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VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E A TRANSPOSIÇÃO

DIDÁTICA: CONSTRUINDO UMA PEDAGOGIA PARA A NÃO


VIOLÊNCIA

Autor(a): Camila Silva Marques

Discente em Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense (UFF) Bolsista


PIBID/CAPES. Email: ​aphrodisiacamente@gmail.com

Introdução

O presente artigo teve por objetivo a observação e a pesquisa acerca da produção


e publicização do debate produzido sobre questões de gênero em dois livros didáticos de
sociologia aprovados no PNLD (​Programa Nacional do Livro Didático​) 2015 e sua
respectiva mediação didática através da exposição em aulas de sociologia para uma
determinada classe de EJA (Educação para Jovens e Adultos) na escola Raul Vidal, em
Niterói no ano de 2014.
O interesse surgiu a partir da preocupação com o tema da violência de gênero,
em específico à violência contra as mulheres em sua constituição e continuidade. Onde
e como começa a violência contra as mulheres? Não se tratando este de um trabalho de
cunho jurídico, sua preocupação se deteve sobre os processos educacionais e sua relação
com a corroboração ou com o combate a comportamentos e condutas sociais
tradicionais e violentas.
A Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha,
entrou em vigor no Brasil em 22 de setembro do mesmo ano. A partir da referida Lei,
que foi fruto de lutas no seio da sociedade civil e também no setor jurídico, a violência
contra as mulheres, sobretudo no seio familiar, ganhou maior visibilidade e meios
institucionais para combater esta que permanece presente desde o fundamento da
sociedade ocidental patriarcal.
O fato é que a violência começa no mesmo lugar onde deve ser interrompida: na
educação (família, escola e demais instituições) social sexista. A jurisdição serve para
proteger a mulher já em situação de risco. Mas a conscientização e a educação não
sexista para criação de relações não violentas entre os gêneros é o instrumento que
pode, não sem trabalho árduo, contínuo e multidisciplinar, germinar para correlações de
paz entre os gêneros.

Objetivos

Esta pesquisa se insere nesse importante fluxo que precisa ser multidisciplinar
para combater uma violência tão antiga e tão arraigada. É importante ressaltar a
retroatividade entre sociedade civil, aparelho jurídico e legal, e práticas educacionais
quando tratamos de um assunto tão complexo e de persistência tão notável.
Estive responsável por investigar o mapa da violência contra a mulher a partir do
Dossiê Mulher 2013 e do Dossiê Mulher 2014, realizados pelo Instituto de segurança
Pública do Rio de Janeiro (ISP - RJ) e, a Lei 11.340/06 em relação à questão da
violência contra as mulheres e ao discurso epistemológico referente ao gênero e
referente à sexualidade, presente nos livros didáticos de sociologia.
Selecionei dois livros aprovados no PNLD de 2015 que foram: “Sociologia em
Movimento” e “Sociologia para Jovens do século XXI.”
Os livros foram avaliados de acordo com o “Guia de Livros Didáticos: PNLD
2015: sociologia: ensino médio”, com relação aos critérios específicos para a área de
sociologia e, tendo em vista a preocupação aqui explicitada a cerca do tratamento
conferido às questões de gênero e violência contra as mulheres, os dois livros citados
foram considerados mais que satisfatórios ou aprovados com louvor por mim e pela
professora Rachel Romano Zeitoune, com a qual trabalhei e acompanhei durante o ano
de 2014.
Baseei meu trabalho numa perspectiva do feminismo e a descolonização do
saber e, ainda no trabalho desenvolvido por grupos reflexivos para homens. Tendo uma
perspectiva sócio-educativa para homens que não foram autuados por praticar violência
contra mulheres. Para este fim, trabalhei com aulas-oficina com o tema “Sociabilização
para gênero: estereótipos e comportamentos”.

Metodologia

Como esta pesquisa trata-se de uma metodologia a ser desenvolvida partindo de


um fluxo entre reflexão ativa e ação reflexiva, baseando-se em um paradigma
epistemológico que tem por objetivo promover o combate às práticas sexistas
tradicionais, este projeto é um caminho. Esse caminho teve um início e está tendo um
desenvolvimento, mas o final dele só se encontrará quando acabarem suas razões de
existência, ou seja, quando a violência contra as mulheres se tornar uma prática
extinguida.
Tendo como método a observação participante abordo aqui algumas
experiências que pude ter ao implementar esta prática junto a jovens e adultos
matriculados em uma determinada classe de EJA na escola Raul Vidal no município de
Niterói, na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro.
Dois dos componentes descritos no eixo temático previstos para o 1º bimestre da
2ª série do Ensino Médio são: “Estabelecer a relação entre a construção da identidade
individual e o pertencimento aos diferentes grupos e instituições sociais; Identificar os
marcadores sociais da diferença (gênero, sexualidade/orientação sexual, raça/etnia,
geração) na contemporaneidade e perceber sua inter-relação na produção e reprodução
de desigualdades.” Sendo assim, as exposições ao longo no 1º bimestre não deixaram de
contar com exemplos sobre a construção social de papéis de gênero e sua relação com a
produção e reprodução da violência intrafamiliar e afetiva. E duas aulas específicas
contaram com a abordagem do tema. Em uma delas exibimos um documentário
chamado “Heterofobia”, que faz alusão fictícia à uma sociedade que seria do mesmo
modelo da nossa, só que ao contrário do ponto de vista da normativização da orientação
sexual, ou seja, aqueles que são héteros sofrem retaliações, exclusões e correções
através de violência física e isolamento compulsório.
Já em outra aula para essa mesma turma noturna de EJA, em acordo com já
explicitado eixo temático, fiz a exposição de uma aula com o tema: “Sociabilização para
gênero: estereótipos e comportamentos”, onde defini o conceito de ​sociabilização de
gênero relacionado ao conceito de ​experiências de infância compartilhadas​, que dizem
respeito ao fato de que quando os bebês nascem são, de acordo com seu genital,
educados a partir do modelo instituído do que é ser homem e de que maneira
desenvolver sua masculinidade, ou a respeito do que é ser mulher e como desenvolver
sua feminilidade. Falamos de menstruação, virgindade/iniciação da vida sexual,
gravidez/aborto, contraceptivos – alguns desses tópicos constituem-se como ritos de
passagem.
Foi abordada a diferença desses ritos de passagem que tem por parâmetros
mudanças biológicas, em contraposição ao conceito ​sexo social – que diz respeito à
construção social do masculino ou masculinização e da construção social do feminino
ou feminilização. Observou-se que as mulheres – na faixa entre 20 e 40 anos – falaram e
expuseram suas experiências a partir de suas trajetórias subjetivas e em relação à
educação e às escolhas de suas filhas.
Enquanto os homens – entre 20 e 40 anos – tinham sua atenção concentrada no
assunto que estava sendo exposto permaneciam sobretudo em silêncio mas, olhando
atentos. Em momentos de maior intimidade – como foi o de falar a diferença da
experiência da primeira relação sexual dos meninos e das meninas (filhos e filhas) em
relação ao desejo de seus pais – muitos deles abaixaram a cabeça, desviando seu olhar
do foco de onde se concentrava o debate.
Assim, notei as diferenças de disposição epistemológica/emocional entre pessoas
educadas para serem homens em nossa sociedade – cidade de Niterói – e entre pessoas
educadas para ser mulher a partir da observação participante e da escuta sensível de suas
experiências no que diz respeito à sociabilização de gênero, não só em relação ao
recebimento do conteúdo, mas também em relação à sua própria disposição em expor
experiências vividas em primeira pessoa.

Resultados

Toda sociedade forja uma divisão sexual de trabalho entre outras distinções
baseadas em comportamentos sociais estipulados a partir de concepções acerca de
papéis de gênero instituídos. A nossa sociedade não apenas forjou diferenças entre
papéis atribuídos ao gênero, mas categorizou os valores que estabeleceu enquanto
masculinos, como verdadeiros e valores considerados femininos como falsos.
O que importa a essa discussão é a ideia de papéis sociais estabelecidos a partir
da formulação de características atribuídas ao gênero. Entende-se aqui a ideia de gênero
como um papel social definido através de adjetivos fixados em correspondência a um
Dessa forma as interações sociais com bases em diferenciações a partir de papéis
de gênero se constituem numa dinâmica hierárquica e por isso, negam a alteridade.
Assim, temos nas relações sociais entre gêneros distintos uma recorrente e estrutural
desigualdade de prestígio, de salário, de visibilidade e de construção da
afetividade.suposto sexo genital, comportamento social e desejo ou orientação sexual,
ou seja, a fixação de uma identidade de gênero numa sociedade heterossexista,
androcêntrica, eurocêntrica, binária, positivista e capitalista que produz estereótipos
inseridos nessa lógica.
Existe uma série de identidades de gênero invisibilizadas por esse discurso –
transgênerxs; assexuados e pessoas que não se sentem de gênero algum, ou seja, não
binárias.
A partir de uma noção instituída socialmente a respeito do que é o gênero e quais
corpos devem ser qualificados como corpos masculinos e quais corpos devem ser
qualificados como corpos femininos e, ao estabelecer-se uma série de expectativas
sociais a respeito de uma subjetividade e um determinado comportamento social
questionamo-nos: como os corpos devem ser educados: azul para menino e rosa para
menina?

Conclusões
De acordo com o Dossiê Mulher 2014 feito pelo ISP-RJ, o total de boletins de
ocorrência registrados por mulheres vítimas de ameaça no ano de 2013 no Rio de
Janeiro foi de 55.218. Segundo a Lei 11.340/06 “a ameaça é entendida como uma das
formas de violência psicológica. É uma conduta que tenta causar dano emocional e
diminuição da autoestima, com prejuízo e perturbação do pleno desenvolvimento, ou
que visa degradar ou controlar ações, comportamentos, crenças e decisões de um
indivíduo.” As mulheres são vítimas de 66,7% dos casos totais de ameaça e destes, 50%
foram praticados por companheiro ou ex-companheiro e 10,4 % por pessoas próximas
(pais/padrastos/parentes).
Estes dados apontam para a constância do fenômeno da violência contra as
mulheres e de seu caráter não espontâneo, e não psicológico ou individual, ou seja, a
violência contra as mulheres tem caráter complexo e estrutural e por isso deve contar
com medidas sociais multidisciplinares para chegar ao fim. Sendo assim a instituição
escola possui caráter fundamental de combate e conscientização a respeito de
masculinidades não violentas e feminilidades não subordináveis afetivamente, a fim de
coibir o fenômeno da violência doméstica, afetiva, psicológica e intrafamiliar antes que
este ocorra. Educação para prevenção de relações violentas.

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