Você está na página 1de 152

Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

E ARTE MILITAR
ESTRATÉGIA SOCIALISTA
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

e Matías Maiello
Emilio Albamonte
E ARTE MILITAR
ESTRATÉGIA SOCIALISTA
© desta edição, Edições Iskra, 2020
© 2017, Ediciones IPS, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, para a tradução em língua portuguesa
A editora autoriza a reprodução deste livro para fins de natureza teórica
e/ou divulgação eletrônica, desde que mencionada a fonte.

Este livro foi revisado segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
em vigor no Brasil desde 2009.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Conselho editorial Edison Urbano, Simone Ishibashi,


Iuri Tonelo e André Barbieri
Edição Paula Vaz de Almeida
Tradução Edison Urbano
Revisão da tradução Fernando Bustamante
Revisão de texto Luciana Vizotto, Victoria Santello,
Lina Hamdan, Heitor Carneiro,
Seiji Seron e Yuri Marcolino
Equipe de apoio Giovana Maria de Sousa e Weckson Vinícius
Colaboração Juan Chirioca, Milton D’León
e Natália Angyalossy
Capa Hernán Cardinale
Diagramação Víctor Bernardes e Thais Oyola
Ilustração da capa representação de Leon Trótski como
São Jorge matando o dragão da
contrarrevolução, por Víktor Deni,
ilustrador soviético do primeiro
período da Revolução Russa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

A325e Albamonte, Emilio


Estratégia socialista e arte militar / Emilio Albamonte,
Matías Maiello. - Ananindeua, PA: Itacaiúnas, 2019.
616 p. : il. ; 15,5 cm x 23 cm.
Inclui bibliografia e índice.
ISBN: 978-85-9535-166-0
1. Marxismo. 2. Socialismo. 3. Estratégia socialista.
4. Arte militar. I. Maiello, Matías. V. Título
2019-2381 CDD 335.4
CDU 330.85

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410

Índice para catálogo sistemático:


1. Socialismo 335.4
2. Socialismo 330.85

1ª edição: janeiro de 2020


Edições Iskra
Praça Américo Jacobino, 49
05437-010 São Paulo-SP
facebook.com/EdicoesISKRA
ÍNDICE

Agradecimentos 9
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Prefácio à edição brasiliera 11

Prólogo: A imperiosa atualidade da estratégia 29

Capítulo 1: Sobre a estratégia em geral 57


Parte 1: Estratégia de desgaste e estratégia de derrubada 62
Parte 2: Kautsky: a estratégia de desgaste e a mudança do “centro de gravidade” 76
Parte 3: Rosa Luxemburgo: a greve de massas e as novas condições
para a estratégia 91
Parte 4: Lênin: força material e força moral 115
Parte 5: Duas estratégias, dois tipos de guerra 141

Capítulo 2: A ofensiva 155


Parte 1: A preparação da insurreição 161
Parte 2: A batalha insurrecional 171
Parte 3: A consolidação da vitória 179
Parte 4: A guerra civil no Oriente e no Ocidente 184
Anexo: Um exército chamado a se extinguir 189

Capítulo 3: Da defesa ao ataque 195


Parte 1: A origem das divergências na III Internacional 200
Parte 2: Divergências entre Trótski e Gramsci 210
Parte 3: Pontos de convergência 226
Parte 4: As relações entre defesa-ataque e posição-manobra 232

Capítulo 4: Sobre a defesa 247


Parte 1: Democracia burguesa, democracia radical e governo operário 249
Parte 2: Hegemonia burguesa e hegemonia operária 264
Parte 3: Partido e hegemonia 293
Anexo: Hegemonia e “ditadura do proletariado” 303
Capítulo 5: Guerra e política 309
Parte 1: A guerra como continuação da política por outros meios 310
Parte 2: Guerra absoluta e guerra total 330
Parte 3: Guerra e revolução 350
Parte 4: Prognósticos e resultados 360
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Capítulo 6: Estratégia militar e objetivos políticos 373


Parte 1: Mao Tsé-Tung e a Guerra Popular Prolongada 374
Parte 2: A extensão da Guerra Popular Prolongada 392
Parte 3: O bloqueio ao objetivo do comunismo 400
Parte 4: Che Guevara: a tática guerrilheira como estratégia 410
Parte 5: A abstração da estratégia militar 426

Capítulo 7: Grande estratégia e revolução permanente 435


Parte 1: Duas espécies de política 438
Parte 2: Dinâmica e equilíbrio na nova época 448
Parte 3: A norma e o fato no pensamento estratégico 459
Parte 4: O objetivo político e a estratégia 471
Parte 5: Teoria e grande estratégia 487

Capítulo 8: Guerra Fria e grande estratégia 499


Parte 1: A grande estratégia dos Estados: “contenção” e “coexistência pacífica” 500
Parte 2: Os centros de gravidade e a “cidadela sitiada” 509
Parte 3: As partes e o todo segundo o tipo de guerra 516
Parte 4: A “distensão”: luta de classes e conflito interestatal 524

Capítulo 9: A álgebra da revolução permanente: obstáculos e estratégia 535


Parte 1: Ação e reação: a “ampliação” do Estado 536
Parte 2: Cenários estratégicos de uma nova etapa 547
Parte 3: Contornos da revolução permanente na atualidade 559

A modo de epílogo 581

Bibliografia consultada 587


Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

A cem anos da Revolução Russa, dedicamos este livro ao Partido


Bolchevique, o mais revolucionário da história da humanidade,
que forjou a III Internacional e fez de seus quatro primeiros congressos
uma escola de tática e estratégia.
AGRADECIMENTOS
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Este livro não é um estudo meramente acadêmico, mas fundamen-


talmente uma obra de elaboração coletiva e militante. Desenvolve muitas
das reflexões e debates que tiveram lugar em dois seminários interna-
cionais realizados no início de 2011 e de 2012, com a participação de
mais de 200 integrantes da corrente marxista nacional e internacional a
que pertencem os autores. O primeiro esteve centrado na obra de Carl
von Clausewitz, Da guerra. O segundo enfocou a concepção de estraté-
gia elaborada pelo marxismo da III Internacional durante seus primei-
ros quatro congressos e, em particular, as elaborações de Leon Trótski
sobre o tema.
Por outro lado, a amplitude de temas abordados na presente obra
teria sido impossível sem o trabalho prévio de elaboração e investigação
de uma grande quantidade de estudiosos e pesquisadores militantes, reu-
nidos nos 29 números da revista Estrategia Internacional, nas mais de 40
edições da revista Ideas de Izquierda, e nas dezenas de livros publicados
pelo Centro de Investigaciones y Publicaciones León Trotsky (CEIP), e
o Instituto del Pensamiento Socialista (IPS). De fato, Estratégia socialista e
arte militar faz parte de uma coleção mais ampla, “Estratégia e questões
militares”, na qual foi publicado Trotsky y el arte de la insurrección, de H. W.
Nelson, e que continuará futuramente com outros títulos.
Por último, o presente livro tampouco teria sido possível sem as críti-
cas, observações e debates que nos colocaram muitos companheiros e com-
panheiras. A eles queremos agradecer muito especialmente, assim como à
equipe do IPS-CEIP pelo cuidado da presente edição. Evidentemente, o
resultado final é de exclusiva responsabilidade dos autores.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Pouco mais de um ano e meio após sua primeira publicação em caste-


lhano, temos a oportunidade de apresentar, graças ao trabalho das Edições
Iskra, a edição em português de Estratégia socialista e arte militar. Se, naquele
momento, falávamos da imperiosa atualidade da reflexão estratégica, sua
importância não fez outra coisa senão aumentar.
Carl von Clausewitz afirmava, com razão, que:

“O primeiro ato do juízo, o mais importante e decisivo que pratica um


estadista e general em chefe, é conhecer a guerra que empreende […], é
o fato de não a confundir ou querer fazer dela algo que não seja possível
dada a natureza das circunstâncias”.1

Algo muito similar ocorre quando falamos de estratégia revolucioná-


ria. O que têm a nos dizer, desse ponto de vista, os fenômenos políticos
e da luta de classes mais recentes? Que tipo de luta é colocada pelo cená-
rio atual?

Revolta e revolução no século XXI


Desde o estouro da crise capitalista de 2008, ocorreram dois grandes
ciclos da luta de classes em nível internacional. No primeiro, vimos no
“Ocidente” revoltas essencialmente pacíficas, como a dos “indignados”
do 15M espanhol. Seguiram-se movimentos como o da Praça Taksim, na
Turquia, ou o massivo Junho de 2013 no Brasil. Em situações de crise
maior, como na Grécia em 2010, tiveram lugar processos de lutas de
classes mais agudos, que foram desviados; enquanto nos cenários mais
“orientais” da “Primavera Árabe”, que enfrentaram ditaduras, os proces-
sos adquiriram uma forma muito mais violenta.
Atualmente atravessamos um segundo ciclo. Seu sinal de largada foi
dado pela irrupção dos Coletes Amarelos na França no final de 2018.

1  Carl von Clausewitz, De la Guerra, Buenos Aires, Círculo Militar, 1969.


12 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Diferentemente dos “indignados”, partiram de um nível de luta de classes


superior e mais violenta, com uma repressão que há muito tempo não se
via nas democracias imperialistas do “Ocidente”. Esse ciclo vem se expres-
sando com características particulares em diferentes pontos do globo,
como no Chile, Estado Espanhol, na Argélia, no Sudão, Haiti, em Hong
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Kong, entre muitos outros países.


O pano de fundo desses processos não é, em geral, de grandes catástro-
fes (guerras ou crash econômico), como sucedeu, por exemplo, na primei-
ra metade do século XX, mas sim uma crise rasteira do capitalismo que,
desde 2008, passou por diferentes momentos. Essa crise de caráter históri-
co ameaçou, inicialmente, dar lugar a um cenário catastrófico como o dos
anos de 1930 do século passado, o qual só pôde ser evitado graças a uma
intervenção estatal massiva para salvar os grandes bancos e corporações,
à custa das condições de vida das massas. Essa evolução veio a acentuar
um cenário de décadas de ofensiva imperialista e saltos na internaciona-
lização do capital – a chamada “globalização” – através de um processo
de desenvolvimento desigual e combinado que foi deixando uma minoria de
“ganhadores”, e uma grande maioria de “perdedores”.
Entre os últimos, há dois setores diferentes que protagonizam o ciclo
atual da luta de classes. Um que poderíamos chamar, por falta de uma
denominação mais ilustrativa, de “perdedores relativos” da globalização,
aqueles que de alguma maneira alcançaram algum avanço (ainda que não
seja mais do que sair da pobreza) e viram suas expectativas de progresso
frustradas pela crise. O outro grande setor, seguindo os termos anteriores,
poderíamos denominar como os “perdedores absolutos” da globalização.
Setores empobrecidos, precarizados, quando não desempregados, especial-
mente da classe trabalhadora, em grande parte jovens, que ficaram virtual-
mente por fora do “pacto social” neoliberal.
Ambos os setores formam a argamassa que dá corpo aos protestos
atuais, sendo a irrupção dos “perdedores absolutos” o que lhes confere
um caráter mais violento e explosivo. No entanto, esse segundo ciclo com-
partilha com o primeiro, enquanto característica fundamental, a prima-
zia da dinâmica de revoltas. Estas se compõem de ações espontâneas que
liberam as energias das massas e podem ter níveis importantes de violên-
cia, porém, ao contrário das revoluções, não adotam como objetivo subs-
tituir a ordem existente, e sim pressioná-la para obter algo. Não há um
muro entre revolta e revolução. As revoltas contêm em si a possibilidade
de superação desse estágio de ações de resistência ou atos de pressão extre-
ma. Podem ser momentos de um mesmo processo, que abra ou não uma
revolução. Depende de seu desenvolvimento.
A ausência de hegemonia operária é determinante para que o movi-
mento se expresse de forma cidadã, apesar de muitos de seus protago-
nistas serem parte da classe trabalhadora. Prima a heterogeneidade
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 13

dos movimentos, entre os perdedores “absolutos” e “relativos”. Nela se


baseiam a burguesia, o Estado e os meios de comunicação, para dividir e
tentar canalizar os protestos. A questão estratégica é como fazer com que
essas explosões de ódio e luta de classes que se expressam nas revoltas
não terminem esgotando-se em si mesmas, a partir de reformas cosméti-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

cas que não mudam nada substancial, ou sendo canalizadas para o interior
dos regimes instituídos através de alguma variante política burguesa (seja
pela direita ou pela esquerda), ou possibilitando contragolpes e/ou saídas
bonapartistas, como de fato ocorreu no primeiro ciclo pós-2008; mas que,
ao contrário disso, possam desprender sua potencialidade e chegar a abrir
o caminho da revolta à revolução.

Populismo, esquerda e luta de classes


Com o auge de formações políticas como Syriza e Podemos na Europa,
e o desenvolvimento dos “populismos” latino-americanos, foram adquirin-
do popularidade teorias como as de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Em
seu recente livro Por un populismo de izquierda, Mouffe insiste em que é urgen-
te para a esquerda atual compreender o desafio do “movimento populis-
ta” diante da crise da formação hegemônica neoliberal. Perante os avanços
do “populismo de direita”, seria necessário desenvolver um “populismo
de esquerda” que seja capaz de disputar com êxito aquela hegemonia2. No
entanto, não existe uma indagação crítica sobre os resultados desses fenô-
menos surgidos do desvio do ciclo anterior da luta de classes; sobre como
a coalizão Syriza, depois de anos de ajuste contra as maiorias, terminou
dando lugar ao retorno da direita tradicional da Nova Democracia; ou
sobre como o Podemos passou com mais dor que louvor pelos “ayuntamien-
tos del cambio”3, se posiciona contrário à luta nacional catalã, e está empe-
nhado em mendigar uma aliança governamental com o PSOE.
Diante de teorias como as de Mouffe e Laclau, para as quais o proble-
ma da hegemonia se situa no terreno da articulação discursiva, por fora
das bases econômicas da sociedade capitalista e das classes sociais, em

2  Chantal Mouffe, Por un populismo de izquierda, Siglo XXI Editores, Buenos Aires,
2018. Para uma crítica, ver: Claudia Cinatti, “Chantal Mouffe y el populismo de lo po-
sible” em Ideas de Izquierda, disponível em 5/9/2019 em https://www.laizquierdadiario.
com/Chantal-Mouffe-y-el-populismo-de-lo-posible#nh7.
3  Os chamados “ayuntamientos del cambio” são municípios nos quais o Podemos e
suas coligações chegaram a conquistar prefeituras municipais nas eleições de 2015, tais
como Madrid, Zaragoza, La Coruña, Ferrol, Cádiz, Valência e Santiago de Compos-
tela. As eleições de 2019 trouxeram reveses, com o retorno da direita do Partido So-
cialista (PSOE) em quase todos eles, com exceção de Cádiz e Valência (mas à custa de
pactuar com o PSOE nesses locais). (Nota da Edição Brasileira – N.E.B.).
14 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Estratégia socialista e arte militar desenvolvemos um enfoque oposto. Partimos


das relações de força materiais que atravessam a sociedade capitalista e
abordamos a articulação de volumes de força para a luta de classes em
busca de uma hegemonia que transcenda os espaços estreitos deixados
pela burguesia. Nesse sentido é que revisitamos os principais debates estra-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

tégicos do marxismo do século XX e realizamos uma apropriação crítica


dos clássicos da estratégia, como Carl von Clausewitz, entre outros.
Na América Latina, essa discussão estratégica se faz mais aguda na atu-
alidade. Tanto pelo renovado desenvolvimento da luta de classes que atra-
vessa a região, como pela anterior chegada do “populismo de direita”, pela
via de Jair Bolsonaro no Brasil. Ambos os elementos tornam fundamental
extrair as conclusões deixadas pelo ciclo anterior e aquelas colocadas pelos
novos fenômenos da luta de classes do ciclo atual. Tais processos são indis-
sociáveis das tendências àquilo que Gramsci chamou de “crises orgânicas”
– elementos desse tipo de crise atravessam múltiplos países do mundo.
No caso do Brasil, seu detonador foi a enorme irrupção de massas das
jornadas de Junho de 2013. Mas como se chegou daquelas jornadas até a
ascensão de Bolsonaro? Esta pergunta é chave não só para o passado, mas
também para o futuro. Explicá-lo apenas pelo golpe institucional e pela pros-
crição de Lula seria insuficiente. Marilena Chauí ensaiou uma resposta: “eu
disse em 2013 que isso ia acontecer”4. Segundo a intelectual petista, a chega-
da da extrema-direita ao governo seria uma consequência de Junho. Porém,
o certo é que o PT governou durante anos em benefício do capital, assimi-
lando seus métodos, e diante da crise atacou o povo trabalhador, nomean-
do o neoliberal Joaquim Levy como ministro da Fazenda para encabeçar
os ajustes. Dessa forma, contribuiu para a desmoralização da sua própria
base social e abriu caminho à direita, que levantou suas próprias bandeiras
“hegemônicas” com a Lava Jato e mobilizou as classes médias (com seus
setores mais acomodados à cabeça) para dar o golpe institucional.
O populismo de direita de Bolsonaro é justamente a tentativa de canali-
zar, mediante um discurso pretensamente “antirregime”, a crise de hegemo-
nia burguesa para acentuar os traços bonapartistas do regime e redobrar a
ofensiva sobre o povo trabalhador. Diante disso, não seria a esquerda anti-
capitalista e socialista, justamente, quem melhor deveria expressar uma
alternativa verdadeiramente antirregime, no sentido mais amplo do termo,
ou seja, revolucionário? No entanto, enquanto uma parte dela (PSTU)
ficou posicionada no campo do golpismo institucional, o principal partido

4  “Pós-eleições: construindo a resistência | Vladimir Safatle, Marilena Chaui, An-


dré Singer e Ruy Braga”, disponível em 5/9/2019 em https://www.youtube.com/watch?
v=ux4rh0cHL7g&feature=youtu.be.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 15

da esquerda (PSOL) se manteve orbitando em torno do PT, sem ser uma


verdadeira alternativa.
Dá a impressão de que a esquerda está condenada a ser parte do “ecos-
sistema” de regimes burgueses em crise, através de “frentes antidireita”,
“antineoliberais”, ou indo, uma e outra vez, atrás de algum dos campos em
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

que se dividem os capitalistas.


Mas isso não é verdade. De fato, a Frente de Esquerda na Argentina,
que vem há 8 anos sendo um polo de independência de classe, anticapita-
lista e socialista, expressa um modesto exemplo em contrário5. Pois bem,
por onde passa a alternativa estratégica para o desenvolvimento da esquer-
da revolucionária hoje?
O novo ciclo da luta de classes que está se desenvolvendo coloca toda
uma série de elementos fundamentais que contribuem a responder a essa
pergunta. Neste novo prefácio, com a rebelião no Chile em curso, nos con-
centraremos no processo que marcou o início do novo ciclo em nível inter-
nacional, a rebelião dos Gilets Jaunes [Coletes Amarelos], para ilustrar, a
partir dos debates que desenvolvemos no presente livro, as encruzilhadas
da esquerda revolucionária na atualidade.

O lado “oriental” das democracias “ocidentais”


Nas páginas de Estratégia socialista e arte militar abordamos os desenvol-
vimentos táticos e estratégicos da III Internacional, particularmente em
torno das elaborações de Antonio Gramsci e Leon Trótski, para dar conta
da maior complexidade da revolução nos países com estruturas sociopo-
líticas “ocidentais”. A metáfora geográfica Oriente-Ocidente foi utilizada
naqueles debates para dar conta da maior solidez das democracias capita-
listas, com suas “trincheiras” e “fortificações permanentes”, que permeiam
a “sociedade civil”, diferentemente das estruturas sociopolíticas “orientais”,
em que essas mediações são mais fracas ou diretamente inexistentes.
Vista desse ângulo, a irrupção dos Gilets Jaunes em fins de 2018, nada
menos do que numa das principais democracias “ocidentais” que existem
na atualidade, pegou de surpresa o conjunto do regime francês. As ima-
gens de coletes amarelos no Arco do Triunfo rodeados de nuvens bran-
cas de gás lacrimogêneo percorreram o mundo. Dezenas de jornadas de
piquetes e mobilizações, e como resposta um nível de repressão que não se
via há muito tempo no interior das democracias imperialistas, com muito
mais detenções do que em maio de 1968, com feridos que se contaram

5  A propósito do desenvolvimento da Frente de Izquierda y los Trabajadores


– Unidad (FIT-U), ver: “Apuntes sobre la consolidación del FIT-U, una novedad
histórica”, disponível em 5/9/2019 em https://www.laizquierdadiario.com/Apuntes-
sobre-la-consolidacion-del-FIT-U-una-novedad-en-la-historia-argentina.
16 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

aos milhares, dezenas de mutilados, casos de morte, devido aos operati-


vos repressivos.
Diferentemente de importantes conflitos anteriores, como a luta pela
previdência em 2010, que contou com mobilizações de mais de um milhão
de pessoas, ou a batalha contra a reforma trabalhista de 2017, com parali-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

sações nacionais pouco efetivas e sem continuidade, a rebelião dos Gilets


Jaunes conseguiu fazer o governo de Macron retroceder parcialmente, mos-
trando a potencialidade do movimento. Deixou em evidência um ponto de
falha da dominação capitalista em uma estrutura sociopolítica tipicamente
“ocidental” como é a V República francesa.
A novidade, como aponta Juan Chingo em seu recente livro sobre os
Gilets Jaunes, é o desenvolvimento de elementos “orientais” no interior das
estruturas sociopolíticas “ocidentais”. Trata-se da contraface de décadas de
ofensiva capitalista neoliberal que alcançaram um enorme avanço sobre
as condições de vida da classe trabalhadora e o progressivo desmantela-
mento do chamado Estado de bem-estar social, que havia sido funcional
em tempos de “guerra fria”. Numerosos autores dão conta, à sua manei-
ra, desse fenômeno, como o controvertido geógrafo Christophe Guilluy
quando fala do “naufrágio da hegemonia cultural das classes dominantes
e superiores”6.
Configura-se, assim, um enfraquecimento daquelas “trincheiras” típi-
cas do Ocidente, desde o próprio sufrágio universal, passando pelos parti-
dos de massas e os sindicatos, até as variadas “instituições intermediárias”,
além da escola ou do tecido associativo, mediante as quais se sustentava
a influência da classe dominante para além do aparato de coerção.7 Esse
fenômeno ficou exposto abertamente durante a rebelião dos Gilets Jaunes.
Os grandes protagonistas do heterogêneo e explosivo movimen-
to foram aqueles setores localizados do lado “oriental” da fratura polí-
tico-social, em grande parte provenientes das regiões periurbanas: toda
uma fração da classe trabalhadora, de seus setores baixos e precarizados,
empregados tanto no setor público quanto no privado – especialmente em
estabelecimentos pequenos –, assim como aposentados, desempregados,
junto a uma parte minoritária da pequena burguesia e das classes médias
(artesãos, profissionais liberais ou trabalhadores “por conta própria”). Isso
explica em grande medida as formas adotadas pelo movimento.

6  Christophe Guilluy, No Society. El fin de la clase media occidental, Taurus, Madrid,


2019, p. 162.
7  Ver Juan Chingo, Gilets Jaunes. Le soulèvement, Communard.e.s, Paris, 2019, p.
94 et seq.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 17

Do protesto à luta e à auto-organização


Tratou-se de uma rebelião daquelas camadas mais invisibilizadas da
sociedade francesa. Surgidos por fora dos sindicatos, os Gilets Jaunes viam
a si mesmos como “cidadãos”, “povo”, “franceses”, ainda que majoritaria-
mente fossem trabalhadores(as). Quanto a seus métodos, estiveram centra-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

dos em afetar a circulação e o consumo – não a produção. A perspectiva da


greve geral não esteve presente como parte do horizonte do movimento.
Se, por um lado, isso representou um limite claro do movimento, deter-
-se unicamente nesse ponto seria um grande erro. Na polêmica sobre a
estratégia de desgaste e a estratégia de abatimento, que abordamos neste
livro, Rosa Luxemburgo critica Kautsky pela ideia de que nas democra-
cias “ocidentais”, ao contrário do Oriente, as greves e manifestações “sem
risco” (como complemento à participação eleitoral), às quais denomina
como ações “de protesto”, são a única opção para os trabalhadores na hora
de sair para a luta. Frente a elas, Luxemburgo destaca as ações “de luta”
ou combativas, que expressam elementos de autoatividade e/ou auto-orga-
nização da classe trabalhadora.
Desse ângulo, a rebelião dos Gilets Jaunes ganha outra significação. Suas
ações foram muito além das manifestações sindicais rotineiras. Por fora das
vias instituídas para a canalização do “protesto social”, as mobilizações “não
autorizadas” (ilegais), a multiplicidade de piquetes e acampamentos, e os
enfrentamentos com as forças repressivas que tentavam impedir as ações,
deram ao movimento sua fisionomia distintiva e seu aspecto antirregime.
O que se expressava também como novidade na tendência à união entre o
social e o político, cuja principal reivindicação era a renúncia de Macron.
Sem dúvida, uma das características mais significativas dos Gilets Jaunes
foi o desenvolvimento de elementos de auto-organização. As “Assembleias
das Assembleias” de Commercy e Saint-Nazaire foram os pontos mais
avançados de auto-organização. Com delegados com mandato e votações
majoritárias, foram muito além do alcançado por movimentos recentes
como o Nuit Debout8; apesar de que não chegaram a constituir uma orga-
nização mais estável e hegemônica. Mesmo embrionários, tais elementos
são muito auspiciosos e significativos se levarmos em conta que nas gran-
des ações históricas do movimento operário francês, tanto em 1936 como
em 1968, estes não se desenvolveram fortemente, graças ao papel dos apa-
ratos reformistas, em especial o Partido Comunista Francês (PCF).
O caráter heterogêneo do movimento, por sua vez, não impediu que
tomassem em suas mãos, junto com a anulação do imposto ao combustí-
vel decretado por Macron, demandas sentidas pelo movimento operário

8  Ver Stathis Kouvelakis, “The french insurgency”, New Left Review n. 116/117,
mar-jun 2019.
18 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

que as direções oficiais dos sindicatos deixaram de lado, começando pelo


aumento do salário mínimo (SMIC) e das aposentadorias, mas também o
restabelecimento do imposto às fortunas (ISF) e elementos difusos de um
programa democrático, como a reivindicação de “diminuição significati-
va” de salários e privilégios dos políticos eleitos e altos funcionários, ou
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

de dar ao povo o direito de pedir referendos sobre todas as leis aprovadas


pelo parlamento, etc.9
Pois bem, apesar de todos esses elementos que fazem do movimento
– com seu caráter social e politicamente contraditório – o principal fenô-
meno da luta de classes em um país central do último período, e do apoio
massivo que ele teve – especialmente em seu início, e persistente entre ope-
rários e funcionários públicos –, o regime conseguiu manter virtualmente
isolada a sublevação dos Gilets Jaunes do restante da classe trabalhadora e
dos setores populares. Diante da impossibilidade de derrotá-lo, a ação do
governo, fundamentalmente repressiva, e da burocracia, mantendo os sin-
dicatos à margem, buscou condená-lo ao desgaste.

O “Estado ampliado” e a fratura da classe trabalhadora


Como analisamos no capítulo 9 deste livro, a etapa de “Restauração
burguesa”, a partir da década de 1980, modificou em grande medida o
cenário que marcou boa parte do século XX. A classe trabalhadora se
estendeu como nunca antes na história, porém se tornou muito mais hete-
rogênea e sofreu um amplo processo de fragmentação. A rebelião dos
Gilets Jaunes trouxe à tona a profundidade dessa fragmentação, tanto em
seus elementos estruturais quanto políticos e até culturais.
Em seu recente livro No Society, Guilluy expõe à sua maneira um mapa
dos setores populares marcado pela expulsão de boa parte da classe traba-
lhadora dos grandes centros urbanos para a periferia, pela “polarização do
emprego com a proliferação do trabalho precário, pelo desmantelamento
dos serviços públicos para as grandes maiorias, entre outros aspectos”.10
Não é o único a fazê-lo, e independentemente das intenções polêmicas
do autor, o certo é que toda essa série de elementos estruturais forjados
durante décadas de ofensiva neoliberal se converteram em fatores atuan-
tes da luta de classes.
Não é difícil rastreá-los na base do fenômeno dos Gilets Jaunes. O aumen-
to decretado por Macron do óleo diesel (utilizado por 60% da população)

9  “Communiqué de presse ‘Serment du Jeu de Paume’, de Gilets Jaunes aux


journalistes et au président de la République”, disponível em 4/9/2019 em: http://
chouard.org/blog/2018/12/13/communique-de-presse-serment-du-jeu-de-paume-de-
gilets-jaunes-aux-journalistes-et-au-president-de-la-republique/.
10  Ver Christophe Guilluy, op. cit.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 19

se combinou com a “desertificação” dos serviços públicos, onde a destrui-


ção do sistema ferroviário (em benefício do trem de alta velocidade inte-
rurbano) faz com que grande parte dos assalariados e setores populares
expulsos das grandes cidades se vejam forçados a percorrer grandes dis-
tâncias de carro para chegar ao trabalho, para fazer um trâmite burocráti-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

co ou legal, e mesmo para recorrer a atenção médica.


Por outro lado, nas páginas deste livro, retomamos o conceito de
“Estado ampliado” a partir da fórmula de Gramsci do Estado “em sua
significação integral: ditadura + hegemonia”, e analisamos como a bur-
guesia no século XX foi muito além da “espera passiva” pelo consenso, e
desenvolveu toda uma série de mecanismos para organizá-lo. A estatiza-
ção das organizações de massas e o desenvolvimento da burocracia no seu
interior constituem um dos elementos fundamentais dessa equação, com
sua dupla função de “integração” ao Estado e de fragmentação da classe
trabalhadora.
Com o retrocesso e o salto na estatização dos sindicatos nas últimas
décadas, limitados à organização de uma parcela cada vez mais reduzida
da classe trabalhadora, passou ao primeiro plano a função das burocracias
sindicais como garantidoras da fratura de classe. Na prova de forças que
a rebelião dos Gilets Jaunes significou para o regime da V República, este
fator foi decisivo. Não somente as burocracias amarelas como a da CFDT,
mas em especial a direção supostamente “combativa” da CGT cuidou de
distanciar os setores sindicalizados – que ocupam as “posições estratégi-
cas”11 – do movimento dos Coletes Amarelos. Com uma atitude de hosti-
lidade mal disfarçada, chamou constantemente à “calma” e ao “diálogo”
com o governo, buscando reconduzir a luta de classes aos trilhos institucio-
nais “normais” enquanto avançava a repressão sobre o movimento.
À fragmentação estrutural e ao papel da burocracia, agrega-se outro
elemento, que poderíamos chamar de cultural, marcado pela invisibiliza-
ção de diversos setores da classe trabalhadora e o desprezo cada vez mais
marcante da grande burguesia em relação a eles – encarnado na França
pelo próprio Macron – e que os meios de comunicação de massas se esfor-
çam para estabelecer como “senso comum”. Uma barreira que foi ampla-
mente utilizada contra os Gilets Jaunes, mas que pode ser encontrada nas
mais diversas geografias. Como ilustra Owen Jones, em sua análise sobre
a estigmatização da juventude trabalhadora britânica: “‘Agora somos de
classe média’, reza o mantra generalizado, todos exceto uns poucos irres-
ponsáveis e recalcitrantes resíduos da velha classe operária”12.

11  Para um desenvolvimento do conceito de “posição estratégica”, ver capítulo 1


do presente livro.
12  Owen Jones, Chavs: The Demonization of the Working Class, Verso, Londres, 2016.
20 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Uma articulação estratégica de forças materiais


Diante desse panorama de fragmentação, para as diferentes aborda-
gens do populismo, de Guilluy a Mouffe, a articulação política se coloca
em termos de espaços político-eleitorais “populistas” (em suas diferen-
tes variantes); ou seja, naturalizando as formas de “organizar o consen-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

so” próprias do “Estado ampliado”. Contudo, os Gilets Jaunes mostraram


elementos de uma articulação alternativa: em Commercy e Saint-Nazaire
retomaram o caminho da auto-organização que, como tentamos demons-
trar neste livro, deverá ser necessariamente aprofundado por qualquer
estratégia que se proponha a superar a fratura atual da classe trabalhado-
ra em sentido revolucionário.
Se essa é a primeira conclusão do processo, a segunda é que aquela
tendência à auto-organização conta com importantes forças contrárias, as
quais, como dizíamos, vão desde o estrutural até o cultural, passando pela
própria burocracia das organizações de massas. Pois bem, diante dessa
equação, qual foi o posicionamento da extrême gauche francesa?
A Lutte Ouvrière (LO) se manteve à margem do movimento.13 A cor-
rente dirigente do Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA) teve um discur-
so diferente, com seu principal porta-voz, Olivier Besancenot, apoiando
o movimento e defendendo a necessidade de uma greve geral para der-
rotar Macron. No entanto, como ele mesmo assinala, a “defasagem entre
a perspectiva política e a combatividade das mobilizações nos obriga a
refletir […] o desencontro entre a esquerda radical e o movimento inédito
dos Coletes Amarelos é, em grande parte, revelador dessa situação. Nossa
incapacidade para intervir de maneira leal, porém com convicção, unidos
e com firmeza no seio desse movimento, é um fracasso que não podemos
nos dar ao luxo de reproduzir”14.
A discussão estratégica é justamente por onde passa a superação daque-
la defasagem: se se trata de articular algum tipo de argamassa de lide-
ranças parlamentares e burocratas sindicais supostamente “combativos”,
porém opostos ao movimento dos Gilets Jaunes, que só poderia ser útil para
colocar de pé uma espécie de Podemos francês; ou então de articular uma

13  Expressão disso foi a colocação de Nathalie Arthaud, que afirmou durante
a campanha pelas eleições europeias “nunca serei Gilet Jaune, sou comunista
revolucionária”, (“Nathalie Arthaud à dijon: ‘Politiquement, les perspectives des
Gilets Jaunes sont trop limitées”, disponível em 4/9/2019 em http://www.infos-dijon.
com/news/cote-d-or/cote-d-or/nathalie-arthaud-a-dijon-politiquement-les-perspectives-
des-gilets-jaunes-sont-trop-limitees.html ).
14  Entrevista a Olivier Besancenot, “¿Podríamos olvidarnos de las elecciones por
un momento?”, disponível em 5/9/2019 em https://vientosur.info/spip.php?article14919.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 21

força material capaz de superar a fragmentação da classe trabalhadora e


ter uma política hegemônica.15
Desse segundo ponto de vista, o que os Gilets Jaunes puseram em evi-
dência é a defasagem entre a extrema esquerda e o desenvolvimento de
correntes próprias nos sindicatos, no movimento estudantil e nas orga-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

nizações de massas, capazes de articular volumes de força para comba-


ter com êxito as burocracias e romper as fronteiras que mantêm cindida
a própria classe trabalhadora e seus aliados. E, nesse sentido, os Coletes
Amarelos mostraram cruamente o fracasso tanto de toda orientação sin-
dicalista, quanto da estratégia de construir “partidos amplos”, sem progra-
ma nem estratégia revolucionários, para participar superficialmente “nos
movimentos” tais como são.

A luta pela hegemonia para além do “Estado ampliado”


Na atualidade, as bases sociais e políticas dos regimes burgueses são
cada vez mais estreitas. No entanto, como desenvolvemos no livro, reto-
mando aspectos da crítica elaborada por Fabio Frosini a Laclau, isso não
significa que existam momentos de “vazio” de hegemonia, como parece
sugerir esse último.
As eleições europeias posteriores ao terremoto dos Gilets Jaunes foram
uma mostra disso. Impôs-se uma polarização fraca – no quadro de uma
importante abstenção – entre a extrema-direita de Le Pen e a “nova direi-
ta” de Macron. Por sua parte, o retrocesso da esquerda reformista de La
France Insoumise (LFI) de Mélenchon, que combinou uma atitude dema-
gógica diante do movimento com apelos a um “soberanismo de esquer-
da” e o flerte com os temas da direita, mostrou a impotência da aposta
“populista de esquerda” recomendada por Mouffe. Nesse cenário, o
Rassemblement National (RN) de Le Pen terminou capitalizando parcial-
mente a situação, ao ser a expressão do “voto útil” contra Macron.
Quando afirmamos que Commercy e Saint-Nazaire insinuaram
um caminho alternativo à articulação em termos de espaços puramen-
te político-eleitorais, também o colocamos nesse sentido. Um desenvol-
vimento qualitativamente maior das tendências à auto-organização, com

15  Um “polo” nesse sentido, de caráter simbólico diante da envergadura do mo-


vimento, poderia ser encontrado na confluência embrionária que se mostrou no “polo
de Saint-Lazare”, onde se organizaram os combativos ferroviários da Intergares, cole-
tivos antirrepressivos e antirracistas como o Comitê por verdade e justiça para Adama
Traoré, e setores da esquerda do NPA (como a Courant Communiste Révolutionnaire
– CCR) para confluir com a rebelião dos Gilets Jaunes. Fica colocada a questão de que
influência poderia ter tido, caso toda a extrema-esquerda francesa adotasse uma orien-
tação decidida nesta direção.
22 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

organismos mais estáveis e hegemônicos, do tipo das coordenadoras ou


assembleias de delegados, capazes de unificar os setores em luta e incorpo-
rar a outros, teria possibilitado uma experiência política muito mais ampla
ao movimento. Em primeiro lugar, ante o lepenismo que defendeu a ação
da polícia e as penas de prisão para os Coletes Amarelos condenados, ou
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

em relação às próprias demandas do movimento, como o aumento do salá-


rio mínimo e das aposentadorias, etc. Os organismos de auto-organização
são decisivos para que os setores mais avançados do movimento possam
influir sobre os mais atrasados, assim como contrabalançar a ação da direi-
ta que, precisamente, se aproveita para a sua política das brechas abertas
pela fragmentação na própria classe trabalhadora e em seus aliados.
Essas conclusões não correspondem somente a um balanço, mas apon-
tam para questões fundamentais tanto para o futuro do movimento na
França, como para abordar o ciclo atual da luta de classes que se desenvol-
ve em diferentes latitudes.
Perante a pergunta sobre como harmonizar diferentes reivindicações e
formas de luta dos trabalhadores da cidade e do campo, dos desemprega-
dos, das mulheres trabalhadoras, camponeses arruinados, e dos “milhões
de necessitados e ignorados pelas organizações reformistas” quando se
põem em marcha os grandes processos da luta de classes, Trótski defendia
no Programa de Transição: “A história já respondeu a essa pergunta: por meio
dos sovietes. Os sovietes unificarão os representantes dos distintos setores
em luta. Ninguém propôs outra forma de organização distinta para alcan-
çar esses fins, e parece impossível inventar outra melhor”16. Daí que para o
fundador do Exército Vermelho não possa existir nenhum programa revo-
lucionário sem a palavra de ordem de “sovietes” ou conselhos17.
Diante do cenário de fragmentação produzido por décadas de ofen-
siva capitalista: ou a perspectiva de desenvolver organismos de auto-or-
ganização (Conselhos) é uma hipótese estratégica que guia a construção
de correntes revolucionárias nas organizações de massas (para lutar por
eles contra as burocracias e todos os obstáculos que se opõem a eles);
ou a esquerda estará condenada, pela via da rotina sindical, eleitoral e
dos “movimentos sociais”, a ser parte do “ecossistema” político-social de
regimes capitalistas em decadência, e, no melhor dos casos, ser um com-
ponente a mais de alguma articulação “populista de esquerda” ou neorre-
formista, pavimentando assim o caminho do “populismo de direita”.
Clausewitz dizia que:

16  León Trotsky, El programa de transición y la fundación de la IV Internacional, Buenos


Aires, Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2017
17  Ver, León Trotsky, “A 90 años del Manifiesto Comunista”, em El programa de
transición y la fundación de la IV Internacional, op. cit.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 23

Quaisquer que sejam seus diversos aspectos, por distante que pareça da
crua explosão de ódio e animosidade do pugilismo, ainda que mil cir-
cunstâncias que não são propriamente luta o penetrem, permanece sem-
pre no conceito da guerra que todas as ações que nela aparecem têm sua
origem na luta.18
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Algo similar ocorre com a construção de um partido revolucionário em


relação à luta de classes.
Só um partido que se proponha intervir em todos os âmbitos, sejam
sindicatos, movimento estudantil, de mulheres, nas eleições, nos parla-
mentos, ou onde quer que seja com o norte daquela perspectiva “sovi-
ética” poderá se propor realmente, diante de processos de radicalização
de massas, a articular as forças materiais capazes de unificar a maioria
da classe trabalhadora e lutar por uma nova hegemonia sob um progra-
ma socialista revolucionário. O contrário, parafraseando Clausewitz, seria
tomar o tipo de luta em que estamos empenhados, como algo diferente do
que realmente é.

Qual partido para uma perspectiva “soviética” de auto-organização?


As conclusões que fomos desenvolvendo são pertinentes para muito
além das fronteiras francesas. No caso da América Latina, é o que vemos
claramente na rebelião que atravessa o Chile na atualidade, como expres-
são mais avançada de fenômenos da luta de classes que atravessam vários
países da região. Quanto ao Brasil, a ascensão de Bolsonaro permanece
como um chamado de atenção pela direita para a reflexão estratégica, que
se conecta diretamente com as lições do ciclo anterior. Contrariamente
à tese de Marilena Chauí, segundo a qual em junho de 2013 começou a
ascensão da direita, muitos dos debates que fomos desenvolvendo com
relação à rebelião dos Gilets Jaunes poderiam ser transladados ao Brasil
pós-2013, onde o PT, como dizíamos, terminou abrindo o caminho para a
direita a partir dos ataques ao movimento de massas.
Também naquele momento as burocracias do PT e seus satélites (a
CUT entre os trabalhadores e a UNE no movimento estudantil) puse-
ram todos os seus recursos para isolar o movimento. Em seguida, quando
entraram em cena o movimento dos sem-teto e o movimento estudantil, e o
espírito de Junho chegou ao movimento operário, produzindo importantes
“greves selvagens” – ou “de luta”, nos termos de Luxemburgo – as quais
ultrapassaram a burocracia, também ficaram isolados. Assim como apon-
távamos no caso da França, esteve ausente entre as principais organizações

18  Carl von Clausewitz, De la Guerra, op. cit, p. 68 (destaque do original).


24 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

à esquerda do PT a perspectiva de basear-se nos elementos de autoativida-


de que atravessaram a juventude e o movimento operário para desenvol-
ver tendências à coordenação e auto-organização.
Isso nos leva a uma reflexão mais geral sobre que tipo de partido é
necessário para o desenvolvimento de uma estratégia que supere os limites
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

do “Estado ampliado” e aponte a lhe opor organismos de auto-organiza-


ção de massas. Retomando as reflexões que fazemos a respeito no livro19,
podemos distinguir três grandes “modelos” de partido do ponto de vista
da relação entre classe, partido e direção: o “stalinista”, o “social-democra-
ta” e o “leninista”.
Quanto à relação entre o partido e sua direção, o modelo stalinista se
caracteriza por sua extrema centralização, uma disciplina mecânica (buro-
crática) em que os quadros e militantes não participam da elaboração da
política, compelidos a acatar a “linha oficial”, e uma direção bonapartista,
geralmente unipessoal. O “social-democrata”, por sua vez, consiste numa
organização laxa, onde as instâncias de deliberação política em que a mili-
tância se expressa são muito fracas, esporádicas, com escassa influência
real sobre a orientação cotidiana, e uma direção efetiva que recai nas “figu-
ras públicas” ou parlamentares que são as únicas com possibilidades de
chegar a um auditório de massas.
Apesar de suas diferenças, ambos os modelos têm um ponto em
comum no que diz respeito à relação entre o partido e as massas: a classe
é uma “massa de manobra” (seja no sentido eleitoral, sindical, militar,
ou plebiscitária) de uma direção ou de um “líder”. O “modelo” leninis-
ta – não o da caricatura, mas sim o que ficou plasmado na história do
Partido Bolchevique antes de sua burocratização – parte de uma aproxi-
mação oposta, a classe não é “massa de manobra”, mas sim sujeito de auto-
atividade e auto-organização. Daí que, ao contrário dos outros modelos,
assumam um papel-chave o partido e seus quadros na relação com o movi-
mento de massas.
Em seu lugar, durante a última década, parte das correntes prove-
nientes do trotskismo apresentou como “novidade” mais democrática o
modelo dos chamados “partidos amplos”, como o NPA na França ou o
PSOL no Brasil. No entanto, esse modelo se assemelha em vários sentidos
ao velho modelo “social-democrata”. Funcionam como federação de múlti-
plos grupos cujos acordos e divergências não se resolvem a partir de uma
discussão democrática cotidiana no conjunto da militância, e sua direção
efetiva recai nas “figuras” ou parlamentares.

19  Para um desenvolvimento da relação entre classe, partido e direção nos deba-
tes de estratégia, ver capítulo 1 deste livro.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 25

O problema dos “partidos amplos” é que permanecem como frentes


eleitorais em forma de partido. Daí que combinem um ecletismo progra-
mático e estratégico, com escassa democracia interna efetiva e incapacida-
de de centralização da intervenção política na luta de classes. Tudo isso
conspira contra qualquer tentativa séria de ir além da rotina sindical e elei-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

toral no interior do regime, e de estabelecer uma relação honesta com o


movimento de massas.
Já no próprio O que fazer? Lênin expressa esta concepção colocando
como elemento fundamental o desenvolvimento de uma rede de quadros
com influência política no movimento de massas através de um jornal
como “organizador coletivo”. Um modelo que, como analisamos neste
livro, esteve inspirado na social-democracia da década de 1880 e seu jornal
Sozialdemokrat20. Em 1912 – uma vez fundado o Partido Bolchevique pro-
priamente dito, e em condições de maior legalidade – esta ideia se trans-
formará na experiência do Pravda. Um “jornal político” – dizia Lênin – “é
uma das condições básicas para a participação de qualquer classe da socie-
dade moderna nos assuntos políticos do país em geral”21. Assim, o Pravda
se constituiu no órgão da vanguarda operária, com toda uma rede de cor-
respondentes, recebendo 11 mil cartas anuais, e com centenas de círculos
que arrecadavam fundos para sustentá-la.
Sem este tipo de antecedentes, seria impossível entender o papel-cha-
ve da militância bolchevique se ligando ao movimento revolucionário em
fevereiro de 1917, mesmo quando o partido ainda tinha sua direção no
exílio. Mais ainda, o giro político de abril, sob orientação de Lênin, ou a
própria conquista da maioria nos sovietes nos meses seguintes e, por fim,
o triunfo da Revolução de Outubro. No entanto, hoje, aquela concepção
“leninista” da relação entre direção, partido e movimento de massas parece
esquecida.

Por onde começar?


Como desenvolvemos neste livro, um sem-número de elementos dife-
renciam a arte militar convencional daquela referida à revolução. Um deles
é que a arte da guerra em seu sentido estrito, como assinala Clausewitz,
refere-se especificamente à disposição de forças já formadas e à direção
delas no combate. Na estratégia revolucionária, não há “meios dados”. A
construção da força para empreender os combates não é um dado a priori.
Por isso é necessário um trabalho preparatório que antecede em muito a

20  Franz Mehring, Storia della Socialdemocrazia tedesca, tomo 2.


21  V. I. Lenin, “Resultados de seis meses de trabajo”, Obras Completas, tomo XVIII,
Madrid, Akal, 1977, p. 252.
26 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

guerra civil ou o início do processo revolucionário, e que deve ser desen-


volvido nas mais variadas situações. Daí que seja fatal toda esperança pas-
siva em que a catástrofe do capitalismo, a pura espontaneidade da luta de
classes, ou a crise das mediações políticas, por si sós, substituam milagro-
samente uma preparação que corresponde ao trabalho da estratégia.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Uma frente eleitoral, por mais virtudes que tenha, não pode suprir –
como se depreende da estratégia de “partidos amplos” – a necessidade de
preparar um partido de combate, verdadeiramente democrático, de qua-
dros, que seja uma engrenagem fundamental para a luta de classes. Por
exemplo, na Argentina, a partir do Partido de los Trabajadores Socialistas
(PTS), somos parte da Frente de Izquierda y los Trabajadores – Unidad,
que é uma frente eleitoral com independência de classe e socialista que na
atualidade agrupa a grande maioria da esquerda local. Participamos do
parlamento nacional, e temos representação em várias assembleias legisla-
tivas provinciais e municipais. Também participamos nos sindicatos e nas
lutas operárias, assim como do movimento estudantil, de mulheres, etc.
No entanto, toda esta importante atividade não implica por si mesma a
preparação de um partido revolucionário. Nesse ponto, é insubstituível a
concepção de Lênin de “tribunos do povo”. Ela se refere não só à necessi-
dade dos revolucionários de ecoarem as mazelas de todos os explorados e
oprimidos da sociedade, mas também à prática de “generalizar todos esses
fatos e oferecer um quadro de conjunto”22 contra o Estado e o capitalis-
mo. A partir disso é necessário “moldar”, através de uma agitação políti-
ca, a vanguarda e setores de massas para uma perspectiva revolucionária.
Quando Lênin concluía, em O que fazer?, colocando a necessidade de
um jornal que “se difunda regularmente às dezenas de milhares de exem-
plares em toda a Rússia”, e agregava “Sonhemos com isso!”, não se trata-
va de um sonho vão. Ao contrário, inspirava-se, como dizíamos, no que a
social-democracia alemã tinha feito com a publicação do Sozialdemokrat. Ele
se referia à possibilidade de ter um meio para levar adiante aquele obje-
tivo de transformarem-se em “tribunos do povo” através de uma agita-
ção ampla e sistemática. O desenvolvimento posterior do Pravda não faria
mais do que levar esta colocação a um novo nível, chegando a setores de
massas diariamente.
O método de Lênin mantém, hoje, toda a sua vigência. As novas tecno-
logias, longe de contradizê-lo, o potencializaram até níveis que o próprio
Lênin não teria sequer imaginado. O desenvolvimento da internet, das
redes sociais e das plataformas digitais, mesmo com os obstáculos impos-
tos por seu controle capitalista e pela tirania do “algoritmo”, levantam

22  V. I. Lenin, “¿Qué hacer?”, Obras selectas, tomo 1, Buenos Aires, Ediciones IPS-
CEIP León Trotsky, 2013, p. 126.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA  | 27

novas possibilidades para a agitação política revolucionária, para a sua


massividade, seu desenvolvimento “em tempo real” e sua difusão nacional
e internacional, permitindo colocar as ideias à frente do “aparato” para o
desenvolvimento de correntes militantes que busquem manter um diálogo
político permanente com setores de massas.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Com a rede de portais La Izquierda Diario – da qual fazemos parte os


autores deste livro –, que atualmente conta com edições em 8 idiomas e
em 12 países23, estamos buscando, na medida de nossas forças, retomar
aquele método “leninista”, utilizando essas novas condições. Esse método
vem mostrando sua potencialidade para chegar a um setor de massas (e
não limitar a agitação política aos períodos eleitorais) diante de cada pro-
cesso importante, como, por exemplo, o Esquerda Diário, no Brasil, que em
meio à crise da ascensão de Bolsonaro chegou a 6,5 milhões de visitas em
um mês; ou o Révolution Permanente da França, que durante a irrupção dos
Gilets Jaunes superou 2 milhões de visitas mensais e foi uma referência para
a esquerda do movimento; ou com a rebelião chilena, onde La Izquierda
Diario do Chile chegou a 2 milhões de visitas em um mês.
Trata-se, por um lado, de ir contra a ideia – tipicamente reformista – de
reduzir a agitação política de massas a uma prática intermitente e exclusi-
vamente “por cima” durante as eleições a cada dois anos, para, em segui-
da, no caso das correntes que possuem parlamentares, limitar-se à agitação
a partir do parlamento, a qual, por si mesma, alcança somente um reduzi-
do setor politizado. Por outro lado, trata-se de superar a intervenção pura-
mente sindical ou setorial “por baixo”, separada da atividade fundamental
para toda organização revolucionária de “tribunos do povo”. E por sua
vez, de desenvolver permanentemente uma luta política contra os partidos
da burguesia diante de setores de massas, tanto em oposição às variantes
de direita quanto às de conciliação de classes (como, por exemplo, o PT
no Brasil ou o kirchnerismo na Argentina), sem a qual não há preparação
política possível.
Evidentemente, na concepção de Lênin, a agitação política sistemática
e o desenvolvimento de instrumentos como o Iskra num momento inicial,
ou o Pravda posteriormente, abrem um caminho que, necessariamente,
como desenvolve especialmente em seu folheto Um passo à frente, dois atrás24
deve ser acompanhado pelo desenvolvimento de correntes próprias nas
organizações de massas. A rebelião dos Gilets Jaunes deixou colocado jus-
tamente que sem frações nos sindicatos capazes de enfrentar a política de

23  Trata-se de uma rede de portais “de partido”; porém, abertos, nos quais se pu-
blicam contribuições de centenas de lutadores, jornalistas, intelectuais, desenvolvem-se
publicamente polêmicas no interior da esquerda, em que cada publicação tem um es-
paço livre de debate nos comentários.
24  Para uma análise sobre este aspecto na obra de Lênin, ver o capítulo 1 deste livro.
28 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

isolamento da burocracia e ir em busca dos setores menos organizados – e


em muitos casos, mais explosivos – através do impulso à auto-organização
e táticas como a Frente Única, é impossível propor-se seriamente a superar
as fissuras que atravessam a classe trabalhadora e desenvolver uma políti-
ca hegemônica.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Com efeito, na atualidade, existem em diferentes países múltiplas cor-


rentes que se reivindicam socialistas revolucionárias, que contam com
militância, quadros, intelectuais e recursos (inclusive a partir da atividade
parlamentar) que poderiam perfeitamente, com o estado atual das novas
tecnologias, propor-se a retomar aquele método “leninista” e desenvolver
publicações diárias para chegar a milhões com uma agitação revolucioná-
ria. No entanto, nenhuma parece se propor a replicar aquele gesto leninis-
ta do O que fazer? e dizer “Sonhemos com isso!”. Claro que o rotineirismo
eleitoral e sindical se opõe a gestos como este, e também ao leninismo, por
certo. O próprio fundador do Partido Bolchevique, após escrever aquelas
palavras, dizia “‘É preciso sonhar!’ Escrevi essas palavras e me assustei”
pensando no tipo de respostas que receberia dos representantes daquele
rotineirismo que busca afogar qualquer iniciativa revolucionária.
Assim como naquele momento, hoje também se trata de buscar um
caminho para contribuir para a construção de partidos revolucionários.
Sabemos que é um caminho difícil, não carente de obstáculos e derrotas,
porém, como mostrou a irrupção dos Gilets Jaunes, e que processos como o
chileno voltam a colocar sobre a mesa em nossa região, avançar nesse sen-
tido é condição fundamental para poder se ligar aos novos fenômenos da
luta de classes e desenvolver toda a sua potencialidade. Estamos convenci-
dos de que o futuro de uma esquerda revolucionária no século XXI passa-
rá necessariamente por aí.
A 30 anos da queda do muro de Berlim, um novo cenário internacional
está se delineando. A crise histórica do capitalismo que se expôs em 2008,
o retorno do nacionalismo das grandes potências e o ciclo de revoltas vio-
lentas que percorre o mundo, levantam a perspectiva de um ressurgimen-
to do movimento revolucionário, para o qual é fundamental reatualizar as
condições subjetivas, depois de décadas de ofensiva capitalista e retroces-
so do movimento operário. Sobre esse novo começo é que o presente livro
se propõe a refletir, com o olhar para o futuro, buscando extrair as conclu-
sões de um século de história do movimento revolucionário.
Para finalizar estas linhas, queríamos agradecer muito especialmente a
Edison Urbano e a toda a equipe das Edições Iskra, sem os quais a presen-
te tradução e edição de Estratégia socialista e arte militar não teria sido possível.

Buenos Aires, dezembro de 2019


CAPÍTULO I
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

“A vitória não é o fruto acabado da ‘maturidade’ do proletariado.


A vitória é uma tarefa estratégica”1. Essa sentença, escrita por Trótski
no final de sua vida e que à primeira vista pode parecer simples, encerra
talvez uma das conclusões mais transcendentes de todo o século XX para
o marxismo revolucionário. O conjunto desse livro dedica-se a desven-
dar esse “trabalho da estratégia”.
Nos próximos capítulos, abordaremos os aspectos relacionados à
ofensiva; depois, aqueles que tratam da passagem da defensiva ao ataque,
para fechar a primeira parte do livro com a análise da defesa. A segunda
parte se dedica aos desenvolvimentos que se referem à “grande estraté-
gia” ou estratégia global.
Contudo, iremos, antes, tratar de alguns dos elementos-chave do
que poderíamos chamar de, seguindo Carl von Clausewitz, “a estratégia
em geral”, uma primeira aproximação ao trabalho da estratégia entendi-
do como a articulação de volumes de força material para o combate.

A arte da direção e a arte da guerra


Um sem-número de elementos separam a arte militar convencio-
nal daquela referida à revolução, outro tanto as aproximam. Nesse cru-
zamento, está em jogo a apropriação crítica, a partir do marxismo, das
elaborações sobre estratégia de teóricos como Clausewitz. Assim o enten-
deram figuras do marxismo revolucionário do século XX como Lênin e
Trótski, entre outros. Essas particularidades marcam desde o início nosso
percurso pela “arte da guerra”. Vejamos.

A ideia estrita – diz Clausewitz – da arte da guerra será […] a arte de


servir-se na luta dos meios dados, e podermos designá-la melhor com o
nome de arte da direção. Pelo contrário, pertencem à arte da guerra, em

1  León Trotsky, “Clase, partido y dirección: ¿por qué fue derrotado el proletariado
español?”, op. cit., p. 432.
58 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

seu sentido mais amplo, todas as atividades que são úteis para a completa
formação das forças combatentes.2

Isso quer dizer que, enquanto a “arte da guerra” compreende as


tarefas preparatórias de criação, construção e manutenção das tropas
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

bem como o emprego dessas forças para a guerra, a “arte da direção” –


ou “arte da guerra” em seu sentido estrito – trata somente deste último
aspecto, ou seja, refere-se especificamente à disposição das forças já for-
madas e a direção da luta propriamente dita.
Essa diferenciação é muito mais difusa na estratégia revolucionária.
Não há “meios dados” para a arte da direção que ela mesma não tenha
sabido conquistar. A “força própria” para empreender a guerra não é um
dado a priori, como poderia ser um exército para um general; é trabalho
da estratégia organizá-la. Um trabalho que, evidentemente, não começa
às vésperas da guerra civil nem sequer com o início do processo revo-
lucionário, mas que atravessa – ou deveria fazê-lo – as mais variadas
situações. Isso se dá, em primeiro lugar, porque

o exército é uma organização coercitiva, está obrigado a combater. […]


Porém, em um exército revolucionário, a principal força motriz é sua
consciência política, seu entusiasmo revolucionário; o compromisso de
sua maioria para com a tarefa militar que enfrenta e a disposição para
resolvê-la. […] O êxito não se baseia senão sobre a vontade da maior parte
dos trabalhadores de intervir direta ou indiretamente na luta para ajudá-
la a vencer.3

Esses elementos, entre outros, fazem com que a “arte da direção”,


como a denomina Clausewitz, se sobreponha muito mais à “arte da
guerra” em seu sentido amplo, ou seja, incluindo a “formação das forças
combatentes”. Isso a torna evidentemente mais complexa e torna muito
mais amplo o seu campo de ação. Daí que começaremos por abordar um
debate estratégico que não se deu estritamente nos marcos de um proces-
so revolucionário, mas cujo resultado – que implicou a ausência de um
partido revolucionário na Alemanha – foi um fator determinante para a
derrota da revolução de 1918-19 (assim como sua existência na Rússia,
em 1917, o foi para a vitória).

2  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, Buenos Aires, Círculo Militar, 1968, p. 146.
3  Leon Trotsky. The First Five Years of the Communist International, volume II, Marxist
Internet Archive, disponível em 5/3/2017, https://www.marxists.org/archive/trotsky/1924/
ffyci-2/01b.htm.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 59

Nos referimos à primeira grande discussão em que se introduzem


explicitamente os conceitos da estratégia militar para o debate político no
marxismo: a polêmica sobre a “estratégia de desgaste” (Ermattungsstrategie)
e a “estratégia de derrubada” (Niederwerfungsstrategie)4. Essa discussão terá
lugar a partir de 1910 e se originará no coração do movimento marxis-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ta de então, a social-democracia alemã. Seus protagonistas serão Rosa


Luxemburgo, uma das mais destacadas dirigentes da ala esquerda da II
Internacional, e Karl Kautsky, a principal referência teórica do marxismo
naqueles anos, não só na Alemanha, mas mundialmente.
Iniciada como uma discussão sobre a “nova tática” da greve polí-
tica de massas, que vinha se desenvolvendo desde fins do século XIX,
deriva num debate de estratégias por iniciativa de Kautsky5. Ele será o
encarregado de introduzir os conceitos militares a partir da obra de Hans
Delbrück, um destacado historiador militar contemporâneo referenciado
na obra de Clausewitz. As derivações desse debate irão muito além da
Alemanha. O dirigente menchevique Iúli Mártov levará o debate para a
Rússia, o que motivará o capítulo “oriental” daquela polêmica, enfren-
tando-o a Lênin.
Muitos de seus termos chegarão à atualidade através de certas inter-
pretações e polêmicas sobre a obra do revolucionário italiano Antonio
Gramsci e de suas elaborações sobre a “guerra de posição” e a “guerra
de manobra”. Mais recentemente, o marxista acadêmico Lars Lih retoma
o posicionamento de Lênin naqueles debates. Ainda que guarde vários
pontos em comum com a abordagem realizada por Perry Anderson há

4  Nas traduções para o castelhano, há certa convenção em traduzir Ermattungsstrategie


como “estratégia de desgaste”, ainda que algumas traduções adotem sinônimos como
“fadiga”, “esgotamento” ou “cansaço”. Para uma discussão sobre a fidelidade do termo
Ermattung com relação às formulações do próprio Clausewitz, ver Raymond Aron, Pensar
la guerra, Clausewitz, tomo I, La Era Europea, Buenos Aires, Instituto de Publicaciones
Navales, 1987, p. 313. Com respeito à Niederwerfungsstrategie, segundo Aron, Delbrück uti-
liza tanto Vernichtungsstrategie como Niederwerfungsstrategie. O tradutor do autor francês as
traduz respectivamente como “estratégia de aniquilamento” e “estratégia de abatimen-
to”. Nos textos dos autores marxistas que citamos, utiliza-se Niederwerfungsstrategie, e os
tradutores em geral optam por “estratégia de derrubada”, já que em todos os casos se
faz referência ao poder de Estado. Utilizaremos indistintamente tanto “derrubada” como
“abatimento”. Na tradução da editora Pasado y Presente da polêmica de 1910, em vez de
“derrubada”, se traduz como “estratégia de assalto direto”, porém, em alemão, Kautsky
utiliza o mesmo termo que Delbrück: Niederwerfungsstrategie. (Para esta edição, seguimos
estritamente as opções de Albamonte e Maiello. – N.E.B.).
5  A princípio os introduz em termos de estratégia “ampliada” ou “total”. Como as-
sinala Raymond Aron: “Sempre que se admita que a estratégia não inclui necessariamen-
te os meios de força ou constrangimento, não há reparo em falar de ‘estratégia total’ em
tempos de paz” (Raymond Aron, Pensar la guerra, Clausewitz, tomo II, La Era Planetaria,
op. cit., p. 195).
60 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

muitos anos atrás6, o novo em Lih é que o tratamento deste tema é parte
de um projeto muito mais amplo para demonstrar uma “agressiva falta
de originalidade” (aggressive unoriginality) de Lênin com respeito às colo-
cações de Kautsky.7
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

A tática, a estratégia e o “fim político”


O começo do século XX colocou o movimento operário e o marxis-
mo diante de uma nova escala de problemas no que se refere à “arte da
direção” em seu sentido amplo. Décadas sem revolução, desde a Comuna
de Paris de 1871, se combinavam com um meteórico crescimento da
classe operária, com um aumento exponencial de seu peso econômico
e social, e um desenvolvimento igualmente espetacular de suas organi-
zações políticas e sindicais na Europa. Tudo aquilo no marco dos inícios
de uma nova fase do capitalismo, o imperialismo, que abrirá uma época
de crises, guerras e revoluções, como apontará Lênin anos depois.8
Nessa situação, e condensando muitas de suas encruzilhadas, surgi-
rá o debate sobre as “duas estratégias”. Como Perry Anderson resenha:

Foi Kautsky quem [introduziu] os conceitos militares de Delbrück – sem


reconhecer – num debate político sobre as perspectivas estratégicas da
luta proletária contra o capitalismo. A ocasião de sua intervenção era
transcendental. Porque foi com o objetivo de rebater a exigência de Lu-
xemburgo de adotar as greves gerais combativas, durante a campanha do
Partido Social-Democrata Alemão pela democratização do sistema eleito-
ral neofeudal prussiano, que então Kautsky contrapôs à necessidade de
uma mais prudente “guerra de desgaste” do proletariado alemão contra
sua classe inimiga, sem os riscos que as greves de massas implicavam. A
introdução da teoria das duas estratégias – desgaste e derrubada – foi,
pois, o verdadeiro disparador da funesta cisão dentro do marxismo orto-
doxo alemão antes da Primeira Guerra Mundial.9

O “marxismo ortodoxo” mencionado por Anderson fazia referên-


cia ao amplo bloco de dirigentes em nível internacional que enfrentara as

6  Ver Perry Anderson, Las antinomias de Antonio Gramsci, op. cit.


7  Cf. Lars Lih, “‘The New Era of War and Revolution’: Lenin, Kautsky, Hegel and
the Outbreak of World War I”, em Alexander Anievas (ed.), Cataclysm 1914. The First
World War and the making of modern world politics, Leiden, Brill, 2014, p. 367.
8  Ver V. I. Lenin, “El imperialismo, etapa superior del capitalismo”, Obras selectas,
tomo I, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2013.
9  Perry Anderson, Las antinomias de Antonio Gramsci, op. cit., p. 101-102.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 61

teses de Eduard Bernstein, antigo colaborador de Engels e dirigente da


social-democracia alemã responsável por empreender a revisão do con-
junto da teoria, do programa e da estratégia marxistas.10 A jovem Rosa
Luxemburgo havia sido a primeira a encabeçar esse combate com os dois
artigos que conformariam sua primeira grande obra, Reforma ou revolução?
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Kautsky, posteriormente, também se lançará no combate contra o revi-


sionismo. Ambos farão parte da “ortodoxia”.
Qual é a particularidade do debate das “duas estratégias” com
relação à polêmica sobre o “revisionismo”? É que enquanto esse último
colocava em questão o programa e a teoria da social-democracia, o pri-
meiro, ao contrário, partia do “consenso” em torno do programa de
Erfurt11 de 1891. O terreno da disputa entre Kautsky e Luxemburgo será
o da estratégia. Como explica Clausewitz,

A direção da guerra é […] a disposição e a direção da luta. Se essa luta se


desenvolvesse num único ato, não haveria razão que justificasse a divisão
daquela; porém a luta consiste em um número maior ou menor de fatos
isolados, fechados em si mesmos, que denominamos combates. […] Daqui
se deduz a existência de duas ações completamente distintas: a disposição
e a direção desses combates, e o ligá-los entre si para o fim da guerra. A
primeira constitui a tática, à segunda chamamos estratégia.12

Isso quer dizer que a estratégia é aquela que liga os combates iso-
lados para o objetivo da guerra. Nesses termos, podemos dizer que
enquanto o debate em torno do revisionismo de Bernstein colocava em
discussão quais deveriam ser os “fins”, entre a reforma do capitalismo ou
a revolução socialista, o debate das duas estratégias (em princípio) partia
desse último objetivo para discutir o “como” conquistá-lo. Tratava-se de

10  Para Bernstein, a teoria do valor deixava de ser uma determinação estrutural
para se converter em um um problema ético; a luta de classes se tornava um “desperdí-
cio completo de tempo, esforço e material”; o colonialismo adquiria traços positivos, já
que “sob o domínio direto europeu, os selvagens estão, sem exceção, melhor do que an-
tes”; a ideia de “revolução” devia ser substituída pelo conceito de “transformação social”
(ver, respectivamente: “La lucha de la socialdemocracia y la revolución de la sociedad”,
“Observaciones generales sobre el utopismo y el eclecticismo” e “Las premisas del socia-
lismo y las tareas de la socialdemocracia” em Eduard Bernstein, Las premisas del socialismo y
las tareas de la socialdemocracia, México, Siglo XXI, 1982).
11  O programa de Erfurt foi aprovado em 1891, depois de revogadas as leis “antis-
socialistas” que colocavam a social-democracia na ilegalidade, e se baseava em muitas das
críticas que Marx havia feito em 1975 ao programa de Gotha. No entanto, como foi criti-
cado por Engels, não dizia nada sobre o caráter violento da revolução nem sobre o cará-
ter do Estado, sob o argumento do perigo de proibição legal do partido.
12  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 147.
62 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

uma polêmica sobre como ligar os combates isolados (eleições, ativida-


de sindical, greves, etc.) com o “fim da guerra” (a tomada do poder pelo
proletariado).
A contradição crescente que atravessava a II Internacional entre seu
programa e sua prática será o que, em 1910, fará voar pelos ares a unida-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

de precária da antiga “ortodoxia”. Como assinala Clausewitz:

na estratégia tudo é muito simples, porém nem tudo é muito fácil. Decidido, segun-
do as circunstâncias do Estado, aquilo que a guerra deve e pode fazer, é
fácil encontrar o caminho para alcançá-lo; porém, seguir inflexível nesse
caminho, pôr em prática o plano sem se separar dele em mil ocasiões,
requer uma grande fortaleza de caráter e grande clareza e segurança da
inteligência.13

Isso significa que aquilo que na “guerra no papel” pode consistir


em uma operação intelectual relativamente simples, na “guerra real”, que
é o terreno onde operam a incerteza, o acaso, o temor; que é onde se
apresenta uma série de alterações das circunstâncias; que é onde cada
ação tem uma reação do oponente; nesse terreno, é muito mais comple-
xo manter a linha estratégica traçada originalmente.

PARTE 1
ESTRATÉGIA DE DESGASTE E ESTRATÉGIA
DE DERRUBADA

A distância entre a luta “no papel” e a luta real foi se acentuando


na social-democracia alemã do início do século num contexto de avanço
evolutivo nas conquistas sociais (desde a época de Bismarck14) e demo-
cráticas (reconhecimento legal do direito de associação, reunião, expres-
são, etc., desde 1890). O objetivo de um governo operário revolucionário
contrastava cada vez mais com uma prática limitada à gestão sindical e

13  Idem, p. 255.


14  Pela via dos benefícios da espoliação colonial, teve lugar um rápido crescimen-
to da renda per capita até 1902; a partir de então, foi mais lento. Junto com isso, hou-
ve uma expansão da legislação social da época de Bismarck (aposentadoria, seguro
contra doenças, seguro de acidentes de trabalho, etc.) ao mesmo tempo em que, dife-
rentemente daquela época, permitira-se a organização de sindicatos e a legalização da
social-democracia.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 63

parlamentar15 de uma organização que em 1909 contava com 700 mil afi-
liados, mais de 2 milhões de afiliados em seus sindicatos e 3 milhões de
eleitores.
Em 1910, essa contradição se coloca em vermelho vivo quando um
cenário de recessão econômica se combina com uma crise política de
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

grandes proporções. Cai, pelas mãos dos conservadores, o chanceler von


Bülow e se rompe o bloco de partidos burgueses que sustentava o regime
monárquico constitucional16. Os partidos liberais17 passam à oposição na
qual até então o Partido Social-democrata estava sozinho. Vota-se uma
reforma tributária que, em meio à crise, golpeia não somente os trabalha-
dores, mas também a pequena-burguesia, enquanto deixa intactos os pri-
vilégios da casta militar-latifundiária dos junkers18. Tudo isso se consegue
graças a um sistema de representação legislativa feito sob medida para
esses últimos19.

15  Quarenta e três deputados no parlamento nacional (havia tido mais anteriormen-
te), além de muitas centenas no nível dos Länder e dos municípios.
16  Em 1909, no marco do desenvolvimento da crise econômica no Império, o chan-
celer, príncipe Bernhard von Bülow, tentará aprovar uma reforma tributária que, se bem
era dirigida contra as massas, implicava também um avanço sobre os privilégios tributá-
rios da casta militar-latifundiária dos junkers. Por meados desse ano, Bülow cai, fruto das
manobras dos conservadores que, apesar de apoiar sua política colonialista e de rearma-
mento da Alemanha, opunham-se a seu projeto de reformas tendentes a diminuir o peso
e os privilégios dos junkers.
17  Tanto o Partido Nacional Liberal como os liberais que formarão o Partido
Popular Progresista.
18  A casta dos junkers (pessoalmente afeitos ao imperador e convencidos de serem os
depositários de uma missão sagrada de defesa do Estado) constitui a esmagadora maioria
dos quadros superiores na hierarquia militar, assim como na burocracia imperial.
19  Como aponta Broué: “[…] a distribuição de circunscrições eleitorais favorece os
eleitores rurais, o estabelecimento do escrutínio em dia de trabalho exclui muitos eleitores
assalariados, a prática de candidatura oficial, a ausência de imunidade parlamentar, res-
tringem o alcance do princípio eleitoral. Os poderes do Reichstag são limitados: não tem
iniciativa legal, não pode votar uma lei sem o acordo do Bundesrat e não pode trocar um
chanceler, ainda que se situe em minoria. Esse regime, que não é nem parlamentar nem
democrático, está caracterizado pela dominação da Prússia no governo imperial. O rei da
Prússia é imperador, o chanceler do Império, primeiro-ministro prussiano, os dezessete de-
legados prussianos no Bundesrat podem entorpecer qualquer medida que não agrade a seu
governo, do qual receberam mandato imperativo. Nada é possível no Reich sem o acordo
desse governo, que não é outra coisa senão a emanação de um Landtag eleito segundo o
sistema de classes. […] A Prússia é um bastião da aristocracia guerreira dos junkers” (Pierre
Broué, Revolución en Alemania, tomo I, edição digital de Germinal, sem data, p. 8, disponível
em 5/3/2017 em: http://grupgerminal.org/?q=system/files/revolucion_en_alemania.pdf).
64 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Durante os primeiros meses do ano, as massas saem às ruas exigindo


a reforma do sistema eleitoral20, enquanto em resposta aos ataques patro-
nais se produz uma onda de greves como não se via desde 190521, ano
da primeira revolução russa. Depois de dois meses de desenvolvimen-
to ascendente do processo22, no início de março, as mobilizações dão um
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

salto. Entre 150 mil e 200 mil pessoas marcham em Berlim. Os conserva-
dores e o Partido do Centro (Zentrum) católico acusam – sem fundamen-
tos sérios – a social-democracia de pretender desatar uma insurreição.23
É nesse contexto, a poucos dias da mobilização em Berlim, que Rosa
Luxemburgo lança o artigo que iniciará o debate com Kautsky. Seu título,
muito significativo, era: “E depois, o quê?”. O ponto de Luxemburgo era
que o movimento vinha em ascensão, porém sem perspectivas claras para
seu desenvolvimento. As mobilizações organizadas pela social-democra-
cia haviam sido úteis no início do movimento, porém, paralelamente, um
importante processo grevista se desenvolvia sem o impulso da direção
do partido nem dos sindicatos – que simplesmente o “toleravam”. Ela

20  Em 4 de fevereiro, o novo chanceler, Theobald von Bethmann Hollweg, publica o


esperado projeto de lei de reforma eleitoral. Contra todas as expectativas dos partidos e das
massas, a reforma proposta não fazia mais do que consolidar o regime eleitoral imperante.
21  Em 1905, os grevistas haviam ascendido a pouco mais de 500 mil, em 1910, fo-
ram 370 mil, triplicando os do ano anterior. Grande parte das greves esteve concentrada
nos primeiros meses do ano. No entanto, não se tratava só do espírito combativo dos tra-
balhadores: a resposta patronal foram locautes generalizados (as estatísticas de gastos dos
sindicatos por locaute duplicaram as cifras do ano de 1906). Um dos principais conflitos
individuais do pré-guerra foi nesse mesmo ano, na construção civil, no qual estiveram im-
plicados 175 mil trabalhadores (ver Carl Schorske, German Social Democracy 1905-1917. The
development of a Great Schism, Cambridge, Harvard University Press, 1955, p. 180 et seq.).
22  A social-democracia realiza uma enorme agitação. Foi um dos períodos mais pro-
longados de agitação política ativa que já havia realizado. Durante os meses que vão de
fevereiro a abril, organiza assembleias e mobilizações de rua, não só na Prússia, mas em
toda a Alemanha. Em 13 de fevereiro, impulsiona mobilizações simultâneas em todas as
cidades da Prússia. Em várias cidades do país, produzem-se enfrentamentos com a polí-
cia, e a fins de fevereiro, em uma mobilização de massas contra a repressão, se sucedem
novos enfrentamentos.
23  Um elemento significativo dessa mobilização foi que, após ser proibida pela po-
lícia, a direção social-democrata manteve o chamado – foi convocada como “caminhada
pelo sufrágio”, no parque Treptower. A polícia se posicionou para reprimir; no entanto,
a mobilização de dezenas de milhares “apareceu” em outro lugar, no zoológico. A polícia
não havia se inteirado da mudança do local de convocatória, que o partido realizou em
segredo valendo-se de sua estrutura de quadros. Esse incidente motivou uma ampla cam-
panha dos conservadores e do Zentrum católico. Maximizavam o elemento “conspirati-
vo” da organização da marcha para agitar que a social-democracia estava aproveitando a
campanha pela reforma eleitoral, para ensaiar os métodos que lhe serviriam para uma in-
surreição. Claro que isso não era o que estava sucedendo, porém demonstrava a crescen-
te polarização da situação (cf. Carl Schorske, op. cit., p. 179).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 65

defendia que o partido devia decidir se ia dar ao movimento aquele rumo


estratégico ou se ia ficar para trás perante os acontecimentos. Dar um
rumo a ele significava ligar politicamente as mobilizações pela reforma
eleitoral com o processo de greves contra a crise. Para as massas, ambos
estavam vinculados; porém, para a direção do partido e dos sindicatos,
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

eram dois processos paralelos. A social-democracia devia unificá-los em


torno de um programa transicional contra o Estado capitalista-junker e
desenvolver uma ampla agitação pela greve geral política.
Kautsky se opõe a essa orientação e, pela primeira vez, os dois repre-
sentantes da “ortodoxia” cruzam lanças publicamente sobre a política de
conjunto do partido. No entanto, o que em Luxemburgo começa como
uma discussão sobre a tática para intervir nos acontecimentos, é reformu-
lado por Kautsky em termos de estratégia.

A moderna ciência da guerra diferencia dois tipos de estratégia, a estra-


tégia de derrubada e a estratégia de desgaste. A primeira reúne suas forças de
combate rapidamente, para ir ao encontro do inimigo e deferir-lhe golpes
decisivos, com os quais o derrota e o incapacita para a luta. Na estratégia
de desgaste, pelo contrário, seu chefe evita todo combate decisivo: busca
manter o exército inimigo em constante alerta por meio de manobras de
todo tipo, sem lhe dar oportunidade de estimular suas tropas através de
triunfos; tende a desgastá-las progressivamente por meio de fustigação e
ameaças constantes, diminuindo cada vez mais sua capacidade de resis-
tência até chegar a paralisá-las.24

Essa distinção – que toma de Hans Delbrück – serve a Kautsky para


recomendar uma “estratégia de desgaste”. Não rechaçava explicitamente
(ainda) a necessidade de tomar o poder de forma revolucionária, e seguia
defendendo que a estratégia de desgaste devia concluir com um “comba-
te definidor” no futuro25. No entanto, a consequência concreta era que o
partido devia adotar uma atitude cautelosa com relação ao movimento,
sem pretender impulsioná-lo para além das manifestações pacíficas, apos-
tando na tática eleitoral – apesar de que faltavam quase dois anos para as
próximas eleições – e assim conquistar, segundo ele, melhores condições
para o embate decisivo contra o regime.

24  Karl Kautsky, “¿Y ahora qué?”, em Alexander Parvus; Franz Mehring; Rosa
Luxemburgo e outros, Debate sobre la huelga de masas, primera parte, Buenos Aires, Pasado
y Presente, 1975, p. 133-134.
25  “A estratégia de desgaste dos romanos perante Aníbal não os liberou da necessi-
dade de dar finalmente ao chefe dos cartaginenses o combate definidor de Zama” (Idem,
p. 136). A batalha de Zama marcou o final da segunda Guerra Púnica.
66 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Em sua resposta, Rosa Luxemburgo coloca o debate nos seguintes


termos:

Como o camarada Kautsky opõe a greve de massas assim concebida [por


meio de uma contraposição artificial] com nossa velha e provada tática do
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

parlamentarismo, na realidade, o único que faz é recomendar por agora


e para a situação atual nada mais que parlamentarismo […]. Na prática, o ca-
marada Kautsky – e este é o pilar fundamental da estratégia de desgaste
– nos remete com insistência às próximas eleições para o Reichstag.26

Kautsky se considerava muito longe de recomendar “nada mais


que parlamentarismo” e via nas colocações de Luxemburgo uma subes-
timação da disputa eleitoral: “Nas condições políticas que estão dadas”
– diz Kautsky – “não há nenhum meio, salvo uma greve de massas triun-
fante [possibilidade que ele descartava], que tenha um efeito moral tão
grande quanto um grande triunfo eleitoral”.27
Ambos faziam referência, aqui, às próximas eleições que iriam se
realizar, finalmente, no início de 1912. As crises econômica e política
afiançavam enormes perspectivas eleitorais para a Social-democracia
(principal partido de oposição do Segundo Reich). Rosa compartilhava
com Kautsky dessa caracterização, porém se negava taxativamente a con-
trapor as possibilidades eleitorais à necessidade de impulsionar o movi-
mento que estava se desenvolvendo na luta de classes.
A disjuntiva política da social-democracia estava colocada no debate.
No entanto, suas raízes iam muito além da conjuntura; nesse sentido,
Kautsky – voluntária ou involuntariamente – havia acertado em colocá-
las em termos estratégicos.

“A guerra é um camaleão”28
Em seu trabalho “The New Era of War and Revolution”: Lenin, Kautsky,
Hegel and the Outbreak of World War I”, o acadêmico marxista Lars Lih

26  Rosa Luxemburgo, “¿Desgaste o lucha?” em Parvus, Alexander; Mehring, Franz;


Luxemburgo, Rosa e otros, Debate sobre la huelga de masas, Primera parte, op. cit., p. 173.
27  Karl Kautsky, “Una nueva estratégia”, em Parvus, Alexander; Mehring,
Franz; Luxemburgo, Rosa e otros, Debate sobre la huelga de masas, Primera parte, op. cit.,
p. 224-225.
28  Os subtítulos do presente capítulo correspondem a expressões utilizadas por
Clausewitz em Da guerra, como, por exemplo: “a guerra é um camaleão”, “estranha trin-
dade”, “suspensão da ação”, “falsa direção da guerra”, “gênio guerreiro”, “virtude guerrei-
ra”, entre outras. A maioria delas se encontra desenvolvida conceitualmente em sua obra
no Livro I, “Sobre a natureza da guerra”, e no Livro III “Da estratégia em geral”.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 67

aborda o debate sobre as estratégias “de desgaste” e “de derrubada”.


Segundo ele, assim como Lênin:

Kautsky também argumentou que a situação revolucionária que se avi-


zinhava no futuro muito próximo [na Alemanha] requereria uma mu-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

dança radical de tática. Esse foi o ponto – amplamente incompreendido


hoje – que ele tentava explicar em 1910 com sua famosa distinção entre
uma “estratégia de desgaste” e uma “estratégia de derrubada”.29

Nosso autor se baseia na opinião de Lênin sobre aquele debate,


expressa em uma carta ao social-democrata polonês Julian Marchlewski,
segundo a qual havia uma polarização artificial entre Rosa e Kautsky. Esta,
segundo Lênin, era aproveitada pelos mencheviques “liquidacionistas”30
russos para apresentar o próprio Kautsky como parte de suas fileiras e se
revestir de sua autoridade31. No entanto, diferentemente do que afirma
Lih, Lênin nunca considerou o esquema das duas estratégias como uma
“teoria”, mas o tomou como uma elaboração conjuntural e meramente
polêmica32 (é claro que naqueles anos não se tratava de nenhum reparo
especial contra Kautsky, a quem seguia considerando sua referência ideo-
lógica). A pergunta é por quê. Vejamos.
Segundo Lih, o que é “incompreendido” até hoje é que:

Kautsky explicava que a estratégia de “desgaste” (a habitual prática do


Partido Social-democrata Alemão de enérgica educação socialista e orga-
nização) era apropriada para uma situação normal, não revolucionária,
enquanto a de “derrubada” (greves políticas de massas e outros meios não

29  Lars Lih, op. cit., p. 376.


30  Sobre os mencheviques “liquidacionistas”, ver mais adiante neste mesmo capítulo.
31  “Todos os mencheviques – diz Lênin – (especialmente em Nasha Zariá, Vozrojdenie
i Jizn) tomaram a disputa de Rosa Luxemburgo com Kautsky para declarar que K.
Kautsky seria um ‘menchevique’”. (“Carta a Julian Marchlewski”, Marxists Internet
Archive, 2005, disponível em 5/3/32017, em: http://www.marxists.org/archive/Lenin/
works/1910/oct/07jm.htm).
32  Prova disso é que, diferentemente de muitas outras teorizações de Kautsky, Lênin
nunca utilizou aquela distinção entre “estratégia de desgaste” e “de derrubada”, para além
do uso polêmico que lhe deu nesse mesmo ano de 1910, defendendo contra Mártov a “es-
tratégia de derrubada” no balanço da revolução russa de 1905.
68 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

parlamentares de pressão33) era conveniente para uma situação verdadei-


ramente revolucionária.34

Dessa forma, Lih reconstrói a partir da elaboração de Kautsky um


esquema segundo o qual as duas estratégias (“desgaste” e “derrubada”),
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

com seus respectivos métodos (“educação-organização”, por um lado, e


“luta física”, pelo outro), correspondem a dois tipos de situação (“não
revolucionária” e “verdadeiramente revolucionária”). Uma afirmação
como essa, nem é preciso dizer, não correspondia aos desenvolvimen-
tos originais de Delbrück, que considerava as estratégias de desgaste e
de derrubada como “dois polos” da arte da estratégia, nunca tão meca-
nicamente diferenciados35. No entanto, sobretudo, uma fórmula binária
daquele tipo estava longe de ser útil para se orientar numa realidade que
é muito mais complexa e dinâmica.
Clausewitz afirmava que a guerra é “um verdadeiro camaleão”36.
Essa era uma das principais conclusões de seu estudo histórico compa-
rativo (especialmente entre as guerras do século XVIII e as do século
XIX). A guerra muda permanentemente e adapta sua aparência às mais
variadas condições sócio-políticas nas quais se desenvolve. Se isso é certo
na escala das épocas históricas, também o é em relação aos casos concre-
tos, que podem ir desde aqueles em que a guerra parece uma espécie de
“observação armada” até os enfrentamentos totais da “guerra absoluta”.
No caso de uma estratégia revolucionária, isso também é certo,
tanto no que se refere às épocas históricas, como também às diferentes

33  Efetivamente, esta é uma interpretação que se atém bastante à elaboração de


Kautsky, com a única ressalva de, diferentemente de Lih, o Kautsky de 1910 não consi-
derava as greves políticas de massas, e menos ainda a “estratégia de derrubada” de con-
junto, como “meios não parlamentares de pressão”, e sim como luta violenta e aberta
pelo poder. Como afirma Perry Anderson: “Formalmente, Kautsky não negava que na
‘batalha final’ da luta de classes, também no Ocidente seria necessária uma transição a
uma estratégia de derrubada.” (Perry Anderson, Las antinomias de Antonio Gramsci, op. cit.,
p. 105). A visão de Lih corresponde à evolução de Kautsky posterior à Revolução Russa,
quando combateu abertamente a estratégia revolucionária dos bolcheviques.
34  Lars Lih, op. cit., p. 376.
35  Hans Delbrück, autor original do esquema das duas estratégias, estabelece múl-
tiplos exemplos de estratégias “bipolares”. Entre eles, dois fundamentais na história mi-
litar: Aníbal Barca e Frederico “o Grande”. Diz ele: “a estratégia de Aníbal se dirigiu a
forçar Roma, por meio de golpes o mais fortes possíveis, a perder seus aliados e a sofrer
a destruição de seus campos. Sua estratégia era, por conseguinte, bipolar, assim como de
Frederico, porém nunca estabeleceu como objetivo a completa sujeição militar do inimi-
go como o fizeram Alexandre e Napoleão.” (Hans Delbrück, History of the art of war, tomo
I, Lincoln, University of Nebraska Press, 1990, p. 362).
36  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 54.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 69

situações concretas da luta de classes nas quais um partido deve atuar


(das quais a guerra civil é apenas um caso). Nenhuma direção políti-
ca pode se orientar na realidade com um esquema que distinga sim-
plesmente entre “situações revolucionárias” e “não revolucionárias”37.
Existem situações claras de ambos os tipos, às quais há que agregar as
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

situações contrarrevolucionárias. Contudo, na nova época que se abre no


século XX, o elemento distintivo são as situações intermediárias, transi-
tórias, entre uma situação e outra, que combinam elementos de diver-
sos tipos. É nessas situações que se define, por exemplo, se uma situação
pré-revolucionária avança para se converter em revolucionária ou em
contrarrevolucionária38.
Desde 1910, momento em que se inicia o debate de estratégias, até
a eclosão da I Guerra Mundial, a Alemanha atravessa uma situação tran-
sitória desse tipo; daí as dificuldades para determinar concretamente os
limites e as potencialidades da situação durante o próprio desenvolvi-
mento dos acontecimentos.
Agora, de que serve para a estratégia revolucionária uma teoria que
só pode nos orientar quando a situação já está definida para um lado ou
para o outro? Que utilidade ela tem se só é capaz de constatar os resulta-
dos uma vez consumados, e somente aí propor a mudança de uns méto-
dos por outros (no esquema de Kautsky: a passagem da “educação e
organização” à “luta física”)? A resposta não pode ser outra senão: pouco
ou nada. Então, que tipo de teoria seria capaz de colaborar efetivamente
para o trabalho da estratégia?
De semelhante problema se ocupou Clausewitz até o final de sua
vida. Por um lado, ele era consciente de que a teoria não podia acom-
panhar o general no campo de batalha; não existe um “manual de

37  Para uma definição dos elementos objetivos de uma situação revolucionária, ver
V. I. Lenin, “La bancarrota de la II Internacional”, Obras selectas, tomo I, op. cit., p. 427.
Para uma definição abrangente dos elementos objetivos e subjetivos, ver Trotsky, León,
“¿Qué es una situación revolucionaria?”, Escritos de León Trotsky 1929-1940 [CD], Libro 2,
Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2000.
38  “A oposição absoluta entre uma situação revolucionária e uma situação não re-
volucionária – aponta Trótski – é um exemplo clássico de pensamento metafísico […]
No processo histórico, encontram-se situações estáveis, absolutamente não revolucio-
nárias. Encontram-se também situações notoriamente revolucionárias. Há também si-
tuações contrarrevolucionárias (não nos esqueçamos!). Porém o que existe, acima de
tudo, em nossa época de capitalismo em putrefação, são situações intermediárias, tran-
sitórias: entre uma situação não revolucionária e uma situação pré-revolucionária, entre
uma situação pré-revolucionária e uma situação revolucionária ou… contrarrevolucioná-
ria. São precisamente esses estados transitórios que possuem uma importância decisiva
do ponto de vista da estratégia política.” (León Trotsky, ¿Adónde va Francia? / Diario del exi-
lio, op. cit., p. 83).
70 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

procedimentos” para ganhar uma guerra, como pretendiam alguns teóri-


cos do seu tempo. No entanto, contra os que afirmavam que não podia
haver uma teoria da guerra (porque nela primam as paixões e o acaso),
ele sustentava que era possível extrair valiosas conclusões (generali-
zações) da experiência passada, para não ter que pensar tudo de novo
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

em cada enfrentamento concreto. Ou seja, a guerra não pode ser com-


preendida nem como pura planificação e cálculo, nem como puro ódio
e acaso. A crítica de Luxemburgo a Kautsky se orienta nesse mesmo
sentido quando assinala: “a tarefa do Partido Social-democrata e de sua
direção não consiste nem no urdimento secreto de ‘grandes planos’ nem
na ‘espera’ de fatos elementares”39.
Como, então, abordar o problema teoricamente? Nesse caminho,
Clausewitz distinguiu, sob as variadas manifestações concretas que faziam
da guerra um camaleão, três elementos constitutivos de toda guerra: “o
ódio e a inimizade” como “cego impulso da natureza”; “o jogo das proba-
bilidades e do acaso”, que faz necessário o cálculo estratégico; e a política,
da qual a guerra não é mais do que um instrumento40. Cada um desses
três elementos é “mais próprio” de três “sujeitos”, respectivamente: do
povo, do exército e dos generais, e do governo41. A essa combinação de
elementos que subjaz nas diferentes formas concretas que a guerra adqui-
re, Clausewitz chamou de “estranha trindade” (wunderliche Dreifaltigkeit).
Apesar de suas enormes diferenças, que abordaremos em seguida,
pode-se estabelecer um paralelo entre essa “estranha trindade” e a relação
que existe no marxismo entre a classe operária, o partido revolucionário
e sua direção. Sobretudo, no que toca uma definição fundamental assina-
lada por Clausewitz:

A teoria que descuidasse de uma [daquelas três “tendências”] ou que as


quisesse ligar por relações arbitrárias, se colocaria instantaneamente
em tal oposição com a realidade que seria o bastante para anulá-la. O

39  Rosa Luxemburgo, “La teoría y la praxis”, en Alexander Parvus, Franz Mehring,
Rosa Luxemburgo e outros, Debate sobre la huelga de masas, primera parte, op. cit., p. 270.
40  Dessa forma, e apesar de suas combinações em cada caso concreto, o autor de Da
guerra marcava a confluência de fatores racionais e irracionais na guerra. Isto é, ela não
era um fenômeno irracional impossível de se teorizar, como queria Berenhort, nem tam-
pouco um fenômeno racional suscetível até de ser esquematizado, como afirmava Bülow.
Entre ambos os extremos, Clausewitz será quem irá sintetizar uma visão abrangente de
ambos os elementos, que utiliza a experiência da história militar para evitar tanto o dog-
matismo como o ceticismo. (ver Martin van Creveld, The art of war: war and military thought,
New York, Smithsonian Books, 2005, p. 107).
41  Cf. Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 54.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 71

problema consiste em manter a teoria suspensa entre essas três tendên-


cias, como entre focos de atração.42

Ou seja, a necessidade de integrar na análise das situações não


somente o impulso espontâneo ou semiespontâneo das massas, como se
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

fosse um dado isolado, mas também a interação desse elemento com a


ação do partido e a orientação política de sua direção.
Muito mais próxima a esses termos está a posição de Luxemburgo
em 1910; diferentemente da de Kautsky, não se centra numa definição
fechada da situação geral e da correlação de forças em abstrato, mas, sim,
na relação entre a ação do partido e a ação das massas (onda de greves
e mobilizações contra o regime eleitoral) como elementos definidores da
situação.
No mesmo sentido, e paralelamente, Lênin polemiza com Mártov
em 1910 quando este pretende transportar a “estratégia de desgaste”
de Kautsky para o balanço do período entre 1905 e 1907 na Rússia.
Mártov sustentava que “a tentativa de combinar a luta pela liberdade
política com a luta econômica […], apesar da opinião da camarada Rosa
Luxemburgo, […] não revelou o lado forte do movimento, mas, sim, seu
lado fraco”43. Frente a isso, Lênin defende a disposição ativa dos bol-
cheviques vinculando a luta política e econômica não somente em 1905
como durante os dois anos posteriores, em que a situação vai se transfor-
mando de revolucionária em contrarrevolucionária.
Diante da afirmação de Mártov, Lênin se pergunta: “isso significa-
ria que as greves econômicas de 1906-1907 foram ‘insensatas’ e ‘extem-
porâneas’, que foram ‘o lado fraco do movimento’? Não”44. E acrescenta:

se o proletariado não tivesse sido capaz de se levantar pelo menos duas


vezes para um novo ataque contra o inimigo (um quarto de milhão de
pessoas envolvidas em greves políticas apenas no segundo semestre de
1906 e também em 1907), a derrota teria sido então ainda mais grave […].
Esse é o significado da luta revolucionária das massas que Mártov não
compreende em absoluto.45

Enquanto no esquema de Kautsky, a situação (revolucionária ou


não revolucionária) aparece como um dado puramente objetivo por fora

42  Idem.
43  V. I. Lenin, “El sentido histórico de la lucha interna del partido en Rusia”, Obras
completas, tomo XVI, Madrid, Akal, 1977, p. 385.
44  Idem, p. 386.
45  Idem.
72 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

da incidência da atividade do partido e de sua relação com a ação das


massas, tanto para Rosa como para Lênin, trata-se de situações que vão
se configurando como tais na própria luta, através de seus resultados,
para os quais é determinante a intervenção ativa (ou não) do partido e
de sua direção, assim como a força que este é capaz de articular (ou não).
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Seja, por exemplo, numa situação intermediária, que vai de pré-revolu-


cionária a revolucionária (Rosa, para a Alemanha, em 1910), ou de revo-
lucionária a contrarrevolucionária (Lênin, para a Rússia, em 1906-07).
O “significado da luta revolucionária” que Lênin defendia contra
Mártov estava muito mais próximo da abordagem de Luxemburgo que
do esquema de Kautsky. Por que então a posição do dirigente bolche-
vique era equidistante de ambos? Isso nos leva a adentrar mais profun-
damente naquela “estranha trindade” e no significado histórico desses
debates no marxismo revolucionário de princípios do século XX.

A “estranha trindade”
Retomando as afirmações de Lars Lih, dizíamos que sua abordagem
do debate de estratégias é parte de um projeto mais amplo de “reinterpre-
tação” da relação entre Lênin e Kautsky. Um de seus pontos centrais – e
mais audazes, por certo – é a tentativa de demonstrar que Lênin não des-
envolve um “novo tipo de partido”, um “partido de vanguarda” diferen-
te da social-democracia alemã de início do século XX, mas que se limita
a traduzir seu exemplo às condições russas46.
Para fundamentar essa tese, em seu livro, Lenin Rediscovered. “What Is
to Be Done?” In Context47, Lih empreende um estudo documentado dos deba-
tes do começo do século XX no marxismo que emolduram a elaboração
de O que fazer? Seu ponto de partida é que o jovem Lênin “era um ativista
revolucionário russo inspirado pelo poderoso Partido Social-democrata
Alemão e determinado a importar tanto daquele modelo quanto fosse
possível sob as condições muito diferentes da Rússia autocrática”48.
Os desenvolvimentos de Lênin em O que fazer?, de 1902, expressam
uma síntese do trabalho do jornal clandestino russo Iskra49, que efetiva-
mente – e esse é um dos aspectos mais interessantes da análise de
Lih – estava inspirado na experiência do Sozialdemokrat editado na

46  Cf. Lars Lih, Lênin Rediscovered. “What Is to Be Done?” In Context, Chicago,
Haymarket Books, 2008, p. 31.
47  Em 2010, a revista Historical Materialism dedicou um dossiê especial à polêmica so-
bre esse livro de Lars Lih: Historical Materialism, n. 18, volume 3, 2010, p. 25 et seq.
48  Lars Lih, Lenin Rediscovered. “What Is to Be Done?” In Context, op. cit., p. 3.
49  Em russo Искра (Iskra), significa “Faísca”, foi publicado de 1900 a 1905.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 73

clandestinidade na década de 1880 pela social-democracia alemã durante


a vigência das leis antissocialistas. O próprio Kautsky, aos 25 anos, seria
um de seus editores (junto com Bernstein) a partir do exílio na Suíça.50
No entanto, a conclusão de Lih vai muito além:
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

À medida que nos colocamos a tarefa de redescobrir a perspectiva real


de Lênin, os termos “partido de novo tipo” e “partido de vanguarda” são
realmente úteis, porém, somente se os aplicamos tanto ao Partido Social-
democrata Alemão como aos bolcheviques.51

A “prova” dessa identificação passa, para Lih, por demonstrar a


ascendência ideológica de Kautsky sobre Lênin até a I Guerra Mundial
e, posteriormente, apesar da ruptura política entre ambos em 1914.
Nesse ponto, nosso autor realiza uma extrapolação por cima da his-
tória. Longe de existir, como afirma Lih, um “modelo SPD” (Partido
Social-democrata Alemão, SPD segundo sua sigla em alemão52) que
iria desde as últimas décadas do século XIX até 1914, sua configuração
definitiva, como desenvolveremos, esteve atravessada por uma série de
fenômenos históricos novos. Outro tanto sucede com a relação entre o
suposto “modelo SPD” e a teoria de Kautsky que, como veremos, foi se
modificando ao calor daquelas transformações no partido.53
Ora, se tanto Kautsky quanto Lênin têm como ponto de partida
uma concepção similar de partido, por que terminam em posições opos-
tas? Ou, melhor dizendo, quais são as diferentes respostas que cada
um dá diante das condições históricas de seu tempo e que determinam
sua evolução divergente? E, retomando nossa pergunta do tópico ante-
rior: quais daquelas respostas marcam a distância entre Lênin e Rosa
Luxemburgo, e quais sua convergência?
Para responder a essas perguntas, retomaremos aquela “estranha
trindade”, que Clausewitz teorizou, e suas semelhanças e diferenças com
a “trindade” entre classe, partido e direção. Como víamos, o general

50  “O jornal [Iskra] foi impresso primeiro em Zurique e mais tarde em Londres, e in-
troduzido ilegalmente na Rússia por diversos meios. Parte da mística do Iskra provinha
das malas de fundo duplo, dos passaportes falsos, da tinta que desaparece, dos fracassos
desoladores e dos alegres êxitos que faziam parte da distribuição do jornal. Como o “jor-
nal vermelho” Sozialdemokrat durante as leis antissocialistas na Alemanha, o Iskra zombava
do governo tsarista simplesmente por sua própria existência” (Idem, p. 164).
51  Idem, p. 556.
52  Sozialdemokratische Partei Deutschlands. (N.E.B.).
53  Daí que as “provas” esgrimidas por Lars Lih (apropriação por Lênin de várias
elaborações de Kautsky) não sejam capazes de demonstrar sua hipótese (uma mesma con-
cepção de partido em Lênin e Kautsky inspirada num “modelo SPD”).
74 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

prussiano distinguia uma relação variável entre três “tendências” presen-


tes em toda guerra sob suas diferentes manifestações concretas: o ódio
ou impulso elementar (associado preferencialmente ao sujeito “povo”), o
cálculo de probabilidades (ligado ao exército e aos generais) e a política
(vinculada ao governo).
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Comentaristas de Clausewitz – que poderíamos chamar de “anti-


clausewitzianos” – afirmam que a trindade54 não serve para compreender
aquilo que (muitas vezes de forma arbitrária) engloba o termo “guerras
irregulares”, onde se incluiriam os movimentos revolucionários. Acima
de tudo porque as formações irregulares não têm à sua frente o governo
de um Estado nacional55. De maneira inversa, entre os “clausewitzianos”
foi afirmado que a trindade

não representa uma rígida descrição sociológica da guerra na realidade


[…]. O conceito de Clausewitz da subordinação da guerra à política, por
exemplo, é aplicável a qualquer entidade política que estabeleça metas e
possua meios violentos a empregar para alcançar seus objetivos.56

Nesse sentido, foi proposta a utilização de conceitos mais abran-


gentes, em vez de “povo”, “exército” e “governo”, substituindo respec-
tivamente por “base popular”, “lutadores” e “liderança”57, entre outras
reformulações58.

54  A fórmula trinitária foi, especialmente nas últimas décadas, uma pedra de toque
da divisão entre “clausewitzianos” e “anticlausewitzianos”. Sobre esses debates, ver espe-
cialmente: Thomas Waldman, War, Clausewitz, and the Trinity, London, Routledge, 2016.
55  Dentro dos que questionam a vigência da teoria do general prussiano baseando-
se nas profundas mudanças ocorridas no contexto social, político e econômico desde que
ela foi formulada, nos referimos, sobretudo, àqueles que, como Martin van Creveld em
The Transformation of War (Nova York, Free Press, 1991), afirmam que a trindade não pode
dar conta dos conflitos atuais; daquilo que as doutrinas militares englobam, em termos
de “guerras irregulares”, “insurgência”, “terrorismo”, etc. Para esses autores, “Estado”,
“política”, e “racionalidade” conformariam no pensamento de Clausewitz um bloco indi-
visível. Portanto, sendo que o que prima nos últimos anos são as “guerras irregulares”,
a trindade não serve para dar conta dos conflitos contemporâneos, já que não é possí-
vel analisar essas guerras do ponto de vista do enfrentamento entre forças regulares ou
Estados com “racionalidade política”.
56  Thomas Waldman, War, Clausewitz, and the Trinity, op. cit., p 350.
57  Christopher Bassford, “The Primacy of Policy and the ‘Trinity’ in Clausewitz’s
Mature Thought”, Hew Strachan e Andreas Herberg-Rothe (orgs.), Clausewitz in the
Twenty-First Century, Oxford, Oxford University Press, 2007, p. 82.
58  Por seu lado, Gow propôs os de “comunidade política”, “força armada”, e “lide-
rança política” (James Gow, “The New Clausewitz? War, Force, Art and Utility - Rupert
Smith on 21st Century Strategy, Operations and Tactics in a Comprehensive Context”,
The Journal of Strategic Studies, vol. 29, n. 6, dezembro 2006, p. 1168).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 75

Esse último caminho nos permite continuar em nossa analogia, com


a condição de se estabelecer as diferenças entre os “sujeitos” históricos de
que estamos falando59. A primeira delas, nesse ponto, é que a existência
de uma direção revolucionária não é um dado pré-estabelecido, como o
pode ser a existência de um “governo” em uma guerra interestatal. Para
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

existir como tal, deve abrir passagem no curso da luta de classes (seja
essa do nível que for) e em meio às fricções entre as diferentes tendências
da própria classe60. Isso significa que não surge como simples reflexo da
classe operária ou produto da luta espontânea. Desse ponto de vista, não
é digno de destaque que tanto Lênin como Kautsky tenham coincidido
na fórmula de “fusão entre o socialismo e o movimento operário” como
objetivo estratégico, como assinala corretamente Lih61.
No entanto, como apontamos anteriormente, na estratégia “tudo
é simples, porém não é fácil”. Uma questão é como surge uma direção
(ganhando seu direito à existência) e outra é como esta, uma vez sur-
gida, se relaciona com a classe. Assim que uma direção revolucionária
emerge (e na medida em que o faz), ela inevitavelmente se eleva sobre a
classe. Como consequência disso, a direção se arrisca a sofrer a pressão
e a influência das demais classes, tanto da pequena-burguesia, como da
própria burguesia62.
Aqui é onde começa uma série de problemas decisivos e o distancia-
mento progressivo de caminhos entre o SPD e os bolcheviques, e mais
tarde entre Kautsky e Lênin. Nesse ponto, é onde começa a atuar plena-
mente a “trindade”. Não se trata simplesmente de estabelecer um modelo
genérico de partido, como pretende Lih. A teoria, como dizíamos, pode
colaborar na medida e enquanto consiga se manter “suspensa” entre suas
três tendências (a atividade da classe, o cálculo das probabilidades e a
política revolucionária) como se fossem “polos de atração”.

59  A favor desta operação, o governo e o elemento político na trindade de Clausewitz


se referem a um só ator, ao contrário do que ressaltam os críticos. Nesse sentido, o concei-
to de “política” na trindade é assimilável (tomando os termos em inglês) a “policy”, e não
“politics”; não é um conceito relacional, mas sim se refere à orientação política de um ator
particular.
60  Cf. León Trotsky, “Clase, partido y dirección: ¿por qué fue derrotado el proleta-
riado español?”, op. cit.
61  Cf. Lars Lih, Lênin Rediscovered. “What Is to Be Done?” in Context, op. cit., p. 41 et
seq.
62  Cf. León Trotsky, “Clase, partido y dirección: ¿por qué fue derrotado el proleta-
riado español?”, op. cit.
76 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

PARTE 2
KAUTSKY: A ESTRATÉGIA DE DESGASTE E A MUDANÇA DO
“CENTRO DE GRAVIDADE”

Que era precisamente a estratégia de desgaste para Kautsky? Sobre


Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

a Comuna de Paris, diz ele:

mostrou com clareza que os dias da tática de derrubada haviam acabado


pelo momento […]. Porém, justamente então foram dados os fundamen-
tos para a nova estratégia da classe revolucionária, que Engels, em sua
introdução ao livro de Marx A luta de classes na França, contrapôs tão limpi-
damente à velha estratégia revolucionária, e que pode ser bem qualificada
como estratégia de desgaste. Até agora ela nos deu os mais brilhantes re-
sultados, brindando ao proletariado de ano em ano uma força crescente,
empurrando-o cada vez mais para o centro da política europeia.63

Isso quer dizer que a estratégia de desgaste expressava, para Kautsky,


nada mais nada menos que a continuidade estratégica da social-democra-
cia desde a época de Engels. Isso era assim?
A social-democracia surge como direção do movimento operário
alemão uma vez que se impõe sobre o resto das tendências (derrota do
anarquismo, luta com os lassallianos e fusão com um setor deles64) e con-
quista seu direito à existência (organização legal e ilegal, derrota das
leis “antissocialistas”65). O revisionismo será a primeira expressão

63  Karl Kautsky, “¿Y ahora qué?”, op. cit., p. 135.


64  Sobre as relações com os lassallianos, ver August Bebel, “For Union and Unity”,
Marxists Internet Archive, disponível em 5/3/2017 em: https://www.marxists.org/archive//
bebel/1905/02/unity.htm.
65  Pelo ano de 1877, após a fusão com parte da corrente lassalliana, a social-demo-
cracia já obtinha 493 mil votos, o que levou o chanceler Otto von Bismarck a defender
a proibição do partido. Em 1878 consegue impô-la; a lei proibia seus jornais e revistas,
suas reuniões, e foi a base para uma forte repressão (alguns líderes foram presos, outros
ao exílio), porém teve que conceder a possibilidade de que continuassem se apresentando
às eleições. O jornal Sozialdemokrat, editado na Suíça, cujos números se introduziam clan-
destinamente na Alemanha, foi uma peça central na reorganização e desenvolvimento da
social-democracia sob as leis de exceção. Por volta de 1884, ainda que ilegal, o partido re-
tomou sua ascensão eleitoral: 550 mil votos em 1884, 763 mil em 1887. Em 1890, o novo
kaiser (Guilherme II) substitui Bismarck e as leis “antissocialistas” finalmente caem. Nesse
mesmo ano, o SPD chega a quase um milhão e meio de votos (19,7 %). Nesta nova eta-
pa, começa a se desenvolver a organização, agora legal, do partido, com seus periódicos,
associações dos mais diversos tipos e os primeiros sindicatos. Paralelamente, continua seu
avanço eleitoral, obtendo 23% dos votos, em 1893.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 77

teórico-política acabada da influência que a pequena burguesia liberal-


democrática vinha exercendo sobre a “nova” direção.
Em termos de estratégia, um dos documentos fundamentais no
debate será aquela introdução de Engels a que se refere Kautsky como
precursor da “estratégia de desgaste”, cujos avatares constituem toda
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

uma metáfora da evolução do SPD. Para driblar a censura estatal, a


“Introdução” havia sido adulterada por Wilhelm Liebknecht previamen-
te à sua publicação, ignorando os protestos de Engels, que se queixava
de que o texto havia sido publicado “de tal maneira truncado, que eu
apareço nele como um adorador pacífico da legalidade”66. Poucos meses
depois, Engels morre e o assunto fica sem resolução.67
A adulteração estava centrada na parte referida à estratégia para a
tomada do poder. Das colocações de Engels sobre o combate físico na
revolução, ficou somente a ideia68 de que “A rebelião ao velho estilo, a
luta nas ruas com barricadas, que até 1848 havia sido decisiva em todas
as partes, estava consideravelmente antiquada”69. No entanto, na parte
omitida, ele continuava:

Isso quer dizer que, no futuro, os combates de rua não irão desempen-
har nenhum papel? Nada disso. Quer dizer unicamente que, desde 1848,
as condições se tornaram muito mais desfavoráveis para os combatentes
civis e muito mais vantajosas para as tropas. Por isso […] deverão ser empre-
endidos com forças muito mais consideráveis. E estas deverão, indubitavelmente,
como ocorreu em toda a Grande Revolução Francesa, assim como no 4
de setembro e no 31 de outubro de 1870, em Paris70, preferir o ataque aberto
à tática passiva de barricadas.71

66  Friedrich Engels, carta de 1 de abril de 1895 a Kautsky, em Marx, Karl y Engels,
Friedrich, Collected Works, Vol. 50, Londres, Lawrence & Wishart, 2010, p. 486.
67  A versão original – que contém somente os cortes admitidos sob protesto por
Engels para evitar a censura – foi resgatada somente por David Riazánov e publicada em
1930. Sobre o tema, ver Hernán Ouviña, “Reforma y revolución. A propósito del ‘testa-
mento político’ de Engels”, em Mabel Thwaites Rey (org.), Estado y Marxismo. Un siglo y me-
dio de debates, Buenos Aires, Prometeo, 2007.
68  Ver Paul d’Amato, “Marxists and elections”, International Socialist Review, n. 13,
agosto-setembro de 2000.
69  Friedrich Engels, “Introducción de F. Engels a la edición de 1895” em Karl Marx,
Las Luchas de Clases en Francia de 1848 a 1850, Marxists Internet Archive, disponível em
5/3/32017, em: https://www.marxists.org/espanol/m-e/1850s/francia/francia1.htm.
70  E no dia 4 de setembro de 1870, graças à ação revolucionária das massas popula-
res, foi derrubado o governo de Luís Bonaparte na França e proclamada a república. Em
31 de outubro de 1870, os blanquistas levaram a cabo uma tentativa infrutífera de suble-
vação contra o Governo de Defesa Nacional.
71  Friedrich Engels, “Introducción de F. Engels a la edición de 1895”, op. cit.
78 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

O efeito dessa operação foi o que o próprio Engels havia anteci-


pado: seu texto foi interpretado como um chamado ao pacifismo.72 Foi
o fundamento de uma mudança do que podemos chamar, tomando o
conceito de Clausewitz, de “centro de gravidade”73 ao qual apontava a
acumulação de forças da social-democracia: da ação extraparlamentar à
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ação parlamentar. Como assinala o general prussiano, o centro de gravi-


dade se refere ao “centro de poder e movimento, do qual tudo depende-
rá”, e acrescenta: “o golpe concentrado de todas as forças deverá dirigir-se
contra este centro de gravidade do inimigo”74.
Em sua “Introdução”, Engels aponta as virtudes de utilizar o sufrá-
gio universal e o parlamento com relação à acumulação de forças para a
luta extraparlamentar, em função de empreender a luta física “com forças
mais consideráveis” para um “ataque aberto”. Entre essas virtudes, está a
possibilidade de usá-lo para uma “contagem de forças”, para aumentar “a
segurança nos triunfos dos operários e o terror de seus adversários”, para
“calcular as proporções de nossa ação e nos precaver igualmente contra
a timidez inoportuna e contra a extemporânea temeridade”, e sobretu-
do “para entrar em contato com as massas do povo ali onde ainda estão

72  Dessa maneira, foi exacerbada a recomendação de Engels de não cair em provo-
cações que levassem a um enfrentamento prematuro. Cabe lembrar que, pouco antes de
que a “Introdução” fosse publicada, em dezembro de 1984, o chanceler Chlodwig, prín-
cipe de Hohenlohe-Schillingsfürst, havia apresentado um projeto de “lei contra atividades
subversivas”, com o qual Engels discute implicitamente em seu escrito. Nesse contexto é
que Engels afirma: “nós não somos tão loucos a ponto de nos deixar arrastar ao combate
de rua, só para agradar a eles; no fim das contas, eles não terão outro caminho que não
o de romper eles mesmos esta legalidade tão fatal para eles”. E adverte o regime: “se vo-
cês violarem a Constituição do Reich, a social-democracia fica livre para fazer e deixar de
fazer o que queira com relação a vocês. E o que ela irá querer então, não é fácil que lhe
passe pela cabeça contar a vocês hoje.” (Friedrich Engels, “Introducción de F. Engels a la
edición de 1895”, op. cit.).
73  O conceito de centro de gravidade, como tantos outros em Clausewitz, tem re-
lação com a física da época. “Na física elementar moderna, que era a condição das ciên-
cias mecânicas na época de Clausewitz, um CDG [Centro de Gravidade] representa o
ponto onde as forças de gravidade convergem dentro de um objeto. Também é, falando
em geral, o ponto no qual a aplicação de força ao objeto o moverá de maneira mais eficaz.
Em outras palavras, não desperdiçamos energia ao mover o objeto. Golpeando o CDG
com bastante força, podemos fazer com que o objeto perca seu balanço – ou equilíbrio –,
e caia. Por conseguinte, um CDG não é uma fonte de força, mas, sim, um fator de equi-
líbrio. (Antulio J. Echevarría II, “Enlazando el concepto de Centro de Gravedad”, Air &
Space Power Journal Español, primeiro trimestre de 2004, disponível em 5/3/2017 em: http://
www.airpower.au.af.mil/apjinternational/apj-s/2004/1trimes04/echevarria.html.
74  Carl von Clausewitz, De la guerra, Buenos Aires, Solar, 1983, p. 556.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 79

longe de nós, para obrigar todos os partidos a defender perante o povo,


diante de nossos ataques, suas ideias e seus atos”.75
O assentamento de certa democracia burguesa na Alemanha e a
renovada presença da social-democracia nas instituições legislativas pare-
ceram obscurecer aquelas virtudes para mostrar o parlamento como pos-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

sível novo centro de gravidade – de acumulação de forças – para obter


conquistas. A continuidade da estratégia da social-democracia na qual
Kautsky baseava sua “estratégia de desgaste”, na realidade, omitia esse
deslocamento, que foi sendo gestado durante anos, especialmente a partir
do grande êxito eleitoral de 1903, quando o SPD obteve mais de 3 mi-
lhões de votos e 81 cadeiras no Reichstag (muito menos do que as que lhe
corresponderiam em proporção ao número de votos). Naquele momen-
to, Bernstein já havia tomado a iniciativa de propor um bloco com os
liberais e aceitar a posição que correspondia ao SPD no Presidium do
Reichstag, ainda que para isso tivessem que ir à corte e render homenagem
ao kaiser, porém foi derrotado.
O outro fator decisivo que pressiona para essa mudança de “centro
de gravidade” da social-democracia é o processo de burocratização dos
sindicatos. No ano em que morre Engels (1895), os sindicatos social-
democratas não chegavam aos 300 mil membros, e ainda competiam em
número de afiliados com os sindicatos liberais e católicos (contrastando
com o peso eleitoral do SPD de 1,5 milhão de votos, que representavam
19,7% do total). Em 1900, já os haviam deixado para trás, seus afiliados
sindicais passavam a 600 mil e, em 1904, superavam 1 milhão.
No entanto, esse aumento vertiginoso, que continuará de forma
quase ininterrupta até 1914, coincidirá com o fim da “Grande Depressão”
(iniciada em 1871) e o começo de uma década de bonança capitalista cen-
trada na Europa, dinamizada pela espoliação colonial que configurará a
abertura da nova época imperialista76. No marco desse tipo de desenvol-
vimento e de uma baixa luta de classes, surgirá um novo ator, até então
desconhecido à escala que adquiriu: a burocracia operária, uma camada
privilegiada situada na cúpula dos setores mais acomodados do movi-
mento operário.
Demorará pouco para reclamar sua independência com relação ao
partido, o que ficou conhecido como a teoria da “neutralidade” dos sindi-
catos, mediante a qual se impugnava a ingerência política do SPD sobre
eles. A atividade da social-democracia no movimento operário foi se trans-
formando no território soberano dos dirigentes sindicais. Dessa forma,
a burocracia se converteria em um obstáculo adicional entre o partido e

75  Friedrich Engels, “Introducción de F. Engels a la edición de 1895”, op. cit.


76  Ver V. I. Lenin, “El imperialismo, etapa superior del capitalismo”, op. cit.
80 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

o movimento operário; entre a social-democracia e o que originalmente


seria seu centro de gravidade na luta de classes extraparlamentar.
Rosa Luxemburgo e Kautsky, cada um a seu modo, combateram
tanto as tendências ao acordo com os liberais de Bernstein e dos opor-
tunistas quanto a “neutralidade” dos sindicatos que pretendia a buro-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

cracia sindical encabeçada por Carl Legien. Tal é o bloco que de fato se
rompe em 1910, em torno do debate sobre as duas estratégias. No entan-
to, desde antes dessa ruptura, Luxemburgo será a primeira a comba-
ter o efeito mais profundo de ambas as tendências: a paulatina mudança
do centro de gravidade da atividade do partido para o parlamento (e
não a intervenção parlamentar ou eleitoral em si, como vulgarmente se
afirma). Daí as descontinuidades e continuidades que a nova formulação
de Kautsky da “estratégia de desgaste” realmente encerrava, em 1910.

A “suspensão da ação” e a “falsa direção da guerra”


Um dos grandes limites da análise de Lars Lih em sua tentativa de
extrair um “modelo” de partido do SPD é que, notavelmente, ele parece
ignorar as críticas elaboradas por Rosa Luxemburgo. Foi ela, junto com
Trótski77, quem mais cedo viu o fenômeno da burocracia que atraves-
sava a social-democracia. Em 1906, ela aponta como, da separação entre
a burocracia dos sindicatos e o partido,

surgiu a situação tão peculiar de que esse mesmo movimento sindical que,
por baixo, para a grande massa proletária, constitui um todo único com
a social-democracia, se rompe abertamente por cima, na superestrutura
administrativa, e se estabelece como uma grande potência independente.
Com isso, o movimento operário alemão assume a forma peculiar de uma
dupla pirâmide, cuja base e cujo corpo consistem em uma só massa sólida,
porém cujas pontas se encontram bem separadas.78

77  Trótski diz em 1906: “Os partidos socialistas europeus, especialmente o maior
dentre eles, o alemão, desenvolveram um conservadorismo próprio, que é tanto maior
quanto maiores são as massas abarcadas pelo socialismo e quanto mais alto é o grau de
organização e disciplina dessas massas. Consequentemente, a social-democracia, como or-
ganização, personificando a experiência política do proletariado, pode chegar a ser, em
um momento determinado, um obstáculo direto no caminho da disputa aberta entre os
operários e a reação burguesa” (León Trotsky, “Resultados y Perspectivas”, La Teoría de la
Revolución Permanente, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2000, p. 124-125).
78  Rosa Luxemburgo, “Huelga de masas, partido y sindicatos”, Obras escogidas,
Madrid, Ayuso, 1978, p. 79.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 81

Será o ano de 1905 a colocar à prova a direção social-democrata


dos sindicatos. A revolução russa daquele ano, ligada à piora relativa da
situação econômica, teve impacto no panorama então apaziguado da luta
de classes na Alemanha. O questionamento ao regime encabeçado pelo
kaiser Guilherme II e a luta pela reforma eleitoral apareceram com força
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

no Segundo Reich e, com fluxos e refluxos, se manteriam como constantes


até a queda do Império. Ao mesmo tempo, o movimento operário prota-
gonizava a onda grevista mais importante de todo o período pré-guerra,
com mais de 500 mil trabalhadores em greve, cujo centro foi a comba-
tiva greve de 200 mil mineiros (sindicalizados e não sindicalizados79) do
vale do Ruhr.
Nessa situação, a liderança sindical social-democrata mostraria aber-
tamente seu caráter. Em primeiro lugar, ao conseguir encerrar a greve
mineira sem que obtivesse suas reivindicações, contra a vontade da base
(a partir de promessas do governo que não se cumpririam80), o que era
uma ajuda fundamental para a sobrevivência do regime. Dividia o movi-
mento sindical com relação ao político, quando a greve mineira ameaça-
va paralisar toda a economia alemã (forçando de fato a greve geral) e
confluir com o movimento pela reforma eleitoral. E, em segundo lugar,
ao generalizar essa política no Congresso Sindical de Colônia, em maio
desse ano, quando por proposta de Carl Legien (que havia identifica-
do a greve geral com a “escuridão geral”) se vota o rechaço categóri-
co à utilização da greve política de massas, impugnando inclusive a sua
“propagação”, isto é, a sua propaganda ou discussão.
Do ponto de vista da estratégia, esse tipo de “suspensão” da ação
não é assimilável a nenhum dos fatores “normais” que a determinam.
Não é produto da diferença de “força” (como forma de combater) entre a
defesa e o ataque81, nem de outros fatores mais subjetivos, como “timidez

79  No início, em janeiro de 1905, os mineiros haviam saído em greve sem o consen-
timento das direções sindicais. Desde o começo foi selada a unidade espontânea, através
de um comitê de greve, entre os setores organizados nos sindicatos (os mais qualificados
e de melhores salários) e os não organizados (mais precários e de menor qualificação).
80  Em meados de 1905, o governo prussiano introduziu modificações a favor dos
trabalhadores na lei de mineração, entre elas, o teto de oito horas e meia para a jornada
de trabalho, para evitar que a luta operária (cada vez mais estendida nacionalmente) con-
fluísse com as mobilizações pela reforma eleitoral. A supervisão estatal das condições de
trabalho nas minas era uma demanda muito popular entre a massa da população. Uma
vez que a onda de greves e o movimento político de massas entraram em refluxo, em ja-
neiro de 1906, a câmara alta prussiana (uma das instituições mais questionadas pela mo-
bilização das massas) anulou aquelas modificações na lei. Colocava-se, assim, na prática,
a unificação entre a luta pela reforma eleitoral e a luta pelas condições de trabalho, e, com
ela, a greve política.
81  Iremos desenvolver essa diferença com profundidade nos próximos capítulos.
82 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

ou irresolução”82 de um Estado-Maior ou a “imperfeição das apreciações


e juízos humanos”83. Todos esse fatores atuam na “guerra real”84, fazen-
do com que, na grande maioria dos casos, os enfrentamentos se encon-
trem muito longe do esquema de um choque entre forças que escalam de
forma ininterrupta até a liquidação de um dos oponentes. Contudo, não
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

era esse o caso.


Como foi se demonstrando cada vez mais abertamente, no caso da
burocracia, tratava-se de uma força que, apesar de ter se desenvolvido de
forma “endógena” à classe operária, havia adquirido privilégios e interes-
ses próprios ligados à relação com o Estado e com os capitalistas. Como
consequência disso, a burocracia operária se transforma em expressão
material, no interior da classe trabalhadora, da ideologia burguesa e do
próprio Estado capitalista.
Desse ponto de vista, como esclarecia Clausewitz, um dos pressu-
postos da ação da estratégia é que o sujeito que a conduz adiante possui
um interesse unificado frente a seu oponente85. Do contrário, diz ele:

Não vamos considerar aqui se, seguindo uma falsa direção, [a guerra]
serve preferencialmente às ambições, ao interesses e à vaidade dos gover-
nantes, pois, em nenhum caso, a arte […] militar pode lhes dar lições.86

Essa consideração é fundamental, porque implica que a estratégia


(revolucionária) não tem nenhuma recomendação a dar à burocracia. Daí
esse enfrentamento de estratégias – diferentemente de todas as (inume-
ráveis) lutas de tendências no interior do movimento operário no século
XIX (como, por exemplo, a que teve lugar entre a tendência de Marx e
Engels e a corrente anarquista de Bakúnin no seio da I Internacional) –
já não estar colocado apenas em termos de luta ideológico-política, mas
também de enfrentamento entre forças materiais.

82  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 359.


83  Idem, p. 360.
84  Nela atuam “fatores moderadores” (a guerra não eclode subitamente, ela tem
uma história; tampouco é um ato único, mas transcorre no tempo – e no espaço; uma de-
rrota é reversível em melhores circunstâncias). A guerra conta com uma história política e
militar que a antecede e da qual não pode se desprender, que a explica e a determina. Por
sua vez, o transcurso da guerra está dominado por sua temporalidade.
85  No caso das “alianças”, como seu nome indica, se trata de sujeitos diferentes que
compartilham algum interesse comum.
86  V. I. Lenin, “La obra de Clausewitz De La Guerra. Extractos y Anotaciones”, em
Clausewitz en el pensamiento marxista, México, Pasado y Presente, 1979, p. 82.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 83

O debate de estratégias na social-democracia alemã é indissociável


dessa novidade histórica87. Com efeito, em meados de 1905, houve
uma forte oposição política dentro do partido contra a tentativa de Carl
Legien de “proibir”, de fato, a agitação ou a propaganda de greve políti-
ca de massas. Essa oposição ia de Rosa Luxemburgo, Kautsky e Bebel
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

– histórico fundador do SPD e seu principal dirigente – até o próprio


Bernstein. No entanto, uma vez tendo resistido ao embate político inter-
no e contido o processo grevista, em 1906 a burocracia sindical volta à
ofensiva no interior do partido.

A dinâmica de “tensão e repouso”


As importantes mudanças que fomos resumindo se constituem em
causas que modificam o emprego dos combates por parte da estratégia88.
A partir de determinadas respostas diante desses fenômenos, por volta
de 1905-1906, foi se consolidando uma dinâmica entre classe, partido e
direção que marcará a evolução da social-democracia na Alemanha. É
justamente essa dinâmica que Kautsky tenta “naturalizar” com a teoria
da estratégia de desgaste.
No congresso partidário de Mannheim (1906), se aprova o que
ficou conhecido como a “paridade” entre o partido e os sindicatos, pela
qual se estabelecia uma consulta prévia obrigatória da direção partidária
à direção sindical sobre os assuntos que lhes fossem comuns. Na práti-
ca, significava outorgar à burocracia sindical poder de veto sobre a polí-
tica do SPD.89

87  A estatização dos sindicatos era parte de um fenômeno mais geral, analisado
também por Robert Michels, Max Weber e o amplo espectro da sociologia burguesa.
“A expansão imperialista havia gerado setores privilegiados na classe operária dos países
imperialistas, a ‘aristocracia operária’, que se expressavam nas políticas oportunistas das
direções socialistas e trabalhistas, processo que vai se mostrar em toda a sua trágica mag-
nitude para o movimento operário no apoio a suas respectivas burguesias imperialistas
dado pela grande maioria dos partidos da Segunda Internacional, a política ‘social-chau-
vinista’ combatida sem quartel por Lênin. Nesta aristocracia operária, base social do re-
visionismo e das posições social-imperialistas na social-democracia alemã, se apoiavam
as expectativas de Weber de que os dirigentes social-democratas se manteriam ‘leais’ ao
Estado alemão ao final da guerra e se oporiam à saída revolucionária” (Christian Castillo
e Emilio Albamonte, “Imperialismo y degradación de la democracia burguesa”, Estrategia
Internacional, n. 16, inverno austral de 2000).
88  Ver Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 267.
89  Rosa Luxemburgo, que pouco antes do congresso havia escrito Greve de massas,
partido e sindicatos para intervir nessa discussão, sintetizará o conteúdo da “paridade” com
uma frase que atribui a um camponês (representando o sindicato) que diz a sua mulher
(o partido): “Quando estamos de acordo, você decide; quando não estejamos, serei eu”
(citado em Pierre Broué, Revolución en Alemania, op. cit., p. 16). Kautsky, mais conciliador,
84 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Estrategicamente, os termos do acordo de “paridade” também obs-


truíam o combate para construir frações militante-revolucionárias nos sin-
dicatos. Em seu lugar, deixarão colocada uma correlação de competição/
cooperação entre o aparato dos sindicatos e o aparato partidário-eleito-
ral. Nesses termos, a luta era claramente desfavorável para o partido (sua
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

proporção de afiliados, se comparada à dos sindicatos, era por volta de


1906 de 5 a 1 a favor desses últimos90). Assim, em 1905, Friedrich Ebert91
foi designado na direção central com o objetivo de pôr de pé um grande
aparato eleitoral nacional. No entanto, este se desenvolvera em paralelo
aos organismos do SPD e por volta de 1909 já tinha modificado defini-
tivamente a fisionomia da social-democracia, bem como articulado uma
nova burocracia, já não dos sindicatos, mas do partido.
A partir de 1906, a ação de ambas as burocracias (sindical e partidá-
ria) se tornou um fator cada vez mais determinante como “moderador”
do desenvolvimento da luta de classes. No entanto, a possibilidade de
uma suspensão do conflito nunca é permanente e raramente é total. Em
primeiro lugar, porque não depende exclusivamente de um dos oponen-
tes. Isso se traduz numa dinâmica que, como assinala Clausewitz, alter-
na, necessariamente, momentos de “tensão e repouso”:

Quando aparece uma suspensão do ato guerreiro, isto é, quando


nenhuma das duas partes busca algo positivo, resulta a tranquilidade, e
por conseguinte o equilíbrio; equilíbrio em seu sentido mais amplo, no
qual entram em conta não somente as forças físicas e morais em luta, mas
também toda espécie de circunstâncias e interesses. Tão logo uma das
duas partes se propõe novamente um fim positivo, e persegue ativamente
a sua consecução, ainda que seja apenas com preparativos, e tão logo o
lado contrário se opõe, surge uma tensão de forças; essa tensão dura até

propõe emendar a resolução de “paridade” que o próprio Bebel havia apresentado, acres-
centando “a absoluta necessidade” de que os sindicatos fossem “governados pelo espíri-
to da social-democracia” (citado em Carl Schorske, op. cit., p. 50). Com essa ressalva, é
aceita pelos delegados. Porém, claramente, nesse momento, já não se tratava de questões
do “espírito” e, sim, de forças materiais.
90  De acordo com o primeiro censo partidário (1906), o SPD contava com 384.327
filiados, enquanto os sindicatos social-democratas tinham 1.689.709. A relação com os
votos da social-democracia era que mais de 50% dos eleitores social-democratas estavam
afiliados em seus sindicatos, enquanto pouco menos de 9% estava no partido (ver Carl
Schorske, op. cit., p. 13).
91  Não sem razões, Carl Schorske chamará Ebert de “o Stálin da social-democra-
cia” (Idem, p. 124).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 85

que se chega à decisão, isto é, até que um dos adversários alcança ou re-
nuncia a seu objetivo.92

Essa indagação especulativa é muito importante como ponto de par-


tida para distinguir a “tensão” e o “repouso” do ataque e da defesa. Essas
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

duas últimas são formas de travar o combate e, em ambos os casos, “se


relacionam com o estado de crise em que se encontram as forças duran-
te a tensão e o movimento”93, enquanto que o estado de “repouso” é a
consequência de ter conquistado os objetivos ou de ter renunciado a eles.
No exemplo de 1905-1906, vimos que surge um processo de greves
que a burocracia sindical consegue conter parcialmente. Apesar disso,
os capitalistas realizam uma contraofensiva com uma onda simétrica de
locautes patronais94 para reverter a seu favor a correlação de forças. A
burocracia sindical pressionando o partido a se adaptar à nova situação.
Isto é, não passa simplesmente a uma posição defensiva (dentro do estado
de tensão), mas sim busca um novo equilíbrio a partir da renúncia aos
objetivos do movimento.
Essa dinâmica da relação entre a direção dos sindicatos, a direção
do partido e o próprio partido será um fator cada vez mais determinante,
assim como os mecanismos95 para impô-la. A atuação conjunta de ambas
as burocracias (sindical e partidária), a dinâmica de tensão e repouso
entre os ataques do Estado e da burguesia e a busca de novos equilíbrios
com base em uma renúncia progressiva aos objetivos irão se reproduzir
sistematicamente. Isso se verá na liquidação do caráter combativo das
tradicionais greves de Primeiro de Maio96, na proibição partidária de esta-

92  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 371.


93  Idem, p. 374.
94  Mais de um terço dos trabalhadores que protagonizam greves em 1905 o fazem
como resposta defensiva ante a ação patronal.
95  Esse processo de abandono dos objetivos, em toda essa etapa, incita uma luta in-
terna no partido. A burocracia sindical é incapaz de impor sua política diretamente no
congresso partidário, cujos militantes estão ligados ao processo de luta. Para isso, so-
bre a base dos fatos consumados (em 1906 o movimento estava em retrocesso), obtém
um acordo com a direção do partido. Este é apresentado no congresso do SPD como
um compromisso mais “radical” em suas considerações gerais (aceitação da greve como
meio, declaração do “espírito socialista” dos sindicatos), porém tanto adaptado às deman-
das da burocracia sindical quanto ao programa de ação (“paridade”, poder de veto sindi-
cal). Finalmente, a resolução se impõe e, com ela, um novo equilíbrio do partido com a
burguesia e o Estado.
96  Este fato ocorre a pedido da burocracia sindical, depois de essas greves começa-
rem a ser utilizadas mais ofensivamente pelo movimento operário e a burguesia contra-
atacar com locautes massivos.
86 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

belecer uma organização nacional juvenil social-democrata97, nas decla-


rações de aceitação (a partir de 1908-1909) da “defesa nacional” e do
colonialismo no Reichstag98.
A partir desse ângulo, podemos ver mais claramente os mecanismos
que a estratégia de desgaste envolve, entendida como a continuidade da
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

prática da social-democracia. Kautsky define em 1910 que na estratégia


de desgaste “seu chefe evita todo combate decisivo: busca manter o exér-
cito inimigo em constante alerta por meio de manobras de todo tipo, sem
lhe dar oportunidade de estimular suas tropas através de triunfos”99.
No entanto, o que vemos não é uma intenção de manter o exército
contrário “em constante alerta”, mas uma busca constante do equilíbrio
através da resignação de objetivos. Tampouco vemos que isso evita os
triunfos do inimigo, mas, sim, que se acumula uma série de derrotas sem
combate, já que, como assinala Clausewitz, a derrota “ocorre por efeito
do combate, tenha este de fato lugar na realidade ou seja apresentado por
um bando e não aceito pelo adversário”100.
Por último, outra característica da “estratégia de desgaste” apontada
por Kautsky é que ela “tende a desgastá-las [as forças inimigas] progres-
sivamente por meio da fustigação e de ameaças constantes, diminuindo
cada vez mais sua capacidade de resistência até chegar a paralisá-las”101.
Também esta foi se demonstrando como seu contrário: por meio da fus-
tigação da burguesia e do Estado, a social-democracia foi desgastando a
capacidade de resistência da classe operária e, em especial, de sua van-
guarda; e como veremos efetivamente o fez “até paralisá-las”.

O primeiro princípio da estratégia: superioridade no ponto decisivo


Tais processos profundos atravessavam a social-democracia no
momento em que vem à tona a polêmica sobre as duas estratégias entre
Karl Kautsky e Rosa Luxemburgo. Em 1910, essa última não fazia mais
do que reiterar sua afirmação de 1906, quando sustentava que:

97  A juventude expressava claramente o setor mais radical do SPD, razão pela qual
se intensificou a perseguição governamental contra ela e o receio da burocracia sindical
que a considerava uma organização “paralela”.
98  Depois de todos os partidos do regime concentrarem sua campanha eleitoral de
1907 na defesa do imperialismo alemão contra a social-democracia, apesar de sua base
eleitoral ter se mantido firme e de não ter conseguido que o SPD perdesse votos em ter-
mos absolutos, a direção do partido “retificará” sua posição. Retornaremos a esse pon-
to mais adiante.
99  Karl Kautsky, “Una nueva estrategia”, op. cit., p. 134.
100  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 261.
101  Karl Kautsky, “Una nueva estrategia”, op. cit., p. 134.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 87

Os sociais-democratas […] não podem nem se atrever a esperar de manei-


ra fatalista, com os braços cruzados, o advento da “situação revolucioná-
ria”, aquilo que, em toda mobilização popular espontânea, cai das nuvens.
Pelo contrário, agora, como sempre, devem acelerar o desenvolvimento
dos acontecimentos. Isso não se pode fazer, entretanto, levantando repen-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

tinamente a “consigna” de greve de massas ao acaso e em qualquer mo-


mento, mas, sim, antes de tudo, propagandeando para as camadas mais
amplas do proletariado o advento inevitável do período revolucionário.102

Tanto em 1905 como em 1910 essa colocação era considerada


pela burocracia sindical como uma declaração de guerra. No entanto, a
situação do partido havia se modificado qualitativamente naqueles cinco
anos. A burocracia sindical havia consolidado seu poder moldando a
política e o programa de ação do partido. Por outro lado, os sindicatos
social-democratas haviam chegado a rondar os 2 milhões de afiliados
(equivalente a dois terços dos votantes no SPD na última eleição). Isso
claramente não levará Rosa Luxemburgo a mudar de posição (ainda que,
tampouco, como veremos, a extrair dela todas as suas consequências),
mas, sim, a lutar por ela mais decididamente.
Será Kautsky que, opondo sua “estratégia de desgaste” às posições
de Luxemburgo sobre a greve geral que tanto irritavam a burocracia sin-
dical, assumirá um lugar novo na contenda. Como assinala em referência
à polêmica em uma carta de 16 de junho de 1910, dirigida a Riazánov:

Me irritou que minha influência entre os sindicalistas esteja paralisada


pelo fato de que fui confundido com Rosa. Me parece que, a fim de esta-
belecer boas relações entre os marxistas e os sindicalistas, é importante
mostrar que, sobre esse ponto, existe uma grande distância entre Rosa e
eu. Isso é para mim a questão mais importante.103

Mas com qual política Kautsky queria influenciar “os sindicalis-


tas”? Em julho de 1910, em razão do novo salto nas tendências do SPD
à adaptação ao regime, depois que os deputados social-democratas de
Baden votaram o orçamento do governo do Land104, Kautsky expressa
sua posição do seguinte modo:

102  Rosa Luxemburgo, “Huelga de masas, partido y sindicatos”, op. cit., p. 62.
103  Citado em Alessio Bosch, Daniel Constanza y Gaido, “El marxismo y la buro-
cracia sindical. La experiencia alemana (1898-1920)”, Revista Archivos N.° 1, septiembre de
2012, p. 141.
104  Referido aqui a orçamento no âmbito estadual. [N.E.B.].
88 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Quando obsevamos no mapa os grandes ducados de Baden e Luxemburgo,


encontramos que entre eles se encontra Tréveris, a cidade de Karl Marx. Se
daí se vai para a esquerda cruzando a fronteira, chega-se em Luxemburgo.
Se se vai em direção à direita, para além do Reno, chega-se em Baden, a
localização no mapa é um símbolo da situação da democracia hoje.105
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Com essa metáfora, Kautsky define a tarefa estratégica que se propõe


nesse momento: evitar ou adiar as tendências centrífugas que atraves-
savam a social-democracia alemã. No entanto, essas tendências expres-
savam forças materiais irreconciliáveis: a pressão à integração ao regime
burguês, por um lado, e o desenvolvimento da luta de classes, por outro.
Diante disso, a estratégia “centrista” que Kautsky foi adotando para a
orientação do partido nesses anos consistia em manter a independência
política, por um lado, e adiar o desenvolvimento da luta de classes, por
outro. Seu objetivo era manter a unidade do partido para conquistar uma
tal superioridade eleitoral que possibilitasse uma maioria parlamentar e,
através dela, a conquista de um governo da social-democracia.
Efetivamente, uma das tarefas fundamentais da estratégia para
Clausewitz é a conquista da “superioridade”, que em sua forma mais
abstrata é a “superioridade numérica”106. No entanto, não se tratava de
obter uma superioridade em geral, mas de “levar o maior número possí-
vel de tropas para o ponto decisivo do combate”107. Ou seja, a tarefa da
estratégia não consiste simplesmente em acumular forças, mas também
em concentrá-las no “ponto decisivo”. Este é para Clausewitz “o primei-
ro princípio da estratégia”108.
Para Kautsky, de acordo com a mudança de “centro de gravida-
de” do partido (da luta extraparlamentar para a parlamentar), aquele
ponto decisivo do combate em que a estratégia devia concentrar forças
era o parlamento e, por fim, a batalha rumo às eleições legislativas de
1912. Esse era o sentido mais profundo da caracterização de Rosa sobre
a estratégia de desgaste como Nichtsalsparliamentarismus (“nada mais que
parlamentarismo”).
Em 1911, em meio a um cenário de crescente polarização no inte-
rior da social-democracia109, conquista-se a unificação do partido e dos

105  Citado em Carl Schorske, op. cit., p. 185-186.


106  Cabe ressaltar que Clausewitz, como teórico das guerras do século XIX, centra-
va sua análise na guerra terrestre.
107  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 303.
108  Idem.
109  A sensação de estancamento do partido começa a percorrer suas fileiras. Uma
tremenda força, que chegava a quase um milhão de afiliados, aparecia, no entanto, como
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 89

sindicatos frente à batalha eleitoral. No entanto, não da forma como espe-


rava Kautsky, por detrás do centro político em torno de Bebel (e do
próprio Kautsky), mas cada vez mais na forma de uma aliança direta
entre Legien (burocracia sindical) e a burocracia partidária encabeçada
por Ebert (aliado político da ala revisionista/reformista), os quais, nesse
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

mesmo ano, começam a disputar organizativamente a direção com o pró-


prio Bebel110 (sem êxito até que em 1913 este falece e Ebert ocupa seu
lugar na copresidência do partido).
Sob essa correlação de forças, a social-democracia centra sua cam-
panha de 1912 na luta contra “a direita”, ou seja, contra o bloco “azul e
negro” dos conservadores com os católicos (Zentrum), cedendo aos libe-
rais111, sob a perspectiva de alcançar junto com os partidos burgueses
de oposição uma maioria parlamentar qualificada capaz de impor uma
democratização do regime.112 Os resultados da social-democracia foram

impotente dainte dos principais acontecimentos. Havia se negado a dar uma perspectiva
para as lutas que se desataram, em 1910, no movimento operário. Não havia conseguido
alcançar nenhum direito eleitoral por meios parlamentares, pois dependia dos partidos
burgueses que não estavam dispostos a impor a reforma. Na “Crise de Agadir” de 1911
(fruto do envio de um navio alemão a Marrocos controlado pela França), que quase an-
tecipa em três anos a guerra mundial, havia se mostrado impotente frente ao militarismo
alemão. Esse mal-estar também tocava a burocracia, passiva ante a crescente pressão das
patronais e dos tribunais sobre o movimento operário. Será um momento de avanço da
influência de Luxemburgo, Liebknecht e da esquerda do partido.
110  Ambas as burocracias unidas já se consideravam fortes o suficiente em 1911
para enfrentar o candidato apoiado por Bebel na eleição da estratégica copresidência do
partido. O candidato de Bebel, Hugo Haase, se impõe finalmente sobre Ebert. Porém
será um resultado provisório; dois anos depois, Ebert assumirá o assento de copresiden-
te do próprio Bebel.
111  Nessa mesma época, a intervenção dos bolcheviques nas eleições da IV Duma
na Rússia expressava uma perspectiva diametralmente diferente. Em seu balanço, Lênin
assinala: “Três campos se desenharam claramente: 1) As direitas estão com o governo
[…] 2) Os burgueses liberais – ‘progressistas’ e KDs, unidos a diversos grupos ‘nacionais’
– estão contra o governo e contra a revolução […] 3) O campo da democracia, no qual
só os social-democratas revolucionários, os antiliquidadores, unidos, organizados, des-
fraldaram firme e claramente a bandeira da revolução. Os trudoviques e nossos liquida-
dores flutuam entre o liberalismo e a democracia, entre a oposição legal e a revolução”
(V. I. Lenin, “La campaña para las elecciones a la IV Duma y las tareas de la socialde-
mocracia revolucionaria”, Obras completas, tomo XVIII, Buenos Aires, Cartago, 1960, p.
10). Para uma análise da política eleitoral de Lênin, ver August H. Nimtz, Lenin’s Electoral
Strategy from 1907 to the October Revolution of 1917. The Ballot, the Streets – or Both, New York,
Palgrave Macmillan, 2014.
112  No segundo turno, o SPD concretizou inclusive um acordo com os “progres-
sistas” que estabelecia a renúncia, em uma série de distritos, a toda propaganda própria,
o qual mergulhou o partido em uma enorme confusão (cf. Paul Frölich, Rosa Luxemburg.
Vida y obra, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2013, p. 208). Na prática,
90 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

espetaculares (ainda que não suficientes para conquistar por si só uma


reforma do regime), obtendo mais de 4,25 milhões de votos, com os cató-
licos (Zentrum) em segundo lugar com apenas 1,9 milhões.113
Sob o impacto do êxito eleitoral e da pressão para conquistar aliados
no parlamento para uma maioria qualificada, Kautsky começará a modi-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ficar abertamente sua posição política histórica de rechaço à aliança com


os liberais. Em seu artigo “O novo liberalismo e a nova classe média”,
sustenta que “todos os planos reacionários” tinham sido arruinados por
um liberalismo revitalizado que agora estava disposto a “lutar contra a
direita”114. No entanto, as ilusões duraram pouco. Na eleição do presiden-
te do Reichstag, a social-democracia esperava que se expressasse o “bloco
opositor”, que seus aliados lhe devolvessem os favores da campanha, e
assim obter a presidência. O Partido Liberal Nacional, porém, mudou
de posição e se negou a apoiar Scheidemann (SPD). Este foi derrota-
do, o que será o princípio do fim da ilusão sobre o “giro à esquerda” do
Reichstag.
Contra aquela política, Rosa Luxemburgo volta a insistir em reo-
rientar o “centro de gravidade” do partido. Propõe colocar o grande
peso parlamentar conquistado não em função de obter “cargos decora-
tivos”, mas, sim, de “uma ofensiva parlamentar” que servisse para “con-
quistar posições de poder real” entre as massas, em que o partido seria
“o porta-voz de uma grande agitação de massas em todo o Reich” por
um programa que retome a luta pela jornada de oito horas (que o SPD
havia abandonado de fato), pelo direito ao sufrágio igualitário na Prússia,
contra o imperialismo, contra o aumento do pão, etc.115 Defende que
“assim é que há que se demonstrar para a Internacional como o proleta-
riado pode explorar meios parlamentares para alcançar o objetivo revo-
lucionário final da social-democracia”116.
No entanto, o SPD (e Kautsky com ele) vai se tornando cada vez
mais subordinado à burguesia liberal, com seu correlato de impotência

não favoreceu o SPD nem sequer no número de cadeiras e, no entanto, foi fundamental
para contrapesar a tremenda crise em que estavam mergulhados os progressistas e os li-
berais de conjunto.
113  No entanto, essa diferença se reduzia drasticamente na quantidade de assentos:
110 para o SPD e 91 para o Zentrum. Todos os partidos perderam assentos – inclusive
os burgueses opositores que a social-democracia salvou de um retrocesso maior – exceto
a social-democracia, que mais do que duplicou seu espaço.
114  Citado em Carl Schorske, op. cit., p. 234.
115  Cf. Rosa Luxemburgo, “What Now?”, Marxists Internet Archive, 2004, dis-
ponível em 5/3/32017, em: https://www.marxists.org/archive/luxemburg/1912/02/05.htm.
116  Idem.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 91

e desmoralização117. O partido criado pelos esforços da classe operá-


ria durante décadas havia conquistado uma ampla superioridade com
relação ao resto das forças políticas, porém as havia concentrado longe
demais do “ponto decisivo do combate”. O “golpe concentrado de todas
as forças”, que deveria “dirigir-se contra este centro de gravidade do ini-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

migo”, finalmente atingiu o vazio118. A “estratégia de desgaste”, em seu


intento de adiar a luta buscando uma posição privilegiada para lutar pelo
poder, conduziria a social-democracia, pelas mãos da burocracia, para a
emboscada da I Guerra Mundial.

PARTE 3
ROSA LUXEMBURGO: A GREVE DE MASSAS
E AS NOVAS CONDIÇÕES PARA A ESTRATÉGIA

Kautsky, como dizíamos, havia tomado a teoria das duas estra-


tégias do historiador militar alemão Hans Delbrück. Trata-se de uma
apropriação sui generis na qual adota parcialmente seus termos, porém
desprovidos de seu método. A abordagem metodológica de Delbrück
consistia em que as mudanças na estratégia não estão determinadas
simplesmente pelas novas ideias, mas, sim, pelas modificações das con-
dições sócio-políticas estruturais de determinada época histórica119. Um

117  A impotência do partido era cada vez mais estrondosa ante sua imensa força
potencial, enquanto a recessão se aprofundava e com ela os ataques às massas, e a guer-
ra era cada vez mais iminente. Por volta de 1913 o sentido da flecha de crescimento da
social-democracia, pela primeira vez em anos, começa a mudar. A quantidade de afilia-
dos praticamente deixa de crescer, a imprensa partidária perde assinantes, as eleições
de 1913 na Prússia e em Baden mostram um retrocesso com relação às eleições gerais
do ano anterior. O descontentamento com o partido no movimento operário aumenta,
enquanto a direção do SPD mostra sua passividade perante os crescentes ataques do
regime e das patronais.
118  Carl von Clausewitz, De la guerra, op. cit., p. 556.
119  Isso era justamente o que mais havia impressionado Franz Mehring posi-
tivamente (o primeiro marxista que comentou e recomendou sua leitura) na obra de
Delbrück. De fato, foi Delbrück quem, como continuador de Clausewitz, aprofundou
nesses elementos dentro do pensamento militar prussiano. No entanto, Clausewitz ha-
via apontado essa questão; mais ainda, ela acaba por permear toda a sua obra, a qual, ao
contrário da de Delbrück, não é eminentemente histórica, mas teórica. Sabendo disso,
Clausewitz, em Da guerra, nutria esperanças de que algum historiador no futuro fosse en-
carar uma obra histórica como a que mais tarde realiazará Delbrück. O ponto de partida
do próprio autor de Da guerra era que: “é preciso atribuir os fatos novos que se manifes-
taram no domínio da arte militar muito menos às invenções e às ideias militares do que
92 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

dos pontos mais altos de sua monumental obra Geschichte der Kriegskunst
[História da arte da guerra] é sua análise da passagem da “estraté-
gia de desgaste” (Ermattungsstrategie) no século XVIII (Frederico II da
Prússia) à “estratégia de abatimento” (Niederwerfungstrategie) do século
XIX (Napoleão Bonaparte)120. As novas bases sociopolíticas criadas pela
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Revolução Francesa e a irrupção das massas na guerra serão as chaves


explicativas para as múltiplas modificações na tática que possibilitam a
mudança de estratégia121, para se propor não somente o objetivo limitado
de conquistas parciais, mas, também, o de “abater o inimigo”.
Em um sentido parecido, a irrupção das massas operárias, primeiro
com a onda de greves de massas que atravessam a Europa entre fins do
século XIX e inícios do século XX e, em especial, com a revolução russa
de 1905 – a primeira após 34 anos – marcam um ponto de inflexão his-
tórico no que diz respeito à estratégia revolucionária. Sendo mais fiéis ao
pensamento de Delbrück, a novidade não será a “estratégia de desgaste”,
como afirmava Kautsky, mas, sim, as renovadas condições da classe ope-
rária para levar adiante uma “estratégia de derrubada”.
Engels, longe da interpretação pacifista com a qual Kautsky fazia
eco, teve o grande acerto de antecipar essa mudança. Em 1895, escrevia
a respeito de todas as revoluções anteriores: “prescindindo do conteú-
do concreto de cada caso, a forma comum a todas essas revoluções era a
de serem revoluções minoritárias. Mesmo quando a maioria cooperava

a uma mudança da situação e das relações sociais”. Esta frase, não casualmente, está co-
piada e destacada por Lênin em seus cadernos de estudo sobre Clausewitz, à margem da
qual escreve: “N. B. Justo!” (V. I. Lenin, “La obra de Clausewitz De La guerra. Extractos
y Anotaciones”, em V. I. Lenin; Clemente Ancona; Otto Braun e outros: Clausewitz en el
pensamiento marxista, op. cit., p. 72).
120  Cabe esclarecer que o volume IV da obra de Delbrück sobre o alvorecer da gue-
rra moderna ao qual fazemos referência foi publicado apenas em 1920. Os três primeiros
apareceram em 1900, 1901 e 1907, respectivamente.
121  Para ilustrar essa relação, podemos ver em Delbrück, por exemplo, como a
maior convicção dos combatentes (defesa das bases da revolução), diferentemente dos
exércitos mercenários, permite a dispersão do exército no terreno para obter provisões,
sem maiores deserções, diminuindo drasticamente os mantimentos que a tropa tem de
transportar. No mesmo sentido vai a abolição dos privilégios dos nobres e a possibilida-
de de prescindir de toda a sua parafernália. Ambos os elementos permitem estrategica-
mente acelerar as marchas do exército a uma velocidade desconhecida na época, questão
fundamental para que Napoleão pudesse implementar uma “estratégia de abatimento”.
No mesmo sentido, Delbrück analisa a substituição das linhas pelas colunas, o que leva
a uma menor debilidade nos flancos; as novas formações combinam as vantagens táticas
da luta “em formação” do século XVIII com a bravura individual típica das guerras da
antiguidade. Também a maior importância adquirida pela artilharia (desprezada anterior-
mente pela nobreza), na qual o pessoal é militarizado, os canhões passam a ser levados a
cavalo, o que lhes dá mobilidade na batalha (ver Hans Delbrück, op. cit.).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 93

com ela, o fazia – consciente ou inconscientemente – a serviço de uma


minoria”122. Com isso, fazia referência não apenas às revoluções burgue-
sas, mas inclusive à de 1848123 e, à sua maneira, também à Comuna
de Paris124. A nova época tornava atual a perspectiva da tomada do
poder pela classe operária, a condição segundo Engels é: “faz-se neces-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

sário intervir diretamente nas massas, é preciso que já tenham com-


preendido por si mesmas do que se trata, por que dão seu sangue e
sua vida”125.
O século XX mostrou renovados fundamentos para isso, muito
além dos vistos por Engels. Por um lado, uma atividade do movimen-
to operário com métodos próprios (greve de massas) em níveis inéditos,
ligada a uma maior fortaleza objetiva, adquirida por sua posição em uma
estrutura capitalista muito mais articulada em torno da grande indústria
e dos grandes serviços. Por outro, a exibição de uma capacidade de auto-
organização qualitativamente superior à de todas as classes oprimidas
da história anterior, consolidada no nascimento dos sovietes (do russo,
“conselhos”).
Tudo isso implicava uma mudança fundamental na relação entre
classe, partido e direção, diferenciando-a ainda mais da “estranha trinda-
de” que víamos com Clausewitz (impulso elementar do “povo”, cálculo
estratégico “do exército e dos generais”, e política do “governo”). Já indi-
camos as importantes diferenças em relação ao “governo/liderança” em
geral e uma direção revolucionária; no entanto, a maior diferença, que é
em última instância o que modifica todas as demais relações, quando nos
referimos à classe operária moderna e, em especial, à do século XX, é a
que encontramos entre o sujeito “povo” e a “classe”.
Como ora dissemos, diversos intérpretes de Clausewitz propuseram
destituir o conceito de “povo” de seu conteúdo sociológico para substi-
tuí-lo por um mais genérico, como, por exemplo, “base popular”; porém,

122  Friedrich Engels, “Introducción de F. Engels a la edición de 1895”, op. cit.


123  Em relação a 1848, diz ele: “esses traços pareciam também aplicáveis às lutas do
proletariado por sua emancipação; tanto mais quanto, precisamente em 1848, eram pou-
cos os que compreendiam mais ou menos em que sentido era preciso buscar essa emanci-
pação. Mesmo em Paris, as próprias massas proletárias ignoravam em absoluto, inclusive
depois do triunfo, qual o caminho que deviam seguir. E, no entanto, o movimento estava
ali, instintivo, espontâneo, impossível de conter.” (Idem).
124  Sobre a Comuna de Paris de 1871, afirma: “A França abandonou Paris à pró-
pria sorte, contemplando como ela sangrava sob as balas de Mac-Mahon; de outro lado,
a Comuna se consumiu nas disputas estéreis entre os dois partidos em que se dividia, o
dos blanquistas (maioria) e o dos proudhonianos (minoria), nenhum dos quais sabia o
que se devia fazer. E tão estéril quanto a surpresa em 1848, foi a vitória ganha de presen-
te em 1871.” (Idem).
125  Idem.
94 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

justamente, a mudança de termos não faz mais do que ressaltar a dife-


rença que queremos marcar. Não nos referimos simplesmente à distinção
sociológica que existe entre “povo” e “classe operária”, mas ao papel fun-
damentalmente diferente em termos estratégicos que se desprende histo-
ricamente dela.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Clausewitz se referiu às bases da Revolução Francesa como funda-


mento para a mudança de época no campo militar e da potência do exér-
cito napoleônico (Grande Armée). A conceituação sobre a irrupção do povo
“com peso próprio” na guerra o distinguiu qualitativamente de seus con-
temporâneos. No entanto, nunca ultrapassou o quadro de uma reflexão
do “povo” como uma “massa de manobra” capaz de desenvolver uma
“intenção hostil”126 impulsionada pela política do governo.
Essa é uma concepção que, como já apontava Engels em 1895, não
é pertinente para pensar a revolução e o papel da classe operária, ainda
mais a partir de fins do século XX. Contra a concepção de classe operá-
ria como “massa de manobra” é que Rosa Luxemburgo insistiu, mais de
uma vez e com completa razão, à ala revisionista do SPD, à burocracia
dos sindicatos, inclusive a Bebel (1906), e, a partir de 1910, contra o pró-
prio Kautsky. A revolução russa de 1905 era a comprovação definitiva de
que uma direção não podia se relacionar daquela forma com a classe ope-
rária, sob o risco de perder seu caráter revolucionário.

Posição estratégica e liberdade de ação


O espetacular desenvolvimento das organizações da II Internacional
em fins do século XIX e inícios do século XX não será mais do que a
ponta do iceberg de um processo muito maior. Primeiro, serão as greves
na Inglaterra em 1897, na França em 1898, depois a greve geral na
Bélgica pela conquista do sufrágio universal e igualitário em 1902, segui-
da pelas greves na Holanda em 1903, na Rússia em 1902, 1903 e 1904,
na Itália em 1904 e, finalmente, a greve geral e o surgimento do “Soviete”
(Conselho de Deputados Operários) na revolução russa de 1905.
Um produto genuíno da tentativa de dar conta dessas mudanças
profundas que afetavam a tática e, através dela, a estratégia, será o debate

126  “Não se pode conceber” – diz Clausewitz – “o ódio cruel e arraigado, próxi-
mo do instinto, sem intenção hostil; pelo contrário, há muitos propósitos hostis que não
vêm acompanhados de qualquer inimizade do sentimento, ou, pelo menos, não de ne-
nhuma que já não existisse antes. […] Se a guerra é um ato de poder, pertence necessa-
riamente ao ânimo. Se não sai dele, vai, no entanto, em sua direção, e este não depende,
mais ou menos, de um grau de civilização, mas, sim, da importância dos interesses que se
enfrentam e da persistência de sua incompatibilidade” (Carl von Clausewitz, De la guer-
ra, tomo I, op. cit.).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 95

sobre a “greve política de massas”127. A polêmica de 1910 sobre as duas


estratégias não é mais do que o ponto culminante daquelas discussões
que vinham desde 1896128. Entre fins do século XIX e inícios do XX, a
classe operária não só havia aumentado exponencialmente seu número,
como se encontrava estrategicamente situada no coração de uma pro-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

dução capitalista altamente concentrada; um poder muito maior do que


havia tido no século anterior. No Ocidente, a Alemanha era sem dúvida
um dos exemplos mais espetaculares129, no Oriente – com características
e escala muito diferentes – o era a Rússia130.
Podemos denominar este elemento como “posição estratégica” da
classe operária. Esta é definida pelo historiador John Womack131 em seu
livro Posición estratégica y fuerza obrera, que assinala: “‘dentro do processo
produtivo’, suas ‘posições estratégicas’ [são] quaisquer que permitam a
alguns operários determinar a produção de muitos outros, seja dentro de

127  Até então, o debate sobre a greve geral havia estado determinado pela luta de
estratégias com o anarquismo, que a considerava como “o” meio (mais ou menos “míti-
co” conforme o autor) para desencadear a revolução. No interior da I Internacional, os
bakuninistas contrapunham a greve geral à necessidade da luta política cotidiana da clas-
se operária, à qual se opunham. Como afirmara Rosa Luxemburgo: “O essencial do anar-
quismo é a concepção abstrata, a-histórica, da greve de massas e das condições em que se
trava, em geral, a luta proletária” (Rosa Luxemburgo, “Huelga de masas, partido y sin-
dicatos”, op. cit., p. 47). Eram justamente essas condições históricas que haviam muda-
do bruscamente.
128  A primeira intervenção, quase antecipatória, escrita por Parvus, remonta a 1896,
quando se fundamenta a utilização da greve geral política como arma de luta da classe
operária em uma série de artigos publicados em Die Neue Zeit sob o título de “Golpe de
Estado e greve política de massas”. Ofuscada em um primeiro momento pelo “Bernstein-
Debatte”, com os anos, ao calor da onda de importantes greves de massas, a polêmica
no interior do marxismo incitará a intervenção de vários dos principais dirigentes da II
Internacional. Intervirão nele Vandervelde, Mehring, o próprio Bernstein, e obviamente
também Luxemburgo e Kautsky, entre muitos outros.
129  Na Alemanha, a população urbana havia passado de um terço do total, em
1871, a dois terços, em 1910, em paralelo a um desenvolvimento industrial meteórico que
logo a situará no mesmo nível da Grã-Bretanha.
130  Na Rússia, terra de contrastes, como explica Trótski com sua teoria do desen-
volvimento desigual e combinado, a classe operária, concentrada em poucas cidades e
minoritária no interior de uma população eminentemente camponesa, havia tido um desen-
volvimento correspondente a uma indústria avançada que pouco tinha que invejar à alemã.
Ver León Trotsky, Historia de la Revolución rusa, tomo I, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP
León Trotsky, 2017 (Obras Escogidas 11, coeditadas com o Museo Casa León Trotsky).
131  Para sua definição, retomará as elaborações de John Dunlop, secretário do
Trabalho durante o governo de Ford nos EUA. É considerado um dos principais especia-
listas em “gestão trabalhista” (isto é, em como enfrentar os sindicatos) durante o período
posterior à II Guerra Mundial.
96 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

uma companhia, seja em toda a economia”132. Trata-se de um elemento


único e distintivo da força operária133. Dessa forma, Womack busca con-
ceber as posições que, tecnicamente, são capazes de paralisar o maior
número de outras áreas na cadeia do processo produtivo134. Sua aborda-
gem conceitual, no entanto, está circunscrita às relações operário-patro-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

nais, porém não é difícil ver as implicações quanto ao poder da classe


operária para a luta de conjunto contra os capitalistas e seu Estado.
A revolução russa de 1905 e todo o processo grevista que se deu
antes e durante o seu desenvolvimento veio a elevar a um novo pata-
mar histórico essa força operária135. Rosa Luxemburgo, junto com Leon
Trótski, foi uma das dirigentes da social-democracia internacional que
deu conta de maneira mais acabada do 1905 russo como irrupção das
massas operárias no governo de seus próprios destinos. Levou em pri-
meira mão ao proletariado ocidental – ela conhecia o idioma russo, ao
contrário da maioria dos dirigentes do SPD – a reflexão sobre a primei-
ra revolução do século com seu trabalho Greve de massas, partido e sindica-
tos, escrito no calor dos acontecimentos.
Ali dará conta de como, através dos movimentos grevistas, a
classe operária com seus métodos vai impondo a tônica de todo o pro-
cesso a partir de suas posições estratégicas desde muito antes da revo-
lução. Em 1902, com a greve de trabalhadores das oficinas ferroviárias
de Rostov, que começa a se estender pelo ramo do Vladicáucaso até
Tikhoriétsk, e dali, em 1903, em direção a todo o sul da Rússia e às fábri-
cas de Baku, em direção ao oeste até Odessa, Nikolaev e Ekaterinoslav,
e depois em direção ao norte até Kiev. Ou, em janeiro de 1905, a partir
da importância da greve da fábrica Putílov de São Petersburgo136, posição

132  John Jr. Womack, Posición estratégica y fuerza obrera, México, FCE, 2007, p. 50.
133  “Todas as demais forças” – diz Womack – ”não importando se seu sentido é
cultural, moral, social, comercial, político, legal, religioso ou ideológico, são as que todas
as classes podem ter (ou não), qualquer classe”. E agrega: “Se desaparece a força operá-
ria […] abre-se um vazio que nenhuma outra força (a não ser a operária) pode preencher.
[…] Somente a negação operária tem tal força definidora, ao mesmo tempo crítica e deci-
siva” (Idem, p. 51-52). Trata-se, evidentemente, de um elemento fundamental a destacar
quanto à proliferação das abordagens de tipo pós-marxista, como a de Ernesto Laclau e
Chantal Mouffe, que fazem uma caricatura do lugar da classe operária na estratégia mar-
xista sob a denominação de “essencialismo da classe operária”.
134  A “posição estratégica”, assim entendida, em princípio não implica níveis especí-
ficos de qualificação, nem de tamanho de estabelecimentos ou de setores.
135  A Rússia, apesar de seu atraso, era o exemplo oriental de desenvolvimento ver-
tiginoso da classe operária. Seu caráter minoritário não fará mais do que ressaltar o po-
tencial que a sua posição estratégica lhe outorgava.
136  São Petersburgo, fundada em 1703 pelo tsar Pedro, o Grande, teve seu nome
mudado em 1914 para Petrogrado; a partir de 1924, será rebatizada, dessa vez, como
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 97

estratégica na indústria para o início da revolução137. Em ambas as análi-


ses, Luxemburgo mostra o papel das posições estratégicas na extensão da
greve que vai se gestando como greve geral. Apesar disso, John Womack
a critica por não reconhecer o papel ainda maior que as posições estraté-
gicas teriam desempenhado em si mesmas. As análises de Luxemburgo,
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

segundo Womack

implicam claramente uma explicação industrial, ainda que não técnica.


No entanto […], se negou a reconhecer isso e alegou, em troca, “um le-
vantamento espontâneo das massas” […]. Ao colapsar o industrial no po-
lítico, interpretou erroneamente a ação industrial estratégica de possível
importância política como ação impulsiva, inevitável e exclusivamente
política.138

No entanto, onde Womack vê uma debilidade de Rosa Luxemburgo


é justamente onde residem os pontos mais fortes de sua reflexão, a saber:
a articulação entre o impulso espontâneo das massas, a utilização das
posições estratégicas e a evolução do movimento, em sua experiência,
em direção a uma perspectiva política. Contra a ideia vulgar do “puro
espontaneísmo” de Luxemburgo, ela põe o acento constantemente na
sinergia entre a agitação da social-democracia russa e a ação espontâ-
nea das massas. Esses apontamentos não são, é claro, ingênuos; apon-
tam diretamente contra a nova burocracia sindical alemã e o crescente
conservadorismo do SPD. Precisamente, no 1905 alemão, a derrota da
greve dos mineiros do Ruhr havia demonstrado que a pura posição estra-
tégica, confrontada com os outros dois elementos (impulso espontâneo
e perspectiva política), podia deixar de ser uma “força operária” para se
converter em seu contrário. A greve mineira ameaçava paralisar a eco-
nomia do país139, porém a ação focalizada da burocracia sindical140 e do
governo sobre esta “posição estratégica” foi utilizada como alavanca para

Leningrado; finalmente, em 1991, volta a ser denominada São Petersburgo.


137  Cf. Rosa Luxemburgo, “Huelga de masas, partido y sindicatos”, op. cit.
138  John Jr. Womack, op. cit., p. 108-109.
139  Seu influxo foi chave para a proliferação de greves em outros setores com me-
nor “poder de fogo”, produzindo a maior onda grevista que a Alemanha havia conheci-
do até então.
140  A nova burocracia dos Sindicatos Livres (social-democratas), em bloco com a
do restante dos sindicatos (católicos, liberais e de operários poloneses), conseguiu vencer
a resistência entre os operários sindicalizados que queriam continuar a greve, separá-los
dos não organizados e pôr um fim a ela com a expectativa de obter concessões governa-
mentais para o setor.
98 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

frear o movimento grevista de conjunto e evitar que adquirisse um cará-


ter político.
Essa dinâmica (inversa ao exemplo russo dos ferroviários de Rostov
de 1902, quando confluíram a ação dos trabalhadores e da social-demo-
cracia141) mostra a limitação de qualquer visão que tente conceber a
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

força operária das “posições estratégicas” isolada da ação independen-


te da base e da política de sua direção. Uma coisa é que cada uma das
diferentes causas que modificam o emprego dos combates (nesse caso,
a “posição estratégica”) possam ser analisadas teoricamente em separa-
do, e outra é pensar que se possam separar ou isolar na realidade; essa é
uma das maiores debilidades da análise de Womack a respeito142. Como
afirma Clausewitz:

seria um pensamento infeliz querer dissertar sobre estratégia segundo


o valor desses elementos isolados, pois na guerra eles se apresentam na
maior parte das vezes de forma múltipla e intimamente ligados entre si;
nos perderíamos em vão ao tentar erguer sobre esse fundamento abstrato
o arco de fato do mundo real.143

As “posições estratégicas”, se fundam a força da classe operária, não


correspondem, todavia, imediatamente à classe operária de conjunto,
mas apenas aos setores dela que as detêm. Dessa forma, por seu “poder
de fogo” também são mais capazes de obter concessões particulares da

141  “As disputas sobre os salários a pagar nas oficinas da Ferrovia do Vladicáucaso
deram impulso a esse movimento. Como a administração buscava diminuir os salários, o
comitê do Don da social-democracia lançou uma declaração chamando à greve pelas se-
guintes reivindicações: jornada de nove horas, aumento de salários, abolição das multas,
destituição dos engenheiros mais detestados, etc. Participaram da greve unidades ferro-
viárias inteiras. Em seguida, as demais indústrias se uniram, e em um momento imperou
em Rostov uma situação nunca vista até então: todos os centros industriais estavam para-
lisados” (Rosa Luxemburgo, “Huelga de masas, partido y sindicatos”, op. cit.).
142  Santiago Aguiar empreende uma abordagem nesse sentido. Assinala que:
“Quando o autor cita o caso do Partido Comunista dos Estados Unidos nas décadas de
1920 e 1930 e sua figura “J. Peters”, que conseguiu sim estabelecer as posições estratégi-
cas da classe operária estadunidense desses anos, fica um vazio na explicação de por que
se entrou posteriormente em um lento processo de retrocesso. A explicação para este va-
zio pode ser aprofundada com o rechaço do autor a tratar, além das “relações técnicas de
produção”, das relações sociais de produção e da política (que, na minha visão, é o âmbi-
to de expressão da estratégia), porque, com este rechaço, não se debilita um conceito que
resultaria essencial elaborar e sobre o qual trabalhar?” (Santiago Aguiar, “El concepto de
‘posición estratégica’”, Estudios del Trabajo, n. 12, 2009).
143  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 268.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 99

burguesia144. Sobre essa base, com o imperialismo, como assinala Lênin,


desenvolve-se a “aristocracia operária”. Esse corporativismo é o funda-
mento mais estável – para além da compra direta ou corrupção dos diri-
gentes – da fragmentação (e diferenciação social) do proletariado com a
qual a burocracia sindical opera. Do outro lado, ficam os setores da classe
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

que não detêm posições estratégicas, e por fim com menor capacidade de
negociação e organização, o que os torna, por um lado, mais fracos, e,
por outro, potencialmente mais explosivos. Essa divisão145 é justamente a
negação da “força operária”.
É no contraponto entre luta sindical e luta política, entre setores
organizados e desorganizados, entre a ação de massas e suas direções,
que se mostra o valor concreto das posições estratégicas e, em definiti-
vo, o da “força operária” de conjunto, ou seja, sua força estratégica pro-
priamente dita. Aquele “colapsar do industrial no político” que Womack
atribui a Luxemburgo é, sem dúvida, um dos seus grandes acertos, não
somente em sua análise da Rússia, mas, sobretudo, em seus combates no
interior da social-democracia alemã.
Qual foi, então, o efeito dessa novidade tática da greve de massas do
ponto de vista estratégico? Um dos principais está relacionado com um
elemento fundamental para o trabalho da estratégia, a saber: a liberdade
de ação. Não é por acaso que, para um especialista em guerras contrarre-
volucionárias como o general francês André Beaufre, a “essência da estra-
tégia é a luta pela liberdade de ação”146. Trata-se, nem mais nem menos,
da “lei da guerra que busca manter a iniciativa a fim de poder atuar com
inteira independência, sem se deixar subordinar pelo inimigo”147. A greve
geral política não cria a situação revolucionária; porém, uma vez nela,

144  Kautsky, em 1905, quando ainda era defensor da ação operária, assinala os ter-
mos desta divisão em seu balanço da greve do Ruhr: “A maioria em posição de se sindi-
calizar são os operários qualificados, que podem pagar contribuições sindicais elevadas
[…]. Quanto mais se desce na escala das categorias de operários não qualificados, maior
é a competição entre eles, mais fácil é substituí-los por outros à procura de trabalho – ar-
tesãos desclassados, operários agrícolas, estrangeiros, mulheres, crianças –, mais baixos
são os salários, mais necessária é a organização sindical, porém mais difícil também é
enfrentar os obstáculos insuperáveis em comparação com a grande massa de operários
sem nenhuma qualificação” (Karl Kautsky, “Las lecciones de la huelga de los mineros”,
Marxists Internet Archive, 2006, disponível em 5/3/2017 em: https://www.marxists.org/
espanol/kautsky/1905/marzo08.htm).
145  A este aspecto retornaremos nos próximos capítulos em torno da tática de fren-
te única operária desenvolvida pela III Internacional.
146  André Beaufre, Introducción a la estrategia, Buenos Aires, Editorial Struhart & Cía.,
1982, p. 131.
147  Oscar Kaplan, Diccionario militar, Santiago de Chile, Instituto Geográfico Militar,
1944, p. 391.
100 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

amplia exponencialmente a liberdade de ação do proletariado ao tempo


em que restringe a liberdade de ação do inimigo de classe.
Sobre a base da experiência de 1905, Rosa Luxemburgo destaca jus-
tamente esse papel quando assinala que:
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

As greves políticas e as econômicas, as greves de massas e as parciais, as


greves de protesto e as de luta, as greves gerais de determinados ramos
da indústria e as greves gerais em determinadas cidades, as pacíficas lutas
salariais e os massacres nas ruas, os combates nas barricadas; todas se en-
trecruzam, correm paralelas, se encontram, se interpenetram e se sobre-
põem; é uma maré mutante de fenômenos em incessante movimento. E a
lei que rege o movimento desses fenômenos é clara: não reside na própria
greve de massas nem nos seus detalhes técnicos, mas, sim, nas proporções
políticas e sociais das forças da revolução.148

Dessa forma, a classe operária imprimiu sua marca ao movimento


revolucionário de conjunto. Mostrando sua fortaleza e iniciativa, o pro-
letariado criou as condições para se postular como dirigente da revo-
lução149. No entanto, no debate das duas estratégias de 1910, Kautsky
considera essa dinâmica uma expressão do atraso russo (não a considera-
va assim em 1905), contraposta à concepção de greve geral que poderia
ser aplicada, segundo ele, na Alemanha, um país desenvolvido com liber-
dades democráticas e um proletariado muito mais organizado150:

Se em nosso meio uma ação passa a atuar como um greve de massas


política […], então desde o começo deve se desencadear de acordo com
um plano e um objetivo como greve política e deve manter esse caráter
até o final.151

Rosa Luxemburgo critica essa colocação de Kautsky, por querer


limitar a tática da greve de massas à ideia de uma greve pacífica, planifica-
da pela social-democracia e pelos sindicatos para exigir algo do governo.

148  Rosa Luxemburgo, “Huelga de masas, partido y sindicatos”, op. cit.


149  Nesse sentido, Trótski aponta a potencialidade histórica do proletariado que a
revolução de 1905 mostrava: “A greve de outubro foi a demonstração da hegemonia pro-
letária na revolução burguesa e, ao mesmo tempo, da hegemonia da cidade sobre um país
de camponeses” (León Trotsky, 1905, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP León Trotsky,
2006, p. 93).
150  Kautsky tende a generalizar estas condições para a “Europa ocidental”. Sobre
esta distinção entre Oriente e Ocidente que Kautsky esboça, retornaremos em detalhe
nos próximos capítulos.
151  Karl Kautsky, “Una nueva estrategia”, op. cit., p. 213.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 101

Rosa a denomina de greve de massas “de protesto”. A partir disso, desen-


volve o conceito de greve de massas “de luta” ou “combativa”, da qual
a “greve de protesto” pode ser um aspecto parcial, que consiste, porém,
em um processo muito mais amplo que combina a radicalização de seto-
res de massas com a ação do partido, para impulsioná-la e dar-lhe dire-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ção política. É a agitação propagandística desses tipos de ação no período


pré-revolucionário o que Rosa considera chave na Alemanha, já que sua
realização prática não depende apenas do partido.
Por seu lado, Kautsky também esgrime um argumento diretamente
estratégico em sua crítica a Luxemburgo:

Também o proletariado russo tinha que chegar finalmente ao esgotamen-


to pelas greves recorrentes, e chegou o momento em que se encontrou
diante do dilema de triunfar de forma decisiva ou ser derrotado por um
longo período. […] À medida que o período das greves russas adquiria
o caráter de uma verdadeira greve política de massas, tanto mais perto
estava o momento em que a questão seria: vencer ou afundar.152

Ante a isso, Rosa Luxemburgo responde a Kautsky que ele, em rea-


lidade, havia abandonado de conjunto a perspectiva de enfrentamentos
sérios na luta de classes em favor do parlamentarismo e, como vimos, ela
tinha razão. No entanto, ela não responde a essa crítica específica. Ocorre
que, como dizíamos, a greve geral combativa tem a grande função de
dar ao proletariado uma inédita liberdade de ação, porém esta (daí seu
conceito) define somente o espaço onde uma direção pode se mover. Esse
espaço pode ser mais amplo ou mais estreito, mas, por si mesmo, não
resolve o resultado do enfrentamento.
Trótski coloca esse problema de forma muito clara em suas con-
clusões da revolução de 1905:

Na luta, é extremamente importante debilitar o adversário; é a função da


greve. Ao mesmo tempo, ela põe de pé o exército da revolução. Porém […]
é preciso, ademais, arrancar o poder daqueles que o detêm e transpassá-
lo à revolução. Essa é a tarefa essencial. A greve geral cria as condições
necessárias para que esse trabalho seja executado, porém é, em si mesma,
insuficiente para levá-lo a cabo.153

152  Idem.
153  León Trotsky, 1905, op. cit., p. 97. Em escritos posteriores, Trótski afirma:
“Existem situações em que a greve geral carrega o risco de debilitar mais os operá-
rios do que os seus inimigos diretos. A greve deve ser um elemento importante do cál-
culo estratégico, porém não é uma panaceia na qual toda a estratégia possa se afogar.
Habitualmente, a greve geral é o instrumento de luta do mais fraco contra o mais forte,
102 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Esta é a tarefa da insurreição, cuja ausência foi uma das princi-


pais debilidades de todo o debate das duas estratégias, incluída Rosa
Luxemburgo154. E, ligada a esta, os grandes problemas que, do ponto de
vista do enfrentamento militar, devem ser encarados junto com o desen-
volvimento da própria greve geral, a saber: a autodefesa no embate com
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

o Estado e os bandos paramilitares, a provisão de armas ao proletariado,


a constituição da milícia operária, entre outros. A esses temas retornare-
mos mais detalhadamente no próximo capítulo.

A concentração de forças e o problema das reservas estratégicas


Entre as novidades da nova época, além do fortalecimento da
“posição estratégica” da classe operária, a utilização do método da greve
de massas e sua consequência estratégica na conquista de uma imponen-
te liberdade de ação, assinalamos o surgimento dos sovietes (conselhos)
como expressão de uma inédita capacidade de auto-organização da classe
operária. Estes colocam a possibilidade de abordar em um novo pata-
mar outra questão fundamental para a estratégia: a reunião de forças no
tempo e, com ela, o problema das reservas estratégicas. Trata-se de um
dos grandes problemas que a social-democracia alemã de princípios do
século passado nunca pôde resolver.

A melhor estratégia – diz Clausewitz – consiste em ser sempre suficiente-


mente forte, primeiro em um sentido geral, e em seguida no ponto deci-
sivo. Portanto, à parte o esforço de criar as forças suficientes, e que não

ou mais exatamente daquele que no começo da luta se sente mais fraco contra o que se
considera mais forte: quando, pessoalmente, eu não posso utilizar um instrumento im-
portante, tento evitar ao menos que meu inimigo se sirva dele; se não posso disparar com
um cano, o tirarei do meu perseguidor. Essa é a ‘ideia’ da Greve Geral” (León Trotsky,
“La estrategia de las huelgas”, Los sindicatos y las tareas de los revolucionarios, Buenos Aires,
Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2010, p. 84).
154  Trótski afirmará, anos depois, a respeito de Luxemburgo: “Ela se formou, por
assim dizer, na luta contra o aparato burocrático da social-democracia e dos sindica-
tos alemães. […] Diante disso, não via mais saída nem salvação que não fosse um irre-
sistível impulso das massas […] A greve geral revolucionária, ao transbordar todos os
limites da sociedade burguesa, tinha se tornado para Rosa Luxemburgo sinônimo de re-
volução proletária. Não obstante, […] para apoderar-se do mando, é necessário orga-
nizar a insurreição apoiando-se na greve geral. Toda a evolução de Rosa Luxemburgo
faz pensar que ela teria acabado admitindo isso” (León Trotsky, “Los problemas de la
guerra civil”, CEIP León Trotsky, disponível em 5/3/2017, em: http://www.ceip.org.ar/
Los-problemas-de-la-guerra-civil).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 103

sempre corresponde ao general em chefe, não há lei mais simples e mais


imperativa para a estratégia que a de manter as forças concentradas.155

Para Clausewitz, somente algum objetivo imprescindível pode justi-


ficar exceções. A particularidade da concentração de forças no tempo156
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

na estratégia revolucionária – diferentemente da estratégia convencional


– está em que a concentração não depende somente de uma decisão dos
dirigentes, mas está determinada pela situação geral do país (e internacio-
nal) e pela própria heterogeneidade política e também social que atraves-
sa a classe operária.
Esse problema estratégico de primeira ordem foi um dos mais insu-
peráveis limites com os que se debateu o desenvolvimento do Partido
Social-democrata Alemão. Apesar de se conceber como uma organização
que representava o conjunto da classe operária, nunca alcançou esse obje-
tivo. O problema não era que não organizasse o conjunto da classe atrás
de si; nem Kautsky nem Luxemburgo supunham que algo assim fosse
possível. Nesse sentido, Lars Lih se equivoca quando extrai disso a con-
clusão de que então os bolcheviques e o SPD eram ambos “partidos de
vanguarda”, porque só organizavam os setores mais conscientes157.
A questão vai além disso. A estratégia trata da utilização do volume
total da força disponível para o objetivo da guerra158. Em nosso caso, tanto
a força organizada como a não organizada. Daí é que devemos abordar
a utilização das forças no tempo em estratégia, que é muito diferente da
forma sucessiva que ela adquire na tática159. Como diz Clausewitz, “estra-
tegicamente nunca empregaremos tropas demais e, portanto, o emprego

155  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 325.


156  Do ponto de vista da concentração de forças no espaço, uma estratégia cujo su-
jeito é a classe operária tem uma grande vantagem – além da posição estratégica – em
comparação a qualquer outra (por exemplo, as de base camponesa), já que o próprio
desenvolvimento do capitalismo concentra o proletariado na grande indústria e nos gran-
des serviços, assim como nas cidades. Daí que o mais complexo seja concentrá-las no
tempo.
157  Cf. Lars Lih, Lenin Rediscovered. “What Is to Be Done?” in Context, op. cit., p. 556.
158  Ainda que a totalidade da força não entre em combate, a capacidade de reuni-
la toda “em um momento e em um ato” contribui para magnificar o êxito (a constituição
de uma correlação de forças favorável) e para aumentar as probabilidades de alcançar o
objetivo.
159  Como afirma Clausewitz: “Taticamente não me é possível decidir tudo no pri-
meiro êxito; os que o seguem são de se temer; é muito natural, portanto, que no êxito do
primeiro momento eu não empregue mais forças do que as que julgue necessárias para
obtê-lo”, de modo que “se torna decisiva a intervenção de um número proporcionado de
tropas frescas” (Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 331).
104 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

das existentes será simultâneo”160. Daqui se depreende o problema incon-


tornável da redução das “reservas estratégicas”161 ao mínimo à medida
que se aproximam os enfrentamentos decisivos162. “Não é difícil deter-
minar” – diz Clausewitz – “o ponto em que a ideia da reserva estratégi-
ca começa a se contradizer; não é outro se não o da decisão principal”163.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Desse ponto de vista, o problema da social-democracia alemã não


era que não agrupasse mais do que uma parte, muito significativa, porém
minoritária, da classe operária. Tratava-se de uma organização gigan-
tesca, a qual, por volta de 1912, superava o milhão de afiliados; que
agrupava nos sindicatos criados por ela 2,5 milhões de trabalhadores;
e cuja influência eleitoral chegou a 4,25 milhões de votos. No entanto,
para além dessa enorme influência, deparou-se constantemente com uma
barreira mais ou menos insuperável em relação ao restante da classe ope-
rária, que rondava os 25 milhões de membros164. Ou seja, não tinham
uma via para resolver o problema das reservas estratégicas diante da
“decisão principal”.
Nem sequer os sindicatos sociais-democratas, que eram organizações
muito mais amplas do que o partido, foram capazes de organizar mais

160  Idem, p. 332.


161  As reservas estratégicas cumprem a função de estarem disponíveis para atender
a possíveis imprevistos quando estes forem prováveis.
162  As reservas estratégicas podem ser um lastro inevitável do qual um exército
deve dispor quando persegue objetivos limitados, e nosso ataque em determinado pon-
to deve ser respondido em outro ponto, de modo que devemos deixar uma parte de nos-
sas forças de fora da campanha, para defender este ponto ante um eventual contra-ataque
do inimigo.
163  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 343.
164  Segundo o censo de 1910, a população total do Império chegava a 64,6 mil-
hões (considerando as fronteiras de 1919, a população total se reduz a 58,5 milhões), sen-
do em torno de 60% de população urbana. A população economicamente ativa era de
cerca de 29,4 milhões. Dentro da PEA, a grande maioria, podemos supor, poderia ser
considerada como classe operária. Segundo os dados do seguro contra acidentes de tra-
balho (o mais extenso), em 1913 estavam asseguradas 27,5 milhões de pessoas. (Cf. David
Khoudour-Castéras, “Welfare State and Labor Mobility: The Impact of Bismarck’s Social
Legislation on German Emigration before World War I”, The Journal of Economic History,
vol. 68, n. 1, março 2008). Kautsky realiza um dissecação das estatísticas segundo o cen-
so de 1895: calculava sobre uma população “ativa” de então 23,4 milhões, da qual 12,5
era da classe operária sem nenhuma dúvida (a grande maioria entre indústria, serviços,
agricultura e comércio), aos quais sugeria somar boa parte dos 2 milhões de “domésticos”,
600 mil “empregados” e 5,5 milhões de “pessoas independentes”, entre as quais havia
muitos assalariados da indústria domiciliar. Isto é, entre 53% e 88% da população ativa.
(Cf. Karl Kautsky, La cuestión agraria, edição digital de Marxists Internet Archive, 2015,
p. 333-334, disponível em 5/3/2017, em: https://www.marxists.org/espanol/kautsky/1899/
kautsky-la-cuestion-agraria.pdf).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 105

do que uma minoria da classe165. Kautsky era consciente dessa situação,


ainda que desde muito cedo tivesse perdido as esperanças de modificá-la
e dava por certo que “a organização sindical não englobará mais do que
uma elite ou uma aristocracia operária”166. Ao contrário, no entanto, dos
sindicalistas, Kautsky se interessava – e muito – em conquistar a maioria
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

da classe, só que não em termos da organização operária, que considera-


va impossível, mas, sim, do avanço na influência eleitoral e da obtenção
de uma maioria social-democrata no parlamento. Na polêmica de 1910
com Luxemburgo, considerava a conquista desse objetivo “um problema
de poucos anos”167.
No entanto, a pretensão de conquistar evolutivamente uma maioria
da classe operária para o programa socialista se chocava constantemente
na história do SPD com claros limites políticos (ilusões reformistas, cor-
porativismo, preconceitos nacionalistas-colonialistas), ideológicos (reli-
gião) e sociais (diferenciação no interior da classe trabalhadora, amplos
setores de “nova classe operária” vindos do campo). Em sua tentativa de
superar os limites políticos restringindo o programa e cedendo ao cor-
porativismo, o SPD não fez mais do que aprofundar a brecha social em
relação aos setores mais explorados, enquanto que a religião sempre
constituiu uma barreira para sua ascendência sobre boa parte da classe
operária, no caso dos católicos que votavam no Zentrum, e os que se orga-
nizavam, ainda que poucos, o faziam nos sindicatos cristãos (400 mil afi-
liados). Desse ponto de vista, podemos dizer que o SPD não era nem
suficientemente “de vanguarda”, nem suficientemente “de massas”.
Na revolução russa de 1905, a classe operária surpreenderia a todos,
colocando uma via potencial de resolução para aquele intrincado pro-
blema das reservas estratégicas, mediante uma enorme capacidade de
auto-organização. Durante o desenvolvimento da greve geral de outu-
bro, irá erguer em São Petersburgo o primeiro Conselho de Deputados
Operários (Soviete) constituído a partir da eleição de representantes nas
unidades de produção (fábricas e oficinas), junto com representantes de

165  Para os sindicalistas como Carl Legien, é claro, ou para seus porta-vozes como
Eduard David, a questão das reservas estratégicas era totalmente estranha; eles represen-
tavam um determinado setor da classe operária, os mais qualificados e de melhores salá-
rios, que podiam pagar sua contribuição sindical.
166  Karl Kautsky, “Las lecciones de la huelga de los mineros”, op. cit.
167  “Se nas próximas eleições” – diz Kautsky em 1910 – “conquista[mos] outro salto
como o de 1890 […] podería[mos] chegar a alcançar a maioria dos votos emitidos. É óbvio
que não temos uma imaginação tão aloucada […]. Porém todo mundo concorda que da-
remos um grande salto adiante, que tornará a questão de obter a maioria absoluta dos vo-
tos emitidos uma questão de poucos anos.” (Karl Kautsky, “¿Y ahora qué?”, op. cit., 150).
106 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

sindicatos e dos partidos com representação operária168. O soviete unifi-


cava diretamente quase 50% dos trabalhadores das cidades, e sua influên-
cia direta e indireta ia muito além disso169.
Trótski, a partir do lugar privilegiado de protagonista, primeiro
como vice-presidente e depois presidente do Soviete de São Petersburgo,
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

foi quem mais cabalmente deu conta da transcendência dessa nova


instituição:

Antes da aparição do soviete, encontramos entre os operários da indústria


numerosas organizações revolucionárias, dirigidas sobretudo pela social-
democracia. Contudo, eram formações “dentro do proletariado” e seu fim era
lutar “para adquirir influência sobre as massas”. O soviete, pelo contrário,
se transformou imediatamente na “própria organização do proletariado”, seu
fim era lutar “pela conquista do poder revolucionário”.170

Rosa Luxemburgo, buscando traduzir a experiência russa para as


condições da Alemanha, viu na experiência de 1905 a chave para a orga-
nização combativa dos amplos setores da classe operária que ficavam
fora dos sindicatos “normais” e da influência do SPD:

Apesar de uma greve geral política de massas, em sua primeira refrega,


conduzir à debilidade ou à deterioração de alguns sindicatos, depois de
algum tempo não só renascerão as velhas organizações, como a grande
ação irá revirar novas camadas do proletariado, e os pensamentos da
organização ou entrarão em um campo que até agora era inacessível para
uma organização sindical aprazível e sistemática ou ganhará para nossas
organizações sindicais novos contingentes de proletários, que até agora

168  “Na primeira sessão não havia mais do que algumas dezenas de homens. E
em meados de novembro o número de deputados chegava a 56, entre eles 6 mulheres.
Representavam 147 fábricas, 34 oficinas e 16 sindicatos. A maior parte dos deputados –
351 – pertencia à indústria metalúrgica. Tiveram uma participação decisiva no soviete: a
indústria têxtil enviou 57 deputados, a do papel e gráfica, 32, os empregados do comér-
cio tinham 12 e os contábeis e farmacêuticos, 7. Um comitê executivo foi eleito em 17
de outubro, composto por 31 membros: 22 deputados e 9 representantes dos partidos (6
para as duas frações da social-democracia, e 3 para os socialistas-revolucionários).” (León
Trotsky, 1905, op. cit., p. 212).
169  Trótski relata, partindo do censo de 1897, que em Petrogrado havia 820 mil ha-
bitantes de população “ativa”. Dentro eles, 433 mil entre operários e “serventes”. O so-
viete unificava cerca de 200 mil, em especial os operários das fábricas, ainda que sua
influência direta e indireta chegasse também a grupos importantes de proletários da cons-
trução, criados, cocheiros, etc. (cf. Idem, p. 215).
170  Idem, p. 213.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 107

estão sob direção burguesa, no Zentrum, com os Hirsch-Duncker [sindicatos


liberais], com os evangélicos.171

Rosa, mirando o Ocidente, e Trótski, como protagonista, foram,


como dissemos, os que mais cabalmente abordaram as implicações e o
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

significado histórico de a classe operária russa ter colocado de pé organis-


mos de auto-organização como os sovietes. No entanto, suas abordagens
adquirem (entre outras) uma diferença fundamental que diz respeito ao
centro do problema de que estamos tratando: a concentração de forças
no tempo. Ela é assinalada corretamente por Antonio Negri, segundo o
qual, trata-se do

impulso difusivo que a natureza dos sovietes possui em Rosa Luxembur-


go, enquanto que em Trótski prima a atenção para a fase de centralização
das funções revolucionárias nos sovietes. Para ele, na consigna “todo o
poder aos sovietes” se prefigura em conexão com o esquema do centra-
lismo democrático tanto o movimento revolucionário sucessivo, inclusive
em seus momentos táticos, como a estrutura básica do Estado socialista.172

Não é uma questão menor; este elemento de centralização demo-


crática que ressalta Negri em Trótski é chave para determinar o resulta-
do de todo o processo estratégico diante da decisão principal, ou seja, a
luta imediata pela tomada do poder. Como assinala Clausewitz: “A lei
que tentamos esclarecer é: devem-se empregar simultaneamente todas as
forças disponíveis, destinadas a um fim estratégico, e este emprego será
tão mais completo quanto mais se reúna tudo em um momento e em um
ato”173.
Aqui chegamos a outro ponto central relacionado com a definição
anterior: quem determina o “fim estratégico” do soviete? Como aponta
Trótski em 1909174: “na qualidade de representação democrática do pro-
letariado na época revolucionária, [o soviete] se mantém na encruzilhada
de todos os seus interesses de classe”175, ou seja, ele podia servir a dife-
rentes fins estratégicos (conciliação com a burguesia ou tomada do poder

171  Rosa Luxemburgo, “¿Y después qué?”, em Alexander Parvus, Franz Mehring,
Rosa Luxemburgo e outros, Debate sobre la huelga de masas, primera parte, op. cit., p. 125.
172  Antonio Negri, El Poder Constituyente, Madrid, Ed. Traficantes de Sueños, 2015,
p. 359.
173  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 337.
174  O texto ao qual corresponde esta citação, as “Conclusões” de sua obra 1905, pro-
vavelmente tenha sido escrito em 1909, logo antes de publicar o libro, dada a referência que
Trótski faz às Dumas (cf. León Trotsky, La Teoría de la Revolución Permanente, op. cit., p. 40).
175  León Trotsky, 1905, op. cit., p. 213.
108 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

pelo proletariado) de acordo com a sua direção176. Daí que era preciso um
partido revolucionário, o qual – ainda que esses termos não agradem a
Lars Lih – deveria ser efetivamente um partido “de novo tipo”, mais “de
vanguarda” do que o SPD e, ao mesmo tempo, mais “de massas” em
termos de influência.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Redução de reservas estratégicas e cooperação de aliados


A renovada fortaleza (posição estratégica) e iniciativa (greve de
massas) também colocavam novas condições para a abordagem de outro
problema fundamental: a conquista de aliados. O que a revolução russa
de 1905 demonstrava era a capacidade do proletariado de se postular
como dirigente da revolução, inclusive num país atrasado onde constituía
uma minoria da população, esmagadoramente camponesa. Como Trótski
oportunamente apontara: “A greve de outubro foi a demonstração da
hegemonia proletária na revolução burguesa e, ao mesmo tempo, a da
hegemonia da cidade sobre um país de camponeses”177. Tratava-se ainda
de uma capacidade potencial, que se concretizaria doze anos depois na
Revolução de Outubro.
No cenário “ocidental” da Alemanha, a presença do campesina-
to era muitíssimo menor. Em seu lugar, a pequena burguesia urbana
havia adquirido um importante peso político. Esta seria a base, desde
finais do século XIX, das polêmicas estratégicas sobre as “novas classes
médias” (em referência à proliferação das camadas constituídas por técni-
cos, administradores, funcionários públicos, comerciantes, engenheiros,
médicos, advogados, artistas, jornalistas, entre outros), o qual represen-
tou um dos temas centrais no debate do revisionismo impulsionado por
Eduard Bernstein.
Para ele, o desenvolvimento daquela “nova classe média” junto com
a menor homogeneidade social do proletariado dissolviam as fronteiras

176  Trótski ainda não considerava ressaltar que dentro da própria social-democracia
russa já se enfrentavam duas estratégias irreconciliáveis. Em 1917, serão já dois partidos
(mencheviques e bolcheviques, com Trótski entre os últimos), e o esforço dos bolchevi-
ques terá que ser maior para conquistar a direção dos sovietes do que o que fora o da
social-democracia em geral, em 1905. No caso dos Räte (conselhos) da revolução alemã
(1918-1919), a intervenção dos revolucionários como Luxemburgo ante as poderosas bu-
rocracias (sindical e partidária) do SPD esteve praticamente condenada, ao carecer de
uma organização própria para enfrentá-las e, com ela, o destino dos próprios Räte (ver
Pierre Broué, Revolución en Alemania, op. cit.).
177  León Trotsky, 1905, op. cit., p. 93.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 109

de classe178. Apesar de Marx e Engels, no Manifesto Comunista, terem repre-


sentado de maneira demasiado unilateral o processo de liquidação das
classes intermediárias, a sua extensão, diferentemente do que Bernstein
afirmava, não mitigou as contradições do capitalismo, mas, como mos-
trou o século XX, as acentuou. Sua proliferação não foi subproduto de
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

um desenvolvimento harmônico do capitalismo, mas da sua incapacida-


de de proletarizar esses setores no mesmo ritmo com que os arruinava e,
em menor medida, de uma política consciente do Estado burguês para a
manutenção de determinados estratos de pequeno-burgueses urbanos179.
A consequência política que Bernstein extraía daquela caracterização
era a busca de alianças com os partidos liberais “democráticos”, sobre a
qual insistiu sistematicamente. Este debate atravessou com um peso cres-
cente a social-democracia em geral e a alemã em particular. Assim, a con-
quista da “superioridade numérica” não só não se concentrava no “ponto
decisivo” do combate (luta de classes) como também se confundiam nela
dois problemas diferentes em termos estratégicos: o da redução das reser-
vas estratégicas e o da conquista/cooperação dos aliados.
Enquanto o problema da redução das reservas estratégicas (colo-
cado, como veremos em seguida, pela III Internacional em termos de
frente única operária180) consiste em unificar uma mesma força com inte-
resses comuns, porém atravessada por uma grande luta interna contra a
burocracia; no caso da conquista/cooperação dos aliados (hegemonia181),

178  Segundo Bernstein: “Os modernos assalariados não são a massa homogênea,
uniforme, sem o estorvo da propriedade, da família, etc., que se prevê no Manifesto [comu-
nista]. Amplos estratos se ergueram entre eles para conquistar condições de vida peque-
no-burguesas. E, por outro lado, a dissolução das classes médias está se produzindo muito
mais lentamente do que o Manifesto imaginava” (Eduard Bernstein, “Critical Interlude”,
em H. Tudor e J. M. Tudor (eds.), Marxism & Social Democracy. The revisionist debate 1896-
1898, New York, Cambridge University Press, 1988, p. 217).
179  Cf. León Trotsky, “A 90 años del Manifiesto comunista”, El Programa de Transición y
la fundación de la IV Internacional, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2017
(Obras Escogidas 10, coeditadas com o Museo Casa León Trotsky), p. 32. Naquele texto,
Trótski argumenta que “o desenvolvimento do capitalismo acelerou de forma extraordi-
nária o surgimento de exércitos de técnicos, administradores, empregados do comércio,
numa palavra, a chamada ‘nova classe média’. O resultado disso é que as classes inter-
mediárias às quais se refere o Manifesto de forma tão categórica são, mesmo num país al-
tamente industrializado como a Alemanha, cerca de metade da população. No entanto, a
preservação artificial do setor pequeno-burguês há muito tempo já prescrito, não atenua
de nenhuma maneira as contradições sociais. Pelo contrário, torna-as especialmente mór-
bidas. Ao lado do exército permanente de desempregados, constitui a expressão mais da-
ninha da decadência do capitalismo”.
180  Cf. capítulo 4 deste volume.
181  Para o desenvolvimento do conceito de “hegemonia” e os debates em torno
dele, ver capítulo 4 do presente livro.
110 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

trata-se de articular forças heterogêneas (em luta com suas direções tradi-
cionais) para cooperar contra um inimigo comum182.
Radicalizando a colocação de Bernstein, Ernesto Laclau e Chantal
Mouffe defendem que essa distinção entre a unificação das forças da
classe operária e a conquista de aliados – e inclusive o conceito mesmo
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

de “aliado” – é um produto negativo da influência de Clausewitz no mar-


xismo, que no caso da social-democracia de princípios do século XX foi
o que a impediu de conquistar a hegemonia183. Segundo eles, na “guerra
de desgaste” de Kautsky184, “o estabelecimento dessa estrita linha divi-
sória [de classe] era considerado como condição mesma da política –
política, nessa concepção, era simplesmente um dos terrenos da luta de
classes”185, e isso teria constituído “o limite para a lógica desconstrutiva
da hegemonia”186.
Cabe esclarecer que este problema se tornou muito mais complexo
desde aquele período, o que merece uma digressão. Durante boa parte do
século XX, no que diz respeito aos aliados, a aliança operário-camponesa

182  Trata-se de uma distinção fundamental que foi impugnada a partir de diferentes
ângulos, em reiteradas oportunidades desde então, razão pela qual merece uma menção
especial. Uma das vias foi, por exemplo, o estabelecimento de uma definição “estreita”
de classe trabalhadora, que leva a considerar como “aliados” setores que na realidade são
parte dela. É o caso de Nicos Poulantzas, que dessa maneira dava fundamentos ao eu-
rocomunismo dos anos de 1970 (para uma crítica a suas teses ver: Ellen Meikins Wood,
¿Una política sin clases? El posmarxismo y su legado, Buenos Aires, Ediciones RyR, 2013, p. 91
et seq.). Outra, mais recente, foi a do chamado “pós-marxismo”, que defende diretamen-
te que qualquer concepção classista conspira contra a noção de hegemonia (para uma
crítica a essas teses e sua comparação com as de Bernstein, ver Claudia Cinatti e Emilio
Albamonte, “Más allá de la democracia liberal y el totalitarismo”, Estrategia Internacional,
n. 21, setembro de 2004).
183  Não por acaso, o começo da “ruptura com esta concepção” – segundo nossos
autores – “reducionista e manipulatória [...] tem lugar na política comunista a partir do
VII Congresso da Comintern e do informe de Dmítrov, no qual […] se inicia a política
das frentes populares. Deixa-se aqui para trás, implicitamente, a concepção da hegemo-
nia como aliança de classes simples e externa, e passa-se a conceber a democracia como o
terreno comum que não se deixa absorver por nenhum setor social específico” (Ernesto
Laclau e Chantal Mouffe, op. cit., p. 95).
184  Segundo nossos autores, a “estratégia de desgaste” constituiria um mesmo con-
junto de políticas, ao lado da “bolchevização” da Internacional Comunista em 1924 e da
política do stalinismo de “classe contra classe”, ao qual poderia ser feita a crítica de se-
rem “classistas”. Desde logo, querer englobar assim políticas tão diferentes não resiste a
uma análise histórica séria. No entanto, elas têm um elemento comum, inverso ao desta-
cado por Laclau e Mouffe, que é negar de diferentes formas e em diferentes graus aquilo
que a III Internacional denominaria como a tática de frente única operária (ver capítulo
3 do presente livro).
185  Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, op. cit., p. 104.
186  Idem.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 111

foi a chave, enquanto o peso dos setores da pequena burguesia urbana


esteve restrito a um punhado de países centrais. A partir do processo de
urbanização que avançou em nível global desde meados do século XX,
e que faz com que no século XXI a maioria da população mundial vives-
se nas cidades, a questão da hegemonia sobre os movimentos urbanos
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

passou a primeiro plano inclusive na periferia187.


A urbanização capitalista, em grande medida, transportou o pro-
blema da terra às cidades, com a proliferação das chamadas slums, villas
miseria ou favelas188, desenvolvendo, por exemplo, movimentos por mora-
dia, que, diferentemente dos movimentos camponeses, estão conforma-
dos em muitos casos por trabalhadores assalariados ou desempregados,
ou seja, que são parte da classe trabalhadora. Também movimentos poli-
classistas como o ecologista; ou ao redor de problemas específicos como
o transporte urbano189. De outro modo, movimentos urbanos, como o
estudantil, adquiriram enorme peso a partir de meados do século XX
com a massificação da educação. O movimento de mulheres (policlas-
sista), que vem de muito mais longe, voltou a emergir nos últimos anos
como um poderoso movimento de massas à escala internacional, que por
sua vez se sobrepõe a um movimento operário que se fez exponencial-
mente mais feminino.
Tudo isso, é claro, torna muito mais complexos os problemas colo-
cados no início do século XX e torna muito mais porosas as problemáti-
cas dos “aliados” e das “reservas estratégicas”. No entanto, não faz com
que se perca a diferença entre ambos os conceitos/problemas nem a atua-
lidade das definições estratégicas fundamentais que estamos analisando.
Voltando à social-democracia alemã de princípios do século XX,
efetivamente, como apontam Laclau e Mouffe, esta não conseguiu resol-
ver o problema da hegemonia sobre os aliados, porém, por causas opos-
tas às que eles indicam. Como fomos resumindo em torno da “estratégia
de desgaste”, não foi a defesa da independência de classe ligada à luta de
classes o que levou Kautsky e o SPD a fracassar na conquista da hegemo-
nia. Ao contrário, foi a busca por conquistá-la evolutivamente, mediante
a limitação do programa, e o conservadorismo na luta de classes, o que
minou sua capacidade de enfileirar atrás de si, nos momentos decisivos,
tanto a maioria da classe operária como seus potenciais aliados.

187  Ainda que, evidentemente, siga subsistindo como problema central a aliança
com o campesinato em muitos países, entre eles nada menos do que China e Índia.
188  Ver Mike Davis, El planeta de ciudades miseria, Madrid, Foca, 2008.
189  Como vimos no ano de 2013, com o enorme movimento contra o aumento das
passagens que fez tremer o Brasil.
112 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

A via ensaiada para captar o apoio da “nova classe média” passa


pelas sucessivas tentativas de não se chocar com suas direções políticas
tradicionais, constituídas pela burguesia liberal “democrática”. Em par-
ticular, após a perda de postos parlamentares nas eleições de 1907190,
moderando cada vez mais sua oposição ao colonialismo e ao militaris-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

mo alemão, e especialmente a partir de 1909, quando teve lugar a pas-


sagem dos partidos liberais à oposição, que fizeram florescer as pressões
por uma aliança opositora pela reforma política do regime. O intento
mais avançado, em 1912, de um bloco parlamentar com os liberais ter-
minou em um fracasso rotundo, submergindo o SPD progressivamen-
te na impotência ante aos grandes acontecimentos que se aproximavam.
Como consequência, apesar de seu peso na superestrutura política –
em 1912, com 110 deputados nacionais, 220 nos Landtag, 2.886 em nível
municipal –, e ideológica – com uma imensa rede de instituições pró-
prias, que incluíram mais de 90 jornais e revistas, universidades popu-
lares, bibliotecas, entre outras –, o SPD não conquistou uma influência
determinante entre aquela “nova classe média”. Ao contrário, foi a peque-
na burguesia urbana que exerceu uma pressão constante, através da “opi-
nião pública”, sobre as camadas dirigentes da social-democracia.
Mais adiante dedicaremos um capítulo especial aos problemas da
hegemonia e da conquista de aliados em formações sócio-políticas “oci-
dentais”, em torno das elaborações de Gramsci e de Trótski.191 Aqui que-
remos ressaltar, porém, que a indistinção ou confusão entre o problema
dos aliados e o das reservas estratégicas atua em detrimento da resolução
de ambos. A cooperação dos aliados, como afirma Clausewitz, “não
depende da vontade dos beligerantes”192, mas sim – em nosso caso – da

190  Nas eleições daquele ano, todos os partidos do regime fizeram campanha con-
tra a social-democracia por ter votado contra, em 1906, os créditos governamentais para
intensificar a repressão na zona alemã na África do Sul. Com o retrocesso nos assentos
do SPD, floresceram os setores que o atribuíram a não ter conseguido conquistar os elei-
tores de “classe média”, e assim a social-democracia foi moderando sua posição. Cabe
destacar que a social-democracia, apesar daquela campanha contrária, havia aumentado
levemente seus votos em termos absolutos, de 3.010.800 votos em 1903 a 3.259.000 vo-
tos em 1907, ainda que em termos percentuais representasse um retrocesso de 1,7% (de
31,7% a 30%). De todo modo, continuou sendo de longe o partido mais votado do Reich.
O retrocesso em assentos, perdendo 38 cadeiras, deveu-se essencialmente à distribuição
antidemocrática das circunscrições eleitorais, pensadas para diluir o voto operário (ver
Carl Schorske, op. cit., p. 109). Esse resultado, de conjunto, interpretado pela direção so-
cial-democrata como um revés eleitoral muito significativo, no entanto, do ponto de vista
da luta de classes, mostrou na realidade que apesar da campanha dos partidos do regime
contra o SPD, este havia conseguido manter sua base eleitoral.
191  Ver capítulo 4 do presente livro.
192  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 36.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 113

capacidade da classe operária de apresentar uma força tal para o com-


bate que seus aliados vejam nela a possibilidade de derrotar seu inimigo
comum e impor os interesses das grandes maiorias.
Assim como a diminuição das reservas estratégicas, a cooperação
dos aliados adquire dimensões cada vez mais importantes à medida que
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

se aproximam os enfrentamentos fundamentais. Se é certo, porém, que os


dois problemas andam ligados, já que se trata em ambos os casos de con-
centrar as forças no tempo, a capacidade de reduzir as reservas estraté-
gicas é uma condição necessária (e indispensável) para a cooperação dos
aliados nos momentos decisivos. Daí a abordagem do problema dos alia-
dos por fora da unificação revolucionária das forças da classe operária se
traduzir, no que se refere à luta de classes, em uma negação de ambos.
Nesse sentido, os organismos de tipo soviético se mostraram como
instrumento estratégico fundamental também no que diz respeito à coo-
peração dos aliados; não já os da revolução russa de 1905, mas, sim, os
de 1917, mais precisamente os de outubro daquele ano. Diferentemente
do Soviete de São Petersburgo de 1905, os sovietes de 1917 desde a pró-
pria Revolução de Fevereiro ampliaram as suas fronteiras, incluindo
tanto representantes dos soldados (em sua maioria camponeses) como
dos próprios camponeses. No entanto, não será senão até os bolchevi-
ques conquistarem a maioria nos sovietes (setembro-outubro de 1917)
que deixarão de cumprir uma função de conciliação de classes e passarão
a ser um instrumento da hegemonia revolucionária do proletariado sobre
os camponeses pobres e os soldados.
Como exemplo pela negativa, na Alemanha, na revolução de
1918-1919 também se desenvolveram conselhos (Räte) de operários e de
soldados; no entanto, nunca deixaram de cumprir um papel conciliador
similar ao dos sovietes de fevereiro na Rússia. Diferentemente do cená-
rio “oriental” russo, no “Ocidente” alemão, o peso das burocracias dos
partidos tradicionais – em primeiro lugar a do SPD – e dos sindicatos foi
determinante nos Räte, sem que houvesse em seu confronto um partido
como o bolchevique, capaz de combatê-las e de transformar os conselhos
em instrumento estratégico para articular a maioria da classe operária e a
hegemonia sobre os aliados para a revolução.
Isso significa que os organismos de tipo soviético representam vias
potenciais de resolução tanto do problema das reservas estratégicas
quanto da cooperação dos aliados nos momentos decisivos, porém não
necessariamente cumprem essa função. E aqui, novamente, ganha impor-
tância a distinção entre aqueles dois problemas (reservas e aliados), vin-
culados, mas não idênticos.
Outros organismos de auto-organização do movimento operário
surgidos das unidades de produção, como os comitês de fábrica, podem
ter um desenvolvimento massivo antes dos sovietes. Isso não evita a
114 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

necessidade do desenvolvimento dos sovietes ou de outra instituição de


auto-organização análoga, capaz de articular o conjunto dos grupos alia-
dos em luta, assim como de harmonizar o conjunto das suas reivindi-
cações193. Não obstante, os comitês de fábrica, por exemplo, podem estar
em condições de encarar a luta revolucionária pelo poder mesmo que os
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

organismos de tipo soviético ainda não existam e surgir como parte da


preparação da insurreição194.
Também pode suceder que aqueles organismos de auto-organização
operária (comitês de fábrica), dirigidos por um partido revolucionário,
tomem a iniciativa de preparar a insurreição apesar da existência prévia
de sovietes e sem se apoiar neles, caso esses tenham sido desmoraliza-
dos previamente por direções conciliadoras, e mais tarde reconstruí-los
enquanto órgãos de poder depois da vitória. Tal foi a hipótese de Lênin
após as jornadas de julho de 1917, quando os sovietes dirigidos pelos
sociais-revolucionários e os mencheviques perseguiam os bolcheviques195.
Em todas essas situações e suas diferentes combinações – que não
se esgotam na enumeração anterior196 –, chegamos novamente ao papel
fundamental do partido revolucionário, capaz de orientar as forças revo-
lucionárias “no caos da revolução” e conseguir articular os diferentes

193  Trótski afirma no “Programa de Transição”, a respeito desta questão, que em


uma situação revolucionária “milhões de necessitados, nos quais os dirigentes reformistas
nunca pensaram, começarão a bater na porta das organizações operárias. Os desempre-
gados entrarão no movimento. Os operários agrícolas, os camponeses arruinados ou se-
miarruinados, as camadas empobrecidas das cidades, as trabalhadoras, as donas de casa,
as camadas proletarizadas da intelectualidade, todos buscarão um reagrupamento e uma
direção. Como harmonizar as diversas reivindicações e forças de luta, mesmo que seja
apenas nos limites de uma única cidade? A história já respondeu a este problema: por
meio dos sovietes (conselhos), que reúnem os representantes de todos os grupos em luta”
(Trotsky, León, “El Programa de Transición”, El Programa de Transición y la fundación de la
IV Internacional, op. cit., p. 65).
194  Este teria sido o caso no processo revolucionário alemão de 1923. Ver capítu-
lo 3 do presente livro.
195  Cf. León Trotsky, Historia de la Revolución rusa, tomo II, op. cit., p. 405.
196  Os organismos de tipo soviético também podem, por exemplo, surgir desde
muito antes de que esteja colocada a insurreição: “A tarefa dos sovietes não consiste sim-
plesmente em exortar as massas à insurreição ou em desatá-la, mas sim fundamentalmen-
te em conduzir as massas à sublevação passando pelas etapas necessárias. De início, o
soviete não ganha de forma alguma as massas graças à consigna da insurreição, mas sim
graças a outras consignas parciais. […] Na ação, as massas devem sentir e compreender
que o soviete é a sua organização […] Não é na ação de um dia, nem em geral numa ação
levada a cabo de uma só vez, que elas podem sentir e compreender isso, mas sim através
de experiências que elas adquirem durante semanas, meses, até mesmo anos, com ou sem
descontinuidade” (Trotsky, León, Stalin, el gran organizador de derrotas. La III Internacional
después de Lenin, op. cit., p. 219-220).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 115

problemas estratégicos. De conjunto, com a nova época aberta com o


século XX, tratava-se de estabelecer uma nova relação entre a classe, o
partido e sua direção, em uma época em que a revolução proletária gan-
hava total atualidade197.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

PARTE 4
LÊNIN: FORÇA MATERIAL E FORÇA MORAL

Se comparamos a social-democracia alemã ao bolchevismo na


Rússia, é claro que no primeiro caso nos deparamos com uma classe
operária muito mais organizada (em sindicatos, partido e todo tipo de
instituições próprias) e com maior tradição política. A força material da
social-democracia era enorme, muito superior à da russa. No entanto,
como aponta Clausewitz: “Luta é a medida das forças morais e materiais
por meio dessas últimas. É evidente que não se deve excluir as morais,
pois o estado de ânimo tem em si uma influência decisiva sobre as forças
em luta”198.
Significa que não basta constatar a “força material” para conhecer
o volume de força real do qual se dispõe; junto com ela está a “força
moral”. Da combinação de ambas, surge a medida. A questão é que a
“força moral” não pode ser medida por fora do combate, o que coloca
um ponto de interrogação sobre o conjunto. Esta é, justamente, a grande
dificuldade que tem a teoria da guerra: tem que dar conta das “forças
morais” impossíveis de se calcular por fora da própria luta; o que é espe-
cialmente correto no que se refere à estratégia.
Luxemburgo havia dado conta dessa distinção entre “força mate-
rial” e “força moral”. Diferentemente de Kautsky, que se limitava a cons-
tatar a maior “força material” da classe operária e da social-democracia
na Alemanha em comparação com a russa, Luxemburgo afirmava que
essa última em 1905 havia mostrado uma consciência “prática e ativa”
na luta aberta contra a autocracia tsarista, enquanto “no operário alemão
ilustrado, a consciência de classe inculcada pela social-democracia é uma
consciência teórica latente”199.

197  Ver Alain Brossat, En los orígenes de la revolución permanente, Madrid, Siglo XXI, 1976.
198  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 145.
199  Mais precisamente, ela afirma que: “no período da dominação do parlamen-
tarismo burguês ela não tem, no geral, ocasião de se manifestar em uma ação de mas-
sas direta; é a soma ideal das quatrocentas ações paralelas das circunscrições durante a
luta eleitoral, dos numerosos conflitos econômicos parciais e de coisas semelhantes. Na
116 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Levantava, com isso, um problema central. A base material dessa


situação era que o movimento operário alemão (em especial os seto-
res vinculados aos sindicatos e ao SPD), paralelamente ao avanço da
Alemanha como potência imperialista, havia recebido do Estado uma
série de conquistas de forma mais ou menos pacífica, que iam desde dire-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

itos sociais pouco comuns para a época (seguro contra acidentes, seguro
desemprego, aposentadoria, etc.200) até direitos de organização sindical e
política relativamente amplos.
Para enfrentar esse cenário, Luxemburgo concebe como tarefa da
direção social-democrata “acelerar o desenvolvimento dos acontecimen-
tos”, no marco das possibilidades da situação dada, mediante a agitação
e a propaganda201. Isso se baseia num elemento correto, como assinala
Clausewitz:

O ódio nacional [ódio de classe, poderíamos dizer], que raramente falta


em nossas guerras, substitui com mais ou menos intensidade a inimiza-
de individual; porém onde também aquele falte e de início não exista
nenhum rancor, o sentimento hostil se acende na própria luta.202

Com esse objetivo, Rosa propunha aproveitar ao máximo as oportu-


nidades que se apresentavam para o desenvolvimento da ação das massas.
No entanto, a possibilidade de uma orientação como essa se tornou cada
vez mais contraditória com a realidade da social-democracia, especial-
mente a partir da consolidação da nova burocracia operária nos sindica-
tos. A enorme “força moral” da classe operária, da qual o proletariado
russo havia dado exibição em 1905, teve seu correlato na Alemanha no
surgimento de outra força poderosa, porém de sentido inverso, encarna-
da pela burocracia operária.
Por seu lado, Kautsky, a partir de 1910, assume uma orientação
supostamente “realista”: era necessário um acordo entre o aparato parti-
dário e o sindical para garantir a unidade da social-democracia. Na reali-
dade, Kautsky não fazia mais do que desprezar os fatores morais e, afinal
de contas, inclusive em sua própria lógica, fazia um “cálculo” totalmente
deficiente. Sua teoria das “duas estratégias” esboçava teoricamente esta

revolução, quando a própria massa aparece na cena política, a consciência de classe se


torna consciência prática e ativa”. (Rosa Luxemburgo, “Huelga de Masas, partido y sin-
dicatos”, op. cit., p. 68-69).
200  Ver David Khoudour-Castéras, op. cit.
201  Rosa Luxemburgo, “Huelga de masas, partido y sindicatos”, op. cit., p. 69.
202  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 171.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 117

concepção. Nela, todo o assunto se reduzia a um problema de oportuni-


dade: lutar agora ou lutar depois.
Claro que, para Kautsky, e para todos aqueles que fizeram eco de
sua teoria da “estratégia de desgaste”, sempre se tratou de lutar depois.
De um ponto de vista, isso não é por acaso: uma grande força mate-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

rial, por fora de sua força moral, só pode servir para a “fustigação” e a
“ameaça”, como ele mesmo afirma. O combate não faria mais do que
expor a medida real da força, que surge da combinação do “material”
com o “moral”. Nesse esquema de Kautsky, a militância ficava reduzida a
uma massa de afiliados, enquanto a classe como tal era concebida como
“massa de manobra” eleitoral.
A questão de fundo era que, a partir do desenvolvimento da buro-
cracia, qualquer teoria que partisse de uma identificação estratégica a
priori entre a social-democracia e a classe operária, se tornaria cada vez
mais arbitrária, localizando-se, como diz Clausewitz, “instantaneamente
em oposição com a realidade”203. No entanto, partindo de ângulos quase
opostos, tanto Kautsky como Rosa sustentavam uma distinção difusa
entre a classe, o partido e a direção. Esta havia ficado plasmada em suas
respectivas abordagens da luta fracional russa entre mencheviques e bol-
cheviques a partir de 1903204. Ambos a interpretaram como uma dis-
puta essencialmente sectária. Rosa Luxemburgo205 atribuiu diretamente

203  Idem, p. 54.


204  Essa concepção expressava de forma particular a influência de outras classes (es-
pecialmente da pequena burguesia democrático-liberal) sobre a direção social-democrata,
que atravessava também a direção alemã. A social-democracia na Rússia, desde o seu pró-
prio nascimento como organização, teve que enfrentar essas tendências como parte da II
Internacional. Sua primeira expressão foi o “economismo” (1894-1902), e em seguida o
“menchevismo”. Também tinha fatores objetivos como base (repercussão, ainda que em
menor escala, do “tipo de desenvolvimento europeu” na Rússia; cf. V. I. Lênin, “La ban-
carrota de la Segunda Internacional”, Obras completas, tomo XXI, Buenos Aires, Cartago,
1960, p. 258). Esse conjunto de elementos fez com que, diferentemente da Alemanha,
onde a tendência revisionista se manteve subordinada (enquanto minoria) no interior dos
organismos do partido, aceitando o centralismo democrático, na jovem social-democra-
cia russa, ela provocou diretamente a ruptura no partido. O famoso debate estatutário de
1903 sobre a definição de quem era ou não membro da social-democracia foi simplesmen-
te uma expressão organizativa daquele problema mais geral (ver V. I. Lenin, “Prólogo a la
recopilación 12 años”, Obras completas, tomo XIII, Madrid, Akal, 1977).
205  Rosa Luxemburgo esteve implicada diretamente no debate através do partido
polonês. Ainda que por eleição não fosse membro do CC desse partido (que funcionava
em Berlim), tinha, no entanto, uma enorme influência sobre ele. Os delegados do Partido
Social-democrata da Polônia e Lituânia (PSDPL) carregavam um mandato em 1903 para
negociar a afiliação ao POSDR; a negociação versava sobre os níveis de autonomia que
ele teria. Rosa Luxemburgo era a ala mais dura nesse sentido, e de fato terminou se
118 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

a Lênin a intenção de criar uma “seita” em torno de si206. Kautsky a


considerou um produto da “pequenez do partido [e] da lentidão de seu
crescimento”207. Tratando-se de um mesmo partido e de uma mesma
classe, a divisão208 de sua direção não poderia ser mais do que artificial209
ou produto da imaturidade210.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Lars Lih mostra como a crítica de Rosa Luxemburgo não condiz


com os escritos de Lênin daquela época211, como este aspirava a cons-
truir um grande partido com influência de massas, como o projeto do
Iskra tinha seu fundamento no desenvolvimento de um novo e combativo

opondo à unificação quase abertamente. Finalmente, o PSDPL se afiliou ao POSDR


no IV Congresso, de 1906, onde confluíram tanto bolcheviques quanto mencheviques.
206  Ver Rosa Luxemburgo, “Problemas de organización de la socialdemocracia
rusa”, Obras escogidas, op. cit.
207  Karl Kautsky, “Differences Among the Russian Socialists”, Marxists Internet
Archive, disponível em 5/3/2017, em: https://www.marxists.org/archive/kautsky/1905/xx/
rsdlp.htm.
208  Lênin tampouco era partidário da cisão da social-democracia russa naquele mo-
mento; desde 1903, batalhou quase permanentemente pela convocatória a um novo con-
gresso partidário, ao qual os mencheviques se negaram até abril de 1906. No entanto,
inversamente à hipótese de Kautsky ou à exigência de Rosa Luxemburgo, não estava dis-
posto a dissolver a fração bolchevique, menos ainda após 1905, quando as diferenças ha-
viam escalado do terreno da organização para o terreno da estratégia (para uma avaliação
retrospectiva, ver V. I. Lenin, “Prólogo a la recopilación 12 años”, op. cit. Sobre as dife-
renças estratégicas em 1905, ver V. I. Lenin, “Dos tácticas de la socialdemocracia en la re-
volución democrática”, Obras completas, tomo IX, Madrid, Akal, 1976).
209  Em sua crítica a Lênin de 1904, Rosa Luxemburgo sustenta que: “É um fato
que a social-democracia não está unida às organizações do proletariado. Ela é o proleta-
riado”. E agrega, com relação aos últimos fatos mais importantes da luta de classes russa:
“A existência desse centro [referência à proposta de Lênin] teria provavelmente aumenta-
do a desorganização dos comitês locais ao acentuar a diferença entre o avanço ávido das
massas e a linha prudente da social-democracia. O mesmo fenômeno – o papel insignifi-
cante que desempenharam os organismos centrais do partido na elaboração da linha tá-
tica – se observa hoje na Alemanha e em outros países” (Rosa Luxemburgo, “Problemas
de organización de la socialdemocracia”, op. cit.).
210  Em 1905, com relação à divisão entre mencheviques e bolcheviques, Kautsky
avaliava que: “Uma vez que um movimento de partido se converte em um grande mo-
vimento popular de massas, obtendo vitória atrás de vitória, e as diferenças perdem sua
força e significação, e à medida que o conflito avança, o partido se consolida e se une
cada vez mais, já que, ao menos até agora, ele repousa sobre os interesses de uma só clas-
se, assim como a social-democracia” (Karl Kautsky, “Differences Among the Russian
Socialists”, op. cit.).
211  Cf. Lars Lih, Lenin Rediscovered. “What Is to Be Done?” in Context, op. cit., p. 489
et seq.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 119

movimento operário na Rússia212. Hoje, podendo conhecer a história do


bolchevismo e da III Internacional, só interpretações muito vulgares – ou
tergiversações – de Lênin podem afirmar que ele queria construir uma
“seita”213.
A questão, porém, posta naquele momento era muito mais pro-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

funda: frente à força material da burocracia, que alternativa poderia ser


levantada para evitar aquela relação com o partido em que a classe ope-
rária é “massa de manobra” (Kautsky), e sem cair na espera – por mais
ativa que fosse – do ascenso e da radicalização de massas para modifi-
car toda a equação (Rosa Luxemburgo)? A resposta passava necessaria-
mente pela criação de uma força material partidária que fosse no sentido
oposto ao da burocracia, ou seja, revolucionária. Nesse sentido, diferen-
temente do que sustenta Lih, nessa época já existe uma concepção nova
de partido esboçada por Lênin. Não se trata ainda de uma “teoria”, mas,
sim, das bases para uma nova relação entre classe, partido e direção, e
para uma prática alternativa.
Podemos ver isso, por exemplo, na discussão sobre o “neutralismo”
das organizações sindicais. Em seu momento, tanto Luxemburgo como
Kautsky, cada um a seu modo, enfrentaram a pretensão de que os sindi-
catos fossem por definição independentes politicamente do partido. No
entanto, com o desenvolvimento da burocracia, a contradição era impos-
sível de superar no terreno do debate ideológico ou das resoluções de
congressos partidários (de fato, os burocratas sindicais sociais-democratas
não estavam subordinados a eles segundo o acordo da “paridade”). Não
era um simples enfrentamento entre posições político-ideológicas; tratava-
se, antes, de uma nova “força material” conservadora em ascensão.
Lênin, que antes de 1905 defendia – de uma forma muito diferen-
te da dos sindicalistas alemães214 – a neutralidade dos sindicatos (em sua
avaliação retrospectiva em O que fazer? menciona esse ponto como uma

212  Ver V. I. Lenin, “Plática con los defensores del economismo”, Obras completas,
tomo V, Madrid, Akal, 1976, p. 318.
213  Entre os exemplos mais conhecidos, a combinação entre sovietes e partido que
Lênin defende em 1905, o desenvolvimento do Pravda em 1912, a própria luta pela maioria
da classe operária em 1917, nos comitês de fábrica e nos sovietes; porém, sobretudo suas ela-
borações em torno da III Internacional, questão que abordaremos nos próximos capítulos.
214  Nem é preciso dizer que quando Lênin defendia a “neutralidade” dos sindicatos
não o fazia no sentido sindicalista. Sua preocupação era a de que os sindicatos organizassem
os setores mais amplos possíveis da classe operária. Daí que Lênin seguisse sempre enfati-
zando que a luta pela vinculação mais estreita entre os sindicatos e o partido deve se realizar
“sem aspirar a simples ‘reconhecimentos’ e sem expulsar dos sindicatos aqueles que pen-
sem de modo diferente” (V. I. Lenin, “Prólogo a la recopilación 12 años”, op. cit., p. 102).
120 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

das suas principais mudanças de opinião215), já possuía, no entanto, uma


concepção própria com relação ao significado do “partidarismo” nos sin-
dicatos, que na prática era alternativa tanto à de Rosa Luxemburgo como
à de Kautsky. Para Lênin, isso não passava por declarações de adesão
à social-democracia, mas sim pelo desenvolvimento de correntes revo-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

lucionárias no interior dos sindicatos216. Para isso, defendia uma deter-


minada articulação entre os militantes revolucionários e uma série de
organizações operárias cada vez mais amplas ao seu redor, segundo o
grau de ligação com o partido.
Aqui entramos na concepção de partido de vanguarda de Lênin. A
mesma está esboçada em Um passo à frente, dois passos atrás (1904), texto ao
qual Lih nega qualquer importância217, ao contrário do próprio Lênin que
em questões de organização o considerava, anos depois, “brilhante”218 –

215  Em grande medida, havia se modificado sob a influência de Kautsky. A esse res-
peito, Lênin comenta sobre a própria evolução do POSDR sobre o tema: “O Congresso
de Estocolmo do POSDR (1906), no qual triunfaram os mencheviques, propugnou a
neutralidade dos sindicatos. O Congresso de Londres do POSDR adotou outra po-
sição, proclamando a necessidade de infundir um espírito pró-partido nos sindicatos. O
Congresso Internacional de Stuttgart aprovou uma resolução que ‘põe um fim definitivo
na neutralidade’, como se expressou precisamente K. Kautsky” (V. I. Lênin, “Prólogo al
folleto de Voinov (A. Lunacharski) sobre la actitud del partido ante los sindicatos”, Obras
completas, tomo XIII, op. cit., p. 158).
216  Em 1907, Lênin defende que “o partidarismo nos sindicatos deve ser conquis-
tado exclusivamente pelo trabalho dos sociais-democratas em seu seio; os sociais-demo-
cratas devem formar células coesas dentro dos sindicatos e é preciso fundar sindicatos
ilegais, já que os legais não são possíveis” (V. I. Lenin, “La neutralidad de los sindicatos”,
Obras completas, tomo XIII, op. cit., p. 467).
217  Surpreendentemente, apesar de ser um dos textos da época que Lih analisa em
seu livro (o período até 1905-1906), e de ser o texto em que Lênin desenvolve explicita-
mente a questão do partido de vanguarda (tema central do livro de Lih), nosso autor não
lhe dá maior relevância positiva (para além de enumerar uma série de críticas que recebe-
ra). Inclusive, depois de assinalar que no congresso de 1906 os mencheviques aceitaram a
formulação estatutária de Lênin sobre o partido, descarta de fato toda importância da po-
lêmica do II Congresso acerca dos problemas de organização. Diz Lih: “Então, o que foi
todo o alvoroço? O que havia de tão objetável na formulação de Lênin? Creio que todo o
escândalo se originou num simples mal-entendido” (Lars Lih, Lenin Rediscovered. “What Is
to Be Done?” In Context, op. cit., p. 520). O contrário do que Lênin afirmara explicitamen-
te em 1907, ou seja, em data posterior ao congresso de reunificação de 1906 que, segun-
do Lih, teria superado o “mal-entendido” (ver nota de rodapé acima).
218  Este texto é reivindicado por Lênin, retrospectivamente, no que concerne às crí-
ticas ao menchevismo sobre organização, do seguinte modo: “Quanto à ligação orgâni-
ca do oportunismo nos critérios sobre organização e sobre tática, esta já foi demonstrada
por toda a história do menchevismo entre 1905-1907. No que se refere ao ‘incompreen-
sível’ do ‘oportunismo em questões de organização’ [referência às críticas de Axelrod], a
vida confirmou a justeza do meu julgamento com um brilhantismo que eu não podia es-
perar” (V. I. Lenin, “Prólogo a la recopilación 12 años”, op. cit., p. 103).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 121

uma expressão muito rara em Lênin para falar de um escrito próprio. Em


termos gerais, parte de assinalar:

Somos um partido de classe, razão pela qual quase toda a classe (e em


tempos de guerra, em períodos de guerra civil, absolutamente toda a clas-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

se) deve atuar sob a direção de nosso Partido, deve aderir ao nosso par-
tido com a maior coesão possível, porém seria […] “seguidismo” pensar
que toda a classe ou quase toda a classe poderia jamais, sob o capitalismo,
se elevar até o grau de consciência e de atividade de seu destacamento de
vanguarda, de seu partido social-democrata.219

Sobre a base dessa concepção e, em parte devido às necessidades


impostas pela luta sob o regime policial do tsarismo, Lênin dá contornos
muito precisos a seus esquemas de organização. Trata-se de círculos con-
cêntricos que funcionam como espécies de “engrenagens” entre o partido
e as massas. Assim ele aponta que:

De acordo com o grau de organização em geral, e o caráter conspirativo


da organização em particular, cabe distinguir em termos gerais os seguin-
tes grupos: 1) organizações de revolucionários; 2) organizações operárias
o mais amplas e diversas quanto seja possível […]. Esses dois primeiros
grupos constituem o partido.220

E a seguir continua com esse “dégradé” de organizações para além


das fronteiras do partido, através de:

3) as organizações operárias vinculadas ao partido; 4) as organizações


operárias que, sem estarem vinculadas a ele, se submetam na prática a seu
controle e direção; 5) os elementos não organizados da classe operária,
que em parte se submetem também à direção da social-democracia, pelo
menos nas grandes manifestações da luta de classes.221

Por sua vez, não se trata de uma formulação pensada exclusivamen-


te para a intervenção do partido no movimento operário. Daí que Lênin
esclarece: “me limito à classe operária, ainda que se dê por suposto que

219  V. I. Lenin, “Un paso adelante, dos atrás”, Obras completas, tomo VII, Madrid,
Akal, 1976, p. 288.
220  Idem, p. 294.
221  Idem.
122 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

se compreenda como, em determinadas condições, também serão incluí-


dos aqui certos elementos de outras classes”222.
Quer dizer que para Lênin a organização partidária ao mesmo
tempo em que delimita suas fronteiras, as quais são variáveis segundo a
situação e as condições da luta de classes, estabelece uma série de círcu-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

los concêntricos que articulam a “ligação mais estreita possível” do parti-


do revolucionário com os setores de vanguarda e em direção à influência
nas massas.
Dito isso, é necessário remarcar que ele ainda não havia generaliza-
do essa concepção de partido para além da Rússia. Agora, se a concepção
de “partido de vanguarda” surge da experiência da luta contra a auto-
cracia russa (ainda que se inspirando na social-democracia alemã sob as
leis “antissocialistas”), por que sua forma particular de articulação entre
direção, partido e classe teria implicações muito mais gerais também para
a Alemanha, que contava com um regime com características democráti-
co-burguesas? Vejamos.
Paralelamente ao debate alemão sobre as duas estratégias, em 1910
Lênin travava na Rússia uma dura luta fracional (quiçá uma das mais
virulentas até então) contra os chamados “liquidacionistas”. Afirmava
que essa tendência ameaçava a própria existência do partido, daí que a
combatesse com todas as suas forças. Como mencionado anteriormente,
Lênin se queixou mais de uma vez que os liquidacionistas russos de apro-
priavam da teoria das duas estratégias de Kautsky, forçando as posições
deste. Em grande medida, Lênin tinha razões para se queixar. No entan-
to, a apropriação da nova teoria de Kautsky pelos liquidacionistas tam-
pouco era casual.
Quais eram as características do “liquidacionismo” que o tornavam
merecedor desse nome? Como sintetiza corretamente Lars Lih:

A causa contra o liquidacionismo tinha dois grandes traços: (a) Ao repu-


diar a necessidade de um aparato clandestino e ilegal, os liquidacionistas
punham em perigo a própria existência de um partido social-democrata
que predicasse o socialismo e a revolução antitsarista, ideias que não po-
diam ser manifestadas legalmente na Rússia de Stolypin 223 […]. (b) Os
liquidacionistas eram também responsáveis por sabotar os esforços para
reativar os órgãos de direção centrais e haviam feito todo o possível para

222  Idem.
223  Stolypin foi o primeiro ministro da Rússia durante grande parte deste período.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 123

evitar a reanimação do Comitê Central ou a convocatória de uma Con-


ferência de todo o partido.224

Que paralelo podemos estabelecer com a social-democracia na


Alemanha? Repassemos a ação da burocracia sindical com relação àque-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

les dois elementos (censurar a estratégia revolucionária e sabotar os


órgãos de direção): (a) No congresso sindical de Colônia (1905), esta não
somente rechaçou a greve política de massas, como proibiu a sua “propa-
gação”, ou seja, propagandeá-la ou colocá-la em discussão, e a partir de
1906 impôs limites ao programa de ação e à política da social-democracia,
limando seu conteúdo revolucionário; (b) A partir do acordo de “pari-
dade”, minou na prática o caráter soberano dos organismos de direção
do partido (congressos), que se encontram dali em diante condicionados.
Outro tanto poderíamos dizer da burocracia partidária encabeçada por
Ebert, a partir de 1908-1909, aproximadamente.
A conclusão que queremos extrair disso é que um papel similar ao
que desempenhava na Rússia (Oriente) a ação policial do tsarismo, que
os liquidacionistas se negavam a combater, na Alemanha (Ocidente), sob
um regime “democrático”, era cumprido à sua maneira pela burocracia
no interior das organizações do movimento operário. Daí podermos afir-
mar que se o liquidacionismo na Rússia representava uma negativa a
combater as condições impostas pela polícia e o tsarismo, na Alemanha
“democrática”, seu equivalente mais próximo era a negativa a combater
a burocracia operária e a subordinação a suas prerrogativas.
Como vimos, o motor da polêmica de Kautsky sobre as duas estra-
tégias era, justamente, separar-se publicamente de Rosa, “a fim de estabe-
lecer boas relações entre os marxistas e os sindicalistas”225. Ainda que o
reflexo dessa mudança na teoria das duas estratégias de 1910 fosse sinuo-
so, Kautsky dava por terminada sua luta contra a burocracia e se aproxi-
mava de fato (em seguida o fará “de direito”), aos liquidacionistas russos;
claro que com um toque alemão.
Em síntese, a concepção de “partido de vanguarda” de Lênin se
torna potencialmente generalizável na medida em que nos regimes
democrático-burgueses se desenvolve uma força material (a burocra-
cia operária) que cumpre as funções de polícia no interior das organi-
zações operárias226. Essa já torna impossível, ou melhor dito, arbitrária,

224  Lars Lih, “Lênin y el bolchevismo”, Vientosur, 21/5/2016, disponível em 5/3/2017,


em: http://vientosur.info/spip.php?article11311.
225  Citado em Alessio Bosch, Daniel Constanza y Gaido, op. cit., p. 141.
226  Nos próximos capítulos retomaremos este ponto. Esse elemento é desenvolvi-
do por Trótski, por exemplo, quando afirma que “a burocracia sindical é a polícia do ca-
pital, muito mais eficaz do que a polícia oficial” (León Trotsky, “La cuestión sindical”, Los
124 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

qualquer identificação mecânica entre “partido” e “classe operária”. Abre-


se, no interior da classe, uma luta não somente política e ideológica, mas
inclusive física. A eclosão da I Guerra Mundial, com a burocracia (sindi-
cal e partidária) na Alemanha como garantidora da “paz civil”227, apaga-
ria definitivamente qualquer dúvida a respeito.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Pois bem, a concepção de partido de Lênin implica a formação de


uma força material para o combate, porém, é evidente que tampouco se
trata aqui apenas de uma força material, mas, sim, da combinação entre
esta e a “força moral”. Em que consistem essas forças morais?

Centralidade do combate e “virtude guerreira”


Diferentemente do que se crê de modo geral, a ruptura de Lênin
com Kautsky em 1914 não foi simplesmente um raio em céu sereno, mas
foi precedida de uma polêmica pública anterior, justamente sobre a con-
cepção de partido revolucionário. Em janeiro de 1912, os bolcheviques
haviam decidido acabar com o boicote dos “liquidacionistas” e realizam
uma conferência em Praga junto com alguns “mencheviques pró-parti-
do”. Ali declaram em nome de toda social-democracia russa a expulsão
dos liquidacionistas, dando lugar ao que ficou conhecido como a fun-
dação do Partido Bolchevique.
Essa medida, impulsionada por Lênin, não tinha fundamentos
meramente organizativos; a luta contra os liquidacionistas já levava 4
anos, porém o novo é que começava a se sentir o início de um ascenso
operário. As considerações sobre uma possível unidade da social-demo-
cracia não podiam continuar por fora de uma ação ofensiva do partido
para confluir com a renovada atividade do movimento operário. Assim é
que a Conferência de Praga resolve pela criação de “núcleos social-demo-
cratas ilegais rodeados de uma rede tão extensa quanto possível de asso-
ciações operárias legais”.228

sindicatos y las tareas de los revolucionarios, op. cit., p. 105). Também por Antonio Gramsci
(cf. Antonio Gramsci, “El cesarismo” (Q13, §27), Cuadernos de la cárcel, tomo V, México,
Ediciones Era, 1999, p. 66). Sobre este ponto, ver Fernando Rosso e Juan dal Maso,
“Pablo Iglesias y su Gramsci a la carta”, La Izquierda Diario, 7/5/2015, disponível em
5/3/2017, em: http://www.laizquierdadiario.com/Pablo-Iglesias-y-su-Gramsci-a-la-carta.
227  Enquanto a burocracia dos sindicatos selou um acordo para que não houvesse
nenhuma greve nem conflito durante a guerra, a burocracia partidária se comprometeu a
perseguir a oposição interna.
228  Cf. Pierre Broué, El Partido Bolchevique, edição digital de Marxists Internet Archive,
2012, disponível em 5/3/2017, em: https://www.marxists.org/espanol/broue/1962/parti-
do_bolchevique.htm.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 125

Pouco depois, em maio, o tsarismo reprime brutalmente mais de


6 mil mineiros que estavam em greve na região de Lena (próxima à
Sibéria), deixando centenas de mortos e feridos. O ódio dos operários se
estendeu por todo o país, mais de 300 mil pessoas participaram das jor-
nadas de luta. Ligado a esse processo, o novo Pravda – agora órgão oficial
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

do partido – se transforma no jornal da vanguarda operária, expressão


das lutas em curso, com centenas de círculos que arrecadavam fundos
para sustentá-lo, e várias dezenas de milhares de leitores.
É notório o contraste entre essa atitude decidida dos bolchevi-
ques e o conservadorismo do SPD no processo alemão de 1910, que
Luxemburgo oportunamente criticara. Apesar disso, em 1913, opõe-se
de forma veemente ao reconhecimento da Conferência de Praga por
parte da II Internacional e exige uma “conferência de unificação” com
o fim de “restabelecer o partido unido”, em sintonia com o que vinha
defendendo havia já uma década.
A verdadeira novidade daquele debate foi o ataque explícito de
Kautsky aos bolcheviques. Como ora observamos, Lênin ainda não
havia generalizado sua concepção de “partido de vanguarda”, porém, ao
contrário do que afirma Lars Lih, foi o próprio Kautsky quem acusou
o dirigente bolchevique de haver construído um “partido de novo tipo”.
“Kautsky disse que ‘o velho partido havia desaparecido, ainda que tenham subsis-
tido os velhos nomes, que no entanto haviam adquirido no curso do tempo
[im Laufe der Jahre: com o correr dos anos] um novo conteúdo […]’”229.
Lênin se opunha a que a questão fosse colocada nesses termos, cla-
ramente a favor dos liquidacionistas. No entanto, o conteúdo da afir-
mação de Kautsky era correto; um novo tipo de partido havia acabado
de surgir. Os anos de que vão de 1912 até a eclosão da I Guerra Mundial
não farão mais do que comprová-lo. A ascensão do Partido Bolchevique
deixa para trás os mencheviques, com os quais até então haviam estado
em paridade de forças. Essa mudança era fruto do combate que havia
exposto o volume de força real com que contava cada fração. Ou seja, a
relação concreta entre “força material” e “força moral”.
Em que consistiam essas “forças morais” do bolchevismo? Uma
delas se aparentava ao que Clausewitz denominou de “virtude guerreira”,
aquela que possui “um exército que mantém suas formações ordinárias
sob o fogo mortífero, que nunca se assusta ante um perigo imaginário e
que disputa o terreno passo a passo perante um real […]”230. Essa virtude

229  V. I. Lenin, “Una buena resolución y un mal discurso”, Obras completas, tomo
XX, Madrid, Akal, 1977, p. 308.
230  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 282.
126 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

era para Clausewitz “uma das potências mais importantes na guerra”.231


No entanto, ela não pode ser simplesmente infundida pelo Estado-Maior,
deve ser conquistada na experiência do combate. “Ordem, destreza,
boa vontade, certa espécie de orgulho e magnífica predisposição – diz
Clausewitz – são qualidades de um exército educado na paz, as quais
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

devemos estimar; sua existência, no entanto, há de ser provada”.232


Os bolcheviques já a haviam demonstrado em 1905, especialmen-
te na insurreição de dezembro em Moscou, nas lutas de 1906-1907 e
durante todo o período contrarrevolucionário. Essa rica experiência era
sem dúvida insubstituível; o próprio Lênin não se cansou de assinalar
isso233. Se comparamos as condições russas com as alemãs para desen-
volver aquela “virtude guerreira”, vemos que nesse último caso elas eram
muito menos propícias. Como mostra, porém, a evolução distinta do
bolchevismo e do menchevismo, uma coisa é a existência de condições e
outra muito distinta é saber aproveitá-las.
Havia, então, elementos na concepção estratégica de partido de
Lênin que tornavam aquele aproveitamento propício e que pudessem ser
“generalizáveis” para além das particularidades russas no que se refere à
“virtude guerreira”? Acreditamos que sim. Pelo menos dois se revestem
da maior da importância. A saber, o conceito de “escola de guerra” e o
de “tribuno do povo”. Comecemos pelo primeiro.
Diferentemente de Kautsky, que, como vimos no esquema esboça-
do por Lih, estabelecia uma distinção taxativa entre a “paz” (situação
não revolucionária), em que só cabiam tarefas de organização e de edu-
cação socialista, e a “guerra” (situação revolucionária), em que a luta
física entrava em jogo, no caso de Lênin, essa relação era muito mais
complexa. Se é muito evidente que ele mantinha aquela distinção (ainda
que muito mais rica em formas intermediárias), para o dirigente bolche-
vique, o enfrentamento físico também é objeto de análise nos períodos
caracterizados como “de paz”.

231  Idem, p. 284.


232  Idem, p. 285-286.
233  Diz Lênin: “Por um lado, o bolchevismo surgiu em 1903, sobre uma base de
granito da teoria marxista. […] Por outro lado, […] passou por quinze anos de história
prática (1903-1917) sem paralelo no mundo por sua riqueza de experiências […] distintas
formas do movimento, legal e ilegal, pacífica e violenta, clandestina e aberta, círculos lo-
cais e movimentos de massas, e formas parlamentares e terroristas. Em nenhum país se
concentrou, num tempo tão breve, tal riqueza de formas, matizes, e métodos de luta de
todas as classes da sociedade moderna, luta que, devido ao atraso do país e ao rigor do
jugo tsarista, amadureceu com excepcional rapidez e assimilou com particular ansiedade
e eficácia a ‘última palavra’ da experiência política americana e europeia” (V. I. Lenin, “El
‘izquierdismo’, enfermedad infantil del comunismo”, Obras selectas, tomo 2, Buenos Aires,
Ediciones IPS-CEIP León Trotsky, 2013, p. 440-441).
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 127

Como aponta Raymond Aron:

Toda violência é física, escreve Clausewitz, pois a violência moral não


existe fora do domínio do Estado e da lei. No marxismo de Lenin, o Esta-
do e a lei derivam também da violência física mais ou menos camuflada.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Toda paz, em uma sociedade de classes, dissimula a luta.234

Daí a luta de classes atravessar, em suas diferentes formas e inten-


sidades, também os momentos de “paz”. Ao mesmo tempo, acrescenta
Aron: “Lênin não confundiu jamais a luta de classes enquanto tal com
a guerra. Essa designa, para Lênin, a fase violenta da luta de classes”.235
Nesse quadro, os fatos da luta de classes em tempos de paz são deci-
sivos na concepção estratégica que Lênin tem de partido. Ele já os havia
concebido, desde 1901, como “escolas de guerra”, isto é, como prepa-
ração e ensaio para a própria guerra de classes. Assim analisa, por exem-
plo, as greves combativas:

O operário não conhece as leis e não mantém contato com os funcioná-


rios, em particular com os altos […] Porém estoura uma greve e aparecem
na fábrica o fiscal, o inspetor fabril, a polícia […], os socialistas chamam
as greves de “escolas de guerra”.236

Lênin ressalta que “a ‘escola de guerra’ não é ainda a própria


guerra”237, porém, mesmo assim, conferia-lhe uma importância funda-
mental. Por um lado, porque o partido devia vincular seu destino ao da
vanguarda operária (ponto no qual coincidia com Rosa Luxemburgo; por
outro, porque permitia aos revolucionários adquirir algo daquela “virtu-
de guerreira”. Clausewitz tinha uma aproximação similar quanto à pos-
sibilidade de conquistar hábitos de combate por fora da própria guerra:

As manobras de tempo de paz, dispostas de modo a que se produza em


parte a fricção [isto é, o perigo, o acaso, a fadiga, etc.], que exercitem o
juízo, a apreciação e até a resolução dos chefes independentes, têm muito
mais valor do que imaginam os que carecem de experiência na guerra.238

234  Raymond Aron, Pensar la guerra, Clausewitz, tomo II, op. cit., p. 48.
235  Idem, p. 166.
236  V. I. Lenin, “Sobre las huelgas”, Obras completas, tomo IV, op. cit., p. 322 e 324.
237  Idem, p. 324.
238  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 138.
128 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Evidentemente, a concepção de “escolas de guerra” na Alemanha


teria levado àqueles que a defendessem ao enfrentamento aberto com a
burocracia sindical social-democrata. Algo semelhante Rosa Luxemburgo
havia experimentado ao agitar a favor do desenvolvimento do movimen-
to grevista em 1905 e 1910 na Alemanha. De sua parte, Kautsky (que
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

em 1905 havia estado junto a ela nessa disputa), em 1910 se dedicou a


desenvolver uma concepção contraposta, poderíamos dizer, à de “escola
de guerra” em referência às greves combativas.
Como parte do debate das duas estratégias, Kautsky afirmava que
na Alemanha era muito mais difícil que existisse uma greve “de tal enver-
gadura que altere completamente o aspecto da rua e com isso cause
uma impressão profundíssima na totalidade do mundo burguês, assim
como nas camadas mais indiferentes do proletariado”239. E agregava,
como um mérito, que eram difíceis “não apesar, mas por causa de meio
século de movimento socialista, organização social-democrata e liberda-
de política”240. Ou seja, não somente o SPD não deveria se nutrir dessas
experiências, como era “natural” que as desestimulasse.
Agora, a diferença entre o esquema de Kautsky (educação e orga-
nização para momentos não-revolucionários e luta física para momentos
revolucionários) e o de Lênin não se limitava ao conceito de “escolas de
guerra”. Esse era o ponto emergente de uma concepção estratégica mais
geral, na qual o “combate” ocupava o lugar central. A abordagem de
Lênin era similar à de Clausewitz, quando este afirma que:

Quaisquer que sejam seus diversos aspectos, por distante que pareça da
crua explosão de ódio e animosidade do pugilismo, ainda que mil cir-
cunstâncias que não são propriamente luta o penetrem, permanece sem-
pre no conceito da guerra que todas as ações que nela aparecem têm sua
origem na luta.241

Como vimos, portanto, sua concepção de “organização” não é gené-


rica, mas está ligada à construção de uma organização de e para o com-
bate. O mesmo podemos dizer com relação à “educação socialista” ou à
“educação política”.
Em comparação com a guerra interestatal, o resultado da guerra civil
revolucionária depende muito menos da preparação puramente militar do
que da preparação política. A “virtude guerreira” no caso do partido revo-
lucionário deve se referir também – e muito especialmente – ao combate

239  Karl Kautsky, “Una nueva estrategia”, op. cit., p. 208.


240  Idem.
241  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 68.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 129

político. Eis a importância fundamental do segundo conceito de Lênin,


ora mencionado, de “tribuno do povo”. Em O que fazer?, Lênin afirma:

Cabe perguntar em que se deve consistir a educação política. Podemos


nos limitar a propagar a ideia de que a classe operária é hostil à auto-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

cracia? Claro que não. Não basta explicar a opressão política de que são
objeto os operários […]. É necessário fazer agitação por ocasião de cada
fato concreto dessa opressão […]. E dado que as mais diversas classes da
sociedade são vítimas dessa opressão […] não é evidente que não cumpri-
ríamos nossa missão de desenvolver a consciência política dos operários,
se não empreendêssemos a organização de uma vasta campanha política
de denúncias contra a autocracia?242

Esse aspecto, o da denúncia política contra toda forma de opressão,


é um dos mais popularizados naquilo que se refere à concepção de Lênin.
De fato, em seu livro sobre O que fazer?, Lars Lih o toma como peça cen-
tral do conceito de “tribuno do povo”, não sem vulgarizá-lo. Segundo
Lih, a atividade da social-democracia na qual se inspirava Lênin consis-
tia em que “o Partido não se limitava só aos interesses da classe operá-
ria, nem sequer à transformação socialista, mas também aos princípios
de decência democrática da sociedade em seu conjunto”243. Daí que, para
Lênin, uma “arma utilizada pelo SPD em seu papel de tribuno do povo
– de importância central para o revolucionário russo e o Iskra – fosse
o que chamou de denúncias políticas: a exposição da corrupção e do
escândalo”244.
Os apontamentos de Lih são ilustrativos de um tipo de interpre-
tação que, ao assimilar o conceito de “tribuno do povo” simplesmente a
seu aspecto de “denúncia política”, acaba por separá-lo de seu conteúdo
revolucionário. Justamente, a chave da ideia de “tribuno do povo” para
Lênin e aquilo que o define é ser

capaz de generalizar todos estes fatos e oferecer um quadro único da bru-


talidade policial e da exploração capitalista; capaz de aproveitar o menor
detalhe para expor ante todos as suas convicções socialistas e suas rei-
vindicações democráticas, para explicar a todos a importância histórica
mundial da luta emancipadora do proletariado.245

242  V. I. Lenin, “¿Qué hacer?”, Obras selectas, tomo I, op. cit., p. 109.
243  Lars Lih, Lenin Rediscovered. “What Is to Be Done?” in Context, op. cit., p. 72.
244  Idem. p. 73.
245  V. I. Lenin, “¿Qué hacer?”, op. cit., p. 126.
130 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Em outras palavras, o tribuno do povo é aquele que reage diante


de toda opressão e sabe orientar tal reação para a luta revolucionária
e uni-la à luta emancipadora do proletariado. Trata-se nem mais nem
menos da condição política necessária para que o partido revolucioná-
rio da classe operária possa articular em torno de si os maiores volumes
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

de força necessários para a revolução, não só nas fileiras do proletaria-


do (independência política), mas também entre seus aliados (hegemonia).
Mais adiante, retornaremos aos dois aspectos; o que queremos reforçar
aqui é que o conceito de “tribuno do povo” era para Lênin acima de tudo
um conceito de combate e, nesse sentido, podemos reconhecer as pega-
das de Graco Babeuf246. Assim como o conceito de “escola de guerra”
permite aproveitar os acontecimentos da luta de classes para a preparação
do partido para os combates físicos em momentos em que não há revo-
lução, o conceito de “tribuno do povo” cumpre um papel análogo com
relação à preparação política do partido.
No caso da Alemanha, no momento do debate sobre as duas estraté-
gias e, mais ainda, na medida em que se aproximava a guerra mundial, a
noção de “tribuno do povo” implicava o choque com as tendências (cada
vez mais amplas) que se dobravam à propaganda nacionalista do gover-
no dentro da social-democracia, tanto na direção do partido quanto na
dos sindicatos. Nesse caso também Kautsky desenvolveu uma concepção
antitética à de Lênin.
Em 1912, como parte do debate iniciado contra Luxemburgo, mas
agora polemizando com Anton Pannekoek, diz ele:

Em meu artigo de maio do ano passado [1911], havia assinalado em par-


ticular que era impossível determinar previamente como seriam nossas
ações em caso de uma guerra […]. Tudo depende das condições sob as
quais se entra na guerra e da atitude da população.247

246  Babeuf (1760-1797) foi dirigente revolucionário durante a Revolução Francesa


do século XVIII, era editor do jornal O Tribuno do Povo (Le Tribun du Peuple), defendia a
destruição violenta da propriedade privada, a necessidade da insurreição e se definia, em
seus próprios termos, como “comunista revolucionário”. Um dos grandes revolucioná-
rios do século XVIII, sua influência chega através de Philippe Buonarroti a outro dos
grandes revolucionários, porém do século XIX, Auguste Blanqui, contemporâneo de
Marx e Engels. Uma acusação muito comum feita a Lênin foi justamente a de “blanquis-
ta”, por sua estratégia insurrecional, apesar de, como veremos, ela guardar diferenças fun-
damentais com a de Blanqui.
247  Karl Kautsky, “La nueva táctica”, em Rosa Luxemburgo; Karl Kautsky e Anton
Pannekoek, Debate sobre la huelga de masas, Segunda parte, Buenos Aires, Pasado y Presente,
1976, p. 88.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 131

Isso dependeria de se as massas da população vissem a origem da


guerra “na política do governo” ou “nas necessidades do inimigo”. Ou
seja, não é o partido que combate a influência da consciência burgue-
sa entre as massas, incluído o proletariado, buscando extrair conclusões
revolucionárias, mas, sim, é a “atitude da população” que determina se
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

o partido deve ou não desenvolver uma agitação a favor de adotar ações


revolucionárias em caso de guerra.
Naquela crise de 1911 a que Kautsky faz referência (que quase leva a
Alemanha à guerra contra a França e a Inglaterra248), Rosa Luxemburgo
encarna o espírito do “tribuno do povo”, denunciando o discurso hipó-
crita dos “amigos da paz” dos círculos burgueses e marcando como pers-
pectiva para as massas “que o militarismo só pode ser erradicado junto
com o Estado da classe capitalista”249. No entanto, Rosa Luxemburgo
não tinha se proposto a forjar com aquela política os “tribunos do povo”,
quadros e dirigentes que fossem capazes de levá-la adiante junto com ela
e para o que contava com um apoio significativo de setores da militân-
cia do SPD naquele período. Essa era uma grande diferença que a sepa-
rava de Lênin.
Na concepção de Lênin, “escola de guerra” e “tribuno do povo”
denotavam dois aspectos essenciais da preparação da militância revolu-
cionária para o combate e foram constitutivos da “virtude guerreira” dos
militantes bolcheviques, que teve sua expressão máxima em fevereiro
de 1917, quando “os operários formados por Lênin” (assim os chamou
Trótski) dirigiram a insurreição que derrubou o tsarismo sem a partici-
pação do próprio Lênin nem da maioria da direção do partido que se
encontrava no exílio.

O “gênio guerreiro”
Junto com a “virtude guerreira do exército”, outra das principais
potências morais que destaca Clausewitz é “o talento do general em
chefe”, o que chamou de “gênio guerreiro”. A alusão ao “gênio” não tem

248  A chamada “crise de Agadir” de 1911 é fruto do envio de um navio alemão


a Marrocos para “defender os interesses do Império” contra a rebelião popular que ha-
via se desatado naquele país. Isso provoca a reação da França, que controlava Marrocos,
e da Inglaterra. Esse incidente ameaçou fazer com que estourasse uma guerra entre as
potências.
249  Rosa Luxemburgo, “Utopías pacifistas”. In: Lênin, V. I.; Trotsky, León;
Luxemburgo, Rosa y otros, Marxistas en la Primera Guerra Mundial, Buenos Aires, Ediciones
IPS-CEIP León Trotsky, 2014, p. 25.
132 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

para ele um sentido romântico250, mas se refere mais precisamente às


“excepcionais faculdades do espírito para certas atividades”251. O perigo,
os esforços físicos, o azar, a incerteza permeiam a luta real (em contras-
te com a luta “no papel”) do princípio ao fim, “compreende-se facilmen-
te – diz o general prussiano – que é preciso uma considerável energia de
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ânimo e do entendimento para marchar com segurança e êxito em tão


difícil elemento”.252
A explosão da Grande Guerra – como ficou conhecida naquele
então a I Guerra Mundial – pôs à prova aquela “potência moral” em
todas as direções da II Internacional. O resultado é conhecido. A maio-
ria delas se alinhou atrás de seus respectivos Estados imperialistas, dando
carta de cidadania ao “social-chauvinismo”253. A social-democracia alemã
estava no próprio centro da tormenta254; se havia um partido operário
com maior responsabilidade de combater a guerra, era justamente o
SPD. Será o momento da ruptura definitiva de Lênin com Kautsky, que
justificaria a aliança com a burguesia imperialista sob o argumento de
estar ante uma guerra defensiva.
Para Lars Lih, nessa ruptura, Lênin sustenta uma “agressiva falta
de originalidade”, aferrando-se ao legado de Kautsky enquanto este o
abandona.

O ano de 1914 levou a um novo Lênin? – se pergunta Lih –. Penso que o


fez de certa forma. Levou-o a colocar-se na linha de frente em escala eu-
ropeia. Agora estava pensando em termos de um líder com um programa
europeu. Para exagerar, talvez, “Lênin teve que se converter em Kautsky
porque Kautsky já não estava sendo Kautsky”.255

250  Ver José Fernández Vega, Las guerras de la política. Clausewitz de Maquiavelo a Perón,
Buenos Aires, Edhasa, 2005, p. 166.
251  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 82.
252  Idem, p. 89-90.
253  “Por social-chauvinismo” – diz Lênin – “entendemos a aceitação da ideia de de-
fesa da pátria na guerra imperialista atual, a justificação dessa aliança dos socialistas com
a burguesia e com os governos de ‘seus’ países respectivos nesta guerra, a negativa a pro-
pugnar e apoiar as ações revolucionárias do proletariado contra ‘sua’ própria burguesia,
etc. […] O social-chauvinismo e o oportunismo são uma única e mesma corrente. Nas con-
dições próprias da guerra de 1914-1915, o oportunismo engendra precisamente o social-
chauvinismo” (V. I. Lenin, “La bancarrota de la Segunda Internacional”, op. cit., p. 240).
254  O Império alemão, como potência em ascensão, encabeça a aliança com a Áustria-
-Hungria contra a Entente, liderada pela Grã Bretanha em aliança com França, Rússia e
Itália, à qual se somará em seguida a outra potência emergente, os Estados Unidos.
255  Lars Lih, Lenin & Kautsky, Londres, Weekly Worker, 2009, p. 10.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 133

É evidente que, a partir do momento em que Kautsky abandona


a luta revolucionária e Lênin persiste nela, é este último que expressa a
continuidade do marxismo revolucionário. Porém Lih se refere a muito
mais do que isso, e em especial à continuidade em sua concepção de par-
tido (desde suas elaborações de O que fazer? em diante), que é a tese cen-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

tral de seu livro Lenin Rediscovered.


No entanto, como viemos resenhando, durante a primeira década do
século XX, foi se expressando uma série de elementos novos: a ampliação
das posições estratégicas do proletariado, a irrupção do movimento ope-
rário até chegar na revolução de 1905 na Rússia, a inovadora auto-orga-
nização do proletariado, o desenvolvimento de uma nova burocracia no
Ocidente e, em especial, na Alemanha (primeiro nos sindicatos, depois
no SPD) nos marcos da democracia burguesa, etc. Em torno de suas
diferentes respostas a esses fatos novos, tanto o SPD quanto o Partido
Bolchevique (muito antes de existir enquanto tal) foram configurando
“novos tipos de partido” com características cada vez mais diferentes, além
das que lhes impunha a própria estrutura sócio-política de cada país.
Ainda que Kautsky nunca tenha chegado a cumprir no SPD o
papel dirigente de um Lênin (que seria mais próximo ao de Bebel), as
mudanças que haviam se produzido souberam pôr à prova o “gênio gue-
rreiro” de ambos os dirigentes no que diz respeito ao trabalho da estraté-
gia. Como assinala Clausewitz,

Aquela insegurança em todas as notícias e hipóteses e a constante intro-


missão do acaso fazem com que na guerra as coisas apareçam sem cessar
de maneira distinta da que se esperava, questão que não pode menos
do que exercer influência no plano ou nas concepções correspondentes a
esses planos.256

Nesse meio é que se põem em jogo as qualidades do “gênio guerrei-


ro”. Clausewitz aponta três principais. Por um lado, o coup d’oeil (golpe
de vista), que poderíamos identificar com a capacidade de “caracterizar”
determinada situação no curso dos acontecimentos; os “olhos da inteli-
gência”, capazes de inquirir intuitivamente a verdade entre os inúmeros
fatores em jogo257. Por outro, a courage d’espirit (resolução), já que uma

256  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 85.


257  Clausewitz afirma: “a complexidade e o caráter vago dos limites em todos os
aspectos põem em jogo uma grande quantidade de fatores, a maior parte dos quais só
podem ser estimados recorrendo-se a cálculos de probabilidade; se o executante não adi-
vinhasse tudo isso com o olhar luminoso de seu espírito, que pressente a verdade onde
ela esteja, se formaria um labirinto de considerações e limitações no qual o juízo se per-
deria sem achar jamais a saída. Nesse sentido, Bonaparte foi muito elogiado: muitos dos
134 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

coisa é “ver” algo e outra é atuar em consequência. Essa resolução é, para


Clausewitz, um ato de raciocínio “que leva ao convencimento da necessi-
dade de se atrever e, portanto, obriga a vontade”258. E, em terceiro lugar,
o que ele chama de “presença de espírito”, a capacidade de reação opor-
tuna ante o inesperado259.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

No que tange à sua concepção de partido, vemos em Lênin a apli-


cação dessas qualidades nas principais batalhas que protagonizou. Desde
logo, na luta contra o “economismo” (1894-1902); ainda que esta tenha
travado junto a Mártov e a seu mestre Plekhánov. Será a partir de 1903
que Lênin encara, contra ambos, a batalha em face do que ficou conheci-
do como o menchevismo (1903-1908). Compreendê-la retrospectivamen-
te é um tipo de tarefa acessível a qualquer um que a estude (ainda que,
de fato, muitos, como Lars Lih, parecem cair uma e outra vez na ideia do
“fracionalismo” ou polarização excessiva de certas diferenças em relação
a outras260). O realmente difícil era assimilar, porém, a magnitude desse
combate no calor dos acontecimentos.
Naquela ocasião, Lênin mostrou as qualidades assinaladas por
Clausewitz para o “gênio guerreiro”. “Golpe de vista” para entender que
havia surgido um “sucessor direto do ‘economismo’, não só no terreno
ideológico, mas também em questões de organização”.261 A “resolução”
para continuar a luta apesar da chantagem política dos mencheviques e
da ruptura de Plekhánov. E a “presença de espírito” para colocar de pé
imediatamente a fração bolchevique. Seu desenvolvimento como fração
organizada permanente será a chave para constituir a força material e
moral para enfrentar o oportunismo.
E, assim, em 1914-1915, Lênin generalizará a experiência bolchevi-
que de organização independente dos oportunistas: “O social-chauvinismo

problemas que se apresentavam a um general em chefe constituiriam um tema de cálculo


matemático digno das faculdades de um Newton ou de um Euler”. (Carl von Clausewitz,
De la guerra, tomo I, op. cit., p. 105-106).
258  Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 88.
259  Cf. Carl von Clausewitz, De la guerra, tomo I, op. cit., p. 89.
260  De fato, Lih retira toda importância da discussão sobre os estatutos do parti-
do, que terminou motivando a ruptura em 1903, sob o argumento de que no congres-
so de unificação de 1906 os mencheviques finalmente a aceitariam (Cf. Lars Lih, Lenin
Rediscovered. “What Is to Be Done?” In Context, op. cit., p. 496). Esse tipo de formalismo é in-
capaz de compreender a luta viva de estratégias. É o mesmo que o leva a dizer que Stalin
era o que melhor compreendia o que havia de inovador ou não na teoria de partido de
Lênin, apoiando-se em uma frase (cf. Idem, p. 32), o que o faz não levar em conta a evo-
lução do pensamento de Kautsky, citar indistintamente textos de fins do século XIX até
textos de 1920, sem se dar conta de que entre um Kautsky e o outro (para além de uma
frase ou outra em particular) havia um abismo histórico.
261  V. I. Lenin, “La bancarrota de la Segunda Internacional”, op. cit., p. 258.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 135

– diz ele – é o oportunismo chegado a tal ponto de maturidade, que esse


abcesso burguês já não pode seguir existindo como até agora no seio dos
partidos socialistas”262.
Algo semelhante podemos dizer da luta contra o liquidacionismo
(1908-1914), explorando até suas últimas possibilidades o acordo com
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Plekhánov (“mencheviques pró-partido”) até 1912 e inclusive depois.


Aqui temos outra expressão do “gênio guerreiro” de Lênin. A luta sem
quartel contra o legalismo e a pretensão de limitar o trabalho da social-
democracia no permitido pelas leis tsaristas foi o que permitiu aos bolche-
viques, em 1912, estar à altura das circunstâncias quando se desenvolveu
um novo ascenso operário. Graças àquele combate, puderam combinar
o trabalho legal com o ilegal, avançando a passos largos na fusão com o
movimento operário russo. Tal avanço só foi interrompido pela guerra,
mas seus frutos reapareceriam em fevereiro de 1917, com “os operários
formados por Lênin” dirigindo as ações que colocaram fim na autocra-
cia. Trata-se novamente de uma luta antecipatória de outra generalização
que Lênin realizaria em 1914-1915:

o legalismo exclusivo dos partidos “europeus” caducou e se converteu,


em virtude do desenvolvimento do capitalismo da fase pré-imperialista,
na base da política operário-burguesa. É preciso complementá-lo com a
criação de uma base ilegal, de uma organização clandestina, de um tra-
balho social-democrata ilegal, sem abandonar ao mesmo tempo nenhuma
posição legal.263

Visto isso, as tentativas como as de Lars Lih de “redescobrir” a


teoria do partido revolucionário de Lênin exclusivamente a partir de
O que fazer? (inclusive, colocando-o no contexto de sua elaboração) não
parecem viáveis. Não se trata apenas de um “modelo” de partido, mas,
sim, do trabalho da estratégia para levá-lo adiante, o que como busca-
mos mostrar está muito longe de ser a mesma coisa. Não se pode enten-
der a gênese da concepção de Lênin por fora de todos aqueles combates
e da própria luta contra o “social-chauvinismo”. Foram todos eles que
lhe permitiram afirmar em 1915 que: “Na Rússia, a separação completa
dos elementos proletários social-democratas revolucionários em relação
aos pequeno-burgueses foi preparada por toda a história do movimento
operário”264.

262  Idem, p. 242.


263  Idem, p. 254.
264  Idem, p. 257.
136 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Voltando à pergunta formulada por Lih: 1914 levou a um novo


Lênin? Nosso autor tem razão quando diz que, mais que um “novo
Lênin”, o que ocorreu é que ele se projetou como o principal líder inter-
nacional do marxismo revolucionário. No entanto, no que toca a sua
concepção de partido, contrariamente ao que afirma Lih, o que ele fez foi
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

generalizar as diferenças que o separavam da evolução do SPD e do pró-


prio Kautsky. De todo modo, esse não seria mais do que o início da his-
tória que será continuada na própria Revolução Russa de 1917 e com a
fundação da III Internacional e suas organizações nacionais, como desen-
volveremos nos próximos capítulos.
O que podemos dizer de Kautsky? Depois de ser protagonista da
organização da social-democracia na clandestinidade sob as leis antisso-
cialistas, de participar na luta contra o revisionismo e no combate contra
a nova burocracia sindical em ascensão, retrocedeu em 1910 ante o poder
material que esta havia adquirido (o qual provinha de ser expressão da
própria burguesia e do seu Estado) e o perigo de cisão do partido, que
colocava um enfrentamento decidido contra ela. Fica parecendo que
segundo seus cálculos esta era a forma de manter a força do partido (sua
organização entendida puramente em termos de “força material”) e sua
independência política dos liberais, depositando todas as suas expectati-
vas265 no avanço parlamentar (isto é, puramente legal) do partido para
chegar a um governo da social-democracia.
Em 1912, quando o próprio aparato partidário dirigido por Ebert
– aliado dos revisionistas e fortalecido pela vitória eleitoral – avançou
em seu bloco “sem intermediários” com a burocracia sindical – momen-
to em que Bebel se aproximava do final de sua vida –, foi abandonan-
do paulatinamente até mesmo a luta pela independência política do SPD
em relação aos liberais. Em 1914, quando a situação deu seu giro funda-
mental, a defesa “da organização” mediante uma obstinada “estratégia
de desgaste” levou à sua conclusão necessária: subordinar-se ao Estado
imperialista na guerra. Como afirmou Lênin:

É evidente que a passagem a ações revolucionárias significava a disso-


lução das organizações legais pela polícia; contudo, o velho partido, de
Legien a Kautsky, inclusive, sacrificou os objetivos do proletariado em
favor da manutenção das atuais organizações legais […]. O direito do
proletariado à revolução foi vendido por um prato de lentilhas.266

265  Isso supondo que ainda as conservasse. Esta aproximação deixa de lado, além
disso, a análise da evolução da moral do próprio Kautsky em seu aspecto psicológico, a
qual não deixa de ser relevante, apesar de que demandaria um desenvolvimento particu-
lar que supera estas páginas.
266  V. I. Lenin, “La bancarrota de la Segunda Internacional”, op. cit., p. 249.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 137

Desse ponto de vista, defender, como faz Lars Lih, que Lênin não
fez mais do que continuar “a obra” que Kautsky abandonou, não pode
soar nada além de ridículo. Trata-se de dois cursos estratégicos divergen-
tes que, ante um giro brusco da situação – e a guerra definitivamente o
foi –, colidiram. Dificilmente seria possível exagerar a responsabilidade
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

da direção em momentos decisivos como este. Kautsky, em sua defesa,


afirma:

Porém quem se atreveria a afirmar que quatro milhões de proletários


alemães conscientes, a uma simples ordem de um punhado de parlamen-
tares, podem dar meia volta à direita em 24 horas e se reposicionar ante
os seus objetivos de ontem? […] Se essas massas fossem um rebanho de
ovelhas tão desprovido de caráter, não nos restaria nada além de nos
deixar enterrar.267

Diante disso, Lênin replica que

a vontade comum dessa organização […] expressava exclusivamente seu


centro político único, um “punhado” que traiu o socialismo. Esse punhado
foi consultado, convidaram-no a votar, pôde votar, escrever artigos, etc.
As massas, em troca, não foram consultadas. Não só não se lhes permitiu
votar, como ainda foram divididas e arrastadas, não “por ordem” de um
punhado de parlamentares, mas das autoridades militares.268

Nesse mesmo sentido aponta a crítica de Rosa Luxemburgo, nas


páginas de Die Internationale, sobre a traição da direção social-democra-
ta e da fração parlamentar ao se alinhar com a burguesia imperialista na
guerra. A Luxemburgo, como demonstra sua trajetória, não faltavam
qualidades do “gênio guerreiro”. Foi a primeira em nível internacional a
enfrentar Eduard Bernstein (ex-secretário de Engels, organizador e fun-
dador do partido), mostrando aos 29 anos uma enorme resolução. Ao
mesmo tempo, um “golpe de vista” superior ao de todos os seus con-
temporâneos que não viam ainda o significado histórico daquele debate
e a “presença de espírito” para elaborar imediatamente uma obra como
Reforma ou revolução. O mesmo se pode dizer do combate contra a nova
burocracia sindical e em seguida contra a burocracia partidária. Foi a pri-
meira a vê-las e a mais decidida e constante em combatê-las. O mesmo

267  Citado em V. I. Lenin, “La bancarrota de la Segunda Internacional”, op. cit., p.


236. Ver também Karl Kautsky, “National State, Imperialist State and Confederation”, em
Richard Day e Daniel Gaido (eds.), Discovering Imperialism. Social Democracy to World War I,
Leiden, Brill, 2011.
268  V. I. Lenin, “La bancarrota de la Segunda Internacional”, op. cit., p. 238.
138 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

ela demonstrou a partir da revolução russa de 1905 e da aguda situação


que se desenvolveu paralelamente na Alemanha. Outro tanto, em 1910,
diante de uma situação com traços pré-revolucionários, assim como
também em relação à nova teorização de Kautsky sobre a “estratégia de
desgaste”, entre outros exemplos.
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Contudo, no que diz respeito à sua teoria de partido, à relação entre


a autoatividade da classe operária, a organização partidária e sua direção,
a história demonstraria que ela se equivocou estrategicamente. Isso, no
entanto, não significa tanto em si mesmo. Apenas para nos referirmos a
exemplos dentro do problema da relação entre classe, partido e direção,
podemos ver que Trótski tinha muitos pontos de contato com Rosa
Luxemburgo em sua concepção de partido, daí suas tentativas de conci-
liação com os liquidacionistas, que foram violentamente combatidas por
Lênin. O próprio Lênin havia subestimado a capacidade do proletaria-
do de superar a consciência puramente “trade-unionista”, como demons-
trariam os sovietes de 1905. Tampouco viu a envergadura do fenômeno
de burocratização da social-democracia alemã antes de 1914, enquan-
to Trótski e Rosa Luxemburgo o viram. E poderíamos seguir com os
exemplos.
O problema, então, não foi o erro estratégico, mas o fato de que,
diferentemente de Lênin, que assimilou a novidade dos sovietes em
1905, ou de Trótski, que entrou no Partido Bolchevique em 1917, Rosa
Luxemburgo persistiu em sua teoria e mudou demasiado tarde. Só o fez
quando já era evidente a necessidade de um partido nos termos de Lênin,
durante o próprio desenvolvimento da revolução alemã de 1918-1919.
Passados poucos meses da eclosão da guerra, Lênin já assinalava:

Tudo o que se faça de modo honrado e verdadeiramente socialista no Par-


tido Social-Democrata Alemão se faz contra os seus centros […], violando
sua disciplina organizativa e atuando fracionalmente, em nome de novos
centros anônimos de um novo partido.269

Acrescentando:

Passar à organização revolucionária é uma necessidade […], porém esse


trânsito só pode ser efetuado passando por cima dos velhos líderes,
estranguladores da energia revolucionária, passando por cima do velho
partido, destruindo-o.270

269  Idem, p. 246.


270  Idem, p. 251.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 139

Rosa Luxemburgo, que naquele momento havia formado com


outros dirigentes – Mehring e Liebknecht entre eles – o grupo Die
Internationale, se opunha a essa perspectiva. Coerente com sua concepção
de partido, apostava estrategicamente em permanecer no SPD, a expul-
sar a burocracia dos Ebert e dos Scheidemann, e a conquistar a militân-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

cia a partir do impulso provocado pelo futuro levante das massas contra
a guerra271:

Sempre é possível sair de pequenas seitas, ou cenáculos, e se não se quer


permanecer neles lançar-se a construir novas seitas ou novos cenáculos.
Porém são sonhos irresponsáveis querer libertar toda a massa de proletá-
rios do jugo mais pesado e perigoso da burguesia, mediante uma simples
“saída”.272

No entanto, com seu apelo, Lênin estava longe de propor uma sim-
ples saída. A velha direção do SPD havia mostrado ante as massas a sua
completa degeneração interna ao marchar atrás das tropas do Estado
imperialista na guerra. Nesse contexto, não se podia esperar o futuro
ascenso de massas para que uma nova direção revolucionária se puses-
se à frente delas. Para isso, eram necessários quadros capazes de chegar
às massas, que tivessem forjado na experiência sua confiança na nova
direção. Essa tarefa não podia ser improvisada no próprio processo revo-
lucionário. Daí o chamado de Lênin.
Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht contavam com um enorme
prestígio, e esse último com grande influência pessoal sobre as massas; a
então Liga Espartaquista, ainda que pequena, tinha uma rede de impor-
tantes dirigentes. No entanto, Rosa Luxemburgo se negaria a fundar um
novo partido revolucionário, inclusive em princípios de 1917273, quando
se produz a cisão por pressão da burocracia. É expulsa então tanto a
“oposição leal” (Haase, Ledebour, o próprio Kautsky, Hilferding e até
Bernstein), como a oposição radical encabeçada por Luxemburgo. O par-
tido se divide quase ao meio (170 mil militantes permanecem, 120 mil se
vão). No entanto, Rosa Luxemburgo e seu grupo concordam em se inte-
grar ao novo partido (Partido Social-democrata Independente) formado
por todos os dirigentes da “oposição leal” que havia combatido até o can-
saço, incluídos Kautsky e Bernstein.

271  Cf. Pierre Broué, Revolución en Alemania, op. cit., p. 49.


272  Rosa Luxemburgo, “Offener Brief an Gesinnungsfreunde”, assinada por
Gracchus, citada em: Pierre Broué, Revolución en Alemania, op. cit., p. 49.
273  Em 17 de janeiro de 1917, poucas semanas antes do início da Revolução Russa e
no contexto da iminente entrada dos EUA na guerra contra a Alemanha.
140 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Depois da revolução de novembro de 1918 (e com Ebert como novo


chanceler), não havia nenhum partido equivalente ao bolchevique russo
em condições de disputar a direção dos conselhos (Räte) de operários e
soldados contra a burocracia sindical e partidária da social-democracia
que buscava controlá-los a partir de seu interior. Rosa Luxemburgo se
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

opôs até o último momento a abandonar o SPD Independente e apenas


em 1º de janeiro de 1919 funda o Partido Comunista da Alemanha. Três
dias depois, o governo social-democrata monta uma provocação para
forçar um levante prematuro em Berlim, e obtém êxito. As duas figu-
ras centrais do governo, Ebert e Scheidemann, denunciaram um suposto
plano para instaurar a “ditadura de Liebknecht e Rosa Luxemburgo”274
e chamaram a enfrentá-lo. A partir de 9 de janeiro, começa a ofensiva
governamental com tropas assentadas na cidade, às quais logo se soma-
ram os Freikorps275 para esmagar o movimento, desferindo uma derro-
ta decisiva à revolução. Poucos dias depois, assassinam Luxemburgo e
Liebknecht.
Na véspera de seu assassinato, Rosa Luxemburgo escreve à guisa
de balanço:

A direção fracassou. Mas a direção pode e deve ser criada de novo pelas
massas e a partir das massas. […] “A ordem reina em Berlim!”, capachos
estúpidos! Vossa ordem está edificada sobre areia. A revolução amanhã já
“se elevará de novo com estrondo para o alto” e proclamará, para vosso
terror, em meio ao som dos trompetes: Fui, sou e serei!276

E assim foi, efetivamente. Como veremos, faltavam ainda muitos


capítulos da revolução alemã.

274  Cf. Pierre Broué, Revolución en Alemania, op. cit., p. 159.


275  Forças paramilitares formadas essencialmente por ex-combatentes da I Guerra
Mundial.
276  Rosa Luxemburgo, “El orden reina en Berlín”, Marxists Internet Archive, 1999,
consultada em 5/3/2017, em: https://www.marxists.org/espanol/luxem/01_19.htm.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 141

PARTE 5
DUAS ESTRATÉGIAS, DOIS TIPOS DE GUERRA

A estratégia, como víamos com Clausewitz, consiste na utilização


dos combates táticos isolados para conquistar o objetivo político da
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

guerra. Até o momento desenvolvemos os debates em torno da colocação


de Kautsky sobre a “estratégia de desgaste” e a “estratégia de derrubada”,
em termos da própria estratégia e de sua relação com os combates táticos,
de que tipo de definição estratégica continha para o partido revolucioná-
rio, que relação supunha entre classe, partido e direção, a quais modifi-
cações da realidade respondia e de que forma.
Como, então, a adoção da “estratégia de desgaste” influía em
relação ao “objetivo político da guerra”? Ou, dito em outros termos, que
relação havia entre as diferentes estratégias e o programa revolucioná-
rio? Para responder a essa pergunta, é importante precisar em que consis-
tia a formulação teórica original das “duas estratégias” na obra de Hans
Delbrück; que anos antes Franz Mehring já havia recomendado como lei-
tura aos trabalhadores alemães para compreender a arte militar.
Delbrück desenvolve sua concepção da “dupla arte da estratégia”277
a partir de uma interpretação de Clausewitz. Seu raciocínio partia de que
Clausewitz

[…] considera refazer seu trabalho [Da guerra] uma vez mais a partir do
ponto de vista de que há uma dupla arte da guerra, isto é, uma na qual o ob-
jetivo é o de abater o inimigo, outro em que se tem a intenção de efetuar
algumas conquistas nas fronteiras do país.278

A partir dessa concepção, Delbrück elabora os conceitos de “estra-


tégia de desgaste” (para “conquistas nas fronteiras”) e “estratégia de

277  Delbrück se baseia na nota de Clausewitz de 1827, a partir da qual se propunha


revisar os rascunhos de Da guerra, onde afirma: “Estas duas espécies de guerra são, de um
lado, aquela na qual o fim é abater o inimigo, seja para aniquilá-lo politicamente, seja para
desarmá-lo apenas, obrigando-o a aceitar a paz a qualquer preço; e, por outro lado, aque-
la em que se deseja apenas efetuar algumas conquistas nas fronteiras do país, seja apenas
para conservá-las ou para fazê-las valer como moeda de troca útil no momento da paz. As
formas intermediárias entre uma espécie e outra devem subsistir, porém a natureza intei-
ramente diferente de ambas as empresas deve penetrar por todos os lados e marcar a se-
paração entre os elementos inconciliáveis” (Carl von Clausewitz, On War, Auckland, The
Floating Press, 2010, p. 25).
278  Hans Delbrück, History of the art of war, tomo IV, Lincoln, University of Nebraska
Press, 1990, p. 545.
142 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

abatimento” (para “abater o inimigo”) como “dois polos da arte da estra-


tégia” entre os quais se dão todo tipo de combinações279.
Como vemos na citação anterior de Delbrück, ainda que fale de
“duas estratégias” – o que lhe valeu importantes críticas280 –, a definição
das mesmas passa fundamentalmente pelo tipo de objetivo político que
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

perseguem (“conquistas nas fronteiras” ou “abater o inimigo”). Ou seja,


como bom clausewitziano, não autonomiza a estratégia em si por fora
dos objetivos políticos, ainda que esteja claramente correto que ambos
se determinam mutuamente; e nisso também é fiel à ideia original de
Clausewitz.
Kautsky toma esse esquema teórico para defender que, para a
Alemanha em 1910, estava colocada (e o havia estado até então) uma
“estratégia de desgaste” pelo fato de se tratar de uma sociedade “ociden-
tal” (com um desenvolvimento capitalista superior e maior democracia
burguesa), em que a classe operária tinha um peso demográfico majo-
ritário e havia desenvolvido grandes organizações sindicais e políticas.
Enquanto no Oriente (Rússia), onde essas características não existiam,
ainda defendia naquele momento que seguia colocada a “estratégia de
derrubada”.
No entanto, se comparamos a formulação original de Delbrück com
a apropriação que Kautsky fez dela, surge uma diferença de primeira
ordem para o tema que estamos analisando. Se para Delbrück as duas
estratégias respondiam a objetivos políticos diferentes, a formulação de
Kautsky de 1910 passa esse elemento por alto para afirmar que se trata
de diferentes estratégias intercambiáveis – conforme a estrutura sócio-
política – sem indagar, e sem sequer explicitar, qual é a ligação entre estas
e o “fim político” (programa) da social-democracia; em particular entre
“estratégia de desgaste” e “ditadura do proletariado”.
Essa relação entre estratégia e programa surgiu dois anos mais tarde,
em 1912, naquilo que poderia ser considerada como a segunda parte do
debate sobre as duas estratégias, não mais contra Rosa Luxemburgo, mas
contra a Anton Pannekoek. Membro da esquerda germano-holandesa da

279  Com eles, revisou toda a história militar desde a antiguidade até as guerras na-
poleônicas em sua Historia del arte de la guerra (Geschichte der Kriegskunst).
280  Raymond Aron é um dos críticos que questiona Delbrück, fundamentalmen-
te sua operação de desprender a noção de dupla arte da estratégia do pensamento de
Clausewitz. Aron sustenta que “Se trata da oposição não entre duas estratégias, mas
sim entre dois tipos de objetivo político da guerra considerada en sua totalidade” (Aron,
Raymond, Pensar la Guerra, Clausewitz, tomo I, La Era Europea, op. cit., p. 77). Essa polê-
mica se desenvolverá amplamente nesse livro, levantando uma série de debates impor-
tantes sobre a relação entre o objetivo político, a estratégia e o nível operacional, que
excedem amplamente as possibilidades de abordá-los aqui.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 143

II Internacional e mais tarde uma das referências da corrente conselhista,


seria Pannekoek a introduzir no debate, como parte da crítica a Kautsky,
a relação entre a estratégia e o “objetivo político da guerra”:

Se o proletariado quer conquistar o poder, deve derrotar o poder do Es-


Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

tado, a fortaleza na qual a classe dominante se entrincheirou. A luta do


proletariado não é simplesmente uma luta contra a burguesia pelo poder
do Estado como objetivo […], o conteúdo dessa revolução é a destruição e a
liquidação dos instrumentos de poder do Estado, usando os instrumentos
de poder do proletariado.281

A partir daí, Kautsky sairá em combate contra o socialista holan-


dês. Em sua réplica, afirma: “Até agora a diferença entre os social-demo-
cratas e os anarquistas consistia em que os primeiros queriam conquistar
o poder do Estado e esses últimos destruí-lo. Pannekoek quer ambas as
coisas”.282
Nessa disputa, Pannekoek traz ao debate uma diferença fundamen-
tal entre as discussões de estratégia militar (ou estratégia em geral) e as
de estratégia revolucionária. A saber: diferentemente da guerra interesta-
tal, na qual se pode perseguir diferentes fins (ou bem a derrota comple-
ta de tal ou qual Estado, ou bem a obtenção de determinada conquista
parcial), na revolução se coloca sempre um determinado tipo de guerra,
a “guerra civil”.
Enquanto que, em uma guerra interestatal, os Estados não colocam,
necessariamente, em jogo sua própria soberania (ou o fazem só parcial-
mente), na guerra civil sempre se trata de uma mesma soberania em dis-
puta. Ou seja, necessariamente o objetivo é “abater o inimigo”, o que em
termos de Delbrück implica uma “estratégia de derrubada”.
Lênin retoma esse aspecto do debate, retrospectivamente, em 1917.
Como vimos, em 1910, ele não interveio diretamente no debate entre
Rosa e Kautsky. No entanto, em O Estado e a revolução considerará neces-
sário tornar explícito seu acordo nesse ponto específico com Pannekoek
frente a Kautsky:

A formulação que Pannekoek dá a seus pensamentos padece de defeitos


muito grandes. Mas a ideia está clara […] Nesse debate, é Pannekoek que
representa o marxismo contra Kautsky, pois o que Marx ensinou é que
o proletariado não pode se limitar a conquistar o poder do Estado no

281  Anton Pannekoek, “Acciones de masas y revolución”. In: Rosa Luxemburgo, Karl
Kautsky e Anton Pannekoek, Debate sobre la huelga de masas, Segunda parte, op. cit., p. 51.
282  Karl Kautsky, “La nueva táctica”, op. cit., p. 110.
144 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

sentido de passar para novas mãos o velho aparelho de Estado; mas deve
quebrar, demolir esse aparelho e substituí-lo por um novo.283

Nesse ponto, Lars Lih também faz sua tentativa de diminuir as dife-
renças entre o Kautsky “pré-1914” e Lênin, ainda que com dificuldades
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

cada vez maiores. A esse respeito, o autor afirma que:

Em O Estado e a revolução critica [o livro de Kautsky de 1909] O caminho do


poder por não mencionar o Estado, porém ainda diz que é o melhor dos
livros de Kautsky. Ele, na realidade, não critica nada do que Kautsky diz:
simplesmente critica o que ele não diz sobre o Estado. Ainda assim, segue
de acordo com seus argumentos.284

Como vimos, diferentemente do que afirma Lih, Lênin não se limita


a referir-se a O caminho do poder, mas retoma explicitamente aquele debate
de 1912. Isso não é casual, já que a maior parte de O Estado e a revolução
está dedicada à relação entre a estratégia revolucionária e o objetivo polí-
tico da ditadura do proletariado, relação que Lênin considera como o
fundamental do legado de Marx e Engels e que havia se perdido nas últi-
mas décadas. E isso, como viemos resenhando, era mais do que certo.
Não o preocupa tanto polemizar com Bernstein e os reformistas que
dizem claramente que o Estado é um órgão de conciliação de classes,
mas, sim, justamente, contra “o ‘kautskismo’ hoje imperante”285, porque
“a tergiversação ‘kautskyana’ do marxismo é bastante mais sutil”286. Isso
porque, como explica Lênin: “‘Teoricamente’, não se nega nem que o
Estado seja o órgão de dominação de classe, nem que as contradições
de classe sejam irreconciliáveis”, porém “se passa por alto ou se oculta”
que “o Estado é um produto do caráter irreconciliável das contradições
de classe” e sua consequência lógica: que “a libertação da classe opri-
mida é impossível, não só sem uma revolução violenta, mas também

283  V. I. Lenin, “El Estado y la revolución”, Obras completas, tomo XXV, Buenos
Aires, Cartago, 1958, p. 479.
284  Lars Lih, “Lenin & Kautsky”, op. cit., p. 8.
285  V. I. Lenin, “El Estado y la revolución”, op. cit., p. 380.
286  Idem, p. 381.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 145

sem a destruição287 do aparato do poder estatal que foi criado pela classe
dominante”288.
É a partir de então que Lênin se encarrega de recuperar as princi-
pais lições extraídas por Marx e Engels dos processos revolucionários
de sua época (as revoluções de 1848 e a Comuna de Paris de 1871).
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

Não é como argumenta Lih em sua tese da “agressiva falta de originali-


dade” que “Lênin insistiu mais de uma vez, e com especial veemência,
que estava simplesmente repetindo o consenso existente antes da guerra
na social-democracia revolucionária”289. Ainda que muito dificilmente se
possa denominar assim, a única “falta de originalidade” que Lênin reivin-
dicava era com respeito aos fundadores do marxismo290.
A importância dessa tarefa de recuperação da estratégia e do pro-
grama marxista revolucionário que Lênin se coloca fica plasmada no
interessante percurso pela obra de Kautsky feito por Lars Lih a fim de
buscar o conceito de “destruição do Estado”. Lih o faz, é claro, para
demonstrar que tal menção existe; no entanto, só consegue encontrar
uma em um texto de 1904291 (ou seja, quando nem a virada de Kautsky,
nem as mudanças no SPD, nem a revolução russa de 1905 eram uma
realidade). Trata-se, inclusive, de uma citação que Lih tem que admitir

287  Sobre esse ponto, Lênin esclarece a distinção feita pelos fundadores do marxis-
mo entre “extinção” e “destruição” no que se refere ao amálgama realizado por Kautsky.
Diz ele: “Na realidade, Engels fala […] da ‘destruição’ do Estado da burguesia pela revo-
lução proletária, enquanto que as palavras relativas à extinção do Estado se referem aos
restos do Estado proletário depois da revolução socialista. O Estado burguês não se ‘ex-
tingue’, segundo Engels, mas ‘é destruído’ pelo proletariado na revolução. O que se extin-
gue, depois dessa revolução, é o Estado ou semi-Estado proletário” (Idem, p. 389-390).
288  Idem, p. 382.
289  Lars Lih, “‘The New Era of War and Revolution’: Lenin, Kautsky, Hegel and
the Outbreak of World War I”, op. cit., p. 367.
290  Diz Lênin: “ante a inaudita difusão das tergiversações do marxismo, nossa mis-
são consiste, sobretudo, em restaurar a verdadeira doutrina de Marx acerca do Estado”
(V. I. Lenin, “El Estado y la revolución”, op. cit., p. 379).
291  Lars Lih busca diluir o debate de 1917, remetendo simplesmente a um texto de
Kautsky de 1904: “A república e a social-democracia na França”, onde Kautsky argumen-
ta que na revolução francesa os jacobinos “destruíram [zerstört] os instrumentos de domi-
nação das classes dominantes” e depois diz que “a conquista do poder do Estado pelo
proletariado, portanto, não significa simplesmente a conquista dos ministérios [existen-
tes], para depois, sem mais, utilizar esses velhos instrumentos de governo, a igreja oficial
estatal, a burocracia e o corpo de oficiais, em um sentido socialista. Pelo contrário, signifi-
ca a dissolução [Auflösung] desses instrumentos de governo” (Lars Lih, “Kautsky y Lenin
sobre la república y el Estado”, Sin Permiso, 19/5/2013, disponível em 5/3/2017, em: http://
www.sinpermiso.info/textos/kautsky-y-lenin-sobre-la-republica-y-el-estado).
146 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

que é questionável do ponto de vista da tradução292. Lênin não realiza


semelhante análise retrospectiva, porém se vê efetivamente obrigado a
voltar a Marx e Engels, porque encontra uma descontinuidade impor-
tante nesse ponto.
Do mesmo modo, Lih sustenta que: “As posições políticas dos dois
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

homens se sobrepõem muito mais do que poderia esperar qualquer leitor


de O Estado e a revolução. Sem dúvida, as diferenças seguem sendo muito
substanciais”. Acrescenta:

talvez devêssemos nos centrar no programa político comum da esquerda


marxista durante os primeiros anos do século passado: uma república
com instituições radicalmente democráticas do mesmo tipo que as da Co-
muna.293

E aqui surge, com efeito, uma questão-chave, já que esse “ponto


de reencontro” que Lih propõe foi, justamente, descartado tanto por
Kautsky como por Lênin. Mais ainda, ele se transformou no centro da
disputa que ambos mantiveram em torno da Revolução Russa e que, evi-
dentemente, teria implicações também para a revolução na Alemanha.
Assim, à reivindicação abstrata da Comuna e por fora de seu con-
teúdo de classe realizada por Kautsky (semelhante à que esboça Lih),
Lênin replicava:

Marx e Engels demonstraram que a Comuna suprimia o exército e a


burocracia, suprimia o parlamentarismo, destruía a “excrescência parasi-
tária que é o Estado”, etc., porém o sapientíssimo Kautsky veste a touca
de dormir e repete o que os professores liberais já disseram mil vezes, os
contos da “democracia pura”.294

A firmeza de Lênin responde a que a guerra mundial havia demons-


trado que aquele “ponto de reencontro” imaginado por Lih era uma
utopia que só poderia desarmar estratégica e programaticamente a classe
operária. Não somente o tsarismo, mas também as democracias impe-
rialistas haviam mostrado sua capacidade de aniquilamento das massas.

292  Diz Lih: “As duas palavras-chave na argumentação de Kautsky são zerstört e
Auflösung. Meu dicionário de alemão-inglês define zerstören como ‘decompor, arruinar, des-
truir’ e Auflösung como ‘desaparecer, dispersar, dissolver’. Portanto, ainda que Kautsky
não tenha utilizado a palavra destruir, sua posição acerca desses ‘instrumentos de gover-
no’ burgueses é muito pouco ambígua” (Idem).
293  Idem.
294  V. I. Lenin, “La revolución proletaria y el renegado Kautsky”, Obras completas,
tomo XXVIII, Buenos Aires, Cartago, 1960, p. 239.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 147

Havia começado uma nova época de crises, guerras e revoluções. Era


o momento de pôr em primeiro plano a estratégia revolucionária como
questão de vida ou morte.
Nesse sentido, no que diz respeito à revolução, diferentemente das
guerras interestatais, não pode haver duas estratégias, já que nenhu-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ma conquista parcial sem o poder do Estado é passível de se estabilizar.


Só a tomada do poder pode ser seu objetivo político e, no fim das contas,
a estratégia é, necessariamente, “de derrubada”. O filósofo francês
Raymond Aron tem razão quando, tomando as categorias de Clausewitz,
diz que a guerra revolucionária é uma guerra de abatimento, já que
“o inimigo, o regime ou o governo não podem capitular porque renuncia-
riam simultaneamente à sua existência”295.

A guerra como continuação da política por outros meios


A partir de 1914, a continuidade entre guerra e política passará ao
primeiro plano numa escala nunca antes vista. Já era impossível abordar
a guerra somente como uma metáfora para a política, como no esque-
ma binário de Kautsky sobre as duas estratégias. No caso de Lênin, a
bancarrota da II Internacional motiva um rearmamento teórico e estra-
tégico que marcaria a fisionomia do marxismo revolucionário a partir
de então.
Este foi o momento de sua apropriação crítica das elaborações de
Carl von Clausewitz, assim como de seus estudos sobre Hegel e a Ciência
da lógica, e sobre as teorias do imperialismo que teriam como resultado
seu Imperialismo, etapa superior do capitalismo. Esses estudos e elaborações
serão parte de um esforço para definir um marco estratégico para a nova
época que irrompia violenta e definitivamente com a eclosão da I Guerra
Mundial.
Segundo Lars Lih, aquele “rearmamento” não é mais que uma “his-
tória canônica”, segundo a qual

o sentimento de traição provocado pelo apoio dos partidos socialistas à


guerra foi tão profundo em Lênin, que ele embarcou em uma reformu-
lação radical que o levou a rechaçar o “marxismo da Segunda Interna-
cional”, a renunciar a sua admiração anterior por Kautsky e a voltar às
fontes originais da perspectiva marxista. Essa reformulação de Lênin é

295  Raymond Aron, Pensar la Guerra, Clausewitz, tomo II, La Era Planetaria, op. cit.,
p. 141.
148 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

amiúde vinculada a seu intenso estudo da Ciência da lógica de Hegel, no


outono de 1914.296

Dessa forma, reducionista para dizer o mínimo, Lih passa nova-


mente por alto pela fato de que a II Internacional esteve atravessada por
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

múltiplas tendências, delineadas a partir de múltiplos combates políticos


– vários dos quais fomos resenhando nestas páginas297. Entretanto, Lih
desconhece, acima de tudo, o problema central colocado em toda a sua
magnitude em 1914: a necessidade de redefinir o marco estratégico do
marxismo revolucionário para a nova época.
Para negar aquele “rearmamento”, e com o objetivo de provar sua
tese da “agressiva falta de originalidade” de Lênin, Lih se concentra
exclusivamente em diminuir a importância de seu estudo sobre Hegel.
Para além da falta de êxito de Lih nessa empreitada298, o mais superfi-
cial de sua tese é que não menciona, sequer de passagem, a leitura de
Clausewitz por Lênin durante aquele mesmo período, apesar de seu
texto levar o título de “A nova era de guerra e revolução”. Isso que
parece uma extravagância de nosso autor é, na realidade, parte de um
problema muito mais extenso no que toca à interpretação de Lênin e de
seu legado.
Foram teóricos contrarrevolucionários como Carl Schmitt ou refor-
mistas como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe que mais cabalmen-
te deram conta da transcendência da apropriação de Clausewitz por
parte do marxismo no século XX. Schmitt define os cadernos de Lênin
sobre Clausewitz como “um dos mais extraordinários documentos da
história universal e espiritual”299, enquanto os mencionados autores
pós-marxistas afirmam que “a concepção marxista da política”, em tudo

296  Lars Lih, “‘The New Era of War and Revolution’: Lenin, Kautsky, Hegel and
the Outbreak of World War I”, op. cit., p. 367.
297  Lênin em 1914 rompe definitivamente com uma organização que havia dege-
nerado – não de um dia para o outro – e com os dirigentes que, como Kautsky, haviam
traído a causa do proletariado, porém não passa por sua cabeça que a história vá reco-
meçar a partir do zero.
298  A prova “conclusiva” seria que: “Lênin não estabeleceu um vínculo explícito en-
tre sua suposta nova compreensão da dialética e qualquer ponto de sua plataforma polí-
tica” (Lars Lih, “‘The New Era of War and Revolution’: Lênin, Kautsky, Hegel and the
Outbreak of World War I”, op. cit., p. 390-391). Trata-se, é claro, de uma “prova” extre-
mamente esquemática, para dizer o mínimo.
299  Carl Schmitt, Teoría del Partisano. Observaciones al Concepto de lo Político, Madrid,
Instituto de Estudios Políticos, 1966, p. 72.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 149

o que eles se propõem a rechaçar, “repousa sobre um imaginário que


depende em grande medida de Clausewitz”300.
Diferentemente do estudo da dialética, especialmente da Ciência da
lógica de Hegel, realizado por Lênin no mesmo período, cuja importân-
cia é ressaltada em muitos estudos301, não existe nada parecido com sua
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

apropriação crítica de Clausewitz, sobre a qual contamos com trabalhos


escassos e parciais302.
No entanto, nos anos 1914-1915, a relação entre guerra e política
esteve no centro dos problemas e, enfim, também da reflexão de Lênin.
Do seu ponto de vista, o estudo da obra de Clausewitz, tanto de Da guerra
como de seu Compêndio de ensino militar à sua Alteza Real, o príncipe herdei-
ro, poderia ser visto como a pedra angular que conecta, pela perspectiva
da estratégia, a volta ao estudo da dialética com sua elaboração sobre as
características do imperialismo.
De seu estudo de Clausewitz, Lênin deixa um caderno com extra-
tos e anotações, o Tetradka. Ainda que parciais e fragmentários, suas con-
clusões serão facilmente rastreáveis em sua obra durante a guerra, e
muito além dela. Um dos aspectos centrais será a reflexão sobre a fórmu-
la da “guerra como continuação da política por outros meios” e todas as
suas derivações, em que a política é a totalidade da qual a guerra é parte,
e “a política deu nascimento à guerra”.
É evidente que Lênin não foi o primeiro a estudar Clausewitz no
marxismo, muito menos o primeiro a citar aquela fórmula. No entanto,
foi, sim, o primeiro a apropriar-se dela criticamente a partir do marxis-
mo para a elaboração político-estratégica. Daí que tenha razão Michael

300  Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, op. cit., p. 104.


301  A tese sobre a transcendência, para o pensamento de Lênin, de seu estudo de
Hegel, foi desenvolvida por Raya Dunayevskaya na década de 1950 e retomada por múl-
tiplos autores até a atualidade. Lars Lih resenha algumas dessas elaborações e suas con-
clusões. Entre elas, menciona: “A leitura de Hegel por Lênin foi ‘um ponto de inflexão
fundamental na política de Lênin’ [segundo Ettiénne Balibar]. Proporcionou ‘um arca-
bouço filosófico para virtualmente todas as suas principais estratégias políticas’ [segundo
Neil Harding]. ‘A nova posição que Lênin alcançou com sua leitura de Hegel não deve
ser buscada em nenhuma outra parte senão em sua intervenção política e teórica nos
anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial’ [segundo Statis Kouvelakis]” (Lars
Lih, “‘The New Era of War and Revolution’: Lenin, Kautsky, Hegel and the Outbreak of
World War I”, op. cit., p. 390). Para uma aproximação do estudo de Lênin sobre Hegel
durante a guerra, ver Ariane Díaz, “Un amigo de la dialéctica en medio de la guerra”,
Ideas de Izquierda, n. 14, outubro 2014.
302  Um desses poucos estudos em castelhano é o de Clemente Ancona (“La influen-
cia de De la guerra de Clausewitz en el pensamiento marxista de Marx a Lenin”. Clausewitz
en el pensamiento marxista, op. cit.).
150 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

Howard ao apontá-lo como o primeiro intérprete político de Clausewitz303.


Um percurso paralelo, por um caminho diferente, realizaria Leon Trótski,
questão que abordaremos nos próximos capítulos.
Lênin vai utilizar a fórmula de Clausewitz para definir aquele marco
estratégico e extrair as conclusões sobre a atitude dos revolucionários
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ante a guerra. Duas definições serão fundamentais. Em primeiro lugar,


se a guerra é a continuação da política por outros meios, o posiciona-
mento dos revolucionários não pode estar determinado por qual Estado
se encontra lutando na ofensiva e qual na defensiva. Trata-se de deter-
minar quais são as políticas que os diferentes Estados continuam através
da guerra. Em segundo lugar, que a continuidade da política revolucio-
nária no marco da guerra passa, necessariamente, pela continuidade da
luta de classes, também “por outros meios”, isto é, pelo desenvolvimen-
to da guerra civil:

Em teoria seria totalmente errôneo esquecer que toda guerra não é mais
do que a continuação da política por outros meios. A atual guerra impe-
rialista é a continuação da política imperialista de dois grupos de gran-
des potências, e essa política foi engendrada e alimentada pelo conjunto
das relações da época imperialista. No entanto, essa mesma época há
de engendrar e alimentar também, inevitavelmente, uma política de luta
contra a opressão nacional e de luta do proletariado contra a burguesia, e
por conseguinte também a possibilidade e a inevitabilidade, em primeiro
lugar, das insurreições e guerras nacionais revolucionárias; em segundo
lugar, de guerras e insurreições do proletariado contra a burguesia; em
terceiro lugar, de uma combinação de ambos os tipos de guerras revolu-
cionárias, etc.304

Desse marco estratégico Lênin irá depreender, além da definição


do caráter imperialista da guerra lançada pelas grandes potências, outras
definições estratégicas fundamentais. A mais ampla delas será, como
dizíamos, a necessidade de transformar a guerra imperialista em guerra
civil. E, sobre essa base, a política conhecida como “derrotismo”, que era
a sua consequência lógica. A mesma consistia no rechaço à “paz civil”
que os diferentes Estados imperialistas queriam impor. A classe operária
não devia deter a sua luta de classes sob nenhuma consideração acerca
das necessidades militares do próprio Estado. Nesse sentido, a derrota do
próprio país – daí o termo “derrotismo” – era um “mal menor” no marco

303  Cf. Michael Howard, op. cit.


304  V. I. Lenin, “El programa militar de la revolución proletaria”, Obras completas,
tomo XXIV, Madrid, Akal, 1977, p. 84-85.
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 151

do desenvolvimento da luta de classes para transformá-la em guerra civil


revolucionária.
Todos esses elementos, assim como a apropriação que Lênin faz de
Clausewitz, serão desenvolvidos mais profundamente em capítulos pos-
teriores305, o que queremos destacar aqui é que esse posicionamento do
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

dirigente bolchevique foi um divisor de águas entre os socialistas em nível


internacional e cruzou lanças não só com os setores abertamente cola-
boracionistas, mas também com qualquer tipo de pacifismo referente à
guerra.
Entre aqueles que apoiavam abertamente seus próprios governos
imperialistas e atuavam como garantidores da “paz civil” – garantir que
os trabalhadores trabalhem mais por menores salários, que não haja
greves nem ações de nenhum tipo, etc. – estava a burocracia do SPD,
encabeçada por Scheidemann e Ebert, porém dentro dessa tendência em
nível internacional se encontrava inclusive Plekhánov, para quem o tsa-
rismo estava protagonizando uma guerra defensiva306. A conclusão de
Lênin sobre a guerra das grandes potências como continuidade da polí-
tica imperialista, incluído o Império Russo que buscava a conquista de
Constantinopla, Galícia e Armênia, desmascarava a falácia de posiciona-
mentos daquele tipo.
Dentro de uma heterogênea ala de centro, Kautsky plasmava em
sua posição aquela descontinuidade entre política e guerra que, como
dizíamos, caracterizava suas elaborações. Aprofundou a posição que
vinha defendendo desde os anos imediatamente anteriores, em que a crí-
tica genérica aos excessos do militarismo alemão andava junto com as
esperanças na diplomacia internacional dos Estados imperialistas para
acabar com a guerra. O que, na prática, se traduzia em uma subordi-
nação à ala colaboracionista da social-democracia307. Com a política de

305  Ver capítulo 5 deste volume.


306  Inclusive entre as considerações esboçadas por Plekhánov estava o fato de que
uma vitória alemã fortaleceria a influência da burocracia do SPD na social-democracia in-
ternacional, assim como restringiria as possibilidades de desenvolvimento da Rússia atra-
sada. Sobre as posições de Plekhánov durante a guerra, ver Samuel Baron, Plejánov. El
padre del marxismo ruso, Mexico, Siglo XXI, 1976.
307  Já desde 1912, Kautsky, apesar de seguir denunciando abertamente o militaris-
mo alemão e apelando à mobilização extraparlamentar contra ele, ao contrário de Lênin,
não trata de expor em um “quadro único” a luta contra a guerra, contra o Estado e os ca-
pitalistas, levantando uma saída revolucionária, e sim defende manifestações de pressão
para “insistir na responsabilidade de todos os partidos burgueses” de impulsionar “um
acordo internacional – sobretudo com a Inglaterra – para a limitação dos armamentos”
(Karl Kautsky, “The First of May and the Struggle against Militarism”, Marxists Internet
Archive, disponível em 5/3/2017 em: https://www.marxists.org/archive/kautsky/1912/05/
war1912.htm).
152 |  ESTRATÉGIA SOCIALISTA E ARTE MILITAR

“transformar a guerra imperialista em guerra civil”, Lênin enfrenta cabal-


mente este tipo de política.
Em fevereiro de 1915, na Conferência de Berna, Lênin consegue
alinhar a maioria dos exilados bolcheviques naquela posição. Em setem-
bro de 1915, terá lugar a Conferência de Zimmerwald, na qual concorre-
Cortesia da ISKRA aos alunos da disciplina Teoria Social II (PPG Ciências Sociais/UFCG)

ram 38 delegados de diferentes organizações que se opunham à guerra.


No entanto, a ala integrada pelos mencheviques de esquerda, encabeça-
dos por Mártov e pela “esquerda leal” da social-democracia alemã (“leal”
à direção oficial do SPD), com Hugo Haase, Georg Ledebour, opõe-se a
romper com os sociais-patriotas. A favor dessa ruptura se coloca o bloco
integrado por Gorter, Pannekoek, Rakóvski, Trótski e Luxemburgo.
Lênin se posiciona como ala esquerda desse bloco, defendendo em mino-
ria a estratégia de transformar a guerra imperialista em guerra civil, contra
as posições majoritárias que cediam ao pacifismo. Karl Liebknecht foi
quem mais compartilhou das posições de Lênin (ainda que, assim como
Rosa Luxemburgo, encontrava-se preso na Alemanha).
Para Lênin, só a revolução poderia frear a guerra. Se a guerra era
a continuação da política imperialista dos tempos de paz, porém “por
outros meios”, a única forma de derrotá-la seria vencendo aquela política
que a originava, ou seja, derrotando as próprias burguesias mediante a
guerra civil revolucionária. Não é difícil ver a transcendência de sua apro-
priação crítica do pensamento de Clausewitz nessas conclusões.
Seguindo esse raciocínio, a II Internacional já não podia ser um ins-
trumento dessa tarefa. Assim é que, em fevereiro de 1916, na Conferência
de Kienthal, Lênin coloca a necessidade de fundar uma nova internacio-
nal. Aquele ano será – com as batalhas de Somme e Verdun – o mais
sangrento da história, superado apenas décadas depois pela II Guerra
Mundial. A agitação das massas, especialmente na Alemanha e na Rússia,
mostra que a conclusão tirada por Lênin não era fruto de uma simples
especulação abstrata, mas descrevia o curso concreto que as massas esta-
vam percorrendo sob a experiência da guerra.
Somente pela importância da relação entre guerra e política para a
definição do marco estratégico da época a partir da eclosão da Grande
Guerra – e a subsequente implosão da II Internacional –, a apropriação
crítica por Lênin da obra de Clausewitz já teria sido uma “revolução teó-
rica”. No entanto, foi muito mais longe. Entre outras questões, no que
se refere aos conceitos de ofensiva e defensiva, a relação entre ambas as
“formas” de combater, a influência decisiva do fim político sobre a força
de condução da guerra (Lênin se detém especialmente na parte final do
livro VI de Da guerra sobre a defesa com objetivos limitados).
Mais de conjunto, esse rearmamento teórico foi decisivo para reco-
locar o lugar da estratégia no marxismo revolucionário e permitiu esta-
belecer uma relação precisa entre o militar e o político para encarar uma
SOBRE A ESTRATÉGIA EM GERAL  | 153

época de crises, guerras e revoluções. Não é possível hoje entender, e


muito menos recuperar, o legado