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Integrais Múltiplas e

Cálculo Vetorial
Material Teórico
Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Ana Lucia Nogueira Junqueira

Revisão Textual:
Prof. Ms. Luciano Vieira Francisco
Diferenciação de Função de Várias Variáveis

• Introdução
• Curvas Paramétricas Planas
• Curvas no Espaço
• Funções Vetoriais
• Algumas Noções Topológicas: Conjuntos Abertos, Fechados e Fronteira
• Gráfico de uma Função de Duas Variáveis
• Curvas de Nível
• Limite e Continuidade de Função de Duas ou Mais Variáveis
• Limite de Uma Função de Duas Variáveis Independentes
• Derivadas Parciais

·· Apresentar o conceito de função vetorial e curvas parametrizadas.


·· Definir e trabalhar limites, continuidade e integral de funções vetoriais.
·· Apresentar o conceito de função de várias variáveis.
·· Definir curvas de nível e tangentes em curvas em uma superfície.
·· Definir limite e continuidade de funções de várias variáveis, evidenciando
semelhanças e diferenças desses conceitos em uma variável.
·· Definir e trabalhar derivadas parciais e regra da cadeia.
·· Trazer exemplos significativos e algumas aplicações.

Caro(a) aluno(a),
Até então você deve ter estudado o cálculo de função de uma variável e na disciplina
abordaremos todas as noções, provavelmente já vistas e mais algumas para funções de várias
variáveis. Então temos que ir por partes.
Nesta Unidade estudaremos parametrização de curvas no plano e no espaço, funções
vetoriais, interpretação de tangente às curvas e superfícies, em um ponto. Em seguida,
introduziremos as noções de funções de várias variáveis, com direito a todos os conceitos
trabalhados em uma variável: domínio, imagem, gráfico, limite e continuidade, mais derivação
parcial. É tudo novo, mas parece conhecido por analogia. E é isso mesmo! Com certeza há
muita analogia, mas com algumas extensões que criam peculiaridades, que devem ser vistas
cuidadosamente.

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Para esboçar um gráfico, ou ajudar na visualização de uma superfície, lançaremos mão
das curvas de nível. Nesse sentido, é muito útil o conhecimento de Geometria analítica,
particularmente sobre cônicas e quádricas, as quais ajudam na identificação das equações.
Tenha isso em mente para, no caso de precisar, retomar esse estudo. Para o conceito de limite
de funções de duas variáveis a noção de vizinhança de um ponto será estendida para uma
vizinhança como um disco aberto – ou bola aberta – em torno do ponto e para derivar uma
função de mais de uma variável, definiremos e trabalharemos com derivadas parciais.
Mas, acima de tudo, trataremos desses conceitos além da fundamentação teórica, com
muitos exemplos e imagens para ajudar na visualização e nos procedimentos de resolução.
Não deixe de ver os tópicos abordados em contextualização por situarem a relevância e a
aplicabilidade desses conceitos, na Matemática e em outras áreas do conhecimento.
O material complementar traz a contextualização histórica do cálculo, importante para ter
conhecimento de como vieram as primeiras ideias, quais dificuldades e percalços na criação e
evolução dos conceitos afins, bem como os principais nomes de pesquisadores em cada época.
Acompanhe o desenvolvimento da teoria, prestando redobrada atenção às definições,
propriedades e teoremas, confira os exemplos dados, preparando-se para resolver as atividades
propostas nesta Unidade. Serão úteis as estratégias algébricas, bem como os conhecimentos
sobre o cálculo de função de uma variável.
Como de costume, teremos atividades avaliativas e de reflexão sobre o tema desta Unidade.
Fique atento(a) aos prazos!
Espera-se que ao término desta Unidade você seja capaz reconhecer, analisar e trabalhar
com os conceitos do cálculo de funções de mais de uma variável, uma vez que os fenômenos
no mundo físico e aplicações no mundo real envolvem sempre relações e funções com
várias variáveis. Acima de tudo, espera-se que você saiba utilizar os conceitos aqui tratados,
transpondo-os em outras situações em que se façam presentes.
Bom estudo!

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Contextualização

Até aqui você viu o cálculo de funções de uma única variável. No entanto, no mundo real
os fenômenos ou as quantidades físicas envolvidas dependem de duas variáveis ou mais. Por
exemplo:

Criação de Abelhas
Figura 1
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa) informa que para obter sucesso na criação
de abelhas, é fundamental uma avaliação detalhada
do tipo de vegetação em torno do apiário, levando-
se em conta não apenas a identificação das espécies
melíferas, mas também a densidade populacional e
os seus períodos de floração. Essas informações serão
fundamentais na decisão do local para a instalação do
apiário, assim como no planejamento e cuidados a
serem tomados – revisão, alimentação suplementar
e de estímulo etc. – para os períodos de produção
e de entressafra – épocas de pouca ou nenhuma
Fonte: iStock/Getty Images disponibilidade de recursos florais.

Estados Físicos da Matéria


A matéria é composta por pequenas partículas e, de acordo com o maior ou menor grau
de agregação entre essas, pode ser encontrada em três estados: sólido, líquido e gasoso. O
volume, a densidade e a forma de um composto podem variar com a temperatura. Assim,
os compostos apresentam características de acordo com o estado físico em que se encontram:
estado gasoso (A), líquido (B) e sólido (C):
Figura 2

Fonte: brasilescola.com
Essas características obedecem a fatores como a força de coesão – que faz com que as
moléculas se aproximem umas das outras – e a força de repulsão – na qual as moléculas se
afastam umas das outras. No estado gasoso a força de repulsão predomina, enquanto que no
estado sólido é a força de coesão a preponderante. Assim, quando uma substância muda de
estado físico sofre alterações nas suas características microscópicas – arranjo das partículas – e
macroscópicas – volume, forma –, sendo que a composição continua a mesma.
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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Eletromagnetismo
Figura 3
Eletromagnetismo é o nome que se dá ao
conjunto de teorias que Maxwell, apoiado em
outras descobertas, desenvolveu e unificou para
explicar a relação existente entre a eletricidade
e o magnetismo. Eletromagnetismo é uma
parte essencial da Física e uma ferramenta de
importância fundamental em praticamente todas
as engenharias. É onipresente na vida quotidiana:
telefones celulares, televisões, rádios, leitores de
CD, computadores, trovoadas, reações químicas,
visão, radar e a luz das estrelas são, entre muitas
outras coisas, fenômenos influenciados pelo
eletromagnetismo, ou tecnologia que funciona à
Fonte: brasilescola.com base do eletromagnetismo.
É ainda descrito por leis matemáticas, nesse caso contidas nas Equações de Maxwell: que
dependem do campo elétrico, do campo magnético, da densidade de carga elétrica e da
densidade da corrente elétrica.

Derramamento de Petróleo no Mar


Figura 4
Quando derramado no mar, o petróleo se
espalha, formando uma mancha, de espessura
variável e que se deslocará em função da
velocidade e direção dos ventos e correntes
marinhas.
No seu percurso em direção à costa ou ao alto
mar, tal mancha sofrerá uma série de processos,
chamados intempéricos que, por sua vez, são
influenciados por outros fatores, como o estado
do mar e do clima, a presença de bactérias e
Fonte: iStock/Getty Images
materiais particulados suspensos na água e,
principalmente, das propriedades físico-químicas do óleo derramado.
Conhecer as características físicas e químicas do óleo permite aos tomadores de decisões
dos planos de contingência preverem o comportamento e o destino da mancha. Com isso, cria-
se maiores probabilidades de serem adotadas medidas de contenção e controle mais eficazes
e em um espaço de tempo muito menor, garantindo, assim, a minimização dos impactos
ambientais causados, a redução de operação e até maior volume de óleo recuperado.

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Mecânica dos Fluidos
Figura 5
Muitas aplicações tecnológicas baseiam-
se na mecânica dos fluidos, ou à estrutura é
grandemente afetada pelas leis de movimento
dos fluidos. Um exemplo evidente é o da
aerodinâmica de um avião, associada a um
bom desempenho e a um baixo consumo de
combustível, que é intensivamente testado em
todos os novos protótipos em túneis de vento.
Outro exemplo surpreendente é fornecido
pelo estudo dos problemas do trânsito em uma
grande cidade, o qual pode ser modelado por um
problema de mecânica dos fluidos, fazendo-se
Fonte: Wikimedia Commons
variar a velocidade, compressibilidade, viscosidade
e outras propriedades do fluido consoante à situação concreta que se pretende estudar.
Uma das equações fundamentais da mecânica dos fluidos é a de Navier-Stokes. A linguagem
em que é escrita a Equação de Navier-Stokes é, mais uma vez, a do cálculo diferencial de várias
variáveis, aplicado ao campo vetorial da velocidade do fluido e a outros fatores.

Modelo Econômico Tradicional


Figura 6
A maior parte das empresas ainda utiliza o
modelo econômico tradicional em seu processo
de planejamento. Denominamos de modelo
tradicional aquele em cuja concepção não se
leva em conta o fator incerteza.
O modelo econômico tradicionalmente
utilizado pelas empresas é dado pela expressão
L = (P - V). X - F, onde:
• L = lucro total;
Fonte: iStock/Getty Images • P = preço unitário de venda do produto;
• V = custo variável por unidade;
• X = volume de vendas;
• F = custo fixo total.
Normalmente, as empresas consideram que todas as variáveis de entrada desse modelo, ou
seja, preços de venda, custos e volumes de produção, são conhecidas – consideram o modelo
determinístico que despreza o comportamento aleatório. Assim, o lucro é função do preço
unitário do produto, do custo variável por unidade de fabricação do produto, do volume de
vendas e do custo fixo de produção.

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Altitude Acima do Nível do Mar


Figura 7

A altitude acima do nível do mar de um


determinado ponto da superfície da Terra
depende das coordenadas geográficas de
latitude e longitude do lugar.

Fonte: Wikimedia Commons

Painel Solar
Figura 8

A quantidade de energia utilizável que um painel solar pode captar depende de sua
eficiência, de seu ângulo de inclinação em relação aos raios solares, do ângulo de elevação do
Sol acima do horizonte, além de outros fatores.

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Volume de Recipientes
Figuras 9 e 10

O volume de um recipiente depende de sua forma tridimensional. No caso de caixas na


forma de blocos retangulares – paralelepípedos – o volume depende de três dimensões lineares,
comprimento, largura e altura. No caso de recipientes cilíndricos, depende também dá área
da base – dimensão dois – e da altura.

É o que ocorre com muita frequência em livros de Figuras 11 e 12


Matemática, inclusive em exercícios para determinar quais
seriam as dimensões que fornecem o maior volume, dentro
de algumas condições iniciais como, por exemplo, a limitação
de custo de material. Mas como fazer para encontrar volumes
de recipientes de formatos não tão geometricamente
convencionais, como as das seguintes figuras?
Nesse caso, a integração tripla poderá ser um caminho
para resolver, dentro de algumas condições que veremos
nesta Unidade, particularmente no caso de rotação de curvas
em torno de um eixo, gerando um sólido de revolução.

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Introdução

Até aqui você deve ter visto o cálculo de funções de uma única variável. No entanto, no
mundo real, os fenômenos ou as quantidades físicas envolvidas dependem de duas variáveis ou
mais, como você viu na contextualização.
Mas antes de definirmos função de mais de uma variável, vejamos um tópico que será muito
útil mais à frente. Trata-se de como podemos trabalhar matematicamente o movimento.
Por exemplo, veja que no mundo real a maioria das situações está em movimento, que
pode ser um movimento planar – contido em um plano –, ou um movimento espacial.
Figura 1 – Corpo humano em movimento.

Fonte: iStock/Getty Images

Figura 2 – Montanha russa

Fonte: iStock/Getty Images

As curvas representadas por esses movimentos podem ser parametrizadas de acordo com
suas componentes vetoriais em cada direção. É do que aqui trataremos.

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Curvas Paramétricas Planas

Imagine que uma partícula se move ao longo da curva C representada na seguinte Figura. É
impossível descrever C como uma função y = h(x) porque para um mesmo valor de x, teríamos
mais de um valor de y (o que contraria a definição de função e uma variável). Mas as coordenadas
(x,y) da partícula são funções do tempo t. Assim, podemos definir x = f(t) e y = g(t) e esse par
de equações é uma maneira conveniente de descrever uma curva desse tipo:
Figura 3

Fonte: Stewart (2012, p. 636)

Suponha, então, que x e y sejam dadas como funções de uma terceira variável t, denominada
parâmetro, pelas equações x = f(t) e y = g(t), denominadas equações paramétricas. Dessa
forma, cada valor de t determina um ponto (x,y) que pode ser marcado no plano coordenado.
Quanto t varia, o ponto (x,y) = (f(t), g(t)) varia e traça a curva C, denominada curva
parametrizada. O parâmetro t não representa necessariamente o tempo e podemos exibir
qualquer outra letra para o parâmetro. Porém, em aplicações em que o parâmetro t é o
tempo, notadamente na Física, podemos interpretar o par (f(t), g(t)) como a posição de uma
partícula no instante t.

Exemplo 1
Considere C a circunferência de equação x2 + y2 = 4 representada na seguinte figura –
especificamente no contorno do círculo – e encontre uma parametrização para esta curva:
Figura 4

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Resolução
Nesse caso, dado um ponto P(x,y) sobre a curva, podemos escolher como parâmetro o
 
ângulo t que o raio vetor r = OP forma com o semieixo positivo OX das abscissas, no sentido

anti-horário. Assim, como r = 2 temos as equações paramétricas dessa circunferência C:
x = 2cos ( t ) e y = 2 sen ( t ) , 0 ≤ t ≤ 2π
Essa parametrização pode ser graficamente representada da seguinte maneira:
Figura 5

Exemplo 2
Identifique a curva definida pela parametrização x = t2 - 2t e y = t + 1, t ∈  .

Resolução
Podemos isolar t da equação da ordenada, t = y - 1, e substituir na equação da abscissa,
x = ( y − 1) − 2 ( y − 1) = y 2 − 2 y + 1 − 2 y + 2 = y 2 − 4 y + 3
2

Temos, da Geometria analítica, que é uma parábola com eixo paralelo ao eixo horizontal –
eixo X –, cuja equação geral é dada por (y - k)2 = 2p (x - h), onde V = (h, k) é o ponto do vértice e
p
é a distância focal – do foco ao vértice. Tentemos então colocar a equação da seguinte forma:
2
x = y 2 − 4 y + 3 = ( y − 2 ) − 4  + 3 = ( y − 2 ) − 1 ⇒ ( y − 2 ) = ( x + 1)
2 2 2
 
1 p 1
Logo, V = (-1,2) e 2 p =1 ⇒ p = ⇒ = . Como não nos interessa aqui identificar o
2 2 4
foco, mas as raízes para podermos esboçar a curva, podemos da equação x = y2 - 4y + 3
fazer x = 0 e acharmos as raízes em relação ao eixo Y.
 y =1
Então, y2 - 4y + 3 = 0 ⇒  ⇒ (0,1) e (0,3) são as raízes. Poderíamos também ter feito
y = 3
x = 0 na equação paramétrica x = t2 - 2t e encontrar t para substituir na equação paramétrica
y = t + 1 para encontrar o y correspondente, ou seja:
= t 0= y 1
x =0 ⇒ t 2 − 2t =0 ⇒  ⇒ ⇒ ( 0,1) e ( 0,3) raízes no eixo Y.
= t 2= y 3

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Encontrando mais alguns valores de t para representar graficamente a parábola temos:
Figura 6

Fonte: Stewart (2012, p. 636)

Observe que neste exercício o que fizemos foi identificar a equação da curva por eliminação
do parâmetro.

Exemplo 3
Empregar trigonometria para descobrir a curva representada por:
= (θ ) e y 4sen (θ ) , 0 ≤ θ ≤ 2π
x 3cos=

Resolução
Para eliminar o parâmetro neste caso, faremos assim:
x y
cos (θ )= e sen (θ )= e usando que sen 2 (θ ) + cos 2 (θ )= 1 , temos:
3 4
2 2
x  y x2 y 2
+
    1
=⇒ + =1
3  4 9 16

Então a curva é uma elipse de centro na origem e eixo maior no eixo Y, a = 4


Portanto, com vértices A1 = (0,4) e A2 = (0,4) ; eixo menor no eixo X, b = 2, logo, vértices
B1 = (3,0) e B2 = (-3,0) representada a seguir:
Figura 7

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 4
Dispositivos de elaborar gráficos fazem parte da maioria das calculadoras ou de alguns
programas. Podem também ser usados para fazer gráficos de curvas dadas por equações
paramétricas porque os pontos se localizam em ordem, conforme são incrementados os
valores do parâmetro.
Vejamos, por exemplo, se utilizarmos um dispositivo de fazer gráficos para a curva dada
pela equação cartesiana x = y4 - 3y2, pode-se usar a seguinte parametrização: y = t e x = t4 - 3t2,
t ∈  . Usando um dispositivo, o gráfico é:
Figura 8

Fonte: Stewart (2012, p. 639)

Exemplo 5
Eliminar o parâmetro das equações paramétricas a seguir e encontrar a equação cartesiana:

=x sen
= 2
( t ) e y tg 2 ( t ) .sen2 ( t ) , t ∈ .
Resolução
sen 2 ( t )
Usando relações trigonométricas, como tg ( t ) =
2
temos que:
cos 2 ( t )
 sen 2 ( t )  sen 4 ( t ) sen 4 ( t ) x2
y =  2  sen 2 ( t ) = ⇒ y 2 . (1 − x ) = x 4
2
= =
 cos ( t )  cos ( t ) 1 − sen ( t ) 1 − x
2 2

Abordaremos agora algumas curvas muito importantes e famosas: a cicloide, a catenária e


a bruxa de Agnesi.

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Cicloide
Cicloide é a curva descrita pelo ponto P na circunferência de um círculo quando esse gira ao
longo de uma linha reta sem deslizar. A parametrização da cicloide está indicada na seguinte
Figura.
Suponhamos que o círculo tenha raio a e o ângulo de giro seja θ , que tomamos como
parâmetro, como indicado na mencionada Figura. Além disso, suponhamos que no início
do movimento o ponto P se encontra na origem. Quando θ = π , P está no ponto máximo
(π a, 2a ) e quando θ = 2π ,P retorna ao eixo X em ( 2π a, 0 ) e segue repetindo esse processo
em períodos iguais a 2π . Portanto:

AC BD
sen (θ ) = sen (π − θ ) = sen ( ∠APC ) = =
a a
AP
cos (θ ) =
−cos (π − θ ) =
−cos ( ∠APC ) =

a

Daí, AP = − acos (θ ) e BD = asen (θ ) . Como o círculo roda ao longo do eixo X, sabemos


que BA = DC = a. Além disso, OD = arco (PD) = aθ . Logo, a parametrização da cicloide é:

x =OD − BD =aθ − asen (θ ) =a (θ − sen (θ ) )


y=BA + AP =a − acos (θ ) =a (1 − cos (θ ) )

Figura 9

Fonte: Larson e Edwards (2010, p. 716)

Observe que a cicloide tem quinas agudas nos pontos de abscissas x = 2kπ a , k inteiro
positivo. As derivadas são nulas nesses pontos, ou seja, quando θ = 2kπ pois:

a (1 cos (θ ) ) ⇒ x′ ( 2kπ ) =−
x′ (θ ) =− a (1 cos ( 2kπ ) ) =−
a (1 1) = 0
y′ (θ ) = asen (θ ) ⇒ y′ ( 2kπ ) = asen ( 2kπ ) = a.0
Nesses pontos a tangente é vertical. Em todos os outros pontos a cicloide é uma curva suave.

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Saiba Mais
A braquistócrona e o desenvolvimento da Ciência:
Uma pergunta que muitos matemáticos e físicos escutam sobre suas pesquisas é:
“Para que serve isso?”
Acredita-se que o significado dessa pergunta está intimamente ligado ao que
é a Ciência e como essa se desenvolve. Muitas vezes, um trabalho puramente
teórico é o passo inicial para o desenvolvimento de toda uma área com diversas
aplicações. Uma dessas condições, chamada de problema da braquistócrona,
apareceu em junho de 1696, na revista alemã de Matemática Acta Eruditorium,
fundada por Leibniz. Naquela época, era comum matemáticos proporem desafios
dessa forma e o matemático suíço Johann Bernoulli propôs o seguinte:
Dados dois pontos A e B em um plano vertical, qual
a curva traçada de um ponto ao outro tal que uma
partícula, sob ação apenas da gravidade, desloque-se
no menor intervalo de tempo?
Foram propostas soluções para o problema por Newton, Jacob Bernoulli, Leibniz
e L’Hôpital, publicadas na Acta Eruditorium posteriormente. A curva procurada
é a cicloide, nome dado por Galileu, que estudou suas propriedades em 1600. A
cicloide, como vimos, é uma curva definida por um ponto em uma circunferência
rolando, sem deslizar, por uma reta. A braquistócrona, cujo nome significa a
curva mais rápida, é um ramo da cicloide invertida e é onde observarmos que a
partícula sempre chegará antes em comparação com outras curvas:

Figura 10
A

Cicloide

Mas a cicloide invertida é também uma curva tautócrona. Nessa, o tempo


independe da altura, o que significa que, de quaisquer dois pontos que forem
deixados dois móveis, esses chegarão ao mesmo tempo no ponto mínimo da curva.
E na braquistócrona, o tempo de queda é o menor possível, o que significa que
a curva imprime maior aceleração. Por essa propriedade, a braquistócrona, que
outrora “esquentou a cabeça” de muitos matemáticos, causando algumas dúvidas
e divergências, hoje serve até como fundamento para aceleradores de partículas.
Veja seu movimento e outras informações em: https://youtu.be/k6vXtjne5-c e
http://www.etudes.ru/en/etudes/cycloid.

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Catenária e Curvas Parabólicas
Um cabo flexível homogêneo suspenso em equilíbrio pode assumir a forma
de uma catenária ou de uma parábola, mas em condições diferentes.

Segure um fio pelas extremidades, não o estique e verificará que a força da gravidade faz
com que o fio penda ao meio, assim como a sua forma varia consoante o afastamento das
extremidades. O mesmo ocorre com uma corrente suspensa ou ainda em cabos suspensos, de
eletricidade de alta tensão, como nas seguintes figuras:
Figura 11

Fonte: iStock/Getty Images

Figura 12

Fonte: Thinkstock/Getty Images

Mas qual forma é esta? Galileu Galilei pensou que se tratava de uma parábola. Em 1669,
Joachim Jungius provou que Galileu tinha se enganado – grandes cientistas também cometem
erros – e, por volta de 1690, em resposta a um desafio lançado por Jacob Bernoulli, vários
matemáticos de renome, como Leibniz, Huygens e Johann Bernoulli, encontraram a equação
correta dessa curva, denominada por Huygens, em uma carta a Leibniz, de catenária.

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

A catenária é o gráfico do cosseno hiperbólico cosh = (t ) 1/ 2(et + e( − t ) ) , então a curva é


= { }
C ( t , cosh ( t ) ) , t ∈  , logo, suas equações paramétricas são:
 x=t
C : ,t ∈ 
 y = cosh ( t )
Figura 13

Fonte: professores.uff.br

Observe ainda que uma mudança de escala na catenária ainda é uma catenária:
Figura 14

Fonte: professores.uff.br

A título de informação, a catenária pode ser deduzida pela modelagem das forças físicas que
agem no cabo suspenso, usando equações diferenciais, mas que não correspondem ao foco
desta Unidade.

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Quando se aplicam cargas, distribuídas em intervalos iguais, a uma curva catenária, a corrente
adota a forma de uma parábola. É o que sucede nas pontes suspensas por cabos. Mas a parábola
apenas se forma quando são adicionados à catenária os cabos de tração verticais. Então temos:
O cabo assume a forma da curva catenária quando está submetido apenas ao seu próprio
peso, ou seja, a carga está uniformemente distribuída ao longo do cabo.
Figura 15

Fonte: alfaconnection.net
O cabo assume a forma de uma parábola quando está submetido a uma força uniformemente
distribuída na horizontal. Essa condição ocorre em duas situações, quando o cabo:
• Sustenta uma ponte pênsil, sendo o seu peso próprio desprezível em face ao peso da ponte;
• Está muito esticado estando o seu peso próprio distribuído uniformemente na horizontal
de forma aproximada.
Figura 16

Fonte: alfaconnection.net

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Saiba Mais
Vimos que a catenária é a forma assumida por um cabo suspenso submetido
apenas ao seu próprio peso, onde as tensões internas equilibram naturalmente
o peso. Essa característica é transportada para peças estruturais desenvolvidas
na Engenharia e na Arquitetura partir da catenária e as principais características
dessas peças são: estabilidade e leveza, grande resistência a fortes ventos, beleza e
harmonia nas formas, como pode ser visto nas seguintes estruturas arquitetônicas:
• Arcos na Basílica da Sagrada Família e arcos da Casa Milá, conhecida
também como La Pedreira, ambos em Barcelona, Espanha, obras do
arquiteto catalão Antônio Gaudí (1823-1926);
• Arco Gateway, em Saint Louis, Estados Unidos, com altura de 192m, do
arquiteto Eero Saarinem (1910-1961).

Figura 17 – Arcos Basílica Sagrada Família

Fonte: Wikimedia Commons

Figura 18 – Arcos da Casa Milá

Fonte: Wikimedia Commons

22
Figura 19 – Arco Gateway

Fonte: Dirk Beyer/Wikimedia Commons


Outra aplicação da catenária, segundo Junqueira (2007), diz respeito a uma
operação muito comum para os grupos que ancoram e desancoram plataformas
de perfuração, bem como outros equipamentos ligados à exploração de petróleo
no mar, que consiste na instalação das âncoras e linhas de ancoragem.
O processo consiste em um rebocador ou embarcação de apoio içar, através da
âncora, a linha de ancoragem da plataforma ou navio, por intermédio de um
cabo de apoio, work wire e, durante o içamento, os guinchos, tanto do lado
da plataforma, quanto do lado da embarcação de apoio, liberam quantidades
restritas das linhas até que a âncora atinja o leito marinho, segundo um
planejamento prévio de quantas etapas a serem executadas e o quanto de linha
deve ser liberada em cada etapa, tal qual se vê na seguinte Figura. Atualmente,
para o planejamento dessas etapas, dispõe-se de sistemas para cálculo de linhas
em catenária, conforme abaixo ilustrado:
Figura 20

Fonte: scielo.br

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Curva de Agnesi – ou Bruxa de Agnesi


Figura 21

Fonte: Domingues (2013, p. 22)

A parametrização dessa curva pode ser obtida pelo seguinte procedimento: a partir da
origem, desenha-se uma reta que passe por qualquer ponto P, diferente da origem, do círculo
de raio a e centrado em C = (0,a). Então, da interseção Q dessa reta com a reta horizontal y =
2a, traça-se uma reta vertical. O ponto de interseção W da reta vertical com a reta horizontal
que passa por P é um ponto da curva de Agnesi.
Observe que o ponto R = (0,2a) e que o parâmetro t é o ângulo ROP , medido no sentido
anti-horário. Para se chegar à parametrização W(t) = (x(t), y(t)) da curva, devemos usar
relações trigonométricas nos triângulos retângulos que surgem no processo de construção.

RQ x ( t )
tg ( t ) = = ⇒ x ( t ) = 2a.tg ( t )
OR 2a
Para determinar y(t) que varia no intervalo (0, 2a], basta determinar a coordenada y de P
Como P varia na circunferência, consideraremos o ângulo RCP = 2t e como o centro da
circunferência é C = (0, a), chegamos a y pela equação paramétrica y(t) = a + acos(2t), uma
vez que podemos deduzir assim:
Figura 22

24
Observando a figura vemos que a coordenada y varia no intervalo (a, 2a)], então basta
observar que para t ∈  − π , π  π π   π π
,  , tem-se cos ( t ) ∈ ( −1, 0] e que para t ∈  − , ,
4  ∪  4 2 
 
 2  4 4 
cos ( 2t ) ∈ ( 0,1] . Daí, como 1 + cos ( 2t ) =
2cos 2 ( t ) , obtemos:
a (1 + cos ( 2t ) ) =
y (t ) = 2acos 2 ( t )

Assim, a parametrização da curva de Agnesi é:


 x ( t ) = 2a.tg ( t )  π π
W (t ) :  ,t ∈  − , 
 y ( t ) = 2a.cos ( t )
2
 2 2

Saiba Mais
Como na história da Matemática nunca existiram bruxas, vamos começar por
esclarecer o nome de bruxa Agnesi dado à curva. Essa curva foi estudada por
Fermat, em 1703, mas sua construção geométrica só foi detalhada em 1718
pelo matemático italiano Grandi, que à época denominou a curva de versoria,
cujo significado em latim é corda que vira a vela – de barco – e traduziu para o
italiano versiera – que significa virar. Em meados do século XVIII, a matemática
italiana Maria Agnesi publicou um livro com muitos exemplos, analisando
cuidadosamente as propriedades das curvas planas, entre as quais a versiera,
nomeada corretamente por Agnesi. Ocorre que, por volta de 1760, na tradução
desse livro para o inglês, John Colson cometeu um erro: em vez de traduzir “la
versiera” como curva, traduziu “l’aversiera”, que significa bruxa.

Figura 23 – Maria Gaëtana Agnesi

Fonte: Wikimedia Commons

Maria Gaëtana Agnesi (1718-1790) nasceu em Milão e é considerada um dos


grandes talentos matemáticos do século XVIII. Maria foi reconhecida como uma
menina prodígio muito cedo, falava francês e italiano aos cinco anos de idade.
Aos treze anos já havia adquirido fluência no grego, hebraico, espanhol, alemão
e latim, sendo considerada uma verdadeira poliglota. Sempre educou seus irmãos
mais novos. Quando tinha nove anos de idade compôs um discurso em latim para
um encontro acadêmico. O tema era o direito das mulheres de receber educação.
Publicou diversos tratados sobre Filosofia. Autodidata, estudou Teologia e
Matemática, concentrando-se nos trabalhos de l’Hôpital e Newton. É reconhecida
como autora da primeira obra que tratou simultaneamente de cálculo diferencial e
integral. Seu trabalho mais conhecido é o tratado em latim Instituzioni analitiche
ad uso dela gioventù italiana, um compêndio em dois volumes que contém, entre
tantas outras coisas, o referido estudo das curvas planas.

25
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Curvas no Espaço

O esboço de curvas no é bem mais complicado do que no plano, pois duas características
são muito importantes, a torção e a curvatura, as quais determinam completamente a curva,
mesmo as de movimentos rígidos são estudadas em Geometria diferencial. Muitas vezes nem
mesmo as projeções nos planos coordenados ajudam em seu esboço, por isso não se costuma
insistir no esboço das curvas, mas trabalhar apenas na parametrização, quando necessário.
Por exemplo, veja a seguinte curva e suas projeções nos planos coordenados:
Figura 24

Fonte: Vilches e Corrêa (2005, p. 65)

A parametrização dessa curva é:


γ ( t ) = ( cos ( t ) ( 2 + sen ( 2t ) ) , sen ( t ) ( 2 + sen ( 2t ) ) , t + cos ( 2t ) ) , t ∈ [ 0, 6π ]

26
Veja agora a hélice circular reta, na seguinte Figura:
Figura 25

Fonte: Vilches e Corrêa (2005, p. 66)

As equações paramétricas da hélice circular reta são:

 x ( t ) = a.cos ( t )

 y ( t ) a.sen ( t ) , t ∈ 
=
 z ( t ) = a.m.t

Se m > 0 a forma da hélice lembrará um parafuso de rosca à direta, se m < 0 a forma da


hélice será a de um parafuso de rosca à esquerda. Em 1953 os cientistas J. Watson e F. Crick
descobriram que a estrutura de DNA – ácido desoxirribonucleico – é de duas hélices circulares
paralelas interligadas, como na seguinte representação:
Figura 26 – Hélice dupla do DNA

27
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Funções Vetoriais

O cálculo vetorial permite estudar as trajetórias, velocidade e aceleração dos corpos em


movimento. Os valores das funções estudadas são vetores, cujas componentes escalares são
funções a valores reais. Isso permite trabalhar com as noções de limite, derivada e integral de
funções vetoriais.

Definição 1

Seja um domínio D ⊂  . Uma função vetorial r de uma variável, t é uma correspondência

que a cada t ∈ D associa um vetor r ( t ) ∈  n . Por exemplo:
Figura 27

   
Em (a) a função vetorial r : D →  , r ( t ) = x ( t ) i + y( t ) j descreve
2
 um ponto

percorrendo uma curva no plano. Por exemplo: r ( t ) =

cos ( t ) i + sen ( t ) j , t ∈ 0, 2π
 
[ ]
 3 
Em (b) a função vetorial r : D →  , r () ()
t = x t i + y ()
t j + z ( )  descreve um ponto
t k
 

percorrendo uma curva no espaço. Por exemplo: r ( t ) =t.i + t 2 j + t 3 k .
Tecnicamente, uma curva no plano ou no espaço consiste em uma coleção de pontos e as
equações paramétricas que a definem. Duas curvas diferentes podem ter o mesmo gráfico. Por
exemplo, as curvas dadas por:
     
r (t ) = sen ( t 2 ) i + cos ( t 2 ) j
sen ( t ) i + cos ( t ) j e r ( t ) =
Ambas têm como gráfico a circunferência unitária, entretanto, essas equações não
representam a mesma curva, uma vez que a circunferência é traçada de maneiras distintas em
cada uma dessas.
Muito importante é distinguir a função vetorial das suas funções componentes
escalares, que são funções  de uma variável a valores reais. Em outra palavras, se
 
r ( t ) = f ( t ) i + g ( t ) j + h ( t ) k , r ( t ) é um vetor e f ( t ) , g ( t ) , h ( t ) são números reais,
para cada t.
As funções vetoriais desempenham um papel duplo na representação de curvas. Se o
parâmetro t representa o tempo, a função vetorial representa o movimento ao longo da curva.

28

No caso mais geral, pode-se usar uma função vetorial para traçar uma curva, daí r ( t ) é o
vetor posição, com ponto de aplicação na origem e ponto final P sobre a curva, sendo que a
ponta da flecha do vetor na curva indica a orientação nessa, apontando na direção dos valores
crescentes de t como representado na seguinte Figura:
Figura 28

Exemplo 6
Descrever a curva do espaço representada pela função vetorial
   
r ( t ) 4 cos ( t ) i + 4 sen ( t ) j + tk , 0 ≤ t ≤ 4π
=

Resolução

A função vetorial r ( t ) traça uma curva no  e das duas primeiras equações paramétricas
3

x = 4cos ( t ) e y = 4 sen ( t ) obtemos que x 2 + y 2 = 16 que é uma circunferência no pano XY


com centro na origem 0 = (0,0,0) e raio 4. Como a terceira equação paramétrica é z = t, para cada
valor de t ∈  0, π  , a curva descreve uma hélice circular em torno do cilindro C de equação:
 4 
 π
C = ( x, y, z ) x 2 + y 2 = 16 e 0 ≤ z ≤ 
 4
O traçado da curva está assim representado:
Figura 29

Fonte: Larson e Edwards (2010, p. 835).

29
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 7
Representar a parábola y = x2 - 1 como função vetorial.

Resolução
Há muitas maneiras de escolher um parâmetro, contudo, o mais simples é eleger as
equações paramétricas
 x =t e y = t2 - 1. Assim, uma função vetorial que representa essa
( )
curva é r ( t ) =ti + t − 1 j , −∞ < t < ∞ , enquanto a identificação de alguns valores do
2

parâmetro t estão ilustrados na seguinte Figura, bem como a orientação da curva definida
por essa função vetorial:
Figura 30

Exemplo 8
Determinar a função vetorial que representa a curva de interseção do cilindro x2 + y2 = 1 e
o plano y + z = 2.

Resolução
A seguinte Figura ilustra essa interseção do plano com o cilindro, que é uma elipse e que
denotaremos por E:
Figura 31

Fonte: Stewart (2012, p. 842)

30
A projeção da curva E sobre o plano XY é a circunferência x2 + y2 = 1,z = 0 Então,
analogamente ao exemplo 1, podemos escrever:

= ( t ) , y sen ( t ) , 0 ≤ t ≤ 2π
x cos=
Da equação do plano temos que z = 2 - y = 2 - sen(t). Portanto, podemos escrever a função
vetorial que descreve a elipse E como:
   
r ( t ) cos ( t ) i + sen ( t ) j + ( 2 − sen ( t ) ) k , 0 ≤ t ≤ 2π
=
A função vetorial determina uma parametrização da curva E e as setas indicam a direção na
qual E é traçada, conforme o parâmetro t aumenta quando percorre o intervalo [0,2].

Limite e Continuidade de uma Função Vetorial

Definição 2: limite
   
Seja a função vetorial r ( t ) = f ( t ) i + g ( t ) j + h ( t ) k . Se lim f ( t ) = L1 , lim g ( t ) = L2
e lim h ( t ) = L3 , então:
t →a t →a

t →a
   
lim r ( t ) = L1i + L2 j + L3 k
t →a

Definição 3: continuidade
   
Seja a função vetorial r ( t ) = f ( t ) i + g ( t ) j + h ( t ) k . Se as funções escalares
 f, g, h são

contínuas em um ponto t = a, então r ( t ) é contínua em t = a. A função r ( t ) é contínua, se
for contínua para todos os pontos de seu domínio.

Exemplo 9
  
=
A função ( ) ( )
r ( t ) tcos ( t ) i + tsen ( t ) j é contínua para todo t ∈  , porque as funções
componentes são contínuas em todos os pontos.
 1 
A função r ( t=
) i + t3 j não está definida em t = 0 porque a primeira componente não
t
existe nesse ponto. No entanto, a função vetorial é contínua, pois é contínua em todos os
pontos de seu domínio.

31
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Derivada e Integral de Função Vetorial


Como uma função vetorial, cada uma de suas componentes é formada por funções escalares;
se essas forem deriváveis e integráveis, a função vetorial também o será.

Definição 4: derivada em um ponto


   
A função vetorial r ( t ) = f ( t ) i + g ( t ) j + h ( t ) k possui derivada em t se, e somente se,
suas funções coordenadas escalares tiverem derivadas em t. A derivada é a função vetorial:
  
 dr r ( t + ∆t ) − r ( t )   
r′ (t ) = = lim f ′ ( t ) i + g ′ ( t ) j + h′ ( t ) k
=
dt ∆t →0 ∆t

Uma função r ( t ) é derivável se for derivável em todos os pontos de seu domínio. A reta
tangente à curva em um  ponto P = (f(a), g(a), h(a)) é definida como a reta que passa por P e
é paralela ao vetor dr em t = a.
dt
Figura 32

Uma curva que é feita por um número finito de curvas lisas ligadas de maneira contínua é lisa por
partes. Na seguinte Figura as curvas 1 e 3 são lisas, enquanto as curvas 2 e 4 são lisas por parte:
Figura 33

curva 1 curva 2

curva 3 curva 4

As regras de derivação que valem para as funções componentes também valem para a
função vetorial.

32
Exemplo 10: estudando o movimento.
Determine as equações paramétricas da reta tangente à elipse do exemplo 8 no ponto
P = (0,1,1).
   
r ( t ) cos ( t ) i + sen ( t ) j + ( 2 − sen ( t ) ) k , 0 ≤ t ≤ 2π . Então:
A função vetorial é =
   
r′ (t ) =
− sen ( t ) i + cos ( t ) j − cos ( t ) k e como queremos a tangente no ponto P = (0,1,1),
π
que corresponde a t = .
2
  π  π  π   π      
r ′   =− sen   i + cos   j − cos   k =−i + 0 j + 0k =−i
2 2 2 2

Então a tangente em P tem a direção do vetor i , isto é, paralela ao eixo X, indicando
sentido contrário ao do movimento.

Definição 5: integral de função vetorial


  
A integral indefinida de r ( t ) é o conjunto de todas as primitivas de r e se R é uma das
primitivas, então:
 
∫ R (t ) + C
rdt =

Assim como as derivadas, as integrais indefinidas e as integrais definidas de funções vetoriais


são calculadas componente a componente.

Exemplo 11: encontrando uma trajetória.


O vetor velocidade
,
de uma partícula que se move no plano – com a trajetória em metros –é
dr 1
= i + 2tj t ≥ 0 . Encontre a posição da partícula como função vetorial, se r (1) = ( ln 2 ) i .
dt t + 1 
dr  dt     
A função vetorial

r ( t ) = ∫ dt =  ∫
dt  1+ t 
 i + ∫ 2 (
tdt j = )
ln(1 + t ) i + ( t 2
) j +C

   
Daí r (1) = (ln2 ) i + j + C ⇒ C = − j . Portanto, a trajetória da partícula é dada pela

(
função vetorial r ( t ) = ln(1 + t )i + t − 1 j
2
)

33
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Comprimento de arco
   
Definição 6: o comprimento de arco de uma curva lisa r ( t ) = f ( t ) i + g ( t ) j + h ( t ) k ,
a ≤ t ≤ b , que é traçada exatamente uma vez à medida que t aumenta de t = a até t = b é:
b 2 2 2 b 2 2 2
 df   dg   dh   dx   dy   dz 
L= ∫
a
  +   +   dt=
 dt   dt   dt 

a
  +   +   dt
 dt   dt   dt 

Exemplo 12
A trajetória de uma partícula é dada pela função vetorial
  
r ( t ) = (1 − cos ( t ) ) i + ( t − sen ( t ) ) j

Encontre a distância percorrida por essa partícula de t = 0 a t =
3
Resolução
As funções coordenadas do movimento são: x = 1 - cos(t) e y = t - sen(t). Portanto,
dx dy 2π
= sen ( t ) e = 1 − cos ( t ) . Então a distância que a partícula percorre de t = 0 a t =
dt dt 3
é o comprimento de arco:
2π 2π 2π
3 3 3

∫ ( sen ( t ) ) + (1 − cos ( t ) )=
dt ∫ 2 (1 − cos ( t )=
)dt (1 − cos ( t ) )dt
2 2
=L 2∫
0 0 0

Vamos resolver ∫ (1 − cos ( t ) )dt .


du
Seja u =1 − cos ( t ) ⇒ du =sen ( t ) dt ⇒ dt =
sen ( t )
Mas cos ( t ) =1 − u ⇒ cos 2 ( t ) = (1 − u ) ⇒ sen 2 ( t ) =1 − cos 2 ( t ) = u ( 2 − u )
2

du u 1
Logo, dt =
u (2 − u)
∫ (1 − cos ( t )=
e )dt ∫
u (2 − u)
du
= ∫ 2−u
du

Seja s =2 − u ⇒ ds =−du , então temos:


1 1
1 −
∫ du =− ∫s ds =
2
−2 s 2 =−2 s =−2 2 − u =−2 1 + cos ( t )
2−u
Portanto: ∫ (1 − cos ( t ) )dt =
−2 1 + cos ( t ) e daí o comprimento de arco é



3
 1   1 
2 ∫ (1 − cos ( t ) )dt =
L= −2 2  1 + cos ( t )  3 =
−2 2  1 − − 1 + 1  =
−2 2  − 2 =
−2 + 4 =
2
 0 2  2 
0  
unidades.

34
Função de Várias Variáveis
O conceito de função real de duas ou mais variáveis reais é análogo ao conceito e função
real de uma variável real. Por exemplo, a equação z = x2 - y2 exprime z como função de x e y.

Definição 7
Dizemos que z é uma função de x e y quando existir uma regra ƒ que, a cada P(x,y) de
um conjunto D ⊂  2 , denominado domínio de ƒ, associe um único ponto z∈  . Em outras
palavras: f : D ⊂  2 →  , tal que ( x, y ) → z =f ( x, y ) .
Usualmente, escrevemos que z = ƒ(x,y) ou z = z(x,y) e dizemos que z é a imagem do ponto
(x,y) pela função ƒ, ou que z é o valor de ƒ no ponto (x,y) e podemos representar da seguinte
forma:
Figura 34

Definição 8
De uma maneira geral, dizemos que f : D ⊂  →  é uma função de n variáveis
n

independentes, se existe um único valor real w∈  tal que f x1 , x2 , …, xn =


w. O ( )
conjunto D ⊂  é chamado domínio de ƒ e a imagem de ƒ é o conjunto
n

{w ∈ =
:w f ( x1 , x2 , …, xn ) , para ( x1 , x2 , …, xn ) ∈ D } .

Exemplo 13:
a) A função z = x2 - y2 pode ser calculada para todo ( x y ) ∈ , logo, seu domínio D = 
2

e sua imagem é  ;

b) A função z
= y − x 2 só pode ser calculada para y ≥ x 2 , então seu domínio

D= {( x, y ) ∈ 2
: y ≥ x2} e sua imagem é [0, ∞ ) ;
1
c) A função z= só pode ser calculada se xy ≠ 0 então seu domínio é
xy
D= {( x, y ) ∈ 2 : x ≠ 0 e y ≠ 0} e sua imagem é ( −∞, 0 ) ∪ ( 0, ∞ ) ;
d) A função z = cos(xy) pode ser calculada para todo ( x, y ) ∈  2 , logo, seu domínio
D =  2 e sua imagem é [-1,1].

35
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 14
Esboce o domínio das seguintes funções e dê seus valores no ponto P = (3,2):

x + y +1 ( x, y ) x.ln ( y 2 − x )
g=
a) f ( x, y ) = b)
x −1

Resolução:
6
a) O domínio da função f é=
D {( x, y ) ∈ 2
: x + y + 1 ≥ 0 e x ≠ 1} . E f ( 3, 2 ) =
2
b) O domínio da função f é Dg = {( x, y ) ∈ 2
: x < y2} . E g =
( 3, 2 ) 3=
ln (1) 0
a seguir a representação gráfica dos domínios das funções f e g:
Figura 35

Fonte: Stewart (2012, p. 879)

Exemplo 15
= f ( x, y, z=
w
Seja ) y x 2 + y 2 + z 2 − 1 . Esta função só está definida se o radicando
2 2 2
for maior ou igual a zero, isto é, x + y + z ≥ 1 . Logo, a função está definida para todo o
 3 , exceto para a região determinada por:
x 2 + y 2 + z2 < 1
A qual determina uma esfera de centro na origem e raio 1. Então, o domínio de f é
formado por todos os pontos do  que não são interiores a essa esfera.
3

36
Exemplo 16
Seja a função f ( x,=
y) x + y cujo domínio é todo o plano  . A imagem da função
2 2 2

f , denotada por Im ( f ) é o conjunto Im ( f ) ={ z ∈  : z ≥ 0} e o seu gráfico é a folha


superior do cone z = x + y , como indica a seguinte Figura:
2 2 2

Figura 36

Fonte: Silva e Matos (2009, p. 10)

37
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Algumas Noções Topológicas: Conjuntos Abertos, Fechados e Fronteira

Definição 9
Seja a ∈ n e r ∈ + .
Chama-se bola aberta de centro a e raio r ao conjunto
Br ( a ) = { }
x ∈ : d ( x, a ) < r , onde d(x,a) é definida por
n

d ( x=
, a) ( x1 − a1 ) + ( x2 − a2 ) +…+ ( xn − an )
2 2 2

A notação da bola aberta também pode ser B(a,r).

Em  as bolas abertas2 são intervalos abertos. Se n = 2 e a = (x , y ), então


) {( x, y ) ∈ :( x − x0 ) + ( y − y0 ) < r } , que é o interior de um círculo de raio r e
0 0
Br ( a= 2 2 2

centro em (x0 , y0), conforme representado na seguinte Figura:


Figura 37

Analogamente, em 3 as bolas abertas são esferas de raio r e centro em (x0 , y0 , z0).

38
Definição 10
A ⊂  n é dito aberto em  se para todo x ∈ A , existe Br(x) tal que
n
Um conjunto
Br ( x ) ⊂ A .
Os pontos x ∈  tal que existe r de forma que Br ( x ) ⊂ A são chamados pontos
n

interiores de A. Analogamente, se existe r tal que Br ( x ) ∩ A = ∅ , então x é um ponto exterior


ao conjunto A. Conjuntos abertos são uma generalização natural de intervalos abertos em  .
Por definição, o conjunto vazio e o  são abertos em  . Em  2 podemos representar
n n

assim um conjunto aberto A:


Figura 38

Observe que  é aberto em  , mas  pensado como uma reta do plano não é aberto
em  2 , pois qualquer bola aberta centrada em (x,0) não está contida em  . Da mesma
forma e pelo mesmo motivo,  2 não é aberto em  3 .
Costumamos chamar um conjunto aberto A que contenha um ponto x de vizinhança de x.

Definição 11
Seja o conjunto A ⊂  . Um ponto
n
x ∈  n está na fronteira ou borda A de se toda
vizinhança de x intersecta A e  − A .
n

Denotamos o conjunto dos pontos da fronteira do conjunto A por ∂A . Portanto, um


conjunto A é aberto se A ∩ ∂A = ∅ . Na Figura anterior, ∂A são os pontos da linha tracejada
em azul.

Definição 12
Seja o conjunto A ⊂ n
a) Um conjunto A é dito fechado em n se ∂A ⊂ A
b) Um conjunto A é limitado se existe uma constante k tal que d(x, 0) < k, para todo
x ∈ A . Logo, A é limitado se está contido em uma bola centrada na origem e de raio k.
Observações:  também é fechado. Em geral, os sólidos são fechados, pois
n

costumam conter a sua fronteira, que é a superfície lateral. Por exemplo, o conjunto
W
= { }
( x, y, z ) ∈ 3 : x 2 + y 2 + z 2 ≤ r 2 , r > 0 é fechado, pois a sua fronteira é
{ }
∂W= ( x, y, z ) ∈  3 : x 2 + y 2 + z 2= r 2 , r > 0 e, portanto, ∂W ⊂ W .

39
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Gráfico de uma Função de Duas Variáveis

O gráfico de uma função f de duas variáveis é o conjunto de pontos ( x, y, z ) ∈  tal que


3

z = f (x,y) com ( x, y ) ∈ D , D o domínio de f . O gráfico de uma função de duas variáveis


pode ser interpretado como uma superfície do  , como indica a seguinte Figura:
3

Figura 39

Exemplo 17
Esboçar os gráficos das funções:
a) f ( x, y ) = 9 − x2 − y 2
O domínio da função f é = D {( )
x, y ∈  : x + y ≤ 9 , que é um disco no plano
2 2 2
}
XY centrado na origem e de raio 3. Além disso, a coordenada = z f x, y ≥ 0 é tal que ( )
z2 = 9 - x2 - y2, ou seja, x2 + y2 + z2 = 9, que é a calota superior da esfera de centro na origem e
raio 3 – limitada pelo plano XY. Assim, seu gráfico está esboçado na Figura 40a.
b) g(x, y) = 6 - 3x - 2y
O domínio da função g é todo  , pois não existe nenhuma restrição para sua equação. A
2

imagem é toda reta  , ou seja, todo eixo Z. A coordenada z = g(x, y) é tal que z = 6 - 3x - 2y,
ou seja, 3x + 2y + z = 6, que é um plano inclinado do  , cujas interseções com os eixos
3

coordenados são (2,0,0), (0,3,0) e (0,0,6). Como três pontos não alinhados determinam um
único plano, o esboço de parte do plano está na Figura 40b:
Figura 40

Fonte: Stewart (2012, p. 881)

40
Por motivos óbvios, não é possível representar o gráfico de uma função de três ou mais
variáveis, pois teríamos que representá-lo em dimensão maior ou igual a quatro.
A seguir há alguns gráficos (STEWART, 2012, p. 882) obtidos por meio de softwares
gráficos em computadores:
Figura 41

Fonte: Stewart (2012, p. 882)

41
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Curvas de Nível

Você já deve ter ouvido falar em curvas de nível. Um exemplo comum são os mapas
topográficos de regiões montanhosas. Nesse caso, as curvas de nível são curvas de elevação
constante acima do nível do mar; caminhando sobre essas não subimos, nem descemos, mas
permanecemos na mesma altitude.
Outro exemplo comum são as curvas de nível da função temperatura em mapas climáticos,
chamadas de isotérmicas – mesma temperatura –, como na figura a seguir, em que as curvas
de nível isotérmicas são medidas em graus Fahrenheit:
Figura 42

Em outras áreas também são utilizadas curvas de nível, como na agricultura. Uma boa
técnica de cultivo do solo é a do terraceamento, que consiste em realizar a produção ordenando
a plantação em linhas que seguem as diferenças de altitude do solo. Essa técnica de fazer a
plantação em curvas de nível é mais adequada para terrenos com declividades – morros, por
exemplo – e ajuda a conter o processo de erosão. Além disso, contribui para a contenção de
água, pois dessa forma, essa escorre mais devagar e tem maior chance de infiltrar na terra. Na
seguinte Figura vemos uma plantação de arroz em curvas de nível.
Figura 43

Fonte: iStock/Getty Images

42
Curvas de Nível para Visualização de Gráficos
Outra maneira de visualizar uma função de duas variáveis é usar as curvas de nível ao
longo das quais o valor de f ( x, y ) é constante. Mas fazer f ( x, y ) = k significa interceptar
o gráfico de f por planos paralelos ao plano XY na cota z = k, obtendo a curva de nível
daquela cota. Variando o valor da constante k obtemos uma família de curvas, cada uma na
sua cota. Daí, projetamos no plano XY toda a família de curvas, obtendo o que chamamos de
configuração em curvas de nível da função f . Veja a seguinte representação:
Figura 44

Fonte: Stewart (2012, p. 883)

Exemplo 18
Uma configuração de curvas de nível está dada na Figura a seguir. Use-a para estimar os
valores de f (1,3) e f (4, 5):
Figura 45

Resolução
Observando o mapa de curvas de nível, vemos que o ponto (1, 3) está entre as curvas de
nível com valores de z de 70 a 80, então f (1, 3) ≈ 73 . E o ponto (4, 5) está entre curvas de
nível com valores de z de 50 e 60, então f ( 4, 5 ) ≈ 57 .

43
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 19
Observe a configuração em curvas de nível desta superfície dada pela função
f ( x, y ) = − xye − x − y .
2 2

Figura 46

Fonte: Stewart (2012, p. 886)

Exemplo 20
1
( x, y ) sen2 ( x ) + y 2 ,
Observe o gráfico e a configuração em curvas de nível da função f=
obtida em computador com o uso do software Winplot:
2

Figura 47

Fonte: Winplot

Exemplo 21
Considere a função g(x,y) = 6 - 3x - 2y (a mesma do item [b] do exemplo 17). Tomando
alguns valores de k = -6, 0, 6, 12, temos uma configuração em curvas de nível dessa função, a
saber, as retas do plano XY de equações:
Para k =−6 ⇒ g ( x, y ) =−6 ⇒ 3 x + 2 y =12 (corta o eixo X na abscissa x = 4).
Para k =0 ⇒ g ( x, y ) =0 ⇒ 3 x + 2 y =6 (corta o eixo X na abscissa x = 2).
Para k =6 ⇒ g ( x, y ) =6 ⇒ 3 x + 2 y =0 (corta o eixo X na abscissa x = 0).
12 ⇒ g ( x, y ) =
Para k = 2 ⇒ 3x + 2 y =
−6 (corta o eixo X na abscissa x = -2).

44
Segue a configuração dessas curvas de nível, que são retas paralelas, pois o gráfico da
função é um plano, como você pode conferir no exemplo 17.
Figura 48

Superfícies de Nível
No caso de função de três variáveis, em analogia às curvas de nível, temos as superfícies de
nível. O conjunto de pontos (x, y, z) tal que f (x, y, z) = k, k constante, é chamado superfície
de nível. Nesse caso, apesar de poder conhecer uma configuração de superfícies de nível no
 3 , não ajuda para esboçar o gráfico da função que está contido no  4 apenas imaginar.
A seguir a representação de uma configuração de superfícies de nível da função
f ( x, y, z ) = x 2 + y 2 + z 2 , que são esferas concêntricas do  3 , a saber:
Figura 49

Fonte: Stewart (2012, p. 887)

45
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Limite e Continuidade de Função de Duas ou Mais Variáveis

Seja f : D ⊂ n →  uma função e x0 ∈  n tal que x0 ∈ D ∪ ∂D .


Intuitivamente, se x0 ∈ D ∪ ∂D significa que se x0 ∉ D , deve estar arbitrariamente
“próximo” de D, já que, neste caso, teria que pertencer à ∂D .

Definição 13
Limite de uma função de várias variáveis.
O limite de uma função f : D ⊂  →  , quando x ∈  se aproxima de um ponto
n n

x0 ∈  n , é L quando para todo ε > 0, existe δ > 0 tal que x ∈ Bδ ( x0 ) ∩ D ⇒ f ( x ) − L < ε . Em


notação simbólica escrevemos que lim f ( x ) = L .
x → x0

Limite de Uma Função de Duas Variáveis Independentes

Observe estas duas funções de duas variáveis, assim definidas:


sen ( x 2 + y 2 ) e x2 − y 2
f ( x, y ) = g ( x, y ) = 2
x2 + y 2 x + y2
Tanto a função f quanto a função g não estão definidas em (0,0) e podemos adiantar
que, mesmo as duas tendo o mesmo denominador, a função f tem limite igual a 1, quando
( x, y ) → ( 0, 0 ) , mas não existe o limite da função g quando ( x, y ) → ( 0, 0 ) .

Definição 14: limite de uma função


Uma função f tem limite L quando (x,y) se aproxima de (x0, y0) se, dado qualquer número
ε > 0 , existe um número δ > 0 tal que, para todo (x,y) no domínio de f , ocorrer que:

( x − x0 ) + ( y − y0 ) < δ ⇒ f ( x, y ) − L < ε
2 2
0<

Em símbolos, escrevemos:
lim f ( x, y ) = L
( x , y )→( x0 , y0 )

46
Observe que 0 < ( x − x0 ) + ( y − y0 ) < δ é equivalente a dizer que ( x, y ) ∈ Bδ ( x0 ) ou
2 2

seja, que (x,y) está em uma vizinhança aberta de (x0, y0) que, no caso de  2 , é uma bola aberta
centrada em (x0, y0) de raio δ . Fazer a aproximação de (x,y) a (x0,y0) significa aproximar por
todos os caminhos possíveis que ligam esses dois pontos dentro da bola aberta. Para existir o
limite, deve existir e ter o mesmo valor por todos esses caminhos.
Figura 50

Essas observações são importantes para deixar bem clara a diferença de aproximar dois
pontos da reta, que só tem uma direção – a da própria reta – e dois sentidos, pela esquerda ou
pela direita do ponto em questão, que é o que fazemos no caso de limite de função de apenas
uma variável independente.
Teorema 1: propriedades dos limites de funções de duas variáveis.
Suponha que ( x , y )lim f ( x, y ) = L e , então valem:
→( x , y ) 0 0

lim  f ( x, y ) ± g ( x, y )  =
L±M
( x , y )→( x0 , y0 ) 

lim  f ( x, y ) .g ( x, y )  = L.M
( x , y )→( x0 , y0 ) 
lim  kf ( x, y )  = k .L, k constante
( x , y )→( x0 , y0 ) 
f ( x, y ) L
lim = ,M ≠ 0
( x , y )→( x0 , y0 ) g ( x, y ) M
m m
 f ( x, y )  = L , se m,n inteiros e se n for um número real.
m
lim n n
( x , y )→( x0 , y0 )  L
Quando aplicamos o Teorema 1 a polinômios e funções racionais obtemos o resultado útil
de que o limite dessas funções, quando ( x, y ) → ( x0 , y0 ) podem ser calculados determinando-
se as funções em (x0,y0), sendo a única exigência a função racional estar definida neste ponto.

47
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 22
Calculando limites:
2
a) lim x 2− xy +3 3 = 0 − 0 + 3 = −3
( x , y )→( 0,1) x y − y 0 −1
cos ( xy ) + tg ( y ) cos ( 2π ) + tg (π ) 1 + 0 1
b) lim = = =
( x , y )→( 2,π ) x + sen ( y ) 2 + sen (π ) 2+0 2

Ambos os casos são de simples resolução, uma vez que as funções racionais envolvidas
atendem as condições do Teorema 1, portanto, basta calcular no ponto em questão.

Exemplo 23
No início deste tópico apresentamos o limite de duas funções e afirmamos que um dos quais
existia e o outro não. Vamos agora provar que isso é verdade, verificando a existência ou não
dos limites, quando ( x, y ) → ( 0, 0 ) , das funções:
sen ( x 2 + y 2 )
a) f ( x, y ) =
x2 + y 2
x2 − y 2
b) g ( x, y ) =
x2 + y 2
Resolução:
sen ( t )
a) Lembre-se que, se t ∈ , lim 1 é um dos limites fundamentais do cálculo.
=
t →0 t
Então, podemos fazer a seguinte substituição: t = x
2
+ y 2 ∈  , t ≥ 0. Então, quando
sen ( t ) . Portanto:
( x, y ) → ( 0, 0 ) ⇒ t → 0
+
⇒ lim+ =1
t →0 t
sen ( x 2 + y 2 ) sen ( t )
lim= f ( x, y lim = lim
= 1
( x , y )→( 0,0 ) ( x , y )→( 0,0 ) x2 + y 2 t → 0+ t
Logo, existe o limite de f no ponto (0,0) e vale 1.
x2 − y 2
b) Seja a função g ( x, y ) = . Tentaremos fazer o limite por alguns caminhos e
x2 + y 2
verificar se existem e, caso existam, se coincidem no valor limite.

Primeiro, aproximar-nos-emos de (0,0) pelo eixo X. Para isto, faremos y = 0.


x2
Daí, f ( x, 0 ) = = 1, se x ≠ 0 ⇒ f ( x, y ) → 1 quando ( x, 0 ) → ( 0, 0 )
x2
Agora nos aproximaremos de (0,0) pelo eixo Y. Para isto, faremos x = 0 e daí,
− y2
f ( 0, y ) = 2 = −1, se y ≠ 0 ⇒ f ( x, y ) → −1 , quando ( 0, y ) → ( 0, 0 )
y
48
Esta situação pode ser vista na seguinte representação gráfica:
Figura 51

Portanto, nesses dois caminhos o limite existe, mas com valores diferentes, o que fere uma
condição fundamental de existência de limite de uma função. Logo, concluímos que não existe
o limite de g(x,y) quando ( x, y ) → ( 0, 0 ) .

Importante!
Teste dos dois caminhos para a não existência de um limite
Se f ( x, y ) tem limites diferentes ao longo de dois caminhos diferentes
quando ( x , y ) → ( x0 , y0 ) , então ( x , y )lim f ( x , y ) não existe.
0 0 →( x , y )

49
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 24
Aplicando 2o teste dos dois caminhos, mostre que não existe o limite da função
2 x y quando ( x, y ) → ( 0, 0 ) .
h ( x, y ) =
x4 + y 2
Resolução
Claro é que h ( x, y ) não está definida em (0,0), por isso o interesse em verificar seu
comportamento nas proximidades da origem. É igualmente claro que se optarmos por caminhos
em que x ou y forem, não simultaneamente, nulos, a função é nula e, portanto, não resolve o
que queremos. Tomaremos, então, outro caminho: observando as potências
4
do denominador,
2
y kx , x ≠ 0 . Assim, h= 2 kx 2 k
=
escolheremos o caminho x, kx 2 =
x4 + k 2 x4 1 + k 2
. Logo: ( )
2k
lim h ( x, y )
= = lim  h ( x, y ) y = kx2 
(
x , y ) →( 0,0 )
 
( x , y )→( 0,0 )   1+ k 2
ao longo de y =kx 2

Basta tomar valores não nulos distintos de k, por exemplo, k = 1 e k = 2, para obtermos
valores diferentes do limite, respectivamente, 1 e 4 .
5
Vemos, então, que esse limite varia com o caminho de aproximação ao ponto (0,0).
Logo,  lim h ( x, y ) .
( x , y )→( 0,0 )

Exemplo 25
5x2 y
Calcule o seguinte limite: lim
( x , y )→( 0,0 ) x 2 + y 2

Resolução
5x2 y
Seja f ( x, y ) = 2 . Se fizermos como nos exemplos anteriores, vemos que ao longo
x + y2
tanto do eixo X, quanto do eixo Y, f ( 0, y ) = 0 e f ( x, 0 ) = 0 Igualmente nos caminhos
5kx3
lineares y = kx, = f ( x, kx ) → 0 , quando x → 0 . Se tentarmos os caminhos
x 2 (1 + k 2 )
5kx 4 5kx 2
= y kx 2 , f (=
x, kx 2 ) = →0
x 2 (1 + k 2 x 2 ) 1 + k x , quando x → 0 . Portanto, não podemos ficar
2 2

tentando encontrar, “às cegas”, algum caminho cujo limite dê outro valor, quando o ponto se
aproxima da origem. Ao que tudo indica até agora, parece que o limite existe e vale zero, mas
não podemos concluir sem demonstrar. Resta, então, mostrar usando a definição, para L = 0.
5x 2 y
Seja ε > 0 . Devemos encontrar um δ > 0 tal que, se 0 < x + y < δ , então 2 <ε .
2 2
2 x + y2
x
2 2≤1 2
Para isso, observemos que x ≤ x + y , pois y ≥ 0 . Então x 2 + y 2 e 2

5x2 y
2 2
≤ 5 y = 5 y 2 ≤ 5 x2 + y 2
x +y
50
ε
Basta, então, escolher δ= , que fazendo 0 < x 2 + y 2 < δ teremos:
5
2 2
5x y 5x y
= −0 < 5δ ε
≤ 5 x2 + y 2 =
x2 + y 2 2
x +y 2
2
5x y
lim =0
Assim, provamos que ( x , y )→( 0,0 ) x 2 + y 2
Confira nos gráficos das superfícies a seguir:
2
 x2 − y 2 
Quando ( x, y ) → ( 0, 0 ) a função f ( x, y ) =  não tem limite, enquanto que a
2 2 
 x + y 
5x2 y
função f ( x, y ) = 2 tem e vale 0.
x + y2
Figura 52

Fonte: Larson e Edwards (2010, p. 900-901)

51
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Continuidade de Uma Função de Duas Variáveis


A definição de continuidade para funções de duas variáveis é essencialmente a mesma que
para funções de uma única variável.
Definição 15: uma função f ( x, y ) é contínua no ponto (x0, y0) se:
1) for definida em (x0, y0);
2) lim f ( x, y ) existir;
( x , y )→( x0 , y0 )

lim f ( x, y ) = f ( x0 , y0 )
3) ( x , y )→( x0 , y0 )
Uma função é contínua quando o é em todos os pontos de seu domínio.

Exemplo 26
2x2 y
Observe que a função h ( x, y ) (a mesma do exemplo 24) é contínua, pois como
x4 + y 2
uma função racional – quociente de funções algébricas – o Teorema 1 se aplica a essa, ou seja,
existe o limite de h(x, y) para todo ponto do seu domínio D = {
( x, y ) ∈  2 : ( x, y ) ≠ ( 0, 0 ) e o }
valor do limite é igual ao valor da função no ponto. Como ( 0, 0 ) ∉ D , o fato de não existir o
limite da função h em (0,0) em nada interfere na continuidade dessa função, uma vez que a
condição 1 de continuidade não estaria satisfeita.

Exemplo 27
Considere agora a função f ( x, y ) assim definida:

 2x2 y
 , se ( x, y ) ≠ ( 0, 0 )
f ( x, y ) =  x 4 + y 2
 0, se ( x, y ) = ( 0, 0 )

Vimos que para ( x, y ) ≠ ( 0, 0 ) a função f ( x, y ) é contínua, pois coincide com a função
h(x, y) do exemplo 26. Mas a função f é diferente da função h, pois têm domínios distintos,
a função h não está definida na origem e f ( 0, 0 ) = 0 . A questão, então, para discutir a
continuidade da função f , restringe-se apenas à verificação de continuidade na origem.
Entretanto, pelo exemplo 24, vimos que  lim f ( x, y ) . Logo, a função f é contínua
( x , y )→( 0,0 )
em todos os pontos do plano, exceto na origem.

52
Observe os gráficos de duas funções contínuas em todos os pontos de  2:
Figura 53

Fonte: Larson e Edwards (2010, p. 902)

Importante!
Limite e continuidade para funções de mais de duas variáveis
As definições de limite e continuidade para funções de duas variáveis e as
propriedades sobre limites e continuidade – somas, produtos, quocientes
potências e composições – estendem-se a funções de três variáveis ou mais. Por
) ln ( x + y + z ) e g ( x, y, z ) = y.sen ( z ) são
exemplo, as funções f ( x, y, z=
x −1

contínuas em seus domínios, respectivamente,= D f {( x, y, z ) ∈  3 : x + y + z > 0} e


D=g { 3
}
( x, y, z ) ∈  : x ≠ 1 . Possuem também limites como:
e x+ z e1−1 1
lim = =
P →(1,0, −1) 2
(
z + cos xy ) ( −1) + cos ( 0 ) 2
2

Onde P indica o ponto (x, y, z), podem ser encontrados por meio de substituição
direta.

53
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Derivadas Parciais

Em aplicações de funções de várias variáveis, muitas vezes a questão que surge é: como
o valor de uma função é afetado ao efetuarmos uma mudança em uma de suas variáveis
independentes?
Pois, podemos responder essa questão considerando cada uma das variáveis independentes em
separado. Por exemplo, para determinar o efeito de um catalisador em uma experiência com um
produto químico, a experiência pode ser repetida várias vezes utilizando diferentes quantidades de
catalisador, mantendo as demais variáveis constantes, como temperatura e pressão.
Para determinar a velocidade ou a taxa de mudança de uma função , com respeito a uma
das suas variáveis independentes, pode-se usar um procedimento similar. Esse processo é
chamado de diferenciação parcial e o resultado chama-se derivada parcial de ƒ em relação à
variável independentemente escolhida.

Definição 16:
Derivadas parciais de uma função de duas variáveis
Se z = f ( x, y ) , as derivadas parciais primeiras de ƒ, com relação às variáveis independentes
x e y são as funções f x e f y definidas por:
a) f ( x + ∆ x ) − f ( x, y )
f x ( x, y ) = lim
∆ y →0 ∆x
f ( x + ∆ y ) − f ( x, y )
b) f y ( x, y ) = lim
∆ y →0 ∆y

Sempre e quando esses limites existirem.


∂f ( x, y ) ∂f ( x, y )
Observação: São também utilizadas as notações f x ( x, y ) = e f y ( x, y ) = .
∂x ∂y

Exemplo 28
Encontre as derivadas parciais de f ( x, y ) = y.sen ( xy )
Para encontrar a derivada parcial f x consideramos y constante e derivamos em relação
à variável x como fazemos em uma função de uma variável, usando as regras de derivação,
inclusive a regra da cadeia, quando necessário. Analogamente, em relação à derivada parcial
f y temos:

∂ ( sen ( xy ) ) ∂ ( xy )
f x ( x, y ) y. = y.cos (=
= xy ) . .cos ( xy ) . y y 2 .cos ( xy )
y=
∂x ∂x
∂ ( sen ( xy ) )
f y ( x, y ) =
1.sen ( xy ) + y. sen ( xy ) + y.cos ( xy ) .x
=
∂y
= sen ( xy ) + xy.cos ( xy )

54
Interpretação de Derivadas Parciais
Para dar uma interpretação geométrica de derivadas parciais, recordemos que a equação
z = f ( x, y ) representa uma superfície S (o gráfico de f ). Seja f (a, b) , então o ponto
P = ( a, b, f ( a, b ) ) está situado sobre S. Quando fazemos y = b esse plano intercepta a
superfície S em uma curva C1 que passa pelo ponto f (a, b) e, ao derivarmos em relação a
x, a interpretação é a mesma de função de uma variável, ou seja, em f (a, b) a f x (a, b) dá
a medida da inclinação da tangente à curva C1 no ponto P. Analogamente, para a derivada
parcial f y em relação a outra curva C2, obtida pela interseção do plano x = a com a superfície
S e que cruza ortogonalmente com C1 no ponto P.
Na seguinte Figura a derivada parcial f x (a, b) mede a inclinação da reta T tangente à curva
de interseção da superfície z = f ( x, y ) com o plano y = b isto é, tg (θ ) = f x ( a, b ) :
Figura 54

Fonte: Silva e Matos (2009, p. 34)

Vemos, então, que derivadas parciais podem ser interpretadas como taxas de variação, em
relação a cada uma de suas variáveis independentes. Veja a seguir:
Quadro 2

O índice de sensação térmica


Em dias frios, é comum ouvirmos falar que a temperatura está baixa e que a sensação térmica é
de uma temperatura ainda menor. O que é sensação térmica? Como essa é calculada?
Nos termômetros, a temperatura marcada depende apenas da medição feita no ar. A sensação
térmica, por outro lado, é a temperatura que realmente sentimos, tendo seu valor influenciado
principalmente pela velocidade do vento, mas também pela umidade e densidade do ar, entre
outros fatores climáticos. Geralmente os valores de sensação térmica são tabelados para
velocidades comuns do vento, porém, existe uma fórmula empírica para calcular esses valores:

(
S(T) = 33 + 10 v + 10, 45 − v . ) T 22
− 33

Onde T é a temperatura em graus Celsius e v é a velocidade do vento em quilômetros por hora.


Fonte: Stewart (2012, p. 904)

55
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 29
Vimos que o índice de sensação térmica é dado por uma função de duas variáveis, a qual
T − 33 , com v em km/h e T em graus Celsius.
podemos reescrever f (T , v ) =+
33 10 v + 10, 45 − v . ( ) 22

Calcule a sensação térmica em (T , v ) = ( 3, 40 ) e a derivada parcial de f em relação à v


neste ponto, interpretando como taxa de variação.

Resolução
A sensação térmica em (T , v ) = ( 3, 40 ) é f (3, 40) cujo cálculo segue:
 3 − 33 
(
f ( 3, 40 ) = 33 + 10 40 + 10, 45 − 40 . 
 22 
)
 ≅ 33 + ( 33, 7 ) . ( −1,36 ) ≅ 33 − 45,83 ≈ −12,8 C

Temos agora que encontrar f v (T , v ) , calcular f v ( 3, 40 ) e interpretar.

f (T , v ) =+ (
33 10 v + 10, 45 − v . ) T 22
− 33

 1

∂ 10.v 2 + 10, 45 − v 
 T − 33   − 2   T − 33 
1
f v (T , v ) =  
0+ . = 5.v − 1 .  
∂v  22     22 
 5   3 − 33 
f v ( 3, 40 ) =  − 1 .   ≅ ( 0, 79 − 1) . ( −1,36 ) ≅ ( −0, 21) . ( −1,36 ) ≅ 0, 29°C / h
 40   22 
Logo, quando a temperatura é de 3°C e a velocidade do vento é de 40km/h a sensação
térmica é de ≈ −12,8° C e a taxa de variação da sensação térmica é cerca de 0,3°C / h , ou
seja, se a temperatura se mantiver em 3°C , mas a velocidade do vento aumentar em 1km/h, a
sensação térmica sofre uma variação de, aproximadamente, 0,3°C.

Exemplo 30
Em alguns casos, as derivadas parciais devem ser calculadas pela definição. É a circunstância
para a função definida por:
 xy
 2 , para ( x, y ) ≠ ( 0, 0 )
f ( x, y ) =  x + y
2

 0, para ( x, y ) = ( 0, 0 )

Essa função é definida por duas sentenças – por isso não é uma função elementar – e (0,0)
é o ponto de transição de uma sentença para outra. Portanto, as derivadas parciais no ponto
de transição devem ser calculadas pela definição. Então temos:
f ( h, 0 ) − f ( 0, 0 ) 0
f x ( 0,
= 0 ) lim = lim = lim = 0 0
h →0 h h → 0 h h →0
De forma similar, encontramos f y ( 0, 0 ) = 0

56
Exemplo 31
Seja a função f ( x, y ) =4 − x − 2 y , determine f x (1,1) e f y (1,1) e interprete essas
2 2

taxas de variação.

Resolução:
Vemos que:
f x ( x, y ) =−2 x ⇒ f x (1,1) =−2 e f y ( x, y ) =
−4 y ⇒ f y (1,1) =
−4
O gráfico de f é o paraboloide z = 4 - x2 -2y2 e o plano vertical y = 1 corta o paraboloide
na curva C1 que é uma parábola. A declividade da reta tangente a essa parábola no ponto
(1,1,1) é f x (1,1) = −2 . Analogamente, em relação à reta tangente à curva C2 interseção do
plano vertical x = 1, no ponto (1,1,1) da superfície, cuja declividade é f y (1,1) = −4 . Confira
nos seguintes gráficos:
Figura 55

Fonte: Stewart (2012, p. 904)

57
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Derivação Parcial Implícita


Por vezes temos uma equação em três variáveis e desejamos encontrar a taxa de variação
de uma dessas em função de outra. Ocorre que fica mais complicado explicitar essa variável
em função das outras duas. Nessa situação usamos o recurso de derivação implícita, que pode
se visto no seguinte exemplo:

Exemplo 32
Considere a esfera dada pela equação x2 + y2 + z2 = 1. Determine a inclinação da esfera na
direção de y nos pontos  2 , 1 , 2  e  2 , 1 , − 2  .
   
3 3 3 3 3 3

Resolução
2 1 2 2 1 2
O ponto  , ,  fica no hemisfério superior z = 1 − x 2 − y 2 e o ponto  , , −  fica
3 3 3 3 3 3
2 2
localizado no hemisfério inferior z =
− (1 − x − y ) . Observe que para achar as taxas
∂z
solicitadas temos que encontrar a derivada parcial e calcular nos pontos. Contudo, fica
∂y
mais fácil derivar implicitamente em relação à variável y a equação da esfera – e não as funções
dos respectivos hemisférios. Isso é feito usando a regra da cadeia. Então, derivando em relação
a y a equação x2 + y2 + z2 = 1:
∂ 2 ∂
 x + y 2 + z 2  = [1]
∂y ∂y
∂x ∂y ∂z ∂z
2 x. + 2 y. + 2 z. = 0 ⇒ 2 x.0 + 2 y.1 + 2 z. = 0
∂y ∂y ∂y ∂y
∂z ∂z y
2 z. −2 y ⇒
= =

∂y ∂y z

Agora, calculando essa derivada parcial nos pontos solicitados, temos:


1 1
∂z  2 1 2  1 ∂z  2 1 2  1
 , , = −3=− e  , ,−  =− 3 =
∂y  3 3 3  2 2 ∂y  3 3 3  2 2

3 3
2 1 2 1 2 1 2
Portanto, vemos que a inclinação da esfera no ponto  , ,  é − e no ponto  , , − 
3 3 3 2 3 3 3
a inclinação é 1 .
2

58
Derivadas Parciais de Ordem Superior de Funções de Duas Variáveis
Da mesma forma que a funções de uma variável que podemos encontrar as derivadas
primeira, segunda, enfim de qualquer ordem, sempre que for derivável – e levando em conta
que as derivadas parciais de uma função de duas variáveis são também funções de duas variáveis
– podemos encontrar as derivadas parciais de ordem superior, desde que essas derivadas
existam.
∂f ∂f
Considere z = f (x,y) e suponha que existam suas derivadas parciais primeiras, e ,
então, para encontrar as derivadas de segunda ordem, fazemos assim: ∂x ∂y

1) Derivada segunda em relação a x:

∂  ∂f  ∂ 2 f
=  = f xx
∂x  ∂x  ∂x 2

2) Derivada segunda em relação a y:

∂  ∂f  ∂ 2 f
 = = f yy
∂y  ∂y  ∂y 2

Derivada primeira em relação a x e depois em relação a y:

∂  ∂f  ∂ 2 f
=  = f xy
∂y  ∂x  ∂y∂x

Derivada primeira em relação a y e depois em relação a x:

∂  ∂f  ∂ 2 f
=  = f yx
∂x  ∂y  ∂x∂y

As derivadas nos casos 3 e 4 são chamadas de derivadas parciais mistas.

Por exemplo, f xy = ( f x ) y significa que derivamos


primeiro em relação a x e depois em relação a y. No
entanto, na outra notação essa derivada mista, nessa
Importante! mesma ordem, é denotada como ∂  ∂f  . Isso é uma
 
convenção! ∂y  ∂x 

Podemos também continuar esse processo e obter as derivadas parciais fxxx, fxxy, fxyx, fyxy, fxyy,
fyyx, fyyy e assim sucessivamente, desde que existam essas derivadas parciais.

59
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Exemplo 33
Encontre todas as derivadas parciais segundas da função:
f ( x=
, y ) y 2e x + y
 f ( x, y ) = y 2 e x
f x ( x=
, y ) y 2 e x ⇒  xx
 f xy ( x, y ) = 2 ye
x

 f yx ( x, y ) = 2 ye
x

f y ( x, y=
) 2 ye + 1 ⇒ 
x

 f yy ( x, y ) = 2e
x

Observe que f xy ( x=
, y ) 2=
ye x f yx ( x, y ) . Isto é, consequência do seguinte Teorema:
Teorema 2: igualdade das derivadas parciais mistas.
Se f é uma função de x e y tal que f xy e f yx são contínuas em um disco aberto R, então,
para todo ( x, y ) ∈ R , f xy ( x, y ) = f yx ( x, y )

Derivadas de Funções de Mais de Duas Variáveis


O conceito de derivada parcial pode se estender de maneira natural a funções de três ou
mais variáveis. No caso de w = f ( x, y, z ) existem três derivadas parciais primeiras, cada
uma das quais obtidas mantendo as outras duas constantes.
Por exemplo, se f= (
( x, y, z ) z.sen xy 2 + 2 z , para encontrar a ) f z , consideramos x e y
constantes e derivamos em relação a z. Assim:
∂ ∂ ∂
∂z
(
z.sen ( xy= 2

∂z
)
+ 2 z ) z.  sen ( xy 2 + 2 z )  + sen ( xy 2 + 2 z ) . [ z ]
∂z
= z. cos ( xy 2 + 2 z )  .2 + sen ( xy 2 + 2 z=
) 2 z.cos ( xy 2 + 2 z ) + sen ( xy 2 + 2 z )
=
De uma maneira geral, se w f ( x1 , x2 , x3 ,…, xn ) se possui n derivadas parciais
denotadas por:

∂w
= f xi ( x1 , x2 , x3 , …, xn ) , i =1, 2,3…, n
∂xi

Para encontrar a derivada parcial com respeito a uma das variáveis, mantém-se constantes
todas as demais e se deriva em relação à variável dada.

60
Exemplo 34
x+ y+z
Se f ( x, y, z , w ) = dê o valor de f (1, 2, 3, 4 ) e de f w (1.2,3, 4 )
w
Resolução:

1+ 2 + 3 6 3
f (1, 2,3, 4 =
) = =
4 4 2

Para encontrar f w ( x, y, z , w ) consideramos x,y,z constantes e derivamos em relação a w,


portanto:
∂  x+ y+z ∂ x+ y+z
 = ( x + y + z ) .w  =( x + y + z ) .w . ( −1) =−
−1 −2

∂w  w  ∂w w2
Daí:
1+ 2 + 3 6 3
f w (1, 2,3, 4=
) = =
42 16 8

Assim, chegamos ao fim desta Unidade, que tratou da parametrização de curvas no


plano e no espaço, de funções vetoriais no plano e no espaço e da extensão dos conceitos
fundamentais do cálculo de função de uma variável para funções de mais de uma variável:
limite e continuidade, abordando curvas de nível, gráficos e derivadas parciais, com exemplos
e algumas aplicações.

61
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Material Complementar

A Gênese do Cálculo
A criação e o desenvolvimento do cálculo foram motivados por uma série de problemas,
divididos em três grandes temas:

• Cálculo integral – relaciona-se com o cálculo da quadratura – área – das figuras planas;
com o cálculo da cubatura – volume – de sólidos; com o cálculo dos centros de gravidades
de algumas figuras geométricas; com a retificação de curvas;

• Cálculo diferencial – trata dos métodos de traçar tangentes em curvas e dos problemas
relacionados com máximos e mínimos de funções;

• Cálculo infinitesimal – faz a ligação entre os dois primeiros.


Dos três cálculos acima indicados, o integral é o mais antigo, foi desenvolvido, inicialmente,
pelo astrônomo e matemático grego Eudoxo de Cnido (408-355 a.C.), através do método da
exaustão utilizado no cálculo de áreas e de volumes de figuras envolvendo curvas. Esse método
foi também apresentado pelo matemático grego Euclides de Alexandria (323-285 a.C.) em
seu famoso livro Elementos de Geometria. Por sua vez, o matemático grego Arquimedes de
Siracusa (287-212 a.C.) repetiu aquele cálculo, porém, de maneira muito mais elaborada –
por essa razão, a grande maioria dos historiadores da Ciência o considera como o “inventor”
desse tipo de cálculo.
Em termos simples, Aristóteles tinha afirmado que o contínuo – por exemplo, um segmento
de reta – era composto por partes que, de novo, podiam ser divididas, e assim sucessivamente,
sem fim. Galileu, servindo-se de seu método de resolução do paradoxo da “roda de Aristóteles”
(HISTÓRIA das funções..., [20--]), em oposição a Aristóteles, afirma que um contínuo é
“composto de uma infinidade de indivisíveis”.
Os problemas de cálculo integral foram tratados pelo método de exaustão arquimediano
até o século XVI, no entanto, com as traduções latinas das obras de Arquimedes, em 1544,
o principal argumento desse matemático, de redução ao absurdo, em suas demonstrações
passou a receber críticas e algumas modificações até que, aos poucos, foi substituído pela
passagem direta ao processo de limite.
Um novo método para o cálculo de áreas e volumes foi desenvolvido pelo astrônomo
alemão Johannes Kepler (1571-1630), ao considerar que áreas e volumes eram compostos,
respectivamente, de uma quantidade “infinita” de retas e planos. Com isso, Kepler abandonou
o método arquimediano e implementou o uso de indivisíveis e infinitesimais. No livro Nova
steriometria doliorum vinatorium – Nova Geometria sólida dos barris de vinho –, editado
em 1615, Kepler apresentou o cálculo de volume de sólidos obtido pela rotação de cônicas
em torno de um eixo no seu plano.

62
O método dos indivisíveis foi também usado pelo astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-
1642) nos seus estudos sobre o movimento. Entretanto, quem de fato escreveu um livro
sobre infinitos e infinitesimais foi o matemático italiano Bonaventura Cavalieri (1598-1647),
em 1635, no qual transformou o uso de retas e superfícies “indivisíveis” em um poderoso
conjunto de técnicas para comparar áreas e volumes, hoje conhecido como métodos de
integração. Na Geometria, com o Princípio de Cavalieri, esse autor considerou áreas como
soma de segmentos de linhas, consideradas como indivisíveis, e volumes como somas de áreas
planas, consideradas também como indivisíveis.
Para tornar clara a denominação “método dos indivisíveis”, vale esclarecer em termos
simples que Aristóteles tinha afirmado que o contínuo – por exemplo, um segmento de reta
– era composto por partes que de novo podiam ser divididas indefinidamente. Por sua vez,
Galileu afirmou o contínuo como o “composto de uma infinidade de indivisíveis”: daí o termo
indivisíveis para representar o contínuo.
Embora seja o criador da “teoria dos indivisíveis”, Galileu acabou por não os utilizar na
obtenção de resultados geométricos. Isso foi feito pelos seus seguidores, Cavalieri e Torricelli.
No entanto, os indivisíveis de Cavalieri são diferentes dos de Galileu. Cavalieri procurou uma
sistematização racional do método dos indivisíveis e possibilitou um estudo desses de forma
indireta e com certa originalidade, não tomando uma posição sobre a composição do contínuo
e se contentando com a ligação indireta entre o contínuo e os átomos de grandeza. Cavalieri
trocou cerca de uma centena de cartas com Galileu – nem todas tiveram resposta. Em uma das
quais, de 1639, assim escreveu:

Quanto a mim, não me arrisquei a dizer que o contínuo seja


composto por indivisíveis, mas mostrei que a proporção existente
entre os contínuos não difere da existente entre os amontoados de
indivisíveis (desde que sejam tomados paralelos, quando falamos
de linhas retas e de superfícies planas, as quais são os indivisíveis
particulares que considerei)
(DE GANDT, 1986).

Nessa época o método dos indivisíveis e a integral da função xn eram também conhecidos
por outros cientistas, entre os quais, destacam-se o físico e matemático Evangelista Torricelli
(1608-1647), aluno de Galileu, e os matemáticos franceses Gilles Personne de Roberval
(1602-1675), Pierre de Fermat (1601-1665) e Blaise Pascal (1623-1662), em cujos trabalhos
sobre a integral de xn procuraram generalizar o resultado de Cavalieri, para n fracionário e
negativo, exceto n = -1.
Em 1634, em seu tratado sobre os indivisíveis, apenas publicado em 1693, Roberval usou
o método dos indivisíveis para encontrar a área sob um arco da cicloide. Pascal também usou
o método dos indivisíveis para calcular geometricamente a área sob curvas. Em seu Tratado
sobre senos de um quadrante, de 1659, apresentou o cálculo de integrais envolvendo
θ
potências de senos, tais como, em notação atual, 2 .
∫θ sen (θ ) dθ
2

63
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

O método analítico no cálculo das integrais, a partir do trabalho do matemático inglês John
Wallis (1616-1703), apresentado em 1655, começou a substituir o método geométrico de
Cavalieri, Roberval e Pascal. Nesse trabalho, Wallis utilizou basicamente induções, interpolações,
aproximações e logaritmos, trabalhando no domínio do infinito e, inclusive, introduzindo o
símbolo ∞ para o mesmo. Ao calcular dessa forma a área de um círculo, Wallis obteve o valor
notável para π , através da expressão π = 2.2.4.4.6.6.8.8… .16
2 1.3.3.5.5.7.7.9.9 …
Bom, até aqui vimos que o desenvolvimento do cálculo integral era voltado basicamente
à resolução de problemas de quadratura de curvas dadas por uma função na forma y = f ( x ),
uma vez que os problemas de cubatura e determinação de centro de gravidade se reduzem, de
alguma maneira, aos de quadratura.
Outro problema que também contribuiu para o desenvolvimento da integração foi o de
retificação de arcos, ou seja, de determinação do comprimento de arcos de curvas.
Por volta de 1650, ninguém acreditava que uma curva pudesse ter o comprimento de
uma linha reta, ou seja, ser retificada. Uma das primeira curvas a ser retificada foi a parábola
semicúbica ky 2 = x 3 , logo depois foi a cicloide.
O escocês James Gregory, em 1668, apresentou um método e retificação de curvas e o
físico holandes Christiaan Huygens (1629-1695), em 1673, publicou a retificação de algumas
curvas, em particular a cissoide – cissoide de Diocles é uma curva de terceira ordem, descrita
pelo matemático grego Diocles (240-180 a.C.), a fim de auxiliar a resolução do problema
da duplicação do cubo – e a tractrix, apresentando diversos resultados importantes para a
Matemática: foi o primeiro a obter áreas envolvendo paraboloides e hiperboloides, demonstrou
que a catenária é uma curva não algébrica – Galileu pensava ser parábola – e que a cicloide é
uma braquistócrona ou tautócrona – curva mais rápida entre dois pontos não alinhados nem
vertical, nem horizontalmente.
O problema de retificação de curvas representou um desafio para os matemáticos do século
XVII, pois algumas, como a elipse e a hipérbole, não puderam ser retificadas por não ser
possível resolver a tarefa em termos das funções conhecidas na época. Somente no século
XVIII, principalmente com os trabalhos do matemático e físico suiço Leonhard Euler (1707-
1793) foi possível contornar esse problema.
Como pode ver, diferentemente de como nos é apresentado hoje, o cálculo integral
desenvolveu-se antes do cálculo diferencial.

64
O Cálculo Diferencial
Além dos problemas que impulsionaram o desenvolvimento do cálculo integral, outros
ajudaram a desenvolver o cálculo: o problema da construção de tangentes às curvas e a
obtenção de máximos e mínimos de funções. Esses dois problemas levaram à outra parte
fundamental do cálculo, conhecida como cálculo diferencial.
As primeira tentativas de traçar tangentes às curvas foram realizadas pelos gregos, que
usando o método de redução ao absurdo conseguiram estudar a construção de tangentes a
algumas curvas – poucas eram conhecidas à época. Euclides, por exemplo, em sua obra Os
elementos da Geometria, definiu tangente a uma circunferência como a reta que o toca em
apenas um ponto, mas não o corta; para provar usou o argumento de redução ao absurdo.
Apolônio usara um método semelhante para demonstrar as propriedades conhecidas de
retas tangentes e normais.
Já Arquimedes parece ter se inspirado em considerações cinemáticas para traçar a tangente
à espiral que leva seu nome – sugerindo que o ponto que descreve a espiral realiza dois
movimentos, um na direção do raio vetor e outro na direção perpendicular ao raio vetor, que
compostos dão o movimento da espiral.
Esse método cinemático-arquimediano foi utilizado durante séculos, sendo usado para
observar aguns problemas de tangente, em 1638, e por Torricelli, em 1644. Muito embora
o método tenha servido para resolver alguns problemas não tratados pelo conceito euclidiano
de tangente, não se aplicava a outras curvas que nada tinham com o movimento. Daí a
necessidade de encontrar outra maneira de traçar tangentes às curvas, cujo conceito fosse
puramente matemático e não físico, como o arquimediano. Isso foi conseguido pelos
matemáticos franceses Pierre de Fermat (1601-1665) e René Descartes (1596-1650).
Fermat utilizou um método que havia criado, cujo manuscrito, intitulado Método de encontrar
máximos e mínimos, foi publicado em 1637. Resumindo o que Fermat criou, em linguagem
atual, foi o seguinte: para encontrar a tangente máximos e mínimos deveria se fazer
f ( x + E ) − f ( x ) . Além disso, igualando a zero essa expressão, encontravam-se
f ′ ( x ) = lim
E →0 E
os máximos e os mínimos.
Outro método de traçar tangentes às curvas foi desenvolvido por Descartes, em sua obra
A Geometria, usando o conceito de normal a uma curva, constatara que a tangente era a
perpendicular à normal da curva no ponto. O traçado de tangentes, bem como o cálculo de
áreas, foram objetos de estudo de outros pesquisadores da época, entre os quais, o matemático
inglês Isaac Barrow (1630-1677), em seu livro Lições geométricas, publicado em 1670.
Assim, para tratar o problema da relação inversa entre o traçado de tangentes às curvas e o
cálculo de quadraturas, surgiu o estudo conhecido como cálculo infinitesimal, gradualmente
estabelecido no século XVII, devido aos trabalhos de Galileu, Cavalieri e Torricelli. No entanto,
O teorema fundamental do cálculo só foi apresentado por Gregory, em 1668, e por Barrow
dois anos depois. Esse cálculo foi depois formalizado por Newton e Leibniz.

65
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

As principais contribuições do físico matemático Sir Isaac Newton (1642-1727) aconteceram


entre 1662 e 1664, quando estudou os principais livros escritos até então, entre os quais, o
Elemento, de Euclides, a Geometria, de Descartes, a Aritmética do infinito, do matemático
inglês John Wallis, a Introdução à arte analítica, do matemático francês François Viète
(1540-1603).
É provável que essas leituras o fizeram escrever para o físico Robert Hooke (1635-1703)
sua famosa frase: “Se vi mais longe do que Descartes, foi porque fui em ombros de gigantes”.
Newton estendeu o trabalho de Wallis de áreas sob curvas, considerando-as como a soma
estática de infinitesimais. Wallis utilizava-se de induções, interpolações, aproximações e
logaritmos com séries infinitas e Newton estendeu esse trabalho para expansões binomiais
dos termos dessas séries. E com a expansão binomial, Newton verificou que poderia encontrar
a área abaixo de praticamente qualquer curva algébrica e expressá-la em termos de logaritmos
– chegou a calcular logaritmos das áreas sob uma hipérbole equilátera até 55 casas decimais.
Depois demonstrou que o problema das tangentes e das quadraturas – respectivamente,
diferenciação e integração, na linguagem atual – apresentavam entre si uma relação inversa,
relação essa que constitui o teorema fundamental do cálculo, agora por esse teórico formalizado
e que, em linguagem atual, pode ser traduzido sinteticamente por:
x
dy
y= ∫z.dx ⇒ dx=
0
z

Em seguida, passou a tratar áreas cinematicamente como se fossem varridas por uma linha
móvel e estendeu essa abordagem cinemática à geração de curvas, tratando-as como lugar
geométrico – locus – de um ponto se deslocando em condições determinadas. Com essa ideia
de movimento, passou a considear suas variáveis como geradas por movimentos contínuos de
pontos, linhas e planos, o que o levou a derivar o termo fluxional e suas variantes. Com isso,
denominou suas variáveis – como x e y, por exemplo – de fluentes e suas velocidades de fluxões.
Chegou a apresentar esse método em três ocasiões, denominado método das fluxões,
mas apenas por volta de 1670 em manuscrito, intitulado Tratado dos métodos das séries
e fluxões, ainda com uma notação provisória, complicada e que não foi concluída – esses
trabalhos de Newton só foram organizados e publicados por A. Rupert Hall e M. Boas Hall,
em 1962, pela Universidade de Cambridge.
Nessa ocasião, por alguns anos afastou-se dos trabalhos matemáticos para dedicar-se ao
estudo do movimento dos corpos, da luz e das cores, temas que já havia questionado, junto
com colegas matemáticos, enquanto aluno do Trinity College, da Universidade de Cambridge.
Por outro lado, o matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) começou
a publicar, a partir de 1684, no Acta eruditorium lipsiensium, seus trabalhos de cálculo
diferencial sobre cálculo de áreas – partindo do simbolismo utilizado por Cavalieri, acabou os
substituindo, criando a notação " ∫ " para representar o somatório –, operação do integrais,
integração por partes, regras de derivação de ordem superior, regra da cadeia, máximos
e mínimos, concavidade e inflexão. Isso levou Newton a considerar a hipótese de também
publicar seus trabalhos de Matemática. Assim, em 1691, escrevendo um novo manuscrito,
intitulado Sobre a quadratura de curvas, em que apresenta um conjunto de problemas
resolvidos pelo método das fluxões, problemas esses semelhantes aos resolvidos por Leibniz

66
pelo seu próprio método. Nesse manuscrito adota a notação “x” para as fluxões, abandona
a ideia de acréscimos infinitesimais e explica o método das fluxões em termos de razões,
reconhecido hoje como precurssor da Teoria dos limites.
Newton conseguiu publicar suas ideias sobre o cálculo em seu famoso livro Philosophie
naturalis principia mathematica – Princípios matemáticos de filosofia natural –, editado
em 1687, conhecido até hoje simplesmente como Principia. Embora esse livro seja bastante
conhecido por apresentar os fundamentos da Física e da Astronomia em linguagem de
Geometria pura, em algumas partes dessa obra Newton lançou métodos analíticos.
Vemos, então, que se tratou de um disputa entre esses dois gigantes do cálculo. Ressaltamos,
ainda, as principais diferenças entre tais contribuições, segundo Bassalo (1996b):
• A primeira refere-se às quantidades variáveis: enquanto Newton considerou-as como
dependentes do tempo, Leibniz tomou-as como percorrendo sequências de valores
infinitamente próximos;
• A segunda relaciona-se com o conceito de variação daquelas quantidades: Newton tratou
a taxa de variação de uma variável através do conceito de fluxão, enquanto Leibniz
tratou-a por intermédio do conceito de diferencial;
• A terceira diferença está ligada ao conceito de integração: para Newton essa tinha como
tarefa apenas a função de encontrar os fluentes para as fluxões dadas, enquanto Leibniz
interpretou-a como um somatório;
• A quarta refere-se aos infinitesimais: Newton considerou-os apenas como mecanismos de
encontrar as fluxões, Leibniz, contudo, tratou-os realmente como pequenos acréscimos;
• A quinta diferença diz respeito ao uso de séries para representar as funções resultantes da
solução das equações diferenciais: Newton usou-as sistematicamente, enquanto Leibniz
preferiu a forma fechada.
Apesar da polêmica sobre quem de fato teria “inventado” o cálculo – pois, essa é uma
construção coletiva ao longo dos tempos –, esse foi divulgado e teve acrescentadas outras
contribuições, por partidários tanto de Newton, quanto de Leibniz. Na Inglaterra, os matemáticos
ingleses prosseguiram o desenvolvimento do cálculo newtoniano, notadamente Brook Taylor
(1685-1731), conhecido pelo trabalho com a série de potências e a famosa fórmula de Taylor,
que já fora tratada por James Gregory (1638-1675) e também por Newton, por métodos de
interpolação, na hoje conhecida fórmula de Gregory-Newton. Ao contrário do que ocorreu na
Inglaterra, na Europa continental foi o cálculo leibniziano que recebeu maior atenção.
Até aqui vimos o desenvolvimento do cálculo diferencial e integral através dos principais
nomes que os desenvolveram até a segunda metade do século XVII. Veremos agora os trabalhos
que se seguiram aos de Newton e Leibniz, principalmente os desenvolvidos no final do século
XVIII e início do XIX.
Nas últimas décadas do século XVII, as novas contribuições em relação à difusão do cálculo
leibniziano deveram-se, principalmente, por parte dos matemáticos suíços, os irmão James –
Jakob e Jacques – Bernoulli (1654-1705) e John – Johann e Jean – Bernoulli (1667-1748),
assim como do aluno de John, o matemático francês, Marquês Guillaume François Antoine
de l’Hôpital (1661-1704) – a esse foi atribuida a famosa Regra de l’Hôpital para limites de
funções racionais indeteminadas que, na verdade, fora desenvolvida por John.

67
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

Com a morte de James Bernouli, em 1705, a Cátedra de Matemática por esse dirigida na
Universidade de Basileia, passou a ser comandada por seu irmão, John e, em torno dessa,
essse reuniu alunos que se tornaram brilhantes matemáticos, como seu sobrinho Nicholas II
(1687-1759) e seus filhos Nicholas III (1695-1726) e Daniel (1700-1782), além de Leonhard
Euler (1707-1783) e Jakob Hermann (1678-1733).
Muito embora os matemáticos suíços tenham contribuido relevantemente para o desenvolvimento
do cálculo, foi Euler quem começou a dar uma base conceitual rigorosa: apresentou as primeiras
ideias sobre o conceito de função e de limite, importante para transformar o cálculo newtoniano-
leibniziano, baseado em variáveis, infinitesimais e razões últimas, para a teoria de funções e suas
derivadas, que se tornou conhecida pelo nome de análise.
Claro que outros matemáticos também fizeram suas contribuições à análise, mas a figura-chave
foi Euler. Para as transformações ocorridas na Análise Matemática no século XVIII, além de Euler
contribuiram os matemáticos franceses Alexis Claude Clairaut (1713-1765), Jean Le Rond d’Alembert
(1717-1783), Pierre Simon Laplace (1749-1827) e Adrian Marie Legendre (1752-1833).
Apesar dos trabalhos realizados no século XVIII, no sentido de fundamentar o cálculo
em uma base rigorosa, ao final desse século ainda se observava sérias dificuldades nessa
fundamentação como, por exemplo, os conceitos de função, de limite e continuidade, os
paradoxos criados pelo uso das séries sem estudo dos critérios de convergência, a representação
de funções por séries trigonométricas ainda era controversa, a ausência de definição precisa
– nos termos atuais – para a derivada e a integral. Tais dificuldades foram contornadas no
século XIX, principalmente com os trabalhos dos seguintes matemáticos: o tcheco Bernhard
Bolzano (1781-1848); os franceses Jean Baptiste Joseph Fourier (1768-1830), Augustin
Louis Cauchy (1789-1857), Jules Henri Poincaré (1854-1912) e Emile Borel (1781-1956);
o norueguês Niels Henrik Abel (1802-1829); os alemães Carl Friedrich Gauss (1777-1855),
Carl Gustav Jacob Jacobi (1804-1851), Gustav Peter Lejeune Dirichet (1805-1859), Karl
Theodor Wilhelm Weierstrass (1815-1897), Heinrich Eduard Heine (1821-1881), Georg
Friedrich Bernhard Riemann (1826-1866), Julius Wilhelm Richard Dedekind (1831-1916) e
Georg Cantor (1845-1918).
No século XIX, Bolzano foi um dos primeiros a propor nova fundamentação para o cálculo.
Seu livro, publicado em 1817, traz resultados dessa fundamentação, a definição de alguns
conceitos matemáticos, como variável, continuidade, limite, convergência e derivada, além da
demonstração de alguns teoremas sob uma ótica aritmética, razão pela qual é conhecido como
o “pai da aritmetização do cálculo”.
Novos resultados sobre a teoria dos números reais foram encontrados por Bolzano, por
volta de 1840, ocasião em que apresentou as primeiras ideias sobre a densidade de alguns
conjuntos ao perceber ser o infinito dos números reais diferente do infinito dos números
inteiros – enquanto esse era enumerável, aquele não o era.
No entanto, o trabalho de Bolzano sobre conjuntos infinitos era mais filosófico do que
matemático, por não ter desenvolvido conceitos para esses conjuntos, como potência e
cardinalidade, que só aconteceu com os trabalhos de Dedekind e Cantor. Entretanto, por
viver muito isolado em Praga, muitas ideias de Bolzano ficaram em manuscritos, que só foram
descobertos mais tarde, por outros matemáticos, especialmente Cauchy.

68
Nos livros Curso de análise na Escola Real Politécnica, de 1821; Resumos de aulas, de
1823; e Lições sobre o cálculo diferencial, de 1829, Cauchy apresentou uma fundamentação
completa dos conceitos do cálculo – variável, limite, continuidade, derivada e integral –,
incluindo muitos exemplos do novo tipo de raciocínio, especialmente em relação aos problemas
de convergência de sequências e séries e sobre o famoso Teorema Fundamental do Cálculo.
Cauchy ainda provou a existência da integral para qualquer integrando contínuo, bem como
definiu a integral quando o integrando apresentava descontinuidades finitas ou infinitas.
No entanto, com o desenvolvimento da análise, novas irregularidades do integrando se
manifestaram, demandando a criação de uma teoria completa de integrabilidade de funções.
As dificuldades com os integrandos surgiram à medida que os matemáticos procuravam
estudar séries infinitas. Assim foi construida uma teoria de integração em diversos trabalhos,
até Riemann apresentar sua famosa Integral de Riemann, em 1854.
Em relação aos estudos sobre séries infinitas, vários matemáticos realizaram estudos no
século XVIII, mas ao desse século muitos resultados dúbios ainda persistiam. Nas primeiras
décadas do século XIX, Gauss, Bolzano, Cauchy, Fourier, Abel e Dirichlet começaram a estudá-
las com mais rigor. O primeiro estudo rigoroso deveu-se a Gauss, em 1812, no qual estudou
séries hipergeométricas. Mais tarde Bozano apresentou a noção correta de convergência,
mas esse trabalho não teve muita repercussão e como o estudo de Gauss relacionava-se
apenas com séries particulares, foi Cauchy que recebeu o mérito de ter resolvido a questão de
convergência de séries, no mesmo Curso de análise, de 1821.
O trabalho de Cauchy foi analisado por Abel, quem descobriu um erro sobre continuidade
das séries de funções contínuas e, assim, deduziu a primeira noção de covergência uniforme,
demonstrando que a soma de uma série de funções contínuas é contínua no interior do intervalo
de convergência.
A questão de convergência uniforme foi retomada por Dirichlet, em trabalho de 1837,
no qual demonstrou que em uma série absolutamente convergente, seus termos podem ser
reagrupados sem alterar o valor da soma, apresentando também exemplos que o mesmo pode
não ocorrer em séries condicionalmente convergentes.
Por sua vez, Weierstrass usou a noção de convergência uniforme para obter condições
de integração termo a termo de séries e também para a diferenciação de integrais. Outro
termo importante foi referente às séries trigonométricas e, nesse quesito, Fourier apresentou
um trabalho, em 1807, de difusão de calor em corpos de formas especiais. Essa tese foi
apresentada em uma banca cujos examinadores foram Monge, Lacroix, Laplace e Lagrange. Os
três primeiros foram favoráveis, apenas Lagrange foi contra, rejeitando a função apresentada
por Fourier para expressar a condição inicial da temperatura por não acreditar que as funções
pudessem ser representadas por séries trigonométricas – hoje a famosa Série de Fourier.
A procura da solução das equações das derivadas parciais também levou ao desenvolvimento
do cálculo no século XIX. Trataremos, então e a seguir, do cálculo várias variáveis, que muito
teve a ver com a resolução de problemas do mundo físico.

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Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

O Cálculo Diferencial e Integral de Várias Variáveis


Vimos que durante o século XVI, matemáticos estavam desenvolvendo uma nova Matemática
para resolver problemas em Ciências Físicas. Mas como o mundo físico é multidimensional,
muitas das quantidades usadas nesses modelos aplicados eram de várias variáveis. Astronomia
era uma área da Ciência rica nesse tipo de Matemática de várias variáveis. Por isso, o cenário
era montado por astrônomos e matemáticos para o desenvolvimento de funções de várias
variáveis e, finalmente, para o cálculo de várias variáveis.
Galileu (1564-1642) tentou aplicar a Matemática ao seu trabalho em Astronomia, Cinemática
e Resistência dos materiais. Pelo seu trabalho nessas áreas, frequentemente é chamado de
fundador da Mecânica e Física moderna.
O astrônomo, matemático e físico alemão Kepler muito contribuiu através do desenvolvimento
das suas três leis do movimento planetário. Esses resultados mudaram a Astronomia e
desempenharam um papel crucial no desenvolvimento da Física newtoniana e do cálculo.
Seu trabalho ajudou a desacreditar o modelo geocêntrico de Ptolomeu, colaborando no
estabelecimento da teoria heliocêntrica de Copérnico e montando o cenário para o surgimento
da Matemática aplicada em várias variáveis. 
Depois do desenvolvimento do cálculo de uma variável no século XVII, sua aplicação
para resolver problemas em um mundo multidimensional resultou na necessidade de
generalização para incluir funções de mais de uma variável e cálculo de várias variáveis. A
pergunta que se fazia era: o que seriam os análogos da derivada e da integral para funções
de mais de uma variável?
D’Alembert desenvolveu e usou o cálculo de várias variáveis para lidar com métodos para
resolver equações diferenciais e movimento de corpos considerando a resistência do meio.
De várias maneiras, usou os trabalhos de Newton, de l’Hôpital e dos Bernoullis para estender
os conceitos de cálculo para várias variáveis. D’Alembert pesquisou nessa área e publicou
muitos trabalhos em Matemática e Física matemática. Seu trabalho principal foi o Traité de
dynamique, de 1743, que ajudou a trazer a diferenciação parcial como parte do cálculo.
Já em um limiar de refinamento e uso do cálculo de várias variáveis, no século XVIII temos
Lagrange, que aplicou seu conhecimento de cálculo à Mecânica e foi muito produtivo nessa
área aplicada da Matemática. Seus principais trabalhos tratavam das equações de movimento
e do entendimento da energia potencial. Lagrange também foi o primeiro a desenvolver
os atuais métodos para encontrar máximos e mínimos usando cálculo e seu trabalho sobre
otimização em várias variáveis resultou na técnica que agora chamamos de multiplicadores
de Lagrange. Tinha apenas dezenove anos quando inventou esses métodos e até muito mais
tarde em sua vida ainda os considerava como seu melhor trabalho em Matemática. Publicou
Mécanique analytique, em 1787, no qual aplicou cálculo de várias variáveis ao movimento e
às propriedades de objetos no espaço.
Colega de Lagrange, o astrônomo e matemático Laplace, sobressaiu-se ao resolver, ainda
jovem, um problema de gravitação mútua que havia frustrado Euler e Lagrange anteriormente.
Tal trabalho contribuiu para a análise do sistema solar. Laplace generalizou as leis da Mecânica
para sua aplicação ao movimento e às propriedades de corpos celestes, por isso precisou e
desenvolveu resultados em cálculo de várias variáveis. Seu famoso tratado sobre esse assunto
foi intitulado Mécanique céleste.
70
Em 1782, Legendre venceu um prêmio de pesquisa da Academia de Berlim com seu
trabalho sobre balística exterior. Analisou a curva descrita pelas balas de canhão, levando em
consideração a resistência do ar e estabelecendo as relações para alcance, dadas as velocidades
iniciais. Legendre pôde desenvolver essas equações a partir de seu trabalho avançado em
equações diferenciais e cálculo de várias variáveis. 
Sylvestre François Lacroix (1765-1843) escreveu um importante tratado sobre cálculo,
em 1797. Em seu livro, unificou e generalizou muitos métodos para incluir cálculo de várias
variáveis, seguindo muitos dos fundamentos estabelecidos por Euler, mas também incorporando
ao seu texto resultados obtidos no final do século XVIII. Seu tratado expandiu o papel do
cálculo de várias variáveis nas Ciências. O matemático francês Fourier também aplicou cálculo
para resolver problemas práticos em Ciência. Por sua habilidade, foi selecionado por Napoleão
para ir em uma expedição ao Egito como consultor técnico em Engenharia e pesquisa técnica.
Posteriormente, Fourier continuou sua pesquisa matemática usando seu entendimento de
derivadas parciais e de cálculo de várias variáveis. Fourier também fez contribuições para o
estudo e cálculo de difusão de calor e para a solução de equações diferenciais.
À frente das contribuições para o cálculo de várias variáveis estava Gauss, cujas conquistas
em Ciências e Matemática foram assombrosas. Seu desenvolvimento de uma teoria de órbitas
planetárias foi publicado em 1809. Gauss desenvolveu e provou o Teorema da Divergência
enquanto trabalhava na Teoria de Gravitação, mas suas anotações não foram publicadas até
muitos anos depois, por isso, o crédito foi dado a outros pelo desenvolvimento e prova desse
importante resultado de várias variáveis. Mesmo assim, o teorema é, algumas vezes, chamado
de Teorema de Gauss.
Esse pesquisador desenvolveu resultados que estabeleceram a Teoria do Potencial como um
ramo coerente da Matemática. Mikhail Ostrogradsky (1801-1862) foi o primeiro a publicar
uma prova do Teorema da Divergência. Ostrogradsky deixou a Rússia e foi para Paris em
1822, onde encontrou Laplace, Legendre, Fourier, Poisson e Cauchy. Enquanto trabalhava
na Teoria do Calor, na metade da década de 1820, formulou o teorema da divergência como
uma ferramenta para tornar integrais de volume em integrais de superfície.
O matemático francês Siméon Poisson (1781-1840) estudou com Lagrange e Laplace,
fazendo seus trabalhos iniciais em Mecânica. Utilizou a Matemática nas aplicações de elasticidade
e vibrações. Cauchy construiu sobre os conceitos de várias variáveis do Mécanique céleste
de Laplace e do Traité des functions analytiques de Lagrange e, em 1816, resolveu um
problema de hidrodinâmica de propagação de ondas sobre a superfície de um líquido. Usou
seus conhecimentos de diferenciação parcial e de integrais de linha para analisar soluções e
propriedades das equações diferenciais parciais.
O matemático aplicado Carl Jacobi desenvolveu a teoria de determinantes e transformações,
uma ferramenta poderosa para avaliar integrais múltiplas e também aplicou métodos de
transformação para estudar integrais, como as que surgiram no cálculo do comprimento de arco.
O trabalho de George Green (1793-1841) sobre os fundamentos matemáticos da gravitação,
da eletricidade e do magnetismo foi publicado, em 1828, em um pequeno livro, intitulado
An essay on the application of mathematical analysis to electricity and magnetism. A
Matemática de Green deu a base na qual Thomson, Stokes, Rayleigh, Maxwell e outros
construíram a atual teoria do eletromagnetismo. Fundamental para esse desenvolvimento foi o
cálculo de várias variáveis, resultado que atualmente chamamos de Teorema de Green.
71
Unidade: Diferenciação de Função de Várias Variáveis

George Stokes (1819-1903) aplicou o cálculo de várias variáveis para estudar


hidrodinâmica, elasticidade, luz, gravitação, som, calor, meteorologia e física solar. Não
foi o primeiro a desenvolver o teorema integral que aprendeu com Thomson, em 1850,
e poucos anos depois incluiu entre as questões de um exame, tornando conhecido como
Teorema de Stokes.
Riemann trabalhou com o físico Wilhelm Weber (1804-1891), introduzindo as ideias básicas
da Geometria diferencial. Continuou a estudar e contribuir com o cálculo de várias variáveis,
aplicando resultados em Dinâmica e Física computacional. Similarmente, Josiah Willard
Gibbs (1839-1903), que nasceu em Connecticut e estudou em Yale, trabalhou em problemas
de Ciência aplicada à Física matemática. Suas contribuições foram em termodinâmica,
eletromagnetismo e Mecânica.
Sonya Kovalevsky (1850-1891), a matemática russa mais conhecida do final do século XIX,
aprendeu Matemática lendo papel de parede de um quarto que consistia de páginas de um
texto matemático do cálculo diferencial e integral de Ostrogradsky. Trabalhou principalmente
na Teoria de Equações Diferenciais Parciais.
Trabalhos posteriores de cientistas e matemáticos aplicados no final do século XIX e ao
longo do XX refinaram os resultados anteriores de várias variáveis e utilizaram essas técnicas
em várias áreas de Ciência e Engenharia.
O físico James Maxwell (1831-1879) usou ferramentas de várias variáveis como a
divergência, rotacional, fluxo e potencial para avançar no entendimento de ótica, luz,
eletricidade e magnetismo.
Ernst Mach (1838-1916) usou muitas dessas mesmas ferramentas para produzir novos
resultados em Mecânica, Termodinâmica e Física. Esses estudos influenciaram trabalhos
posteriores em relatividade e Física do famoso físico teórico alemão, radicado nos Estados
Unidos, Albert Einstein (1879-1955), conhecido como o pai da Teoria da Relatividade Geral,
um dos pilares – ao lado da Mecânica Quântica – da Física Moderna.
O matemático italiano Guido Fubini (1879-1943) avançou ambos os aspectos, aplicado
e teórico, do cálculo de várias variáveis. Seu trabalho aplicou Matemática à Ciência e à
Engenharia. Provou o método, que leva o seu nome, de avaliar integrais iteradas e utilizou os
resultados em Mecânica e Física.
Como pode ver, a tônica do desenvolvimento do cálculo de múltiplas variáveis foi a busca
de soluções de problemas em Física e Matemática aplicada.

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Anotações

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