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Reencarnação e Judaísmo – Introdução

Prefácio 1

Nossos Sábios dizem que, em "determinados lugares, as palavras da Torá são


pobres (pouco desenvolvidas), mas são ricas (muito elaboradas) em outros
lugares" (Talmud Keritot 14b, no Tosfot).
O assunto da reencarnação é um típico exemplo.
Ele não figura abertamente na parte revelada da Torá (no Talmud e seus
comentários), mas é abordado detalhadamente nos livros esotéricos da Cabalá,
principalmente nos ensinamentos do Arizal e nas obras de seus alunos.
O tema das reencarnações é parte integrante da fé judaica, mas tendo ficado
hermético e não acessível durante séculos, houve até alguns sábios que duvidaram
de sua existência.
Apenas a título de exemplo, o grande mestre Rav Yehuda Ariyê de Modena, Rabino
de Veneza e autor de vários livros, escreve nos seus livros, quatro séculos atrás,
que no início não acreditava em reencarnação, até que o filho de seis meses de
idade da sua vizinha adoeceu e recitou o Shemá Yisrael como um adulto na sua
frente, e então mudou de opinião (Shem HaGuedolim, do Chidá).
Daqui vemos a importância desta obra, agora traduzida para o vernáculo, para a
compreensão do grande público deste tópico complexo.
As almas podem reencarnar para completar uma missão, ter uma oportunidade de
crescimento, ou retificar uma falha de uma vida anterior.
O estudo das migrações das almas é muito fascinante, pois descreve como uma
alma de uma geração anterior volta numa geração posterior, em circunstâncias
específicas, engenhosamente designadas para corrigir um erro do passado.
Por exemplo, conforme os ensinamentos místicos, Mordechai, na Pérsia, é uma
reencarnação do patriarca Jacob, que se curvou para Esaú (e por isso ele corrigiu
este ato, recusando-se a se curvar para Haman, que era a reencarnação de Esaú),
e o feiticeiro Balaão é uma reencarnação de Labão (e por isso ele faleceu com 33
anos, valor numérico da palavra “gal”, o monte apontado por Labão como
testemunho de sua promessa de não prejudicar os judeus, quebrada por Balaão).
A dinâmica das reencarnações pode elucidar muitos episódios intrigantes da
história.
Por exemplo, os mártires falecidos nos autos-de-fé da Inquisição espanhola são
almas que viveram na época do Primeiro Templo e praticaram idolatria (Miteler
Rebe, Shaar Hateshuvá 5,1).
Porém, explicações como estas têm suas limitações e não podem ser usadas para
explicar o Holocausto, pois reencarnações e retificações não poderiam trazer
consigo crimes tão horríveis e uma aniquilação tão brutal e atroz (Sêfer HaSichot
5751, Vol. 1, p. 233).
Apesar de que nem todo sofrimento pode ser esclarecido através da reencarnação,
todavia ela pode ajudar a explicar tragédias individuais, como mortes prematuras,
por acidentes, guerras, etc.
Pode ser que tais almas precisavam retornar apenas por um curto tempo para um
propósito limitado, uma vez que cumpriram grande parte de sua missão em suas
vidas anteriores.
O processo das migrações de alma também pode servir para confortar casais
devastados pela infertilidade, sabendo que numa vida anterior já procriaram e
tiveram uma linda família.
Sendo assim, louvável foi a iniciativa do erudito Rabino Dovber Pinson de
desvendar os mistérios das jornadas da alma e da vida post-mortem.
Esperamos que este estudo também reforce a fé dos leitores, aproximando a era
em que todas as almas retornarão aos seus correspondentes corpos, em breve em
nossos dias.

Por: Y. David Weitman


Prefácio 2

Era uma vez um homem pobre e humilde que ganhava seu minguado sustento em
sua cidadezinha, um pequeno vilarejo de Lodz.
Zalman levava uma vida bem comum e simples, tal como os demais aldeões,
exceto por um aspecto.
Ao longo de muitos meses, Zalman vinha tendo um mesmo sonho repetido no qual
lhe era dito que na distante cidade de Praga, sob a Ponte Charles que levava ao
castelo, existia um grande tesouro, em nada parecido com qualquer outra coisa que
jamais tivesse visto ou imaginado.
Inicialmente Zalman não deu muita importância ao sonho; mas com a intermitência
cada vez mais frequente, noite após noite, daquela visão, ele ficou mais
convencido.
Assim, finalmente ele decidiu empreender a viagem à distante Praga.
Assim que ali chegou, imediatamente começou a perguntar onde ficava a Ponte
Charles.
Apressando seu passo com grande ansiedade e vontade, eis que finalmente chega
ao pé da grandiosa ponte.
Sob a ponte, Zalman viu um homem, idoso e alquebrado, sentado exatamente
naquele lugar que, de forma tão vívida, ele vira em seus sonhos.
Zalman foi falar com aquele homem e pediu-lhe que lhe desse lugar.
O homem recusou e Zalman, perplexo, ofereceu ao homem uma parte do tesouro
que ele viesse a encontrar.
Ao ouvir isto, o homem se pôs a gargalhar: "Eu também sei de um tesouro que
vejo em meus sonhos", disse ele, "tenho sonhado repetidas vezes, por muitos
anos, que numa pequena cidade chamada Lodz, exatamente sob a casa de um
homem chamado Zalman, está enterrado um grande tesouro!".
De repente, tudo ficou bem claro para Zalman.
Ele entendeu que ele viajara para tão longe só para descobrir que o tesouro sempre
estivera ao seu alcance, apenas esperando para ser recuperado.

Quando ouvimos coisas relacionadas a misticismo e a noções etéreas, imaginamos


terras distantes, culturas estrangeiras e lugares exóticos.
Nós não pensamos em procurar e buscar em nossa própria casa.
Nós vagamos e viajamos à procura por aqueles tesouros longínquos, sem perceber
que tudo isto sempre esteve ao nosso alcance.
Neste estudo, procuraremos desvendar alguns dos mais lindos tesouros do
misticismo - o misticismo Judaico.
O conceito da reencarnação está repleto de equívocos e mal interpretações, a
começar exatamente com a origem do conceito que tantos, erroneamente,
acreditam ser uma ideia estranha e não Judaica.
Na verdade, a reencarnação era, e continua sendo, um princípio fundamental na fé
Judaica.
O Rebe de Lubavitch, de abençoada memória, que os seus méritos nos protejam,
certa vez contou a seguinte história:
Um grande Rabi, que tinha milhares dos chassidim mais doutos e devotos, muitos
deles por mérito próprio, certa vez fez amizade com um homem simples e humilde,
iletrado e, sob todos os aspectos, uma pessoa comum, dedicando-lhe grande afeto
e honra.
Isto fez com que muitos dos chassidim ficassem perplexos até que, finalmente, um
chassid, uma pessoa justa e instruída, ousou abordar o Rebe em relação àquela
questão.
O Rebe não respondeu.
Passados alguns dias, ele pediu que o chassid, que era um experiente comerciante
de diamantes, lhe trouxesse alguns diamantes para que os visse.
O chassid comerciante de diamantes atendeu ao pedido formulado, trazendo-lhe
uma coleção das mais puras gemas.
O Rebe pediu ao especialista que falasse sobre cada uma das pedras.
O comerciante exibindo as pedras, dava o valor de cada uma delas. "Esta tem um
valor de 100 rublos; esta outra por volta de 500 rublos," e tirando um diamante do
fundo de seu mostruário, ele diz: "Esta daqui vale 2000 rublos!".
O Rebe, encolhendo os ombros, diz: "Yankel, com o devido respeito, o diamante
que vale 500 rublos parece exatamente, se não ainda mais belo e brilhante, do que
este outro que vale 2000 rublos".
Ao que o comerciante responde: "Rebe, modéstia à parte, para que seja possível
apreciar o verdadeiro valor de um diamante, é preciso que a pessoa seja um
especialista".
Abrindo um largo sorriso, o Rebe diz: "Sim, Yankele, é isso mesmo. E para
verdadeiramente apreciar a qualidade de uma neshamá, de uma alma, a pessoa
também deve ser um especialista!".

Nós olhamos uma pessoa e enxergamos o superficial, o exterior.


No entanto, oculto por detrás do físico existem camadas de espiritualidade.
A alma é mais multifacetada do que o mais precioso dos diamantes, encerrando em
si centenas de encarnações, camadas de realizações e feitos, boas ações e
inspirações.
Cada encarnação fez a sua contribuição à alma, tornando-a cada vez mais elevada,
mais completa do que era antes.
Dentro de cada um de nós existe uma alma mais complexa e sagrada do que
possamos imaginar.

As questões abordadas neste estudo são profundas e intrincadas, e mesmo assim o


meu desejo é o de falar a todas e a cada uma das mentes interessadas e atraídas
por este fascinante e místico conceito.
Para tanto, eu tentei explicar estes complexos assuntos em termos simples e
básicos.
Espero que você venha a encontrar enriquecimento e inspiração nos tesouros que
estão ao seu alcance, as joias místicas que são a nossa herança e o nosso
privilégio.

Por: DovBer Pinson

Introdução

A Torá declara: "Esta é a lei da Torá, um homem...".


Homem e Torá são análogos, pois o homem é semelhante à Torá e a Torá ao
homem.
O homem é uma combinação de corpo e de alma, uma fusão de matéria e espírito.
O homem tem características exteriores, traços físicos, somados à sua
quintessência, alma e espírito, que juntos compõem este organismo único
denominado "homem".
O mesmo acontece com a Torá.
A Torá encerra em si dois aspectos: os componentes revelados, o “Níglê”, que são
aquelas partes da Torá que se referem às ações e feitos do homem, as leis da Torá
e a maneira pela qual a pessoa deveria se conduzir neste mundo físico; e como
parte deste mesmo "corpo", há a Alma da Torá, o “Nistar”, os componentes
interiores da Torá, os aspectos místicos da lei, e os mais profundos aspectos da
Criação.
Ao contemplar e refletir sobre estas partes da Torá, a pessoa começa a conhecer e
a entender a grandiosidade de seu Criador (tanto quanto os humanos sejam
capazes de compreender).
Ademais, através do estudo sobre a grandiosidade de D'us e compreendendo a
vastidão de Seu Ser, nós haveremos de, automaticamente, experimentar um
apropriado temor a D'us e um sentimento de reverência.
Além disso, poderemos compreender, seguindo a nossa contemplação, Quem é que
tememos e por qual razão nós O tememos.
Quando conseguimos adquirir o devido temor e reverência por D'us, podemos
verdadeiramente realizar aquilo que D'us quer.
Tal como diz a Mishná: "Afirme o Meu reino e Eu então lhe ordenarei o que deve
fazer".
Assim, estes dois componentes da sagrada Torá formam uma só Torá unificada,
como um só corpo.
Ademais, ambos foram outorgados ao homem ao mesmo tempo e no mesmo lugar,
no Monte Sinai.
No Sinai ocorreu a revelação da Torá, com ambas as suas características.
Por um lado, D'us outorgou a Torá literal (os Dez Mandamentos, que compreendem
em seu bojo a Torá inteira), que nos diz ao homem não matar, não furtar, a lei
simples, moral e mundana; e também, naquele mesmo instante, ocorreu a mais
elevada revelação da Divindade que a humanidade jamais havia experimentado.
E tal como está na Torá: "o povo de Israel... viu os sons".
A Cabalá explica que a diferença entre dizer que "vimos algo", ou dizer que
"ouvimos algo", é se aquele "algo" ao qual nos referimos está perto ou longe de
nós.
Quando dizemos que vimos um belo quadro, significa que estivemos
suficientemente perto daquela tela para conseguir apreciá-la; no entanto, quando
dizemos ouvimos falar sobre um belo quadro, significa que nunca estivemos
suficientemente perto dele para realmente vê-lo, apenas ouvimos dizer.
Quando falamos de objetos físicos, podemos afirmar que vimos o objeto; no
entanto, quando falamos sobre espiritualidade, nós falamos sobre ela à distância.
Podemos apenas dizer que ouvimos falar dela.
Nós não podemos ver a espiritualidade, podemos apenas falar dela.
Apesar disso, no Monte Sinai, o homem experimentou a espiritualidade com
tamanha proximidade, que foi como se ele a tivesse visto, pois o Sinai foi a
revelação preeminente, máxima e essencial da Divindade ao homem.
Foi naquele momento, quando nós recebemos as percepções místicas das partes
reveladas da Torá, que nós "vimos" o misticismo.
Ambos componentes, a lei e o espírito por trás da lei, são extremamente
importantes, pois se nós apenas tivéssemos a lei - a parte exterior, o corpo - sem a
alma (embora então pudéssemos saber exatamente o que D'us quer que façamos),
estaríamos conectados e permeados com Divindade apenas ao nível de consciência
funcional.
Isto significa que embora as nossas ações estivessem devotadas a D'us, a
Divindade não permearia toda a nossa existência.
As nossas mentes e corações ainda estariam devotados a D'us.
Ainda que D'us queira que o homem se conecte à Divindade em suas ações, o
principal propósito da criação do homem é (como será explicado mais adiante) que
ele deve trazer a Divindade para as coisas mais físicas, e, mais ainda, ele deveria
transformar a realidade física inteira em espiritual.
A Divindade não deveria ser revelada apenas no mundo em geral, mas também em
seu mundo pessoal - em seu corpo.
A sua existência física inteira haverá de se metamorfosear transformando-se num
ser sagrado, não apenas as suas ações e sua mente, mas sim todo o seu ser se
tornará ativamente, intelectualmente e emocionalmente conectado com a
Divindade.
Portanto, é essencial que sejam as dimensões profundas da Torá, as partes da Torá
que tratam abertamente de D'us, que despertem e inspirem a mente e as emoções
da pessoa por D'us.
O grande filósofo e codificador judeu Maimônides (Rambam, 1135-1204), escreve:
"quando o homem estudar corretamente estes aspectos da Torá, ele
automaticamente se sentirá mais íntimo e próximo a D'us, e isto o levará a amar
D'us".
Então, é muito importante estudar o espírito existente por trás da lei, as suas
dimensões profundas e místicas, para despertar o amor da pessoa por seu Criador.
No entanto, inversamente, ter apenas o espírito da lei, as intenções por trás da lei,
sem a lei real, mundana e física, é também espiritualmente insalubre.
Caso não haja uma lei real que diga ao homem que ele não deve furtar ou matar,
então, eventualmente, existe espaço para um completo caos.
Se forem as intenções pessoais do indivíduo que decidem o que é certo e o que é
errado, então a linha que separa o bem do mal começa a ficar borrada.
Muitas pessoas teriam intenções divinas para delitos (até mesmo os mais
hediondos feitos), e muitos fariam o correto sem as intenções divinas.
Não haveria nenhuma definição absoluta do que seja o bem e o mal.

É interessante notar que este conceito (de somente ter o espírito por trás da lei,
sem a real lei) foi na verdade a primeira discórdia em que os judeus se envolveram,
logo depois da outorga da Torá.
A Torá nos dá conta da desavença entre os Israelitas e Moisés.
A briga foi instigada e conduzida por certo homem chamado Corach, famoso por ser
um homem dotado de grande sabedoria9 e riqueza.
Para que possamos entender bem o desacordo, devemos prefaciá-lo com um relato
do Talmud: "O mundo foi criado com a letra "Hei".
A Cabalá explica que a letra "Hei" se compõe de três linhas: duas delas ligadas (a
linha de cima ligada à da direita) e a terceira linha separada das outras duas.
As linhas da direita e a da esquerda são paralelas e terminam num mesmo plano.
As duas linhas que estão ligadas - a linha da direita e a superior - representam no
homem as duas habilidades intimamente associadas: o intelecto do homem, que
pensa (representada pela linha superior), e a sua capacidade de falar, que
materializa os seus pensamentos (representada pela linha da direita).
Esses traços estão intimamente conectados entre si, pois é com o seu intelecto que
a pessoa formula os seus pensamentos, e é com a fala que os pensamentos da
pessoa são transmitidos.
Assim, ambos são empregados para fins intelectuais ou cerebrais.
A linha da esquerda (a linha que não está ligada às outras duas) representa a
capacidade da ação.
Assim como no "Hei", essas duas linhas terminam num mesmo plano.
Isto equivale a dizer que as ações da pessoa (a linha da esquerda) são guiadas pelo
intelecto, pelo cérebro (a linha da direita), ou seja, elas não podem ir para além do
ponto em que o intelecto as levar.
O verdadeiro intelecto é o da Torá, que é uma sabedoria divina.
Portanto, embora a pessoa possa, e deva, elevar-se, deste mundo físico à
santidade tanto quanto lhe seja possível, ainda assim todas as suas ações devem
ser guiadas pela lei da Torá, a linha da direita.
A primeira letra do nome de Corach é um "Kuf", que é bem semelhante à letra
"Hei".
A única diferença é que, na letra "Kuf", a linha que representa o poder da ação (a
linha da esquerda) acaba num plano inferior do que o da linha que representa o
intelecto, a lei da Torá (a linha da direita).
Agora podemos entender o desacordo de Corach com Moisés.
Corach dirigiu-se a Moisés dizendo-lhe: "se o verdadeiro propósito da lei é, de fato,
o espírito que há por trás dela, e em cada mandamento reside um propósito mais
profundo que serve para elevar o físico, então porque é que precisamos da lei?
Por que ter a lei com todas as suas limitações e restrições?
Que não haja leis que obriguem o homem a praticar determinadas ações e leis que
proíbem outras ações.
Que tenhamos apenas o Espírito, as dimensões profundas da lei, a intenção da lei".

Em outras palavras, permita que a linha da ação ultrapasse a linha da lei, desde
que as ações sejam realizadas com as "intenções Divinas".
Permita que o indivíduo escreva o seu próprio conjunto de leis, determinado por
suas intenções.
Porque é que o homem deve ser conduzido por uma lei Divina?
Moisés respondeu a esta reivindicação dizendo: "na qualidade de humanos, nós
devemos lembrar que não passamos de "criaturas", e não "criadores".
Estamos constantemente recebendo, juntando e sendo acionados por estímulos
externos; e, assim, somos inevitavelmente influenciados em nossas decisões.
Não existe a possibilidade de sermos um observador verdadeiro e objetivo da
realidade, de ver as coisas como elas realmente existem; portanto, qualquer coisa
que nós, na qualidade de humanos, façamos, será e estará sempre justificada aos
nossos olhos.”

(Os piores assassinos na história sustentam uma espécie de autojustificativa para


os seus delitos; por exemplo, eles acham e sentem que estavam fazendo algo
essencialmente bom, para um bem maior da sociedade, por fins religiosos e coisas
assim.)
É por isso que devemos ter uma lei Divina - as partes reveladas da Torá, as partes
da Torá que instruem o homem quanto ao que ele pode e o que não pode fazer.
Sem ela, vem o caos. "A estrada que leva ao inferno é coberta de boas intenções".
Boas intenções sem uma lei conduzem à anarquia.

A partir disto, podemos entender os perigos do aprendizado do misticismo sem se


estar familiarizado e baseado na lei real.
Podemos observar exemplos disto na própria história do povo judeu.
Vemos, em vários pontos da história, homens que convenceram a si próprios e
àqueles ao seu redor que estavam acima do bem e do mal.
Alegavam eles que, enquanto a maioria das pessoas são capazes de apenas elevar
o físico do âmago da Lei Judaica, eles tinham a distinguida capacidade de elevar até
mesmo os mais baixos e os piores atos e ações.
Essas pessoas não apenas acreditavam ser capazes disto tudo, mas também de
serem os responsáveis pela elevação do mal e da impureza para o resto do povo.
Eles se declaravam como o Messias e diziam que trariam a redenção por meio da
elevação da impureza, por meio da transgressão da lei com intenções Divinas.
Essas pessoas causaram enormes infortúnios e desgraças às pessoas ao seu redor
e à nação judia em geral, o que acarretou grande confusão espiritual e trevas.
Como é que a pessoa realiza uma mitsvá usando apenas o místico e ignorando a
própria lei?
Para entender isto, apresento um exemplo: a mitsvá de "amar o seu próximo como
a si mesmo".
A pessoa que estuda as dimensões profundas da mitsvá aprende que o seu
significado é que, aquela união com o seu semelhante neste mundo, provoca
reações nas alturas e exerce uma influência direta nos mundos espirituais.
O significado traduzido disto é que, no nível da Shechiná donde todas as almas
provêm, existe uma unificação provocada pelo amor de uma pessoa por seu
semelhante.
(Essas unificações são muito necessárias, pois a Shechiná é um intermediário entre
os mundos, superior e inferior. Ela recebe a sua Santidade de D'us e a transmite
para baixo. A Santidade somente residirá naquilo que estiver unificado e, assim, é
essencial que a Shechiná seja completa.)
Podemos considerar a interpretação mais profunda desta mitsvá, a que trata do
amor ao próximo, e traduzi-la em duas reações distintas.
Uma é a maneira correta, a de reagir entendendo que por a mitsvá não ter apenas
um efeito neste mundo físico inferior, mas por ser uma mitsvá assim tão suprema,
ela também afeta os mundos superiores e, assim sendo, a mitsvá deve ser
realizada com muito mais exaltação e com maior entusiasmo.
Pois quando a pessoa compreende o significado profundo da mitsvá, ela glorifica o
próprio ato físico.
O simples ato de bondade se torna um feito elevado e espiritual.
No entanto, a outra reação que a pessoa pode ter, a reação errada, levará a pessoa
a dizer: "Já que a dimensão profunda da mitsvá é a unificação do espiritual nos
mundos superiores, por que é que eu devo cumprir o mandamento físico, e com
isto afetar o espiritual? Eu irei diretamente ao espiritual; e tentarei unificar o nível
da Shechiná com todos os tipos de intenções e de meditações e eliminarei o ato
físico e mundano de ajudar e amar outrem".

Quando alguém aprende misticismo e reage desta maneira, isto acaba se tornado
autodestrutivo e é o início de sua falência espiritual.
É por isso que os sábios do Talmud declaram que: "Um professor pode mostrar a
um estudante os conhecimentos profundos da Torá somente se aquele estudante
for um verdadeiro ser humano temente a D'us".
Ademais, à medida que as gerações regridem espiritualmente, os rabinos
declararam que a pessoa não deveria estudar as dimensões místicas da Torá até
que ela chegue à idade de 40 anos.
Isto significa que é somente depois de ter alcançado a maturidade física dos 40
anos de idade, e a maturidade intelectual dos 40, que a pessoa pode estudar a
Cabalá, os aspectos e percepções místicos da Torá, pois é somente então que o
estudo exercerá o efeito apropriado sobre o estudante, o que levará a uma reação
apropriada e positiva.
Assim, podemos ver ao longo de nossa história, que muitos dos grandes místicos
eram também grandes autoridades em Halachá.
Rabi Akiva foi o maior sábio do Talmud.
O Talmud estabelece que, onde quer que haja discórdia entre Rabi Akiva e os seus
contemporâneos, a lei será sempre segundo Rabi Akiva.
Portanto, ele era capaz de aprender as partes esotéricas da Torá sem ser afetado
no sentido negativo.
O Talmud conta uma história.
Havia certa vez quatro sábios talmúdicos que optaram por "Entrar no Pardes" (o
pomar, mais exatamente, os domínios místicos) para estudar as percepções ocultas
da Torá.
Três dos quatro não estavam totalmente preparados para tais revelações.
Um deles ficou tão transtornado com a experiência mística que jamais foi realmente
capaz de "descer" de volta para este mundo físico e mundano.
A sua mente ficou "presa" em algum lugar lá em cima.
Outro sábio ficou tão completamente estupefato que ele, de fato, transcendeu a
sua existência física e morreu em êxtase espiritual.
Outro ainda ficou tão literalmente mistificado pela experiência que acabou se
tornando um apóstata.
Somente Rabi Akiva, que era uma verdadeira sumidade Haláchica, uma pessoa que
entendia o propósito intrínseco da Torá, foi capaz de "entrar e sair em paz".
Visto ele estar bem fincado no mundo físico, ele teve a capacidade de estudar o
esotérico, os conceitos mais elevados da Torá e, imediatamente depois, praticar as
mais simples e mundanas leis.

A verdadeira grandiosidade chega com a descida da inspiração para dentro do


cotidiano da vida.
A pessoa pode ser um artista de grande inspiração e técnica, mas ainda assim sem
a aquisição do pincel, tela e tintas adequadas, o seu talento não passa de uma
ilusão e jamais se tornará grandiosa.
O potencial para o sucesso, para que seja plenamente realizado, deve ser
trabalhado no mundano.
A experiência mística, sem a aplicação prática da halachá para materializá-la, é
meramente potencial.
Quando o místico se combina com o prático, a grandiosidade é alcançada.
Os pré-requisitos (anteriormente mencionados) para o aprendizado do misticismo
eram particularmente necessários antigamente, quando a maioria das pessoas era
capaz de receber e encontrar inspiração a partir do estudo das próprias leis da
sagrada Torá.
Elas estavam mais espiritualmente sintonizadas.
No entanto, com o passar dos tempos, e porque as gerações se tornaram cada vez
mais indiferentes à espiritualidade e afastadas da santidade, para a maioria o
estudo das leis da Torá já não era uma fonte suficiente de inspiração espiritual.
Uma analogia a ser traçada para isto é a de uma criança doente.
Enquanto a criança estava saudável, os alimentos comuns que ela ingeria podiam
alimentá-la e sustentá-la; mas quando a criança adoeceu, ela precisou de algo
"extra" para revitalizá-la.
O mesmo se dá com o gênero humano em geral.
Quando as pessoas estão espiritualmente "bem" e "saudáveis", elas podem buscar
inspiração nas leis da Torá; mas quando a humanidade está espiritualmente
enferma, as pessoas precisam de algo extra para rejuvenescer, e estes são os
tesouros intrínsecos da Torá, os componentes místicos da lei.
Assim como o sagrado mestre, Arizal (Rabi Yitschac Luria, 1534-1572) declarou:
"nesta época e nestes dias, não apenas é permitido, como também é uma mitsvá,
ensinar e revelar as partes profundas da Torá".
Isto é particularmente verdadeiro nos dias de hoje, quando observamos uma
enorme fome por espiritualidade, uma busca para encontrar uma explicação mais
profunda para a vida, e para tanto, muitos judeus se voltam para outras fontes
diferentes de suas próprias (religiões orientais, movimentos modernos, e coisas
assim).
Assim sendo, cabe a nós tratarmos daquelas questões cuja origem encontramos no
esotérico, no místico.

Neste estudo, estarei discutindo o conceito da reencarnação e tentarei esclarecer


aquilo sobre o que se tem falado detalhadamente nos livros de misticismo da
Cabalá.

O primeiro livro cabalístico publicado e disponibilizado ao público foi o livro da


"Iluminação".
Em Hebraico ele é conhecido como o Bahir.
(O Bahir também é chamado de "Midrash do Rabi Nechunia ben Hakaná", uma vez
que alguns cabalistas atribuem o Bahir a este sábio do primeiro século e a sua
escola de pensamento.)

Cerca de um século depois, um famoso cabalista chamado Rabi Moshe de Leon,


publicou o livro do Zôhar, "O Livro do Esplendor", que vem a ser a compilação dos
ensinamentos de Rabi Shimon Bar Yochai.
(Rabi Shimon Bar Yochai, conhecido como o Rashbi, foi um dos discípulos de Rabi
Akiva, embora com Rabi Shimon uma nova escola de pensamento surgiu.)
O Talmud nos conta uma história do Rashbi se escondendo dos oficiais Romanos
em uma caverna.
Ele denunciara as suas maneiras de governar e, por isso, foi sentenciado à pena de
morte.
Ao longo dos 13 anos que passou na caverna, Rabi Shimon se dedicou a todas as
formas de meditação esotérica e preces até que teve o merecimento de receber a
revelação mística do profeta Elias.
Em seguida, Elias ensinou-lhe os mais profundos mistérios do mundo, o que mais
tarde se tornou a principal estrutura do Zôhar.
Quando Rabi Shimon saiu da caverna (cerca 138 E.C.), ele fundou a sua escola de
misticismos e, 70 anos depois, os seus discípulos puseram no papel os seus
principais ensinamentos, compondo o sagrado Zôhar.
Esta escola sobreviveu por muitos anos depois do falecimento do Rashbi, período
durante o qual algumas pequenas adições foram feitas.
Por mais de 1000 anos estes ensinamentos continuaram principalmente sob a
forma de notas.
Ademais, tudo isto era de uso restrito a sociedades secretas de cabalistas, até que,
finalmente, chegou às mãos de um homem que foi um dos mais proeminentes
místicos de seu tempo, Rabi Moshe De Leon.
Ele editou e publicou o Zôhar em alguma data dos anos 1290.
Os primeiros livros cabalísticos mencionando o conceito da reencarnação são o
Bahir e o Zôhar.
O texto sobre reencarnação mais detalhado é o do mestre místico Rabi Chayim Vital
(1543-1620), que foi o principal discípulo do proeminente místico, Rabi Yitschac
Luria (conhecido como o Sagrado Arizal).
O livro que ele escreveu intitula-se Sefer "Shaar HaGuilgulirn" - "O Portão das
Reencarnações" (Introdução: Parte II).
É a partir deste elevado texto que eu baseio este estudo.

Segundo o Bahir, parece que o conceito da reencarnação da alma se dá apenas de


um ser humano que morreu para outro ser humano.
O autor do Bahir conta uma parábola para o conceito da reencarnação:
Era uma vez um rei que tinha muitos servos leais; e como ele muito admirava os
seus servos, ele os vestiu com as melhores roupas possíveis.
Acontece que aqueles serventes não tiveram um adequado comportamento,
sujando as suas vestes.
O rei ficou muito bravo com eles; demitiu-os e tirou deles as roupas dadas.
Lavou-as bem e se pôs a procurar novos servos.
Quando encontrou novos servos, o rei vestiu-os com aquelas mesmas roupas (que
estavam limpas e pareciam novas).
Mesmo sem o rei saber ainda se aqueles novos servos teriam um comportamento
adequado ou não, mesmo assim ele acreditava que eles seriam bons.
Os servos nesta parábola são seres humanos que foram criados para servir a D'us,
o Mestre do Universo.
As vestes são uma alusão à alma do homem.
As Roupas sujas aludem a transgressões.
Assim, parece que está sugerido a partir desta parábola que a alma de uma pessoa
somente pode ser reencarnada - depois de passar por uma adequada lavagem - em
outro servo, outro ser humano.
No entanto, em todos os demais textos místicos, e especialmente nos textos de
Rabi Chayim Vital, fala-se abertamente sobre reencarnações de almas humanas
para níveis mais baixos de criaturas, como será explicado mais adiante.
Rabi Chayim Vital ilustra em seu livro que o conceito de reencarnação não é apenas
um ensinamento esotérico cuja principal fonte é a Cabalá, nas partes reveladas da
Torá aparecem alusões a esta teoria; por exemplo, quando o Rei David, em
Salmos, diz: "Por favor, D'us, protege meu espírito da espada, minha alma, do
cão".
Rabi Chayim Vital explica que o Rei David alude à ideia de reencarnação.
O Rei David está pedindo a D'us que proteja a sua alma de ser reencarnada em um
cão.
Este é o conceito da reencarnação da espécie humana em um nível inferior da
criação, descendo ao reino animal.
Ademais, segundo os ensinamentos do Sagrado Arizal, há também a noção de
reencarnação de almas humanas ao nível de vegetação e até mesmo descendo ao
nível do inanimado, do inorgânico.
Como diz o Profeta: "Uma pedra das paredes gritará, e um pedaço de madeira da
árvore chorará".
Este versículo, diz Reb Chayim, também alude ao conceito de reencarnação: uma
alma humana que agora é reencarnada em uma pedra ou em um pedaço de
madeira e se lamenta pela dor que sofre, a de ser uma alma humana agora presa
no corpo de uma pedra.
É evidente que estes versículos das escrituras reveladas da Torá não são, de fato,
"provas" da reencarnação; ou melhor, trata-se de indícios e alusões.
Na verdade, nós não precisamos de qualquer prova sobre a reencarnação da parte
revelada da Torá.
O próprio nome "Cabalá", significa "receber", implicando em que a Cabalá foi
recebida de uma geração à seguinte, remontando à outorga da Torá no Monte
Sinai, há cerca de 3300 anos, quando D'us deu e revelou ao homem tanto os
elementos mundanos como os místicos da Torá.
E ali, D'us revelou ao homem todos os aspectos ocultos na Torá, entre os quais um
ensinamento essencial da Cabalá, o conceito da reencarnação, sobre o qual não há
desacordos em termos de sua validade nas tradições cabalísticas.
A reencarnação foi considerada como um fato bem definido ao longo de nossa
história.
Principalmente nas tradições da Cabalá.
Ela era conhecida em todas as sociedades secretas aos grupos de pessoas que,
juntas, estudavam o esotérico.
Josephus (o famoso historiador judaico, 37-93 E.C.) escreve sobre uma crença
aceita por muitos judeus religiosos - o conceito da reencarnação.
Cito: "Não lembre a todos os espíritos puros que estão em conformidade ao
divino... e no decorrer do tempo, eles são novamente enviados para baixo para
habitar corpos sem pecado''.
Ademais, mesmo entre os gentis, este conceito era bem conhecido.
Muitos dos antigos filósofos Gregos, que precederam Aristóteles, acreditavam na
ideia da reencarnação.
Por exemplo, o filósofo e matemático Grego, Pitágoras (582-507 A.E.C.), falava das
vidas anteriores que tinha vivido antes de descer ao corpo de Pitágoras.
O maior dos filósofos Gregos, Platão (427-347 A.E.C.), escreve" não apenas sobre o
conceito da reencarnação das almas entre um ser humano e o próximo, mas
também escreve sobre a transmigração de almas de humanos para o reino animal.
No entanto, estes conceitos místicos da Cabalá não eram de conhecimento geral,
ensinados a qualquer estudante que vinha estudar nas academias talmúdicas.
De fato, a Cabalá não era, normalmente, ensinada nestas academias; ao invés, era
passada, em segredo, de uma pessoa para outra, de geração em geração, estudada
somente em certas sociedades secretas de cabalistas.
Portanto, subentende-se que, mesmo entre os grandes eruditos talmúdicos e
rabinos, ao longo das gerações, estes ensinamentos não eram estudados, e nem
mesmo deles se ouvia falar.
Havia alguns grandes pensadores judeus que alegavam que esta questão da
reencarnação não é, em absoluto, judaica.
(Apesar disto, muitos dos líderes de Israel receberam esta Cabalá e argumentaram
tratar-se realmente de um conceito judaico.)

Os sábios que não receberam esta Cabalá de seus mestres, argumentavam contra
a reencarnação, lançando mão de argumentos lógicos.
Mas já estabelecemos que a razão para acreditarmos na reencarnação não é por
termos encontrado boas razões para tanto, mas sim por ter sido isto que D'us nos
revelou na Cabalá, cuja origem remonta ao Monte Sinai.
Daí, qualquer argumento lógico, a favor ou contra este conceito, não tem a menor
validade, pois não é com a nossa inteligência ou com a nossa intuição que
estabelecemos esta crença, mas sim por meio da revelação.
O grande mestre e filósofo, Rabi Saadia Gaon (882-942), escreve em seu trabalho
filosófico monumental que existem alguns poucos entre nosso povo que acreditam
neste conceito de reencarnação e argumentam intelectualmente por este conceito.
É importante notar que estas pessoas acreditam neste conceito de reencarnação
não por tê-lo recebido em sua Cabalá (significando que faziam parte da sociedade
secreta que estudava a Cabalá), mas acreditavam nele somente por - e através de
- razões intelectuais, e é sobre isso que Rabi Saadia argumenta.
No entanto, se Rabi Saadia conhecesse estes ensinamentos místicos da Cabalá - no
nosso caso, a tradição da reencarnação - ele teria mais definitivamente concordado
com todos esses ensinamentos.
Tal como está dito, em relação ao grande codificador e filósofo judeu, o Rambam,
que perto do fim de sua vida encontrou estes ensinamentos secretos da Cabalá, e
declarou que se tivesse sabido antes sobre estes ensinamentos, ele teria se
retratado de muitos de seus ensinamentos prévios.
Há aqueles que argumentam em favor da reencarnação, sustentando que devemos
dizer que existem reencarnações, pois caso não existissem, como é que pode um
D'us justo castigar crianças inocentes, crianças que nem sequer tiveram a
oportunidade de pecar, aquelas que, nas palavras do Talmud, jamais sequer
"respiraram o hálito do pecado".
Depararmo-nos com jovens crianças inocentes sofrendo terríveis enfermidades e
mortes prematuras, e há aqueles que chegam à conclusão de que estas crianças
estão sendo punidas por algo que tenham feito em suas vidas anteriores (este
argumento é um dos mais populares para a reencarnação, tal como explicarei mais
adiante neste estudo).

Em relação a este raciocínio, Rabi Saadia argumenta que existem muitas respostas
para esta questão.
Em uma delas podemos dizer que D'us pune o homem neste mundo físico para que
ele possa receber uma recompensa maior no Mundo Vindouro.
Além disso, ele continua, como é possível que a reencarnação responda por aquilo
que aconteceu nas primeiras gerações da humanidade - quando as almas desceram
para este mundo pela primeira vez?
Devemos dizer que nas primeiras gerações das pessoas neste mundo houve
pessoas jovens e inocentes que sofreram, e a reencarnação não seria uma boa
resposta para aqueles cenários.
(Assim, precisamos da explicação - como ele escreveu anteriormente de que D'us
pune o homem neste mundo, para que este receba um bem maior no Mundo
Vindouro.
Esta, segundo ele, é uma explicação válida, que pode ser aplicada em qualquer
lugar e a qualquer tempo.
A questão do sofrimento do inocente será discutida em mais detalhe no capítulo 7.)

Outro argumento registrado por Rabi Saadia (apresentado como prova por aqueles
que acreditam na reencarnação), vem do fato de que muitos seres humanos têm
qualidades e traços característicos de diversos animais.
Por exemplo, há pessoas que são passivas e submissas como cordeiros, ou leves
como pássaros.
A partir destas características, eles afirmam que esses atributos animalescos
provêm das reencarnações anteriores da alma, quando a alma esteve antes no
corpo de um pássaro ou de uma ovelha, e ora reencarnada num corpo humano.
É por isso que as pessoas têm estes atributos animalescos.
Rabi Saadia discute estas provas alegando que esta conclusão é um paradoxo, pois
segundo eles, originalmente, a alma era uma alma humana; assim, quando pela
primeira vez desceu a este mundo, desceu em um corpo humano.
Depois da morte do primeiro corpo, a alma foi reencarnada no mundo animal;
como, por exemplo, numa ovelha.
Quando esta alma humana está num corpo de uma ovelha, dizem eles que o corpo
(que é de um animal) afetou a alma (a alma humana) e transformou a alma
humana (com as suas características humanas) numa alma de um animal (com os
atributos de um animal).
Significando que o corpo sobrepuja a alma, a matéria sobre o espírito.
Quando esta alma entra no segundo corpo humano, eles dizem que a alma (que
agora tem os traços e características de um animal) afeta o corpo humano
levando-o a agir como um animal, a ser passivo, e coisas assim.
Segundo eles, quem sobrepuja ou encobre quem: o corpo à alma, ou a alma ao
corpo?
Ademais, se o que eles dizem é verdade, então segundo eles a alma não tem
qualquer caráter verdadeiro e estável.
Ela não tem uma personalidade firme e inabalável; ela é facilmente mutável (outras
discussões mais detalhadas sobre a reencarnação em animais serão apresentadas
no capítulo 5).
Consequentemente, Rabi Saadia contesta e discute todas as provas deles.
No decorrer dos tempos, existiram outros sábios da Torá que, por diversas razões,
debateram o conceito da reencarnação.
Eu trarei à tona os seus argumentos; e, ao longo deste estudo, eu tentarei
responder a todas as suas perguntas.
Não obstante, aquilo que foi previamente mencionado - qual seja, a crença na
reencarnação - não está baseado no intelecto, na inteligência, mas sim na
revelação.
Rabi Shlomo ben Aderet (1235-1310) escreve em sua famosa responsa que
existem algumas razões básicas que levam as pessoas a refutar a reencarnação.
Um dos dilemas que surge em relação à reencarnação diz respeito ao castigo e à
recompensa da alma.
Se a alma tem múltiplas reencarnações, parece que algumas merecerão ser
recompensadas, enquanto que outras serão castigadas.
Quando, finalmente a alma é elevada e retorna à sua origem, o que haverá de
receber?
Castigo ou recompensa?
Parece injusto que a alma que existiu numa pessoa justa seja punida por seus atos
numa encarnação posterior, e vice-versa.
Outro dilema levantado na responsa (que também é uma das mais comuns
confusões existentes em relação à reencarnação) diz respeito à ressurreição dos
mortos.
Se uma alma tem múltiplas reencarnações, e em cada vez o corpo que a acolhe é
uma pessoa completamente nova, qual dessas pessoas, ou corpos, será aquele que
ressuscita?
Um dos sábios e filósofos judeu mais proeminente, Rabi Joseph Albo (1380-1435),
em seu tratado monumental, argumenta contra a reencarnação.
Segundo a sua filosofia, o propósito da descida da alma para este mundo físico é
para que ela experimente a liberdade de escolha, o livre arbítrio.
A única criatura de qualquer um dos mundos (tanto o físico como o espiritual) que
tem a oportunidade de escolher seu próprio destino é o gênero humano; portanto,
a alma desce a este mundo.
Qual é, então, o propósito da reencarnação?
A primeira descida da alma já realizou esta experiência, a do livre arbítrio.
O que é que a alma ganharia com uma nova descida?
Não é verdade que a alma já realizara o seu propósito?
Rabi Don Yitschac Abarbanel (1437-1508) cita alguns argumentos comuns
contrários à reencarnação, um dos quais diz respeito à "forma" da alma, seu
exclusivo formato.
Cada alma tem o seu próprio "recipiente", o seu corpo particular no qual ela cabe.
Como é, então, que uma alma pode, ao longo de suas múltiplas encarnações,
animar diferentes corpos?
Outra razão que as pessoas citam como um argumento é que se a maioria das
pessoas são almas reencarnadas, por que uma grande quantidade delas não se
lembra de suas vidas anteriores?
São estas as perguntas habitualmente mais formuladas no que tange a
reencarnação.
À medida que avançarmos nas páginas deste estudo, eu me esforçarei em resolver
essas dificuldades.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 1

A Alma e Sua Eternidade

Antes de iniciarmos uma análise mais profunda da reencarnação, devemos abordar


a questão da alma, o que está sendo reencarnado.
Devemos, primeiramente, entender plenamente o que é a alma - ou almas - do
homem que é reencarnada.
Quando uma pessoa olha para si mesma e quer examinar a si mesma, ela
pergunta: "Quem sou eu?" e "O que sou eu?".
O instinto inicial e natural é que a pessoa aponte e olhe para o seu próprio corpo
físico.
No entanto, quando a pessoa começa a contemplar o seu corpo físico, ela começa a
pensar qual das partes de seu corpo é, inequivocamente, o seu "eu" verdadeiro.
Se uma pessoa perdesse uma das partes de seu corpo, tal como, por exemplo, um
pé, isto significaria que ela deixaria de ser um ser completo?
Deixaria ela de ser essencialmente a mesma pessoa que era antes?
Antigamente havia quem pensasse que o seu corpo era o seu próprio ser e, caso
ele viesse a perder algum órgão, ele se tornaria um ser incompleto.
Mas com a chegada da medicina moderna, órgãos que venham a faltar podem ser
substituídos por aqueles pertencentes a outra pessoa.
Será que isto significa que ela possa se tornar aquela pessoa de quem veio aquele
órgão?
Hoje em dia, a pessoa pode até, através de um transplante, receber o coração de
outra pessoa; um órgão vital que imaginamos ser algo totalmente pessoal ou
individual e que quase chega a ter sua própria personalidade.
Quando o coração que bate no peito de alguém já pertencera antes a outra pessoa,
quem é exatamente esta pessoa?
Será que este coração agora define quem ela é?
Será que ela é agora outra pessoa?
Nós entendemos que perder um órgão ou receber um órgão de alguém não muda a
essência daquilo que a pessoa é.
Podemos assim chegar à conclusão de que o verdadeiro "você" é algo infinitamente
mais complexo e etéreo do que o corpo físico.
A isto chamamos de "alma".
Cada pessoa possui sua própria e distinta alma, ou seja, suas memórias, seus
traços de personalidade, qualidades distintas, e coisas assim.
Quando falamos de alma, não significa que estamos abordando apenas um dos
aspectos da alma - das emoções da pessoa, mas não de sua inteligência e intelecto,
ou de seu intelecto e inteligência e não de suas emoções - falamos de uma alma
completa, uma personalidade singular, única, com todas as suas complexidades,
uma maneira distinta de pensar, de sentir e de desfrutar da vida.
A totalidade do ser da pessoa.
O primeiro Rebe do Chabad, Rabi Shneur Zalman de Liadi (1745-1813) brincava,
certa vez, com o seu neto Menachem Mendel (1789-1866).
(Essa criança veio a ser, mais tarde, um dos Rebes do Chabad, o terceiro na
dinastia Chabad.)
Enquanto o Rebe brincava com a criança, perguntou-lhe: "Cadê o Zeide?"
(No dialeto Iídiche, "zeide" é "avô").
A criança respondeu-lhe apontando o dedo ao seu Zeide.
O Rebe pergunta-lhe: "Para onde exatamente você está apontando o seu dedo? Se
você estiver apontando para os meus pés, você deve saber que os meus pés não
são o seu Zeide; são apenas os pés do Zeide. Se você está apontando para o meu
braço, saiba então que os meus braços não são o Zeide; eles são apenas os braços
do Zeide. E se você estiver apontando para a minha cabeça, saiba que se trata da
cabeça do Zeide, mas não o Zeide. E mesmo se você estiver apontando para todo o
meu corpo, saiba você que o corpo é apenas o corpo do Zeide. A minha pergunta é:
'Onde está o Zeide?' Quem é que diz aos meus pés para começar a andar, meus
braços para acenar e o meu cérebro para pensar? Onde é que eu estou?".
Passado alguns instantes, a criança sai da sala.
Ao retornar ao lugar, ela se pôs a chamar em voz alta: "Zeide, Zeide", e quando o
seu avô se virou para ela, ele sorriu para o neto e disse: "Aqui está o Zeide".
Este indivisível ser é o Zeide. A totalidade do Zeide é o Zeide".
Na história da filosofia muitas foram as teorias que apareceram quanto à alma,
desde as ideias mais mirabolantes ou nobres, às mais mundanas.
Quando as pessoas falam acerca da alma, elas se referem ao caráter predominante
do homem, a força propulsora na vida de um ser humano, "o verdadeiro ser".
Os antigos Gregos, em geral (que denominavam a alma como "psique") e, mais
especificamente, um dos maiores filósofos da Grécia antiga, Anaxágoras (500-428
A.E.C.), acreditava que o "Nexo", razão, intelecto, inteligência é o verdadeiro ser do
homem.
(Segundo a sua convicção, o Nexo é o controlador e o causador do que acontece
em todo o universo, e não só do homem.) Platão - assim como o seu discípulo
Aristóteles (384-322 A.E.C.), acreditava que a alma suprema é a alma humana, "a
alma racional".
Platão, na obra "A República"1, descreve a alma como sendo composta de três
divisões, às quais denomina: razão (ou raciocínio), espírito e apetite.
A primeira, a razão, é a conscientização sobre um objetivo ou um valor.
A segunda alma, o espírito, é o ímpeto pelas ações.
A última, o apetite, é o desejo de obter objetos para o seu corpo físico.
No entanto, a essência da alma é a parte racional.
Portanto, segundo ele, a essência do homem está em sua capacidade de raciocinar.
O homem é um "animal racional", um animal consciente.
Este é o seu ser predominante.
Apesar disso, há quem argumente que as emoções (sentimentos) é que são a
essência predominante do homem.
O fundador da filosofia positiva, que mais tarde se tornou o fundador da Religião da
Humanidade, o filósofo francês Auguste Comte (1798-2857), em sua revolta contra
o intelecto sobre a emoção, discute a supremacia dos sentimentos do amor sobre o
intelecto puro natural.
"Então o Amor é o nosso princípio, a Ordem a nossa base e o Progresso o nosso
fim".
Daí, a essência do homem são os seus sentimentos.
O filósofo Alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), argumenta dizendo que nem
o intelecto e nem as emoções são as forças predominantes da vida, mas sim o seu
desejo subconsciente é que é.
O homem é um animal metafísico, uma criatura cuja vontade é a sua força.
Na filosofia medieval, há uma discussão entre Aristostelianos e Augustinianos no
que diz respeito a qual dos dois é a essência da alma, o intelecto ou a vontade.
René Descartes (1596-1650), dizia que a vontade é suprema.
O homem pode ter uma compreensão finita, mas uma vontade infinita.
Outros alegam que o intelecto tem supremacia sobre a vontade.
Blaise Pascal (1623-1662) diz que a compreensão se dá através do coração, e que
a verdade é conhecida por meio do coração.
Portanto, as emoções são supremas.

Assim, como vimos, podemos encontrar muitas diferentes teorias que se referem à
alma.
Segundo a visão da Torá, cada um desses filósofos toca em um pedacinho da
verdade; todos eles tentam entender a verdade inteira, mas na verdade apenas
alcançam uma parte dela.
Em cada um de nós existem, a rigor, três almas, três níveis de consciência, cada
um mais elevado que o seguinte.
E qual destas três almas é a que domina a existência da pessoa é algo que é
decidido pelo indivíduo.
E isto depende em qual nível espiritual a pessoa se encontra.

O mais baixo nível da alma é o animalesco, a alma que anima e dá vida ao corpo
inanimado, a alma que transforma um corpo sem vida em um organismo vivo.
Esta alma é a força vital do corpo.
A Torá diz: "porque o sangue é a alma".
A Cabalá explica que isto quer dizer que a alma está no sangue.
Durante os primórdios dos Gueonim (séculos V e VI da E.C.), os argumentos dos
Caraítas foram renovados.
Os Caraítas compunham um grupo de judeus que não acreditavam na Lei Oral, na
tradição oral da Torá, o Talmud, o Midrash, e assim por diante.
Como eles não aceitavam as interpretações rabínicas, eles tomavam, literalmente,
muitas das metáforas e alusões da Bíblia.
Um de seus líderes foi um homem chamado Anon.
Ele argumentava que o versículo da Bíblia acima citado significa, literalmente, que
a alma do homem é o seu sangue.
O sangue é a alma (tal como era a crença de alguns entre os Gregos antigos, os
Estóicos, etc.).
Rabi Saadia Gaon, que era um dos mais ferrenhos opositores à forma de
pensamento deles, escreve dizendo que encontramos muito na Torá vezes em que
se menciona um conceito a partir de sua localização; por exemplo, a Torá chama a
"fala" de "a língua", por estar a língua no local onde se encontra a fala.
Assim, Rabi Saadia argumenta que a Torá chama a alma de sangue porque é no
sangue que a alma reside.
O nível mais inferior da alma é chamado de Nefesh HaBahamit, a alma animal.
O nível desta alma é explicado como "o físico do espiritual",
O espiritual que pode animar o físico.
Esta alma conecta com o espiritual - ou seja, o aspecto mais refinado - do físico,
que é o sangue e, por meio deste, anima o corpo físico.
Neste estado da alma, um ser humano é semelhante a um animal, pois tudo aquilo
que deseja e tudo aquilo que faz é apenas para um ganho pessoal, e para a sua
própria sobrevivência pessoal.
Tudo nas dimensões espirituais tem uma divisão de dez, assim também a alma -
ela contém dez estados de consciência, correspondendo às dez Sefirot Divinas (por
meio dessas Sefirot, D'us sustenta todos os mundos).
Essas dez são, por sua vez, subdivididas em três compartimentos: intelecto,
emoção e ação.
As três primeiras são intelecto: Chochmá, sabedoria - pensamentos intuitivos; Biná,
compreensão - entendimento; e Daat, conhecimento - internalização dos
pensamentos.
As três seguintes dizem respeitos aos atributos das emoções: Chessed, bondade -
benevolência; Guevurá, força - poder, prevalência; e Tiferet, beleza - compaixão
que é uma síntese dos dois primeiros atributos emocionais.
As três seguintes são os atributos da ação, ações que partem do intelecto ou das
emoções: Netsach, resistência - vitória, para que uma pessoa vença todos os
obstáculos que venham a surgir em seu caminho, perseverar, atravessar e seguir
adiante; Hod, esplendor - submeter, tornar humilde o ser para sobrepujar, para
superar; passar por baixo do problema ao invés de atravessá-lo.
Yessod, a conexão e a fundação entre a pessoa e aquilo que ela fará; Malchut,
majestade ou soberania, esta está em separado das nove anteriores.
Pois Malchut é um estado de ser, e não uma atividade.
Trata-se de uma conscientização de realeza.
Desta forma, todas as ações são manifestadas de forma gloriosa.
Na alma Animal, cujo objetivo primordial e ambição é o de sustentar sua própria
existência, a essência da alma são as emoções.
Ela está apenas preocupada com o que sentirá e como aquilo a afetará.
Tudo gira em torno dos sentimentos subjetivos da própria pessoa.
Assim, a essência desta alma é a emoção; e, portanto, o propósito do intelecto
nesta alma é de apenas e tão somente servir as emoções.
A pessoa usa o intelecto para encontrar e criar novos meios de conseguir prazer.
Embora no Talmud esta alma animal seja chamada de "inclinação do mal " - "Yetser
HaRá" - a verdade é que não se trata de uma inclinação malévola, má ou negativa.
Por sua própria natureza, trata-se de uma inclinação, uma propensão, que quer
sustentar, e talvez dar prazer, à sua própria existência.
É o que chamamos de "instintos de sobrevivência".
O Midrash diz, sobre o versículo em Gênesis: "e eis que era bom", que isto se
refere à inclinação do bem, e "e eis que era muito bom" se refere à inclinação do
mal.
A pergunta a ser formulada é: por que é a inclinação do mal "muito bom"?
E o Midrash responde: não fosse pela inclinação do mal, ninguém haveria de
construir uma casa, se casar, ter filhos, ou fazer negócios.
Daí vemos claramente qual é o papel desta inclinação.
Não é malévolo, tal como num instinto nocivo, mas sim malévolo no sentido
egoístico e autocentrado.
Se o homem não cuidasse de si mesmo, ele não funcionaria como um saudável
membro da sociedade.
Embora todos esses movimentos essenciais sejam coisas às quais uma pessoa está
obrigada a fazer segundo a Torá, sendo que elas são feitas pela maioria, puramente
para benefício pessoal, e assim chamadas como do mal.
(Embora o egoísmo em si não seja necessariamente mau, o egocentrismo pode
levar o homem ao mal.)
Uma vez superado este nível animalesco da alma, a pessoa alcança uma esfera
mais elevada da alma - a parte da alma que é chamada de Nefesh "HaSichli" - "a
alma intelectual".
Este é o nível do puro intelecto.
Esta alma é a alma intelectual embora ela contenha todas as dez Sefirot, inclusive
as emoções e as emoções das ações.
Neste nível da alma, o intelecto não é o mesmo como é na alma Animal, onde o
intelecto é regido pelas emoções.
Ao contrário, estas emoções são dirigidas pelo intelecto.
As emoções que a pessoa experimenta são diretamente canalizadas pelo intelecto.
Na Cabalá, estas emoções são denominadas "Yeniká" - "aleitar, absorver".
Neste nível da alma, as emoções da pessoa são alimentadas pelo intelecto.
O intelecto puro é a capacidade de elevar-se acima de si mesmo, de transcender os
próprios sentimentos pessoais, e agir da maneira inspirada pelos conselhos do
intelecto objetivo.
Este poder é o que chamamos de "livre arbítrio".
Isto significa que, mesmo que, por instinto natural a pessoa possa sentir-se
inclinada a agir de determinada maneira, por ser esta a reação emocional com a
qual ela sente-se mais imediatamente confortável, no entanto com o poder de seu
intelecto ela pode ascender para cima da situação e dominar as emoções.
(Se ela quiser, a pessoa pode escolher o seu próprio destino simplesmente
permitindo que o seu intelecto dite as emoções em vez do contrário.)
Este nível intelectual da alma é o que o Rambam denomina Tsurá.
O nível mais elevado da alma é a alma Divina, a Nefesh Elokit.
Para que a pessoa consiga este nível da alma, ela deve alcançar a idade da
maturidade física, além do amadurecimento mental e espiritual.
Quando falamos, em geral, sobre Divindade e, especificamente, sobre a alma
Divina, estamos, na verdade, falando de abnegação e altruísmo.
Quando dizemos que uma pessoa está em contato com a sua alma Divina, estamos
dizendo que ela está agindo de forma altruísta.
Quando uma pessoa presta um favor a outra, como por exemplo, quando ela dá
caridade a um pobre, é possível que seus motivos sejam tanto egoístas como
altruístas.
A pessoa pode dar à caridade por um motivo egoísta - dar a outrem, menos
favorecido, fará com que ela própria se sinta bem.
Não fosse a sua benevolência, aquele carente poderia morrer de fome.
Assim, cada vez que aquela pessoa dá à caridade, o ato serve somente para inflar o
seu ego.
Quanto mais ela dá, mais ela é.
Ou, inversamente, a pessoa pode doar à caridade por, genuinamente, sentir a dor
da outra.
O gesto caridoso é feito inteiramente pela empatia sentida por aquela pessoa
necessitada.
Consequentemente, quando falamos de uma "pessoa Divina", alguém que está em
contato com a sua alma Divina, estamos querendo falar de uma pessoa que faz o
bem, que não o faz para que se sinta bem, mas por sentir a dor e o sofrimento da
outra pessoa.
Ademais, uma pessoa verdadeiramente Divina realiza e cumpre todos os
mandamentos Divinos unicamente por serem eles mandamentos.
Ela os pratica por ser o que D'us quer dela.
Os seus motivos são totalmente altruístas, acima mesmo do desejo de ser mais
sagrada ou ligada com D'us; ela realiza os desejos de D'us somente para servir a
seu Mestre.
A alma Divina é dividida em cinco compartimentos.
(Além da divisão da alma em dez Sefirot.)
O nível mais elevado desta alma é chamado "Yechidá", "desejo".
Um nível inferior recebe o nome de "Chayá", "vontade".
Mais abaixo deste está "Neshamá", "intelecto"; e, então, temos "Ruach",
"emoções".
E o mais inferior de todos é chamado "Nefesh, "espírito das ações".
Esta divisão de cinco corresponde aos quatro mundos espirituais gerais e ao nível
acima deles, que é o nível de Keter.
Em suma, a explicação disto é a seguinte.

Antes de D'us criar todos os mundos, havia somente o "Ên Sof", "a infinita luz de
D'us".
Assim, quando D'us (o infinito) decidiu criar esses mundos (o finito), Ele criou por
meio de um processo que a Cabalá denomina "Tsimtsumim", "constrições".
Isto é, um processo de diminuição da luz, de ocultações, e de condensações da luz
infinita, o Ên Sof, finalmente, assim, revelando níveis do finito.
Isto fez surgir numerosos níveis de mundos, cada um mais inferior do que o
anterior.
Estes níveis estão divididos em cinco abrangentes categorias: Keter e os quatro
mundos.
A mais elevada, Keter, é também conhecida como "Adam Kadmon", "o homem
primordial".
Trata-se de uma palavra antropomórfica; assim, Kadmon denota ser primário de
todos os primários.
Este nível é também chamado de "Keter Elyon", "a coroa mais elevada".
O primeiro dos quatro mundos é chamado "Atsilut" - o "mundo da emanação" ou o
"mundo das causas"; o seguinte é chamado "Beriá" - o "mundo da criação"; a
seguir vem "Yetsirá", o "mundo da formação"; e, finalmente o mundo de "Assiyá" -
o "mundo da ação" ou o "mundo material", "da realização".
Embora todas as dez Sefirot emanem e funcionem em cada um desses mundos, em
cada um deles, em particular, determinadas Sefirot predominam.
No mundo espiritual mais inferior, o mundo de Assiyá - ação -as características
predominantes são as dos níveis mais inferiores entre as dez Sefirot, as Sefirot das
ações, o espírito por trás das ações.
(Não nos referimos, aqui, à ação em si, mas ao espírito da ação, pois os mundos
dos quais falamos estão no campo espiritual.)
Assim, o mundo de Assiyá é análogo ao espírito que envolve a ação; aquele que
leva a pessoa a praticar uma ação com uma intenção Divina.
O mundo situado logo acima de Assiyá é o de Yetsirá - formação.
Neste mundo, os níveis mais elevados das Sefirot, aqueles da emoção, são os que
dominam.
(Este é um mundo de anjos, servindo ao seu Criador com uma submissão oriunda
da pura e imaculada emoção.)
Correspondente a este mundo está Ruach, o nível da alma que determina a
conexão emocional com D'us.
Um nível mais elevado de mundo, e, assim, uma dimensão mais profunda da alma,
é o mundo de Beriá, a criação.
Este é o mundo do intelecto, onde a mais elevada das dez Sefirot, a intelectual,
domina.
No mundo de Beriá, os anjos servem a D'us através do intelecto.
Assim, no homem, este mundo corresponde ao seu nível de Neshamá, intelecto.
Ultrapassando este nível de intelecto, chegamos ao nível de Chayá - vontade.
Este se correlaciona ao mundo de Atsilut - emanação; um mundo que, em certo
sentido, está acima da criação.
Tal como explicado na Cabalá, a palavra "Atsilut" é derivada da palavra hebraica
"Etsel", que significa "perto", denotando a proximidade- quase que a um nível de
unidade - entre este mundo e a sua origem, o seu Criador.
Traduzindo este nível de mundo à alma do homem, o mundo de Atsilut representa
um estado no qual todo o ser da pessoa está completamente permeado com
Divindade.
A pessoa torna-se como o mundo de Atsilut, uno com o Criador.
A sua vontade e o ser genuíno e essencial, se perde em Divindade.
O mais elevado estado de alma correspondente ao mais alto nível dos mundos,
àquele de Adam Kadmon (ou ao nível de Keter, desejo), é o estado de Yechidá,
unicidade, união espiritual.
Este é o estado da alma em que nos unimos a D'us, de forma tão intensa e plena,
até o ponto de não podermos sequer dizer que há uma existência unida com D'us.
É como se tivesse sido um desde o início.
Todos esses níveis estão contidos em cada um e em todos os indivíduos.
A maioria das pessoas pode passar por sua vida inteira sem jamais entrar em
contato com os rincões mais elevados de sua alma, principalmente o de Yechidá, a
grande unidade.
Somente Tsadikim ou, quiçá, pessoas comuns num momento de verdade, merecem
abordar este exaltado estado de alma.
Tal como escreve o Primeiro Rebe de Chabad quando encontramos pessoas comuns
que passam por momentos de intensas sensações espirituais, com um despertar
repentino de uma devoção excepcional, a razão para este fenômeno pode ser
porque há um singular e notável nível na alma daquela pessoa: o de Yechidá, que
pode se revelar a qualquer momento, principalmente num momento de desafio.
Por isso, diz o Rebe, observamos que, ao longo da história, em diversas ocasiões
em que judeus não praticantes, que eram forçados a renegar D'us ou, caso
contrário, seriam mortos, optavam voluntariamente por sua morte, não obstante o
fato de até então, ao longo de sua vida inteira, não terem tido qualquer ligação ou
interesse na Divindade.
Ainda assim, num momento de verdade, essas pessoas escolhem D'us, algo que
está além de sua compreensão, pois o nível de Yechidá é uma conexão que vai
além de tudo que é racional, um estado da alma que está acima e além de qualquer
explicação, acima de qualquer compreensão racional.
Portanto, quando uma pessoa realiza um ato de auto sacrifício tão excepcional,
sabemos que ele vem de um nível da alma que está acima até mesmo de seu
intelecto, acima e além de tudo aquilo que ela tenha feito ou sentido até então - o
nível de Yechidá.

Para que possamos entender plenamente a alma e as suas encarnações, devemos


nos familiarizar com os funcionamentos profundos da alma, bem como com a sua
imortalidade.
A imortalidade pode ser alcançada em vários níveis.
O nível mais baixo da imortalidade é o de experimentar a eternidade através de
outra pessoa.
Por exemplo, se depois da morte de alguém, há outras pessoas que doam caridade
em nome do falecido, ou que, de alguma outra forma, prestam tributo à sua
memória, então a memória do falecido continua vivendo enquanto as demais
pessoas lembrarem dele.
Um estado mais exaltado de imortalidade é a obtenção da eternidade por meio das
ações praticadas pela própria pessoa.
Se a pessoa puder, ao longo de sua vida, realizar algo que continuará existindo
para sempre, então é através daquela ação que a pessoa também viverá para
sempre.
Tal como diz o Talmud em relação a Moisés e David, "As obras de Moisés e de
David são Eternas".
Foi Moisés que construiu o Tabernáculo no deserto, e o Rei David que construiu os
portões do Templo sagrado, e ambas construções ainda continuam existindo
(embora estejam, agora, ocultas aos olhos humanos).
É por isso, então, que dizemos que é como se ambos ainda estivessem vivos,
porque continuarão vivos para sempre por meio de suas ações.
Um estado de imortalidade ainda maior pode ser conseguido por meio da
continuidade dos ensinamentos da pessoa.
Quando as pessoas estudam os ensinamentos de alguém após a sua morte, aquela
pessoa continua viva.
Como diz o Talmud": "As palavras de sabedoria proferidas por um erudito são a sua
memória".
Portanto o Talmud conclui que não há razão para que ergamos um mausoléu
quando um erudito morre; os seus próprios ensinamentos constituem o seu
monumento.
Acima de todos os estados de imortalidade anteriores, está o nível da eternidade.
Por meio de seus próprios filhos, a pessoa pode continuar vivendo.
Assim diz o Talmud: "Yaacov (o patriarca Jacob), continua vivo, seus filhos estão
vivos, portanto ele também é considerado vivo".
Este conceito é particularmente verdadeiro quando a prole de uma pessoa segue na
mesma direção de seus antepassados.
Se eles continuam tendo um comportamento como o da pessoa que faleceu, eles
estarão dando continuidade ao seu legado.
O Talmud diz35: "O Rei David tinha um herdeiro igual a si, por isso a Bíblia não usa
a palavra 'morte' ao referir-se a David".
Mas a verdadeira imortalidade é conseguida somente através da eternidade do
próprio corpo físico.
É este o conceito da ressurreição do morto.
O Midrash declara: "Existe um pequeno osso no corpo, o Luz, que nunca se
desintegra; e a partir deste ossículo o corpo inteiro será ressuscitado".
Quando o profeta Isaías fala sobre a ressurreição, ele diz: "D'us ressuscitará o
morto".
Ele não diz que D'us reconstruirá o corpo e, daí, criará um novo corpo; mas sim
que D'us reviverá o corpo, o que significa que remanescem restos do corpo que não
desapareceram.
A partir deste minúsculo ossinho (que pode ter o tamanho de um átomo, ou mesmo
ainda menor), D'us ressuscitará o corpo inteiro.
Assim, este ossículo "Luz" é a imortalidade do corpo físico.
Ademais, está dito, que muitos justos podem conseguir a imortalidade através de
seu corpo físico inteiro.
O Talmud diz": "Moisés não morreu".
Os comentários explicam que isto significa que o seu corpo físico não se
desintegrou.
No versículo: "Os seus (de Moisés) olhos não fraquejaram, e a sua força não o
deixou". Rashi (Rabi Shlomo Yitschaki, 1040 -1105) explica que este versículo
alude também ao tempo posterior à morte de Moisés, pois os seus olhos não
enfraqueceram e nem as suas forças lhe faltaram mesmo depois de sua morte.
Como escreve o grande cabalista e místico, Rabi Yehuda HaChassid (1150-1217): é
igualmente factível que D'us miraculosamente sustentará o corpo de uma pessoa
má por um período mais longo do que seria normal, para que o seu corpo tenha os
devidos refinamentos (punições), sendo o castigo a dor e o sofrimento por ocasião
de sua decomposição.
Ele também explica em outros locais que não é que o corpo falecido sente,
realmente, qualquer dos castigos físicos que recebe, pois eles são aplicados ao
corpo sem vida; mas, sim, a punição é uma angústia psicológica que a alma sofre
ao ver a sua forma terrena sendo castigada, punida e desmoralizada pela
decomposição.
Até aqui temos discutido a imortalidade da pessoa física.
Doravante passarei a desenvolver os aspectos da imortalidade da alma.

Tal como já mencionei anteriormente, existem, a rigor, três almas.


O propósito da alma mais inferior, a alma animal, é o de dar vida ao corpo
inanimado, ou seja, animar o corpo.
A alma animal é a força vital da maioria das pessoas, pois esta maioria de pessoas
existe num estado de consciência no qual a vida gira em torno das necessidades
animalescas da pessoa, tais como comer, dormir, e assim por diante.
No entanto existem mais indivíduos intelectuais, a quem se faz referência como
"buscadores do conhecimento".
Esses se encontram num diferente estado de consciência e são animados por sua
alma intelectual.
E mais acima existem homens que estão no mais elevado nível espiritual atingível
por humanos; estamos falando dos "homens justos".
O estado de consciência nessas pessoas é tal que a sua alma Divina é a que as
anima, mantendo-as vivas.
Esses três níveis da alma: a animal, a intelectual e, finalmente, a Divina, compõem
a "escada da perfeição", um sistema de elevar-se, pelo qual toda a humanidade
deveria se esforçar em alcançar.
Quanto mais alto a pessoa se elevar, um nível mais grandioso da alma é revelado.
Cada nível da alma representa um estado de consciência.
Quanto mais elevada a alma, mais elevado o estado de consciência.
O Rambam chama a alma animal de "alma que precisa do corpo", o que significa
que a alma tem apenas e tão somente um propósito e uma razão para ter sido
criada: para animar o corpo físico.
Assim, quando o corpo expira e deixa de funcionar como um organismo vivo, esta
alma animal já não tem mais razão para existir.
A partir daí, ele conclui que quando o corpo morre, também morre a sua alma, pois
aquela alma fora criada somente para se encaixar naquele determinado corpo.
Segundo o parecer do Rambam, fica sugerido que a alma foi criada imediatamente
antes da criação do corpo.
Ela não tinha uma existência anterior.
No entanto, conforme a Cabala, parece ficar entendido que a alma animal possui
uma preexistência que remonta ao início da Criação.
Este foi o tempo em que D'us criou todas as almas, tanto as Divinas como as
Animais.
(Reconciliando o ponto de vista do Rambam com o da Cabalá, explica-se que,
embora almas individuais sejam criadas especificamente para o "seus" corpos
específicos, são todas tomadas de uma só geral, "genérica" que foi criada no
começo dos tempos.)

A alma animal (bem como a intelectual e a Divina) tem em si duas divisões.


Uma é denominada Nefesh HaMekayem, a alma que sustenta o corpo, dando-lhe
sua própria existência.
Esta é a parte da alma que reside em cada e toda criatura, desde o mais grandioso
dos homens à mais humilde das pedras.
É uma alma espiritual, que dá forma à criação; sem esta alma não pode haver
existência.
A segunda divisão da alma é chamada de Nefesh Mechaiá, a alma que dá vida,
vitalidade e animação ao seu corpo - "a alma da vida".
Quando a pessoa morre, a alma deixa o seu corpo.
Ainda assim, o corpo continua conservando a sua forma mesmo depois da partida
da alma.
Como isto é possível se a alma que mantém o corpo com vida já não está mais ali?
Nós sustentamos que é apenas a alma que dá vida e vitalidade ao corpo que parte.
Apenas a Nefesh HaMechaiá é que deixa o corpo.
O corpo não se dissolve instantaneamente transformando-se num nada, pois a
alma que dá ao corpo a sua existência ainda permeia o corpo inteiro.
Esta Nefesh HaMekayem (aquela que habita no corpo sem vida) recebeu ao longo
de toda a vida da pessoa, a sua energia a partir da Nefesh HaMechayá a alma que
dá vida.
Após a morte da pessoa, ainda fica em seu interior aquilo que a Cabalá chama de
"Kistá" de vida, uma pequena quantidade de vida.
Embora esta "Kistá" não dure por muito tempo, esta energia de vida é suficiente
para dar à Nefesh HaMekayem a vitalidade necessária para manter a existência do
corpo.
Com o passar do tempo, quando ela deixa o corpo, este se desintegra.
O que se depreende disto que acabamos de ver, é que a alma animal não vive para
sempre; ela é mortal - quando o seu recipiente, o corpo, falece, o mesmo acontece
com a alma.
Mas devemos notar que quando falamos da alma judia, mesmo a parte animal dela
experimenta uma forma de imortalidade, pois depois que o corpo desaparece, a
alma animal de um judeu se transforma e se torna um "Trono de Santidade".
Ainda assim, isto não é considerado uma verdadeira imortalidade, pois a sua
eternidade difere de sua existência no corpo.
No corpo, ela era uma alma animal; agora, em sua pós-vida, ela se metamorfoseia
em uma existência sagrada.
A definição de eternidade é existir "num mesmo estado" para sempre.
A alma mais elevada, a alma intelectual, a quem o Rambam chama de Tsurá, tem
sim imortalidade.
Tal como escreve o Rambam: "quando o corpo do indivíduo se desintegrar ... esta
alma não decairá ... Ela entenderá e compreenderá pensamentos, pensamentos
elevados que estão bem acima de quaisquer outros pensamentos tangíveis. Ela
conhecerá o seu Criador e durará para todo o sempre".
Segundo o Rambam, a máxima recompensa que o homem pode receber, a
recompensa da qual o profeta diz: "Nenhum olho jamais viu - exceto D'us mesmo",
se dá quando a alma existe sozinha sem o corpo.
Assim, conforme o Rambam, mesmo depois do tempo da ressurreição, haverá um
tempo de morte, e será somente então que a alma - separadamente - receberá
essas recompensas máximas.
No entanto, a maioria dos cabalistas sustenta que a recompensa máxima para a
alma é quando ela é ressuscitada no corpo, quando a alma é novamente reunida
com o corpo.
O mundo no qual a alma habita após a morte é conhecido como o Gan Éden, o
Paraíso.
A ele alguns cabalistas se referem como o mundo das almas.
Na Cabalá, este mundo consta como existente na Sefirá de Biná, a Sefirá da
Compreensão.
O Gan Éden é um mundo no qual "o Ên Sof é revelado. A Infinitude do Divino na
aparência do Finito. E nesse estado, é possível à alma compreender a Divindade e
assim receber prazer da Luz Infinita".
Daí, diz o Talmud: "Honorável é aquele que entra neste mundo - no Gan Éden -
com o Talmud em sua posse."
O estudo do Talmud neste mundo permite que a pessoa compreenda plenamente a
Torá, com os seus significados internos e verdadeiramente místicos no mundo do
Gan Éden.
A teoria do Rambam sobre a imortalidade parece ser bastante semelhante à teoria
da imortalidade formulada por Platão.
Segundo a teoria de Platão, quando a alma deixa o corpo, ela sai de seu
encarceramento.
"Certamente a partir de então a alma pode raciocinar melhor, uma vez que está
livre das distrações, tais como ouvir ou ver o sofrimento ou prazeres de quaisquer
naturezas - é aí, então, que ela deixa o corpo aos seus próprios desígnios."
No entanto, segundo Platão, esta forma de imortalidade para a alma é
experimentada somente pelos filósofos, aqueles que buscaram o conhecimento ao
longo de suas vidas.
Tal como ele escreve em nome de seu professor Sócrates: "Mas nenhuma alma que
não tenha praticado a filosofia, e que não esteja absolutamente pura quando deixa
o corpo, pode conseguir chegar à natureza Divina; isto está reservado apenas aos
amantes do estudo".
Entretanto, segundo o parecer da Torá, "Todo judeu tem uma porção no Mundo
Vindouro (o Gan Éden)".
Mesmo o mais simples dos homens tem um quinhão neste mundo.
Todos entram no Gan Éden, não somente os filósofos.
(Ademais, mesmo os pecadores merecerão entrar no Gan Éden depois cumprirem
um período de 12 meses de punição.)
Esta é a imortalidade da alma intelectual da pessoa que, mesmo após a morte de
seu corpo físico e da alma "sustentadora da vida", habita no Paraíso até que chegue
o tempo da ressurreição dos mortos, quando, então, ela retornará ao seu corpo
físico.
Quando falamos de reencarnação, a alma sobre a qual falamos é a alma Divina.
É esta a alma que reencarna, e sobre a qual estaremos discutindo nos capítulos
seguintes.
Esta é a alma que é "verdadeiramente uma parte de D'us das Alturas".
É evidente que esta alma é infinita e eterna e, finalmente, imortal.
Ela existiu antes da criação do corpo e existirá bem depois da desintegração do
corpo.
Nos capítulos seguintes, estaremos analisando a sua eternidade.
Como e aonde essa alma existe?

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 2

O Propósito da Descida da Alma

Antes de a alma Divina descer a este mundo físico para habitar um corpo físico, ela
existia no mais puro, sagrado e elevado estado que se possa conceber.
Ainda assim, ela sai deste seu estado de pura santidade e se torna parte de uma
grosseira existência material.
Por que será que um ser assim tão elevado desce para tão baixo?
Por que é que ela desceu a este mundo inferior?
Alguns respondem que a alma desce com o propósito de alcançar níveis espirituais
mais elevados; mas esta resposta não é suficiente, pois mesmo os níveis mais
elevados que ela conseguirá alcançar neste mundo físico jamais se igualará ao nível
de Devekut - unicidade, união - que é experimentada nos mundos superiores antes
de sua descida.
Tal como consta do Tanya: "Mesmo que se trate de uma pessoa perfeitamente
justa, servente a D'us com temor e grande amor, ela não pode alcançar o grau de
ligação com D'us, tal como ela tinha antes de descer a este mundo inferior. Nem,
sequer, uma fração dele, e não há, sob qualquer aspecto, comparação ou
semelhança entre eles, como é claro a toda e qualquer pessoa entendedora".

A razão pela qual esses níveis não podem ser alcançados neste mundo é que, como
a alma mora dentro de um corpo físico e num universo também físico, ela é
obstruída, e confinada pela materialidade.
Assim, explica-se que o propósito da descida da alma não é para um ganho ou
conquista sua pessoal, mas sim para refinar e elevar o corpo físico e, por extensão,
o mundo físico inteiro.
O propósito primordial da Criação é trazer aqui para baixo a Divindade, para residir
e permear este mundo físico.
Nas palavras do Midrash: "Para criar uma moradia para D'us neste mundo".
E o motivo para isto é que D'us desejavas habitar e permear, não apenas os
mundos espirituais superiores, mas também este mundo terreno e material.
E, ao fazer assim, tornar este mundo num mundo Divino.
Nós podemos alcançar este objetivo ao desfazermos (por assim dizer) aquilo que
D'us fez.
D'us criou este mundo físico a partir do nada, "Ex Nihilo", "Me'Ayin, Le'Yesh", e nós
temos a tarefa de desfazer e tornar um "algo" em um "nada".
Para explicar resumidamente este conceito, voltemos àquilo que mencionamos
anteriormente.

Antes que D'us criasse qualquer um dos mundos, inclusive os mundos espirituais
superior, havia somente o Ên Sof, a Luz infinita de D'us; e, através de um processo
de Tsimtsumim, constrições e ocultações do Ên Sof, deu-se início ao processo de
Seder Hishtalshelut, ligação contínua, de um nível de espiritualidade ao nível
seguinte, de um mundo de santidade ao seguinte, chegando finalmente ao mais
elevado nível do mundo de Assiyá, que é o mais baixo dos mundos espirituais.
Para criar um mundo físico, limitado pelas dimensões de tempo e de espaço, era
necessário algo além desta conexão contínua.
Esta conexão é parte de um encadeamento contínuo de espiritualidade, de um nível
mais elevado ao seguinte, e a materialidade não pode emergir da espiritualidade.
Independente de quantas ocultações, encobrimentos e constrições do espiritual,
nenhuma existência física surgirá.
Assim, foi a essência de D'us, conhecida como a Luz Infinita, o Ên Sof (aquela parte
do Divino que existe acima da "conexão contínua"), que criou este universo físico.
Pois somente Ele, que está acima desta conexão, pode criar uma existência que
não se origina da conexão, uma existência física.
Portanto, nós chamamos a criação do físico "Ex Nihilo", algo do nada, porque o
mundo físico não está (ou advém) no encadeamento contínuo dos mundos.
O mundo físico vem do nada, de uma não-existência, de uma não criação - o Ên
Sof.
(Quando falamos de um "nada", estamos falando de um "nada" positivo, de um ser
não-di-mensional, não-físico e, até mesmo, não espiritual, o Ên Sof, que está além
de qualquer definição').
D'us criou este mundo à Sua imagem, à imagem do Ên Sof.
Assim como o Ên Sof não tem início e não tem origens, ele foi, é e sempre será.
O mesmo se dá com o mundo físico.
A existência física se sente "Ex Nihilo" e, assim, declara: "Minha existência vem de
mim mesmo", fisicamente proclama: "Eu não tenho criador".
Este sentimento é verdadeiro num sentido positivo, pois, de fato, o mundo vem de
um "nada", este "nada" sendo o Ên Sof; no entanto, o mundo o proclama num
sentido negativo, no sentido de não haver um criador.
O homem tem a capacidade de reverter isto.
Ele toma o Yesh, a existência física, o "algo", e o transforma em Ayin, o "nada" em
espiritualidade que vem a ser o verdadeiro "nada".
O Talmud nos conta que, por meio de nosso recitar, e proclamando na noite de
Shabat que D'us criou o mundo, nós "nos tornamos parceiros de D'us na Criação".
Ele cria a existência física a partir do nada, e nós transformamos a existência física
em um nada, em espiritualidade.
Ademais, o Talmud declara: "A obra e as realizações dos justos são ainda maiores
do que os feitos do criador"
Assim, a intenção da descida da alma Divina a este mundo, é o de elevar o corpo
no qual ela habita, elevar e transformar a materialidade do mundo em santidade.
O propósito primordial da descida da alma é a elevação do corpo físico no qual ela
habita; esta é a missão da alma e a razão de ela existir.
Assim D'us recompensa a alma por realizar a sua missão, pois D'us designa a cada
criação a sua adequada recompensa.
Tal como consta no Talmud: "D'us não retém recompensas de nenhuma criatura
viva".
A recompensa da alma é a sua elevação.
Ademais, a elevação que ela recebe como recompensa é uma elevação ainda maior
e a eleva a alturas espirituais mais altas do que aquelas experimentadas pela alma
quando estava superior.
O que significa quando falamos acerca de elevação da alma, e como é que isto é
conseguido?

A Cabalá explica que o propósito da descida da alma Divina a este mundo é


"Tikun", "retificação".
Quando falamos de "Tikun",estamos falando de "completude".
Isto não quer dizer que a alma tenha faltas e que, por isso, tenha a necessidade de
ser retificada e purificada; mas sim, Tikun neste caso significa que a alma recebe
uma realização ainda maior, tornando-se mais completa do que era quando estava
nos mundos espirituais superiores.
Está escrito que a elevação que a alma consegue é uma nova forma de conexão,
revelada entre a alma e D'us.
Quando a alma Divina habitava os reinos espirituais, aquele era o seu habitat
natural.
A conexão com a Divindade que a alma experimentou naquele estado era natural e
instintiva, pois existia apenas santidade nos mundos espirituais superiores, sem
haver qualquer desafio a esta conexão.
O nível de conexão que a alma tem nos reinos espirituais é quase um hábito.
Mas quando a alma desce para um mundo que declara: "Eu não tenho criador; a
minha existência vem de mim mesmo", e ali a alma serve e permanece conectada a
D'us, a alma revela, então, uma nova e mais profunda relação com D'us.
Agora a alma demonstra que, mesmo em um ambiente hostil, ela ainda segue
intimamente ligada à Divindade.
E esta ligação é demonstrada por meio do serviço a D'us neste mundo físico,
servindo a D'us através de elevar toda a materialidade da pessoa e elevando o seu
ambiente à espiritualidade.
Há uma parábola que ilustra bem esta ideia.
Havia uma criança que nasceu e cresceu em um povoado religioso que ficava numa
ilha distante.
Era prática daquela comunidade que todos os moradores servissem ao mestre, o
homem sagrado, por ser ele o seu professor e governante.
O mestre era para eles tudo aquilo que precisavam e que queriam na vida.
À criança a qual nos referimos também foi ensinada, desde o seu primeiro dia de
vida, a amar e honrar o mestre.
Quando aquela criança ficou mais velha, o mestre teve uma ideia.
Ele decidiu enviar o jovem rapaz em uma viagem passando por diferentes
civilizações e distintas culturas, de tal forma que ele viesse a ganhar maiores
experiências no mundo em geral e se tornasse, assim, um ser humano mais
completo.
Além disso, aquela viagem serviria de teste para o rapaz, para verificar se ele
amava e reverenciava o seu mestre com fervor, devoção e amor.
Na ilha, o ambiente era de reverência e amor dedicado ao mestre; era natural que
uma criança fizesse o mesmo.
No entanto, em terras distantes, as condições e o ambiente não conduziam a estes
sentimentos.
Se aquele jovem continuasse a amar e reverenciar o seu mestre tal como fazia
naquela longínqua ilha, isto seria uma prova de sua absoluta devoção ao seu
mestre.
O mesmo é verdadeiro com a alma que desce à terra.
As vantagens desta descida são duplas: primeiramente, as dimensões somadas do
mundo físico fazem com que a alma se torne mais completa e mais compreensiva;
e, em segundo lugar, a alma pode provar a sua forte conexão com o Divino por
meio de seu serviço a Ele, mesmo num mundo físico.
Através desta descida, a alma se torna, em certo sentido, infinita.
Quando a alma desce à esta esfera terrena, a sua tarefa é a de transformá-la num
mundo espiritual.
Em hebraico, o mundo tem o nome de "Olam" (  ), que se compõe das mesmas
três letras básicas da palavra Hebraica para "ocultação", que é "Heelem" ( ).
  
As três letras são: "Ayin" ( ), "Lamed" ( ), e "Mem" ( ).
Este mundo conota a ocultação do Divino.
A tarefa da alma é a de mudar a natureza do mundo e transformá-lo em um mundo
de Divindade revelada.
Assim, a alma na verdade rompe a natureza do mundo; ela vai acima das
limitações mundanas, vai além de sua própria natureza.
De certo modo, o mundo se torna sobrenatural, acima de sua natureza.
Portanto, a alma recebe a mesma elevação que ela dá ao mundo.
Ela alcança uma conexão ilimitada e infinita com D'us; uma conexão que vai além
do natural.
A Mishná afirma: "Contra tua vontade você vive, contra tua vontade você morrerá".
Isto quer dizer que a pessoa não quer vir a esta vida, e nem quer a pessoa deixá-
la.
Assim sendo, é forçosamente que uma pessoa vive e morre.
Se uma pessoa não quer vir à vida, então poderia parecer que não seria preciso
forçá-la a sair deste mundo, e vice versa.
A Chassidut explica que esta Mishná se refere à alma Divina no homem.
Antes da descida da alma a este mundo inferior, a alma grita: "Eu não quero ir; por
que é que eu devo deixar a Presença da Divindade? Por que entrar num mundo que
é desprovido de Divindade? Eu quero ficar cá em cima, nestes mundos espirituais e
estar, continuadamente, na Presença da santidade!".
É este o protesto da alma antes de sua descida a este mundo inferior.
É com referência a isto que o Midrash diz: "Contra tua vontade você vive".
A sua alma foi forçada a descer a este mundo.
Entretanto, uma vez que a alma desce e entende o quanto ela pode conseguir
espiritualmente e o nível das elevações possíveis de serem atingidas neste universo
inferior, ela chora quando é chegada a hora de sair deste mundo e a alma tem que
deixar o seu corpo.
Assim, a Mishná diz: "contra tua vontade você morrerá".
(Devemos notar que a elevação que a alma recebe neste mundo é apenas aplicável
aos níveis inferiores da alma: Nefesh, Ruach e Neshamá; mas o nível de Chayá e,
especialmente, o nível de Yechidá, não precisam, e nem podem ter, qualquer forma
de Tikun.)
A maneira pela qual a alma consegue esta elevação se dá através da observação e
cumprimento dos 613 mandamentos, as mitsvót.
Está explicado que cada uma das almas possui 613 compartimentos e, igualmente,
existem 613 recipientes para receber as 613 partes da alma.
Estes são os 613 órgãos e veias que existem no corpo humano que absorve a alma.
D'us nos outorgou 613 mandamentos, correspondentes aos 613 compartimentos.
Por meio da observância e cumprimento de cada mitsvá, nós elevamos o
compartimento correspondente na alma.
No entanto, para que cada determinada mitsvá eleve o correspondente
compartimento na alma, a mitsvá tem que ser realizada tal como diz o Talmud:
"cuidadosamente e com grande intensidade e fervor".
Ademais, a mitsvá deve ser praticada com todas as três vestimentas da alma: com
o pensamento, com a fala e com a ação.
A mitsvá não deveria ser apenas uma mera e simples ação, mas deve sim permear
o seu ser inteiro, a sua mente e a sua capacidade de se comunicar.
Por meio disso a parte correspondente da alma será elevada.
O método de Tikun (elevação) é, primeiramente, a elevação de todo o nível inferior
da alma, a Nefesh.
Este nível da alma que é análogo ao mundo de Assiyá, que, tal como explicado na
Cabalá, contém todos os cinco níveis da alma (cada um dos cinco níveis da alma
tem, em si, cinco subdivisões).
Assim, o nível de Nefesh tem o Nefesh de Nefesh, o Ruach de Nefesh, e Neshamá
de Nefesh (e mesmo Chayá e Yechidá de Nefesh).
Depois que a pessoa tenha elevado todo o seu nível de Nefesh, com todas as suas
cinco subdivisões - por meio da prática das 613 mitsvót, com grande cuidado e
observância - então, e somente então, com muito esforço, e conforme escreve Rabi
Chayim Vital: "Com grandes dificuldades e labuta" (e somente se a pessoa for
suficientemente merecedora) é que D'us trocará a sua alma de Nefesh (que, à esta
altura, está completamente elevada) por um nível mais elevado da alma, o nível de
Ruach, correspondente ao mundo superior de Yetsirá.
E se ela elevar todo o nível de Ruach - com todas as suas subdivisões - ela poderá,
então, elevar o nível superior da alma, o nível de Neshamá.
(Os níveis de Chayá e Yechidá não podem ter, e nem precisam, qualquer forma de
elevação.)
No entanto, este processo se refere apenas à maioria das pessoas.
Essas pessoas têm "almas comuns".
Mas há aquelas que são possuidoras de um nível mais elevado de alma, a "alma
verdadeiramente nova" (que está acima da "alma geral de Adam", tal como será
explicado no parágrafo seguinte).
Para a pessoa que possui esta alma, é fácil, quase sem esforço, alcançar os níveis
acima de Nefesh, de chegar ao Ruach, à Neshamá, e até a Chayá e a Yechidá.
Ademais, tudo leva a crer que, quando essas almas descem a este mundo, para
habitar uma forma humana, elas não pecarão, serão pessoas verdadeiramente
justas.
Contudo, isto não é uma garantia de que elas não pecarão; é mais provável que
assim seja, por elas serem propensas a fazer o bem, pela sua natureza.
Na Cabalá está explicado que, quando D'us criou o homem primordial, Adão, o
primeiro de todos os seres humanos, o futuro inteiro do gênero humano estava
nele contido.
Todas as gerações que dele viriam estavam contidas dentro dele.
Adão não era macho e nem fêmea.
O corpo de Adão era uma síntese de um macho e uma fêmea, tal como está na
Torá: "E D'us criou o homem (Adão)... macho e fêmea Ele os criou".
Em seus genes, estavam incorporados os genes de toda a humanidade, até o final
dos tempos.
Ele foi o ser oni-abrangente.
Adão foi o pai e a mãe físicos de toda a humanidade.
E assim como ele foi o pai e a mãe físicos da humanidade, a Cabalá explica que
Adão também foi o genitor espiritual da humanidade.
A alma de Adão é a alma geral "de onde todas as almas emanam".
A estrutura física de Adão, a forma de seu corpo era, em certo sentido, análoga à
forma espiritual de Adão.
As dimensões físicas do corpo de Adão eram paralelas à estrutura de sua alma, que
é a "alma geral".
Assim, a Cabalá ensina que existem almas cuja origem vem da cabeça de Adam, e
existem almas cuja origem vem das mãos de Adão, e assim por diante.
(Em termos práticos, isto significa que aquelas almas cujas raízes vêm da cabeça
de Adão são as partes intelectuais da alma geral e, portanto, propensas ao
intelecto.
E aquelas almas cujas raízes vêm das mãos da alma geral são mais propensas à
atividade física, e assim por diante.)
O Talmud diz: "Quando Adão foi criado, ele tocava dos céus nas alturas até a terra
cá em baixo; no entanto, depois de Adão ter pecado, D'us diminuiu o seu corpo", o
que equivale a dizer que as suas dimensões físicas - o seu corpo - bem como as
suas dimensões espirituais - a sua alma - foram diminuídos.
Num sentido espiritual, isto significa que partes de sua alma, que eram paralelas a
partes de seu corpo que foram diminuídas, também foram diminuídas, e essas
almas "caíram de seu corpo e caíram no profano".
Essas almas são chamadas de "almas velhas".
As partes de sua alma que seguiram "ligadas" ao seu corpo (estamos aqui falando
em termos antropomórficos) são chamadas, na Cabalá, "as almas novas", e as
almas que estão acima de Adão são chamadas "verdadeiras almas novas".
Estes são os três tipos de almas.
As almas da maioria dos seres humanos em nossos dias são as almas novas.
Essas "almas novas", da alma de Adão, foram mais tarde partidas em duas
divisões, correspondendo aos dois filhos de Adão.
Uma divisão é a alma conectada a Abel, que contém almas que se originam de
Chessed - bondade, graça e benevolência; e a segunda divisão contém as almas
que são conectadas a Caim, correspondendo a Guevurá - poder, força, prevalência.
Para que essas "novas almas" alcancem o nível seguinte de alma, o nível de Ruach,
elas devem primeiramente elevar toda sua dimensão de Nefesh.
Ademais, estes alcances mais elevados da alma podem ser obtidos somente por
meio de grandes dificuldades.
No entanto, aquelas com o nível de "velhas almas" podem atingir o nível mais
elevado da alma, Ruach, mesmo sem elevar a Nefesh inteira.
(Mas, para que isto aconteça, devem primeiro recitar o vidui, a "oração da
confissão", com intenção concentrada.)
Esta é a vantagem que as "almas velhas" têm sobre as "almas novas", pois as
primeiras podem elevar o nível de Ruach antes mesmo que a sua Nefesh tenha sido
refinada.
Porém, mesmo essas almas não podem alcançar o nível seguinte de Neshamá, até
que elevem antes o nível inteiro de Ruach.
(Há ainda outro nível de alma: a alma do convertido.)
No entanto, uma vez convertido, ele recebe uma alma Divina, uma alma cuja fonte
e origem é sagrada.

Falávamos da descida da alma ao mundo físico e de sua jornada de Tikun.


A busca por Tikun é árdua e formidável.
Muitos passam a vida inteira sem experimentarem uma elevação total da alma.
Se a pessoa viveu toda a sua vida sem ter elevado a alma a todos os níveis
possíveis, então, para que possa alcançar sua total elevação, a alma deve
reencarnar em outra forma humana até que a alma fique completamente elevada.
É importante notar que quando a alma desce a este mundo para ser elevada, trata-
se de uma "recompensa" para a sua descida e não o "propósito" para a sua
descida.
O propósito da descida é o de elevar o corpo, o físico.
As elevações da alma são apenas uma recompensa pela descida para elevar o
físico.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 3

O Pós Vida da Alma

Uma alma veio ao mundo inferior para dar vida e espírito a uma forma humana.
Ao longo da vida inteira a alma se esforçou para trazer Divindade a um mundo
aparentemente dela desprovido.
Ao chegar o tempo de a alma ter que sair de sua forma terrena, a alma retornou à
sua casa nas esferas celestes.
Entretanto, a alma ainda não se elevara à sua plena capacidade, e é decretado que
a alma deve reencarnar em um novo corpo para completar aquilo que foi deixado
inacabado.
Isto é bastante desconcertante, pois parece contradizer um princípio básico do
pensamento Judaico, aquele que trata da recompensa e do castigo após a morte.
Se a alma deve ser reencarnada, quando é que ela recebe a sua recompensa?
É comumente sabido que os justos recebem a sua recompensa no Gan Éden, e que
os pecadores recebem o seu castigo e punição no Guehinom.
Mas se logo depois da morte da pessoa a sua alma é reencarnada, como é que ela
receberá aquilo que é devido?
Podemos pensar que esta contradição pode ser reconciliada ao dizermos que a alma
primeiro recebe a sua recompensa no Gan Éden e, depois de a receber, desce para
a sua reencarnação.
No entanto, esta explicação não resolve o problema, pois o Gan Éden não é uma
recompensa limitada cuja validade expira após um determinado período.
No próprio Paraíso, as almas têm, continuadamente, as suas elevações.
De um nível de santidade, elas ascendem a níveis mais elevados de santidade.
Assim como diz o Talmud: "As almas justas não têm descanso nem mesmo no
'Mundo Vindouro'".
Está explicado que os parentes mais próximos do falecido recitam o Cadish para
ajudar a alma do falecido em suas apropriadas elevações no próprio Gan Éden.
Toda vez que o Cadish é recitado, a alma nas alturas ascende a um nível espiritual
mais elevado.
E o mesmo é válido para pessoas não-justas.
Imediatamente após a sua morte, estas podem ir para o Guehinom; ainda assim,
por meio da recitação do Cadish cá em baixo, elas também são continuadamente
elevadas dos níveis mais inferiores do Guehinom, até que eles também alcançam o
Paraíso.
Assim sendo, como é possível que a alma esteja continuadamente sendo elevada
no Gan Éden enquanto que, simultaneamente, está reencarnando e habitando o
corpo de outra pessoa?
A pergunta continua: onde está a alma após a morte?
(Quando falado em termos espaciais em relação a algo espiritual, tal como à alma,
não se refere realmente a um determinado lugar ou tempo, mas sim a um estado
de ser.)
Além disto, por ocasião da ressurreição do morto, como é que o corpo original será
ressuscitado sem uma alma?
Será ele ressuscitado?
Talvez somente um dos corpos será ressuscitado?
Uma solução para estes dilemas se apresenta quando entende-mos plenamente o
processo das elevações da alma.

Como já explicado, a maneira pela qual a alma alcança as suas devidas elevações,
é por meio da prática de todos os 613 mandamentos com extrema intensidade e
foco.
Tal como diz o Talmuds, Rav Yossef perguntou certa vez ao filho do famoso sábio
talmúdico Rava: "Entre todas as mitsvót, qual delas era a `mitsvá especial', qual
delas ele praticava com extraordinário cuidado?".
Eis que ele respondeu: "a mitsvá do Tsitsit".
Esta era uma mitsvá especial para Rava, a mais importante entre todas as mitsvót.
O Talmud declara que: "Todo judeu está cheio de mitsvót".
Sabemos que isto não é possível no sentido literal; e, assim sendo, nós
interpretamos esta declaração como significando que cada judeu tem uma
determinada mitsvá a qual se sente mais ligado, e que ele sente ser a "sua" mitsvá
e que está "cheio" desta mitsvá.
Por exemplo, a Mitsvá de dar caridade, ajudar o carente, ou rezar.
Dizemos que, por meio desta mitsvá em particular, ele eleva a parte de sua alma -
uma das 613 partes - que corresponde à esta específica mitsvá.
Podemos agora começar a entender como é que a alma pode estar em "dois
lugares ao mesmo tempo".
A parte da alma que o indivíduo eleva pessoalmente, aquela à qual ele estava
especialmente ligado ao longo de sua vida, jamais se reencarna.
É a sua alma, uma alma distinta e singular.
É o você verdadeiro.
As demais partes da alma, aquelas que não foram elevadas ao longo da vida do
indivíduo, e com a qual ele não teve contato, não tem conexões reais com o
indivíduo.
Embora tenha existido dentro dele, ao longo de sua vida inteira, num nível
consciente, o indivíduo estava conectado apenas à parte da alma com a qual atuou,
que foi elevada.
Por exemplo, um indivíduo que é considerado uma pessoa gentil e adorável, um
indivíduo de Chessed e caridade, está conectado - e, portanto, eleva - à parte da
alma que corresponde à mitsvá da caridade.
Ademais, a maneira pela qual ele serviu a D'us foi por meio do amor e, assim, ele
conectou e elevou também outra parte de sua alma, que corresponde à mitsvá de
amar a D'us.
Quando as pessoas pensam neste indivíduo, elas sempre o lembrarão como um
"ser humano amável".
Era isso que aquela pessoa era realmente, uma pessoa conectada com o nível de
Chessed em sua alma (que é uma das 613 partes da alma inteira), correspondente
à mitsvá de Chessed - caridade; amar a D'us e, por extensão, amar o homem.
Assim, dizemos que, num nível consciente, ela é uma pessoa de Chessed, embora
em sua alma estejam contidos todos os níveis de Guevurá.
Esta pessoa amável sobre a qual acabamos de falar, também pode ser uma pessoa
que pratica todas as demais 612 mitsvót; porém, todas as demais mitsvót por ela
praticadas são feitas como uma extensão da mitsvá de amar (a D'us e ao homem).
Mesmo a mitsvá de "temer a D'us" (que se origina de Guevurá, que, nas Sefirot se
opõe à do amor) é praticada como uma extensão de seu amor por D'us.
Ela teme a D'us, não por se sentir pequenaou distante de D'us; ao contrário, ela
teme a D'us por causa de seu amor a D'us.
Ela ama tanto a D'us, que fará qualquer coisa que D'us venha a lhe pedir, e se D'us
quiser que ela O tema, ela O temerá, pois ela O ama e quer fazer exatamente
aquilo que Ele quer.
Mais ainda, o seu temor a D'us é um temor a rejeição, de não ser amado.
O contrário também é verdade.
Se for uma pessoa que serve a D'us por meio de Guevurá, através do temor, ela
também poderá amar a D'us por temor.
Por temê-Lo, ela fará qualquer coisa que D'us ordena, inclusive amá-Lo.
É esta a parte da alma do indivíduo, a parte que era a sua parte distinta, o "eu" da
alma, que vai para o Gan Éden (ou ao contrário), e é com esta parte da alma que
ele será ressuscitado.
As partes da alma que reencarnam em outro ser humano são as partes da alma
que nunca foram elevadas, que não tiveram conexão com qualquer de seus corpos
anteriores a um nível consciente.
Estas partes da alma reencarnam até que estejam completamente elevadas; assim,
isto pode acontecer até que 613 diferentes indivíduos elevem todas as 613 partes
do nível mais inferior de Nefesh (e, às vezes, até mais que isto); embora estas
partes da alma também estivessem presentes no corpo do indivíduo, de qualquer
modo ele não experimentou nenhum contato com elas, e elas não foram jamais
elevadas e ativadas.
Assim, elas não são consideradas como sendo, absolutamente, dele, ainda que
estivessem em algum lugar nas profundezas de seu subconsciente.
Elas estavam presentes, mas não como parte de sua personalidade.
A partir disto, se depreende que a primeira pessoa a receber uma alma (isto é, uma
alma, que nunca foi usada ou reencarnada) recebe uma alma completa, com todos
os 613 compartimentos intactos.
Entretanto, depois de seu falecimento, as partes da alma que se tornaram
exclusivamente suas, permanecem nos mundos superiores, e somente o restante
da alma é que reencarna.
Será que isto significa que os corpos que futuramente serão habitados por esta
alma receberão uma alma incompleta?
De certa forma, esta pergunta se refere a todos aqueles que possuem esta alma,
em particular, inclusive o indivíduo original.
Por ocasião da ressurreição dos mortos, cada um receberá apenas uma parte de
sua alma.
Mas, serão eles incompletos?
A explicação é a seguinte.

Assim como a alma geral de Adão tem 613 compartimentos, também todas as
almas individuais, que se originam desta alma original, têm em si 613
compartimentos.
Cada um desses compartimentos tem dentro de si 613 compartimentos; e isto
assim continua infinitamente.
Daí aprendemos que a alma é, na verdade, uma criação infinita.
É sabido na Cabalá que a alma Divina do homem "é verdadeiramente uma parte de
D'us", que se traduz como sendo parte de algo infinito.
Não importa quantas vezes se divide o infinito, o infinito continuará sendo infinito.
Ele continuará sendo completo, pois o infinito é indivisível.
Quando a pessoa toca apenas um pedacinho do infinito, ela toca o todo.
Certa vez ouvi dizer que, no deserto do Sinai, existe uma grande rocha com um
formato bastante peculiar.
O interessante sobre esta rocha é que todas as demais pedras que a compõe têm
exatamente o mesmo formato.
Assim, se você olha para a rocha como um todo, você vê uma forma; e se você
pega uma pequena pedra daquela rocha, você verá que ela parece exatamente a
rocha inteira.
Na geometria fractal, temos uma equação (Z²+C) que tem resultados
surpreendentes.
Esta equação é conhecida como o "Conjunto de Mandelbrot".
Quando esta equação é empregada na computação gráfica, ela produz uma
estranha forma geométrica.
Algo que se parece a um grande círculo com formato de um coração, ligado a um
círculo menor, com formatos de teias em todo o seu redor.
O que há de fascinante nisto é que, quando você toma qualquer ponto daquele
conjunto inteiro, e amplia aquele ponto, você verá reproduzida uma réplica exata
do conjunto original.
E esta equação pode ser empregada infinitamente.
Não importa quantas vezes você amplia em zoom no conjunto, você terá sempre
esta mesma equação.
A isto chamamos de infinito matemático.
O mesmo acontece com todas as partes da alma.
Não importa quantas vezes a alma se divide, ela sempre conterá a mesma forma e
formato de uma alma geral - ela sempre terá todos os 613 compartimentos.
Em função disto, cada alma, em si mesma, é uma alma completa.
A um nível prático, isto significa que a alma de cada pessoa é completamente
abrangente, e o fato de a sua personalidade e, assim, a sua principal conexão à sua
alma, ser de bondade - Chessed - não significa que lhe falta o nível de Guevurá
(temor e reverência a D'us).
Significa, sim, que o temor desta pessoa se origina de seu amor.
Ao longo dos tempos, o homem tem servido a D'us de muitas formas diferentes.
Houve períodos na história em que D'us era visto como um temível Senhor e o
relacionamento entre o homem e seu D'us se baseava no medo.
Houve outras épocas que eram tempos de reverência e veneração, quando D'us
inspirava respeito em Suas criaturas, e o serviço delas a D'us se baseava em
humildade diante Dele.
Começando com o Baal Shem Tov, o sagrado mestre da Chassidut, o amor se
tornou o foco de nosso relacionamento com D'us.
As maneiras e métodos de servir a D'us também têm variado ao longo dos tempos.
Na época do Templo, por exemplo, os sacrifícios eram a maneira de serviço, e nos
dias de hoje essa maneira é a prece.
Sob um aspecto puramente físico, isto pode ser explicado como uma simples
evolução do homem.
Os historiadores podem ver o passado como uma sucessão de acontecimentos
naturais, modelados pela natureza.
No entanto, tudo neste plano físico tem uma explicação paralela nos mundos
superiores.
A história deve ser vista como sendo multidimensional, e não a um nível superficial.
Ao vermos as variações nas funções do serviço a D'us num plano mais profundo,
numa visão espiritual, nós começamos a entender que isto é algo diferente e, na
verdade, relativos às almas do homem.
Ao longo da história, D'us tem desejado diferentes relacionamentos com as Suas
criaturas e diferentes elevações nos diversos períodos dos tempos.
Para que isto acontecesse, as almas que Ele enviou aqui para baixo, naqueles
tempos, eram, geralmente, de uma determinada natureza.
Por exemplo, quando D'us desejou uma relação amorosa com as Suas criaturas, as
almas que foram enviadas para ocupar corpos naquela época eram todas almas
cuja principal conexão (personalidade, se assim preferir) era de Chessed - bondade
e amor, e assim por diante.
Já vimos que todo e qualquer indivíduo, mesmo o perverso, tem as suas mitsvót
especiais às quais está conectado.
Através da mitsvá, uma pessoa eleva uma parte de sua alma.
Esta é a parte da alma com a qual ela viveu; portanto, é esta alma que é, para
sempre, a sua alma.
É o "você" que, após a morte, estará recebendo recompensa, ou o contrário.
A Mishná diz que: "Todo e cada judeu tem um quinhão do Mundo Vindouro".
Os comentaristas explicam que, o Mundo Vindouro se refere à época da
ressurreição, e todo judeu será ressuscitado.
A Chassidut explica que a ressurreição do corpo físico será a recompensa pela
própria prática das Mitsvót.
Nós realizamos o ato da mitsvá com os nossos corpos físicos; por isso, a
recompensa que o corpo recebe é a ressurreição do corpo.
Toda pessoa tem a sua mitsvá especial, à qual ela está mais conectada e a que ela
pratica com especial intensidade e carinho; eis porque entendemos que a Mishná
declara que "todo e cada judeu tem um quinhão do Mundo Vindouro".
Cada um de nós tem a sua mitsvá especial, sua alma distinta.
Com esta alma, ela será ressuscitada.
A maioria das pessoas consegue elevar pelo menos uma parte de sua alma ao
longo de toda a sua vida.
As demais partes da alma que não foram elevadas, reencarnam em outros seres
humanos.
Mas, se a pessoa conseguir elevar o nível de Nefesh inteiro, através de grande
labor e dificuldade, é possível que D'us lhe confira o nível mais elevado de Ruach
que ela então, por sua vez, tentará elevar.
Existe uma diferença monumental entre almas do mais alto nível - as "verdadeiras
almas novas" - e a maioria das almas - as "almas novas".
Se a alma da pessoa for uma das "verdadeiras almas novas", então é possível que
dentro dela haja contido, ao mesmo tempo, todos os três níveis da alma: Nefesh,
Ruach e Neshamá.
Porém, se a alma da pessoa for das "almas novas", então quando o nível inteiro de
Nefesh estiver elevado, e a pessoa receber o nível de Ruach, o nível de Nefesh -
que, agora, está totalmente elevado - deixa o corpo.
Então, a pessoa somente tem o nível de Ruach, e o mesmo acontece se ela elevar o
Ruach inteiro.
Apesar disto, quando todos os níveis da alma foram elevados, é possível que os
três níveis (Nefesh, Ruach e Neshamá elevados) se juntem e permeiem,
simultaneamente, o corpo de uma pessoa.
(Mesmo as "verdadeiras almas novas" não podem atingir o nível de Ruach até que
cheguem à idade de 13 anos; e nem podem atingir o nível de Neshamá antes de
completar 20 anos de idade.)
A forma pela qual uma alma nova recebe uma alma de nível mais elevado pode
acontecer de uma das duas seguintes maneiras: uma é através de grande
dificuldade e labor, e a outra é através do "Yibum".
Yibum é uma lei na Torá que determina que quando um homem morre e não deixa
prole, o seu irmão deve se casar com a viúva e com ela gerar filhos para dar
continuidade ao nome de seu irmão falecido.
A Torá considera isto uma nova edificação.
Conforme a Cabalá, isto significa que ele será considerado um novo homem.
É como se ele agora, por ocasião do casamento, recebesse uma nova alma.
Desta forma, a Cabalá explica: assim como as "verdadeiras almas novas" podem
elevar todas as três partes da alma em um corpo (todas elas podem estar
presentes ao longo de toda a elevação. Os níveis inferiores da alma não deixam o
corpo quando os níveis superiores da alma entram) e elas podem elevar esses
níveis superiores sem dificuldades, assim também é para estes "novos seres
humanos".
Eles podem elevar o nível de Ruach sem quaisquer dificuldades, e podem elevar os
níveis mais altos da Neshamá, enquanto que, ao mesmo tempo, os níveis mais
inferiores de Nefesh ainda estão contidos neles.
Para a maioria das pessoas, a transição entre o Nefesh deixando o corpo e
entrando o Ruach, é algo muito difícil e requer árduo trabalho e labor.
Assim sendo, é concebível que uma pessoa que tenha elevado o seu nível de
Nefesh, e está agora no limiar de receber Ruach, possa decidir estar satisfeita com
o seu nível de espiritualidade (alma) tal como está e não queira passar pelas
dificuldades necessárias para receber Ruach.
Esta pessoa passa a ter, então, um problema: ela não tem alma alguma.
A sua Nefesh partiu e ela não está recebendo Ruach.
Como é possível esta pessoa existir?
A Cabalá explica que, neste contexto, ocorre o "Ibur"; o que equivale a dizer que, o
nível de Ruach de um Tsadik falecido, mesmo que tenha falecido ao tempo
longínquo dos Patriarcas, desce para ocupar o corpo e se torna a sua alma.
(Isto será mais explicado no Capítulo VI.)
Quando todos os três compartimentos da alma, com todas as suas 613 subdivisões,
tiverem sido totalmente elevados, a alma não retornará a este mundo.
Ela jamais voltará a ser reencarnada em outro ser humano.
A Cabalá diz que as almas dos perversos não reencarnam mais do que três vezes.
Isto se explica através do seguinte cenário: Uma alma desce a este mundo físico
pela primeira vez, e a pessoa na qual ela reside é uma pessoa amoral e má, e não
elevou sequer uma só parte da alma.
Então ela volta novamente aqui para baixo por uma segunda e uma terceira vez.
Nas três vezes ela esteve no corpo de uma pessoa má e iníqua, em nenhum desses
três indivíduos elevou sequer uma parte da alma.
Esta alma jamais voltará a descer para ser reencarnada.
Depois de três vezes a alma se torna "cortada".
A alma se dissolve em um nada.
(No entanto, somente a parte mais inferior da alma - Nefesh - pode ser "cortada".
As partes mais elevadas da alma - Ruach e Neshamá -jamais podem ser "cortadas".
Portanto, se elas não foram elevadas na primeira, na segunda ou na terceira vez,
elas ainda podem ser reencarnadas tantas e quantas vezes forem necessárias para
que seja totalmente elevada.)
A alma somente será cortada se cada um dos três indivíduos que a contiver não
elevar sequer uma parte dela; porém, se uma dessas pessoas elevar ao menos
uma parte de Nefesh, então a alma poderá ser reencarnada, até mil vezes.
A ideia de uma alma ser "cortada" depois de três vezes, não significa que ela se
torne completamente cortada, isolada e que morre em total vazio; ao contrário, tal
como explicado, que uma alma humana, depois de tentar três vezes ser elevada
numa forma humana, não voltará novamente aqui para baixo dentro de outro ser
humano; mas sim, em uma criatura inferior, tal como será explicado no capítulo
seguinte.
Ou, tal como consta da Cabalá, uma alma que não tenha sido elevada em três
tentativas, não descerá sozinha para habitar uma forma humana (para ser a alma
no nascimento de um ser humano).
No entanto, ela descerá novamente a este mundo, e residirá um ser humano já
existente, provavelmente um virtuoso Tsadik.
Em vista do acima exposto, concluímos que a alma é multifacetada.
Nela está contida a parte da alma que pertence exclusivamente ao indivíduo, o
"você da alma", que nunca reencarna (muito embora haja raras vezes quando, de
fato, ela reencarna por motivos e razões específicas).
E nela também estão contidas as partes da alma que ainda não foram elevadas,
que reencarnarão muitas vezes até que seja completamente elevada.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 4

Reencarnação Como Punição ou Tikun

A reencarnação de um corpo para outro corpo é uma tarefa longa e árdua de tikun
pela qual a alma passa dezenas, ou até centenas de vezes até encontrar a sua
suprema perfeição e receber as suas recompensas.
Nos capítulos anteriores temos analisado esta jornada da alma com o propósito de
tikun.
Nos capítulos seguintes, estaremos explorando outras áreas da reencarnação e as
suas manifestações.
Se uma alma peca enquanto habita um corpo físico, ela recebe os seus devidos
castigos nos domínios do Guehinom.
Quando falamos de D'us castigando, isto não significa "hora de revidar", mas sim
um tempo de a alma refinar, depurar e limpar.
O Guehinom livra a alma de todas as suas impurezas acumuladas neste mundo
inferior, fazendo com que, desta forma, a alma possa ser purificada e adentre o
Paraíso Eterno.
As punições que a alma recebe no Guehinom são uma manifestação direta das
ações ilícitas praticadas neste mundo.
O pecado é a ação que causa uma reação.
O castigo é causado pela lei de causa e efeito.
No Talmud e no Midrash, fala-se de um Guehinom com chamas flamejantes (que
vem a ser a visão mais popular do "inferno" na cultura Ocidental), e de um
Guehinom de águas congelantes.
(Isto não significa, literalmente, “fogo ou água'', mas sim uma entidade espiritual,
uma existência espiritual desprovida de dimensões físicas.
Empregamos as palavras fogo e água como metáforas, para tornar o conceito mais
tangível e compreensível.)
Estas punições são consequências diretas das ações da alma.
Se a pessoa pecou neste mundo, por exemplo, com fogo e através de fogo, ao
invés de usar a sua paixão inata e amor ardente ao serviço de D'us, ela transgrediu
e utilizou este fogoso amor para uma exacerbada ganância, para o amor ao
materialismo.
Então, o método para a sua purificação e refinamento também deverá acontecer
por meio do fogo.
Para erradicar o fogo profano, precisamos um fogo contrário, um fogo sagrado.
Há uma lei no Shulchan Aruch que diz o seguintes: Usa-se o fogo para remover a
sujeira impregnada num pote pelo fogo (isto é, pelo cozimento).
Sujidade espiritual impregnada pelo fogo deve, igualmente, ser removida com o
fogo.
O mesmo vale quando a pessoa peca pela água, significando frieza, indiferença.
Ela era fria e indiferente a tudo aquilo que é sagrado e Divino.
A purificação desta pessoa também deve ser conseguida por meio do frio.
É sabido que, quando uma pessoa está esfriada e congelando, a maneira de
aquecê-la é esfregar gelo sobre seu corpo.
Tal como diz o axioma talmúdico: "A pessoa é medida por sua própria avaliação".
Além disto, mesmo que a pessoa jamais tenha pecado durante a sua passagem na
terra, ainda assim ela precisará passar por um refinamento para sacudir e eliminar
o materialismo, de tal forma que ela possa entrar nos mundos espirituais
superiores nas Alturas.
Este refinamento é chamado de "Chibut HaKever", golpes no túmulo.
Isto quer dizer que depois que a alma deixa o corpo, o corpo começa, natural e
lentamente a, se decompor.
Quando a alma daquela determinada pessoa vê o seu corpo se deteriorar, isto lhe
traz grande dor e sofrimento, tal como uma pessoa que vê à distância a casa na
qual nascera e onde vivera a vida toda sendo destruída por malfeitores.
Não é uma dor física, mas sim uma enorme dor e angústia psicológicas.
Desnecessário dizer que a quantidade de dor que a alma experimenta dependerá
do quão a alma esteve ligada ao corpo durante a sua estada neste mundo.
Se a pessoa estava excessivamente engajada, ocupada e obcecada com o seu
corpo físico - e com o mundo material em geral - ver o seu próprio corpo
deteriorar-se lentamente poderia ser uma experiência dolorosa, enormemente
aterradora.
No entanto, um Tsadik, que esteve totalmente imerso no espiritual, mesmo
enquanto esteve no mundo físico, poderia nem se importar tanto assim com a
deterioração de seu corpo, pois ele, na verdade, nunca se importou com o seu
corpo, mesmo quando estava neste mundo.
Portanto, diz-se que os Tsadikim não serão incomodados pelo Chibut HaKever.
Há ainda outra forma de purificação e refinamento que se chama "Kaf HaKela", que
é algo parecido com ser "jogado por uma funda de um final do mundo para outro".
A explicação sobre isto é que uma das maiores dádivas que D'us deu à humanidade
é o poder de esquecer.
A capacidade de esquecer é um dos mais importantes ingredientes para um ser
humano saudável.
Imagine uma pessoa possuidora de uma memória fotográfica que, por conseguinte,
jamais esquece coisa alguma.
Se esta pessoa, ao longo de sua vida, passa por períodos extremamente duros e
difíceis e não tem a capacidade de apagar da memória, estas terríveis passagens
vividas estarão sempre diante de seus olhos.
Esta pessoa jamais será capaz de desfrutar e gozar outro momento de verdadeira
felicidade.
Por isso dizemos que é uma verdadeira bênção a nossa capacidade de esquecer;
podemos esquecer lentamente todas as dificuldades por que passamos (e o mesmo
vale para o contrário, se estivermos sempre felizes e contentes, tal como nos
momentos de maior alegria, jamais seremos capazes de lamentar e prantear
quando precisarmos).
Para que possamos viver, nós devemos ser capazes de esquecer.
Assim sendo, esquecer é uma necessidade de vida.
A punição de Kaf HaKela é um castigo de memória.
Quando uma alma deixa esta realidade física e entra nos mundos espirituais
superior, a primeira coisa que ela deve fazer, para se aclimatar nestes mundos
espirituais, é esquecer a materialidade.
Se a alma foi uma pessoa justa durante a sua passagem por este universo e o seu
corpo físico - e o mundo material em geral - nunca teve realmente um grande
significado, então o procedimento de esquecimento do físico será um processo bem
fácil e suave.
De certa forma, foi aspirando a esquecer o físico, sua vida inteira, e lembrar a sua
verdadeira natureza.
Isto é, de onde e de quais níveis elevados ela veio.
No entanto, se ao longo de sua permanência neste universo, ela se esquece de sua
verdadeira realidade - espiritual - e se liga e imerge no físico, o seu refinamento
virá, então, ao não se permitir que esqueça.
É mostrada a beleza dos mundos espirituais superiores e, ao mesmo tempo, não
permitindo que esqueça a inferioridade do mundo físico (que ela agora reconhece
como baixo e insignificante).
A alma está sendo atirada de um final do mundo - o mundo físico, ansiado por ela -
a outro - o mundo de espiritualidade também ansiado por ela.
É como dizer a alguém que ele deve se regozijar num funeral e chorar num
casamento.
Concluindo o acima exposto, vemos que os castigos pelos pecados são aplicados no
Guehinom, e a reencarnação - em geral - não é uma forma de punição, mas sim
um processo de tikun, de elevação.
E a elevação da alma, com todos os seus 613 compartimentos, é feita por meio das
613 mitsvót, praticadas com grande cuidado e intenção.
Caso os 613 compartimentos ainda não tenham sido elevados, a alma deve
retornar a este mundo inferior sob outra forma humana.

Por um breve momento passarei a divagar e explorar em detalhe essas 613 mitsvót
e os efeitos que elas exercem sobre a alma.
Todas as mitsvót estão divididas em cinco categorias.
A primeira categoria envolve as mitsvót que somente podem ser realizadas no
tempo em que o sagrado Templo está em pé; por exemplo, um sacrifício que
somente pode ser ofertado no Templo.
Se a pessoa vive em tempos em que esses sacrifícios não são pertinentes, ser-lhe-á
impossível realizar esta mitsvá e elevar aquela parte específica de sua alma.
A alma, então, não precisará reencarnar para elevar aquela parte.
No entanto, se a pessoa possui um desejo expresso de elevar esta específica parte
de sua alma, ela pode fazê-lo por meio do aprendizado e estudo das leis da Torá
que dizem respeito a esses sacrifícios.
Tal como declara o Talmud: "Aquele que estuda as leis de um sacrifício é
considerado como tendo oferecido aquele sacrifício".
A segunda categoria diz respeito às mitsvót que são aplicáveis sempre, em todos os
tempos e em todos os lugares.
Ainda mais, elas são mitsvót que "precisam ser executadas"; por exemplo, as
mitsvót de ter fé em D'us e de amar a D'us.
Se as partes da alma que estão conectadas a estas mitsvót não forem elevadas, a
alma terá que reencarnar novamente em outro ser humano para que possa ser
elevada.
A terceira categoria de mitsvót é aquela em que elas ocorrem somente em
determinadas situações.
Assim, nós não estamos, de fato, obrigados a exercê-las; somente no caso de a
situação surgir, e é nesta oportunidade que devemos seguir e realizar a mitsvá.
Por exemplo a mitsvá de instalar uma cerca no seu telhado, o que significa que se a
pessoa possui uma casa com um terraço aberto, a mitsvá consiste em erigir uma
"cerca para o telhado".
Se uma alma desce até que esteja totalmente elevada, ainda que reste uma mitsvá
que ela jamais tenha realizado, que é a de fazer uma cerca em seu telhado (sendo
a razão o fato de nunca ter possuído uma casa com cobertura).
Então, a alma não precisa mais ser reencarnada - ela ficará elevada
independentemente disso.
No entanto, o que acontece se a alma está totalmente elevada e a única mitsvá não
realizada é esta em particular, ainda que tivesse havido a oportunidade.
A alma deverá, então, retornar a este mundo até que realize esta mitsvá final.
Apesar disso, quando esta alma vier a reencarnar, ela será, certamente, um Tsadik,
uma pessoa justa - tal como as "verdadeiras almas novas" - pois a alma estará
quase que totalmente elevada, somente faltando esta derradeira mitsvá.
A quarta categoria envolve as mitsvót que o homem não pode realizar sem a
intervenção Divina; por exemplo, a de resgatar o primogênito.
Uma pessoa não tem como controlar o sexo de seu primeiro filho; isto é algo que
somente D'us pode controlar.
Assim sendo, se a alma inteira é elevada, e somente falta esta categoriade mitsvót,
a alma não precisará reencarnar em outro ser humano.
É suficiente que a alma desça em um "ibur" - "gestação" ou "gravidez" (tal como
será ilustrado no capítulo seguinte).
A quinta e última categoria, envolve uma única mitsvá, a da procriação.
Esta mitsvá é singular no aspecto de que, se uma pessoa elevou a sua alma inteira,
mas ainda não elevou a parte correspondente da alma relativa à mitsvá da
procriação, então a alma inteira - mesmo que os 612 compartimentos já tenham
sido elevados - tem que reencarnar para que possa elevar esta parte em particular.
Essas são as cinco categorias de mitsvót.
Porém, há ainda outra forma de mitsvót que não se encaixam em nenhuma destas
categorias; são mitsvót que são estendidas a alguns poucos seletos.
Por exemplo, a mitsvá que é incumbida a um rei para que escreva um Sefer Torá.
As partes da alma que correspondem a esta mitsvá são elevadas através das ações
de um rei.
Quando um rei pratica essas mitsvót, ele não apenas estará elevando a
correspondente parte de sua alma, mas estará, de fato, elevando a nação inteira de
Israel, porque a sua alma é como uma alma geral em relação às almas de seus
súditos.
Atualmente, quando já não existem mais reis, nós podemos realizar estas mitsvót
(tal como cumprimos as mitsvót que apenas podem ser realizadas no Templo
sagrado) por meio de nosso estudo das leis da Torá.

Tudo que discutimos até aqui reforçou o conceito da reencarnação como sendo um
processo de tikun - elevação, e não como uma forma de punição ou castigo.

Como já vimos anteriormente, a punição ou refinamento da alma se dá no


Guehinom.
Apesar de o Guehinom, como um mecanismo de purificação e refinamento, "servir"
de forma excelente para a maioria das almas, para os Tsadikim - os justos, o
Guehinom não tem efeito.
Como afirma o Talmud: "O Fogo do Guehinom não exerce domínio sobre eles".
A Torá que eles aprenderam neste mundo, os protege nos mundos superiores.
No entanto, mesmo o maior entre os Tsadikim, erra às vezes.
Tal como dizia o mais sábio dos homens, o Rei Salomão: "Não existe neste universo
nenhum homem Justo que apenas pratique o bem e que não cometa pecado".
(Neste caso, o pecado não significa de fato uma transgressão literal, mas tem sim
uma conotação de falta, de falha, de uma ação incompleta; pois o verdadeiro
Tsadik jamais transgride, de fato.)
Como é possível que um Tsadik que "peca" seja purificado no Guehinom, se o
Guehinom não tem qualquer prevalência sobre ele?
A Cabalá responde: "Um Tsadik que comete pecado deve reencarnar", e esta
reencarnação é uma forma de punição, que serve para refinar o Tsadik.
A Cabalá acrescenta que há uma outra possível situação na qual a reencarnação é
empregada como forma de punição.
Quando a pessoa comete um pecado tremendamente grave, que é tão devastador
que nenhum castigo pode refinar a sua alma, a punição será então aplicada pela
reencarnação.
O propósito para a sua descida seguinte será o de elevar e retificar aquilo que
fizera em sua encarnação anterior.
Quando esta alma reencarna na pessoa, a pessoa que contém esta alma deve
elevá-la abstendo-se de cometer aquele determinado pecado.
A pergunta é óbvia: como é que a pessoa poderia saber qual é o pecado para o
qual ela deve estar mais atenta e cuidadosa em não transgredir?
Rabi Eliyahu de Vilna, o Gaon de Vilna (1720-1797), escreve em seu comentário ao
Livro de Jonas que uma pessoa cuja alma desceu para se purificar de um
determinado pecado, será capaz, sim, de discernir qual ou quais os pecados que
precisam de purificação, ao examinar a sua natureza e identificar a qual ou quais
pecados ela se sente mais naturalmente inclinada a cometer.
Aquele pecado ao qual ela sente maior dificuldade em se abster, e que exige dela
maior esforço e luta, seria o pecado que demanda purificação.
Ao longo da passagem pela vida, a pessoa se depara com dificuldades em
determinadas questões.
Um traço de caráter que a pessoa acha difícil de controlar, tal como uma raiva
excessiva, é um exemplo disto.
Este é um sinal de que a área que a pessoa acha desafiadora, pode ser a
verdadeira razão para a descida da sua alma para esta terra.
Cada alma tem o seu propósito próprio singular e missão.
Paralelos à importância e magnitude de um objetivo, estão os esforços e desafios
na busca pela sua realização.
No que isto se traduz em nossas próprias vidas, é a capacidade de acolher e
apreciar os desafios que as nossas vidas nos trazem e com eles lidar como se
fossem a verdadeira razão de nossa existência.
Quanto maior o esforço, mais compensadora será a realização.
Esta é a perspectiva de uma pessoa harmonizada com a espiritualidade na vida.

Há ainda outra forma de reencarnação que é um método de punição, qual seja, a


reencarnação de um ser humano em um nível mais baixo na criação - de um ser
humano em um animal, um vegetal ou, até mesmo, numa existência inanimada, tal
como areia ou pedra.
Esta forma de reencarnação é bem diferente da reencarnação de que falávamos até
agora.
Neste tipo de reencarnação, o "eu" da alma, a parte da alma que a pessoa elevou e
com a qual se associou, é a mesma parte que agora se reencarna.
Em vez do "eu" da alma ir para o Guehinom para ser refinada, o "eu" desce
novamente a este mundo inferior para habitar uma criatura inferior.
Por meio desta encarnação a alma estará recebendo o seu castigo adequado.
A alma que reencarna em outro ser humano assim o faz com o propósito de Tikun
e, assim, se torna a nova alma pessoal própria do indivíduo.
Esta alma é uma alma Divina.
É a alma com a qual a pessoa nasceu e com a qual morrerá, e a parte desta alma
que ela elevará, será sua para sempre.
No entanto, pela reencarnação de um ser humano em um ser inferior, a alma entra
em uma criatura existente, que já possui a sua própria alma, e esta alma punida
(penada) não anima o ser, ela meramente reside naquele ser e sofre.
Qual a razão para esta forma de punição, de castigo?
Por que será que a pessoa mereceria este tipo de sofrimento, e como é que isto
serve como um meio de purificação?

A alma desce a este mundo para elevar o físico.


Isto é feito tomando um objeto material, tangível, e elevando-o à santidade
usando-o para uma mitsvá, e com isto elevando as centelhas Divinas que residem
em toda matéria física.
Tal como explicado na Cabalá, toda e cada existência neste mundo, desde a mais
elevada entre as criaturas - os humanos - até as mais inanimadas, contém uma
centelha, uma faísca, Divina.
E o propósito da criação do homem é o de ele elevar todas estas centelhas à sua
fonte original na santidade.
Um exemplo de como isto é feito: uma pessoa pega um animal casher e o abate
em conformidade à halachá e, daí, come a carne com a intenção de usar a força de
seus nutrientes para ajudá-la a servir a D'us.
A partir de então, a carne torna-se elevada de seu estado animal para um estado
de santidade.
Porém, é importante notar que, segundo a Cabalá, se a pessoa ingerir a carne sem
ter qualquer intenção Divina, e ela a come somente para saciar a sua fome, então
não haverá qualquer elevação - não é apenas a carne que não será elevada ao
Divino, ela não a elevará sequer ao nível do homem.
Por isso o Talmud declara: "Uma pessoa iletrada não deveria comer carne".
Uma pessoa que come carne apenas para saciar a sua própria fome deveria abster-
se de comê-la, pois ela não estará realizando qualquer forma de elevação por meio
do consumo do alimento, e, sem esta elevação, ela não será melhor do que o
animal que ela ingere.
Apesar disto, lhe é permitido se alimentar do reino vegetal, uma vez que o homem
precisa se alimentar para sobreviver.
Este processo de elevação é realizado através de todo mandamento positivo que a
pessoa cumprir.
No entanto, como é que a pessoa eleva aquilo que a Torá nos proíbe?
Assim como existe a elevação por meio da ação positiva, há também elevação
através das "não-ações" negativas.
Esta é a elevação por “Dechiyá”, esquiva, ou recusa.
Pela recusa e pelo evitar destas entidades impuras, a pessoa as eleva.
Assim como há a capacidade de elevar aquilo que é baixo, inversamente, a pessoa
pode rebaixar-se ao nível daquilo com que tem contato.
O homem, o animal racional, um ser intelectual, deveria ser dirigido por sua
inteligência.
Todavia, o homem tem a liberdade de escolha de agir - se ele assim o quiser -
como um animal; ser dirigido por sua alma Animal e, assim, agir instintivamente
em vez de intelectualmente, e de ser conduzido pela pura emoção.
Assim como foi anteriormente mencionado, os instintos naturais do ser humano ou
a sua alma Animal, não são, necessariamente, maus ou malévolos.
São, sim, egoístas e egocêntricos.
No entanto, estes instintos podem, potencialmente, levar a pessoa ao verdadeiro
mal; por exemplo, para que possa sobreviver, a pessoa pode sentir a necessidade
de cometer um crime.
O Midrash declara: "Os ímpios são escravizados por suas emoções".
O intelecto desses é controlado por seus sentimentos; as suas mentes estão em
poder de seus corações.
Ademais, um ser humano tem a opção de escolha de rebaixar-se ainda mais, de
descer ao nível do inanimado, do ser inorgânico.
Ele pode escolher se comportar como uma pedra, ser totalmente frio e indiferente,
sem quaisquer emoções, no que se refere à santidade.
Assim como todos os castigos e punições são uma consequência direta das ações
praticadas pela pessoa, esses castigos também o são.
Se a pessoa se rebaixou e agiu como um animal, então o seu refinamento chega
através da reencarnação em um animal.
Se a pessoa se comportou como uma pedra, então esta pessoa deverá reencarnar
em uma pedra.
O Rebe Chassídico, Rabi Pinchas de Korits (1728-1791), disse certa vez em tom
jocoso, que uma pessoa convencida será reencarnada em uma abelha ruidosa,
porque esta pessoa diz o tempo todo: "eu sou isso" e "eu sou aquilo".
Em iídiche, ela diria: "Ich Bin, Ich Bin".
A palavra "bin", em iídiche, é traduzida por "abelha".
Portanto, como disse Reb Pinchas, como aquela pessoa fica dizendo o tempo todo
"Ich Bin", que traduzido fica: "Eu Sou Uma Abelha", ela finalmente se torna -
através da reencarnação - uma abelha.
Estas reencarnações representam um tremendo castigo, uma enorme penalidade,
para a alma devido a imensa dor que a alma sofre quando reencarnada num animal
ou em algo inanimado.
A alma sofre psicologicamente, ela fica envergonhada e constrangida por ser uma
alma humana agora na forma de um animal ou de uma criatura inferior.
A analogia que se apresenta é a de um homem sábio que cometeu pecado e que,
como forma de castigo, foi acorrentado a um tolo de tal forma que terá que
compartilhar com aquele todas as experiências da vida.
Além de seu sofrimento psicológico, há também uma dor real, tangível, que a alma
enfrenta (tanto quanto seja possível em relação à entidade espiritual).
O sofrimento da alma humana presa em um ser inferior é tremendo.
É a dor de um confinamento que limita a capacidade de a pessoa se expressar.
Para que seja possível compreender e avaliar a profundidade deste refinamento,
devemos entender a "construção" da alma e a real natureza da própria alma.
Falamos da inteligência da alma, de suas emoções, desejos, anseios, e assim por
diante.
Porém, esta não é a essência da alma; estas são apenas manifestações daquilo que
a alma realmente é.
Apesar disso, as manifestações que afloram vindas da essência, têm uma existência
na essência da alma ainda antes de se manifestarem, embora na essência elas
ainda não estejam reveladas.
Assim, para que estas manifestações da alma se revelarem, elas precisam de
recipientes adequados, elas precisam de Kelim apropriados.
O formato físico do corpo humano acomoda o formato espiritual da alma e, por
conseguinte, capacita-a a se expressar.
A Torá declara: "Pois a porção do Eterno é o seu povo".
Assim como o Nome de D'us (o Tetragrama) é dividido em quatro letras - a
  
primeira letra o Yud ( ), a segunda o Hei ( ), depois o Vav ( ) e, finalmente, outro

Hei ( ).
O mesmo acontece com a alma humana; ela geralmente está dividida em quatro
compartimentos.
O Yud - que é apenas um pequeno ponto - representa no homem o nível de
Chochmá - sabedoria, a intuição dos pensamentos, pois quando o pensamento
entra primeiramente na mente, ele não passa de um pequeno pontinho (ele ainda
não é um pensamento plenamente entendido, ele não se estende).
A letra seguinte, o Hei, que é uma letra mais larga e mais espaçosa; ela se estende
mais e é mais ampla.
Esta representa no homem o nível de Biná - compreensão.
Neste nível o pensamento se torna formulado em pensamentos compreensivos, e
que aumentam em amplitude e em distância.
A terceira letra, a letra Vav, representa o atributo da emoção.
As emoções da alma derivam do intelecto.
O pensamento é internalizado, levado para baixo, dentro do nível da pessoa,
semelhante à letra Vav, que tem apenas comprimento, representando a ideia de
tomar das Alturas e trazer para baixo.
A última letra, o Hei, é novamente uma letra com largura e comprimento; assim,
ela representa no homem o nível de Malchut - soberania, domínio, expandindo a
majestosa influência da pessoa em largura e extensão.
Assim como as quatro letras do Nome de D'us correspondem às quatro divisões da
alma, elas também correspondem à estrutura física do corpo.
O corpo humano se divide em quatro partes.
A cabeça do ser humano corresponde à letra Yud (o ponto superior).
O comprimento do corpo humano corresponde à letra Vav (uma letra longa).
Os cinco dedos do homem correspondem à letra Hei (pois Hei é o número cinco nos
algarismos hebraicos).
E os cinco dedos do pé do homem correspondem à segunda letra Hei.
Assim, o corpo do ser humano foi projetado e criado para encaixar a alma humana.
Além disto, está explicado que, até mesmo os níveis da alma específicos têm o seu
lugar exclusivo onde se manifestam no corpo; por exemplo, mesmo as várias
divisões da inteligência têm diferentes localizações no cérebro físico: Chochmá -
sabedoria, intuição, ou pensamentos intuitivos; e Biná - entendimento, formulação
e compreensão dos pensamentos.
Há uma parte do cérebro para o nível de Chochmá, e uma outra parte para Biná.
Toda criatura física neste mundo tem dois elementos: a real existência - o simples
fato de ela existir; e a sua específica forma e formato, que D'us cria para a
existência.
A Chassidut explica que, em certo sentido, a forma e o formato de cada existência
ocasiona o seu Bitul - a nulificação (anulação) do "eu", ou seja, a sua capacidade
de reconhecer a Divindade.
A sua real existência (Yesh), parece ter ocorrido por si só, sem intervenção Divina.
Mas ao reconhecer a sua própria forma e formato físico, que é diretamente análogo
à sua alma, a que a anima e lhe dá vida, ela se apercebe de sua alma e, por meio
deste reconhecimento, ela se apercebe de sua verdadeira e real origem e fonte.
Podemos agora começar a entender a imensa dor e sofrimento pela qual a alma
passa dentro de um ser inferior.
Para a essência da alma, não faz diferença alguma onde é que ela está localizada;
mesmo no corpo de um ser humano, ela não se expressa, ela apenas existe.
No entanto, a parte da alma que se expressa, seja por meio do intelecto ou por
meio da emoção, sofre tremendamente quando habita um ser que não tem como
expressar apropriadamente as suas qualidades.
A natureza da alma é a de se revelar, e este castigo é contrário à sua verdadeira
natureza.
É como se pegássemos um homem livre e o encarcerássemos em uma prisão,
preso e incapaz de se libertar.
Quando a alma habita em um animal, ela tem um espaço limitado para expressão,
pois um animal tem alguma forma de inteligência e emoção.
No entanto, quando a alma reencarna em uma criatura inanimada - como, por
exemplo, uma pedra - o sofrimento é enorme, pois esta não tem qualquer forma de
ou dispositivo de expressão; uma pedra não tem nem inteligência e nem emoção.
Assim, entendemos que quanto mais baixo a alma reencarna, maior é a sua dor.
Entretanto, devemos reiterar que este não é um ato de vingança ou desforra por
parte de D'us.
É um processo de purificação e, assim sendo, é um ato de bondade por parte de
D'us.
O estimado rabino do século XVII em Amsterdã, Rabi Menashe ben Israel, escreve
que a palavra "guilgul", em letras Hebraicas, tem um valor numérico que
corresponde à palavra Hebraica "Chessed", que significa "bondade".
Isto denota que as reencarnações são, na verdade, atos de bondade.
A duração do período que a alma fica no ser inferior depende do pecado pelo qual
está sendo purificada.
Se acontecer de o ser inferior que a alma está ocupando morrer durante a sua
sentença, a alma será transplantada para algum outro animal vivo.
Depois de alma ter cumprido a sua sentença habitando um ser inferior, ela ainda
não completou todas as suas elevações (a menos que estivesse no reino animal).
Se a alma estava num ser inanimado, ela ainda precisará passar pelo reino vegetal
e, somente então, pelo reino animal, e só assim, então, terá ela completado as
suas elevações, e assim por diante.
(É possível somente elevar um nível de cada vez, e ela deve elevar todos os três
reinos passados.)
Além disso, existe ainda uma determinada época do ano quando cada um destes
níveis pode ser elevado.
Por exemplo, se a alma foi reencarnada em uma criatura inanimada, e a punição foi
para um período de cinco anos, na data de término deste período (quando cumpre-
se os cinco anos), a alma não será automaticamente elevada ao nível do
vegetativo, uma vez que existem determinados meses do ano em que as almas que
habitam o inanimado são elevadas daqueles níveis.
E existem meses especiais do ano em que as almas são elevadas do vegetativo, e
existem épocas de elevação para almas no reino animal.
O ano, que se compõe de doze meses, está dividido em três grupos: os primeiros
quatro meses, os quatro meses centrais, e os quatro meses finais.
Assim, se (por exemplo) uma alma desce dentro de uma pedra no primeiro mês do
ano, no mês de Nissan, por cinco anos, então, decorridos os cinco anos a alma
deve aguardar um pouco (outros quatro meses) até que cheguem os quatro meses
centrais do ano, pois é nesses meses que as almas ascendem do reino inanimado.
E se a alma reencarna em um vegetal por um período de cinco anos, no sexto mês
de Elul, depois de cinco anos, a alma terá que aguardar até a chegada dos
primeiros quatro meses do ano.
Assim, a alma terá que esperar ainda outros seis meses até a chegada do primeiro
dos quatro primeiros meses para ser elevada.
E, da mesma forma, se a alma foi reencarnada em um animal no primeiro mês do
ano, no mês de Nissan, por um período de cinco anos, decorridos os cinco anos, a
alma terá que esperar outros oito meses até que chegue o primeiro dos últimos
quatro meses do anos
Todas essas elevações ocorrerão automaticamente, em seu tempo determinado.
Porém, com a intervenção do homem, o período da sentença pode ser reduzido.
Se um ser humano come a carne de um animal que contém dentro dele uma alma
humana, ele poderá elevar a alma mesmo antes do tempo que havia sido
estabelecido para sua purificação.
Ademais, se há uma alma dentro de um vegetal, e a pessoa o ingerir, ela não
somente poderá elevar a alma antes de expirado o seu período estabelecido, mas
pode também elevar a alma em dois níveis de uma só vez.
Pela ingestão daquele vegetal, ela eleva a alma do nível dos vegetais ao nível dos
humanos, "pulando" o nível dos animais.
E, se por acaso, no vegetal houver uma pitada de areia (o inanimado) que
contenha em si uma alma humana, ela poderá então elevar a alma existente na
areia por todos os três níveis de uma só vez, passando do inorgânico ao humano.
Porém, na Cabalá, está dito claramente que, para elevar a alma de alguém
reencarnado numa criatura inferior, a pessoa que ingere o alimento deverá ter
alguma forma de conexão com a alma daquilo que está consumindo.
Ambas devem compartilhar a mesma raiz de alma, ambas devem se originar da
mesma área da alma geral de Adão.
Se a pessoa quiser elevar a alma humana contida no alimento, ela deve consumir o
alimento com intenções mais elevadas, com Cavaná, ou seja, com a intenção de
que, por meio da ingestão daquele alimento físico que o corpo precisa, ela terá
então um corpo mais saudável com o qual servir a D'us.
Mas, se, no entanto, a pessoa comer um pedaço de pão com a alma de um humano
nele contido, e não tiver quaisquer intenções, então, embora tenha ocorrido uma
elevação da alma, não terá sido uma elevação positiva.
Ao contrário, ela será uma elevação negativa, pois a alma que existia naquele
alimento estaria agora elevada ao nível de pessoa num sentido negativo.
Assim, somente problemas ocorrerão e, além disso, poderá afetar e prejudicar a
espiritualidade daquele que comeu.
Por isso, o Talmud declara: "Uma pessoa iletrada não deveria comer carne".
No entanto, não existe uma norma ou regra contra a ingestão de vegetais, embora
seja possível que houvesse alguma alma humana neles.
Essas elevações que ocorrem antes que o período estabelecido para alma se
esgote, também podem ser cumpridas pelos próprios animais.
Se um animal come um vegetal que contém dentro de si uma alma humana, o
animal poderá elevar a alma ao nível do reino animal.
Embora o animal não consuma o vegetal com uma intenção Divina, os animais não
possuem o livre arbítrio e, assim sendo, tudo aquilo que fazem é uma manifestação
direta da vontade de D'us, pois eles não têm qualquer outra vontade e, portanto, a
sua alimentação também pode elevar.
Somente os pecadores e transgressores extremos, aqueles que cometeram os mais
terríveis e atrozes pecados, são castigados com a reencarnação em um ser inferior.
Rabi Chayim Vital estabelece que quando estes transgressores morrem, eles vão
primeiramente para o Guehinom, sendo que isto não é o suficiente para os purificar
de seus pecados; e, por isso, eles devem descer para dentro de seres inferiores.
Ademais, existem pecadores que sequer são merecedores de entrar no Guehinom
(que é uma punição bem mais suave).
Essas almas retornam para este mundo inferior imediatamente após a sua morte e,
através de suas reencarnações cá em baixo, elas recebem os seus refinamentos
adequados, até que, finalmente, elas também estejam aptas a adentrar ao Gan
Éden.
Até mesmo o maior dos pecadores acaba, inevitavelmente, entrando no Paraíso.
Como diz o Profeta: "para que não fique banido Dele o Seu desterrado".
Mesmo que leve uma ou mais reencarnações até que a sua alma seja
suficientemente merecedora para entrar no Paraíso, todas as almas acabarão,
finalmente, entrando.
O Guehinom não tem qualquer efeito sobre os transgressores extremos e,
inversamente, também não tem qualquer efeito sobre um grande Tsadik.
Como os Tsadikim não podem ser afetados pelo Guehinom, caso venham a precisar
de purificação, eles deverão também descer em um ser inferior, mas por um
período mais curto e num nível mais elevado de criatura.
Na Cabalá está dito que os Tsadikim reencarnam em um peixe.

Em suma, existem duas formas principais de reencarnação.


A primeira é a reencarnação de um ser humano em outro, com o propósito de
Tikun.
(Essa reencarnação se aplica à maioria das pessoas, pois existem poucas pessoas -
se é que existe alguma -que podem elevar todas as três divisões da alma, com
todas as 613 subdivisões.).
A segunda forma de reencarnação é a reencarnação como uma forma de castigo e
refinamento.
Este tipo de reencarnação se dá de um ser humano para uma criatura inferior.
A maioria das almas não reencarna deste modo.
Este somente se aplica tanto a um grande Tsadik, sobre quem o Guehinom não
exerce qualquer influência, ou a um grande transgressor, para quem o Guehinom
não é suficiente.
"O poder da teshuvá é tamanho que o seu alcance vai muito além daquele da
purificação por meio da reencarnação".
O potencial de purificação por meio da reencarnação é verdadeiramente grande;
mas, ainda assim, é algo pálido quando comparado ao impressionante poder e
força da teshuvá.
Através de um genuíno suspiro de remorso, a pessoa retorna à sua verdadeira
fonte de santidade e apaga toda a negatividade, conseguindo realizar mais do que
séculos de reencarnações.
Além das duas formas principais de reencarnação, existem outros casos que
precisam de reencarnação.
Existe outra forma de reencarnação em humanos que não é nem por Tikun e nem
por castigo.
Esta forma de reencarnação ocorre quando a alma de uma pessoa reencarna com o
propósito de ajudar outro humano a alcançar sua própria elevação.
Este tipo de reencarnação acontece com uma alma que tenha completado todas as
elevações (Tikun) necessárias para toda sua Nefesh, Ruach e Neshama.
Ela se reencarna para ajudar e guiar outra alma, não elevada, cuja alma vem da
mesma fonte da alma elevada (por exemplo, ambas as almas provêm da alma
geral de Adão, e de dentro daquela alma geral, ambas partem das mãos de Adão).
A razão pela qual essa alma reencarna para ajudar outra alma não elevada é que
elas compartilham as mesmas raízes de alma de dentro da alma geral de Adão e,
assim sendo, são responsáveis, uma pela outra.
Existe uma alma que é chamada de "alma universal".
Esta alma está ligada a todas as almas, e também pode se reencarnar somente
com o propósito de ajudar outras almas a conseguirem a sua própria elevação.
Uma alma universal tem a responsabilidade por todas as almas, sendo que ela está
conectada a todas as almas.
Quando essa "alma universal" reencarna para ajudar outras pessoas a alcançar as
suas elevações, é garantido que esta alma elevada não pecará e estará inclinada a
praticar somente o bem.
Ademais, esta "alma universal" pode atingir todos os três níveis da alma de
maneira muito fácil, mesmo ainda numa idade bastante tenra, quando ainda é uma
criança.
Este fenômeno é denominado, na Cabalá, "Yenuka", um prodígio espiritual.
Há ainda outra causa para a reencarnação em outro ser humano: é a reencarnação
para o cônjuge da pessoa.
Se, por exemplo, um homem deve reencarnar devido ao status não elevado de sua
alma, mas a sua esposa já tenha completamente elevado a sua alma, então,
supondo que o marido tenha um significante "Zechut" ("mérito"), a alma de sua
esposa se encarnará com ele, para viver com o seu marido, sua verdadeira alma
gêmea.
Um fenômeno interessante discutido na literatura cabalista é a descida de múltiplas
almas que emergem e formam uma alma unificada dentro de uma só pessoa.
Ademais, cada uma destas almas pode ter um propósito diferente, uma razão
singular para reencarnar.
Rabi Chayim Vital escreve que a sua própria alma é um composto de três almas de
Tsadikim, que transgrediram (em seu nível) e, por isso, tiveram que reencarnar
novamente para receber as suas adequadas punições.
Ele também escreve sobre si mesmo em outro lugar, que a sua alma é uma alma
nova, que desceu a este mundo pela primeiríssima vez.
Quando Rabi Vital fala de sua "alma nova", ele na verdade está se referindo à sua
singular personalidade, o "eu da alma".
Esta é a parte da alma com a qual ele se associou e conectou.
Esta alma era uma alma que nunca antes descera a este mundo.
No entanto, junto com a sua alma por ocasião de seu nascimento, vieram as almas
de três Tsadikim já falecidos.
Elas se conectaram com a alma nova de Rabi Chayim e desceram a este mundo
para poderem, aqui, receber os seus adequados castigos.
Assim, enquanto a sua distinta alma desceu a este mundo com o propósito de
elevação (Tikun), as almas desses três Tsadikim desceram com o propósito de
purificação.
Assim como consiste numa terrível punição que uma alma humana reencarne em
uma criatura inferior, por a alma não poder se expressar e se revelar, o mesmo
acontece com almas humanas que reencarnam em outras almas humanas, pois
estas almas, essas personalidades anteriores dos três Tsadikim estão agora
reencarnadas em outro ser humano, outra personalidade que expressa e revela sua
alma própria e singular, seus traços singulares.
Consequentemente, estas três almas estão agora encarceradas, pois não podem
expressar as suas próprias personalidades, seus próprios traços.
Uma alma que reencarna em um ser humano como um castigo, deve ter uma
conexão com a alma do homem no qual habita, ou seja, elas devem partir da
mesma origem, da mesma fonte, na alma geral de Adão.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 5

Diferentes Formas de Reencarnação: Ibur e Dibuk

Há outra forma de reencarnação que é chamada na Cabalá de "Guilgul Kaful" -


"reencarnação dupla".
A Cabalá explica que isto se refere a um Tsadik que tenha elevado completamente
toda a sua alma; mas que cometeu um pecado menor, pouco importante.
O "eu" de sua alma terá, então, que se reencarnar noutro ser humano para que
possa corrigir e retificar a sua transgressão.
No entanto, esta forma de reencarnação é muito diferente das reencarnações sobre
as quais tratamos no capítulo anterior.
No capítulo anterior falávamos de três almas de Tsadikim que reencarnaram na
alma de Rabi Chayim Vital.
A diferença entre esta forma de reencarnação e a "reencarnação dupla" é que, no
caso de Rabi Chayim, todas as quatro almas, incluindo a sua própria, formaram
uma alma coletiva.
No entanto, neste caso, a alma do Tsadik que foi reencarnada nunca se tornará
parte da alma da pessoa; a sua alma será como um "convidado visitante".
Depois que esta alma conseguir a sua adequada purificação, a alma deixará o corpo
para entrar no Gan Éden.
Porém, as três almas dos Tsadikim dentro do Rabi Chayim foram instadas a
permanecer nele ao longo de toda a sua vida.
Elas não tiveram a opção de sair, pois eram uma única alma unificada.
Ambas as situações acima são denominadas de reencarnação.
Por definição, a reencarnação (entre humanos) requer que a alma esteja presente
no corpo que ela reencarna na hora do nascimento.
Faz parte do tópico geral que se refere à viagem da alma o conceito de "ibur" -
"gestação" ou "gravidez".
Assim como uma mulher grávida tem dentro de si uma nova vida, que é um
acréscimo ao seu próprio ser, também o mesmo acontece com estes tipos de
"reencarnações".
É possível que ao longo da vida de uma pessoa a alma de outro ser humano seja
"impregnada" na alma própria daquela pessoa.
Uma alma será acrescentada à sua existência; uma alma que não nasceu junto com
aquela pessoa descerá em sua alma.
(Segundo a Cabalá, o ibur somente pode ocorrer na maturidade, que é de 13 anos
para os meninos e de 12 anos para as meninas.)
Geralmente existem dois tipos de ibur.
Um é quando a alma que impregna o faz para ajudar a pessoa dentro da qual ela
desce.
Por exemplo, uma pessoa com uma "alma nova" comum, que já tenha elevado todo
o seu nível de Nefesh, e que agora deve alcançar os níveis mais elevados da alma
através de grandes dificuldades (ou por meio do "Yibum" - "casamento em
levirato").
Ela segue no limiar, pois ainda não alcançou o novo nível de alma; então a alma de
um elevado Tsadik descerá para nela se impregnar, até que sua alma fique como a
alma daquele Tsadik.
De acordo com este conceito, Rabi Shneur Zalman (o Primeiro Rebe de Chabad)
responde ao famoso paradoxo no Tanya.
Antes de uma alma descer aqui para baixo, D'us a faz jurar que ela será um Tsadik.
No entanto, isto parece contradizer o dito: "Tu, Senhor, criaste o justo".
(Ou seja, existem almas especiais criadas para serem Tsadikim!)
O Rebe explica que, através de trabalho duro e árduo, é possível que a alma de um
Tsadik falecido desça e se impregne na pessoa e, ao seu devido tempo, possa se
tornar - tal como havia jurado antes de seu nascimento - um Tsadik.
Tudo isso que acabamos de discutir se refere ao primeiro tipo de ibur.
O segundo tipo de ibur diz respeito a uma pessoa que se distingue numa
determinada mitsvá e a pratica com tremendo cuidado e vigilância.
É possível para a alma de um Tsadik que, ao longo de sua vida, se distinguiu nesta
mesma área, impregnar a alma desta pessoa, mesmo antes de ela terminar de
elevar a sua Nefesh inteira.
Além disto, é provável que um Tsadik que ainda esteja vivo seja impregnado em
outro ser humano vivo.
Ambos estão vivos, e ao mesmo tempo, a alma de um ser humano vivo - o Tsadik -
fica impregnado em outro ser humano vivo.
Tal como diz a Torá em relação ao amor do Rei David por Jonathan: "a alma de
Jonathan se ligou com a alma de David", que a Cabalá explica querer dizer que
literalmente as almas destes dois amigos se juntaram, tornando-se uma.
Enquanto viva, a alma de David estava impregnada na alma de seu amado amigo
Jonathan, e se tornaram uma só.
Embora seja possível que a alma de um Tsadik vivo impregne outra pessoa viva, a
parte da alma que impregna não é a verdadeira alma do Tsadik, é somente um
espírito e sombra de sua alma.
Também é possível que uma pessoa vivencie um ibur de sua própria alma.
Isto significa que, se a pessoa for suficientemente valorosa e merecer assistência
espiritual, então as partes de sua alma que já foram elevadas em vidas passadas,
podem agora impregnar a sua alma, para ajudar na elevação de sua alma.
É possível ao "positivo" de suas reencarnações anteriores descer à sua alma para
ajudá-la a conseguir as suas elevações.
"Positivo", significando os compartimentos elevados de sua alma.
Em todos estes níveis de ibur, a alma que fica impregnada, vivencia o seguinte:
É como um visitante no corpo que habita e, assim, pode vir e ir do corpo conforme
queira.
Ela não fica confinada ao corpo.
Ela não sente qualquer dor ou desconforto por habitar o corpo (contrariamente à
dor e sofrimento experimentado com o Guilgul).
Ela pode ganhar espiritualidade ao habitar o corpo.
Isto significa que ela somente conquista as recompensas e não as punições.
Isto acontece porque esta alma habita o corpo somente para fazer o bem, para
ajudar na elevação.
Assim, quando ela sentir que, por habitar este corpo, a sua espiritualidade poderia
ficar afetada, ela imediatamente deixa o corpo.
Estas formas de ibur que acabamos de mencionar são para ajudar a pessoa na qual
a alma entrou.
Existe outra forma de ibur que é uma punição.
Por exemplo, um Tsadik que somente cometeu um único pecado menor ao longo de
toda a sua vida precisa ser purificado e refinado, mas as punições do Guehinom
não têm qualquer efeito sobre a sua alma.
Neste caso, é possível que esta alma se torne impregnada em outro ser humano
existente.
Não obstante, isto não é chamado de Guilgul (reencarnação), mas sim de ibur
(impregnação).
Por definição, Guilgul significa que a alma reencarnada nasce junto com o corpo.
No entanto, no cenário acima mencionado, ibur é uma forma de punição ao Tsadik,
a alma não é como um visitante.
Ela não pode vir e ir ao seu bel prazer, e ela sente toda dor sofrida pelo corpo em
que ela habita.
Em todas estas formas de ibur, as almas que coexistem são conectadas e se
originam de uma mesma origem, na alma geral de Adão.
Há o ibur para ajudar a alma de maneira positiva, apesar de o ibur ter o potencial
de também causar problemas espirituais.
Por exemplo, uma pessoa que é uma pecadora, pode ser impregnada com a alma
de um pecador já falecido para quem o Guehinom não foi um castigo suficiente.
Esta alma impregnará o seu corpo e a levará a passar por dificuldades espirituais.
Para que duas almas possam coexistir em um só ser, deve haver uma terceira alma
que as una.
Portanto, esta pessoa passa a ter, agora, três almas habitando o seu corpo: a sua
alma, a alma de um Tsadik já falecido (ou as suas próprias partes anteriormente
elevadas), e a terceira alma que une a ambas.
Com três almas é de se esperar que agora esta pessoa possa alcançar grandes
níveis espirituais.
Ademais, a Cabalá diz que esta terceira alma deve ser uma alma bastante elevada.
Deve ser uma alma que nunca tenha descido antes a este mundo inferior.
Além disso, a Cabalá estabelece que, a pessoa precisa na verdade de uma quarta
alma para supervisionar e assegurar que a terceira alma faça aquilo que tem de
fazer.
Falávamos de ibur como uma forma de punição para imperfeições suaves que não
requerem uma reencarnação completa, mas que ainda precisam de refinamento.
Há um caso bem documentado deste tipo de ibur que envolve dez grandes sábios
Talmúdicos do século II.
Nas orações de Yom Kipur, nós contamos a sua história.

Havia dez grandes sábios Talmúdicos que foram assassinados brutalmente para
retificar e purificar as almas dos dez filhos de Yaacov que venderam seu irmão José
como um escravo.
Está dito que estes dez sábios possuíam as almas dos dez filhos de Yaacov.
Disto podemos inferir que os dez sábios eram reencarnações das dez almas e
receberam a sua purificação por meio de suas terríveis mortes.
No entanto, esta suposição cria um paradoxo.
No Zôhar está claramente afirmado que "jamais deve ser dito que os sagrados
filhos de Yaacov eram merecedores de alguma forma de castigo e, ainda que
tivessem pecado, eles certamente fizeram a apropriada teshuvá, arrependimento,
enquanto estavam nesta terra e, definitivamente, não eram merecedores de
reencarnação como um castigo ou punição".
Assim, como é que podemos reconciliar estas duas declarações opostas da Cabalá?
Eles precisaram ser reencarnados para receber um castigo, ou não?
A Cabalá resolve essa aparente incoerência explicando que, na verdade, as almas
dos dez filhos de Yaacov não se reencarnaram naqueles dez sábios, mas que, sim,
foram impregnadas em suas almas.
Portanto, os dez filhos sofreram apenas de forma leve através das mortes dos
sábios, e completaram o propósito de sua descida, ou seja, o refinamento e a
elevação de suas almas, de suas pequenas imperfeições.
Conforme mencionado anteriormente, a diferença entre Guilgul e ibur é que
reencarnações - guilgul são por ocasião do nascimento; enquanto que
ibur-impregnação pode ocorrer muitos anos depois do nascimento da pessoa.
Esta é a diferença entre elas; mas elas são parecidas porquanto todas essas almas
se unem num só corpo, formando uma alma unificada.
Apesar de a alma impregnar num corpo existente e poder vir e ir como melhor lhe
aprouver, enquanto ela habitar naquela pessoa, ela se une à outra alma e se torna
parte dela, tanto assim que a pessoa pode até nem sentir que tem uma alma extra.
Mesmo que a pessoa sinta que existe uma alma extra, ela não sente isto como uma
invasão em seu corpo.
Ela sente como se fosse uma parte dela mesma.
Há um antigo costume que é praticado no dia que antecede o Yom Kipur.
Cada pessoa pega um animal vivo (normalmente um peixe ou uma galinha) como
uma expiação pelos pecados cometidos.
Isto é chamado de "Kaparot".
A lei, no que diz respeito a uma mulher grávida, é que ela deve levar uma galinha
extra a título de expiação pela criança não nata que ela carrega em seu ventre:
ainda que a criança não tenha nascido e que nem sequer tenha uma vida à parte.
Mas que pecados ou transgressões ela poderia cometer no ventre de sua mãe?
Por que é que ela precisa de expiação?
A explicação é a seguinte: uma mulher grávida se torna como se fosse dois seres
humanos - a sua alma, a sua personalidade, ficou como se se tratasse de duas
pessoas.
Ela passa agora a ter dois corpos, o seu próprio, com todos os seus órgãos e
artérias vitais, e o corpo que ela carrega com todos os seus órgãos e vida.
Portanto, se ela pecou enquanto grávida, é como se os dois indivíduos tivessem
cometido aquele pecado.
O mesmo acontece com o ibur.
A alma que está impregnada na pessoa se torna conectada com a sua alma.
Ela passa agora a ser considerada como se a pessoa tivesse duas existências e,
assim, a alma extra não se sente extra, e a pessoa não se sente possuída por uma
alma estranha.

Porém, existe uma outra forma de impregnação que é chamada de "dibuk",


literalmente traduzida como "encosto".
Normalmente ela se refere a algo como "possuída".
Isto significa que uma pessoa fica possuída pela alma de outra pessoa, ou por um
espírito maligno.
Este dibuk é uma alma separada que nunca se unifica com a própria alma da
pessoa, com a distinta personalidade da pessoa.
Consequentemente, quando uma pessoa está possuída por esta outra alma, ela
sente que algo externo à sua própria existência está agora presente, habitando e
funcionando dentro de seu corpo.
A noção de um homem sendo possuído por entidades externas - almas ou espíritos
malévolos - é uma crença antiga encontrada em várias culturas, em muitas
civilizações.
Foi descoberto que, em muitas civilizações primitivas havia vários e diferentes
rituais com os quais os antigos acreditavam poder expulsar estes maus espíritos.
Por exemplo: cantando, dançando, batendo palmas, ou queimando diferentes
incensos, e assim por diante.
Na Torá, refere-se a este conceito como um "Ruach Raá", um "espírito malévolo".
Podemos encontrar isto mencionado em relação ao primeiro rei de Israel, o Rei
Saul, quando este sofria de profunda depressão.
Está dito na Torá: "Então os criados de Saul lhe disseram: Eis que um mau espírito
de D'us te atormenta".
No Talmud isto também é chamado de "espírito mau", e há uma discussão que diz
assim: "Se uma pessoa viajar para além dos limites estabelecidos no Shabat
(segundo a lei da Torá, a pessoa não pode ir para além dos limites da cidade na
qual reside) enquanto estiver possuída por um espírito mau, não terá sido ela que
ultrapassou os limites da cidade, foi sim o espírito mau existente dentro dela que a
impeliu a realizar a ação. Se depois disso ela voltar a seu estado mental normal, e
quiser reentrar na cidade, ser-lhe-á permitido fazê-lo?"
Antigamente, este fenômeno de impregnação de um espírito malévolo era chamado
de Ruach Raá, que tanto pode significar um demônio, como o espírito da morte.
Porém, a partir de cerca do século XVIII, este fenômeno passou a ser conhecido
por "dibuk".
A palavra "dibuk" significa "juntar-se", assim dando a conotação de que outro
espírito se conecta com a alma da pessoa, com a sua existência.
Este conceito de dibuk popularizou-se por uma peça iídiche escrita por S. Anski
(a.k.a. Solomon Rapopurt).
A peça se chamava "O Dibuk".
Mais tarde se tornou uma peça em iídiche, depois uma peça em hebraico, depois
em um filme, e posteriormente foi adaptado como um show na Broadway.
O resumo da história é o seguinte.
Era uma vez, dois amigos.
Quando as suas esposas engravidaram, eles fizeram um trato: se um deles tivesse
um menino e o outro uma menina, os filhos acabariam se casando.
Pouco tempo depois do acordo feito, um dos amigos deixou a cidade com a sua
esposa para cuidar de um assunto comercial.
Enquanto viajavam, o marido foi assassinado e a sua esposa acabou se fixando em
outra cidade e ali deu à luz um menino, enquanto que a outra mulher teve uma
linda menininha.
E, assim, o trato ficou esquecido.
Muitos anos se passaram, e o menino, agora já um adolescente, veio àquela cidade
para estudar em uma yeshivá e, por acaso, se hospedou como convidado na casa
de sua predestinada noiva (embora ele nada soubesse sobre o trato).
Com o passar do tempo eles acabaram se enamorando; porém o pai não queria
nem ouvir falar de tal compromisso, pois queria que se casasse com alguém com
posses e prestígio.
O seu pai achou para ela algo que ele imaginara ser um partido adequado, ao que
ela não se submeteu, pois ela verdadeiramente amava aquele rapaz, e ele a ela.
Porém, o seu amado entendeu que jamais seria capaz de desposá-la por toda a
vida.
A história continua e nos dá conta de que, devido a imensa dor e angústia, ele
acaba morrendo.
Antes de ser levada ao seu casamento, com o indesejado noivo, ela foi visitar o
túmulo de seu amado para convidá-lo a vir do mundo superior para o seu
casamento.
A história prossegue nos contando que enquanto lamentava e soluçava ao lado do
seu túmulo, o espírito de seu amado entra em seu corpo como um dibuk.
Ela começa a agir e falar como se fora ele.
Os rabinos tentaram todas as formas de exorcismo, mas todas em vão.
No final, ela acaba morrendo totalmente apaixonada pela alma de seu amado.
Na tradição Talmúdica, Ruach Raá se refere apenas a almas possuídas por maus
espíritos ou por demônios; porém, na Cabalá, encontramos esta ideia de dibuk
como uma alma que possui outra pessoa.

Rabi Chayim Vital escreve que isto é também usado como uma forma de punição
para uma pessoa malvada.
Depois de sua morte, a sua alma descerá para o corpo de outra pessoa malvada e
continuará alimentando a pessoa com informações (por exemplo, previsões
terríveis sobre o seu futuro) que a levem a praticar más ações e, basicamente,
controlá-la e confundi-la (tal como na discussão do Talmud, onde o espírito a faz
ultrapassar os limites da cidade no Shabat).
O pensador moderno, quando confrontado com um conto assim fantástico,
imediatamente fica propenso a classificar a coisa como um distúrbio psicológico,
neurológico ou emocional.
Nas páginas seguintes, estarei apresentando contestações céticas.
Quando uma pessoa está perdidamente apaixonada ou obcecada por outra, ela
assume a personalidade e maneirismos daquela pessoa.
Por exemplo, na peça "O Dibuk", é possível argumentar que não foi um dibuk da
alma de seu amado que desceu das Alturas e habitou o seu corpo, mas sim foi ela
que agia como o seu amado.
Ela estava tão enamorada dele que não conseguia sequer conceber a ideia de se
casar com outro alguém.
Ela estava tão apaixonada por seu ser, sua personalidade, que ela começou a agir e
a falar como ele.
Assim, nunca foi de fato um dibuk de outro espírito que entrou em seu corpo; foi
somente ela que estava tão ligada em sua personalidade, que acabou trocando a
sua própria personalidade pela dele e, consequentemente, começou a agir como
ele.
Ou há quem possa argumentar e dizer que em muitos ambientes, não é possível
que pessoas expressem como de fato se sentem em relação a várias questões,
devido à pressão exercida por outras pessoas ao seu redor.
Por exemplo, numa comunidade religiosa (como num shtetl), e particularmente no
passado, se a pessoa quisesse se desviar do previsto e predeterminado modo de
vida, seria impensável declarar abertamente as suas intenções e necessidades, pois
seriam então imediatamente eliminadas de suas comunidades e jogadas ao
ostracismo.
Assim sendo, elas atribuíam os seus desejos a entidades externas.
Não que tomassem, conscientemente, uma decisão de ter tal comportamento, mas
sim, subconscientemente, elas sabiam que a única maneira de expressar os seus
sentimentos seria atribuí-los a outra entidade.
A um nível pessoal, quando há algo que possa ser desconfortável de dizer, nos
tendemos a dizer: "eles dizem que...".
Quem seriam "eles", se não a própria pessoa?
Assim, quando uma pessoa chega e alega que um dibuk a está forçando a pecar, a
verdade poderia ser que é ela quem está querendo transgredir, e o alegado dibuk
não passa de uma camuflagem.
Nas sociedades machistas, onde às mulheres não era dada a oportunidade de
expressar as suas opiniões e sentimentos, era bastante comum que as mulheres
agissem como se estivessem possuídas por espíritos e, desta forma, expressar as
suas verdadeiras emoções.
Isto pode ser encontrado na literatura Russa; por exemplo, na obra de
Dostoyevsky, "Os Irmãos Karamazov", e na obra de Tolstói "A Sonata a Kreutser";
ambas as obras falam de mulheres casadas com homens controladores, numa
sociedade chauvinista, que sofreram possessões de espíritos maus.
Esta foi a saída delas para exprimirem seus verdadeiros sentimentos e sensações,
sem irem contra as suas sociedades.
(Não que elas tivessem conscientemente decidido agir como se estivessem
possuídas por espíritos; mas os seus subconscientes as compeliam a agir desta
forma, para que pudessem se expressar. Elas estão tão desligadas de quem elas
realmente são, que elas próprias acreditam não serem elas que expressam estes
sentimentos proibidos, mas sim um espírito externo.)
Algumas vezes as pessoas possuem desejos estranhos e impróprios.
Elas podem sentir atrações sórdidas e anormais e, por estarem envergonhadas de
tais sentimentos, e não poder admitir esses sentimentos a outras pessoas (ou até
mesmo para si próprias), elas transferem a culpa acreditando que estão sendo
possuídas por diabos, demônios ou espíritos malévolos.
Na obra "A Possuída", de Dostoyevsky, o protagonista, Sr. Stavrogin, está, ao longo
de toda a novela, sendo possuído por demônios e horríveis visões, até que ele é
levado a cometer suicídio.
Tudo isto foi causado por seu amor proibido por uma mulher chamada Matryosha -
algo que não podia admitir nem para si mesmo.
Assim, nestes cenários, a pessoa sofrendo por causa destes desconfortáveis
sentimentos, subconscientemente os atribui a algo externo a si própria, um Ruach
Raá, um demônio, ou um dibuk.
Em psicologia, nós a classificaríamos como uma pessoa que tem medo de si
mesma, medo de seus verdadeiros e profundos sentimentos e, assim, ela abdica
deles e os transfere a um espírito externo.
Também é possível que o dibuk seja, na verdade, o subconsciente da pessoa que
ora está falando; seria algo como o estado mental de um sonhador.
Um sonho é "a estrada real ao subconsciente".
A pessoa pode expressar num sonho determinados sentimentos que, num estado
de vigília, não poderia sequer ousar pensar.
Além disso, num sonho, a pessoa pode imaginar estar vendo as tentações de outra
pessoa, e nunca ter que aceitar que estas tentações são, na verdade, suas.
O mesmo pode ser dito em relação a um dibuk.
A voz do dibuk se expressando é, na verdade, a quintessência interior da pessoa, o
seu subconsciente.
Historicamente e na literatura, encontramos isto também em reverso.
Se a pessoa, dentro de uma sociedade fechada, quiser se desviar do caminho
aceito e, de fato, cometer um delito, as pessoas ao seu redor, tendo dificuldades
em aceitar as suas ações, atribuirão tudo isso a influências externas, por exemplo,
a demônios ou a um espírito malévolo.
Também é bastante comum que pessoas que sofrem de perturbações psicológicas
se imaginem possuídas; no entanto, a sua cura deve vir de um psiquiatra e não de
um Mestre em Cabalá.
Conta-se uma história sobre o grande Talmudista, Rabi Chayim de Brisk (1853-
1918).
Eis que certa vez uma mulher entra no estúdio de Reb Chayim, num estado
altamente perturbado, se queixando de estar possuída por espíritos maus e
pedindo-lhe que imediatamente exorcizasse esses espíritos malévolos.
Naqueles dias, o relógio com alarme era uma invenção bastante recente, e não
eram muitos que tinham conhecimento de sua existência.
Por outro lado, Reb Chayim era suficientemente afortunado (sendo o rabino da
cidade) para possuir uma dessas novidades.
Ele pegou o relógio despertador e acertou-o para soar à meia-noite.
Reb Chayim deu o relógio à mulher dizendo-lhe que, caso ela ouvisse algum
barulho saindo daquele "relógio especial" depois de ter adormecido naquela noite,
aquilo seria um sinal de que os maus espíritos estariam deixando o seu corpo.
E assim foi.
Quando, à meia-noite, o relógio soou o alarme, ela foi instantaneamente curada.
Também é possível, que a pessoa interprete o argumento talmúdico, mencionado
acima, como significando que aquela pessoa que passou dos limites estabelecidos
do Shabat foi tomada por um Ruach Raá, significando que ela ficou
temporariamente insana.
Não que, de fato, uma entidade externa estivesse em seu corpo.
Foi a sua própria insanidade que a levou a se desviar.
A partir dos parágrafos anteriores, entendemos o quão difícil é discernir se a pessoa
está, de fato, possuída por uma entidade externa.
Na verdade, para que se tenha uma plena certeza de que aquele Ruach Raá é um
mau espírito e não apenas a pessoa expressando o seu subconsciente, ou algo
parecido, o examinador deve ser um Tsadik, um homem verdadeiramente sagrado.
Algumas fontes sustentam que, de fato, existem poucas diferenças visíveis entre o
verdadeiramente autêntico dibuk e um distúrbio psicológico.
Um dos caminhos é observar a partir de onde emana a voz do dibuk.
Se a origem da voz vem da boca do possuído, então sabemos que não se trata de
um verdadeiro dibuk; no entanto, se a voz emana de outras áreas do corpo
possuído, podemos, então, confirmar a sua autenticidade.
Outro sinal de um verdadeiro dibuk é um crescimento em alguma parte do corpo da
pessoa.
Não obstante, a verdadeira avaliação deverá ser levada somente por meio de um
Tsadic, um mestre no conhecimento cabalista.
Se a pessoa acredita ou não na ideia de dibuk, tudo se resume na crença que possa
ter nos grandes sábios de Israel, os Guedolei Yisrael, que escrevem sobre estes
conceitos com plena certeza.
Certa vez eu ouvi em nome do Lubavitcher Rebe que "não há qualquer evidência ou
prova de que eles não existem e, assim sendo, é mais científico acreditar em
testemunhas confiáveis".
O que isto significa é que, cientificamente, jamais poderemos trazer cem por cento
de provas de que um dibuk não existe.
Portanto, o Rebe diz , é mais científico, isto é, é mais intelectualmente honesto
aceitar o testemunho dos Guedolei Yisrael de que existe o dibuk.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 6

É Possível Nos Lembrarmos de Nossas Encarnações Anteriores?

Existem muitos teólogos, judeus e não-judeus, que discutem a questão da


reencarnação baseados no fato de que há muitas pessoas que alegam se lembrar
de suas vidas passadas.
Elas falam de suas memórias de quem eram e o que eram em suas vidas passadas.
Ademais, não somente elas se lembram quem eram, como também se lembram
quando, onde e em que época viveram.
Há aqueles que argumentam que, a partir do fato de existir pessoas que se
lembram de suas vidas passadas, podemos determinar como um fato concreto o
conceito da reencarnação.
Eles dizem que isto é uma prova de que reencarnações ocorrem e que a pessoa não
tem que acreditar neste conceito através da fé.
Isto pode ser provado por lógica humana.
(Rabi Yaacov Emdin afirma, em relação aos Tsimtsumim [constrições e ocultações]
que, ainda que este conceito não tivesse sido ensinado na Cabalá, nós o teríamos
entendido por meio de nosso próprio intelecto, pois trata-se de uma conclusão
lógica do pensamento.)
Com o mesmo tipo de lógica, muitos argumentam que o conceito de reencarnação
pode ser provado.
Mesmo que não tivesse sido claramente determinado na Cabalá, nós teríamos
acreditado nesses conceitos com base em nossas próprias conclusões lógicas.
Se o acima é verdade, e há aqueles que podem se lembrar de suas vidas passadas,
por que é que isto não se aplica a todas as pessoas?
Por que é que há aqueles que não se lembram de suas vidas anteriores?

Há aqueles que tentam responder a isto dizendo que é algo como esquecer coisas
que vivenciamos em nossa presente vida (às vezes nos esquecemos até do que
comemos no café da manhã daquele mesmo dia).
Quanto mais nos afastamos de nossa juventude, mais nós tendemos a esquecer
aqueles dias de despreocupação.
O mesmo vale em relação às nossas encarnações anteriores.
Quanto mais nos afastamos de nossas vidas passadas, mais delas nos esquecemos.
Por isso, nós encontramos que existem crianças que se lembram de suas vidas
anteriores; porém, elas começam a esquecer.
Porém, esta explanação não basta, pois fosse esta a razão, nós todos teríamos
algum vestígio ou fragmentos de memória sobre as nossas vidas anteriores, e isto
não é assim.
Há uns poucos teólogos que explicam que a razão para que a maioria das pessoas
não se lembrem de suas vidas passadas se dá porque, tal como os antigos Gregos
explicaram em sua mitologia, depois da morte da pessoa, a primeira experiência
pela qual a alma passa, é a travessia do "Rio de Lethe", ("Rio do Esquecimento").
Acreditava-se que esta passagem fazia com que a alma esquecesse tudo aquilo que
vivenciou durante toda a sua estada neste plano inferior.
Assim, segundo eles sustentam, quando a alma reencarna neste mundo inferior, ela
não tem memória de sua vida anterior.
Interessantemente, esta noção de "Rio de Lethe" parece ser bastante semelhante
ao conceito de um "Rio de Fogo", sobre o qual falam os Profetas, e que o Talmud
invoca como uma um castigo aos malvados.
Ademais, na Cabalá e na Chassidut, está explicado que este "Rio de Fogo" é
experimentado até pelos maiores Tsadikim que, após a sua morte, devem passar
por este "Rio de Fogo" antes de poder adentrar nos mundos superiores do Gan
Éden.
Até mesmo os anjos devem passar por este processo.
Por exemplo, se um anjo desceu a este mundo inferior para cumprir uma
determinada missão, então ele, antes de sua ascensão, também deve atravessar
este "Rio de Fogo".
Quando a pessoa deseja a compreensão de um nível mais elevado de pensamento,
ela deve primeiro esquecer (até certo ponto) os seus parâmetros mais baixos de
pensamento.
Tal como exposto na literatura Talmúdica, certa vez um sábio viajou da Babilônia
para a Terra Santa.
Como preparativo para sua jornada, ele jejuou por 100 dias.
Ele fez isto para estar apto a esquecer todos os ensinamentos que aprendera na
Babilônia, pois ele sabia que o aprendizado e a compreensão dos sábios de Israel
estava num nível muito mais elevado e profundo do que o dos sábios da Babilônia.
Por conseguinte, a Cabalá explica que quando uma pessoa morre e deseja entrar
no Gan Éden, a sua alma deve primeiramente "se sacudir" para se livrar de todos
os conceitos anteriores, de todas as suas experiências físicas.
A alma deve se imergir no "Rio de Fogo" para forçá-la a se esquecer de todas as
suas experiências anteriores.
A palavra em Hebraico para "imersão" é "tovel", que é formada pelas mesmas
quatro letras que compõem a palavra "bitul" - "nulificação", "anulação".
Quando uma pessoa se imerge numa outra entidade (as águas de um Micvê), a sua
existência inteira fica abrangida e subjugada por seu conteúdo.
Assim, quando a alma se imerge no "Rio de Fogo", ela fica nulificada e perde toda a
sua existência anterior.
É somente então, depois de a alma ficar anulada e vazia, que ela poderá ascender
a níveis espirituais mais elevados.
Talvez, esta possa, ser a razão para que a pessoa esqueça de suas vidas
anteriores; porém, isto não é colocado claramente na Cabalá.
Existem teólogos que acreditam" que, por meio de uma adequada hipnose, a
pessoa pode se lembrar de suas vidas passadas.
Alguns dizem que isto também pode ser feito por meio de meditações Cabalísticas
apropriadas.
Uma das formas mais simples de meditação é a chamada de "internamente
dirigida", ou seja, a pessoa se perguntando seriamente: Quem sou eu? Qual é o
meu propósito? O que é que eu quero da vida?
E assim por diante.
A pessoa deve formular estas simples, apesar de monumentais, perguntas sem
quaisquer interferências.
Nada mais deve entrar em sua mente; a pessoa deve se concentrar totalmente em
seus pensamentos.
Através dessas meditações, a pessoa pode ficar totalmente relaxada, num tranquilo
estado mental e, assim, alcançar um estado de consciência mais elevado.
Há quem diga que, quando a pessoa consegue chegar a estes níveis (estes
elevados estados de consciência), ela pode se lembrar de suas vidas anteriores.
Também há outros que dizem que é possível que uma pessoa se lembre de sua
vida passada quando está dormindo e sonhando, e, assim, em um estado mais
elevado de consciência.
Há uma diferença nas memórias que a pessoa tem de suas encarnações anteriores
enquanto está dormindo e enquanto está acordada.
Quando a pessoa se lembra de sua vida anterior estando em estado de vigília, é
como se ela estivesse vendo a vida de outra pessoa, sendo a ela mostrada - como
se fosse um espectador assistindo a vida do outro sendo exibida.
No entanto, quando a pessoa lembra de sua vida passada durante o sono, é como
se ela estivesse assistindo a ela própria num ambiente diferente, num lugar
diferente e numa diferente época.
Mas ainda assim é o "ela" que a história está a mostrar.
Portanto, é bem comum que alguém acredite naquilo que ela sonhou mesmo depois
de acordar.
Por exemplo, um homem sonha que deixou crescer a barba e, ao acordar, ele corre
para o espelho para ver se, de fato, ele tem barba no rosto.
Estas explicações supõem que a pessoa deveria se lembrar de suas encarnações
passada e, assim, tentar elucidar as razões pelas quais ela não se lembre de suas
vidas anteriores.
Entretanto, segundo a teoria de Rabi Chayim Vital sobre reencarnação, a questão
do porque não nos lembramos, nem sequer entra em jogo.
Para entendermos esta questão, devemos primeiro entender a diferença entre as
filosofias Orientais (que influenciaram o pensamento Ocidental) e a filosofia
Cabalística, no que tange à reencarnação.

Segundo o pensamento Oriental, existe uma "Roda do Renascimento".


Isto significa que todas as almas devem, finalmente, chegar ao nível do "Nirvana" -
um estado no qual a alma se separa completamente dos prazeres mundanos deste
plano, de forma iluminada.
Em Sânscrito, a palavra "Nirvana" significa "apagar", "extinguir" (um fogo), ou
seja, apagar o fogo do desejo, da hostilidade e da ilusão.
Até que a alma chegue a este estado, ela continua ligada ao mundo físico, e até
mesmo a morte não parte esta conexão.
Assim sendo, depois da morte da pessoa, a alma, por si só, retornará ao mundo
físico - reencarnada, vez após outra, até alcançar o "Nirvana".
Daí, segundo esta maneira de pensar, a alma que reencarna é, a cada vez,
exatamente a mesma alma e, assim, um carma contínuo.
Porém, conforme a Cabalá, as partes da alma que reencarnam não são as mesmas
que a pessoa anterior elevara.
Elas não são os componentes da alma que formou a personalidade e a
singularidade da pessoa anterior, mas sim, são aquelas áreas da alma com as quais
a pessoa anterior não teve contato e nem associação.
Consequentemente, segundo a filosofia Oriental, faz todo sentido a pessoa se
lembrar de sua vida anterior, porque a pessoa anterior tinha exatamente a mesma
alma da presente pessoa.
No entanto, o ponto de vista da Cabalá acha isto altamente improvável, pois as
partes da alma que viveram anteriormente eram de natureza e personalidade
totalmente diferentes daquelas que ora habitam no corpo da pessoa.
São muitos os que ignoram aqueles que afirmam ter memória de uma vida
anterior, considerando-os como mental ou emocionalmente instáveis e, quiçá,
portadores de um distúrbio de dupla personalidade porque, de acordo com a
Cabalá, parece ser difícil que a pessoa se lembre de uma vida passada.
No entanto, algumas pessoas conhecem certos fatos sobre uma existência prévia,
que elas não teriam outra forma de saber a não ser que tivessem realmente vivido
nesta vida anterior.
Somos levados a dizer que é possível que pessoas se lembrem de aspectos de suas
vidas passadas.
Mas como é que podemos conciliar isto com o pensamento da Cabalá?

Existem maneiras através das quais a pessoa pode, de fato, lembrar de uma
encarnação anterior, e que não contraria a filosofia da Cabalá.
Uma das maneiras é por meio da força do sobrenatural.
A pessoa deve ter o dom do Ruach HaKodesh.
O Sagrado Espírito deve pairar na pessoa para que lhe seja possível lembrar.
A pessoa deve ser um grande Tsadik, e portadora de uma exaltada alma.
Ao longo dos tempos, muitos foram os Tsadikim que diziam às pessoas o que
fizeram e onde elas estiveram em suas vidas passadas.
O sagrado Rebe Chassídico, o Yismach Moshe (Rabi Moshe Teitelbaum), disse certa
vez sobre si mesmo que, em uma de suas vidas anteriores, fora uma das ovelhas
de Yaacov, e um dos rebeldes de Corach em outra.
Mesmo que a pessoa não seja um Tsadik, por meio de uma adequada disciplina, é
possível que ela alcance um estado mais elevado de consciência e, finalmente,
(embora altamente improvável) chegue a um nível que lhe possibilite experimentar
alguma forma menor de profecia e, assim, visualizar tanto o passado como o
futuro.
Embora muitos filósofos judeus acreditem que a profecia somente pode ser
conseguida em um lugar sagrado (por exemplo, na Terra Santa de Israel), todos
eles concordam que um nível mais baixo de revelação Divina é possível ocorrer em
qualquer lugar.
Quando a pessoa alcança este nível de profecia, ela não experimenta, de fato, a
memória de suas encarnações anteriores, mas sim uma visão dessas vidas, um
vislumbre do passado.
Outra maneira de conseguir uma memória de encarnações passadas é por meio da
meditação.
As pessoas anteriores que continham esta alma, já elevaram sua parte da alma
particular e esta "parte" da alma saiu do "núcleo" da alma.
Porém, a alma da presente pessoa habitou nas encarnações passadas.
Embora não tivessem tido óbvias conexões com ela, lá estava ela, em algum lugar
nas profundezas de seu subconsciente.
Portanto, por meio de uma meditação intensa e, assim, ficando em contato com o
seu subconsciente, a pessoa pode se lembrar de suas vidas anteriores.
No entanto, isto é muito difícil, e não existem muitos que podem conseguir isto.
Entretanto, desde que uma alma (diferente) da pessoa tenha, de fato, existido
numa reencarnação anterior, o "eu" da alma estava em algum lugar no
subconsciente da pessoa anterior.
Assim sendo, às vezes é possível que a pessoa experimente um déjà vu, razão pela
qual a pessoa tem a sensação de estar passando por uma situação que já ocorrera
no passado.
Ou, pode ser que uma pessoa que visita um lugar distante pela primeira vez, possa
ter a sensação de já ter estado naquele mesmo lugar.
A razão para que as ruas lhe pareçam tão familiares é que, em certo sentido, ela já
esteve ali.
Existem também outros meios, através dos quais a pessoa pode se lembrar de suas
existências passadas.
Tal como foi explicado no capítulo anterior, o ibur (impregnação), pode ocorrer de
dentro da própria alma da pessoa.
As partes de sua alma geral, que já foram elevadas, descem para sua atual alma,
para ajudá-la em suas elevações.
Nestes casos, quando a sua existência anterior desce para o seu corpo, pode então
ser possível que a pessoa se lembre de sua vida passada, porque a verdadeira
personalidade da vida anterior da sua alma está agora contida em seu corpo.
Outra forma de ibur, quando a pessoa está impregnada com a alma de um falecido
Tsadik, pode resultar em "memória" de uma vida passada.
Porém, neste caso, quando a pessoa alega lembrar-se de sua vida passada, ela
está, na realidade, lembrando da vida da alma impregnada, a vida daquele Tsadik.
E isto também pode acontecer num sentido negativo.
Pode se tratar de um dibuk, no qual a alma de uma pessoa malévola entra numa
outra pessoa e lhe incute estranhas ideias, e a pessoa pode sentir que estas sejam
memórias de suas próprias vidas passadas.
Vou, agora, recontar duas histórias muito bem documentadas e já publicadas, nas
quais as pessoas acreditavam estar se lembrando de suas encarnações anteriores,
quando, na verdade, elas estavam sendo possuídas por uma alma que já havia
partido, seja sob a forma de um ibur, ou de um dibuk.
O primeiro caso que vamos analisar foi registrado pelo Dr. Ian Stevenson, intitulado
"O Caso de Jasbir".
No caso estudado, havia uma criança, Jasbir, que com 3 anos de idade ficou
gravemente doente; de fato tão doente que, no auge de sua enfermidade, os seus
pais chegaram a pensar que ele tinha morrido.
Porém, ele foi reanimado e, finalmente, ele se recuperou totalmente.
Quando ele voltou a se comunicar novamente, ele contou uma história bem
estranha.
Ele alegava ser outra pessoa, e não Jasbir.
Ele contou a seus pais coisas sobre outra família à qual pertencera, morando numa
outra cidade a muitos quilômetros distante.
Sua família foi investigar a sua história e constatar se aquilo que ele alegava era
verdadeiro.
Eles chegaram à cidade da qual o menino falara e, de fato, confirmaram que existiu
uma pessoa assim morando naquela cidade e que morreu exatamente na mesma
hora em que o pequeno Jasbir esteve doente.
Então, os pais concluíram que agora o seu filho deveria ser uma reencarnação do
homem falecido na outra cidade.
À primeira vista, este parece ser um nítido caso de reencarnação.
Porém, depois de examinar melhor o caso, mostrou-se que o ocorreu não foi um
caso de Guilgul (reencarnação), porque a reencarnação se inicia no momento do
nascimento, enquanto Jasbir e o homem que falecera estavam ambos vivos neste
mundo, ao mesmo tempo.
Assim, entendemos que ao invés de se tratar de reencarnação, Jasbir estava, na
verdade, experimentando um ibur, ou um dibuk da alma da outra pessoa.
Na Cabalá, conta-se de uma determinada reencarnação que ocorre quando a
pessoa está enferma e em perigo de vida.
(Isto também pode ocorrer quando a pessoa fica extremamente furiosa.)
A alma da pessoa pode ascender de seu corpo, e uma nova alma desce para tomar
o seu lugar, fazendo com que, em seguida, o corpo doente rejuvenesça, e dando-
lhe vida nova.
À primeira vista, parece ter sido o que ocorreu com Jasbir; porém, analisando com
mais profundidade, percebemos que não foi isto que se deu com Jasbir, pois se a
alma do falecido tivesse substituído a alma de Jasbir, esta alma que entrara em
Jasbir teria tido um "eu" diferente daquele do homem que morreu.
Assim sendo, embora Jasbir talvez tivesse agido diferentemente por estar então
possuído por uma nova alma, ele não teria tido as memórias daquele homem.
Portanto, concluímos que deve ter sido, sim, um ibur, ou um dibuk.
O segundo caso que estaremos analisando está documentado pelo Dr. Brian Weiss.
O estudo tem o título de "O Caso de Catherine".
Assim escreve ele: havia uma mulher chamada Catherine que, por meio de
hipnose, passava mensagens ao Dr. Weiss, que ela recebia das "almas dos
Mestres".
Neste caso, por ela estar transmitindo uma mensagem de outro alguém,
entendemos que não se trata da alma dela, do seu Guilgul, estar revelando essas
mensagens, mas sim uma forma de ibur ou dibuk que é o agente revelador.
Ela também lembrava de suas "vidas passadas"; porém, entendemos que não se
tratava, de fato, se suas próprias vidas anteriores, mas sim as vidas do ibur ou do
dibuk que residiam dentro dela.
Isto também acontece em relação a um outro caso estudado e documentado, no
qual o Dr. Weiss registra o caso de uma mulher que não apenas lembrava de sua
vida anterior, mas que também era capaz de prever o futuro com espantosa
precisão.
É bastante claro que prever o futuro não tem absolutamente nada a ver com
lembrar do passado por meio de Guilgul.
Por isso somos levados a dizer que aquela mulher estava a experimentar um ibur
ou um dibuk de uma alma que já havia partido.
Tal como já mencionado anteriormente, o dibuk diz ao corpo exatamente o que vai
acontecendo no mundo, o que já ocorreu, e o que "vai acontecer", e coisas assim.
Em conclusão, quando a pessoa está num estado normal, é muito improvável que
ela venha a ter lembrança de vidas passadas e, daí, quando temos a oportunidade
de encontrar pessoas que "lembram", é bem possível que não seja através de
Guilgul que elas recordam, mas sim por meio de um ibur ou um dibuk.
A alma - o "eu" da alma que, como um castigo, reencarna em uma criatura inferior,
lembra sim de sua vida passada na forma humana.
Neste caso, o "eu" da alma reencarna na criatura inferior, e a lembrança daquilo
que ela era, comparada ao seu atual estado, é precisamente a sua punição, o seu
refinamento.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 7

É Possível Provar a Reencarnação?

Existem quatro razões fundamentais para que muitos acreditem no conceito de


reencarnação.
Duas delas são de cunho religioso e ideológico; motivos que somente se aplicam se
a pessoa acredita em um D'us Justo e Moral - a "justiça Divina".
E outras duas razões são fatuais, provas de vários fenômenos que ocorrem neste
universo.
Quanto aos motivos religiosos e ideológicos, eu devo ressaltar que existem dois
caminhos, totalmente diferentes, na crença em D'us.
Há o "D'us dos filósofos" - D'us como "causa não causada" - ou o Ser Supremo.
E há o "D'us de Abraão, Isaac e Jacó", um D'us que está intimamente envolvido em
Suas criações e criaturas, que cuida ou escolhe cuidar e simpatizar com as Suas
criaturas e criações - um D'us de adoração e reverência.
A diferença entre estas crenças é a diferença entre acreditar na existência de D'us e
acreditar no Próprio D'us.
As razões ideológicas para acreditar na reencarnação devem se basear na crença
no Próprio D'us, acreditando que D'us está envolvido na criação e é o Senhor da
justiça.
Além disto, a pessoa também deve acreditar que o mundo em geral, e o ser
humano individual em particular, foram criados para um propósito Divino.
Com base nessas crenças, essas "provas" podem ser aplicadas.
Nós observamos o mundo ao nosso redor, e nos é mostrado tanto sofrimento e dor,
tão frequentes naqueles que parecem ser os que menos merecem castigos, as
crianças e os justos.
Isto desperta uma pergunta muito discutida e sempre formulada:
Estes são atos de um D'us justo?
É esta uma verdadeira justiça?

Alguns usam a reencarnação como uma medida de conforto e explicação para estas
desconcertantes perguntas.
Eles concluem que, como é possível que a pessoa sofra uma "punição" - um
refinamento - por um delito cometido numa vida passada, é possível justificar o
sofrimento do inocente.
Alegando que a razão para que aquela pessoa esteja sendo castigada é pelos
pecados e transgressões que foram cometidos em suas encarnações anteriores.
Em outras palavras, por acreditarmos que D'us é justo, deve haver, sim,
reencarnação.
(É importante notar que, segundo a maneira de pensar Oriental, a questão não é
por que D'us coloca almas em situações "injustas"; ou melhor, por que é que a
própria alma escolhe descer ao sofrimento? Eles acreditam que a própria alma, de
fato, tem a opção de "escolher" qual o corpo que irá habitar. Por isso, acontece de
a alma escolher habitar um "recipiente de sofrimento", para que a alma possa
adquirir uma maior experiência, possa aprender mais e, assim, se tornar mais
"Iluminada".)

Outra prova para a reencarnação, sob o ponto de vista ideológico, é conseguida por
meio de uma atenta observação sobre a vida e o destino de um ser humano.
Qual é o destino final de um ser humano?
O homem está cheio de tentações egoístas, ele vive a sua vida em escuridão
espiritual, deparando-se com doença, depressão e prepotência.
Não é concebível que deva viver a sua vida com sofrimentos, restrições e limitações
espirituais, para então morrer sem jamais ter se livrado destas inclinações do mal,
e livrando-se do vazio espiritual que o cerca.
Parece ser impossível que, espiritualmente, alguém possa viver em vão.
E para resolver esta anomalia, a pessoa pode chegar à conclusão de que, embora
um ser humano possa não alcançar, espiritualmente, o estado de um "homem
perfeito em uma única vida", no entanto, por meio de diversas reencarnações, a
alma pode, afinal, conseguir alcançar este nível de perfeição.
Cada vez que a alma desce a este mundo, ela pode alcançar, pelo menos, um nível
de perfeição e, assim sendo, aquilo que a pessoa deixa de conseguir ao longo de
sua vida, ela poderá conseguir retificar em sua próxima reencarnação.
Em suma, sob um ponto de vista puramente ideológico, porque a pessoa deve ter
um destino e um propósito de vida, deve haver a reencarnação.
Há também os que consideram a reencarnação uma conclusão puramente lógica,
baseada no conhecimento empírico.
Existem crianças que parecem ter nascido dotadas de talentos extraordinariamente
avançados e desenvolvidos.
Estas são, normalmente, rotuladas de "crianças prodígio".
Há aqueles que sustentam que essas pessoas nascidas dotadas de talentos
naturais, os herdaram de suas vidas anteriores.
Aquilo que leva muitos anos de dedicados estudos e esforços, pode ser facilmente
alcançado por aquelas crianças prodígio por terem elas herdado tais talentos de
suas encarnações passadas, e a pessoa encarnada anteriormente já passou pelos
necessários esforços para alcançar este elevado nível de talento.
Também há pessoas que alegam lembrar com surpreendente exatidão a sua vida
passada.
E, para alguns, isto pode parecer uma prova conclusiva da reencarnação.
Porém, tal como foi explicado anteriormente, o que pode parecer para alguns como
memória, é, normalmente, causado por outros fatores e, raramente há - se é que
há alguma -memórias que se transferem de uma encarnação para a seguinte.
As "provas" acima para reencarnação foram oferecidas por aqueles que encaram a
reencarnação a partir de uma perspectiva diferente daquela da Torá.
A seguir, continuarei com a comparação destas "provas" com a visão da Torá.

A primeira prova teológica mencionada acima, se baseia na crença em um D'us


Justo e Moral.
Acreditar num D'us Justo é um princípio fundamental da Torá.
Assim como o Rei David diz em Salmos: "Justo é o Senhor em todos os Seus
caminhos".
Assim, a pergunta é: sob a perspectiva da Torá, poderia a reencarnação
proporcionar uma explicação para o sofrimento do inocente?
A Torá declara: "Um homem será morto por seu próprio pecado".
Isto significa que cada ser humano é julgado segundo suas próprias ações, pelos
pecados que ele próprio cometeu, e não por aqueles cometidos por outrem, ainda
que estas outras pessoas em questão fossem seus próprios ancestrais.
Quando uma pessoa é reencarnada, o seu atual eu é a sua própria personalidade,
uma criação completamente nova.
É, portanto, muito improvável que esta nova pessoa viesse a ser punida por ações
praticadas numa encarnação anterior.
Isto é particularmente verdadeiro quando se trata do sofrimen-to de crianças.
Quando um recém-nascido sofre, o castigo não é tanto para a criança quanto o é
para os seus pais.
Os pais são os que mais sofrem; eles são os que recebem o impacto do castigo.
Portanto, embora a reencarnação possa oferecer uma explicação para o sofrimento
do filho, ela não é abrangente, ela não inclui a razão para a punição que os pais
recebem.
Assim, em geral, as punições não são transmitidas de uma encarnação para outra,
pois as pessoas são julgadas por suas próprias ações e não pelas ações praticadas
por outrem.
A alma reencarnada é agora um novo ser e não uma continuidade de sua existência
anterior.
(Embora possamos encontrar isto na Cabalá, de que os Dez Sábios de Israel foram
castigados pelos pecados das Dez Tribos que venderam José, eles foram punidos
pelos pecados de outrem! Isto está explicado com mais detalhes no capítulo 6.
Em suma, isto não se deu por meio de reencarnação, mas sim por ibur.)

Uma questão foi colocada para o Lubavitcher Rebe, Rabi Menachem Mendel
Schneerson.
Era uma vez uma menininha que tinha morrido antes de completar seus 12 anos, a
idade para o seu Bat Mitsvá.
Eis que os seus pais escreveram uma carta ao Rebe, pedindo-lhe que sugerisse
alguma explicação.
Eles queriam entender por que a alma de sua filha descera se ela nunca estivera
obrigada a praticar uma mitsvá? (A obrigação começa, para uma menina, aos 12
anos de idade.)
Qual foi o propósito da descida de sua alma?
O Rebe iniciou a sua resposta dizendo que, antes de mais nada, é praticamente
impossível a qualquer ser humano ter certeza da primordial intenção de D'us.
Nos dias de hoje, todas as almas descem como uma continuidade de suas
encarnações - para que completem aquilo que, anteriormente, deixaram inacabado.
Às vezes, é possível que uma alma saia desta terra em uma tenra idade porque a
sua encarnação anterior morreu antes do tempo que lhe fora alocado, e aqueles
anos restantes tinham que ser vividos.
Porém, esta não é a norma, uma vez que a maioria das pessoas é capaz de viver
pelo seu período de vida predeterminado.
Ninguém, independentemente do quão Divino e do quão elevados níveis a pessoa
possa ter alcançado, poderá saber com certeza quais são as verdadeiras intenções
de D'us.
E nós concluímos que, pode acontecer, embora raramente, de uma criança vir a
morrer em uma idade tenra em função de se tratar de uma continuidade de sua
encarnação anterior.
No entanto as punições das vidas anteriores não são transmitidas para seus corpos.
Elas não sofrem pelos pecados de outrem, ao invés reencarnam "para realizar ou
cumprir aquilo que deixaram de fazer anteriormente".
Nos contos do Baal Shem Tov, é relatado que ele consolava os pais de crianças que
tinham morrido, dizendo-lhes que as almas daquelas inocentes crianças eram
dignas e elevadas, e somente tiveram que descer a este mundo inferior por apenas
um curto período, para "completar" a missão à qual estiveram originalmente
incumbidas quando para cá haviam descido anteriormente.
Assim, por terem sido elas pessoas verdadeiramente justas em suas encarnações
anteriores, faltando-lhes apenas as mais tênues elevações, elas podiam completar
a sua tarefa num período de tempo bastante reduzido.
Rabi Saadia Gaon estava, realmente, certo ao dizer que nós não podemos
considerar como prova para reencarnações o fato de estarmos testemunhando o
sofrimento de um inocente.
(Em outro local de seu livro, ele escreve que algumas pessoas podem vir a sofrer
neste mundo físico para que lhes seja possível uma recompensa maior no Mundo
Vindouro.)
As monumentais perguntas, que levam muitos a acreditar na reencarnação, são:
Por que é que os inocentes sofrem?
Por que coisas ruins acontecem para pessoas boas?
Estas são algumas das perguntas mais antigas e mais complexas entre todas as
demais perguntas teológicas jamais formuladas.

A natureza da mente humana é tal que ela procura fazer sentido da vida, tal como
a vivenciamos; as suas alegrias e as suas dores.
Quando defrontados com a tragédia, nós tentamos encontrar o lugar onde ela se
encaixa no quebra-cabeça da vida.
E ela nos parece não pertencer àquele tabuleiro do quebra-cabeça, mas uma
aberração em nossa realidade.
Em nossas mentes, nós percebemos o mundo como uma sequência ordenada de
acontecimentos.
As ações de um, acarretará uma reação, e assim por diante.
Uma tragédia "sem sentido" nos deixa perplexos, desconcertados.
Milhares de mentes, ao longo de milhares de anos, têm sentido esta dor e feito
estas mesmas perguntas.
Eu compilei as "interpretações clássicas" e, nas páginas seguintes, passarei a
apresentá-las.

Moisés perguntou a D'us: "Mostra-me os Teus caminhos?".


O Talmud ensina que, na verdade, o que Moisés estava pedindo a D'us era:
"Mostre-me os Seus caminhos interiores, revele-me as Suas intenções... por que os
justos sofrem, enquanto os malvados prosperam?".
Ao longo de séculos do pensamento judeu, apareceram muitas razões e
interpretações, filosóficas e também místicas, para as tragédias e sofrimentos que
acometem as pessoas boas e justas.
Rabi Moshe Chaim Luzzatto, notável místico e moralista, escreve que: o propósito
de D'us na Criação, foi o de derramar as maiores benesses possíveis sobre as Suas
criaturas. Para que as Suas criaturas pudessem apreciar plenamente as benesses
que estavam recebendo, elas deveriam merecer o bem, pois caso as benesses
outorgadas por D'us aos humanos não fossem uma recompensa merecida, então
elas diminuiriam o prazer dos receptores, pelo sentimento de vergonha que,
invariavelmente, acompanha as recompensas imerecidas. (É a isto que a Cabalá
chama "Nahama DiKissufa" - o "pão da vergonha" - o sustento que é dado sem
trabalho.) Então a razão para que D'us criasse o mal neste mundo, e a
oportunidade para que o homem praticasse maus atos, foi para que as Suas
criaturas enfrentassem uma batalha entre o bem e o mal, e através deste esforço
pudessem escolher o bem sobre o mal, e merecer as abundantes benesses de D'us.
Embora esta resposta possa explicar o mal que o próprio homem perpetra, ela não
se estende àquele que D'us causa ao homem, tal como a fome e a penúria.
Há uma interpretação baseada num conto talmúdico.
Certa vez, um pagão formulou ao sagrado sábio Rabi Akiva a seguinte pergunta:
"Se o seu D'us, tal como você diz, é verdadeiramente um Amante dos pobres, por
que é então que Ele não os sustenta?"
Rabi Akiva respondeu: "Para salvar o homem do Guehinom", ou seja, ao
observarmos o sofrimento em nossos companheiros humanos neste mundo, nós
nos sentiremos incitados à compaixão e à empatia.
É através da diligência e da compaixão que uma pessoa pode ser salva do
Guehinom.
Esta resposta parece explicar por que D'us criou o sofrimento e o mal em geral.
Os místicos sugerem a seguinte interpretação.
Dentre as dez Sefirot, a Sefirá de Guevurá nos parece ser a mais dura e severa.
É a antítese de Chessed, que é a luz da Santidade sob uma forma aberta e
revelada, aparecendo a nós sob a forma de atos de bondade, ao passo que Guevurá
é representante da força e do poder, a capacidade de ocultação de tudo aquilo que
é sagrado.
Ainda assim, os místicos ensinam que a Sefirá de Guevurá se origina de uma fonte
mais elevada do que a de Chessed.
Em geral, existem duas formas de benevolência de D'us.
Uma é a "bondade revelada", a bondade que permanece numa forma revelada
quando descende das Alturas.
Esta energia Divina emana da Sefirá de Chessed.
Porém, existe uma forma de bondade que emana da Sefirá de Guevurá (cuja fonte,
tal como já foi explicado, é ainda mais elevada do que a de Chessed).
Quando esta benesse aparece em nossa esfera física, finita e terrena, nós a
vivenciamos como feitos de força ou de predomínio.
Como a sua origem é tão exaltada e elevada, quando ela finalmente chega a nós,
nós sentimos ser ela demasiada para ser absorvida.
Isto pode ser comparado a um professor e o seu aluno.
Se o aluno estiver, aproximadamente, no mesmo domínio intelectual de seu
professor, então, quando o professor lhe revelar algum pensamento, o aluno
sentirá que está recebendo uma bondade de seu mestre.
O aluno entenderá que o seu professor está a repartir um pensamento com ele.
No entanto, caso o professor seja Einstein, e ele tentar ensinar a Teoria da
Relatividade a um estudante dotado de baixas capacidades intelectuais, não apenas
o aluno deixará de se sentir grato pelo ensinamento, mas, ao contrário, ele sentirá
que o mestre o está sobrecarregando e agindo cruelmente.
O mesmo vale para quando D'us revela a Sua bondade e misericórdia às Suas
criaturas.
Chessed é uma Sefirá inferior.
É uma Sefirá que está mais conectada com o mundo e, assim, ao ser a nós
revelada, nós a sentimos como uma benesse.
Porém, a Sefirá de Guevurá é tão mais elevada do que o nosso mundo inferior, que
ao nos ser revelada, não sentimos a bondade do ato; ao contrário, nós sentimos
que estamos sendo subjugados e que estamos sofrendo.
Assim, concluem os místicos, devemos estar cientes de que ao experimentarmos
um ato de Guevurá de D'us, um ato de força, de poder, trata-se, na verdade, de
um ato de extrema bondade e misericórdia, tão elevado que, em sua descida, nós o
sentimos como um castigo.
Todas essas respostas acima e, de fato, todas as explicações já oferecidas são
apenas interpretações que dizem respeito ao mundo tal como ele é "depois" que
D'us o criou para funcionar desta maneira.
Por exemplo, neste mundo, tal como nós o conhecemos, a única maneira de uma
pessoa mostrar a sua compaixão é através de outros que estão carentes de sua
compaixão.
Entretanto, D'us em Sua infinita sabedoria, poderia ter criado o mundo com outras
verdades e realidades diferentes.
D'us poderia ter criado um mundo no qual um ser humano pudesse mostrar
compaixão mesmo quando não houvesse mais ninguém por perto para receber tal
compaixão.
D'us poderia ter criado um mundo no qual uma pessoa pudesse ter a liberdade de
escolha (livre arbítrio) e, ainda assim, o mundo não teria qualquer mal ou
iniquidade!
Embora isto possa parecer contraditório, pois sem perseguição ou opressão não há
necessidade de compaixão ou misericórdia, e sem o mal, o bem é óbvio e não
existe escolha real, nós estamos falando do Onipresente, o Ser Infinito e Todo
Poderoso,
Alguém que está acima e além de qualquer compreensão humana.
Assim, entendemos que D'us pode fazer quaisquer coisas que nós imaginamos ser
impossíveis.
Assim sendo, D'us poderia ter criado o mundo de forma tal que as mais elevadas
formas de bondade e misericórdia poderiam descer aos mais baixos níveis da
criação e ainda continuar como atos revelados de bondade e misericórdia.
Por isso, entendemos que todas as respostas acima e todas as explicações que a
compreensão humana possa oferecer, não serão as verdadeiras e primordiais
respostas.
E, portanto, a primordial conclusão para todas essas perguntas pode ser
encontrada em Jó.
“Por que razão os ímpios vivem saudáveis, envelhecem, e ainda se robustecem em
poder?".
Por que razão os ímpios prosperam, enquanto que ele, Jó (aquele que era
considerado como sendo uma pessoa extremamente justa e honrada) continua a
sofrer?
Jó não aceita a resposta que lhe foi dada por seus amigos, que ele está a sofrer por
causa dos pecados que cometera.
Finalmente, no final da história, D'us responde a Jó dizendo-lhe: "Eu sou D'us, Eu
sou o Criador do universo, e tu não passas de uma minúscula criatura neste imenso
universo. Onde estavas tu, quando o universo foi criado?".
D'us está a dizer a Jó que, sendo que ele é apenas uma criatura finita, ele jamais
chegará a compreender os caminhos de um D'us infinito.
Tal como declara o Mestre Profeta, "Porque os Meus pensamentos não são os
vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos".
No final da história, Jó se rende e diz: "Está além da minha compreensão, e por isto
eu não sei".
Tal como diz a Mishná, "Não está em nossas mãos, nós não podemos entender,
nem a prosperidade dos ímpios, nem o sofrimento dos justos".
A mente humana funciona numa cápsula tempo/espaço.
As nossas mentes trabalham por meio das dimensões de tempo e espaço.
Nós não podemos sequer tentar compreender algo que esteja acima e além desses
parâmetros.
Como seres racionais, nós gostamos de pensar que tudo faz sentido; que, caso
somássemos "um" mais "um", certamente teríamos um resultado de "dois".
Quando testemunhamos que "um" mais "um" ("um" = "fazer o bem" somado a
"um" = "ser recompensado") resulta em "três" ("ser punido"), nós ficamos
confusos, e imediatamente tentamos achar algum sentido no castigo, raciocinando
que, na verdade, trata-se de "um" mais "um".
Ou a pessoa não era assim tão justa (por causa dos pecados que ela cometera
numa vida passada) e merecia ser punida, ou o castigo não é, na verdade, um
castigo.
Porém, a única resposta verdadeira só pode ser a que não sabemos.
A verdadeira e absoluta resposta a todas essas perguntas é que D'us tem as Suas
razões e motivos, e afinal é somente Ele que entende (embora em um diferente
nível de pensamento) estas ideias.
O conforto da pessoa pode vir de sua confiança e fé em D'us, de que Ele está
fazendo aquilo que é o melhor para nós.
Este fato pode ser ilustrado por meio de uma metáfora.
Uma pessoa sem qualquer conhecimento anterior de medicina deve passar por uma
cirurgia muito séria para remover um órgão doente de seu corpo; e isto deve ser
feito imediatamente.
Ele deve se submeter à cirurgia.
Ele sabe que os médicos ao seu redor conhecem e entendem os procedimentos, e
ele confia neles.
Porém, se uma criança pequena entrasse naquela mesma sala de cirurgia enquanto
que o paciente, neste caso o seu pai, estivesse sendo operado, certamente ela
acharia que aqueles médicos cirurgiões fossem assassinos de sangue frio, quando,
de fato, eles estavam salvando a vida de seu pai.
Esta metáfora diz respeito a humanos, que são possuidores de inteligência humana.
Um pode ser mais adiantado do que outro, talvez mais instruído e maduro, mas,
ainda assim, todas as suas mentes são do mesmo gênero.
Imagine a infinita disparidade entre a mente de um humano e a "mente" de D'us.
Se a pessoa está afinada e harmonizada espiritualmente, ela entenderá que aquilo
que D'us outorga à humanidade, parte única e tão somente de Sua bondade e
misericórdia.
Às vezes é bondade que se manifesta como bondade revelada, enquanto que em
outras vezes é bondade que é experimentada como um ato de força.
Entretanto, aquele que é espiritualmente alienado, é como aquela criança que vê
naqueles médicos cirurgiões um grupo de sanguinários assassinos!
Embora aceitemos como verdadeiro que D'us tenha as Suas razões para causar o
sofrimento da humanidade, isto não significa que somos forçados a nos render ao
nosso sofrimento, dizendo "Esta é a vontade de D'us, e é assim que deve ser".
Ao contrário, podemos acreditar tão firmemente em D'us que, em tempos de
angústia, diremos que, embora D'us possa ter as Suas razões e motivos, visto que
Ele é o D'us Todo Poderoso e Onipresente, Ele pode nos dar até mesmo a maior
benesse sob uma forma revelada.
Ao suplicarmos a D'us, nós não estaremos demonstrando uma falta de reverência e
crença Nele, mas sim bem do contrário, estamos mostrando a Ele que a nossa
crença e fé em D'us, não tem limites!
Passaremos agora a examinar a outra prova ideológica que alguns oferecem como
evidência para a reencarnação, e a perspectiva que a Torá tem sobre isto.

Por fim, o homem deve elevar-se para além de suas limitações físicas e, assim, a
pessoa deve reencarnar até que isto seja conseguido.
O homem tem um destino.
E, por isso, deve haver a reencarnação.
Existe uma diferença essencial na maneira pela qual a Torá vê a vida e a maneira
pela qual o restante da sociedade (que, geralmente, é uma sociedade Cristã) vê o
mundo.
Até certo ponto, a diferença é ainda mais pronunciada quando se trata de como as
sociedades do Leste (Hindus, Budistas, Taoístas, etc.) encaram a vida; o propósito
da Criação, e o propósito da descida da alma.
De acordo com a maneira pela qual a maioria do mundo vê a religião, a principal
ideia de santidade e, assim, a expressão da espiritualidade, é a alma.
Qualquer coisa além de nossa alma é uma ocultação de santidade.
Assim, o corpo humano é, por conseguinte, percebido como um entrave à alma.
O corpo é visto sob uma forma negativa.
Consequentemente, se a pessoa quiser levar uma vida sagrada, ela deve primeiro
se desligar totalmente da realidade física, do corpo.
A pessoa deve viver sua vida como um ascético.
Ela deve se tornar um eremita solitário, vivendo em celibato, e sem sucumbir aos
seus instintos naturais do casamento.
O principal destino é o de criar um reino para D'us no Céu e não nesta terra.
Segundo essas crenças, a fé é o ingrediente mais importante para a salvação.
Assim sendo, resta-lhes um óbvio dilema. Como é possível uma vida repleta de
tentações animais ser o primordial destino do homem?
E, por isso, eles concluem que deve haver a reencarnação da alma.
Porém, segundo a Torá, o propósito da criação e da descida da alma Divina a esse
mundo físico inferior, é (como já abordado em capítulo anterior): "Criar um lugar
para a morada de D'us neste mundo".
A alma desce com o propósito de elevar o físico, para transformar a vida material
numa vida espiritual.
Tal como o Talmud explica, depois que Moisés recebeu a Torá, os anjos celestiais se
dirigiram a D'us queixando-se: "Por que a Torá foi outorgada a criaturas inferiores,
tal como os humanos? Não somos nós as criaturas espirituais, que deveriam ser
aqueles a apreciar verdadeiramente a sagrada Torá?".
Ao que Moisés respondeu que todo o propósito da Torá é elevar e transformar o
físico, o de viver num mundo físico e ali servir a D'us, o de realizar as Suas mitsvót
e adquirir elevação, através do trabalho com a existência corpórea da pessoa, e
não por meio de a transcender.
O objetivo da descida da alma Divina a este mundo não é o de transcender dos
desejos e tentações físicas do seu corpo, de subir acima de suas tentações
corporais do eu.
Ao contrário, a principal função da criação do homem é que ele deve elevar o seu
corpo; a sua materialidade.
D'us deseja que nós nos esforcemos, continuamente, e, assim, constantemente
sobrepujemos e vençamos os nossos instintos malévolos e egoísticos,
transformando-os em santidade.
O destino do homem na vida não é o de metamorfosear-se num espírito celestial,
tal como um anjo, desprovido das tentações para o mal, mas sim ser uma pessoa
que tem conflitos a serem vencidos, de coexistir com o físico, elevando-o ao
espiritual.
A pessoa deve ter um corpo saudável e forte com o qual servir a D'us.
Tal como o sagrado Maguid de Mezricz, Rabi Dovber, expressou certa vez:
"Um pequeno orifício no corpo é uma cavidade colossal na alma".
O propósito da descida da alma não é para o seu próprio benefício.
A alma não entra no corpo para obter experiências espirituais novas e mais
profundas.
O propósito é o de elevar o corpo no qual ela reside.
Esta é uma meta que a alma pode conseguir, mesmo ao longo de uma única vida,
através de cumprir a vontade de D'us.
A maioria das pessoas não consegue transcender sua realidade física inteira numa
só encarnação; no entanto, como esta não é a sua função principal, ela não nega
um destino mais elevado.
A esmagadora maioria das pessoas precisa se esforçar para servir a D'us, apesar de
suas inclinações do mal e egoístas.
Este é o nosso destino.
Por isso as visões de outras religiões quanto à descida da alma são uma completa
antítese às visões da Torá.
Enquanto as primeiras veem a descida da alma como sendo um exclusivo meio de
seu próprio engrandecimento, a Torá explica a jornada da alma a este mundo como
uma missão de elevação do corpo verdadeiramente, de toda a materialidade.
Não obstante, ao longo de sua trajetória, a própria alma se torna elevada.
No entanto, não era este o propósito de sua descida, mas sim a recompensa por
isso.
Os nossos sábios nos dizem que "D'us não retém a merecida recompensa a
qualquer criatura viva".
Isto inclui a alma que, embora espiritual, ainda é uma criatura viva e, assim sendo,
deve ser recompensada por seus esforços.
A recompensa da alma se dá através do cumprimento dos 613 preceitos, que são
análogos aos seus 613 "segmentos".
Por meio de repetidas encarnações a alma é finalmente elevada em sua totalidade.
Como já mencionado anteriormente, há aqueles que haverão de substanciar a
reencarnação somente pela observação de alguma ocorrência da natureza, tal como
a vida de crianças que foram descobertas como sendo "prodígios".
Existem os prodígios das crianças que são fisicamente dotadas, e há aquelas cujos
dotes se encontram no campo da espiritualidade.
O prodígio de uma criança fisicamente dotada poderia, por exemplo, demonstrar
uma enorme habilidade na música ou nas artes, ou em inúmeras outras áreas (tal
como está documentado em relação ao grande compositor clássico Mozart, que
compôs músicas antes de completar quatro anos de idade).
O prodígio de uma criança espiritualmente dotada mostrará excepcionais poderes
espirituais que parecem estar muito além das capacidades e habilidades espirituais
de um jovem.
Estes dois fenômenos são atribuídos, por alguns, à reencarnação.
Essas pessoas chegam à conclusão que essas crianças dotadas herdaram essas
habilidades de suas prévias encarnações.
Na Cabalá, fala-se frequente e abertamente sobre prodígios espirituais.
Os místicos chamam a esta maravilha de "Yenuca".
Um Yenuca contém uma alma que, anteriormente, esteve contida em um Tsadik,
que elevou integralmente a sua alma.
Como agora esta alma está plenamente elevada, ela não precisa mais ser
reencarnada com o propósito de elevação.
Esta alma agora reencarna em outro ser humano, o mencionado Yenuca, não para
o seu próprio engrandecimento, mas para ajudar outras almas confusas e perdidas.
Isto posto, faz todo o sentido dizer que este Yenuca, que contém dentro de si a
alma elevada, tem o potencial de revelar todas as camadas de sua alma com pouco
ou nenhum esforço.
Este tipo de reencarnação difere daquele mais comumente vivenciado, pois neste, a
parte distinta da alma da encarnação anterior não se reencarna novamente.
A personalidade da pessoa anterior continua recebendo as suas recompensas no
Gan Éden depois que seu corpo falecer.
A encarnação seguinte não é uma continuação da anterior.
Neste caso, a pessoa, compreensivelmente, não herda os talentos de sua existência
anterior.
Porém, em se tratando do Yenuca, a personalidade inteira da encarnação anterior
agora se reencarna neste segundo ser humano e, por conseguinte, quaisquer
talentos que possuíra serão igualmente transferidos ao Yenuca.
Tem havido casos documentados nos quais se conclui que a pessoa em questão era
uma reencarnação de um sábio da Torá, que teria vivido antes dela.
Em 1955, havia uma criança em Israel que, numa idade ainda muito tenra,
conhecia o Talmud inteiro.
Muitos líderes expoentes da Torá naquela época, presumiram tratar-se de um claro
exemplo de um Guilgul de um sábio da Torá.
Esta prova de reencarnação, que é fundamentada com base em crianças prodígio,
somente pode ser verdadeira com o Yenuca, que é uma forma rara de Guilgul.
No entanto, com a maioria dos casos de Guilgul, isto não será suficiente como
prova substancial.
Se alguém aceita a visão popular da reencarnação como um carma contínuo, no
qual cada encarnação herda a personalidade de sua vida anterior, poderia, então,
parecer estranho que nós não encontramos a reencarnação de toda grande pessoa
que já viveu em cada geração.
Segundo a Cabalá, entende-se que, mesmo que tenham existido muitos grandes
talentos e gênios ao longo dos tempos, as suas reencarnações podem não ter
refletido as suas grandiosidades, pois as suas reencarnações não têm memórias ou
lembranças de suas existências passadas, sendo que elas estavam em contato com
uma parte inteiramente diferente de sua alma.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 8

Cabalá e Filosofia: Paralelos e Diferenças

O conceito de reencarnação sempre foi uma crença difundida em, praticamente,


todas as culturas por milhares e milhares de anos.
Em nossos dias ainda é uma ideia natural a muitas religiões e filosofias.
Tanto da percepção popular sobe a reencarnação tem sido afetada por essas
diversas perspectivas, que muita confusão resultou em relação à visão da Torá
sobre esta antiga, mas ainda relevante, crença.
Neste capítulo procurarei justapor os olhares Seculares Orientais/Ocidentais com a
perspectiva da Torá, traçando paralelos e distinções.
Daqui por diante chamarei a todas as visões diferentes das da Torá como sendo
"Filosóficas", enquanto que as colocadas sob o enfoque da Torá, estarei chamando
de "Cabalísticas".
A diferença é que "filosófica" é uma criação da inteligência, uma conclusão racional
e lógica tirada pela mente humana, e "Cabalística", é uma revelação "recebida" do
Divino.

A Perspectiva Filosófica
Há aqueles que sustentam que as reencarnações somente podem ocorrer no seio
da família mais próxima da pessoa, ou entre os seus parentes.
Quando uma alma retorna mais uma vez a este mundo para habitar numa outra
forma humana, ela retornará como a alma de um de seus parentes de sua vida
passada.

A Perspectiva Cabalística
Segundo a Cabalá, Guilgul Kaful - dupla reencarnação (quando duas almas habitam
um só corpo), e ibur - ‘impregnação' - somente são possíveis quando ambas as
almas, a alma que reencarna e a alma na qual ela é reencarnada, se originam da
mesma origem no corpo de Adão.
Por exemplo, ambas têm a sua origem na "mão de Adão".
Tudo no reino físico é uma manifestação direta de sua dimensão espiritual.
A maneira pela qual algo existe nos mundos espirituais acima é a maneira pela qual
aquele algo se revelará neste mundo físico cá em baixo.
Assim, almas que são parentes espirituais também terão parentesco neste mundo
físico.
Na verdade, Guilgul Kaful e ibur somente ocorrem em parentes.
Porém, isto não é, necessariamente, a regra para reencarnação em geral.
A Cabalá fala de uma reencarnação "comum" que ocorre entre parentes físicos, e se
refere à mitsvá de Yibum.
A Torá diz: um homem, cujo irmão morreu sem deixar filhos, tem a mitsvá de
casar-se com a viúva de seu irmão e ter uma criança com ela, de forma que o
nome de seu irmão "...não seja apagado".
Literalmente, isto significa que a criança que ela vier a dar à luz, preservará o
legado daquele irmão que falecera.
Porém, a Cabalá entende que isto significa que, num caso assim, a alma do irmão
falecido haverá de reencarnar nesta criança, nascida ao irmão vivo e à viúva.

Filosófica
Existem teólogos que dizem que a reencarnação ocorre imediatamente após a
morte da pessoa.
A alma da pessoa que faleceu reencarnará instantaneamente numa criança que
está nascendo.
Há outros que acreditam que ela reencarnará numa criança que foi concebida no
exato momento da morte daquela pessoa.
Não obstante, eles concordam que o processo de reencarnação ocorre
imediatamente em seguida à morte do corpo.
Outros acreditam' que a reencarnação da alma ocorre cem anos após a morte da
pessoa.
Entretanto, eles concordam, que quando uma pessoa é assassinada, ou que morre
ainda jovem, a sua alma se reencarnará numa outra forma humana imediatamente
depois da morte trágica de seu corpo.

Cabalística
Conforme a Cabalá, a "personalidade" distinta de cada alma recebe a sua
recompensa ou a sua punição imediatamente após a morte do corpo.
Daí, as demais partes da alma, os compartimentos que não foram elevados,
descem imediatamente para habitar uma nova vida.
A personalidade da alma dos Tsadikim e das pessoas perversas também descem
imediatamente após a morte.
Tão logo uma pessoa morra, a sua alma reencarna numa criança concebida naquele
momento.
Tal como explicado na Cabalá, a alma Divina entra no corpo no momento da
concepção.

Filosófica
Há aqueles que acreditam que existe uma continuidade física entre as
reencarnações.
Uma pessoa que morreu esfaqueada, terá uma cicatriz no corpo no qual ocorrer a
reencarnação.
Estes também sustentam que, frequentemente, a própria aparência da encarnação
anterior se reencarnará em conjunção com a alma, de forma tal que a pessoa
poderá se parecer fisicamente com a de sua vida anterior.
Ademais, até os maneirismos e gestos individuais da reencarnação passada
poderão, ocasionalmente, reencarnar na vida seguinte.
Assim, não existe apenas a continuidade espiritual e mental de uma encarnação
para outra, mas muitas vezes pode haver até uma conexão física.

Cabalística
A perspectiva da Torá no que tange esta questão da continuidade física é a
seguinte.
Tal como mencionado num Capítulo anterior, existe um tipo de reencarnação
denominado Guilgul Kaful, uma dupla reencarnação, na qual uma alma desce num
outro corpo vivo - com uma alma já preexistente.
A Cabalá declara que se em sua encarnação anterior a alma habitou o corpo de um
deficiente físico, então esta alma também será reencarnada num corpo que seja de
um deficiente físico.
Porém, isto só acontece com um Guilgul Kaful, que não é a forma comum de
reencarnação.
No caso comum de Guilgul, quando a alma que reencarna se torna a única alma do
novo corpo, a Cabalá não estabelece claramente sobre a existência de qualquer
continuidade física de uma encarnação para outra.
No entanto, a Cabalá alude a esta questão quando menciona Rabi Sheshet.
Rabi Sheshet foi um grande sábio talmúdico que era deficiente visual
A Cabalá diz que a razão por ele ser cego foi porque ele era uma reencarnação de
um outro sábio talmúdico, Bava ben Buta, que, segundo nos conta o Talmud, foi
cegado pelas cruéis autoridades da Terra de Israel.
Este parece ser um caso de continuidade física de uma reencarnação para outra.
No entanto, tudo leva a crer que, na verdade, não é realmente assim.
A alma que foi encarnada de Bava ben Buta em Rabi Sheshet era como uma alma
que fora talhada de forma tal que ela resultava em cegueira.
A alma de uma pessoa que é portadora de alguma deficiência física não é, de forma
alguma, menos completa do que aquela de um indivíduo saudável.
A energia de sua alma é, sim, mais concentrada em outras áreas, fazendo com que
essas energias sejam mais intensas do que em outras áreas da anatomia desta
pessoa.
O Mestre Chassídico, o Yismach Moshe (Rabi Moses Teitelbaum), costumava dizer
que o motivo para os sinais de nascença em seu corpo, que pareciam listras,
estavam ali em decorrência de sua existência anterior quando encarnara em uma
das ovelhas de nosso antepassado Yaacov, cujos corpos, segundo a Torá, foram
listrados.
Apesar disto tudo, esses casos de reincidência de sinais de nascença não
acontecem comumente e, geralmente, sinais de nascimento e cicatrizes de
ferimentos, não são transmitidos de uma reencarnação para outra.
No caso do Yismach Moshe, não se tratava de um caso comum de Guilgul.
Uma situação padrão de Guilgul se dá de um ser humano para outro, e não de
animais para humanos.
Num Capítulo anterior, vimos que não existe continuidade da personalidade ou
memória de uma encarnação para a seguinte.
A personalidade distinta da alma que reencarna, é como se estivesse nascendo pela
primeira vez.
Embora ela tivesse habitado uma forma humana anterior, uma vez que tenha
existido somente num modo não revelado, e estivesse nas profundezas do
subconsciente, ela, em certo sentido, nunca existira verdadeiramente.
Isto denota claramente o fato de que não existe continuidade entre encarnações,
inclusive uma continuidade física.

Filosófica
Há aqueles que acreditam que existe uma perpetuação intelectual de uma
reencarnação para a seguinte; ou seja, quando a pessoa age instintivamente, é
porque aflora uma lembrança subconsciente de sua existência anterior.
Ela está reagindo a uma experiência de uma encarnação passada.
Por exemplo, até mesmo pequenas criancinhas sabem instintivamente que devem
manter distância de uma chama ardente.
Elas não apenas se desviam ao sentirem o calor do fogo, mesmo antes de estarem
suficientemente próximas para realmente sentir o calor, elas, automaticamente,
saem de perto do fogo.
Aqueles que dizem que há uma continuidade intelectual entre encarnações, alegam
que estes instintos provêm de lembranças e memórias subconscientes, isto é, por
exemplo, as pessoas naturalmente se afastam do fogo porque, no fundo de seus
subconscientes, elas lembram que o fogo é perigoso.
Ademais, elas acreditam que também existe uma continuidade de emoções, a
ponto de, às vezes, haver até uma continuidade de talentos.

Cabalística
Segundo a Cabalá, estes instintos naturais do homem podem ser atribuídos à
própria essência da alma.
A alma, por sua natureza, tem "traços e caráter".
Está explicado que a verdadeira natureza da alma animal é a de animar e dar vida
ao corpo humano; portanto, de forma inata, a alma deseja ficar com o corpo e,
assim, naturalmente, recuará ante o contato com uma chama, que, tal como ela já
sabe, pode acabar com a existência do corpo.
(Existe uma teoria que fala de uma consciência coletiva, que pode ser passada de
uma geração para a seguinte por meio do DNA, e outras, que também podem
explicar os instintos humanos.)
O acima citado também é verdadeiro para todos os talentos inatos do homem.
A Cabalá explica que a mente de uma pessoa é originalmente configurada e
formada para as suas habilidades particulares.
Por exemplo, há aqueles cujas mentes são dimensionadas de tal forma a poder
pintar maravilhosamente, e outros cujas mentes são formadas para uma inclinação
às ciências matemáticas.
Quando uma alma adentra pela primeira vez o corpo de uma pessoa para animá-lo,
a alma já é dotada de forma e formato mental.
Há aquelas pessoas cujas almas são "moldadas" para o pensamento abstrato, ao
passo que outras são "dimensionadas" para o pensamento prático.
Existem cérebros que são realmente configurados para pensar de forma abstrata,
enquanto que outros são formados para pensarem praticamente, como tem sido
provado ao se observar os hemisférios esquerdo e direito do cérebro.
Por serem corpo e alma análogos entre si, uma alma que está dimensionada para
pensar de determinada maneira habitará um cérebro que está
correspondentemente inclinado.
Há aqueles cujas almas são moldadas para terem uma inclinação maior a Chessed
(bondade), enquanto que outras almas a Guevurá (poder).
Algumas possuem talento para artes, enquanto que outras à música.
A partir disso, entendemos que os instintos se originam, não a partir de alguma
memória subconsciente de outra vida, mas sim da própria natureza da alma.
Rabi Chayim Vital escreveu sobre si mesmo que, em sua encarnação anterior, ele
era uma pessoa de mente aguçada, e aprendia tudo com todas as suas
complexidades e, assim, essas formas de estudo já não o excitam ou interessam
mais.
Agora ele estuda de uma forma mais relaxada e complacente.
Como a parte de sua alma que estava ligada à mente de atenção aguçada já tivera
sido elevada e transformada em santidade (através do estudo aguçado da Torá ),
ele já não conterá aquelas áreas específicas de sua alma; ele conterá e exercitará
os compartimentos que ainda não foram elevados.
Ele não estuda aguçadamente, mas não por causa da memória de seu estudo
anterior da Torá, mas sim porque ele agora deve elevar outras divisões de sua
alma.
Assim, sob a perspectiva Cabalística, parece não haver qualquer continuidade.
Segundo a Cabalá, cada alma reencarnada que desce a esta terra é uma alma
nova, nascida e viva pela primeiríssima vez.

Filosófica
Existem teólogos que sustentam que as almas tendem a reencarnar em grupos,
significando que um grupo de pessoas numa vida anterior, que tinham alguma
familiaridade ou amizade entre si, se reencarnariam juntas (amigos são,
verdadeiramente, para sempre; eles vão de uma vida para outra).

Cabalística
Na Cabalá, não existem afirmações definitivas; porém, Rabi Chayim Vital escreve26
que o seu mestre, o Arizal, disse, em relação à sua geração, que era a mesma
geração - o mesmo grupo de almas - que havia sido exilada no Egito.
A partir desta declaração, é possível concluir que grupos de pessoas tendem a
reencarnar juntos.

Filosófica
"Hostilidade à primeira vista".
Há alguns que acreditam que a razão para que as pessoas experimentem, às vezes,
uma sensação de imediata antipatia ou aversão ao conhecer uma pessoa até então
desconhecida, se deve ao fato de aquela pessoa ter sido uma inimiga em uma
existência passada, e a hostilidade transmitida de uma reencarnação para outra.

Cabalística
A Cabalá diz que, quando duas almas partem exatamente da mesma origem no
"corpo de Adão", elas, imediata e instintivamente, sentirão certa hostilidade entre
si ao se encontrarem em sua jornada de vida.
Isto se deve ao fato de que cada uma delas quer elevar mais do que a outra; cada
uma deseja trazer para mais perto de D'us o maior número de centelhas Divinas.
Embora a maioria das pessoas não conheça a origem de suas almas, a própria alma
está em contato com a sua origem, e a hostilidade que a alma experimenta ao ver
a outra alma com a mesma origem, se estende também ao corpo.
O Talmud aborda esta questão ao mencionar uma visão que fora mostrada a um
profeta.
Ela foi mostrada exclusivamente ao profeta, mesmo assim ela exerceu um efeito
sobre as pessoas ao seu redor.
O Talmud explica que, "Apesar de elas próprias não terem tido a visão, as suas
almas a tiveram".
Independentemente do quão físico o ódio possa parecer, trata-se, na verdade, de
um ódio espiritual.
No entanto, quando uma pessoa começa a odiar, ainda que por motivos bons ou
sagrados, isto a levará, com grande frequência, a um ódio não-Divino.
Trata-se de um ciúme espiritual, pois cada alma quer elevar mais que a outra.
Não é muito diferente daquilo que acontece entre irmãos gêmeos, quando cada um
tenta ganhar mais atenção de seus pais; assim sendo, cada um se esforça para ter
uma conduta melhor que a do outro.
Há um dito talmúdico assim: "O ciúme entre os eruditos aumenta a sabedoria".
Cada estudioso procura superar o seu contemporâneo, busca desenvolver ideias
diferentes e mais inovadoras.
O seu ciúme cria um efeito positivo.
O ciúme é, normalmente, a fonte do ódio.
Tal como certa vez observou um homem sábio, a pessoa odeia somente uma
pessoa a quem não pode conquistar.
Ter ciúmes de outra pessoa equivale a admitir que a outra é melhor do que ela
própria.
O ciúme se origina no fato de a pessoa entender que ela jamais conseguirá atingir o
nível daquela outra.
Porém, o ciúme que um erudito da Torá sente por outro não conduzirá ao ódio, pois
é um ciúme espiritual e que resultará somente numa elevação espiritual.
Assim sendo, embora encontremos mencionado na Cabalá a noção de inimizade,
ela não é física, não se trata de um ódio não-Divino, mas sim uma animosidade
puramente espiritual.
Além disto, esta hostilidade da qual fala a Cabalá, não é uma animosidade que se
estende de uma encarnação para outra (tal como os outros alegam), mas sim um
ódio inato, que tem a sua procedência na própria origem de suas almas.

Filosófica
Segundo a tradição Oriental, é possível que a alma de uma forma masculina, ou
seja, uma alma "projetada" e dimensiona-da para habitar a forma de um homem,
reencarne no corpo de uma mulher, ou vice versa.
Porém, a maioria concorda que essas transferências são raras e improváveis.
Entretanto, há aqueles que discordam disto.
Eles acreditam que a transferência de almas entre gêneros é uma ocorrência
bastante comum.
Devido a esses intercâmbios, é possível que a pessoa de um sexo tenha as
características do sexo oposto.

Cabalística
Na Cabalá, o conceito de intercambio de gêneros nas reencarnações não é
mencionado em relação à reencarnação em prol da elevação.
No entanto, tal como foi explicado anteriormente, também existem reencarnações
como forma de punição (frequentemente, essas reencarnações são de seres
humanos em criaturas inferiores), e, em relação a estes tipos de reencarnações, a
Cabalá sim menciona a ideia de intercambio de gêneros, macho e fêmea.
A Cabalá diz que um homem que tenha pecado ao agir como uma mulher (por
exemplo, se envolvendo em relacionamentos sexuais proibidos), possa ser
punido/refinado por meio de sua reencarnação num corpo feminino.
Este é um castigo bem severo, pois o formato da alma masculina não se ajusta no
corpo feminino.
Assim sendo, a alma não tem como se expressar plenamente.
A Cabalá explica que essas mulheres que possuem almas masculinas, não podem
parir, pois para que possam dar à luz, a pessoa precisa ter mais do que um corpo
feminino, ela deve ter uma alma feminina.
Como essas mulheres não têm almas femininas, elas não podem dar à luz.
Porém, é possível que uma mulher que tenha uma alma masculina venha a
conceber uma criança, e isto se dá por meio da impregnação, em seu corpo, da
alma de uma mulher falecida, dando-lhe assim a capacidade de engravidar e ter
uma criança.
A Cabalá sustenta que quando ela der à luz, a criança será uma menina, pois a
alma feminina que estava impregnada em sua mãe e que lhe dera a capacidade de
conceber, agora será reencarnada em sua criança.
Esta alma feminina será dali em diante a alma de sua filhinha.
Assim, a mulher com uma alma masculina terá apenas uma criança, pois após ter
dado à luz, a alma que lhe proporcionou a capacidade de conceber, já não estará
mais dentro dela (a alma estará agora em sua filha).
Não obstante, também é possível que ela venha a dar à luz por meio de um
milagre, ou, ainda, se ela tiver um mérito monumental.
Então, ela poderá gerar muitas crianças por meio de uma alma de uma mulher
falecida que venha a se impregnar em seu corpo depois de cada parto e, assim,
dando-lhe a capacidade de gerar outra criança.
Ademais, a Cabalá diz que também é possível, embora seja muito raro, que essas
mulheres deem à luz a um menino.
Isto somente poderá ocorrer quando a alma feminina que estava impregnada no
corpo da mãe ascender de seu corpo no momento do parto, permitindo que a alma
de um homem se torne a alma deste menino recém-nascido.
No entanto, mais uma vez, devemos enfatizar que esta não é a norma, e um corpo
feminino que possui uma alma masculina, terá maior chance de não dar à luz; mas
caso isto aconteça, a criança será uma menina.
Até aqui, tratamos apenas de almas masculinas habitando corpos femininos (para
um processo de punição, e não de Tikun).
Mas o que dizer sobre almas femininas que reencarnam em corpos masculinos?
A Cabalá explica que, geralmente, as almas de mulheres não reencarnam.
Tal como consta em Kohelet (Eclesiastes), "Uma geração vem, e outra geração vai;
enquanto a terra para sempre permanece".
Estas palavras, segundo a Cabalá, se referem ao conceito de reencarnação.
"Uma geração vem, e outra geração vai", se refere a almas masculinas, que vêm e
vão, para e deste mundo, numa constante sucessão de reencarnações.
"A terra", que corresponde a almas femininas (feminina no sentido de receptora),
"para sempre permanece" - não retornam a este mundo inferior.
Uma vez que a alma feminina viveu mesmo que apenas uma vez nesta terra, ela
não terá que voltar novamente; ela pode repousar para sempre no Paraíso, no Gan
Éden.
Em vista desta explicação, muitas perguntas se tornam imediatamente evidentes:
se as almas de fêmeas não reencarnam, devemos subentender que isto significa
que todos os 613 compartimentos da alma foram elevados ao longo de uma única
vida?
Como é que isto seria possível?
Ainda que isto fosse possível, existem certas mitsvót que uma mulher não pode
praticar ou realizar, por serem aquelas mitsvót preceitos especificamente inerentes
ao homem,
Por isso, como é possível que a sua alma seja completamente elevada?
Como é possível que uma mulher eleve todos os 613 compartimentos de sua alma?
Conforme foi ilustrado acima, é praticamente impossível que uma pessoa possa
elevar todas as 613 partes da alma durante uma só vida.
A explicação mais óbvia é que às mulheres foram atribuídos menos mandamentos
do que aos homens e, por isso, é mais plausível que uma mulher venha a elevar,
em uma só vida, todas as divisões correspondentes de sua alma.
Porém, sendo que uma alma feminina possui 613 compartimentos, tal como
também possui o homem, a pergunta permanece: como é que as mulheres elevam
todos os 613 compartimentos de sua alma?
Na oração que rendemos após uma refeição, há uma bênção que diz: "e pelo Teu
pacto que Tu inculcaste em nossos corpos".
Isto se refere à circuncisão.
No código da lei Judaica", está dito que as mulheres podem participar e recitar esta
bênção, embora as mulheres não sejam circuncidadas, pois quando se fala da
criação do homem, a Torá diz": "homem e mulher Ele os criou", que,
essencialmente, significa que machos e fêmeas são, na verdade, uma só criação,
um só ser.
Portanto, as mulheres também podem dizer "e pelo Teu pacto... em nossos
corpos", pois os seus pares masculinos são como uma extensão de suas próprias
existências.
E, assim sendo, tal como está dito em Kitvei Cabalá, quando um homem realiza
uma mitsvá à qual a mulher está isenta, ele realiza a Mitsvá também pelo seu par
feminino, e é como se ela própria tivesse realizado aquela mitsvá.
O Talmud declara: "A esposa de um homem é como se fora o seu próprio corpo".
E o Zôhar explica que cada indivíduo, homem ou mulher, é considerado como
sendo a metade de um corpo, com metade de uma alma.
Assim, tudo aquilo que o homem realiza beneficia a mulher, e vice versa.
Isto parece resolver a questão dos 613 compartimentos da alma da mulher sendo
elevados, apesar de as mulheres estarem sujeitas a menos mitsvót.
Um homem pode conseguir essas elevações pelas suas contrapartidas femininas.
Quando um esposo realiza mitsvót que são somente aplicáveis a homens, ele não
estará elevando apenas a sua própria alma, mas também estará elevando a de sua
esposa (ou futura esposa).
Porém, esta resposta ainda nos deixa confusos, pois como é que podemos dizer que
uma mulher pode elevar todos os 613 compartimentos de sua alma ao longo de
uma só vida?
Conforme mencionado anteriormente, é bastante raro que uma pessoa venha a
completar todas as elevações de todas as almas em uma única encarnação, e
somente algumas poucas seletas pessoas é que conseguem verdadeiramente
conseguir isto.
Como é, então, possível que uma mulher venha a elevar todos os níveis da alma,
com todos os seus compartimentos em uma única vida, enquanto que um homem,
fazendo o mesmo que ela, deva reencarnar muitas vezes para conseguir o mesmo
efeito?
O Lubavitcher Rebe, Rabi M. M. Schneerson, certa vez explicou em relação à
obrigação da mulher na prática das mitsvót.
Há um versículo em Êxodo que diz, "Assim falarás à casa de Yaacov, e anunciarás
aos filhos de Israel".
O Midrash explica que, D'us disse a Moisés para que ensinasse às filhas de Israel os
princípios gerais da Torá antes de ensinar a Torá, com todos os seus detalhes, aos
homens de Israel.
O Rebe elabora: as mulheres foram as primeiras a receber a Torá, e foram
instruídas nos princípios gerais da Torá sem os detalhes, pois as mulheres são, em
certo sentido, ainda mais proximamente conectadas à Torá do que os homens.
As mulheres estão em contato com a essência interior da Torá, com a ideia geral da
Torá.
Já os homens precisam dos detalhes para que possam se conectar.
Um homem precisa realizar as minúcias da lei para se tornar mais Divino, enquanto
que uma mulher pode fazer uma conexão com D'us de uma maneira que
transcende os detalhes.
Os homens são obrigados a vestir um talit e os tefilin para alcançar a essência
interior da Torá e revelar o seu amor e reverência a D'us, ao passo que as
mulheres podem expressar o seu amor e reverência sem esses acessórios
exteriores.
Os homens precisam de "ferramentas" para gerar os seus sentimentos espirituais
por D'us, enquanto as mulheres são, por natureza, mais afinadas espiritualmente e
podem ser elevadas a sentimentos espirituais por D'us, sem a necessidade de
quaisquer "ferramentas" físicas.
O método pelo qual as mulheres elevam todos os 613 compartimentos de sua alma
se dá por meio do cumprimento dos princípios gerais da Torá, com enorme cuidado
e cautela, intensidade e fervor.
E pela observância dessas mitsvót gerais, que abrangem os detalhes e minúcias
das mitsvót, a pessoa é capaz de elevar todos os 613 compartimentos de sua alma
que correspondem aos 613 preceitos.
Estas mitsvót gerais ás quais nos referimos, são compostas de seis mitsvót
abrangentes na Torá, que são, para mencionar apenas algumas: acreditar em D'us,
amar e reverenciar a D'us, e assim por diante.
As mulheres são naturalmente aptas nessas áreas e tendem a se superar nesses
preceitos.
Geralmente, as mulheres não reencarnam e, em assim sendo, poderia parecer que
uma alma feminina reencarnada numa forma masculina seria algo impossível.
Não obstante, diz a lenda que o Shalá HaKadosh, Rabi Yeshaya ben Avraham
HaLevi Horowits (1570-1630) (  ), foi uma reencarnação da
alma de Rut (a bisavó do Rei David).
O próprio Livro de Rut alude a este fato.

Cada versículo no Livro de Rut começa com a letra Hebraica "Vav" ( ), exceto em
  
oito versículos que começam com as letras "Yud" ( ) "Shin" ( ), "Hei" ( ),
    
"Bet" ( ), "Alef" ( ), "Ayin" ( ), "Yud" ( ) e "Lamed" ( ), que compõem o nome
deste grande homem.
A partir desta lenda, poderia parecer que há um intercâmbio de gêneros de uma
alma feminina para um corpo masculino.
No entanto, somente com base nesta história, não nos é possível traçar qualquer
prova absoluta para tais transformações.
Há quem possa argumentar que a alma de Rut fora, originalmente, a alma de um
homem.
Geralmente, não existe reencarnação de almas femininas, ainda que de uma
mulher para outra.
Isto é algo especificamente inerente a reencarnações pelas quais todo homem deve
passar; ou seja, a reencarnação como um processo de contínua elevação.
No entanto, a reencarnação como uma forma de penalidade, ou de refinamento,
quando uma alma desce para um corpo ao qual não pertence, pode também ser
experimentada por mulheres.
A alma de uma mulher pode ficar aprisionada num corpo masculino em razão de
um pecado cometido numa encarnação anterior.
É incomum, porém, algumas vezes, há reencarnações de almas femininas.
Tal como já foi mencionado anteriormente, no caso de uma mulher com uma alma
masculina, uma alma feminina pode impregná-la e, mais tarde, se tornar a alma de
sua filha.
Também existe Guilgul de almas femininas quando - e isto é bastante comum -
uma esposa reencarna para estar com o seu destinado marido (como será
explicado nos parágrafos seguintes).

Filosófica
Outra crença em relação à reencarnação é que as pessoas sentem amor à primeira
vista porque, em suas encarnações anteriores, elas tinham sido amantes.
Por isso, elas se apaixonam sem todas as dificuldades comumente experimentadas.

Cabalística
Segundo a Torá, o que acontece é bem ao contrário disto.
Se a pessoa se apaixona com facilidade, "amor à primeira vista" sem quaisquer
dificuldades, isto é uma prova de que se trata da primeiríssima vez que estas duas
almas descem a este mundo, e essas duas almas são parte de uma só alma
unificada.
Conforme foi explicado acima, marido e mulher são, em essência, um só corpo,
com uma alma.
O verdadeiro "amor à primeira vista" não acontece porque foram amantes numa
vida passada, ao contrário, isto acontece porque esta é a primeiríssima vez que
essas duas almas se encontram numa forma física.
O Talmud ensina que (por ocasião da concepção), 40 dias antes da formação de
uma criança, uma voz Celestial declara quem será a sua destinada alma parelha.
Todo e qualquer indivíduo tem o seu ou sua pessoa que lhe é destinada, o seu
predestinado par, conhecido em iídiche como "Bashert".
O Talmud elabora sobre o assunto e diz que uma pessoa pode ter mais de um
parceiro.
É possível haver um primeiro e um segundo par ("segundo" no sentido de
"múltiplo" - algo mais do que um).
O primeiro par é o verdadeiro parceiro da pessoa, uma parte de sua própria alma;
enquanto que o segundo par a pessoa recebe conforme os seus feitos.
Se a pessoa é uma pessoa justa, então ela também desposará uma pessoa justa ;
se ela for uma pessoa bondosa, ela também merecerá se casar com uma pessoa
bondosa, e assim por diante.
A definição de "primeiro" e "segundo" não significa, necessariamente,
cronologicamente - ou seja, que o primeiro matrimônio tenha sido a primeiro par
da pessoa e os casamentos subsequentes se dão com a segundo par da pessoa.
Mas sim que "primeiro" e "segundo" se refere à qualidade e nível.
É possível que uma pessoa se case com seu primeiro par depois de já ter sido
casada, anteriormente com seu segundo par.
A definição de primeiro e segundo par não está ligada ao fator tempo, mas sim na
origem, "primeiro par" significando o primeiro em graduação e qualidade, a sua
verdadeiramente destinada "outra metade".
A única maneira para que a pessoa saiba, com certeza, se o seu cônjuge era
verdadeiramente o seu Bashert, é pela percepção posterior.
Se o casamento foi sadio e bem sucedido, a pessoa poderá, então, dizer que se
tratou de sua verdadeira "alma gêmea".

Filosófica
Muitos teólogos também dizem que, se duas pessoas estavam casadas numa vida
anterior, elas voltarão novamente juntas a este mundo, num lugar e numa época
em que possam finalmente se encontrar, e voltar a ser, uma vez mais, esposo e
esposa.
Cabalística
Segundo a Cabalá, é isto que acontece, embora nem sempre.
Maridos e esposas se casem novamente em cada reencarnação, tal como explicarei
resumidamente.
No entanto, não é sempre que isto tem que ser assim.
Por exemplo, um homem que tenha, em sua vida anterior, se casado com seu
Bashert, e tenha cometido um terrível pecado, poderá ter que reencarnar neste
mundo inferior, sem o seu par predestinado.
A sua punição é que a alma dela não desce junto com a sua alma.
A sua punição não é a reencarnação em si - o fato de a sua alma ter que
reencarnar.
Estamos falando de um Guilgul para o processo de Tikun (elevação), pelo qual
quase toda alma masculina deve passar.
A punição é que a alma de sua esposa não reencarna com ele.
(Embora a maioria das almas femininas não necessite reencarnar, tal como
explicarei mais adiante, elas comumente reencarnam.)
Ainda mais, a Cabalá diz que mesmo no caso em que o homem pecou e,
consequentemente, não merece estar com a sua alma gêmea predestinada nesta
vida, ainda é possível que a alma de sua parceira reencarne outra vez e se torne
sua esposa, para ajudá-lo espiritualmente e guiá-lo.
Entretanto, em condições normais, a pessoa não comete um pecado terrível e,
assim, merece estar com a sua esposa predestinada.
Quando a alma masculina desce a este universo inferior para conseguir alcançar o
seu Tikun adequado, a sua alma gêmea feminina reencarnará junto com ele, e será
sua esposa até que ele atinja a sua completa elevação.
Quando almas gêmeas descem pela primeira vez, as suas almas imediatamente se
reconhecem e a transição de almas separadas para uma só alma unificada é
facilmente alcançada.
Porém, nas reencarnações seguintes, esta transição não será assim tão suave.
Isto significa que, até que eles finalmente decidam se unir e, de fato, se casar,
ambos podem passar por muitas dificuldades, sofrimentos e provações - passando
por lutas emocionais internas e conflitos externos.
Retomando a declaração supracitada da Cabalá, na qual ela estabelece que almas
femininas não reencarnam, concluímos que o que a Cabalá realmente quer dizer é
que as almas das mulheres não precisam reencarnar para o processo de Tikun
(elevação), pois uma mulher pode elevar a sua alma inteira, com todas as suas
subdivisões, no decorrer de uma só vida.
No entanto, a maioria das mulheres reencarna, com suas almas completamente
elevadas, para poder se tornar esposas de seus predestinados maridos.
Elas reencarnarão juntamente com os seus parceiros de vida, até que eles
completem a sua total elevação, o seu completo Tikun.
Os poetas do mundo falam do verdadeiro amor como sendo algo eterno e perpétuo;
segundo a sagrada Torá, isto é, de fato, verdadeiro, q uando aprendemos que
amantes estarão juntos neste universo físico para sempre (até que o Tikun seja
completado).
Tal como escreveu, certa vez, um poeta: "Eu acho que a pessoa está sempre
apaixonada por uma coisa ou outra; o erro consiste em procurar numa imagem
mortal a semelhança daquilo que, talvez, seja eterno".
A atração essencial entre homem e mulher, pode parecer como sendo uma
sensação física, externa; mas é algo bem maior do que isto.
O magnetismo, a atração física acontece porque ambos são parte de uma única
existência, um só corpo e uma só alma.
Uma pessoa deseja e anseia ser uma com o seu amado, pois deseja se unificar,
voltar a se tornar uma só como um todo.
Há um antigo debate entre doutos do mundo inteiro no que se refere ao que atrai
as pessoas entre si.
O que leva uma pessoa a escolher o seu parceiro?
Os opostos se atraem - será o encanto, a atração, o resultado de suas diferenças?
Ou é quando as pessoas são parecidas que se sentem atraídas, uma à outra?
Segundo a Cabalá, trata-se de uma conexão de almas.
Quando duas pessoas gravitam em direção uma à outra, é uma força espiritual que
as compele para se unir e deflagrar a sua paixão.
Em Salmos, temos um versículo que diz: "Famintos e sedentos, as suas almas
dentro deles desfaleceram".
O Baal Shem Tov disse que quando estamos famintos por alimento físico,
assumimos que isto se dá por causa da fome que sente o nosso corpo físico.
Mas, na verdade, é a nossa alma que está faminta.
É a nossa alma Divina, que lá de dentro anseia elevar o alimento físico à Divindade.
Trata-se de um desejo, de um estímulo espiritual da alma, faminta por elevação,
que se manifesta numa dimensão física.
Se a fome ficasse como um desejo espiritual, nós, na qualidade de pessoas físicas,
jamais sentiríamos a necessidade de comer.
O mesmo acontece com o amor e atração que a pessoa sente por seu amado.
Por vezes a pessoa pode sentir que essas atrações sejam apenas físicas ou, num
plano um pouco mais refinado, uma atração mental.
No entanto, todas essas atrações são meras manifestações de uma verdade
interior, uma conexão da alma a uma e única "alma gêmea"; aquela destinada
desde a criação da pessoa, e aquela que estará ao seu lado por toda a eternidade.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte 9

Discutindo a Reencarnação: Argumentos Comuns em Oposição à


Reencarnação e a Responsa

Quando falamos sobre reencarnação, uma alegação típica se refere à questão do


livre arbítrio.
Uma pessoa sente que se o seu destino foi decidido pelos feitos de sua encarnação
anterior, não existe um verdadeiro livre arbítrio, em sua vida.
Tudo já foi decidido muito tempo antes até de seu nascimento: a sua condição
financeira, o seu bem estar emocional, e tudo o mais - tudo já previamente
estabelecido por um outro corpo que possuiu a sua alma.
Assim sendo, segundo este argumento, não resta espaço para conquistas pessoais
verdadeiras ao longo de sua vida; sem qualquer força motivadora que impele a
pessoa a aspirações mais elevadas.
Segundo interpretações Cabalísticas sobre a reencarnação, cada pessoa é julgada
somente pelos méritos de suas próprias ações e feitos.
As encarnações anteriores não exercem qualquer efeito no que tange às punições
ou recompensas na presente encarnação.
Cada encarnação individual da alma é considerada um novo ser, indiferente a
quaisquer coisas que as suas encarnações passadas tenham feito.
Os efeitos positivos de suas encarnações anteriores existem apenas
potencialmente, e podem ser aproveitadas por meio do cultivar da conexão da
alma.
Porém, o negativo, não tem imortalidade.
E deixa de existir com o desaparecimento do corpo.
Para aqueles cujo único conhecimento sobre reencarnação se origina do
pensamento e da cultura Oriental, o conceito de Carma, de causa e efeito, parece
excluir a necessidade de um D'us de justiça e julgamento.
A crença no Carma é tal que toda a ação causa uma reação, e os atos e feitos da
pessoa encontram uma reação em sua encarnação seguinte.
Portanto, para essas pessoas, a reencarnação parece ser um conceito não-Judaico,
negando a presença de D'us.
Causa e efeito, têm um papel fundamental no Judaísmo.
Para cada ação ou feito positivo cria-se uma força positiva neste mundo, a um nível
individual e a um nível global; e vice versa, em negatividade.
Entretanto, no Judaísmo esta crença difere grandemente da crença no Carma, no
que tange aos efeitos exercidos pelas ações da pessoa durante sua vida e apenas
ao longo deste espaço de tempo.
Quando o corpo morre, ele leva consigo os efeitos de suas ações neste mundo, e a
nova encarnação da mesma alma nasce como um recém-nascido, uma nova folha
de papel em branco, esperando para ser preenchida com uma nova história de
vida.
Existe muita resistência ao conceito de reencarnação por parte daqueles que
acreditam haver muito mais na vida do que aquilo que está na superfície.
Aquelas pessoas sentem que não existem respostas fáceis e se ressentem daqueles
que costumam dar explicações simplórias às difíceis questões da vida.
A reencarnação parece permitir a alguns a capacidade de dar explicações àquelas
experiências que parecem contradizer o nosso pensamento racional.
Quando ocorre uma tragédia ao inocente, isto se dá porque "a sua encarnação
anterior não foi merecedora"; e quando o malvado tem sucesso é porque "a sua
encarnação passada foi, com certeza, um grande indivíduo".
Estas são respostas superficiais, e distanciam aqueles que sentem que essas
questões não são tão facilmente resolvidas.
Porém, o Judaísmo não oferece soluções simples a estas complicadas e complexas
questões.
Embora, em alguns casos, possa ser verdade dar respostas que envolvem
encarnações passadas, nenhum de nós tem as capacidades espirituais para fazer
este tipo de cálculos.
Até mesmo o grande Moisés, de quem foi dito: "Nunca houve um profeta com a
envergadura de Moisés, nem antes dele e nem haverá jamais outro como ele".
Ficou intrigado pelo sofrimento do inocente e pela prosperidade dos malvados, e
questionou D'us em relação a isto.
Há muitos que acham a ideia de reencarnação um tanto quanto desconfortável.
Essas pessoas acham que isto desafia a sua individualidade, colocando-as numa
longa cadeia de corpos conectando-se a uma alma em comum, sendo cada corpo
um mero recipiente para esta mesma alma "genérica".
Elas sentem que a sua personalidade e atributos são singulares, e individuais, e não
algo que é duplicado, como alguma cópia carbonada, de uma vida para outra.
Estas sensações são válidas, e verdadeiras.
Cada pessoa é um indivíduo completo e absolutamente singular, jamais tendo
existido antes e jamais existirá outra vez.
A alma que elas compartilharam com tantos anteriormente, é uma alma
multifacetada, composta de camadas e mais camadas de dimensões espirituais.
Cada encarnação manifesta um aspecto completo, singular e individual desta
complexa alma, resultando em personalidade e espírito novos e até então jamais
vistos.
Assim, cada pessoa é ímpar e incomparável a qualquer outra pessoa que jamais
viveu.
Há, então, aqueles que acham que todo o conceito de reencarnação é, na verdade,
uma metáfora (metáfora sendo uma imagem que sugere algo mais).
Eles preferem acreditar que a existência numa forma anterior e em encarnações
futuras representa as dimensões do atual caráter e ser da pessoa, que pode não
estar incluída no seu conceito de "eu".
Em outras palavras, a existência da pessoa pode ser bem mais profunda e mais
abrangente do que se possa imaginar e perceber na vida cotidiana.
Os mestres Cabalísticos interpretam a reencarnação como um fato verdadeiro e,
simultaneamente, uma parábola.
Enquanto a reencarnação ocorre, de fato, quando a alma falece, há também
dimensões da alma da pessoa que se estendem muito além de nossa percepção da
realidade e são mais complexas do que a imaginação.

Continua
Reencarnação e Judaísmo – Parte Final

Ao leitor, este estudo pode parecer estar falando exclusivamente a alguém que
segue a religião Judaica.
A terminologia empregada é peculiar ao pensamento e à prática Judaica.
Por exemplo, em relação às boas ações, usamos a palavra "mitsvá".
Quando falamos sobre a contemplação e meditação da existência de D'us, a palavra
empregada é "Torá".
Mais especificamente, em relação à própria reencarnação, o texto faz referência a
613 compartimentos da alma que correspondem às próprias 613 mitsvót que
parecem ser exclusivas à fé e ao pensamento Judaico.
Ao longo da literatura Cabalística, e especialmente na Cabalá escrita na época
medieval, a terminologia Judaica é usada quase que exclusivamente.
A Cabalá parece estar falando à pessoa judia e sobre uma pessoa judia.
A razão para que isto fosse assim é porque quando os mestres da Cabalá
escreviam, eles estavam dirigindo os seus textos a um público que consistia,
exclusivamente, de judeus, pois esta era a sua área de influência.
Além disso, mesmo que eles tivessem a ambição de difundir os seus ensinamentos
ao "mundo exterior", eles não tinham a oportunidade, uma vez que eram
perseguidos e forçados a viver em áreas confinadas, compostas apenas por judeus.
Além do mais, a perseguição deixou neles um medo de se expor e tornar conhecido
que havia algo com que podiam contribuir e que não estava disponível no "mundo
exterior".
Assim, existe pouquíssima política externa dentro do contexto da lei Judaica
(halachá) e dentro de sua contrapartida espiritual, a Cabalá.
Para citar um exemplo de como vemos isto na atualidade, Rabi Yossef Caro (1488-
1575), em seu magnum opus, o Shulchan Aruch - o código da Lei Judaica - omite
um princípio básico da Torá, que é a obrigação que todo judeu tem de influenciar o
mundo no ensinamento das Sete Leis de Noé, que são para a humanidade inteira,
em geral.
Por outro lado, Maimônides, que vivia no Egito numa época de paz para os judeus
(sendo, ele mesmo, o médico do rei), inclui esta lei como um princípio fundamental
em sua monumental obra, o Yad HaChazaká.
Assim, ao longo dos ensinamentos da Cabalá, encontramos poucas referências ao
gentio (o não judeu).
Ao manter o fluxo básico dos textos originais dos grandes mestres da Cabalá, eu
também dirigi a terminologia de forma a me referir ao judeu.
Porém, toda referência feita à pessoa judia, ao longo de todo este estudo, se refere
igualmente ao não judeu.
Por exemplo, toda a humanidade, independentemente de sua fé, é possuidora de
uma alma Divina.
Todas as pessoas têm o potencial para aspirar a um lugar no Paraíso.
E toda pessoa pode conseguir a verdadeira imortalidade através da ressurreição
dos mortos.
O Judaísmo não incentiva ou encoraja outros a se converterem à sua fé.
Os judeus não praticam o proselitismo.
Todas as pessoas são respeitadas por aquilo que são e por aquilo em que
acreditam.
O Talmud diz que, se uma praga se abate sobre uma cidade, ainda que nela não
viva nenhum judeu, os judeus devem jejuar pelo bem do povo daquela cidade.
A pessoa deve respeitar a individualidade do outro.
O Talmud fala dos homens justos, os Tsadikim, de outras nações.
O mais sagrado dos homens na fé Judaica é o Cohen Gadol, o Sumo Sacerdote.
E o Talmud declara que não apenas um judeu, mas também um não judeu (um
gentio), que busca e se esforça para alcançar níveis elevados pode alcançar este
nível espiritual do Cohen Gadol.
Cada pessoa tem o seu propósito único e singular nesta terra, e cada um é
absolutamente crucial ao bem estar, físico e espiritual, do mundo.
Cada pessoa deve ser respeitada por suas habilidades e capacidades individuais.
Há um fascinante texto, escrito sobre um Francês Católico Romano, Aime Palliere
(1875-1949) e um rabino Italiano, Rabi Eliyahu ben Amozeg.
O Francês pediu o conselho do Rabi em relação à maneira apropriada de conduzir a
sua vida.
O homem queria se converter à religião Judaica, e o Rabi desaconselhou-o a fazer
isto, e ensinou-o a como viver uma vida Divina em seu próprio destino, no qual ele
nasceu e cresceu.
Embora possa ser verdade que toda pessoa, independentemente de sua fé ou
religião, tenha sua singular e única missão e propósito, permanece o fato de que a
alma se compõe de 613 compartimentos, e que devem ser todos eles elevados para
a realização do destino da alma.
Como pode uma pessoa que não nasceu nem se converteu, à fé Judaica, elevar
todos estes 613 compartimentos?
A própria Torá se compõe de corpo e de alma, a lei e o espírito da lei, a dimensão
espiritual da ação física.
Algumas mitsvót são feitas somente num plano espiritual e não requerem qualquer
ação física para serem realizadas ou cumpridas - como, por exemplo, a obrigação
de amar a D'us e a de temê-Lo.
Estas mitsvót se aplicam à toda a Humanidade.
Há, também, mitsvót que são, de fato, um feito físico que poderiam parecer não
dizer respeito a gentios (a não judeus) - como, por exemplo, a mitsvá dos tefilin
(em Português: filactérios): que é a obrigação de atar, ao braço e à cabeça da
pessoa, tiras de couro conectadas às palavras do Shemá que vêm escritas num
pergaminho.
No entanto, existe um lado espiritual à mitsvá.
Aquilo que é alcançado espiritualmente por meio deste ato é a submissão da mente
e do coração da pessoa a D'us.
Sem esta dimensão espiritual, o próprio ato físico muitas vezes nada consegue.
Um gentio também está obrigado a submeter o seu coração e a sua mente a D'us;
porém, isto não precisa ser feito por meio do ato físico do tefilin, mas sim num
plano puramente espiritual.
Em conclusão, todas as pessoas têm a capacidade de elevar a sua alma em sua
plenitude, por meio das dimensões espirituais das mitsvót da Torá, embora não
seja exigido a todas as pessoas realizar fisicamente o ato da mitsvá.

Por: DovBer Pinson