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Proibição da Maconha: racismo e violência no Brasil https://journals.openedition.

org/cal/10049

Cahiers des Amériques


latines
92 | 2019 :
La prohibition des drogues au quotidien
Dossier. La prohibition des drogues au quotidien

Proibição da Maconha:
racismo e violência no Brasil
Prohibition de la marijuana : le racisme et la violence au Brésil
Prohibition of Marijuana: racism and violence in Brazil

HENRIQUE CARNEIRO
p. 135-152
https://doi.org/10.4000/cal.10049

Résumés
Português Français English
O artigo analisa a mais importante droga ilícita consumida no Brasil, a maconha, tratada a
partir da história de sua estigmatização como planta associada às tradições afrobrasileiras
e, portanto, alvo de campanhas proibicionistas racistas da medicina do início do
século XX. A história da maconha no Brasil se manifesta em três dimensões diferentes: a
dos usos industriais, a dos usos medicinais e a dos usos como forma de lazer, em
contextos clandestinos e de ilicitude e vinculada aos mecanismos de coerção, repressão e
controle das camadas populares subalternas, especialmente por um viés racial, evidente
no encarceramento e nas vítimas de homicídios. A violência associada às drogas no Brasil
é causada não pelos efeitos farmacológicos das drogas ilícitas, mas pelo contexto criado
pela proibição que desencadeou uma “guerra às drogas”, cujos resultados são desastrosos.
A crise do paradigma proibicionista em âmbito internacional, com a legalização da
maconha no Uruguai, Canadá e estados dos EUA, coloca ao Brasil o desafio de debater a
legalização e regulação essa planta, o que diminuiria os danos causados pela violência da
sua proibição e do seu tráfico clandestino.

L’article analyse la drogue la plus consommée au Brésil, la marijuana, traitée à partir de


l’histoire de sa stigmatisation en tant que plante associée aux traditions afro-brésiliennes
et donc ciblée par les campagnes de médecine racistes prohibitionnistes du début du XXe
siècle. L’histoire de la marijuana au Brésil se manifeste sous trois dimensions différentes :
celle des usages industriels, celle des usages médicinaux et celle des usages comme loisir,

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dans des contextes clandestins et de l’illicite, et liées aux mécanismes de coercition et de


répression des couches populaires subalternes, en particulier par un biais racial, évident
chez les victimes d’incarcération et d’homicide. La violence liée à la drogue au Brésil n’est
pas due aux effets pharmacologiques des drogues illicites, mais au contexte créé par la
prohibition qui a déclenché une «   guerre contre la drogue   », dont les résultats sont
désastreux. La crise du paradigme prohibitionniste au niveau international, avec la
légalisation de la marijuana en Uruguay, au Canada et aux États-Unis, pose au Brésil le
défi de débattre de la légalisation et de la réglementation de cette plante, ce qui réduirait
les dommages causés par la violence de son interdiction et du trafic clandestin.

The article analyzes the most important illegal drug consumed in Brazil, marijuana,
treated from the point of view of the history of its stigmatization as a plant associated with
Afro-Brazilian traditions and, therefore, the target of racist prohibitionist medical
campaigns from the early twentieth century. The history of marijuana in Brazil manifests
itself in three different dimensions: that of industrial uses, that of medicinal uses and that
of uses as a form of leisure, in clandestine contexts and of illicitness, and linked to
mechanisms of coercion, repression and control of the popular subaltern strata, especially
from a racial bias, evident in incarceration and homicide victims. Drug-related violence in
Brazil is caused not by the pharmacological effects of illicit drugs, but by the context
created by the prohibition that triggered a “war on drugs”, the results of which are
disastrous. The crisis of the prohibitionist paradigm at international level, with the
legalization of marijuana in Uruguay, Canada and the USA, challenges Brazil to deabte
legalization and regulation of this plant, which would reduce the damage caused by the
violence of its prohibition and their clandestine traffic.

Entrées d’index
Mots-clés : marijuana, Brésil, histoire, prohibition, violence
Keywords : marijuana, Brazil, history, prohibition, violence
Palavras chaves : maconha, Brasil, história, proibição, violência

Notes de la rédaction
Texte reçu le 18 février 2019, accepté le 3 novembre 2019

Texte intégral
1 A maconha (Cannabis) teve, ao menos, três tipos de usos no Brasil: como um
produto para a indústria de cordame, desde o período colonial, denominado de
cânhamo; no século XIX, como medicamento presente nas farmacopeias oficiais;
e, desde esse mesmo século, mas especialmente a partir do século XX, como uma
substância psicoativa criminalizada, com seu uso atribuído a camadas
subalternas e pobres da população, especialmente entre os afrobrasileiros e os
nordestinos, que foram associados com esta planta. O cânhamo como produto
industrial se diferenciou da maconha, consumida como droga psicoativa, e foi
plantado no período colonial para servir de matéria-prima para tecidos e cordas.
O Marquês de Lavradio, Vice-Rei do Brasil, em 19 de junho de 1799, mandou
sementes de cânhamo para a ilha de Santa Catarina, “mas não só na ilha há sítios
excelentes para a plantação de cânhamo, ele se produz no Rio Grande de São
Pedro e nos recôncavos desta cidade, como é Santa Cruz” [Lavradio, 1843,
p. 474].
2 Foi no estado do Rio Grande do Sul onde, conforme os registros disponíveis, o
cânhamo teve, aparentemente, mais êxito. Antônio José Gonçalves Chaves
escreveu em suas Memórias econômico-política sobre a administração pública
no Brasil, publicada em 1822, que: “sob o ministério do Marquês de Pombal,
tempo em que se olhava para as coisas grandes e de utilidade pública com a
devida atenção, mandou-se criar uma Feitoria de cânhamo nesta província”
[apud Oliveira, 2008, p. 12].

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3 No sul da colônia, em Canguçu, próximo da cidade de Pelotas, se instalou em


1783 a Real Feitoria do Linho Cânhamo. Desde 1788, a Real Feitoria se deslocou
para as margens do rio dos Sinos onde funcionou até 1824, chegando a ter três
centenas de escravos dedicados ao plantio e beneficiamento em pano e estopa do
cânhamo. Quando foi fechada, o local de sua Casa Grande foi usado para abrigar
os primeiros imigrantes alemães vindos para o Brasil sob o patrocínio da
Imperatriz Leopoldina, fundando assim, oficialmente, a cidade de São Leopoldo.
4 Não há evidências que apontem para um uso psicoativo das plantações
gaúchas. Talvez o uso de fumar as sumidades floridas tenha sido posterior a essa
primeira introdução oficial do plantio para fabricação de tecidos. O uso
recreativo ou medicinal da maconha pelos afrobrasileiros, no entanto, foi
proibido, com a interdição mais antiga da maconha conhecida sendo a de 4 de
outubro de 1830. A Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no Código de Posturas
Municipais, no capítulo da Saúde Pública, no título tratando da “Venda de
gêneros e remédios e sobre os boticários” estabeleceu: “É proibida a venda e o
uso do Pito do Pango, bem como a conservação dele em casas públicas: os
contraventores serão multados, a saber, o vendedor em 20$000, e os escravos, e
mais pessoas que dele usarem, em três dias de cadeia” [apud Dória, 1958, p. 14].
5 Outras cidades repetiram estas proibições ao longo do século XIX. Em Santos,
em 1870, a Câmara decretou que “é proibida a venda e o uso do pango e outras
substâncias venenosas para cachimbar ou fumar. Os contraventores serão
multados pela venda em 10$000 e pelo uso em quatro dias de prisão”.1
6 Em Campinas, seis anos mais tarde, também se proibiu o pango, destacando
explicitamente os escravos como eventuais usuários: “É proibida a venda e uso
do pito de pango, bem como a conservação dele em casas públicas. Os
contraventores serão multados, a saber: o vendedor em 10$000, e os escravos e
mais pessoas que dele usarem, em cinco dias de cadeia.”2
7 Nessa mesma resolução do Código de Posturas, também são proibidas “na
cidade ou em chácaras próximas […] as casas conhecidas vulgarmente pelos
nomes de zangús3 e batuques” (art.   93); e “nas casas de bebidas, tavernas,
botequins, ajuntamento de pessoas com tocatas, danças ou vozerias” (art. 135), o
que mostra uma intenção de criminalização das diversões e manifestações
públicas, especialmente dos escravos e de suas músicas, danças, cultos e o seu
uso do pango. Por isso, também era proibida a reunião de mais de quatro
escravos numa taverna. Incorriam em multa “os donos de tavernas ou outra
qualquer casa pública, que consentirem nelas ajuntamentos de mais de quatro
escravos” (art. 137).
8 A proibição da maconha ocorreu, portanto, porque o significado da maconha
que prevaleceu até hoje em dia na cultura brasileira é, antes de tudo, como uma
substância alteradora da consciência identificada com a cultura negra. Os
derivados da Cannabis foram chamados no Brasil por muitos nomes, todos
vindos da África, como maconha, diamba, liamba, pango, fumo de Angola, etc. A
palavra maconha vem da língua quimbundo, de Angola. Como relata Câmara
Cascudo, ao falar da técnica de “beber fumo” ou “beber os ares” aponta que,

“no quimbundo o fumar é nua makanha. O verbo beber é nua, e tabaco


será dikanha, fazendo o plural makanha […] pouco disfarçando o
macanha, maconha, o venenoso cânhamo. Era esse o tabaco de Angola,
antes que chegasse o verdadeiro levado do Brasil pelo português que dele
já não se separava” [Cascudo 1965, p. 180].

9 A tese da difusão africana por meio de mercadores árabes que a trouxeram da


Índia para a costa oriental da África é corroborada por Brian M. Du Toit [1976],
assim como por Vera Rubin [1975], que reconhece dois complexos de difusão

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americana da Cannabis fumada. Um de via africana, na época colonial, do


bangh, e outro da diáspora indiana no Caribe, da ganja, mais recente. O uso no
Brasil seria derivado da influência africana, sendo, portanto, uma vertente do
complexo do bangh com as suas muitas denominações africanas.
10 Richard Burton, cônsul britânico no Brasil, viajando por Minas Gerais entre
1865 e 1868, escreveu que os trabalhadores negros da mina de Morro Velho “no
domingo, após a missa, os vadios e dissolutos guardarão o dia santo à moda
africana: deitados ao sol, fumando e se possível bebendo e fumando cânhamo,
como os selvagens da Serra Leone” [apud Luís Mott, 1986, p. 126].
11 Os usos terapêuticos dos derivados da Cannabis, até a segunda década do
século XX, também eram generalizados em todo o mundo ocidental, inclusive no
Brasil, com uma enorme variedade de indicações médicas.4 Doenças
respiratórias, reumáticas ou nervosas recebiam, segundo os livros de receituários
médicos oficiais, tratamentos com uso da maconha. Um dos livros de medicina
mais populares no Brasil do final do século XIX e início do XX era o Formulário
e guia médico do médico polonês Pedro Luis Napoleão Chernovitz, que residiu
no Brasil entre 1840 e 1855.5 Nele, a maconha é indicada, em cigarros ou na
forma de tintura ou extrato, como um remédio útil para a bronquite crônica das
crianças e para todos os tipos de asma, assim como na tuberculose. Além desse
uso terapêutico, segundo ele,

“debaixo da sua influência o espírito tem uma tendência às ideias risonhas.


Um dos seus efeitos mais ordinários é provocar gargalhadas que duram
todo o tempo que o indivíduo está submetido à sua influência, isto é, cerca
de três a quatro horas […]esta espécie de estupor voluptuoso […] difere
muito da embriaguez produzida pelo vinho e vai muito além da embriaguez
ocasionada pelo ópio. Mas os indivíduos que fazem uso contínuo vivem
num estado de marasmo e de imbecilidade” [Chernovitz, 1908, p. 435].

12 A maconha e seus derivados eram indicados como um sedativo geral e para


tratamento específico de reumatismos, neuroses, insônia, dores de cabeça,
diarreias, convulsões, anorexias, tétano e cólera, tanto pela medicina oficial como
pela popular. Até mesmo no palácio imperial ela era plantada.
13 Benoit Mure, médico homeopata francês, fundou uma comunidade utópica em
Santa Catarina e depois foi para o Rio de Janeiro praticar medicina e difundir a
homeopatia. Em 1847, numa consulta médica a um criado no palácio imperial de
São Cristóvão, onde já fora recebido pelo próprio imperador D. Pedro II, ele foi à
cozinha. Num canteiro do quintal, encontrou um enorme pé de maconha [Varga,
1995].

O “vício africano”
14 Ocorreu uma mudança em relação à maconha no campo da medicina no início
do período republicano, na primeira metade do século XX, quando acabou por
prevalecer uma abordagem dos usos de drogas que se inseriu na perspectiva
racista da época. Médicos ocupando cargos políticos, como Rodrigues Dória, ex-
presidente do Estado de Sergipe entre 1908 e 1911, passaram a denunciar o uso
de maconha como parte dos hábitos característicos dos afrobrasileiros. Apesar do
uso médico tradicional, a presença da maconha entre comunidades negras e
mestiças levou a sua estigmatização pela ciência médica oficial como um
elemento degenerativo da saúde, da moralidade e da pureza racial, devendo ser
combatido por argumentos de um racismo “higienista” e “eugenista”. Trataria-se,
nas suas palavras, de uma espécie de “vingança inconsciente” dos escravos que

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trouxeram consigo da África a planta que “escravizaria” os brancos [Barbosa,


2012].
15 Rodrigues Dória participou do 2o Congresso Científico Panamericano, em
Washington, EUA, em 1915, onde retomou o tema do ópio como a vingança do
asiático contra o seu dominador europeu e aplicou todas as narativas alarmistas
da dependência opiácea para a maconha, vista por ele, como por toda a visão
racista da medicina da época, como uma nefasta herança africana:

“a raça preta, selvagem e ignorante, resistente, mas intemperante, se em


determinadas circunstâncias prestou grande serviço aos brancos, seus
irmãos mais adiantados em civilização, dando-lhes, pelo seu trabalho
corporal, fortuna e comodidades, estragando o robusto organismo no vício
de fumar a erva maravilhosa, que, nos êxtases fantásticos, lhe faria rever
talvez as areias ardentes e os desertos sem fim de sua adorada e saudosa
pátria, inoculou também o mal nos que a afastaram da sua terra querida”
[Dória, 1958, p. 13].

16 A visão de Dória, que fazia da maconha um análogo do ópio, prevaleceu na


medicina brasileira. Esta abandonou os antigos usos de derivados de cânhamo
nas farmacopéias e passou a ver nessa planta um hábito escravizador e deletério,
com potencial de levar ao “delírio, a loucura transitória e mesmo definitiva”.
Assim, o “vício pernicioso e degenerativo”, uma “paixão atávica”, foi inoculado
como um castigo pela “raça subjugada” no vencedor.
17 Ele também a acusou de provocar efeitos afrodisíacos, embora reconhecesse
ser ela usada por diversas camadas sociais, como pescadores, por exemplo,
servindo contra câimbras e dando muita fome. Rodrigues Dória também atribuía
à maconha os delírios de fúria, conhecidos como amok, que ocorriam no mundo
malaio, e denunciava suas supostas propensões de provocar violência.
18 Até mesmo no 1o Congresso AfroBrasileiro, realizado em Recife, em 1934, o
médico Jarbas Pernambucano [1988, p. 186] continuou a denunciar a maconha
como um vício africano, comparável, segundo o Major Serpa Pinto, com a
embriaguez alcoólica e a sífilis, os “três grandes inimigos da raça preta”. Foi
outro médico que levava o nome do seu estado no seu próprio sobrenome, Pedro
Pernambuco Filho, que representou o Brasil na 2a Conferência Internacional do
Ópio, em Genebra, em 1924, onde propôs a inclusão da cannabis nos tratados
internacionais por considerá-la “mais perigosa do que o ópio” [Carlini, 2006,
p. 315; Brandão, 2016, p. 107].
19 O médico Garcia Moreno, diretor do Serviço de Assistência a Psicopatas de
Sergipe, retoma em 1946 essa comparação, ao afirmar que “sem atingir a
gravidade do delírio furioso, como o amok dos haschischianos malaios, o
maconhismo aparece na criminalidade nordestina como causa de homicídios”
[1958, p. 159].
20 A origem africana e a disseminação pelo norte e nordeste do Brasil é uma
recorrente constatação dos médicos e políticos que intervinham no debate sobre
as políticas públicas em relação à maconha ao longo do século XX. Apesar dos
empreendimentos do cânhamo industrial terem sido mais documentados no sul
do país, não se pode afirmar que o uso psicoativo fosse inexistente nas regiões
Sul e Sudeste. Contudo, o estigma sobre o tema na literatura oficial se dirigiu
contra os habitantes do Brasil nordestino e nortista.
21 A criação da CNFE (Comissão Nacional Fiscalizadora de Entorpecentes), em
1936, desencadeou uma campanha antimaconha, promovendo convênios
interestaduais, publicando textos e caracterizando o vício da diamba como um
típico e perigoso comportamento da “escória da sociedade”. Jonatas Carlos de
Carvalho [2007] estudou essa instituição nacional que foi uma peça-chave na
centralização do arcabouço proibicionista na época getulista.

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22 A CNFE foi o primeiro órgão a coordenar a fiscalização nos estados, propor


legislação federal, enviar representantes a convenções internacionais e
desencadear campanhas contra áreas de plantio, especialmente nas regiões
ribeirinhas do rio São Francisco. Uma coletânea de trabalhos científicos sobre a
maconha foi publicada pela CNFE em 1951 e, depois, ampliada numa segunda
edição em 1958. Nesse livro, diversos médicos se dedicam a fomentar o pânico
moral contra essa planta. Para o Dr. Oscar Barbosa [1958, p. 29], “em alguns
estados do norte do Brasil expande-se, ameaçadoramente, um vício ainda pouco
conhecido —o vício da diamba”. Adauto Botelho e Pedro Pernambuco [1958,
p.   25], alertam que, “embora quase desconhecido, existe um vício parecendo
originário da África e que atualmente invade de modo assustador o interior do
Brasil e já merece atenção dos dirigentes de alguns estados do Norte”.
23 O nordeste do Brasil e especialmente as regiões ribeirinhas do rio São
Francisco, entre Sergipe e Alagoas, áreas de maior importação de escravos para
as lavouras de cana, foram identificadas por Rodrigues Dória na comunicação de
1915 como onde mais a maconha se difundiu. Os “índios amansados” e os
mestiços também aprenderam a usar e é nas “camadas mais baixas” que
predomina o seu uso, acrescenta esse médico e ex-presidente do estado de
Sergipe.

“Entre nós, é usada pelos feiticeiros, em geral pretos africanos ou velhos


caboclos. Nos candomblés —festas religiosas dos africanos ou dos pretos
crioulos, deles descendentes, e que lhes herdaram os costumes e a fé, é
empregada para produzir alucinações e excitar os movimentos nas danças
selvagens dessas reuniões barulhentas. Em Pernambuco a herva é fumada
nos catimós [sic]— lugares onde se fazem os feitiços […] Em Alagoas, nos
sambas e batuques, que são danças aprendidas dos pretos africanos”
[Dória, 1958, p. 5].

24 A descrição exagerada e imbuída de pânico moral dos ritos afrobrasileiros


percorria todas as análises destes autores médicos dedicados a desarraigar o país
dos seus atavismos de “raças subjugadas”. Em 1906, por exemplo, o médico Pires
de Almeida escreveu um livro sobre “homossexualismo” em que vinculava a
sexualidade homoerótica com a religiosidade afrobrasileira e o consumo do
pango: “homens e mulheres de toda casta, completamente nus, afluíam aos
candomblés e no meio de danças convulsionadas, e aos vapores de pango, faziam
comemorações às almas” [Mott, 1986, p. 125].
25 Em publicação da CNFE [Comissão Nacional de Fiscalização de
Entorpecentes] de 1959 se reconhece nos usos populares da maconha a ausência
de toxicomania, mas a criação de um hábito, relacionado particularmente com a
região nordestina e práticas de danças e “feitiços”:

“No nordeste brasileiro as precípuas finalidades do fumar a maconha,


seriam: a) provocar bem-estar, euforia; b) provocar alucinação; c) excitar o
movimento nas danças selvagens do catimó [sic] de Pernambuco e nos
sambas e batuques de Alagoas, antes de se fazerem os feitiços e se procurar
conhecer a sorte e a futura felicidade, de cada um.” [Cânabis brasileira,
s/a, 1959, p. 29].

26 O engenheiro agrônomo A. de P. Leonardo Pereira [1958, p. 48], resume a tese


racial do eugenismo europeu contra as drogas como o ópio e a maconha,
definindo-as como uma “invasão, originária espiritual do grande império asiático
a que os civilizados e a raça branca têm polido e estilizado”. O eugenismo
brasileiro, impulsionado por médicos como Renato Kehl, combatiam não só a
influência do elemento africano, como também do asiático: “O Japão em pletora,
a China em piores condições, a Índia […] imagine-se estes países a nos expelirem

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os seus rebutalhos multicor e multiforme!” [apud Diwan, 2007]. A política que


propunham os inimigos acadêmicos e políticos da maconha no Brasil era a do
“branqueamento” demográfico e cultural do país [Schwarcz, 1993].
27 Um ano após a proclamação da República, o artigo 159 do Código Penal de
1890 proibiu o comércio de “substâncias venenosas” e, mesmo sem qualquer
menção expressa à planta, a perseguição à maconha passou a fazer parte das
tarefas de um departamento da polícia chamado Inspetoria de Entorpecentes,
Tóxicos e Mistificação, que era o mesmo que combatia a umbanda, o espiritismo
e o curandeirismo [MacRae, 2016].
28 Um dos remédios mais importantes das farmacopéias oficiais passou a ocupar
cada vez mais um lugar no submundo marginal e policial. O uso médico, comum
no início do século XX, foi substituído por uma estigmatização cada vez mais
forte como droga das camadas pobres da sociedade. Em 1921, o decreto 4.294,
além de multar a venda não autorizada de venenos, agravava com a pena de um a
quatro anos de prisão no caso destes produtos possuírem “qualidade
entorpecente”. Mas é apenas em 1932 com o decreto 20.930 que a Cannabis
Indica passou a ser incluída na lista dos entorpecentes interditados [França,
2015].
29 A construção da estigmatização da maconha como planta perigosa que levaria
ao crime a à loucura, característica das camadas mais subalternas, especialmente
no recorte racial, se apoiou em uma série de trabalhos de médicos que
constituíam, no início do século XX, a psiquiatria como disciplina e em suas
formas institucionais. O enfoque médico psiquiátrico eugenista e higienista se
tornou o principal eixo condenatório do uso da maconha no Brasil [Adiala, 2011].
O historiador Carlos Eduardo Torcato [2013] situou, em relação à política de
drogas no Brasil, a existência de um período de liberalismo (1824-1904), de uma
proibição federal (1904-1932), de uma proibição centralista (1932-1964), de uma
proibição punitiva (1964-1999) e de uma crise do proibicionismo, desde 2006 até
hoje.
30 Na primeira fase, do liberalismo brasileiro, o regime imperial manteve
regulamentos corporativos para o comércio de drogas e restringiu o
curandeirismo, regularizou a prática da anestesia e da analgesia com opiáceos e
manteve a legislação local por juízes de paz para reprimir abuso de álcool, uso de
maconha e embriaguez pública. Naquela época, não havia proibição federal
específica de certas plantas ou drogas.
31 A transição para a República inaugurou uma nova fase, com cada estado da
Federação assumindo as medidas de política de saúde relacionadas ao comércio
de drogas. Em seguida, adotou as determinações do sistema internacional, que
havia estabelecido um dispositivo proibicionista desde a Convenção do Ópio em
Haia, em 1912, reafirmado pelas Convenções de Genebra. Durante o período
entre guerras, três reuniões (1925, 1931, 1936) sobre controle de drogas
ocorreram em Genebra sob os auspícios da Liga das Nações. No período de
Getúlio Vargas, após a Revolução de 1930, se estabeleceu uma centralização geral
do estado, incluindo políticas de drogas, por meio da CNFE.
32 Em 1959, no Brasil, o deputado Coutinho Cavalcante, um comunista abrigado
na legenda do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) de São Paulo, apresentou um
projeto que incluía o plantio de maconha como parte dos crimes previstos pela lei
de drogas. A lei só terminou sendo aprovada em 1964, quando o paradigma
proibicionista chegou a um auge, na época da ditadura militar, havendo
penalização tanto do tráfico como do consumo [Torcato 2016, p. 312].
33 Na segunda metade do século XX, a maconha ocupou um lugar simbólico na
construção do estereótipo dos flagelos nacionais, como expressão do atraso, da
doença e da ignorância. A Revista Brasileira de Medicina publicou em 1963 o

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artigo de A. Gavião Gonzaga [1963, p.   680-81], Maconha, analfabetismo e


endemias, em que se buscava vinculá-los como problemas análogos e correlatos.
A denominação do uso da maconha como se fosse uma doença endêmica se
tornou comum.
34 A maconha no Brasil foi considerada pela medicina e pelo Estado como um
vício de origem africana que ameaçava a saúde pública e que devia ser proibido e
reprimido. Com sua ocorrência identificada aos estados do “norte” do Brasil,
serviu como um marcador identitário de estigmatização e segregação, associado a
práticas de “feitiçaria”, e aos culto afroindígenas brasileiros como o candomblé, o
catimbó e a umbanda, além dos batuques, dos sambas e das danças. Foi
associada, diferentemente dos usos sedativos medicinais anteriores, a efeitos de
desencadeamento de violência, e dessa maneira, se justificou a sua proibição.
Hoje em dia, contudo, uma das maiores fontes de violência social no país são as
condições do tráfico clandestino dessa planta.

Drogas e violência no Brasil


35 O Brasil é um dos países onde ocorre maior violência. Isso se pode medir pelo
número de homicídios e pelo enorme encarceramento. Em 2016, o país registrou
mais de 62 mil homicídios, o que equivale a 30,3 mortos anuais por 100 mil
habitantes [Nitahara, 2018]. Uma das razões para essa crescente violência é a
existência do tráfico de drogas ilícitas e da guerra policial-militar contra ele.
36 A população carcerária de réus primários, ou seja, sem antecedentes de
violência, vem aumentando enormemente. O Brasil, a terceira população
carcerária do mundo, teve um crescimento geral de 129.169 presos em 1994 para
726.712 em 2016. Desse total, 40% estão presos em condições provisórias, sem
condenação judicial, 64% são negros e o total de presos é quase o dobro das
vagas existentes no sistema penitenciário [Verdélio, 2017].
37 São 352,6 presos para cada 100 mil habitantes no Brasil ; 28% estão presos por
crimes ligados ao tráfico de drogas. Entre os homens, esse percentual é de 26% e,
entre as mulheres presas (um total de 45.989 mil), 62% são as que estão presas
por crimes relacionados ao tráfico ou consumo de drogas. A professora de Direito
da UFRJ Luciana Boiteux [2006a, p. 4] identifica “a política criminal de drogas
no Brasil como um dos fatores que mais contribuiu para o agravamento da
população carcerária da última década”.
38 Não há dados precisos, mas o estudo da Consultoria Legislativa da Câmara dos
Deputados sobre o impacto econômico da legalização da maconha no Brasil
estima em 30% os presos por drogas os que o foram exclusivamente por
maconha. Esse mesmo estudo calcula, de forma declaradamente conservadora,
em 2,7 milhões os consumidores habituais de maconha no país [Silva, Lima &
Teixeira, 2016].
39 Por que que se estabeleceu, entretanto, uma relação direta entre as drogas
ilícitas, das quais a mais disseminada e consumida é a maconha, e a violência
crescente na sociedade brasileira?
40 Para discutir as relações entre drogas e violência é preciso antes situar os
significados destes dois conceitos excessivamente polissêmicos, ou seja, que
possuem múltiplos significados possíveis.
41 A definição de violência da OMS, no Relatório Mundial sobre Violência e
Saúde, de 2002, é:

“o uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si


próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que

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resulte ou tenha a possibilidade de resultar em lesão, morte, dano


psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação” [Krug, 2002,
p. 5].

42 Na relação da violência com as drogas, o relatório da OMS reconhece que


álcool e outras drogas são fatores predisponentes ao suicídio, embora a própria
redação já evidencie um preconceito, pois se refere ao “abuso de álcool e as
drogas”. O conceito de abuso é reservado apenas ao álcool, como se as
substâncias ilícitas (referidas pelo termo drogas e não incluindo as drogas da
indústria farmacêutica) constituíssem per si um tipo de abuso. Principalmente, a
OMS afirma que o tráfico mundial de drogas e de armas é consubstancial à
violência.
43 Embora se saiba que a violência não é provocada pelo uso de drogas, mas pelo
tráfico e, portanto, pela proibição, não se evidencia nesse texto que existe uma
violência intrínseca e crescente do próprio Estado contra os milhões de
consumidores de substâncias consideradas ilícitas. Essa violência que mata e
encarcera mais do que praticamente todas as outras formas de violência física
está ausente do relatório da OMS. Trata-se da violência do Estado contra a
sociedade, especialmente na “guerra contra as drogas”.
44 Violência também pode ser entendida como o efeito dos mecanismos de
exclusão e opressão social que, a partir do próprio Estado, impõe às camadas
subalternas da população uma condição estrutural de carência e de submissão. O
desemprego, a falta de acesso à saúde e à educação ou à infraestrutura básica são
as violências intrínsecas à desigualdade existente na distribuição de renda, na
qual o Brasil se destaca entre os piores países do mundo.
45 Em geral, tende-se a reduzir o significado de violência apenas à violência
delinquencial, especialmente aos homicídios. Sabe-se, no entanto, conforme
estudo do Ipea/Faperj [Rodrigues e Rivero, 2009], que, em cidades como o Rio
de Janeiro, o número de homicídios cometidos por policiais chega a 25% do total
de homicídios.
46 O termo droga, por outro lado, é compreendido pelo senso comum como se
referindo a substâncias ilícitas, a mais conhecida das quais é a maconha. Na
verdade, além destas, também são drogas as substâncias lícitas de uso
recreacional (como o álcool e o tabaco, p.   ex.) e os produtos da indústria
farmacêutica. Estas últimas não são, em geral, relacionadas diretamente à
violência justamente porque não são proibidas e assim não suscitam circuitos
paralelos e clandestinos.
47 O uso de drogas vem associado à violência por duas razões possíveis: os efeitos
de drogas estimulando comportamentos de violência ou as eventuais condições
particulares da produção, distribuição e consumo de certas drogas causando
situações de violência. Em relação ao primeiro aspecto, das drogas que causam
violência, a mais comum continua sendo o álcool, fator motivador de acidentes
por comportamento irresponsável ou por incitar à violência doméstica ou em
locais de lazer. O uso de medicamentos farmacêuticos, no entanto, também tem
expressiva participação em condutas análogas. Seja com o uso de anfetaminas e
outros estimulantes para aumento do tempo de vigília, seja no uso de
tranquilizantes ou antidepressivos que podem possuir efeitos colaterais que
tiram a perícia e a destreza necessárias para manejo de veículos e máquinas ou
criam suscetibilidades particulares em muitos indivíduos. Um “calmante” como o
benzodiazepínico Rivotril, por exemplo, é o segundo medicamento mais vendido
no Brasil. Entre 2006 e 2010, as suas vendas anuais passaram de 13,57 para
18,45 milhões de caixas, o que representa um crescimento de 36% [Colluci,
2011].

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48 A maconha, como a droga ilícita mais consumida e que mais causa violência no
contexto do tráfico clandestino e da repressão policial, é associada no imaginário
popular a uma substância que tem relação direta com o crime e, portanto, com a
violência. O termo maconheiro, que se refere aos seus consumidores, se tornou,
assim, na cultura popular, um insulto que remete a um amálgama entre as
noções de crime, pecado, doença e marginalidade social.
49 O efeito de violência mais destacado na sociedade contemporânea relacionado
às drogas ilícitas não diz respeito, entretanto, aos efeitos farmacológicos
específicos que elas possam causar, mas às disputas entre as redes criadas para a
sua distribuição clandestina, entre estas e a polícia e, particularmente, por parte
da polícia contra os consumidores destas substâncias.
50 A maconha, especialmente, conhecida por seus efeitos calmantes, ansiolíticos
ou relaxantes,6 não tem vínculo direto entre sua farmacologia específica e os
supostos efeitos de violência causados pelo seu consumo. Como afirma Rubens
Adorno: “a violência relaciona-se muito mais à estrutura do tráfico e à repressão
policial do que ao uso das drogas” [Adorno, 2008, p.   8]. O contexto da
regulamentação proibicionista característica da política global vigente sobre
drogas ilícitas é, no entanto, o mais decisivo em influir sobre o seu vínculo com
formas de violência.
51 A proibição incita o tráfico e, portanto, a violência intrínseca de um sistema de
alta lucratividade operando fora das leis e da regulação estatal onde prevalece a
vontade do mais forte. Do ponto de vista social, os efeitos são trágicos. É criada
uma atração inexorável para os jovens pobres e desempregados se vincularem a
circuitos criminosos e de alta violência. Ela exclui o Estado da regulamentação de
importantes produtos com alta demanda social, deixando-a ao arbítrio da força
de grupos armados irregulares que decidem sobre áreas de monopólio, sobre
preços, sobre a qualidade dos produtos e recruta seus agentes e seus
compradores por meio de extorsão e coação.
52 Finalmente, a proibição conecta redes de politráfico envolvendo drogas, armas
e lavagem de divisas, que fazem das drogas a moeda comum de todos os crimes e,
particularmente, conecta o tráfico de armas com o de drogas ilícitas. A agregação
de valor que ocorre nesse ramo o torna um dos mais apropriados aos
mecanismos especulativos característicos do capitalismo financeirizado,
fornecendo uma enorme geração de liquidez que alimenta o sistema financeiro
internacional [Rodrigues, 2004].
53 A pior violência existente em relação às drogas, por provir dos agentes públicos
de segurança, é aquela que afeta os consumidores de substâncias ilícitas,
especialmente os de regiões de baixa renda. A juventude, os pobres e os setores
oprimidos são assim criminalizados em suas práticas cotidianas de lazer, muitas
delas vinculadas a consumos recreacionais de drogas ilícitas. Essa criminalização
abrange a violência diária das intimidações e humilhações policiais, pois embora
a lei 11.343, vigente desde 2006, supostamente não penalize mais o consumidor,
o critério para a distinção entre uso e tráfico permanece ao arbítrio subjetivo da
autoridade policial. A pena para o tráfico, ao ser equiparado a crime hediondo,
pode ser mais grave do que até mesmo o homicídio.
54 Um efeito nefasto da proibição é o seu efeito corrosivo que “vicia” as estruturas
policiais nos esquemas de corrupção, como escreve Salo de Carvalho:

“As consequências perversas da criminalização das drogas na estrutura das


agências penais […] alto custo dos processos […] e o financiamento das
políticas repressivas. Todavia, distante do custo econômico, o principal
problema da ilegalidade é a derivação da criminalidade […] sobretudo
envolvendo profissionais das próprias agências repressivas em delitos
como corrupção e extorsões” [Carvalho, 2010, p.153].

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55 O próprio aparato repressivo torna-se parceiro interessado na manutenção do


negócio tanto na sua face legal com o recebimento de verbas vultosas como na
sua cumplicidade direta com os altos lucros circulantes.
56 Estas evidências têm sido reiteradamente afirmadas por inúmeros
especialistas, intelectuais e figuras públicas mundiais e da sociedade brasileira
em particular. A legalização das drogas é proposta como uma política alternativa
ao modelo da “guerra contra as drogas”, estabelecido em todo o mundo por
influência em particular dos Estados Unidos que, desde a Lei Seca de 1919-1933
até a war on drugs de Richard Nixon em 1971, seguida por todos os seus
sucessores, vem capitaneando uma dispendiosa e inútil ilegalidade de certas
substâncias psicoativas [Rodrigues 2001].
57 Em escala global, essa guerra já gastou mais de um trilhão de dólares, deslocou
milhares de camponeses como refugiados, fumigou com agrotóxicos e com
fungos transgênicos plantações em vastas regiões amazônicas, criou uma
doutrina de intervenção global norte-americana por meio de agências como a
DEA e da “certificação” dos países conforme cumprimento das determinações de
Washington na política sobre drogas. O seu colapso vem sendo anunciado desde
que alguns países como o Uruguai, o Canadá e inclusive muitos estados norte-
americanos, começaram a aprovar autorizações para o uso de drogas,
inicialmente para o uso terapêutico dos derivados da Cannabis e, depois, com
legalização plena.
58 Os resultados mais devastadores da política proibicionista de drogas no caso
brasileiro são o aumento da violência descontrolada por parte de criminosos e
das próprias forças repressivas que se contaminam não apenas do dinheiro sujo
como dos piores métodos de tortura e extermínio. Além da guerra aberta entre
traficantes e polícia, há outra guerra social contra populações pobres por parte
do Estado por meio da criminalização de certas substâncias. Consumidores e
negociantes de drogas ilícitas são submetidos a graves violações dos direitos
humanos em muitos países e, em alguns casos, até mesmo a execuções, tortura e
tratamento degradante.
59 As mortes supostamente ocorridas em conflitos com a polícia são notificadas
quase sempre como “auto de resistência”, mas os baleados são de costas e de
curta distância. A polícia brasileira usa força letal com uma facilidade
indescritível, os casos se multiplicam, são até filmados e se repetem as acusações
de execuções sumárias, especialmente no Rio de Janeiro [Cano, 1998].
60 A estratificação social do país se traduz na forma pela qual o “tráfico de
drogas” passa a encarnar um bode expiatório, uma fonte de todos os males, uma
espécie de denominador geral do crime que faz com que, como por metonímia,
todos os ladrões, assassinos e agressores sejam chamados de “traficantes” e
“maconheiros”. Os “traficantes” são invariavelmente pobres, assim como são os
presos no sistema penal. Os grandes financiadores, os banqueiros do negócio,
nunca são sequer investigados.
61 A pesquisa de Luciana Boiteux [2006b] mostrou que a maioria dos
condenados por tráfico drogas são réus primários, sem vínculos com redes
criminosas, presos com quantidades pequenas e sem armas. O inchamento dos
presídios com esse tipo de condenação é cruel, injusta e só serve para incitar o
pânico moral, gastar dinheiro público e aumentar a massa recrutável pelas redes
criminosas.
62 A lei 11.343, aprovada em 2006, durante o primeiro governo de Lula, manteve
a maior parte dos aspectos proibicionistas. Embora proteja o consumidor da
pena de privação de liberdade, agravou as penas atribuídas à atividade de tráfico
sem que essa seja tipificada ou quantificada, o que deixa ao arbítrio da
autoridade policial a distinção entre posse para uso ou para venda. Um juiz do

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Tribunal de Justiça de São Paulo, numa decisão na 6ª Câmara C, foi além e, em


2008, absolveu um réu acusado de tráfico. O relator, juiz José Henrique
Rodrigues Torres, argumentou nesse sentido afirmando que “a criminalização
primária do porte de entorpecentes para uso próprio é inconstitucional” [apud
Carvalho, 2010, p. 338].
63 A crise da “guerra às drogas” levou a uma revisão de conceitos em relação ao
paradigma da proibição. Até mesmo ex-presidentes como o brasileiro Fernando
Henrique Cardoso, o colombiano Cesar Gaviria e o mexicano Ernesto Zedillo
passaram a defender a uma mudança de paradigma em direção à legalização,
constituindo desde 2009 uma Comissão Latino-Americana sobre Drogas e
Democracia. A entidade criada no país por iniciativa desse grupo foi a Comissão
Brasileira sobre Drogas e Democracia (CBDD), atualmente presidida pelo ex-
presidente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Paulo Gadelha.7 Em 2013, sete
ex-ministros da Justiça entregaram ao STF um manifesto afirmando que a
criminalização do uso de drogas é inconstitucional.8
64 O Supremo Tribunal Federal (STF) começou, em 2015, a julgar a
inconstitucionalidade da lei que criminaliza a posse de maconha para uso
pessoal. Três dos onze juízes já votaram a favor da inconstitucionalidade, mas
houve uma interrupção no processo solicitado pelo juiz Teori Zavasck, que
morreu num acidente de avião em janeiro de 2017. Até hoje, o processo ainda
não foi retomado, embora haja o anúncio de sua rediscussão a partir de junho de
2019 [Brígido, 2018].
65 Para se compreender a natureza política, econômica, social e racial da questão
das drogas no Brasil, é indispensável, portanto, analisar as condições históricas
dos usos da maconha e da constituição de sua proibição. A formação escravista
brasileira explica o estigma social e racial dessa planta, associada à cultura
afrobrasileira. O debate sobre a legalização das drogas, em geral, e da maconha,
em particular, continua sendo uma reivindicação democrática e antirracista
central na sociedade brasileira, embora nos debates nas últimas eleições esse
tema tenha permanecido praticamente ausente.9

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/populacao-carceraria-do-brasil-sobe-de-622202-para-726712-pessoas

Notes
1 No artigo 99: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/resolucao
/1870/resolucao-103-03.05.1870.html
2 No artigo 297: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/resolucao
/1876/resolucao-71-02.04.1876.html
3 Batuques são tambores, zangú provavelmente é uma grafia para Xangô, uma divindade
afrobrasileira, cultuada no candomblé.
4 Encontra-se a Cannabis, por exemplo, no Codex Medicamentarus Gallicus
Pharmacopée Française [Paris, Masson, 1927]; na The Pharmacopoeia of the United
States of America [Philadelphia, J.   B. Lillincott Company, 1893]; na The British
Pharmacopoeia [Londres, Spottiswoode & Co., 1885]; na Pharmacopoea Germanica
[Berlim, Marquardt & Schenck, 1882]; no Manuale del Farmacista, de P. E. Alessandri
[Milão, Ulrico Hoepli, 1923], nas formas de erva, extrato e tintura com indicações como
sudorífera, anódina, antiespasmódica, inebriante, narcótica e estimulante do sistema
central.
5 O próprio Chernovitz reconheceu seu sucesso editorial: “nos três primeiros dias [após a
publicação], foram vendidos 300 exemplares que me permitiram não somente cobrir os
gastos da pressão, como ainda sobrou algo pelo meu trabalho” Apud Betânia Gonçalves
Figueiredo, A arte de curar, 2002: 63.
6 “de forma geral a maconha funciona como um ansiolítico”, Renato Malcher & Sidarta
Ribeiro, Maconha, cérebro e saúde, 2007, p. 103.

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7 Consultado em 10/10/2019 em: https://programadrogas.fiocruz.br/programas/29


8 Consultado em 10/10/2019 em: http://www.vivario.org.br/drogas-ministros-da-justica-
afirmam-que-criminalizacao-do-usuario-e-inconstitucional/
9 A Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD) fez um levantamento de todos os
candidatos aos legislativos e executivos em 2018 que defendiam alguma forma de
descriminalização e apenas dois presidenciais de pequenos partidos de esquerda se
comprometeram com essa proposta: http://eleicoes.pbpd.org.br/

Pour citer cet article


Référence papier
Henrique Carneiro, « Proibição da Maconha: racismo e violência no Brasil », Cahiers des
Amériques latines, 92 | 2019, 135-152.

Référence électronique
Henrique Carneiro, « Proibição da Maconha: racismo e violência no Brasil », Cahiers des
Amériques latines [En ligne], 92 | 2019, mis en ligne le 01 avril 2020, consulté le 20 juin
2020. URL : http://journals.openedition.org/cal/10049 ; DOI : https://doi.org/10.4000
/cal.10049

Auteur
Henrique Carneiro
Henrique CARNEIRO, docteur en histoire sociale à l’université de São Paulo (USP), il a
étudié en France et en Russie et a été professeur invité à l’Uqàm (Canada) à l’automne
2017. Il a été professeur à l’Ufop (université fédérale d’Ouro Preto) pendant cinq ans
(1998-2003). Il est actuellement professeur d’histoire moderne au département d’histoire
de l’USP, où il coordonne le Lehda (Laboratoire d’études historiques sur les drogues et
l’alimentation). Il a publié huit livres et plusieurs articles pour des revues et magazines
académiques.

Droits d’auteur

Les Cahiers des Amériques latines sont mis à disposition selon les termes de la licence
Creative Commons Attribution – Pas d’utilisation commerciale – Pas de modification
4.0 International.

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