Direito das Obrigações

1ª Aula, 21/09/2005

Características do Direito das Obrigações 1ª - O Direito das Obrigações é um ramo de Direito civil de natureza tendencialmente patrimonial, no entanto o direito das obrigações não se pode considerar um puro direito da autonomia privada, isto porque temos vindo a assistir a uma crescente publicização com vista a assegurar uma melhor protecção de certos contraentes (arrendatário, trabalhador e ainda normas protectoras dos consumidores e daqueles que contratam por adesão). De referir ainda que na área contratual predominam as normas supletivas, pelas quais o legislador vem suprir a falta de disposição das partes. 2ª - O Direito das obrigações é um direito da dinâmica negocial. Dá suporte jurídico à vida negocial. Nesse sentido o direito das obrigações vai disciplinar as seguintes matérias: a) Circulação de bens (negócios de oneração e alienação) b) Colaboração entre homens (prestação de serviços e trabalho subordinado) c) Prevenção de riscos (contratos de seguros) d)Reparação de danos (responsabilidade civil, tanto a proveniente do não cumprimento de obrigações como a proveniente da violação de direitos subjectivos e ainda a responsabilidade objectiva, pelo risco) Como ramo de Direito ao serviço da dinâmica negocial que dá suporte jurídico a vida negocial, o direito das obrigações demarca-se dos Direitos Reais, estes, são um conjunto normativo ao serviço da estática patrimonial. O direito das obrigações, à imagem de outros ramos de Direito regula ainda relações inter subjectivas (entre sujeitos determinados) como adiante veremos, ao direito de crédito do credor corresponderá o dever de prestar do devedor. 3ª - O Direito das obrigações é um sector normativo heterogéneo, isto porque, estuda realidades tão distintas como a responsabilidade civil e os contratos. 4ª - O Direito das obrigações é um domínio relativamente estável dado a sua filiação no Direito Romano (estabilidade temporal) e dada a sua situação no seio da chamada família Romano-Germânica (estabilidade espacial) isto por existir uma relativa uniformidade, uma maior identidade de soluções. Como domínio relativamente estável, logo menos receptivo as mudanças socioeconómicas, é um Direito susceptível de ser codificado com âmbito supranacional. Tal foi patente nos princípios do UNIDROIT (tentativa de instituir princípios uniformes na área dos contratos internacionais. 5ª - O direito das obrigações tem uma forte ideologia ética, é, nesse sentido, permeável. Isso é patente em varias figuras, como por exemplo na do Abuso de Direito,

(especialmente na sua forma de Venire contra factum proprium) na responsabilidade pré-contratual (art.227º, culpa in contrahendo) e outras. Todas estas figuras são objectivações desse princípio basilar das obrigações que é a Boa-fé. Como sabemos, o Código Civil é uma das fontes do direito das obrigações, o Livro II, nos art. 397º a 1250º vai disciplinar toda a vida da relação obrigacional, com recurso por vezes ás normas relativas à formação dos contratos. O Livro II do código é composto por dois títulos. O primeiro refere-se ás obrigações em geral, já o segundo trata dos contratos em especial.

direitos reais. Assinala-se desde já o facto de se tratar de uma relação inter subjectiva. são elas: ‡Dever jurídico ‡Estado de Sujeição ‡Ónus Jurídico ‡Poder-dever ‡ Dever jurídico± Por dever jurídico entende-se a necessidade imposta pelo direito objectivo.397º e é a relação em que ao direito subjectivo atribuído a um determinado sujeito. está associado à possibilidade de o sujeito activo (titular do direito) o exigir coercitivamente. Importa agora fazer a distinção entreObriga ção e outras figuras. religiosas. direitos de personalidade. Nas obrigações existe sempre uma correlação intersubjectiva.Noção de Obrigação Faz-se comummente referencia a um conceito amplo de obrigação. Ao credor importa que o devedor efectue a prestação com vista à satisfação do seu interesse. tais como: as obrigações morais. logo. preferencialmente através do seu cumprimento. Como tal a imposição do comportamento é normalmente acompanhada da cominação de algum meio coercitivo. a uma dada pessoa. logo entre sujeitos determinados. cívicas. Esse comportamento. do lado activo da relação jurídica. o devedor. ao qual o devedor está obrigado visa satisfazer o interesse do credor (sujeito activo). que. A obrigação em sentido técnico vai ter como objecto uma prestação. Podemos concluir que o dever jurídico é uma categoria bastante mais ampla que os deveres de prestação. Já o dever de prestar é o contrapolo do direito de crédito. etc. Aos deveres jurídicos podem corresponder. sendo que estes são abarcados por aqueles. É uma ordem. etc. no plano dos factos podem ou não proceder de acordo com ele. ora esse conceito mais alargado terá de ser depurado por forma a obter um conceito mais estrito. O dever jurídico é o contrapolo do direito subjectivo. uma injunção dirigida à inteligência e à vontade doa indivíduos. Obrigação em sentido estrito (sentido técnico) ± corresponde à formulação do art. Obrigação em sentido amplo ± é uma figura susceptível de abranger um conjunto de obrigações que são exorbitantes ao domínio do direito das obrigações. Como exemplo do que acabamos de dizer ateste-se no seguinte: Ao direito de propriedade (direito real por excelência) corresponde uma obrigação de abstenção adstrita a todos os terceiros indeterminados. um comando. esse sim relevante ao Direito da Obrigações. . correspondente ao direito subjectivo não se confunde com o lado passivo da relação obrigacional (este é sempre um dever de prestação). de observar determinado comportamento. Desde já verificamos que o dever jurídico. a chamada obrigação passiva universal que se impõe erga omnes. A relação obrigacional estabelece-se entre sujeitos determinados. um comportamento imposto ao sujeito passivo. direitos de crédito. corresponde um dever de prestação que incumbe a outro sujeito determinado. ao devedor interessa que a obrigação rapidamente se extinga.

são as seguintes: a)O acto a que o ónus se refere não é imposto como um dever. não é um dever jurídico (excepção feita ao caso do registo predial. o direito de crédito não prescinde da cooperação do devedor através da prestação (positiva ou negativa) a que este está adstrito. mas também de outra ou outras pessoas e que só são legitimamente exercidos quando se mantenham fieis à função a que se encontram adstritos. qualquer tipo de sanção.‡Estado de Sujeição± como vimos o dever jurídico é o contrapolo do direito subjectivo. na medida em que conferem ao respectivo titular o poder de exigir de outrem determinado comportamento. poderes da tutela. De igual forma. O direito potestativo é a faculdade concedida. modificação ou extinção de relações jurídicas. dizendo-se que esta fica num estado de sujeição. para Menezes Cordeiro os ónus satisfazem apenas os interesses do onerado. per si ou integrada numa decisão judicial. Alguém compra um imóvel e procede ao registo com vista a torna a aquisição oponível a terceiros. Não é um estado de sujeição. Como já vimos. de forma a alcançar ou manter uma vantagem ou evitar uma desvantagem. consequentemente. de. Efeitos tendentes à criação. ‡Ónus Jurídico± É a imposição de observância de determinado comportamento a um sujeito. logo. O estado de sujeição consiste exactamente na situação em que a contraparte suporta na sua esfera jurídica (sem que nada possa fazer para a isso se escusar) os efeitos da actuação do titular do direito potestativo. No entanto distinguem-se dos direitos subjectivos patrimoniais porque . É de referir a posição do Prof. poderes paternais. etc. a determinada pessoa. aos direitos de crédito. modifique ou extinga na sua esfera jurídica que Botticher coloca a tónica do direito potestativo. Ex. ao invés do Prof. b)O direito potestativo esgota-se com o acto do seu exercício. é precisamente na desnecessidade de consentimento do próprio para que determinada relação se crie. Antunes Varela. b)O acto visa satisfazer o interesse do onerado e não de terceiros. São direitos conferidos no interesse. O ónus jurídico caracteriza-se por duas notas. para o onerado. produzir efeitos jurídicos que inelutavelmente se impõem à contraparte. Menezes Cordeiro que. este sim. Assemelham-se aos direitos subjectivos e. já o estado de sujeição é o contrapolo do direito potestativo. Do lado activo da relação tem-se caracterizado o direito potestativo (por contraposição aos poderes jurídicos em geral) por uma dupla nota: a)O direito potestativo é inerente a uma relação jurídica pré-existente. pela ordem jurídica. estabelece diferenças entre ónus e encargo ou incumbência. à sua inobservância não está associada uma sanção. O titular passivo da relação nada tem de fazer para cooperar na realização do interesse da contraparte. ‡ Poder-dever (poderes funcionais) ± São exemplo de poderes-deveres os deveres recíprocos dos cônjuges. na medida em que se exige que o interessado proceda de determinada maneira para que os efeitos pretendidos se produzam. não do titular ou não apenas do titular. obrigatório e que marca a viagem de simples ónus para verdadeiro dever jurídico) no sentido em que o não cumprimento do ónus não acarreta.

e será sobre opatrimó nio do devedor que irá recair a execução destinada a indemnizar o dano causado ao credor quando a prestação não seja voluntária ou judicialmente cumprida (art. existe apenas uma pessoa de cada lado da relação (um credor e um devedor) neste caso a obrigação diz-sesingular. enquanto o credor tem. A tutela do seu interesse depende da sua vontade. A relação jurídica obrigacional e os seus elementos constitutivos 1-Sujeitos 2-Objecto 3-Vinculo 3. e esta apenas dodevedor pode ser exigida. que não social. Ocredor é a pessoa a quem se proporciona a vantagem resultante da prestação. o titular do interesse que o comportamento do devedor visa satisfazer. Ser titular do interesse significa: a) Ser o credor o portador de uma situação de carência ou de uma necessidade b) Haver bens (coisas. A obrigação tem assim carácter relativo. porque vincula pessoas determinadas.511º CC ± A lei admite que no momento em que a obrigação se constitui o credor (sujeito activo) não esteja determinado (mas seja determinável) no entanto. simultaneamente do lado activo e passivo. É. politica ou pessoal). quem está adstrito ao cumprimento da prestação. c) Haver uma apetência ou desejo de obter estes bens para um suprimento da necessidade ou satisfação da carência. uma posição de supremacia.Contrato para pessoa a nomear. Ex. como sujeito passivo da relação.o titular não é livre no seu exercício. É o elemento primordial da relação e é composto pelocredor (lado activo) edevedor (lado passivo). ao invés dos direitos reais ou direitos de personalidade que. serviços) capazes de preencherem tal necessidade. o devedor ocupa uma posição de subordinação (subordinação jurídica. é sobre o devedor que recaem as sanções estabelecidas na lei. dentro da relação obrigacional. No entanto a obrigação pode serplural. já que se assim não fosse. O devedor é a pessoa sobre a qual recai o dever (especifico) de efectuar a prestação. A persistência da obrigação (não obstante a alteração dos sujeitos) . 452º . o devedor já terá de ser conhecido. não se estabeleceria a obrigação. Se não cumprir pontualmente.Promessa publica. por um lado e de faze-lo em obediência à função social a que o direito se encontra adstrito. quer do lado activo quer do lado passivo quer. por outro. O credor é o amo e senhor da tutela do seu interesse. Apenas ocredor tem direito à prestação. o funcionamento dela está subordinado à iniciativa do titular activo da relação. valem em relação a um círculo indeterminado de pessoas (erga omnes). No mais das vezes. 817º e 601º ). 459º . como direitos absolutos que são. Art.1-Garantia 1-Sujeitos ± São os titulares da relação (passivo e activo). tendo obrigatoriamente que exerce-los.

morrer e lhe suceder um único herdeiro. muda de mão sem perder a sua identidade. 577º e SS). consistirá tanto numa acção como numa omissão. Distingue-se do dever geral de abstenção próprio dos direitos reais. conduta adstrita ao devedor (devida ao credor). A prestação de coisa Prestação de coisa Coisa presente Coisa futura art. Entendendo-se que a relação constituída entre o herdeiro (C) e o devedor (B) é a mesma que existia na titularidade de A. Falamos então em transmissão da obrigação (atinente a estas matérias veja-se os art. Ex. Aprestação será positiva ou negativa.511º). contagem de prazo prescricional etc. em casos como estes. Esta pode subsistir com todos os seus atributos fundamentais (garantias. já que o dever de prestar é um dever específico (apenas atinge o devedor) ao contrário da obrigação passiva universal que se dirige a todos os terceiros. Se A. 2-O Objecto ± O objecto da obrigação consiste na prestação. A obrigação. isto é. credor de B.) apesar de mudar um ou ambos os sujeitos da relação. Aprestação é o fulcro da obrigação. este ocupará o lugar de A na relação creditória. Classificação das obrigações em função do tipo de prestação 1-A prestação pode ser de coisa ou de facto. como o fiador. mantém-se. A chamadaam bulatoriedade da obrigação refere exactamente a ampla possibilidade de a obrigação mudar de sujeitos. No entanto a permanência dos sujeitos originários do vínculo não é condição essencial à persistência da obrigação.211º e 399º Podemos distinguir entre objecto imediato e mediato da obrigação . como relação intersubjectiva que é (embora se admita o previsto no art. doando-o ou trocando-o) ou quando um terceiro. C.A existência dos dois sujeitos já referidos é essencial à obrigação. O que se diz quanto aos sujeitos originários é igualmente valido para aqueles que lhes sucedem na titularidade da relação. De forma idêntica se representam as coisas quando o credor cede o seu crédito a outrem (vendendo-o. paga em vez do devedor e a lei o investe (sub-roga) na posição do credor. A conduta do devedor é o meio pelo qual o credor irá alcançar determinada posição (meio através do qual o credor verá cumprida a satisfação do seu interesse).

[Type a quote from the document or the .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful