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Unidade: Conceito, Características,

Fundamentos, Fontes e Sujeitos de


Unidade I:
Direito Internacional Público

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Unidade: Normas de Formatação do Conteúdo

1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS

Desde eras remotas, as coletividades estipulam regras de coexistência


no plano internacional. Os povos sempre sentiram a necessidade de normatizar
temas que repercutiam além de suas fronteiras. Por isso, ao longo da História
há inúmeros exemplos de tratados sobre questões militares, mercantis,
diplomáticas, etc.
Com o fenômeno da globalização e consequente intensificação dos
intercâmbios internacionais, nos mais variados setores (social, econômico,
político, cultural, etc.), multiplicaram-se as relações jurídicas no campo

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internacional. O Direito Internacional ganha, nesse contexto, relevância
crescente.
O Direito Internacional Público (DIP) ou Direito das Gentes compreende
o conjunto de princípios e regras destinados a reger os direitos e deveres
internacionais, envolvendo Estados, Organizações Internacionais,
Coletividades não-estatais e indivíduos.
Ao estudarmos o DIP comumente nos deparamos com a assertiva de
que este rege a sociedade internacional. Diante disso, cumpre esclarecer que
a sociedade internacional é formada, em regra, por Estados e organizações
internacionais (MAZZUOLI, 2008, p. 58). Fala-se "em regra", haja vista o
posicionamento de doutrinadores, que incluem neste rol indivíduos e
coletividades não-estatais (v. g., os beligerantes, os insurgentes, os
movimentos de libertação nacional, etc.). Este ponto será aprofundado mais à
frente ao estudarmos os sujeitos de DIP.

1.1 CARACTERÍSTICAS DO DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO

a) Coordenação X Subordinação:

O DIP é marcado pela horizontalização (mesmo plano hierárquico,


coordenação), em contraposição à verticalização (planos inferior e superior,
hierarquia, subordinação) do Direito Interno.

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Como se sabe, o Direito Interno é composto por normas hierarquizadas
(Constituição – leis – decretos – atos infralegais, etc.). Isto não se passa com
“o DIP, no qual não há esta noção de subordinação, mas sim de coordenação
normativa”[1].

b) Descentralização X Centralização:

No plano internacional, verifica-se uma ausência de poder central


(descentralização). Diversamente do que ocorre na esfera nacional, no DIP
não há órgãos especialmente designados para a criação e aplicação de regras
internacionalmente válidas, “inexistindo uma autoridade central independente,
com milícia permanente, caracterizando-se, a sociedade internacional, pela

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descentralização”, como preconizava Kelsen.
As condutas interestatais são reguladas difusamente por acordos
negociados e firmados bilateral ou multilateralmente entre os sujeitos de
DIP, bem como pelos costumes e princípios gerais de direito internacional.
É bem verdade que este cenário tem ganhado novos contornos com o
desenvolvimento de blocos regionais. No caso europeu, já existe um órgão
legislativo comum (Parlamento Europeu).
A inexistência de uma autoridade superior, com jurisdição geral capaz de
obrigar a todos os sujeitos de DIP, como, por exemplo, um Parlamento
Mundial, compromete a eficácia do direito internacional como um todo.
Conquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) tente assumir este
papel de "legislador central", ainda despontam muitos obstáculos e resistências
que precisam ser ultrapassados.

2. TEORIAS DUALISTA E MONISTA

No afã de explicar este complexo liame entre Direito Internacional e


Direito Interno, eis que surgem duas vertentes teóricas, os monistas e os
dualistas. Determinar qual das teorias prevalecerá depende de cada Estado. A
escolha será, sobretudo, uma decisão político-jurídica de cada país.

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2.1 Dualistas X monistas

a) Teoria Dualista

Para os dualistas, o DIP e o Direito Estatal são rigorosamente


independentes e distintos, de modo que a validade da norma interna não sofre
interferência do Direito das Gentes.
Segundo a corrente dualista, a função do Direito Internacional seria tão-
somente regular as relações entre os Estados ou entre estes e as organizações
internacionais. Ao seu turno, o Direito Interno seria responsável pela
normatização das relações envolvendo um Estado e seus súditos.
Como se vê, de acordo com a ótica dualista os dois "Direitos" atuariam

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em planos distintos e, por isso, não poderiam entrar em rota de colisão. A
norma internacional só teria eficácia no interior de um Estado depois de
incorporada. A partir de então, ganharia status de lei (lato sensu) nacional.
Os principais nomes do movimento dualista foram Triepel (Alemanha) e
Anzilotti (Itália).

b) Teoria Monista

O lado monista prega a unicidade da ordem jurídica, ou seja, o Direito é


um só (direito uno), sendo indevida esta diferenciação entre Direito
Internacional e Direito Interno. Aqui a ideia de dualidade é substituída pela de
unidade.
No ideal monista as normas internacionais têm aplicação imediata na
ordem interna, independentemente de recepção formal no Direito pátrio.
Estes se dividem em dois grupos. O primeiro (monismo internacionalista)
prega a primazia das normas internacionais (Kelsen), enquanto o grupo
representado por Hegel defende que a soberania estatal é absoluta, tendo
proeminência sobre as regras internacionais.

O DIREITO INTERNACIONAL E O DIREITO INTERNO À LUZ DA


CONSTITUIÇÃO

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Tendo como premissa a soberania estatal, pode-se dizer que cada
Estado tem liberdade para aderir à concepção que melhor lhe convier (monista
ou dualista).
Boa parte dos Estados modernos contam com previsões constitucionais
a respeito. Países como Alemanha e França conferem primazia ao Direito
Internacional.
No caso brasileiro, a Carta Fundamental não se filiou a nenhuma
corrente. A exceção fica por conta dos tratados internacionais de direitos
humanos, que por força do recente parágrafo 3º do art. 5º podem ingressar no
ordenamento brasileiro com envergadura constitucional.
Em recente julgamento (RE 466.343) o STF firmou raciocínio, conduzido
pelo voto do Min. Gilmar Mendes, de que os tratados versando sobre direitos

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humanos estariam num patamar hierárquico intermediário entre a
Constituição e a legislação infraconstitucional. Tais tratados estariam numa
situação de supralegalidade (acima da lei, porém abaixo da Constituição). Pela
natureza especial de tais convenções, estas não poderiam ser tolhidas por
normas legais. Este ponto será dissecado no tópico reservado aos tratados
internacionais.

3. FONTES DE DIREITO INTERNACIONAL


O Direito Internacional “bebe de várias fontes”. Isto significa dizer que a
ordem jurídica internacional é composta por normas de diferentes matizes.
Certamente a natureza descentralizada do DIP contribui para isto.
Ao falarmos em fontes de DIP, precisamos recorrer inevitavelmente ao
art. 38 da CIJ. Apesar de o Estatuto não constituir rol exaustivo, teve o mérito
de sistematizar as fontes e enumerar as fontes primordiais do DIP. No art.
38[2]:
Artigo 38
1. A Corte, cuja função seja decidir conforme o direito internacional as
controvérsias que sejam submetidas, deverá aplicar;
2. as convenções internacionais, sejam gerais ou particulares, que
estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes;
3. o costume internacional como prova de uma prática geralmente aceita
como direito;
4. os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações civilizadas;
5. as decisões judiciais e as doutrinas dos publicitários de maior
competência das diversas nações, como meio auxiliar para a determinação
das regras de direito, sem prejuízo do disposto no Artigo 59.

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6. A presente disposição não restringe a faculdade da Corte para decidir
um litígio ex aequo et bono, se convier às partes.

Além das fontes mencionadas no Estatuto da CIJ, a doutrina cita fontes


complementares como resoluções obrigatórias das organizações
internacionais e atos jurídicos unilaterais.

3.1 DOS COSTUMES INTERNACIONAIS


O costume é uma prática geral aceita como sendo de direito (animus de
constituir norma jurídica); uma observância reiterada de dado comportamento
que passa a ser aceito internacionalmente.
Em geral, os costumes internacionais se consolidaram depois de longo
lapso temporal, quiçá séculos, haja vista que pressupõem uma decantação de

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práticas reiteradas. A morosidade é, pois, algo inerente. No entanto, não há
uma regra específica a respeito. O transcurso de um período curto de
tempo não constitui óbice à formação de normas costumeiras.

• Elemento Material (ou elemento externo): os procedimentos repetidos,


ou seja, realizados reiteradamente pela sociedade. O costume é mais
amplo que o mero uso (que é um de seus elementos constitutivos), e
tem natureza obrigatória, pois é prática consagrada de longa data nas
relações internacionais.
• Elemento Subjetivo (ou elemento psicológico): a opinio iuris vel
necessitatis, ou seja, a convicção de que tal prática funciona como lei,
sendo jurídica e justa.

A parte que alega em seu benefício certa regra costumeira tem o


ônus de provar sua existência e sua oponibilidade à parte adversa. Há
inúmeras formas de demonstrar a validade e eficácia de um costume, como por
meio de atos estatais, jurisprudência internacional e tratados. O costume pode
ser, exemplificativamente, declarado no corpo de um tratado internacional ou
proclamado numa decisão da Corte Internacional de Justiça. Considerando-se
que o costume não é escrito, caberá aos interessados fazer prova de sua
existência.

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3.2 Princípios Gerais de Direito

“Os princípios gerais de direito são cânones que não foram ditados,
explicitamente, pelo elaborador da norma, mas que estão contidos de forma
imanente ao ordenamento jurídico. São reconhecidos pelas nações civilizadas
como um substrato comum a todos os povos, indistintamente”[3]
Dentre os princípios que devem sempre ser observados, sendo, pois,
considerados princípios básicos do Direito Internacional, podemos citar:
 Princípio de Respeito Pela Integridade Territorial e Pela
Soberania dos Estados.
 Princípio da Não Agressão
 Princípio da Não Ingerência em Assuntos Internos

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 Princípio da Igualdade de Benefícios entre os Estados
 Princípio da Coexistência Pacífica
 Princípio do Ônus da Prova.

O art. 4º da CF/88 consagra os princípios que devem nortear as relações


internacionais do Brasil. São eles:
a) independência nacional;
b) prevalência dos direitos humanos (vide art. 5º, par. 3º, CF/88);
c) autodeterminação dos povos;
d) não-intervenção;
e) igualdade entre os Estados;
f) defesa da paz;
g) solução pacífica dos conflitos;
h) repúdio ao terrorismo e ao racismo;
i) cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
j) concessão de asilo político;
k) busca pela integração econômica, política, social e cultural dos povos
da América Latina.

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3.3 ATOS UNILATERAIS

Apesar de não estar arrolado no art. 38 do Estatuto da CIJ, é


reconhecido como fonte de DIP. O ato unilateral vincula o seu autor, e
confere aos Estados que confiaram nele o direito de exigir seu cumprimento.
Os atos unilaterais têm seu fundamento no costume, surgindo nos
espaços onde não há regulamentação do Direito. Os Estados podem
regulamentar através deles situações, mesmo que localizadas no estrangeiro,
mas que possam produzir efeitos no seu território, assim como podem regular
matéria a respeito da qual ele tenha interesse especial, e que esse também
exista para a sociedade internacional.
Para que tenham eficácia, os atos unilaterais devem atender a duas

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condições: deve ser público, ou seja, de conhecimento da comunidade
internacional e deve haver intenção do Estado que o elabora de se
obrigar, pois não é possível fazer um ato unilateral que obrigue outro
Estado.
Não há um único critério para a classificação dos atos unilaterais,
havendo aqui, outra divergência entre os doutrinadores. Uma das
classificações mais aceitas é a formulada por Charles Rousseau, em que os
atos unilaterais são classificados em[4]:

• Tácitos - também podem ser denominados aquiescência, que


representa os efeitos de uma ausência de manifestação de vontade, ou
por um Estado não ter utilizado os meios jurídicos para impedir a
situação de constituição de um direito em favor de outros Estados –
preclusão ou estoppel – ou por haver silenciado numa situação que isso
pode produzir efeitos jurídicos.
- Silêncio - é o ato unilateral tácito por excelência, sendo assimilado à
aceitação. Ocorre quando um sujeito de Direito Internacional não se
manifesta em relação a um determinado ato unilateral, dessa forma,
acatando-o.
• Expressos:
- Protesto
- Notificação

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- Renúncia
- Denúncia
- Reconhecimento
- Promessa

3.4 EQUIDADE E ANALOGIA


Rezek aduz que tanto a equidade quanto a analogia são métodos de
raciocínio jurídico. São meios de se compensar a inexistência da norma[5]. De
acordo com a leitura do artigo 38 da Corte de Haia, a equidade (ou ex aequo et
bono) refere-se a uma possibilidade de pacificar a relação entre os Estados
litigantes, resolvendo o conflito por uma razoabilidade, que deve ter por base a
conveniência e a oportunidade. Contudo, pode ser utilizada no momento em

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que as partes manifestarem expressamente que a aceitam, até no caso de
arbitragem.
O uso da analogia consiste em fazer valer, para determinada situação de
fato, a norma jurídica aplicada em situação assemelhada. A analogia é velha
conhecida do Direito brasileiro. O emprego da analogia em terra brasilis
encontra previsão na Lei de Introdução ao Código Civil.

3.5 JURISPRUDÊNCIA

A jurisprudência internacional é classificada como fonte auxiliar de


Direito Internacional Público. Como a própria terminologia sugere, a
jurisprudência aflora das diversas Cortes de Direito Internacional. Cumpre
acentuar que as decisões oriundas de Tribunais estatais, vale dizer,
jurisprudência emanada da jurisdição estatal, não constitui fonte de DIP.

3.6 DECISÕES DAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS (OIG)


As Organizações Internacionais são atores independentes, que podem
influenciar a política estatal, além de monitorar as decisões tomadas por
Estados que fazem parte dela. Ao se referir a Organizações Internacionais,
alude-se aqui àquelas fundadas a partir da intervenção estatal. São aquelas
instituídas pela vontade de Estados soberanos; por isso serem nominadas de

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intergovernamentais. Possuem diferentes objetivos e alcances. Suas decisões
têm caráter de fonte material, não formal para o Direito Internacional Público.
Dita fonte material não restou citada no art. 38 do Estatuto da CIJ. Muito
provavelmente porque o aventado Estatuto foi forjado em época ainda
embrionária para as Organizações Internacionais. Em que pese a controvérsia
quanto à sua natureza de fonte normativa, é frequentemente mencionada pela
doutrina[6].

3.7 DOUTRINA
A doutrina como fonte do DIP é aquela notoriamente reconhecida em
âmbito internacional, além de desenvolvida pelos publicistas, ou seja, a opinião
dos juristas mais qualificados das diferentes nações.

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Desenvolveu-se também a ideia de uma doutrina coletiva. Trata-se de
resoluções de caráter científico que são expedidas por organizações não
governamentais (ONGs), existentes em vários setores sociais, com destaque
para duas, que se dedicam ao estudo e desenvolvimento do Direito
Internacional: Institut du Droit International e International Law Association. São
formadas por professores, advogados e diplomatas de todo o mundo, tendo
como principal atividade o estudo científico de grandes temas do Direito
Internacional.

3.8 DOS TRATADOS


3.8.1 Definição
O tratado é uma fonte convencional de DIP. Segundo a Convenção de
Viena de 1969, o tratado é “um acordo internacional celebrado por escrito entre
Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento
único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua
denominação particular”.
A definição cunhada na Convenção de Viena de 1969 e transcrita acima
precisa ser adaptada aos dias atuais. Deveras, com a ampliação dos sujeitos
de DIP, atualmente não só os Estados como também as Organizações
Internacionais têm legitimidade para firmar tratados internacionais, além,
obviamente, de outras entidades dotadas de personalidade jurídica
internacional, como a Santa Sé. Tal aspecto quedou regularizado com a

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sobrevinda da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados entre Estados e
Organizações Internacionais ou entre Organizações Internacionais de 1986.
A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969 é
denominada, aliás, como lei dos tratados, código dos tratados e tratado dos
tratados. Tal alcunha remete à relevância deste Tratado, como autêntico código
normativo que disciplina o Direito dos Tratados.
A Convenção de Viena de 1969 é classificada como "declaratória de
Direito Internacional geral", vale dizer, proclama práticas reiteradas e
consagradas no meio internacional (costumes), de índole imperativa (jus
cogens). Nesta qualidade vincula não só os Estados signatários como toda a
sociedade internacional[7].
Como antecipado alhures, não existe hierarquia entre as fontes de

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DIP[8]. Malgrado isto, não se pode desprezar o papel desempenhado pelos
tratados. Estes revestem as normas de DIP com maior estabilidade e
segurança. Isto porque pressupõem uma participação mais ativa e democrática
dos pactuantes (oportunidade de amplas negociações e exercício da vontade
livre), além de constituírem normas escritas (maior facilidade de comprovação).
Os tratados se baseiam nos princípios do pacta sunt servanda e da boa
fé. Nasceu do direito constumeiro. A própria Convenção de Viena de 1969, que
regula o “direito aplicável aos tratados”, prevê a aplicação subsidiária do direito
costumeiro.
São condições de validade dos tratados internacionais: (i) a
capacidade das partes pactuantes; (ii) o mútuo consentimento; (iii) objeto lícito
e juridicamente possível.

3.8.2 Requisitos dos tratados


• Forma escrita
• Sujeitos capazes
• Efeitos jurídicos adstritos aos acordantes

3.8.3 Classificação
• Quanto ao número de partes: bilaterais e multilaterais
• Quanto ao processo de formação: tratados fechados (restrita aos
Estados que participaram da assinatura do tratado, não admitindo

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adesões posteriores); e tratados abertos (com possibilidade de adesão
de Estados que não assinaram originalmente o texto).
• Quanto à natureza das normas (matéria regulada): tratados de paz
(regulam o fim de uma guerra ou conflito armado e estabelecem as
consequências para os vencidos), tratados de comércio e navegação,
tratados de amizade e consultas (estabelecem obrigações de consultas
recíprocas entre os Estados signatários), tratados de extradição, entre
outros.
• Quanto à execução no tempo e no espaço (modo de entrada em
vigor): tratados em devida forma – necessitam da troca de instrumentos
de ratificação ou da prática de outro ato solene posterior a sua
assinatura, pelos Estados signatários – e tratados em forma simplificada

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– Executive Agreements, entram em vigor no momento de sua
assinatura ou no momento em que seu texto dispuser, prescindido de
atos posteriores, como o da ratificação.

3.8.4 Estrutura do Tratado


• Preâmbulo: Parte do tratado em que são listadas as partes envolvidas
e apresenta a exposição de motivos da consecução do acordo.
• Parte dispositiva: Ou também denominado “dispositivo”, é o “corpo”
do tratado, o conjunto de normas definidas em conjunto pelas partes. Ali
estão enumeradas as obrigações e direitos referentes ao assunto
relativo ao tratado. Pode ainda contar com a existência de anexos.
• Anexos: Anexos estão contidos na parte dispositiva do tratado e
contêm elementos técnicos complementares ao bom entendimento das
partes do assunto ali tratado. (ex.: gráficos, tabelas, pesquisas etc.). Não
é parte obrigatória.
• Expressão do consentimento: Trata-se de parte obrigatória dos
tratados internacionais. Normalmente é materializada pela assinatura.

3.8.5 Fases dos tratados internacionais (procedimento)


1) Negociações: a negociação de tratado no âmbito de uma
organização internacional é realizada conforme os procedimentos do
organismo em questão, que prepara o texto original do ato a ser firmado.

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Ocorre nesta fase o credenciamento das delegações, normalmente com
o depósito da Carta de Plenos Poderes (os plenipotenciários são os
agentes estatais que contam com plenos poderes para participar das
tratativas de um tratado, bem como assinar tratados), quando
multilaterial, e troca dos plenos poderes, quando bilateral. São
dispensados da apresentação da Carta de Plenos Poderes as seguintes
autoridades: chefes de Estado ou Governo, chanceleres (Min. Relações
Exteriores) e chefes de missões diplomáticas junto aos Estados em que
se encontram acreditados.
2) Assinatura: a assinatura do tratado encerra a etapa negociadora e
expressa o consentimento de cada parte. A assinatura é, via de regra,
feita ad referendum do Congresso Nacional, salvo nos casos em que o

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Ato entra em vigor na data da assinatura[9]. A assinatura tem ainda o
condão de autenticar o texto do tratado. A Convenção de Viena de 1969
estipula que o quórum geral exigido para assinatura de um tratado será
sempre de dois terços, desde que não haja disposição contrária no
corpo do tratado.
3) Referendo (ou aprovação) do Legislativo: na maior parte dos
Estados a assinatura de tratados internacionais precisa ser endossada
pelo Poder Legislativo. No caso brasileiro, a Constituição Federal de
1988 determina ser da competência privativa do Presidente da
República a celebração de tratados, convenções e atos internacionais,
submetendo-se os mesmos a referendo do Congresso Nacional (Artigo
84, inciso VIII). Noutra passagem, a Constituição determina ser da
competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente
sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos
ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional (Artigo 49, inciso I).
Os empréstimos internacionais de interesse da União, de Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios dependem de autorização do Senado
Federal. O envio ao Congresso Nacional faz-se mediante Exposição de
Motivos do Presidente da República, inicialmente para a Câmara dos
Deputados. O texto é examinado pelas comissões parlamentares de
constituição e justiça e depois submetido à aprovação dos
parlamentares. O Congresso não pode emendar dispositivos do tratado,

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sob pena de inviabilizar a ratificação. Pode apenas emitir reservas,
desde que admitidas nas disposições do tratado. A aprovação pelo
Congresso Nacional é editada mediante Decreto Legislativo, promulgado
pelo Presidente do Senado e publicado no Diário Oficial.
4) Ratificação: Uma vez publicado o Decreto Legislativo que aprova o
tratado, encerra-se a etapa de apreciação e aprovação deste e se
iniciam os procedimentos para sua confirmação no plano internacional
(ratificação) e entrada em vigor. A ratificação é ato privativo e
discricionário do Poder Executivo. Consiste num ato internacional
mediante o qual um Estado confirma seu consentimento em obrigar-se
por um tratado de direito internacional, por meio de troca de
instrumentos de ratificação ou seu depósito junto a um Estado ou

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Organização Internacional.
5) Promulgação e publicação: Uma vez que o ato haja entrado em
vigor no plano internacional, cumpre incorporá-lo ao ordenamento
jurídico interno, mediante promulgação por meio de decreto assinado
pelo Presidente da República e referendado pelo Ministro das Relações
Exteriores. Uma vez assinado, o decreto deverá ser publicado no Diário
Oficial da União (DOU). O ato internacional que prescindiu da aprovação
legislativa dispensa a promulgacão. Exige-se, neste caso, apenas a
publicação no Diário Oficial, medida que o incorpora ao direito interno e
lhe dá a publicidade exigida pela norma jurídica[10].

6) Registro nas Nações Unidas: Nos termos do Artigo 102 da Carta


das Nações Unidas, os Atos Internacionais bilaterais, após entrarem em
vigor, devem ser encaminhados para registro junto ao Secretariado das
Nações Unidas.

3.8.5 Reservas
Durante as negociações de um tratado o Estado pode divergir de
determinado dispositivo, formulando uma reserva. Esta reserva tem por escopo
modificar ou excluir determinada(s) cláusula(s) do tratado e precisa coadunar-
se com a natureza e regulamentos do tratado em apreço. Quanto às reservas
os tratados podem impor: a) proibição expressa à formulação de reservas em

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geral; b) proibição de formular determinadas reservas; c) indicação de que a
reserva é incompatível com a finalidade do Ato. Destarte, o limite ao direito de
emendar um tratado dependerá da vontade das partes.
O Parlamento pode apor reservas à aprovação de dada cláusula do
tratado sujeito a referendo, desde que respeitados os limites neste declinados.
Frise-se que o Congresso pode manifestar reservas (discordar de algum
ponto), não emendar o texto ou sentido do tratado.

3.8.6 Causas de extinção de um tratado:


 a sua execução total;
 a expiração do prazo estipulado;
 a impossibilidade de sua execução;

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 o acordo das partes pela extinção (vontade comum);
 a renúncia unilateral, por parte do Estado exclusivamente beneficiado;
 a ocorrência de condição resolutória, expressamente prevista;
 a inexecução do tratado, por um dos estados contratantes;
 pela prescrição liberatória;
 pela denúncia unilateral;
 pela guerra superveniente, entre os Estados contratantes.
 há a possibilidade de extinção tácita de um tratado quando as mesmas
partes contratantes ajustam novo acordo sobre o mesmo objeto
(princípio do lex posterior derrogat priori).

3. SUJEITOS DE DIP

As pessoas jurídicas de Direito Internacional Público são os Estados


soberanos (aos quais se equipara, para tal fim, a Santa Sé) e as Organizações
Internacionais em sentido estrito[11]. Autores como Accioly apontam outros
sujeitos de DIP: os movimentos de libertação internacional e os domínios
britânicos antes de reconhecidos como Estados. Refere-se, também, ao
indivíduo[12].
O indivíduo, como sujeito de DIP, continua sendo alvo de intensas

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controvérsias. Autores de escol como Rezek rejeitam a tese do indivíduo como
sujeito de DIP. Outros, como Sydney César Silva Guerra, advogam que a
pessoa humana passou a ser considerada um ator internacional a partir do
advento da Organização das Nações Unidas, mais precisamente com a
consagração dos direitos humanos.
Os sujeitos de Direito Internacional Público são aqueles entes
dotados de personalidade jurídica internacional, isto é, são titulares de
direitos e deveres internacionais, e possuem capacidade de exercê-los.
Os Estados gozam de personalidade jurídica originária e ilimitada, em
razão de sua realidade física territorial e populacional, ao passo que as
Organizações Internacionais desfrutam de personalidade jurídica derivada,
resultante da vontade conjugada de um certo número de Estados.

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A situação dos indivíduos, das organizações não-governamentais e das
empresas transnacionais será estudada em tópico próprio.

4.1 Estados
Segundo Rezek, o Estado ostenta três elementos conjugados: uma base
territorial, uma comunidade humana estabelecida sobre essa área e uma forma
de governo não subordinado a qualquer autoridade exterior. Tratam-se dos
elementos comumente denominados de território, povo e soberania (ou
governo)[13].

4.1.1 Território
O território consiste na área sobre a qual o Estado exerce sua jurisdição
de maneira geral e exclusiva. Abrange a área terrestre do Estado, os espaços
hídricos internos, o mar territorial e o espaço aéreo acima dessas áreas. A
definição do território de um país é relevante, na medida em que define o raio
de seus domínios, jurisdição ou soberania. Não há limites territoriais para
constituição de Estados. Tanto assim, que há micro-Estados, com menos de
100 quilômetros quadrados de área.

4.1.2 População
A população se apresenta como a expressão demográfica, a dimensão
pessoal do Estado soberano. Engloba a massa de habitantes, nacionais e

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estrangeiros, fixados no território nacional com ânimo permanente. Tendo em
vista que o Estado detém jurisdição sobre todo seu território, suas
competências terminam por alcançar os não-nacionais que estejam em solo
pátrio. O tema da nacionalidade será abordado em ponto sucessivo.

4.1.3 Soberania
A soberania é a qualidade do Estado, que o faz titular de jurisdição
ilimitada dentro de seu território. Somente Estados soberanos podem manter
relações diplomáticas com outros sujeitos de DIP.
São exemplos de direitos decorrentes da soberania (segundo a Carta da
OEA): direito de defender a sua integridade e independência; de promover sua
conservação e prosperidade; de auto-organização; de legislar.

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Há casos de Estados soberanos que delegam parcela de suas
competências a terceiros. Isto acontece com os denominados micro-Estados
(Mônaco, Andorra, Liechtenstein, San Marino), onde a moeda e defesa
nacional são fornecidas por Estado vizinho. Esta delegação não implica na
renúncia à soberania estatal.

5. Reconhecimento de Estado e de Governo


O reconhecimento de um Estado é, via de regra, um ato unilateral, de
natureza declaratória. Por meio dele um Estado soberano reconhece a
soberania de outro ente, candidato a Estado. O reconhecimento de um Estado,
apesar de não ser constitutivo deste, respalda a sua qualidade estatal. Pode-se
manifestar de forma expressa ou tácita.
No caso de reconhecimento de governo, há o pressuposto de existência
de um Estado soberano. É também um ato unilateral. Ocorre geralmente em
momentos de ruptura da ordem política.
Na literatura internacional há críticos ao instituto de reconhecimento de
governo (v. g. Genaro Estrada, chanceler mexicano na década de 1930). Para
estes, a figura do reconhecimento de governo violaria a soberania estatal.
Implicaria interferência em negócio doméstico. Accioly rebate esta teoria,
destacando que cada Estado tem o direito de escolher os governos com os
quais pretende manter relações diplomáticas. Um governo não está obrigado a
travar relações diplomáticas com governo ilegítimo[14].

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6. Sucessão e extinção de Estados

A Convenção de Viena sobre sucessão de Estados a respeito de


tratados (1978) dispõe que a “sucessão de Estados significa a substituição de
um Estado por outro no tocante à responsabilidade pelas relações
internacionais do território”.
As principais modalidades de sucessão de Estados são[15]:
- Emancipação: por meio da independência. Ex.: Brasil, em relação a
Portugal;
- Fusão: quando dois ou mais Estados se reúnem para formar um
terceiro, com nova personalidade jurídica internacional. Ex.:

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Unificações alemã e italiana.
- Anexação total: um Estado é absorvido (anexado) por outro,
extinguindo-se a personalidade internacional do primeiro. Ex.:
Etiópia, quando anexada à Itália de Mussolini.
- Anexação parcial: um Estado perde parcela de seu território. Ex.:
transferências de territórios, depois das Guerras mundiais.

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Referências

[1] Apesar de não haver uma escala hierarquizada entre as normas de Direito
Internacional, há doutrinadores que defendem a existência de algumas normas
com maior envergadura no contexto internacional, tais como as de direito
comunitário e de jus cogens. A Carta da ONU, por exemplo, estaria num
patamar superior aos demais tratados, não sendo possível sua reforma por
acordos posteriores.
[2] O inteiro teor do Estatuto da CIJ encontra-se disponível em vários sítios
eletrônicos, por exemplo:
http://www.trf4.jus.br/trf4/upload/arquivos/ji_cortes_internacionais/cij-
estat._corte_intern._just.pdf.

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[3] DINIZ, Maria Helena. 1997, pp. 71-2.
[4] MELLO, Celso Duvivier de Albuquerque. Curso de direito internacional
público. 13. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2001. Vol. 1, p. 292/294.
[5] REZEK, José Francisco. Direito internacional público: curso elementar. 9.
ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 145.
[6] REZEK, José Francisco. Direito internacional público: curso elementar. 9.
ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 137.
[7] MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de Direito Internacional Público. 3
ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008, p. 147.
[8] Autores de escol, como Hildebrando Accioly preconizam que o direito
convencional (tratados) sobrepõe-se às leis nacionais (Direito Interno). Deste
modo, um tratado pode "revogar" uma lei. No nosso entendimento, tal
interpretação dependerá da Constituição de cada Estado. Há países que
consagram esta primazia do Direito Internacional.
[9] http://www2.mre.gov.br/dai/PraticaDiplomaticaBrasileira.pdf, acesso em
14.02.09, às 16:35.
[10] http://www2.mre.gov.br/dai/PraticaDiplomaticaBrasileira.pdf, acesso em
14.02.09, às 16:30.
[11] REZEK, José Francisco. Direito internacional público: curso elementar.
9. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 151.
[12] ACCIOLY, Hildebrando; e SILVA, G. E. do Nascimento. Manual de Direito

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Internacional Público. 12 ed. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 63.
[13] REZEK, José Francisco. Direito internacional público: curso elementar.
9. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 161.
[14] ACCIOLY, Hildebrando; SILVA, G. E. do Nascimento. Manual de Direito
Internacional Público. 12 ed. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 88.
[15] MELLO, Celso Duvivier de Albuquerque. Curso de direito internacional
público. 13. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, vol. 1, p. 408

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