Staël e Benjamin Constant –, o Aurora ecoa
um dos argumentos clássicos do século XVIII para a defesa da liberdade de
imprensa: o progresso das luzes e da civilização está inextrincavelmente
ligado à expansão da circulação e do acesso ao conhecimento. E, em seguida,
ao comentar a passagem de Danou, seu redator afirma que, no momento
do fechamento da Assembleia Constituinte de 1823, o surgimento de um
jornal livre, O Verdadeiro Liberal, seguido de outros na capital e na provín-
cia, garantiu a sustentação aos princípios do governo livre e constitucional
25 
Loco citato.
26 
Ibidem, n. 11, 25 jan. 1828.

52
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

contra a tendência despótica da autoridade27. Assim, Evaristo, ao interpretar


os acontecimentos em torno da Assembleia Constituinte de 1823, inverte
um topos comum à interpretação tradicional da monarquia constitucional
brasileira: a liberdade e, por conseguinte, as garantias constitucionais não
emanaram da soberania esclarecida do monarca; foi antes a opinião pública,
exercida e fortalecida pela imprensa livre, que impediu o desvio despótico
na constituição do arcabouço institucional do Império.
Evaristo afirmava que tanto a constituição eletiva do poder quanto a
fiscalização ativa da sociedade precisam da publicidade dos atos do governo
para serem bem exercidas. A Aurora encarna este papel doutrinário, conferindo
à imprensa periódica um caráter facilitador da prática política, visto que, por
intermédio dos jornais, o povo pode instruir-se de forma a contribuir para a
organização do poder da opinião. Dentre os benefícios que o exercício desse
direito pelos cidadãos trouxe ao País, está a independência, as instituições e a
esperança do desejo de perfeição, do progresso intelectual e da marcha ascen-
dente da sociedade28. Ainda na fase da oposição, Evaristo investia de maneira
intensa na formação de uma opinião nacional que, a médio e longo prazo,
possuísse autonomia frente ao governo para conter suas constantes tentativas
de avanço. Sendo assim, o papel do publicista não é apenas o de divulgador de
informação, mas o de catalisador da construção da opinião pública29. Estamos
aqui no centro do problema colocado pela relação entre o doutrinarismo polí-
tico de Evaristo e sua relação com as características periféricas da sociedade
brasileira em construção: ora, se a opinião pública – mediada pela imprensa
livre – é o instrumento essencial de controle e fiscalização dos atos do governo
pela sociedade, detentora da legitimidade da ordem política, como proceder
diante de uma sociedade que se constitui sob o signo do atraso e pouco con-
soante com a modernidade política que molda a concepção liberal do político. A
obra de Evaristo, nesse sentido, é um modelo paradigmático dessa contradição
histórica no campo do pensamento político brasileiro.
A presença de doutrinários franceses e eventualmente ingleses é
marcante e constante, especialmente nos primeiros anos do jornal, quase
sempre introduzindo uma edição do periódico com excertos teóricos discu-
27 
Ibidem, n. 15, 08 fev.1828.
28 
Ibidem, n.162, 06 mar. 1829.
29 
Ibidem, n.16, 11 fev. 1828.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

tindo pontos fundamentais do liberalismo. Passam pelas páginas do jornal,


além de diversas traduções de Benjamin Constant e Pierre Danou, citações
extensas de Madame de Staël e François Guizot, trechos do Conde de Lan-
juinais e mesmo do historiador inglês Robert Southey, autor de uma célebre
História do Brasil. Boa parte desses textos discute ou apresenta o conceito
de “opinião pública” como central para a composição da legitimidade do
político no imaginário liberal. Nesse sentido, a opinião pública confunde-se
com a Revolução, ela é um dos signos da modernidade política que nasce
com a dissolução da sociedade hierarquicamente organizada e, mais do que
isso, ela impõe uma nova forma de pedagogia política e de reconhecimento
da legitimidade do poder exercido pelo Estado representativo: “A opinião
pública se torna a mais forte mola do Estado: a publicidade previne as pre-
varicações; a ignorância cede às luzes [...]enfim extinguem-se os privilégios
e a Nação se torna quase homogênea”30. Identificada pela tradição liberal
como a força por excelência que conduz os assuntos públicos no período
pós-revolucionário; a opinião é presa da sua origem revolucionária: ela pode
ser indistinta do movimento potencialmente destruidor das forças populares,
pode ser constituída, enquanto objeto de apropriação e manipulação, pelas
forças radicais ou pelo Estado que deseja aumentar seu poder de maneira a
aparentar legitimidade. Dirá Evaristo que a confusão entre opinião pública
e Revolução é usada pelos governos para fazer a primeira se calar31.
Eventualmente, a Aurora apresenta a opinião pública como uma força
teleológica, infensa ao arbítrio e às circunstancias humanas e que conduziria
providencialmente a história em direção à liberdade: “a opinião pública,
a qual tão livre, como o destino, não está sujeita nem ao império das Leis
escritas, e transitórias, nem ao capricho das decisões humanas”32. Porém,
aparte esses abusos retóricos, a discussão doutrinária do periódico segue
fielmente as recomendações teóricas do liberalismo cêntrico: ela é, essen-
cialmente, o instrumento de inferência “republicana” das forças sociais. A
opinião pública expõe à sociedade os “objetos de interesse geral”33. O povo,
dirá Evaristo, antecede a existência da opinião pública. Antecede mesmo a

30 
Ibidem, n. 524, 31 ago. 1831.
31 
Ibidem, n. 59, 25 jun. 1828.
32 
Ibidem, n. 82, 22 ago. 1828.
33 
Ibidem, n. 136, 21 jan. 1829.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

existência da ideia de “público”, entendido como esfera da ordem política


a quem o poder deve prestar esclarecimentos dos seus atos34.
Evaristo contrasta a “minoridade do povo” com o progresso da opinião
pública no Brasil: de um lado, encontramos o elemento arcaico e ligado às
raízes tirânicas do despotismo colonial; do outro, o elemento moderno e
modernizante, lócus da verdadeira legitimidade política que o liberalismo
precisa encontrar no Brasil para se instalar a contento. Em determinados
momentos, Evaristo produz uma distinção essencial para entendermos sua
concepção do caráter periférico e “incompleto” da sociedade brasileira e
a necessidade de seu aperfeiçoamento por meio da pedagogia liberal. Em
um diálogo satírico entre um “Bígamo” e um “Forçado” sobre a ideia de
liberdade em uma “ilha” fictícia35, surge a distinção entre o povo e a opinião
pública. O primeiro representa uma massa indistinta e amorfa, incluindo até
mesmo os escravos36, enquanto o segundo designa o estrato mais qualificado
da população, responsável pelo reconhecimento e pelo prestígio público.
Nesse sentido, povo e opinião pública distinguem-se na medida em que o
segundo aparece como um ator ativo no processo político, signo e agente
do liberalismo em uma sociedade marcada pela existência de uma maioria
de homens que – incluídos na categoria de povo – não estão dotados das
condições mínimas para a participação na discussão do interesse público.
A mesma diferença aparece em outros momentos, quando Evaristo fala de
“multidão”, que opera por meio do “sarcasmo e das injúrias populares” e de
“opinião pública”, que opera por meio da “justiça”37. Em outro momento,
Evaristo distingue o povo como o elemento que facilmente se acomoda à
tirania e a opinião pública como o elemento que se lhe resiste38.

34 
Ibidem, n. 172, 1 abr. 1829.
35 
Ibidem, n. 7, 11 jan.1828.
36 
Embora não esteja entre os assuntos mais recorrentes do periódico, a escravidão é pauta em algumas edições
do Aurora. Não há no pensamento do autor uma reflexão dedicada a condição humana dos negros no Brasil e a
questão da violação de seus direitos individuais. De outro modo, o assunto é tratado a partir do viés econômico
e do estágio civilizacional da nação, isto é, como um “mal necessário” ao progresso brasileiro, ao mesmo tempo
que garante algumas atividades econômicas o contato com escravos contaminaria a moralidade cívica dos
cidadãos. Situação que, portanto, deveria ser extinta, mas sem rupturas nocivas à composição social. (AF n. 55,
16 jun. 1828; n. 563, 30 nov. 1831; n. 885, 10 mar. 1834).
37 
AURORA FLUMINENSE, n. 28, 24 mar. 1828
38 
Ibidem, n. 90, 12 set. 1828

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É assim que a Aurora abre uma de suas edições mais uma vez citando
um texto do célebre Pierre Danou, intitulado justamente “A opinião pública”,
no qual o publicista francês distingue a opinião pública das opiniões popula-
res: se a segunda é desperta no “furor da guerra civil”, a primeira é fruto dos
“progressos da inteligência humana” e das “luzes”. Se a segunda serve como
suporte ao poder ilegítimo e tirânico, a primeira é o sustentáculo do poder
legítimo39. Assim, essa “teoria da opinião” que a Aurora encontra no texto
de Danou parece se sustentar em dois eixos básicos: em primeiro lugar, na
ideia de que o progresso da opinião acompanha o progresso das luzes e da
civilização; em segundo, na ideia de que a opinião pública é o “espaço” por
excelência do controle e da interferência da sociedade – entendida como
lócus da legitimidade política, mas que se encontra fora do Estado – no
exercício do poder pelo Estado.
Ao atacar a opressão da minoria pela maioria na câmara, Evaristo
dirá que o parlamento é, por excelência, o órgão da opinião pública. Esta
é a “consciência e a razão” dos corpos legislativos40. Evaristo narrará nas
páginas da Aurora toda a crise que levará ao fim do primeiro reinado como
um conflito entre o poder que começa a ceder aos caprichos da tirania e
uma opinião pública ativa e que se lhe resiste. Na Sessão Interior do jornal,
datada do dia 11 de abril de 1831, Evaristo atribui à opinião pública a força
que levou o Imperador à renuncia. Dirá ele que
[...] um príncipe mal aconselhado, trazido ao precipício por
paixões violentas e desgraçados prejuízos antinacionais, cedeu
a força da opinião pública tão briosamente declarada, e reco-
nheceu que não podia ser mais o Imperador dos Brasileiros41.

A força da opinião transcende a disputa facciosa entre partidos. Dirá


Evaristo que, em circunstancias de crises políticas, os príncipes podem
buscar na oposição, seguindo o apelo e a força da opinião pública, homens
mais aptos para a gestão dos negócios públicos. Nesse sentido, a força da
opinião pública age como mais um elemento de instrução em direção ao
fortalecimento das instituições liberais, na medida em que ela conduz
à separação entre os “governos representativos” e a “privança” à qual os
39 
Ibidem, n. 44, 16 maio 1828
40 
Ibidem, n. 138, 07 jan. 1829
41 
Ibidem, n. 470, 11 abr. 1831

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

governos monárquicos estão habituados, distinguindo assim o favoritismo


do monarca e os talentos dos homens que se destacam por meio do reco-
nhecimento da opinião pública.
Esta é, sem dúvidas, uma das grandes vantagens dos governos
representativos, aonde as intrigas, e os enredos da Corte, podem
sim prevalecer por algum tempo; mas cedo ou tarde tem que
ceder ao peso da opinião, e aos triunfos da discussão pública42.

Com a queda de Pedro I e a ascensão dos moderados ao poder, a fun-


ção da ideia de opinião pública nos textos da Aurora sofre uma modificação
que obedece, em geral, à lógica da diferença entre liberalismo de oposição
e liberalismo de governo da trajetória de Evaristo da Veiga. Não só dimi-
nui consideravelmente a presença de tradução de doutrinários franceses
e ingleses nas páginas do periódico, aumentando os textos autorais, mas a
opinião pública passa a ser tratada mais no sentido de uma força para sus-
tentar as transformações do governo e menos para impor-lhe resistência43.
Um dos primeiros exemplos que revelam essa mudança na linha editorial
da Aurora é a disputa pela reforma constitucional que disciplinaria a regên-
cia, aumentaria a independência das províncias e regularia as funções do
poder moderador. Aqui, Evaristo – principal voz dos liberais moderados
que conduziriam as primeiras reformas regenciais – afirma que a sociedade
brasileira “pós-revolucionária” estaria dividida em três grupos: de um lado,
aqueles que querem o estado de exceção e a guerra civil; do outro, os grupos
fiéis à Constituição que, por sua vez, se dividiriam entre os que desejam a
manutenção “a todo custo do elemento monárquico” e aqueles que lutam
pela reforma na Constituição e por uma maior independência das provín-
cias. Dirá Evaristo que a opinião pública não só apoia, mas “autoriza” as
reformas44. Interessante salientar que os liberais moderados antes da abdi-
cação não haviam compartilhado de nenhuma das bandeiras estabelecidas
em 1832 e aprovadas em 1834 e opunham-se a ela em nome da opinião
pública. Contudo, estando no governo, renderam-se às pressões da oposi-

42 
Ibidem, n. 7, 11 jan. 1828
43 
Tais mudanças podem ser compreendidas pela trajetória política do autor, que passa de um livreiro e jorna-
lista de oposição ao Primeiro reinado a um dos líderes do governo regencial. Para mais, ver: VIEIRA, Lidiane
Rezende. Aurora Fluminense (1827-1835): Resgate do Liberalismo moderado de Evaristo da Veiga. 2016. Dissertação
(Mestrado em Ciência Política). Iesp-Uerj. Rio de Janeiro.
44 
AURORA FLUMINENSE, n. 537, 30 set. 1831.

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ção e mantendo-se no comando do processo, para que ele fosse moderado,


conduziram as mudanças constitucionais na justificativa de garantir que
elas fossem feitas pelo caminho legal45. Os moderados, dentre eles Evaristo,
justificaram sua mudança de posição na legitimidade da vontade nacional,
isto é, a opinião pública passa a ser utilizada como instrumento retórico
de legitimidade das ações do governo:
Por toda a parte deseja-se a federação e a reforma, todos
a querem e seria uma imprudência não ceder; combati-a
enquanto não a julguei voto geral; hoje é necessária e pugno
por ela, faça-se; faça-se, mas com ordem e moderação [...];
mas conserve-se a essência do sistema adotado [...]; mas con-
serve-se o Brasil unido, e não se afrouxem demasiadamente
os traços que prendem a esta união46.

Contudo, diante do risco dos conflitos e desordem civil, a opinião


pública novamente aparece como o elemento de controle e legitimação da lei
e da Constituição. Mais uma vez aparece o contraste entre conceitos como
“povo” e “populacho”, elementos sociais instáveis e agentes de desordem,
e “opinião pública” como o verdadeiro polo e centro da legitimidade no
governo constitucional. A respeito de uma ameaça de conflito armado na
capital do Império, no inicio de outubro de 1831, Evaristo escreve que “a
opinião pública, a razão, o bem do estado exigem o castigo legal dos crimi-
nosos desta sedição militar”47. Aqui, em um recurso típico do argumento
doutrinário liberal, a opinião pública supre a função da razão de Estado:
em nome dela a ordem e a lei são mantidas e em nome dela se sufocam as
rebeliões e ameaças de desordem social e política. O uso retórico e doutri-
nário da opinião pública, assim, refletiria a distinção entre liberalismo de
oposição e liberalismo de governo. Enquanto meio de se inferir os ânimos
da soberania da nação, a opinião publica pode se submeter ao uso retórico
da necessidade de transformações estruturais e constitucionais. Porém,
enquanto fonte da legitimidade política, é em nome da opinião pública que
se mantém a ordem e a estabilidade do governo. Nesse sentido, a opinião
45 
Embora esta fosse a orientação dos moderados, no ano de 1832 estes se afastaram do caminho constitucional e
preparam um golpe parlamentar, que ficou conhecido como Golpe da Chácara da Floresta. Diante do impasse do
projeto não ser aprovado no Senado os liberais moderados que tinha por propósito orquestrar uma crise política para
converter a Câmara em Assembleia Nacional, para abrir espaço para as pretendidas reformas, estratégia fracassada.
46 
AURORA FLUMINENSE, n. 604, 12 mar. 1832.
47 
Ibidem, n. 541, 10 out. 1831.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

pública é não só a responsável pela expressão direta da “soberania da nação”,


mas também o agente da “perfectibilidade das instituições sociais” que se
consolidam na constituição48.
Evaristo apresenta o percurso da formação do Império com a cons-
tituição de 1824 até a ascensão dos moderados com a eleição parlamentar
de 1830 e a subsequente “Revolução de Abril” como o progresso da opinião
pública no seio do governo. Poder-se-ia, então, inferir a maior ou menor
legitimidade das forças políticas segundo o grau de adesão da opinião pública
a elas – desde sua apagada participação no processo constitucional até a sua
forte adesão aos liberais moderados que assumirão o poder após a queda
do Imperador. A opinião pública ainda se contrastaria com o “espírito de
partido”: enquanto este representa o interesse de grupos e divisões no sis-
tema político, a primeira representa a “vontade da nação”, ela dá o caráter
unitário e soberano, e não fragmentário e faccioso, da ação política legítima.

CONCLUSÃO

O papel do conceito de opinião pública no pensamento político de


Evaristo da Veiga teria apenas uma função ideológica, de transmutação para
a disputa política nacional de um elemento central do liberalismo doutriná-
rio francês, se ele não nos deixasse compreender um diagnóstico essencial
sobre a sociedade brasileira e o problema do atraso e da periferia. A ideia
de opinião pública exerce, então, duas funções no arcabouço conceitual
dos argumentos liberais de Evaristo da Veiga. Por um lado ela serve como
instrumento para aprofundar a legitimidade da ação política da esfera da
sociedade civil, na medida em que a imprensa se dirige essencialmente a esse
ator político que funciona como um equivalente da soberania. A opinião
pública é o exercício da soberania mais próximo das intenções liberais de
Evaristo, ligadas à imprensa e aos órgãos que exercem sua influência no
poder por fora do Estado e da elite política que circula em torno do monarca.
Ao mesmo tempo, ela é o conceito central que legitima o papel político do
jornalista e as funções públicas da imprensa como ator político central.

48 
Ibidem, n. 608, 24 mar. 1832.

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A presença massiva da ideia de opinião pública nas páginas da Aurora


supre a necessidade de um ator coletivo ao qual o jornal precisa se dirigir:
este não é apenas o povo que, como vimos, é caracterizado como uma
massa indistinta e incapaz de ação política. Ela exerce essa função retórica
e doutrinária tendo em vista o projeto de progresso das luzes e do governo
representativo no Brasil, ao qual Evaristo acredita servir ao tomar para si
a responsabilidade de condutor da opinião pública liberal que fazia então
oposição ao governo. Ela é um elemento “imaginário” no qual Evaristo
apoia-se ao mobilizar a força de um elemento doutrinário que, na medida
em que se acreditava na centralidade do desenvolvimento do liberalismo no
Brasil, se tornaria inevitavelmente o fundamento da legitimidade política
e da formação de uma nova comunidade política. A aposta doutrinária de
Evaristo confunde-se com a busca por espaço e importância para a pró-
pria posição que ele ocupava na política do período: o jornal, órgão por
excelência de expressão e inferência da opinião pública, não representa
apenas a divulgação de ideias e eventos: ele é, por excelência, o instituto
da pedagogia liberal no Brasil, a centro da irradiação da doutrina liberal
e, por conseguinte, da formação de uma opinião pública “em progresso”.
Nesse sentido, o liberalismo de Evaristo não é uma “ideia fora de lugar”,
senão uma ideia “fora do tempo”, ou melhor, uma ideia deslocada no tempo:
o autor acredita que o tempo do liberalismo do Brasil não é o mesmo das
nações europeias, mas encontra-se atrás na linha imaginária da filosofia do
progresso, e necessita de um exercício ativo e constante da pedagogia liberal
para transformar o povo em opinião pública, sendo esta o exato equivalente
da ideia de sociedade, entendida como lócus da legitimidade do político.
Por outro lado, a opinião pública serve como um elemento de distin-
ção entre povo e um grupo de elite qualificado, portador do que, à la Guizot,
Evaristo chamaria de as “capacidades” necessárias para distinguir entre o
interesse público e a ação política da “massa ignóbil”. Identificada pela tra-
dição liberal como a força por excelência que conduz os assuntos públicos
no período pós-revolucionário, a opinião é presa da sua origem revolucio-
nária: ela pode ser indistinta do movimento potencialmente destruidor das
forças populares, pode ser constituída, enquanto objeto de apropriação e
manipulação, pelas forças radicais ou pelo Estado que deseja aumentar seu
poder de maneira a aparentar legitimidade. Assim, a opinião pública não é só

60
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

instrumento conceitual para mobilizar a legitimidade imaginada pela teoria


política liberal; ela é, também, instrumento de inferência de uma teoria das
elites que acompanha todo pensamento político oitocentista. Dirá Evaristo
que, a confusão entre opinião pública e Revolução é usada pelos governos para
fazer a primeira se calar49. Nesse sentido, a opinião pública não só fortalece o
papel do jornal como o “pedagogo da nação”, armado pela tradição intelectual
do liberalismo para corrigir os rumos do legado colonial e encetar uma nova
era de alinhamento da nação com os trilhos do desejado progresso universal
das civilizações. É graças a esse recurso retórico e doutrinário que o problema
da escravidão pode ficar relegado a segundo plano na imaginação política
de Evaristo da Veiga: na medida em que o progresso vem pela pedagogia da
opinião, a modernização seguir-se-á naturalmente à constituição de uma
sociedade educada nos valores da “civilização”, tornando assim a escravidão
algo superado pela sua própria natureza de fenômeno “anacrônico”.
No caso de Evaristo da Veiga, encontramos um exemplo substantivo
da relação entre ideologias, formações de linguagens políticas, autorre-
conhecimento da natureza periférica e atrasada do contexto nacional e
estratégias de modernização. O “vazio de legitimidade” política de uma
nação em construção pode ser ocupado por uma linguagem política que
assume o papel de protagonista da modernização, ao mesmo tempo em que
identifica em um ator político, a imprensa, o agente responsável por esta
pedagogia da modernização das linguagens, dos costumes e das instituições
políticas. Em um contexto de incertezas e instabilidades institucionais, no
qual a formação das instituições políticas de uma nação ainda se encontra
em estado incipiente de desenvolvimento e no qual o conflito social e
político – resultado dos embates entre as elites políticas e as demandas
emergentes de setores que ensaiam organizar-se politicamente – perma-
nece continuamente como um risco de desagregação da sociedade nacional
recém-constituída, qualquer concepção que tome a ação política das elites
políticas e intelectuais como um bloco homogêneo, organizadamente
responsável por instituir ideologias que ocultariam, assim, a natureza da
dominação política, nos parece infecundo. A natureza da ação política e
das linguagens políticas que pretendem dar forma e inteligibilidade a esta
ação não é, evidentemente, homogênea e igual: entre a ação das elites e o

49 
Ibidem, n. 59, 25 jun. 1828.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

discurso político há uma distância evidente, atravessada pelas contradições


impostas pelo contexto histórico da formação de uma nação na periferia
da modernidade cêntrica. Nosso objetivo neste artigo foi trazer, de forma
inconclusiva, algumas reflexões sobre o estudo do pensamento político
brasileiro reconhecendo as dificuldades inerentes de pensá-lo a partir de
sua natureza social, econômica e culturalmente periférica.

ARQUIVOS

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a dez 1835. Disponível em: <http://migre.me/t26Y1>. Acesso em: 18 jun. 2016.

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63
Capítulo 2

O HORIZONTE CIVILIZATÓRIO DO
ULTRAMONTANISMO NO BRASIL OITOCENTISTA

Luiz Carlos Ramiro Junior

Ao longo do século XIX, vários países europeus e latino-americanos


passaram por conflitos entre Estado e Igreja católica que foram essenciais na
tomada de posições políticas, entre a afirmação da modernidade e a adesão
à tradição. Nos lugares onde a presença política da Igreja era relevante, não
é difícil se deparar com alguma “Questão Religiosa”. No Brasil, esse choque,
entre ordem liberal para a consolidação do regime do Estado sobre Igreja e
a reivindicação antiliberal pela doutrina católica, se deu, em especial, entre
os anos de 1872 e 1875.
No Brasil oitocentista, apesar do antiliberalismo não ser uma exclusivi-
dade ultramontana, dentro dos sentidos encontrados para o conceito de civili-
zação, pode-se afirmar que o reduto do antiliberalismo é o ultramontanismo.
Num arcabouço geral, o liberalismo caracterizava-se pelas seguintes deman-
das: descentralização política, direitos civis, retórica popular e autonomista e
reformas secularizantes para afastar a intervenção da Igreja na vida social –
reservando-a ao âmbito privado. Numa plataforma oposta, o conservadorismo
preconiza: centralização política, manutenção de certos privilégios e ampliação
paulatina de direitos civis, retórica da ordem e da unidade do país contra os
ideais autonomistas e vínculo com a instituição religiosa na vida pública.
Contudo, dentro do conservadorismo descrito anteriormente, em
linhas gerais, é possível identificar a defesa de alguma superação da tradição
antimoderna, anti-iluminista. O conservadorismo que impera na formação
do Brasil imperial é marcado pelo despotismo ilustrado do século XVIII,
endossado pela visão histórica sobre os acontecimentos da Revolução
francesa de 1789, como se pode identificar em José Bonifácio de Andrade e

65
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Silva (1763-1838)1. Esse conservadorismo da origem do Brasil independente


também era constitucionalista e procurava fazer o que os monarquistas
tentaram na França: garantir a ordem contra o jacobinismo2.
A partir de meados do século, essa linhagem conservadora que se ins-
taura no poder, herdeira do despotismo esclarecido, procura implementar
um conjunto de ideias que preconizam: a defesa do protagonismo estatal
pela burocracia intervencionista e o equilíbrio constitucional disposto pelo
Poder Moderador3.
Vale notar que esse conservadorismo não era sinônimo de reaciona-
rismo, como de fato autores que estavam presentes nas prateleiras desse
ideário, como Edmund Burke e François Guizot não eram. Burke, ainda que
tenha acendido os reacionários na França, era membro do partido Whig
britânico e defensor de posições liberais com relação às colônias ameri-
canas4. Já Guizot, orleanista, da monarquia liberal francesa, representava
o liberalismo doutrinário na época5. E mesmo se considerarmos a parte
dos conservadores do Segundo Reinado (1840-1889) que questionavam o
establishment político – como era do feitio do parlamentar e romancista
José de Alencar (1829-1877) –, há entre eles algum vínculo com a filosofia
do progresso histórico, que pensa na aceleração do tempo, isto é, em algum
tipo de evolução moderna. Quando não científica e cultural, pelo menos
econômica – como se comprova pela atuação de parte da bancada agrária
que divide o partido Conservador no fim do regime imperial no Brasil.
Estes, em nome da proteção da economia baseada na mão de obra escrava,
posicionavam-se contra o intervencionismo do governo – chefiado pelo
mesmo partido Conservador do qual muitos eram membros6.
1 
ANDRADA E SILVA, José Bonifácio de. José Bonifácio de Andrada e Silva. Org. e introd. Jorge Caldeira. São
Paulo: 34, 2002. p. 131.
2 
LYNCH, Christian Edward Cyril. Monarquia sem despotismo e liberdade sem anarquia: o pensamento político do
Marquês de Caravelas (1821-1836). Belo Horizonte: UFMG, 2014. p. 42.
3 
MATTOS, Ilmar Rohloff. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 1987. p. 167-168. Acerca da periodização
do Brasil Império e do significado de uma característica do conservadorismo “saquarema”, similar a ideias já
preconizadas por José Bonifácio de Andrada: reformas sociais, como a abolição da escravidão, ver CARVALHO,
José Murilo. A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro de sombras: a política imperial. 2. ed. Rio:
Civ. Brasileira, 2006. p. 59 e 222.
4 
BURKE, Edmund. Reflections on the Revolution in France. Oxford University Press, [1790] 2009.
5 
ROSANVALLON, Pierre. Le moment Guizot. Paris: Gallimard, 1985. p. 213-214; 265. O paradigma desse
liberalismo doutrinário era a própria liberdade, e não a igualdade ou a religião.
6 
CARVALHO, 2006, p. 223.

66
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Outra forma de conservadorismo que se apresenta no Brasil é o católico


ultramontano. Diferente do conservadorismo que formou o arcabouço cons-
titucional do País em 18247 e do conservadorismo que domina a cena política
a partir do “Regresso Conservador” na década de 1840, o ultramontanismo é
de corte inteiramente antiliberal. Mesmo que muitos ultramontanos tenham
sido defensores da Constituição de 1823 e da plataforma política do Partido
Conservador até a década de 18708, a base de argumentação e o horizonte de
visão era católico – seja por meio da literatura católica legitimista, seja pelo
que esperavam das consequências políticas que defendiam9.
Trata-se de uma terceira via, situa-se como oposto às posições que, por
rotas diversas, seguem na mesma direção de superação da tradição, ainda
que de um lado se procure preservá-la e de outro sepultá-la. Nenhum, no
entanto, procura animar uma prevalência do religioso como algo prepon-
derante – como faz o ultramontanismo. Os ultraconservadores católicos
seguem a orientação de defesa da supremacia da Igreja e do Papa, de recu-
peração e vida a partir da tradição, valorização do medievo, intolerância
religiosa e no pensamento de que o ideal da liberdade jamais pode vir à
frente da obediência religiosa. Isto é, o espaço da liberdade somente existe
a partir e de acordo com a vida religiosa católica.
O que se procurou fazer no desenvolvimento deste texto foi matizar
os ideários políticos, liberais e antiliberais, a partir da análise do conceito
de civilização, cujo paradigma é uma noção de positividade, no sentido de
elevação cultural. Em uma palavra, civilização remete à ideia de saída da guerra
e da escravidão, para a entrada no caminho da paz e da liberdade. Em suma,
tornou-se elemento chave para designar a superação do estágio de barbárie10.
Porém, do mesmo modo que, secularização, modernização, urba-
nização, tecnologia, liberalismo, entre outros, o conceito de civilização

7 
LIMA, Oliveira. Formação histórica da nacionalidade brasileira. Pref. Gilberto Freyre, M. E. Martinenche, José
Veríssimo, 2. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997 [1911] (fr); 1944 (pt)]. p. 205.
8 
O exemplo mais marcante é de Brás Florentino de Souza (1825-1870), defensor da Igreja, mobilizador da lite-
ratura contrarrevolucionária católica no Brasil, e ao mesmo tempo defensor das instituições imperiais. SOUZA,
Brás Florentino H. de. Do Poder Moderador. Brasília: Senado Federal, [1864] 1978.
9 
ROMERO, J. L. Pensamiento conservador (1815-1898). Prólogo de José Luís Romero. Caracas Biblioteca Aya-
cucho, 1978. p. 15.
10 
O termo “Civilização” esteve entre os mais mencionados nos discursos de formação do Império, assim como
Utilidade, Luzes, Associação, Razão e Progresso. MATTOS, 1987. p. 14.

67
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

perdeu solidez, universalidade e a imprescindibilidade da qual as teorias


sociológicas da modernização reivindicavam. Trata-se, ademais, de um
trend-concept da modernidade que entrou em crise11, permitindo a uma
análise histórica mais sensível catalisar os diversos caminhos que o con-
ceito pode apontar. O pensamento sociológico questiona a linearidade
e a própria teleologia que marcava o conceito e igualmente avalia que,
mesmo no século XIX, esses conceitos-chave jamais deixaram de estar
em disputa por seus significados, ou, muitas vezes, enquanto alvo de um
contraconceito que lhe fosse antagônico, como o par civilização-barbárie.
Embora neste caso seja flagrante a dificuldade em se pensar num oposto
a ser empregado positivamente. Com efeito, a compreensão não moder-
nizadora, ou tradicionalista de “civilização” serve-se da mesma palavra
para ressignificá-la, impondo outro sentido para o mesmo verbete. Assim,
o contrário de civilização, na concepção liberal do século XIX, não é a
“barbárie”, mas outro modelo de civilização.

DESESTABILIZAÇÃO POLÍTICA E A QUESTÃO RELIGIOSA NO


BRASIL (1872-1873)

O fim da década de 1860 é a antessala do declínio e queda do Brasil


Império, ainda que tenha sido no período seguinte – de 1871 a 1889 – que
as maiores reformas acontecem (como o voto direto em 1881 e a abolição
da escravidão em 1888), ao passo que os conflitos partidários mais acesos.
O fato é que, desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), o País passava por
uma ascendente polarização partidária. A política de coalizão entre con-
servadores e liberais, inaugurada pelo marquês do Paraná (1801-1856) em
1853, começara a desandar no fim da década de 1860. Em cada um dos
dois núcleos partidários, surgem divisões, seja para acentuar demandas
reformistas, que, ao término da guerra, tornar-se-iam ainda mais flagran-
tes, ou, de outro lado, para evitar uma avalanche de projetos liberais. As
principais discussões giravam em torno de leis relativas ao elemento servil,
à implantação da eleição direta, propostas para facilitar a vinda de imigran-
tes, demandas liberais clássicas pela desconcentração do poder em prol da

11 
DOMINGUES, José Maurício. “Global modernity: Levels of analysis and conceptual strategies” em Social
Science Information. Sage Journals, 2014. p 1-17.

68
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

federação e temas ligados à secularização – casamento civil, registro civil,


voto e elegibilidade de acatólicos, ensino laico etc.
Com maioria parlamentar desde 1862, os liberais progressistas – cha-
mados de luzias12, como eram denominados à época – não lograram aplicar
no governo aquilo que criticavam dos conservadores (saquaremas), isto
é, reformas liberais de grande importância. A instabilidade dos gabinetes
dirigidos pelo partido Liberal até 1868 deu prova disso: seis ministérios
em quatro anos, a metade sob a chefia de Zacarias de Góis e Vasconcelos
(1815-1877), ex-conservador e alinhado a uma ala mais moderada, tanto
que paradoxalmente o mesmo atuará mais tarde em defesa dos bispos
ultramontanos na Questão Religiosa. A disputa interna entre progressis-
tas e históricos tornou-se insustentável. Implode a coalizão que formava
esse governo, a Liga Progressista – feita da união entre conservadores
dissidentes e liberais históricos. Nesse racha, “históricos” – como Aureliano
Tavares Bastos (1839-1875) e Teófilo Ottoni ficam de um lado, e, de outro,
os “progressistas” – como o marquês de Olinda e o próprio Zacarias13. Mais à
esquerda, figurava o liberalismo radical, com alguns integrantes desconten-
tes com o partido alistando-se no programa republicano – que, na década
de 1870, era um partido irrelevante14. Outros radicais mantiveram-se no
novo partido Liberal15.
Vale mencionar que, politicamente, a conturbada década de 1870
começa na verdade no ano de 1868, quando há uma crise no interior dos
partidos e na relação entre liberais e o Imperador. Pela primeira vez. D. Pedro
II (1825-1891) começa a ser atacado sistematicamente, passa a figurar na
roda das críticas, pois se achava que ele não deveria destituir a Câmara para
dar o poder aos conservadores. O que se seguiu foram 10 anos de gabinetes
saquaremas (conservadores): de 1868 a 1878. Entre as várias razões para
a radicalização da esquerda liberal, que procurará desestabilizar a política
conservadora, é nítida a recepção da literatura Whig britânica no Brasil,
em que transparece a explicação da história da Inglaterra como uma pro-

12 
MATTOS, 1987, p. 105.
13 
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília: UNB, 1980. p. 249.
14 
LYNCH, Christian E. C: O momento monarquiano: o conceito de Poder Moderador e o debate político brasileiro
no século XIX. Tese (Doutorado). Rio de Janeiro: Iuperj, 2007. p. 300.
15 
CARVALHO, 2006, p. 205.

69
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

gressiva vitória liberal. Os liberais históricos passaram a comparar Pedro


II a Jorge III (1738-1820). Soma-se a isso a passagem da 2ª lei eleitoral na
Inglaterra de 1867 que dobrou o eleitorado naquele país, acabando com a
ideia de que tinham governo misto. A literatura britânica teve dois autores
fundamentais com plena difusão no Brasil, Walter Bagehot e John Stuart Mill,
ambos exaustivamente manuseados pelos jovens liberais na época, como
Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923) e Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de
Araújo (1849-1910). Os representantes do liberalismo francês da década de
1860 que passaram a reivindicar a forma republicana e o sufrágio universal,
como Édouard René de Laboulaye (1811-1883) e Lucien Prévost-Paradol
(1829-1870), também foram fontes dessa renovação da esquerda, que teve
em Tavares Bastos uma das principais referências.
Entre os conservadores, a unidade também vinha sendo desfeita,
com a desinteligência entre a ala da burocracia – identificada com o pro-
gressismo reformador, alinhada aos teóricos do liberalismo doutrinário – e
a ala da lavoura. Nessa onda de renovações políticas que atinge o partido
Conservador, são marcantes as críticas de José de Alencar (1829-1877) ao
seu partido: não obstante a veneração que nutria aos fundadores – como
a Paulino Soares de Souza, o visconde de Uruguai (1807-1866), ele via o
modelo conservador “saquarema” como superado16. O mesmo que havia
conquistado a união – sob um só projeto – de burocratas e agrários, divi-
diu-se acentuadamente a partir de 1868. Visconde do Inhomirim (Fran-
cisco de Sales Torres Homem), marquês de São Vicente, e o visconde do
Rio Branco pertenciam à ala burocrática dos conservadores e pretendiam
manter o interesse do partido alinhado à centralidade do Estado, apoiado
no protagonismo do Imperador, e direcionando o governo à promoção
das reformas sociais. Os ruralistas, como os senadores barão de Cotegipe
e Francisco Gonçalves Martins – visconde de São Lourenço, defendiam o
dirigismo provincial, em nome dos interesses econômicos privados, con-
tra o reformismo modernizante impulsionado pelo Estado. Uma terceira
trincheira de crítica ao modelo saquarema, quanto ao modo regalista em
que tratavam a Igreja católica, advinha dos políticos ultramontanos, como
os senadores Cândido Mendes de Almeida (1818-1881) e Jerônimo Marti-

16 
ALENCAR, José Martiniano de. Discussão do Voto de Graças. Discurso proferido na sessão de 9 de agosto de 1869.
Rio de Janeiro: Câmara dos deputados, 1869.

70
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

niano Figueira de Melo (1809-1878), o padre e deputado Joaquim Pinto de


Campos (1819-1887), o também deputado Leandro Bezerra (1826-1911),
e os irmãos Souza de Pernambuco, José Soriano de Souza e Tarquínio de
Souza Amaranto (1829-1894).
Essa falta de consenso conturbava a agenda reformista do saquare-
mismo, que pretendia fazer do Brasil um Império cujo Estado – burocrático,
despolitizado, e centralizado – civilizasse a nação. Acotovelando-se entre
liberais radicais, ruralistas e ultramontanos –, o governo saquarema de Rio
Branco ainda conseguiu ser o mais longevo da história imperial (1871-1875)
e com um rol de vitórias – como a lei pela liberdade do ventre livre logo no
primeiro ano de governo. O passo seguinte seria a abolição da escravatura,
que só foi aprovada em 1888. Diante dessas expectativas avançadas, as
alas agrárias, de ambos os partidos, reagem, e Rio Branco é violentamente
acusado de dividir os conservadores17.
A política saquarema foi fustigada e com ela a garantia da estabili-
dade do regime. Em troca, aparece o redivivo liberalismo pela esquerda
que bradava pelo parlamentarismo democrático18. Ao passo que a direita
conservadora questionava a condução da política abolicionista – por ins-
trumento retórico ou compromisso verdadeiro com uma compreensão
dos costumes – evidenciando a defasagem do saquaremismo, enquanto os
ultramontanos engrossavam a crítica no tocante às propostas secularizantes
e na política religiosa do Império.
A Questão Religiosa (1872-1875) surge, portanto, em meio a esse
processo de polarização política, e contribui para acentuá-la. E a conjuntura
internacional transformou-a em algo maior do que um problema interno,
significando uma ameaça à soberania, haja vista a postura antirregalista do
papa Pio IX (1792-1878), o Syllabus dos erros da modernidade de 1864 e as
afirmações de infalibilidade papal do Concílio Vaticano I (1869-1870). O
que contribuiu para que o Imperador fizesse questão de não dar um passo
atrás ao processar o clero ultramontano19.

17 
CARVALHO, J. M. D. Pedro II. Coleção Perfis Brasileiros. São Paulo: C. das Letras, 2007. p. 223.
18 
LYNCH, 2007, p. 23.
19 
Para uma análise sobre como o pontífice se torna também um soberano político e atua enquanto um príncipe
moderno ver: PRODI, Paolo. Il sovrano pontífice. Bologna: Società editrice il Mulino, 1982.

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Embora tivesse crescido entre as décadas de 1840 e 1870, o ultra-


montanismo no Brasil jamais contou com um programa uniforme de ação
entre o clericato e o laicato. Não se mostrava como uma ameaça política.
Decididamente, até a Questão Religiosa encontrava-se adaptada ao sistema
monárquico constitucional vigente, pela preservação da união com a Igreja e
da continuidade da tradição monárquico-lusitana; daí que esse ideário político
ultramontano não tenha tido a mesma intensidade de oposição ao status quo,
como em outros países da América Latina20, e mesmo em Portugal21.
A limitada articulação de um reacionarismo estrito, no front dos
partidos políticos brasileiros, altera-se parcialmente com a Questão Reli-
giosa. Parcialmente, porque nem todos os que se diziam ultramontanos
tomaram as dores da Igreja e defenderam os envolvidos no conflito. Ainda
assim, tornou-se mais nítida a expansão da retórica antiliberal, minando:
de um lado o regalismo do modelo político saquarema, que enfraquecia a
autonomia da Igreja e dava pleno espaço de ação para a maçonaria; de outro,
as propostas liberais secularizantes, que associavam o progresso material
à vinda de imigrantes protestantes22. A crise de 1872-1875 foi o estopim
de um antagonismo latente. O paradigma conciliatório da Constituição de
1824 entrava em colapso.
O clero ultramontano passava a realizar punições inéditas para com-
bater o sincretismo, desagradando os maçons. Estes, acuados, decidem pro-
mover uma assembleia em 1872, presidida por Rio Branco para unir as lojas
concorrentes. Pela primeira vez se reuniam para atacar o inimigo comum
do consenso liberal: o ultramontanismo. A decisão conjunta, publicada no
Manifesto da Maçonaria do Brasil, defendia posições regalistas para controlar
o clero e abria uma grande campanha contra a Igreja católica no Brasil23.

20 
ALMEIDA, Cândido Mendes de. Senador Candido Mendes – pronunciamentos parlamentares, 1871-1873.
Org. e pesquisa Aurélio Wander Bastos. Brasília: Senado Federal, 1982. p. 823.
21 
CASTRO, José da Gama e. O Novo Príncipe ou o espírito dos governos monarchicos. Rio, 1841.
22 
TAVARES BASTOS, Aureliano. Cartas do Solitário. 4. ed. São Paulo: Companhia Ediora Nacional, [1863]
1975. E, sobretudo, TAVARES BASTOS, Aureliano, Os Males do Presente e as Esperanças do Futuro. 2. ed. Brasília:
Nacional, [1861] 1976. p. 53, 103-104.
23 
BARATA, Alexandre M: A maçonaria e a ilustração brasileira. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 1994,
jul-out, v. I (1), Rio de Janeiro, p. 78-99. Importa notar que as lojas maçônicas fizeram parte da própria organização
das sociedades políticas no País, desde antes da Independência de 1822 foram substanciais para consolidar os
partidos e oposições. NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Corcundas e constitucionais: A cultura política da
independência (1820-1822). Rio de Janeiro: Revan/Faperj, 2003. p. 368-373.

72
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Por parte dos ultramontanos, os clérigos mais ferrenhos na defesa da


Igreja foram o Bispo de Olinda (Pernambuco) Dom Frei Vital Maria Gon-
çalves de Oliveira (1842 – 1878)24, que buscava uma regeneração do clero
nacional a fim de elevar o nível moral e intelectual dos padres25. E o Bispo
do Pará, Dom Antônio de Macedo Costa (1830 — 1891), que contestava
o modo como o regalismo deixou a Igreja católica empobrecida no Brasil
e à mercê da vontade estatal. Em uma das Cartas Pastorais de 1872, dom
Vital descrevia o liberalismo não apenas como um sistema político, mas
ainda como um elemento negativo de transformação moral da sociedade26.
As ações de D. Vital foram acompanhadas e até incentivadas pelo
próprio Pio IX27, sinalizando que o movimento ultramontano era defensivo,
antiliberal. O bispo pernambucano passa a interditar as irmandades religiosas
que não obedecessem a sua ordem de defenestrar a presença maçônica dos
espaços católicos. As irmandades eram entidades de caráter misto (público
e privado), que atuavam em prol da Igreja, auxiliando na construção de
edifícios e envolvendo-se em festas e ritos religiosos. O objetivo de D. Vital
era impedir que ofícios religiosos fossem financiados pela maçonaria, por
meio dessas instituições. A consequência foi uma calamidade pública no
Recife, já que a presença da maçonaria era tamanha, que as missas na capital
foram interrompidas, por conta do alto número de interdições. Foram 50,
entre irmandades, ordens terceiras e associações. Em represália, ou apoio,
houve violência entre maçons e católicos, com ataques às tipografias de
jornais de ambos os lados28.
O caso foi levado à Coroa. Uma das irmandades interditadas entrou
com um recurso contra a decisão do bispo, que foi aceito pelo desembargador
procurador do Império, entendendo que houvera usurpação de jurisdição
24 
REIS, Antônio M. dos Reis. O Bispo de Olinda Perante a História. Recife: Imp. Ind., [1878] 1940.
25 
A queixa quanto à imoralidade do clero brasileiro foi retratada exaustivamente nas obras de Gilberto Freyre,
tanto no já mencionado Sobrados e Mucambos..., 1990; quanto em FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. For-
mação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal. 8. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1954.
Os relatos são consistentes com aquilo que foi deixado pelos observadores da época, KIDDER, Rev. D. P.; FLETCHER,
Rev. J. C. Brazil and the Brazilians, Philadelphia, Childs & Peterson, 1857. Mas também do próprio clero católico:
bispo de Olinda, DOM VITAL. Carta Pastoral – O Bispo de Olinda saudando os seus diocesanos depois da sua sagração,
2. ed. Recife: Typ. Clássica I. F. dos Santos, 1875.
26 
DOM VITAL, Bispo de Olinda. Carta Pastoral, 10/01/1872 a 10/06/1872, Olinda, Pernambuco, n. 16.
27 
PIO IX, Papa. Breve Quamquam dolores de 29 de maio de 1873, dirigido ao Bispo D. Vital.
28 
PEREIRA, Nilo. Conflitos entre a Igreja e o Estado no Brasil. Recife: UFPE, 1970. p. 191-204.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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do poder eclesiástico, sendo assim cabível a ação. Contudo a posição do


prelado era irredutível, tendo recusado qualquer tentativa de apazigua-
mento por parte do governo. Argumentava que a Igreja estava atuando
defensivamente, reagindo para a manutenção do dogma religioso. Por isso
D. Vital nomeava o conflito de “questão maçônica”; para ele, o problema era
a maçonaria e não a religião29.
Para defender-se, D. Vital revela que recebeu dois comunicados ao
mesmo tempo – um do Conselho de Estado e o Breve do Sumo Pontífice.
Sem hesitar deveria obedecer a um dos dois. Seguiu o Papa30. O escrito com
a decisão do prelado pernambucano foi amplamente divulgado na imprensa
ultramontana, e todas as dioceses do Brasil, com exceção das de Cuiabá e
Maranhão, publicaram a aprovação papal à resistência do bispo31.
Preso desde dezembro 1873, D. Vital é julgado no dia 18 de fevereiro
de 1874 no Superior Tribunal de Justiça32. Os senadores Zacarias de Góis e
Vasconcelos e Cândido Mendes de Almeida prontificam-se para atuar como
defensores espontâneos. Na audiência, Zacarias apoiou-se no decreto de
1857 para sustentar a validade da interdição feita pelo bispo contra as irman-
dades, alegando ainda a incompetência do foro comum e que o julgamento
deveria caber a um tribunal eclesiástico. Cândido Mendes, analisando a
constitucionalidade do catolicismo no Brasil, concluiu que o Estado deveria
aceitar as leis da religião e permitir seu cumprimento por parte dos seus
representantes. Deu razões para a incoerência do processo; pois, mesmo
não havendo uma bula placitada tratando diretamente da maçonaria, havia
uma anterior de Pio IV que mandava os clérigos observarem o juramento
à profissão, e essa recebera o aval estatal.
Reconhecendo a crise instaurada diante da Igreja, o ministério presidido
por Caxias, que substituiu Rio Branco em 1875, pediu a anistia aos bispos.
Pedro II resistiu e argumentou que se assim o fizesse o governo demonstraria
fraqueza. Sob a insistência do herói militar, o Imperador volta atrás e convoca
29 
DOM VITAL, Bispo de Olinda. A maçonaria e os jesuítas – Instrução Pastoral do Bispo de Olinda aos seus dioce-
sanos. Rio de Janeiro: Typ. do Apóstolo, 1875.
30 
DOM VITAL, Bispo de Olinda. O Bispo de Olinda e os seus acusadores no Tribunal do Bom Senso ou exame do
aviso de 27 de setembro e da denúncia de 10 de outubro, e reflexões acerca das relações entre Igreja e Estado. Recife, 1873.
31 
DORNAS FILHO, João. O Padroado e a Igreja Brasileira. São Paulo: Companhia Nacional, 1938. p. 181.
32 
BISPO DO PARÁ, Dom Macedo Costa. A questão religiosa do Brásil perante a Santa Sé ou a Missão especial a
Roma em 1873 à Luz de documentos publicados e inéditos pelo Bispo do Pará. Lisboa: Lallement Frères, 1886.

74
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

o Conselho de Estado para tratar do caso. Rio Branco, presente na reunião


como conselheiro, considerou que o perdão representaria uma incoerência e
debilidade governamental. Mas foi voto vencido, e a Questão dos Bispos era
enfim levada a termo: em 17 de setembro de 1875 foi dada a anistia, tranqui-
lizando as relações entre o governo e a religião oficial no País33.

ACEPÇÕES DO TERMO “CIVILIZAÇÃO”34

A partir das fissuras no modelo político conservador35 no Brasil, entre


os anos de 1860 e 1870, e pontualmente o fenômeno da Questão Religiosa,
o ultramontanismo figurou como um dos discursos de crítica ao regime.
Tratava-se de reivindicar “civilização” como sinônimo de cristandade,
diferindo das duas correntes oponentes ao ultramontanismo no Brasil:
a situação saquarema, regalista, marcada pelo liberalismo doutrinário de
Guizot e pelo liberalismo radical.
O termo “civilização” era de uso corrente no português usado no
Brasil no século XIX, porém o verbete “civilização” só aparece diciona-
rizado na língua portuguesa em 1831, na quarta edição do Dicionário
da Língua Portuguesa, de Bluteau e aprimorado por Moraes Silva36. Até
então, os dicionários de Luiz Maria da Silva Pinto37 e de Rafael Bluteau38
apresentam tão somente os termos “civil” e “civilidade”. Para Luís Pinto,
esses termos reportam-se à urbanidade; “civil” é o adjetivo que remete
à cidade, aos “homens que vivem debaixo de certas leis”39. No Dicionário
Moraes, civil é também o pertencente à cidade e à legalidade40. Já o ver-
bete “civilidade” corresponde à “ação de homem do povo, de mecânico, vil.
33 
ACE – Atas do Conselho de Estado do Império do Brasil, 17 de setembro de 1875.
34 
LIMA, Luís Filipe Silvério. Civil, civilidade, civilizar, civilização: usos, significados e tensões nos dicionários
de língua portuguesa (1562-1831). Almanack, Guarulhos, 2012-1, n. 3, p. 66-81.
35 
LYNCH, 2007.
36 
MORAES SILVA, Antonio de. Diccionario da Lingua Portugueza, composto por Antonio de Moraes Silva, 4. ed.
Lisboa: Imp. Regia, v. 1, 1831.
37 
PINTO, Luiz Maria da Silva. Diccionario da lingua brasileira. Ouro Preto: Typ. de Silva, 1832.
38 
SILVA, Antonio de Moraes Silva; BLUTEAU, Rafael. Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D.
Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva. Volume 1: A – K. Lisboa: Officina de Simão
Thaddeo Ferreira, 1789.
39 
PINTO, 1832, p. 243.
40 
SILVA, 1789, p. 277.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

[...] sofrer civilidades, isto é, vilanias. Outros escrevem civeldade, civilidade hoje
significa, cortesia, urbanidade”41.
A seguir serão expostas as três posições políticas em confronto na
Questão Religiosa, de acordo com a maneira pela qual cada uma trabalhou
o conceito de civilização.

a) Civilização segundo a matriz política conservadora (saquarema)

O modelo conservador, aqui denominado “saquarema”, orienta um


momento importante da história política brasileira: de formação e consoli-
dação da ordem pública e formação da nação sob a tutela do Estado. Devedor
da teoria do governo parlamentar da Monarquia de Julho na França, esse
ideário surge no fim dos anos 1830 voltado à superação da crise política
e social que permeou o período do Brasil Regência (1831-1841). Com a
finalidade de assegurar a ordem, reunia as seguintes características: tutela
do Imperador na execução das políticas públicas, estrutura de ação de cima
para baixo, organização da burocracia estatal, governo parlamentar centra-
lizado42, além do controle sobre a Igreja e o forte protagonismo estatal. Essa
era uma perspectiva reformista, civilizadora, incumbindo a monarquia de
garantir a ordem política através da mediação entre os grupos opositores,
com o poder Moderador enquanto base do equilíbrio constitucional, e o
Conselho de Estado servindo de fonte consultiva do rei.
O pensamento político de François Pierre Guizot (1787-1874) serviu
de base ao raciocínio político saquarema. Como bem apontou Rosanvallon,
o “momento Guizot” correspondente ao período de liderança da cultura
política liberal entre os anos de 1814 e 1848 na França, que tinha por mote
a compreensão sociológica da modernidade, para salvar o legado liberal da
Revolução de 1789. Era uma postura que se eximia da adesão à utopia da
ordem liberal autorregulada pelo mercado (como fazia Benjamin Constant
e Charles Comte), mas também percebia a impossibilidade de superação do
terror jacobino pela anulação da revolução com o resgate de um modelo

41 
SILVA, 1789, p. 277.
42 
LYNCH, 2007, p. 17.

76
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

anterior de corpo organizado, como se pudéssemos regressar a uma socie-


dade de ordens (como queriam Bonald, de Maistre, Ballanche)43.
Essa forma sofisticada e moderada de organização do Estado que se
adotou no Brasil, superando o absolutismo esclarecido e apropriando-se
desse liberalismo doutrinário: que abraçava livremente o relativismo epis-
temológico e moral, abrindo margem para que as decisões pudessem surgir
do debate público esclarecido e ordenado entre os representantes da nação.
O liberalismo doutrinário de Guizot havia sido amplamente recepcionado
por Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850) no Brasil, na década de
182044. Mais tarde, em Ensaio sobre o Direito Administrativo, de 1862, o vis-
conde de Uruguai torna ainda mais consolidada essa influência. Uruguai
praticamente explica o propósito do conservadorismo saquarema: a missão
da elite imperial de garantir o exercício da liberdade e do progresso social45.
Na arquitetura política, o Poder Moderador do Monarca deveria funcionar
como fiscal dos ministros, envolvido como o destino nacional, e tendo
como principal suporte um Conselho de Estado para julgar politicamente
as questões. Centralização, entendo o papel unificador do Estado contra
as ideias de Thiers de que “o rei reina e não governa”46.
Civilização é o conceito que sintetiza a complexidade compreensiva
de François Guizot e que perpassa suas obras47. Surge na Europa um amál-
gama de três eixos fundamentais que perpassavam a história: o Império
romano, a Igreja católica e os bárbaros, tendo como coração e lugar de maior
desenvolvimento – a França. Na acepção guizotiana, civilização reúne as
seguintes características: expansividade, universalidade e homogeneização.

43 
ROSANVALLON, 1985, p. 78.
44 
LYNCH, Christian E. C: Modulando o tempo histórico: Bernardo Pereira de Vasconcelos e conceito de
“regresso” no debate parlamentar brasileiro (1838-1840). Almanack. Guarulhos, n. 10, ago/2015. p. 314-334.
45 
VÉLEZ RODRÍGUEZ, Ricardo. François Guizot e a sua influência no Brasil. Carta Mensal, 1999, nov, Rio
de Janeiro, v. 45, n. 536, p. 41-60.
46 
URUGUAI, Visconde do – Paulino José Soares de Sousa. Ensaio sobre o Direito Administrativo. Org. e Introd.
José Murilo de Carvalho. São Paulo: 34, 2007.
47 
A menos nessas três importantes obras de François Guizot o conceito de civilização aparece com destaque:
(i) GUIZOT, François. Cours d’Histoire Moderne. Leçons du Cours d’Eté. Histoire Générale de La Civilisation en
Europe depuis la chute de l’Empire Romain jusqu’a la Révolution Française. Paris : Pichon et Didier Éditeurs, 1828.
(ii) GUIZOT, François. L’Église et la société chrétiennes en 1861. Paris : Michel Lévy Frères Libraires-Éditeurs,
1861. (iii) GUIZOT, François. Méditations sur la religion chrétienne dans ses rapports avec l’État actuel des sociétés et
des esprits. Troisième série. Paris : Michel Lévy Frères Libraires, 1868.

77
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Espraiar a civilização significa europeizar o mundo48. O processo revela-se


universal, cujo feito é a acomodação ao longo do tempo a diferentes espaços.
A descrição do papel da Igreja na formação da civilização euro-
peia, nas lições de Guizot, se dá em termos políticos49. Ele mostra que a
Igreja salvou o cristianismo da barbárie e criou instituições que serviram
para a organização política moderna, sendo a responsável pelo princípio
da civilização. Para Guizot, a ação da Igreja à transmissão de valores, de
conhecimentos e de simbolismo foi fundamental na formação intelectual,
política e social. No entanto o poder eclesiástico já cumpriu com seu papel
à formação das instituições políticas. Na era moderna, além de não poder
manter uma pretensão de exclusividade religiosa, qualquer tentativa de
retorno político da Igreja é apontado pelo autor como uma aberração, tal
qual o caso dos legitimistas em França.
O curioso é que, em L’Église et la société chrétienne en 1861, Guizot toma
posições um tanto quanto particulares para um huguenote: reverencia a Igreja
católica e a importância do catolicismo para a França e se mostra favorável
à defesa dos Estados Papais por Napoleão III. Nessa época, a questão era a
unidade do cristianismo contra as ideologias: o materialismo, o ateísmo e a
anarquia social50. E cabe ressaltar que sua proposta, ao apoiar o catolicismo
nas missões em colônias francesas, era a de estreitar as relações com a ala
liberal dos católicos, encampada por Montalembert e Lacordaire51. Nesse
mesmo livro de 1861, Guizot informa que o sofrimento de uma igreja cristã
(no caso a católica) é o de todos que estão sob o mesmo manto civilizacional,
como se todas as denominações cristãs fizessem parte de um mesmo berço.
Civilização não seria feita apenas de elementos exógenos às condi-
ções particulares do lugar; contaria com a combinação entre um projeto
bancado por uma entidade política que fizesse a ponte com as tradições
locais, como referentes à monarquia, religião, costumes. Essa perspectiva
48 
GUIZOT, 1828, 2ème leçon, p. 11.
49 
HANCOCK, Ralph C. The Modern Revolution and the Collapse of Moral Analogy: Tocqueville and Guizot.
Perspectives on Political Science, 2001, v. 30, Issue 4, p. 213-217. RICHTER, Melvin: Tocqueville and Guizot on
democracy: from a type of society to a political regime. History of European Ideas, 2004, n. 30, p. 61-82. VERGA,
Marcello: European civilization and the “emulation of the nations”. Histories of Europe from the Enlightenment
to Guizot. History of European Ideas, 2008, n. 34, p. 353-360.
50 
GUIZOT, 1861, p. 12.
51 
CORRIGAN, Raymond S. J. A igreja e o século XIX. Rio de Janeiro: Agir, 1946.

78
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

de aliança entre as particularidades do País, de modo que civilização deixa


de significar algo exclusivamente universal, é o fenômeno da nacionalização
do conceito de civilização52.
Uma amostra do viés saquarema a respeito do conceito de civilização
pode ser retirada das intervenções de um dos ministros do gabinete Rio
Branco (1872-1875). O senador Francisco de Paula Negreiros de Saião
Lobato, visconde de Niterói, (1815 – 1884), que, ao tratar das relações entre
religião e o poder público, cita o exemplo de Guizot como um calvinista
que contribuiu muito para todo o cristianismo, inclusive para o catoli-
cismo53. Trata-se de aceitar a perspectiva de diferenciação provocada pelo
temporal, aceitando a distinção frente ao poder religioso. Por isso critica
o ultramontano Cândido Mendes quando ele se mostrou oposição entre
o progresso da civilização moderna e do liberalismo, em face da doutrina
cristã. Para Niterói, o destino é a conciliação entre a tradição religiosa e o
liberalismo, ressalvando a necessidade de não se confundir o liberalismo
com o fervor revolucionário54. Outro aspecto interessante da veiculação do
conceito de “civilização” pelos conservadores aponta para a perspectiva de
continuidade da obra civilizatória nos países novos. Ideia que aparece em
um pronunciamento do senador Joaquim Jerônimo Fernandes da Cunha
(1827-1903), em comemoração ao 7 de setembro (dia da Independência)55.
A lógica da política conservadora para lidar com a Igreja tinha como
pedra de toque o padroado, que se referia aos direitos, privilégios e deveres
concedidos pelo Papado, a partir do século XV, à Coroa de Portugal como
patrona das missões e instituições católicas romanas nas regiões alcançadas
pelo poder real56. O Brasil herda de Portugal as atribuições do padroado
em 1827, mesmo que, ao longo de todo o Império, o País nunca ter firmado
uma Concordata com a Santa Sé a respeito do assunto. Pudera, pelo receio
dos políticos brasileiros quanto à intervenção de Roma, e pelo desejo de
franquear a Igreja católica no Brasil à disposição do Estado, dentro dos
moldes regalistas – de pleno controle do poder secular sobre o sacro.
52 
DEN BOER, Pim. Civilization: comparing concepts and identities. Contributions to the History of Concepts,
2007, n. 3 (2), p. 207-233.
53 
ASI – Anais do Senado Imperial do Brasil, n. 157, 20 de maio de 1873.
54 
ASI, n. 187, 23 de maio de 1873.
55 
ASI, n. 304, 10 de setembro de 1874.
56 
BOXER, Charles R. O Império Colonial Português. São Paulo: Martins Fontes, 1969. p. 257-258.

79
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Basicamente, pela razão saquarema, a Igreja era pensada de dois modos: (i)
como instrumento de estabilidade política e controle; e, (ii) como recurso
administrativo para realizar tarefas fundamentais da vida cotidiana –
batizados (único modo de registro público de nascimento), sepultamento,
casamento, ensino, a civilização moral dos sertanejos, o trabalho missionário
de catequização dos índios etc.
Para o mais guizotiano dos saquaremas, o visconde do Uruguai, a
presença da Igreja servia de instrumento civilizatório: no controle social,
como braço estatal para determinadas funções sociais e exercício de um
trabalho pedagógico sobre o povo inculto e incapaz de exercer uma auto-
nomia individual. Nessa proposta, na medida em que a “opinião pública”
se expandisse e reinasse na esfera pública nacional, muito provavelmente a
Igreja já não seria conveniente como órgão público do Estado. A tendência
de instrumentalização da instituição eclesiástica para difundir a religião
oficial e servir de apoio aos projetos de construção do Estado nacional era
compartilhada, inclusive, pelo próprio Imperador. Pedro II considerava que
os religiosos deveriam ocupar-se de funções úteis à sociedade, cuidando
de escolas e hospitais, além de servirem como parâmetro moral para a
sociedade, tal como Guizot aliava o cumprimento dos deveres morais dos
franceses ao respeito que nutriam pela religião católica57.
Desde o início de seu império, Pedro II esquivava-se da Santa Sé, tanto
que declinou do alto prestígio dado por Roma ao Brasil ao recusar o cardina-
lato em 1847 – o que seria o primeiro de toda América Latina. O argumento
era o de que a cúria romana pediria algo em troca e bradava no sentido de
não querer dar ágio para fortalecer um competidor da soberania estatal58.

b) Civilização e anticlericalismo: o combate do liberalismo radical

A perspectiva civilizatória do liberalismo radical no Brasil se dá em um


momento posterior ao da consolidação política, quando o tema da ordem
deixa de ser primordial. Enquanto os conservadores mantêm-se nessa
57 
CHADWICK, Owen. The Secularization of the European Mind in The Nineteenth Century. Cambridge: Cam-
bridge University Press, 2002 [1975], p. 110.
58 
DOM PEDRO II apud BRUNEAU, Thomas C. Catolicismo Brasileiro em Época de Transição. São Paulo: Loyola,
1974, p. 53.

80
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

tônica, os liberais propõem que a hora era de distensão, desconcentração


do poder, de dar condições ao exercício da liberdade dos agentes capazes.
Como esse liberalismo radical dos anos de 1860 e 1870 ainda permanece
com a retórica democrática “limitada”, “da democracia pacífica, a democracia
da classe média, a democracia da gravata lavada”, como falava Teófilo Ottoni59,
que era uma das referências para dessa geração liberal no Brasil. Na visão
de Ottoni “civilização” diz respeito ao lugar dos capazes.
O diagnóstico liberal luzia não é muito diferente do saquarema quanto à
necessidade de civilizar o Brasil; pois, ou o País não tinha civilização, ou a mesma
era bastante limitada. Mas daí em diante os passos eram díspares. O fulcro liberal
era o de rompimento com as ditas instituições do passado, como a Igreja católica.
O liberalismo radical só recorria ao regalismo como instrumento de exceção, com
o intuito de controlar a Igreja, o que justamente ocorreu na Questão Religiosa.
Porém, fora desses momentos ímpares, a base argumentativa era anticlerical e
até mesmo antirregalista, para evitar as pretensões do Estado central bem como
do poder episcopal. Um caminho de libertação do regalismo e do clericalismo
passava pelo aprimoramento da liberdade religiosa, inclusive porque isso abria
portas para que a civilização entrasse pela janela da imigração, em especial de
protestantes. É necessário ressaltar que esse anticlericalismo não significava uma
atitude antirreligiosa, até porque uma das fontes dos liberais radicais para tratarem
com a Igreja era o catolicismo liberal, de Montalembert60, Lammenais, Ignaz
Von Dollinger, entre outros, segundo o mote: “Igreja livre no Estado livre”61,
acentuando as demandas por separação entre Igreja e Estado, sem concordata ou
compromissos mútuos.
Entre os veiculadores dessa atitude enragé contra a Igreja, despontavam
jovens políticos egressos das Faculdades de Direito do Recife e de São Paulo,
como Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, bem como velhos líderes luzias, que
trabalharam pela reorganização do partido liberal, ou já se colocavam como
signatários do republicanismo. Para o conflito episco-maçônico, o nome
mais importante era o do deputado e jornalista, Joaquim Saldanha Marinho
(1816-1895), que também exercia o grão-mestrado do Grande Oriente do
59 
OTTONI, Teóphilo Benedicto. Circular dedicada aos Srs. Eleitores de Senadores pela Província de Minas Gerais.
Rio de Janeiro: Typ. do Correio Mercantil de M. Barreto, Filhos e Octaviano, 1860. p. 17.
60 
MONTALEMBERT, Le Comte de. L’Église Libre dans L’État Libre – Discours Prononcés au Congrès Catho-
lique de Malines. Journal de Bruxelles, 25 et 26 août 1863. Paris: Ch. Douniol Libraire, 1863.
61 
ROMANO, Roberto. Brasil: Igreja contra Estado (Crítica ao Populismo Católico). São Paulo: Kairós, 1979. p. 97.

81
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Vale dos Beneditinos. Entretanto o grande marco da geração liberal desse


período foi o livro de Tavares Bastos, A Província62 (1870), que lançava uma
linhagem ideológica no liberalismo brasileiro, apresentando a plataforma
das mudanças. Tavares Bastos ligava clericalismo a centralismo e protes-
tantismo com progresso. Eram dele as pautas do partido: descentralização
política e administrativa, ampliação do comércio e desenvolvimento de
meios de transporte (liberdade de cabotagem e abertura do Amazonas), poder
judiciário independente, liberdade de cultos como condição à imigração
espontânea, comunicação telegráfica, e eleição direta.
O típico diagnóstico luzia de desprestígio do passado português alinhava
o catolicismo ao atraso luso-brasileiro, em comparação a países protestantes,
especialmente Inglaterra e Estados Unidos63. Esses dois componentes com-
binam-se pela noção de progresso, pois se as Luzes, a indústria, a cidade, o
transporte eram o indicativo desse movimento, ao contrário dos Ibéricos. Nessa
tônica Tavares Bastos faz uma historiografia, que acabou gerando uma nova
interpretação do Brasil, como se o País precisasse ser refundado64. Predominava
a aposta sobre a diminuição do poder central, deixando a estrutura social à
livre iniciativa, imputando-a como a real promotora do desenvolvimento. A
retórica de Tavares Bastos era eminentemente americanista, justo o avesso
do nacionalismo do visconde do Uruguai.
Ao invés de Guizot, a geração liberal nascida na década de 1840 incor-
pora o que havia de mais avançado no liberalismo europeu continental e
anglo-saxão: Jules Simon, Edouard de Laboulaye, Prévost-Paradol, Walter
Bagehot, Stuart Mill e até mesmo Herbert Spencer (1820-1903). Com esse
ferramental idealizavam os componentes essenciais de uma civilização: a
monarquia parlamentar, a americanização do liberalismo, a relativização
dos regimes de governo, o progresso, a ciência, a democracia. A Constituição
de 1824 não era vista como um bloco monolítico e inalterável. Saldanha
Marinho, por exemplo, lançou mão da carta de 1824 como escudo contra
o Syllabus de 186465. Para Ganganelli (pseudônimo utilizado na imprensa

62 
TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido. A Província: estudo sobre a descentralização no Brasil. Apresentação
Arthur Cezar Ferreira Reis. 3. ed. São Paulo: Nacional, 1975 [1870].
63 
TAVARES BASTOS, 1976[1861], p. 31.
64 
TAVARES BASTOS, 1975 [1863], p. 49-50; 52.
65 
SALDANHA MARINHO, Joaquim. Ganganelli [pseud.]. A Egreja e o Estado. Rio de Janeiro: Typ. Villeneuve, 1873.

82
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

por Saldanha Marinho), a ladainha ultramontana era prova de inocência,


atraso, imbecilidade, de modo que o enfrentamento diante da Igreja era
necessário em nome de uma encruzilhada civilizacional, em que o governo
“ou se elevará à mais nobre posição no conceito de todo o mundo civilizado, ou
morrerá, matando o país, execrado”66. O ultramontanismo era no aspecto
religioso o regime análogo ao que era a escravidão para a cidadania e assim
declarava: “queremos ser cristãos sem sermos escravos!”67.
Definitivamente, a mais recorrente acepção de “civilização” para
os liberais radicais no período era a de superação do clericalismo e dos
valores religiosos tradicionais. O conselheiro visconde de Sousa Franco
(1805-1875), senador pelo partido Liberal, utiliza o termo em oposição à
autoridade eclesiástica, cuja tentativa de vencer o poder temporal proscreve
o progresso, o liberalismo e a civilização moderna68. Ainda no Conselho de
Estado, o mesmo Souza Franco remete-se à “civilização” como a superação
do regime feudal, no sentido de significar a unidade dos povos69. Civili-
zação aqui aparece como correlata à noção de liberdade de trânsito e de
nacionalidade – um prato cheio à política de colonização, especialmente
por protestantes ao Brasil.
Em oposição à civilização enquanto cristandade, advogada pelo líder
da bancada ultramontana, o senador Cândido Mendes, o liberal Sousa
Franco questiona a hermenêutica que produz uma interpretação eclesiástica
da Constituição de 1824 e que, naquele sentido, o País estaria submisso à
Cúria Romana70. Além de Sousa Franco, outro senador do partido Liberal
que travou discussões contra o clericalismo foi o visconde de Vieira da Silva
(1828-1889), formado em direito civil pela Universidade de Heidelberg, trazia
consigo a teoria do Estado alemão e a reafirmação do pragmatismo inglês
contra o idealismo francês – tão difundido no Brasil. Evocava a Alemanha
como exemplo de país onde a ciência se desenvolve, assim como a poesia, e
ainda sim o sentimento religioso não perdia espaço. A respeito da política
religiosa do Império, Vieira da Silva procurava mostrar as possibilidades

66 
SALDANHA MARINHO, 1873, p. 308.
67 
SALDANHA MARINHO, 1873, p. 227.
68 
ACE – Atas do Conselho de Estado do Império do Brasil, 3 e 4 de junho de 1873.
69 
ACE, 31 de janeiro de 1874.
70 
SOUZA FRANCO apud ASI, 7 de junho de 1873.

83
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de compatibilidade entre ciência e religião, em que esta última cumpre


restritivamente o papel na vida íntima dos indivíduos.
Em outro discurso no Senado, Vieira da Silva diz que a religião católica
praticada no Brasil era fraca, deturpada, e que o povo pouco aprendia com
ela71. O senador assumia, em seus pronunciamentos, que não era inimigo da
religião, mas questionava o monopólio do catolicismo como contribuinte
da civilização72. Sua tese, exemplificada na observação da participação dos
católicos franceses nos atos religiosos, pressupunha que a religião protestante
era capaz de emular a católica, tornava-a mais dinâmica, sem que o Estado
perdesse com essa pluralidade, antes, muito ganhava. Acreditava-se que
faltava à prática religiosa no Brasil a mesma seriedade e homogeneidade que
se encontrava na Europa. Nessa visão, um modo de abarcar o sincretismo
nacional era combinar a religião da maioria, católica, com a liberdade para
o culto protestante dos imigrantes provocando, por contraste, a própria
seriedade da prática católica. Na prática, era uma espécie de transplantação
da lógica da concorrência comercial à religião.

c) Civilização e o discurso ultramontano

O ultramontanismo insere-se na tradição política conservadora por


meio do questionamento sobre a legitimidade revolucionária, pari passu a
uma perspectiva política peculiar à linhagem católica: de justificativa do
poder temporal encabeçada pela ordem supraterrena, ou nos termos de
uma teologia política. Há dois pontos que facilmente identificam a política
ultramontana: uma discussão sobre a legitimidade dos movimentos políticos
e o lugar da Igreja católica nesses eventos. Esses temas perpassam a própria
condenação à Revolução francesa, o iluminismo e toda a corrente progressista
do século XIX (laicismo, socialismo, anarquismo, positivismo, cientificismo
etc.). A contrarrevolução existe pela revolução, o tradicionalismo em face do
modernismo, tal qual outros pares antagônicos: Estado e Igreja, modernidade
e tradição, revolução e contrarrevolução, cientificismo e experimentalismo73.

71 
VIEIRA DA SILVA apud ASI, 13 de junho de 1874.
72 
ASI, 13 de junho de 1874.
73 
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Con-
traponto/PUC-Rio, 2006. p. 193.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

O conservadorismo figura como um projeto político à parte do ideal moder-


nizador74. De Maistre e de Bonald procuram recompor a ordem teológica
da política, recorrendo à noção de Providência para superar uma realidade
política feita pelos homens, a qual lhes parecia catastrófica75.
No Brasil, o apogeu do ultramontanismo se dá na Questão Religiosa
(1872-1875), quando os agentes do tradicionalismo católico posicionaram-
se em defesa da Igreja, contra o regalismo do governo. A crise acontece
justamente frente a um ministério do Partido Conservador, cuja postura
foi a de não admitir as atitudes dos bispos de Pernambuco e do Pará contra
a maçonaria, encarando tal como crime contra as leis do Estado. Embora
tenha desestabilizado o Partido Conservador, os ultramontanos no Brasil
não formavam uma agremiação propriamente dita, ainda que tenham
reunido em prol da Igreja políticos de renome76. Entre outros motivos,
havia ausência de linearidade de ação ultramontana, seja entre clero ou
laicato. A unidade era de oposição ao prognóstico liberal doutrinário, os
ultramontanos no Brasil mobilizavam autores que se posicionavam no
ângulo oposto ao ícone teórico do saquaremismo. Autores como Donoso
Cortés77 e Balmés – eram profundos críticos, desde Espanha, da concepção
guizotiana de civilização78.
Na lógica ultramontana, o limite da transação com um governo estava
na reserva quanto à intromissão do poder público sobre a Igreja. Ou seja, a
partir do momento em que a instituição religiosa é ameaçada pelo governo
dentro do seu conteúdo dogmático, seus defensores saem da situação e
engrossam o coro da oposição79. Ao contrário do liberalismo conservador
74 
MITCHELL, L. G. “Introduction” em Burke, Edmund. Reflections on the Revolution in France. Oxford: Oxford
University Press, 2009 [1790].
75 
MILBANK, John. Teologia e teoria social – para além da razão secular. São Paulo: Loyola, [1990] 1995. p. 74.
Tradução de Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves.
76 
PEREIRA, 1970, p. 235-252.
77 
VALVERDE, Carlos. Obras Completas de Juan Donoso Cortés, Marqués de Valdegamas. Madrid: Biblioteca de
Autores Cristianos, 1970. CORTÉS, Juan Donoso. Ensayo sobre el catolicismo, el liberalismo y el socialismo –
considerados en sus principios fundamentales. Madrid, 1851. Disponível em: <http://www.laeditorialvirtual.
com.ar/pages/donosocortes/DCortes_EnsayoIndice.htm>. Acesso em: 10 maio 2015.
78 
SEBASTIÁN, Javier Fernández. La recepción en España de la Histoire de la Civilization de Guizot. In: AYMES,
Jean-René; SEBASTIÁN, Javier Fernández: L’image de la France en Espagne (1808-1850). Colloque international. U.
de Paris III, 1995. Paris, Press de la Sorbonne Nouvelle, Bilbao: Univ. País Vasco, 1997.
79 
BRASIL, Congresso do. Câmara dos Deputados. Centro de Documentação e Informação, Clero no Parlamento
Brasileiro, v. 5, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1980. p. 132.

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(saquarema) e de um liberalismo radical (luzia), o ultramontanismo é um


posicionamento completamente antiliberal, que põe em xeque paradigmas
da modernidade, conforme rezam os 80 artigos do Syllabus. As principais
características desse sistema podem contribuir para a reflexão sobre como o
conceito de “civilização” é trabalhado dentro do paradigma de cristandade.
A partir de Cândido Mendes de Almeida80, senador do Império e provavel-
mente o mais intelectualizado dos defensores do ultramontanismo no País,
é admissível reunir essas particularidades em três tópicos: (i) proteção da
religião contra o Estado tirânico e religião como anteparo da sociedade; (ii)
civilização enquanto “civilização cristã”; (iii) hermenêutica constitucional
à luz do conhecimento eclesiástico e projeto pedagógico católico.
(i) Proteção da religião contra o Estado tirânico, e religião como anteparo
da sociedade. Cândido Mendes aponta que o processo revolucionário teve
início quando a Igreja foi colocada na dependência das ordens estatais,
como aconteceu em Portugal no governo do marquês de Pombal81; a partir
dali se formou uma dominação do Estado sobre a religião que a oprimia.
Em sua principal obra, Direito Eclesiástico brasileiro, antigo e moderno
(1866), Cândido Mendes de Almeida compila a legislação eclesiástica e
desenvolve uma teologia política na introdução, em um dos casos sobre
esse assunto, o legitimista espanhol Donoso Cortés é mobilizado para
mostrar que o despotismo “prevalece nos países em que o poder da Igreja
é oprimido, e a mais segura garantia da liberdade das raças humanas é a
independência da Igreja”82.
O bispo d. Macedo Costa também colocava a necessidade de pedir
liberdade à Igreja, ante o modo precário com que o Estado a assistia. O Bispo
do Pará dirigia-se ao Imperador, dizendo que a religião não era alfândega
estatal e que padres não eram funcionários públicos83. Na iminência de ser
sentenciado em 1874, D. Macedo escreveu “Direito contra o direito; eu, o
80 
Obras pesquisadas: ALMEIDA, Candido Mendes de. Direito Civil Eclesiástico Brasileiro, antigo e moderno em
suas relações com o Direito Canônico ou Coleção Completa, Cronologicamente disposta desde a primeira Dinastia até o
Presente, 2 Tomos, Rio de Janeiro: B. L. Garnier, [1866] 1873. ALMEIDA, Candido Mendes de; VASCONCELOS,
Zacarias de Góes e. Discursos proferidos no Supremo Tribunal de Justiça na Sessão de 21 de Fevereiro de 1874. ALMEIDA,
1982; VILLAÇA, Antonio Carlos. O senador Cândido Mendes. Rio de Janeiro: Educam, 1981.
81 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 21.
82 
DONOSO CORTÉS apud ALMEIDA, 1873 [1866], p. 49.
83 
COSTA, Dom Antônio Macedo, Bispo. Direito contra o direito; eu, o estado sobre tudo. Rio de Janeiro: Typ. do
Apóstolo, 1874.

86
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Estado sobre tudo”, uma análise da Questão Religiosa à luz dos princípios do
Estado moderno, na qual diz estar convencido de que “as formas políticas,
apesar dos defeitos inerentes às coisas humanas, podem abrir às nações, amplo
e auspicioso futuro, contanto que governo e povo sejam fiéis à religião”84.
Observa ainda que a Igreja combate os maus princípios que matam as nações,
repetindo o mantra ultramontano: salvar a religião é o mesmo que salvar o
País. Pelos ensinamentos da Igreja, D. Macedo proclamava que esse modelo,
do “Estado sobre tudo”, nos leva a um “despotismo atroz”85. Com efeito, o
único poder influente, de modo indireto, além de controlador do poder civil,
era a Igreja. Analisando esse quadro, Chadwick86 mostrou que o século XIX
deu ênfase política ao Estado e ao indivíduo, mas ofuscou os organismos
intermediários. Por intermédio da Igreja, a religião como receptáculo dos
valores morais, dentro da família e dos grupos sociais, estaria preservada.
Haja vista que a religião é um elemento fortemente ligado à família, sendo
esses os laços que amarram o sentido religioso na vida individual.
Já nos debates do Senado do Império de 1873, em plena ebulição da
Questão Religiosa, Cândido Mendes reafirma o sentido cristão de civi-
lização. Não se tratava de uma teocracia. Preconiza a atuação da Igreja
como instituição de equilíbrio, moderação e intermédio para evitar os
sobressaltos do poder político sobre os demais87. Era a Igreja enquanto
protetora da sociedade contra o poder de príncipes – como Henrique
VIII da Inglaterra e Frederico II da Prússia –, guardando a civilização e a
humanidade contra a tirania do poder público. Nessa contracorrente do
pensamento político moderno, o jurista maranhense disserta que a nação
é anterior ao poder civil absoluto, que não é a concentração de poder que
faz a nação, pois ela é constitutivamente anterior. Essa discussão é feita
contra os argumentos germanófilos do senador liberal Vieira da Silva, o
qual havia dito que na desorganização da cristandade é que apareceram as
nações da Europa e abrindo margem ao progresso, aliás, algo próximo das
lições do Cours d’Histoire Moderne de Guizot de 1828. Cândido Mendes,
refutando Vieira da Silva, respondia argumentando que o absolutismo como
forma política interessada na concentração do poder e construção da nação
84 
COSTA, 1874, p. 5.
85 
COSTA, 1874, p. 11.
86 
CHADWICK, 2002 [1975].
87 
ASI, n. 175, 23 de agosto de 1873.

87
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

não é algo positivo, nem mesmo pela ótica da sucessão histórica; pois, no
paralelo com o caso luso-brasileiro, há a remissão ao governo despótico
ilustrado do marquês de Pombal de 1750 a 1777, quando se quebra com a
unidade entre a “cruz e a espada”, em nome de uma modernização que por
sua conta chegou a expulsar os jesuítas das terras portuguesas em 175988.
Para um ultramontano, a atuação da Igreja enquanto substituta de Roma
era justificável, mas não a atuação de um poder civil absoluto. Cândido
Mendes defende os jesuítas: que dignificaram a “civilização católica”, junto
aos índios e organizando a Colônia89.
(ii) Civilização enquanto “civilização cristã”. Uma característica do
tradicionalismo de Cândido Mendes é a defesa do passado colonial e, em
alguma medida, da herança política e religiosa deixada por Portugal ao
Brasil90. Fatores que credenciaram o país americano à civilização cristã.
A “conservação” deveria combinar esses dois aspectos da vida social – a
organização política (preferencialmente monárquica) e religiosa –, para
manter as conquistas do cristianismo, que perpassavam ainda as ciências,
a cultura. Por outro lado, se a Igreja foi a evolução do Império Romano,
por ter canonizado o Direito Romano, a filosofia moderna que subsidiava a
supremacia estatal representava uma marcha à ré na história. Curiosamente,
por vezes, o sentido da palavra moderno por Cândido Mendes levava em
conta essa ideia. Assim, essa “consciência moderna” não está apartada da
Igreja, mas é ela própria91.
Esses erros têm como origem a falta de percepção sobre a natureza
humana: “o homem é uma entidade essencialmente teológica”92. E o receptá-
culo dessas leis, que relacionam as ações humanas à vontade divina é a Igreja,
a guardiã do passado. Cândido Mendes explica que autores promotores de
ideias pagãs – como Buchanan na Escócia, Bacon e Hobbes na Inglaterra,
e Hugo Grócius na Holanda – degradaram o senso cristão europeu e neles
encontram-se problemas a respeito do fundamento antropológico. Por
levarem tão a sério a separação entre religião e política, acabaram gerando

88 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 47.
89 
ASI, n. 178, 23 de agosto de 1873.
90 
ASI, 30 de julho de 1873.
91 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 9, 390.
92 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 10.

88
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

um ideário para a própria exclusão da religião. Erro esse em que não caiu o
autor da contrarreforma portuguesa, Gabriel Pereira de Castro (1571-1632),
referência obrigatória em Cândido Mendes, embora tenha sido formulador
de políticas para reis absolutistas, Pereira de Castro salvou sua teoria ao
cultivar a ideia de que a sociedade cristã é um corpo misto, e que o poder
temporal funciona dentro de sua órbita, subordinado a ela93.
A própria instabilidade política que a Europa vivia no século XIX
seria uma prova do distanciamento religioso. Segundo Cândido Mendes,
era errado pensar que a ideia de “civilização moderna” fosse superior à de
sociedade cristã. Não haveria como pensar a completude de uma civilização,
sem o cristianismo, caso contrário, “dão em resultado o quadro que acabamos
de ver em Paris [Comuna, 1871]”94. “Civilização” recorrentemente surge de
um modo que se pode cambiar por “civilização católica” ou “cristandade”95.
Provavelmente a influência da literatura europeia que reivindica o termo
possibilitou essa noção, como nas vezes que se remetia ao teólogo Henry
Ramière (1821-1884) (L’église et la civilisation moderne, de 1861)96. Donoso
Cortés, Balmés, de Maistre, Chateaubriand e outros autores católicos97.
No plano do direito constitucional, o equívoco do modernismo
pagão foi ancorar-se na Antiguidade romana98. Em nome da superação do
medievo, os estadistas passaram a resgatar o que viera antes da marcante
presença da Igreja na história europeia e restabeleceram as formas jurídicas
do cesarismo.
O laço com a civilização, nos termos do jurista, estava marcado pela
tradição religiosa, pelo estandarte da Igreja católica. Seguindo essa imagem
proposta, que remete à expulsão dos holandeses de Pernambuco (1648/1649),
a qual Cândido Mendes nos faz pensar que o contrário do civilizado, por-
tanto o bárbaro, era o protestante, o holandês contrário à fé, excluído do
grêmio da civilização cristã (católica).
93 
Gabriel Pereira de Castro é mobilizado como referência para Cândido Mendes, como clássico da literatura da
contrarreforma lusitana, sobretudo em De Manu Regia, de 1673. CALAFATE, Pedro. Da origem popular do poder
ao direito de resistência – doutrinas políticas no século XVII em Portugal. Lisboa: Espera do Caos, 2012.
94 
ALMEIDA, 1982, p. 74.
95 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 9; 48; 166.
96 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 240.
97 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 12; 46, 206.
98 
ALMEIDA, 1982, p. 103.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

(iii) Hermenêutica constitucional à luz do conhecimento eclesiástico e projeto


pedagógico católico. Quando publicou o Direito Civil Eclesiástico Brasileiro em
1866, Cândido Mendes queria impor-se dentro do projeto pedagógico das
faculdades de direito do País e preencher uma lacuna, a da falta de estudos
históricos sobre a Igreja católica e sobre a legislação eclesiástica, desde o ano
150. As leis canônicas eram de suma importância, pois o Brasil, seguindo a
tradição portuguesa, delegava à Igreja católica a tarefa de organizar várias
etapas da vida dos habitantes do País99. Há, nessa preocupação pedagógica,
a identificação entre os elementos fundamentais da história cristã e as
bases da constituição social e política100. Palavras como, moderno, liberdade,
soberania e civilização compreendem um conteúdo que as encaminha ao
campo da tradição cristã, de permanência e não ruptura com o passado pré-
moderno. O sentido explicativo é anti-iluminista. O que ampara a concepção
religiosa – aparentemente monopolizados pelos liberais – é justamente a
força material da religião, mantida pela Igreja. Quanto menor a difusão da
religião a partir do clero, mais fraca a noção católica de política, dentro de
cada conceito e em meio aos valores que regem o corpo político.
Um segundo aspecto diz respeito à consequência da perda de espaço
da posição da Igreja na estrutura social e política. O que o autor chama de
secularização, termo empregado diversas vezes no Direito Civil Eclesiástico
e nos pronunciamentos no Senado, era o movimento que levava ao antigo
Estado pagão101. E contra esse movimento secular era preciso reafirmar uma
hermenêutica jurídica a ser ensinada nas Faculdades de Direito, que lesse
as concepções da religião nas formas jurídicas, para fornecer alternativa
ao Estado brasileiro para o estabelecimento da ordem. Cândido Mendes
levava em conta a base documental do direito eclesiástico contra o retorno
do direito romano. A doutrina política católica é apresentada como um
ponto de equilíbrio e reação aos radicalismos modernistas, que no fundo
regrediam ao apoiarem-se na Roma antiga102. Ademais, a perspectiva ultra-
montana a respeito da religião serviria como uma espécie de oráculo da
interpretação constitucional. É nesse sentido que Cândido Mendes pretende
dar aos estudantes das ciências jurídicas no Brasil e a todos os interessados
99 
GRINBERG, Keila. Código civil e cidadania. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 38.
100 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 393.
101 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 187.
102 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 234.

90
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

nos postulados básicos da construção de uma sociedade cristã e de homens


livres103, que só seriam feitos na relação direta entre religião e política,
Estado e Igreja – unidos.
O Brasil era visto como um caso excepcional de país católico que não
promovia os estudos de teologia104. O modelo da Universidade de Coimbra,
pós-reforma pombalina, teria imperado nas Faculdades de São Paulo e
Recife. Como resultado, um ensino descrente para as elites, da forma antiga,
preservou-se a forte presença da retórica nos estudos, sem dar a mesma
importância ao raciocínio lógico105. Cândido Mendes reclamava que tanto
Portugal como o Brasil eram dois países sobrenaturalmente católicos, e
naturalmente cismáticos: “A população em sua massa é católica; mas a classe
dominante, a que governa e dirige a nação, educada de outra sorte...”106.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No século da secularização, como foi o XIX, o conceito de civilização


pode ser identificado entre propostas que reivindicam o termo, mas traduzem
perspectivas antagônicas. É o que se viu no Brasil, entre o conservadorismo
liberal dos saquaremas, a ala radical dos liberais e os ultramontanos entre as
décadas de 1860 e 1870. A preocupação desse trabalho foi compreender a
apropriação do termo “civilização” e termos correlatos entre atores políticos
fundamentais na compreensão das relações entre Igreja e Estado no Brasil.
Os confrontos entre a defesa do Syllabus de 1864 e as prerrogativas do
constitucionalismo moderno envolvem a Questão Religiosa (1872-1875) no
Brasil. Sendo válido perceber como nessas ocasiões de acirramento político
os conceitos ganham em nitidez, para a definição dos horizontes tomados
por cada ideário político. As posições a respeito da Igreja católica na política
definiram-se entre a manutenção do controle regalista, o anticlericalismo
liberal ou a reafirmação do clericalismo. O que fica dessa análise da his-

103 
AURÉLIO BASTOS. “Introdução” em ALMEIDA, 1982. p. 12.
104 
ALMEIDA, 1873 [1866], p. 10.
105 
CARVALHO, José Murilo de. História intelectual no Brasil: a retórica como chave de leitura. Topoi, Rio de
Janeiro, 2000, n. 1, p. 123-152.
106 
Para reaproximar a intelectualidade da teologia cristã, propunha-se a criação de faculdades de teologia,
como J. de Maistre orientava. ALMEIDA, 1873 [1866], p. 40, 13.

91
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tória do político diante desse processo é o que se pode esclarecer daquele


contexto para a percepção da secularização e das tradições políticas brasi-
leiras. Apenas diante daquela conjuntura política, no curto prazo, a Questão
Religiosa contribuiu para a desestabilização do modelo político saquarema,
assim como um momento central para a autonomia do político em face da
religião no Brasil e revela-se como um caldo de experiência argumentativa
para considerar as posições a respeito.
A confusão e a falta de diálogo entre os grupos se dava por conta da
ausência de comum acordo a respeito do paradigma religioso. É por isso que
a explicação de Marcel Gauchet sobre a saída da religião não é simplesmente
institucional, pela separação legal Igreja-Estado, ou a perda de atributos da
religião sobre o funcionamento das leis. É um processo de materialização
da autonomia107 e que diz respeito a como a política moderna está pautada,
em uma configuração que procura expelir o elemento religioso enquanto
estruturador da política. Com isso, gradativamente a religião passa a ser um
elemento estranho à racionalidade política moderna. Segundo o mencionado
autor, o enigma da primeira política, pré-Estado moderno, estava em uma
palavra: religião, que escondia, ocupava e neutralizava o político. A demo-
cracia, a liberdade e a sociedade civil modernas são produtos desse ocaso
da religião, que exclusivamente dava sentido à coisa pública. Eis esta uma
sugestão bastante plausível para apresentar esse cenário tão desencontrado
sobre o que é civilização no século XIX.

ARQUIVOS

ACE – ATAS DO CONSELHO DE ESTADO DO IMPÉRIO DO BRASIL, DE 1873


A 1875.
ASI – ANAIS DO SENADO IMPERIAL DO BRASIL, DE 1873 A 1875.

107 
GAUCHET, Marcel. L’avènement de la Démocatie I. La Révolution moderne. Paris: Gallimard, 2007.

92
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

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VILLAÇA, Antonio C. O senador Cândido Mendes. Rio de Janeiro: Educam, 1981.

97
Capítulo 3

ESCRITA E POLÍTICA NA FORMAÇÃO DO JOVEM


ALFREDO TAUNAY (1865-1872)

Antônio Marcos Dutra da Silva

INTERPRETAÇÕES DA OBRA

Quem quer que se depare com as obras do Visconde de Taunay pro-


vavelmente acaba se lembrando mais da sua obra literária, e em especial
por ser ele autor de Inocência.1
Ao longo do tempo, à medida que os traços do homem Alfredo Taunay
apagavam-se, a imortalidade garantida pelas obras literárias se consolidara
ao ponto de que seu nome esteja associado primeiramente a seu perfil de
escritor, mais do que a qualquer outra faceta. O próprio Visconde de Tau-
nay parece ter tido consciência do papel daquele romance e do relato de
guerra A retirada de Laguna como os pilares que manteriam seu nome para
as gerações posteriores.
Em certa ocasião, no jantar oferecido pelo Instituto Histórico Geográfico
do Brasil (IHGB) aos oficiais do encouraçado chileno Cochrane, em outubro
de 1889, Taunay mostra ao Imperador os dois livros – Inocência e a Retirada
de Laguna – que ofereceria ao Comandante Constantino Bannen e segreda:

1 
Publicado originalmente em 1872, sob o pseudônimo de Silvio Dinarte, Inocência tem como enredo central o
amor entre a jovem Inocência que se apaixona por um médico que viaja pelo sertão (Cirino), mas é prometida em casa-
mento a outro homem. O que dá ocasião de Taunay compor um cronótopo do Sertão, a partir de sua experiência na Vila
de Santana do Paranaíba (hoje município de Paranaíba); no romance são retratados tipos como a mulher e a construção
do papel feminino no interior, o europeu, viajante e o sertanejo, exemplar típico do homem do campo na região. Ver:
CRUZ, Ednília Nascimento. O Tempo-Espaço em Inocência, de Visconde de Taunay. Anais do SILEL. v. 2, n 2.
Uberlândia: Edufu, 2011.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

“Eis as duas asas que me levarão à imortalidade”. Sorriu-se


Sua Majestade e observou: “Uma é mais comprida que a
outra”. “Assim não chegarei”, repliquei, “porque com essa
diferença o voo é impossível. Antes asas curtas e iguais”2.
Embora esses dois livros de fato sejam os mais representativos de
sua escrita literária, Taunay atuou em diversos campos do conhecimento e
também na vida política a partir de 1873, como deputado e posteriormente
como senador, na qual seria reconhecido.
O percurso de sua consagração acabou acompanhando as vicissitudes
políticas brasileiras. Em vida, Taunay foi senador, engenheiro, músico, ideó-
logo da necessidade da imigração europeia (e seu propagandista), militar;
escritor, professor e memorialista. Entretanto, com a consolidação lenta
republicana, não é de espantar-se que essas múltiplas facetas fossem dando
lugar à celebração de sua memória como um memorialista da Guerra do
Paraguai e, por fim, um escritor romântico tardio.
A maior parte dos trabalhos recentes tende a dar primazia a uma ou
mais característica de sua prosa como ferramenta interpretativa: Maria Lídia
Maretti atribui à capacidade de reminiscência de Taunay que permitiram
que se tornasse um verdadeiro “polígrafo contumaz”; para a pesquisadora,
a memória é que fornece a chave da interpretação da obra diversificada do
escritor, ponto de vista compartilhado por muitos dos trabalhos acadêmicos
de crítica literária escritos posteriormente.3
Para outros, o caráter observador de Taunay, somado à educação
artística que recebera explicariam a tendência descritiva, perscrutadora,
com que fixaria atenção nas paisagens e pessoas4, o que sublinharia uma

2
  TAUNAY, 2005, p. 135.
3 
MARETTI, Maria Lídia. Um polígrafo contumaz (o Visconde de Taunay e os fios da memória). Campinas-SP:
Unicamp, 1996 – Tese (Doutorado); BERALDO, Patricia Aparecida. No declínio, de visconde de Taunay: o canto
do cisne. Campinas, SP: [s.n.), 2002; BUNGART NETO, Paulo. De Taunay a Nava: grandes memorialistas da
literatura brasileira. Dourados: UFGD, 2011.
4 
WIMMER, Norma. Uma estréia no romance: A mocidade de Trajano. Revista Eletrônica Literatura e Autori-
tarismo, n. 15, p. 42-48, 2010.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

influência francesa familiar – no domínio da execução artística5 quanto


nas ideias artísticas6.
Alguns buscam justificar o gosto por descrição de paisagens apro-
ximando Taunay de um ideal dos viajantes ao Brasil, quando do início do
século XIX, ou ainda, da missão francesa7.
Outros atribuem um lugar socialmente privilegiado, nobre de nas-
cença (o que de fato não existia no Segundo Reinado) para entender certo
deslocamento do autor em relação à sociedade que “descobre”, ou seja, aquela
das realidades interioranas.8 A maior parte dos trabalhos disponíveis tende
a estudar aspectos pontuais na obra de Taunay como regionalismo, relações
raciais, ou um de seus livros9 ou ainda o entrecruzamento entre espaço e
tempo na construção do cenário regional, tornando os personagens tipos
indissociáveis do lugar (o sertão) e o tempo (1860/1870)10.
É a partir dessa formulação que se procura investigar como Taunay
construiu suas dicotomias no romance Inocência: cidade/campo; estrada/
casa; fronteira/clausura [quarto]11. Ainda sobre esse romance, Gislei Souza
procura sublinhar a construção de uma nova forma discursiva sobre esse
espaço “novo” (o Sertão) que, na leitura da pesquisadora, é alvo de denúncia
de abandono pelos escritos, contrapondo-se ao discurso “oficial”12 de avanço
de civilização sobre o interior.
5 
GREGÓRIO, Paulo Henrique. A identidade franco–brasileira do Visconde de Taunay. Revista Opiniões, p.
12-23, São Paulo, 2011.
6 
WIMMER, Norma. Marcas francesas na obra do Visconde de Taunay. 186 f. Tese (Doutorado em Letras) – Facul-
dade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1992.
7 
CASTRILLON-MENDES, Olga Maria Taunay viajante: uma contribuição para a historiografia literária
brasileira. Revista do IEB, n. 46 p. 217-240 fev. 2008.
8 
CUNHA, Maria Jandyra Cavalcanti; CORREA, Vítor de Abreu. O lugar de fala de Taunay – Um estudo sobre o
enquadramento da narrativa na Guerra do Paraguai. Brasília: UnB, 2013.
9 
BAREL, Ana Beatriz Demarchi. História e Imaginário: a Construção de Imagens Identitárias em Relatos
de Viajantes Oitocentista. Revista Signotica, Goiania – Brasil, v. 17, n. 1, p. 21-43, 2005a.; BAREL, Ana Beatriz
Demarchi. De tropeiros, fazendeiros e histórias de amor: Til e Inocência – dois projetos de formação da literatura
brasileira. Rev. Inst. Estud. Bras. [online]. n. 56, p.209-228, 2013; SOUZA, Gislei Martins de. Incursões de fron-
teira: as contradições da modernização brasileira no sertão mato-grossense segundo o Visconde de Taunay. Dissertação
(Mestrado), Cuiabá: Universidade Federal de Mato Grosso, 2011; CRUZ, 2012.
10 
Como explica a pesquisadora: “O cronótopo do sertão ... Do ponto de vista histórico, é gerado pelos valores
sociais e culturais que permeiam o Brasil rural do século XIX, por meio da espacialidade do campo. A revelação
do modo de viver do sertanejo, seus costumes, crenças e a organização familiar da sociedade oitocentista são
significativos para esse momento histórico” (CRUZ, 2011, p. 4).
11 
Ver: CRUZ, 2011; CRUZ, 2012.
12 
SOUZA, 2011, p. 117.

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Para Ana Beatriz Barel, nesse mesmo romance, o dilema entre civi-
lização e barbárie põe-se no uso metafórico da estrada que simboliza o
trânsito, a passagem, a mescla do universo bruto, masculino de encontros
e comércio com personagens os mais variados, como tropeiros, supostos
médicos, comerciantes, todos desconhecidos da Corte13.
Todas essas leituras são importantes, contudo elas tendem a ser
parciais, do ponto de vista da explicação de suas circunstância e obras, limi-
tando a capacidade de entender as vicissitudes do contexto sociopolítico e
o esclarecimento da relação entre a visão política que desenvolveu Taunay,
seus projetos e sua vida literária.
Ao ignorar-se o contexto, no sentido mais amplo, perde-se o horizonte
com o qual dialogava o autor, tornando a expressão artística mesma um
ato de vontade, quase um capricho romântico, sem maior interação com
os intelectuais e agentes políticos de seu tempo.
Nesse sentido, é preciso ter em vista dois pontos fundamentais: o
escritor habita um mundo historicamente determinado, que é apreensível
somente por meios disponíveis graças a uma série de linguagens histori-
camente constituídas14 e que a linguagem que emprega tem como atributo
tanto a continuidade quanto a inovação.
Dessa forma, compreender o contexto permite entender a que questões
(do seu tempo) Taunay intentou responder, como ele participa do ambiente
histórico-cultural do pensamento político brasileiro de seu tempo e de que
forma suas ideias (e realizações artísticas) vinculam-se também a uma ideia
de linhagem política ou tradição.

LINHAGENS

Ainda que o esforço de modernização, ou reforma15, estivesse presente


nos representantes mais importantes da geração de 187016, e especial em

13 
BAREL, 2013.
14 
POCOCK, John Greville Agard. Estado da Arte. In: Linguagens do Ideário Político. São Paulo: USP, 2003. p. 27.
15 
Como prefere a pesquisadora Angela Alonso. Ver: ALONSO, Angela. Crítica e Contestação: o movimento
reformista da geração 1870. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 15, n. 44, 2000.
16 
ALONSO, Angela. O memorialista interessado – a construção da imagem do Império na Primeira República. GT
Pensamento Social no Brasil 32º Encontro Anual da Anpocs, 2008.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Joaquim Nabuco, André Rebouças e Taunay17, cada um deles apresentou


um desenho particular de seu projeto. Especificamente aquele compro-
misso modernizante promovido pelo Estado claramente estaria explícito
na vida política de Alfredo D’Escragnolle Taunay e se formara a partir da
sua literatura perscrutadora do sertão, elaborada à sombra da Guerra do
Paraguai, vindo a lume entre 1865 e 1875.
Guerreiro Ramos considera a origem desses esforços no pensamento
de Paulino José Soares de Sousa, Visconde do Uruguai. Seu caráter prático
teria sido a primeira tentativa de superar a mimese18 como paradigma para
o avanço socioeconômico a partir da condição periférica19.
O Visconde do Uruguai foi um dos pilares da centralização política e
da fundamentação ideológica do partido Conservador quando do reinado
de Dom Pedro II.
Considerando o contexto e sua carreira política, pode-se ver que desde
o Jovem Taunay, entre o jovem oficial militar e escritor da década de 1870,
até o Visconde de Taunay, título que receberia em 1889, publicamente ele
esteve inscrito dentro do partido Conservador ou Saquarema. Visconde
do Uruguai e Visconde de Taunay como que reúnem o início e o fim do
partido conservador sob o Segundo Reinado.
A carreira política de Visconde de Taunay foi dentro das fileiras desse
partido que se opunha aos Luzias ou Liberal. Ambos eram os partidos que
nortearam a vida política do Segundo Reinado, enquanto “Saquarema” era
a denominação dada aos conservadores do Império, “Luzia” é o apelido
dedicado aos liberais da época.
A origem desses nomes deve-se ao fato de que Saquarema era o nome
do município do Rio onde o Visconde de Itaboraí (um dos líderes conser-
vadores) possuía uma fazenda que servia de encontro para os partidários,
e Luzia era uma referência a Santa Luzia, em Minas Gerais, onde ocorrera
a maior derrota dos liberais nas revoltas de 184220.
17 
CARVALHO, Maria Alice Rezende de. O Quinto Século: André Rebouças e a construção do Brasil. Rio de
Janeiro: Revan, 1998.
18 
A heteronomia na linguagem guerreiroramosiana.
19 
RAMOS, Alberto Guerreiro. O problema nacional do Brasil. Rio de Janeiro: Saga, 1960. p. 96.
20 
LYNCH, Christian Edward Cyril. Saquaremas e Luzias – A sociologia do desgosto com o Brasil. Insight-In-
teligência, out. nov. dez., 2011. p. 22.

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A primeira geração saquarema coincide com a ascensão de D. Pedro


II ao trono, com a antecipação da Maioridade. Sob as circunstanciais acu-
sações de absolutismo, o saquaremismo dessa primeira geração acabou
tentando combinar o parlamentarismo com a autonomia do exercício do
Poder Moderador pelo Imperador, cabendo a este conduzir com probidade
e de maneira equidistante aos partidos a res publica.21 Pode-se dizer que
o período áureo do saquaremismo se deu entre 1850 e 1870, ainda que o
debate sobre os limites do Poder Moderador, a necessidade de reformas
políticas e sociais em meio a censuras e elogios a ação do Imperador mar-
cassem o período.
Entre 1870 e 1889, a necessidade de modernização política e social
é percebida ao mesmo par que a iminência da abolição completa da escra-
vidão catalisava a busca por soluções político-sociais aos problemas que se
seguiam, a existência das grandes propriedades e a falta de trabalhadores
rurais e a insatisfação dos grupos oligárquicos com a propulsão dos saqua-
remas com as mudanças.
No plano internacional, o nacionalismo e especialmente a emergência
do imperialismo é o ponto fundamental que tem passado despercebido pelas
análises de crítica literária dos textos de Taunay.
A circulação de novelas, textos de viagens, relatos, reportagens e
livros de memórias formou muito do que estava na moda a partir de 1850,
moldando uma estética que foi absorvida pelas elites letradas do ambiente
periférico do século XIX e serviu para elaborar tanto as imagens típicas dos
países nascentes, quanto caracterizar as relações com o outro próximo, em
geral, povos indígenas e escravos.

A CARTOGRAFIA E A LEITURA

Assim, a literatura de viagens aponta para os contornos com que as


relações entre europeus e não europeus estavam estabelecidas ou, ao menos,
imaginadas. Se, por um lado, a relação desigual entre brancos europeus e
povos indígenas e africanos abre espaço para um vocabulário que sobre-

21 
LYNCH, Christian Edward Cyril. O Momento Monarquiano – O Poder Moderador e o Pensamento Político Imperial.
Tese (Doutorado). Rio de Janeiro: Iuperj, 2007. p. 207-210.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

viveria ao século XIX, como o provam os termos “bárbaro”, “civilização”,


projeto “civilizacional”; por outro, ela também impôs o conhecimento – seja
etnográfico, geográfico – de realidades antes insuspeitas para os europeus.
Os relatos de guerra e viagens permitiram que surgissem textos
como os de Richard Francis Burton22 ou os relatos de campanha da tomada
da Argélia pelos franceses, como o escrevera o marechal Clauzel23. Esse
ambiente moldou as experiências estéticas europeias e consequentemente
a recepção periférica desse conteúdo.
O jovem Taunay receberia tanto a influência do que lia e, consequen-
temente, consumia como leitor educado de seu tempo, quanto daquilo que a
Guerra apresentava ao jovem militar, enquanto desafios à integração nacional.
Nesse ambiente sertanejo, ficava clara a fragilidade da defesa da
fronteira, a dificuldade de contato entre a Corte e a realidade distante dos
campos de batalha. Do ponto de vista da vida social, Taunay tomava contato
com um ambiente caracterizado pela simplicidade e rudeza, que procurou
sublinhar nas relações e personagens do livro Inocência.
Para compreender o pensamento do Taunay, é necessário o esforço
de não só isolá-lo tematicamente nesta ou naquela obra, mas também
privilegiar os diferentes elos de interação com os quais a sua vida e obra
se construíram.
Desse modo, entrelaçam-se na posição política do escritor carioca
quanto na sua escrita, importantes fatores: A tradição saquarema a que se
filia, o modo como compreendeu o esforço de modernização possível – em
uma sociedade por se constituir, de caráter eminentemente agrário – e as
transformações pelas quais o mundo passava. O esforço, pois, não é o de
eleger um elemento preponderante, mas de compreender a interação de
todos esses elos.
Explorando esses eixos, pode-se então seguir de perto a proposta de
Pierre Rosanvallon de uma abordagem capaz de estabelecer a coerência
entre obras tão diversas escritas por Taunay. Para tomar de empréstimo a

22 
BURTON, Richard Francis. The Lake Regions of Central Africa. Longman, Green, Longman and Roberts:
London, 1860.
23 
CLAUZEL, Bertrand. Explications du Marechal Cluzel. Paris: Ambroise Dupont, 1837.

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expressão do cientista político francês que cunhou o termo “l’oeuvre-Gui-


zot”24, é preciso restituir a opera-Taunay (ou obra-Taunay).
De qualquer forma, o desconhecimento da dinâmica política do
Segundo Reinado, a compartimentação de assuntos em sua obra e a clas-
sificação de um lugar social privilegiado como fator explicativo de maior
importância pouco fazem avançar o conhecimento sobre o autor. Assim, é
preciso voltar a atenção para o “ponto de partida”, o momento em que o jovem
Alfredo Taunay começa a sair do ambiente exclusivo familiar, e próximo da
família imperial, para se tornar uma figura pública no Segundo Reinado.
Um dos momentos decisivos para a formação de Alfredo de Taunay foi
a passagem de sua vida estudantil a sua participação na Guerra do Paraguai.
Ainda como estudante, apesar da camaradagem, e das excelentes notas em
seu período de formação militar na Praia Vermelha, seus estudos lhe pare-
ceram árduos e não se sentia muito inclinado a “essa penosa profissão”25,26.
Apesar disso, as tensões que se seguiram no período impulsionaram sua
carreira militar.

A ESCRITA LITERÁRIA

No romance de estreia, A mocidade de Trajano, há claras indicações


dessas leituras.27 Nele, há o núcleo principal que gira em torno de Trajano,
um personagem tipicamente romântico para quem a perda da mãe cria o
desejo de evasão e exílio.
Trajano, aos poucos, aproxima-se da jovem Amelia por intermédio da
escrava dela, Bertha, um tanto quanto ardilosa, que pretende manipular a
correspondência entre os jovens enamorados. Amelia é filha de um adver-
sário político do pai de Trajano, Sr. Sobral. Temendo uma relação desigual
entre Trajano e Bertha, o pai dele decide enviá-lo à Europa.
Trajano percorreria por dois anos Europa e Ásia. O tratamento dis-
pensado pelo narrador (aproximado ao personagem principal em grande
24 
ROSANVALLON, Pierre. Le moment Guizot. Paris: Gallimard, 1985.
25 
TAUNAY, Alfredo d’Escragnolle de (Visconde de). Memórias. São Paulo: Iluminuras, 2005.
26
  TAUNAY, 2005, p. 108.
27 
Publicado em 1871. O livro aparecia sob autoria de Sylvio Dinarte.

106
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

medida) aos dois continentes é exemplar. A descrição da Europa é cheia de


expressões que sublinham a grandiosidade e a beleza: o personagem Tra-
jano fala com admiração das “lagunas de Veneza”, a “melancólica Athenas”,
a “grandeza severa de Berlim”, as “agigantadas cathedraes” de Colônia, a
“alacridade inexcedível” de Paris e a “seriedade de Londres, a “actividade
vertiginosa de Manchéster e Liverpool”, “o pittoresco aspecto da Escossia,
com seus lagos, suas montanhas, seus plaids e highlanders...”
Contudo o tom muda ao sair do mundo cêntrico e entrar no contexto
periférico. O vocabulário transforma-se para tratar da Ásia. Se há certamente
beleza a ser admirada, o caráter humano violento, subentende-se “bárbaro”,
é sublinhado pelo personagem principal:
Hoje já fui à casa de um armeiro e comprei um dos elementos
indispensáveis para tão romântica viagem: um, pàr de exce-
llentes pistolas e um punhal de mola. Com isso procurarei
mostrar aos povos da Ásia, que muito vale um brasileiro...
Voltei pois para Smyrna, a pátria das inspirações de Decamps,
e querendo mostrar um typo brasileiro— não sei se o sou—a
povos que com ele nunca havião sonhado, sulquei o mar
Negro e desembarcando em Trebizonda, fui à Circassia e
Geórgia, d’onde volto com uma illusão de menos. Nas gar-
gantas do Caucaso Armeniano a guerra não cessa um só dia:
são os russos e os turcos que contendem a posse daquellas
agruras; os russos disciplinados, bem vestidos, bem arma-
dos; os turcos, maltrapilhos, verdadeiros bandidos, mas que
batemse como leões e só cedem o terreno passo a passo.28

O internacional no texto é claramente formado a partir de um ambiente


apreendido de leitura, das artes, de uma narrativa envolta de Orientalismo
em voga então. A primazia do elemento europeu se desdobraria posterior-
mente na defesa da imigração europeia.
Pela primeira vez, o jovem escritor Sylvio Dinarte (Alfredo Taunay)
toca no tema. O jovem escritor apontava para a necessidade da imigração
populacional como solução para a transição do trabalho escravo à livre.
A imigração de contingente europeu seria uma das bandeiras moder-
nizantes que se apresentavam para a geração de 1870 (a qual incluía André

28 
TAUNAY, 1871, p. 20.

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Rebouças, Joaquim Nabuco dentre outros) com o a percepção do fim próximo


da escravidão. No trecho percebe-se que o autor acaba sugerindo que esse
debate público já estava instaurado.
À referência, no romance, ao pintor Alexandre-Gabriel Decamps
junta-se, por exemplo, a citação da correspondência de Sir John Chardin,
muito popular em fins do século XVIII, ou os relatos dos primeiros viajantes
à Argélia, como Moritz Wagner, ou o relato de ocupação francesa, como a
do próprio marechal Clauzel que conduzira o processo e fora superior do
Conde d’Eu, ainda integrado ao exército francês.
No jovem Taunay, a percepção do internacional capturado a partir
das imagens difundidas no Ocidente sobre o Oriente imaginado cederia
lugar à experiência da Guerra do Paraguai.
É o próprio Taunay, escrevendo suas memórias, quem revelaria mais
tarde que muito da paisagem vista se tornaria o pano de fundo de seus textos
como Histórias brasileiras, Narrativas militares e principalmente Inocência.29
A Guerra agitava os alunos da Escola Militar da Praia Vermelha. Taunay
contava 22 anos em 1864. Tropas de Voluntários da Pátria organizam-se
no Rio de Janeiro, e o próprio Imperador multiplicava-se em atividades de
preparação da guerra cujo objetivo era, para Taunay, “reivindicar, do modo
mais completo, a honra e a dignidade do Brasil malferidas pela mais insólita
e brutal agressão”.30 Inicialmente o jovem deveria juntar-se ao batalhão de
artilharia que sairia do Pará, mas acabara sabendo da reunião de tropas em
São Paulo e Uberaba de forças disponíveis nas províncias do Paraná, de São
Paulo e Minas Gerais e de repartições que seriam anexadas também, como
a Comissão de Engenheiros.
Essa Comissão deveria seguir para o Mato Grosso, cortando o Brasil.
Parecendo mais aventurosa, a possibilidade de juntar-se à Comissão chama a
atenção de Taunay. Por intervenção de seu pai junto ao Imperador que “com o
habitual escrúpulo” não via no ato qualquer violação de “lei positiva”, o jovem
é transferido do batalhão de artilharia para a Comissão de Engenheiros31.

29 
TAUNAY, 2005, p. 135
30 
TAUNAY, 2005, p. 129.
31 
Ibidem, p. 130.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Junto à Comissão, Taunay escreveria o Relatório Geral da Comissão de


Engenheiros e a Retirada de Laguna. Para Taunay, os fracassos da Comissão em
planejamento e ação decorriam da distância entre as realidades do interior
do País e suas inerentes dificuldades e o conhecimento apenas livresco e
teórico dos planos elaborados na capital para a marcha rumo ao Paraguai:
Observarei aqui, entre parênteses e levado pelo arrastamento
da verdade, que os serviços da nossa Comissão nunca foram lá
muitos valiosos à expedição. Todos nós, comodistas e saídos
de fresco da Escola Militar, primávamos por muita pretensão,
que não se afirmava de modo algum nos resultados práticos,
e qualquer trabalho nos custava não pouco por queremos em
tudo aplicar as regras de rigorosa teoria. Enfim para diante
tudo tão caro pagamos e tanto sofremos da sorte, que muita
coisa nos deve ser desculpada.32
Se o Relatório compõe-se de notas de ações quotidianas da Comissão,
decorrendo então seu tom protocolar, muito difere a Retirada de Laguna,
no qual o relato de guerra é próximo, e um tanto quanto vibrante. Nele,
Taunay fornece boas indicações de como avalia o desenrolar da ação das
tropas brasileiras, sobretudo no resgate de canhões para que não caíssem
nas mãos dos soldados sob ação de Solano Lopez, bem como o contexto
mais geral do conflito. Taunay justifica a ação militar brasileira e da Aliança
contra Solano López na medida em que respondia a uma agressão e buscava
consolidar um processo de paz que garantisse a estabilização das fronteiras:
[...] impossivel fora para o Brasil a cessação de seus esforços
unidos aos de seus firmes alliados. O fim não era territorial
como havia sido o da eliminação de Shamyl ou de Abd-el
-Kader das gargantas do Caucaso ou do Atlas; mais longe se
visava, pois em jogo estava para quatro povos a segurança de
paz estavel e proveitosa. O governo do Brasil compenetrou-
se desses sentimentos, e a confinmiação de sua firmeza foi
a nomeação que collocou á testa do exercito brasileiro o
príncipe consorte da Princeza Imperial.33

32 
Ibidem, p. 189.
33 
TAUNAY, Alfredo d’Escragnolle de (Visconde de). [1869]. Campanha das Cordilheiras – diário do exército. São
Paulo: Comp. Melhoramentos, 1926. p. 12.

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A referência, em 1869, a Chamil e a Abd-el-Kader34 demonstrava o


papel da leitura dos textos de viajantes e relatos de guerra na formação do
jovem Taunay. Ao mesmo tempo, esse discurso contra o ditador Lopez, e
não contra o Paraguai, justifica a insistência na derrota de Lopez tanto na
perspectiva do Imperador quanto na condução das tropas pelo Conde d’Eu:
Em geral, no Brasil, inclinava-se a opinião pública e até o
gabinete Itaboraí, então no poder, pois subira em julho de
1868, no sentido da probabilidade de um ajuste de paz com
o Paraguai, mais totalmente contrário pendia o Imperador,
que julgava imprescindível dever continuar-se ativamente
nas operações de guerra, até que Solano López se entregasse
ou saísse do país por ele tiranizado. No exército brasileiro
acampado em Assunção e suas cercanias reinava, entretanto,
não pequeno cansaço; não poucos oficiais também julgavam
chegada a ocasião de se encetarem negociações a bem da com-
pleta suspensão de hostilidades e do restabelecimento da paz.35

Para Taunay, o Império desenvolvia um conceito que não era de guerra


total, um conceito novo que incluía mesmo a assistência aos feridos para-
guaios, às crianças, aos doentes e aos subnutridos. Era, na visão do escritor,
uma “guerra humanitária”, embora o discurso da ação conjunta com os paí-
ses aliados para libertar o Paraguai de um ditador não apresentasse grande
novidade, a ideia de uma concepção de guerra de respeito ao País refletiria o
caráter superior do governante brasileiro e, por extensão, que o Império (da
virtude) teria na história. Essa associação de um tempo de virtude que decorria
do traço fundamental do Imperador acompanhou Taunay até o fim da vida36.
Anos mais tarde, o escritor carioca revelaria que D. Pedro II desdo-
brava-se em toda parte nos preparativos da guerra. Cuidando pessoalmente
para que a ação militar se desenvolvesse com “constância, método e ordem”
para enfim “reivindicar a honra e a dignidade do Brasil malferida pela mais
34 
Na década de 1820-1830, ambos resistiram à força do expansionismo russo no Cáucaso e ao imperialismo
francês na Argélia, respectivamente.
35
  TAUNAY, 2008, p. 24.
36 
Anotação manuscrita sobre a morte do Imperador no exílio [abril de 1890]: “Então neste país está tudo
crestado, aniquilado, destruído, morto? Vai Pedro II, vai embora deste mundo de misérias, baixezas e ingratidão!
A posteridade te fará justiça. O teu nome encherá, não a história do Brasil mas a História da Humanidade, pois
perdura para sempre, vence os tempos e alcança a eternidade tudo quanto é bom, nobre e santo, e ninguém, mais
do que tu, e ao lado dos maiores e maiores grandiosos vultos humanos, tu foste bom, tu foste nobre, tu foste santo!”
(TAUNAY, Alfredo d’Escragnolle de (Visconde de). D. Pedro II. São Paulo: Companhia Nacional, 1933. p. 99-100).

110
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

insólita e brutal agressão”.37 Nos termos da carta ao Monarca, que serve de


apresentação ao relato da retirada da coluna brasileira, Taunay assinala o
caráter particular do Imperador como um fator de maior cálculo e menor
violência na condução da guerra:
Ao se render Uruguaiana, inaugurou Vossa Majestade, na
América do Sul, a guerra humanitária, a que aos prisio-
neiros poupa e salva, trata feridos inimigos com os des-
velos dispensados aos compatriotas, a que, considerando
a efusão de sangue humano deplorável contingência, aos
povos apenas impõe os sacrifícios indispensáveis ao sólido
estabelecimento da paz.38

Do ponto de vista de nossa análise, essa construção discursiva de


Taunay, que representa as intenções do Império no conflito militar, inte-
ressa menos para avaliar as dimensões do conflito ou, de que maneira, ela
corresponderia a alguma verdade ou era próxima do que acontecia; e diz-nos
mais de perto por permitir compreender melhor como Taunay concebia a
Monarquia e seu papel entre as Repúblicas sul-americanas.
Para Taunay, ainda que sublinhe um ponto de vista humanitário
e acompanhe com muita proximidade o Conde d’Eu, e por extensão, as
marchas do exército brasileiro e dos aliados, o tom geral do livro recai mais
no que o autor sugere: havia uma ascendência brasileira entre os aliados.
Em seu relato da campanha na cordilheira, ao registrar os encontros
entre os líderes das tropas uruguaias, argentinas e brasileira, Taunay sublinha
essa visão em diversas partes da narrativa. É o que se observa nos encon-
tros entre Mitre e Conde d’Eu para sanar dúvidas quanto a despojos dos
inimigos39 ou sobre o estabelecimento de uma polícia civil em Assunção40
dentre problemas menores como justiça militar ou problemas circunstan-
ciais entre as tropas41.

37 
TAUNAY, 2005, p. 129.
38 
TAUNAY, Alfredo E. de (Visconde de). A retirada da Laguna – episódio da Guerra do Paraguai. São Paulo: Bib-
lioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa – A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo, s.d; p. 3.
39 
TAUNAY, Alfredo E. de (Visconde de). [1869]. Campanha das Cordilheiras – diário do exército. São Paulo:
Comp. Melhoramentos, 1926. p. 18.
40 
Ibidem, p. 22.
41 
Ibidem, p. 18, 22.

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O problema maior que sugere Taunay é o abastecimento. Como


abastecer as tropas e garantir o deslocamento das forças é algo constante
que surge nas discussões.
Do ponto de vista estritamente das relações entre os países, há
um empecilho. Trata-se do papel do representante norte-americano
MacMahon que não só procura manter contato com os cidadãos norte-a-
mericanos, mas claramente se posicionara contra a ascendência brasileira
em território paraguaio.
MacMahon pretendera intermediar, ao menos em uma ocasião, a troca
de correspondência entre Conde d’Eu e López, mas pôs dificuldades, espe-
cialmente em julho de 1869, o que culminaria na sua retirada em um vapor.
Mesmo ignorando a necessidade de apresentar-se às autoridades
brasileiras que autorizariam a sua saída, MachMahon simplesmente deixou
o Paraguai.
MacMahon escreveria sua própria versão da Guerra no Paraguai.
Sua presença indicava a atenção dispensada pelo governo norte-americano
sobre a região. Ao partir do Paraguai, o representante norte-americano
escreveria na imprensa suas impressões, o que mostra o interesse local
pelos acontecimentos internacionais na América do Sul42.
Taunay, em seu romance A mocidade de Trajano, pontua como a guerra
em si entrou no ambiente das conversas dos fazendeiros. No ambiente
pequeno da elite provinciana e rural, todos cabem no ambiente de uma sala,
onde estão dispostos os liberais e os conservadores, os assuntos nacionais
entram como pretexto para as divergências locais. Taunay prefere a descrição
de uma possível cena entre os dois grupos não sem verve, entre copos de
água e bandejas de cerveja, sequilhos, biscoitos doces e cálices de doces, o
tema da guerra se apresenta ao paladar dos personagens. É assim que uma
autoridade política local, do partido conservador, vendo o jovem Trajano,
o Mocambira grita ao pai do jovem, o Sobral:
— Commendador, o seu filho já é um homem! E’ preciso
pôl-o na guarda nacional; sou ajudante do corpo e quero
bonitas praças e oíficiaes briosos.

42 
MCMAHON, Martin Thomas. The War in Paraguay. In: Harper’s New Monthly Magazine; ed. XL – february, 1870.

112
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

— Não tem a idade da lei, ponderou -Sobral.


— Ora, que importa?! E’ bom qualificá-lo cedo para arranjar-
lhe os galões de official. Diga-me, parece que breve teremos
guerra com o Lopez?
O Sr. Patrício Lopes, que ouvio a pergunta feita por um liberal,
suppôz que fosse um ataque á sua pessoa e por isso respondeu
com acrimonia e força: — Em guerra ando eu sempre com
os senhores, e hei de sempre andar. A reunião começa já mal.
Se me insultão, não tenho mão em mim... é boa!
Houve uma gargalhada geral, na qual muitos entrarão sem
saber porque. Patrício Lopes ficou roxo de raiva, e se logo não
lhe tivessem explicado por miúdo o motivo da hilariedade,
teria se retirado irreconciliavel com todos os presentes.43

É possível que a conversa se inspirasse nas conversas familiares do


próprio autor sobre o conflito, e nos momentos que antecederam sua própria
partida.44 Certo mesmo era que possível guerra entre Brasil e Paraguai
estava na ordem do dia, ainda que o sentido das disputas eleitorais locais
concentrasse a atenção real dos personagens.
Em grande medida, Trajano é um retrato de Taunay, tanto nos aspectos
da beleza física que o próprio Taunay sublinha quanto a si nas memórias,
e acabou se tornando um lugar-comum recorrente em diferentes perso-
nagens masculinos jovens e protagonistas; quanto também das intenções
de Taunay, visto que o escritor também serviria na Guerra como oficial, e
partiria igualmente por dois anos pela Europa posteriormente.
No primeiro romance de Taunay, fica claro que o jovem escritor con-
sidera que o lugar social de um personagem acaba delimitando o espectro
da participação política disponível a si; e dentro de uma sociedade que
não era de massas, Taunay fez um dos afrescos da vida social, no qual os
personagens são menos relevantes pelos seus conflitos interiores, e mais
importantes pela capacidade de ilustrar como as pessoas se comportavam
diante dos dilemas políticos e sociais de seu tempo, tendo como pano de
fundo a agenda de modernização. Não é sem razão que a escravidão é posta
no centro do romance. Inicialmente, esse olhar sociológico de Taunay é

43 
TAUNAY, 1871, p.68-69.
44 
TAUNAY, 2005, p. 130-131.

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voltado para como se faria a passagem do “trabalho servil” ao livre e os


diferentes posicionamentos dos personagens e como essa relação social
acaba por moldar as tensões e os caráteres dos personagens.
Primeiro, ela é investigada pelas diferentes possibilidades dentro
da escravidão. Enquanto a escrava Bertha alimenta a intriga ao modo de
um Iago shakespeariano feminino, o ex-escravo Vicente parece encarnar
a figura do guardião da memória e dos encantos, ambos muito aquém do
algum reconhecimento igualitário. É significativa a repreensão de Trajano
a Bertha quando ela parece querer chantageá-lo:
Bertha, disse com cólera após longo silencio, não esqueças
nunca que és escrava. Tens abusado da confiança que em ti
deposita tua senhora. e queres brincar commigo. Cuidado. Eu
mesmo não duvidarei quebrar este junco nas tuas costas. O
filho de fazendeiro mostrava a sua origem.45 [grifo nosso]
Taunay parece oscilar entre os traços mais brandos, quase simpáticos,
aos momentos taxativos e duros quando descreve os personagens negros.
Momentos de maior simpatia aparecem quando descreve o ex-escravo
Vicente ou a escrava doméstica Suzana, casada com um capataz que repro-
duz quotidianamente o ciclo de punições e violência, ao ponto que acaba
envenenado pelos escravos. Enquanto Bertha encarna a personificação do
mal, os traços felinos, a vontade de ser branca.
Ainda que favorável à abolição, Taunay participava dessa cultura oci-
dental imperialista que mensurava em degraus distintos de contribuição os
diferentes grupamentos humanos tipificados pela cor. Ainda que Trajano seja
o modelo de sociedade europeia de direitos individuais e obviamente contrário
à perpetuação da escravidão, seu pai, o Sr. Sobral tem consciência de que a
escravidão “afeia o sistema social do Brasil”46, além de provocar “cenas dolo-
rosas e desmoralizadoras”47. O receio do Sr. Sobral quanto ao fato de Trajano
estar envolvido com uma escrava revelava não só o medo de “netos mulatos”,
mas principalmente a construção do que Guerreiro Ramos chama de “ideal
de brancura” que ainda permeava a cultura brasileira em meados de 195048.

45 
TAUNAY, 1871, p. 124.
46 
Ibidem, p. 7.
47 
Ibidem, p. 127-128.
48 
RAMOS, 1995, p. 235.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

No sentido estritamente político, a abolição era inevitável desde que


a Inglaterra “impusera” a questão com a proibição do tráfico negreiro.49 No
romance, liberais e conservadores de província põem-se a mesma questão,
todos em torno da compreensão do que seja a liberdade. Enquanto conser-
vadores inclinam-se a forçar a mudança, impulsionando o discurso a favor
da abolição; liberais limitam o âmbito da liberdade às elites provinciais. O
choque entre os dois partidos e suas posições materializa-se no embate entre
Mocambira, do Partido Saquarema e Mordelli, que no texto representa a
perspectiva Luzia:
O commendador italiano, depois de tomar uma pitada, come-
çou com tom ameno:
— O partido liberal, meus senhores, não convidou ninguém
para conchavos. (Susurro no lado direito.) Os homens que
compõem esse partido têm bastante consciência para se
conservar na altura de cidadãos independentes e, como
guardas da liberdade, nós João Brêtas sorrio-se amarga-
mente e em aparte:
— Então somos nós os tyrannos? Mocambira deu um sio
estrondoso.
— Brasileiros de alguma importância...
Silveiras tossio como se engasgasse. Mordelli ficou côr de
lacre, porém continuou:
brasileiros amantes extremosos da pátria, queremos a liber-
dade, liberdade para todos.
— Forrem os seus escravos, interrompeu um conservador
sisudo que se conservara até então calado.
Fidelis respondeu prompta e colericamente:
— Queremos a liberdade, mas não prejudicial: nada de pre-
juízos, voto contra50.
Opostos estão Saquaremas e Luzias quanto ao que entendem por
liberdade e autoridade. O término da escravidão atingiria o poder oligár-
quico provincial, por isso a “liberdade para todos”; o que ao mesmo tempo
apontava porque o discurso dos liberais brasileiros caminhava para a defesa
49 
TAUNAY, 1871, p. 13.
50 
TAUNAY, 1871, p.73-74.

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da descentralização de poder e, implicitamente, para o esvaziamento do


poder Moderador. O diálogo continuaria:
Mordelli proseguio:
... essa liberdade que nasceu com Christo...
— Deve ser bem idosa, observou José Francisco rindo-se.
... essa liberdade que resistio ao canhão, á metralha, fez recuar
bayonetas, desapparecer legiões.
— Desculpe o nobre correligionário, interrompeu por seu
turno Mocambira, mas acho bom que não toque em questões
militares. Está avançando idéas impossíveis.51

Essa liberdade irrestrita, ideal, nascida “com Cristo” não fazia esque-
cer a iminência da guerra, nem tampouco obnubilava o recente término
da guerra que dividira os Estados Unidos: A Guerra de Secessão. Nesta, de
forma similar, porém de consequências e custos mais graves, dois grupos
haviam se batido diante do tema fundamental do fim da escravatura52.
Se Mocambira rejeita a ideia e a sugestão do tema militar (seccionista),
não deixa de ser importante assinalar sua presença no texto e no discurso
de ambos os políticos. Taunay estava atento ao que se passava. Ainda que
não participasse da vida política de então, claramente declara-se Saqua-
rema, ainda que criticasse o Estado imperial por não tomar medidas mais
robustas para a substituição do trabalho servil pelo trabalho de imigrantes
europeus.53 Nesse romance, são prefiguradas duas das grandes bandeiras
que viriam a ser defendidas por Alfredo Taunay em sua vida parlamentar: a
entrada de europeus como substituição do trabalho escravo e a necessidade
de naturalização deste novo contingente populacional.
Dentre os textos políticos (principalmente em alguns de seus discur-
sos parlamentares e discursos no IHGB) publicados pelo o próprio Taunay,
ele retoma alguns temas que já apresentara em seu primeiro romance, tais
como: incorporação do sertão ao avanço a que se propõe a sociedade lito-
rânea brasileira, no qual se constituíra um Império, a necessidade do fim da
51 
Idem.
52 
VORENBERG, Michael. Final Freedom – The Civil War, the Abolition of Slavery, and the Thirteenth Amendment.
Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
53 
TAUNAY, 1871, p. 12.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

escravidão, a necessidade de imigração, centralização política como meca-


nismo de contenção das tendências oligarquizantes das elites de província.
Saquaremas e Liberais de províncias atendem primeiro à necessidade
de se posicionarem uns em relação aos outros, considerando primeiro suas
rixas locais do que um plano nacional de condução do espaço público. Para
o narrador, a explicação residia na dinâmica da vida rural. A condução das
propriedades antecedia ao interesse partidário mais estrito. Como observa
o pai de Trajano ainda no mesmo trecho:
Na Corte talvez haja sinceridade de opiniões e sobretudo
seriedade; aqui não, mesmo porque o tempo é pouco para
cuidar em política, absorvidos, como vivemos, pelos escra-
vos, pelo café, cana de açúcar, milho, feijão e abóboras. As
antipatias particulares regulam comumente na adoção deste
ou daquele credo.54

As necessidades de se verem atendidas as demandas dos proprietários


eram o centro do debate da reforma do poder Moderador, como queria o
senador José de Alencar e, até mesmo, uma das pedras angulares para o
surgimento da Liga Progressista, em 186255.
A busca de uma explicação sociológica e sua correlação com os pen-
samentos, ações dos personagens seriam uma constante na obra literária
do escritor então iniciante. Bem como a criação da galeria de tipos.
Não se trata tanto de retraçar as tensões psicológicas, ou as grandes
reviravoltas da narrativa; Taunay prefere mapear personagens, seus trejeitos,
expressões, Sobral exemplifica bem essa galeria ao explicar os principais
atores políticos locais ao filho:
Patrício Lopes que abomina os liberais porque acredita que
eles conspiram contra a monarquia. E’ um bom homem, entre-
tanto capaz de mandar matar um liberal, julgando assentar
melhor o trono no Brasil e trabalhar para sua tranquillidade.
Ninguém o tira daí. Todo e qualquer liberal é inimigo
particular seu e de D. Pedro II. Não há meio termo. Nos mais
simples atos elle enxerga tramas, conluios; não lê senão os jornais

54 
TAUNAY, 1871, p. 60.
55 
LYNCH, Christian Edward Cyril. Da monarquia à oligarquia – História institucional e pensamento político
brasileiro (1822-1930). São Paulo: Alameda, 2014. p. 73-75.

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conservadores e toma ao sério, muito ao sério, as increpações que


se levantam contra os liberais, os baldões que lhes são atirados,
baldões que os jornais do outro lado reproduzem, repetem em
identidade de circunstâncias.56 [grifo nosso]

Patrício Lopes é o fiel servidor, quase uma caricatura do que se


apresentava dentro das fileiras do partido conservador local. O homem
que apenas condena a oposição e expressa o desejo da continuação do
modelo saquarema.
De modo similar, o Senhor Amaral Pereira queria “o equilíbrio cons-
titucional, com tanto que o executivo esteja acima de todos os poderes e
possa dirigi-los”. Nas palavras do Sr. Sobral, era “um homem serviçal e com
quem se pôde contar nas mudanças de política: — Enfim, concluiu Sobral
[dizendo a Trajano], breve verás esses tipos e hás de te rir da importância
que cada um deles se atribui.”57.
No romance A mocidade de Trajano, percebendo que a distinção entre
conservadores e liberais poderia soar como apenas nominal, rapidamente o
narrador faz Sobral explicar sua adesão ao partido conservador (Saquarema);
nele, Sobral vê vantagens e certa superioridade sobre os Liberais (Luzias).
Depois de tratar dos tipos políticos, o que defende os conservadores
de província e, apontando conluios nos liberais, o pai de Trajano assinala
o ponto de vista conservador que tem, e explica:
Devo dizer-te que sou, isto é, que passo por ser conservador.
Pensando um pouco, inclinei-me para aquele lado, porque
enxergo vantagens serias para o Brasil na prudência de suas
medidas, na madureza e sensatez de seus planos, nas
ideias de progresso refletido por que lutam — não aqui,
isto nunca — mas nos círculos onde trabalhão as inteligências
e debatem-se os interesses de nossa pátria.58 [grifos nossos].

A necessidade da mudança e modernização punham-se tanto para


liberais quanto para conservadores. No entanto estes, que constituíram seu
discurso no predomínio da unidade do Estado e da ordem59 corporificado

56 
TAUNAY, 1871, p.61-62.
57 
Idem.
58 
TAUNAY, 1871, p. 61-62.
59 
LYNCH, 2014, p. 65-80.

118
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

na figura do Imperador sobre a representação das “empresas particulares” e


seus interesses, sabiam que, em uma sociedade civil de representação política
diminuta, o risco da oligarquização do sistema político poderia significar o
fim da estrutura administrativa e política como os saquaremas históricos
tinham pensado, especialmente Visconde do Uruguai e o retorno das ban-
deiras seccionistas do Período regencial. Conjugar modernização e equilíbrio
certamente se punha mais como questão a conservadores, daí Sobral elogiar
a “prudência” e a ideia de “progresso refletido” que animava o partido.
Liberais representavam o interesse do povo (aristocracia), e a dife-
rença entre ambos se refletia até mesmo na maneira como publicamente
se portavam. Quase de maneira alegórica, Sobral explica a diferença entre
conservadores e liberais:
Vejo mais método no governo, mais firmeza, mais seriedade:
talvez restrição demasiada em despesas, política que parece
acanhada, mas que é cautela oriunda do medo de errar. Não
direi a banalidade que os conservadores formam o partido
de gravata lavada: fora uma necessidade; mas quase sempre
eles se mostram de casaca ou sobrecasaca, ao passo que
muitos liberais — não todos, felizmente—vestem, quando
lhes convém, a jaqueta e até se apresentam em público em
mangas de camisa, guardando sempre no íntimo o seu
fermento aristocrático.60 [grifo nosso].

Taunay, pela fala de Sobral, elogia a prudência, essa virtude política


fundamental que acomoda a transformação às circunstâncias e ao possível:
“Sê político prudente, sincero, firme sobretudo na primeira resolução que toma-
res”61, aconselharia o pai de Trajano ao jovem.62
O jovem escritor reconhecia no Saquaremismo o esforço de pro-
gresso medido, estabelecido e ordeiro, no sentido de que as transforma-
ções necessárias deveriam ser efetuadas, mas o equilíbrio mantido pelo
Imperador não poderia ser derrubado de maneira a atender interesses
particulares provinciais.
60 
TAUNAY, Alfredo E. de (Visconde de). [sob pseud. Sylvio Dinarte] A Mocidade de Trajano. Rio de Janeiro:
Typographia Nacional, 1871. p. 62.
61 
Idem.
62 
Não muito distante dos conselhos do pai de Alfredo Taunay, o pintor francês e diretor da Academia Imperial
das Belas Artes Félix Emílio Taunay Ver: TAUNAY, 2005, p. 93.

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Quando da Guerra do Paraguai, Conde d’Eu estranhou a adesão de


Taunay às fileiras do partido conservador, visto que considerou natural,
Taunay ainda bem jovem, que fizesse a adesão a um partido liberal; a crítica
do Conde d’Eu causou um estranhamento entre Taunay e o príncipe, que
se manteria distante desde então.63
Muitos anos mais tarde, em 1890, Taunay ainda se lembraria da
convivência difícil entre ambos, a partir do momento que, por forças de
circunstâncias, Taunay estava na “desagradabilíssima posição” de permanecer
sob ordem direta do príncipe comandante das forças.64
O futuro Visconde estranhou a censura do príncipe consorte visto que
saía de seu papel régio, “acima” das disputas. Esse choque entre ambos provavel-
mente motivou a guarda no IHGB dos manuscritos de memórias não publicados
de Taunay até 50 anos de sua morte e que seriam publicados somente caso se
mostrasse conveniente aos herdeiros. No entanto é possível entender que o
choque entre Taunay e Conde d’Eu explicar-se-ia obviamente pela diferença
que as palavras e as classificações ganham entre centro e periferia.65
Enquanto em sociedade centrais, como a França de então, os con-
servadores defendem bandeiras mais estacionárias, e até mesmo um ideal
de sociedade que precede à Revolução Francesa, diante de um mundo em
que se dava a constituição de um crescente liberalismo e protagonismo
das relações capitalistas; os liberais eram a um só tempo os arautos de uma
constituição de uma sociedade baseada menos em privilégios hereditários
e mais no predomínio da atividade, da técnica, da concorrência e do incre-
mento da sociedade civil como contraponto ao poder do Estado.
Do ponto de vista político, estabelecia-se um mundo de direitos cons-
titucionais estabelecidos que tinham como pressão a crescente inserção de
grupos mais amplos da sociedade à participação política.
No ambiente periférico, de economias mais retardatárias, de pouco
incremento econômico e de forte estratificação social, a solução para a
modernização era vista mediante o “reformismo ilustrado”66, tradição her-
63 
TAUNAY, 2005, p. 423, 435.
64 
TAUNAY, 1933, p. 98.
65 
LYNCH, 2013.
66 
LYNCH, 2003.

120
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

deira da ilustração portuguesa que aponta para o governante, como o topo


do Estado centralizado, o elemento capaz de conter a tendência centrífuga
das forças políticas provinciais.
Sem que soubessem, a discordância entre Taunay e o príncipe repou-
sava mais na roupagem do que no conteúdo. As palavras transferidas de seu
contexto original ganhavam novo conteúdo na periferia. Assim, conservador
aqui na América portuguesa aproximava-se do liberal francês, visto que o
espectro do conservadorismo francês não tinha possibilidade histórica no
jovem País sul-americano; não havia equivalência visto que a nobreza no
Brasil era recente, de títulos não hereditários e não havia correspondência
necessariamente entre a posse da terra e a titulação.
Dessa forma, o conservadorismo saquarema repousava mais na preo-
cupação em dirigir o processo de modernização feita por cima, afastando o
processo de mudanças das tentativas estacionárias, mas sem cair nos desvios
revolucionários, e, ao mesmo tempo, preservando a unidade nacional.
Não foi à toa que o romance e os relatos de Guerra chamaram a aten-
ção do Visconde do Rio Branco, de quem se tornaria assessor imediato, o
que lhe garantiria a entrada na vida pública brasileira.
No primeiro romance, Taunay descreve o ambiente de um jovem
Trajano, liberal modernizante, típico defensor das bandeiras da Geração
de 1870, como Joaquim Nabuco ou André Rebouças, contrário à escravi-
dão, favorável à entrada dos imigrantes, próximo do partido conservador
e disposto a lutar na Guerra do Paraguai; no segundo romance, há menos
proposições para a política a sociedade. Na verdade, o tom observador de
tipos vem ao primeiro plano.
Em Inocência, há uma mudança importante: Taunay concentra-se em
escrever uma história romântica na qual personagens típicas do interior do
Brasil são postas em primeiro plano. Ou seja, Taunay inventa os Sertões na
medida em que retira dos elementos reais que conhecera as linhas gerais
do modo de vida, do linguajar e das paisagens que admirara quando indo
para a Guerra, é assim que dos sertões de Mato Grosso nasce o ambiente
para o romance Inocência, publicado em 1872.

121
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Do ponto de vista estético, Taunay transferira o interesse pelo des-


conhecido, ou mesmo exótico, como notara Edward Said na descrição do
elemento não europeu na literatura à época do Imperialismo para o sertão.67
Esse deslocamento de interesse decorria da experiência do jovem
militar no conflito militar, e de seu deslocamento pelo Brasil até o Paraguai,
e acabava por revelar uma visão política clara: enquanto realidade desco-
nhecida da corte, o Sertão vivia sob suas próprias regras, sob seu próprio
ritmo, cabia ao Império incorporar essas áreas isoladas.
Taunay percebe que o lugar do sertão é periférico, até mesmo des-
conhecido, dentro da periferia que representa uma monarquia no con-
tinente americano.
Incorporar essa área, sua população, conhecê-la deveria ser um pro-
cesso natural de um império ímpar que construía um país. Aliás, para Taunay,
o Brasil era dividido em duas zonas, a litorânea e a interior, marcada pelas
Serras; a primeira marcada pelos “esforços da Civilização” durante séculos,
e a segunda “que tanto tem custado impulsionar e fazer progredir”68.
O isolamento dessas regiões mato-grossenses é representado pelo
modo de vida simples descrito no romance Inocência. Algumas caracte-
rísticas narrativas do primeiro romance reaparecem nesse segundo ainda
que sobre nova roupagem: o amor entre o casal, que por alguma razão tem
um impedimento para concretizar o relacionamento; o papel da descrição
do modo de vida dos personagens. No primeiro romance, isso se dá na
descrição da vida de Trajano em meio a diversos périplos e dificuldades do
ambiente da fazenda e da elite rural. No segundo romance, essas caracte-
rísticas aparecem por meio do interesse do médico que conhece e logo se
apaixona pela jovem filha do Sr. Pereira.
Nesse sentido, a descrição de cenas e personagens é uma opção realista
e que faz avançar o conhecimento ainda que ficcional do ambiente rural de
forma mais aprofundada que o idealismo de José de Alencar. O médico que
conhece a jovem filha do Sr. Pereira mimetiza o conhecimento do jovem
Taunay das realidades interioranas brasileiras.

67 
SAID, Edward. Culture and Imperialism. Nova York: Vintage Books, 1994. p. 31-43.
68 
TAUNAY, 2005, p. 148.

122
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Acertadamente, a pesquisadora Gislei Souza considera que a noção


de fronteira, de espaço limite alicerça a visão que o escritor desenha da
região69 a ser discursivamente desenhada.
Essa incorporação intelectual desses espaços apontava para a neces-
sidade de maior integração nacional, o que poderia ser feito pela imigração,
como sugerira Taunay em Mocidade de Trajano e que seria um dos principais
temas de sua vida política parlamentar. Esse diagnóstico levaria Taunay a
empreender esforços em favor da imigração no sul do Brasil.
Taunay defenderia a imigração tanto enquanto deputado e posterior-
mente no Senado. Para fomentar o projeto, foi um dos organizadores da
Sociedade Central de Imigração, da qual seria participante ativo.
O amor entre o jovem médico itinerante parece inspirar-se na breve
relação pessoal entre Taunay e uma jovem indígena da nação guaná, cha-
mada Antônia.70 Ainda que a informação seja relevante e tenha influenciado
a confecção da obra, o intuito é sublinhar que Taunay pretendia escrever
uma obra calcada em sua experiência particular, tal como fizera – ou fazia
crer – Stendhal.
Nesse sentido, Antônio Cândido verá, na afirmação de Taunay, que
se consideraria um Stendhal, um erro de avaliação da própria estatura
literária.71 Contudo Alfredo Taunay na verdade reconhece, no processo
de confecção de sua literatura, algo comum a Stendhal: ambos os escri-
tores defendiam o primado de suas experiências vividas como o assunto
par excellence de sua escrita. Foi dessa forma que a ambientação em torno
das margens do Rio Piquiri e de tudo aquilo que vivera ao hospedar-se na
casa de certo proprietário Carvalho que Taunay buscou inspiração para “a
morada do Pereira, pai daquela meiga e modesta heroína dos sertões de
Sant’Ana do Paranaíba”.72
Apesar de atribuir maior valor a duas de suas obras, Inocência e
A Retirada de Laguna que sustentariam seu nome para a posteridade; o
próprio escritor reconhecia que em sua literatura ficou faltando algo.
69 
SOUZA, 2011.
70 
TAUNAY, 2005, p. 14.
71 
CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000. p. 276-277.
72 
TAUNAY, 2005, P. 194.

123
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Por exemplo, em Inocência sua capacidade descritiva ficou aquém de suas


“sinceras intenções e dos mais leais esforços”73.
Ao comparar-se a Stendhal, Taunay sublinhava que toda sua escrita
era antes de tudo calcada nas avaliações e impressões que retirava do real,
tal como os escritores e viajantes no desenvolvimento do interesse europeu
pelos temas orientais, a partir de 1820; bem como na percepção clara das
transformações que observava em seu tempo desde a Guerra e a necessidade
de influir nos rumos dos acontecimentos políticos e principalmente nas
formas de propor maior desenvolvimento a seu tempo.
Portanto, já em 1872, começaria a vida política propriamente dita
de Taunay sob influência do Visconde de Rio Branco.74 Assim, por volta
desse período, a partir de meados de 1870, Taunay passaria à vida política
pelo partido Conservador. Mantendo coerência entre sua escrita literária,
suas opiniões e a vida parlamentar, inaugurando uma nova etapa em sua
vida pública.

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73 
Ibidem, p. 180.
74 
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127
Capítulo 4

AMERICANISMO DA SALVAÇÃO: JOAQUIM


NABUCO E OS EUA1

Elizeu Santiago Tavares de Sousa

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, doravante Nabuco, foi


escritor, parlamentar, historiador político, diplomata e, acima de tudo,
pensador da condição do Brasil enquanto nação, entre os lustros derra-
deiros do Império e a alvorada da Primeira República. A importância e a
vivacidade do conjunto de sua obra permanecem, ainda hoje, atuais para a
compreensão da nacionalidade e da formação do Estado brasileiro, assim
como para o pensamento internacional do Brasil.
Didaticamente, o pensamento de Nabuco poderia ser divido em
três momentos: o abolicionista (década de 1880), o monarquista (década
de 1890) e o pan-americanista (década de 1900).2 A primeira fase corres-
ponderia “(à) década de ouro” da sua produção intelectual,3 período que
nos trará obras como O Abolicionismo (1883), A Campanha Abolicionista do
Recife (1885) e O Erro do Imperador (1886). Nela, Nabuco é tradicionalmente
retratado pela academia como “herói republicano”, “social democrata
avant la lettre” e precursor do pensamento social brasileiro.4 Seria ainda
o momento em que o jovem Nabuco se lançaria à vida parlamentar como
deputado por Pernambuco.

1 
Este artigo corresponde à versão publicada na revista Insight Inteligência, n. 69, abril/maio/junho de 2015.
2 
LYNCH, Christian. O Império é que era a República: a monarquia republicana de Joaquim Nabuco. Lua Nova
(Impresso), v. 85, 2012.
3 
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Da Abolição à diplomacia, um liberalismo multifacetado. Revista USP, n. 83,
nov. 2009.
4 
BONAFE, Luigi. Como se faz um herói republicano: Joaquim Nabuco e a República. Tese de Doutorado, Univer-
sidade Federal Fluminense – Departamento de História, 2008; FREYRE, Gilberto. Prefácio. In: O Abolicionismo.
4. edição. Petrópolis: Vozes, 1977.

129
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

No entanto sua vida parlamentar seria prematuramente interrompida


em razão do golpe de 1889. Nem mesmo o apoio popular recebido com o
lançamento de seu nome à Constituinte de 1890 – à sua revelia, a propósito
– o impediu de incorrer em um autoexílio que o afastará por quase uma
década do serviço público. Nessa nova fase, teríamos um Nabuco nostálgico
dos anos de estabilidade e de civismo experimentados durante o reinado de
Pedro II. A nostalgia do Império se traduzirá no clássico da historiografia
política brasileira, Um Estadista do Império (1893), biografia do seu pai, o
senador e ministro da Justiça Nabuco de Araújo. Caracterizado por um
momento de grande produção enquanto escritor, o período ainda nos traria
Resposta às Mensagens de Recife e de Nazaré (1890), Por Que Continuo a Ser
Monarquista (1890), Balmaceda (1895), A Intervenção Estrangeira na Revolta
de 1893 (1895) e O Dever dos Monarquistas (1895).
A terceira fase marcaria o reencontro de Nabuco com a política.
A reaproximação se daria após a aceite do convite de Campos Sales para
defender os interesses brasileiros na Questão do Pirara, em 1898. Três
anos após se tornaria ministro em Londres e em 1905 assumiria a primeira
embaixada brasileira, em Washington. Encontraria na diplomacia a con-
dição de coexistência entre seus valores monárquicos e patrióticos com o
desejo do retorno à política e à vida europeia. Veríamos Nabuco em um
novo momento de sua produção intelectual, aquela da defesa intransigente
do pan-americanismo monroísta, do reencontro com a fé católica e o da
autorreflexão sobre o conjunto de sua obra. Escreveria sua biografia, Minha
Formação, em 1901, e Pensées detachées et souvenirs, em 1906.
Acrescentaríamos ainda um quarto momento ao pensamento de
Nabuco, tradicionalmente negligenciado pelo baixo teor político e historio-
gráfico, aquela década de formação que antecederia ao período abolicionista.
Nesse período, que coincide com o seu aparecimento na vida pública, flertava
com a literatura e a diplomacia. Envolver-se-ia em polêmicas discussões
nas páginas d’O Globo com José de Alencar e dialogaria, ao longo da década,
com nomes como os de Machado de Assis, Rui Barbosa e Oliveira Lima.5
Ademais, o primeiro contato com o exterior se daria entre 1873 e 1874,
um grand tour pela Itália, França, Suíça e Inglaterra.

5 
MARTINS, Eduardo Vieira. Nabuco e Alencar. O Eixo e a Roda: Revista de Literatura Brasileira, v. 19, n. 2, 2010.

130
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Na diplomacia, seria nomeado attaché, primeiro em Washington e


depois em Londres, respectivamente em 1876 e 1877. Além de uma série de
contribuições à imprensa nacional, escreveria Camões e os Lusíadas (1872);
Le droit du meurtre (1872), L’Amour est Dieu – poesias líricas (1874) e L’Option
(1875) – romance de sabor corneliano sobre a disputa entre França e Alema-
nha pela Alsácia. As memórias dessa década de formação o acompanhariam
por toda a vida. Não à toa, a ela é conferida o maior número de páginas em
seus diários pessoais: aproximadamente metade das 3600.
Ao longo das últimas décadas, uma série de trabalhos virtuosos foram
produzidos sobre as mais distintas fases da vida de Joaquim Nabuco, anali-
sando os mais variados objetos em sua trajetória. Interessa-nos, no entanto,
neste trabalho, a análise do pensamento internacional de Nabuco, mais
precisamente o papel internacional desempenhado pelos Estados Unidos
em sua imaginação política.
Se, em um primeiro momento, a retórica de denúncia aos excessos
do imperialismo norte-americano esteve presente no discurso de Nabuco,
findadas as esperanças de restauração da Monarquia – esta, entendida
como melhor arranjo institucional na tarefa de promover o espírito público
no País e garantir a ordem –, o americanismo em seu pensamento deve,
conforme argumentaremos, ser compreendido enquanto possibilidade de
se garantir o autogoverno com liberalismo.

UNIVERSALISMO, ESTÉTICA E POLÍTICA INTERNACIONAL

Em linhas gerais, poder-se-ia argumentar que, entre os anos 1870


e 1880, as percepções de mundo de Nabuco apreenderiam da Inglaterra
a excelência do modelo político; da França, o ideal estético artístico; dos
Estados Unidos, a incógnita que poderia transformar-se no que haveria de
mais avançado; e da América Espanhola, o exemplo a ser evitado.6

6 
Diria dos Estados Unidos em Minha Formação: “A sua missão na história é ainda a mais absoluta incógnita.
Se ele desaparecesse de repente, não se pode dizer o que é que a humanidade perderia de essencial, que raio se
apagaria do espírito humano; não é ainda como se tivesse desaparecido a França, a Alemanha, a Inglaterra, a
Itália, a Espanha.”. In: NABUCO, Joaquim. Minha formação. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Biblioteca
Nacional, 2010. p. 41.

131
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Progressivamente, a partir da década de 1890, essas percepções se


alterariam, frutos da emergência dos Estados Unidos no sistema interna-
cional, da republicanização do Brasil e do crescente ímpeto imperialista
europeu. A visão de mundo que detinha dos Estados Unidos passará por
uma considerável reavaliação positiva. A França seguirá em seu imaginário
como o ideal estético das artes. A Inglaterra, antes exemplo inquestionável
de civilização e paixão da vida adulta de Nabuco, perderá parte do espaço
para os Estados Unidos, quer pela frustação pessoal em torno da questão
do Pirara e do novo lugar social de onde falava, quer pela agressiva política
externa inglesa e pelos contundentes progressos da sociedade norte-ameri-
cana. A América Latina seguirá ocupando lugar subordinado no pensamento
internacional do autor, a despeito de reconhecer que “As revoluções vêm-se
tornando mais raras na América Latina”.7
A primeira viagem internacional de Nabuco seria realizada entre
agosto de 1873 e setembro de 1874. Foram “cinco meses em Paris, três na
Itália, um mês no lago de Genebra, um mês em Londres, um mês em Fon-
tainebleau”.8 O período coincidiria com a retirada dos últimos soldados das
tropas alemãs de território francês e da instalação da Terceira República,
fatos acompanhados com entusiasmo por Nabuco. Sobre Paris, sentiu-a
como “a paixão cosmopolita dominante em redor de nós”.9
Entretanto seria Londres que amaria “acima de todas as outras coisas
e lugares”. Ao conhecê-la, disse sentir um “desejo de sempre viver lá”.10 E
de fato foi a cidade onde mais tempo viveu fora do Brasil: o equivalente a
um terço da sua vida adulta. Apesar de certa aproximação com o republica-
nismo durante os anos universitários em São Paulo e Recife, as percepções
apreendidas do cenário político inglês e francês o aproximariam do regime
monárquico. Segundo Nabuco, “de diversos modos a minha primeira ida
à Europa influiu para enfraquecer as tendências republicanas que eu por-
ventura tivesse, e fortificar as monárquicas”.11

7 
NABUCO, Joaquim. Essencial. Organização e introdução de Evaldo Cabral de Mello. Penguin Classics e
Companhia das Letras, 2010. p. 555.
8 
NABUCO, Joaquim. Minha formação. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Biblioteca Nacional, 2010. p. 13.
9 
Ibidem, p. 23.
10 
NABUCO, Joaquim. Diários. v. único. 2. ed. Rio de Janeiro: Bem-te-vi, 2006. p. 17.
11 
NABUCO, Joaquim. Minha formação. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Biblioteca Nacional, 2010. p. 12.

132
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Após essa primeira experiência internacional, Nabuco teria seu


segundo contato com o exterior entre 1876 e 1877. Será adido primeiro
na legação em Washington e depois em Londres. Consta desse período
sua admiração pelo conservadorismo de Thiers, conhecido monarquista
francês que, ao assumir a presidência francesa após a queda do Terceiro
Império, instala um republicanismo conservador. Em Nabuco, o efeito
sobre a atitude de Thiers foi
[...] dar uma grande prova experimental de que a forma de
governo não é uma questão teórica, porém prática, relativa,
de tempo e de situação, o que em relação ao Brasil era um
poderoso alento para a minha predileção monárquica.12

Igualmente desse período é a admiração de Nabuco pelo primeiro-


ministro liberal inglês, William Gladstone, a quem se reportaria como “a mais
nobre figura deste século.”13 Será justamente deste lado do Canal da Mancha
que encontrará inspiração para a defesa do monarquismo parlamentar no
Brasil de anos mais tarde. Será ainda graças à influência inglesa que ele
se tornaria monárquico “de razão e de sentimento” e veria na monarquia
parlamentar “a mais elevada das formas de governo”.14
Os exemplos de moderação de Thiers e Gladstone seriam acom-
panhados por Nabuco ao longo das próximas décadas. Jamais se deixaria
seduzir pelo discurso revolucionário de José do Patrocínio ou Luiz Gama.
A despeito de sua conhecida luta pelo abolicionismo, via na moderação e
na conciliação entre monarquia e reformas sociais o caminho a ser seguido.
A seu ver, as reformas que defendia internamente deveriam ser o pro-
duto da conscientização das elites, ancorada por modificações legislativas
impostas pelo Parlamento. Para ele, “a escravidão não há de ser suprimida
no Brasil por uma guerra servil, muito menos por insurreições ou atentados
locais”, mas deverá vir acompanhada de “uma lei que tenha os requisitos,
externos e internos de todas as outras”.15

12 
Ibidem, p. 16.
13 
O PAIZ, edição impressa de 11/08/1887.
14 
NABUCO, Joaquim. Minha formação. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Biblioteca Nacional, 2010. p. 29.
15 
Ibidem, p. 12.

133
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Durante as décadas de 1870 e 1880, dedicar-se-ia ainda à vida lite-


rária. Enquanto escritor e jornalista, as imagens apreendidas das relações
internacionais influenciariam seu ideal estético e o conteúdo de suas obras.
Exemplo disso é a produção de três livros escritos em francês, segundo
idioma de Nabuco: uma de versos líricos, um romance sobre a disputa entre
França e Alemanha pela Alsácia e uma resposta em prosa romântica à obra
de Alexandre Dumas Filho, L’Homme Femme. A escrita de Nabuco, sobre-
tudo aquela de seu diário pessoal, “empregaria com desusada frequência
[...] vocábulos e expressões francesas”.16
Não faltariam, porém, críticas a Nabuco pela preferência conferida
ao idioma francês em sua década de formação. Para ele “notre langue est un
cercle encore trop étroit”17 e “o meu drama com ser francês, de procedência,
de motivo sentimental, elevava-se, como composição literária, acima do
espírito de nacionalidade, visava à unidade da justiça, do direito, do ideal
entre as nações”.18 Por outro lado, seria justamente no fim da década de
1870 que ele iniciaria a sua preparação politica com vistas às eleições
parlamentares, o que de certa forma fez com que se utilizasse do univer-
salismo da língua francesa para a propagação de seus ideais abolicionistas
no mundo ocidental.
De Portugal, o jovem Nabuco nutriria uma profunda admiração
pela obra de Camões, paixão que será carregada por toda vida. Enquanto
diplomata, na última fase de sua vida, seria comum a menção em discursos
a trechos de obras do escritor português, assim como a realização de con-
ferências sobre sua obra em universidades americanas. Diz-se ainda que
Nabuco foi o introdutor dos estudos camonianos no País, o que lhe valeu
o título de “fundador da Camonologia no Brasil”.19
Já enquanto parlamentar, a percepção do modelo civilizacional inglês
como o moralmente mais elevado e o da monarquia parlamentar como forma

16 
MELLO, Evaldo Cabral de. Introdução. In: NABUCO, Joaquim. Diários. v. único. 2. ed. Rio de Janeiro:
Bem-te-vi, 2006. p. 23.
17 
NABUCO, 1886, p. 63 apud DRUMOND, Adriano Lima. O Cosmopolitismo Literário de Joaquim Nabuco.
Desenredos, ano I, n. 3, 2009.
18 
NABUCO, Joaquim. Minha formação. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Biblioteca Nacional, 2010. p. 21.
19 
SALLES, 2002, p. 52 apud DRUMOND, Adriano Lima. O Cosmopolitismo Literário de Joaquim Nabuco.
Desenredos, ano I, n. 3, 2009.

134
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

mais alta de governo o acompanharia por muitos anos. Em verdade, sentia-


se como herdeiro da tradição liberal inglesa. Em suas próprias palavras:
Com efeito, quando entro para a Câmara, estou tão inteira-
mente sob a influência do liberalismo inglês, como se militasse
às ordens de Gladstone; esse é em substância o resultado de
minha educação política: sou um liberal inglês – com afini-
dades radicais, mas com aderências whigs – no Parlamento
brasileiro; esse modo de definir- me será exato até o fim,
porque o liberalismo inglês, gladstoniano, macaulayano,
perdurará sempre, será a vassalagem irresgatável do meu
temperamento ou sensibilidade política.20
A visão de mundo de Nabuco dava conta para a existência de duas
grandes nações no continente americano. Ao sul, fruto da herança monár-
quica portuguesa, o Estado brasileiro obtivera êxito na consecução da
ordem e da estabilidade institucional. A liberdade tampouco havia sido
sacrificada. Ao norte, descendente direto da tradição anglo-saxã europeia,
“um país que caminha para ser, se já não é, o mais rico, o mais forte, o mais
bem aparelhado do mundo”.21
Embora reconhecesse a emergência internacional do gigante do norte,
a missão dos Estados Unidos na história lhe parecia ainda “a mais absoluta
incógnita”.22 Para ele, seria
[...] possível que a civilização americana viesse um dia a ser
mais grandiosa do que qualquer uma que o mundo conheceu,
mas eu consideraria perigoso, por enquanto, renunciar a
Europa nos Estados Unidos a tarefa de levar a cabo a obra
da humanidade.23
Enquanto a primeira já havia passado por sucessivos testes de resis-
tência e superação ao longo da história, o segundo “não foi experimentado
nas mesmas condições que os outros, que são governos armados e em
constante vigia pelo risco de coalizões estrangeiras”.24

20 
NABUCO, Joaquim. Minha formação. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Biblioteca Nacional, 2010. p. 47.
21 
Ibidem, p. 35.
22 
Ibidem, p. 41.
23 
Ibidem, p. 41.
24 
Ibidem, p. 40.

135
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Não descartava a manutenção do isolacionismo na política exterior


americana levado a cabo desde o fim da Guerra de Secessão, tampouco um
eventual conflito bélico com o militarismo europeu. Como que antevendo
os acontecimentos de 1914-1918, supôs que “entre o militarismo europeu
e a democracia desarmada dos Estados Unidos pode um dia rebentar um
conflito que hoje parece quase um paradoxo figurar”.
A conhecida posição pan-americanista do autor só começaria a aflorar
no fim de sua década monarquista, após o recrudescimento do imperialismo
europeu verificado posteriormente ao Congresso de Berlim, em 1885. Até
lá, sua postura fora a de denúncia frente à política externa agressiva levada
à cabo por Washington. A esse propósito, já em Balmaceda, manifestaria
preocupação com a soberania brasileira, mormente nos territórios ama-
zônicos. Com a derrota na Questão do Pirara, sofrida em disputa com a
Inglaterra, passaria a criticar os imperialismos inglês e alemão e a olhar
para os Estados Unidos como a garantia de proteção frente aos ímpetos
imperialistas do Velho Mundo. Se esteticamente a Europa seguiria na van-
guarda mundial; em termos diplomáticos, o Brasil deveria aprofundar cada
vez mais o relacionamento com o gigante do norte.
Nabuco progressivamente passaria a admirar os valores e a cons-
tituição da nação norte-americana. A apreensão da realidade já não mais
seria condizente com aquela dos anos de attaché em Washington. O mundo
havia mudado, e aquela nação emergido como um dos novos polos de poder
mundial. Em palestras proferidas em universidades americanas na década
de 1900, reconheceria o valor das cinco maiores contribuições norte-ame-
ricanas ao mundo.
Destacaria, em primeiro lugar, a imigração, “a maior força na civi-
lização atual e é, sem dúvida, força americana”; Em seguida, a democracia
americana, “novidade genuína”. Nabuco identificaria nos Estados Unidos
a origem da verdadeira democracia, “esta [...] distintamente americana”.25
Ressaltaria ainda a “igualdade de condições sociais entre todas as classes
da nação”, um sistema de educação livre de todo o convencionalismo e a
prevalência “do respeito a mulher [..] em oposição a tendência geral”. Os

NABUCO, Joaquim. Essencial. Organização e introdução de Evaldo Cabral de Mello. Penguin Classics e
25 

Companhia das Letras, 2010. p. 539-540.

136
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Estados Unidos dos anos 1900 eram, pois, a personificação dos ideais liberais
ansiados por Nabuco a toda a civilização humana.26
No entanto, a despeito de reconhecer as virtudes cívicas desse país,
assim como sua impressionante emergência material, não veria a Europa
como polo decadente. Antes, acreditava que “por muitos séculos a Europa e
a América conduzirão o mundo, unidas”.27 Por um lado, a liderança intelec-
tual ainda repousava no Velho Mundo, enquanto as melhorias da condição
humana; por outro, encontravam nos Estados Unidos a vanguarda mundial.
Se o ideal cívico norte-americano era o exemplo a ser seguido; o
exemplo do caos, da instabilidade e do caudilhismo das repúblicas espa-
nholas era aquele para ser evitado. Assim como a maior parte dos escritores
e intelectuais brasileiros de seu tempo, Nabuco não se identificava com a
América Espanhola. Raros são os relatos, em seus diários e até mesmo em
sua autobiografia, que façam menção a esses países.
Para se ter ideia, em Minha Formação, simplesmente não existem
relatos de caráter político que façam menção a qualquer um dos países
latino-americanos. A distância mantida dos assuntos inerentes à América
Espanhola foi fenômeno compartilhado entre as elites do Império e mesmo
da República Velha, exceção feita às negociações de fronteiras ou na ocor-
rência de conflitos com o Brasil.28
Lynch sugere a compreensão do pensamento de Nabuco “a partir
de padrões ideais marcados por forte apelo estético e moral, mas também
pelo imperativo de compreender a realidade por intermédio de um faro
sociológico”.29 Decorrente do idealismo político de Nabuco, “civilização e
barbárie, liberalismo e tirania, monarquia e república, parlamentarismo e
presidencialismo, Europa e América [...]” seriam binômios que refletiriam
a visão de mundo do autor.30

26 
Ibidem, p. 540.
27 
Ibidem, p. 546.
28 
BETHELL, Leslie. O Brasil e a Ideia de América Latina em perspectiva histórica. Estudos Históricos, Rio de
Janeiro, v. 22, n. 44, p. 289-321, julho-dezembro de 2009.
29 
LYNCH, Christian. O Império é que era a República: a monarquia republicana de Joaquim Nabuco. Lua
Nova (Impresso), v. 85, 2012. p. 5.
30 
Ibidem, p. 6.

137
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Será na década monarquista que Nabuco dedicará maior espaço em sua


produção às percepções oriundas das repúblicas vizinhas. No entanto a visão
negativa dessas repúblicas se manteria intocada. Descreveria aqueles países
como “um mosaico de fraude, de anarquia, de militarismo e de revolução”,
percepção que luzias e saquaremas compartilhariam ao longo do século XIX.31
Meses após o golpe de 1889, criticaria, entre outros motivos, o novo
regime “por proceder ao transplante de uma instituição exótica, a República,
que, na América Latina, fatalmente desandaria em caudilhismo, separatismo,
guerra civil”.32 No Brasil recém-republicano, temeu que o País desandasse
para a desordem, a guerra civil e tirania. Por anos, viu seu temor materializar-
se. Afastou-se da política voluntariamente. Com a progressiva consolidação
da República e a melhora no ambiente político, entretanto, aderiria ao novo
regime. Reconheceria que, com o golpe de 1889, o Brasil adentrara ao que
ele primeiro denominou, no País, de América Latina.
Todavia seria ao norte do continente que o ideal prático deveria ser
buscado. Nas relações internacionais, em tempos de desconfiança com as
práticas imperialistas europeias e fraqueza no estado geral do País, Washing-
ton emergiria como o ponto cardeal a ser vislumbrado. A despeito de sugerir
uma maior aproximação entre o continente e de incentivar a realização
de estudos históricos comparados entre essas nações, a América Latina
seguiria sem um lugar especial no pensamento internacional de Nabuco.33

UMA CIVILIZAÇÃO PARA AS AMÉRICAS: O AMERICANISMO


ENQUANTO ANTÍDOTO AOS MALES ANTILIBERAIS

O pensamento político de Nabuco consagrou a busca pelos ideais


liberais como a meta última a ser alcançada. Seu raciocínio pressupunha
ser a evolução da sociedade a responsável pela formação do arcabouço
institucional estatal. O Estado deveria ser entendido como um conjunto

31 
NABUCO, 1949 apud BETHELL, Leslie. Nabuco e o Brasil entre Europa, Estados Unidos e América Latina.
Novos Estudos, 88, novembro de 2010.
32 
NABUCO, 1891 apud ALONSO, Angela. A década monarquista de Joaquim Nabuco. Rev. USP [online].
2009, n. 83, p. 53-63.
33 
NABUCO, Joaquim. Balmaceda. Edições do Senado Federal – v. 14. Brasília: Senado Federal, Conselho
Editorial, 2003. p. 20-21.

138
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

de instituições variáveis ao longo do tempo. Sociedades liberais, nas quais


o espírito cívico estivesse disseminado, gerariam Estados liberais. A socie-
dade, consequentemente, deveria ser entendida não como a soma da massa
populacional em determinado território, mas como aqueles indivíduos que,
enquanto detentores de direitos cívicos, viam-se na possibilidade de exer-
cê-los e influir na vida política. Era, pois, a sociedade que deveria compor
a nação. E a nação daria forma ao Estado.34
O estudo do desenvolvimento da nação e do Estado brasileiros é feito pelo
autor nas páginas de Balmaceda, trabalho escrito no torvelinho dos anos 1890.
Na obra, Nabuco buscará entendimento para dois episódios que marcariam
a história do continente sul-americano. No Chile, raro exemplo de república
virtuosa no continente, o presidente eleito Balmaceda resistiria ao processo de
parlamentarização do país; aumentaria as suas atribuições de forma inconstitu-
cional e se tornaria um ditador. No Brasil, a Monarquia – principal responsável
pela manutenção das liberdades individuais – seria deposta mediante um golpe
de Estado e o país mergulharia em uma república militarista.
Ora, se Brasil e Chile seriam os únicos dois exemplos de ordem e
estabilidade na América Latina ao longo do século XIX, indaga-nos Nabuco,
por que o primeiro logrou resistir à tirania de um ditador e o segundo não?
As respostas viriam do estudo sistemático e comparado da construção do
Estado-nação nos dois países.
No Brasil, a construção do Estado estaria diretamente relacionada à
presença dos Braganças em solos brasileiros. A Monarquia atuaria como uma
força centrípeta que impediria o desmembramento do País à semelhança dos
vizinhos hispânicos. Ao desembarcar em 1808, Dom João VI encontraria
um imenso território, irregularmente povoado e completamente ausente
de uma sociedade minimamente organizada.
Na ausência de nação que moldasse o Estado, caberia à Coroa, em
primeiro lugar, forjar a emergência de um Estado que impedisse o esface-
lamento daquilo que se sonhava se tornar um Império nos trópicos. Em
segundo lugar, construir-se-ia a própria nação. Era, pois, um Império que
viria de cima. Seriam as suas elites as responsáveis pela criação da nação.
34 
LYNCH, Christian. O Império é que era a República: a monarquia republicana de Joaquim Nabuco. Lua
Nova (Impresso), v. 85, 2012.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Durante o reinado de Pedro II, o Brasil experimentaria um dos momen-


tos de maior estabilidade e liberdade políticas vistas na história do País. Nas
palavras de Nabuco, o Brasil seria “exemplo solitário, na América Latina,
de governo próprio guiado pelo liberalismo”.35 Nas repúblicas vizinhas, na
ausência de uma força centralizadora, de um aparato estatal consolidado
e de uma nacionalidade forjada, aqueles países mais se pareceriam a “um
mosaico de fraude, de anarquia, de militarismo e de revolução”.36
Para Nabuco, a experiência liberal que o Brasil experimentara, ao longo
do Segundo Reinado, não fora fruto de uma ampla sociedade civil articulada.
A liberdade política tampouco viera da contenção por parte dessa sociedade
aos demais poderes constitutivos do Estado. Fora a Monarquia, consubstan-
ciada no Poder Moderador, a garantidora das liberdades experimentadas.
Tal liberdade vivenciada “foi só porque o poder se continha a si mesmo.
Isto era devido à elevada consciência nacional, que por herança, educação,
e seleção histórica, os soberanos modernos quase todos encarnam”.37
Nos demais países hispânicos, no entanto, na ausência de um poder
constitutivo superior que tutelasse a construção do Estado-nação ou de uma
sociedade civil que se contrapusesse aos excessos de poder do Executivo,
cairiam esses países prostrados diante da guerra civil, da ditadura e da
desordem. Exceção no continente feitas apenas a Estados Unidos e Chile –
exemplos bem-sucedidos da construção de uma sociedade civil articulada,
capazes de se contrapor aos excessos do Executivo; e do Império do Brasil,
onde a sociedade sofria de hipertrofia, mas o Estado, mantido desde cima
pelas mãos apartidárias de um Imperador ilustrado, garantiria as liberdades.
As palavras de Nabuco são ilustrativas. “É natural a hipertrofia do
poder nas sociedades onde ele não encontra nada que o possa limitar”.38 O
Brasil, diria ele, “era e é uma destas; no Chile, pelo contrário, a sociedade

35 
NABUCO, Joaquim. Essencial. Organização e introdução de Evaldo Cabral de Mello. Penguin Classics e
Companhia das Letras, 2010. p. 525.
36 
NABUCO, 1949 apud BETHELL, Leslie. Nabuco e o Brasil entre Europa, Estados Unidos e América Latina.
Novos Estudos, 88, novembro de 2010.
37 
NABUCO, Joaquim. Balmaceda. Edições do Senado Federal – v. 14. Brasília: Senado Federal, Conselho
Editorial, 2003. p. 166.
38 
Ibidem, p. 166.

140
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

pode conter o governo, dentro de certos limites extremos. Se tivemos a


liberdade na monarquia, foi só porque o poder se continha a si mesmo”.39
No Chile, a sociedade imporia resistência aos ímpetos ditatoriais do
presidente Balmaceda. No Brasil, uma vez extinta a Monarquia, a ausência
de um poder a se contrapor aos excessos do executivo, nos levaria à dita-
dura militar de um lado e à inércia política da população do outro. Lá, a
liberdade era garantida por uma nação forte, verdadeiramente liberal. Aqui,
por um governo virtuoso que a garantira de forma artificial, uma vez que
a sociedade ainda não havia se aclimatado ao liberalismo.
“Os chilenos não fariam facilmente o que nós fizemos”, diria. “Destruir
um governo que tem dado os mais admiráveis resultados para pôr em lugar
dele uma mera teoria, é ausência de senso prático”.40 Se no Chile fora a resis-
tência da sociedade a determinante para impor freios a Balmaceda; no Brasil,
recém-republicano, mas destituído de espírito da coisa púbica, a ausência de
tal sociedade poderia levar o País à submissão do despotismo militar.
É nesse contexto de caos e guerra civil que defenderá a restauração
monárquica, entendida como o melhor arranjo político capaz de garantir um
ambiente político estável e apto a dar prosseguimento às reformas sociais
na sociedade brasileira iniciadas com as leis abolicionistas no Império. É
também nesse momento que a reconversão de Nabuco ao catolicismo deve
ainda ser compreendida. Ao cientificismo intransigente e às teses sistemá-
ticas positivistas da jovem República, o cristianismo seria entendido como
uma das fontes filosóficas do liberalismo e, portanto, antipodal às crenças
do positivismo da situação.
Para que a República aqui materializasse os nobres valores da coisa
pública e do civismo, seria necessária a emergência de um ambiente pro-
pício ao desenvolvimento de tais valores. Nabuco vislumbrará formas de
uma nova aclimatação do liberalismo, agora em ambiente político distinto
daqueles experimentados nos anos dourados imperiais. Nascem, a partir
de então, em seu pensamento, preocupações de caráter normativo acerca
do melhor arranjo institucional a ser adotado.

39 
Ibidem, p. 166.
40 
Ibidem, p. 162.

141
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Constatada a ausência de civismo na recém-instaurada ditadura


militarista, quais seriam os antídotos aos males antiliberais? De que forma
poderíamos desenvolver aqui uma consciência liberal que viabilizasse a
construção de uma nação verdadeiramente dotada do espírito da coisa pública
sem abrir mão da manutenção da ordem? O pensamento de Nabuco, em
Balmaceda, prescreveria três remédios constitucionais a serem alcançados
no jogo político da arena doméstica.
O primeiro dos remédios, comum a todos os países latino-americanos,
partiria da prevalência de um receituário constitucional de procedência
liberal. Proceder-se-ia à promoção dos valores liberais – “esclarecimento,
capacidade, moralidade, civismo, tolerância, abertura à democracia”41 –
mediante seu expresso cumprimento constitucional. Caberia à elite intelec-
tual de cada país a defesa e a promoção de tais valores frente às tendências
despóticas do meio antiliberal.
A esta aristocracia, uma espécie de “Liga Liberal” continental deveria
ser forjada com o objetivo de propiciar a difusão desses valores. Na medida
em que tal elite dispunha do poder político, seria ela a grande responsável
por dar continuidade às reformas sociopolíticas iniciadas no Império. Elas
deveriam estar representadas em um Parlamento virtuoso, espelho das
elites ilustradas; parlamentarismo este que representaria o segundo dos
remédios constitucionais.
O terceiro dos antídotos, o Poder Moderador, deveria vir receitado
concomitantemente ao anterior, o parlamentarismo federalista. As elites
representadas no Parlamento conduziriam os rumos da nação, por meio
da formação de gabinetes e da atuação legislativa. Por outro lado, o Poder
Moderador seria aquela entidade apartidária e responsável pela contenção
dos excessos do Parlamento e ao mesmo tempo pela política de longo termo
a ser levada a cabo no País. Nas palavras do próprio Nabuco,
Não há mais bela ficção no Direito Constitucional do que a
que imaginou Benjamin Constant com o seu Poder Mode-
rador. O que a América do Sul precisa é um extenso Poder

41 
LYNCH, Christian. O Império é que era a República: a monarquia republicana de Joaquim Nabuco. Lua
Nova (Impresso), v. 85, 2012. p. 7.

142
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Moderador, um Poder que exerça a função arbitral entre


partidos intransigentes.42

Dessa forma, a sociedade representada no Parlamento indicaria o


chefe do governo, seus ministros e demais funcionários. Atuaria ainda como
o poder legislativo de excelência. Ao Poder Moderador, seria incumbida
as funções de chefe de Estado e árbitro imparcial das disputas no seio do
Parlamento. Parlamento e Poder Moderador restringiriam, mutuamente,
os excessos de poder um do outro. Inicialmente, ademais, competiria à
elite ilustrada a promoção de um ambiente liberal a se propagar na direção
das massas por meio da realização de reformas socioeducativas inclusivas,
amplamente defendidas em O Abolicionismo.
A coerência no pensamento de Nabuco transbordaria à sua face
externa. Em Washington, veria o crescente poder internacional dos EUA
como importante mecanismo continental de defesa aos ímpetos imperia-
listas europeus. A emergente força do “imã suspenso no Capitólio” seria, a
seu ver, fundamental na consecução dos interesses nacionais e na luta pela
propagação do liberalismo no continente.43
E de que forma a aproximação dos Estados Unidos atuaria como
um remédio no combate ao antiliberalismo? Mediante a criação de “uma
opinião comum a toda a América”.44 A emergência de uma opinião pública
continental viria a atuar em conjunto com as Conferências Pan-Americanas
e com “o pertencer à União das Repúblicas Americanas”.45
A liderança do processo estaria nas mãos dos Estados Unidos,
única república com capacidade moral e material para conduzir o
empreendimento. Em palestra proferida na Universidade de Wisconsin,
confirmaria a importância daquela nação no processo: “sentimos grande
ufania em reconhecer nos filhos de Washington os modeladores da nossa
civilização americana”.46

42 
Ibidem, p. 154.
43 
NABUCO, Joaquim. Essencial. Organização e introdução de Evaldo Cabral de Mello. Penguin Classics e
Companhia das Letras, 2010. p. 625.
44 
Ibidem, p. 556.
45 
Ibidem, p. 556.
46 
Ibidem, p. 547.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

A criação de uma opinião pública continental em conjunto com a


criação de uma União das Repúblicas Americanas combateria o antilibe-
ralismo de duas formas: por meio do polimento das instituições políticas
dos Estados e da constrição moral que sofreriam eventuais governantes
tirânicos. A constituição da Corte de Cartago entre países da América
Central – primeiro tribunal permanente de direito internacional no mundo
– e a crescente expectativa em torno do desenvolvimento institucional do
sistema interamericano de nações corroborava as expectativas de Nabuco.
Uma opinião pública comum a toda a América poderia
polir até o máximo de perfeição as instituições políticas de
todos os Estados americanos, mas essa opinião geral ainda
está em formação. [...] Quando essa opinião alcançar sua
maioridade, o pertencer à União das Repúblicas Ameri-
canas, será, para todas estas, sinônimo de imunidade, não
só contra a conquista estrangeira, mas também contra a
arbitrariedade dos próprios governos e a suspensão das
liberdades públicas ou individuais.47
À primeira vista, sua atuação diplomática poderia parecer um tanto
quanto ingênua ou mesmo utópica. Uma leitura atenta aos seus diários e
às cartas enviadas a amigos e colegas de trabalho, no entanto, seriam úteis
para retirar os excessos verificados em seus discursos diplomáticos, dis-
cursos, diga-se de passagem, “para americano ver”. Era preciso ganhar a
simpatia da opinião pública norte-americana e o apoio da Casa Branca em
um momento de dificuldades com a alocação do café no mercado mundial
e uma série de negociações de fronteira sendo negociadas com os vizinhos.
Da aproximação com os Estados Unidos, potência emergente e já
maior comprador do principal produto de exportação brasileiro, Nabuco
veria a possibilidade da consubstanciação de uma espécie de estrutura
normativa a incidir sobre a atuação despótica dos próprios governos nacio-
nais. A doutrina Monroe, dessa forma, atenderia aos interesses brasileiros
de duas formas: a primeira, atuando como defesa à soberania nacional; a
segunda, coibindo a suspensão dos direitos individuais levados a cabo por
governos arbitrários.

47 
Ibidem, p. 556.

144
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

DA DENÚNCIA À SALVAÇÃO

Curiosamente, Nabuco e Rio Branco – dois dos grandes defensores


da política americanista nos anos 1910 –, demonstrariam sérias oposições
à aproximação com os Estados Unidos na década de 1890. Em 1896, Rio
Branco expressaria em carta: “Eu prefiro que o Brasil estreite as suas relações
com a Europa a vê-lo lançar-se nos braços dos Estados Unidos”.48 Nabuco
por seu turno, no mesmo ano, elogiaria A Ilusão Americana, livro de bolso
dos nacionalistas brasileiros escrito por Eduardo Prado, que condenava
o imperialismo americano: “A Ilusão Americana era o livro que eu tantas
vezes lhe disse que ia escrever [...]. Expus-lhe (a Eduardo Prado), porém,
por vezes as linhas gerais e disse-lhe que desejava que alguém o fizesse”.49
No entanto, anos mais tarde, diria ao diplomata e amigo Graça Aranha
que “um livrinho (A Ilusão Americana) que nos faz muito mal, entretém
no espírito público a desconfiança contra este país [os Estados Unidos],
nosso único aliado possível”.50 A Rui Barbosa, por conta da Conferência de
Haia de 1907, se manifestaria contrariamente ao posicionamento oficial
adotado pelo governo brasileiro de aliança com os vizinhos sul-america-
nos. Ao amigo e ex-governador de Pernambuco, Alexandre Barbosa Lima,
confidenciaria que:
[...] por bem ou por mal, não há escolha para nenhuma nação
da América Latina...[E]na América (quando não fosse por
outra causa, pela exceção da língua, que nos isola do resto da
Ibero-América, como separa Portugal da Espanha), não pode-
mos hesitar entre os Estados Unidos e a América Espanhola.51
A nosso ver, duas são as razões que explicariam tais inflexões em
pouco menos de 10 anos. O primeiro ponto a ser levado em consideração
faz menção à distinção do lugar social e preferências pessoais dos atores no
momento da análise dos discursos. Em 1896, Nabuco era escritor radicado
no Rio de Janeiro e se encontrava ausente da política nacional. Em 1905,

48 
RIO BRANCO, 1896 apud BETHELL, Leslie. Nabuco e o Brasil entre Europa, Estados Unidos e América
Latina. Novos Estudos, 88, novembro de 2010.
49 
NABUCO, Joaquim. Cartas a amigos, v. 3. Obras Completas de Joaquim Nabuco, v. XIV. São Paulo: Instituto
Progresso, 1949. p. 81.
50 
Ibidem, p. 235.
51 
Ibidem, p. 300.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

era o embaixador em Washington encarregado de estreitar os laços com


aquele país. Em 1896, Rio Branco era ministro plenipotenciário em Berlim,
enquanto em 1904, ministro das Relações Exteriores. Inicialmente relutantes
em aderir às regras do novo regime, sobretudo Nabuco, acabariam por se
tornarem colaboradores e, curiosamente, suas obras legitimariam o regime
pelo qual não demonstravam simpatia ideológica.
Em segundo lugar, a ditadura militar, que nos anos 1890 sucederia
a virtuosa monarquia, representava a antípoda do pensamento liberal de
Nabuco. Foi esse pensador um severo crítico do regime militar brasileiro.
Não da república, entendida enquanto a promotora última da coisa pública;
mas do formato de república caudilhesca, desordeira e oposta aos valores
cívicos que aqui teve lugar. Sobre os episódios de novembro de 1889, o filho
de Rio Branco diria ter se tratado “o golpe mais rude que meu pai sofreu
em toda a sua existência”.52
Se, em um primeiro momento, a retórica de denúncia aos excessos
do imperialismo norte-americano esteve presente no discurso de Nabuco,
findadas as esperanças de restauração da Monarquia – esta, entendida
como melhor arranjo institucional na tarefa de promover o espírito público
no País e garantir a ordem –, o americanismo em seu pensamento deve, a
nosso ver, ser compreendido enquanto possibilidade de se garantir o auto-
governo com liberalismo. Em tempos em que as intervenções estrangeiras
e excessos ditatoriais eram fatos corriqueiros na região, a salvação mais
uma vez viria do alto.

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escritos de Joaquim Nabuco. Sinais Sociais, v. 24, p. 11-25, 2014.

52 
RIO BRANCO, 1942 apud LYNCH, Christian. Um saquarema no Itamaraty: por uma abordagem renovada
do pensamento político do Barão do Rio Branco. Revista Brasileira de Ciência Política. 2014. p. 287.

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-agosto-setembro, ano XVIII. n. 68, 2011.
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______. Perfis Parlamentares – Joaquim Nabuco. 2. ed. Brasília: Biblioteca Digital
da Câmara dos Deputados, 2010.

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Classics/Companhia das Letras, 2010.
______. Minha Formação. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Biblioteca
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NOGUEIRA, Marco Aurélio. Da Abolição à diplomacia, um liberalismo multifa-
cetado. Revista USP, n. 83, nov. 2009.
PRADO, Eduardo. A Ilusão Americana. São Paulo: Brasiliense, 1983.
Capítulo 5

O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NA CRISE


DA POLÍTICA DOS ESTADOS NA PRIMEIRA
REPÚBLICA: DOS VOTOS AO PERIÓDICO
JURÍDICO “O DIREITO”1

Leonardo Seiichi Sasada Sato


Priscila Petereit de Paola Gonçalves

INTRODUÇÃO

Os periódicos jurídicos produzem e disseminam informações jurídicas,


como novas produções legais, julgados que reforçam orientações jurispru-
denciais, julgados que inauguram novos entendimentos, atos executivos,
discussões doutrinárias, artigos de opinião jurídica ou política. Até há não
muitos anos, eram o meio privilegiado por que se acessavam as produções
jurídicas mais recentes e destacadas. Entendidos como documento histó-
rico, formam um conjunto de fontes que desenvolveu em torno de si uma
linha de pesquisa específica, o periodismo jurídico. Essa linha foi mais
desenvolvida em países como Portugal, Espanha e Itália desde a década
de 1960. No Brasil essa abordagem é ainda tênue, mas com resultados. Os
periódicos brasileiros têm recebido cada vez mais atenção, com os trabalhos
de André Chaves2, Jefferson Pinto3, Mariana Silveira4 e Henrique Ramos5.
1 
O artigo corresponde à versão já publicada na revista Estudos Históricos, v. 29, n. 58, maio-agosto de 2016. p. 421-440.
2 
CHAVES, André Aparecido Bezerra. A revista da Faculdade Livre de Direito da Cidade do Rio de Janeiro: Uma
proposta para a identidade jurídica nacional brasileira. 130f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação
em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2011.
3 
PINTO, Jefferson de Almeida. O periodismo e a formação do campo jurídico em Minas Gerais. Varia Historia,
v. 29, n. 50, maio/ago. 2013.
4 
SILVEIRA, Mariana de Moraes. Revistas em tempos de reformas: Pensamento jurídico, legislação e política nas
páginas dos periódicos de direito (1936-1943). 391f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em
História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFMG, Belo Horizonte, 2013.
5 
RAMOS, Henrique Cesar Monteiro Barahona. A Revista “O Direito” – Periodismo jurídico e política no final do
Império do Brasil. Dissertação (Mestrado), UFF, 2009.

149
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Andrei Koerner6 e Lêda Boechat Rodrigues7 são exemplos de autores que


estudaram o Poder Judiciário brasileiro na Primeira República tendo como
base periódicos jurídicos.
Em seu estudo sobre o Judiciário brasileiro no período, Andrei Koer-
ner utilizou a revista O Direito e a Revista do Supremo Tribunal Federal, além
de artigos publicados no Jornal do Commercio. Antes dele, Lêda Boechat
Rodrigues utilizou ainda o Supremo Tribunal Federal – Jurisprudência
(entre 1892 e 1898), a Revista Forense, a Revista de Direito Civil, Comercial e
Criminal, a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o A Tribuna, e
jornais como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, a Gazeta de Notícias, o
Jornal do Brasil. Recorreu ainda ao Livro de Atas do Supremo Tribunal Federal
(manuscrito) para o período entre 1891 e 1898. Os autores recorreram a
essas fontes porque jornais e revistas jurídicas eram as formas privilegiadas
de se acessarem informações jurídicas, ainda que defasadas em alguns meses,
casual ou propositalmente, como será visto mais à frente.
Ao analisar cinco casos caracterizados como conflitos entre oligarquias
estaduais entre 1908 e 1911, Andrei Koerner considerou os resultados finais
dos julgamentos para afirmar que “os votos dos ministros do STF acompa-
nharam as posições dos chefes políticos aos quais eles eram ligados.”8. Este
argumento de que o STF e seus ministros votavam conforme as oligarquias
a que estavam vinculados é perfeitamente plausível, mas pode e precisa ser
complementado, conforme também será visto.
Assim, sob a linha do periodismo jurídico, pretende-se analisar a
atuação do STF na Primeira República a partir do levantamento de como
o periódico de jurisprudência “O Direito” abordou os seguintes temas:
dualidades eleitorais e pedidos de intervenção federal. Embora interven-

6 
KOERNER, Andrei. Judiciário e cidadania na constituição da república brasileira (1841-1920). Curitiba:
Juruá, 1998.
7 
RODRIGUES, Lêda Boechat. História do Supremo Tribunal Federal: v. 1 – Defesa das Liberdades Civis (1891-
1898). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
RODRIGUES, Lêda Boechat. História do Supremo Tribunal Federal: v. 2 – Defesa do Federalismo (1899-1910).
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
RODRIGUES, Lêda Boechat. História do Supremo Tribunal Federal: v. 3 – Doutrina Brasileira do Habeas-Corpus
(1910-1926). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
8 
KOERNER, Andrei. Judiciário e cidadania na constituição da república brasileira (1841-1920). Curitiba: Juruá,
1998. p. 202.

150
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

ções federais constituíssem instrumento de excepcionalidade, não foram


raras, e a estabilidade do período suscitou requisições de intervenção.
Neste sentido, a atenção será focada nos periódicos jurídicos como uma
fonte privilegiada para abordar os posicionamentos do STF em três casos
emblemáticos da Primeira República: (i) o grande cisma na Bahia de 1907;
(ii) o bombardeio de Manaus em 1910; e (iii) a sucessão ao governo do
estado do Rio de Janeiro em 1911.
O recorte escolhido corresponde à transição para o período de maior
turbulência, desde sua estabilização com a Política dos Estados do governo
Campos Sales (1898-1902): abordam-se aqui alguns eventos ocorridos entre
a estabilidade da Política dos Governadores e o governo Hermes da Fonseca
(1910-1914). Essa conjuntura histórica será abaixo delineada, para depois
contextualizar e levantar questões sobre a fonte primária utilizada. Serão
enfim abordados os casos elencados: habeas corpus preventivo por questões
eleitorais na Bahia em 1908, o bombardeio a Manaus de 1910, e a dualidade
legislativa no Rio de Janeiro em 1911.
Por fim, a conclusão apontará para os seguintes argumentos: a judi-
cialização de questões afetas à política só acontecia em estados de segunda
grandeza, pois os de primeira grandeza política resolviam-se dentro de
suas articulações políticas; a análise de uma história do STF não pode se
satisfazer com o resultado das votações, sendo necessário compreender os
argumentos e o pensamento político de cada ministro em seu contexto e
em cada caso; deve-se levar em conta o papel da editoração dos periódicos
jurídicos, que selecionavam como e o que viria a ser publicado.

O CONTEXTO HISTÓRICO DA PRIMEIRA REPÚBLICA


(1908-1911)

Recorreu-se ao periódico O Direito por ter ele uma pretensão de abar-


car todas as questões jurídicas do País, inclusive as estaduais, e em todas as
matérias, como a civil, a criminal, a administrativa. A abordagem sobre a fonte
iniciou-se no ano de 1908 e se estendeu até 1913, quando o periódico deixou
de ser editado. Abarcaram-se assim os volumes 105 a 120. Aborda-se a fase

151
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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áurea da estabilidade do regime, que se seguiu da década de consolidação


republicana (1898-1902) até o governo Hermes da Fonseca (1910-1914).
Foi no período de 1898-1902 que houve a estabilização oligárquica,
com o governo Campos Sales. Nesse período é que fora formada a Política
dos Estados ou Política dos Governadores, em que o regime atingiria seu
equilíbrio. O que o governo Campos Sales conseguiu foi a resolução dos
impasses que urgiam já desde a Constituinte de 1890-1891, quando o
ultrafederalismo representava a radicalização das propostas descentrali-
zantes, contra os projetos favoráveis à União. Era a conciliação entre os que
defendiam uma centralização mínima que fosse, e que em 1891 defendiam,
por exemplo, a figura de um STF, e os que discursavam por uma descentra-
lização total, posicionando-se a favor de uma confederação marcada pela
soberania dos estados sobre a União. Marcas desse ultrafederalismo era a
denominação de senadores da República como “embaixadores do Rio de
Janeiro”9 e a existência de senados e supremas cortes estaduais.
O presidente da República governava dando autonomia e apoio aos
governos estaduais, por sua vez representados por seus principais grupos
oligárquicos. Sendo fraudadas as eleições, o procedimento de escolha
dependia das tênues negociações entre os Executivos federal e estadual,
este garantindo apoio eleitoral, aquele garantindo a manutenção no poder.
Essa estabilização era feita por meio de três institutos políticos: o estado de
sítio e a intervenção federal, mobilizados mais emergencialmente quando
de casos de dualidades eleitorais. O próprio Campos Sales tinha clareza
sobre o uso desses institutos:
Tenho, pois, por dever primeiro do Executivo Federal
nas relações com os Estados o escrupuloso respeito das
fronteiras demarcadas pelo art. 6º da Constituição, cuja
necessidade foi antevista com admirável sagacidade pela
sabedoria do legislador constituinte. É essa uma condição
de paz interna.10

9 
O Direito. Rio de Janeiro, v. 106, maio/agosto, 1908. p. 507.
10 
Discurso do senador Campos Sales ao Senado Federal, em 1895, quanto à possibilidade de intervenção
federal no estado de Sergipe, sob alegação de anomalias no governo estadual. Grifos do original, em O Direito.
Rio de Janeiro, v. 106, maio/agosto, 1908. p. 97.

152
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Assim, Campos Sales levantava restrições à figura da intervenção


federal. Seu modelo “tinha por finalidade esvaziar a esfera federal do con-
flito político, remetendo as questões partidárias para a esfera estadual”11.
O modelo federalista de Campos Sales procurava não regulamentar a
intervenção federal e maximizar os efeitos do estado de sítio. Já os libe-
rais, representados na figura de Rui Barbosa, defendiam a restrição dos
efeitos do estado de sítio para salvaguarda de direitos constitucionais e
tentavam regulamentar a intervenção federal para que fosse utilizado
juridicamente. Desse modo, ainda seria possível um arbitramento jurídico
pela União sobre as querelas estaduais. Os ultrafederalistas, entretanto,
acabavam fazendo uso corriqueiro desses instrumentos de exceção, e
quanto menos regulamentados, melhor poderiam acioná-los a favor de
um grupo aliado e contra os oposicionistas. Ao evitar a regulamentação e
manter os institutos no plano político, tentavam ainda afastar seu mérito
e efeitos da apreciação do Judiciário.
Essa caracterização áurea chegou ao fim em 1910. A abordagem
adentra uma terceira fase da Primeira República, marcada pela crise de
sucessão a Afonso Pena, a Campanha Civilista de Rui Barbosa, e a vitória
de Hermes da Fonseca. Para Lynch,
A Campanha Civilista foi assim o divisor de águas no esta-
belecimento de uma clara divisão no campo político do
regime: na medida em que o candidato oficial, Hermes da
Fonseca, reuniu ao seu redor a maior parte do establish-
ment, a oposição inicial entre civilistas e militaristas evoluiu
rapidamente para o reconhecimento oficial da oposição
entre liberais e conservadores.12

O governo Hermes da Fonseca representou uma quebra no regime,


marcado por estados de sítio e intervenções federais, inclusive não ofi-
ciais. Solidificava-se o delineamento entre liberais que davam prioridade
à defesa de direitos fundamentais no processo de estabilização do Estado,
e conservadores que elencavam a defesa dos pactos oligárquicos em pri-

11 
LYNCH, Christian Edward Cyril. Da monarquia à oligarquia: História institucional e pensamento político
brasileiro (1822-1930). São Paulo: Alameda, 2014. p. 91.
12 
LYNCH, Christian Edward Cyril; SOUZA NETO, Cláudio Pereira de. O Constitucionalismo da Inefetividade:
A Constituição de 1891 no cativeiro do estado de sítio. In: ROCHA, Cléa Carpi da (Coord.). As Constituições
Brasileiras: Notícia, História e Análise Crítica. Brasília: OAB, 2008. p. 26.

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meiro plano. O período entre 1914 e 1922 foi marcado justamente pelas
tentativas de restabelecimento da Política dos Governadores por meio do
governo Wenceslau Brás. O Pacto de Ouro Fino, de 1913, já seria uma
tentativa de São Paulo e Minas Gerais fazerem frente à candidatura do
gaúcho Pinheiro Machado.
Anos depois, a Reação Republicana de 1922 e o governo Arthur
Bernardes marcavam um novo modelo de equilíbrio federativo que levava
à quebra do modelo Campos Sales, que levou à reforma Constitucional de
1926. As candidaturas de Nilo Peçanha, senador do Rio de Janeiro, e J. J.
Seabra, presidente da Bahia, refletiam as dificuldades dos principais grupos
políticos em articular suas conveniências políticas dentro dos estados menos
poderosos. Além disso, a última década republicana já estaria marcada por
um nacionalismo autoritário que afastava o Judiciário das questões políti-
cas, o que se viria a se solidificar em 1926, com a reforma constitucional.
Declarações de estado de sítio e intervenções federais ocorriam por
eventos emergenciais, como foi a Revolta da Chibata em 1910. Entretanto
eventos inerentes à lógica do sistema suscitavam o uso dos institutos de
forma bem mais frequente e sistemática. Eram as dualidades eleitorais: sendo
fraudadas as eleições, garantiam-se as alianças entre os planos estadual e
federal. Ocorria, contudo, de dois candidatos ou dois grupos se dizerem
eleitos. Por se tratar de questão política, a apreciação caberia ao Congresso
Nacional, mas em sua demora poderia o Judiciário ser acionado, entendi-
mento esse fruto de um longo debate, uma vez que não havia disposição
constitucional clara.
Assim, com o objetivo de verificar como o STF posicionava-se perante
esses casos de intervenção federal, estado de sítio e dualidades eleitorais é
que se abordaram os volumes de O Direito entre os anos de 1908 e 1913. O
argumento é de que a própria circulação desses posicionamentos formava
por si uma notícia sobre a atuação e uma referência para impactar os eventos
políticos em curso. Assim, buscam-se posicionamentos da Corte e de seus
ministros, assim como os argumentos utilizados para fundamentar suas
posições, em uma linha que atenta para a publicização dessas atividades.
O recorte serve como filtro: não se procura o que foi judicializado, o
que demandaria uma pesquisa extensa sobre os processos judiciais, mas o

154
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

que moveu impactos políticos por sua própria existência no plano da mobi-
lização de argumentos para a estabilização política. Importa o que chegava à
esfera pública, e isso é mensurado por meio da circulação em periódicos de
jurisprudência, que permitiam a mobilização de argumentos, ideias, teorias.
Eventuais omissões e o silêncio das fontes consultadas formam mais um
dado e sustentam ainda mais o argumento sobre a publicidade.

O PERIÓDICO JURÍDICO “O DIREITO”

Um dos mais tradicionais periódicos jurídicos, a revista O Direito foi


fundada em 1873 e teve 120 números publicados até abril de 1913. Trazia
notícias de atos executivos, legislação, artigos de doutrina, pareceres de
comissões legislativas e, no que tange ao Poder Judiciário, decisões de
tribunais estaduais, de juízes federais e do STF. Sua peculiaridade era de
que costumava trazer a decisão recorrida, documentos do caso e extensos
votos. Em oposição, o periódico sucessor, a Revista do Supremo Tribunal
(1914-1925) dedicava-se tanto ao STF quanto à Corte de Apelação do
Distrito Federal e aos tribunais superiores dos estados, mas trazia acórdãos
em regra com votos curtos, sem a decisão recorrida. Em compensação,
além dos artigos de doutrina e pareceres, trazia também os debates de
sessões do STF.
A Revista do Supremo Tribunal é relevante por dar pistas de como eram
coletados os votos dos ministros do STF para posterior publicização. Seu
primeiro número, de abril de 1914, trazia uma apresentação assinada pelo
editor Astolpho Rezende13 que fornecia dois elementos que auxiliam a com-
preender a constituição do gênero da fonte. Astolpho Rezende atacava os
repositórios oficiais existentes nos EUA porque atrasavam a publicação das
decisões e perdiam a clareza e concisão. Defendia “o poder de escolher o que é
substancial e despresar o resto”, o que importava em defender o poder de editar
as sentenças. O segundo elemento refere-se à própria forma de transcrição do
texto. Os juízes ingleses de última instância não teriam o hábito de escrever
suas decisões, pronunciando-as oralmente. Eram viciadas por um tom de
conversação e de repetição. Os Justices norte-americanos, pelo contrário,
13 
REZENDE, Astolpho. Revista do Supremo Tribunal. In: Revista do Supremo Tribunal. Rio de Janeiro, v. 1, n.
1, abril de 1914. p. 3.

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trariam os votos escritos para lê-los objetivamente e formando um estilo


dogmático sem apologias, e essa leitura é que seria transcrita pelos editores.
O Direito não devia adotar procedimento muito diferente. Os votos
a serem publicados eram transcritos a partir da leitura pelos julgadores.
Mesmo que transcritos, desenvolveu-se a suspeita de que, no processo de
edição, alguns votos poderiam ser selecionados, e não se reproduziriam todas
as discussões travadas, o que fica claro a partir de algumas atas de sessões
disponibilizadas. Não parecia convincente que o ministro Pedro Lessa, um
dos criadores da doutrina brasileira do habeas corpus, se mantivesse calado
frente a votos de Epitácio Pessoa, que só admitia o remédio para estrita
salvaguarda do direito de locomoção.
A seleção de votos para publicação veio a ser confirmada por meio
de um volume em especial de O Direito. O volume 111, de 1910, trazia o
2º acórdão na Ação Originária 714, em que o estado do Paraná levantava
embargos sobre a competência do STF, o quórum mínimo de ministros
ao considerar que o presidente não poderia compô-lo para contagem e
sobre o princípio do uti possidetis para que tivesse direitos sobre territórios
catarinenses. Tratava-se da questão dos limites entre os estados de Santa
Catarina e Paraná, que viria a resultar na Guerra do Contestado. Os longos
“considerandos” do relator André Cavalcanti, naquela véspera do Natal
de 1909, afirmavam a competência do STF, afastavam o princípio do uti
possidetis para casos de limites entre estados da União e considerava válido
o cômputo do presidente da Corte para o quórum mínimo de 10 ministros
para julgar a questão.
Os votos do STF na Ação Originária 7 fugiram ao padrão de O
Direito. A revista trazia peças processuais, sentenças recorridas, a íntegra
do acórdão, mas raramente trazia detalhes sobre os votos dos ministros.
Quando o fazia restringia-se apenas a apontar o ministro vencido, ou
alguma frase que ressaltasse algum ponto específico do voto. No caso,
entretanto, o ministro vencido Manoel Espínola trazia um voto que
ocupava duas páginas da revista. O voto de Raul Martins ocupava 1/3 de
página, e o de Godofredo Cunha tinha seis linhas, o que já fugia ao padrão
de curtos votos registrados no periódico.

14 
O Direito. Rio de Janeiro, v. 111, janeiro/abril, 1910. p. 422-430.

156
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Observa-se que o voto de Godofredo Cunha era publicado depois do


de Raul Martins, embora este seguisse o daquele. Ou seja, a publicação não
seguia a ordem de votações. A votação foi arriscada o suficiente para fazer
relevante uma nota no resumo do julgado, em que o editor de O Direito
elencou que “Entre os dez ministros do Supremo Tribunal para julgarem
as causas de que cogita a lei 938 de 1902 se comprehende o Presidente do
Tribunal”15, cujo voto poderia vir a fazer diferença. O resultado final foi 7 a
4, sem o voto de Guimarães Natal, para quem havia a anotação “fui presente”.
Fora do espaço destinado a esse acórdão, esse mesmo volume 111
trazia na seção de doutrina um voto do ministro Pedro Lessa, nessa mesma
Ação Originária 7. O texto de 18 páginas é muito significativo, uma vez
que era publicado como doutrina no mesmo volume em que foi veiculada a
decisão do STF em cujo ensejo deveria ter sido retratado na forma de voto.
Fosse no processo de transcrição, fosse na seleção de casos a publicar,
fosse na edição, alguns mereceriam destaque em detrimento de outros, salvo
se publicados posteriormente enquanto doutrina, ou quiçá em outra revista
de diferente orientação jurídica. Isso porque os processos não circulavam,
não atingiam o público em geral. Mesmo a constituição dos votos no acór-
dão formava o que os ministros queriam fazer registrar, a partir do que os
editores decidiam ainda quando e como publicar. Nada impedia, então, que
essas revistas tivessem inclinações por correntes jurídicas e políticas, como
efetivamente era o caso de O Direito. Isso posto, cabe abordar os episódios
escolhidos para análise.

HABEAS CORPUS PREVENTIVOS NAS ELEIÇÕES BAIANAS DE


1908

Os casos baianos16 foram os que menos ensejaram discussões e os que


apresentaram os votos mais objetivos. Isso pode ter se dado pela urgência e
distância da situação, em que foram pedidos habeas corpus (HC) preventivos
via telegrama ao STF17. A origem do problema residiria na divisão do Partido

15 
Ibidem, p. 422.
16 
O Direito. Rio de Janeiro, v. 109, maio/agosto, 1909. p. 508-514.
17 
KOERNER, 1998, p. 196.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Republicano Baiano, que foi chamado de “grande cisma de 1907”. Daí forma-
ram-se severinistas, ao lado do senador e ex-governador Severino Vieira, e
marcelinistas, ao lado do governador José Marcelino de Sousa18. Na sucessão
ao seu governo, viria a vencer João Ferreira de Araújo Pinho, um marcelinista19.
Antes disso, visando às eleições de 1909, Afonso Pena, um apoiador
dos marcelinistas, entrou em acordo com Pinheiro Machado em 1908 para
afastar líderes políticos hostis como Nilo Peçanha. No contexto das eleições
baianas, José Marcelino de Sousa tinha o apoio do governo federal, de Pinheiro
Machado e de Rui Barbosa, o que motivaria os severinistas a pedirem habeas
corpus preventivos. A se embasar nas conclusões de Koerner20, esses habeas
corpus seriam julgados conforme as vinculações oligárquicas dos ministros.
Uma pequena série de habeas corpus foi impetrada no STF. Os habeas
corpus 2520 e 2519 foram pedidos em defesa dos deputados estaduais
Antonio Alexandre Borges dos Reis e Carlos Gonçalves Fernandes Ribeiro.
Respectivamente a 27 e 26.03.1908, o STF concedeu a ordem para garantia
de liberdade individual e exercício de funções legislativas. Vencidas as pre-
liminares sobre competência do tribunal e dispensa de informações do juiz
e do governador, a votação foi exatamente a mesma: Pindahiba de Mattos
vice-presidente, Epitácio Pessoa com voto vencedor, Guimarães Natal,
André Cavalcanti, Manoel Murtinho, Ribeiro de Almeida, e João Pedro
deferiram, ficando vencidos Pedro Lessa, Cardoso de Castro, Espírito Santo
e Amaro Cavalcanti. No HC 2533 do dia 27, a única diferença foi de que
não venceu a preliminar por dispensa de informações. Ainda assim houve
a mesma votação, devido à urgência do assunto. Esse é um indicativo de
que os ministros estariam a votar coerentemente.
Outro habeas corpus, o 2517, era pedido para o “senador no estado
da Bahia”21, João Moreira de Pinho, que se dizia impedido pelo governa-
dor de comparecer à sessão de 28.03.1908 para apurar a eleição ao cargo
de governador. Pedia HC para sua “liberdade individual de modo que elle
possa exercer livremente as suas funcções constitucionaes”. Sob os mesmos
18 
QUADROS, Andréa Novais Soares de. VIEIRA, Severino. In: ABREU, Alzira Alves de. (Coord.). Dicionário
Histórico-Biográfico da Primeira República. Rio de Janeiro: FGV, 2011b.
19 
Idem.
20 
KOERNER, 1998.
21 
Como cada estado poderia organizar-se politicamente, alguns estados como a Bahia tinham um senado estadual.

158
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

argumentos, o STF considerava que a concessão não acarretaria mal, mas


o contrário sim, e com a mesma votação deu a ordem. E o mesmo aconte-
cia nos HC 2534 e 2535 para o senador estadual Themistocles Passos e o
deputado estadual Augusto de Araujo Santos.
A única diferença era que este último alegava que a assembleia iria se
reunir para reconhecimento de poderes do governador. Sob a mesma causa
e com o mesmo desfecho houve o HC 2536, com os pacientes vigário José
Cupertino de Lacerda, Leopoldino Antonio de Freitas Tantú, Joaquim dos
Reis Magalhães e José Abrahão Cohin, presidente, vice-presidente, 1º e 2º
secretários da Assembleia Geral do estado.
Por fim, os pacientes poderiam ser severinistas, mas todos eram sig-
natários de um telegrama enviado a Rui Barbosa em 31.03.1908, embora
Rui estivesse a apoiar justamente os marcelinistas, segundo Koerner22. Nele,
pediam “intervenção vosso apoio moral defesa constituição honra Bahia”.
Diziam estar sob violências do governador, que os forçava a apurar as
eleições de 127 municípios em 3 horas em recinto com capangas armados.
Mesmo que fosse um recurso de desespero, isso só mostra que as alianças
oligárquicas eram muito frágeis.
Nenhum desses casos baianos trouxe discussões, votos divergentes e
nem mesmo o voto vencedor de Epitácio Pessoa. Todos foram curtos e publi-
cados no mesmo volume. Não se discutia a prova da coação, se era ilegal, se a
questão política afastava a apreciação do Judiciário, se era uma intromissão
na separação de poderes, ou que leitura sobre autores estrangeiros poderia
sustentar a tese. Sem debates acalorados, é cabível a análise de que os minis-
tros votassem conforme suas vinculações oligárquicas. De todo modo, em
meio à estabilidade da Política dos Estados, sequer se cogitou a intervenção
federal e o STF deferiu os HC preventivos, mesmo que não por unanimidade.

O BOMBARDEIO A MANAUS DE 1910 EM “O DIREITO”

Os volumes de 1912 traziam casos referentes à política no Amazonas,


que geraram dois processos: o HC 2950 e o HC 3088, do STF23. O gover-
22 
KOERNER, 1998, p. 196.
23 
O Direito. Rio de Janeiro, v. 119, setembro/dezembro, 1912. p. 582-585.

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nador era Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt, com mandato de 1908 a


1912. Tinha vencido a eleição para senador em 1903, que foi anulada em
prol de José da Costa Azevedo na Comissão dos Cinco, devido à acirrada
oposição de Pinheiro Machado. Em 1904 foi vice-governador do estado e
enfim eleito quatro anos depois com o apoio do presidente Afonso Pena,
mas sempre sob forte oposição de Pinheiro Machado e da liderança local
da família Nery. Apoiou a Campanha Civilista de Rui Barbosa em 1909, e
no ano seguinte viu Manaus ser bombardeada, sendo forçado a se retirar
para Belém. Conseguiu retomar o governo mediante habeas corpus ao STF,
mas não encerrou o mandato, vindo a ser deposto em dezembro de 1912
por um golpe militar.
O HC 3088 dava um panorama. Era impetrado em favor de Fernando
de Castello Simões, Adolpho José Moreira e os coronéis Domingos José de
Andrade, Hildebrando Luiz Antony e Joaquim Cardoso de Farias, deputa-
dos do “Congresso do Estado do Amazonas”. Os pacientes reconheciam ter
cometido um crime político e, por isso, deveriam ser julgados pela Justiça
Federal, conforme o art. 60 da Constituição. Mesmo confessos, reclamavam
por sofrerem constrangimentos ilegais ao serem processados na justiça
estadual e não na Federal.
O crime dos pacientes consistia em ter se reunido a 07.10.1910 no
cruzador Comandante Freitas:
[...] onde forjaram uma acta de pretensa sessão do Congresso,
na qual se diz ter sido declarado vago o cargo de governador,
por incompatibilidade do coronel Antonio Ribeiro Clemente
Bittencourt, e, com este documento falso, obtido a intervenção
armada do inspector da região militar [...] para a deposição
daquelle governador.24

Em 08.10.1910, Manaus era bombardeada por navios, e soldados toma-


vam o palácio, como se uma intervenção federal fosse, embora forjada. Um
ano depois, a 06.09.1911, o STF deferiu por unanimidade a ordem pedida.
Refugiado em Belém, o governador Bittencourt impetrou o HC 2950,
em que afirmava ter sido coagido a se retirar do palácio de governo por
forças federais. O relator Pedro Lessa aproveitava o absurdo da situação

24 
Ibidem, p. 626.

160
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

para salientar o cabimento do habeas corpus mesmo para questões políticas,


desde que houvesse ameaça ilegal a liberdade individual. A 15.10.1910
concedia-se a ordem, com a ênfase de Amaro Cavalcanti de que a decisão
não contradizia votos anteriores. O único voto contrário era de Godofredo
Cunha, que considerava não caber o HC porque a coação era alheia à União,
já estando garantida a liberdade do paciente.
O bombardeio não tinha nenhum dos requisitos formais da inter-
venção federal, mas seu efeito era o de interferir na política doméstica dos
estados fazendo uso inclusive de força militar federal. Em 1913 o jornal O
Imparcial publicava entrevistas com comandantes lotados em Manaus, sobre
o bombardeio. O coronel Pantaleão Telles, comandante do 46º Batalhão
de Caçadores, afirmava já ter saído do Rio de Janeiro com orientações do
presidente Nilo Peçanha para reconciliar Silvério Nery e Antônio Bitten-
court. Com as negativas deste, era ventilada a ideia de destituir o governador
a força. O comandante Costa Mendes, capitão do porto de Manaus, foi
encarregado do comando da flotilha pelo ministro da Marinha almirante
Alexandrino para que servisse à família Nery e desse suporte à deposição25.
Esses depoimentos mostram oficiais compromissados com a interven-
ção federal na política estadual, mesmo que de forma ilegal. A unanimidade
do STF no HC 3088 parece indicar menos um igual compromisso de todos
os ministros e mais a aplicação direta de dispositivo constitucional. Ilus-
trativo mesmo foi o HC 2950, em que os ministros deferiam uma ordem
com efeitos simbólicos que fossem, e mesmo nesse aspecto sob a oposição
apenas de Godofredo Cunha, que parecia não se importar com o uso ilegal
de forças federais para intervir na política de estados. Opunha-se ao voto
do relator, ministro Pedro Lessa, que no acórdão aproveitava para registrar
uma concepção que fazia alargar o cabimento do habeas corpus:
Se o Poder Judiciário deixasse de proteger a liberdade indivi-
dual, sempre que esta fôsse ofendida por uma coação ilegal,
pelo fundamento de se envolver na espécie uma questão de
ordem política, por êsse modo anularia um dos principais
benefícios do habeas-corpus. O que é essencial para a conces-
são do habeas-corpus é que o direito ofendido, ou ameaçado,

O Imparcial. Rio de Janeiro, ano II, n. 52, 24.01.1913, p. 6. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/
25 

DocReader.aspx?bib=107670_01&PagFis=596>. Acesso em: 12 abr. 2016.

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seja a liberdade individual, ou de locomoção, e que a coação


seja ilegal, hipótese exatamente verificada nestes autos.26

“O DIREITO” E A DUALIDADE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA


DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (1911)

A sucessão ao governo do estado do Rio de Janeiro à presidência


Alfredo Backer foi também perpassada por eventos ásperos. O volume 117
de O Direito, de 1912, trazia o Decreto n. 222, de 03.08.1911, que reconhecia
a legitimidade da presidência de Joaquim Mariano Alves Costa na ALERJ.
Também autorizava o Executivo à intervenção federal no Rio de Janeiro sob
a hipótese do n. 2 do art. 6º da Constituição, ou seja, para manter a forma
republicana federativa. Um decreto autoritário, visava a solucionar de vez
a dualidade de assembleias em 1910.
A eleição de Hermes da Fonseca, nas eleições presidenciais de março de
1910, dividia as forças políticas estaduais, que lançaram duas candidaturas.
Cada grupo da assembleia proclamou eleito um presidente do estado, em
julho de 1910. No último dia do ano de 1910, Paulino José Soares de Souza
e Mario da Silveira Vianna impetravam habeas corpus em nome da ALERJ,
ou melhor, em nome do grupo de deputados que reconheceu e proclamou
Manoel Edwiges de Queiroz Vieira como presidente do estado do Rio de
Janeiro. O grupo oposto posicionava-se pelo nome de Francisco Chaves
de Oliveira Botelho no executivo e Joaquim Marianno Alves Costa na
presidência da ALERJ, lado para que pendeu o decreto interventivo citado.
O caso foi de tal magnitude que O Direito publicava a petição inicial do
HC 2984. Os impetrantes diziam que, a 29.12.1909, o presidente do estado
Alfredo Backer recebera ordens do presidente da República para aquartelar
as forças estaduais para que forças federais ocupassem repartições públicas,
inclusive o palácio de governo. Fechado também o edifício da assembleia,
o grupo paciente não podia entrar em sessão para empossar o presidente
Manoel Edwiges. A mesa da assembleia ainda chegou a tentar transferir
a sessão, mas o presidente do estado informava estarem ocupadas todas
as repartições, e a população negava-se mesmo a alugar espaços privados.

26 
RODRIGUES, Lêda Boechat. História do Supremo Tribunal Federal: v. 2 – Defesa do Federalismo (1899-1910).
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 169.

162
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Segundo o presidente da República, a medida era necessária por perigo


à ordem pública frente à presença de “grande quantidade de explosivos e
uma metralhadora dominando a entrada do mesmo palacio; de que lavram
na força militar do Estado radicaes divergencias, prontas a explodirem no
momento da posse do novo presidente”27. No dia seguinte, o STF conce-
dia a ordem de habeas corpus em favor do grupo de Manoel Edwiges. O
presidente Hermínio do Espírito Santo declarava-se suspeito. Deferiam a
ordem o presidente interino Ribeiro de Almeida, o relator ad hoc Amaro
Cavalcanti, Oliveira Ribeiro, Canuto Saraiva, Manoel Espínola, Manoel
Murtinho e Pedro Lessa, que denunciava não se tratar de intervenção, mas
de uma violência indefensável contra a Constituição. Isso porque a hipótese
do n. 2 do art. 6º sobre manutenção da forma republicana federativa era
a única que não podia dispensar a manifestação do Congresso Nacional.
Os “considerandos” de Amaro Cavalcanti abordavam a distinção das
questões essencialmente políticas. Reconhecia serem estas alheias ao exame
judicial, embora houvesse pontos em que competiam concorrentemente com
a função do Judiciário no que tangenciasse direitos e garantias individuais.
Tal posicionamento já fazia reconhecer que o Judiciário (e o STF) poderia
conhecer de algumas questões políticas.
Entre os vencidos estavam Guimarães Natal, André Cavalcanti, Leoni
Ramos, Muniz Barreto e Epitácio Pessoa. Para estes dois, não estava provada
a violência ou coação, e o habeas corpus deveria ser restrito à liberdade
individual, não sendo cabível para provimento de funções legislativas.
Outros casos em que a coação não estava provada teriam sido deferidos
pelo Tribunal graças ao seu próprio cuidado de mostrar que os fatos eram
notórios por meio de jornais e discussões parlamentares. Mesmo que tivesse
sido real, a coação já estaria superada e, por isso, não mais atual.
Por fim, o ministro Epitácio Pessoa ainda debochava dos argumen-
tos de Pedro Lessa, que citava Bryce e João Barbalho para sustentar que
o Congresso deveria ter sido consultado. Pessoa defendia que, mesmo na
defesa da forma republicana e federativa, o presidente da República poderia
realizar a intervenção como solução urgente. Se tivesse havido intervenção
federal, o Judiciário estaria obrigado a reconhecer unicamente os direitos da

27 
O Direito. Rio de Janeiro, v. 119, setembro/dezembro, 1912. p. 460.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

assembleia declarada legítima pelo presidente; sem intervenção nenhuma das


assembleias poderia se dizer constrangida. Fica claro que Pessoa, ex-ministro
da Justiça, da Indústria, Viação e Obras Públicas, ex-procurador-geral da
República, e que viria a ser senador e presidente da República, tinha uma
concepção que concentrava poderes no presidente, em especial perante o
STF e contra Pedro Lessa. E acrescentava:
Para proval-o não preciso citar outros escriptores além dos
mesmos Bryce e João Barbalho, tão contraproducentemente
invocados por aquelles que defendem a competencia exclusiva
do poder legislativo. [...] Pouco importa que da questão se
tivesse já ocupado o Poder Legislativo.28
O deferimento da ordem não fora suficiente. No dia seguinte, a
05.01.1911, o ministro da Justiça e Negócios Interiores enviou ofício ao
presidente do STF dizendo não ter recebido nem comunicação nem cópia do
teor do julgamento e informava que, enquanto o Congresso não deliberasse,
o presidente da República reconhecia e tratava apenas com o governo de
Oliveira Botelho. Na prática isso significava não cumprir o acórdão do STF.
Na sessão de 11.01.1911, o presidente Hermínio do Espírito Santo
informava o recebimento de telegrama de Modesto de Mello, presidente
da assembleia protegida pelo habeas corpus, em que afirmava ainda esta-
rem sendo impedidos de ingressar no edifício pelo chefe de polícia e pelo
comandante militar. O ministro Ribeiro de Almeida informava ter recebido
telegramas do juiz federal no Rio de Janeiro, que pedia instruções para dar
execução à ordem de habeas corpus. Os deputados não conseguiam acesso
à Secretaria Geral do estado sob frágil alegação de que lá então estava a
funcionar o Juízo dos Feitos da Fazenda.
Como resposta, o ministro Muniz Barreto propunha comunicar os exatos
termos do acórdão. Já Epitácio Pessoa propunha “Que o Tribunal declarasse
inexequível, o accórdão em questão, por já ter sido o conflito do Estado do Rio
competentemente resolvido pelo Poder Executivo”29. Essa proposta venceu
com o apoio de Muniz Barreto, Leoni Ramos, Godofredo Cunha, Guimarães
Natal e André Cavalcanti, além do propositor. Contrários ficaram Canuto
Saraiva, Pedro Lessa, Manoel Espínola, Amaro Cavalcanti e Manoel Murtinho.
28 
Ibidem, p. 492-493.
29 
Ibidem, p. 469.

164
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Na sessão seguinte, Amaro Cavalcanti fazia questão de que constasse


em ata que “votei contra a indicação do Sr. ministro Epitacio Pessôa, por
ser ella ilegal na fórma e carecedora de razão no fundo”30, por ser indevida a
anulação de acórdão por simples indicação de um ministro e por considerar
não ter havido intervenção uma vez que inexistia o ato solene. Apontava ainda
que mesmo uma ocasional maioria não poderia proferir aquela indicação.
Como resposta, o ministro Epitácio Pessoa pedia que se fizesse constar
em ata a íntegra da indicação por ele proposta. Entre vários “considerandos”,
fazia a sentença perder eficácia por perda de objeto para mandar arquivar
os telegramas recebidos sobre a inexecução da ordem. Na sessão seguinte,
de 18 de janeiro, Epitácio Pessoa indicava não ter podido o ministro Amaro
Cavalcanti ler suas declarações, e delas tomando conhecimento ainda fez
constar que sua proposta nada tinha de ilegal na forma nem carecedora de
razão no fundo. Sem mais poder fazer, Pedro Lessa apenas fazia questão que
se registrasse na ata estar de acordo com a declaração de Amaro Cavalcanti.
Estava feita uma intervenção tão discricionária e autônoma pelo pre-
sidente que havia o esforço por tentar descaracterizá-la. O habeas corpus
fora definido por sete ministros e negado por cinco, com a incisiva resposta
de Epitácio Pessoa contra Pedro Lessa. À ordem fora negada execução, e
apenas uma semana depois de lavrada era tornada sem efeito por inter-
médio de uma declaração assentada por seis ministros contra cinco. Além
de o governo não ter cumprido o habeas corpus, o próprio Tribunal veio a
anulá-lo, capitaneado por Epitácio Pessoa. E o que mais chama a atenção
é a íntegra dos documentos publicados pelo periódico. Não só a sentença
foi transcrita, como a petição inicial, documentos probatórios e atas das
sessões posteriores ao julgamento.
E continuava a ênfase sobre a situação, embora apenas com o acórdão.
No mesmo volume, era publicado o HC 3061, em que outro presidente da
Alerj, Modesto Alves Pereira de Mello, pedia livre ingresso e locomoção a si e
a deputados. A 29.07.1911 o STF concedia a ordem nos termos do HC 2984
anterior, com os votos do vice-presidente Ribeiro de Almeida, do relator, de
Oliveira Ribeiro, Manoel Espínola, Manoel Murtinho, Amaro Cavalcanti e Pedro

30 
Ibidem, p. 470.

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Lessa: os mesmos do caso anterior. Vencidos estavam também eles, ausente


Epitácio Pessoa, mas acrescido de Godofredo Cunha, que lhe prestou defesa.
O relator Canuto Saraiva explicava no acórdão que a ordem do HC
2984 não teria sido obedecida devido ao Decreto n. 8499 A, de 03/01/1911.
O decreto teria resolvido a questão da dualidade de assembleias, mas só
foi publicado no Diário Oficial a 13/07/1911, portanto mais de seis meses
depois. Ademais, o decreto só resolvera a questão da dualidade de presi-
dentes do estado, não a de assembleias.
A discussão sobre o decreto recaía sobre a intenção do legislador:
“resolver provisoriamente a anormalidade governamental e aguardar que
o Congresso Nacional decidisse o caso de dualidade de Assembléas Legis-
lativas”. Nessa omissão do Legislativo federal deveria intervir o Judiciário:
“Ao Poder Judiciario, porém, não é permitido recusar-se conhecer a face
judicial do caso, sob o fundamento da existencia de um projecto de lei em
andamento no Congresso Nacional”31.
Pedro Lessa redigiu voto de uma página e meia para enfatizar que a
ordem do HC 2984 não fora anulada nem perdera eficácia jurídica, e que
o Executivo não poderia intervir. Retomava o argumento de anulação da
ordem anterior, pois
É elementar em direito judiciario que as sentenças do Poder
Judiciario só se reformam pelo mesmo Poder por meio de
outras sentenças e não por indicações. [...] Um decreto ainda
não publicado nenhuma validade tem, o que é corriqueiro32.

Guimarães Natal levantava novamente que julgar o caso implicava


examinar a legitimidade dos poderes dos pacientes enquanto deputados, o
que não seria possível porque outro grupo se dizia também legitimamente
eleito. Tal exame escaparia à competência do STF. Negava o HC ainda porque
haveria presunções de legitimidade: a) do voto do Congresso Nacional, com
três discussões no Senado e duas na Câmara, reconhecendo a Assembleia;
b) do Decreto n. 8499 A, de 03/01/1911; c) do acatamento do Judiciário

31 
Ibidem, p. 609.
32 
Ibidem, p. 611, grifo no original.

166
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

estadual às leis e atos da assembleia e do presidente; d) “da obediencia do


povo do Estado do Rio de Janeiro á sua autoridade”33.
Era Godofredo Cunha que em voto de seis páginas fazia as vezes de
Epitácio Pessoa. Se o caso, as razões e fundamentos do HC 3061 fossem
semelhantes ao HC 2984, não haveria necessidade de conceder o que já
fora concedido. A concessão faria um segundo habeas corpus, cuja exis-
tência seria negada tanto pelo ministro Ribeiro de Almeida quanto pela
doutrina estrangeira, citando Church, Hurd, Kent e Blackstone. A figura da
intervenção provisória não era um direito constitucional do presidente da
República, mas estaria compreendida nas suas “attribuições discricionarias
de alta policia politica”34. Considerava formalizados todos os requisitos
para a intervenção do Executivo federal: um decreto publicado no Diário
Oficial baseado no n. 2 do art. 6º. A legitimidade definida pelo presidente
da República e submetida ao conhecimento do Legislativo não poderia ser
contestada pelo Judiciário.
Era um argumento perfeitamente político e não jurídico, querendo
afastar uma apreciação que já estava a fazer e envolvendo toda uma com-
preensão de como deveria funcionar a estrutura política. Estaria a defender
a “alta autoridade e prestigio” do STF porque, caso o Congresso viesse a
legitimar a assembleia Alves Costa, o Executivo federal a reconheceria e o
HC do STF cairia em descrédito. Dizia defender o STF ao mesmo tempo em
que o limitava: “O poder excepcional do Governo, em matéria de interven-
ção, como em matéria de estado de sítio, exercido sob o exame immediato
do Poder Legislativo, escapa á intromissão judicial.”35.
Chegava a declarar que “O accórdão é, em resumo, um attentado contra
o principio da divisão, harmonia e independencia dos poderes políticos da
Republica.” E ressuscitava um argumento atribuído por ele a um falecido
ministro, que inspirava os defensores da restrição das funções do Judiciário:
Livre-nos da dictadura judiciaria como de qualquer outra;
a judiciaria não é menos nociva e perigosa que as outras, si
não se apoia na força, reveste enganadoras apparencias de

33 
Ibidem, p. 612.
34 
Ibidem, p. 615.
35 
Ibidem, p. 617.

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autoridade, illusorias exterioridades de direitos, capazes de


exaltar e perverter os sentimentos menos reflectidos.

CONCLUSÕES

Eventos como a Revolta da Chibata ou as revoltas no Acre e Mato


Grosso não foram judicializadas, ou pelo menos não constavam em O Direito.
Também não houve notícia sobre o bombardeio a Salvador, de janeiro de
1912. Constavam apenas os decretos que davam anistias. Exceto estes, os
acontecimentos eram judicializados, e por mais que fossem por fim resol-
vidos pelo presidente com sustentação pelo Congresso, davam solidez cada
vez maior, mesmo que longe de unânime, à competência do Judiciário em
analisar questões políticas. A delimitação da atuação do Judiciário tendia
a ser expandida à medida que a política dos estados demonstrava sinais de
esgotamento, o que implicava soluções autoritárias acompanhadas propor-
cionalmente por mais numerosos recursos ao Judiciário.
A própria judicialização de questões era um reflexo da centralidade
dos casos e de seus implicados. Os personagens de segunda grandeza eram
os que estavam em condições de levantar questões judiciais para tentar, por
meio delas, intervir na política. Estados como São Paulo ou Minas Gerais
mantinham uma coesão interna compatível com o sistema político que
montavam, não sendo necessário recorrer à Justiça Federal; provavelmente
suas questões eram resolvidas dentro de seu aparato político-administrativo.
Rio de Janeiro, Distrito Federal, Bahia e Amazonas, acrescidos do conflito
entre Paraná e Santa Catarina, eram os que, com menor capacidade de
articulação coesa entre presidente e Congresso, provocavam o Judiciário.
Todos os juízes tinham suas vinculações políticas, como Octavio Kelly
junto a Nilo Peçanha, por exemplo. Mas a situação das oligarquias era muito
volátil, o que dificulta mesmo a identificação cabal dessas ligações, numa
época em que alianças eram enraizadas ou fragmentadas via telegrama. Se
havia vinculações oligárquicas, essas devem ser entendidas enquanto concerto
oligárquico, já que as alianças eram instáveis. O próprio caso do Distrito
Federal mostrava que as partes mudavam de lado ainda no mesmo conjunto
dos habeas corpus, passando a arrogarem cargos recém-disputados entre
grupos rivais. Outro exemplo foi o caso baiano, em que o grupo perseguido

168
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

poderia recorrer ao senador que apoiava o grupo perseguidor. Ademais,


não se podem ignorar os elementos processuais objetivos que, mesmo que
não condicionem em definitivo os votos, influenciam pelo menos ao nível
dos argumentos mobilizáveis para fundamentar o posicionamento.
Assim, pode-se complementar a análise de Andrei Koerner sobre os
resultados das votações. Os argumentos elaborados eram o esforço intelec-
tual para dar uma solução jurídica a problemas políticos, o que forçava os
juízes a equacionarem suas convicções em direção a um resultado político
aceitável. O esforço de justificar o porquê de uma decisão articulava-se
intrinsecamente à concepção de como deveria funcionar o concerto oli-
gárquico, e isso leva a compreender os posicionamentos dos ministros mais
conforme a fundamentação de seus votos, e menos pelo resultado de um
placar. Mesmo que se defenda a instrumentalidade do direito perante os
casos políticos, havia um esforço para que os juízes pudessem fundamentar
com um mínimo de coerência esses dois aspectos, tanto o político quanto
o jurídico. E, aliás, eram tanto políticos quanto jurídicos até mesmo a vei-
culação de época dos resultados dos julgamentos por meio de periódicos.
Exemplo maior foi o voto do ministro Pedro Lessa na Ação Originária nº 7,
voto publicado em aparte ao conjunto do caso, na seção “doutrina”. Exemplos
outros estão nos ministros Epitácio Pessoa e Godofredo Cunha, com uma
concepção fortemente centrada na autonomia do presidente da República.
Se o caso do Rio de Janeiro ficou mais extenso é porque nele O Direito
mais se debruçou, e de forma mais imediata. Os periódicos jurídicos davam
a publicização a ideias, tendências e posicionamentos, fazendo registrar e
circular essas concepções. Já os casos da Bahia refletem a estabilidade da
Política dos Governadores, permitindo que o STF julgasse os casos repe-
tidamente. No que tange à fonte histórica, O Direito apenas fez registro do
caso, sem trazer discussões e fundamentações divergentes – se é que ocor-
reram. Por fim, os casos de Manaus podem mostrar apenas o julgamento
simbólico do HC 2950, mas que esclarecem o posicionamento extrema-
mente conservador do ministro Godofredo Cunha, que negava a ordem
justamente por o efeito não ser concreto. A elegante observação de Amaro
Cavalcanti, alertando para o perigo da formação de precedentes, não foi
suficiente para Godofredo Cunha. De todo modo, Pedro Lessa fazia regis-
trar critérios ampliativos para o cabimento de habeas corpus. Podem ser

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

apenas minúcias, mas no jogo da produção do direito, até mesmo a notícia


de sua produção adquire relevância.

REFERÊNCIAS

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Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade
de Filosofia e Ciências Humanas, UFMG, Belo Horizonte, 2013.

172
Capítulo 6

A PRIMEIRA EDIÇÃO DE RAÍZES DO BRASIL


NO CONTEXTO DE 30: UMA APROPRIAÇÃO
TEÓRICA DO IBERISMO DE GILBERTO FREYRE
PARA AS RESPOSTAS AUTORITÁRIAS DE SERGIO
BUARQUE DE HOLANDA

Weslley Luiz de Azevedo Dias

INTRODUÇÃO

O País passa atualmente por um processo de intensa mudança e


turbulência política. A crise econômica e o crescimento da visibilidade do
judiciário1 são alguns dos elementos que dificultam a tarefa de prever os
futuros rumos da nação em algo bastante difícil2. No entanto um cenário
de imprevisibilidade ainda maior avizinhava-se nos anos 30. Esse período,
imediatamente posterior às respostas contrárias ao exclusivismo do café
com leite e aos desmandos do governo de Washington Luiz, acabaria ficando
marcado por uma grande incerteza em relação ao futuro político da nação.
Esse espírito da época esteve marcado tanto na disputa política propria-
mente dita, com diversas frentes ideológicas em disputa, assim como no
debate intelectual da época.
O clima de incerteza quanto ao futuro político e social do País era
acompanhado pela revisão minuciosa de nossos antecedentes históricos e
culturais e, nesse sentido, eram proposições de perfectibilidade que tinham

1 
Crítica recentemente abordada pelos trabalhos de José Maurício Domingues sobre os destinos da esquerda
brasileira após os protestos de 2013. Nele o autor considera o fechamento do ciclo democratizante como uma
importante influência na crise da ala progressista da política nacional.
2 
Cf. DOMINGUES, José Maurício. A esquerda no nevoeiro: Trajetórias, desafios e possibilidades. Novos
Estudos. São Paulo: Cebrap, 2016.

173
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como base a crítica às características de uma ordem passada. No centro


dessa tentativa de negação de um país anterior, estava a formação familiar
de uma sociedade patriarcal e superficialmente harmônica. Essa seria a
abordagem de um dos mais conhecidos autores do pensamento político
brasileiro, Sergio Buarque de Holanda. Ele publica seu principal livro no
contexto dessa década e adiciona um direcionamento político à sua crítica
da herança colonial.
A presente análise utilizará a obra de Luiz Feldman3 como base para
exploração da primeira edição de Raízes do Brasil (1936). Nesse trabalho, o
autor analisou as diferenças entre as edições desse livro e constatou certas
rearticulações argumentativas assim como a eliminação de alguns dos temas
tratados em sua publicação original. O ponto de partida nesse momento
será uma das mudanças percebidas pelo autor, pois em grande medida essa
versão guarda uma forte influência de Gilberto Freyre. Na verdade, seu texto
apresentou um argumento que lidava com a mesma transição abordada nas
duas principais obras do autor pernambucano no período, Casa Grande e
Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936).
Ambos intelectuais estavam inseridos nos debates que preenchiam
a discussão política durante a década de 1930, no entanto apenas Sergio
Buarque de Holanda interessou-se em revestir sua rememoração da herança
cultural com os ingredientes de uma proposição política. Essa solução viria
na forma de um restabelecimento da autoridade e imposição da ordem,
pois o histórico social brasileiro tendia à manutenção de um certo caos. O
trabalho de J. G. A. Pocock será utilizado como baliza para um constante
para compreender o diálogo entre os textos. Isso permitiria um esforço
contextualista na abordagem da relação entre as duas obras, pois como
exemplares de um espírito específico, bastante amplo na discussão do
pensamento político da época, permite que o leitor fuja de uma herme-
nêutica mais redundante. Como textos de seu tempo, eles representaram
as apropriações que seus autores tiveram dos fatos práticos do presente
e passado. Esse tipo de abordagem histórica do pensamento político nos
ajudará a compreender melhor como os livros relacionam-se tanto com a
realidade contemporânea, quanto entre si4.
3 
FELDMAN, Luiz. Clássico por amadurecimento: Estudos sobre Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 2016.
4 
POCOCK, John Greville Agard. Linguagens do ideário político. São Paulo: Edusp, 2003.

174
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Para entender essa possível aproximação entre as obras, uma primeira


seção destinada à compreensão da família formada no âmago da estrutura do
engenho de cana-de-açúcar será seguida da compreensão dessa raiz familiar,
agrária e ibérica em Sergio Buarque de Holanda, assim como a necessidade
de superação dessa ordem por vias autoritárias. Desse modo, a contrarie-
dade entre o domínio particular da família e a demanda por centralização
política será apresenta como o catalisador das necessidades políticas do País.
Por último, uma exploração do autoritarismo suavizado e adaptado para a
docilidade nacional será explorado a partir de sua incompatibilidade com
a exaltação da memória colonial tratada em Gilberto Freyre.

FAMÍLIA BRASILEIRA: A GÊNESE DO SOCIAL EM GILBERTO


FREYRE

Uma forte preocupação com algumas supostas deficiências na socie-


dade brasileira pode ser percebida mediante a leitura da primeira edição
de Raízes do Brasil. Dessa forma, Sergio Buarque de Holanda posicionou a
estrutura interna da família brasileira como um dos aspectos prejudiciais
para o desenvolvimento nacional da ordem. A separação entre privado e
coletivo, ou seja, família e interesse geral, acabou sendo gerada a partir das
preocupações políticas do intelectual paulista. Por se alinhar a diferentes
argumentos presentes nas discussões da década de 1930, sua obra acaba
lidando com algo que passaria a ser incompatível com a abordagem de
Gilberto Freyre do tema familiar.
Para compreender a posição da família na formação da sociedade
brasileira nas duas obras do autor na década de 1930, devemos recorrer ao
trabalho elaborado por um de seus autores contemporâneos. Martins de
Almeida, em texto publicado originalmente no ano de 1932, introduziu a
ideia de dois cursos na nacionalidade brasileira. Ambos desenvolvendo-se
paralelamente e permanecendo dissociados ao longo de suas histórias. Um
lidava com as características legítimas e autênticas, ao qual ele se referia
como “de fundo”. O outro viveria a dimensão da forma, gerando um movi-
mento de “superfície” 5.
5 
ALMEIDA, Martins de. Brasil Errado: Ensaio político sobre os erros do Brasil como país. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1932.

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A distinção entre o genuíno e o superficial6 esteve presente como uma


espécie de espírito compartilhado entre os autores envolvidos na crítica ao
formalismo dos bacharéis, na qual tanto Martins de Almeida, quanto Gil-
berto Freyre e Sergio Buarque de Holanda estiveram envolvidos cada um
à sua maneira7. Apesar de não estar presente nas três obras centrais para a
presente exploração, esses textos demonstraram uma grande preocupação
quanto à divisão entre esses dois fenômenos da sociedade brasileira. Desse
modo, Brasil Errado (1932), com sua tipificação, pode auxiliar-nos no enten-
dimento sobre o que está por trás da crítica à influência da família brasileira.
O que seria de Casa Grande e Senzala se não um tratado robusto e
detalhado sobre a dinâmica de encontro entre dois institutos “de fundo”
presentes no mundo da produção da cana-de-açúcar no Nordeste? A casa
grande e a senzala vinculada a ela foram protagonistas em um processo
intenso de interpenetração, acomodação, aproximação, adaptação e assi-
milação que culminariam na formação de uma dinâmica interna da família
que não só suprimiu o Estado, como também a própria igreja e qualquer
tipo de formalismo que não aquele típico do domínio familiar e patriarcal.8
É evidente que, como lócus social primário no Brasil, a casa grande e a
senzala representaram arquétipos de grupos inseridos na formação nacional a
partir dos engenhos de cana-de-açúcar. Nesse caso, essas estruturas acabaram
transformando-se em retrato do contato entre os três grupos tidos como as
bases da cultura do País. Uma foi a fortaleza de onde emanou o domínio do
branco europeu; o outro, a materialização do cativeiro perpétuo do escravo
africano9. Ambos são os arquétipos desses dois contingentes coloniais e
seu afastamento e aproximação também representavam o afastamento e a
aproximação entre os grupos envolvidos na formação do Brasil10.
Todo esse processo foi observado pelo autor pernambucano mediante
uma abordagem da vida familiar. O vínculo entre a família brasileira e o

6 
Aspectos sociais, em seus sentidos mais internos e profundos, assim como a capa ou revestimento político e
institucional que pode ser dada à nação.
7 
Pensando, sobretudo, no contexto do debate da década de 30. Posteriormente, tais autores acabariam tomando
rumos que não apresentavam, necessariamente, uma compatibilidade com essa fase.
8 
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
9 
Usando a noção Spengleriana de moradia.
10 
Como tratado na discussão em Sobrados e Mucambos.

176
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

processo de produção tornou-se um dos principais elementos formadores


das atividades econômicas e das relações sociais de nossa sociedade. Em
suas primeiras fases de formação, o Brasil se viu submetido à influência
preponderante desses pequenos cosmos de formação social e suas relações
pautadas nas conexões afetivas. Nesse sentido, a organização nacional tem
a casa como um de seus principais pontos de apoio.
A importância da casa, para a análise de Gilberto Freyre11, foi retirada
da concepção do valor histórico-social da habitação, abordado anteriormente
por Oswald Spengler12. Além da estrutura dessas casas, os componentes
envolvidos nesse mundo doméstico representaram a concatenação de
todo um sistema econômico, social e político. Esses sistemas penetraram
a noção de lar e junto aos elementos oriundos da produção monocultora
latifundiária, do trabalho escravo, do culto doméstico e da vida sexual
dominada pelo patriarca determinaram as características mais profundas
da vida social brasileira.
O engenho, em sua junção sincronizada entre casa grande e senzala,
foi o provedor de um primeiro esboço de Brasil, um país mais autêntico
e relacionado com as suas noções familiares. Além disso, a hipertrofia da
casa e da família atingiu tanta influência que interferiu no próprio perfil
miscigenado da população do País. Sendo evidente que todo intercurso
sexual aconteceu sob a tutela das estruturas típicas do modo de produção
açucareiro e, sob elas, os elementos que posteriormente seriam condenados
em raízes do Brasil foram construídos.
Quando falamos em miscigenação na obra de Freyre, acabamos
por fazer referência, justamente, ao elemento corretor da distância social
existente entre a casa grande e a senzala. A formação da população, dessa
forma, caminhou pari passu a um processo de amaciamento das fronteiras
“culturais” ou “raciais”. Esse amaciamento fora engendrado por meio da
vida sexual da família brasileira, vista como encontro harmônico entre
partes que, mesmo compondo um sistema escravocrata, deram origem a
um mestiço valorado positivamente.
11 
Freyre retira essa concepção da obra The decline of the West de Oswald Spengler. No entanto o autor indica que
a ideia de valor da casa fora tratada anteriormente pelo economista e historiador alemão Gustav Von Schmoller.
Nesse referencial, a preponderância da casa era tão grande que sobrepunha em determinados momentos o de raça.
12 
SPENGLER, Oswald. The Decline of the West. New York: Alfred A. Knopf, 1983.

177
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A natureza profunda dessa constituição agrária, escravocrata e híbrida


do País esteve no centro da criação de seu debate sobre a família e, dessa
forma, marchou rumo a um encontro com a obra de Sergio Buarque de
Holanda, que compreendeu a cordialidade como elemento típico e íntimo
de uma ordem familiar ou ao menos de familiaridade. Desse modo, per-
cebe-se a existência de uma linha de divisão muito clara entre o País que se
constituiu espontaneamente como uma singularidade heterogênea mantida
harmonicamente, “fundo”, e o conjunto de instituições nominais que ganha-
ram um peso central na primeira edição de Raízes do Brasil.
Sendo assim, Casa Grande e Senzala apresenta o caráter plástico e
pouco vinculado a uma concepção rígida de consciência racial. Tais ele-
mentos relacionam-se com o iberismo presente nas obras de Freyre entre
as décadas de 1930 e 1940, em que seu europeísmo específico permitiu a
junção entre grupos culturalmente variados. De certo modo, Interpretação
do Brasil, publicado em 1947, acabou sendo uma síntese das ideias desen-
volvidas em Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos13. No entanto a
conclusão desse caminho não atendeu aos mesmos destinos planejados por
Sergio Buarque de Holanda.
A volatilidade sexual, assim como a flexibilidade cultural do colo-
nizador português ibérico, abriu as portas para algo que seria uma das
principais condicionantes para geração das idiossincrasias da colonização
do País. Somadas às cargas e repertórios culturais do índio e do negro, além
da precaução moral jesuítica, a sociedade colonial brasileira formou-se em
meio a um cenário de contatos tendendo à harmonização. Nesse sentido,
a figura do moçárabe tornou-se o primeiro esboço do que a capacidade
hibridista ímpar do ibérico poderia gerar em termos de miscigenação.
Como o maior contribuinte cultural para a maioria das esferas de formação
do perfil familiar brasileiro, o português trouxe sua maleabilidade14, assim
como em parte certa falta de solidez.15
A falta de pudor do nosso colonizador quanto ao contato sexual
com a negra e a índia e a sua adaptabilidade ao clima tropical somaram-

13 
BASTOS, Elide Rugai. Iberismo na obra de Gilberto Freyre. Revista da USP 48-57. São Paulo, agosto, 1998.
14 
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
15 
HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.

178
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

se, criando o cenário mais favorável possível ao desabrochar da família


brasileira. É interessante perceber que, na obra de Raízes do Brasil, as
mesmas características seriam destacadas, mas não na forma de exaltação,
e sim de uma maldição.
Nesse momento, uma breve digressão sobre os papéis de gênero den-
tro do mundo familiar faz-se necessária. Além de suas preocupações com
os grupos progenitores da cultura brasileira, Freyre acaba abordando uma
distensão entre o masculino e o feminino no mundo patriarcal. Esse binô-
mio representou a própria constituição da família a partir de uma formação
hierarquizada também a partir de gênero. O grande pai nesse processo de
formação não pode ser lido por meio da concorrência simultânea entre
os três grupos, mas sim sob a constatação de que o homem português foi
o grande disseminador no processo de delineamento do povo brasileiro.
Os papéis do homem indígena e do homem africano foram simultâneos,
entretanto deixados de lado pela contemplação do engenho de açúcar.
Às mulheres, o principal impacto do jugo do pai, português branco
colonizador, é determinante. Primeiramente, as mulheres negras e índias são
indiscriminadamente usadas como mecanismo de alavanque populacional.
Sobretudo as índias, num primeiro momento. Todo o moto da hibridização
do povo parece ser derivativo da escassez ampla de mulheres brancas. Essas
mulheres brancas chegam apenas em peso quando os ciclos econômicos de
impulsão são iniciados e quando as populações já se encontram amolecidos
pelos primeiros processos de miscigenação na colônia.
Para além dos papéis de gênero, o protagonismo do homem português
sobre os demais grupos foi sentido, mormente, no âmbito da formação da
moral institucional da nação. As implicações dessa influência fazem-se sen-
tir por meio de um processo de reprodução que é estritamente conectado
ao longo do texto, ao menos no plano discursivo, às trocas culturais. É na
realização da vida sexual que as culturas são transmitidas como sangue
correndo pelas veias.
Junto à essa relevância central do componente português, a influência
da moral católica, já tornada menos dura e conflituosa pelo contato anterior
com o árabe, traz um tipo de justificação religiosa que se opõe em muito ao
puritanismo protestante de alguns dos povos europeus não ibéricos. Para

179
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além disso, nosso padrão religioso tornou-se, bem cedo, um instrumento


auxiliar da estrutura de domínio da casa grande na história de formação
da sociedade brasileira e, dessa forma, transformou a própria religião em
uma extensão dos traços da família. Assim, a família brasileira do latifúndio
açucareiro submeteu inclusive o divino ao seu arcabouço de elementos, o
celeste passou a ser parte do doméstico e afetivo.
Todos esses processos indicam a existência de uma realidade de riva-
lidades extremas e tensões irreconciliáveis. No entanto todos esses confli-
tos acabam sendo acompanhados de antinomias sociais que culminam na
formação de um equilíbrio tipicamente brasileiro. Ao domínio do homem
português, contrapõe-se a penetração da cultura africana e indígena no viver
da sociedade brasileira. As brutalidades do escravismo confrontaram-se
com a amabilidade dos afetos familiares e a proximidade no convívio. À
evidente separação entre casa grande e senzala, contrapôs-se um mundo
borrado de relações, fenótipos e hierarquias. O Brasil constitui-se como um
domínio de “equilíbrio de antagonismos”16, tendo na relação entre senhor
e escravo o seu tipo mais profundo de apaziguamento.
Para além desse equilíbrio, quando se refere tanto à influência do negro,
quanto à do índio, Gilberto Freyre acaba classificando hierarquicamente
esses dois grupos. Essa classificação acontece em relação à sua influência e ao
seu potencial construtivo dentro do ambiente familiar. Desse modo, o índio
está sempre conectado à absorção de medidas de higiene mais regulares,
conhecimento profundo sobre as características tropicais, domesticação
sofisticada de animais companheiros, toda mítica e magia plantada mais
subjetivamente na imaginação das crianças, dentre outros tantos elementos.
O negro era a força por trás do esforço difundido da lavoura e apenas
sua força física é lida pelo autor como algo capaz de dobrar os impeditivos
tropicais ao desenvolvimento de uma produção monocultora. Agindo como
o grande elemento conector dessa família, o negro escravizado introduziu
16 
Gilberto Freyre resolveu essa questão introduzindo a ideia de “equilíbrio de antagonismos” e “amorteci-
mento de choques”. Por intermédio de sua visão intrincada desses processos, ele acaba atribuindo qualidades
integrativas aos elementos constitutivos do encontro cultural brasileiro. Desse modo, existiria solução para
o cenário de antagonismos do mundo do açúcar, mesmo que esse tenha gerado antagonismos tão profundos
quanto os existentes entre senhores e escravos. Por meio de características como a miscigenação, dispersão da
herança, cristianismo lírico do português, tolerância moral, entre outras, o Brasil teria a habilidade de converter
os malefícios do cultivo sufocante de cana-de-açúcar.

180
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

a técnica e o preparo laboral que ao índio faltava. E também compensou


todo o primitivismo nômade e o despreparo social atribuído aos nativos
locais em Casa grande e senzala. Ao mesmo tempo que eleva o processo de
formação do núcleo familiar, o negro atua como amortecedor do choque
abissal entre o europeu e o índio. Desse modo, acaba sendo percebido como
componente civilizador17.
Fica evidente na obra que os três grupos atuaram na formação do
Brasil tal qual conhecemos, no entanto a hierarquia, no que tange à ascen-
dência da família, acaba impondo-se a essa triangulação mais grossa. Isso
se deve à centralidade do português, que agiu como a espinha dorsal desse
processo. As influências de negros e índios são adjacentes e, mesmo entre
si, não apresentam status iguais. Haja vista que o negro adentrou na estru-
tura, mentalidade e costumes do povo brasileiro de um modo muito mais
intenso e generalizado do que os povos autóctones18.
O colonizador português de Casa Grande e Senzala forneceu o substrato
no qual todos os hábitos considerados típicos da família e das relações do
povo brasileiro tiveram seu início. Seu caráter plástico, sua permissividade
sexual, sua dominação flexível, seu hibridismo histórico e seu desejo de
exploração seriam características mobilizadas com frequência na obra de
Sergio Buarque de Holanda19. De certo modo, o intelectual paulista uti-
lizou-se de parte desse caráter iberista para construir certos preceitos de
sua ideia de cordialidade do povo brasileiro.

CORDIALIDADE E O PROBLEMA DA SUPERFICIALIDADE


POLÍTICA: O QUE FAZER FRENTE À TRANSIÇÃO SOCIAL
BRASILEIRA

Sergio Buarque de Holanda publicou sua primeira edição de Raízes do


Brasil em 1936, dentro de uma coleção intitulada Documentos Brasileiros,
cuja organização estava a cargo do próprio Gilberto Freyre. A influência do
17 
BASTOS, 1998, p. 51.
18 
Em Casa Grande e Senzala, o índio passou a ser um elemento presente na memória, mas ausente na construção
ativa de cultura brasileira. O açúcar mata o ameríndio e, dessa forma, elimina-o dos processos de troca.
19 
Devido a uma miríade de outros motivos, essas características de valorização da formação única brasileira
acabam sendo fortificadas na literatura brasileira após a obra de Gilberto Freyre.

181
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

intelectual pernambucano é de tal ordem que a própria existência da obra


parece estar vinculada à sua chancela; pois, além de presidir a organização
da coleção, o autor acabaria por assinar o prefácio, endossando a análise
produzida pelo intelectual paulista. Ao manifestar seu interesse e estima
por esse trabalho, Freyre indica mais do que tudo o estabelecimento de um
diálogo entre os dois trabalhos.
A coleção tinha o objetivo de publicar um material variado com
diversos nomes do pensamento político e social brasileiro interessados na
compreensão do que havia de mais típico em nosso passado, assim como as
implicações para os dilemas vivenciados na década de 1930. Nesse sentido,
o livro se inicia com uma ampla retrospectiva sobre as raízes europeias e a
recepção dessa descarga cultural no meio de origem da sociedade nacional.
A exaltação do sucesso da transplantação brasileiro também parece
um tópos comum entre as duas obras, devido ao enfoque voltado à especi-
ficidade de nosso colonizador. O caráter híbrido dos ibéricos, no sentido
cultural, os transformaria automaticamente em uma ponte entre a Europa e
os outros continentes. Como os russos e os bálticos, eles foram constituídos
na mais plena indecisão entre a matriz europeia e a africana. Desse modo,
os Pirineus representaram muito mais do que uma simples barreira física;
eles acabaram estabelecendo um demarcador cultural evidente entre uma
exaltação da personalidade no português e no espanhol e o resto da Europa.
Como mencionado anteriormente, uma diferença crucial é a preo-
cupação de Raízes do Brasil em fornecer um horizonte normativo para os
rumos da política nacional. Desse modo, as expectativas estariam muito mais
presentes na negação do passado do que em um resgate do tradicionalismo,
tão característico do trabalho de Gilberto Freyre. Acontece que a frouxidão
e a falta de hierarquias rígidas engendradas pela influência do colonizador
haviam se tornado um elemento propulsor na desordem. Além disso, é,
precisamente, a natureza relaxada desse colonizador que impulsionaria o
nosso sentido histórico de coletividade. Desse modo, a valoração do portu-
guês na obra de Sergio Buarque de Holanda abriu espaço para uma crítica
contundente às suas características mais elementares.
Apesar de partir dos mesmos atores constituintes da família, do povo
ou da nação, sua distinção das influências foi muito mais tributária do ele-

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

mento ibérico. Passava-se de uma interpenetração mútua de culturas, no


texto de Freyre, para um contato condescendente do europeu e, assim, a
cultura brasileira acabava sendo herdeira de sua flexibilidade, a despeito do
negro e do índio. Isso teria acabado originando uma alma comum lusitana,
significativamente, mais importante que as demais identidades envolvidas
em nosso processo formador20.
Esse colonizador, no entanto, apresentaria suas próprias ambiguidades.
A dicotomia entre o “aventureiro” e o “trabalhador”, que acompanha todas
as sociedades humanas avançadas, atinge o português no momento em que
a ética da aventura e a ética do trabalho envolviam-se em um movimento
sincronizado de negação. Cada uma dessas lógicas morais encontrava sua
ideia de imoral na outra. Em Portugal, o espírito da ousadia teria prevalecido
sobre o do labor21. No entanto, para Holanda como tipos ideais, esses atri-
butos são aplicados apenas na dimensão analítica e não representam formas
predominantes, mas sim características salientes de determinado objeto22.
Voltando ao tema da matriz cultural da nação, o português transfor-
mou-se numa figura de tão exagerado despojamento racial e plasticidade
que, caso comparado com o perfil do próprio espanhol, permitiria uma
distinção quanto à rigidez no intercâmbio cultural dentro do próprio
universo ibérico. De tal forma, esse caráter hiperplástico, particularíssimo
ao lusitano, demonstraria sua falta de orgulho racial e antipatia em rela-
ção a outros grupos. Com isso, o sangue lusitano seria considerado como
provedor de parte da harmonização, tal qual na obra de Gilberto Freyre.
Seria uma espécie de mestiço em pleno contexto europeu, um destruidor
de barreiras de cor, um integrador para além de qualquer padrão europeu
médio e, por isso, introdutor da amabilidade mais agregadora possível.
A construção sob a tensão e os antagonismos do engenho é, novamente,
penetrada pela afabilidade.
Isso demonstra a transigência tanto do colonizador, quanto da própria
estrutura do engenho, o que, dessa forma, deslocou tais elementos para o
centro do processo de formação do nosso “amorfismo”, “caos” e “desordem”,
20 
HOLANDA, 1936, p. 15.
21 
Esse tipo de construção conceitual aponta a influência da sociologia de Max Weber em seu texto, como
anteriormente chamado atenção pelo trabalho de Luiz Feldman.
22 
Ibidem, p. 21.

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tão característicos da nação no texto de Raízes do Brasil. Do mesmo modo, sua


condescendência cultural transformou a recém-formada sociedade em um
arremedo de ordenamento e uma comunidade invertebrada. O português,
além de sua predisposição frouxa, não resistiu e cedeu às condições impostas
pelo ambiente que tentava povoar. Dessa forma, para Sergio Buarque de
Holanda, o dominador já chegara mole e aqui acabaria por se dobrar ainda
mais. O que implica o fato de que, em vez de lutar, o descobridor do Brasil
adaptou-se as suas novas condições. No entanto é nessa sua inclinação
híbrida que o português encontra o êxito não atingido pelos holandeses e
demais europeus do norte na colonização dos trópicos23.
Por ser uma colônia sustentada por uma base organizativa agrária, o
Brasil adquiriu outro fator de descolamento da sociedade. A independên-
cia do campo em relação à cidade foi responsável pelo prevalecimento da
doutrina da família e da afabilidade sobre o da rotina urbana impessoal.
Além disso, para o autor, a América, diferentemente da Europa, não haveria
apresentado formas intermediárias entre o regime rural e o das cidades.
Na verdade, a coexistência entre centros urbanos e o domínio da lavoura
acabou por gerar uma estreita relação de interdependência entre as duas.
A estranha combinação entre a elite do campo e a cidade, acabou
por atuar no primeiro deslocamento da estrutura latifundiária feita por
Sergio Buarque de Holanda. Se, para Gilberto Freyre, a conexão entre a
casa grande e a senzala hospedou o desenvolvimento do germe que daria
contorno ao povo brasileiro por meio da formação da família; em Raízes
do Brasil, essa casa grande perde sua conexão íntima com a produção em
um dado momento. A classe dominante rural passa a manter moradias ou
viver em tempo integral em seus palacetes urbanos. Essa conexão pode
marcar um término de uma relação mais direta entre senhor e escravo, ou
entre senhor e lavrador. Contudo parece que todas as funções aprendidas
dentro da família rural foram trazidas para cidade junto com a presença
do mando latifundiário dos grandes proprietários de terra.
Sobrados e Mucambos, obra publicada no mesmo ano em que a pri-
meira edição de Raízes do Brasil, foi fundamental para o entendimento
do pensamento político brasileiro sobre essa transição entre o rural e o

23 
Ibidem, p. 38.

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PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

urbano na obra do autor pernambucano. Dessa forma, deparamo-nos pela


primeira vez com a questão que alimenta a presente exploração do tema.
O texto de Sergio Buarque de Holanda apresentava justamente a passagem
do caminho traçado em Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos, mas
concluindo com soluções autoritárias, sobretudo dotada de certo fascínio
em relação ao fascismo cada vez mais popular na Europa. Nesse processo
em que a nação do senhorio passa às mãos dos bacharéis, a resposta passa
a ser uma reordenação por via do autoritarismo.
Uma dificuldade presente na análise dessa relação pode ter sido cau-
sada pela interpretação que o intelectual paulista fez sobre essa transição. Para
ele, a influência do português poderia ser lida como a grande motivadora do
predomínio esmagador do ruralismo, mesmo diante das diversas transições
entre os ciclos de produção agrária. Assim, a transição entre o açúcar e o
café não atingiu amplamente o ruralismo. Ela representaria apenas uma
locomoção da liderança do senhor para do fazendeiro do vale do Paraíba.
Todavia a cidade permanecia submetida a uma relação de dependência em
relação ao campo. O colonizador teria sido o pecado original no longo
caminho de desordenamento. Ele condicionou sua colônia a um tipo de
existência caótica como povo.
Esse caráter da metrópole contrapôs-se, inclusive, ao poder exercido
pelo estado espanhol, que submetia os seus domínios a um ordenamento
firme e coeso. Esse tipo de diferença na organização pode ser visto por
meio da diferença estrutural entre a cidade espanhola e a portuguesa. Para
o autor, o espanhol não se curvou à topografia, não permitiu o sinuoso, não
abriu margem para fuga do método e teve uma legislação com limites à ação
urbanizadora. Enquanto isso o lusitano concebe uma urbe que confunde
sua silhueta com a própria linha da paisagem24.
A distinção entre os dois irmãos ibéricos transcenderia o modo de
construir cidades. Desse modo, ela envolvia a timidez do nosso colonizador,
contrária ao “prodígio verdadeiramente monstruoso de vontade e inteli-
gência” do espanhol25. O primeiro queria explorar o potencial mercantil,
enquanto o segundo acreditava na implementação de uma colonização que

24 
Ibidem, p. 62.
25 
HOLANDA, 1936, p. 66.

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transformasse o território dominado em um prolongamento de sua própria


terra natal. O afinco em relação à exploração do interior, que o espanhol tanto
demonstrava, seria contrária à prostração litorânea do português, devido
a seu medo em se afastar do mar. Essa desvalorização do intuito imperial
de Portugal acabaria sendo o motivo para exaltação do papel da figura do
bandeirante26, isso denuncia a filiação estadual do autor de Raízes do Brasil.
Além da atividade paulista, um segundo elemento que pode ter atuado
no sentido de uma maior interiorização. O descobrimento de ouro na
província de Minas Gerais culminaria em um franco processo de entrada
no território por parte da população, seja por via da migração interna,
seja por imigração. Com isso, uma nova agenda é colocada à frente do
Português, que acaba necessitando de uma intensificação nas medidas de
controle colonial. O dominador lusitano teve de abandonar, parcialmente, a
comodidade litorânea e sua predileção pelo vínculo marítimo. Porém, nesse
momento, havia sido a lei da oportunidade, e não a do estado, que acabara
levando a um avanço mais significativo na política colonial. Esse sentido
pode ser entendido como um dos vários sinais de apologia à centralização
e fortalecimento da autoridade. O encanto com o fascismo atingiria em
cheio o texto de Sergio Buarque de Holanda.
A colônia convivia com o desinteresse, moleza e permissividade do
português antes mesmo de ser nação. Como exemplo de pai para filho, a
transmissão do caos típico do nosso colonizador viabilizou um sistema no
qual nem a própria Igreja conseguiu inserir um pouco de arrumação.27 Sob
o olhar de Gilberto Freyre, suplantados pelo domínio da casa grande, os
clérigos viram sua influência ser sensivelmente transformada em instru-
mento auxiliar de um poder mais secular. Esse predomínio da estrutura da
casa, inclusive sobre o clero, era um dos diversos elementos envolvidos na
autonomia irrestrita do latifúndio e no triunfo da cultura rural e familiar
sobre a austeridade urbana28.
O despotismo patriarcal e a autoridade soberana do senhor seriam
irrefutáveis nessa organização da vida rural. Dessa forma, a família tornou-se

26 
O que também ficaria ainda mais evidente coma a publicação de escritos posteriores.
27 
Elemento presente em grande medida em argumentos de Casa Grande e Senzala.
28 
Ibidem, p. 85.

186
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

o universo no qual essa influência está garantida e, em seu “recatado isola-


mento”, acabou ignorando qualquer tentativa de supressão ou interferência
de qualquer princípio superior. Contudo esse caráter insular parece apenas
fazer parte de uma resistência às interferências externas ao universo da
família. O domínio do pai, sendo reproduzido mediante a influência da
família sobre nossa sociedade faz-se sentir nas mais variadas esferas insti-
tucionais e culturais, incluso o mundo das leis. A família transferiu parte do
seu dinamismo interno para sociedade brasileira e participou ativamente
na sua construção (HOLANDA, 1936, p. 88-89).
Existe uma oposição profunda entre o estado e a família no texto de
Sergio Buarque de Holanda. Em sua visão, uma rivalidade entre as duas
instituições tornou-se inevitável quando o “particular” e o “geral” choca-
ram-se. Utilizando-se dos moldes do conflito entre “Creonte” e “Antígona”,
o autor abordaria a contraposição entre os laços de afeto ou sangue e os
princípios abstratos e inumanos do Estado. A incompatibilidade dos dois
universos era traduzida na inexistência de qualquer grau de intermédio
entre seus valores. Sendo assim, onde a família patriarcal apresentava a
maior pujança, maior era o grau de resistência à formação e “evolução” da
sociedade segundo conceitos “modernos” (HOLANDA, 1936).
Dentro desse quadro de conflito inexorável entre duas lógicas, o
autor abordaria o País por meio da ideia de polidez cordial. Esse seria seu
principal potencial de contribuição para humanidade. A partir dessa visão, o
povo brasileiro apresentaria um comportamento gentil e doce em Raízes do
Brasil. Porém esse comportamento correspondia a uma forma “epidérmica”
e “superficial” de ação, concebendo essa ação emotivamente exercida como a
fonte fundamental de direcionamento do convívio social. O “homem cordial”
não entenderia outra forma de contato que fuja à ética do afeto, estendendo-a
aos mais variados campos, inclusive o religioso. Esses são, para o autor, os
sintomas de um profundo “horror às distâncias” e “aversão ao ritualismo”29.
Em última análise, essa é uma postura que torna o brasileiro incompatível
com a ordem abstrata e impessoal. Um indivíduo profundamente atrelado
aos atributos conectados à personalidade e que provavelmente deveria ser
combatido por meio do fortalecimento da autoridade.

29 
HOLANDA, 1936.

187
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

O lento processo de revolução no Brasil estaria relacionado ao caráter


passional do comportamento de seu povo, dominado pelo império da ação
performaticamente emotiva. O gradualismo desse processo viria acompa-
nhado por pontos culminantes, que abrangendo o período desde a vinda da
família real portuguesa até a proclamação da república. Para o autor, a perda
de resistência do agrarismo, o esgotamento das condicionantes favoráveis
à existência de uma aristocracia rural e o aumento sensível da autonomia
econômica dos centros urbanos acompanharam todo esse deslocamento do
modo de operação da sociedade brasileira, junto da persistência do modelo
de cordialidade.
Essa quebra com a nossa tradição implica a tentativa de acomodar
características que não correspondem ao seu caráter pós-revolucionário por
parte do estado. Assim como a substituição do patriciado pela plutocracia
desconfigura a natureza brasileira, o Estado não poderia permitir que tal
erro fosse cometido pela via de seu formalismo. Sendo assim, um estado
despótico não seria correspondente com a doçura do gênio desse povo. Na
verdade, o País necessitaria mais dos elementos ligados à pujança, grandeza
e solicitude do que do punho de ferro e das ambições conquistadoras30.
Nesse sentido, o Brasil enfrentava um amplo movimento de separação
entre política e vida social durante sua história. Essa relação foi traduzida,
em Raízes do Brasil, mediante a crítica ao formalismo de Rui Barbosa ou
na posição em relação ao estatismo de Alberto Torres. No fundo, a grande
preocupação de Sergio Buarque de Holanda girava em torno do afastamento
da nação em relação a sua prática política, ou de uma preocupação forte
com os perigos da negação das características mais profundas do seu povo
em favor da superficialidade das formas institucionais e representativas.
Esse posicionamento demonstra o quanto deveria se tomar cuidado com
as esperanças em relação às leis, formas, ideias e conceitos.
Todo esse receio demonstrado pelo autor indicava a existência de um
quadro ainda mais geral, dialogando com o discurso sobre a América Latina.
Esse quadro consiste na constatação de que todos os povos de nossa parte
do globo compartilham o infeliz fato de estarem revestidas de instituições
ideais e sem qualquer relação com a realidade. Por isso, o personalismo

30 
Ibidem, p. 142.

188
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

apresentaria-se como a única resposta em relação à nossa ausência de forma


espontânea, pois inseriu figuras reais por trás dos pavimentos formais31.
De todas as formas mais artificiais ao meio nacional, o liberalismo
democrático parece ser a mais incompatível com a índole brasileira ou a
ambição em relação ao fortalecimento das instituições32. O liberalismo tor-
nou-se sedutor devido à personalidade favorável aos discursos da autonomia
individual, tão presente nos povos americanos, e pela impossibilidade de
uma resistência eficaz contra algumas novas influências, como a do primado
da vida urbana. Sendo assim, um povo que apresentasse características
relacionadas à docilidade, gentileza e polidez no convívio necessitaria de
maiores estímulos no sentido organizacional.
Os estímulos teriam de dar conta da consolidação e estabilização de
um organismo social e nacional. Desse modo, Sergio Buarque de Holanda
introduziu um indicativo que acabaria marcando a ferro a primeira edição
de Raízes do Brasil. Sua noção de um regime forte, compreensivo e afável,
que desse conta de inserir ordem em um ambiente social dominado pelos
vícios e qualidades fornecidos desde seu berço, acaba resultando em elogio
à tirania e às possibilidades trazidas por tal regime33.
No fim do texto, parece que a via autoritária torna-se a única revira-
volta capaz de sanar as perversões germinadas pela família, os enganos do
formalismo e a desordem gerada pelo desencontro entre política e sociedade.
Caberia ao País entender qual seria a natureza desse regime, dado que o
fascismo é demasiadamente baseado na violência e o integralismo não é
revolucionário o suficiente. Nos momentos finais da obra, um aumento
bem pronunciado nas ambiguidades dentro do argumento do autor pode
ser percebido; pois, mesmo precisando de constitutivos autoritários, esse
autoritarismo parece incompatível até com o despotismo familiar do pai.

31 
Ibidem, p. 152.
32 
Isso muda radicalmente nas outras edições do livro e na própria militância política do autor. Luiz Feldman
aborda as apropriações que o Estado Novo fez de Raízes do Brasil, o que denuncia a complexidade e variação
dessa crítica ao liberalismo democrático.
33 
Ibidem, p. 185.

189
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

AUTORITARISMO MORENO: A SAÍDA BRASILEIRA PARA A


RUPTURA ENTRE O PRIVADO E O PÚBLICO

Escusando os possíveis efeitos anedóticos da expressão autoritarismo


moreno, tentemos extrair uma compreensão dessa proposta de regime polí-
tico centralizador em Raízes do Brasil. Após passar pela análise do papel da
família, entendendo sua função como ambiente subjetivo no qual ocorreu o
encontro entre as culturas formadoras da nação. Logo, se passa instantanea-
mente para a diversidade caótica das discussões feitas por Sergio Buarque
de Holanda. Dentro do contexto da década de 1930, com diversos membros
da intelectualidade tentando traçar os rumos sociais e políticos do País, o
autor paulista emergiu como representante de um pensamento que pode
ser entendido como fascista adequado aos trópicos e à raça miscigenada.
Evitar o termo ibérico é necessário, pois deve ser evitada qualquer
relação com os governos autocráticos instalados por Francisco Franco, na
Espanha, e Antonio de Oliveira Salazar, em Portugal. Ambos conduziram
suas nações a formas de fascismo específicas para seus contextos periféricos
na Europa, durante a primeira metade do século XX. Esse não parece o caso
do trabalho desenvolvido por Sergio Buarque de Holanda. De certo modo,
sua herança e diálogo com o trabalho de Gilberto Freyre impossibilitaram
qualquer perspectiva de compatibilização com o autoritarismo mais rígido.
Desse modo, o modelo alemão, com seu forte discurso racialista, assim como
a luta desenfreada do fascismo italiano em relação ao bolchevismo não
seriam opções plausíveis no contexto de distensão entre público e privado
marcado na fundação da cultura brasileira.
De modo mais simplificado, o drama do País seria fruto dos infor-
túnios de sua origem lusitana pouco dada à organização. Seu crescente
processo de desencontro entre a tendência normativa urbanizadora, a tra-
dição rural e a incapacidade de alterar essas características estão no centro
das preocupações do autor nesse momento. Nesse sentido, a ordem liberal
que marchava como influência externa para o Brasil chegaria apenas para
agravar ainda mais esse cenário. O País estaria em uma espécie de beco
sem saída no qual as opções seriam a manutenção de um sistema anárquico
e caótico e o risco de agravá-lo mediante a penetração de uma ideologia
estrangeira de liberdade. Esses foram os ingredientes que posicionaram

190
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

a obra de Sergio Buarque de Holanda como uma resposta fascista para o


cenário imprevisibilidade da década de 1930.
As opções pensadas em relação às possibilidades autoritárias no
País foram variadas. Autores como o próprio Martins de Almeida, citado
anteriormente, anunciavam a necessidade de um “Mussolini moreno”
como resposta aos problemas causados pela politicagem e “barbosismo” da
República Velha34. Otávio de Faria, com sua crença no catolicismo como
um possível fiel da balança em relação às arbitrariedades de um controle
centralizado35. O apelo da ideia de um “homem integral” em Miguel Reale
com sua tentativa de desconectar o fascismo da pecha violenta36 que o
acompanhava desde as primeiras demonstrações públicas dos “camisas
negras”. Para alguns desses autores, o liberalismo seria incompatível ou
antiquado e, dessa forma, não seria um horizonte de expectativa interes-
sante para os novos rumos da política. Desse modo, as obras desse período
construíram-se tanto como proposições específicas, quanto como em um
sentido de diálogo mútuo.
A extensão da articulação entre o iberismo colonial e o autoritarismo
no País foram os responsáveis pela transformação da primeira edição de
Raízes do Brasil em exemplo único de saída autoritária calcada na falta de
ordem ibérica. O texto do livro acabou agindo como mediador entre uma
discussão de nação particular ao Brasil e uma possível opção fascista adap-
tada, afastando-se de uma ausência de conclusões políticas mais amplas
trabalhadas por Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala e Sobrados e
Mucambos37. Este, por sua vez, habitualmente apresentando um esforço de
reconstituição da formação histórica, não apresentaria tentativas claras de
geração de juízos e expectativas em relação a cenário futuro.
A grande distinção em termos de um pensamento propriamente
político entre os dois esforços intelectuais, durante os anos 30, esteve jus-
tamente no que pode ser considerado como um conservadorismo cultural
introspectivo no pernambucano e um ressentimento cultural politicamente
34 
ALMEIDA, 1932, p. 107.
35 
FARIA, Octavio de. Maquiavel e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.
36 
REALE, Miguel. O Estado moderno: liberalismo, fascismo, integralismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1934.
37 
Antropologia Apenas posteriormente o autor assume a produção de textos com uma maior ênfase nos
rumos políticos do País.

191
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

orientado de Sergio Buarque de Holanda. Dessa forma, mesmo a herança


freyreana percebida por Luiz Feldman ao comparar as edições de Raízes do
Brasil confronta-se com o uso polivalente que seu par paulista fez de sua
abordagem em relação ao mundo privado na cultura brasileira. Mais do
que tudo, a adição de um bias próprio parece determinar o caminho que
seu pensamento traçaria.
Se por um lado, para Gilberto Freyre, a transição da arquitetura da
casa grande e da senzala para do sobrado e do mucambo representaria
uma ruptura com o passado e qualquer chance de conexão entre os grupos
culturais originários da cultura brasileira38; Sergio Buarque de Holanda
apenas se preocupou com o aspecto futuro dessa mudança. Desse modo,
acaba tendo que operar com um impasse. O passado continha uma série
de problemas que acabaram sendo inscritos no DNA cultural do País, no
entanto a transição para o bacharelismo poderia representar uma entrada
em ordem liberal. Com isso, o autoritarismo veio a ele como fuga a essa
armadilha e como uma tentativa de surfar na mesma onda de valorização
do fascismo e sua força.
Outro elemento de diferenciação parece ser a coexistência entre dois
movimentos analíticos com sentidos opostos. Enquanto, para o Gilberto
Freyre da década de 1930, o fluxo apontaria para uma quebra de tradição;
para Sergio Buarque de Holanda, a mesma passagem teria apontado para
possibilidade de uma nova articulação política, com a tradição sendo com-
batida por um autoritarismo adequado ao desenvolvimento nacional.
Se Sobrados e Mucambos tivesse sido publicado com uma maior ante-
cedência em relação ao Raízes do Brasil, poderia ser afirmado de modo
mais contundente que o texto do segundo foi uma tentativa malsucedida
de dar voz política à transição amplamente tratada no projeto de Freyre.
No entanto a brevidade do hiato entre a publicação de um e do outro
não permite que essa determinação seja feita de modo mais firme. O que
podemos perceber é a consciente insatisfação do paulista com a tradição
de exaltação da herança cultural.

38 
ARAÚJO, Ricardo Benzaquen. Guerra e Paz: Casa Grande e Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30.
Rio de Janeiro: 34, 1994.

192
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Pelos motivos abordados ao longo do texto, a primeira edição do


principal trabalho de Sergio Buarque de Holanda representou a tentativa de
criar um diálogo entreparte do paradigma iniciado por Gilberto Freyre e as
preocupações políticas da época. Essa preocupação particular ao contexto
intelectual da década de 30 acabou sendo manifesto de modo relativamente
bem-sucedido no título de uma coletânea organizada por Gilberto Amado39.
Para onde vai o Brasil?40 seria responsável não só pelo batismo desse livro,
mas também seria a concatenação de um mantra presente no debate do
pensamento político durante esse período. Contra essa tendência, Gilberto
Freyre acabaria ensejando o debate sem adentrar nessa disputa de proposição
política. Seu debate sobre a herança colonial e a transição republicana era
contido ao passado e seu ressentimento era relacionado ao seu esquecimento.
Em 1936, Raízes do Brasil acabaria tornando-se um exemplo de como
as preocupações desse período se mesclariam com o fascismo. O autori-
tarismo europeu de Benito Mussolini, Adolf Hitler e, até mesmo, de Fran-
cisco Franco e António Salazar eram inaplicáveis a partir de nossa matriz
cultural triangular, fruto do encontro entre branco europeu, negro africano
e ameríndio autóctone. A chave seria um modelo complacente de totalita-
rismo, adaptado tanto à herança quanto à índole corrente do brasileiro. Seu
homem cordial não poderia se adaptar a certas durezas e logo, um esforço de
amoldamento seria imprescindível. Sem dúvida, esse acabaria se tornando
um dos motivadores do caráter polivalente e ressentido do texto de Sergio
Buarque de Holanda, assim como suas opções de resposta política.

CONCLUSÃO

Sobre essa discussão, deve-se pensar na pertinência que o debate sobre


o fascismo apresentava na época. Ao recapitular esse contexto, pode-se
perceber um autor que opta pela solução política da moda. Nos anos 30, o
fascismo europeu parecia operar milagres. Oferecia a chance de resgatar a
antiga glória romana no mediterrâneo, solucionava a profunda crise eco-
39 
AMADO, Gilberto (Org.). Para onde vai o Brasil?. Rio de Janeiro: Renascença, 1933.
40 
Nessa obra de 1933, Gilberto Amado organiza diversos textos com autores variados, em que cada um faz
considerações a respeito da resposta política necessária após as conturbadas mudanças geradas com o fecha-
mento do ciclo da República Velha. Diversas alternativas como o comunismo, integralismo, fascismo, socialismo,
democracia, ditaduras em geral e federalismo acabaram sendo consideradas.

193
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

nômica e social alemã, decorrente das consequências da Primeira Guerra


Mundial, e colocava suas nações em pé de igualdade com as demais potencias
do continente. A partir desse cenário político internacional, Sergio Buarque
de Holanda deposita certa confiança nessa saída para resolver os problemas
relacionados ao teor liberal e bacharelista da Primeira República.
Seu maior equívoco, do ponto de vista teórico, talvez tenha sido a
tentativa de compatibilizar o levantamento e exposição, típicos de Gil-
berto Freyre, com a condenação dessa mesma herança. Mesmo percebida
a influência do autor pernambucano na primeira edição de Raízes do Brasil,
mediante o resgate de Luiz Feldman sobre a variação nas edições, percebe-se
que sua recepção da memória histórica optou por algum grau de negação
dessa origem ao tentar solucioná-la utilizando-se de um regime de maior
autoridade. Entre a exaltação do iberismo presente em Freyre e sua articu-
lação com o ideário fascista estrangeiro, Sergio Buarque de Holanda acaba
por conceber um híbrido que não faz jus a nenhuma das duas pontas. As
críticas à matriz cultural e à suavidade de seu autoritarismo entraram na
discussão da época como um exemplar único de resposta centralizadora
aos dilemas da década de 1930.
Sua desvalorização e crítica do passado também podem ser sinais de
sua antipatia ao contexto nordestino exposto em Casa Grande e Senzala.
Contudo tal exploração não foi possível dentro da análise presente. Talvez
um esforço futuro em relação à exaltação da figura do bandeirante paulista
e sua ligação com a transição do mundo rural e privado para o urbano e
coletivo seja necessária para que se entenda parte da resposta dada na pri-
meira edição de Raízes do Brasil.
O que fica como conclusão é um autoritarismo que se encaixou muito
mais como recurso narrativo do que resposta analítica. Longe de dar a
mesma atenção minuciosa trabalhada por alguns outros pares41, quanto
aos procedimentos adequados para aplicação desse sistema, o texto acabou
apontando apenas para um destino abstrato de reordenação da sociedade do

41 
Para perceber essa diferença, uma leitura da obra de Pontes de Miranda sobre o rumo da política nacional
pode ser útil. Em Anarquismo, Comunismo e Socialismo (1933), o autor demonstrou aviabilidade e inviabilidade de
cada uma dessas correntes para operar a mudança política brasileira, dando extrema atenção aos procedimentos
necessários para essas aplicações.

194
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

que para um trabalho propriamente focado na práxis de sua atualidade42.


Esse aspecto, sem dúvida, influiu sobre o esquecimento da primeira edição
e compete com a reavaliação do fascismo na década seguinte como um dos
principais motivos da falta de fôlego de seus argumentos.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Martins de. Brasil Errado: Ensaio político sobre os erros do Brasil
como país. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1932.
AMADO, Gilberto (Org.). Para onde vai o Brasil?. Rio de Janeiro: Renascença, 1933.
ARAÚJO, Ricardo Benzaquen. Guerra e Paz: Casa Grande e Senzala e a obra de
Gilberto Freyre nos anos 30. Rio de Janeiro: 34, 1994.
BASTOS, Elide Rugai. Iberismo na obra de Gilberto Freyre. Revista da USP 48-57.
São Paulo, agosto, 1998.
DOMINGUES, José Maurício. A esquerda no nevoeiro: Trajetórias, desafios e
possibilidades. Novos Estudos. São Paulo: Cebrap, 2016.
FARIA, Octavio de. Maquiavel e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.
FELDMANN, Luiz. Clássico por amadurecimento: Estudos sobre Raízes do Brasil.
Rio de Janeiro: Topbooks, 2016.
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
______. Sobrados e Mucambos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.
HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.
MIRANDA, Pontes de. Anarquismo, comunismo, socialismo. Rio de Janeiro: Ader-
sen, 1933.
POCOCK, John Greville Agard. Linguagens do ideário político. São Paulo: Edusp, 2003.
REALE, Miguel. O Estado moderno: liberalismo, fascismo, integralismo. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1934.
SPENGLER, Oswald. The Decline of the West. New York: Alfred A. Knopf, 1983.
42 
Cf. MIRANDA, Pontes de. Anarquismo, comunismo, socialismo. Rio de Janeiro: Adersen Editores, 1933.

195
Capítulo 7

O PENSAMENTO DE AZEVEDO AMARAL E AS


ORIGENS DO DESENVOLVIMENTISMO

Tamyres Ravache Alves De Marco

O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTISMO

Quando o assunto são as origens do desenvolvimentismo no Brasil,


observa-se o pouco diálogo entre os campos do pensamento político e eco-
nômico. Embora não se trate de uma fase excluída das análises, o período da
gênese do desenvolvimentismo foi alvo de um número menor de pesquisas
quando comparado às fases de seu auge e declínio, nas décadas 1950 e 1960.
Não à toa, em 1949 foi criada a Comissão Econômica para América Latina e
o Caribe (Cepal), dimensão institucional que conferiu maior inteligibilidade
ao tema do desenvolvimento planejado.
Percebe-se, além disso, que as análises econômicas ganharam maior
projeção em relação às políticas, tornando, por assim dizer, a Economia a
área de excelência da matéria. Talvez por isso Bresser Pereira tenha concluído
que, mesmo sendo equivalentes às ideias do Instituto Superior de Estudos
Brasileiros (Iseb), os conceitos formulados pela Cepal não receberam as
mesmas críticas dos teóricos dependentistas. A suposição de Bresser segue
no sentido de que talvez a análise da Cepal “fosse mais econômica do que
política e, provavelmente, não atenderia aos interesses da nova interpretação
colocar a CEPAL lado a lado com o ISEB”1.
As fileiras da CEPAL incluíam duas figuras importantes do
pensamento econômico do século XX: Raul Prebish e Celso

1 
PEREIRA. Carlos Bresser. As três interpretações da dependência. v. 38, p. 17-48, jul./dez. São Paulo: Perspectivas,
2010. p. 30.

197
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Furtado. Outros economistas significativos da CEPAL foram


Aníbal Pinto, Oswaldo Sunkel e Maria Conceição Tavares.
Os principais intelectuais do ISEB foram os filósofos Álvaro
Vieira Pinto, Roland Corbisier e Michel Debrun, o sociólogo
Alberto Guerreiro Ramos, o economista Ignácio Rangel, o
historiador Nelson Werneck Sodré e os cientistas políticos
Hélio Jaguaribe e Candido Mendes de Almeida. Suas ideias,
de caráter mais político que econômico (embora contassem
com um notável economista entre ele, Ignácio Rangel) eram
complementadas no nível econômico pelo pensamento estru-
turalista da CEPAL2.
Ao que tudo indica, havia relação entre as críticas direcionadas às teses
nacionalistas e desenvolvimentistas com a dimensão política do debate. Embora
o objetivo principal deste capítulo não seja discutir alguma suposta primazia
entre política e economia no que diz respeito às análises desenvolvimentistas,
depreende-se dessas considerações que ambas as áreas lograram recepções
e influências distintas sobre o tópico e que tal fato pode estar relacionado ao
distanciamento verificado entre os dois campos de pensamento.
O conceito de desenvolvimentismo assume, a depender do autor e
do período, pressupostos distintos. Em estudo voltado ao campo do pensa-
mento econômico brasileiro, Ricardo Bielschowsky3, por exemplo, definiu
o desenvolvimentismo como “um projeto de industrialização planejado e
apoiado pelo Estado”4. Segundo o autor, o constante movimento das ideias
econômicas levou-o à construção de uma periodização metodológica a fim
de captar as mudanças adquiridas pelo projeto ao longo das décadas. A partir
disso, Bielschowsky realizou a seguinte subdivisão analítica: de 1930-44, as
origens do desenvolvimentismo; de 1945-55, seu amadurecimento e, por
fim, de 1956-64, os momentos de “auge” e “crise” desse modelo. Essa perio-
dização pautou-se no critério de observação dos movimentos de “formação
e evolução intelectual” do projeto de industrialização pesada como via da
superação do subdesenvolvimento.
Reconhecendo não haver um pensamento desenvolvimentista único,
o conceito-chave de desenvolvimentismo em Bielschowsky foi entendido
2 
Ibidem, p. 21.
3 
BIELSCHOWSKY, Ricardo. Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo. Rio
de Janeiro: Contraponto, 1988.
4 
Ibidem, p. 247.

198
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

a partir de uma concepção ideológica de transformação da sociedade bra-


sileira definida por um projeto econômico que se compôs por meio dos
seguintes aspectos: a) industrialização integral como via de superação do
subdesenvolvimento brasileiro; b) na afirmação de que não havia possi-
bilidade de alcançar a industrialização eficiente e racional no Brasil por
meio das forças espontâneas do mercado; por isso o Estado deveria ser
o planejador; c) o planejamento deveria definir a expansão desejada dos
setores econômicos e os instrumentos de promoção dessa expansão e; d) o
Estado deveria definir também a execução da expansão, captando recursos
financeiros, e promovendo investimentos diretos naqueles setores em que
a iniciativa privada fosse insuficiente5.
Pedro Cezar Dutra Fonseca6, por sua vez, foi além na análise con-
ceitual do desenvolvimentismo ao expor as possibilidades e os limites que
envolviam a definição conceitual do objeto. Considerando a existência de
dois planos analíticos em torno do objeto: o das ideias e o da prática política,
Fonseca questionou-se sobre qual seria o ponto específico de inflexão entre
essas dimensões ao ponto que fosse possível definir a existência do fenô-
meno desenvolvimentista. O desafio seria identificar “o núcleo comum” do
conceito, uma vez que a tarefa não se tratava de buscar atributos “desejáveis”,
tampouco definir uma política desenvolvimentista “ideal”.
Nessa lógica, a metodologia empregada dividiu-se em duas etapas. A
primeira, voltada à pesquisa dos “atributos utilizados por diversos autores que
expressaram o seu entendimento sobre o que seria o desenvolvimentismo”, e
a segunda, à verificação desses atributos aplicados às “experiências históricas
normalmente arroladas pela bibliografia como exemplos de desenvolvimen-
tismos”7. Por fim, sua conclusão delimitou um “núcleo comum principal”
do conceito no qual a presença de três elementos mostrou-se constante: o
intervencionismo, a industrialização e o projeto nacional.

5 
Ibidem, p. 7.
6 
FONSECA, Pedro Dutra. Desenvolvimentismo: a construção do conceito. In: CALIXTRE, B. B. et al. (Org.).
Presente e Futuro do Desenvolvimento Brasileiro. Brasília: Ipea, 2014.
7 
Ibidem, p. 7.

199
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FIGURA 1 – TRIPÉ CONCEITUAL DO DESENVOLVIMENTO


FONTE: a autora

Fonseca constatou que as variáveis “intervencionismo”, “industrializa-


ção” e “projeto nacional” foram os três elementos constantes nos diferentes
approaches teóricos e experiências históricas examinadas.
A industrialização é entendida como a única alternativa capaz de
promover o desenvolvimento nacional em sua concepção ampla, isto é,
“como caminho para acelerar o crescimento econômico, a produtividade e o
progresso técnico”8. O intervencionismo concebe o aparelho administrativo
do Estado como o órgão coordenador do projeto desenvolvimentista, isto é,
como um instrumento a serviço do desenvolvimento nacional. Por último,
o nacionalismo que orientaria o projeto nacional coloca o progresso da
nação à frente de quaisquer interesses fragmentários, sendo as divergências
acerca da participação do capital estrangeiro dispensáveis, conquanto que
estas não suprimam a nação como o “epicentro e destinatário do projeto”
desenvolvimentista.

8 
Ibidem, p. 13.

200
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Desse modo, a definição de Fonseca parece-me mais objetiva do que


a apresentada por Bielschowsky por imediatamente expor que a posição
em relação ao capital estrangeiro não define o elemento “nacionalista” do
desenvolvimentismo.
Encerrando as considerações sobre esse ponto, retomo a imprecisão
conceitual mencionada anteriormente, pois considero que esta se trate, na
verdade, do que Fonseca denominou “atributos supostos”. Ou seja, questões
relativas ao projeto desenvolvimentista que, no entanto, ultrapassam o tripé
conceitual. Por exemplo, uma orientação específica em relação à inflação
ou à reforma agrária seriam consideradas questões relativas ao projeto,
contudo elementos marginais ao núcleo comum do conceito. Nesse sentido,
um governo/teoria desenvolvimentista “X” que estabelecesse que a reforma
que agrária seria um objetivo a ser alcançado apenas agregaria ao seu desen-
volvimentismo tal especificidade. Ao passo que um governo/teoria “Z”, que
confiasse ao livre mercado ser o agente responsável pelo desenvolvimento
nacional, não poderia ser considerado uma gestão desenvolvimentista, já
que nele não se encontraria um dos elementos fundamentais do conceito,
intervencionismo estatal.

ORIGENS DO DESENVOLVIMENTISMO: DOIS PLANOS


METODOLÓGICOS

Amparado pelas considerações anteriores e pelo conceito de desen-


volvimentismo delimitado por Fonseca, as sessões seguintes se concentrarão
no exame do período das origens e na teoria de Azevedo de Amaral.
A gênese do desenvolvimentismo no Brasil é definida por Bielscho-
wsky como um primeiro e limitado momento de “tomada de consciência da
problemática da industrialização por parte de uma nova elite técnica, civil
e militar, que então se instalava nas instituições de orientação e controle
implantadas pelo Estado centralizador pós-30”9. Além disso, se caracteri-
zaria pelo surgimento de quatro elementos ideológicos10 fundamentais: a)
consciência de um setor industrial integrado; b) instituição de mecanismos
9 
Ibidem, p. 250.
10 
Para Bielschowsky, esses quatro elementos representaram um passo adiante em relação ao pensamento
industrialista anterior à década de 1930.

201
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

de captação e centralização de recursos financeiros capazes de viabilizar a


acumulação industrial pretendida; c) intervenção governamental em apoio
à iniciativa privada; d) nacionalismo econômico, relacionado ao sentimento
anti-imperialista e defesa de barreiras alfandegárias.
Embora Bielschowsky declare que um estudo profundo sobre a gênese
do pensamento econômico desenvolvimentista foi impossibilitado em fun-
ção de sua dedicação à fase de amadurecimento do projeto, o autor lançou
sua hipótese em relação ao período. Sua ideia sustentava que “o período de
1930-45 – sobretudo os anos do Estado Novo – marcou um salto qualitativo
na ideologia industrialista preexistente, adicionando-lhe elementos básicos
para a definição de uma estratégia industrializante.”11. De acordo com o
autor, não apenas “elementos básicos” do desenvolvimentismo estiveram
presentes nessa época como importantes órgãos de planejamento foram
criados, seis ao todo12. Reunidos, esses fatores compuseram um momento
de inflexão importante no projeto desenvolvimentista. Contudo foram
impedidos de prosseguir devido à queda de Getúlio Vargas, caracterizando
o período como uma fase de investida desenvolvimentista. Em minha lei-
tura, essa conclusão limitou a análise das origens a somente um período de
ensaio institucional do projeto desenvolvimentista, uma vez que apenas a
dimensão da prática política foi destacada.
A partir dos dois planos metodológicos apresentados por Fonseca, o
das ideias “relacionadas aos precursores do ideário” que na segunda metade
do século XX associou-se ao que se convencionou denominar “desenvolvi-
mentismo” e, o segundo, – não dissociável do primeiro – que se concentra
na prática “política econômica voltada às medidas efetivamente propostas
e/ou implementadas pelos governos13”, minha proposta segue no sentido
de examinar o plano conceitual das origens do desenvolvimentismo. Na
busca desse objetivo, os estudos dedicados aos temas da modernização e
da industrialização no pensamento brasileiro dos anos 30 e 40 fornecem
indícios interessantes e também elementos para pesquisas futuras no campo.
11 
Ibidem, p. 248.
12 
Conselho Federal do Comércio Exterior (CFCE), em 1934; Conselho Técnico de Economia e Finanças
(CTEF), em 1937; Departamento de Serviço Público (DASP), em 1938; a Coordenação de Mobilização Econômica
(CME), em 1942, o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial (CNPIC), em 1944 e a Comissão de
Planejamento Econômico (CPE), também em 1944.
13 
FONSECA, 2014, p. 1.

202
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

O AMBIENTE POLÍTICO DOS ANOS 30

A modernização consolidou-se como o tema de excelência e eixo


prioritário do pensamento político brasileiro14. Em suma, os diagnósticos
sobre a questão indicavam que o Brasil precisava superar duas barrei-
ras intelectuais: a cópia indiscriminada das instituições e dos modelos
políticos estrangeiros e a ausência de análises políticas específicas sobre
o contexto nacional. Considerados uma geração politicamente ativa e
interventora15, os intelectuais desse período refletiram sobre as dificul-
dades impostas ao desenvolvimento nacional como também produziram
prognósticos acerca dos modelos político-institucionais mais adequados
à superação dos mesmos.
De acordo com a cientista política Lucia Lippi de Oliveira, a cultura
política e intelectual dos anos 30 também podia ser entendida por meio
da relação entre o autor e o público, principalmente porque a participação
política e a publicização das ideias ganhavam “contornos de tarefa a qual
as elites intelectuais não poderiam se furtar16”. Questões intrínsecas ao
tema do desenvolvimento, tais como o papel da sociedade e a influência
do Estado, ganharam destaque na produção da época, sobre a qual um viés
industrializante de desenvolvimento consolidou-se. Em outras palavras, a
concepção de modernização tinha como pressuposto os avanços industriais
do País em que o fortalecimento da indústria nacional passou a ser consi-
derada condição sine qua non para o progresso brasileiro.
A transição do século XIX para o XX implicou, sobretudo para os
países da América Latina17, a busca por novas alternativas para o desen-
volvimento. A acelerada transição das chamadas sociedades “tradicionais”
para as “industriais” ou “modernas”18 se deu de maneira abrupta e instável,
principalmente se observadas a partir das estratégias econômicas adota-

14 
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
15 
OLIVEIRA, Lúcia Lippi; GOMES, Eduardo Rodrigues; WHATELY, Celina. Elite Intelectual e Debate Político
nos anos 30: uma bibliografia comentada da revolução de 1930. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Brasília,
Instituto Nacional do Livro, 1980.
16 
Ibidem, p. 33.
17 
SANTOS, 1978.
18 
GERMANI, Gino. Política e Sociedade Numa Época de Transição: da sociedade tradicional a sociedade massa.
São Paulo. Mestre Jou, 1975.

203
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

das a partir da década de 20 do século XX19. Tais mudanças tornaram-se


inteligíveis com o fortalecimento das críticas direcionadas ao liberalismo,
tal como teorizado durante o século XIX20.
O chamado “liberalismo clássico” enfrentou o crescente descrédito
dos intelectuais e governantes que não viam mais a doutrina liberal como
um instrumento capaz de impulsionar a modernização nos países em
desenvolvimento. Nesse contexto, o Brasil buscava não apenas construir
sólidos pilares econômicos como também se retirar da desconfortável
posição de instabilidade financeira desencadeada no início do século XX
pela Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, retomada e acentuada
pela crise de 192921.
As análises do período sinalizavam, portanto, que o Brasil precisava
de uma alternativa para se tornar uma nação menos suscetível às contingên-
cias internacionais, bem como encontrar maneiras de ampliar a autonomia
de seus projetos para o desenvolvimento. Esse cenário levou a crescentes
debates em torno da estrutura das instituições políticas, do tipo de orienta-
ção econômica a ser adotada e, por fim, do papel do Estado nesse processo.
De acordo com Luis Carlos dos Passos Martins22, o tema da indus-
trialização planejada já aparecia no debate intelectual brasileiro durante as
décadas de 1930 e 1940 tanto por meio dos industrialistas como por inte-
lectuais como Azevedo Amaral. Segundo Martins, devido à sua concepção
original acerca da industrialização na qual se destacaram questões funda-
mentais à construção do Brasil como nação, Amaral pode ser considerado
um dos intelectuais precursores da defesa do desenvolvimento planejado
no Brasil23. Em artigo anterior, Luciano Aronne de Abreu24 destacou
muitos estudos que relacionaram o viés autoritário dos intelectuais com

19 
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – O breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
20 
SANTOS, 1978.
21 
ARRUDA, A. J. José. A crise do capitalismo liberal. In: AARÃO, Daniel; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste
(COORD.). O século XX – o tempo das crises: revoluções, fascismos e guerras.v. 2. ed. Civilização Brasileira,
2000. p. 11-34.
22 
MARTINS, Luis Carlos dos Passos. Desenvolvimento econômico, autoritarismo e corporativismo no
pensamento de Azevedo Amaral. In: Simpósio Nacional de História, xxvii, Natal, 2013. Rio Grande do Norte.
23 
Ibidem, p. 2.
24 
ABREU, Luciano Aronne de. Modernidade e desenvolvimento econômico em Azevedo Amaral. Simpósio
Nacional de História: ANPUH, São Paulo. 2011.

204
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

o regime do Estado Novo. Ao passo do número acanhado dos trabalhos


que se detiveram ao exame do desenvolvimento, mais especificamente da
industrialização25.

A CRISE DO LIBERALISMO E A NOVA ORIENTAÇÃO DO


SÉCULO XX

Antonio José Azevedo do Amaral foi um médico carioca cuja real


atuação profissional foi na imprensa como jornalista político. Entre os anos
de 1906 e 1916, morou na Inglaterra atuando como correspondente dos
jornais Correio da Manhã, A Notícia, Gazeta de Notícias e Jornal do Comércio.
Além disso, foi redator-chefe do O País. Como autor e intelectual, deteve
vasta publicação. Em ordem cronológica de livros publicados, têm-se:
Ensaios Brasileiros26, A crise do Brasil atual27, A aventura política do Brasil28, O
Estado autoritário e a realidade Nacional29. A título de curiosidade, Amaral
foi o tradutor de O século do corporativismo de Michael Manoilescu30.
Em sintonia com os diagnósticos sobre o período, Azevedo Amaral
sustentava que seriam inúteis quaisquer análises políticas e econômicas que
desconsiderassem os fatores que levaram à crise do liberalismo no século
XX. A permanente influência do modelo liberal impedia, em sua leitura, a
reorientação econômica do Brasil. Esse merecia uma análise rigorosa a fim
de alcançar uma compreensão objetiva da conjuntura na qual se encontrava
o País. Além disso, seria preciso também racionalizar a maneira específica
pela qual as sociedades passaram a instrumentalizar a relação estabelecida
entre progresso técnico e desenvolvimento.
Com a reação antiindividualista e antiliberal que vem caracte-
rizando o pensamento sociológico do século atual, delineia-se
uma tendência inequívoca ao retorno à atitude originária do
espírito humano em face das atividades econômicas. Em um

25 
Ibidem, p. 2.
26 
AMARAL, Antonio José do Azevedo. Ensaios Brasileiros. Rio de Janeiro: Omena e Barreto, 1930.
27 
AMARAL, Antonio José do Azevedo. O Brasil na Crise Atual. São Paulo: Companhia Nacional, 1934.
28 
AMARAL, Antonio José do Azevedo. A Aventura Política do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1935.
29 
AMARAL, Antonio José do Azevedo. O Estado Autoritário e A Realidade Nacional. Brasília: UNB.
30 
GOMES, C. Ângela. O século do Corporativismo, de Michael Manoilescu, no Brasil de Vargas. Revista de
Sociologia & Antropologia, vol.: 2, 4: 185-209. 2012.

205
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

plano superior, voltamos ao conceito da produção em bene-


fício da coletividade e não mais como meio de proporcionar
apenas lucros aos que acham empenhados na produção e
distribuição das coisas que a sociedade usa e consome31.
Outra questão seria o aspecto instrumental relacionado aos conheci-
mentos e objetivos que continham cada lei, instituição ou sistema político
formulado para a promoção do progresso, em sentido amplo, das nações.
Todos esses elementos conteriam especificidades, anseios e objetivos da
comunidade que a produziu. Ou seja, mesmo em se tratando de um modelo
ou técnica universalizados, cada um desses elementos exprimiria antes, ou
em alguma medida, as características particulares do seu local de origem. Em
outras palavras, a preocupação do autor estava na necessidade de verificar
se e em que medida tais elementos adequavam-se à realidade brasileira.
Seu objetivo, no entanto, não era rejeitar os casos ou modelos estrangeiros.
[...] nenhuma sociedade política se constituiu sem que seus
organizadores se esforçassem por tornar as instituições e
as leis correspondentes aos fatos objetivos da vida coletiva
a que se aplicavam, para aproveitá-los quando de natureza
benéfica ou para eliminá-los ou atenuá-los quando nocivos
ao bem comum. Procurava-se por certo receber os frutos
da experiência alheia. Mas ao estudar-se os exemplos das
instituições e das leis de outros povos, o que se tinha em vista
não era importar exotismos políticos e jurídicos; queria-se
apenas aprender como em outros ambientes problemas
idênticos haviam sido resolvidos32.

A percepção dos limites contidos nos modelos estrangeiros carregava


não só a crítica mencionada como também certo elogio ao Brasil na medida
em que o País, em sua leitura, dava sinais de ampliação de sua consciência
nacional. Conforme se ampliava a consciência coletiva, amadureciam também
as reflexões políticas e sociais sobre a realidade brasileira. Para se tornar
uma nação capaz de promover seu próprio desenvolvimento, o Brasil pre-
cisava ter consciência de sua história, consequentemente de suas potências.

31 
AMARAL, 1938, p. 139.
32 
Ibidem, p. 204.

206
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

INDUSTRIALIZAÇÃO É DESENVOLVIMENTO

Para manter sua posição no comércio internacional, o Brasil pre-


cisava acompanhar a dinâmica produtiva do século XX promovendo o
seu o progresso técnico. Isso exigiria um projeto de ampliação das bases
industriais brasileiras, além de revisões nas esferas política e econômica.
Era preciso rever os limites da esfera política na economia para que se
consolidasse no Brasil a tendência intervencionista adotada pelas potên-
cias econômicas de então.
De acordo com Wanderley Guilherme dos Santos, “a agenda libe-
ral clássica, quer na versão francesa, quer na versão americana, possuía
respostas já conhecidas pelas elites brasileiras”33. Não foram raros os
momentos na história do Brasil nos quais se observaram pedidos vindos
das elites nacionais solicitando que o Estado assumisse a administração
de determinados assuntos relacionados ao desenvolvimento econômico.
Desde o século o XIX, o Brasil tinha por objetivo a consolidação de seu
Estado liberal, sendo este um dos seus principais desafios. Amaral confiava
à esfera política a superação dos impasses impostos pelo modelo liberal.
Tal superação, contudo, só poderia ser alcançada “pela ação interventora
do Estado [...] cujas atribuições seriam muito mais amplas do que aquelas
permitidas pelo liberalismo do século XIX”34.
A intervenção do Estado nas atividades econômicas, acompanhada
por uma revisão do papel dos setores considerados “atrasados”, se tornou
um pressuposto fundamental em sua teoria.
Admitidos o caráter intangível dos alicerces do Estado Novo
e a natureza definitiva do sentido que ele imprime ao futuro
desenvolvimento histórico da nacionalidade, é evidente que
a organização estatal, no cumprimento de sua finalidade que
é a defesa da nação não pode tolerar no campo das atividades
políticas práticas qualquer agrupamento que contradite a
ordem estabelecida como base da existência nacional35.

33 
SANTOS, 1978, p. 89.
34 
AMARAL, 1934, p. 222.
35 
AMARAL, 1938, p. 116.

207
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Considerando que a dinâmica produtiva do setor agrícola brasileiro


representava o que havia de ultrapassado, típico do século XIX, Amaral
exasperava-se com a permanência do protagonismo agrícola nas ativida-
des econômicas. Em tom de denúncia, criticava o intenso amparo político
que suas elites historicamente recebiam dos governos. Em seus livros, por
exemplo, os constantes elogios direcionados à Era Mauá demonstram
sua orientação industrialista. Esse período teria se destacado da falaciosa
tendência agrícola por ter promovido a modernização brasileira mediante
investimentos e políticas industrialistas nacionalistas36.
Vencendo tais resistências e tornando-se o poderoso agente
de ligação entre o Brasil e as forças capitalistas que propeliram
o surto do mundo contemporâneo, Mauá justificou o seu
direito a ocupar na nossa história a posição preeminente de
anjo tutelar da civilização brasileira [...] do progresso material
da nossa terra37.

Seguro das medidas necessárias para o desenvolvimento nacional,


Amaral opôs-se às teorias denominadas etapistas38 que, em sua leitura, difi-
cultavam a consolidação de uma prática econômica interventora. Depreende-
se daí sua forte repulsa ao liberalismo, tal como praticado no século XIX e
sua constante defesa da industrialização planejada como a nova orientação
política e econômica do século XX.
Na segunda metade do século XIX começam a ter lugar ino-
vações técnicas de alcance que somente agora se vai tornando
vagamente perceptível e que estavam destinadas a repercutir
na economia, na organização social e política e nas diretrizes
culturais das sociedades humanas por forma a imprimir um
novo sentido à civilização39.

***
O aumento da participação política no século XX reorientou a política
da época afetando a legitimidade do liberalismo, tornando-o um modelo
36 
Refiro-me às medidas implantadas no período cujo objetivo era privilegiar comercialmente o produto
nacional. Entre essas, a mais conhecida foi a “Tarifa Alves Branco”, proposta pelo então Ministro da Fazenda
que elevava as taxas alfandegárias para os produtos importados.
37 
AMARAL, 1930, p. 159.
38 
Quaisquer teorias cuja concepção de desenvolvimento fosse entendida como um processo lento, gradual e
independente da intervenção política eram consideradas etapistas o liberalismo e o marxismo.
39 
AMARAL, 1934, p. 27.

208
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

incompatível às exigências do novo século. Assim, se o Brasil se pretendia


uma nação capitalista e moderna, suas primeiras tarefas deveriam passar
pela adoção de políticas que amenizassem a disparidade entre as classes. Ao
analisar o tema do liberalismo e da democracia, Oliveira expôs a veemência
com que os intelectuais dos anos 30 censuravam os valores do liberalismo
em um ponto muito específico: o Estado.
Nossos autores, baseados na premissa do liberalismo do
século XIX de que o governo deve intervir o menos possível
na vida dos indivíduos, identificam o “Estado democrá-
tico-liberal” como sendo absenteísta ou indiferente. E,
preocupados em superar os problemas gerados por esse
absenteísmo, postulam a substituição do “Estado liberal-
democrático” por um “Estado orgânico”, dotado de um
governo forte – governos sociais que “compreendam as
necessidades nacionais”40.
Para Amaral, esse contexto pedia mudanças no aparelho adminis-
trativo do Estado de modo que sua estrutura se tornasse compatível à
complexificação do tecido social brasileiro41. Sua crítica continha a questão
da ineficiência do Estado liberal enquanto um agente capaz de promover o
avanço dos modos de produção. Tratava-se, portanto, de ressaltar as insu-
ficiências liberais em tempos em que a ampliação da participação política
tornava a sociedade mais capilarizada.
O conceito do Estado deduzido da ideologia liberal-demo-
crática reduzia a organização estatal a uma espécie de instru-
mento especializado da vontade social. [...] Em tais condições,
O Estado constituía apena, como dissemos, um órgão da
coletividade nacional, ocupando, portanto, em relação à
Sociedade uma posição relativamente reduzida e inequivo-
camente subalterna. O conceito do Estado no século XX é
radicalmente diferente. A tendência do pensamento político

40 
OLIVEIRA, Lúcia Lippi; GOMES, Eduardo Rodrigues; WHATELY, Celina. Elite Intelectual e Debate Político
nos anos 30: uma bibliografia comentada da revolução de 1930. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Brasília,
Instituto Nacional do Livro, 1980. (1980,44).
41 
Oliveira, por exemplo, destaca que a falência do Estado liberal foi decorrente da alteração dos princípios de
organização da sociedade que no limite forçaram os intelectuais do século XX a repensar o Estado. O Estado
não poderia mais se ausentar das atividades de coordenação e equilíbrio da ordem social; para isso, este deveria
adquirir uma estrutura mais complexa capaz de atingir e controlar as dinâmicas da vida social a fim de evitar
os distúrbios sociais. Confer: OLIVEIRA, 1980, p. 45.

209
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contemporâneo orienta-se no sentido da coincidência da


esfera estatal com o círculo da atividade social42.

As capacidades políticas do Estado passavam a ser vistas como um


instrumento propulsor da modernização e o Estado o agente da consoli-
dação do capitalismo no Brasil. A orientação estatal sobre as atividades
econômicas do País tornava-se a única alternativa à rígida dinâmica de
mercado do século anterior. De modo que, se o século XIX havia represen-
tado um período de hegemonia etapista da doutrina liberal, o século XX
superava esse modelo na medida em que incorporava à noção de continuum
a possibilidade de um encadeamento de rupturas43. Ou seja, considerado
um período resultante, porém independente do seu passado, o século XX
possibilitava ao Brasil a utilização de métodos políticos intervencionistas
voltados à aceleração de sua própria industrialização, voltados ao plane-
jamento de sua modernização. Para tanto, bastaria uma organização cujo
alcance do poder executivo do Estado fosse mais amplo do que aquele
observado Estado liberal do século XIX.
As condições que o liberalismo econômico estabeleceu no
século XIX não poderão mais ser restauradas. Uma organiza-
ção econômica baseada no conceito da ilimitada liberdade da
ação individual, deixando que os problemas concretos sejam
resolvidos pelo jogo das forças econômicas em obediência às
supostas leis naturais que os economistas da escola clássica
pensaram ter induzido, é, nos dias atuais, uma impossibilidade
pura e simples. Discutir portanto vantagens ou desvantagens
do velho regime do laissez-faire pode ser quando muito um
passatempo intelectual. Sob o ponto de vista prático, tal
questão não interessa o economista nem o estadista. A estes
o problema que se apresenta é o da escolha das formas pre-
feríveis de intervenção do poder estatal na coordenação das
atividades econômicas da sociedade44.

Embora Amaral criticasse a forma como a economia e a política haviam


sido conduzidas até 1930, sua proposta não exigia modificações profundas
nas instituições brasileiras. O fortalecimento do poder executivo e de sua

42 
AMARAL, 1938, p. 114.
43 
AMARAL, 1934.
44 
AMARAL, 1938, p. 121.

210
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

capacidade administrativa bastariam para executar as tarefas de indus-


trialização e inserção das massas no projeto de desenvolvimento nacional.
Esse desenvolvimento, acentuado depois da proclamação
da República e tornado ainda mais amplo e mais rápido nos
últimos vinte anos, acabou por trazer-nos ao nível das cole-
tividades altamente civilizadas, ao passo que nos falta muito
sensivelmente a organização que nelas sintetiza as forças
sociais e econômicas em manifestações ativas e eficientes.
O problema brasileiro pode ser resumido na determinação
dos meios de promovermos, tão breve quanto possível, a
organização das parcelas de civilização já incorporadas ao
nosso meio, mas que não foram até agora senão parcialmente
aproveitadas por falta de um ritmo coordenador45.

Até aqui, buscou-se apresentar de maneira articulada como foram


abordados os principais elementos teóricos de Azevedo Amaral em rela-
ção ao projeto que futuramente seria denominado “desenvolvimentismo”.
Sabendo que o tema do desenvolvimento planejado no Brasil não foi com-
posto apenas pela tríade projeto nacional – industrialização – intervenção,
passamos ao exame da polêmica questão em torno do capital estrangeiro e
sua interface com o nacionalismo.

NACIONALISMO ECONÔMICO E CAPITAL ESTRANGEIRO

Um dos aspectos mais complexos e mais melindrosos na


elaboração da ordem econômica, principalmente em se tra-
tando de um país nas condições do Brasil, é a extensão da
influência que as ideias nacionalistas podem exercer em um
trabalho construtivo dessa natureza46.

Vemos, desde os Ensaios brasileiros, os pressupostos teóricos que poste-


riormente pautaram o debate desenvolvimentista. A planificação econômica
e a industrialização permitiriam a diversificação das formas de produção,
estimulando o mercado interno brasileiro. Como indica Martins47, a coor-
denação dessas atividades pela esfera política não precederia a econômica.
45 
AMARAL, 1930, p. 251.
46 
AMARAL, 1938, p. 126.
47 
MARTINS, 2013, p. 8.

211
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Isto é, o Estado seria um instrumento de fortalecimento econômico a ser-


viço do desenvolvimento e justificado pela própria dinâmica do mercado.
A doutrina fundamental econômica do Estado Novo está
assim condensada e expressa naqueles termos do art. 135
da Constituição. O poder estatal nenhum embaraço opõe
ao surto livre das atividades individuais e reconhece que
as faculdades aplicadas no exercício daquelas atividades
representam os fatores insubstituíveis no determinismo
da expansão da riqueza coletiva. Fica contudo desde logo
afirmado que os indivíduos, atuando isoladamente ou em
grupos, têm de subordinar as suas aptidões e os seus interesses
ao ritmo imposto pelo bem geral de que o poder público é o
assegurador permanente48.

Tratava-se de coordenar, não de reprimir os interesses privados.


De acordo com Martins, Amaral “esteve mais preocupado em defender a
prioridade da iniciativa individual na esfera produtiva do que defender as
benesses do intervencionismo.” Essa conclusão é pertinente na medida em
que ressalta um argumento fundamental do autor em relação ao capital
estrangeiro. Amaral era favorável à participação do capital estrangeiro em
forma de investimento na inciativa privada nacional, uma vez que o Brasil
não dispunha do capital necessário para a ampliação de seu setor industrial.
A exploração das reservas minerais contidas no subsolo do país
e o aproveitamento das fontes de energia hidroelétrica [...] são
elementos básicos para o prosseguimento de um esforço con-
catenado racionalizado de expansão e riqueza e de elevação do
nível cultural e social da nacionalidade. [...] A solução de ambos
os problemas depende evidentemente da inversão de capitais e
do emprego de atividades técnicas de caráter especializado. Ora,
não dispomos no Brasil de reservas capitalistas que, mesmo
quando mobilizadas com a máxima eficácia, possam nos for-
necer os capitais requeridos para a mineração intensiva e para
a utilização técnica das fontes de energia concretizadas nas
quedas d’água. Em tais circunstâncias, não é possível abordar
satisfatoriamente os dois problemas em foco sem recorrermos
à colaboração das reservas capitalistas existentes em outros
países, sendo também altamente improvável que possamos

48 
Ibidem, p. 12.

212
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

dispensar o concurso do empreendimento e da competência


técnica de estrangeiros49.

Esse argumento vincula-se a um elemento fundamental do desen-


volvimento planejado: o nacionalismo. De acordo com Amaral, o naciona-
lismo ganhou duas dimensões distintas no fim da Primeira Guerra Mun-
dial. Conduzidas pela necessidade de reconstrução de seus territórios, as
nações afetadas pelo conflito mobilizaram seus sentimentos nacionalismos
a fim de reestabelecer suas soberanias. Contudo os nacionalismos, que até
aquele momento manifestavam-se somente no âmbito político, estende-
ram-se à esfera econômica em função da fragilidade financeira resultante
do pós-guerra.
Até o fim do ciclo de afirmação das nacionalidades, iniciado
no período napoleônico e tornado mais definido a partir
de 1848 em face do chamado princípio das nacionalidades,
as aspirações nacionais apresentavam um cunho exclusi-
vamente político. Não havia entre a ideia da organização
independente dos Estados, em harmonia com a fisionomia
peculiar das suas etnias nacionais, qualquer conceito de
isolamento econômico50.
Ciente da relevância que as reservas financeiras desempenharam
sobre o desfecho da guerra, uma onda de preocupação, relacionando estabi-
lidade financeira e defesa nacional, tomou as nações. O temor generalizado
da ocorrência de um novo conflito desencadeou políticas alfandegárias
protecionistas que tinham por objetivo proteger o mercado interno da
concorrência dos produtos estrangeiros. O protecionismo praticado pelos
Estados Unidos, por exemplo, teria influenciado os economistas e estadistas
da Europa continental afetando negativamente o comercial internacional
como um todo.
A estratégia era plausível, mas as consequências eram nefastas, prin-
cipalmente para as nações ainda em desenvolvimento que não dispunham
de reservas suficientes para promover políticas econômicas fechadas e
necessitavam do comércio internacional aquecido para desenvolver suas
economias internas. Era o caso do Brasil para Amaral.

49 
AMARAL, 1938, p. 131.
50 
Ibidem, p. 127.

213
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Mas o que nos interessa assinalar é que, como todos os países


civilizados e mesmo aqueles que ainda se acham no limiar
da civilização, o Brasil sofreu a repercussão dessa ideologia
que deslocava para o plano econômico o conceito político do
nacionalismo. Infelizmente todas as nossas condições atuais e
diretrizes que forçosamente temos de seguir para aproveitar
com eficácia o potencial econômico do país estão em irre-
conciliável contradição com esse nacionalismo econômico51.

Encerrando as considerações sobre esse tópico, tratava-se de não


misturar conceitos. A economia baseava-se no livre investimento e à polí-
tica caberia a função de ajustá-lo sob as bases de uma política nacionalista.
Nesse sentido, o relevante para a política brasileira era sua orientação
política nacionalista e não a origem do capital a ser empregada em seu
desenvolvimento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do conceito de desenvolvimentismo e das considerações


sobre o período das origens desse projeto no Brasil, analisei a teoria de
desenvolvimento planejado de Azevedo Amaral. Sabendo que o núcleo
principal do conceito de desenvolvimentismo abrange as três fases do desen-
volvimentismo brasileiro, foi possível verificar a maneira como cada um
dos elementos que compõe o núcleo comum do projeto desenvolvimentista
foi explorado em sua teoria.
Sendo o desenvolvimentismo um projeto resultante de uma reorien-
tação política e econômica causada pela falência de uma modalidade da
doutrina liberal – observada durante o século XIX – analisei a interpreta-
ção de Amaral sobre os cenários nacional e internacional nesse período e
como, em sua leitura, esses fatores colaboraram para o que ele denominou
“nova orientação do século XX”. Seu diagnóstico sobre a questão indi-
cava que, para realizar a modernização, o Brasil precisava planejar o seu
desenvolvimento por meio de um projeto de fortalecimento de suas bases
industriais. A industrialização não poderia se dar por meio da espera de
supostos impulsos vindos da dinâmica de mercado; era preciso que o Estado
intervisse na economia e coordenasse o desenvolvimento.
51 
Ibidem, p. 128.

214
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Parte expressiva do argumento do autor foi no sentido de demonstrar


como o liberalismo clássico não representava mais um modelo compatível
ao capitalismo que, em sua leitura, inaugurava-se no século XX. As massas
precisavam ser rapidamente incorporadas ao processo de desenvolvimento,
a fim estabelecer uma dinâmica de produção capaz de aquecer o mercado
interno e impulsionar a economia nacional. Para tanto, a superação do prin-
cípio da vocação agrária era imprescindível, e o Estado deveria ampliar sua
capacidade de intervenção nas atividades econômicas. Nenhuma potência
nacional do século XX baseava sua produção em modos rudimentares de
produção e mantinha as atividades políticas distantes dos interesses eco-
nômicos da nação.
O Estado brasileiro e seu aparelho administrativo deveriam coorde-
nar as atividades de exploração das riquezas nacionais em vistas do cres-
cimento da nação como um todo. Contudo ao Estado caberia coordenar,
e não reprimir as iniciativas privadas. Essas deveriam auxiliar o desenvol-
vimento nacional em parceria com o capital estrangeiro, caso necessário.
O nacionalismo de sua teoria vinculava-se à natureza política do projeto
industrializante. A posição do autor em relação à participação do capital
internacional era pragmática e objetiva. Como em sua leitura, o País não
dispunha dos recursos financeiros necessários às atividades de exploração
que impulsionariam a economia nacional, o capital externo deveria parti-
cipar em forma de investimentos na iniciativa privada.
A partir desse exame, minha hipótese é de que a teoria para a moder-
nização brasileira de Azevedo Amaral vincula-se ao pensamento econômico
brasileiro das origens do desenvolvimentismo. Os argumentos defendidos
pelo autor, em minha leitura, possibilitam considerá-lo um intelectual
precursor do desenvolvimento planejado no Brasil.
Além disso, espera-se, com esse trabalho, que um maior número de
exames sobre o pensamento político e econômico receba maiores análises,
incentivando o diálogo entre os campos do pensamento político e econô-
mico brasileiro.

215
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

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217
Capítulo 8

HISTÓRIA E POLÍTICA: O NACIONALISMO


PERIFÉRICO DE ALBERTO GUERREIRO RAMOS E
NELSON WERNECK SODRÉ

Helio Cannone
Pedro Paiva Marreca

APRESENTAÇÃO

Este capítulo pretende analisar a relação entre a concepção de his-


tória e o projeto político nacionalista desenvolvido na obra de Alberto
Guerreiro Ramos (1915-1982) e Nelson Werneck Sodré (1911-1999).
Trata-se de discussão ainda em estágio inicial de pesquisa, sendo nosso
objetivo apresentar conceitos, categorias e argumentos tendo em vista seu
futuro aperfeiçoamento.
Segundo Christian Lynch1, as tradições de pensamento político
brasileiro podem ser divididas em duas correntes: a cosmopolita-liberal e
a nacional periférica. A primeira delas pode ser definida, em poucas pala-
vras, como defensora da inserção do Brasil no cenário internacional (que
por vezes se confunde com o Universal), a partir da adoção do liberalismo
federalista, enquanto forma de organização política por excelência, e da
defesa da prevalência da sociedade civil e do mercado em detrimento do
Estado. Na história do Brasil, alguns dos grandes nomes representativos
dessa corrente seriam Tavares Bastos (1839-1875), Rui Barbosa (1849-
1923), Afonso Arinos (1905-1990), Raimundo Faoro (1925-2003), dentre
tantos outros possíveis.

1 
LYNCH, Christian Edward Cyril. Por que pensamento e não teoria? A imaginação político-social brasileira
e o fantasma da condição periférica (1880-1970). Dados, v. 56, n. 4, p. 727-67, 2013.

219
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

As tradições nacionalistas brasileiras são diversas e heterogêneas, sendo


Guerreiro e Sodré autores identificados com o nacionalismo periférico em
sua derivação socialista. Essa concepção de nacionalismo teria suas origens
vinculadas a um processo de apropriação e interpretação da obra de autores
canônicos do nacionalismo brasileiro – especialmente Alberto Torres e
Oliveira Viana – por autores que se situam à esquerda no espectro político.
Esse movimento inicia-se ainda na década de 1930 e depois é recuperado
por Guerreiro e Sodré, para a organização de projetos políticos da esquerda
nacionalista dos anos 1950.
A primeira parte do capítulo irá se debruçar sobre o percurso de
apropriação e construção de uma tradição nacionalista de esquerda no
Brasil dos anos 1930. Posteriormente, iremos analisar conceitos e categorias
mobilizadas por Guerreiro Ramos e Werneck Sodré como subsídios teóricos
de seus projetos políticos em diálogo com as tradições nacionalistas no Brasil.

NACIONALISMO, POLÍTICA E CONFLITO NA DÉCADA DE 1930:


ANTIIMPERIALISMO, REFORMAS E CONFLITO SOCIAL

Uma breve análise bibliográfica do plano do Pensamento Político e


Social Brasileiro, da década de 1930, evidencia que Alberto Torres e Oliveira
Viana são os dois autores de maior relevância no debate intelectual em
torno do nacionalismo brasileiro, naquele contexto. Suas obras tornam-se
referência para admiradores e críticos dos mais diversos matizes, e suas
ideias recepcionadas em recortes também bastante variados. Somente no
campo do nacionalismo, poderíamos destacar posições distintas como a dos
integralistas – Plínio Salgado (1895-1975), Miguel Reale (1910-2006) –, do
nacionalismo católico – Jakson de Figueiredo (1891-1928), Alceu Amoroso
Lima (1893-1983) —, e de autores como Virgínio Santa Rosa (1905-2001),
Francisco Martins de Almeida (1904-1983) e Francisco Pontes de Miranda
(1892-1979), que têm em Torres e Viana uns de seus principais interlocutores.
Os integralistas e católicos apropriam-se principalmente do anti-
liberalíssimo e da ideia de um Estado forte de Torres, do corporativismo
e das discussões sobre raça de Viana, para balizar posições políticas rea-
cionárias – na medida em que visam à volta a algo que teria se perdido na

220
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

modernidade – e francamente autoritárias. O nacionalismo desses grupos


seria caracterizando por um teor “espiritualista” e seus projetos políticos
balizados na necessidade de uma reforma moral do homem e da civilização.2
Diferentemente, defendemos que Santa Rosa, Almeida e Miranda são
autores que incorporam e buscam aperfeiçoar o que estamos chamando
de concepção materialista do nacionalismo de Torres e Viana. Segundo
essa leitura, o “problema nacional” deveria ser compreendido mediante
uma análise histórica de base sociológica e econômica, sendo sua solução
viabilizada por meio da ação política. Críticos a importações de doutrinas
como o liberalismo, o fascismo e o marxismo-leninismo, os três autores
empenham-se em compreender os condicionantes históricos próprios da
periferia do capitalismo mundial, para elaborar um projeto político para
o Brasil de teor modernizador, nacionalista e progressista, na medida em
que seu telos é um regime democrático, com maior autonomia econômica e
soberania política. É sensível que, nesse sentido, eles dediquem suas obras
ao desenvolvimento de temas caros a seus predecessores, tais como a análise
da relação de classes no Brasil, a defesa de reformas políticas e sociais, a
organização corporativista; e, assim como eles, elaborem severas críticas
ao federalismo, ao latifúndio e ao imperialismo.
Porém, esses autores também se distinguem de Torres e Viana, na
medida em que advogam a importância do papel de um Estado forte – como
promotor da modernização da economia e da sociedade–, mas reconhecem
a elevancia e a inevitabilidade da ampliação da participação política e das
reformas sociais demandadas pelas classes trabalhadoras, rompendo com
o viés elitista e desmobilizador do nacionalismo anterior. Para Santa Rosa,
Almeida e Miranda, a política e a mudança social no Brasil operavam sob
uma perspectiva baseada no conflito entre classes sociais ascendentes –
classes médias, proletários e camponeses – e decadentes – aristocracia
rural3. A década de 1930 era compreendida como momento de decadência
da democracia liberal e ascensão das classes populares brasileiras sobre
os privilégios da “plutocracia aburguesada”4. No plano internacional, eles

2 
SILVA, Ricardo. A Ideologia do Estado Autoritário. Tese (Doutorado), Instituto de Filosofia e Ciência Humanas
da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, 1998.
3 
SANTA ROSA, Virgínio. O sentido do tenentismo. 3. ed. São Paulo: Alfa Ômega, 1976 [1932].
4 
Idem.

221
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

criticam a universalidade das doutrinas econômicas liberais, alegando o


antagonismo de interesses entre as ex-colônias e as nações imperialistas, o
que confere ao nacionalismo um caráter de libertação das nações proletárias5.
Partindo da recepção de ideias da linhagem política nacionalista de
Euclides, Torres e Viana, crítica ao imperialismo e ao federalismo oligárquico,
esses autores esforçam-se para formular para o Brasil uma concepção de
política que considera a importância do conflito social e defende o prota-
gonismo das classes trabalhadoras. Refutando a viabilidade do desenvolvi-
mento econômico e social dos países periféricos por meio exclusivo das vias
naturais de mercado (como queriam os liberais); eles sustentam que cabia
a quem ocupava o Estado executar as reformas sociais para permitir que
as classes ascendentes superassem sua submissão ao poder das oligarquias.
Para eles, não bastava a implementação de reformas políticas
garantidoras da lisura eleitoral (como no projeto inicial da Aliança Liberal
e dos tenentes) e não parecia mais ser viável conceber um regime político
que não considerasse as demandas das classes trabalhadoras. Haveria de
ser perpetradas “reformas radicais” no plano social (no geral, convergiam
quanto à necessidade da implementação da reforma agrária, leis e direitos
trabalhistas), de maneira a minar os alicerces do latifúndio, do imperialismo
e o poder das oligarquias sobre as classes ascendentes.
Mais do que Torres e Viana, esses autores se reconhecem como crí-
ticos do status quo oligárquico e demofóbico da Primeira República; em
sua interpretação, o “problema nacional” seria decorrente de condições
estruturais determinadas pelo domínio oligárquico e pelo imperialismo.
O nacionalismo é conceito central para essa tradição, que inaugura uma
concepção de política sob chave agonística e conflituosa no plano da teoria
política no Brasil. Alberto Guerreiro Ramos e Nelson Werneck Sodré irão, a
partir da década de 1950, reivindicar, apropriar-se e desenvolver hipóteses
elaboradas originalmente por essa esquerda nacionalista dos anos 30, para
pensar o desenvolvimento e a democracia no Brasil.

5
  MIRANDA, Pontes de. Anarquismo, comunismo, socialismo. Rio de Janeiro: Adersen, 1933.

222
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA E PROJETO POLÍTICO PARA


O BRASIL NAS OBRAS DE ALBERTO GUERREIRO RAMOS E
NELSON WERNECK SODRÉ

O contato entre o nacionalismo de Guerreiro e Sodré, a sociologia do


conhecimento e o pensamento pós-colonial já foi objeto de estudos6. Seu
diálogo com as teorias cepalinas – dinâmica entre centro-periferia e teoria
do subdesenvolvimento – também ajudam a compreender o movimento de
politização do conceito de nacionalismo, em sua acepção periférica7 con-
forme aludido anteriormente. Porém a análise da relação entre nacionalismo,
história e política parece-nos uma chave de leitura profícua, tanto para
o estudo do jogo de linguagens e as ferramentas conceituais partilhadas
enquanto tradição8 – no plano diacrônico do ideário político brasileiro
–, quanto para a compreensão do projeto político – e dos processos de
desenvolvimento e democratização –, delineados nas obras de Guerreiro
Ramos e Werneck Sodré.
Dentre as semelhanças entre Nelson Werneck Sodré e Alberto
Guerreiro Ramos, não está somente a ênfase nas estruturas econômicas
como condicionantes históricas da mudança. Em diálogo com a tradição
nacionalista anterior, ambos identificam no Brasil a permanência de uma
condição colonial. Eles distinguem-se, porém, ao afirmar que esta se encon-
trava, à época, em vias de extinção. Nos dois autores essa interpretação é
fruto de um estudo da História do Brasil que tem a intenção de modificá-la.
Assim, em ambos, há um nexo indissociável entre interpretação histórica
e projeto político. Neste capítulo, essa relação será analisada na obra dos
autores à luz de temas e conceitos-chaves para a interpretação histórica do
País partilhada pela tradição nacionalista nacionalista periférica; são eles:
a problemática do latifúndio e da industrialização, o povo, seu conteúdo e
papel e a revolução brasileira.

6 
Cf.: LYNCH, Christian Edward Cyril. Por que pensamento e não teoria? A imaginação político-social brasileira
e o fantasma da condição periférica (1880-1970). Dados, v. 56, n. 4, p. 727-67, 2013; BARIANI, Edison. Guerreiro
Ramos e a redenção sociológica: capitalismo e sociologia no Brasil. São Paulo: Edusp, 2011.
7 
BARBOSA, Leonardo; MARRECA, Pedro. Nacionalismo, democracia e revolução no ISEB. Anais do 10o
Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), 2016.
8 
BEVIR, Mark. A lógica da história das ideias. Bauru (SP): Edusc, 2008.

223
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

A PROBLEMÁTICA DO LATIFÚNDIO E DA INDUSTRIALIZAÇÃO

Uma das teses que mais se associa a Nelson Werneck Sodré é seu
diagnóstico da existência de relações feudais no Brasil. No entanto Jorge
Grespan9 ressalta que a questão da existência de feudalismo fora da
Europa não é nenhum absurdo dentro do pensamento marxista. Já havia,
no debate internacional, autores que defendiam existência de feudalismo
no Japão, na América Latina e na Rússia. Isso não é incoerente, uma
vez que o feudalismo é entendido por esses autores como um modo de
produção anterior à acumulação de capital. Desse modo, ele poderia existir
em qualquer lugar antes que avanço das forças produtivas permitisse o
estabelecimento do capitalismo.
Em Nelson Werneck Sodré, a interpretação sobre o Feudalismo vem
associada a um projeto político próprio. Jorge Grespan10 chama a atenção
para Declaração sobre a política do PCB, em 1958. Nesse documento, o
que transparece é a mudança de orientação do partido, que passa então a
defender o desenvolvimento capitalista no Brasil como forma de acabar
com as relações de produção semifeudais que existiam no campo. É nesse
sentido que a existência de um feudalismo brasileiro aparece na História
do Brasil feita por Nelson Werneck. O autor diferenciava capital comer-
cial (excedente econômico adquirido por trocas) de capitalismo (comércio
determinado em razão do excedente produzido na esfera de produção)
para sugerir que o capitalismo no Brasil estaria em processo de surgimento
e que, para chegar ao seu ápice, seria preciso pôr fim às relações feudais
existentes no campo brasileiro.
Na interpretação de Sodré, o avanço das forças produtivas no Brasil
não se seguiu como na Europa, ou seja, em uma sequência de modos de
produção com maior nível de produtividade. No País houve um regresso
a um modo de produção escravista, menos produtivo. Isso se deu por
imposição do grande comércio controlado pela metrópole e era das mais
evidentes expressões da condição colonial. Com o advento da Revolução
Industrial, a escravidão teria se tornado inadequada com o mercado mun-

9 
GRESPAN, Jorge. O conceito de “modo de produção” em Nelson Werneck Sodré. In: CABRAL, Fátima; CUNHA,
Paulo Ribeiro da (Orgs.). Nelson Werneck Sodré: entre o saber e a pena. 2. ed. São Paulo: Unesp, 2006. p. 135-150.
10 
Idem.

224
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

dial, que exigia a ampliação de um mercado consumidor. Desse modo, no


fim do Império, o fim do regime escravista teria representado a passagem
para um regime feudal, na medida em que a perda do mercado externo,
por falta de competitividade dos produtos agrícolas, teria levado ao isola-
mento comercial e condenado os produtores a atividade de subsistência.
Nessa narrativa, durante a Primeira República, o Brasil se tornara feudal,
dividido em feudos. Somente com a Revolução de 1930 viria a se iniciar
um processo de ruptura que levaria as pessoas que viviam em relações de
semiservidão à vida política. No seu presente, Nelson Werneck defendia
que, para o desenvolvimento capitalista e industrial ocorrer, seria preciso
remover os resquícios do atraso conservador; ou seja, o Brasil precisaria
de uma revolução burguesa. Tal como apresenta Angélica Lovatto11, isso
viria a ocorrer a partir de uma revolução democrático-burguesa na qual
este setor não monopolizaria os proventos dessa transição.
Em “Raízes Históricas do Nacionalismo Brasileiro”12, texto que é
reprodução da aula inaugural dada no ISEB, em 1958, o tema do feudalismo
brasileiro e a maneira de acabar com o mesmo são extensamente desenvolvidos
pelo autor. No texto, ele sugere que a definição das ideias é historicamente
condicionada, ou seja, elas respondem ao avanço das forças produtivas em
um meio. Assim, o Brasil estaria finalmente na fase em que o nacionalismo
tornara-se possível politicamente. O autor apresenta três cortes para a História
do Brasil, em grande parte reproduzindo o que depois será publicado como
Formação Histórica do Brasil. Esses cortes são: Independência, República e
Revolução brasileira. Na elaboração intelectual do autor, cada etapa da história
politico-institucional do Brasil corresponde a uma etapa econômica da qual
é consequência. A Colônia estaria ligada à revolução comercial, em que toda
produção é voltada para o mercado externo. A Independência, por sua vez,
seria reflexo da revolução industrial, que exige a ruptura do monopólio do
comércio, com a abertura de novos mercados. No caso da República, a classe
dominante teria se prolongado desde a Independência, pois no Império toda
transformação dependia do apoio dessas classes.

11 
LOVATTO, Angélica. O pensamento de Nelson Werneck Sodré no Cadernos do Povo brasileiro. In: CABRAL,
Fátima; CUNHA, Paulo Ribeiro da (Orgs.). Nelson Werneck Sodré: entre o saber e a pena. 2. ed. São Paulo: Unesp,
2006. p. 313-326.
12 
SODRÉ, Nelson Werneck. Raízes históricas do nacionalismo brasileiro. In: Introdução à revolução brasileira.
2. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963. p. 165-186.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Na república, a classe dominante continua sendo a dos senhores de


terras e passa-se de um regime escravista para um feudal, no qual o pequeno
produtor estaria vinculado ao latifundiário. A política dos governadores
representaria uma intensificação do poder dos senhores feudais brasileiros.
A fase da Revolução brasileira teria se iniciado com a Revolução de 1930, na
qual a classe dominante se enfraquecera, a classe média se tornara forte e a
classe trabalhadora estava entrando na vida política. Porém essa fase ainda
teria uma contradição: os produtores de café. Para Nelson Werneck, eles são
senhores feudais e representam o arcaísmo que precisa se eliminado. Nessa
fase, o nacionalismo representaria libertação. O nacionalismo brasileiro
teria o papel de fazer neste País o mesmo que passaram os países europeus
na Idade moderna; ou seja, ser instrumento para o fim dos remanescentes
feudais da sociedade. A missão do Nacionalismo no Brasil seria formar um
arranjo de classes cujo objetivo seria promover o fim da condição colonial
do País. Em contraponto, opunham-se à interpretação defendida por aqueles
que acreditavam que o Brasil só poderia se desenvolver com ajuda alheia e,
com isso, contribuíam para a manutenção do quadro de relações feudais ou
semifeudais. Nas palavras do autor, o que o período presente necessitava
era de uma “[...]composição nacional que inclui uma burguesia capaz de
realizar-se como classe[...]”13, para que, com o povo e a indústria nacional,
haja a superação da etapa de bens de consumo pela de bens de produção.
Alberto Guerreiro Ramos não tem diagnóstico tão distinto de Nelson
Werneck Sodré. Embora não classifique as relações existentes no campo
brasileiro, durante sua época, como feudais, ele as vê de uma perspectiva do
atraso. E, do mesmo modo, acredita que estas têm que ser superadas pela
crescente industrialização e consequente urbanização do País. Em A Redução
Sociológica14, o autor chega a colocar esses fatores como precondição para a
entrada do País na história. Na Cartilha brasileira do aprendiz de sociólogo15, o
autor enaltece a industrialização como categoria fundamental da sociologia,
principalmente na América Latina. Em suas palavras:
É essencialmente, e, sobretudo nos países da periferia
econômica, um processo civilizatório, isto é, aquele mecanismo
13 
Ibidem, p. 182.
14 
RAMOS, Alberto Guerreiro. A redução sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996.
15 
RAMOS, Alberto Guerreiro A dinâmica da sociedade política no Brasil. In: Introdução crítica à sociologia
brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. p. 59-78.

226
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

por meio do qual se operam as mudanças quantitativas


e qualitativas nas estruturas nacionais e regionais. Estas
estruturas só alcançam alto grau de civilização mediante o
desenvolvimento industrial.16
Para o sociólogo, os altos níveis de saúde e bem-estar nos países
industrializados seriam causados pelo desenvolvimento tecnológico. Na
medida em que ele aumentaria não só a qualidade política, mas a qualidade de
vida de um país, o Brasil deve almejá-lo. O latifúndio seria justamente o que
impede que a urbanização avance e, consequentemente, que avance o País.
Em “A dinâmica da sociedade política no Brasil”17, Guerreiro Ramos traça
uma breve história do papel político dos latifundiários no País. Partindo das
suas categorias de classes ascendentes como progressistas, classes dominantes
como conservadoras e classes em declínio como reacionárias, o autor vê os
latifundiários como a classe ascendente em 1822, pois fizeram a independência
e organizaram o Estado, classe dominante e centro de 1822 até 1930, quando,
a partir dessa data, torna-se classe em declínio. Assim como Nelson, ele
enxergava, à sua época, uma possibilidade de mudança: “E nestes dias já se
descortina como possível uma aliança (que parece esboçada na última eleição
presidencial de 1955) do proletariado com a burguesia industrial numa luta
contra seus inimigos comuns”18. Esses inimigos comuns seriam justamente
os latifundiários, contrários ao interesse de desenvolvimento da Indústria
nacional. Assim como Nelson Werneck, Guerreiro Ramos propõe uma aliança
entre diferentes setores da sociedade para permitir o avanço do País.
Na interpretação de Guerreiro Ramos, em 1930, tem início o declínio
da burguesia latifúndio mercantil como classe dominante, que vai perdendo
sua posição no centro do poder para a burguesia industrial. A manobra polí-
tica que deu início ao Estado Novo em 1937 é vista como um ordenamento
político-estatal de Vargas para conseguir orientar a produção para consumo
interno sem grandes percalços. Isso porque seria preciso dar um sentido
intervencionista e planificador ao Estado. Durante os anos 1930 e 1940,
haveria uma ascensão do proletariado como força política, e as condições
para dar fim a situação alienada do Brasil seriam finalmente alcançáveis
via aliança dos grupos progressistas.
16 
Ibidem, p. 145.
17 
Ibidem, p. 59-78.
18 
Ibidem, p. 67.

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CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

O POVO, SEU CONTEÚDO E PAPEL

Ambos os autores partiam de um entendimento de que o povo deveria


ser protagonista na história, pois somente ele é capaz de adequar a ideologia
e a política do seu tempo às mudanças que as condições matérias impõem.
No entanto o conteúdo desse povo não era fixo. Cabe então analisar o
que cada um desses autores apreendem desse conceito para que se possa
entender como eles pensam o movimento da história.
Nelson Werneck Sodré tem um livro inteiramente dedicado a essa
temática: Quem é o povo no Brasil?, publicado originalmente em 1962, como
a segunda edição dos Cadernos do Povo Brasileiro e depois republicado em
Introdução à Revolução Brasileira19, como a parte referente à evolução
popular. A obra consiste em uma tentativa de dar historicidade ao con-
ceito de povo no Brasil, analisando seu conteúdo no decorrer da história
do País porque, segundo o autor, o conceito de povo estaria sendo usado
de maneira imoderada, pois todos queriam se confundir com ele para
passar seus interesses como interesses gerais. Para Nelson Werneck, os
trabalhadores são a massa principal do povo, mas no Brasil povo não seria
somente o trabalhador, de mesmo modo, o conceito não poderia ser só
definido economicamente; mas historicamente, de acordo com a situação
encontrada em determinado momento histórico.
O autor parte de uma distinção entre povo e população. O segundo
consistira da massa dos habitantes de um território, já ao primeiro, Nelson
Werneck dá o seguinte conceito geral: “[...]em todas as situações, povo é o
conjunto das classes, camadas e grupos sociais empenhados na solução obje-
tiva das tarefas do desenvolvimento progressista e revolucionário na área
em que vive”20. Em outras palavras, para o autor, povo é um agrupamento
de classes no qual o arranjo depende do momento histórico vivenciado.
Ele afirma que “[...] só é nacional o que é popular”21 para enfatizar que, em
sua concepção, os interesses do povo são o próprio interesse da nação em
determinado momento da história.

19 
SODRÉ, Nelson Werneck. Quem é o povo no Brasil? In: Introdução à revolução brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro:
Civilização brasileira, 1963. p. 187-226.
20 
Ibidem, p. 191.
21 
Ibidem, p. 181.

228
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Partindo dessa conceituação geral de povo, o autor monta sua divisão


da história do Brasil em três etapas para ver o que é povo em cada uma delas.
Na Colônia, o autor diz não existir povo, pois não havia condições materiais
efetivas para essa tomada de consciência, então de pronto descarta essa parte
da história de sua narrativa. Na Independência, o povo é composto por todas as
classes, porque a tarefa progressista que se impõe é o fim do monopólio. Já na
República, o que se faz necessário é liquidar o império. Nesta fase da história,
o povo seria constituído por setores da burguesia e do proletariado, e a classe
latifundiária deixava sua composição. No entanto a Política dos Governadores
cumpriria o papel de fazer um arranjo entre setores da classe dominante para
impedir a participação política do povo, dando poder aos latifundiários.
A etapa que se segue seria a que Nelson Werneck via como ainda
em curso: a Revolução Brasileira. A tarefa que se impunha ao povo neste
momento era de liquidar a classe latifundiária e suas relações com o
imperialismo. Povo na fase da Revolução brasileira era composto pelo
campesinato, proletariado e por setores da burguesia comprometidas com
o interesse nacional e anti-imperialista. Nelson Werneck Sodré não vê a
violência como algo necessário nesse processo. O uso desse recurso iria
depender de as classes dominantes deixarem a revolução se cumprir por
um caminho político institucional ou não. O autor não deixa de ressaltar
que “[...] o povo prefere o caminho pacífico”22. Com essa revolução, haveria
uma substituição da classe dominante na qual os que defendem o arcaísmo
na sociedade brasileira seriam derrotados e as forças nacionais sairiam
vitoriosas, capazes de libertar o País do feudalismo representado pelos
latifundiários pelo jugo imperialista que lhes interessa.
No fim da segunda parte de seu texto, Nelson Werneck define o
conteúdo da revolução:
Em termos políticos: trata-se de uma revolução democrá-
tico-burguesa, mas de tipo novo, em que a componente
burguesa não terá condições para monopolizar os proventos
da revolução. As possibilidades de operar o desenvolvimento
material e cultural do Brasil para proveito apenas da
burguesia estão encerradas.23

22 
Ibidem, p. 226
23 
Ibidem, p. 210.

229
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Angélica Lovatto, em artigo chamado “O pensamento de Nelson


Werneck nos Cadernos do Povo Brasileiro”24, destaca a importância de
entender esta publicação no seu contexto. O publico alvo dos cadernos do
povo brasileiro era o próprio povo. Embora os cadernos fossem publicados
pela editora Civilização Brasileira, membros do Iseb participavam ativa-
mente dele, como Álvaro Vieira Pinto e o próprio Nelson Werneck Sodré.
Na divisão que a autora incorpora a partir de Caio Navarro de Toledo,
o Iseb seria dividido em três fases: na primeira, iniciada em 14 de julho de
1955, o instituo não teria consenso ideológico, já na segunda fase, o nacional
desenvolvimentismo é hegemônico e os isebianos estariam preocupados
em pensar um projeto a ser encampado pela burguesia nacional. A terceira
e última fase é a que se situa o livro de Nelson Werneck e os Cadernos do
Povo brasileiro. De 1961 até 1964, o instituto estaria comprometido com a
defesa das reformas de base de João Goulart e com o objetivo de mobilizar
as classes populares. Logo, a proposta de Nelson Werneck de uma revolução
democrático-burguesa, em que a burguesia não monopolize os proventos
da revolução, não derivava apenas da postura de seu partido, mas também
do quadro geral do instituto em que lecionava. No entanto é possível
retirar do pensamento do autor um conceito utópico de povo que deve ser
associado a sua postura política de comunista. Se, naquele momento, Nelson
Werneck Sodré defendia um tipo de revolução burguesa para o Brasil,
possivelmente, com o movimento da história, viria o momento em que o
povo iria se confundir com os trabalhadores para realizar uma revolução de
tipo comunista no Brasil. E, em sua interpretação, esta só poderia ocorrer
depois de superada a etapa feudal e acirrada a capitalista.
Também é possível notar abundantes referências ao povo na obra
de Guerreiro Ramos. O conceito aparece mais claramente na fase mais
propriamente sociológica de sua produção, como em “Cartilha brasileira
do aprendiz de sociólogo”25 e A redução sociológica26. No segundo livro,
após afirmar que “A autoconsciência coletiva e a consciência crítica são
24 
LOVATTO, Angélica. O pensamento de Nelson Werneck Sodré no Cadernos do Povo brasileiro. In: CABRAL,
Fátima; CUNHA, Paulo Ribeiro da (Orgs.). Nelson Werneck Sodré:entre o saber e a pena. 2. ed. São Paulo: Unesp,
2006. p. 313-326.
25 
RAMOS, Alberto Guerreiro. Cartilha brasileira do aprendiz de sociólogo. In: Introdução crítica à sociologia
brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. p. 103- 214.
26 
RAMOS, Alberto Guerreiro. A redução sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996.

230
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

produtos históricos”27, o autor chama a atenção para o fato que, em seu


tempo, o povo estava formando essa consciência de si. Na definição do
autor: “A personalização histórica de um povo se constitui quando, graças
a estímulos concretos, é levado a percepção dos fatores que o determina, o
que equivale à aquisição de consciência crítica”28. Nessa passagem, o termo
povo é tomado como os habitantes de um determinado território que se
reconhecem como parte dele, após essa tomada de consciência, compreen-
dem sua condição colonial de subalternidade em relação a outros povos e
buscam superá-la.
No ano de publicação do texto de Nelson Werneck, Alberto Guerreiro
Ramos já tinha saído do instituto, porém a referência ao povo que estava
presente desde os anos 1950 em sua produção não desaparece e vai ganhando
uma conotação mais próxima da práxis política imediata. O sociólogo saiu
do Iseb em 1958 e, dois anos depois, veio a se filiar ao Partido Trabalhista
Brasileiro. Em conferência dada na Faculdade Nacional de Filosofia, em
1959, de nome os “Princípios do povo brasileiro”29, o autor define povo
como: “[...] um conjunto de núcleos populacionais articulados entre si pela
divisão social do trabalho, participantes de uma mesma tradição e afetados
de uma mesma consciência coletiva de ideais e de fins.”30. Assim como
Nelson Werneck, Guerreiro Ramos parte de um conceito genérico no qual
vai buscar sua aplicação na história do Brasil e também busca diferenciar
população e povo, porque o segundo implicaria no reconhecimento de
uma consciência.
Para Guerreiro Ramos, na Independência não havia povo e este
começaria a se formar na República para ter seu ápice após a revolução de
1930, quando a massa de trabalhadores teria começado a ganhar consciên-
cia de seu papel. A tarefa que estava colocada para o presente era muito
parecida com a de Nelson Werneck: libertar-se da condição colonial, tanto
no domínio cultural quanto no econômico, para permitir o desenvolvi-
mento das indústrias nacionais e todos os seus frutos benéficos. Contudo,

27 
Ibidem, p. 46.
28 
Ibidem, p. 47.
29 
RAMOS, Alberto Guerreiro. Princípios do povo brasileiro. In: O problema nacional do Brasil. Rio de Janeiro:
Saga, 1960. p. 225-256.
30 
Ibidem, p. 228.

231
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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para Guerreiro Ramos, o povo precisaria de uma vanguarda para dirigir o


processo histórico-social. Essa vanguarda seria, possivelmente, o Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB), ao qual o autor estava filiado. Enformada
pelos interesses do povo, essa vanguarda daria direção ao processo nacional
como seu representante, mas a vanguarda seria apenas o coordenador do
processo, sendo o próprio dirigente do movimento representado por ela.
Segundo essa formulação, a emancipação econômica do País não seria
alcançada se o povo não fosse capaz de exercer efetivamente o papel que
a história lhe conferira – a de empresário principal do desenvolvimento.
Nesse sentido, o autor julgava vã qualquer possibilidade de desenvolvimento
que não fizesse apelo à sua capacidade produtiva e não lhe assegurasse o
controle ideológico da programação econômica.
Os “Cinco Princípios do Trabalhador brasileiro”31 foram publicados
originalmente em 1959, no periódico Vanguarda Popular. Nele, Guerreiro
Ramos aprofunda a sua associação entre trabalhadores e povo. Observando
sua época, o autor afirma:
Atualmente o povo se tornou no Brasil realidade histórica
concreta. O povo é, para o sociólogo brasileiro contemporâ-
neo, a categoria cardinal de seu trabalho. O teste de validade
de sua produção científica é aprovação popular32.

Guerreiro Ramos vê não só a entrada do Brasil em uma fase histórica


em que existe povo, mas também ressalta que a sociologia precisa se aproximar
e se pensar a partir dele.
No fim do breve texto, ele descreve quais são os cinco princípios dos
trabalhadores brasileiros, os quais ele retirou de ideias já aceitas por líderes
sindicais reunidos na Confederação Nacional da Indústria em novembro de
1958. O trabalhador aqui parece estar sendo entendido como sinônimo de
povo, ou ao menos como parte fundamental do mesmo. Neses princípios, o
trabalhador aparece como sócio do desenvolvimento nacional e como força
política sem a squal um governo não mais se sustenta. Além disso, o autor
prevê uma relação direta entre planejamento econômico do Estado e interesse

31 
RAMOS, Alberto Guerreiro. Cinco princípios do trabalhador brasileiro. In: O problema nacional do Brasil.
Rio de Janeiro: Saga, 1960. p. 257-262.
32 
Ibidem, p. 260.

232
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

popular, e um vínculo direto entre a questão nacional e os interesses dos


trabalhadores. Segundo o autor: “Os trabalhadores condenam toda forma
de sectarismo e reconhecem que [...] devem ajustar as suas reivindicações
aos imperativos da emancipação nacional”33. Ponto que se conclui no quinto
e último princípio “Os trabalhadores brasileiros só apoiam soluções nacio-
nais dos problemas nacionais.”34. A partir da definição do trabalhador como
sócio (o que indica parceria) do desenvolvimento, assim como na conde-
nação a sectarismos e na associação entre interesses nacionais e populares,
é possível deduzir que, para Guerreiro Ramos, também se faz necessária
uma aliança política entre os setores interessados em soluções nacionais,
que tenham em vista o desenvolvimento do Brasil, para que o processo
efetivamente se realize. De modo semelhante a Nelson Werneck, Guerreiro
Ramos parece defender uma revolução composta por uma frente ampla na
qual os trabalhadores não sejam prejudicados pelos outros integrantes dela.

A REVOLUÇÃO BRASILEIRA

Somando-se à crítica aos latifúndios e à emergência de um povo


autoconsciente de seu papel, os dois autores vão ver em sua época a neces-
sidade de efetivar uma revolução que, desde 1930, viria se intensificando.
Esse diagnóstico não existia apenas nesses dois autores, a revolução
brasileira fora, de fato, tema de discussão de inúmeros acadêmicos por
essa época. No entanto ainda assim parece válido analisar como essa ideia
aparece na obra desses dois autores e como cada um enxerga o conteúdo
do conceito de revolução.
Nelson Werneck Sodré dedicará uma obra a esse tema, a Introdução à
Revolução Brasileira35 que, na verdade, consiste, em grande parte, em textos
já publicados anteriormente e cujos originais assemelham-se a resumos de
obras maiores do autor. Porém a junção deles em um mesmo livro é signi-
ficativo por todos consistirem em uma análise social, política e econômica
da história do Brasil, na qual a Revolução Brasileira aparece como última

33 
Ibidem, p. 261.
34 
Ibidem, p. 262.
35 
SODRÉ, Nelson Werneck. Introdução à revolução brasileira. 2. ed. Rio deJaneiro: Civilização brasileira, 1963.
p. 115-142; ______. Formação histórica do Brasil. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1967.

233
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etapa. O conceito de revolução que transpassa a obra é a de mudança radical


nas estruturas de uma determinada sociedade que tem como consequência
a substituição de uma classe dominante por outra. A passagem do Império
para a República não é vista como revolução, justamente porque para o autor
não houve alteração no arranjo de classes. Cada processo revolucionário
que Nelson Werneck vê é fruto da adequação das estruturas políticas às
mudanças na base socioeconômica. Assim, a Revolução Brasileira é uma
etapa da história do País na qual cabe ao povo (enquanto conjunto de classes
nacionalistas e progressistas) encerrar a dependência do capital externo
imperialista e a proeminência dos latifúndios no mercado interno.
Dentro da concepção marxista da qual o autor parte, não é errado
dizer que a Revolução Brasileira consiste em uma revolução burguesa. Como
já foi desenvolvido aqui na discussão sobre o povo em Nelson Werneck,
trata-se de um processo em que a violência é recurso, mas não é necessária
para atingir o objetivo que se almeja: uma revolução burguesa, mas de
tipo democrático, na qual a parte da burguesia que participa do processo
não iria alienar os trabalhadores dos bens gerados por ela. Dado que, para
Nelson Werneck Sodré, esse processo é uma exigência do presente, é de se
esperar que no futuro outra revolução fosse necessária. Seguindo a lógica
da filosofia da história a qual o autor advoga, supõe-se que se trataria de
uma revolução comunista feita pelos trabalhadores.
Alberto Guerreiro Ramos também dedica um livro ao tema. Em
Mito e Verdade da Revolução Brasileira36, ele apresenta uma visão sobre
marxismo como uma teoria emprestada que não condiz com a realidade
brasileira, simplesmente porque não fora concebida para pensá-la e, por
isso, ameaça o desenvolvimento do País. Além disso, o sociólogo chega a
dizer que é por conta da penetração dessa corrente no Iseb que ele se viu
forçado a sair dele. Se para Nelson Werneck Sodré o conceito de revolução
tem como base o marxismo, Guerreiro Ramos não alinhará a revolução
brasileira a esse ideal, embora reconheça as contribuições de Marx para
o entendimento da história e de seu desencadear. Para o autor, o filósofo
alemão teria contribuído com a teoria da revolução ao submetê-la a análise
científica e, por isso, percebeu que o elemento objetivo sobrepunha-se
sobre ao subjetivo. A revolução seria então expressão de uma realidade
36 
RAMOS, Alberto Guerreiro. Mito e verdade da revolução brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1963.

234
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

histórica e social. Lenin, após Marx, viria a contribuir no plano da teoria


da revolução ao propor uma forma de organizar o elemento subjetivo. A
partir disso, Guerreiro Ramos define a revolução como:
[...] revolução é o movimento, subjetivo e objetivo, em que uma
classe ou coalizão de classes, em nomes dos interesses gerais,
segundo as possibilidades concretas de cada momento, modi-
fica ou suprime a situação presente, determinando mudança
de atitude no exercício do poder pelos atuais titulares e/ou
impondo o advento de novos mandatários.37

Em leitura semelhante à de Nelson Werneck, Guerreiro Ramos vê


revolução como a substituição das classes que estão no poder por outra, a
partir das leituras das condições objetivas que se apresentam em determinado
momento histórico. Porém, para Guerreiro Ramos, não existem etapas a
serem seguidas, e a revolução brasileira não é uma revolução burguesa em
termos marxistas, mas uma revolução com componentes burgueses e pro-
letários que se juntam pela defesa do interesse nacional. Segundo o autor,
é “[...] anacrônico o clássico modelo marxista de revolução, segundo o qual
cada sociedade teria de percorrer, um após outro, os diferentes modos de
produção até chegar ao socialismo”.38
Embora o sociólogo seja crítico da internacionalização que o mar-
xismo propõe e de seu entendimento da história por meio de etapas, ele
não deixa de elogiar um aspecto da Revolução Russa: o fato de ela ter sido
a revolução que a Rússia precisava naquele momento de sua história. Lenin
e seus correligionários teriam lido bem as condições objetivas de seu país
e dela derivado uma teoria da ação que fora responsável por superar os
problemas que se apresentavam em seu presente. A revolução brasileira
deve pautar-se por esse mesmo princípio, mas pensando o Brasil, e operar
para solucionar seus problemas específicos. Ela viria a cumprir o papel
de submeter a direção da economia nacional ao Estado que, por sua vez,
canalizará o desenvolvimento para o interesse dos trabalhadores. A revo-
lução necessária no Brasil não precisaria passar por um estágio de amadu-

37 
Ibidem, p. 30.
38 
Ibid., p. 44.

235
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recimento do capitalismo, podendo substituí-lo por um socialismo de tipo


estatal, afinal a história seria “[...] rebelde à teoria”39. Nas palavras do autor:
A História não confirmou a hipótese de que o socialismo
surgiria, de início, nos países de capitalismo maduro. [...] O
socialismo assume cada vez mais, em nossa época, feição de
método político e econômico, adequado para promover o
desenvolvimento acelerado de nações onde o capitalismo ou
não chegou a medrar, ou se encontra em condições ainda
rudimentares.40

HISTÓRIA DO PENSAMENTO SOCIAL E POLÍTICO BRASILEIRO

A partir de determinado conceito de história – de uma interpreta-


ção histórica do Brasil e do projeto político que dela deriva –, ambos os
autores preocupam-se em organizar uma história das ideias no País. Com
isso, os dois esperam analisar o que havia de original ou de elucidativo no
passado da nação que possa ser usado (ou não) para enformar o presente.
Nesse procedimento, o conceito de ideologia será caro para os dois, porém
o conteúdo dado para ele será diferente em Nelson Werneck Sodré e em
Alberto Guerreiro Ramos.
Nelson Werneck Sodré parte de certa interpretação do conceito
marxista de ideologia para elaborar sua história do pensamento social e
político no Brasil. Em sua leitura de Marx, tal como expresso em A ideologia
alemã41, esse conceito é definido como projeção e visão de mundo que se
adquire por participar de certo tipo de convivência social. Então, ideologia
seria, segundo essa perspectiva, a produção e reprodução de uma lógica
falsa para ver o mundo usada por uma classe para justificar sua dominação.
Em dois trabalhos de Nelson Werneck Sodré, o uso de Ideologia nessa
chave aparece claramente. Um deles é seu livro publicado em 1961, A
ideologia do colonialismo42, e o outro é um texto publicado em Introdução
à Revolução brasileira43, sob o título de “Elaboração da cultura nacional”
39 
Ibid., p. 68.
40 
Ibid., p. 73.
41 
MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005.
42 
SODRÉ, Nelson Werneck. A ideologia do colonialismo. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos Brasileiros, 1961.
43 
SODRÉ, Nelson Werneck. Introdução à revolução brasileira. 2. ed. Rio deJaneiro: Civilização brasileira, 1963.
p. 115-142; ______. Formação histórica do Brasil. 4. ed. São Paulo: brasiliense, 1967.

236
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

correspondente à parte do livro que se propõe a analisar a evolução da


cultura no Brasil. As duas obras possuem análises muito semelhantes,
sendo a segunda uma versão menor da primeira. Contudo, no texto redu-
zido, o autor busca elencar algumas questões teóricas importantes para
compreender sua organização do pensamento brasileiro.
Em Elaboração da cultura nacional44, o autor, logo no início do texto,
faz uma dura crítica ao conceito amplo de cultura, como conjunto de hábitos,
costumes e visões de mundo de uma sociedade. Para Nelson Werneck, ele
tira o foco das questões essenciais e destaca o subjetivo. A consequência é
que a sociologia que parte da visão ampla de cultura deixa de prestar atenção
nos reais problemas da sociedade; problemas esses que estariam inscritos
na dinâmica socioeconômica. Para o autor, o conceito seria vazio por conta
de sua amplitude e, ao querer falar de tudo, não explicaria nada. Nelson
Werneck Sodré enfatiza que as ideias não surgem espontaneamente, mas
estão condicionadas a uma materialidade, qualquer tentativa de entendê-las
em uma chama subjetiva ou espontânea seria por isso mesmo errado.
Na quarta parte do texto, o autor faz uma crítica que o aproxima de
Guerreiro Ramos, pois ele vê a cópia pura e simples de modelos externos
no fazer científico como expressão da condição colonial do brasileiro, em
compreensão próxima ao que Guerreiro Ramos chamava de “sociologia
enlatada”45. Nelson Werneck entende, assim como o outro autor, que o
transplante não é ato de vontade, mas está circunscrito nas condições histó-
ricas que se apresentam em determinado tempo. Por outro lado, criticar as
ideias só por serem externas também estaria errado, pois existem algumas
que carregam a universalidade em si. Essa ressalva do autor não poderia
ser mais pertinente, uma vez que ele se considera parte de uma escola de
pensamento que não é brasileira.
No que diz respeito às ideias exógenas equivocadas, são as que sob
o signo da cientificidade justificam a lógica de dominação colonial ao
qual o Brasil era submetido. Suas expressões estariam nas questões de
raça, determinismo climático e geográfico, vocação agrícola do Brasil e
44 
SODRÉ, Nelson Werneck. Elaboração da cultura nacional. In: Introdução à revolução brasileira. 2. ed. Rio de
Janeiro: Civilização brasileira, 1963. p. 115-142; ______. Formação histórica do Brasil. 4. ed. São Paulo: Brasi-
liense, 1967.
45 
RAMOS, Alberto Guerreiro. A redução sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996. p. 105.

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impossibilidade da existência da democracia no País. Mas, para Nelson


Werneck, existira esperança, pois a ideologia do colonialismo estaria
morrendo. No fim do século XIX, teria começado a emergir uma classe
média e, nos anos 1930, os proprietários rurais teriam começado a perder
seu poder. A Revolução Brasileira deveria eliminar todos os resquícios
da condição colonial no País e permitir que ele fosse autônomo em sua
economia e, consequentemente, em sua cultura.
Em A ideologia do Colonialismo46, publicado pelo Iseb em 1961, o
autor faz uma história social e econômica da produção intelectual brasileira
buscando ver o quanto que os autores selecionados para a análise estariam
aprisionados pelas questões de seu tempo. Nelson Werneck concede certo
perdão pelos erros cometidos pela maioria dos autores, uma vez que as
condições objetivas do tempo em que escreveram não permitiriam que
eles pensassem diferente. Busca, ao mesmo tempo, ver o que de positivo
pode-se extrair das contribuições elencadas. Para a maioria dos autores,
Nelson Werneck defende um historicismo radical na análise das obras e
dos termos usados por eles; tudo deve ser posto no contexto em que foi
produzido, pois “Estabelecidas as condições sociais, é que se torna um
ato de vontade”47. Apenas um deles recebe somente críticas: Francisco
Oliveira Viana. Nelson Werneck dedica praticamente metade do livro a
criticá-lo sistematicamente. O motivo apresentado para tal é que Oli-
veira Viana seria a expressão do atraso que o Brasil precisa superar e, se
os outros intelectuais analisados fizeram o possível para a época em que
escreveram, o autor fluminense teria retrocedido as questões e estaria ele
mesmo atrasado em relação ao seu tempo.
O breve capítulo sobre o economista da colônia Azevedo Coutinho é
descrição de história econômica daquele momento, na qual o intelectual é
colocado como de direita no debate de sua época por ser contrário à auto-
nomia da colônia, mesmo após o avanço da revolução industrial. Segue-se a
ele José de Alencar que, para Nelson Werneck Sodré, inventou a literatura
nacional sob o signo popular. As limitações de seu trabalho se deveriam ao
contexto da época. O índio como figura que resistiu ao português e a não

46 
SODRÉ, Nelson Werneck. A ideologia do colonialismo. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos Brasile-
iros, 1961.
47 
Ibidem, p. 89.

238
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

inclusão do negro nas suas narrativas devem-se a uma questão de classe,


dado que o público leitor se encontrava na classe dominante que ostentava
não pertencer ao mundo do trabalho.
Silvio Romero teria partido de um conceito de ciência calcado nas
ciências naturais comum ao século XIX e, por isso, via o clima como deter-
minante das condições sociais, o tipo ariano europeu como mais avançado
e defendia a imigração europeia como forma de sanar os problemas sociais
do Brasil. Para Nelson Werneck, tudo isso seria expressão da ideologia do
colonialismo, pois esses preconceitos foram herdados da Europa. Os méritos
de Silvio Romero estariam em ele falar dos problemas de sua época e trazer
para a literatura brasileira um viés crítico, além de defender a participação
dos homens esclarecidos na solução desses problemas.
Já Euclides da Cunha teria acertado quando usou de sua intuição e
descreveu o que viu e teria se equivocado quando reproduziu a ideologia
do colonialismo na reprodução do que chegava ao Brasil como ciência de
sua época. Na análise de Nelson Werneck Sodré, o Brasil daquele momento
caracterizava-se por ser um país latifundiário e escravocrata, onde persis-
tiam relações feudais em seu interior, assim, resistindo às reformas vinda
da revolução industrial. Na segunda metade do século XIX, a indústria teria
começado a ser apreciada no Sudeste com a incorporação de novas técnicas e
transporte ferroviário. A adesão de Euclides da Cunha à causa republicana era
expressão das transformações materiais em sua época. A obra de Euclides, sua
formação como engenheiro e militar, o positivismo apreendido nos círculos
militares era, para Nelson Werneck, uma forma de defender a conservação
da ordem social e do progresso da humanidade ao mesmo tempo. Euclides
da Cunha teria visto o contraste entre a parte desenvolvida e o interior do
Brasil, onde o feudalismo teria assumido a forma de latifúndio. Teria sido um
acerto do autor ver feudalismo em Canudos. Já os defeitos do autor seriam o
evolucionismo, a visão pessimista da mestiçagem e o determinismo geográfico,
tudo isso expressão da ideologia do colonialismo.
Se nos outros autores Nelson Werneck Sodré preocupou-se em
contextualizar e até escusar por conta do momento histórico que escreveu,
com Oliveira Viana ele não o faz. O tratamento recebido não é só de objeto
a ser analisado, mas de interlocutor, visto que suas ideias ainda estavam em

239
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vigor. Oliveira Viana é tido como racista defensor da raça ariana. Além
disso, ele careceria de método histórico e sociológico, suas descrições
seriam imprecisamente explicadas pela via psicologia social e análise da
cultura, e não pela materialidade. O livro Populações meridionais do Brasil
é visto por Nelson Werneck como mera expressão da ideologia colonial,
servindo apenas para afagar leitores que a defendem. Há ainda, segundo
Nelson, imprecisões de ordem geográfica, Oliveira Viana não teria conhe-
cimento dos ambientes os quais ele busca condicionar os tipos sociais que
descreve. Para Nelson Werneck, suas fontes são precárias e os sociólogos
que recorrem na sua época são superados. Do ponto de vista das questões
raciais, Oliveira Viana teria confundido o social com o genético e visto o
homem branco como padrão.
Sua antropologia se basearia em raças superiores e inferiores. Na
massa do sul, Oliveira Viana veria a herança do arianismo como causa do
fato de serem menos desordeiros, enquanto no norte e nordeste a massa é
arredia e caótica por presença de elementos racialmente inferiores. O fato
de o autor fluminense ter sido jurista é, para Nelson Werneck, chave expli-
cativa de muitos de seus defeitos. Nelson Werneck Sodré narra que, antes da
especialização, a sociologia e a história seriam reféns do direito, tendendo
por isso a considerar as instituições como formadoras da política, ao invés
da estrutura econômica, além de importar termos do direito e da história
romana para qualquer realidade. No caso de Oliveira Viana, isso estaria
presente em algumas categorias que ele usa, como colonato, clã e gleba.
Em Alberto Guerreiro Ramos, a organização histórica do pensamento
social e político brasileiro distingue-se bastante da feita por Nelson Werneck
Sodré, embora os autores selecionados às vezes sejam os mesmos e ambos
partirem do diagnóstico de que haveria uma expressão do colonialismo a ser
superado no Brasil também no campo da cultura. De início, cabe apresentar
que o próprio conteúdo dado ao conceito de ideologia é outro: se Nelson
Werneck parte de uma definição marxista, Guerreiro Ramos recorre a Man-
nheim. Este último apresenta a seguinte formulação em Ideologia e Utopia:
Todos os períodos da história contiveram ideias que trans-
cendiam a ordem existente, sem que, entretanto, exercessem
a função de utopias; antes eram as ideologias adequadas a este
estágio de existência, na medida em que estavam “organica-

240
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

mente” e harmoniosamente integradas na visão de mundo


característica do período (ou seja, não ofereciam possibili-
dades revolucionárias)48.
Partindo dessa concepção, Alberto Guerreiro Ramos buscará conso-
lidar uma ideologia que seja integrada às necessidades de seu tempo. Para
tal, o autor inclui-se como parte de uma tradição nacional-estatista e busca
organizar, para fazer uso de suas contribuições, o que poderia servir para
dar conteúdo aos esforços que ele quer realizar no presente. Esses esforços
davam-se no sentido da busca por Brasil autônomo – que se pensasse a
partir de sua realidade e de suas próprias categorias –, que no campo eco-
nômico buscasse gerir seu próprio desenvolvimento e no campo político
necessitaria de um Estado forte para conduzir esses esforços no sentido da
melhoria da qualidade de vida do povo.
Na “Cartilha brasileira do aprendiz de sociólogo”49, Oliveira Viana
será indicado como um dos autores que mais errou na compreensão sobre
o negro no País. O autor fluminense não teria entendido que, no País, negro
confundia-se com povo, sendo parte integrante dele, e não produto a ser
superado. Com exceção dessa referência negativa, Guerreiro Ramos difere
muito de Nelson Werneck Sodré no tratamento direcionado a Oliveira
Viana. Ao contrário de uma expressão vulgar da ideologia do colonialismo,
Oliveira Viana recebe o tratamento de primeiro sociólogo, propriamente
dito, do Brasil. No mesmo texto em que Guerreiro Ramos lamenta os erros
sobre raça cometidos, ele também chama a atenção para o equívoco que
foi não convidar Oliveira Viana para ensinar quando se começou a abrir
cursos de ciência sociais no país.

Inserindo-se na tradição de autores que tinham uma relação crítico


assimilativa com a ciência social estrangeira para formular uma sociologia
nacional, Alberto Guerreiro Ramos se vê como espécie de continuador do
autor fluminense, em uma linhagem muito parecida com a que organiza
Nelson Werneck Sodré: Silvio Romero, Euclides da Cunha, Alberto Torres
e Oliveira Viana. Em “O tema da transplantação na sociologia brasileira”50,
48 
MANNHEIM, Karl. Ideologia e Utopia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. p. 217. Tradução de Sérgio
Magalhães Santeiro.
49 
RAMOS, Alberto Guerreiro. Cartilha brasileira do aprendiz de sociólogo. In: Introdução crítica à sociologia
brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. p. 103- 214.
50 
RAMOS, Alberto Guerreiro. O tema da transplantação na Sociologia brasileira. In: Introdução crítica à sociologia
brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. p. 271-290.

241
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Visconde de Uruguai é colocado como o responsável por inaugurar essa


escola. Esses autores foram os que, na história das ideias no Brasil, teriam
se destacado por esboçar um pensamento vinculado à realidade nacional.
Visconde de Uruguai foi critico do transplante das instituições, e Silvio
Romero foi responsável pelo primeiro esforço de interpretação sociológica
do Brasil. Alberto Torres teve o mérito de buscar formar, via estrutura polí-
tico-jurídica, a nacionalidade brasileira, mas errou ao achar que ela podia
se formar artificialmente de cima pra baixo. Já Oliveira Viana consolidou
os esforços em uma interpretação original e sociológica do Brasil. Porém
Guerreiro Ramos critica a todos eles por não circunscrever a condição de
formação nacional à criação de um capitalismo local. Assim como Nelson
Werneck, Guerreiro Ramos considera um erro da parte de Oliveira Viana
atribuir o fracasso das transplantações a questões de costumes locais e cará-
ter nacional, do mesmo modo que concorda com a condenação da busca
das soluções em fatores superestruturais e psicológicos. Em suas palavras:
[...] na verdade, a transplantação no Brasil e nos países de
formação semelhante tem sido um fato normal e inevitável
decorrente da interação de fatores objetivos, em que res-
saltam os econômicos, os quais foram negligenciados por
aqueles autores.51
Em “Notas para um estudo crítico da sociologia no Brasil”52, o autor
submete a história à possibilidade de autonomia dos povos, ressaltando
que apenas sob condições objetivas é possível um esforço de teorização
que altere o quadro nacional:
A compreensão objetiva de uma sociedade nacional é resul-
tado de um processo histórico. Não salta da cabeça de nin-
guém, por mera inspiração ou vontade, nem é epistemolo-
gicamente possível, na ausência de certos fatores reais.”53

Para o autor, a situação colonial para manutenção da exploração


econômica alia-se a outras formas de dependência como a assimilação
e aculturação, e nesse quadro o colonizado tem condições limitadas de
identificação com a sua circunstância histórica imediata e, por isso, adota
51 
Ibidem, p. 282.
52 
RAMOS, Alberto Guerreiro. Notas para um estudo crítico da sociologia no Brasil. In: Introdução crítica à
sociologia brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. p. 35-48.
53 
Ibidem, p. 35.

242
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

critérios exógenos que não condizem com a sua realidade. O papel do soció-
logo seria o de se entender em uma tradição para avançá-la, justamente o
que Guerreiro Ramos tenta fazer.
Na palestra dada em 1955, na Faculdade Nacional de Filosofia,
publicada sobre o título de “Esforços de teorização da realidade nacional
politicamente orientados de 1870 aos nossos dias”54, Alberto Guerreiro
Ramos vai ampliar sua história do pensamento brasileiro para pensar não
só a formação de uma sociologia nacional, mas para explicitamente extrair
dela uma teoria política para a nação. Nele, o autor parte dos conceitos de
Idealismo orgânico e Idealismo utópico para discordar de Oliveira Viana
e dizer que o idealismo utópico nem sempre foi decorrência da imitação;
porém, para Guerreiro Ramos, elas estiveram quase sempre aliadas às ten-
dências positivas da evolução da sociedade.
São essas tentativas de teorização da realidade nacional “[...] orien-
tadas no sentido de possibilitar sua melhor conformação ou de dominar
o processo de crescimento da sociedade nacional.”55 que ele dedica-se a
expor. Para Guerreiro Ramos, seria preciso extrair seu significado no
momento em que ocorreram, porque as tentativas de teorização política
no Brasil refletiam o grau de consciência possível em cada momento. Posta
essa ressalva, ele diz que Republicanos de 1870 e os positivistas não viram
as contradições econômicas de sua época e exprimiram as aspirações de
estratos superiores da classe média. Tal estrato da classe média, aliado com
o processo de expansão industrial exprimia o processo de desenvolvimento
da sociedade nacional. Contudo, o movimento positivista teria sido o
primeiro a colocar a teorização como fundamental para formular a ação
política, e Silvio Romero mereceria os louros por sempre ter se esforçado
para respaldar sua ação em uma teoria da sociedade brasileira. No fim da
palestra, o autor conclui qual o rendimento de todos esses processos para
a política em seu presente:
O golpe de 1889; Sylvio Romero, no período republicano; a
Campanha Civilista de Rui Barbosa, em 1910; os movimentos
revolucionários de 1922 e 1924; a Coluna Prestes e 1930

54 
RAMOS, Alberto Guerreiro. Esforços de teorização da realidade nacional politicamente orientado, de 1870
aos nossos dias. In: Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. p. 79-102.
55 
Ibidem, p. 80.

243
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

são marcos da revolução da classe média contra a burguesia


latifundiária e mercantil.56

Ou seja, o interesse para Guerreiro Ramos, ao analisar o decorrer


das ideias políticas no Brasil, é compreendê-las em seu tempo e o papel
que desemprenharam nele. Com isso ele busca vê-las como progressistas
na medida em que teriam buscado afastar o Brasil dos interesses arcaicos
da sociedade representados pelos latifundiários contrários a formação de
uma indústria nacional autônoma.

CONCLUSÕES

Os dois autores aqui analisados possuem convergências e divergências


em suas análises. O que os une é o fato de partirem de uma metodologia
historicista para a interpretação do País e dela derivarem um projeto político
em bases nacionalistas para o mesmo. A análise do conceito de história e
a concepção da mudança social construídas pelos autores fundam-se em
perspectiva nacionalista por razões epistemológicas e de natureza estru-
tural que legitimam a construção de seu projeto político antioligárquico
e anti-imperialista, cujas raízes remetem aos autores dos anos de 1930. O
nacionalismo de Guerreiro Ramos e Werneck Sodré funda-se em perspectiva
política, de resistência e libertação nacional, e baseia um projeto democrático,
cujo povo seria o protagonista. A análise da história das ideias feitas por
cada um denota como os dois partem de um olhar histórico que valoriza o
passado intelectual do País buscando para então extrair um conhecimento
útil para atuação na realidade do presente.

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56 
Ibidem, p. 98.

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247
Capítulo 9

O ESTADO NEOBISMARCKIANO NO
PENSAMENTO DE HÉLIO JAGUARIBE

Angélica Lovatto

INTRODUÇÃO

O cientista político Hélio Jaguaribe tematiza em sua obra a questão


do Estado e, em particular, a questão do Estado nacional. Normalmente
identificado apenas com o período de sua produção teórica no Iseb – Ins-
tituto Superior de Estudos Brasileiros (1955-1964)1, o autor registra larga
contribuição para a Ciência Política, antes e depois do regime militar de 1964
a 19852, sempre tematizando o desenvolvimento brasileiro e sua relação com
a superação do que seria um estrangulamento político em nossa formação
nacional – que denomina de Estado cartorial – propondo sua substituição
por um Estado funcional. Numa palavra, por um Estado neobismarckiano.
A defesa de um Estado neobismarckiano é a consumação do conceito
de ideologia nacionalista de Hélio Jaguaribe. O termo origina-se do bis-
marckismo, fenômeno relativo à atuação de Otto von Bismarck (1815-1898)
no processo de unificação da Alemanha, quando foi primeiro ministro do
governo monárquico de 1862 a 1890. Jaguaribe fazia referência ao fato de
que tanto a Alemanha quanto a França, no curso do século XIX, tinham
procurado superar, pela ação do Estado, os obstáculos que se opunham
ao desenvolvimento econômico e à industrialização. Nesse sentido, os
dois grandes personagens históricos teriam sido Napoleão III e Bismarck.
O autor considera a ação de Bismarck mais completa e consistente do
que a de Napoleão. Por isso, prefere o uso do termo bismarckismo ao de
1 
Hélio Jaguaribe encerrou suas atividades no Iseb em 1959 e continuou a desenvolver estudos e pesquisas no
Brasil e no exterior sobre questões de desenvolvimento econômico e desenvolvimento político.
2 
Para uma visão abrangente da obra inteira de Hélio Jaguaribe, consultar LOVATTO, 2016.

249
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

bonapartismo,3 para referir-se à intervenção do Estado para a promoção


do desenvolvimento. Para ele, esses conceitos transcendiam o contexto his-
tórico em que tiveram sua gênese, assumindo o sentido de um protótipo. O
termo bonapartismo, cunhado por Marx em O 18 Brumário de Luis Napoleão,
designava, para Jaguaribe, “o exercício pelo Estado, mediante um executivo
forte, de uma arbitragem entre as classes e forças sociais que assegura as
condições de estabilidade necessárias para a promoção do desenvolvimento
sob a liderança da burguesia”.4
Para entender o sentido e o significado do bismarckismo, nos moldes
teórico-políticos em que Jaguaribe constrói o conceito, é necessário recu-
perar o que o autor define como “socialização do capitalismo”, concepção
construída nos anos 1960 a partir daquela divisão típica da chamada Guerra
Fria, cuja divisão internacional do trabalho colocava em campos opostos
os países do bloco capitalista – e a respectiva liderança dos Estados Unidos
da América – com os países do bloco socialista, sob comando da União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas.

SOCIALIZAÇÃO DO CAPITALISMO E SUAS CONSEQUÊNCIAS


SOBRE O ESTADO NACIONAL

A discussão em torno do “dilema” capitalismo versus socialismo apa-


rece constantemente no pensamento de Jaguaribe, já que as opções para o
desenvolvimento brasileiro não poderiam ser pensadas sem levar em conta
esse contexto que caracterizava a crise do nosso tempo.5 A posição defendida
era de que a marcha histórica do socialismo e do capitalismo teria levado
à conclusão de que “ambos os sistemas caminharam para uma grande con-
vergência”. Portanto “o debate clássico entre o capitalismo e o socialismo
perdeu qualquer sentido, porque nenhum dos dois sistemas coincide mais
com seus modelos tradicionais”. A despeito disso, “seria oportuno, sem

3 
Para eventuais aprofundamentos sobre o conceito de bismarckismo, consultar IANNI, 1971. E para eventuais
aprofundamentos sobre o conceito de bonapartismo, consultar BARSOTTI, 2002, 2009.
4 
JAGUARIBE, Helio. Desenvolvimento econômico e desenvolvimento político. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1962.
5 
Expressão utilizada por Jaguaribe desde os tempos de sua produção teórica nos Cadernos do nosso tempo, do
Ibesp – Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (1953-1955).

250
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

dúvida, renovar esse debate no plano das ideias e dos fatos que se tornaram
efetivamente vigorantes em ambos os sistemas”.6
Jaguaribe considera que o capitalismo caminhava para uma crescente
necessidade de socialização, enquanto o socialismo, cuja proposta girava em
torno da socialização, não a havia realizado. Mesmo assim,
[...] o desenvolvimento econômico-social da União Soviética
criou condições para que nela se formasse uma exigência de
privacidade que tende a refletir-se nas instituições político-
jurídicas daquele país e nas suas aplicações, acarretando
correspondentes mudanças na teoria socialista.
A evolução do capitalismo, por outro lado, “determinada pelos novos
modos de produção e pelas necessidades sociais que provocaram ou que
por meio de tais modos lograram impor-se, conduziu o capitalismo a uma
exigência crescente de socialização”7. A socialização do capitalismo defendida
por Jaguaribe é entendida como:
[...] reconhecimento de que todas as atividades sociais são
funções sociais e como tais devem ser reguladas, e entendida
como alargamento e radicalização das ideias e das práticas
da democracia, convertida no governo de todos por todos
e para todos, em função da capacidade de cada qual e das
necessidades coletivas8.

Esse resultado a que teriam chegado os dois sistemas é um produto


da análise que Jaguaribe faz acerca do que considerava seus modelos tradi-
cionais ou originários. O autor define-os tomando como referência o debate
histórico entre eles. Frente ao socialismo, o autor considerava que a mais
poderosa influência teórica vinha de Karl Marx, e que tal influência teria
relegado a plano secundário todas as outras escolas socialistas. Essa força
e importância teórica, bem como seu alcance prático, teriam se tornado o
modelo de socialismo. A crítica inicial feita pelo autor era que
[...] pelo fato de se haver convertido em uma escolástica, o
pensamento marxista se dogmatizou e seus textos clássicos se
carregaram de sacralidade, impondo uma forma de pensamento

6 
JAGUARIBE, Helio. Condições institucionais do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Iseb, 1958b. p. 86.
7 
Ibidem, p.87.
8 
Idem.

251
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

mais voltado para a heurística e a hermenêutica daqueles textos


do que para uma autêntica dialética da realidade9.

O primeiro problema histórico concreto enfrentado pela teoria socia-


lista teria sido a formação da União Soviética. Além disso, as modificações
econômicas, políticas, sociais e culturais que se verificaram no curso do
século XX também teriam contribuído para testar a validade do projeto
de Marx. Segundo Jaguaribe, com sua conversão à prática, “o socialismo se
foi afastando gradualmente, a despeito dos protestos de fidelidade a Marx,
de sua formulação original”10. Isso porque a formulação de Marx teria se
desenvolvido em meados do século XIX, quando então “emprestava alguma
validade histórica”11. Com o advento das transformações ocorridas no século
XX, porém, a teoria socialista de Marx teria perdido qualquer sentido, pois
não coincidia mais com as condições históricas nas quais havia sido gerada,
tornando-se ultrapassada e obsoleta. Esse era o principal argumento de
Jaguaribe no sentido de contestar a validade do marxismo.
Com relação à União Soviética, teria havido a percepção de seus
dirigentes no sentido de que a mais-valia não deveria ser suprimida. Ao
contrário, deveria ser aumentada a média da mais-valia social. A mais-valia
não seria senão o fenômeno da poupança social e, como tal, deveria regu-
lar a vida econômica do País; isto é, essa poupança tinha que ser aplicada
para o atendimento das necessidades sociais. O principal problema da
União Soviética era o de promover o seu desenvolvimento, já que “tanto
por causa desse esforço desenvolvimentista como por exigência interna da
lógica do regime, a principal atividade do Estado soviético passou a ser o
planejamento econômico”12.
Segundo o autor, esse objetivo teria sido atingido. A União Soviética
teria alcançado um extraordinário ritmo de desenvolvimento econômico,
tornando-se a
[...] segunda potência econômica e militar do mundo, habi-
tada por um povo de alto nível cultural médio, em que a
educação secundária passou a ser universal e obrigatória

9 
Ibidem, p. 76.
10 
Ibidem, p. 79.
11 
Idem.
12 
Idem.

252
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

e na qual se formam hoje mais engenheiros e técnicos que


nos Estados Unidos13.

Por isso mesmo, teria se instaurado ali uma democracia social, já que
tinham sido proporcionadas oportunidades de educação para todos os cida-
dãos, além de assistência médica, cultura e lazer.
Contudo, para Jaguaribe, o preço pago por esse desenvolvimento
havia sido o abandono dos objetivos iniciais propostos pela teoria socialista,
compreendido dessa forma:
[...] afastando-se, cada vez mais, dos modelos utópicos induzi-
dos da economia da Comuna, o socialismo soviético montou
um aparelho produtivo e administrativo fortemente centra-
lizado, no qual os comitês de fábrica e os sindicatos, longe
de determinarem o regime da participação operária nos
benefícios da produção ou de administrarem, coletivamente,
as empresas, se converteram em órgãos de fiscalização da boa
execução das normas e planos ditados pelo poder central14.
Esse preço teria sido ditado pelas necessidades de produtividade e
eficiência que resultou numa concentração de poder, dada a hierarquização
crescente sob comando único, gerando, inclusive, poderes ditatoriais, como
teria sido o caso de Stalin.
Com relação ao sistema capitalista, Jaguaribe fazia uma diferenciação
entre o capitalismo que se desenvolveu no século XIX e aquele que vinha
se desenvolvendo no século XX. O primeiro seria o capitalismo manches-
teriano, ou seja, o que havia transitado do capitalismo mercantil. Esse tipo
de capitalismo caracterizava-se por uma baixa produtividade, dadas as
limitações iniciais da tecnologia. Consequentemente, exigia baixos salários
e levava ao desemprego constante, porque o deslocamento dos excedentes
demográficos do campo para a cidade, tornavam a mão de obra abundante e
barata. Tanto é que, no fim do século XIX, esse capitalismo teria suscitado a
necessidade do imperialismo colonial. Esse tipo de organização da produção
justificaria plenamente as críticas que sofreu, porém apenas até o fim do
século XIX. O autor afirma que

13 
Idem.
14 
Idem.

253
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

[...] esse quadro do capitalismo, que foi o conhecido por Marx,


e que permaneceu [...] como o modelo abstrato sobre o qual
recaem as críticas do socialismo, experimentou, a partir dos
fins do século XIX e, particularmente, depois da I Guerra
Mundial, profunda transformação, com a irrelevante exceção
das áreas que se conservaram particularmente subdesenvolvi-
das, embora nessas regiões o processo econômico-social seja
menos o do capitalismo que o do semifeudalismo colonial15.

Essa mudança teria decorrido de dois fatores: a evolução tecnológica


e as próprias repercussões da ideologia socialista, que teriam suscitado
respostas diferenciadas do sistema capitalista.
Note-se que, segundo o autor, as regiões que haviam se conservado
particularmente subdesenvolvidas eram as que ainda não haviam alcançado
o seu próprio desenvolvimento capitalista. Desse modo, sua concepção
encaminhava-se no sentido de justificar que a nova forma alcançada no
século XX por esse sistema de produção guardava as possibilidades do pleno
desenvolvimento econômico. Estariam postas concretamente a produção
em massa e o baixo custo para um mercado crescente, o que significava a
elevação dos salários reais. Mesmo a presença do imperialismo colonial e sua
tendência em capturar novas fontes de trabalho, a fim de reduzir a ascen-
são dos salários, teria sido anulada em vista das inovações tecnológicas do
século; isto é, não teria permitido que, “por meio da mão-de-obra colonial,
se pudesse conservar o regime manchesteriano de trabalho”16. Jaguaribe
fundamenta e, ao mesmo tempo, justifica a exploração colonial, pois admite
a existência inicial de um imperialismo colonial, mas na sequência observa
que seus efeitos espoliadores teriam sido simplesmente anulados pelas
inovações tecnológicas do século XX.
Além disso, esses novos rumos da produção teriam provocado o
surgimento de um novo tipo de proletário, uma vez que
[...] convertido em consumidor, o proletário se reintegrou na
sociedade, passando a participar em escala crescente dos seus
benefícios e em termos cada vez mais igualitários. Difundiu-
se, assim, com a elevação dos salários reais, a capacidade de
poupança. E, gradualmente, a poupança social, representada

15 
Ibidem, p. 83.
16 
Idem.

254
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

pela acumulação, em grande escala, da economia das classes


assalariadas, se foi tornando mais importante do que a pou-
pança acumulável pelos capitalistas individuais17.
As figuras do capitalista e do empresário teriam se dissociado. Esse
fato é importante para os desdobramentos da construção teórica do autor.
Para ele, a gestão empresarial teria se convertido em atividade profissional
especializada, graças à superação do capitalismo machesteriano. Essa nova forma
de administrar a empresa e o novo regime de trabalho teriam marcado a
diferença entre o patrão do século passado e o “executivo” contemporâneo
e exprimiriam também a “vitória do proletariado sobre o regime mancheste-
riano do contrato individual de trabalho, que reduzia os salários ao nível
da pura sobrevivência”18.
A conclusão acerca do capitalismo contemporâneo foi a de que
[...] deixou de ser o regime econômico destinado a maximizar
os lucros dos capitalistas para converter-se no processo pro-
dutivo da sociedade global, destinado a satisfazer às crescentes
necessidades de um consumo cada vez maior19.

A forma de Estado originada a partir daí teria necessitado não só


abandonar a postura de mero fiscal da propriedade e da liberdade con-
tratual, como feito com que se assumisse os encargos da gestão social da
economia, acentuando-se novamente a importância dada por Jaguaribe à
intervenção do estado: “a democracia política se converteu também em
democracia social”20. O capitalismo teria se convertido, na concepção do
autor, numa tendência a um regime pleno já que proporcionava democra-
cia social sem ausência de liberdades políticas, o que não acontecia com o
socialismo da URSS.
A partir dessa análise do processo histórico construída por Jaguaribe,
pode-se caracterizar a razão segundo a qual o autor considerava que esses
dois sistemas – capitalismo e socialismo – caminhavam para uma grande
convergência. O resultado com que os dois sistemas defrontavam-se era a
necessidade de uma mediação entre o privatismo e estatismo, uma vez que

17 
Ibidem, p. 84, grifos meus.
18 
Ibidem, p. 85, grifos meus.
19 
Ibidem, p. 85.
20 
Ibidem, p. 86.

255
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

[...] a rigor, não há mais países capitalistas e países socialistas.


Todos são socialistas, enquanto reconhecem, conforme já
se disse, que as atividades sociais são funções sociais e por
isso devem ser reguladas. E todos são capitalistas na medida
em que necessitam preservar a acumulação capitalista para
manter e expandir seu desenvolvimento, assegurando, para
esse efeito, os estímulos individuais necessários, notadamente
os econômicos21.

Isso teria ocorrido com os dois maiores representantes de cada bloco


hegemônico: União Soviética e Estados Unidos.
Diante desse contexto mundial, qual deveria ser a melhor opção para
os países em processo de desenvolvimento? Consequentemente, qual seria
o melhor caminho para o Brasil?
A preocupação de Jaguaribe, ao tentar responder essas perguntas, é a
de que a tendência que havia se acentuado para os países subdesenvolvidos
era o aceno da proposta socialista. Isso porque, esses países, ainda submersos
num estágio muito atrasado de sua economia, teriam visto nesta proposta
a saída mais rápida para seu desenvolvimento. Ele afirma que:
[...] verificamos como o socialismo, contrariamente às previsões
de Marx, tendeu a instaurar-se nos países mais subdesenvolvi-
dos, ao passo que se tornou patente que os países plenamente
desenvolvidos encontraram, nas formas contemporâneas do
capitalismo, o regime mais adequado às suas necessidades22.
Raciocinando nessa lógica, restaria como ideal para o Brasil a opção
socialista, em função da maior velocidade que o processo de desenvolvimento
poderia atingir. No entanto Jaguaribe vai se preocupar em demonstrar o
contrário, batizando a melhor saída a esse dilema na sua proposta inter-
mediária de socialização do capitalismo.
A socialização do capitalismo seria uma tendência que o autor conside-
rava crescente no capitalismo contemporâneo em função de uma acumu-
lação capitalista sem precedentes, que gerava uma grande poupança social
e, consequentemente, uma renda per capita correspondente. Isso porque
“a função empresarial do capitalismo contemporâneo é um socialismo obje-

21 
Ibidem, p. 88.
22 
Ibidem, p. 92.

256
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

tivado”23. A fim de entender melhor a gênese desse seu conceito, vamos


nos remeter a um texto escrito ainda no Ibesp, quando essa tematização
surge pela primeira vez. Estamos falando de seu artigo “A crise brasileira”,
de 1953, publicado nos Cadernos do nosso tempo.24

A CRISE BRASILEIRA E O ESTADO NEOBISMARCKIANO

Para Jaguaribe, a crise brasileira estava inserida na crise do nosso tempo.


Esta última tinha como pressuposto a decadência processada nas institui-
ções liberais e democráticas e no próprio capitalismo, situação que estava
agravada pela presença do socialismo que, mesmo antes de se efetivar, teria
entrado também em crise. Ao mesmo tempo, afirmava o autor que rejeitasse
a ideologia democrático-burguesa não conduziria necessariamente a optar
pela ideologia socialista. Sua intenção era esclarecer o que era capitalismo
e o que era socialismo. Esse entendimento estaria sendo “prejudicado pela
imaginária univocidade atribuída a tais ideias ou fenômenos. De tal uni-
vocidade não se exime o próprio marxismo, a despeito da historicidade
dialética do pensamento de Marx”25.
Para o autor, o que havia de comum na historiografia contemporânea
era o entendimento de que o processo histórico era objetivamente condicio-
nado. Todavia, para os marxistas, esse condicionamento seria econômico,
e para os idealistas o condicionamento decorreria do processo dialético do
espírito. Sua posição teórica situava-se entre essas duas correntes, ou seja,
era aquela que congregava os que “admitem uma multiplicidade de planos
e distinguem condicionantes reais e ideais, além de admitirem, como causa
eficiente, a intervenção da liberdade e do acaso”26 e era exemplificada por
meio de dois pensadores: Jaspers e Schumpeter. Foi com essa base que Jagua-
ribe fundamentou seu conceito de socialização do capitalismo. Analisando o
processo histórico do Ocidente, observou que teria havido uma tendência
à coletivização dos meios de produção e fundamentava:

23 
Idem, grifos meus.
24 
Para maiores detalhamentos sobre essa publicação do Ibesp, ver SCHWARTZMANN, 1981; HOLANDA, 2016.
25 
JAGUARIBE, Helio. A crise brasileira. Cadernos do nosso tempo. Rio de Janeiro: Ibesp, ano I, n. 2, p. 120-160,
1953. p. 144.
26 
Ibidem, p. 146.

257
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Analisando esse problema, Jaspers, que é pessoalmente um


liberal, adversário de todas as formas coletivistas, reconhece
que o fenômeno da massificação conduz à socialização dos
meios de produção, como condição de possibilidade do que
ele denomina de aparelho de subsistência das massas27.

Jaguaribe assumia e justificava a posição de Jaspers, dizendo que,


em nenhum país contemporâneo, persistia o capitalismo puro, no sentido
inicial desse regime, que proclamava o mais puro liberalismo econômico,
condenando qualquer tipo de intervenção do Estado. O autor reforçava
teoricamente sua posição:
F. Schumpeter, em Capitalismo, Socialismo e Democracia – sem
dúvida um dos livros mais importantes de nossa época a
respeito de sua própria interpretação – indica como, embora
o capitalismo, no plano puramente econômico, possúa condições
para atender às exigências da sociedade contemporânea, há todo
um conjunto de fatores ideais e reais que tornam inevitável
a desprivatização da propriedade28.

Nesse sentido, argumentava sobre a tendência crescente de o comando


da produção transitar da iniciativa privada para a iniciativa pública. Adver-
tia, contudo, que, ao contrário do que pudesse parecer, essa tendência de
socialização não significava que esse processo levasse, necessariamente, à
instauração do socialismo, enquanto regime de produção.
Para essa demonstração, Jaguaribe diferenciava o conceito de socializa-
ção do conceito de socialismo. A socialização seria o processo real de conversão
da propriedade dos bens de produção de privada em pública, enquanto o
socialismo deveria ser tomado a partir de um projeto. O autor afirmava que
o socialismo só efetivaria uma socialização, caso lograsse constituir-se em
termos de eficácia social, fato que, até o presente – leia-se década de 1950
–, não havia se verificado e que, segundo o autor, teria grandes dificuldades
em se configurar, dado os problemas teóricos intrínsecos ao marxismo,
corrente de máxima referência desse projeto. Jaguaribe reconhece que o
marxismo era uma ideologia integral, isto é, dotada de uma completa cos-
movisão. Todavia, apesar de elaborar os pressupostos teóricos em que se
erguia tal cosmovisão, o marxismo estaria menos preocupado em apontar
27 
Idem.
28 
Idem, grifos meus.

258
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

os lineamentos necessários ao surgimento de uma sociedade ideal, do que


em criticar a sociedade capitalista. Esse era, para Jaguaribe, o grande erro
do marxismo, pois sua crítica tinha como base o capitalismo do século XIX,
que já teria sido superado pelo capitalismo do século XX.
Os acontecimentos do século XX teriam provocado o efeito de “divor-
ciar o processo de socialização da ideologia socialista, entendida esta última
como compreendendo as diversas formulações que giram em torno do
marxismo, com maior ou menor ortodoxia”. A esse aspecto, Jaguaribe atri-
buía a “profunda perplexidade ideológica em que se encontra o Ocidente”.
E continua em seu raciocínio:
Não é o descrédito do capitalismo que priva os países ociden-
tais de se orientarem de acordo com um projeto social apto a
mobilizar suas potencialidades. Este fenômeno já foi ressentido
nos últimos anos do século XIX e primeiros anos do século XX.

O problema estaria do fato de que “A essência da crise ideológica do


nosso tempo decorre do fato de a ideologia socialista que nos legou o século
passado ter, em maior ou menor grau, perdido sua validade antes de produzir
seus plenos efeitos”29.
Essa relativa perda de validade da ideologia socialista devia-se, “em
grande parte, à supervivência do capitalismo, numa situação tanto mais
crítica quanto, a despeito de tudo, continua se desenvolvendo o processo
de socialização”30. Notemos como para o autor o processo de socialização
só caberia, portanto, dentro da perspectiva capitalista. Sendo esta sociali-
zação aspecto fundamental para as possibilidades de desenvolvimento de
um país, podemos vislumbrar como essa concepção será determinante na
construção teórica de Jaguaribe, no tocante às alternativas apontadas para
o Brasil. Esse aspecto confirma-se quando o autor afirma que
[...] inserido na cultura ocidental e relacionado, de um modo
cada vez mais direto e concreto, com a problemática desta
cultura, o Brasil experimenta, como os demais países do Oci-
dente, a crise provocada pela desvalidação da ideologia socia-
lista, a despeito de um crescente processo de socialização31.

29 
Ibidem, p. 148.
30 
Idem.
31 
Idem.

259
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Como solucionar, portanto, o problema? O Brasil não poderia optar


pelo socialismo, já que o verdadeiro processo de socialização só ocorria no
capitalismo. Ao tentar optar por este último, o País defrontava-se com uma
situação econômica absolutamente adversa, num quadro de subdesenvolvi-
mento que não se resolveria a curto prazo. Portanto, o autor se encaminha
para a única saída possível – em sua proposta – que era uma solução de
ordem política: mudar o Estado Cartorial e substituí-lo por um Estado Fun-
cional. Mas que tipo de Estado devia ser esse? Um estado que combinasse
estatismo e privatismo, mediatizando os aspectos que levaram à crise do
capitalismo e à crise do socialismo. Porém, dado o subdesenvolvimento
brasileiro, o que se impunha era a necessidade de um Estado forte e auto-
ritário, única forma de acelerar no prazo devido a nossa industrialização,
fazendo prevalecer os interesses dinâmicos e modernos representados pela
burguesia industrial, portadora da representatividade e da autenticidade
ideológica, necessária para a promoção do movimento de ideias nacionalista
no Brasil, numa palavra, o Estado neobismarckiano.

ESTADO NEOBISMARCKIANO: FORTE, MAS LEGÍTIMO

O Estado neobismarckiano teria como principal função obstaculizar


qualquer força contrária ao desenvolvimento do País, portanto deveria
evitar o perigo de o Brasil optar eventualmente pelo socialismo, dado que
esse regime, ao propiciar de modo mais acelerado o desenvolvimento dos
países subdesenvolvidos que se entregaram aos seus destinos, havia se
convertido “numa solução possível para a promoção do desenvolvimento
econômico-social dos países que não lograram realizá-lo em regime ‘capi-
talista’”32. Dado que o Brasil não se configurava como um país de completa
realização capitalista, corria ainda o perigo de fazer outro tipo de opção.
Jaguaribe fazia uma advertência clara sobre isso, dizendo que
[...] no regime vigente, que é o do capitalismo possível nas con-
dições do nosso tempo e do nosso país, abre-se para a burguesia
brasileira a oportunidade histórica de promover o desenvol-
vimento econômico-social do país. Essa oportunidade tem
um prazo: o da atual geração33.
32 
JAGUARIBE, Helio. O nacionalismo na atualidade brasileira. Rio de Janeiro: Iseb, 1958. p. 97.
33 
Ibidem, p. 99, grifos meus.

260
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Mais uma vez aparecia a preocupação com o prazo que o desenvolvi-


mento brasileiro tinha a cumprir diante dos perigos que se avizinhavam. A
proposta de socialização do capitalismo – que aparece em sua obra apresen-
tando-se como neutra – se já continha elementos claros de uma opção de
fato pelo capitalismo, fica mais do que confirmada nesse momento de sua
argumentação. O autor conclamava, de forma decisiva, a burguesia brasileira
a cumprir seu papel, sem deixar dúvidas quanto à sua determinação já que,
[...] se essas condições não forem preenchidas, pela atual
geração, a burguesia brasileira perderá irremediavelmente
sua oportunidade histórica. E a comunidade brasileira, sob
o imperativo de realizar, a qualquer preço e de qualquer
forma, seu desenvolvimento econômico-social, será conduzida
a optar pelo socialismo, de uma forma tanto mais radical e
revolucionária quanto maiores hajam sido o tempo perdido
e o malogro da burguesia no cumprimento de sua tarefa34.
Conclusão: quanto maior o atraso e subdesenvolvimento, maior a
necessidade de se impor um Estado forte que levasse a burguesia brasileira
a cumprir o mais rapidamente possível seu papel político e econômico.
Demonstrando de forma cada vez mais clara a verdadeira opção
pelo capitalismo que o Brasil deveria tomar, o discurso de Jaguaribe não só
assumia contornos apocalípticos contra a instauração do socialismo no País,
como se revestia de uma declarada postura anticomunista. A defesa dessa
posição, que já havia sido apresentada em trabalhos anteriores de forma
embrionária, apareceu de forma mais consistente em O nacionalismo na
atualidade brasileira (1958), que tratava da polêmica em torno do monopó-
lio estatal do petróleo. Na seção dedicada à política externa que seria mais
conveniente ao Brasil, o autor chegou a defender que o Brasil reatasse suas
relações diplomáticas com a União Soviética, sem deixar de advertir que
[...] dado o relativo grau de desorganização interior de que
ainda se ressentem os países latino-americanos, precauções
especiais deverão ser adotadas a fim de evitar que uma política
exterior de ativo intercâmbio com os países do bloco soviético
possa revitalizar os partidos comunistas latino-americanos35.

34 
Idem, grifos meus
35 
Idem, p. 290.

261
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Jaguaribe afirmava que o debilitamento do comunismo internacional


– decorrente da desestalinização da URSS – havia agravado a relativa impo-
tência que caracterizava os PCs latino-americanos, além de ter acentuado
sua “notória incapacidade para a efetiva conquista do poder”36. Mesmo
assim, Jaguaribe adverte que isso não dispensava medidas de segurança
interna contra os PCs latino-americanos, sendo “indispensável mantê-los
na ilegalidade e adotar, por meio do mecanismo de segurança sul-ameri-
cano, uma coordenação da defesa da ordem pública e de severa repressão à
agitação comunista”37. Essas medidas se tornariam ainda mais prementes a
partir do momento em que o Brasil conquistasse efetivamente uma política
exterior própria, dado que se encontrava sob forte influência americana até
aquele momento. Nesse sentido,
[...] o PCB, a despeito dos inconvenientes, para o poder nacional,
que resultem de sua agitação nas massas, traz uma contribuição
positiva ao fortalecimento internacional do país, enquanto
este persistir sem política exterior própria, sujeito ao sate-
lismo norte-americano38.
Para Jaguaribe, nessas condições, o PCB era uma força nacionalizante
e anti-imperialista, embora trouxesse inconvenientes, em função da agitação
das massas que desencadeava, ocasionando o perigo do descontrole social.
Entretanto advertia que o PCB não deveria passar disso, e todos os cuidados
deviam ser tomados para que não lhe fosse atribuída outra importância, pois
[...] a partir do momento, no entanto, em que o Brasil, ado-
tando uma política exterior de independência e descompro-
metimento, reatar suas relações com a URSS e normalizar
seus contatos com o Leste, não precisará mais do contrapeso
do PCB e a sua segurança nacional torna aconselhável um
aumento da vigilância sobre o comunismo interno e sua adequada
contenção ou repressão39.

Resta agora identificar o conteúdo do nacionalismo defendido por


Hélio Jaguaribe que se traduz no projeto de um Estado neobismarckiano para

36 
Idem.
37 
Idem.
38 
Idem, grifos meus.
39 
Idem, grifos meus.

262
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

o Brasil. O autor demonstrava como o tratamento inadequado da divisão do


mundo em dois blocos afetava o desenvolvimento do nacionalismo brasileiro:
[...] em suas relações com os Estados Unidos e potências euro-
péias, o Brasil tem assumido posição quase sempre equívoca
e visivelmente precária. Isto porque, perturbados com a pos-
sibilidade de serem confundidos com o Partido Comunista,
os nacionalistas brasileiros ainda não foram capazes de fixar
os temas de nossa política externa40.

Em função de um suposto tratamento inadequado da questão, Jaguaribe


apontava a direção que o Brasil tinha que tomar, isto é, a opção que deveria
ser feita pelo nacionalismo brasileiro. Esse nacionalismo,
[...] com todas as suas implicações, constitui a questão fun-
damental com que ora se defronta o Brasil, cujo futuro será
decisivamente condicionado pelas opções que adotar, ante as
várias alternativas que nessa perspectiva se abrem para o país”41.

O cuidado a ser tomado estava justamente nessas alternativas, já que


o pano de fundo naquele momento continuava sendo a divisão do mundo
em dois blocos. Advertia Jaguaribe que,
[...] se o nacionalismo brasileiro, na adiantada etapa de mani-
festação em que já se encontra, não chegar a revestir-se de
uma formulação racional – a despeito de toda a margem de
irracionalidade que sempre perdura nos movimentos sociais – será
condenado à esterilidade do topicismo, sofrerá a fragmen-
tação de suas tendências e padecerá do efeito paralisante de
suas contradições42.

O autor relacionava este risco de esterilidade que o nacionalismo


corria com o perigo da manutenção da estrutura tradicional brasileira,
tendo como pressuposto a contradição entre o moderno e o arcaico. Jagua-
ribe conclamava o nacionalismo à modernidade, pois a controvérsia entre
o nacionalismo e as tendências que a ele se opunham era “essencialmente,
o debate entre as estruturas sociais vinculadas ao antigo regime produtivo
e as representativas do novo”43. As estruturas sociais representativas do novo
40 
Ibidem, p. 45.
41 
Ibidem, p. 7, grifos meus.
42 
Ibidem, p. 13, grifos meus.
43 
Ibidem, p. 33.

263
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seriam aquelas concentradas nos setores dinâmicos ligados à industria-


lização, tendo à frente a burguesia industrial. Assim, se o problema do
Brasil, como aponta Jaguaribe, era o subdesenvolvimento e sua respectiva
baixa produtividade, a solução deveria ser a instauração de um modelo
econômico conveniente a essa situação. Esse modelo, portanto, tinha
que estar nos moldes da edificação do capitalismo no Brasil, daí a classe
dirigente necessária ser a burguesia industrial. Para demonstrar isso, o
autor diz que
[...] o modelo econômico conveniente será aquele que tire o máximo
partido da especialização do país, no quadro da repartição
internacional do trabalho, compatível com o máximo de
incremento de sua produtividade, mediante a mais acelerada
possível transformação de sua estrutura econômico-social e
a mais alta taxa possível de acumulação capitalista44.

Havia problemas, no entanto, que interferiam na constituição de uma


nova classe dirigente no Brasil, nos termos propostos por Jaguaribe, e ele
demonstrava consciência sobre esses problemas. Um deles seria o atraso
cultural, reflexo da situação econômico-social em que o Brasil encontrava-se
naquele momento e, consequentemente, os dois principais perigos aos quais
o País podia ser arrastado em função deles: a alienação cultural e o nativismo
primário. Esses pontos de estrangulamento cultural precisavam ser ultrapas-
sados, pois a alienação cultural só nos fazia valorizar o que vinha de fora do
País; e o nativismo, ao contrário, ficava preso às tradições mais primárias de
nossa cultura colonial, sem impulsionar a uma autoconsciência do processo
social do País. Essa mediação precisava ser realizada urgentemente.
Dessa forma, a preocupação do autor estava em que uma nova classe
dirigente “logre constituir-se e interferir a tempo” na realidade brasileira,
antes que se perdesse o controle sobre as possibilidades objetivas do desen-
volvimento do País, do ponto de vista da industrialização. Nesse raciocínio,
passava a chamar a atenção não só para a relação desta classe com o desen-
volvimento cultural, mas também com o desenvolvimento econômico-social
do País, ao afirmar que o destino do Brasil dependia “da formação de uma
nova classe dirigente, em todos os aspectos do termo, apta a situar-se à altura
de nossa época”. E dependia também

44 
Ibidem, p. 61, grifos meus.

264
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

[...] da medida em que essa nova classe dirigente logre consti-


tuir-se e interferir a tempo. A tempo de evitar que a situação
internacional, favorável, atualmente, por causa da divisão das
potências em dois blocos antagônicos, se modifique com a
afirmação de uma hegemonia mundial45.

Principalmente se essa hegemonia fosse a do bloco soviético, de


acordo com a lógica do discurso do autor.
O tom grave de todas as advertências, que explicitavam as posições
de Jaguaribe, completava-se na seguinte afirmação:
Daí o dilema que ora se apresenta ao nacionalismo brasi-
leiro e ao projeto de nação nele implicado: ou alcança uma
formulação mais consistente e suficientemente elaborada, e
determina o curso subsequente de nossa história, ou malogra,
desaparecendo, com seu insucesso, a condição mesma de o
povo brasileiro realizar uma história nacional46.

A história nacional, que só podia se realizar na perspectiva do capita-


lismo, dependeria da articulação e manutenção de um estado neobismarckiano.
Vejamos como essa necessidade apareceu no pensamento de Hélio Jaguaribe.

NEOBISMARCKISMO: CAMINHO PARA O NACIONALISMO


DESENVOLVIMENTISTA

A formulação mais acabada de Jaguarbe sobre o conceito de neobis-


marckismo aparece no livro de 1962, Desenvolvimento econômico e desen-
volvimento político. Em suma, como se anunciou em nossa introdução, a
defesa do estado neobismarckiano é a consumação do conceito de ideologia
nacionalista de Hélio Jaguaribe, demonstrando sua preferência de análise da
formação brasileira em referência ao processo prussiano e não ao processo
francês, com o bonapartismo.
Jaguaribe justificava sua preferência dizendo que, apesar do conceito
de bonapartismo não ter perdido validade para a análise política e social,
considerava o termo bismarckismo mais abrangente para o caso brasileiro,
visto que associava conotações que não cabiam no anterior e, além disso,
45 
JAGUARIBE, Helio. A filosofia no Brasil. Rio de Janeiro: Iseb, 1957. p. 51, grifos meus.
46 
JAGUARIBE, 1958, p. 14.

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ampliava a validez de seu emprego, não só para o plano político-social,


como também para o plano econômico e cultural. Segundo o autor, “o
bismarckismo, além de uma arbitragem entre as classes, é um dirigismo
nacional”. Isso porque, mais consistente que Napoleão III, Bismarck não
teria se deixado impressionar
[...] pela autoridade das teorias britânicas do internacio-
nalismo liberal e executou, frente ao desafio do expansio-
nismo de uma nação desenvolvida e poderosa, uma política
interna e externa de consolidação e de emancipação nacionais,
emprestando aos empresários alemães a ativa colaboração
do Estado para a promoção do desenvolvimento da Alemanha,
concebida como nação47.

Interessado em identificar as condições para a promoção do desen-


volvimento brasileiro, Jaguaribe afirmava que o neobismarckismo era o
modelo político mais adequado aos países em que o estrato dirigente fosse
a burguesia empresarial. Sua definição era a seguinte:
O bismarckismo, que melhor se diria neobismarckismo, para
acentuar seu ajustamento às condições contemporâneas,
é o modelo político consistente no exercício, pelo chefe
do governo, de uma arbitragem entre os estratos sociais,
baseada numa objetiva contabilidade social, que assegure o
máximo poder de investimento tolerável pela comunidade,
regulando o regime de participação de cada estrato de acordo
com sua efetiva capacidade política de reivindicação e assegu-
rando aos empresários nacionais a liderança na promoção do
desenvolvimento da comunidade, concebida como nação, de
acordo com a programação traçada pelo Estado48.

Nesse “modelo” estava firmemente estabelecida a hierarquia da


liderança na promoção do desenvolvimento – que ficava assegurada aos
empresários nacionais – sem, contudo, deixar de estabelecer que estaria
assegurada a participação aos demais estratos da comunidade. No entanto
essa participação estaria diretamente condicionada à sua capacidade polí-
tica de reivindicação. As condições para a conquista dessa capacidade não
foram tematizadas por Jaguaribe.
47 
JAGUARIBE, Helio. Desenvolvimento econômico e desenvolvimento político. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura,
1962. p. 23, grifos nossos.
48 
Ibidem, p. 68, grifos nossos.

266
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

A opção por um Estado neobismarckiano significava, na verdade, a justi-


ficativa na escolha de meios autoritários, porém necessários, segundo o autor.
Essa necessidade estaria pautada pela urgência na promoção do desenvolvi-
mento brasileiro. Países ainda subdesenvolvidos, como o Brasil só poderiam
“preparar seus planos de desenvolvimento através da escolha, por via autori-
tária, dos objetivos a alcançar e dos meios, em sentido amplo, para tal mais
adequados”49. O autor esclarece, no entanto, que, apesar de autoritária, essa via
não era “necessariamente ilegítima, no sentido legal do termo, nem despótica”50.
A mesma urgência que justificava a via autoritária de poder, autorizava
a necessidade do aproveitamento de investimentos estrangeiros no País sub-
desenvolvido, aspecto que se constituía num dos principais pilares do nacio-
nalismo de fins defendido por Hélio Jaguaribe. Seu argumento era o de que,
[...] defrontadas com gigantescas tarefas a serem realizadas
em prazos relativamente curtos, tais nações tendem a necessitar
de maciços investimentos estrangeiros para, completando sua
deficiente capacidade própria de investimento, manter uma taxa
mínima de crescimento compatível com a superação de seu
atraso econômico51.

Além do neobismarckismo – que seria o Estado ideal para o Brasil em


função de ser adequado aos países em que o estrato dirigente fosse a bur-
guesia industrial – haveria duas outras opções: o capitalismo de estado e o
socialismo desenvolvimentista, mas ambos seriam inadequados ao Brasil. No
primeiro caso, o capitalismo de estado seria “adequado aos países em que
é dirigente a classe média tecnocrática”. O socialismo desenvolvimentista,
por sua vez, seria apropriado
[...] aos casos muito especiais de países em que a espoliação
pelo estrato dominante e o seu obscurantismo condenam a
classe média à marginalidade e à clandestinidade, dela fazendo
surgir um contingente de revolucionários profissionais52.

No caso brasileiro, já teria ficado claro que o desenvolvimento só


poderia ser impulsionado pelo setor industrial da burguesia e o neobismarc-

49 
Ibidem, p. 45, grifos nossos.
50 
Ibidem, p. 46, grifos meus.
51 
Ibidem, p. 58, grifos meus.
52 
Ibidem, p. 709-71.

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kismo seria a “forma pela qual esta classe, sob a liderança de seus empresários,
tendia a instituir verdadeira representatividade política”53. Para coroar esse
processo, a medida prática que deveria ser tomada era “a organização de
um ‘partido do desenvolvimento’, comprometido, ao mesmo tempo, com os
interesses do empresariado e das massas. Esse partido, para superar a crise
social, exige uma liderança arbitral de tipo neobismarckiano”54. Essa é a opção
que Jaguaribe indica para o Brasil: a liderança que deveria arbitrar os conflitos
vinha dos empresários brasileiros e deveria ser de tipo neobismarckiano, vale
dizer, forte e autoritária para fazer valer os interesses modernizadores do
País, por intermédio de um partido do desenvolvimento. Este, por sua vez,
deveria ser o veículo da política ideológica, ou seja, da “ideologia desenvol-
vimentista nacional-capitalista”55. O autor exemplifica os momentos em que
esse tipo de articulação política teria se efetivado, citando
[...] a aliança, no Brasil, a partir de Vargas (1945), entre o
Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB), tendo apresentado, também, características
de arbitragem neobismarckiana o governo desenvolvimentista
do Presidente Kubitschek56.
Por essa razão, as duas correntes que dominavam o debate ideológico
sobre o desenvolvimento brasileiro seriam o cosmopolitismo e o naciona-
lismo. O cosmopolitismo sob duas variantes: a liberal e a desenvolvimentista.
E o nacionalismo também sob duas vertentes: a socializante e a desenvolvi-
mentista. A opção de Jaguaribe era a do nacionalismo desenvolvimentista, de
tipo neobismarckiano. Para justificar sua opção, combatia as demais vertentes
ao dizer que:
[...] enquanto, nos Estados Unidos, a posição liberal é enten-
dida como sendo a mais acentuadamente progressista,
próxima, sob certos aspectos, da concepção britânica do
socialismo, no Brasil, onde são totalmente distintos os pro-
blemas – por isso urge muito mais desenvolver a economia do
que distribuir a renda – a posição liberal é acentuadamente
reacionária. Diversamente, progressistas são as posições
desenvolvimentistas, cujo eventual favorecimento do inter-

53 
Ibidem, p. 83, grifos meus.
54 
Idem, grifos meus.
55 
Idem.
56 
Ibidem, p. 84, grifos meus.

268
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

vencionismo estatal, longe de ter o caráter agressivo das


liberdades que, tendencionalmente, lhe seria atribuído pelo
liberalismo norte-americano, constitui uma exigência de
eficácia do desenvolvimento57.
Com isso, o autor estava identificando a impossibilidade de um estado
liberal no Brasil, por isso defendia como alternativa possível ao desenvolvi-
mento do País a constituição de um Estado forte que assegurasse a construção
no prazo mais curto possível da modernização brasileira. Não era por acaso
que esse Estado precisava ter características neobismarckianas – inibidor
de manifestações dos estratos sociais – que ficavam sob o controle do chefe
de governo, atuando como árbitro para dirimir os conflitos sociais.
Mesmo assim, entre o cosmopolitismo desenvolvimentista e o naciona-
lismo desenvolvimentista, segundo sua própria classificação, Jaguaribe ficava
com o segundo, em função do cosmopolitismo não mediar devidamente
a intervenção do capital estrangeiro como fazia o nacionalismo desenvol-
vimentista, que era
[...] a ideologia típica das forças novas, que se acham identi-
ficadas com o processo de decolagem econômica do Brasil: a
burguesia urbana industrial, a classe média urbana tecno-
lógica, a classe média rural tecnológica e o proletariado não
cartorial, embora, na classe proletária, a adesão à ideologia
do desenvolvimento esteja subordinada à aspiração mais
premente pela redistribuição de renda58.

Jaguaribe citava os representantes das duas correntes para chegar


àqueles que foram os responsáveis no Brasil pela propagação do naciona-
lismo desenvolvimentista. É nesse ponto que entrava a trajetória intelectual
do próprio autor e daqueles que o acompanhavam: “Destaca-se, historica-
mente, na formulação inicial dessa tendência, a ação do chamado Grupo de
Itatiaia, que fundou, primeiro, uma entidade privada, o Instituto Brasileiro
de Economia, Sociologia e Política – IBESP”. Subsequentemente,
[...] o mesmo grupo, com a participação de novos intelectuais,
fundou, nos quadros do Ministério da Educação e Cultura,
o Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB – QUE
viria a ter uma influência decisiva na configuração das ideias e

57 
Ibidem, p. 202, grifos meus.
58 
Ibidem, p. 209, grifos meus.

269
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

forças ligadas ao nacionalismo desenvolvimentista59. Recorde-se


que esse é o primeiro texto de Jaguaribe publicado no Brasil
(1962) após sua saída do Iseb (1959). Se observarmos o des-
fecho histórico que se seguiu ao Iseb, com o advento do golpe
militar, em 1964, responsável pela extinção do instituto, a
influência decisiva citada por Jaguaribe fica um tanto deslo-
cada. Na verdade, o que vimos foi a eliminação do setor do
nacionalismo desenvolvimentista, defendido até a ocorrência
da intervenção militar. Porém, para entender essa colocação
de Jaguaribe, precisamos lembrar também que o Iseb teve duas
fases bem distintas,60 e que o golpe ocorreu já na segunda fase
do Iseb, aquela de posição mais marcadamente nacionalista no
sentido do acompanhamento do movimento pelas Reformas
de Base que caracterizaram o governo João Goulart.
Mesmo assim, se considerássemos o nacionalismo defendido na
primeira fase do Iseb, em que se encontra nosso autor, perceberíamos que
o intelectual que defende com maior ênfase a necessidade de um Estado
forte e autoritário, é mesmo Hélio Jaguaribe. Nesse sentido, sua produção
teórica não estava necessariamente descolada daquilo que acabou aconte-
cendo no País a partir do golpe militar. Entretanto seria um erro afirmar que
Jaguaribe fazia parte das forças que promoveram e efetivaram a intervenção
militar, mesmo considerando que, 10 anos depois, justificou a intervenção
das Forças Armadas sobre o governo Goulart. No entanto podemos dizer
que a centralização de poder do Estado de tipo neobismarckiano, que pro-
punha, só não estava ali contemplada em função do aparelho de Estado ter
sido ocupado pelos militares e não pela burguesia, como queria Jaguaribe.
Ele constatava a debilidade da burguesia brasileira e se afligia ao não a ver
assumir um papel político que deveria ser dela. O autor tinha consciência
disso, ou pelo menos, expressava objetivamente esta posição. Sua produ-
ção teórica foi, desde sempre, a tentativa desesperada de ser o instrumento
de esclarecimento da burguesia brasileira no sentido de convencê-la a tomar
parte no cenário histórico e realizar o papel que era dela. Entretanto 1964
mostra objetivamente como essa burguesia brasileira optou por “delegar”
o exercício do poder político, lançando mão dos militares. Delegando o
exercício político, a burguesia ficava inclusive mais livre para dedicar-se
exclusivamente à expansão de seus negócios.
59 
Ibidem, grifos meus.
60 
Para maiores detalhamentos sobre a primeira fase do Iseb, indico especialmente TOLEDO, 1982. Para uma
abrangência maior do tema do último Iseb e suas coleções editoriais, consultar LOVATTO, 2010.

270
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

ESTADO NEOBISMARCKIANO E GOLPE DE 1964

A posição de Jaguaribe no que diz respeito ao golpe de 1964 – e a


relação que esta posição tem com sua produção teórica é trabalhada a
partir de dois textos que demarcam a finalização de um dado ciclo de
suas propostas para o Brasil. São eles: o artigo “Brasil: estabilidade social
pelo colonial-fascismo?”, de janeiro de 1967, publicado em 1968, e o
livro, Brasil: crise e alternativas, publicado em 1974. Neste último há uma
posição bastante compreensiva e concordante com o ocorrido 10 anos
antes, com argumentações que justificavam a ilegitimidade do golpe. Até
porque, inicialmente (no texto de 1967), esse aspecto ilegal havia mere-
cido de Jaguaribe algumas críticas. Não há exatamente uma mudança de
posição entre o texto escrito em 1967 com o de 1974, há, ao contrário,
uma continuidade da lógica na qual esse acontecimento foi analisado pelo
autor. Jaguaribe talvez seja, dos pensadores com passado isebiano, o que
com maior realismo reconhece – e acaba diante das circunstâncias admi-
tindo – a necessidade de a burguesia ter que lançar mão dos militares no
exercício do poder em determinados momentos de seu desenvolvimento.
No primeiro texto, Jaguaribe falava do golpe em seu primeiro momento,
anterior ao chamado milagre econômico de 1973. No segundo texto, ele
faz suas análises já com os resultados do esgotamento do milagre. São
essas nuances entre os dois textos que serão demarcadas aqui, naquilo
que interessa estabelecer em relação ao Estado neobismarckiano.
Na medida em que um Estado forte e autoritário cabia perfeitamente
nas propostas de Hélio Jaguaribe para o Brasil, vamos aqui conhecer sua leitura
sobre o golpe de 1964 tentando identificar de que maneira esse acontecimento
tinha convergências, ou não, com sua produção teórica isebiana. Para Jaguaribe,
[...] o movimento militar que expulsou do poder o Presidente
Goulart, em abril de 1964, foi, originalmente, a expressão
de uma oposição muito generalizada a seu Governo, e que
adquiriu feição militante contra-revolucionária a contar do
término de 1963”61.
Para o autor, teria havido uma facilidade inesperada para essa interven-
ção. As primeiras tropas rebeldes tinham obtido adesão do resto das Forças

JAGUARIBE, Helio. Brasil: estabilidade social pelo colonial-fascismo? In: FURTADO, Celso. Brasil: tempos
61 

modernos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. p. 39.

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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Armadas, que assumiram pleno controle do País. Isso teria levado “o golpe
a uma rápida e cumulativa radicalização pela direita”. Esta radicalização
teria impelido o Exército, “na qualidade de núcleo das Forças Armadas, a
concentrar todo o poder nas mãos dos militares, como corporação”. Esses
fatos teriam reduzido
[...] a termos nominais ou secundários a participação dos
políticos que haviam tomado parte na contra-revolução anti-
Goulart – uma contra-revolução cônscia de seu significado
e inconformada com ele, que sentiu a necessidade vicária de
se autodenominar “revolução”62.
Como se vê, Jaguaribe reconhecia que a intervenção militar era uma
contrarrevolução que se fazia passar por “revolução” e que imprimia ao País
um ritmo para alcançar uma estabilidade social por meio do que denomina
de colonial-fascismo. Para chegar a essa caracterização, analisava Castelo
Branco como um governo que teria originalmente se reduzido aos termos
“simples e simplistas de um normalismo conservador de classe média e de
anticomunismo”, mas tinha sido oportunamente reformulado,
[...] e de forma muito aperfeiçoada, pelo novo Ministro do Pla-
nejamento, Roberto Campos. Simetricamente oposto a Celso
Furtado, Campos preparou para o regime Castelo Branco e
conseguiu levar à execução o modelo para a estabilidade social,
com forte propensão para se tornar um Colonial-Fascismo63.
O próprio controle integral do Estado pelos militares teria garantido
amplamente a estabilidade social na medida em que sua autolegitimação –
assegurada pelos Atos Institucionais – teriam constituído “o mais formidável
reforço do poder público central jamais experimentado no Brasil, resultando
em haver equipado o Governo com meios coercitivos dificilmente igualados
nos regimes mais autoritários”64.
Por meio desses meios coercitivos, eliminava-se o incômodo da resistên-
cia popular a quaisquer medidas que viessem a ser tomadas. Jaguaribe afirma
que, a partir disso, as diretrizes de Roberto Campos haviam se voltado para a
obtenção da estabilidade financeira, que pressuporia a estabilidade social para

62 
Ibidem, p. 40.
63 
Idem, grifos meus.
64 
Idem.

272
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

se efetivar com maior rapidez, pois o ministro “em sua tentativa de controlar
a inflação contava com a vantagem de não ser incomodado pelas dificuldades
mais comuns”, dado que “a severa ditadura militar eliminou a resistência da
classe operária, permitindo a redução dos salários reais dos trabalhadores”65.
Porém o problema central que preocupava Jaguaribe era a situação
em que se encontrava a burguesia brasileira. Fora do exercício político, essa
classe em verdade havia se colocado nas mãos dos militares e aceitava as
medidas desencadeadas pelo governo. Assustava-se pela recessão causada
pela política anti-inflacionária, mas preferia isso às tendências temerosas do
governo João Goulart, aceitando o “sacrifício de uma temporada de maus
negócios”66, do que o risco iminente de hiperinflação. Enfim, a burguesia
brasileira, em vez de estar presente no exercício político de um governo
forte e autoritário, como queria Jaguaribe, havia deixado essa função a
cargo dos militares, o que fazia com que esse poder político tomasse rumos
não necessariamente “controláveis”. Principalmente porque, nas mãos da
burguesia, um governo nos moldes propostos por Jaguaribe, de linha neo-
bismarckiana – mesmo atuando por via autoritária e forte – pressupunha
a conquista da legitimidade, que por sua vez, só poderia se efetivar com a
classe social mais autêntica e representativa – a burguesia industrial. Por-
tanto, 1964 não era o “Estado dos sonhos” de Jaguaribe, muito mais por
não estar a burguesia no exercício político, do que por ser um Estado de
caráter autoritário.
Embora dotado das características que o autor propunha para um
estado funcional em substituição ao estado cartorial, o estado montado em
1964 carecia da presença burguesa mais direta. Nessa medida, os deslizes de
ilegitimidade que começou a promover corriam por conta da classe média que,
[...] embora satisfeita por ter recobrado sua influência, ao
fim de algum tempo tornou-se a menos paciente. Ao seu setor
relevante, os militares, foi entretanto, conferido um razoável
aumento de poder aquisitivo e compensado por numerosas
outras vantagens resultantes de seu controle, agora completo
e inconteste, do aparelho governamental.67

65 
Idem, grifos meus.
66 
Idem.
67 
Ibidem, p. 40-41, grifos meus.

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O novo modelo econômico, posto em andamento sob a batuta de


Roberto Campos, tinha três pontas: a gradual desnacionalização da economia
brasileira pela perda de sua autonomia e endogenia; o completo engajamento
do Brasil com os Estados Unidos; e a ênfase atribuída ao capital privado e
à livre empresa. Neste particular,
[...] entretanto, em virtude da resistência dos nacionalistas
militares, a alienação de empresas de propriedade estatal não
pôde ser seriamente contemplada. O Governo foi mesmo
obrigado a reafirmar sua lealdade à Petrobrás e à política
de monopólio estatal do petróleo68.
A propósito da Petrobrás, Jaguaribe voltava a fazer considerações
sobre a situação em que o nacionalismo teria ficado sob o governo mili-
tar. Ele achava que, mesmo com a manutenção do monopólio estatal do
petróleo – baluarte nacionalista desde sempre – não se impediria a gradual
“desnacionalização da economia”, dado que
[...] a implementação tão bem-sucedida do modelo para a
estabilidade social, entretanto, não foi capaz nem de impe-
dir a formação de uma vigorosa oposição nacionalista de
extrema-direita, em alguns setores militares, nem tampouco
de superar as contradições intrínsecas daquele modelo69.
Teriam se formado, então, duas vertentes militares: os nacionalistas
de extrema-direita ou “linha dura” e a tendência colonial-fascista. Porém
os nacionalistas de direita70 nem eram “capazes de prevalecer de forma
duradoura sobre a tendência colonial-fascista nem tampouco a ‘linha dura’”
tinha possibilidades “de ser completamente liquidada enquanto o regime
conservar seu caráter militar”71. A afirmação e vitória, portanto teria sido
do colonial-fascismo, sem deixar de estar permeado pela tendência oposta.

68 
Ibidem, p. 41.
69 
Ibidem, p. 41-42.
70 
A formação desta tendência é assim indicada por Jaguaribe: “Como o nacionalismo era identificado com as
tendências esquerdistas, antes do golpe militar, os nacionalistas de direita no Exército puderam ser induzidos
a aceitar as diretrizes antinacionalistas como um recurso necessário para liquidar os esquerdistas. Entretanto,
uma vez instalado no poder um regime militar de direita, esse tipo de justificativa não mais poderia prevalecer
e os nacionalistas de direita começaram a se fazer ouvidos. Razões tácitas motivaram uma fusão de posições,
na ‘linha dura’, entre os ultradireitistas (que nem sempre são nacionalistas) e os nacionalistas de direita. Juntos
tornaram-se ao mesmo tempo ultradireitistas e nacionalistas. E quase conseguiram realizar um golpe dentro do
golpe, nas semanas que precederam o Ato Institucional nº2, de 27 de outubro de 1965” (Ibidem, p. 42).
71 
Ibidem, p.42.

274
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Mas, afinal, por que a denominação de colonial-fascismo? O modelo


para a estabilidade social, “quer em sua forma benigna do regime Castelo
Branco, quer em sua pura forma arquétipa de Colonial-Fascismo”, teria
conduzido à solução de alguns problemas brasileiros, mesmo à custa de
sua gradual desnacionalização. Isso não queria dizer, porém, que a longo
prazo não viesse a se inviabilizar. Para o autor, irremediáveis contradições
imanentes condenavam o regime e seriam de
[...] dois gêneros: uma afeta seu mecanismo interno, vítima
dos resultados da superconcentração de renda e poder por
ele gerada. A outra atinge a relação do regime com seu centro
metropolitano externo. Em outras palavras, uma resulta de
sua característica ou propensão “fascista” e a outra de sua
característica “colonial”72.
A indicação do esgotamento desse modelo era apontada por não ter
promovido a quebra dos laços “coloniais” que interceptavam o desenvol-
vimento brasileiro de fato. De novo não era a utilização pura e simples do
capital estrangeiro que emperrava, segundo Jaguaribe, esse desenvolvimento:
“no que se refere à contradição externa ou ‘colonial’ do modelo, o âmago da
questão” residia na “falácia da ‘complementaridade’ das economias desenvol-
vidas e subdesenvolvidas e da presunção, dela derivada,” de que o estímulo
externo podia, “mecanicamente, compensar a falta de dinâmica interna
de crescimento causado pelo congelamento do status quo”. Isso porque, o
modelo colonial-fascista visava “precisamente a impedir as mudanças sociais
que seriam exigidas para o desenvolvimento de uma economia autônoma e
endógena”73. É a crença de Jaguaribe de que o capital nacional poderia vir
a conquistar independência por meio do capital estrangeiro.
Sem esquecer que Jaguaribe faz essa análise em janeiro de 1967, portanto
antes do início do “milagre econômico”, percebemos que o autor tinha duas
tônicas: reconhecia que o colonial-fascismo tinha contradições irremediáveis
que não permitiriam sua manutenção a longo prazo; por outro lado, não dei-
xava de constatar que, mesmo à custa da gradual desnacionalização, promovia
“a resolução de alguns problemas”, como a inflação, pois teriam se registrado,
[...] portanto, grandes avanços em direção à estabilidade finan-
ceira, com a taxa de inflação reduzida, em fins de 1965, a cerca

72 
Ibidem, p.43.
73 
Ibidem, p. 44.

275
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

de 45% por ano, apenas metade do índice em 1964, embora


essa tendência sensivelmente tenha declinado em 196674.

E concluía sua análise enfatizando a inviabilidade do regime se man-


ter naqueles moldes, ao apontar que o setor industrial-urbano brasileiro
havia atingido uma complexidade não compatível com um regime militar
colonial-fascista de longa duração. Uma vez diluídos com o curso do tempo
[...] os temores que impeliram os setores mais progressistas
da burguesia brasileira e a classe média a se associarem às
forças reacionárias, impor-se-á de novo, inevitavelmente, à
transformação, assim no plano político como no socio-e-
conômico. Nessas circunstâncias, ou os militares terão de
restituir o poder aos partidos políticos – ainda que muitos
deles venham a se filiar aos mesmos – e às forças sociais por
eles marginalizadas, ou terão eles próprios de modificar, de
maneira essencial, o significado de seu regime75.
Tudo indica que os tais temores referidos por Jaguaribe foram se
diluindo crescentemente ao longo dos anos seguintes, a partir do modelo
traduzido pela alcunha de “milagre econômico”, no período de 1968 a 1973.
Os resultados provenientes desse modelo trouxeram um crescimento indus-
trial sem precedentes ao Brasil. Não é à toa que Jaguaribe, 10 anos depois
do golpe, justamente no período de esgotamento do “milagre”, voltaria a
analisar os efeitos do regime militar instaurado em 1964, no texto já refe-
rido, Brasil: crise e alternativas (1974), fazendo um conjunto de referências
mais “elogiosas”, embora na mesma base de análise, do que as dispensadas
ao regime militar no texto de 1967. Passemos, portanto, a apresentar a
análise construída no texto de 1974.
A ênfase dada por Jaguaribe, assim como por vários setores presen-
tes na vida brasileira naquele momento pós-milagre, foi a da necessidade
de autorreforma do regime. Autorreforma pedida veementemente nesse
momento, e não antes, na medida em que somente a partir de 1973-1974
o “milagre” passou a demonstrar objetivamente os problemas que desde
sua gestação indicavam seu esgotamento.
Mantendo sua posição de defesa de um estado neobismarckiano, por-
tanto forte e autoritário, o autor manifestava concordância com o desfecho
do Governo Goulart e o início do regime militar, com muito maior ênfase
74 
Ibidem, p. 41.
75 
Ibidem, p. 45-46.

276
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

do que aquela que havia caracterizado no texto de 1967. As ressalvas que ali
fazia – em relação ao fato de não ter sido a burguesia a assumir o exercício
político e as críticas feitas à ilegitimidade que os militares haviam imposto
naquele momento – foram reavaliadas. O dado novo que aparecerá nesse
texto é o de justificação da explícita ilegitimidade do golpe militar como
um “mal menor”, diante dos resultados promovidos pelo regime, vistos 10
anos após sua instauração. Jaguaribe vai fundamentar essa posição colo-
cando que, nos últimos anos do Governo Goulart, teria havido uma ampla
violação dos preceitos constitucionais, levada a cabo pela própria cúpula
do Executivo. E diz que a economia, por sua vez, achava-se à beira de um
completo colapso, com uma inflação na casa dos 100%. Ele descreve que
estaria em curso a eclosão de uma ditadura de esquerda:
Conspirava-se abertamente, nos círculos mais próximos ao
Presidente da República, para a implantação de uma ditadura
de esquerda, de consequências imprevisíveis. Era evidente que o
regime constitucional não subsistia mais e que as Forças Armadas
tinham de intervir imediatamente, enquanto ainda podiam fazê-lo,
para a preservação da ordem pública, na iminência de ser arras-
tada pelo colapso do regime ou derrocada pelas forças subversivas76.
Às “consequências imprevisíveis” de uma ditadura de esquerda, a
opção por uma ditadura de direita teria garantido – sem comprometer – o
processo de “ocidentalização” do Brasil, aspecto primordial em nome do
qual, para Jaguaribe, todos os sacrifícios valiam a pena.
Essa posição de Hélio Jaguaribe, que de imediato pode parecer estra-
nha a um ex-membro do Iseb – dado que o instituto foi extinto justamente
pelo golpe de 1964 – na verdade, é totalmente coerente com sua produção
teórica e postura ideológica e, ao contrário do que possa parecer, não é
uma descontinuidade de seu discurso presente no texto de 1967. Deve-se
atentar para o fato de que Jaguaribe constrói em sua teoria uma justificativa
extremamente lógica à manutenção de um regime despótico, porém legítimo,
neobismarckiano, como define. É nessa direção que acabará justificando a
ditadura militar de 1964 – mesmo nos períodos em que qualquer alegação
de legitimidade pareceria absolutamente fantástica – demonstrada pelo
temor do retorno do populismo do Governo Goulart. Este último, com
suas promessas demagógicas, teria criado uma expectativa inatingível para
as massas. Note-se que é em “defesa das massas” que o autor construiu a
justificação dos caminhos do golpe.
76 
JAGUARIBE, Helio. Brasil: crise e alternativas. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. p. 50, grifos meus.

277
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

REFERÊNCIAS

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Salvador: Instituto Caio Prado Junior, n. 1, p. 93-109, 2009.
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bonapartismo no pensamento marxiano. Tese (Doutorado em História Econômica).
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para o atraso e o progresso. Insight Inteligência, n. 75, Rio de Janeiro, 2016.
IANNI, Octávio. O ciclo da revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1971.
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JAGUARIBE, Helio. A filosofia no Brasil. Rio de Janeiro: Iseb, 1957.
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JAGUARIBE, Helio. Brasil: crise e alternativas. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.
LOVATTO, Angélica. Os Cadernos do Povo Brasileiro e o debate nacionalista nos anos
1960: um projeto de revolução brasileira. Tese (Doutorado), Programa de Pós-
Graduação em Ciências Sociais, 2010. São Paulo: PUC.
LOVATTO, Angélica. Jaguaribe em construção: uma leitura da política brasileira
em dois tempos. Insight Inteligência, n. 75, Rio de Janeiro, 2016.
MARX, Karl. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. 4. ed., Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1978.
SCHWARTZMANN, Simon. (Coord.). O pensamento nacionalista e os “Cadernos do
nosso tempo”. Brasília: UnB, Biblioteca do Pensamento Político Republicano, 1981.
TOLEDO, Caio. ISEB: fábrica de ideologias. 2. ed. São Paulo: Ática, 1982.

278
Capítulo 10

DOS TENENTES A MOSCOU: INFLUÊNCIAS


NACIONAIS E INTERNACIONAIS NA POLÍTICA
DO PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL NA
DÉCADA DE 1930

Angelo Remedio Neto

INTRODUÇÃO

O objetivo do presente capítulo é analisar as influências endógenas e


exógenas que influenciam a política do Partido Comunista do Brasil (PCB)
nos anos 1930, precisamente até o Levante de 1935. Não nos olvidando do
caráter internacional que o movimento comunista possuía na década de
1930, parece-nos também necessário determinar como a política nacional
também se faz presente no partido. O fim da década de 1920 e início da
década de 1930 é, sem dúvidas, o período de maior influência da Inter-
nacional Comunista (IC) sob a política PCB. Esse fato, entretanto, não
pode gerar uma negligência em nossa análise da política interna brasileira,
notadamente o Tenentismo, sob as fileiras do Partido e suas perspectivas
de revolução e transformação desta sociedade. O que buscaremos mostrar,
ao cabo deste trabalho, é justamente a preponderância de fatores internos
na formulação política do PCB ao período aqui tratado.
Examinando as heranças tenentistas que acabam por se inserir no
Partido Comunista do Brasil (PCB) faz-se necessário, inicialmente, caracte-
rizar esse movimento e suas motivações políticas e ideológicas. De antemão,
já afirmamos não ser nossa intenção fazer uma determinação rigorosa das
características do movimento que, nos anos posteriores à sua formação, verá
seus membros trilharem caminhos políticos e ideológicos extremamente

279
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

díspares e muitas vezes conflitantes. O que nos parece, no entanto, é que, por
mais que ideologicamente os diversos tenentes tenham trilhados diversos
caminhos e sua política tenha sido heterogênea em relação ao conteúdo, sua
forma de atuação manteve-se de alguma maneira constante em seus herdeiros
políticos. Aqui podemos afirmar que, apesar de 1935 e 1964 terem senti-
dos ideológicos situados em campos diametralmente opostos, em relação
à atuação das forças armadas, encontramos uma grande semelhança, isto
é, uma política moderadora, saneadora, intervencionista e rupturista da
ordem institucionalmente estabelecida. A tutela da democracia pelas forças
armadas não foi uma predominância que possa se enquadrar no espectro
político à direita ou à esquerda enquanto forma de atuação, e, se em 1964 foi
o campo autoritário o protagonista da atuação militar na política brasileira
esse resultado não deve significar um predomínio historicamente de direita
nas manifestações políticas das forças armadas. O interesse desse breve
estudo sobre o Tenentismo caminha no sentido mesmo de acreditarmos
que Luiz Carlos Prestes, ao ingressar no PCB em 1930, não passa por uma
grande ruptura em seu modo de agir politicamente. O Levante de 1935
mostra que a quartelada ainda era vista pelo agora dirigente comunista
como a maneira mais eficaz de se chegar ao poder no Brasil.
No plano externo, a Internacional Comunista nos é essencial para
compreender como o marxismo chega ao PCB. Como mostra Marly Vianna1,
no fim dos anos 20 e início dos anos 30, a IC passa por um período de forte
sectarização. Os Partidos Comunistas deveriam guiar-se pelo modelo bol-
chevique de partido de vanguardas. Os quadros do partido deveriam ser
depurados constantemente, a fim de livrar o partido de ideologias estranhas
ao comunismo. Uma formulação crítica e autêntica dos processos políticos
nacionais era proibida, devendo os Partidos Comunistas receberam a doutrina
oficial que ditava os rumos da IC, o marxismo-leninismo. Se Prestes se dá
conta dos problemas estruturais que o Brasil possui em seus anos de Coluna,
a Internacional é vista pelos novos comunistas brasileiros como uma política
que, se de um lado, ideologicamente respondia a seus novos anseios de acerca
da crítica aos limites da democracia liberal, representava uma convergência
na forma de se fazer política. Assim, para os tenentes brasileiros que aderem

1 
VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. 3. ed. São Paulo: Expressão
Popular, 2011.

280
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

ao comunismo, especialmente Luiz Carlos Prestes, o partido leninista de van-


guarda não será um instrumento estranho colocado em seu projeto político
apenas externamente, mas uma nova manifestação política a que se encaixa
sua concepção em relação ao movimento político de vanguarda.
Seguindo o trabalho de Gildo Marçal Brandão, que falará em “duas
almas do Partido Comunista do Brasil”2, ou seja, um partido que ora terá
predomínio em sua política de uma absoluta descrença em relação a qual-
quer possibilidade de desenvolvimento pacífico e institucional do Brasil
capaz de democratizar a sociedade brasileira e assim acreditará atingir a
democracia a partir da ponta do fuzil3 e de um partido que em momentos
buscará lutar institucionalmente por avanços políticos e sociais que consi-
dere significativos, acreditamos que estudar o Tenentismo e sua posterior
influência nos primeiros anos do PCB é capaz de nos mostrar as bases de
formação de uma política rupturista no desenvolvimento do movimento
comunista brasileiro.
Apesar de se referenciarem constantemente a Moscou e aos feitos dos
bolcheviques, o que veremos é um forte enraizamento da política dos comu-
nistas brasileiros no desenvolvimento político nacional. Se essa política de
negação de qualquer valor institucional à democracia será negada em alguns
momentos, como após o fim do Estado Novo, e afirmada em outros, como
no Manifesto de 1948, o que buscaremos, neste capítulo, é entender as bases
de formação dessa primeira política no desenvolvimento do movimento
comunista no Brasil. Com frequência, intelectuais de esquerda, que de alguma
maneira, em alguma momento, encontraram-se nas fileiras ou próximos do
PCB tendem a partir de uma crítica exacerbada à atuação do partido, bus-
cando exorcizar o que deu errado, para enfim descobrir o que seria correto.
Nessa tentativa, o quadro amplo da política passa a ser ignorado, o Partido
torna-se único responsável pelos seus atos e seus insucessos devem-se às suas
carências: de organização, teórica, política. Nessa linha, não raramente, ao se
tratar de 1935, o PCB é alcunhado de golpista. Ora, se o era, não era sozinho.
A Era Vargas (1930-1945) nasce e morre em golpes militares, tradição nacional
desde o golpe de 1889 que proclama a República. Trata-se de, sem ignorar o

2 
BRANDÃO, Gildo Marçal. A Esquerda Positiva: as duas almas do Partido Comunista – 1920/1964. São Paulo:
Hucitec, 1997.
3 
KONDER, Leandro. A Democracia e os Comunistas no Brasil. São Paulo: Graal, 1980.

281
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

desenvolvimento da política da IC, determinar a atuação do partido, a partir


das “tradições políticas e a mentalidade dos diversos setores, grupos e classes
que atuavam na sociedade brasileira à época”4.
O presente capítulo se dividirá em três partes. Em primeiro lugar,
buscaremos desenvolver as linhas gerais da política tententista e seus
princípios de atuação na política brasileira. Em segundo lugar, trataremos
do que poderíamos chamar de “descoberta” do Brasil feita pela Terceira
Internacional (IC) e como esta influencia o desenvolvimento do comunismo
brasileiro e, por fim, buscaremos delinear as semelhanças e diferenças dessas
políticas e como se encontram dramaticamente em 1935.

A POLÍTICA TENENTISTA E A ESQUERDA MILITAR

O Tenentismo é conhecido historicamente como movimento armado


de jovens oficiais que se opuseram às forças oligárquicas que dominavam
a política brasileira durante a Primeira República (1989 – 1930). Nosso
objetivo não é estudar propriamente o movimento tenentista. Procuraremos
determinar a influência do movimento militar armado de esquerda, que se
inicia no Século XX, na formação das concepções do PCB sobre a socie-
dade brasileira, notadamente a partir da década de 30, quando Luiz Carlos
Prestes ingressa nas fileiras comunistas nesta terra. Parece-nos essencial,
portanto, para fins de análise, examinar primeiramente a ideologia e a ação
tenentista, visando a sua influência na formação do PCB.
Nossa hipótese inicial, a ser demonstrada, é o fato de que, por mais
que ideologicamente Prestes e o PCB passem a se aproximar a partir de
1928 da Internacional Comunista (IC) e de suas concepções acerca dos
países semicoloniais – onde se encaixava o Brasil –, essa ideologia exógena
à realidade brasileira é assimilada a partir de fortes bases endógenas for-
madas em um caráter outro. Não há de se negar a influência da doutrina
marxista leninista no PCB, mas de compreender como esta é recebida
por esse Partido no período aqui estudado. Vindo o Tenentismo de uma
forte influência positivista em suas bases teóricas, a aproximação da IC ao
movimento contestador brasileiro significará uma união de ideias muito

4 
VIANNA, 2011, p. 20.

282
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

singular de Augusto Comte e Karl Marx no Brasil. Nesse sentido, dirá João
Quartim de Moraes:
[...] a doutrina de Augusto Comte continuava a constituir
a principal referência intelectual do pensamento militar
brasileiro de então. Ao interpretá-la num sentido favorá-
vel à causa dos trabalhadores, o general Ximeno colocou o
progresso antes da ordem, ou, mais exatamente, concebeu
o progresso como condição para uma ordem que não fosse,
como a ordem vigente, uma desordem moral e social. O
grande interesse desta posição está em constituir um elo
original na evolução do pensamento de esquerda brasileiro.
Ora, foi justamente durante os anos 20 que se forjaram as
matrizes teórico-doutrinárias do PCB, a partir de uma dupla
e convergente evolução ideológica: a do movimento operário
do anarquismo ao bolchevismo e da pequena burguesia radical
do positivismo para o marxismo. A explosiva aproximação
da esquerda militar – prestista mais do que tenentista – com
a esquerda comunista constituiu, no plano intelectual, uma
aproximação entre Augusto Comte e Karl Marx5.

Por outro lado, em termos de ação, muito parece ter sido incorporado
pelo PCB na década de 1930 das quarteladas que já se faziam presente no
desenvolvimento político do Brasil. As intervenções militares como mode-
radoras da disputa política civil já se mostravam presentes e, o Levante de
1935 indubitavelmente carrega essas características. Em um momento em
que a IC, em seu VII Congresso, fazia uma drástica virada em sua política,
alegando a necessidade de formação de frentes amplas e antifascistas com
todas as classes sociais que se opusessem ao crescimento da extrema-direita,
1935 foi-nos percebido como um evento marcadamente nacional, apesar
de suas fortes bases internacionais – anteriores à 1935, no que se refere à
Internacional Comunista. Buscaremos, aqui, determinar a influência do
tenentismo, em geral, e se deu sua vertente à esquerda, em particular, na
formação da política do Partido Comunista do Brasil.
O primeiro autor brasileiro a escrever sobre o Tenentismo foi Vir-
gílio Santa Rosa, em 1933, em seu célebre O Sentido do Tenentismo6. Em
sua análise, o autor faz uma interessante ligação entre o desenvolvimento
5 
MORAES, João Quartim de. A Esquerda Militar. v. 2. São Paulo: Siciliano, 1994.
6 
SANTA ROSA, Virgínio. O Sentido do Tenentismo. São Paulo: Alfa Omega, 1976.

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da economia brasileira a partir da abolição da escravidão e da independên-


cia, ainda no Século XIX, e suas consequências na formação da sociedade
brasileira em sua nova fase burguesa. Argumenta Santa Rosa que a história
republicana brasileira pode ser compreendida a partir da evolução da bur-
guesia nacional. Em primeiro lugar, a queda do Império fortalece a burguesia
nacional, única classe a desfrutar dos progressos materiais do início do
Século XX, em detrimento da então aristocracia agrária. Com um Estado
que agia de acordo com os interesses dessa classe social, “pouco a pouco,
com o andar dos anos, surgiu uma plutocracia brasileira, tênue e apagada,
como o nosso capitalismo e movendo-se numa estrutura constitucional,
inteiramente favorável aos seus sonhos de predomínio”7. Não há aqui uma
mudança estrutural na economia brasileira. A nascente burguesia apossa-se
das terras e inicia um novo ciclo de produção. O poder político e econômico
passa a se deslocar para São Paulo, notadamente concentrado nos latifún-
dios do Oeste Paulista, tendo o café como principal cultivo local. O tímido
desenvolvimento industrial brasileiro do início do século XX nasce atrelado
e dependente do capital agrário. Investir na formação de indústrias passa a
ser um dos sentidos do lucro desta nova burguesia rural.
Nos anos de 1920, entretanto, o Brasil passa por interessantes trans-
formações. Moraes, de maneira interessante, deixa claro o vício de origem de
Primeira República. Seus líderes aderem ao republicanismo sem um sentido
republicano, mas sim em uma perspectiva pragmática de se afastarem dos
mandos do poder central8. Em uma democracia formal extremamente restrita
à participações divergentes das oligarquias regionais, o liberalismo aqui é
encarado como uma excessiva autonomia local – com uma hegemonia do
mando local formada a partir da violência e de fraudes institucionais. O
ponto de virada da década de 20, porém, encontra-se no surgimento de novos
atores demandando por participação na vida política e cultural brasileira.
Em 1922 ocorre em São Paulo a Semana de Arte Moderna, um marco na
histórica cultural brasileira. No mesmo ano, é fundado em Niterói o Partido
Comunista do Brasil. O grande crescimento que perpassa São Paulo e Rio
de Janeiro passa a gerar uma sociedade mais diferenciada, classes médias
urbanas que passam a ter novas aspirações em relação à política nacional.

7 
Ibidem, p. 27.
8 
MORAES, 1994.

284
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

O operariado dessas cidades também almeja manifestar-se. Há aqui uma


conjuntura explosiva de um Estado fechando-se constantemente de um lado
– basta lembrar o predomínio de Estados de Sítio na década de 1930 –, e
uma sociedade demandando participar deste Estado, por outro. A questão,
para Marly Vianna, se daria pela falta de interesses do grupo dominante
em realizar qualquer mudança estrutural em nossa política. Se o Brasil
encontrava-se em uma posição periférica em relação aos países cêntimos
do capitalismo, é essa a posição que interessa ao grupo que se encontra no
poder, que possui seus ganhos dados majoritariamente pela exportação
de matérias primas9. Com a Crise de 1929, o desequilíbrio político que o
Brasil perpassa na década de 1920 soma-se a um desequilíbrio econômico
que atinge a burguesia agroexportadora.
Se a sociedade passava a se diferenciar em classes sociais e papéis a
desempenhar na estrutura econômica, essa diferenciação não se refletiu na
estrutura política. Ao contrário,
[...] todas as tentativas esboçadas pela pequena burguesia,
para conquistar posições de mando no quadro político-social
brasileiro, anularam-se de baque ante as resistências todo-po-
derosas dos interesses dos grandes proprietários de terras10.

O processo formação de uma sociedade e de uma cultura burguesa


no Brasil não foi amplo e nem hegemônico. Esse fato é um fenômeno
verificado apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, de um modo
geral. José Aricó, ao tratar do processo de modernização latino americano
no Século XX, mostra que ainda era forte na ideologia política ocidental,
pelo menos até a Revolução Russa, em 1917, de um progresso contente do
capitalismo, em um viés teleológico, que colocaria as demais sociedades no
mesmo patamar político, econômico e cultural das sociedades cêntricas.
Entretanto a América Latina
[...] se transformou velozmente numa vasta área de desagre-
gação social, que exacerbava tensões, desarticulava relações
sociais e adiava sine die a constituição daquelas nações bur-

9 
VIANNA, 2011, p. 28.
10 
SANTA ROSA, 1976, p. 29.

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gueses que o pensamento positivista Europeu [...] concebia


como resultado inelutável11.

Grandes centros urbanos que passaram por um desenvolvimento


industrial e passaram a ter uma sociedade mais complexa, como São Paulo e
Rio de Janeiro. Poderíamos afirmar que há pequenos bolsões de sociedades
burguesas rodeadas de um país ainda agrário e dominado por uma política
de coronéis. Sobre a política oligárquica, dirá Soares:
Insisto no caráter fundamental da relação entre infra-es-
trutura sócio-econômica e a superestrutura política. Desde
a República – e antes dela – encontramos constantes no
sistema político brasileiro: a) a dominação da política da
maior parte dos Estados por uma oligarquia; b) a realização
periódica de eleições, quase todas fraudulentas; c) a existência
de constituições estaduais.
[...]
Não foi por acaso que estas características predominaram
durante um período da Histórica Política Brasileira e não em
outro, nem foi por acaso que elas tenderam a declinar com
o avanço da urbanização e da industrialização, nem que o
declínio foi mais acelerado e completo nos Estados que se
urbanizam e industrializam mais rapidamente; tampouco
foi por acaso que sua influência foi e é maior nos Estados
menos urbanizados e industrializados.
[...]
A diferenciação sócio-econômica em classes, se transformada
em oposição política consciente pela ideologia, é incompatível
com a política oligárquica12.
A regra era um sistema político dominado pela “fraude eleitoral
crônica, a privatização da autoridade pública, açambarcarcada pelos
potentados locais, o controle do poder federal pelas oligarquias domi-
nantes de São Paulo e Minas Gerais”13. O crescimento e diferenciação
de uma pequena burguesia nos grandes centros urbanos, de um lado, e
11 
ARICÓ, J. O marxismo latino-americano nos anos da Terceira Internacional. In: HOBSBAWM, E. J. (Org.).
Histoŕ ia do marxismo. v. 8. O marxismo na época da Terceira Internacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. p. 421.
12 
SOARES, Gláucio Ary Dillon. Sociedade e Política no Brasil: desenvolvimeno, classe e política durante a Segunda
República. São Paulo: Difusao Européia do Livro, 1973. p. 28, 29.
13 
MORAES, 1994, p. 72.

286
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

a não abertura do sistema político eleitoral a esses elementos pela então


dominante burguesia agrária fez com que a luta armada se tornasse a
única possibilidade de mudança estrutural e efetiva na ordem política, de
acordo com Santa Rosa. Se, de um lado, “a pequena burguesia esperneava
sob o peso morto dum eleitorado plástico e obediente aos acenos dos
coronelões”; de outro, “tudo sumia e desaparecia na obstinação cega de
atender somente aos interesses oligárquicos”14.
É nesse contexto histórico que se conforma a formação do Tenentismo
no Brasil. Como aponta João Quartim de Moraes, influencia na formação
ideológica do Tenentismo o fato de as grandes cidades do Brasil perpas-
sarem um processo de crescimento industrial, ao mesmo tempo que no
âmbito internacional o Brasil sofria fortes constrangimentos dos bancos
ingleses. Inicialmente, como não poderia deixar de ser, sua ideologia não
era claramente formulada e elaborada. Representava, antes do que uma
nova proposição, uma reação à realidade então vigente. Essa particularidade
fez com que, no corpo do tenentismo, se abrigassem indivíduos que, em
um contexto político posterior, no qual o vago moralismo cedia espaço a
posições político-ideológicas, assumissem posições política diametralmente
opostas. Na década de 1920, entretanto, seus elementos não ultrapassam um
debate moralista de crítica aos políticos de uma maneira geral e pela defesa
de bandeiras institucionais que pudessem estabelecer no País um regime
efetivamente liberal: reforma eleitoral, reforma agrária, e um complexo
sentimento nacionalista e anti-imperialista. O fato é que “do dia 5 de julho
de 1924 (quando se iniciou em São Paulo o levante militar ‘tenentista’) em
diante, a carcomida República das oligarquias agrárias não cessou de ser
contestada por uma esquerda militar rebelde”15. Aqui Moraes não trata
esquerda como algo absoluto no tempo e espaço, mas como algo a ser inse-
rido como um parâmetro de análise em um determinado contexto político,
histórico e social. Em contestação ao regime oligárquico vigente, na cena
política brasileira da década de 1920, o Tenentismo estava à esquerda no
espectro político.
A Primeira República brasileira é marcada por um forte caráter
conservador e oligárquico. É norteada por um liberalismo que daria orgulho

14 
SANTA ROSA, 1976, p. 31, 32.
15 
MORAES, 1994, p. 31.

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a Spencer. Inegável o fato de que o liberalismo era mobilizado em favor


da autonomia estadual, que tinha como resultado o domínio da grande
propriedade sobre a política nacional, em detrimento de liberdades públicas,
igualdade de direitos, e demais cânones mobilizados pelo liberalismo em
sua formação revolucionária na Europa. Nessa política desagregadora e
dominada por verdadeiros clãs locais, “o Exército permaneceu o único
fator de poder essencialmente nacional”16. O Exército nesse momento não é
necessariamente um fator de democratização; mas, sem sombras de dúvidas,
é “um fator de afirmação do poder nacional por oposição à segmentação do
poder local/estadual do poder oligárquico”17. São os jovens oficiais brasileiros
o segmento social que no momento encontra capacidades de se unificar em
torno de interesses antioligárquicos. Não poderiam deixar de ser, contudo,
muito mais do que anti-ligárquicos, sendo extremamente difusas e confusas
suas demais posições. Nessa conjuntura de forte descontentamento:
Pouco antes da campanha a favor da modificação do Código
Eleitoral Brasileiro, as nossas oligarquias foram surpreendi-
das pela eclosão de movimento armados. Os anos de 22, 24
e 26 foram celebrizados por essas incessantes revoluções e
bernardas [...]. Faltava uma ideologia definida à subversão,
mas o seu caráter explosivo tornou-se patente aos espíri-
tos observadores. [...] as forças reais que se agitavam, fora
dos quadros políticos, eram as camadas novas da pequena
burguesia, que esperneava sob o peso das massas rurais. A
convulsão do ambiente de assentamento da questão facili-
tou um mal-entendido generalizado, felizmente em via de
esclarecimento com o processo da Revolução de 193018.
O agravamento das contradições no seio da oligarquia agrária fez com
que surgissem divergências em seu próprio meio. O forte domínio de São
Paulo e Minas Gerais também fazia com que o bloco no poder não fosse
totalmente homogêneo e imune à quebras. Essa divergência, até então em
estado latente, intensifica-se na sucessão presidencial de Washington Luiz.
A crise econômica que surge em 1929 é um fator desagregador de nossas
elites, que cada vez mais se colocam insatisfeitas politicamente com o domí-
nio paulista. Santa Rosa, enaltecendo esse fato, afirma que “a polarização
súbita das diversas oposições regionais, em torno do bloco coordenador
16 
Ibidem, p. 32.
17 
Ibidem, p. 73.
18 
SANTA ROSA, 1976, p. 40.

288
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

dos situacionistas dissidentes, provocou o fortalecimento instantâneo de


nossa vida partidária”19. A Aliança Liberal forma-se, agregando oligarquias
dissidentes e a nascente classe média e setores heterogêneos da sociedade.
Os dois grupos majoritários dessa Aliança, que posteriormente disputariam
os rumos do Governo Vargas seriam, entretanto, os Tenentes que aderem
ao processo revolucionário de 1930, de um lado, e a oligarquia dissidente,
de outro. Santa Rosa a vê como um avanço, mas ainda limitado. A preocu-
pação ainda se encontra no plano político, e não social, o que seria central
para o Autor. A pauta da Aliança Liberal se dá, inicialmente, por uma nova
coloração a um liberalismo decadente. A Revolução de 1930, assim, não
possui uma ideologia única que a domina. Antes, apresenta, de um lado, um
descontentamento e uma negação da ordem vigente para os elementos da
pequena burguesia, cuja principal expressão eram os tenentes e, de outro,
uma ruptura que se limitava ao plano político de oligarquias dissidentes.
Certamente, a moderação das forças armadas em relação à política
civil no Estado brasileiro não sei inicia com o movimento tenentista. Inega-
velmente, do mesmo modo, esse significou um aprofundamento desse modo
de agir nos militares brasileiros. Podemos dizer que 1935 e 1964 possuem
uma diametral diferença ideológica e de conteúdo. Seria ingênuo, no entanto,
acreditar que a intervenção militar na política brasileira é uma exclusividade
das forças conservadoras e contrarrevolucionárias. Luiz Carlos Prestes e o
PCB não participam de 1930, como veremos. A perspectiva, entretanto, de
tomar o poder a partir de revoltas militares, sem um amplo envolvimento
popular, permanece nos Tenentes que aderem ao comunismo. Apesar da
distância de Juarez Távora e Prestes em 1935, concordamos com Marly Viana
que esse evento foi algo “saudosista e anacrônico, embalada pela mentalidade
tenentista que ainda dominava significativos setores da sociedade”20.

O MOVIMENTO COMUNISTA MUNDIAL E O BRASIL

O Desenvolvimento do Partido Leninista

Um longo percurso permeia a obra Que Fazer? (1902) de Lenin e a


consolidação do partido bolchevique na Rússia revolucionária e a posterior

19 
Ibidem, p. 50.
20 
VIANNA, 2011, p. 36.

289
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hegemonia desse no movimento comunista mundial. Não foi um período


imune a contradições, em que teoria e prática desmentiam-se constante-
mente e questões centrais, como a autonomia do desenvolvimento político
do comunismo em cada país, sofriam avaliação ambíguas e contraditórias em
espaços curto de tempo – ou ao mesmo tempo. Em todas as modificações
que a ideia do partido perpassou no pensamento de Lenin – e não pode-
ria ser diferente, dada a proposta do autor de conciliar teoria e prática
revolucionária em uma conjuntura absolutamente instável e eivada de
mudanças – o que se pode notar em “[...] todos estes modelos era a ideia
de uma vanguarda centralizada, que se empenhasse em fundir a teoria e a
consciência dos socialistas com o movimento espontâneo dos operários”21.
Essa característica que Lenin inaugura em Que Fazer? se mostrará persistente
em seu pensamento e no movimento bolchevique.
Até o ano de 1909, as liberdades ampliaram-se consideravelmente
na Rússia, e a concepção de Lenin pôde experimentar avanços em rela-
ção à democracia interna e à autonomia das instâncias periféricas em
relação ao centro do partido. Ocorre que, como mostra Johnstone, os
anos entre 1909 e 1912 – conhecidos como período da reação –
[...] teriam graves efeitos sobre os destinos do partido na Rússia;
e os bolcheviques constataram que seu método de trabalho, mais
“duro” e disciplinado colocava-os em condições de responder
melhor às exigências do movimento do que os mencheviques22.

A luta entre bolcheviques e mencheviques intensifica-se.


A cisão definitiva dos bolcheviques com os mencheviques data de
1912, nascendo aí o Partido Bolchevique, “[...] que reunia uma organização
distinta de marxistas revolucionários [...]”23, organização que se tornaria
hegemônica no movimento comunista mundial. Entretanto Lenin “ainda
não considerava este tipo de organização como um protótipo internacional”
(Idem). Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e o apoio dos partidos

21 
JOHNSTONE, Monty. Um Instrumento Político de Tipo Novo: O Partido Leninista de Vanguarda. In:
HOBSBAWN, Eric J. História do Marxismo. v. VI: O marxismo na época da Terceira Internacional: da Interna-
cional Comunista de 1919 às Frentes Populares. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988. p. 16. Tradução de Amélia
Rosa Coutinho.
22 
Ibidem, p. 38.
23 
JOHNSTONE, 1988, p. 39.

290
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

da II Internacional à guerra, no entato, “[...] Lenin esboçou um novo tipo


de partido em escala internacional, que seguisse o exemplo bolchevique”24.
Estava plantada a semente para a criação da Internacional Comunista.

A Revolução Mundial e a Criação da IC

Após a Revolução Russa em 1917, seus autores acreditaram – e nisso


depositavam as possibilidades também de seu sucesso revolucionário –
em uma vaga revolucionária que abarcasse primeiramente os países de
capitalismo avançado, localizados na Europa Ocidental. O que ocorre, ao
contrário, é o sufocamento e o recuo do movimento revolucionário em
toda a Europa. Os comunistas russos pegam-se desacreditados quanto a
outras possibilidades revolucionárias que não sigam o modelo vitorioso
em outubro. Inicia-se aqui a universalização de um fenômeno que possuiu
características fortemente particulares – tanto em relação às características
da Rússia czarista e o processo tardio de industrialização que perpassava,
quanto à criação do Partido Bolchevique, gestado em um longo processo
de debates e disputas internos no seio da social democracia russa – assim
chamada antes da criação da Internacional Comunista.
Há que se fazer uma breve distinção teórica sobre a revolução socialista
e a maneira que esta é colocada por Marx e também por Lenin – que acabaria
gravemente desvirtuada durante o apogeu stalinista. Lenin falará em duas
modalidades de revolução. A revolução em sentido estrito, política, que possui
como traço distintivo a tomada de poder pela classe operária em um marco
estatal definido e a revolução em sentido amplo, como revolução social,
transformadora das estruturas econômicas, sociais, políticas e culturais da
sociedade. Se a primeira se realiza em um marco temporal específico no
marco nacional; a segunda é, por essência, mundial, compreendendo toda
uma época histórica não possuindo uma marco cronológico rígido, mas,
ao contrário, amplo25. Nesse sentido:
No curso da revolução de 1905-1907, Lenin reflete sobre
a interdependência dialética entre a Revolução Russa e a

24 
Ibidem, p. 41.
25 
CLAUIN, Fernando. A Crise do Movimento Comunista. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2013. p. 63-65.
Tradução de José Paulo Netto.

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revolução socialista [...]. Ele não considera apenas que a


“revolução política russa será o prólogo da revolução socialista
europeia”; considera, ao mesmo tempo, que o destino da
Revolução Russa depende de que seja efetivamente “prólogo”
[...]. Para ver com confiança a perspectiva da Revolução Russa,
Lenin precisa ter confiança na maturidade revolucionária do
proletariado do Ocidente26.

Na visão de Lenin, o grande problema para os países europeus, no


início do Século XX, ao disporem das condições necessárias para superação
da ordem capitalista era a inexistência de um partido de revolucionário,
e o fato central de que “[...] sem partido revolucionário não há vitória da
revolução [...]”27. A Internacional Comunista é fundada em 1919 como o
‘partido mundial da revolução’. De fato, a partir da análise do imperialismo
empreendia por Lenin, o movimento comunista internacional chegava a
duas conclusões: “[...] primeiro, só uma revolução socialista poderia arrancar
a humanidade do beco sem saída para o qual foi levada pelo imperialismo
e as guerras imperialistas” e, por outro lado, “[...] era necessário superar o
Estado nacional, tarefa que só poderia ser cumprida pela revolução”28. Era
necessário agir. No III Congresso da IC, em 1921, a perspectiva de revolução
mundial coloca-se em cheque. O resultado do recuo revolucionário em solo
europeu é que o Partido Bolchevique e o modelo russo de revolução cada
vez mais passam a adquirir, com seu fortalecimento em relação ao restante
do movimento comunista, um caráter de único movimento possível, em
um viés extremamente universalizante:
Lenin projeta sobre o processo europeu – e inclusive mundial
– o modelo do processo russo de fevereiro-outubro [...]. O
gênio de Lenin não escapa à tentação que instiga a todo chefe
revolucionário vitorioso: fazer da sua revolução o modelo ao
qual devem-se ajustar as novas revoluções29.
Se com Lenin esse processo não deixa de ser contraditório, com
idas e vindas, e uma própria contestação do autor em relação à iminente
revolução mundial e à transplantação do modelo bolchevique para o

26 
Ibidem, p. 67.
27 
Ibidem, p. 72.
28 
VIANNA, 2011, p. 43.
29 
CLAUDIN, 2013, p. 77.

292
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

restante do mundo30, chegando a transitar “[...] pelos dois polos, aqui


fazendo a crítica da absolutização de algumas táticas bolcheviques, acolá
generalizando certos instrumentos históricos de luta a todos os países,
incluídos com sucesso na revolução de 17 [...]”31, notadamente em seus
escritos finais, inegável que “[...] as bases para a futura manipulação stalinista
do Movimento Comunista Mundial encontravam-se já na estruturação da
IC, traçada por Lenin”32. Os preceitos levantados pelo líder bolchevique,
reforçados, chegam ao caráter de dogmas incontestáveis no seio da IC
após sua morte. A partir de Stálin, “[...] o modelo russo de revolução é
elevado à um patamar clássico”33.
A perda de perspectiva de uma revolução no âmbito mundial leva o
Partido Comunista Soviético a formular a doutrina do “socialismo num só
pais”, que terá como um de seus resultados levar a “[...] IC a treinar seu exército
internacional em defesa da URSS, descartando qualquer especificidade ou
interesse nacional que não se expressasse numa propaganda mecanicista e
pobre da União Soviética”34. Nos países sem grande tradição operária, como
o Brasil, esse processo tenderia a ser mais grave, pela própria fragilidade
do movimento gestado em terreno nacional.

Bolchevização e Stalinização dos Partidos Comunistas: o caso do PCB

A bolchevização dos partidos comunistas inicia-se a partir do ano de


1924. Como mostra Milos Hájek, a palavra de ordem é levantada a partir
de, por um lado, a derrota da insurreição alemã em 1923, e, por outro, dos
“[...] acontecimentos que marcaram o fim da crise pós-bélica da sociedade

30 
Essa própria contradição a que o pensamento está inserido neste momento pode ser percebida em sua obra
Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo, em que, de um lado, o autor ressalta valores da revolução russa que
possuem um caráter válido universalmente e, de outro, enxerga a particularidade russa como país atrasado, que
após o sucesso revolucionário da revolução política nos países de capitalismo avançado, voltaria a se colocar
no polo atrasado do desenvolvimento no âmbito mundial, dessa vez, entretanto, em uma perspectiva socialista.
31 
FERREIRA, Pedro Roberto. A Revolução em Etapas e a Bolchevização Precoce dos Comunistas no Brasil
(anos 20). Revista Mediações, Londrina, v. 2, p. 27-31, 1996. p. 27.
32 
VIANNA, 2011, p. 43.
33 
ANTUNES, Ricardo. Os Comunistas no Brasil: as repercussões do VI Congresso da Internacional Comu-
nista e a primeira inflexão stalinista no Partido Comunista do Brasil (PCB). Cadernos Arquivo Edgard Leuenroth.
Campinas: Unicamp, 1995. p. 45-62, p. 13.
34 
VIANNA, 2011, p. 45.

293
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
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capitalista e possibilitaram sua passagem ao período da estabilização [...]”


e, a partir disso, o “[...] reconhecimento da incapacidade dos partidos não
russos para a conquista o poder”35. Na reflexão sobre as causas do refluxo do
movimento revolucionário internacional, sai vitoriosa a perspectiva acerca
da deficiência dos demais partidos membros da Internacional Comunista
em realizar o assalto ao poder, de um lado, e a convicção, de outro lado, da
total capacidade do partido bolchevique para a consecução desta tarefa. É o
início da universalização de um fenômeno particular. De acordo com Rossana
Rossanda, inicia-se aqui um processo dogmático e não marxista. A autora
italiana afirma que o debate sobre a organização, tão presente nos debates
da Internacional, não é negligenciado por Marx, mas não aparece em sua
obra por um motivo específico: em uma concepção materialista história, a
organização da classe operária revolucionária atenderá às demandas de seu
tempo e contradições, sendo qualquer determinação anterior algo negador
dos próprios preceitos marxistas36.
Se a bolchevizarão foi, assim, afirmada nos anos 20, é nos anos 30, com
a hegemonia de Stálin sobre o Partido Bolchevique e, consequentemente,
a IC, que se firma o processo de stalinização do movimento comunista
mundial, fato que se refere a métodos policialescos de intervenção nos
diversos partidos nacionais. O controle direto sob as direções do partidos
se dá majoritariamente nos partidos que se encontram próximos ao núcleo
dirigente em Moscou, e interessam mais imediatamente à União Soviética
pela posição de seus países no capitalismo mundial. Nenhuma das duas
situações abarca o Partido Comunista do Brasil e, assim,
[...] o controle que sofreu foi político e ideológico e, por isso
mesmo, a diferença entre “bolchevização” e “stalinização”,
perfeitamente clara nos partidos comunistas dos centros
metropolitanos do capitalismo, é pouco perceptível entre nós37.

35 
HÁJEK, Milos. A Bolchevização dos partidos comunistas. In: HOBSBAWN, Eric J. História do Marxismo. v.
VI: O marxismo na época da Terceira Internacional: da Internacional Comunista de 1919 às Frentes Populares.
2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988. p. 97. Tradução de Amélia Rosa Coutinho.
36 
ROSSANDA, Rossana. De Marx a Marx: clase y partido. In: Cuadernos de Pasado y Presente. Córdoba: Edi-
ciones Pasado y Presente, 1973.
37 
MORAES, João Quartim de. A Influência do Leninismo de Stálin no Comunismo Brasileiro. In: MORAES,
João Quartim de; REIS, Daniel Aarão. História do Marxismo no Brasil. v. 1. O Impacto das Revoluções. Campinas:
Unicamp, 2007. p. 132.

294
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

É essencial compreender o processo político e cultural em que o


marxismo chega ao Brasil. Aqui o movimento comunista chega antes da
cultura marxista. Com isso, concordando com Moraes (2007), o que chega
ao Brasil é a doutrina oficial comunista no apogeu da IC, o marxismo
leninismo, sob a hegemonia de Stálin. O autor mostra-nos que a partir
desse momento há um tratamento diferente em relação à teoria no seio do
movimento comunista. Marx ou Lenin jamais acreditaram em um conhe-
cimento teórico puro, que não fosse formado pelas contradições políticas
e sociais em que o pensador estivesse inserido e os interesses subjacentes
a seu pensamento. Lenin, entretanto, “não se contenta com a refutação da
tese de um adversário pela mera identificação dos condicionamentos de
classe que o teriam inspirado”38. Sob Stálin, porém, “é nítida a tendência
a tratar a teoria em sua dimensão meramente instrumental e os teóricos
como agentes desta instrumentalização”39. Os saberes teóricos e científi-
cos de pesquisa desenvolvidos nos cânones do marxismo tornam-se, ao
máximo, um instrumento para corroborar a redução da teoria à doutrina
marxista leninista40. O marxismo que chega ao PCB é uma teoria incapaz de
questionar seus pressupostos. Não foi assim, entretanto, desde a fundação
do Partido, em 1922.
De fato, o II Congresso da IC realiza pela primeira vez um debate
sobre a questão colonial. Nas teses ali gerada, assume-se a “autonomia da
situação colonial e a respectiva necessidade de uma descentralização”41.
Esse fato, porém, ainda limitava os olhares da IC para China e Índia, países
coloniais em que se enxergava um potencial revolucionário considerável.
A contradição da Internacional é constante. E Aricó mostra-nos que essa
perspectiva “restou afinal esmagada por uma tradição obreirista que o
leninismo paradoxalmente contribuiu para consolidar”42. Apesar dessa
abordagem, a América Latina seguirá fortemente negligenciada ao menos
até o VI Congresso da IC, em 1928.

38 
Ibidem, p. 112.
39 
Ibidem, p. 113.
40 
Ibidem, p. 114.
41 
ARICÓ, J. O marxismo latino-americano nos anos da Terceira Internacional. In: HOBSBAWM, E. J. (Org.).
História do marxismo. v. 8. O marxismo na época da Terceira Internacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. p. 437
42 
Ibidem, p. 438.

295
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Como nos mostra Marcos del Roio, os partidos socialistas que sur-
gem no Brasil nos anos 90 do Século XIX mostram-se em sua totalidade
natimortos. Esse quadro não seria diferente até a 1ª Guerra Mundial, que
vê a partir da Revolução Russa o marxismo ser colocado como “[...] uma
força material de grande significado histórico universal”43. O movimento
operário brasileiro também se vê influenciada pelo evento. A Revolução
Russa levanta a esperança de possibilidade na mudança a partir da ação
política. Em uma República Oligárquica, a classe operária pensa ser possível
aqui “fazer como na Rússia”, em um claro sentido de ruptura e reinício do
desenvolvimento econômico, político e social do Brasil.
Se em seu desenvolvimento a Internacional Comunista gera uma
verdadeira paralisia no movimento revolucionário no âmbito mundial, que
abarcaria desde o campo organizacional até o campo teórico, é inegável o
fato de que, no momento de sua criação, o otimismo revolucionário que esta
carrega, “[...] serviu de elemento catalisador de novas lutas e mobilizações
em toda parte, provocando um impacto-político cultural”44 de grandes
proporções. A América Latina e o Brasil, especificamente, não ficarem
inertes ante a esse movimento. No Brasil de 1917, a classe operária passa
a se ver “[...] estimulada por suas precárias condições de vida, pela difusão
da exploração capitalista e pelo impacto da Revolução Russa”45. Enquanto a
Europa os partidos da III Internacional surgem após o rompimento com a
II Internacional que havia aderido ao reformismo, no intuito de uma refun-
dação do marxismo, em viés revolucionário, e na intenção de construção
de um partido político de tipo novo, gestado nas disputas e contradições
do movimento operário europeu, no Brasil, o PCB “teve como núcleo
dirigente um conjunto de ex-militantes egressos do anarcossindicalismo
e que, pouco a pouco, sob o impacto da Revolução Russa, abraçavam o
ideário comunista”46.
Antunes, ao elencar as demais características, mostra o fato de até
o surgimento do PCB não existir, praticamente, movimento socialista no
43 
DEL ROIO, Marcos. O Impacto da Revolução Russa e da Internacional Comunista no Brasil. In: MORAES,
João Quartim de; REIS, Daniel Aarão. História do Marxismo no Brasil. v. 1. O Impacto das Revoluções. Campinas:
Unicamp, 2007a. p. 20.
44 
Ibidem, p. 23.
45 
Ibidem, p. 23.
46 
ANTUNES, 1995. p. 27.

296
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Brasil, com a total inexistência de um desenvolvimento teórico, político e


ideológico desta corrente já madura em solo europeu. Por fim, a própria
inexistência de uma cultura burguesa no Século XIX e início do Século XX
que pudesse ser o ponto de partida para sua superação crítica. Claro que o
desenvolvimento do PCB exigiria desse partido uma análise da realidade
brasileira em que estava inserido, que não poderia deixar de ser, a seu início,
limitada. A tentativa de universalização da experiência russa e do partido
bolchevique está presente desde o II Congresso da IC, nas 21 condições de
admissibilidade dos partidos na organização, acreditando na iminência da
revolução a nível mundial e sendo necessário que o partido revolucionário
esteja no mundo todo pronto para agir no momento – que estava próximo
– decisivo. Na prática significa que a Internacional Comunista:
Desde sua fundação, com as suas 21 condições, com o seu
ultracentralismo, com a subordinação draconiana da periferia
ao centro, da base à cúpula, a IC eliminava de si mesma, na
prática, o “fato nacional”. E, com isso, interditava a via para
assumi-lo em sua exterioridade [...]. O partido que mais
trabalhava sobre o “problema nacional”, que mais avançava
na compreensão do fenômeno nacional, europeu e colonial,
em lúcido contraste com a “ortodoxia” da Segunda Interna-
cional; esse partido ignora o “fato nacional” como componente
do próprio movimento revolucionário, de sua organização
internacional47.

Na fundação do PCB, as 21 condições foram totalmente aceitas,


passando a existir uma “[...] clara separação entre anarquista e sindicalistas
revolucionários, assim como um ampliado estímulo para a formação de
partidos comunistas em todas as partes”48. O grande objetivo dos comu-
nistas brasileiros, nesse momento, mais do que fortalecer suas precárias
bases no movimento operário nacional, era o da “[...] sentida necessidade
do estabelecimento de um vínculo orgânico com a IC”49. Assim, colocava-
se a questão internacional como “[...] condição mesma para a legitimação
do novo partido diante da massa operária do país e para seu enraizamento
nacional”50. Fica claro que, na presença de um movimento operário extre-
47 
CLAUDIN, 2013, p. 47-48.
48 
DEL ROIO, 2007a, p. 72.
49 
Ibidem, p. 77.
50 
Ibidem, p. 78.

297
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PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

mamente frágil, desorganizado e incipiente, os militantes do PCB buscam


se legitimar no plano internacional como estratégia para se tornarem
legítimos ante à classe operária brasileira. Ao seu início, mais do que de
fato influenciar no processo político brasileiro, extremamente fechado na
Primeira República, os comunistas do Brasil almejam tornar-se a Sessão
Brasileira do exército bolchevique mundial. Esse fato se dá pela própria
perspectiva em que o País está inserido mundialmente, de um lado, e a lei-
tura do imperialismo realizado pela IC, de outro. Como afirma Astrojildo
Pereira, a perspectiva inicial de luta contra o capitalismo no Brasil deveria
se inserir em uma luta ampla contra o imperialismo, fenômeno externo
responsável pelas contradições internas brasileiras51. No II Congresso do
PCB, em 1925, dominavam as teses desenvolvidas por Otávio Brandão em
seu livro Agrarismo e Industrialismo no Brasil.
A contradição fundamental da sociedade brasileira, para os comunis-
tas, após a proclamação da República era a de um Brasil dual, dividido entre
forças agrárias, amparadas pelo imperialismo inglês, tradicional, e forças
industriais, amparadas pelo imperialismo novo, norte americano. Ocorria que
os movimentos políticos nacionais, como as revoltas tenentistas da década
de 1920, “são simplesmente enquadrados no esquema ‘agrarismo-industria-
lismo’, e dentro desse enquadramento isolados do contexto vido da situação
política”52. A concepção internacionalista encontrava-se desde a maneira em
que um país como o Brasil era enquadrado teoricamente pela IC. Se o País é
uma semicolônia, há de se lutar contra as forças imperialistas, colonizado-
ras53. O PCB nasce com uma perspectiva cosmopolita da sua tarefa política,
portanto tanto pela doutrina do imperialismo propagada pela IC, quanto pela
fragilidade do movimento operário na década de 1920. Astrojildo Pereira
escreve em 1931 que o fato de existirem particularidades no Brasil não o
tira do processo mundial do capitalismo em sua fase imperialista. Nessa fase,
uma transformação efetiva da realidade brasileira só seria possível a partir
de uma transformação planetária. Mais do que uma força política nacional,
o PCB enxergava-se como uma tropa de um exército internacional. A grande

51 
PEREIRA, Astrojildo. Ensaios Históricos e Políticos. São Paulo: Alfa-Ômega, 1979.
52 
Ibidem, p. 92.
53 
MORAES, 2007.

298
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

peculiaridade brasileira adviria de sua inserção no capitalismo, fato que faz


com que o Brasil seja ainda “colônia depois de um século de independência” 54.
O fato de a luta, na concepção do Partido, ter de ser uma luta inter-
nacionalista, não o impede de inicialmente tentar se aproximar de forças
não comunistas. Ainda com liberdade e autonomia e sem o controle direto
da IC – que viria a ocorrer ao final da década –, o PCB busca aliar-se a
setores que se opusessem ao modelo agrário de desenvolvimento ao País.
Era necessário que o Brasil deixasse de ser, primeiramente, um país que
estaria “reduzido à monocultura de produtos coloniais”55. Aqui a noção
de etapa, desenvolvida por Stálin, é utilizada. Se o país encontra-se em
uma situação semifeudal, é necessário que se torne capitalista para que
este possa vir a ser superado. Nesse momento, o escapismo significativa
“a mudança do poder político, (onde) a base econômica da sociedade não
é determinante para a (sua) definição”56. Dessa feita, o PCB buscará, na
década de 20, aproximar-se das forças políticas que se encontravam no
campo oposto ao da aristocracia rural presente no poder, visto que
[...] a tese fundamental de Brandão, assumida pelo PCB,
era a de que os interesses agrários, articulados com os do
imperialismo anglo-americano e baseados na exploração
fedas das massas camponesas constituíam o principal obs-
táculo à industrialização e ao progresso57.
O principal objetivo do PCB e seus dois principais dirigentes e inte-
lectuais à época, Octávio Brandão e Astrojildo Pereira, era o de se aproximar
dos jovens militares rebeldes, vistos por estes como a pequena burguesia
revolucionária que, ao momento, possuía os mesmos interesses que os
comunistas, o de derrubar o regime oligárquico. Essa tentativa inicia-se em
1927 com a aproximação do PCB com o jornalista positivista Leônidas de
Resende, dono do periódico A Nação que, desde seu início, assume a palavra
de ordem que prega a união entre operários e soldados58. Nessa perspectiva,
o PCB busca disputar o legado da Coluna Prestes. Em dezembro de 1927,
com farta bibliografia marxista leninista na bagagem, Astrojildo Pereira vai
54 
Ibidem, p. 177.
55 
Ibidem, p. 179.
56 
MORAES, 2007, p. 122.
57 
MOARES, 1994, p. 41.
58 
Ibidem, p. 33.

299
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à Bolívia encontrar o Cavaleiro da Esperança em seu exílio. Pereira mostra


como ao momento, tenta mostrar a Prestes os objetivos que lhes parecem
comuns, a aliança entre “o proletariado revolucionário sob a influência do
Partido Comunista e as massas populares, especialmente as massas cam-
ponesas, sob a influência da Coluna e do seu comandante”59.
Essa política de união nascente, entretanto, sofreria duras críticas
no III Congresso do PCB – ocorrido entre 29 de dezembro de 1928 e 4
de janeiro de 1929 –, sendo possível verificar que “[...] este Congresso é
posterior ao VI Congresso da IC e já é possível constatar que suas resoluções
se aproximavam de algumas teses centrais que estavam dominando o cenário
comunista internacional ao da década de 20”60. O resultado é uma repulsa
à política de alianças. Esse Congresso, ao tratar da América Latina, cons-
tatou que greves operárias e revoltas camponesas locais seriam fatores que
demostravam o “[...] aprofundamento dos processos revolucionários no
mundo latino americano, contrários à dominação imperialista”61. No auge
da política sectária da IC e da política de “classe contra classe”, a instrução
para os comunistas latino-americanos, vivendo a situação revolucionária,
era a implementação de soviets de operários, camponeses e soldados, e como
nos mostra Vianna, “[...] os comunistas não foram incentivados a buscar
novas formas de organização que surgissem de lutas concretas” 62.
Os comunistas deveriam preparar-se para a iminente revolução e se
colocar como vanguarda e fazer com que seu único impedimento pudesse
deixar de existir – a ausência do partido autenticamente revolucionário.
O partido deveria ser um órgão extremamente centralizado e militarizado,
preparando-se para a iminente guerra civil. Seus quadros deveriam ser
constantemente depurados, para que não sobrem elementos vistos como
vacilantes. Nesse processo, Astrojildo Pereira e Octávio Brandão são expulsos
do Partido. É pregado o total afastamento do partido a todos os elementos
identificados como pequeno-burgueses, incluindo a tendência prestista,
identificada com os tenentes que continuam a seguir Prestes mesmo após
seu afastamento dos demais tenentes. Prestes, entretanto, também aderiu

59 
PEREIRA, 1979, p. 129.
60 
ANTUNES, 1995, p. 27-28.
61 
Ibidem, p. 16.
62 
VIANA, 2011, p. 57.

300
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

a essas posições. Rompeu abertamente com seus comandados, lançou um


manifesto em 1930 no qual isso fica claro, como veremos.

O PCB NA DÉCADA DE 1930: OS TENENTES BOLCHEVIQUES

Prestes, PCB e a Revolução de 1930

Como vimos, a crise política e econômica do fim da década de 1920


abre espaço para uma real política de oposição ao Governo Federal. É for-
mada a Aliança Liberal. É justamente a formação dessa aliança que marca
o rompimento definitivo de Prestes com o Tenentismo. Já aderindo à tese
de “classe contra classe”, enxerga a Revolução de 1930 como um grande
engodo contrarrevolucionário em nossa história, que busca frear sua mar-
cha natural em sentido do socialismo. Interessante notar que grande parte
da bibliografia sobre o período trata esse processo como uma revolução
preventiva, sintetizada nas palavras do Presidente de Minas Gerais Antonio
Carlos: façamos a revolução antes que o povo a faça. Ocorre que, se o obje-
tivo do PCB desde 1927 era se aliar aos militares revoltosos, concordamos
com Moraes que era essa união viável e capaz de se tornar a maior linha de
força em oposição ao regime oligárquico (1994). Prestes, convidado para
chefiar militarmente a Revolução de 1930 é enfática na negativa. Fora essa,
provavelmente, uma “das grandes (e poucas) ocasiões históricas perdidas
para imprimir um rumo nacional e democrático à evolução da sociedade
brasileira”63:
Convencido [Prestes], cada vez mais, de que só uma profunda
revolução popular (operário-camponesa) mudaria a sociedade
brasileira, ele rejeitou o liberalismo alguns anos antes de seus
ex-camaradas da Coluna. Sua recusa de assumir o comando
militar do levante de 1930 foi portanto consequência prá-
tica de sua convicção teórica de que o programa da Aliança
Liberal, centrado na supressão da fraude eleitoral, serviria
apenas para suscitar nas massas populares novas ilusões64.

63 
MORAES, 1994, p. 93.
64 
Ibidem, p. 118-119.

301
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Prestes, já alinhado na política do PCB de creditar como resultado


das contradições internas do Brasil os interesses imperialistas de maneira
mecânica e automática, enxerga a Revolução de 1930 como
[...] uma campanha aparentemente democrática, mas que no
fundo não era mais do que a luta entre os interesses contrários
de duas correntes oligárquicas, apoiadas e estimuladas pelos
dois grandes imperialismos que nos escravizam65.

A perspectiva de uma transformação nacional que preze, inicialmente,


por liberdades democráticas, conquistas de direitos, ampliação do ensino, é
irrisória a partir da posição que o Brasil ocupa no elo imperialista. Assim,
[...] a verdadeira luta pela independência nacional deve, por-
tanto, realizar-se contra os grandes senhores da Inglaterra
e contra o imperialismo e só poderá ser levada a efeito pela
verdadeira insurreição nacional de todos os trabalhadores66.

Urgia para o PCB uma revolução agrária e anti-imperialista. Essa


mudança abrupta na política do Partido deixa-o totalmente isolado dos
acontecimentos políticos de 1930. A liderança militar da Revolução é
creditada a Góes Monteiro, que fora justamente o General responsável
pelo combate à Coluna. O resultado imediato da recusa de Prestes será o
enfraquecimento do Tenentismo no novo bloco que se colocará no poder67.

A nova perspectiva da Revolução Brasileira: a Terceira Revolta

Com a presença de Prestes e Tenentes que não aderiram à Aliança


Liberal no PCB, este começa a formular sua perspectiva de revolução para
o Brasil. Há uma perspectiva positiva em relação aos levantes armados da
década de 1920 contra o regime oligárquico. Tendo como ponto positivo a
oposição à oligarquia, faltava-lhes uma efetiva consciência de classe e dos
problemas nacionais. Agora, os tenentes autenticamente revolucionários,
conjuntamente com a vanguarda da classe operária, teriam a capacidade
65 
PRESTES, Luiz Carlos. Manifesto à Aliança Nacional Libertadora. Publicado originalmente em “A Platéa” em
06/07/1935. Disponível em: <https://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=136:ma-
nifesto-de-prestes-para-a-alianca-nacional-libertadora&catid=1:historia-do-pcb>. Acesso em: 14 jan. 2018.
66 
Ibidem.
67 
MORAES, 1994.

302
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

de tomar o poder, a partir da terceira explosão revolucionária. Necessário


notar que há, além de uma reivindicação das revoltas tenentistas da década
anterior em uma linha positiva, também não se perde a concepção de uma
revolta de uma vanguarda, aqui de militares rebeldes e operários, como a
maneira mais rápida e eficaz de se tomar o poder. Esse fato mostra-nos que
a adesão de Prestes e de seus companheiros de Coluna ao PCB dá-se pelo
que poderíamos chamar de um preenchimento ideológico a um modo de
fazer político que era dotado de diversas similaridades. O vanguardismo
elitista, tão caro ao partido bolchevique, não escapava aos Tenentes.
Astrojildo Pereira, mesmo expulso do PCB, defende essas posições
em escritos na década de 1930. Era chegada a hora da revolução. Cada vez
mais distante de análises com respaldo na realidade, era certa a chegada do
movimento de ruptura da ordem vigente. A Revolução de 1930 seria um
engodo e agora, munidos de armas e ideologia, os comunistas alcançariam a
democracia na ponta de seus fuzis, revoltando-se nos quartéis, nas fábricas
e no campo. Há uma real crença de que
[...] em todo o território brasileiro, os grupos e subgrupos
policias se engalfinham corpo a corpo. As grandes massas
exploradas e oprimidas, seguindo os passos de uma pequena
e heróica maioria de pioneiros, despertam para a luta contra
os senhores que exploram e oprimem68.
Partindo o golpe final contra o capitalismo dessa heróica vanguarda,
as massas marchariam ao seu lado até a vitória final. Acreditando-se que o
capitalismo estava em sua fase agonizante e final, tinha-se a certeza de que
“só o Partido Comunista, que é o partido de classe do proletariado revolu-
cionário, pode guiar as massas na luta, nas grandes e pequenas batalhas”69.
A partir do seu VII Congresso (1935), a IC passa a mudar sua pers-
pectiva política. Sem um debate da mudança drástica de posição, passa a
convocar os comunistas a se unirem a todas as forças políticas antifascistas
em Frentes Populares. O PCB, não tão influenciado inicialmente por essa
mudança, continua a pregar a luta armada contra o Governo de Vargas.
Forma-se no Brasil a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Os comunistas
apenas admitem participar dessa frente quando é notório o crescimento da
68 
PEREIRA, 1979, p. 190.
69 
Ibidem, p. 206.

303
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Ação Integralista Brasileira (AIB). Apesar de Prestes ter sido eleito o presi-
dente de honra da Aliança, esta não continha apenas elementos comunistas
ou favoráveis a uma ruptura armada da ordem. No início, extremamente
ampla, tinha a presença de intelectuais, operários, socialistas, liberais,
antifascistas em geral e comunistas. O PCB parecia ainda interessado em
alianças “pela base”, em que a função da união com forças não comunistas
seria a de mostrar para as bases as reais contradições de seus movimen-
tos e trazê-las para o movimento revolucionário. Esse fato fica claro no
Manifesto de Luiz Carlos Prestes de 1935. A ANL nasce para combater o
fascismo no Brasil. Prestes, entretanto, refere-se como principais inimigos
a serem destruídos no País o Imperialismo e sua estrutura feudal. Não há
mudança em relação à antiga concepção do PCB. Moraes dirá que há aqui
pela parte de Prestes uma negação do princípio leninista de análise, ou
seja, uma análise concreta de uma situação contrata. O imperialismo e a
estrutura agrária do Brasil nada possuíam de específico no momento. O
fator de união de forças heterogêneas era o antifascismo70. Percebendo a
polarização política em que se encontrava o País, os comunistas acreditam
ter chegado a hora do assalto final ao poder, a Terceira Revolta. Ao pregar
“Todo Poder à ANL”, esta se enquadra na nova Lei de Segurança Nacional
e é posta na ilegalidade. Há uma forte desmobilização. Enquanto a IC já
mudara seu discurso para uma convivência pacífica com forças políticas
antagônicas, em um movimento político com bases mais fortes no tenen-
tismo do que no bolchevismo, a última batalha dos militares de esquerda,
em 1935, termina de maneira isolada e melancólica. A vanguarda militar
de esquerda levanta-se em Recife, Natal e Rio de Janeiro, é despertada uma
forte repressão estatal a que a população, que acreditavam Prestes e seus
seguidores, pegaria em armas, assiste ao movimento passivamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Buscamos compreender, neste capítulo, como se deu o processo de


formação política do PCB na década de 1930. Nosso objetivo foi, principal-
mente, entender a formação do Partido e suas inserção na política nacional

70 
MORAES, 1994.

304
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

como um fenômeno majoritariamente local, não obstante, fortemente


influenciado por um fenômeno internacional, a Internacional Comunista.
Inicialmente, entendendo a formação do Tenentismo no Brasil, busca-
mos avaliar seus posicionamentos e embates ante à República Oligárquica.
Se inicialmente a falta de uma compreensão ampla do processo político
aglutina elementos que futuramente iriam estar em campos opostos, a
moralidade e defesa das regras básicas de uma democracia liberal os unem
na década de 1920. Os Tenentes que se colocaram mais à esquerda do espec-
tro político, liderados por Luiz Carlos Prestes, acabam por se aproximar e
ingressar no Partido Comunista do Brasil. Não tratamos, entretanto, esse
momento como uma ruptura absoluta no pensamento dos Tenentes. O
PCB, principalmente no fim da década de 20 e início de 30, está sofrendo
as consequências políticas e ideológicas da bolchevização e stalinização
do movimento comunista mundial. Seu ainda incipiente núcleo dirigente,
liderado por Octávio Brandão e Astrojildo Pereira, fora dissolvido, e existia
no partido um vazio de poder que logo fora ocupado por setores ligados
aos antigos Tenentes.
Se o conhecimento do comunismo trouxe, para Prestes, um conteúdo
aos anseios políticos que acumulara durante a Coluna, foi-lhe também
muito conveniente se aproximar da Internacional Comunista quando suas
percepções de organização e disciplina eram muito próximas. Os partidos
comunistas, para enfrentar a luta contra o capitalismo deveriam tornar-
se instituições fortemente centralizadas e militarizadas. A ação política
de Prestes pouco muda no período aqui estudado e se incorpora ao PCB.
Nessa perspectiva, o Partido parte da certeza de sua capacidade de tomar o
poder a partir de uma revolta de vanguarda, que julgava, seria acompanhada
pelas massas. Há aqui uma mistura interesse do conceito de vanguarda de
Lenin em relação ao partido e à perspectiva dos Tenentes em realizar uma
transformação política a partir da revolta em quartéis. O resultado dessa
conjunção foi um Partido, na década de 1930, que chamava a população
constantemente para a luta armada sem um contato efetiva com esta, ou
condições para tal. O final trágico do Levante de 1935 mostrou-nos que a
tentativa do PCB de acelerar a história brasileira não estava baseada em uma
situação aproximação do marxismo leninismo na medida em que reduzia

305
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

a teoria do movimento operário à tática adotada pelo Partido. Como diria


Paulo Sérgio Pinheiro, trataram-se das estratégias de uma ilusão71.

REFERÊNCIAS

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Internacional Comunista de 1919 às Frentes Populares. 2. ed. São Paulo: Paz e
Terra, 1988. Tradução de Amélia Rosa Coutinho.

71 
PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da Ilusão: a revolução mundial e o Brasil. 2. ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 1991.

306
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

JOHNSTONE, Monty. Um Instrumento Político de Tipo Novo: O Partido Leninista


de Vanguarda. In: HOBSBAWN, Eric J. História do Marxismo. v. VI: O marxismo na
época da Terceira Internacional: da Internacional Comunista de 1919 às Frentes
Populares. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988. Tradução de Amélia Rosa Coutinho.
LENIN, Vladimir Ilictch. Que fazer? problemas candentes de nosso movimento.
2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015. Tradução de Marcelo Braz.
LENIN, Vladimir Ilictch. O esquerdismo: doença infantil do comunismo. 1. ed. São
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PEREIRA, Astrojildo. Ensaios Históricos e Políticos. São Paulo: Alfa-Ômega, 1979.
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ginalmente em “A Platéa” em 06/07/1935. Disponível em: <https://pcb.org.br/
fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=136:manifesto-de-pres-
tes-para-a-alianca-nacional-libertadora&catid=1:historia-do-pcb>. Acesso em:
14 jan. 2018.
SANTA ROSA, Virgínio. O Sentido do Tenentismo. São Paulo: Alfa Omega, 1976.
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VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. 3.
ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

307
Capítulo 11

RELAÇÕES ESGUIANAS, O PENSAR E O AGIR


AUTÔNOMO NO PRAGMATISMO RESPONSÁVEL
E ECUMÊNICO (1974-1979)1

João Catraio Aguiar

As invenções são, sobretudo, o resultado de um trabalho teimoso.


Alberto Santos Dumont
A melhor tradição do Itamaraty é saber renovar-se.
Antonio Francisco Azeredo da Silveira
Apenas os que dialogam podem construir pontes e vínculos.
Papa Francisco

INTRODUÇÃO

Este capítulo visa a investigar um momento de práticas autonomistas


na diplomacia brasileira, entendendo a política externa do Pragmatismo
Responsável e Ecumênico (1974-1979) como interligada, sutilmente, com o
ideário da Escola Superior de Guerra. Enfocando lideranças desse período
– Azeredo da Silveira, Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel – e suas
formulações e decisões, pretende-se elucidar a sutil conexão entre o “pensar
esguiano” e o “agir autonomista”. A interconexão entre o pensamento do
núcleo decisório e a ESG será explorada, assim desse pensar com o agir
encetado naquele então. O capítulo começa com considerações gerais,
factuais e teóricas, segue para reflexões de caráter coletivo e genérico

1 
Este capítulo inspira-se em outro de mesmo autor, escrito em 2013, publicado em 2015, cuja referência é:
AGUIAR, João Catraio. Relações Sutis: Escola Superior de Guerra, Pensamento Político Brasileiro e Política
Externa Brasileira em dois “momentos autonomistas”. Revista da Escola Superior de Guerra, v. 28, n. 57, 2015. p.
149-179. O autor adaptou o texto em conformidade ao estabelecido pelos organizadores.

309
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

envolvendo os tomadores de decisão enfocados e desemboca na análise


direta dos mesmos. Por fim, virão as conclusões.

DISCUSSÃO SOBRE PENSAMENTO POLÍTICO, ESG E


QUESTÕES HISTÓRICAS

O corpo político tem suas próprias dinâmicas, envolvendo ideações


coletivas em disputa pelo poder, uma das melhores maneiras de pesquisar
esse tema é por intermédio de documentos da época2. Pretende-se seguir
essa proposta. A forma como vemos os ecos do passado no presente variam.
Por exemplo, mirando o Império, é possível ter a dimensão do impacto de
“Luzias” e “Saquaremas” em pensamentos e práticas políticas posteriores no
Brasil contemporâneo3. Nos dois Reinados, temas como centralização e a
descentralização consolidavam-se, polarizando liberais e conservadores. O
pensamento político-brasileiro, de acordo com Wanderley Guilherme dos
Santos4, acabou por produzir dois grandes grupos: os liberais doutrinários
e os autoritários instrumentais. Os segundos acreditavam que uma elite
moralizadora deveria implantar o desenvolvimento e condições para uma
sociedade liberal, mesmo que isso custasse a suspensão de direitos. Os pri-
meiros defendiam reformas para implantar instituições mais liberais e assim
evitar autoritarismos. Gildo Marçal Brandão5 identificou três linhagens: os
conservadores, os liberais e os socialistas. Alguns ainda viram a existência de
um mosaico de concepções políticas, a cambiar tal como um fractal. Os pen-
samentos levam às práticas governamentais, tal como a política externa6, que
envolve decisão, publicização, organização, práticas, e regras, com dimensões
internas e externas7.
2 
ROSANVALLON, Pierre. Por uma história do político. São Paulo: Alameda, 2010.
3 
LYNCH, Christian Edward Cyril. Saquaremas e Luzias: a sociologia do desgosto com o Brasil. Insight
Inteligência, v. 55, p. 21-37, out./nov./dez. 2011.
4 
SANTOS, Wanderley Guilherme. Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
5 
BRANDÃO, Gildo Marçal. Linhagens do pensamento político brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2007.
6 
As políticas públicas seriam, de acordo com Kessler: “[...] conjunto de práticas e normas emanando de um
ou mais atores públicos [...] [em que] recursos são mobilizados para obter resultados.” (KESSLER, 2002, p. 168).
Nesse sentido, a política externa, enquanto “atividade pela qual um Estado estabelece, define e rege suas relações
com os governos estrangeiros” (KESSLER, 2002, p. 169), seria uma política pública formulada internamente
para o plano internacional.
7 
KESSLER, Marie-Christine. La politique étrangère comme politique publique. In: CHARILLON, Frédéric.
(Coord.). Politique étrangère – nouveaux regards. Paris: Presses de Science Po, 2002. p. 167-192.

310
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Partindo dessa reflexão, pode-se indagar como o pensamento da Escola


Superior de Guerra, associado com tendências conservadoras, desemboca
no nacionalismo e, com isso, gera políticas. Esse caminho do pensar ao fazer
deve ser reconstituído vis-à-vis fatores estruturais. A evolução do ideário
sobre defesa remonta ao período colonial, quando a principal preocupação
era a coesão, a unidade nacional, o que gerou ações ostensivas e dissuasórias
contra grupos hostis. Os colonizadores portugueses combatiam indígenas,
no plano interno e, internacionalmente, outros europeus com ambições
coloniais. No Império Brasileiro (1822-1889), as principais forças estavam
no Parlamento e na Coroa, e, ambos, queriam evitar a constituição de um
grupo de pressão castrense.
Incontornável na manutenção da ordem na Independência e na
Regência, fiel defensor nacional na Guerra do Paraguai e instrumento de
ascensão social de classes desfavorecidas, o beemótico corpo militar não
se detinha. Ascendiam líderes como o Almirante (e Marquês) Tamandaré
e Duque de Caxias (ou Marechal Lima e Silva); sendo o último de grande
influência no grupo dos conservadores, os “saquaremas”. Desde a Guerra do
Paraguai, delineiam-se dois grupos militares: por um lado, os tarimbeiros,
um grupo popular, corporativo e ligado à ação da guerra; por outro lado,
havia os bacharéis/doutos, membros da elite, com estudos especializados,
muitos do oficialato. Nas Escolas Militares, visava-se principalmente à
formação dos oficiais e altos postos da hierarquia militar; algo mais ligado
à elite econômica e política, porém incluindo parte dos oficiais de maior
atividade em teatros de operação. É preciso lembrar que, no Império e início
da República, não havia uma escola militar que trabalhasse com a noção de
defesa, o conceito que regia estudos era “guerra”.
Muitas escolas militares surgem ainda na Primeira República; a mais
antiga no Brasil foi a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho,
a Escola Superior de Guerra que havia até 1890 era para a formação do
Estado-Maior e de engenharia, ligada à concepção de ensino do Exército
Brasileiro, e depois mudou de nome8. Na virada do século XIX para o século
XX, havia um projeto de Brasil dos militares, embasado em sua cultura

8 
MAGALHÃES; João Batista. A evolução militar do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1998.

311
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

política e institucional, com lideranças como Deodoro da Fonseca, Benja-


mim Constant, Floriano Peixoto etc., e pendendo para o Republicanismo9.
Tal movimento de militares catalisou a queda da Monarquia dos Bra-
gança e contou com apoio fora da caserna. O contato direto de civis com o
poder público foi o que gerou a ampliação da cidadania no Brasil, o Estado
concedendo direitos, mais que a sociedade civil conquistando-os por si
mesma10. Durante a belle-époque da República Velha (1889-1930), ocorreu
a evolução de três ideologias de intervenção dos militares – intervenção
reformista, intervenção moderada e não intervenção –; a ascensão política
de Vargas marca a aproximação maior dos militares com a presidência,
afastando-se em agosto de 1954 e em março de 1964; retomada, de 1964 a
1985, a aproximação com a presidência11. Por um lado, a tradição liberal
preconizava afastar militares do poder para adequar Segurança/Defesa
à sociedade, por outro lado, a tradição conservadora12 ansiava por uma
sociedade com seus parâmetros, embalada pelo braço forte e mão amiga de
esclarecidos Saquaremas armados. Os projetos conservadores de Alberto
Torres e de Oliveira Vianna passaram a influir no pensamento brasileiro no
contexto da ascensão dos “jovens turcos” (que participaram de missões no
exterior, tal como turcos fizeram antes) e do Tenentismo. Outra vertente
a incidir foi o Romantismo, com a retórica nacionalista e individualista.
A Segunda Guerra Mundial reestruturou noções estratégicas bra-
sileiras. Deu-se então a interação com estruturas de defesa estrangeiras,
cresceu a consciência militar sobre um futuro “bloco ocidental”, iniciou-se
um debate sobre formação de um Estado-Maior que congregasse as três
Forças Armadas (naval; terrestre; aérea). Os “tarimbeiros” enfatizaram a

9 
CASTRO, Celso. Os militares e a república: um estudo sobre cultura e ação política. RJ: Jorge Zahar, 1995.
10 
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
11 
CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
12 
No Brasil, os adjetivos “conservador” e “autoritário” adquiriram sentido pejorativo em alguns meios. Em
outros países democráticos, a existência de uma direita ativa é considerada normal. Um exemplo é o debate
sobre Política Externa e Defesa nos EUA, em que se usa a metáfora de “pombos” para os pacifistas/progressistas
e de “falcões” para os belicosos/conservadores. A Índia, a Grã-Bretanha, os EUA e outros países exibem culturas
políticas em que as divisões entre direita, centro e esquerda são mais bem definidas que no Brasil. Assim BJP
na Índia, Partido Tory na Grã-Bretanha, e Partido Republicano nos EUA seriam “conservadores”, com grupos
internos com pendor mais autoritário. Mesmo existindo no Brasil semelhanças, esse posicionamento foi mais
opaco até os anos recentes, que trouxeram maior nitidez ao espectro político da direita, nas ruas, nas redes, nas
eleições e nos governos.

312
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

questão da segurança, enquanto os “doutos” enfatizaram o desenvolvi-


mento. Entre os primeiros estavam os “jovens turcos”, de ideias germânicas
ou sul-americanas. Os segundos eram professores nas Escolas Militares
(Praia Vermelha e Realengo), com influência britânica, estadunidense, ou
francesa – mormente pela política de difusão cultural e das missões mili-
tares13. A subjetividade militar via-se como portadora da missão política e
encarava a situação nacional por um prisma análogo ao romântico e/ou ao
positivista, realçando a aversão ao bacharelismo racionalista e às ideologias
transnacionais. Toda uma geração de pensadores foi formada com ideias
que são base da criação da Escola Superior de Guerra.
Conforme o conflito global desenrolava-se, Góes Monteiro viu nos
militares a finalidade política moderadora. Golbery do Couto e Silva, e o
Humberto de Alencar Castello Branco propõe novas formas de organização
e de ação em termos táticos e estratégicos. O pensamento de Juarez Távora
tinha perfil antiliberal e antirrepresentativo, a favor da nacionalização da
política e de reformas. No meio do século XX, principalmente entre 1945 e
1966, as publicações em Ciências Sociais foram expandidas e diversificadas,
com vocação para estudos de questões brasileiras em uma época de indus-
trialização, urbanização e alfabetização crescentes14. Esse foi o período do
nacionalismo democrático que planejou para o desenvolver; da consolidação
do trabalhismo; e de pressões variadas sobre os governos brasileiros15.
Pensava-se o Brasil, tal como no lema da Escola Superior de Guerra.
Na última, zelava-se pela socialização das elites e pela criação de um esprit de
corps e auxiliava-se na formação de tomadores de decisão e em sua coesão,
por meio do “método” e suas as atividades. Por “método” entende-se todos
aspectos do pensamento esguiano unidos com as práticas. Em agosto de
1949, por intermédio da Lei 785 (herdeira de leis de 1942 e 1948, que dis-
ciplinavam sobre cursos militares), surgia um novo polo de construção de
lideranças que soubessem lidar com segurança, desenvolvimento e defesa.
Três generais – Cordeiro de Farias; Salvador Obino e Juarez Távora – par-
13 
LESSA, Mônica Leite. A Aliança Francesa no Brasil: política oficial de influência cultural. Varia História, n.
13, p. 78-95, jun. 1994.
14 
BÔAS, Glaucia Kruse Villas. A vocação das ciências sociais no Brasil: um estudo da sua produção em livros do
acervo da Biblioteca Nacional, 1945-1966. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2007.
15 
GUIMARÃES, Cesar. Vargas e Kubitschek: a longa distância entre a Petrobras e Brasília. In: CARVALHO,
Maria Alice Rezende de (Coord.). República no Catete. Rio de Janeiro: Museu da República, 2001. p. 155-175.

313
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

tícipes do movimento Tenentista geraram o método, os fundamentos e a


estrutura da Escola Superior de Guerra. A proposta poderia ser classificada
como de nacionalismo conservador, moderado. Surgiria um “braço avan-
çado” esguiano, logo em seguida. A Associação de Diplomados da Escola
Superior de Guerr, foi criada pelos nomes supracitados, o professor Heitor
Bonifácio Calmon de Cerqueira Lima e o Almirante Benjamim Sodré. A
Adesg fomentou a popularização do método e da formação esguiana, ao
refletir sobre o Brasil, nas mesmas bases.
O central nos cursos esguianos é o fazer. A relação didática deixa de
ser mestre-educando e passa a ser de palestrantes e coordenadores com
estagiários, os que posteriormente serão esguianos. Isso significa: enfatizar
as atividades em grupo; criar um grupo formador de opinião; buscar solu-
ções para problemas brasileiros; formar lideranças em contato interpessoal
constante16. O “Manual Básico” da ESG é de leitura obrigatória para todos
os estagiários, e nele está a essência do “método”. O poder é visto em cinco
expressões – Política; Psicossocial; Econômica; Ciência & Tecnologia; e
Militar – que o compõem de forma una e indivisível e que estão a serviço
dos objetivos nacionais buscados estrategicamente no espaço político. A
política, os objetivos e estratégias são divididos em três níveis: Nacional,
de Estado e de Governo. A nação é o mais relevante dentre os estruturais/
estruturantes – internos, humanos, fisiográficos, institucionais, externos. É
o epicentro dos objetivos nacionais: dos Fundamentais, perenes; de Estado,
contínuos; de Governo, conjunturais. Os formuladores e executores da
Política Nacional têm como objetivos fundamentais: Democracia; Segu-
rança; Desenvolvimento; Integração Nacional; Integridade do Patrimônio
Nacional; Paz Social; Progresso; Soberania. A ESG tem uma abordagem
sobre defesa que é plural.

16 
SOUZA, Carmo Antônio de. A Escola Superior de Guerra como importante centro de estudo de problemas brasileiros.
66f. 2011. Monografia (Caepe) – ESG, MD, Rio de Janeiro, 2011.

314
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE POLÍTICAS, SISTEMA POLÍTICO


E OS ESGUIANOS

Entre os modelos de análise sobre como a política é feita, sobre


como uma decisão surge, destaca-se aquele que confere centralidade aos
atores e suas racionalidades, às organizações e às relações, competitivas
ou não, entre instituições17. Centrando-se na análise da competição entre
instituições intranacionais e internacionais, pode-se pensar nos jogos de
barganha, persuasão, hierarquias, participação e ação conjunta. Ainda que
muito celebrado, esse modelo enfatiza as disputas e deixa de lado aquilo
que, sutilmente, pode criar capacidades para ações conjuntas, aquilo que
gera aprendizado institucional e uma cultura política coerente. Pode-se
observar, em grupos coesos um propósito subjetivamente comum e um
interesse compartilhado. Agrega-se a isso uma identidade subjetiva forte
e uma interdependência; fatores que movem até a coesão política quando
ocorre a formulação e a execução da política pública18.
Essa tendência existiu no grupo dos “pragmáticos”, analisados mais à
frente, que deram corpo à política externa analisada, em meio ao contraste
entre agregação e discórdia. Em tempos sombrios, quando parece ser difí-
cil equacionar cooperação, o espírito associativo é um alento que confere
governabilidade no plano das políticas públicas. A ESG conferiria, de acordo
com Cordeiro de Farias19, esse espírito associativo, com integração entre
diferentes conhecimentos e práticas; integrando governo e setor privado;
conferindo aos esguianos fundamentos de planejamento, estratégia, política,
poder; proporcionando formação, mais que só informação conjuntural.
Propõe-se a conformação de uma ordem que transcenda os muros
ministeriais ou os muros da caserna. Para entender os porquês dessa lógica,
deve-se buscar compreender melhor a relação civil-militar. Coordenar e criar
a cooperação entre militares e civis envolve debates sobre a neutralidade
e a profissionalização das Forças Armadas, sobre fatores culturais e sobre
17 
ALLISON, Graham; ZELIKOW, Philip. Essence of decision: Explaining the Cuban Missile Crisis. 2. ed.
Harlow: Longman, 1999.
18 
HUDDY, Leonie. Group identity and political cohesion. In: HUDDY, Leonie; JERVIS, Robert; SEARS,
David. (Coord.). Oxford Handbook of Political Psychology. New York: Oxford University Press, 2003. p. 511-558.
19 
FARIAS, Osvaldo Cordeiro de. Meio século de combate: diálogo com Cordeiro de Farias, Aspásia Camargo,
Walder de Góes. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1981.

315
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

as organizações20. Tanto no caso militar quanto no caso dos diplomatas, o


perfil de concluintes é composto por membros em altos postos. Ambas as
profissões têm no Brasil sua hierarquia e socialização específicas; gerando
um ethos unívoco em uma carreira totalizante, o caso diplomático fora analisado
por Cristina Patriota de Moura21. Uma estratégia nacional consistente e
representativa precisaria da participação maior da sociedade civil, de maior
coordenação entre instituições, de maior entendimento dos políticos das
questões militares; assim como a redução do fosso do ‘modus operandi’
entre diplomatas e militares22.
Desde a abertura política dos anos 1990, surgiram passos nesse sentido
– criação do Ministério da Defesa, documentos orientadores de políticas
e estratégias, e missões de paz são bons exemplos. Todavia essas ações
políticas contemporâneas eclipsam certas realidades. Política externa e
poder militar estiveram em universos paralelos por décadas, pois cada um
deles lidou com problemas atinentes ao complexo de segurança regional,
à relação com riscos e hegemonias alheias, de forma diferenciada; com o
tempo, porém, o Brasil passou a se afirmar em uma posição conciliadora e
apaziguadora23. Tendo em vista o cenário de amplas mudanças despertando
paixões, é muito difícil alguém propor articulação entre ambos os eixos. O
contexto do “pós-guerra fria” no Brasil tornou as relações civil-militares
cobertas de azedume e rancor se levados em conta alguns lados radicais
tanto civis quanto militares. Esse não era o contexto nos anos 1950.
General Cordeiro de Farias, Almirante Benjamim Sodré, Juarez Távora
e demais fundadores da ESG pensaram na criação de um centro que incluísse
civis plenamente. A tendência era de ampliação em escala geométrica da
presença de civis com o tempo, invertendo uma tendência de mais militares
como estagiários nas turmas. O mesmo se deu no corpo permanente. Cada
momento histórico contou com uma forma de articulação. Inicialmente,
altos mandatários marcariam sua presença na ESG, entre eles: Eurico Gaspar
20 
MIGON, Eduardo. Segurança, Defesa e as relações civis-militares: (re)leituras em apoio à construção de uma
nova agenda brasileira. Revista de Ciências Militares, Lisboa, v. 1, n. 1. p. 101-122, maio 2013.
21 
MOURA, Cristina Patriota de. O Instituto Rio Branco e a diplomacia brasileira: um estudo de carreira e socia-
lização. Rio de Janeiro: FGV, 2007.
22 
MENEZES, Delano Teixeira. O militar e o diplomata. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1997.
23 
ALSINA JR., João Paulo Soares. Política externa e poder militar no Brasil: universos paralelos. Rio de Janeiro:
FGV, 2009.

316
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

Dutra; Ranieri Mazzili; Nereu de Oliveira Ramos; Café Filho; Ernesto Gei-
sel; Humberto de Alencar Castelo Branco; Juscelino Kubitschek; Tancredo
Neves; Artur da Costa e Silva; Emílio Garrastazu Médici. A trajetória foi de
progressiva ampliação no número de estagiários nas turmas, principalmente
com a criação do Caepe (Curso de Altos Estudos em Política e Estratégia)
e a extinção do CSG (Curso Superior de Guerra).
Em seguida, por volta de meados dos anos 1980, observam-se a
ampliação do número de cursos e a presença maior de formadores de opi-
nião (não necessariamente tomadores de decisão). Conforme aumentou a
presença de funcionários públicos e de pensadores, as turmas diversifica-
ram-se e “capilarizaram” sua influência sobre políticas públicas nacionais
e subnacionais. Se, por um lado, as polities têm suas perspectivas de futuro
definidas em deliberação, mudanças podem ser apreciadas como positivas
ou não de acordo com o passado. Assim, para discutir uma instituição
criada em 1949, é necessário entender o que a precede; mas, ao mesmo
tempo, só podemos entender opções dos anos 1970 no Brasil se levarmos
em consideração o jogo de forças da finda década. Como existem focos
diferentes de ação, torna-se imperativa a coordenação entre tomadores de
decisão. Robert Putnam24 viu o processo decisório de política externa, por
exemplo, em “dois níveis” – o interno e o externo – em que as coalizões,
as instituições e as estratégias definem nos jogos: o tamanho, os custos de
oportunidade, as sinergias e as interações.
Pensando menos em dinâmicas, como em Allison, Putnam e outros,
temos enfoques estruturais como o de Raymond Aron25, que entende
diplomacia e estratégia como duas faces da mesma moeda, fazendo cálculos
e usando meios/recursos para obter fins a serviço do interesse nacional;
assim, paz e guerra estão sob o primado da política. A agenda política, nesse
contexto, pode ser definida, controlada, ou ter prioridades estabelecidas
por atores diversos, mas a primazia reside no poder nacional, que zela pela
integração com outros níveis de governo. No caso do Brasil, as atividades
internacionais concentram-se no Ministério das Relações Exteriores, o
Itamaraty, que desde os anos 1990 tem incluído em sua agenda demanda

24 
PUTNAM, Robert D. Diplomacy and Domestic Politics: The Logic of Two-Level Games. International
Organization, v. 42, p. 427-460, jun./jul./ago./set. 1988.
25 
ARON, Raymond. Paz e Guerra entre as nações. Brasília: Universidade de Brasília. 1986.

317
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

de forças coletivas não estatais e de unidades políticas subnacionais. Assim,


todos os quatro tipos de políticas públicas, no que se refere à relação com
o mundo que cerca o Brasil, são conduzidos pela União, salvo casos de
ministérios que criam diretorias internacionais.
Atualmente, em organizações e coletividades, questiona-se o modelo
vestfaliano de Estado, em que há soberania, hierarquia, interesse nacional;
e propõe-se a ascensão do modelo integrador, com federações, soberania
compartilhada, alianças com interesses transnacionais26. Aliado a isso,
estão desafios e riscos que não são mais privilégios de ninguém. Na socie-
dade de risco, as catástrofes, o efeito-bumerangue, o estado de exceção, e
a distribuição de riscos estão sobrepondo-se ao mundo da sociedade de
classes27. Se os desafios aumentam, novas soluções surgem. São exemplos
os sistemas de Estados regionais, polos de poder em governança multiní-
vel, que visam a tornar a sociedade internacional mais igualitária e acabar
com problemas transnacionais28. Esse esforço “integrativo” aproxima-se
do ideário do “grupo dos pragmáticos”.
O “momento” de autonomia decisória deu-se em plena Guerra Fria,
em meio à bipolaridade que jogava de um lado o bloco Comunista/Soviético
e, de outro, o bloco Capitalista/Ocidental. Todavia o período de 1974 a 1979
é marcado, tal como na época do “equilíbrio pragmático”, de Vargas, por
uma ausência de coesão nos dois blocos hegemônicos. Observava-se isso
na amplificação da discussão Norte-Sul em detrimento do engessamento
das narrativas Leste-Oeste. Em 1971, o mundo saiu do sistema de Bretton
Woods, e em 1973 a Opep triplicou o preço do barril de petróleo; as duas
maiores potências entravam em uma quase trégua. Enquanto isso, guerras
civis e atividades terroristas no mundo tornaram-se mais recorrentes.
Os governos vinculados à Aliança Renovadora Nacional passavam a
modificar os cursos de formação, moldando os termos do “método”. Coa-
dunando-se com a visão de Mills29, que encontra nas elites uma interpe-

26 
SEGELL, Glen. Civil-Military relations from Westphalia to the European Union. In: NAGEL, Stuart S. (Ed.).
Handbook of global international policy. New York: Marcel Dekker, Inc., 2005. p. 251-285.
27 
BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2010.
28 
HURRELL, Andrew. One World? Many Worlds? The place of regions in the study of international society.
International Affairs, v. 83, n. 1, p. 151-166, jan./fev. 2007.
29 
MILLS, Charles Wright. The power elite. Nova Iorque: Oxford University Press, 1959.

318
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

netração em seus papéis e necessidades, funcionando de forma a alcançar


equilíbrio de forças. Cada liderança que surge após uma fase de preparação
pode atuar em determinada parte do corpo político, em um setor da polity,
em determinada política pública. Desde o surgimento dos cursos até nossos
dias, militares, diplomatas30 e demais tomadores de decisão civis convivem
harmoniosamente. Devido à interdisciplinaridade, a influência dos esguia-
nos tornou-se difusa31; mas, desde a origem, ESG e Itamaraty mantêm boas
relações, de proximidade.
Desde 1953, são eleitos patronos, o primeiro foi o Barão do Rio
Branco. Em 1972, as turmas passam a ter um nome; nesse ano o patrono
foi Dom Pedro I e o nomeou-se a coletividade como Sesquicentenário da
Independência. Em 2012, destacou-se o Programa Antártico Brasileiro, sob
influência da esguiana Therezinha de Castro. Pode-se perceber, nesses três
momentos, que a filosofia e a práxis da ESG não se restringem aos militares.
No início, somente o Curso Superior de Guerra (ativo até 1985) era rea-
lizado. Com o tempo surgem outros cursos: Estado Maior e Comando de
Forças Armadas; Logística e Mobilização; Inteligência Estratégica; Direito
Internacional para Conflitos Armados; Política e Estratégia; Gestão Estra-
tégica de Recursos de Defesa. Aparentemente, a pluralização de cursos (de
três cursos em 1950 para 12 cursos em 2013) ocorre para reduzir o tempo
necessário para integralizar os cursos, e busca-se uma formação especiali-
zada e um método ajustado às demandas dos estagiários.

O “GRUPO PRAGMÁTICO”, SEUS PENSAMENTOS E SUAS


PRÁTICAS

De acordo com estudos de Pensamento Político, as ideias conformam


práticas políticas. Assim, uma política externa pode condicionar-se por
visões de mundo, princípios ou crenças causais, que atuam na seleção de
30 
Estão presentes nas turmas da ESG os seguintes ministros das Relações Exteriores, em parêntesis suas
turmas: Mário Gibson Barbosa (1951); Vasco Leitão da Cunha (1953); João Augusto de Araújo Castro (1963);
Antônio Francisco Azeredo da Silveira (1974); entre outros. A presença de diplomatas verifica-se desde a criação
da ESG até nossos dias.
31 
O número de pessoas por curso é variado. Foram 139 pessoas no 1º Caepe, em 1985, e sete pessoas no CLMN
de 2007. Entre os dois extremos, oscila o volume de pessoas em cada curso. Por ano, os cursos juntos costumam
ter uma média de estagiários superior a 100 pessoas. Os dados apresentados foram extraídos do sítio oficial da
ESG até 2014. Até então estimava-se que o número de adesguianos superava os 80 mil.

319
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

objetivos, de ações, e de interações32. A forma como se entendeu o princípio


da autonomia ao longo dos tempos variou bastante. Ao analisar a gestão de
Vargas de 1935 a 1942, Gerson Moura33 definiu a política externa como
de “autonomia na dependência” em que condições conjunturais amplia-
ram as margens de atuação nacional, mesmo que a estrutura tivesse sido
de dependência perante grandes potências. De 1939 a 1950, grosso modo,
a América Latina é palco de disputas com dimensões mundiais, e o Brasil
busca um “equilíbrio pragmático” até que se forma um sistema de poder de
hegemonia estadunidense34.
Articulava-se então o desenvolvimento com o nacionalismo, o
bem-estar social com iniciativas públicas e empresas estatais. Do fim
dos anos 1940 até os anos 1970, a identidade nacional era um dos fato-
res a definir ações externas do País; discussão presente no Pensamento
Internacional e/ou Diplomático35, assim como na Academia. Foi um
período em que o Brasil repensava-se em seu modelo ocidental – puro,
qualificado, autônomo – sopesando conjunturas e estruturas na concep-
ção dos próprios atos36. Observando as visões sobre o mundo e do País
para si mesmo, Letícia Pinheiro37 identificou duas duplas de paradigmas
pelejaram: ideológico/grotiano ou pragmático/hobbesiano; globalista ou
americanista. Sendo, portanto, a alternância sincrônica entre os quatro
modelos possíveis a marca da história diplomática republicana. brasileira.
Entre as atuações “autonomistas” mais discutidas, vemos o pragmatismo
do Barão do Rio Branco, o de Vargas, o de Arinos/ Dantas e o de Azeredo
da Silveira; todos eles objetivavam ampliar a capacidade nacional para
alcançar os interesses nacionais.
32 
GOLDSTEIN, Judith; KEOHANE, Robert. Ideas and Foreign Policy: an analytical framework. In: GOLDS-
TEIN, Judith; KEOHANE, Robert (Coord.). Ideas & foreign policy: beliefs, institutions, and political changes.
Ithaca: Cornell University Press, 2003. p. 3-30.
33 
MOURA, Gerson. Autonomia na dependência: a política externa brasileira de 1935 a 1942. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1982.
34 
MOURA, Gerson. Relações Exteriores do Brasil – 1939-1950: mudanças na relação Brasil-Estados Unidos
durante e após a Segunda Guerra Mundial. Brasília: Funag, 2012.
35 
Há uma interessante discussão sobre o que é o pensamento sobre a política externa e seus fenômenos conexos.
O leitor poderá ler textos como o de Paulo Roberto de Almeida (2013) e de Dawisson Belém Lopes (2016) para
ter uma visão introdutória desse debate.
36 
FONSECA JR., Gelson. A legitimidade e outras questões internacionais: poder e ética entre as nações. São
Paulo: Paz e Terra, 2004.
37 
PINHEIRO, Letícia. Política externa brasileira, 1889-2002. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

320
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

É possível dizer que o pano de fundo ideológico, as disputas políticas,


as capacidades econômicas e as condições sociais variaram com o tempo.
Logo, não existe um pragmatismo, existem diversos. Lembrando que o
pragmatismo é calcado em antifundacionalismo, consequencialismo e con-
textualismo38; pragmatismos têm linhas análogas. Na ordem assimétrica,
não se pode defender os interesses nacionais só com recurso da força, sendo
necessário obter legitimidade, ampliando participação em ações que deem
mais credenciais ao País e, nesse sentido, desenvolveu-se em tempos recen-
tes um “pragmatismo democrático”39. Da mesma forma que não existe só
uma versão sobre o pragmatismo, não se encara a política interna do País
na época da mesma forma.
Há alguns que seguem uma versão minimalista de democracia, em
que seria democrático qualquer processo de seleção de elites perpassado por
voto40, e, vendo dessa forma, o ciclo de 1964 a 1985 era uma democracia sui
generis. Há uma visão que louva esse período como em Leonardo Trevisan41,
dizendo que a “revolução” que ocorrera libertava, por evitar a tomada do
poder por grupos políticos autointeressados e/ou que pretendiam vender
o País à URSS ou ao comunismo. Frontalmente oposta é a visão que critica
o entreguismo aos EUA e ao capitalismo selvagem e que vê no período um
“golpe” sucedido por uma “ditadura”, em uma trama urdida por anos, tal
como se vê em Dreifuss42. Por fim, há visões que entendem o governo dos
militares na América Latina durante a Guerra Fria como o modelo autori-
tário pretoriano, que enfatiza a aderência da governança ao corpo castrense
e associa com baixo desenvolvimento sociopolítico43.
Independentemente desse infindo debate normativo, quem ocupou o
Executivo nacional de 1974 a 1979 foi o Presidente Ernesto Geisel, escudado
pelo General Golbery do Couto e Silva e pelo Embaixador Azeredo da Sil-
veira. No plano interno, Geisel implementa o II Plano de Desenvolvimento

38 
POGREBINSCHI, Thamy. Pragmatismo: teoria social e política. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005.
39 
PAROLA, Alexandre Guido Lopes. A ordem injusta. Brasília: Funag, 2007.
40 
SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
41 
TREVISAN, Leonardo. O Pensamento Militar Brasileiro. São Paulo: Ridendo Castigat Mores, 2005.
42 
DREIFUSS, René Armand. 1964: A Conquista do Estado – Ação Política, Poder e Golpe de Classes. Petrópolis:
Vozes, 1981.
43 
NORDLINGER, Eric. Soldiers in Politics: Military Coups and Governments. E. C., Nova Jersey: Prentice
Hall, 1977.

321
CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH / ELIZEU SANTIAGO TAVARES DE SOUSA
PAULO HENRIQUE PASCHOETO CASSIMIRO (ORGS.)

Econômico; estrutura de planejamento econômico com antecedentes: I


PND, Plano de Metas, Plano Trienal etc. Sobre o II PND, pode-se dizer que
ele lutava para manter o crescimento econômico, com câmbio flutuante,
generosos gastos governamentais, absorção de empréstimos e baixa emissão
de moeda. Ampliou-se o emprego, as reservas cambiais foram equilibradas,
estimulou-se o agronegócio, e o crescimento médio anual esteve acima de
10% ao ano; mas a inflação aumentou exponencialmente.
De fato, buscava-se então uma projeção de poder maior e uma hege-
monia na região, desde o início da década de 70; mas, para crescer como
potência, havia o imperativo de conquistar mais recursos e tornar a eco-
nomia forte, em constante crescimento44. O que levou Andrew Hurrell45 a
identificar nessa gestão a “asserção da independência”, de um país emergente
que buscava vantagens, eliminava automatismos, diversificava relações,
enfim, lutava por sua autonomia. Mirando a superação de vulnerabilida-
des domésticas e constrangimentos sistêmicos, reergueram-se as bases
do nacional-desenvolvimentismo mediante o aumento de parcerias e do
aprofundamento de algumas já existentes; refinava-se assim o sistema de
relações bilaterais e as decorrentes parcerias estratégicas46.
Cabe acrescentar que, pelo fato de permanecer como potência média,
semiperiférica, na época, atuava com padrões de comportamento variado
dependendo do tema; em termos de Economia Política Internacional, o
Brasil na UNCTAD era diferente do que planejava a Usina de Itaipu, por
exemplo.47 São dessa época as seguintes ações: extração de petróleo em
águas profundas pela Petrobras; Pró-Álcool, Pólos Petroquímicos; Ferrovia
do Aço; Cobra Computadores; Hidrelétricas (Tucuruí, Balbina, Sobradinho).
Investia-se pesado em infraestrutura como meio de responder à altura os
desafios estruturais ao desenvolvimento do País, esmagado pelas crises
internacionais, mormente a do petróleo.

44 
PEIXOTO, Antonio Carlos. La montée en puissance du Brésil. Concepts et réalités. Revue Française de Science
Politique, v. 30, n. 2, p. 328-355, abr. 1980.
45 
HURRELL, Andrew. The Quest for Autonomy: the evolution of Brazil’s Role in the International System,
1964-1985. Brasília: Funag, 2013.
46 
LESSA, Antônio Carlos. A diplomacia universalista do Brasil: a construção do sistema contemporâneo de
relações bilaterais. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 41, n. especial 40 anos, p. 29-41, 1998.
47 
LIMA, Maria Regina Soares de. The Political Economy of Brazilian Foreign Policy: Nuclear Energy, Trade and
Itaipu. Brasília: Funag, 2013.

322
PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO: TEMAS, PROBLEMAS E PERSPECTIVAS

A presença do presidente estadunidense, Jimmy Carter, fez com


que houvesse uma pressão por direitos humanos no Brasil e facilitou
uma distensão entre governo e opositores, tal como se vislumbrava para
o mundo. Pesou sobre decisões desses países a relação entre Henry Kis-
singer e Azeredo da Silveira a esperar que ao Brasil pudesse ser delegado
poder e responsabilidade em nome do ocidente e, em retorno, assegurasse
apoio à sua ascensão como potência média48. A presidência brasileira
se comprometera então com uma abertura “lenta, gradual, e segura”
na política doméstica, o que significa a revogação do Ato Institucional
número 5, encaminhamentos em direção ao multipartidarismo e à anistia.
Seguindo parâmetros semelhantes aos aplicados domesticamente, auxiliou
na abertura democrática portuguesa, do modelo salazarista de poder ao
governo posterior à Revolução dos Cravos.
Após ser pioneiro no reconhecimento de diversos países africanos,
vinha então interceder em favor da construção da independência de Guiné-
Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique, mas também do aprofundamento
das relações já estabelecidas no continente. Entre 1974 e 1979, são inau-
guradas Embaixadas em: Alto Volta (atual Burkina Faso); Angola; Bulgária;
Guiné Equatorial; Hungria; Lesoto; Moçambique; Quênia; Romênia; São
Tomé e Príncipe; Zaire. Coerentemente com a diretriz autonomista, atuou
em sintonia com outros países na Ásia e no Oriente Médio. Na última região,
o Brasil ampliou o comércio exterior em petróleo, manufaturas, serviços,
armas, e bens primários.
No continente asiático, aqueciam-se os contatos com a República
Popular da China, socialista, e resfriavam-se as relações com Taiwan. Reco-
nheceu-se a Organização de Libertação da Palestina como representante do
povo palestino e criticou-se o modelo inflexível de Sionismo em instâncias
multilaterais. Ocorreram visitas presidenciais à França e à Grã-Bretanha,
assim como a visita à Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha),
na qual fora assinado o Acordo Nuclear, em 1975. Geisel visitou o Japão, a
primeira feita por um presidente brasileiro, na esperança de atrair inves-
timentos. Isso se traduziu no Programa de Desenvolvimento do Cerrado,
Albrás e no Projeto Carajás.

48 
SPEKTOR, Matias. Kissinger e o Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

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Algumas propostas novas surgem na relação com o continente ameri-


cano. Em 1977, o Brasil rompeu o Acordo Militar estabelecido com os EUA em
1952. O País assinou, em 1978, o Tratado de Cooperação Amazônica, visando
ao desenvolvimento regional, com: Bolívia; Equador; Colômbia; Guiana; Peru
e Suriname. Ele pode ser entendido como uma forma de configurar uma
integração regional intergovernamental, soberanista, desenvolvimentista.
Complementava os anteriores Tratado da Bacia do Prata, de 1969, e Fundo
Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata de 1974.
A relação entre presidência, inteligência e chancelaria era composta
pelos “pragmáticos”: Ernesto Geisel (1907-1996); Golbery do Couto e Silva
(1911-1987) e Antônio Francisco Azeredo da Silveira (1917-1990). Dife-
riam da tendência romântica do nacionalismo, eram ungidos pela vertente
“realista”. Um bom exemplo disso é que Azeredo da Silveira não deixaria
muitos escritos, ainda que portador de clássica excelência/habilidade em
seu serviço diplomático. Esse quase Sócrates era crítico do sistema de
preponderâncias e dependências, de um Sistema Internacional desigual;
postulava a ascensão do País como potência de forma ecumênica. Pelo bom
trânsito entre grupos políticos, seu amplo conhecimento sobre os centros
de poder, seu conservadorismo de baixo perfil e sua acolhida na alta cúpula
do Executivo, pode ser considerado maestro dessa guinada na diplomacia
brasileira. Nas palavras de Geisel:
O pragmatismo responsável resultou de conversas com o
ministro Silveira. Ele era nosso embaixador na Argentina
havia alguns anos quando fui escolhido para a presidência.
Demorei, como já disse, na escolha do ministro das Relações
Exteriores. Depois de examinar vários nomes, detive-me no
do Silveira. Verifiquei seu passado e pedi para que viesse ao
Brasil. Conversei com ele e concluí que suas ideias sobre
política exterior. Em grande parte, coincidiam com as minhas.
[...] Tínhamos que conversar e dizer as coisas como elas