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Teoria e Fonte Histórica

Caio Vilanova
Pensar acerca das maneiras do historiador utilizar suas fontes é algo
complexo, principalmente ao ponderar onde se encaixa a fonte a ser utilizada pelo
mesmo, e qual seria a relevância dessa fonte em sua pesquisa. A percepção e o
conhecimento prévio do historiador se fazem fundamentais para se manusear uma
fonte, seja ela de qualquer origem e formato, não se deve descartar a necessidade
básica de se dominar os termos técnicos desta.
O passado de uma cidade, estado, país ou civilização, a História de uma
sociedade influência na concepção que esta faz de si mesma, o que por sua vez se
sobressai em seu cotidiano, de maneira mais visível ou mais discreta. E estas formas
de expressão que são resultado não só de seu entendimento do passado como
também das sequelas deixadas como cicatrizes, passam a compor a cultura de
determinado grupo e esta cultura produz seu próprio relato, sua própria narrativa,
produz uma ou varias fontes possíveis de serem estudadas.
A História se faz no constante movimento entre presente, passado e futuro e
assim vai sendo pensada, feita, representada e planejada. Como já é sabido, não se é
possível possuir o passado, não é um artefato que se encontra ou que se conquista,
existe muito mais complexidade quando se pensa no passado e em sua verdade. O
passado é tudo que temos e possuímos, o passado é também quem somos, ele está
em nossas escolhas, mesmo que não tenhamos consciência disto ou que não,
aceitemos isso. Porém, possuímos em emblemas, sinais e resquícios que nos
fornecem a possibilidade de representar esse passado, isso é a História.
A história é construída a partir de representações do que se é possível acessar
do passado, no presente com isso, possuímos a partir desses trabalhos produzidos
por historiados, a consciência história, que intenta nos direcionar para um futuro
razoável. Com uma mudança de perspectivas acerca da realidade histórica vivida,
dando um sentido de identidade. Sentido esse que pode distanciar ou deslocar as
diferenças e similaridades, a consciências histórica que possibilita novas perspectivas,
permite a sociedade olhar para trás para em seguida se orientar quanto ao que está à
frente, objetivando chegar à algum lugar melhor, usando o presente como
comparativo, desejando que este não se perpetue.
O historiador manipula o tempo e o espaço, articulando ambos com sua
capacidade de abstração, para então chegar a uma finalidade, afinal este não
representa literalmente os fatos passados, este os interpreta e transcreve. O objetivo
do historiador molda o seu objeto no processo da pesquisa, a observação e leitura da
fonte, por si mesma, já cumpre essa função de interferência quando o pesquisador se
debruça sobre o objeto e fonte, para em seguida se dedicar a escrever a respeito do
mesmo.
Faz-se necessário colocar que mesmo que o historiador possa viajar no espaço
tempo, o passado não dá significados e razões a este e sim este é que lhe atribui
significados e razões. O mesmo permanece no presente explorando o passado,
destrinchando possibilidades e documentos até então restritos, dando voz aos reis do
passado para o entendimento dos plebeus do presente, oferecendo parcial sentido ao
nosso contexto. Personagens do passado de uma nação que antes foram o centro dos
acontecimentos, razões, motivações e atenção, aqui são relegados ao papel de meros
coadjuvantes, por vezes, raramente mencionados.
A História nos possibilita reconhecer fatos muito além da ilustre sociedade de
outrora, podemos conhecer a histórias de moleiros perseguidos pela inquisição,
soldados presos por crimes de guerra, mulheres camponesas responsáveis por toda
uma aldeia. Esse conhecimento humaniza nossa atual sociedade, criando
possibilidades de melhoras, não permitindo que a sociedade atual faça releituras dos
erros cometidos pelos nossos antecessores.
Quando atualmente pensamos em fontes a respeito do passado, ou vamos
procurar alguma fonte, ainda é habitual procurar jornais antigos, livros, revistas,
documentos em cartório, discursos em panfletos de campanha eleitoral, cartas, e
outros, desde que sejam antigos. A nova historiografia vem aos poucos se reajustando
com novas fontes televisivas ou cinematográficas, por exemplo. Mas, ainda não é
comum outros tipos de fontes além das citadas serem utilizadas e aceitas com
facilidade pela academia, ainda existem muita resistência para com o novo. O que
deve mudar ao longo das próximas gerações, afinal, atualmente já não se escreve
tantas cartas, os jornais impressos já não têm o mesmo valor e alguns já não são mais
impressos, existem somente em uma plataforma online, as revistas seguem o mesmo
caminho, alguns partidos não utilizam panfletos impressos, por um comprometimento
moral com o meio ambiente, muitos livros recentes são lançados por e-books e se
forem rentáveis, serão impressas algumas tiragens.
A nossa sociedade vive um momento de transição e adaptação constante com
a tecnologia, porém, já somos absolutamente dependentes dela, se por ventura algo
acontecer com a nossa civilização e a seguinte quiser nos estudar, terão que
encontrar uma maneira de acessar arquivos e mais arquivos em nuvens na internet,
pois não possuímos outra forma de armazenar dados e informações.
A História e sua construção exigem que o historiador possua domínio de sua
fonte ou de suas fontes, por essa razão, que tem se levantado um ainda modesto
debate acerca das fontes que estão disponíveis online. Atualmente já são
disponibilizados documentos de séculos passados ou de décadas atrás em algumas
plataformas, documentos que foram digitalizados por algumas instituições, algumas
privadas e outras públicas. Sendo que não foram produzidos em plataformas online,
estes foram disponibilizados ali, também, a sua origem é outra, o que levanta a
discussão como utilizar tais fontes, fontes ainda muito novas no campo da
historiografia
Para a ação de se fazer História, analisando fontes, se faz necessário utilizar a
imaginação como ferramenta de produção e escrita, atualmente, não se concebe a
ideia de fazer História sem aplicar a indução e dedução nas fontes para se chegar a
manuseá-la na pesquisa e escrita historiográfica. O que não significa que deva ser
feito sem cuidado, isso cabe quando pensamos em analisar qualquer tipo de fonte,
assim como nas que forem produzidas em plataformas online, buscando entender a
estrutura e o processo do objeto.
Faz parte do trabalho do historiador entender o processo que produziu as
fontes que ele utiliza e sua pesquisa, já essas são resultado de seus processos
temporais, um texto hoje considerado irrelevante pode ser parte de uma pesquisa
historiográfica no futuro, pois esse texto faz parte de uma estrutura, que faz parte de
seu tempo, parte esse de um quebra cabeça a respeito de toda uma geração.
Pensar a respeito das teorias metodológicas e suas correntes historiográficas
para encontrar o caminho mais coerente ao se escolher uma fonte se fazem
fundamental. Diferentes correntes são necessárias para a melhor elucidação de como
extrair as respostas esperadas, ou melhor, de quais as perguntas devemos fazer para
a fonte.
Muito embora, a História não forneça verdades, esta é fundamentalmente
necessária para a reflexão, essencial para a compreensão de fatos relacionados ao
passado de uma sociedade. Toda sociedade possui suas próprias mazelas, como: as
guerras, a segregação racial ou étnica, a fome, dentre outras, estas mazelas resultam
em marcas, cicatrizes que consciente ou inconscientemente compõem os meios de
representação dos grupos existentes em uma sociedade, que por vezes e não
raramente, podem vir a ser resultantes do seu passado.
A história pode não trazer resoluções aos problemas de uma sociedade em
crise, porém, a mesma contribui com novas possibilidades de leituras sobre a crise
dessa sociedade, viabilizando soluções ou possíveis soluções para o seu presente ou
futuro. E a para que seja feita essa analise as fontes são imprescindíveis, sejam elas
quais forem, atualmente a historiografia tem se possibilitado abrir para novas
abordagens e formatos de fontes. Já existem as mais tradicionais, com: jornais,
revistas, discursos políticos, literatura, dentre outros. E os mais incomuns, que já
conquistaram o seu espaço na academia, como: o cinema, as novelas, as series, e a
música.
Existem inúmeros tipos de fontes em seus mais diversos formatos e com
múltiplas origens, portanto, se faz necessário uma linha teórica e metodológica para
cada uma ser analisada.
Os trabalhos produzidos pelos historiadores podem ter em sua maioria, um
curto alcance se for levado em consideração que o público em geral não tem acesso a
revistas e livros acadêmicos, não por difícil acessibilidade, e sim por carência de
atrativos comuns a todos, já que os trabalhos historiográficos possuem uma narrativa
própria e particular aos seus. Estes trabalhos por si mesmos já são uma maneira de se
fazer história, já que ao se escrever a história o historiador a estaria praticando. Além
disso, o trabalho historiográfico, mesmo tendo que ser escrito, pode ser ajustado para
ser mais dinâmico, principalmente quando se utiliza fontes como a música e o cinema
ou as novelas.
A legitimidade do historiador como ator social, habitualmente é negligenciada
pelo grande público, todavia, o historiador e sua produção são de indispensável
importância no processo de reflexão dos atos e escolhas de toda uma sociedade. Que
estão atrelados a fatos históricos que em muito se relacionam com maneiras de
representações de determinada sociedade, representações estas que podem ser
evidenciadas, quando se analisa letras de músicas, peças teatrais, roteiros de filmes
ou novelas, reportagens de jornais e revistas, programas de televisão ou de rádio,
campanhas publicitárias, do período pesquisado, dentre outros exemplos, estes são
utilizados pelos historiadores como fontes para se interpretar o passado que
buscamos, considerando-se aqui que as motivações dos historiadores para debruçar-
se sobre determinado tema, também possuem, uma razão histórica.
Atualmente o mundo é dominado por imagens e sons diversos, tendo a
“realidade” como sua origem direta, seja pela encenação ficcional, seja pelo registro
documental, a sofisticação tecnológica possibilitou a utilização de aparatos técnicos
aperfeiçoados. E tudo pode ser visto e representado pelos meios de comunicação,
com um realismo, por vezes, surpreendente. Esse é um fenômeno secular que não
passa despercebido pelos historiadores, principalmente os que lidam com o tempo
presente.
Aqui vamos focar nas fontes audiovisuais e suas possibilidades para
testemunhar a história. O cinema pode ser muito funcional para se entender as
percepções de artistas de determinado período, que viviam sob determinado sistema
politico. Mas nos aproximar de compreender como as mulheres eram, e/ou, são vistas
pelos cineastas, quais os níveis de representatividade que estas poderiam ter. As
possibilidades são múltiplas, para se utilizar a sétima arte como fonte histórica aqui só
citou algumas poucas possibilidades.
A testemunha está sozinha: ninguém pode testemunhar em
seu lugar. Ela não tem ninguém a quem recorrer. Entre aquilo de que
ela foi testemunha e os outros, só existe ela. Ou, ela está tanto é mais
sozinha que a "verdadeira" testemunha incapaz de estar aí para
testemunhar. Ela é já, de saída, uma testemunha delegada ou de
substituição, sobre quem pesa - nesse caso, ainda mais pesado – o
encargo de ter a obrigação de testemunhar. Não um dia, nem uma
vez, mas até o fim (HARTOG, François, 2011, p. 2012)

Podemos observar ao longo desse texto que a fonte pode ser incorpora os
anseios de entendimento de uma sociedade e seus grupos, esse processo nada mais
é que o trabalho de ter de selecionar fontes e as desconstruir, as interpretar, para em
seguida transformá-las em texto. Transformar em texto, em literatura, uma pesquisa é
um trabalho árduo que o necessita de uma grande erudição, já que o resultado de uma
pesquisa termina em escrita, o historiador seleciona um pequeno fragmento, sua fonte,
e transforma em escrita, escrita essa que passa a fazer parte da construção histórica
de uma sociedade, da maneira como a mesma se entende.
As informações que podem ser utilizadas pelo historiador, sua fonte primária,
podem ser diversas, foram dados alguns exemplos acima acerca disto, em seguida
esse material primário é transfigurado em informação secundária, ganhando uma
condição nova no meio social e científica. A História tem a condição de alterar a
natureza de monumentos, como igrejas em museus, alterando não somente
monumentos, como também arquivos e acervos, como resultado de sua construção,
implicando no grande alcance que a mesma possui.
Quando se seleciona uma fonte, o pesquisador interfere e a modifica, para em
seguida a interpretar, transportando a fonte de um lugar para outro, uma operação
técnica que para o fazer histórico é indispensável. O mesmo é feito quando se utiliza o
audiovisual como fonte, temos como historiadores nos focar em entender as fontes
audiovisuais em suas estruturas internas de linguagem e seus mecanismos de
representação da realidade a partir de seus códigos internos (NAPOLITANO, 2008).
Essa operação técnica por si mesma, já revela as impressões do pesquisador,
o seu lugar de fala pode ser observado também nessa seleção de fontes, em seguida
o mesmo as transforma, as segmentando para se adequar a sua pesquisa, mas o
historiador só cria fontes secundárias a partir das primárias, o mesmo não forja
documentos para um determinado fim, ele se apropria do que já existe, e interpreta em
um longo e árduo processo.
Após o processo de captação de fontes, o historiador as organiza de uma
maneira funcional e lógica para iniciar a análise das mesmas, o que não significa que
ficará preso a essa organização ou lógica ao longo de todo o processo de construção
literal do seu trabalho. Essa organização se faz necessária para que o mesmo inicie o
trabalho e também para que ao apresentá-lo, caso seja necessário, este esteja de fácil
entendimento.
O historiador contemporâneo possui uma vasta possibilidade de fontes para
analisar, este não precisa ficar preso a determinado tipo de fonte, como a escrita por
exemplo para se alcançar seu objetivo, “... a pesquisa historiadora se apossa de todo
documento como sintoma daquilo que a produziu.” (DE CERTEAU, 1982). Atualmente
a tecnologia proporciona a todos, múltiplas possibilidades, é possível se ter acesso a
documentos do século XVIII somente em sites, e isto não as deslegitima como fontes
utilizáveis, assim como muitos outros materiais.
Todavia, para se manusear fontes tão diversas sem prejudicar a pesquisa e
também para ter a aceitação dos seus pares, se faz importante o domínio mais que
mínimo da historiografia a respeito de seu tema de pesquisa, assim como a
abordagem técnica necessária.
Em alguns casos, o historiador pode reproduzir esse fetiche
em seu trabalho de análise, o que fica claro nos casos em que a
análise é pautada pela avaliação do grau de "realismo" e "fidelidade"
do filme histórico, em relação aos eventos "realmente" ocorridos. Em
outras palavras, é menos importante saber se tal ou qual filme foi fiel
aos diálogos, à caracterização física dos personagens ou a
reproduções de costumes e vestimentas de um determinado século.
O mais importante é entender o porquê das adaptações, omissões,
falsificações que são apresentadas num filme. Obviamente, é sempre
louvável quando um filme consegue ser "fiel" ao passado
representado, mas esse aspecto não pode ser tomado como absoluto
na análise histórica de um filme. A tensão entre subjetividade e
objetividade, impressão e testemunho, intervenção estética e registro
documental, marca as fontes históricas de natureza audiovisual e
musical. Não é raro o historiador - sobretudo aquele mais treinado
para a análise das fontes escritas e que passa a se aventurar nas
fontes audiovisuais e musicais - ficar um tanto indeciso entre a
análise das fontes em si, tomadas como texto documental auto-
suficiente, ou cotejá-las com informações históricas que lhes são
extrínsecas, deixando que o contexto determine o sentido do texto

Nossa perspectiva aponta para um conjunto de possibilidades


metodológicas pautadas por uma abordagem frequentemente
enfatizada por historiadores especialistas em fontes de natureza não-
escrita: a necessidade de articular a linguagem técnico-estética das
fontes audiovisuais e musicais (ou seja, seus códigos internos de
funcionamento) e as representações da realidade histórica ou social
nela contidas (ou seja, seu "conteúdo" narrativo propriamente dito).
(NAPOLITANO, Marcos, 2008, p.237)

O texto acima, tirado do livro coordenado por Pinsky, Fontes Históricas, é muito
oportuno para melhor elucidar as questões que cerceiam o audiovisual como fonte.
Corroborando com o que já foi citado acima.
A atividade do historiador, sua pesquisa e escrita, incorporam o
comprometimento que assume em sua trajetória de construção da verdade,
necessitando, portanto, de muita cautela durante o processo de manuseio das fontes
escolhidas, já que se pressupõe que o resultado final da pesquisa historiográfica é a
compressão e assimilação social. Não se podendo tratar tal trabalho com leviandade
ou displicência, pois, a utilidade final de sua função é que a sociedade entenda o seu
contexto e reflita as suas causas com racionalidade e domínio para com o tema, sendo
capaz, portanto, de contestar seu passado e também seu presente, não se
restringindo a retóricas simplistas e maniqueístas, habitualmente utilizadas por
governos pelos meios de comunicação, massificando verdades distorcidas a respeito
da situação atual de seu governo. O caos que eventualmente permeia as sociedades,
reclama respostas acerca de sua razão de origem, demanda essa, articulada com uma
sociedade que necessita de explicações. Entendendo tal fato, o historiador não pode
se abster do comprometimento que assume com o seu trabalho de cientista, com sua
atividade de desmistificador.
BIBLIOGRAFIA
CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Rio de Janeiro: Editora Forense-
Universitária, 1982, p. 13-119.
HARTOG, François. A testemunha e o historiador. In: ______. Evidência da
História: o que os historiadores veem. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011. p. 203-
228. (Capítulo V).
NAPOLITANO, Marcos. Fontes Audiovisuais – A História depois do papel. In:
PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes Históricas. 1a Ed. São Paulo: Contexto,
2008. p. 235-290.