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Bom dia vida,bom dia morte.

Como vocês estão se sentindo hoje? Teremos um


enorme desafio pela frente. Vamos?
Um dia uma pessoa me falou:
“Não deixe o teu grito parado no ar.”
Eu não entendi a frase e também não compreendi o
que ela tinha a ver comigo. Havia nela um desejo
e havia um conselho. Eu levei tempo para
compreender e interpretar o que essa pessoa quis
me falar.
Outro dia eu estava lendo e vi uma frase de uma
senhora que sobreviveu ao nazismo nos campos de
concentração da Segunda Guerra. Ela dizia:
“Não importa o quão diferente digam que você é.
Dentro de suas veias corre o sangue vermelho que
corre nas minhas veias. Quando você se machuca
dói, como dói, para mim, quando eu me machuco.”
A palavra prevenção é algo que muda de
perspectiva onde é usada. Prevenir uma doença,
prevenir um acidente, prevenir um desastre, um
acontecimento indesejável. De todas as formas,
prevenir é evitar, é se manter longe, não porque
somos invencíveis, mas porque podemos
identificar o perigo e o contornar, mantê-lo a
uma distância segura.
Eu andei pensando sobre o suicídio, sobre como
entender o que ele significa e como preveni-lo.
Prevenção de suicídio é um objetivo social, que
envolve a todos, e é importante no momento
presente. Para esse assunto não cabem
simplismos, é preciso enfrentá-lo com toda nossa
força interior. Algumas coisas me vieram em
mente e gostaria de colocá-las aqui. Isso porque
encarar o caso concreto era de longe a vivência
que me parecia mais desafiadora, a mais profunda
que eu achava que poderia ter.
O que é a vida? A vida é tão somente vida. Mas
como poderia ser explicada? Como poderia ser
sentida? Como eu a mediria?
Quando eu percebo que estou viva, isso é o que
ela é. Quando eu percebo que ela me pertence,
isso é como posso explicá-la. Quando eu a deixo
acontecer, é a forma como posso medi-la.
Todos nós recebemos vida. Ela é singular, pois
está ligada a um ser único. Ninguém pode viver a
nossa vida e, apesar de podermos perdê-la pela
ação dos outros ou de nós mesmos, ela nos
pertence e nós pertencemos a ela num elo
impossível de ser desfeito.
Mas, a vida um dia acaba e a morte toma o seu
lugar, num elo também impossível de se
ddesfazer.
Ocorre que há uma diferença nesses elos –
enquanto a vida é o caminhar de alguém, a morte
é a sua parada. Esse caminhar nos permite
escolhas: Com qual velocidade faremos a
caminhada? Vamos avançar ou retroceder no
caminho? Caminharemos sós ou acompanhados? São
muitas as possibilidades que nascem fruto dessas
escolhas. Já na morte não decidimos nada.
Podemos decidir pela morte, mas a partir dai
cedemos o controle. Abrimos mão de tudo, da
vida, da caminhada e de nós mesmos, nos
entregamos totalmente.
É preciso compreender que se dar à morte, mesmo
sendo uma escolha, é um ato definitivo que
carrega a certeza de que nada, absolutamente
nada mais da nossa vida poderemos compartilhar,
pois nos entregamos totalmente.
Temos que pensar se queremos isso mesmo, se
queremos usar nosso livre arbítrio dessa forma,
pois na maioria das vezes, o desejo da morte é
um ato pela vida, não pela morte. Queremos achar
uma resposta a algo que nos perturba, queremos
eliminar uma dor que nos consome, queremos
sentir, pensar e agir de forma diferente, mas
para todas essas coisas não sabemos como devemos
fazer.
Se conseguirmos perceber que não temos todas as
respostas, poderemos compreender que a morte,
também, não as tem. A morte não nos dará
respostas.
Se conseguirmos aceitar que a dor não é
absoluta, pois há “remédios” para ela, poderemos
compreender que não cabe à morte cuidar da dor,
ainda que, em situações terminais com dores
insuportáveis, possa se permitir à morte ser
usada como um “remédio”.
Se conseguirmos aceitar que sentir, pensar e
agir são exercícios somente possíveis ao
caminharmos pela vida, saberemos que na morte
não cabe o sentir, o pensar e o agir.
O que eu quero dizer com tudo isso?
Que, quando nos colocamos por nossa vontade em
frente à morte, estamos em uma tempestade na
beira de um precipício, estamos em uma
tempestade no fundo de um vale muito profundo,
estamos em uma tempestade no meio de um oceano
revolto, enfim, nós estamos em perigo, nós
precisamos de ajuda. Porque somos pequeninos na
tempestade, pequeninos diante do precipício,
pequeninos no vale profundo e no meio de um
oceano revolto. Estamos em risco.
É preciso que, mesmo por um mínimo instante, nos
afastemos do perigo, precisamos ser levados a um
local um pouco distante, mais calmo, aonde
possamos sentir nossa respiração, escutar nosso
coração, perceber o nosso calor. Precisamos ser
convidados a sentir a nós mesmos e a identificar
que não estamos sós. Há “um” outro que também
respira, sente o coração e percebe o calor. Esse
outro quer nos ajudar.
Então, aqui estamos nós durante uma tempestade à
beira de um precipício:
- Eu vou me matar.
- Eu não quero mais viver.
- No meu peito há uma dor que nunca passa.
- Eu não aguento mais.
- Meu nome é Luisa. Eu estou aqui com você. Você
me daria um instante para conversarmos? Gostaria
de conversar um instante comigo?
- Eu não quero, quero me matar, me deixe em paz.
- Compreendo, eu o deixarei em paz, não farei
nada contra você, mas quero conversar um pouco.
Você poderá me ouvir e eu poderei te escutar.
- O que você quer? Eu não vou desistir.
- Eu sei, não farei nada que você não queira.
- Eu estou aqui para conversar.
- Podemos falar sobre coisas. Podemos falar
sobre nós....
- Eu não consigo conversar.
- Posso pedir que coloque sua mão no peito,
sinta sua respiração, seu coração e o seu calor?
Eu farei o mesmo.
Estamos nos afastando do precipício. Não estamos
entendendo um ao outro ainda. Mas tocar em si
mesmo pode nos mostrar que ainda estamos vivos.
- Então, o que sentiu?
- Eu respiro, meu coração bate e estou suando.
- Você está tentando me enganar? Está tentando
me fazer de bobo?
- Eu não estou tentando te enganar nem te fazer
de bobo.
- Quero conversar. Quando conversamos podemos
descobrir coisas.
- Em alguns momentos, sinto tristeza, me sinto
sem saída. Conversar me ajuda.
Essa é uma afirmação pessoal, mas que vem ao
encontro do Luis. Isso é algo muito importante,
pois se a Luisa não acreditar que ele quer
conversar, não haverá ajuda (entenda-se a
prevenção do suicídio). A ajuda pode ocorrer se
houver algum diálogo. É preciso distinguir a
tolerância do consentimento. Se em resposta ao
silêncio, apenas retornamos silêncio, não
estaremos substituindo a ideia da morte pela
vida. É preciso haver diálogo nesse momento,
pois não haverá outra oportunidade para que
possamos tentar dialogar. O silêncio é o
consentimento. O diálogo é a tolerância. Ele
pode escolher se matar, mas ele precisa ficar
diante da vida antes da morte.
- Você não é igual a mim, você não pode dizer
que eu sinto igual a você.
- Verdade, nós não somos iguais, mas podemos
sentir coisas que todos sentem: tristeza,
solidão, felicidade, esperança.
Essa é uma fala de aproximação. Somos todos
humanos.
- Eu estou triste. Eu quero me matar. Quero
acabar com tudo. Não aguento mais.
- Entendo. Você está cansado. Você se esforçou
esse tempo todo, lutou com o melhor que tinha.
Queria se sentir melhor. Queria ter achado uma
saída.
Essa é uma fala de reconhecimento do valor do
Luis como pessoa. Esse valor deve ser expresso
pela Luisa para que ele sinta que ela o vê com
respeito. Não importa que ela não saiba muito
sobre ele. Ela sente respeito pelo que ele é.
Nesse momento, ela sabe que ele precisa ouvir
que é importante, não importa qual importância
seja essa – ele é alguém que caminha pela vida.
- Nada deu certo na minha vida. Eu nunca pude
ser feliz.
- Compreendo, a felicidade é algo importante
para você. É algo que você deseja.
Nesse ponto, Luis está mais calmo, ele aceitou
conversar. A conversa evoluiu e eu não sei dizer
o que eles conversaram.
- Você deve ficar chateada de ouvir as pessoas
reclamando, não é?
- Eu gosto de conversar com as pessoas como
estou conversando, agora, com você.
- Sinto que as pessoas se parecem um pouco.
Sinto que elas têm sentimentos comuns, medos
comuns, pensamentos comuns. A tristeza, por
exemplo, acontece para qualquer um.

A fala permitiu o deslocamento do foco do Luis


para a Luisa a fim de que o Luis perceba a
Luisa. Dar a oportunidade dele se afastar um
pouco de si mesmo e “olhar em volta” permite a
ele perceber que não está só. Alguém está
compartilhando “algo pessoal”, alguém confia no
Luis para lhe contar algo. A ideia não era
esperar que ele fizesse essa pergunta. Isso
seria absurdo. A ideia era incluir o
deslocamento do foco em algum momento. Isso
poderia ajudar na abertura da “primeira porta”.
E, por que razão eu falo em deslocamento,
aproximação, afastamento? Porque, para mim, se
não houver “movimento”, não há prevenção do
suicídio. Tudo passa pelo “movimento”. É preciso
provocar esse movimento na pessoa que quer se
suicidar. A morte é a parada, significa ausência
de movimento. Enquanto houver movimento, haverá
vida e, na falta de movimento, faz-se necessário
que alguém o provoque. Esse alguém pode ser
qualquer pessoa, mas se essa pessoa se mantiver
estática, fará pouco, pois ela se manterá à
beira do precipício como um acompanhante.
Provocar o movimento significa caminhar de volta
à vida, retornar a um ponto seguro da estrada,
enxergar um pouco adiante. Não com os olhos da
certeza, não com a segurança absoluta, não com o
controle total, mas com a ideia de que o caminho
existe e está aberto, está disponível para ser
trilhado por qualquer um de nós. Esse é um
direito universal. Todos nós temos o direito de
percorrer esse caminho, traçar a nossa vida,
marcar a nossa existência através do tempo.
Pode parecer pouco ou pode parecer inoportuno
dizer essas coisas nesse momento de desespero,
mas é exatamente aqui que se faz necessário
voltar ao básico, ao mais simples, à afirmação
mais verdadeira que se possa fazer para alguém:
“Você tem o direito de viver, você tem um
caminho a percorrer, você está aqui para marcar
sua existência através do tempo”. Esse direito é
personalíssimo e a pessoa que deseja se suicidar
precisa compreender que esse direito é uma
afirmação, jamais uma negação. Não importa
quantas vezes esteja à beira do precipício, se
lembrar desse direito, retornará pelo caminho,
achará um ponto seguro na estrada. Poderá fazer
isso sozinha, poderá fazer com a ajuda de
alguém, mas com certeza não se matará.
E, essa lembrança a levará diante da “primeira
porta”. Essa porta é a porta da consciência, a
porta do estar ciente de que há algo mais além
de viver a vida. É a entrada do
autoconhecimento, podendo qualquer um ser o
acompanhante até ai, mas sendo seguro que quem o
siga acompanhando seja alguém de sua confiança.
Percorrer esse caminho é uma opção que pode ou
não ser feita pela pessoa. Ela pode se sentir
melhor apenas saindo da beira do precipício, mas
pode sentir vontade de se encontrar. Se esse for
o caso, alguém qualificado, um profissional da
área poderá acompanhá-la. Chegar diante da
primeira porta é uma grande conquista. Pode ou
não acontecer, mas o foco será sempre retirar a
pessoa da beira do precipício, quantas vezes
forem necessárias para trazê-la de volta à
segurança.
A “segunda porta” é a porta do enfrentamento, é
aquela que permite o encontro com o eu interior.
Nosso eu interior está atrás dessa porta nos
esperando. É um encontro sem testemunhas e é um
momento duro para a nossa existência.
Talvez seja por isso que a humanidade percorra o
mundo sem dar atenção a isso. Imagine se
fossemos educados a trabalhar nosso eu interior
desde muito cedo, como seríamos diferentes, como
as pessoas seriam mais autênticas e fortes, como
seria mais prazeroso trilhar a vida. Mas, somos
criados em um mundo imaginário que não deixa
espaço para o sermos originais. Criamos uma
situação e fazemos dela uma verdade. O resto é o
que descartamos ou escondemos.
Alguns ficam diante dessa “segunda porta”, abrem
e entram. O encontro é a mudança, o tipping
point de si, é inevitável. Pode ser muito
dolorido, pode ser perigoso, mas é
transformador.
Quem segue adiante, segue de mãos dadas com o
seu eu interior em direção à “terceira porta”.
Atrás dela está a luz, a centelha divina, o que
há de divino em nós que fica guardado dentro das
nossas entranhas. u finalizo deixando essa
passagem para quem chegou até aqui. Antes, um
abraço.
“E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à
virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a
piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade.”  2 Pedro 1:5-7.