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NO PRINCÍPIO ERA A RELAÇÃO...

“No começo era a relação e na relação está a força que cria o mundo, através
de nós e conosco, e por meio de nós, tu e eu, vocês e nós, e ninguém de nós
sozinho”
(Carter
Heyward)
O sonho da prosperidade material a ser conseguida pelo poder-dominação sobre
a natureza e o consumismo exacerbado destruiu o sentido cordial das coisas e
legou-nos um devastador vazio existencial.
A Bíblia nos revela a “separação” como o grande pecado, ou seja, a auto-
afirmação excessiva do ser humano sem a integração e comunhão num todo
maior.
As coisas não estão colocadas umas ao lado das outras, em justaposição, mas são todas sinfônicas, inter-
ligadas. Há uma grande unidade, feita de muitos níveis, de muitos seres diferentes, todos eles ligados e
religados entre si. E, por isso, num profundo e intenso dinamismo.
O drama do ser humano é sentir-se parte e perder a memória de que é parte do todo, é sentir-se um elo
vivo e esquecer que este é um elo da única corrente de vida. Trata-se, enfim, de fazer uma experiência
de não-dualidade; isto significa dizer: sentir-se pedra, planta, animal, estrela... “sentir-se universo”.

Ao predominar a auto-afirmação e o domínio do ser humano sobre a


Criação, produziu-se a quebra da “re-ligação” com tudo e com todos.
Colocou-se num pedestal solitário a partir de onde pretende dominar a
Terra e os céus; como consequência dessa atitude temos a devastação do
espaço natural. Nesse sentido, a
ruína ecológica está em estreita relação com o embrutecimento interior, estético
e moral, do ser humano.
Eis a doença de nosso tempo: a centração só no ser humano sem a conexão
com o todo cósmico.
“Devastando de maneira cega e vandálica a natureza que o circunda e da qual extrai seu
susten-to, a humanidade civilizada atrai para si a ameaça da ruína ecológica.
Talvez reconhecerá os próprios erros quando começar a sentir suas consequências no plano
econômico, mas então – muito provavelmente – será tarde demais.
O que neste bárbaro processo o homem menos adverte, contudo, é o dano que isso
acarreta para sua alma. A alienação geral, e sempre mais difusa, da natureza viva é em
grande medida responsável pelo embrutecimento estético e moral do homem civilizado”.
(Konrad Lorenz)
O autor revela uma relação de reciprocidade e de interdependência entre o
embrutecimento da natureza e o embrutecimento do ser humano. Naturalmente
vale também o contrário: o embrutecimento do ser humano, de sua
interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo bem e pelo belo, o extravio da
ternura e da transcendência, repercutem em uma falta de respeito pela natureza,
em ruptura com as outras criaturas, em embrutecimento ecológico.
É urgente refazer o caminho de volta, como filhos pródigos, rumo à
“comunidade universal de vida” e irmanar-nos com todos as criaturas..
Temos de restaurar a re-ligação com o Todo e com todos.
É impressionante que o núcleo central das parábolas de Jesus é formado por imagens que “ligam”, que
integram e comprometem (Lc. 13,20). O fermento da relação é que constitui o material do Reino de Deus.
É precisamente o sentido particular da relação pessoal de Jesus com a Trindade, com os demais seres
humanos e com o mundo que nos permite descobrir o significado espiritual da dimensão da “relação”.
O relato da Criação nos faz ser conscientes da atitude da Trindade na sua relação com o cosmos.
Em Jesus Cristo, nos fazemos conscientes da conexão que há entre todos os seres humanos e destes com
todas as demais criaturas e com o Criador. Ele não só tornou próximo um Deus cujo próprio ser é
relacional (cerne da doutrina cristã da Trindade), mas revelou que o caminho para a plenitude e a
transformação consiste numa correta e justa relação e conexão entre todos os seres.
Na verdade, Ele chamou o ser humano a sair de seu mundo fechado, de seu isolamento e padrões alienados
de relacionamento para expandir-se em direção a uma nova forma relacional com tudo o que existe; tal
relação é a concretização do sonho do Reino de Deus.
Isto significa que o discípulo de Jesus deve apresentar um es-
tilo de vida completamente contrário à ética do individualis-
mo consumista e do domínio competitivo do mundo atual.
Texto bíblico: Fil. 2,1-11

Na oração: “Oh, Comunidade Divina, que nos uniu em um grau de parentesco através das relações e
conexões
com toda a imensidade do universo e com os minúsculos átomos de nosso ser; que nossa oração
sirva para que saibamos agradecer eternamente Teu amor incondicional, que se manifesta através de nossa uni-
dade comunitária com todas as criaturas, e para que esse sentido de comunhão nos leve a amar-Te e servir-Te a
Ti e à Tua Criação em todas as coisas e fatos de nossas vidas”