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CRIAÇÃO EM SOMBRAS: o pecado estrutural

“Preocupam-me os ferimentos e as chagas sangrentas no corpo nu da terra.


Não vemos que, a longo prazo, esses ferimentos provocam hemorragia: a
fome? a pobreza? os acidentes químicos e nucleares?... Somos responsáveis,
direta ou indiretamente. Estamos... estrangulando a terra” (Wangari Maathai)

Preâmbulo
Depois de considerar o sentido de nossa existência diante de Deus,
S. Inácio nos pede que façamos oração sobre os pecados estruturais da
comunidade humana e sobre os nossos pecados pessoais, até que alcancemos
a graça que nosso coração deseja.
Nos primeiros exercícios nos enchemos de gratidão e assombro pela nossa
existência, pelo amor da Trindade e pela comunidade universal de vida que nos
sustenta.
À medida que avançamos na oração, vamos nos dando conta de que não fomos
sensíveis à bondade e ao amor em contínua evolução que a Trindade demonstra
pelo universo.
Em nossa oração imploramos misericórdia por termos sidos negligentes com a
criação plena de beleza e pedimos para converter-nos em instrumentos da justiça
de Deus na Terra.
Os tempos de oração seguintes nos ajudam a aprofundar nosso vínculo com toda
a Criação e a nos conferir um sentido de comunidade mais amplo que inclua um
parentesco com a Terra e o Universo.
Nosso sentido do pecado também se amplia; já não pode limitar-se somente aos
pecados contra os seres humanos mas deve incluir também todo ato cometido
contra toda forma de vida.
1. Oferecimento de mim mesmo
Rogo à Trindade que me conceda a graça de que durante esta hora de oração
todas as minhas intenções, ações, operações e sentimentos se dirijam somente
e seu serviço e louvor.
2. Preâmbulo ao mistério
Como preâmbulo a esta meditação, é importante ter em conta o mistério das
forças do mal que existem em nosso universo.
Nossa cumplicidade pecadora na destruição da comunidade de vida: a rejeição
diária às oportunidades que Deus nos oferece repercute nos excluídos da vida
biológica, social e política. Assim pois, recusamos pecadoramente o convite
para evoluir em direção à maturidade humana e, com esta recusa, dificultamos
a evolução do mundo em liberdade.

3. Disposição de todo meu ser para o mistério


Com a imaginação me coloco numa posição ou situação de desamparo como a
que sugere a Escritura na parábola do filho pródigo em terras distantes e me
solidarizo ao estado de impotência no qual se encontram muitas outras
criaturas em nosso universo.
Posso considerar a passagem de Is. 24,4-6 como ajuda para a meditação.
4. O desejo de meu coração
Peço alcançar a graça de obter uma consciência mais profunda e sentida de
minha irreverência e cumplicidade pecadoras contra a vida que há em mim e
no cosmos, assim como o sentimento de vergonha e confusão diante do
paciente amor da Trindade para comigo, apesar de minha implicação neste
mal.
5. Pontos de reflexão e consideração
Primeiro ponto: O pecado estrutural forma parte do grande mistério das forças do mal que estão
dispersas
pelo universo e sobre o qual S. Paulo nos adverte em Ef. 6,10-13.
Segundo ponto: A Terra é uma insignificante partícula de pó na imensidão do universo. Para ser
conscien-
te da insensatez do orgulho humano, começo este ponto imaginando que realizo uma visi-
ta guiada por um planetário ou, se é de noite, posso contemplar a lua e as estrelas no céu.
Terceiro ponto: Os seres humanos evoluíram para um estado de poder e segurança quase absolutos.
Por que o orgulho não nos levou ainda à extinção?
Pergunto-me: Por que nos foi permitido evoluir neste universo cheio de perigos e de
maravilhas, até alcançar um elevado nível de inteligência, autoconsciência e sabedoria?
Damos graças por estarmos vivos: Rom. 7,24-25

Quarto ponto: O pecados de nossos primeiros pais é a negativa em aceitar a bondade de nossa
finitude.
O dom da liberdade que recebemos deveria nos fazer mais humildes e conscientemente
agradecidos pela nossa absoluta dependência de nossos semelhantes genéticos: as árvores,
os animais, assim como o ar, a água, a terra...
Por isso, quando caímos no desespero nos consideramos a nós mesmos sem valor e à
criação como um mero produto.

Quinto ponto: Por causa de nossa cobiça temos feito dano às pessoas e à biosfera.
Nosso egoísmo também prejudica à terra, ao ar, à água e ao restante das comunidades de
criaturas de cujo bem-estar depende nossa existência.
“Uma coisa é boa quando tende a manter a integridade, estabilidade e beleza
da comunidade biótica. É má quando tende ao contrário” (Aldo Leopold).

Sexto ponto: Temos adotado hábitos de pecado que se enraizaram em quase todos nós e dos quais
não te-
mos muita consciência. A surpresa é evidente quando nos damos conta de que o pecado
estrutural de nossa sociedade negligente flui destes hábitos, fruto do pecado, hábitos que
raramente questionamos, porque são como o ar que respiramos.
É necessário tomar consciência de como desenvolvemos estes hábitos que, de algum modo,
são inevitáveis, porque até certo ponto não somos conscientes do que fazemos. E não somos
conscientes porque fomos moldados conformes modelos culturais enraizados que são
influenciados pelo pecado; além disso, em todas as nossas estruturas políticas, econômicas e
sociais se enraizaram profundamente os temores humanos e as ansiedades, frutos do
egoísmo.
Por exemplo, o consumismo, o apartheid, a divisão de
classes,a arrogância que surge da vã ilusão da superi-
oridade intelectual, a exploração infantil e a idolatria
da tecnologia...
Os Exercícios inacianos nos ajudam e acompanham na aspi-
ração e busca da graça necessária para que sejamos consci-
entes destas realidades doentias e saibamos nos afastar delas
para avançar pelo caminho do bem.
Considero como o pecado estrutural nos levou a danificar
nosso planeta, devido à nossa incapacidade para assumir a
responsabilidade de orientar para o bem a evolução de toda
a sagrada família da Vida.
6. Colóquio
Imagina que Jesus Cristo está presente diante de ti na Cruz.
Pergunta-lhe: “Por que, sendo Criador, te fizeste homem e morres agora
por todas as tuas criaturas?
Continuando, reflete sobre estas perguntas: “Que fiz por Cristo? Que es-
tou fazendo por Cristo? Que farei por Cristo?”
Enquanto contemplo a Cristo cravado na Cruz, considerarei tudo o que
passa por meu interior.
“Num tempo como este, acreditamos, o Espírito de Deus
está falando às Igrejas com grande urgência; e a mensagem fundamental do Espírito é a
seguinte: arrependam-se, procurem a justiça, a paz e a integridade da criação!”
(Conselho Mundial das Igrejas)

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