Você está na página 1de 864

DOM BOSCO:

HISTÓRIA E CARISMA
3
APOGEu: DE TURim à GLóRIA DE BERNINI
(1876-1934)

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 1 28/07/14 16:35


Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 2 28/07/14 16:35
Arthur J. Lenti

DOM BOSCO:
HISTÓRIA E CARISMA
3
APOGEu: DE TURim à GLóRIA DE BERNINI
(1876-1934)

EDB

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 3 28/07/14 16:35


Título da obra original: Don Bosco: history and spirit. I. Don Bosco’s formative years in
historical context. 2. Birth and early development of Don Bosco’s oratory. 3. Don Bosco
educator spiritual master and founder of the salesian society.

©2007. LAS Librería Ateneo Salesiano, Roma. Editor da obra original: Aldo Giraudo.
©2010. Editorial CCS, Madri. Editores da edição espanhola: Juan José Bartolomé e Jesús
Graciliano González.
©2014. Editora Dom Bosco. Brasília.

Traduzido da edição espanhola Don Bosco: historia y carisma. Apogeo: de Turín a la gloria
de Bernini (1876-1934) pelo padre José Antenor Velho.

Revisão: Cristina Kapor


Adaptação da capa e diagramação: Tiago Muelas Filú

Impressão e acabamento: Escolas Profissionais Salesianas

LENTI, Arthur J.

L547 Dom Bosco: história e carisma 3. – Apogeu:


de Turim à glória de Bernini (1876-1934). 1a edição.
Brasília-CIB, 2014.
864 p.

Isbn: 978-85-7741-273-0

1. Biografia 2. Vida espiritual cristã

CDD 922.22

Todos os direitos reservados à editora EDB

EDITORA DOM BOSCO


SHCS CR Q. 506 Bl. B Ss. 65/66 Asa Sul
70350-525 Brasília (DF)
Tel.: (61) 3214-2300
atendimento@edbbrasil.org.br
www.edbbrasil.org.br

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 4 28/07/14 16:35


Siglas e abreviaturas

AAS Acta Apostolicae Sedis


Annali I-IV Eugenio Ceria, Annali della Società Salesiana. Vol. I: Dalle ori-
gini alla morte di S. Giovanni Bosco (1841-1888). Turim: SEI,
1941. Vol. II: Il rettorato di don Michele Rua, parte I (dal 1888
al 1898). Turim: SEI, 1943. Vol. III: Il rettorato di don Michele
Rua, parte II (1899-1919). Turim: SEI, 1946. Vol. IV: Il retto-
rato di don Paolo Albera (1910-1921). Turim: SEI, 1951.
ASC Arquivo Salesiano Central. Direzione Generale Opere Don
Bosco. Primeiro em Turim e depois em Roma.
BS Bollettino Salesiano. Edição italiana.
BSe Boletín Salesiano. Edição espanhola.
CCS Editorial Central Catequística Salesiana (Madri).
CFP Cuadernos de Formación Permanente (Editorial CCS, Madri).
CG Capítulo Geral.
Documenti 45 volumes de documentos para escrever a história de Dom
Bosco. Recompilados por João Batista Lemoyne.
Epistolario Ceria Epistolário de Dom Bosco, 4 volumes publicados por Eugenio
Ceria. Turim: SEI, 1955-1959.
Epistolario Motto Epistolário: introdução, textos críticos notas, 4 volumes edita-
dos por Francisco Motto. Roma: LAS, 1999.
FDB Fondo Don Bosco. Microfichas. Direção Geral Obras Dom
Bosco: Roma.
F. Desramaut, Don Bosco Francis Desramaut, Don Bosco en son temps. Turim: SEI, 1996.
F. Desramaut, Memorie Francis Desramaut, Les memorie I de Giovanni Battista Le-
moyne: etude d’un auvrage fondamental sur la jeunesse de Saint
Jean Bosco. Lião, Maison d’Etudes Saint Jean Bosco, 1962.
G. Bonetti, Storia Giovanni Bonetti, Storia dell’Oratorio, publicada em capí-
tulos no Bollettino Salesiano, entre 1879 e 1886. Publicada
depois em um volume com o título: Cinque lustri di Storia
Salesiana. Turim, Tip. Salesiana, 1892 (há uma tradução em
espanhol: Cinco lustros de historia salesiana. Buenos Aires,
Tip. y Librería Salesiana, 1897).

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 5 28/07/14 16:35


JSS Journal of Salesian Studies. Don Bosco Hall: Berkeley
(EUA), 1990.
LDC Libreria Dottrina Cristiana (Elle Di Ci), Colle Don Bosco,
depois Turim, depois Leumann-Turim.
MB Memorie Biografiche di Don Bosco. 19 volumes: volumes
I-IX, editados por João Batista Lemoyne; volume X, editado
por Ângelo Amadei; volumes XI-XIX, editados por Eugênio
Ceria.
MBe Memorias Biográficas de San Juan Bosco. Traduzidas para o
espanhol por Basilio Bustillo. Madri: Editorial CCS, 1981-
1989.
MO São João Bosco. Memórias do Oratório de São Francisco de
Sales 1815-1855. 3ª edição. Tradução: Fausto Santa Catari-
na. Edição revista e ampliada, aos cuidados de Antônio da
Silva Ferreira. São Paulo: Salesiana, 2005.
MO Ceria Giovanni Bosco, Memorie dell’Oratorio di San Francesco di Sales
dal 1815 al 1855. Editado por Eugênio Ceria. Turim: SEI, 1946.
OE Giovanni Bosco, Opere edite. 38 volumes. Roma: LAS, 1977
e 1988.
P. Stella, Canonizzazione Pietro Stella, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica:
la canonizzazione. Roma: LAS, 1988.
P. Stella, Economia Pietro Stella, Don Bosco nella storia economica e sociale.
Roma: LAS, 1980.
P. Stella, Spiritualità Pietro Stella, Don Bosco: mentalità religiosa e spiritualità. Zu-
rique: PAS-Verlag, 1969.
P. Stella, Vita Pietro Stella, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica:
vita e opere. Roma: LAS, 1979.
RSS Ricerche Storiche Salesiane. Revista semestral do Instituto
Histórico Salesiano (ISS). Roma: LAS, a partir de 1982.
Sal Periodicum internationale trimestre editum a professoribus
Pontificiae Studiorum Universitas Salesianae. Roma: LAS, a
partir de 1938.
SEI Società Editrice Internazionale, Turim.
Sussidi 1, 2, 3 Sussidi per lo studio di Don Bosco e della sua opera. Vol. 1:
Il tempo di Don Bosco. Roma: Dicastério para a formação,
1988. Vol. 2: Dizionarietto: alcune situazioni, istituzioni e
personaggi dell’ambiente in cui visse Don Bosco. Roma: Dicas-
tério para a formação, 1988 (pro manuscripto). Vol. 3: Per
una lettura di Don Bosco: percorsi di storia salesiana. Roma:
Dicastério para a formação, 1989 (pro manuscripto).

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 6 28/07/14 16:35


Apresentação do Terceiro Volume

Apogeu: de Turim à glória de Bernini (1876-1934)


O terceiro volume da obra Dom Bosco: história e carisma abrange o últi-
mo período da agitada existência do santo: seus conflitos e suas preocupações,
a admirável expansão da sua obra, a não fácil questão da sucessão à frente das
congregações fundadas por ele, sua última enfermidade e piedosa morte e,
finalmente, o rápido, embora trabalhoso, processo de beatificação e canoni-
zação que o levou à glória dos altares.
Trata-se, certamente, de um período complexo e cheio de contrarieda-
des tanto pelos projetos concretos iniciados por Dom Bosco, sempre muito
além de seus escassos recursos, como pelo grande envolvimento vital com
que os viveu. Sempre no limite de suas forças, sem atender muito à sua frá-
gil saúde, ele ia consumindo generosamente suas energias, fundando novas
presenças na Itália e fora dela, e buscando com ansiedade o apoio financeiro
indispensável para consolidar suas múltiplas iniciativas apostólicas.
Seriamente preocupado com o ambiente que reinava no Oratório, sua
primeira e mais querida obra, permaneceu vigilante e envolveu-se pessoal-
mente para que tanto os jovens como os salesianos se mantivessem fiéis ao
espírito genuíno que lhes infundira. Por isso, não descuidou do governo da
Congregação, presidiu conferências e Capítulos Gerais, enfrentou situações
novas e procurou solucionar problemas, muitas vezes inéditos e complicados,
gerados pelo rápido desenvolvimento da sua obra.
O longo e penoso conflito com seu arcebispo, anteriormente um bom
amigo, dom Gastaldi, foi uma prova dolorosa que lhe ocasionou sofrimento
e incompreensão nesses importantes anos de sua vida. Com a morte de Pio
IX, seu grande defensor em Roma, Dom Bosco sentiu-se menos protegido e
precisou suportar uma tenaz hostilidade da parte de alguns círculos vaticanos,
afinados com as teses e posicionamentos da cúria de Turim. A solução final do
conflito causou-lhe uma inesperada humilhação que, embora dolorida, Dom
Bosco aceitou como sinal de submissa obediência à suprema autoridade do
Papa, que decidira pôr fim pessoalmente à questão. Leão XIII, de um lado,

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 7 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

procurou não desautorizar plenamente o arcebispo sem, de outro, duvidar da


reconhecida virtude de Dom Bosco. Como compensação, o Papa concedeu à
Congregação os privilégios que Dom Bosco vinha solicitando há muitos anos.
É significativo que, enquanto Dom Bosco vivia esse calvário pessoal,
lançava-se incansavelmente na realização de um de seus sonhos mais ambi-
ciosamente acariciados: a expansão missionária da Congregação. Tão logo as
Constituições foram aprovadas, foi-lhe oferecida uma ocasião providencial
para abrir a ainda incipiente Congregação à universalidade, acompanhando
no início famílias de emigrantes italianos na Argentina, para poder chegar
depois, aos poucos, a evangelizar os indígenas nas zonas mais austrais do
continente americano. Foi o início de uma autêntica epopeia missionária
salesiana, em cuja realização Dom Bosco e seus salesianos se empenharam
entusiasmadamente a fundo.
Parte notável deste terceiro volume é dedicada à narração pormenoriza-
da dessa importante atividade salesiana em terras americanas. Embora sem-
pre com pouco pessoal, a audácia apostólica de Dom Bosco levou-o a enviar
a cada ano novas expedições de missionários, que com uma preparação quase
elementar, mas imbuídos da mesma paixão do Fundador, souberam enraizar
o carisma pedagógico de Dom Bosco naquelas terras distantes e, então, quase
desconhecidas. Enquanto isso, não deixou de promover a implantação de
novas presenças tanto na Itália como no resto da Europa.
A morte de Dom Bosco em 1888 não foi o final do seu sonho, mas mar-
cou o início de uma nova etapa que, superadas as naturais hesitações e uma
ou outra desconfiança de pessoas alheias à Congregação, foi magistralmente
liderada pelo sucessor, padre Miguel Rua, o discípulo fiel com quem Dom
Bosco sempre quis fazer tudo meio a meio. Sob o seu reitorado, quase mila-
grosamente, não só se consolidou e expandiu a Congregação Salesiana, como
também o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, que até 1906 esteve sob
a tutela jurídica dos salesianos.
O mesmo padre Rua impulsionou decididamente o processo de beatificação
e canonização de Dom Bosco. Convencido da santidade do Fundador e Pai, des-
de a sua primeira carta circular exortou os salesianos a corroborarem a santidade
do Pai com a santidade dos filhos. Narra-se com clareza neste volume o desenvol-
vimento do relativamente rápido processo que, embora com momentos difíceis,
devidos principalmente à obstinada oposição de algumas pessoas do entorno do
arcebispo Gastaldi, encerrou-se feliz e gloriosamente no dia de Páscoa de 1934.
Fazer a história de todos estes acontecimentos não é uma empresa fácil,
e tanto Lenti como os responsáveis pela edição castelhana se empenharam a
fundo para levá-la adiante com êxito.

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 8 28/07/14 16:35


Apresentação do terceiro volume

A fim de enriquecer a obra, acrescentou-se ao original uma Terceira


Parte, na qual se oferece uma resenha bibliográfica, o mais completa que nos
foi possível, dos livros e artigos de e sobre Dom Bosco que foram publicados
em língua castelhana, e o que foi possível encontrar em língua portuguesa
para a edição brasileira. Com isso, deseja-se, na verdade, convidar a todos
a não se deterem no estudo de Dom Bosco, depois de concluída a leitura
desta monumental obra Dom Bosco: história e carisma, que se encerra com
este terceiro volume.

Juan José Bartolomé - Jesús Graciliano González


Roma, 24 de junho de 2011

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 9 28/07/14 16:35


Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 10 28/07/14 16:35
Capítulo I

CONTEXTO HISTÓRICO
DOS ÚLTIMOS ANOS DE DOM BOSCO
(1876-1890)

A partir de 1876, os últimos anos de Dom Bosco coincidem com o pe-


ríodo da história da Itália dominado pela chamada “esquerda histórica” e seus
numerosos, e efêmeros, governos.1
Esta época, marcada pelas lutas entre facções rivais dentro e fora do
Parlamento italiano, pode ser dividida em três etapas: primeira, os gover-
nos Depretis-Cairoli (1876-1881); segunda, a era Depretis e seus suces-
sivos governos (1881-1887); terceira, o período de Crispi (1887-1896).

1
Elenco dos primeiros-ministros deste período:
Agostinho Depretis I (25 de março de 1876);
Agostinho Depretis II (26 de dezembro de 1877);
Benedito Cairoli I (24 de março de 1878);
Agostinho Depretis III (19 de dezembro de 1878);
Benedito Cairoli II (14 de julho de 1879);
Benedito Cairoli III (25 de novembro de 1879);
Agostinho Depretis IV (29 de maio de 1881);
Agostinho Depretis V (25 de maio de 1883);
Agostinho Depretis VI (30 de março de 1884);
Agostinho Depretis VII (29 de junho de 1885);
Agostinho Depretis VIII (4 de abril de 1887);
Francisco Crispi I (29 de julho de 1887);
Francisco Crispi II (9 de março de 1889);
Antônio Rudini I (9 de fevereiro de 1891);
João Giolitti (15 de maio de 1892);
Francisco Crispi III (15 de dezembro de 1893);
[Antônio Rudini II (10 de março de 1896)].

11

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 11 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

1. A “revolução parlamentar” (1876)


Em março de 1876, o último governo da “direita histórica”2 criou uma
crise ao suprimir o imposto da moenda.3 O governo do então primeiro-mi-
nistro Minghetti opusera-se à sua discussão imediata, mas a esquerda pediu
um voto de confiança e ganhou-o.4 O governo Minghetti viu-se obrigado a
demitir-se e a esquerda subiu ao poder.
Vítor Emanuel II encarregou o líder da esquerda, Depretis (1813-
1887)5 de formar um novo governo; o novo primeiro-ministro fez saber que
governaria com o apoio da esquerda e orientado pelos seus princípios, mas
trabalhando em nome e pelo bem de toda a nação. Seis meses depois, dissol-
veu o Parlamento e iniciou a campanha eleitoral, em 8 de outubro, com um
discurso no qual apresentava seu projeto que incluía, entre outras coisas, a
ampliação do direito de voto, uma reforma escolar e outra tributária e tornar
eletiva a administração local.
As eleições gerais de 5 de novembro deram à esquerda uma maioria
parlamentar esmagadora. Foi uma “revolução parlamentar”, que prometia
reformas no âmbito da política, da educação e da economia. E, de fato, com
o orçamento equilibrado depois da crise econômica que contribuíra para a
queda do governo da direita de Minghetti, começou a desenvolver-se a rede
de infraestruturas do país: a indústria, a eletrificação, as estradas de ferro etc.6
2
Era a orientação que recolhia a tradição de Camilo Cavour, Benedito Ricasoli, João Lanza e
Marcos Minghetti etc.
3
Quando o agricultor mandava moer o trigo em moinhos públicos, era-lhe imposta uma taxa
proporcional à colheita indicada pelo Estado. Desde sua imposição, em 1868, este imposto era causa
de mal-estar, protestos e revoltas. Como consequência da terceira guerra de independência contra a
Áustria (1866), a dívida pública tinha disparado. O imposto da moenda era uma das medidas governa-
mentais para amortizar a dívida e equilibrar o orçamento.
4
Marcos Minghetti (1818-1886), político e professor, serviu no exército piemontês sob o reina-
do de Carlos Alberto na Primeira Guerra de Independência (1848-1849). Com Cavour, foi ministro
do Exterior (1860-1866), do Interior (1861-1862), da Economia (1862-1863) e da Agricultura e
Comércio (1869). Primeiro-ministro em 1863-1864, ele foi o último da direita histórica (1873-1876).
Fora, também, embaixador em Londres (1868) e em Viena (1870-1873). Entre suas obras, merecem
menção Dell’economia pubblica (1859), Stato e Chiesa (1878) e uma biografia de Rafael Sanzio (1885).
5
Agostinho Depretis (1813-1887), político hábil, membro do Parlamento piemontês desde
1848, apoiara-se em José Mazzini. Fundou o jornal Il Progresso (1850). Foi primeiro-ministro da es-
querda em três períodos (1876-1878; 1878-1879; 1881-1887) e ministro do Interior em 1879-1881.
Partidário da política do transformismo, que favorecia a inclusão de outros partidos no gabinete por
razões práticas, seu período como primeiro-ministro foi marcado por melhorias e reformas. Abriu a
Itália à política externa, convertendo-a em membro da Terceira Aliança, ao lado da Alemanha e da
Áustria (1883), e iniciou a expansão colonial na África Oriental.
6
É possível que para demonstrar seu compromisso na expansão das infraestruturas do país, o
primeiro-ministro, Agostinho Depretis, acompanhado pelos ministros do Interior, João Nicotera, e

12

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 12 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

Em 20 de novembro, foi aberta uma nova legislatura com 508 deputa-


dos, que elegeram como seu presidente Francisco Crispi, deputado da extre-
ma esquerda, que mais tarde chegaria a ser primeiro-ministro.
Marcos Minghetti ainda contava com muitos deputados, mas era mi-
noria na câmara. A esquerda parlamentar não era monolítica, mas agrupava
elementos díspares: os moderados de Agostinho Depretis, os radicais de Be-
nedito Cairoli e outros grupos intermediários que, de fato, estavam ideologi-
camente divididos e em conflito por causa das suas tendências políticas e dos
interesses setoriais. C. Duggan escreve:

A esquerda não tinha realmente um programa coerente. Suas forças divididas


uniram-se mais pela oposição comum às tendências centralizadoras e fiscais
da direita, do que pelo consenso sobre o que fazer em seu lugar [...]. As poucas
leis importantes que aprovou, e que se limitaram a um breve período ao redor
de 1880, foram adotadas em grande medida para solucionar necessidades
setoriais. A reforma do sufrágio de 1882, por exemplo, que triplicou o eleito-
rado elevando-o a pouco mais de 2 milhões, ao redor de 25% da população
masculina adulta, fez com que a maioria dos camponeses fosse excluída por
não possuírem o diploma de alfabetização.7

Outras forças políticas moviam-se fora do Parlamento e eram poten-


cialmente violentas. A principal delas era a Coalizão dos Trabalhadores, es-
querdista, que optava por uma política de não participação e advogava pela
revolução destinada a entregar o poder aos operários. Segundo a termino-
logia própria do século XIX, os outros grupos políticos extraparlamentares
eram: os republicanos, que se inspiravam em Mazzini; muito próximos, os
democratas, que demandavam uma república segundo o ideal da Revolução

de Obras Públicas, José Zanardelli, e outros dignitários, aceitasse o convite do prefeito de Turim para
participar da inauguração da linha férrea Turim-Lanzo em 6 de agosto de 1876. O prefeito e o conselho
municipal de Lanzo pediram ao padre Lemoyne, diretor da Obra Salesiana, para usar os espaçosos pá-
tios da escola e seu jardim para a recepção oficial. Padre Lemoyne pediu orientações a Dom Bosco, que
aconselhou a pôr os estudantes e a estrutura à disposição. Ele mesmo, no dia anterior, foi a Lanzo com
alguns salesianos; a banda do Oratório atuou na inauguração e na recepção. Depois da inauguração e
da bênção da linha férrea, aos pés da colina, as personalidades e o povo subiram à escola salesiana, onde
receberam entusiasmadas boas-vindas. Os dignitários, já no jardim e depois das saudações e algum
refresco, começaram a fazer perguntas embaraçosas a Dom Bosco, que respondeu sem qualquer proble-
ma (cf. MB XII, 416s, onde o padre Ceria se apoia em Documenti Lemoyne XVII, 423-431). Também
presente, padre Lemoyne baseou-se na Crônica Autógrafa do padre Barberis, caderno 8, entrada de 8 de
agosto de 1876). O fato foi notícia na imprensa tanto católica quanto anticlerical.
7
C. Duggan, History of Italy, 158.

13

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 13 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Francesa; os socialistas internacionalistas, ou seja, partidários do interna-


cionalismo, cujo exemplo era o socialismo russo; e os anarquistas, segui-
dores do russo Miguel Bakunin (1814-1876), que buscavam a abolição de
todos os poderes políticos tradicionais.
Os católicos mantiveram a política de não participação, estabelecida
pelo decreto Non Expedit, de Pio IX (1874), com o qual ficavam fora do
processo político. Eram, sem dúvida, uma força não violenta, mas sempre
mais influente.

2. Os governos Depretis e Cairoli (1877-1881)


O primeiro governo Depretis, formado em março de 1876, foi dema-
siadamente lento na aplicação das reformas prometidas. Em 16 de dezembro
de 1877, alguns deputados da esquerda tiraram o seu apoio, obrigando-o a
demitir-se.
Nomeado novamente pelo rei Vítor Emanuel II em 16 de dezem-
bro, Depretis formou imediatamente um novo gabinete (Depretis II)
tendo Francisco Crispi (1819-1901) como ministro do Interior. Mas
a demissão forçada de Crispi, por uma acusação de bigamia,8 fez cair o
segundo governo de Depretis em 9 de março de 1878. O rei Humberto
I, filho e sucessor de Vítor Emanuel II, pediu a Benedito Cairoli (1825-
1889), da extrema esquerda, para formar o governo (Cairoli I),9 que seria
de curta duração. Foi obrigado a renunciar em 11 de dezembro de 1878,
ao ser acusado de propor, entre outras coisas, a redução do gasto militar
por não ser produtivo.

8
Francisco Crispi casara-se na Igreja em 1855 com Rosária Montmasson, a única mulher que
participou da Expedição dos Mil, em 1860, e que o acompanhou quando lutava com Garibaldi na
Sicília e em Nápoles contra os Bourbon. Mais tarde, abandonou Rosária, e em 26 de janeiro de 1878,
casou-se com Lina Barbaglio em cerimônia civil.
9
Benedito Cairoli (1825-1889), político da extrema esquerda, combatera com Garibaldi e, de-
pois da unificação da Itália, foi eleito representante parlamentar (1869-1870). Quando a esquerda
chegou ao poder (1876), foi eleito primeiro-ministro (1878, 1879, 1880-1881). Como membro do
Grupo dos Cinco (1883), opôs-se à política do transformismo, de Depretis. Era um líder dinâmico da
extrema esquerda, sem conseguir controlá-la.

14

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 14 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

Primeiro-ministro Agostinho Depretis (1813-1887).

O rei chamou novamente Depretis (Depretis II). Seu governo também


foi de curta duração; caiu por uma proposta que pretendia abolir o imposto
da moenda. Cairoli foi novamente chamado em 14 de julho de 1879 (Cairoli
II). Em 25 de novembro, nova crise de governo (Cairoli III). Em 29 de abril
de 1880, o governo Cairoli não obteve o voto de confiança na Câmara sobre o
orçamento e viu-se obrigado a demitir-se. Nesta ocasião, o rei Humberto I não
aceitou a renúncia e convocou eleições gerais, que ocorreram em 16 de maio.

Primeiro-ministro Benedito Cairoli (1825-1889).

15

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 15 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

3. A era Depretis
A esquerda moderada, de Depretis, obteve uma maioria considerável,
embora não esmagadora. Como consequência, o rei, em 29 de maio de 1881,
pediu a Depretis que formasse um novo governo. Iniciava assim a “era De-
pretis”. Ao esboçar seu programa, insistiu na urgência de uma reforma elei-
toral realista e na necessidade de melhorar o exército, pois, com a bonança
econômica, contava-se com fundos suficientes. Quanto às relações interna-
cionais, queria que a Itália fosse uma força de unidade e de paz. Durante esse
tempo, de 29 de maio de 1881 a 29 de julho de 1887, Agostinho Depretis
foi primeiro-ministro cinco vezes consecutivas até sua morte.10 Morreu em
29 de julho de 1887 aos 74 anos e foram-lhe concedidos funerais de Estado
e luto nacional.

4. A era Crispi
Em 7 de agosto de 1887, por decreto real, Francisco Crispi assumiu a
chefia do governo e também o ministério de Assuntos Exteriores.11 Cris-
pi foi três vezes primeiro-ministro, designado pelo rei (1887-1889; 1889-
1891; 1893-1896). Em política exterior, foi partidário da Tríplice Aliança
e organizou a colonização da Eritreia. Procurou impor o protetorado sobre

10
Desde 1876, Depretis demonstrara ser mestre da tática e da administração suave e sutil para
pactuar com outros grupos políticos, capaz de moldar o Parlamento quase à sua vontade, de modo
parecido com Cavour, outro grande estadista piemontês. Depretis deu à Itália uma administração
eficiente, em que se levaram a cabo com discrição algumas reformas liberais, sem que a política fosse
alterada por controvérsias demasiado violentas. Na política exterior, como na nacional, seu instinto na-
tural, como ele mesmo disse, foi abrir o guarda-chuva quando visse uma nuvem no horizonte, e esperar
que passasse a tormenta. Como tática, costumava antecipar-se à derrota parlamentar renunciando em
tempo; e renunciou com sucesso em 1883, 1884, 1885 e 1887 para ficar livre de mudar de direção e
remodelar a coalizão. Quando formou seu oitavo e último gabinete em abril de 1887, eliminou os ge-
nerais Di Robilant e Riccoti, da direita, e elegeu Crispi e Zanardelli, da esquerda. Crispi, na oposição,
não poupara críticas ao governo, mas, ao colaborar com o astuto Depretis depois de dez anos fora do
poder, Crispi abandonou a esquerda independente e assumiu o sistema do transformismo; dessa forma,
apresentou-se como óbvio sucessor de Depretis, quando este faleceu nesse mesmo ano.
11
Francisco Crispi (1819-1901), político controvertido, teve uma longa e variada história. Per-
tencia a uma família albanesa, que emigrara para a Sicília. Esteve a serviço do governo revolucionário
siciliano em 1848-1849 e em 1853 exilou-se na França e Inglaterra, por causa das suas atividades
revolucionárias em Milão. Enquanto estava em Londres associou-se a Mazzini, também no exílio,
e pelo mesmo motivo. Em 1860, uniu-se a Garibaldi na Expedição dos Mil à Sicília. De ideologia
republicana, foi deputado siciliano no Parlamento italiano desde a unificação da Itália em 1861 até,
praticamente, sua morte em 1901. Quando a esquerda chegou ao poder, em 1876, ele presidiu a câma-
ra dos representantes (1876) como líder da esquerda radical, e foi ministro do Interior (1877-1879).

16

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 16 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

a Etiópia, mas fracassou por causa da derrota do exército italiano em Ádua


(1896). Após o massacre, houve levantes populares nas maiores cidades italia-
nas, estimulados pela esquerda parlamentar radical, que se opunha à política
colonialista e ao governo Crispi, e que provocaram sua queda. Envolvido em
escândalos financeiros, morreu em desgraça em 1901.

5. A situação na Itália de 1877 a 1888


No contexto da subida e queda de sucessivos governos neste período de
divisões e lutas entre as facções da esquerda, dentro e fora do Parlamento,
alguns acontecimentos políticos, sociais e religiosos são dignos de menção.

As mortes do rei e do papa


Em 1878 deu-se a morte de duas personalidades sobressalentes “rivais”
na unificação da Itália: o rei Vítor Emanuel II e o papa Pio IX.
Vítor Emanuel II morreu em 9 de janeiro. Seus restos mortais foram
expostos ao público no palácio do Quirinal. O conselho da cidade de Roma
pediu que o rei fosse sepultado na capital e não na basílica de Superga (Tu-
rim), mausoléu tradicional da casa de Saboia. Depois dos funerais solenes
celebrados no Panteão, seu filho Humberto foi oficialmente proclamado rei
da Itália e decidiu que seu pai fosse sepultado no Panteão de Roma.
O papa Pio IX morreu em 7 de fevereiro e foi sepultado provisoriamente
em São Pedro, à espera do translado oficial a São Lourenço Extramuros. Mais
tarde, em 13 de julho de 1881, quando seus restos mortais eram solenemente
transladados àquela basílica, para seu sepultamento definitivo, o cortejo fúne-
bre sofreu em várias ocasiões o ataque de uma multidão anticlerical, que pro-
curou lançar o ataúde no rio Tibre. Com certo atraso, a polícia chegou para
dispersar a multidão. O lamentável episódio suscitou os protestos indignados
de Leão XIII,12 que acusou o governo de negligência dolosa. Em resposta às
ofensas contínuas dos republicanos e dos radicais, o Papa ameaçou mais tarde
abandonar Roma e instalar-se em qualquer outro lugar em exílio voluntário.
12
Após a morte de Pio IX, num conclave que durou apenas dois dias, foi eleito papa o cardeal
Joaquim Pecci, arcebispo de Perugia, assumindo o nome de Leão XIII. Sua eleição recebeu comentários
favoráveis da imprensa liberal pela sua sabedoria, ao não ter assumido o nome de Pio X, contrariando
os conselhos dos intransigentes, e porque parecia disposto a ser mais conciliador com o mundo liberal.
Contudo, enquanto explorava a possibilidade de modificar a postura de Pio IX em relação ao Estado,
advertiu sobre a impossibilidade de diálogo com a esquerda, principalmente a mais radical. Esta é razão
pela qual Leão XIII, ao mesmo tempo em que promovia o compromisso social dos católicos, manteve a
política de Pio IX de não participação na vida política, que só foi eliminada depois da sua morte em 1903.

17

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 17 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

A epidemia de cólera
Uma grande epidemia de cólera, iniciada no sul da França e introduzida
na Itália pelos trabalhadores temporários, causou estragos de modo intermi-
tente de meados de 1884 até 1887. Foi a maior epidemia de que se recorda
daquele século. As vítimas chegaram a cerca de 50 mil. Só em Nápoles, ocor-
reram 8 mil óbitos, com uma taxa de mortalidade de 50% dos casos; a doen-
ça propagou-se nessa cidade com virulência especial por causa das deplorá-
veis condições higiênicas e estruturais. No Parlamento, o primeiro-ministro
Depretis apresentou um projeto de lei para “limpar” e reestruturar a cidade,
aprovado por unanimidade. O projeto de lei foi promulgado em 15 de janei-
ro e criou-se uma comissão para sua aplicação.
A epidemia, que fizera estragos em toda a península, causou muitas ví-
timas e chegou ao seu pico em Palermo (Sicília), onde foram registradas 189
mortes em um único dia, fazendo com que a cidade fosse posta em quarente-
na. O pânico e os levantes populares estenderam-se por toda a ilha, exigindo
o envio de 17 unidades do exército para manter a ordem pública.

Reforma da lei eleitoral e eleições gerais


Em 24 de março de 1881, discutiu-se na câmara um projeto de lei
de reforma eleitoral. Previa a ampliação do direito de voto, mas recusava
as propostas de sufrágio universal, pedido pelos partidos democráticos.13
O debate foi repetidamente rechaçado e foi preciso adiá-lo até 22 de janeiro
de 1882, quando o Parlamento deu curso a um projeto de lei de reforma
eleitoral, que contemplava a redução da idade de voto, de 25 para 21 anos,
e a redução à metade da taxa de inscrição. Quem não pudesse pagar po-
deria inscrever-se, desde que tivesse completado satisfatoriamente os dois
primeiros anos de ensino primário. Ao exigir uma taxa de inscrição e a
alfabetização, a lei limitava muito o direito de voto, que estava longe do es-
perado sufrágio universal masculino. E, embora as mulheres continuassem
excluídas, o eleitorado passou de 621.896 a 2.017.829, ou seja, passou de
2,2% a 6,9% da população.
Em 22 de outubro desse ano, foram celebradas as primeiras eleições
gerais com o sufrágio ampliado e a participação de 60,7% dos que tinham
direito a voto. Os votantes se inclinaram para a esquerda moderada, que ob-
teve uma considerável maioria. A extrema esquerda, com seu núcleo radical,

13
Representantes dos partidos democráticos reuniram-se em Roma, no dia 10 de fevereiro de
1881, com a finalidade, entre outras, de lutar pelo sufrágio universal, inclusive para mulheres.

18

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 18 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

também subiu, obtendo 40 cadeiras; a direita manteve sua posição no Par-


lamento. A coalizão dos socialistas e dos partidos operários conseguiu uma
pequena porcentagem de votos, mas ninguém obteve uma cadeira.

O transformismo
Durante a campanha eleitoral de 1882, Depretis expôs sua nova política
“transformista”. A ideia era que a esquerda moderada se aliasse com as forças
conservadoras da direita que estivessem dispostas a colaborar para encarar as
questões concretas enfrentadas pelo governo, deixando para trás as antigas
diferenças ideológicas da época do Ressurgimento.
Tratava-se de um convite e de um desafio dirigido aos candidatos con-
servadores, convidando-os à “transformação”, ou seja, a potenciar maiorias
fortes para formar um governo mais estável e eficaz. O que supunha abando-
nar os princípios ideológicos por uma conveniência de curto prazo. De fato,
no processo realizado na década dos anos oitenta, os slogans tradicionais da
esquerda e da direita foram perdendo significado, uma vez que os governos se
converteram num amálgama inerte da antiga oposição. A falta de propostas
de reformas significativas, desde 1882, fez com que a muitos parecesse óbvio
que as antigas divergências fossem esquecidas e as forças políticas se centras-
sem em assuntos importantes.
Por outro lado, contudo, o transformismo também resultou da incerteza
e da sensação de que a classe dominante da Itália precisava cerrar fileiras para
enfrentar o crescente desafio do socialismo, que ganhava adeptos em novas
camadas sociais e ameaçavam as instituições conservadoras da burguesia; a
partir disso a conveniência de unir-se na tarefa comum de conter a maré que
alguns chamavam de “viveiro de demagogia”.14

Os movimentos sociais
A questão social avançava e, nesses anos, foram crescendo e tornando-se
sempre mais ativas e exigentes as diversas organizações operárias e populares.
Em setembro de 1876, reuniu-se em Gênova o XIV Congresso dos Sin-
dicatos de Trabalhadores “federados”, de inspiração mazziniana. Concordou-
-se em não participar nas eleições enquanto o sufrágio universal não se con-
vertesse em lei. Também foi aprovada uma resolução pedindo a cooperação
de todas as sociedades operárias para garantir o fim da estruturação injusta
do trabalho.

14
C. Duggan, History of Italy, 161.

19

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 19 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Em fevereiro de 1877, aconteceu em Milão o Congresso da Federação


do Norte da Itália da Internacional Socialista.15 A assembleia desvinculou-se
do movimento anarquista, promovendo, em seu lugar, a causa socialista com
todos os meios legítimos, da simples propaganda às manifestações populares
extremas. Aprovou a carta de Friedrich Engels que incentivava à luta política
e a participação nas eleições.
Em 1878, o IV Congresso da Federação Italiana da Internacional, cele-
brado secretamente em Pisa, aprovou uma resolução em que os anarquistas
eram incentivados a continuarem com seu programa revolucionário, a fim de
apressar o dia em que o proletariado pudesse tomar as armas e limpar o país
“dos burgueses, do trono e do altar”.
Em fins de abril desse mesmo ano (1878), reuniu-se em Roma o I
Congresso Republicano. Participaram uns 120 representantes de muitos
partidos democráticos com o propósito de definir o programa do parti-
do republicano. O Congresso passou a discutir a formação de um comi-
tê nacional que organizasse ativamente protestos populares e promovesse
reuniões e publicações.16 O presidente, Mateus Renato Imbriani, insistiu
na urgência de libertar e conquistar para a Itália as regiões de Trento e
de Trieste, ao noroeste, que ainda estavam sob o domínio da Áustria. No
ano anterior, Imbriani fundara um partido com esse mesmo propósito,
a Associação pela Itália Irredimida, com o objetivo de organizar levantes
antiaustríacos. Desde então, o termo irredentismo passou a fazer parte do
vocabulário político italiano.17 Um anarquista, João Passanante, atentou
em Nápoles contra a vida de Humberto I, em 17 de novembro. O primei-

15
A Primeira Internacional, criada por Karl Marx em Londres, em 1864, como associação inter-
nacional de operários, foi dissolvida doze anos mais tarde, por causa das lutas internas entre marxistas
e anarquistas. A Segunda Internacional, criada em Paris, em 1889, ainda sobrevive como associação
livre de socialdemocratas. A Terceira Internacional, conhecida como Comintern, foi criada pelos bolche-
viques em 1919 para fomentar a causa da revolução mundial. Foi abolida durante a Segunda Guerra
Mundial, para não incomodar os aliados.
16
Desde que a esquerda subiu ao poder, a fragmentação ideológica de seu bloco parlamentar
ameaçou a estabilidade do governo e demonstrou sua incapacidade de manter a ordem social. Além
disso, grupos extraparlamentares (republicanos mazzinianos, democratas, socialistas e anarquistas) pu-
seram em perigo a sobrevivência da ordem constitucional. Papado e monarquia eram os principais
objetivos.
17
O termo irredentismo entrara no diálogo político em 1877 com a fundação da Associação pela
Itália Irredimida, à qual seguiu uma intensa campanha pela “redenção” de Trento e Trieste, promovida
pelo partido republicano mazziniano e pelo grupo radical garibaldino, que no espírito do Ressurgimento
estava destinado a completar a unificação, “redimindo” para a Itália as regiões de Trento e Trieste, que
ainda pertenciam ao império austríaco. As expectativas dos “irredentistas” foram dissipadas no Congresso
de Berlim (1878), quando a Itália renunciou a reclamar mais territórios e entrou na Tríplice Aliança.

20

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 20 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

ro-ministro Cairoli, que estava ao lado do rei no coche real, protegeu-o e


recebeu uma punhalada na perna.18
Enquanto isso, em resposta à iniciativa dos socialistas de romper com
os revolucionários radicais e formar um partido legal, Garibaldi, em 21 de
abril de 1879, reuniu os vários ramos dos radicais e republicanos e fundou a
Liga Democrática. Seu programa, que avançaria mediante a imprensa e as-
sembleias populares, propugnava, entre outras coisas, revisar a Constituição,
abolir a Lei de Garantias, confiscar os bens da Igreja e transformar o exército
permanente em milícias populares.
Em março de 1884, a polícia do Estado fechou os jornais da esquerda
radical: La Questione Sociale, de Florença, e Il Comune, de Ravena, aprisio-
nando seus editores. Contudo, o Congresso dos Trabalhadores da Romanha
reafirmou unanimemente o direito dos trabalhadores à greve e uma políti-
ca apoiada por socialistas e republicanos. A mesma questão foi debatida e
aprovada em fevereiro, no quarto congresso da Federação de Trabalhadores
da Lombardia.
Em 25 de março de 1886, o partido socialista revolucionário italiano
celebrou seu Segundo Congresso, sob a presidência do fundador, André Cos-
ta. Aprovou a moção de trabalhar para a criação de um partido único que
unisse todas as forças extraparlamentares, ou seja, socialistas, grupos operá-
rios e anarquistas.

A situação dos trabalhadores do campo


A situação dos trabalhadores do campo provocou um mal-estar gene-
ralizado e alguns levantes nos anos 1884 e 1885. Houve uma crise agrícola
profunda e prolongada nas regiões onde a transformação capitalista fora
mais acentuada, como eram as regiões do vale do rio Pó. As condições de
vida dos agricultores, especialmente dos trabalhadores do campo, pioraram
a ponto de produzir inevitáveis greves e perturbações dirigidas pelos radi-
cais e promovidas pelo Sindicato de Trabalhadores do campo italiano, de
inspiração socialista.

18
Passanante foi julgado nos inícios de março de 1879 e condenado à morte, sentença que o
rei comutou em prisão perpétua. No dia seguinte à tentativa de regicídio, numa celebração pela inte-
gridade do rei, que se deu em Florença, explodiu uma bomba, em consequência da qual morreram 4
pessoas e muitas ficaram feridas. Em janeiro de 1880, foram julgados e condenados, recebendo penas
severas, 14 membros da Internacional Socialista, acusados de cumplicidade no atentado, entre eles a
revolucionária russa, Ana Kuleshoff. Humberto I seria assassinado pelo anarquista Caetano Bresci em
10 de julho de 1900.

21

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 21 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

A deterioração da crise agrícola aumentou o desemprego, especialmente no


vale do Pó, onde os camponeses sem terra eram sempre mais numerosos e
viviam mais desesperados. Generalizaram-se as greves, quase sempre violen-
tas. [...] Para desolação do governo, as perturbações aumentaram. Em 1884,
uma onda de greves varreu o vale do Pó. Os donos de terras pediram ajuda:
receberam-na com a intervenção policial e militar contra os trabalhadores, a
dissolução forçada das ligas campesinas e os grupos de resistência; e, em 1887,
com as taxas.19

As perturbações foram sufocadas com a intervenção maciça da polícia es-


tatal e a detenção de uns 2 mil trabalhadores em greve. Contudo, em 1886, o
tribunal superior de Veneza manifestou-se a favor dos grevistas, que foram de-
fendidos por hábeis advogados socialistas. A absolvição foi conhecida em todo
o país e considerada como precedente, que reconhecia implicitamente o direito
dos trabalhadores de se associarem, formarem sindicatos e fazerem greve.

Os movimentos católicos
Também os católicos, embora excluídos da política, estiveram ativos
neste período. Em 1877, inaugurou-se em Bolonha o Terceiro Congresso Ca-
tólico que, interrompido por um protesto anticlerical popular, foi encerrado
pelo chefe de polícia por razões de ordem pública; decisão que foi denunciada
com força na imprensa como inconstitucional. O Primeiro Congresso Cató-
lico fora celebrado em Veneza em 1874 quando se insistira na necessidade
de criar escolas e hospitais católicos. O Segundo Congresso, celebrado em
Florença em setembro de 1876, organizara a Obra dos Congressos. Tratava-se
de uma estrutura permanente aprovada por Pio IX com a finalidade de coor-
denar a Ação Católica na Itália. Os católicos, embora mantivessem a atitude
de não participação na política, animaram-se para apresentar-se às eleições
administrativas, provinciais ou locais, intervir na educação e nas obras de
caridade, e lutar contra o socialismo e a imoralidade por meio da imprensa,
de assembleias e petições ao Parlamento.
A Obra dos Congressos, que jurara obediência ao Papa no momento
do decreto Non Expedit, foi o principal instrumento de organização da opo-
sição católica contra o Estado liberal. De 1875 a 1890, seu comitê diretivo

19
C. Duggan, History of Italy, 162-163. O autor menciona o atraso da agricultura italiana e o
lento processo de industrialização. “Nos anos sessenta e setenta do século XIX, a indústria ainda estava
em seus inícios... Na época da unificação, a Itália tinha meio milhão de teares, enquanto a Inglaterra
chegava a 30 milhões e a França, a 5,5 milhões. A produção anual de ferro-gusa era de umas 30 mil
toneladas comparadas com os 4 milhões da Inglaterra e o milhão da França” (ibid.).

22

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 22 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

e o conselho executivo fixaram-se em Bolonha, transferindo-se depois para


Veneza, onde o movimento era forte. A partir dali, a Obra dos Congressos
implantou um programa social mais sistemático, especialmente por meio da
fundação de associações de mútuo socorro para trabalhadores e de coopera-
tivas agrícolas, incentivadas pelo próprio Leão XIII com a encíclica Rerum
Novarum (1893).
O Quarto Congresso Católico aconteceu em 8 de outubro de 1877, em
Bérgamo. Ocupou-se dos problemas sociais, sobretudo em relação à situação
das classes trabalhadoras.
Até o final do mês, em 28 de outubro, o Congresso das Associações de
Trabalhadores, reunido em Arezzo, tratou de temas importantes: as pensões
de trabalhadores impossibilitados, o reconhecimento legal das sociedades de
mútuo socorro, a criação de bancos cooperativos e a formação profissional
dos trabalhadores.
Mais tarde, de 21 a 24 de outubro de 1879, o Quinto Congresso Ca-
tólico reuniu-se em Módena. A pauta incluía a discussão de uma proposta
para formar um partido católico-conservador para a ação política. A ideia
encontrou a mais forte oposição do grupo de católicos intransigentes, com-
prometido em manter a política de retirada total da vida política nacional.
Dom Bosco viu a Congregação Salesiana consolidar-se nos anos em que
o governo da nação passara às mãos da esquerda e começava a notar-se na so-
ciedade a influência da Obra dos Congressos. Partidário fervoroso do papado,
opunha-se ao Estado liberal e promoveu a opção da não participação política
entre os salesianos, cooperadores leigos ou religiosos em conformidade com
o decreto papal Non Expedit. Seu compromisso social era simplesmente o da
caridade cristã. Nem seus religiosos nem seus cooperadores, nem ele mesmo,
embora convidado, participou da Obra dos Congressos.

A atuação da Santa Sé
A Santa Sé continuava com sua política de isolamento e protesto contra
a usurpação de seus bens e a falta de independência e autonomia. As relações
com o Estado italiano continuavam tensas.
O ano de 1883 trouxe um lampejo de novidade. Uma carta a Leão XIII,
assinada pelo rei Guilherme I, da Alemanha, e referendada pelo primeiro-mi-
nistro, Otto von Bismarck, expressava sua satisfação pela melhora das relações
entre a Alemanha e a Santa Sé. Nela, anunciava-se a revisão das leis punitivas
da Kulturkampf contra a Igreja Católica. Como demonstração do desejado
desgelo das relações, a maior parte das dioceses na Prússia foi restaurada e o

23

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 23 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

herdeiro da Alemanha, príncipe Frederico Guilherme, em sua visita a Roma,


teve uma audiência particular com o Papa em 22 de dezembro.
Em 28 de dezembro, Leão XIII publicou a encíclica Quod Apostolici
Muneri, com a qual condenava o socialismo, o comunismo e o anarquismo
como destruidores da sociedade e da civilização. A encíclica foi muito lida e
os diários liberais comentaram o texto, sublinhando sua importância.
Em 1884, uma nota da Santa Sé, de 10 de fevereiro, dirigida aos nún-
cios papais acreditados perante os governos europeus, atacou uma sentença
do Supremo Tribunal italiano, que ordenava que a Congregação para a Pro-
pagação da Fé convertesse seus ativos imobiliários em certificados de dívida
pública. Leão XIII considerou a ação uma invasão injustificada dos direitos
da Igreja e do seu ministério espiritual.
Em 15 de fevereiro, Leão XIII acusou publicamente o governo italiano
pela política anticlerical. As relações tornaram-se tão tensas que, em março,
o imperador austríaco Francisco José enviou uma missão extraordinária à
Santa Sé com a finalidade de dissuadir o Papa da ideia de transferir-se para a
Áustria.
Em 20 de abril de 1884, Leão XIII renovou a condenação da maçonaria
com a encíclica Humanum Genus, intervenção que provocou debates acalo-
rados.
A encíclica de Leão XIII, Immortale Dei, sobre a constituição cristã dos
Estados, publicada em 1º de novembro de 1885, foi um passo a mais na
questão da participação política dos católicos, nos casos em que a Igreja o
acreditasse como necessário. Em determinadas circunstâncias, não só lhes seria
permitido, como também seria um dever dos cidadãos participar ativamente
na atividade política do Estado. Contudo, a proibição geral só seria eliminada
depois da morte de Leão XIII em 1903.
Alguns grupos católicos, confiando talvez na encíclica de Leão XIII, par-
ticiparam das eleições de 1886, apesar da proibição. Em resposta a esta ação
de grupos católicos, em 30 de julho, o cardeal Mônaco de La Valletta, prefei-
to da Congregação do Santo Ofício, reafirmou a política da não participação
estabelecida pelo decreto Non Expedit, de 1874.

Tentativa de aproximação entre Igreja e Estado


Em 20 de maio de 1887, em alocução aos cardeais, Leão XIII expres-
sou o desejo de a Igreja viver em paz com o Estado italiano, desde que se
respeitassem os direitos da Igreja. Uma alocução anterior, de 28 de feverei-
ro, fora entendida como “conciliadora” pelos grupos católicos partidários

24

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 24 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

da reconciliação e da participação católica na vida pública. O movimento,


com aquiescência tácita do Papa, encontrou apoio em alguns eclesiásticos.
Os bispos Jeremias Bonomelli e João Scalabrini, de Cremona, propunham
algumas vias de solução para que se pudesse “restabelecer” o poder temporal
do Papa, núcleo do problema, ao menos simbolicamente. Padre Luís Tos-
ti, beneditino, publicou um folheto intitulado La Conciliazione e manteve
conversas secretas sobre o tema com Crispi. Depretis aprovou-o, esperando
reforçar a posição do governo mediante uma nova relação com a Igreja.
Contudo, os católicos intransigentes, relacionados com a Obra dos Con-
gressos, apresentaram naquele momento uma proposta na câmara apoiando
o direito do Papa a uma verdadeira e completa liberdade e ao poder tem-
poral. O obstáculo do poder temporal do Papa, sem dúvida, não pôde ser
superado. Leão XIII, em carta ao cardeal Mariano Rampolla, que se tornou
pública em 26 de julho, reiterava que “a restituição da soberania real” era
condição indispensável para qualquer aproximação. Por outro lado, pouco
depois das alocuções papais e das conversações com padre Tosti, Crispi, num
discurso pronunciado na câmara, declarou secamente que a Itália, por não
estar numa guerra com ninguém, não precisava de reconciliação e que o rei
era o único soberano que a nação reconhecia.20

Evolução das comunicações


As comunicações evoluíram nesses anos, com a implantação do tele-
fone e a ampliação da rede ferroviária, investindo-se somas consideráveis.
A gestão das ferrovias foi confiada a grandes empresas privadas, recebendo
a feroz oposição de todos os setores da esquerda radical e dos opositores do
transformismo.

A educação
No âmbito da educação pública, uma portaria do ministro Miguel Cop-
pino (1822-1901), de 5 de março, decretava que o ensino primário era gratuito
e obrigatório para todas as crianças de 7 a 9 anos de idade. Foi uma reforma

20
A lei das Garantias (1871) concedia ao papado reter algumas propriedades (Vaticano, São
João do Latrão e Castelgandolfo), manter, sem impedimento, a comunicação dentro da nação e com
o exterior, gozar de representação diplomática, honras reais e outros “privilégios”. Estas disposições,
porém, eram “concessões” do Estado às quais o Papa não tinha qualquer direito. Não eram, portanto,
restituições de uma soberania autêntica ou do poder temporal. Por isso, Pio IX e Leão XIII recusaram
a lei e não negociaram qualquer acordo ou reconciliação que excluísse a restituição. Depois, quando
em 1929 se chegou à reconciliação (conciliazione) entre Pio XI e Benito Mussolini, baseando-se na
restituição, embora não se utilizasse o termo, o Papa obteve a soberania sobre o “Estado do Vaticano”.

25

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 25 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

limitada, mas necessária, tendo-se em conta a extensão do analfabetismo, es-


pecialmente no sul da Itália.21 A lei também eliminou do plano de estudos a
instrução religiosa, que fora um importante elemento da educação infantil na
escola. A escola primária foi assim laicizada. Aprovou-se também um projeto
de lei que concedia autonomia financeira, disciplinar e didática à Universidade.

Leão XIII (1810-1903).

A política internacional da Itália


A política internacional também teve seu reflexo na vacilante política
italiana. Quando a França, seguindo a política agressiva que começara a prati-
car há algum tempo no norte da África, ocupou Túnis e impôs o seu proteto-
rado, criou-se uma crise internacional, que repercutiu na Itália, onde a oposi-
ção apresentou uma moção de censura contra o governo presidido então por
Cairoli, pela sua política claudicante, provocando sua queda.
Em outubro de 1881, o rei Humberto I fez uma visita oficial a Viena,
presságio de uma nova orientação da Itália em relação à Áustria. A mudança
fora provocada como reação à política expansionista francesa.
21
Citando o professor Pascoal Villari, D. MacK Smith, Modern Italy, 124, escreve: “Chegou o
dia em que a Itália começa a reconhecer que conta com um inimigo interior que é mais forte do que
a própria Áustria. Devemos enfrentar a nossa multidão de iletrados, a incapacidade da máquina buro-
crática, a ignorância de nossos professores... Não foi a sólida fortaleza de Mântua e Verona que deteve
o nosso caminho, mas a dos 17 milhões de analfabetos”.

26

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 26 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

De fato, a partir de 20 de maio de 1882, a Itália participou da Tríplice


Aliança com a Prússia e a Áustria, entrando definitivamente no âmbito po-
lítico internacional. Esta aliança, de natureza puramente defensiva, ajudou
a reorientar a política interna oficial da Itália, em direção conservadora e
militarista, pois o tratado tendia a reforçar o princípio monárquico para ga-
rantir a ordem social. O tratado também apoiava a causa da Itália na questão
romana, enquanto a unificação territorial, alcançada com a tomada de Roma
em 1870, recebia o reconhecimento implícito da Áustria, a primeira potência
católica. A aliança com a Itália reforçou também a segurança da Áustria e da
Alemanha no caso de conflito com a Rússia ou a França, pois agora podia
contar com a neutralidade da Itália e seu apoio a partir do sul. Pouco depois
de sua nomeação em 1º de outubro, Crispi reuniu-se com Von Bismarck, em
Friedrichs­ruhe, residência de verão do chanceler, onde, com suas próprias
palavras, os dois “conspiraram pela paz”. Eles ajustaram, na prática, uma con-
venção militar dentro da Tríplice Aliança, que seria assinada em fevereiro de
1888 com fins defensivos.
Os franceses suspeitaram que o pacto ítalo-alemão seria dirigido ao for-
talecimento da posição da Itália no Mediterrâneo, como reação às suas pró-
prias políticas agressivas para colonizar o norte da África (Argélia e Tunísia).
Além disso, as políticas protecionistas de importação e exportação impostas
pela Itália provocaram uma guerra comercial com a França, aumentando a
animosidade. O resultado foi que os grandes excedentes agrícolas da Itália,
como o vinho, o azeite de oliva e outros não foram vendidos. Muitos agricul-
tores perderam o próprio negócio, especialmente no sul.
A nova orientação política suscitou uma série de protestos antiaustríacos
e levantes em várias cidades, como Milão e Roma. Em Trieste, as convulsões
foram originadas, de início, pela execução de Guilherme Oberdan e, princi-
palmente, pela crescente força do movimento irredendista e sua oposição à
Tríplice Aliança. A ordem só foi restabelecida com a intervenção decisiva da
polícia estatal com detenções maciças, investigações e encarceramentos.

Inícios do colonialismo italiano


A política colonial da Itália foi estabelecida pela primeira vez quando as
potências coloniais europeias já estavam ampliando suas possessões na África.
Portugal, França, Bélgica e, mais recentemente, a Alemanha de Bismarck, na
Conferência de Berlim (novembro de 1884-fevereiro de 1885) decidiram a
divisão dos territórios africanos ainda não reclamados por uma potência euro-
peia. A Conferência demonstrou que a Itália ainda não era levada a sério e que
a honra e o prestígio nacional requeriam uma política colonial mais vigorosa.

27

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 27 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Foi esse o motivador da política colonialista italiana. Outros fatores entraram


em jogo: a pressão exercida sobre o governo pelas companhias de navegação
e as empresas industriais, a esperança de que as colônias dessem início à emi-
gração. Opunham-se ao colonialismo os socialistas e os republicanos, os opo-
sitores da Tríplice Aliança e os que pensavam que a costa do Mar Vermelho e
o Chifre da África só serviam para afastar a Itália do Mediterrâneo, seu centro
histórico de interesse.
Em 1885, o governo italiano tomou a decisão de estabelecer colônias
na África oriental; decisão incentivada pela conversão de Bismarck ao colo-
nialismo e pela postura permissiva da Inglaterra. Já em 1870, a Companhia
Italiana de Navegação Rubattino negociara com chefes tribais locais a aqui-
sição da baía e do porto de Assab no Mar Vermelho, para servir de estação às
novas rotas comerciais de Suez-Mar Vermelho. Posteriormente, em 1882, o
governo italiano apossou-se de Assab, que se converteu em núcleo da colônia
italiana na costa do Mar Vermelho, mais tarde chamada Eritreia.
Com estes precedentes, em 1º de janeiro de 1885, o diário pró-gover-
namental Il Diritto anunciou a decisão do governo de estabelecer colônias na
África e, com isso, a Itália se somaria a outras potências europeias na corrida
para estabelecer um império colonial. Animado pela Inglaterra, um destaca-
mento de 1.500 soldados, preparados para isso, partiu de Nápoles em 17 de
janeiro de 1885; em 5 de fevereiro, ocupava a cidade costeira de Massawa,
ao norte de Assab. Os governos do Egito e da Turquia protestaram apenas
simbolicamente. A segunda e a terceira expedições, 12 e 24 de fevereiro, con-
firmaram o domínio italiano ao largo da costa. A partir dali, contingentes
italianos começaram a penetrar nas terras altas do interior. Apesar de algumas
reticências, o Parlamento italiano aprovou, por 180 votos e 97 contrários, a
empresa colonial do Mar Vermelho. Em 2 de dezembro de 1885, Massawa
seria declarada oficialmente colônia italiana.
Em novembro do ano anterior, um grande contingente de reforços zar-
para para Massawa (Eritreia) em outros 5 vapores. Em março, as tropas italia-
nas penetraram no território da Etiópia e ocuparam novamente Dogali, Saati
e outras localidades. A esta ação seguiu-se um intenso protesto do negus João
IV, rei de Tigré, a quem a Inglaterra garantia a posse desses lugares no tratado
de 3 de junho de 1884. Quando os italianos exigiram que fosse reconhecida
a sua posse do território já ocupado, as negociações foram interrompidas e os
italianos penetraram até a meseta etíope.
Em 26 de janeiro de 1887, um contingente de 500 soldados italianos foi
massacrado na Eritreia, em Dogali-Saati pelo ras Mula, governador da região
de Hamasen. Saati, posto avançado italiano no interior da Eritreia, a oeste de

28

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 28 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

Massawa, foi sitiado por Mula. Os soldados enviados em sua ajuda sofreram
uma emboscada e foram aniquilados em Dogali. O massacre de Dogali pro-
vocou em Roma e em outras cidades italianas manifestações maciças contra a
política do governo colonial.
No início de janeiro de 1889, o negus João IV, imperador da Etiópia,
fez uma aliança com seu rival o ras Menelik II, rei de Shewa ou Shoa, desig-
nando-o seu sucessor.22 Após a morte de João IV e da sucessão de Menelik
como imperador, em 10 de março de 1898, começaram as negociações; pelo
tratado de Uccialli, datado em 2 de maio e redigido em italiano e etíope, a
Itália reconheceu Menelik como imperador e este concedeu à Itália as con-
quistas feitas na costa do Mar Vermelho (Eritreia), mas recusou as intenções
da Itália de impor um protetorado colonial na Etiópia. A Itália reclamou o
protetorado de acordo com um artigo que previa a representação italiana da
Etiópia nas relações internacionais23 e que envolvia a existência de um pro-
tetorado. Os corpos militares italianos avançaram a oeste e, sem oposição,
ocuparam Asmara no interior da Eritreia. Enquanto isso, uma delegação da
Etiópia chegou à Itália para uma conferência com o ministro de Assuntos
Exteriores a fim de atualizar e concluir o tratado de Uccialli. A Itália poderia
manter os territórios já ocupados em troca de uma substancial ajuda finan-
ceira à Etiópia.
Especialistas do ministério italiano de Assuntos Exteriores não compro-
varam a correspondência exata dos textos do tratado e não levaram em conta
que o artigo sobre a representação, em virtude do qual a Itália reclamava o
protetorado, inexistia no texto etíope.
A Etiópia – de boa fé? – nada sabia de um protetorado; mas em 11
de outubro, o primeiro-ministro Crispi – de boa fé? – pôs-se em contato
com todos os embaixadores acreditados perante os governos signatários da
Conferência de Berlim de 1885 para dar-lhes conhecimento do protetorado
italiano “de fato” sobre a Etiópia. Alguns dias mais tarde, falando ao Parla-
mento, ele sublinhou a histórica “missão civilizadora” da Itália, exaltando as
vantagens que trariam as colônias para a indústria e o comércio italianos.
Em novembro, a Itália ampliava seu protetorado até a costa Benadir, ao
sul da Somália. Numa conferência internacional celebrada em Bruxelas, em
18 de novembro, sob a presidência do cardeal Carlos Lavigerie, arcebispo

22
João IV (1831-1889) derrotara Menelik na luta para suceder Tewodros II como imperador da
Etiópia (1872-1889). Deve-se reconhecer-lhe o fato de ter preservado a Etiópia da invasão do Sudão e
da Itália. Morreu em batalha contra os mahdistas sudaneses, em 1889.
23
O artigo 17, presente no texto italiano do tratado, inexistia na versão etíope.

29

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 29 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

de Argel e primaz da África do Norte, na qual foi abolido o comércio de es-


cravos, a Itália, que se comprometera com a abolição no tratado de Uccialli,
representou a Etiópia na conferência.
As colônias italianas do Mar Vermelho, por decreto real de 5 de janeiro
de 1900, passaram a chamar-se oficialmente “Eritreia”. Eram administradas
por um governador auxiliado por três conselheiros do ministério de Assuntos
Exteriores.

30

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 30 28/07/14 16:35


Apêndice

LEÃO XIII (1810-1903). NOTA BIOGRÁFICA

Vicente Joaquim Pecci nasceu em Frosinone em 2 de março de 1810.


Foi eleito Papa com o nome de Leão XIII no dia 20 de fevereiro de 1878.
Morreu em 20 de julho de 1903.

Bispo e diplomata
Sexto de sete filhos de uma família da aristocracia menor, Vicente Joaquim
Pecci foi educado pelos jesuítas em Viterbo e no Colégio Romano, antes de
chegar à Academia dos Nobres, em Roma, para formar-se no serviço diplo-
mático papal.
Foi ordenado padre em 1837. Como legado pontifício em Beneven-
to, nos Estados Pontifícios (1838-1841), e arcebispo governador de Perúgia
(1841-1843), demonstrou grande energia contra a bandidagem e em opo-
sição aos liberais. Jovem clérigo, excepcionalmente audacioso, foi nomeado
núncio na Bélgica e feito arcebispo titular de Damietta (1843).
Enquanto esteve em Bruxelas, interveio nas missões diplomáticas em
Londres, Paris e Roma. Seu serviço diplomático foi interrompido ao interfe-
rir na política belga, num litígio entre o governo e os bispos sobre a educação.
Foi chamado a Roma por desejo expresso do rei Leopoldo I.
Em 1846, foi nomeado novamente arcebispo de Perúgia, tendo exercido
ali o seu ministério até 1878. Demonstrou interesse especial pelos estudos e
pela formação no seminário. Com a ajuda de seu irmão José, jesuíta e pro-
fessor no seminário, partidário da renovação do tomismo, estabeleceu, em
1859, a Academia de Santo Tomás. Durante os eventos revolucionários de
1859-1860, reafirmou a legitimidade do poder temporal do Papa e protestou
com firmeza contra a política religiosa do governo italiano. No Concílio Va-
ticano I, embora votando com a maioria, não foi membro destacado.

31

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 31 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Foi nomeado cardeal em dezembro de 1853, mas não pertenceu ao


núcleo do governo papal. O cardeal Antonelli, secretário de Estado de Pio
IX, considerava-o suspeito na questão dos Estados Pontifícios e desconfiava
dele. As cartas pastorais do arcebispo (1876-1877) sobre a Igreja e a civiliza-
ção, insistindo que a Igreja devia entrar na corrente da civilização moderna,
chamaram muito a atenção. Em 1877, um ano depois da morte do cardeal
Antonelli, Pio IX nomeou-o camerlengo, cargo que se responsabiliza pela ad-
ministração da Igreja à morte de um Papa.

Sumo Pontífice
Tradicionalmente, o cardeal camerlengo não costuma ser eleito Papa.
Entretanto, no conclave que se seguiu à morte de Pio IX, em 1878, o cardeal
Pecci, candidato dos moderados, foi eleito na terceira votação, com 44 dos
61 votos; era o dia 20 de fevereiro de 1878. Apesar de seus 68 anos de idade,
não seria um Papa de transição.
Ocupou o cargo até a morte em 1903 aos 93 anos de idade. Seu pontifi-
cado foi um dos mais significativos dos últimos tempos pelos seus numerosos
ensinamentos, suas iniciativas e seu excepcional prestígio. Embora paciente,
conciliador e prudente, demonstrou vontade firme e serena energia em suas
ações. Em muitos aspectos era tão conservador quanto o seu predecessor, mas
foi, sem dúvida, mais pragmático. O fato de, em 1879, nomear John Henry
Newman24 como cardeal indica que era capaz de aceitar diferentes pontos de
vista teológicos, coisa impossível em Pio IX.
Em continuidade com a iniciativa de Pio IX, Leão XIII favoreceu a de-
voção ao Sagrado Coração de Jesus. Sua encíclica Annum Sacrum, de 25 de
maio de 1899, consagrou o gênero humano ao Sagrado Coração.25 Muito
devoto da Virgem, escreveu uma encíclica sobre o rosário e acrescentou a
invocação “Mãe do Bom Conselho” às ladainhas lauretanas. Dedicou 9 encí-
clicas sobre a devoção à Santíssima Virgem e ao Rosário. Deu muita atenção
às missões. Seu pontificado coincidiu com o apogeu do colonialismo. Para
acelerar a abolição da escravidão africana, publicou 2 encíclicas, In Plurimis,
de 5 de maio de 1888 dirigida à jerarquia do Brasil, e Catholicae Ecclesiae,
de 20 de novembro de 1890. Valendo-se da concordata de 23 de junho de
1886, limitava o direito do patronato do rei de Portugal na Índia apenas às
possessões portuguesas. Nesse mesmo ano, estabeleceu a jerarquia na Índia.

Beatificado pelo papa Bento XVI, em 19 de setembro de 2010.


24

Sobre a solene consagração da Congregação Salesiana ao Sagrado Coração, por iniciativa do


25

padre Rua, ver Annali II, 92-103.

32

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 32 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

A Congregação para a Propagação da Fé reorganizou as missões na China,


embora o protetorado francês sobre os católicos na China não permitisse a
criação de uma nunciatura em Pequim (1886).
Leão XIII tinha grandes esperanças na união das Igrejas orientais e
eslavas. Dom Strossmayer incentivou o Pontífice a demonstrar seu inte-
resse por isso.26 A encíclica Grande Munus, de 30 de setembro de 1880,
recordava a aprovação da Santa Sé aos métodos apostólicos dos santos Ci-
rilo e Metódio. O Congresso Eucarístico de Jerusalém, em 1893, e a carta
apostólica Orientalium, de 30 de novembro de 1894, que se ocupava de
questões rituais, reafirmaram suas esperanças na união, que não se materia-
lizou. Nomeou uma comissão papal em 1895 para estudar as ordenações
anglicanas. Mas, na carta apostólica Apostolicae Curae, negou sua validade
em 13 de setembro de 1896, diminuindo muito as perspectivas de união
com o anglicanismo.
Quanto ao campo intelectual, a encíclica Aeterni Patris (4 de agosto
de 1879), foi de importância decisiva. Estimulado por seu irmão, cardeal
José Pecci, e pelo padre Mateus Liberatore,27 procurou renovar o pensamento
filosófico na Igreja tendo o tomismo por base, a fim de garantir uma sadia
doutrina nos seminários. No tomismo, ele encontrou o corpo de pensamento
que iria utilizar na oposição ao liberalismo, nos planos político e social. A
reorganização da Academia Romana de Santo Tomás (1886), a nomeação de
Désiré-Joseph Mercier para uma cátedra de tomismo em Lovaina28 (1882) e a
infeliz condenação, em 1887, das 40 proposições das obras do padre Antônio
Rosmini-Serbati faziam parte do seu plano de restauração do tomismo.
Em 1881, com a abertura dos arquivos vaticanos aos pesquisadores,
Leão XIII demonstrava concretamente seu interesse na promoção da pesquisa
acadêmica. Na encíclica Providentissimus Deus, de 18 de novembro de 1893,
abriu caminho para a exegese bíblica católica; mas com a criação da Pontifícia
Comissão Bíblica (1902) aplicou uma política mais restritiva no momento
em que crescia o Modernismo.
26
Josip Juraj Strossmayer (1816-1905), bispo de Diakovo, na Croácia, sob o império austríaco,
era um ardente promotor da união das Igrejas ortodoxas com Roma. Trabalhou para isso com o filósofo
russo Vladimir Soloviev (1853-1900), sendo repreendido pelo imperador Francisco José (1888), mas
defendido pelo Papa.
27
Mateus Liberatore (1810-1892), filósofo e teólogo jesuíta, foi cofundador e editor da revista
conservadora Civiltà Cattolica. Com epistemologia tomista, rebateu John Locke e Immanuel Kant e
escreveu contra Antônio Rosmini-Serbati, cujos escritos filosóficos foram condenados, embora sua
obra tenha sido reabilitada após a beatificação por Bento XVI em 18 de novembro de 2007.
28
Désiré-Joseph Mercier (1851-1926), famoso teólogo tomista, foi nomeado arcebispo de Ma-
linas e primaz da Bélgica em 1906 e feito cardeal no ano seguinte.

33

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 33 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Ao tratar da questão da organização da sociedade e das relações entre


Igreja e Estado, Leão XIII publicou as famosas encíclicas Diuturnum Illud
(29 de junho de 1881), Immortale Dei (1o de novembro de 1885), Libertas
(20 de junho de 1888) e Sapientiae Christianae (10 de janeiro de 1890), que
reafirmaram a condenação de Gregório XVI e de Pio IX aos princípios do
liberalismo. Recordaram também a origem divina da autoridade e a união
adequada entre Igreja e Estado, duas sociedades “perfeitas”. As encíclicas
mostraram também que a Igreja não era de forma alguma hostil ao governo.
E colocavam em contraste a “liberdade legítima e honesta” e a “liberdade ab-
soluta”, que nega qualquer referência a Deus e admite a coexistência de diver-
sos cultos. Era urgente especialmente aos católicos a aceitação das instituições
existentes para o bem comum, a participação na vida política, a utilização da
imprensa e do parlamento no interesse da Igreja.
As questões sociais também foram tema das encíclicas papais, que ga-
nharam ampla audiência, mesmo entre não crentes. A Quod Apos­tolici Mu-
neris (28 de dezembro de 1878) condenava o socialismo. Arcanum (10 de
fevereiro de 1880) definia o conceito cristão de família. A Rerum Novarum
(15 de maio de 1891) foi o seu pronunciamento social mais importante; diri-
gida contra o socialismo e o liberalismo econômico, inspirava-se nos estudos
sociais católicos e deu forte impulso ao Movimento Social Cristão. A ideia
de “democracia cristã” começou a circular na Bélgica, na França e na Itália.
Contudo, a encíclica Graves de Communi Re (18 de janeiro de 1901), que
acolhia o termo democracia cristã, esvaziava-a de suas conotações políticas,
ao defini-la como “ação benéfica cristã em favor do povo”.

Política com os vários Estados


Leão XIII esforçou-se para que o papado tivesse um papel importante
nos assuntos internacionais. Em muitas ocasiões, recordou a missão da Igreja
como construtora de paz e indicou os custos da paz armada. Porém, sua po-
lítica – e a dos seus sucessivos secretários de Estado (Franchi, Nina, Jacobini,
Rampolla) – viu-se dominada pelo contraste entre a atitude intransigente em
relação à questão romana e a busca de uma solução dos conflitos, levantada
com vários governos no final do pontificado de Pio IX. Mas, apesar dos con-
tratempos, o pontificado de Leão XIII obteve êxitos notáveis.

Itália
Tão logo eleito, Leão XIII protestou contra a situação sofrida pelo Papa
em Roma. Depois de fracassarem várias tentativas de conciliação, não esperava

34

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 34 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

que se resolvesse a questão mediante negociações diretas com o Reino da Itália.


Deste ponto de vista, o ano de 1887 e a nomeação do cardeal Rampolla como
secretário de Estado foram decisivos. A partir de então, o Pontífice procurou
em vão resolver o problema no plano internacional, colocando suas esperanças
na Alemanha, com o desaparecimento da Kulturkampf e, depois, na França.
Em relação aos católicos italianos, manteve a política do Non Expedit, que
exigia a abstenção da política e da participação nas eleições. Enquanto isso,
a partir de 1875, um grupo de católicos conservadores criou um movimento
civil para a ação social na Obra dos Congressos.

Alemanha
A Kulturkampf na Alemanha e a consequente perseguição da Igreja Cató-
lica chegaram ao fim depois de longas negociações. O partido de centro queria
a abolição completa das leis que impuseram restrições severas à vida e ação da
Igreja. Leão XIII ficou satisfeito com alguns acordos parciais de compromisso
(1880 e 1883). Só em 1886-1887 as leis foram formalmente revistas.

Bélgica
O Papa precisou enfrentar o profundo anticlericalismo da Bélgica. A
escola belga de Direito (1879) criou o conflito que ocasionou a ruptura das
relações diplomáticas com o Vaticano (junho de 1880). Não obstante, Leão
XIII convidou os católicos belgas intransigentes a acatarem a Constituição
de seu país. Foi nesse período que se formou um verdadeiro partido católico,
cujo êxito nas urnas (1884) deu lugar à renovação das relações diplomáticas.

França
Na França, Leão XIII pediu moderação aos católicos no momento de
votar as leis laicas. Depois de terem resultado vãs as esperanças de uma mo-
narquia restaurada e de fracassar o boulangismo,29 o Papa pressionou os cató-
licos franceses a aceitarem a Terceira República. Desde a saudação de Argel
pronunciada pelo cardeal Lavigerie em 12 de novembro de 1890, a encíclica
Au Milieu des Sollicitudes (16 de fevereiro de 1892), promoveu o Ralliement.30

29
O boulangismo (em francês: boulangisme ou la Boulange) foi um movimento político francês
do final do século XIX (1886-1891) que se opunha ao regime parlamentar da Segunda República fran-
cesa. Seu nome deriva do general Jorge Boulanger, militar que foi ministro da Guerra, alcançou grande
popularidade por suas reformas e preocupou o governo por seus discursos bélicos.
30
O Ralliement designa a posição de uma parte dos católicos franceses que, seguindo os con-
selhos do papa Leão XIII e de sua encíclica Inter Innumeras Sollicitudines, aderiram à República. Essa

35

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 35 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Esta política foi interrompida, ao menos por algum tempo, pelo dissenso
entre os católicos franceses, por causa do posicionamento em relação ao caso
Dreyfus31 e a nova onda de anticlericalismo que levou à votação (1901) da Lei
das Associações e à eleição de Emílio Combes como primeiro-ministro.

Espanha
Leão XIII reconheceu discretamente a legitimidade da monarquia afon-
sina, sublinhando a necessidade da independência política por parte da Igreja
espanhola, independência que significava implicitamente sua desvinculação
do carlismo. Deu prioridade à tarefa de pôr fim às divisões políticas e di-
násticas existentes entre os católicos espanhóis, embora estivesse ciente do
obstáculo que supunha superar nesta meta sem se indispor com o clero e o
laicato comprometidos com o carlismo e, de fato, apesar de suas exortações,
não chegou ao objetivo.32
O Papa, em 1885, intermediou a disputa entre o Império alemão e a
Espanha sobre as ilhas Carolinas na Micronésia. A expansão colonial alemã
levou a ocupar as ilhas que estavam sob o domínio espanhol; por isso, no
conflito suscitado, buscou-se a arbitragem do Pontífice. Leão XIII deliberou
que aqueles territórios pertenciam de fato e de direito à Espanha, embora
tivesse que ceder alguns privilégios comerciais e uma opção preferencial a
favor da Alemanha no caso em que finalmente se decidisse pela venda das
ilhas. Esta opção de compra será exercida pela Alemanha depois do conflito
de 1898 entre Espanha e Estados Unidos. O Vaticano também intermediou
na guerra hispano-americana de 1898. A explosão do encouraçado america-
no Maine na baía de Havana, Cuba, em 15 de fevereiro de 1898, marcou um
ponto de não retorno e precedeu de apenas um mês à declaração de guerra.
Numa corrida contra o tempo, o Vaticano fez algumas gestões. Quando a

adesão não significava a aceitação da legislação hostil ao catolicismo, mas simplesmente o reconheci-
mento da República como poder constituído e realmente existente naquele momento. Após o fracasso
dos partidários do general Boulanger (1831-1891), alguns católicos franceses, com o cardeal Lavigerie
à frente, pensaram que o dever deles como cidadãos era unir-se às outras forças políticas para apoiar
o governo existente, aceito pelo povo. Apoiado por Leão XIII, o movimento encontrou a oposição de
todos os outros partidos políticos franceses.
31
Alfred Dreyfus (1858-1935), judeu, capitão do exército francês, foi condenado por traição
em 1894 e encarcerado na Ilha do Diabo. Uma investigação posterior, provocada em grande parte
por Emílio Zola (1896), provou que a acusação baseava-se em documentos falsificados por militares
franceses. Durante a repetição do julgamento sua causa foi motivo de grandes divisões políticas, em
que o antissemitismo jogava um papel decisivo. Condenado pela segunda fez (1899), foi anistiado pelo
presidente Loubet. Mais tarde, em 1906, sua inocência foi reconhecida e sua patente militar restituída,
sendo-lhe concedida a medalha da Legião de Honra.
32
Cf. W. J. Callagan, La Iglesia católica en España. Barcelona: Crítica, 2002, 41-45, 70, 257.

36

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 36 28/07/14 16:35


Contexto histórico dos últimos anos de Dom Bosco (1876-1890)

Conferência de Paz de Haia se reuniu em 1899, o Papa não foi convidado por
oposição do governo italiano.

Outras nações
As relações foram tensas com a Áustria-Hungria, cujas autoridades se
mostraram particularmente desafiadoras em relação ao cardeal Rampolla. A
melhora das relações do Vaticano com a Rússia, condição para a união com
as Igrejas ortodoxas, incomodara a corte de Viena.
Leão XIII expressou em muitas ocasiões os seus sentimentos favoráveis
aos Estados Unidos. Acompanhou de perto o crescimento do catolicismo
naquele país, como deixou claro ao nomear dom Satolli como delegado apos-
tólico (1893) e com a encíclica Longinqua (6 de janeiro de 1895). As disputas
sobre o “americanismo” terminaram com a carta Testem Benevolentiae (22 de
janeiro de 1899).
As relações com as nações latino-americanas melhoraram. No quarto
centenário de Colón, publicou uma encíclica aos arcebispos da Espanha, da
Itália e da América (16 de julho de 1892). Em 1899 reuniu-se em Roma um
importante concílio representando a Igreja desses países.

Uma avaliação
Leão XIII foi um diplomata de peso; sua eleição marcou uma mudan-
ça no estilo do papado. Tinha um espírito mais liberal e tolerante do que o
seu predecessor. Reduziu a distância intelectual entre a Igreja e a sociedade
moderna, promovendo em todos os seminários católicos o estudo renovado
de Santo Tomás de Aquino. O que deu lugar à propagação da doutrina da
inexistência de conflito entre a verdadeira ciência e a verdadeira religião. Pro-
moveu o estudo da história da Igreja, acreditando, entre outras coisas, que o
estudo esclareceria as contribuições da Igreja para o progresso da civilização.
Apoiou a ciência experimental entre católicos eminentes.
À medida que seu pontificado avançava, Leão XIII percebeu que a de-
mocracia poderia ser útil tanto quanto a monarquia para a preservação e o
fortalecimento dos princípios católicos. Por conseguinte, incentivou os par-
tidos políticos católicos de tendência claramente liberal na Alemanha e na
Bélgica. Adotou uma atitude amistosa com o governo da República Francesa.
Foram dadas instruções aos católicos para que deixassem os princípios mo-
nárquicos e apoiassem a república.
Em 1890, porém, a política do Ralliement na França foi motivada tam-
bém pelo desejo do Papa de garantir a ajuda francesa para a solução da

37

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 37 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

questão romana. As relações com o governo italiano tinham piorado; numa


encíclica dirigida ao clero italiano, de 5 de agosto de 1898, insistiu no dever
de os católicos italianos se absterem da vida política, enquanto o Papa con-
tinuasse confinado numa “intolerável” situação.
A encíclica sobre a condição operária, Rerum Novarum (15 de maio de
1891), destinava-se a aplicar os princípios cristãos às relações entre capital e
trabalho; valeu-lhe o título de “Papa dos operários”. Declarava que as classes
capitalistas, incluídos os empresários, tinham importantes deveres morais a
cumprir, e que melhorar a situação dos trabalhadores era um dos primeiros
deveres da sociedade, com a colaboração do Estado e da Igreja.
Leão XIII modificou os princípios políticos de Pio IX. Manteve em suas
encíclicas a condenação de muitas fases do liberalismo e do nacionalismo, e
reiterou a opinião de que a Igreja devia supervisionar e dirigir todas as formas
da vida secular. Contudo, diversamente de seu predecessor, nunca apareceu
como partidário declarado de nenhuma forma particular de governo. Foi seu
objetivo a colaboração harmoniosa entre a Igreja e o Estado. Em relação à
Kulturkampf alemã, adotou uma atitude moderada e conciliadora, e obteve
sucesso ao conseguir a anulação da legislação contra a Igreja.

38

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 38 28/07/14 16:35


Capítulo II

FUNDAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
INICIAL DA OBRA SALESIANA
NA FRANÇA, ITÁLIA E ESPANHA
(1875-1888)

A obra salesiana viveu nos anos 1875 a 1888 um período de grande


difusão e consolidação. Já se fez anteriormente alguma menção às primeiras
fundações e à projeção missionária da Congregação. Veremos neste capítulo e
nos seguintes sua difusão ulterior em algumas nações europeias e na América
do Sul.

1. Fundações salesianas na França


Até 1874, Dom Bosco não saíra da Itália. No final daquele ano, ele
entrou pela primeira vez na França, através de Nice, território de transição,
pois fora cedida à França havia apenas quatorze anos como pagamento de
Cavour a Napoleão III pela ajuda na guerra contra a Áustria em 1859. Des-
de então, e até 1886, Dom Bosco visitou a França com muita frequência,
geralmente nos primeiros meses de cada ano. Inicialmente, até 1883, suas
visitas limitaram-se ao sul da França, onde se localizavam as casas salesianas
e onde criara um ativo grupo de colaboradores e benfeitores. Em 1883, vi-
sitou o norte da França para fundar em Paris e Lille. Paralelamente, Madre
Mazzarello visitava o sul da França, onde foram estabelecidas as obras das
Filhas de Maria Auxiliadora.

Casas salesianas no sul da França: de Nice a Marselha


Nice: novembro de 1875
SDB: Oratório e Patronato São Pedro: Orfanato. Diretor: padre José Ronchail.

39

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 39 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Dom Bosco entrou em Nice, chamado pelos membros das conferências de São
Vicente de Paulo daquela cidade. O conde Cays, presidente das conferências
de Turim, escrevera a Nice para comunicar que tinham em Turim 6 conferên-
cias de adultos, às quais estavam agregadas outras 3 de jovens, sob a direção
do piedoso e caridoso sacerdote padre João Bosco.1 Em 1874, o presidente da
conferência de Nice, Ernesto Michel, que fundara um patronato para apren-
dizes da localidade, pensou em entregá-lo a Dom Bosco e convidou-o para
visitar a cidade. A capacidade do patronato era muito limitada: dois quartos,
uma sala de aula e um celeiro transformado em capela.2 A visita de Dom Bos-
co a Nice, segundo Michel, foi feita por volta de 10 de dezembro de 1874.
O bispo da diocese, dom Pedro Sola, natural de Carmagnola, admirador de
Dom Bosco, sempre o apoiou. Em novembro de 1875, abriu-se a nova sede
num dos endereços de uma empresa falida, a fiação Avigdor, no número 21
da Rua Victor. Como diretor, foi nomeado o padre Ronchail, um italiano que
falava bem o francês. Acompanhavam-no o coadjutor Felipe Cappellaro e o
clérigo João Batista Perret. A obra foi transferida logo depois a um lugar mais
digno e espaçoso, situado na Praça das Armas, inaugurada oficialmente no dia
12 de março de 1877. Inicialmente, contava com um oratório e um internato
para aprendizes. Chamou-se Patronage Saint Pierre (Patronato de São Pedro),
porque assim se chamavam as conferências de São Vicente de Paulo em Nice
e como homenagem ao bispo da diocese. Aos poucos, foram-se abrindo novas
oficinas de sapataria, alfaiataria e carpintaria. Mais tarde, foi criada a forjaria
e, ao mesmo tempo, teve início a escola secundária para os internos.
Dom Bosco mandou imprimir para a ocasião um fascículo bilíngue, que con-
tinha pela primeira vez a sua carta-tratado sobre o Sistema Preventivo.3
As Filhas de Maria Auxiliadora também fundaram em Nice o Internato de
Santa Atanásia, em setembro de 1877.

1
Cf. Noces d’or de la Societé de St. Vincent de Paul a Nice, 1844-1894. Nice: Patronage Saint-
-Pierre, 1894.
2
Em relatório de 1894, Michel narra um diálogo, evidentemente adaptado, que manteve com
Dom Bosco, e cita algumas de suas memoráveis palavras: “Nas obras de Deus, só se deve ter em vista
se são necessárias ou não. Não sendo necessárias, não é preciso ocupar-se delas; mas, sendo necessárias,
deve-se fazê-lo sem medo; os meios materiais são o acréscimo que Deus prometeu, e ele mantém sua
promessa”. À pergunta sobre o que iria fazer, respondeu: “Enviarei 2 sacerdotes [...] que começarão a
trabalhar e, enquanto trabalham, verão o que é necessário fazer”. E o que se deve dar a esses sacerdotes?
“Um local ao abrigo da chuva e um pouco de sopa todos os dias” (Noces d’or, 60-61. Cf. F. Desramaut,
Don Bosco, 942).
3
Cf. MB XII, 118s, 530s; XIII, 106s.126s, 107s, 118s, 122s, 529, 536s.

40

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 40 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Marselha: julho de 1878


Internato São Leão. Diretor: padre José Bologna; mais tarde, seria inspetor.
Dom Bosco pensava em Marselha por ser uma cidade com porto muito im-
portante. Em 1878, chegaram os dois primeiros salesianos: padre José Bolog-
na e coadjutor Luís Nasi, para se encarregarem da direção de uma pequena
obra paroquial, dirigida pelos Irmãos das Escolas Cristãs. Teve início, assim,
uma escola elementar e um modesto internato para aprendizes que, com os
anos, foi crescendo sempre sob a atenta solicitude de Dom Bosco. Recebeu o
nome de Oratório de São Leão, em homenagem ao papa Leão XIII.4
Duas fundações tiveram duração efêmera: uma em Canes, de outubro de
1877 a 1878; e outra em Challonges, diocese de Annecy, em 1879.5

La Navarre, fazenda em La Crau d’Hyères: julho de 1878


Orfanato e Escola Agrícola São José. Diretor: padre Pedro Perrot; mais tarde,
seria inspetor.6
Aparentemente Dom Bosco, depois de um sonho, no qual era induzido a
aceitar um novo campo de trabalho para a juventude rural,7 aceitou a obra
fundada pelo padre Vincente em La Navarre, perto de Toulon. Tratava-se de
uma fazenda em que os jovens órfãos eram orientados para o trabalho em
atividades do campo. Era a primeira vez que os salesianos se encarregavam de
uma “colônia agrícola”. Como diretor, foi nomeado o jovem padre italiano
Pedro Perrot, que tomou posse da fazenda em julho de 1878.
Depois dos salesianos, as Filhas de Maria Auxiliadora estabeleceram-se em La
Navarre nesse mesmo ano de 1878.

Sainte-Marguerite, próximo a Marselha: setembro de 1883


Noviciado da Divina Providência
Outro sonho indicou a Dom Bosco o lugar para estabelecer um noviciado.
Em 1878, o pároco padre Clemente Guiol, que propiciara a entrada dos

Cf. H. Faure, Don Bosco à Marseille: histoire de l’Oratoire Saint Léon 1878-1958. Marselha:
4

Imprimerie Don Bosco, 1959. Cf. MB XIII, 93s, 736s: Sra. Prat-Noilly, benfeitora; 620-623: chegada;
631-632: noviciado.
5
Cf. MB XIV, 338s.
6
Cf. MB XIII, 523, 526, 536: SDB; 725: FMA.
7
Cf. Y. Le Carrérès, “Les colonies ou orphelitants agricoles tenus par les salésiens du Don
Bosco en France de 1878 a 1914”. In: F. Motto (ed.), Insediamenti, 140.

41

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 41 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

salesianos em Marselha, mencionara em carta a Dom Bosco a conveniência


de estabelecer um noviciado na França. Dom Bosco também pensava que
era necessário. Em seu primeiro relatório trienal à Santa Sé sobre o estado
da sociedade (1879), Dom Bosco mencionava que já se criara um novicia-
do na França, com a permissão de Roma; declaração de algo não realizado,
que provocou uma animada discussão. Em 1880, Dom Bosco sonhou com
uma casa espaçosa numa região bonita e arborizada, extensão de terra que
incluía um bosque de pinheiros atravessado por um riacho. Contou-o ao
padre Guiol, que ficou um tanto cético, pois a oferta da senhora Broquier
não correspondia ao lugar sonhado. Em 1883, apresentou-se uma segun-
da oferta: um terreno em Saint-Marguerite, oferecido pela senhora Pastré,
dama parisiense cuja filha fora curada por Dom Bosco. A propriedade agora
correspondia à descrição do sonho. O noviciado foi ali estabelecido em
setembro de 1883. Em 1885, o número de noviços chegou a 16, todos eles
clérigos, exceto um coadjutor.8

Oratório e orfanato de São Pedro, Nice, segundo gravura de 1878.

Fundações no norte da França: Lille e Paris


As primeiras fundações francesas, com exceção de Challonges, que não
prosperou, localizavam-se ao sul da França, ao longo da costa mediterrânea.

8
Cf. MB XIII, 732s; XIV 55, 84, 92: previsto ainda em 1878; XV, 53s: o sonho de Dom Bosco,
1880; progresso; XVII, 49s: estabelece-se, sonho “realizado”; 438.643s.

42

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 42 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Dom Bosco, ainda em 1878, desejava estabelecer a obra salesiana em Paris.


Foram feitas algumas gestões para que os salesianos assumissem um gran-
de orfanato fundado pelo padre Roussel, nos subúrbios de Auteuil, mas
algumas condições sobre a propriedade e a gestão além da insistência do
cardeal Guibert de impor um ano de experiência, obrigaram Dom Bosco
a declinar da oferta. Paris continuava a ser uma importante meta, difícil
de alcançar.
Em fevereiro-março de 1883, Dom Bosco iniciou uma longa e difícil
viagem através da França, a partir da costa mediterrânea, passando por Lyon,
até o norte, a Paris e Lille.9 Uma das finalidades da viagem era explorar a pos-
sibilidade de fundações salesianas nessas duas cidades do norte.

Lille, próxima à fronteira belga: janeiro de 1884


Patronato de São Gabriel. Diretor: padre José Bologna.10

Durante sua permanência em Lille, em 1883, Dom Bosco visitou o orfanato


de São Gabriel, dirigido pelas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo.
Fora fundado em 1874 para acolher órfãos da guerra franco-alemã. Como
a maior parte dos órfãos era de adolescentes, o orfanato foi oferecido aos
salesianos. Padre José Bologna, que estava em Marselha, foi nomeado diretor,
tomando posse em 29 de janeiro de 1884, com a bênção do bispo de Cambrai
Quesnay-Lille. Havia muitos problemas a resolver: a casa, muito pequena, era
insuficiente; os jovens eram indisciplinados; o centro carecia de oficinas pró-
prias. Padre Bologna começou a desenvolver o orfanato com sucesso, com a
instalação de oficinas provisórias e a organização dos salesianos cooperadores,
segundo o modelo de Marselha.
O orfanato foi objeto de especial caridade da senhorita Clara Louvet, de Ai-
re-sur-la-Lys, pequeno povoado perto de Lille. Conhecera Dom Bosco na
Riviera, onde ela estava em férias, e visitou-o em Turim. Convertera-se em
generoso apoio da obra salesiana, ainda antes da visita de Dom Bosco a Lille
em 1883. Suas contribuições para a igreja do Sagrado Coração de Roma e as
missões da América do Sul foram notáveis, muito apreciadas por Dom Bosco.
Estando em Lille, em 1883, Dom Bosco quis visitá-la em sua casa; não pôde
fazê-lo e teve de renunciar à viagem. Suas cartas, datadas entre 1882 e 1887,

9
Cf. MB XVI, 259s.
10
Cf. MB XVII, 353s: fundação; 771s. Anexo 49: documento contratual.

43

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 43 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

demonstram que foi colaboradora destacada no norte da França,11 como o


conde Luís Colle o foi no sul.12

Paris: 1884-1885
Patronato de São Pedro. Diretor: padre Carlos Bellamy.13
Durante sua permanência em Paris em 1883, Dom Bosco falou publicamente
da intenção de estabelecer uma fundação salesiana na capital. Entre as várias
ofertas recebidas em 1884, considerou a do Internato de São Pedro como a
mais prometedora. Fora fundado em 1878 pelo padre Paulo Pisani, conheci-
do historiador da Igreja, em Ménilmontant, animado distrito de classe operá-
ria de Paris. Desde que fora nomeado membro do Instituto Católico, em 1884,
padre Pisani procurava alguém que se encarregasse da obra; de aí a sua oferta.
Depois de algumas visitas de reconhecimento dos padres Durando e Camilo
de Barruel, e do inspetor, padre Albera, na reunião do Capítulo Superior em
fins de setembro de 1884, estando Dom Bosco convalescente, foi decidida a
fundação. Padre Albera, atuando em nome de Dom Bosco, comprou a pro-
priedade e assinou a escritura.
Importantes benfeitores, como o marquês de Franqueville, a condessa de Ces-
sac, ambos de Paris, e a condessa Georgina Stacpoole, de Londres e domicilia-
da em Roma, reuniram o dinheiro para a compra da propriedade e apoiaram
a obra. Padre Bellamy, sacerdote de Chartres, que se fizera salesiano no ano
anterior, foi nomeado diretor em 29 de janeiro de 1885. O pároco local, num
primeiro momento, opôs-se à tomada de posse dos salesianos, mas aceitou-a
mais tarde. O pessoal leigo permaneceu. Estudantes universitários ajudaram
os jovens. Era um início prometedor.

11
As informações que nos chegaram sobre a senhorita Louvet são escassas. Pode-se ver sua correspon-
dência com Dom Bosco em MB XV, 58s; MB XVI, 641s; Epistolario IV Ceria, 447-479. Cf. J. Itzaina,
“Charitable Mademoiselle: Don Bosco’s fifty-eight letters to Clara Louvet”, JSS 1 (1990), 35-46.
12
Luís Antônio Fleury Colle, conde Colle, de Toulon, foi um grande benfeitor e cooperador
salesiano na França, desde o primeiro encontro com Dom Bosco em 1881. Apoiou, com a maior ge-
nerosidade, as missões salesianas e outros projetos importantes, como a igreja do Sagrado Coração em
Roma. O conde e sua esposa, baronesa Sofia Maria Buchet, tiveram um filho, chamado como seu pai.
O jovem morreu de tuberculose aos 17 anos. “Apareceu” a Dom Bosco e acompanhou-o em alguns
sonhos. Dom Bosco escreveu sua biografia, publicada em francês: Biographie du jeune Louis Flery An-
toine Colle, Turim, 1882. Traduzida para o castelhano: Biografía del joven Luis Flery Colle. Montevidéu:
Editorial Don Bosco, 1954. Cf. MB XV, 83, 92, 609; MB XVI, 675s.
13
Cf. MB XVII, 359s, 364.

44

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 44 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

As leis contra as congregações religiosas na França (1880)


e os salesianos
Durante o século XIX numerosas congregações estabeleceram-se na
França sem a aprovação do governo. Depois da derrota de Napoleão III na
guerra franco-alemã (1870) e sua posterior abdicação (1871), foi criada a
Terceira República, cuja nova constituição foi aprovada em 1875. Em 1877,
havia cerca de 500 congregações, com mais de 20 mil membros, homens e
mulheres; muitos deles dedicados à educação. Seguiu-se um período de agi-
tação política e social, caracterizado pelo radicalismo e anticlericalismo. Sob
a presidência de Júlio Grevy (1879-1887) e dos ministros Júlio Ferry e Leão
Gambetta, a Igreja, em geral, foi atacada e, de modo particular, as comuni-
dades religiosas. Fazia parte de um programa radical de secularização, que
incluía anistia aos “comunistas”, secularização da educação, exclusão total da
educação das congregações religiosas não autorizadas e limitação do papel
dos religiosos nas escolas. Em 29 e 30 de março de 1880, o governo emitiu
os decretos que dissolviam e expulsavam os jesuítas e expulsavam de suas
casas as congregações religiosas não autorizadas. As autoridades eclesiásticas e
os leigos católicos opuseram-se com vigor; muitos magistrados renunciaram;
pareceu, por um momento, que o governo cairia. Mas prevaleceram a im-
prensa laica e a propaganda; e as leis entraram em vigor.
Dom Bosco deu instruções ao padre Ronchail: os salesianos afirmariam
que não pertenciam a uma congregação religiosa, mas eram empregados da
sociedade Beau-jour de Marselha, que ali patrocinara a fundação salesiana;
diriam simplesmente que se dedicavam a um trabalho filantrópico em favor
de jovens carentes que viviam da agricultura e trabalhavam nas fábricas.
Os superiores deviam demonstrar que eram franceses. Em Marselha,
o internato São Leão apresentava-se como parte integrante da paróquia do
padre Guiol. Um seminarista salesiano francês, porém, revelou a estratégia
às autoridades; padre Bologna, do São Leão de Marselha, esteve a ponto de
repatriar a comunidade para a Itália. Dom Bosco exortou-os a se manterem
firmes, garantindo-lhes, baseado num sonho, que não seriam expulsos.14
Enquanto isso, em 1877, a Congregação Salesiana fora dividida em ins-
petorias e a França foi constituída em 1881 como província francesa, tendo o
padre Paulo Albera como inspetor, com domicílio no São Leão de Marselha.
Naquele tempo, era costume que o inspetor desempenhasse ao mesmo tempo
o cargo de diretor da obra. Padre Bologna era o vigário ou vice-diretor.
14
Cf. MB XIV, 23s, 690s.

45

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 45 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

2. Fundações salesianas na Itália


Fundações em diversas províncias italianas
Na Itália, a expansão da obra salesiana continuou com ritmo regular
com uma média de duas ao ano. Fora do Piemonte, as fundações concentra-
ram-se no primeiro momento na Ligúria: Alassio, Varazze e Sampierdarena.

Vallecrosia, povoado entre Bordighera e Ventimiglia, na costa próxima à


fronteira com a França: 1875-1876.15

Em 1876 foi fundada a casa de Vallecrosia, perto da fronteira de Ventimiglia.


Ali a presença dos valdenses era particularmente ativa e criava problemas. O
bispo chamou os salesianos para fazer-lhes frente. Dom Bosco construiu a
igreja de Maria Auxiliadora com oratórios e escolas a cargo dos salesianos e
salesianas e obteve plenamente seu objetivo.

La Spezia, também na Ligúria foi aberta em dezembro de 1877.16

Inicialmente, houve grandes dificuldades, por causa da intensa atmosfera


anticlerical que ali havia: “Os corvos chegaram, mas esperamos que não en-
contrem com que se alimentar”, escrevia um jornal.17 Os salesianos, porém,
souberam consolidar-se e atrair o povo à sua igreja e às suas escolas.

Diferentemente, não prosperaram algumas fundações ao redor de Roma.


Em Ariccia foram oferecidas aos salesianos uma igreja e uma escola elementar
e, em Albano, um pequeno seminário. Infelizmente, os salesianos foram logo
vítimas de boatos e intrigas “de sacristia”, além do que muitos não os perdoa-
vam por procederem do Piemonte “usurpador”. Iniciadas em 1876, foram en-
cerradas em 1879. Nesses mesmos anos, Dom Bosco enviou alguns religiosos
ao seminário de Magliano Sabina, província de Rieti. O trabalho começou
com os melhores prognósticos, mas as discrepâncias com o clero local obriga-
ram-nos a abandonar o seminário alguns anos depois (1876-1884).18 Também
fracassou a fundação de Montefiascone, próxima a Roma (1878-1879).19

15
Cf. MB XI, 411s.
16
Cf. MB XIII, 291,428, 667s.
17
Citado por E. Ceria em Annali I, 271.
18
Cf. MB XII, 314, 526; XIII, 697s: Magliano Sabina; XIV, 324: Albano y Ariccia.
19
Cf. MB XIII, 692; XIV, 82, 324.

46

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 46 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Em 1878, os salesianos estabeleceram-se em Lucca (Toscana). Cha-


mados pelo bispo, apesar da dura oposição dos anticlericais, foi aberto um
oratório e, depois, um internato. Entretanto, as condições materiais e a des-
confiança dos párocos não permitiram que tivesse vida longa.20 Em 1880,
porém, os salesianos foram chamados a Florença para “pôr limite à nefasta
propaganda dos protestantes”.21 Criou-se, inicialmente, um oratório que logo
chegou a ter mais de 200 participantes e, depois, foi aberto um internato, que
servia como pequeno seminário.
Na Lombardia, a fundação de Cremona, 1879-1882, não vingou. Como
também a de Bríndisi, na Apúlia (sul da Itália), 1879-1880.22
Em Faenza (Emília-Romanha) foi inaugurado um oratório em 1880,
apesar das tentativas de afugentar os religiosos do lugar.23 A casa de Parma
(Emília), comprada em 1882-1883, só foi aberta em 1888.24
20
Sobre esta primeira fundação na Toscana, cf. A. Miscio, Cento anni a Livorno i Salesiani: dopo
Lucca e Collesalvetti. Livorno: Editoriale Nova Fortezza, 1998. Cf. MB XIII, 671.677.
21
Cf. A. Miscio, Firenze de Don Bosco 1848-1888. Florença: Livraria Editora Salesiana, 1991.
Cf. MB XV, 328s.
22
Cf. MB XIV, 460, 650s. Para se ter um maior conhecimento do que orientava Dom Bosco nas
fundações de novas casas, citamos suas palavras quando, no Conselho Superior, se tratou da fundação
de uma casa em Madri: “Vejam como a Providência guia a Congregação Salesiana. Pensem que, ao
abrir casas, não percebíamos com exatidão o que íamos fazer [...]. La Spezia! Fomos ali sem a ajuda
de ninguém e foi um golpe mortal para o protestantismo. Faenza! Fomos recebidos ao grito: “Morte
aos salesianos!”, grito que continuou e ainda continua. Observem: aquele seminário ia de mal a pior e
estava reduzido a quase zero. Os filhos do futuro: era esse o caos em que submergia a pobre juventude.
Saímos logo, pois nada detinha as mentiras sobre nós. Na diocese de Faenza, quase não havia sacerdotes
e alguns dos poucos eram democratas. A esperança do clero apoiava-se em alguns seminaristas dispersos
pela cidade. Contudo, desde que ali chegamos graças às iniciativas do admirável padre Paulo Taroni, o
seminário tornou-se pequeno para acolher todos os seminaristas. E notem bem que o reitor propusera ao
bispo fechar o seminário enquanto o padre Paulo Taroni, dissera: “Tragam Dom Bosco e verão”. Antes,
o seminário não tinha mais do que 20 ou 30 seminaristas, e agora tem 120 internos e 50 ou 60 externos.
E nós já temos na congregação alguns clérigos de Faenza, e espero que logo tenhamos em nossas escolas
uma abundante colheita de vocações também para nós [...]. E tudo isso se deve à pobre Congregação
Salesiana... Quando fui a Faenza, o bispo estava inquieto, porque temia que seu seminário ficasse total-
mente vazio por culpa dos salesianos. Respondi-lhe que, quando Dom Bosco ia a um lugar qualquer,
fazia-o sempre com a bênção do bispo. E que, portanto, estávamos dispostos a ir embora, se sua exce-
lência não quisesse Dom Bosco em sua diocese; que desejava permanecer em Faenza de acordo com o
Santo Padre e, se este lhe pedia contas disso, era obrigado a responder com sinceridade aquilo que vira.
O bispo acalmou-se ao ouvir esta conclusão; declarou que estava contente por Dom Bosco ter fundado
em Faenza, mas que temia pelo seu seminário. Então, padre Paulo Taroni, cheio de fé, exclamou que,
desde o momento e hora em que Dom Bosco entrara em Faenza, ele prometia que, dentro de poucos
dias, o número de seminaristas diocesanos teria aumentado em uns vinte. E aconteceu exatamente isso,
sem que eu pudesse explicar a causa de tão consolador fenômeno” (MB XVII, 599).
23
Cf. G. Ferretti (ed.), Don Bosco e i salesiani a Faenza 1877-1890. Faenza: Stampa Of­fset
Ragazzini e C., 1988. MB XV, 340s, 299; MB XVI, 404s; MB XVII, 336, 566s.
24
Cf. MB XV, 303s; MB XVIII, 433s.

47

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 47 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

No Vêneto, um pároco de Este, preocupado com o laicismo escolar,


dirigiu-se a Dom Bosco, que ali fundou em 1878 um colégio, destinado a
fazer história na Congregação.25 Mais tarde, em 1880-1882, em Mogliano
Vêneto, perto de Treviso, foi aberta uma pequena colônia agrícola e um co-
légio, graças à benevolência do então vigário capitular de Treviso, José Sarto,
mais tarde São Pio X.26
Em Trento, território que então ainda fazia parte do império austro-
-húngaro, foi aberto um orfanato em 1887 (outras obras maiores em 1893).27
Da Sicília, chegaram muitos pedidos de obras educativas. A primeira foi
concretizada em Randazzo, em outubro de 1879. Ali, os salesianos fundaram
um colégio num antigo mosteiro e deram início ao oratório festivo.28 Em
Catânia abriu-se um grande oratório em 1885.29
Enquanto isso, no Piemonte, as casas continuavam a multiplicar-se. Em
1876, foi aberta na província de Cúneo a casa de Trinità di Mondovì, tendo
como diretor o futuro São Luís Guanella, ainda salesiano. A escola salesiana
acolhia 120 alunos entre os mais pobres da cidade, e a escola noturna uma
centena de adultos entre 16 e 50 anos, enquanto o Oratório era frequentado
por mais de 200 meninos. Infelizmente, o relacionamento com a viúva do
benfeitor da fundação se complicou de tal modo que foi preciso fechar três
anos depois, em 1879.30
Uma fundação muito especial aconteceu em Mathi, onde, para fornecer
papel para as tipografias de Valdocco e Sampierdarena, Dom Bosco adquiriu
em 1877 uma fábrica de papel, da qual encarregou o coadjutor André Pelazza.31
Mais tarde, seria aberta ao lado uma residência para os salesianos que, num pri-
meiro momento, acolheu vocações tardias, os Filhos de Maria, tendo o padre
Felipe Rinaldi como diretor.

Cf. MB XIII, 686s.


25

Cf. MB XIV, 443, 665.


26

27
Cf. MB XVIII, 434s.
28
Cf. G. Iacono, Don Bosco e la Sicilia, 3 fascículos. Catania: Ispettoria Salesiana Sicula, 1999.
Cf. MB XIV, 49, 271-273.
29
Cf. MB XVII, 573, 327.
30
Cf. MB XII, 491s.
31
Cf. MB XIII, 661s.

48

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 48 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

San Benigno Canavese, Piemonte: agosto de 1879.32

O povoado de San Benigno crescera ao redor de uma grande abadia beneditina


que datava do ano 1001. No século XVIII, a abadia foi se tornando gradualmente
insignificante e acabou por ser abandonada. Imóveis e terras passaram a ser pro-
priedade da diocese. Pela lei de supressão (1855), tudo passou ao Estado. Depois
de algum tempo, a cidade recuperou o histórico edifício, que foi oferecido a Dom
Bosco para abrir nele oficinas para aprendizes. Dom Bosco escreveu ao prefeito
dizendo que tinha a intenção de estabelecer várias obras, entre elas, mais tarde,
um “centro de formação de pessoal” (noviciado). De fato, transferiu para ali os
“inscritos” (noviços), formados até então em Valdocco, sob a direção do mestre
dos noviços, padre Júlio Barberis. Dessa forma, a casa, dotada de oficinas para
aprendizes, não dava a impressão de ser um centro “demasiadamente clerical”,
que era o que Dom Bosco desejava.33 Em 20 de outubro de 1879, Dom Bosco
conferiu o hábito clerical a 51 noviços.

Em 1880, foi adquirida em Penango uma pequena propriedade com


terreno, que serviu como internato para jovens das classes elementares do
vizinho colégio de Borgo San Martino.34

Foglizzo, Piemonte: novembro de 1886.35

O noviciado fora aberto em San Benigno em 1879. Em 1883, também se


estabeleceu ali um noviciado separado para os coadjutores. Em 1886, Dom
Bosco comprou de um nobre do lugar uma grande casa em Foglizzo, pequeno
lugar situado a cerca de 4 quilômetros de San Benigno. Depois de restaurada,
a casa pôde acolher com pouca comodidade até 100 noviços. O noviciado dos
clérigos foi transferido para Foglizzo. Entre os noviços de 1886-1887 estavam
André Beltrami e Luís Olive. Padre Barberis era mestre dos noviços dos dois
noviciados. No IV Capítulo Geral, setembro de 1886, Dom Bosco “recor-
dou” que Pio IX recomendara que os noviços fossem separados o quanto
antes dos alunos e dos irmãos professos. Foglizzo começou a funcionar, então,
como um tradicional noviciado “fechado”.

32
Cf. MB XIV, 567s.
33
Cf. MB XIV, 330s.
34
Cf. MB XIV, 665.
35
Cf. MB XVIII, 175, 246.

49

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 49 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Valsálice, expansão e mudança de finalidade: 1887.36

O colégio de Valsálice foi ampliado e converteu-se em estudantado filosófico


salesiano, tendo padre Barberis como diretor. Para evitar críticas, Dom Bosco
alterou o nome: “Seminário para as Missões Estrangeiras”.

Enquanto isso, as Filhas de Maria Auxiliadora abriram a nova casa-mãe


em Nizza Monferrato, 1878-1879,37 e um oratório feminino em Chieri, em
maio de 1878.38

Turim. Igreja (1878-1882) e internato (1882-1884) de


São João Evangelista39
Desde 1869, Dom Bosco planejava construir uma grande igreja no Ora-
tório de São Luís Gonzaga, inaugurado em 1847 num bairro em que a ativi-
dade dos valdenses era intensa. Até 1877, não pôde realizar os seus planos. A
demora deveu-se a uma pessoa da localidade, valdense e proprietária de uma
parte do terreno na área projetada, que se negara a vendê-la. Dom Bosco
solicitara um decreto de expropriação de interesse público, mas inimigos na
Prefeitura tinham-no impedido. Obteve-se, enfim, a concessão em 1877. Os
planos de Dom Bosco incluíam a igreja, uma escola para internos e novos
edifícios para o Oratório. O conjunto, pensado como monumento à memó-
ria de Pio IX, tentava opor-se ao centro valdense vizinho.
O arquiteto, conde Arborio Mella, projetou a igreja em estilo româ-
nico-lombardo do século XIII. O edifício mede 60 por 22 metros, com
três naves, uma alta torre de 45 metros sobre a fachada e capacidade para
2.500 pessoas. O conde Luís Colle, de Toulon, e outros benfeitores franceses
contribuíram com a maior parte dos fundos para o projeto. A construção
começou com a colocação da primeira pedra em 14 de agosto de 1878 e
a bênção de dom Gastaldi, e foi concluída em maio de 1882. O conflito
Gastaldi-Bosco-Bonetti retardou a construção e a consagração da igreja
depois de concluída. Leão XIII levou finalmente à solução do conflito,
com a assinatura do documento Concordia, em julho de 1882. A igreja foi
consagrada em 28 de outubro de 1882, oficiada pelo arcebispo Gastaldi.

Cf. MB XVIII, 421, 468, 541.


36

Cf. MB XIII, 189s.


37

38
Cf. MB XIII, 206, 704.
39
Cf. MB XIII, 495, 574, 585, 588: desenvolvimento do projeto e construção; XV, 393: consa-
gração. Para mais informações, ver MB IX 75, 921, 951; X 112, 346s, 1236s, 1276.

50

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 50 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Igreja de São João Evangelista, numa fotografia de 1905.

O arcebispo Gastaldi opôs-se à decisão de Dom Bosco de dedicar a igre-


ja à memória de Pio IX, porque em Turim já se construía outra, a igreja de
São Segundo, patrocinada pela diocese.40 Dom Bosco reduziu a publicidade,
mas “manteve-se firme em sua ideia”. A dedicação a Pio IX foi simbolizada
com os painéis esculpidos na porta e uma estátua do Pontífice, colocada fora
da igreja, à direita da entrada. A imprensa anticlerical denunciou intensa-
mente a dedicação.
O edifício da escola foi iniciado em 1882, quando a igreja estava para ser
concluída; e ficou clara a sua utilização no ano escolar 1884-1885. O conde

40
MB XIII, 495s. Em 1867, um grupo de proprietários constituíra um comitê para construir
uma igreja no distrito de San Secondo. A prefeitura concedeu a permissão da construção em 2 de janei-
ro de 1868, doou os terrenos e uma subvenção de 30 mil liras. Entretanto, o projeto parou até que, em
1871, a comissão e o vigário diocesano persuadiram Dom Bosco a assumi-lo. Em 27 de março de 1872,
começaram os trabalhos preliminares para a preparação do terreno e os materiais; Dom Bosco pediu
ao arquiteto para modificar o projeto a fim de incluir um edifício para oratório. A prefeitura recusou a
proposta e Dom Bosco desistiu do projeto. Nesse ínterim, porém, ele adquirira o terreno para construir
a igreja de São João Evangelista no vizinho distrito de San Salvario, local do Oratório de São Luís,
como homenagem a Pio IX. Recentemente nomeado arcebispo, dom Gastaldi reanimou o projeto de
San Segundo sob o patrocínio da diocese e começou a apresentá-lo como homenagem a Pio IX. A obra
foi retomada em 1875; a igreja foi consagrada em 1882. Dom Bosco começou a construção da igreja
de São João Evangelista em 1878, consagrada pelo arcebispo Gastaldi no final de 1882. Pio IX já havia
morrido; as duas igrejas, planejadas em homenagem, foram consagradas como monumento ao Papa.

51

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 51 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Luís Colle demonstrou novamente a sua generosidade. Dom Bosco decidiu


alojar ali os Filhos de Maria (vocações tardias).
Por causa da oposição de dom Gastaldi, os Filhos de Maria foram aloja-
dos, no início (1875), em Sampierdarena, e também sem se fazer notar, em
Valdocco, numa situação penosa: adultos e jovens tinham de viver e estudar
com colegiais adolescentes. Em 1883, depois da morte do arcebispo Gastaldi,
Dom Bosco transferiu-os para Mathi, perto de Turim, numa casa localizada
junto à fábrica de papel adquirida por Dom Bosco. Com um programa de-
senhado especialmente para eles, sob a direção do padre Felipe Rinaldi, os
Filhos de Maria viviam bem, embora a casa fosse pequena e incômoda. Por
isso, Dom Bosco decidiu transferi-los para Turim, em São João Evangelista,
no outono de 1884, o que lhes permitiria dispor de acomodações admiráveis,
igreja e oratório. No ano seguinte, surgiram problemas preocupantes de saú-
de, de origem desconhecida.41
Desde então, os Filhos de Maria, fundados com o objetivo de promover
as vocações adultas ao sacerdócio na Igreja, começaram a optar sempre mais
por entrar na Sociedade Salesiana, tendo como perspectiva as missões em
vez de retornar a suas dioceses de origem; assim, nos anos 1887 e 1888, das
classes de 30 e 32 seminaristas adultos, 28 e 30 respectivamente, entraram no
noviciado de Foglizzo.

A obra salesiana em Roma

Tentativas fracassadas de Dom Bosco para estabelecer-se em Roma42


Dom Bosco, muito cedo, quis estabelecer a obra salesiana em Roma,
não só por razões de prestígio, como também porque, com a expansão da
Sociedade Salesiana, tornava-se desejável e também necessária uma base na
Cidade Eterna. Contudo, apesar de muitas ofertas recebidas e de seus esfor-
ços para cumprir com as condições, só pôde estabelecer-se ali em 1880.
Em 1867, Pio IX ofereceu a Dom Bosco o pessoal e a direção de um lar
para menores fundado por ele. Depois de visitar o local e esboçar os termos
do acordo, Dom Bosco percebeu que nunca teria liberdade para governar os
menores. Apesar das pressões recebidas, declinou da oferta.
Em 1868, Dom Bosco iniciou as negociações para a igreja do Santo Su-
dário com o edifício anexo, locais que pertenceram a uma confraria do mesmo

MB XVII, 151.
41

MB XII, 487s; XIV, 327: Albano, Ariccia e Magliano Sabina; XIII, 650s: Magliano Sabina. Ofer-
42

tas em Roma: MB XIII, 137s, 585s; MB XIV, 50s; 74s, 320s com a correspondência. Annali I, 370-376.

52

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 52 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

nome, que deixara de existir. Pio IX deu seu consentimento e Dom Bosco
apresentou o rascunho de um acordo. As negociações complicaram-se nova-
mente e foram finalmente abandonadas quando Roma foi ocupada em 1870.
Em 1869, Pio IX fez nova oferta: a igreja de São Caio com os edifí-
cios adjacentes na colina do Quirinal, que pertenciam a uma congregação de
monjas que abandonaram o local e se transferiram para outro local. O Papa
queria que Dom Bosco estabelecesse um estudantado para os seus semina-
ristas, que poderiam frequentar as universidades romanas. Chegou-se a um
acordo, mas quando se tratou de assiná-lo, as monjas, com a cumplicidade
de algumas pessoas de Roma, triplicaram suas pretensões. Quando o exérci-
to italiano ocupou Roma em 1870, as monjas perderam suas propriedades.
Com o dinheiro previsto para essa compra, Dom Bosco adquiriu um terreno
em frente à igreja de Maria Auxiliadora de Turim.
Novamente, em fevereiro de 1870, Pio IX ofereceu a Dom Bosco a pe-
quena e preciosa igreja de San Giovanni della Pigna, com o edifício adjacente.
E, de novo, os acontecimentos políticos impediram a conclusão do acordo.
Em setembro de 1874, quando se acalmara um pouco a confusão causada
pela ocupação italiana de Roma, Dom Bosco tentou reiniciar as negociações.
Contudo, o cardeal vigário de Roma acreditava que não era conveniente es-
tabelecer nesse momento uma congregação religiosa nas citadas instalações e
o acordo foi postergado.43
Em 1874, o príncipe Gabrielli ofereceu aos salesianos o orfanato de San
Michele a Ripa, um imenso estabelecimento de ensino profissional fundado
e favorecido pelos papas anteriores; nessa época, fora assumido pelo governo
italiano e era administrado pelo príncipe, como presidente de uma comissão.
Dom Bosco aceitou a proposta e redigiu os termos básicos para chegar ao
acordo. Exigiu liberdade absoluta em tudo que se referisse à disciplina e à
educação, dispensa de todos os externos (famílias inteiras alojavam-se nas
várias partes do orfanato) e liberdade para administrar dois terços dos fun-
dos estipulados. O príncipe teve dificuldade para obter a concordância da
comissão, mas Dom Bosco manteve-se firme em seus termos. As negociações
continuaram por longo tempo. Inicialmente, Dom Bosco conseguiu que um
amigo de confiança em Roma atuasse como seu intermediário; depois, dei-
xou que o príncipe, que tinha a maior boa vontade, assumisse o assunto.44
Não temos outras informações sobre essas negociações. Pode-se supor que o
príncipe não obteve a concordância da comissão.
43
Em 1905, Pio X entregará a casa e a igreja aos salesianos como residência para sua Procura-
doria em Roma.
44
Ver correspondência entre ambos, em MB XIV, 320s.

53

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 53 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Todavia, é interessante saber que o governo italiano, em meados dos


anos 70, pensou nos salesianos para salvar essa grande instituição. Foram
feitas ainda outras ofertas a Dom Bosco, mas nenhuma delas pôde chegar a
uma conclusão favorável.

Dom Bosco e os concepcionistas (1876-1880)45


Em 1876, Pio IX pediu a Dom Bosco para visitar e avaliar a Congre-
gação dos irmãos concepcionistas, possivelmente em vista de incorporá-los à
sociedade salesiana. Os Irmãos Hospitaleiros da Imaculada Conceição foram
fundados em 1857 com a finalidade de servir nos hospitais. Em 1876, seus
membros reduziam-se a 50, dos quais 42, que tinham domicílio social numa
grande casa na mesma Roma, trabalhavam no grande hospital do Espírito
Santo; os demais, em dois hospitais menores nas proximidades de Roma.
Dom Bosco, depois de ter obtido o consentimento do seu Conselho,
visitou cuidadosamente o instituto e apresentou um relatório ao Papa.46 Ob-
servou que as duas causas principais da decadência do Instituto eram, pri-
meiramente, a falta de uma adequada formação cristã e religiosa (noviciado
etc.) e, depois, a falta de um governo claro e unificado. Por essas falhas, os
membros careciam de disciplina e de espírito religioso.
Depois de prolongadas negociações, Dom Bosco concordou em nomear
um diretor para o Instituto e escolheu o padre José Scappini, que responderia
diretamente ao Papa. Dom Bosco supervisionaria a “reforma” e visitaria a
comunidade de Roma com a maior frequência possível. Depois de uma “lim-
peza” e um retiro espiritual, considerou-se que a reforma caminhava bem.
Entretanto, a atuação dos salesianos com os concepcionistas foi mal-inter-
pretada nos círculos romanos; parece que se criou um complô para afastar os
salesianos. Quando o padre Scappini precisou ausentar-se por doença, não
lhe foi permitido retornar.
A ideia do Papa era que os concepcionistas chegassem a fazer parte da
sociedade salesiana, com seu pessoal, seus locais e seu ministério. Isso, sem
mais, estabeleceria os salesianos em Roma. Dom Bosco cita as palavras do Papa:
“Quero que cuide dos concepcionistas [...]. Sua missão não é reformar ou mo-
dificar, mas harmonizar suas constituições com as dos salesianos”.47 Tal união
era, previsivelmente, muito difícil; de fato, em última instância, não foi factível.

MB XII, 189s, 443; MB XIII, 13, 34, 42, 47.


45

MB XIII, 55s.
46

47
Carta de Dom Bosco ao cardeal Bilio, 29 de novembro de 1877, em Epistolario III Ceria, 244.
Cf. MB XII, 495.

54

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 54 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Procurador e Procuradoria estabelecidos pela primeira vez em


Roma (1880)48
O primeiro salesiano a estabelecer-se definitivamente em Roma foi o
padre Francisco Dalmazzo, nomeado procurador-geral da Congregação no
início de 1880.
Dom Bosco adquirira a primeira residência dos salesianos em Roma em
1876. Mantivera contatos com o Instituto das Oblatas Nobres de Tor de Spec-
chi, cujo convento se situava próximo à colina do Capitólio. Madre Madalena
Galeffi, superiora dessa congregação, atuara como agente de Dom Bosco em
Roma, desde 1870, para a distribuição de livros e objetos religiosos. Em 1874,
na auditoria dos livros (as transações eram feitas por meio de leigos), percebeu-se
que não se sabia o paradeiro de uma grande quantia devida a Dom Bosco. Ma-
dre Galeffi decidiu pagar-lhe aos poucos com seu próprio dinheiro; mas morreu
em 1876. Sua sucessora viu que o convento ainda devia a Dom Bosco umas 20
mil liras. Quando Dom Bosco foi informado, pediu que, como pagamento, lhe
fosse concedido o uso de alguns ambientes no terceiro andar de uma casa próxi-
ma, propriedade do convento. Eram ambientes pobres e acessíveis somente por
meio de uma porta nos fundos, com escadas pequenas e estreitas no térreo. A
escritura foi assinada em março de 1876. Ali se alojaram, pela primeira vez em
dezembro de 1877, Dom Bosco e seu secretário, padre Barberis. Esta primeira
residência salesiana em Roma, próxima à área arqueológica da cidade, seria de-
molida mais tarde quando, no tempo de Mussolini, a região toda foi arrasada e
reorganizada a área da república e dos foros imperiais. Em 1880, quando o padre
Dalmazzo foi nomeado procurador, tornou-se sede da Procuradoria Salesiana.
Os diretórios do Vaticano de 1877, 1878 e 1879 indicam o padre Miguel
Rua, com domicílio em Turim, como procurador-geral. Padre Francisco Dalmazzo
aparece como procurador em 1880. No diretório salesiano, porém, por alguma
razão desconhecida, ele só é indicado pela primeira vez nessa função em 1884.

A Igreja (1880-1887) e o internato (1885-1887) do Sagrado Coração49


Fase preliminar (1879-1880)
Pio IX pensou em construir uma igreja no distrito de Castro Pretório. Os
projetos iniciais foram feitos em 1870 e 1871, mas avançavam muito lentamente.

Annali I, 376-377; MB XIV, 392s: nomeação do padre Dalmazzo como procu­rador; XIV, 386-
48

387: audiência com o cardeal Ferrieri; XIV, 391-392: roubo e incêndio na residência de Tor de Specchi.
49
MB XIV, 571: igreja do Sagrado Coração, preparação; XV, 153, 158, 251, 588: igreja do Sa-
grado Coração, construção; MB XVII, 210s: a busca de fundos e a construção da igreja e do internato;
MB XVIII, 20, 764s: a consagração.

55

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 55 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Leão XIII retomou a ideia e renovou os projetos nos anos 1878-1880. O Papa
criou uma comissão para a construção e convocou o mundo todo numa coleta de
êxito apenas moderado. O projeto foi concluído e a igreja erigida como paróquia
dedicada ao Sagrado Coração, sendo colocada a primeira pedra em 16 de agosto
de 1869. A obra, contudo, parou por falta de fundos.

Igreja do Sagrado Coração e colégio salesiano em Roma.

Dom Bosco assume a missão de construir a igreja do Sagrado Coração (1880)


1. A versão dos fatos, segundo Lemoyne (Documenti) e Ceria (MB). Em
março de 1880, o cardeal Alimonda, em nome de Leão XIII, entrou em
contato com Dom Bosco para o tema da igreja do Sagrado Coração de Jesus.
Dom Bosco mostrou-se reticente em aceitar e deu boas razões: a falta de fun-
dos, a falta de entusiasmo em Roma, uma construção já iniciada, o pessoal da
administração difícil de tratar etc.
Em 5 de abril de 1880, Leão XIII pediu-lhe pessoalmente e Dom Bosco
aceitou com a condição de que se previsse no projeto um internato e um
oratório. Imediatamente, Dom Bosco precisou enfrentar facções rivais entre
os operários. Entretanto, elaborou e apresentou um acordo. Teve de ignorar
as objeções de seu conselho: era uma “ordem” do Papa.
2. A versão mais provável do acontecido. Dom Bosco estava passando
por sérias dificuldades com as autoridades eclesiásticas pela controvérsia

56

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 56 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Bosco-Bonetti-Gastaldi. Possuía inimigos em Roma. O cardeal Inocên-


cio Ferrieri, da Congregação dos Bispos e Regulares, não se mostrava
muito favorável a Dom Bosco e à Sociedade Salesiana. O próprio Leão
XIII parecia distante e desfavorável. Em janeiro de 1880, Dom Bosco
nomeou padre Francisco Dalmazzo seu representante em Roma para dar
andamento ao caso do padre Bonetti perante a Congregação do Concí-
lio. Ele atuaria como representante de Dom Bosco ao longo do conflito
com o arcebispo Gastaldi, até 1882, com a assinatura do documento de
reconciliação, ou Concordia. Também ele considerava o cardeal Ferrieri
um “inimigo”.
Após a nomeação do procurador, Dom Bosco esteve em Roma de 12
a 23 de abril de 1880. Seu objetivo era pressionar para obter os privilégios
e também indiretamente resolver o caso Bonetti. Funcionários do Vaticano
pouco propícios dificultaram a obtenção de uma audiência com o Papa.
Quando, depois de muita demora, foi recebido por Leão XIII, em 15 de
abril de 1880, este lhe disse que, por princípio, se opunha aos privilégios
das congregações religiosas e que só renovaria alguns de menor importân-
cia. Dom Bosco sentiu-se menosprezado ao ser enviado de um lado para
outro antes de ser recebido em audiência, pelos atrasos, pelas poucas con-
cessões obtidas e, sobretudo, pela atitude do cardeal Ferrieri, que não ficara
satisfeito com seu Relatório de 1879. Dom Bosco teve a impressão de estar
na lista negra.
Foi nessas circunstâncias que, em 28 de março de 1880, Dom Bosco
aceitou a proposta do cardeal vigário, Mônaco La Valletta, de assumir a cons-
trução da igreja do Sagrado Coração e um internato, tudo “como um mo-
numento à venerada memória de Pio IX”.50 Aparentemente, em sua audiência
com Leão XIII, em 5 de abril de 1880, não se mencionou a igreja.51 Antes de
deixar Roma, porém, Dom Bosco escreveu ao cardeal Mônaco uma bem
meditada proposta de aceitação, pedindo-lhe que a apresentasse ao Papa para
sua aprovação e bênção.52 O Papa deve ter ficado satisfeito. A tradição salesia-
na diz que Leão XIII o pediu a Dom Bosco e que este exclamou: “Esta é uma
ordem do Papa, e eu obedeço!”.53
A proposta de construir a igreja e o seu êxito posterior ajudaram a rom-
per as barreiras contra as quais ele se sentia tão impotente.

Notas do padre Berto, em Documenti XXII, 88, resumidas em MB XIV, 447s.


50

Cf. MB XIV, 460s.


51

52
Memorandum, Dom Bosco ao cardeal vigário, 10 de abril de 1880, em Epistolario III Ceria,
564-566. MB XIV 579s.
53
Documenti XXII, 90-92, FBM 1,070 C6-8 [Os cursivos são dos editores].

57

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 57 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Construção da igreja e do internato


Como primeiro passo, Dom Bosco comprou mais terreno e restaurou
uma casa que havia nele. Em 1881, a paróquia do Sagrado Coração, erigida
em 1879, foi confiada aos salesianos, e o procurador padre Dalmazzo, no-
meado primeiro pároco. A obra foi reiniciada e fizeram-se alguns progressos.
Contudo, em 1883, a construção parou pelas dificuldades com a adminis-
tração e a falta de recursos. Dom Bosco dispensou a antiga administração,
fez novos contratos e adquiriu material de construção no valor de 40 mil
liras. Benfeitores, como o conde Colle e a senhorita Louvet, contribuíram
constantemente. Dom Bosco iniciou em 1884-1885 uma grande e lucrativa
loteria em Roma, da qual o Papa e o rei participaram como copatrocinadores.
Apesar disso, restava uma pesada dívida.54
Em 1884, a construção foi reiniciada. Em abril de 1885, foi colocada a
pedra fundamental do colégio. Seria um internato para cerca de 500 meninos
e uma escola para externos com oratório anexo. Deveria ser um bom início da
presença salesiana em Roma.
A consagração da igreja, ainda não concluída, e do internato deu-
-se em 12 de maio de 1887, um ano antes da finalização prevista, para que
Dom Bosco, cuja saúde estava se deteriorando rapidamente, pudesse assistir.
O coro do Oratório de Turim, sob a direção do maestro salesiano José
Dogliani, encarregou-se da música. A celebração teve caráter internacional:
falou-se em italiano, espanhol, francês, alemão e inglês. Se a imprensa católi-
ca de Roma não deu ao acontecimento a atenção que sem dúvida merecia, a
imprensa secular, de tendência anticlerical, falou com admiração e simpatia.

3. Fundações salesianas na Espanha (1881 e 1884)


A fama de Dom Bosco e dos salesianos corria por toda a Espanha graças
às traduções e adaptações das crônicas que o padre Bonetti publicava todos
os meses sobre a história do Oratório de São Francisco de Sales. Elas eram
publicadas na Revista Diocesana, de Sevilha. O jornalista catalão Félix Sardá i
Salvany reproduzia-as na famosa e difundida Revista Popular, de Barcelona. A
mesma coisa fizeram alguns jornais de Madri e de outras províncias. O público
lia essas notícias com verdadeira avidez, e com isso o nome de Dom Bosco e dos
salesianos tornava-se conhecido nas mais importantes instâncias eclesiásticas

54
Ver a carta de Dom Bosco ao duque de Norfolk, 13 de janeiro de 1888, em que Dom Bos­co
fala de uma dívida de 250 mil liras, em Epistolario IV Ceria, 407-408.

58

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 58 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

da Espanha. Igualmente, a vida de Dom Bosco, escrita em francês por Carlos


D’Espiney, contribuiu para esse conhecimento. Mais tarde, o beato dom Spí-
nola, que chegaria a ser cardeal-arcebispo de Sevilha, escreveu a primeira vida
de Dom Bosco em castelhano. Tudo isso fazia com que muitos desejassem a
presença dos salesianos na Espanha.

Primeira casa salesiana na Espanha: Utrera (Sevilha)


Já estabelecido na França, Dom Bosco pôs o olhar na vizinha Espa-
nha, desejando levar para lá sua obra em favor dos jovens pobres e aban-
donados. Tanto mais que a Espanha poderia servir de boa ponte para as
missões da América. Faltava apenas uma ocasião propícia para fazê-lo. E
esta se apresentou de maneira singular e inesperada. No verão de 1870, sete
homens assaltaram a mansão de dom Diego, marquês da Casa Ulloa, em
Utrera. Surpreendidos quando realizavam o roubo, os bandidos enfrenta-
ram a Guarda Civil, que precisou defender-se disparando à queima-roupa.
Seis deles morreram dentro da casa, o sétimo, no hospital. O fato causou
profunda impressão no marquês, que ele decidiu fazer alguma coisa para
remediar a deplorável situação sociocultural da cidade de Utrera. Sua ideia
era fundar um colégio para meninos pobres. Para tanto, chamou os padres
claretianos que, contudo, nem chegaram a estudar o projeto. O marquês
procurou então o cardeal-arcebispo de Sevilha, o carmelita dom Joaquim
Lluch y Garriga, que tendo sido professor em Lucca (Itália) conhecera ali
os salesianos e, já bispo de Salamanca, ouvira falar com grande admiração
de Dom Bosco durante o Concílio Vaticano I. O cardeal aconselhou-o a
escrever a Dom Bosco, pedindo-lhe que mandasse seus salesianos a Utrera.
Dom Diego escreveu uma proposta e entregou-a ao cardeal, para que ele,
em seu nome, a enviasse a Dom Bosco.55 Dom Bosco respondeu dando-lhe
vagas esperanças e comunicando que dois salesianos iriam comprovar in

As propostas eram estas: “Propostas feitas ao Ex.mo e Il.mo Sr. Arcebispo de Sevilha em 6 de
55

junho de 1879 por uma pessoa piedosa, em vista do estabelecimento de uma residência de 4 padres e
2 irmãos coadjutores da Congregação de São Francisco de Sales, na cidade de Utrera, diocese de Sevilha,
a 5 léguas desta capital e a 45 minutos pela estrada de ferro: Concede-se a casa aos padres por quatro
anos com capacidade suficiente para acolhê-los e a curta distância da igreja que o Sr. Arcebispo de
Sevilha lhes entregará para o culto. Ser-lhes-á proporcionado o mobiliário que necessitem para seu
estabelecimento na citada casa, de acordo com as orientações de sua Regra. Será garantido aos 4 padres
o estipêndio de 8 reais para cada missa aplicada na intenção desta piedosa pessoa no citado tempo dos
quatro anos, facultando-se optar por outras de maior estipêndio. Os gastos de viagem desses senhores
serão por conta da pessoa que faz estas propostas”. Sevilha, 6 de junho de 1879. O marquês viúvo de
Casa Ulloa. O original encontra-se em ASC e é reproduzido em A. Martín, Los salesianos de Utrera en
España. Inspectoría Salesiana de Sevilla, 1981, 65-66.

59

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 59 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

situ as condições e as circunstâncias da nova fundação. A visita demorou


até que o padre João Cagliero e o coadjutor José Rossi, depois de longa e
incômoda viagem, chegaram a Sevilha em 24 de janeiro de 1880. Foram
muito bem recebidos, tanto pelo arcebispo de Sevilha como pelo marquês
da Casa Ulloa. Estudaram a situação e avaliaram as propostas do marquês,
dos pontos de vista educativo e econômico. A conclusão foi que Utrera era
um lugar estupendo para ali iniciar a obra salesiana na Espanha.

Antigo convento carmelita em Utrera, Sevilha, entregue aos salesianos em 1881.


Fotografia de 1889.

O cardeal confiou aos salesianos a igreja de Nossa Senhora do Carmo


e o marquês, como prometera, preparou-lhes uma residência no número
20 da Rua Ancha. Contudo, somente em fevereiro de 1881, padre João
Branda, diretor, com 5 salesianos, acompanhados pelo padre Cagliero, o
único que falava castelhano, iniciaram a obra no antigo convento carmelita.
A atividade salesiana começou com a criação de um grupo de cooperadores
e a reabertura da igreja. Seguiu-se, em 1885, o internato-escola para uns
150 meninos pobres. As dificuldades econômicas e a cólera ameaçaram a
existência da obra; sobreviveu, porém, sem deixar de se dedicar exclusiva-
mente aos pobres.

60

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 60 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Padre Cagliero, que ficara na Espanha até meados de abril de 1881, vi-
sitou Portugal em seguida, em vista de uma possível fundação salesiana, que
só se realizaria em 1894.

A casa de Sarriá (Barcelona). Fevereiro de 188456


Sarriá era, nessa época, um povoado de 4 mil habitantes, pouco distante
de Barcelona. Era formado fundamentalmente por lavradores e operários,
mas em meados do século XIX a burguesia de Barcelona começou a levantar
ali os seus chalés ou casas de verão. Em 1882, uma rica viúva de Barcelo-
na, dona Doroteia Chopitea de Serra,57 conheceu os salesianos por meio do
Boletim Salesiano. Quando enviuvou, em 1882, fez o possível para que os
salesianos fossem para Barcelona. Queria patrocinar um lar-escola para me-
ninos pobres em memória do falecido esposo. Sem perda de tempo, escreveu
a Dom Bosco solicitando um centro de formação profissional que, segundo
ela, convinha criar “nos arredores de Barcelona”. A resposta foi negativa na-
quele momento, mas aberta para o futuro. A senhora insistiu, como também
escreveu ao Papa. Dom Bosco enviou, então, os padres Cagliero e Branda
para avaliarem a situação. As negociações foram rápidas e tiveram o resultado
esperado. Quase à entrada do povoado, situava-se uma casa chamada Can
Prats, que constava de piso térreo e dois andares. À entrada havia um jardim,
um pomar, um pequeno bosque e um campo para cultivo. Este foi o lugar
escolhido. Ali se estabeleceu a casa salesiana com sua escola de formação pro-
fissional (Talleres Salesianos), que teve seu humilde início em 15 de fevereiro
de 1884, com padre João Branda como diretor, transferido de Utrera. Com
o patrocínio de dona Doroteia e a ajuda de muitos salesianos cooperadores,
a escola converteu-se com os anos numa das maiores obras educativas dos
salesianos na Espanha.
Esta foi a casa visitada por Dom Bosco, dois anos mais tarde, durante
sua permanência em Barcelona de 8 de abril a 6 de maio de 1886.

56
Cf. R. Alberdi, Una ciudad para un santo: los orígenes de la obra salesiana en Barcelona. Barce-
lona: Editorial Tibidabo, 1966. MB XV, 230; XVII, 594, 602.
57
Doroteia Chopitea era filha de um rico espanhol de Santiago do Chile. Instalou-se em Bar-
celona com sua família quando, no Chile, foi declarada a guerra de independência da Espanha. Em
1832, Doroteia casou-se com José Maria, filho de um rico comerciante, Mariano Serra. Dom José
Maria morreu em 1882. Foi quando dona Doroteia entrou em contato com os salesianos; continuou a
ser sua protetora permanente até a morte em 1891. É considerada, com razão, a mãe da obra salesiana
em Barcelona. [Em 1927 foi iniciado o processo para sua beatificação e em 9 de junho de 1983 foi
declarada venerável: nota do tradutor.]

61

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 61 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Fachada da residência da família Martí-Codolar, em Barcelona, entregue aos salesianos em 1940.

O templo do Tibidabo, em Barcelona


Tibidabo é o ponto mais elevado da colina mais alta do entorno de
Barcelona, que goza de uma vista impressionante da cidade e seus arredores.58
Era propriedade de algumas pessoas que tinham a intenção de ali estabelecer
uma obra social ou recreativa ou mesmo construir uma igreja protestante.
Em 1885, para evitar esse projeto, alguns católicos ricos compraram a pro-
priedade. Quando Dom Bosco, em 5 de maio, visitou a basílica das Mercês, o
grupo de doze senhores, que tinham decidido elevar um monumento especial
que perpetuasse a memória do ilustre visitante, entregou a Dom Bosco um
documento de doação da propriedade do cimo da colina do Tibidabo para
que Dom Bosco ali erguesse uma ermida “consagrada ao Sacratíssimo Coração
de Jesus”. Visivelmente emocionado, Dom Bosco explicou-lhes que, estando
a concluir a igreja do Sagrado Coração de Jesus, de Roma, ele se perguntava
qual empreendimento devia agora realizar para “honrar e propagar esta devo-
ção salutar”. Uma voz interior vinha-lhe repetindo: “Tibidabo” “Tibidabo”
[Eu te darei, eu te darei]. “Sim, senhores, vós sois os instrumentos da Divina

58
Cf. N. Echave, “El Tibidabo, la montaña del Corazón de Jesús”, BSe, junio, 2003, 8-9.

62

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 62 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Providência; com vossa ajuda muito depressa será elevado neste monte um ma-
jestoso santuário dedicado ao Sagrado Coração de Jesus”. Era a formulação de
uma profecia. Infelizmente, os proprietários não entregaram a documentação
notarial que certificava a doação da propriedade.
Não obstante, em 3 de julho de 1886, dois meses depois da partida de
Dom Bosco, foi inaugurada ali a primeira ermida ao Coração de Jesus. Sur-
gira por iniciativa de dona Doroteia de Chopitea e era um sinal palpável de
que não se podia dispor arbitrariamente daquela elevação, pois fora oferecida
ao Coração de Jesus.
Entretanto, ao faltar o título de propriedade, a posse foi discutida
e passou por diversas vicissitudes, até que em 17 de agosto de 1900 a
Sociedade Anônima Tibidabo entregou aos salesianos os seis mil metros
quadrados, que eles estimaram como necessários para a construção do
futuro templo.59

59
Com poucos recursos para um empreendimento de tão grande envergadura, os salesianos
precisaram esperar até 1902 para proceder à bênção da primeira pedra. O cardeal Casañas, bispo de
Barcelona, presidiu a cerimônia. As obras foram confiadas ao arquiteto da diocese, Henrique Sag-
nier, que dedicou ao Tibidabo toda a sua alma e toda a sua arte. Como prêmio pelo zelo e serviços à
Igreja, recebeu em 1923 o título pontifício de marquês. As obras continuaram com grande lentidão.
Por ocasião da “Semana Trágica” de Barcelona (julho de 1909), foram incendiados 80 edifícios
eclesiásticos na cidade. Esses incêndios suscitaram a reação de uma santa mulher, dona Amália
Vivè de Negra, que, com o pseudônimo de Maria Vitória, iniciou uma campanha de reparação
pelo ocorrido. Surgiu assim o lema “Expiação pelo sacrifício”. O templo seria erguido pela ação de
muitos sacrifícios anônimos como oferenda de amor ao Sagrado Coração. Em 17 de junho de 1911,
o templo foi coberto e pôde ser inaugurada a cripta com a presença do Reitor-Mor padre Paulo
Albera, segundo sucessor de Dom Bosco. Naquele dia, dom Laguarda, bispo de Barcelona, deu, pela
primeira vez, a bênção com o Santíssimo. No mesmo mês encerrou-se em Madri o XXII Congresso
Eucarístico Internacional e o presidente, dom Messeguer i Costa, arcebispo de Granada, propôs que
“se propague por toda a Espanha a ideia do templo nacional dedicado ao Sagrado Coração do Tibidabo,
para que nós espanhóis tenhamos também o quanto antes o nosso Montmartre”. A proposta foi aceita por
aclamação e assim o templo profetizado por Dom Bosco passou a ser templo “Expiatório e Nacio-
nal”. Em 1952, coube a Barcelona organizar o XXXV Congresso Eucarístico Internacional. Um mês
antes, em 25 de maio, dom Modrego, bispo de Barcelona, benzeu o templo do Tibidabo, já coberto
embora não concluído. Completavam-se cinquenta anos da colocação da primeira pedra. O primei-
ro ato do Congresso deu-se precisamente no templo, com a grande vigília da Adoração Noturna. As
obras continuaram até 1961, ano em que foi colocada a estátua do Sagrado Coração com os braços
abertos em atitude de abraçar a cidade de Barcelona e toda a Espanha. No dia 21 de outubro, o papa
João XXIII iluminou a partir de Roma a estátua e o templo, que ficou assim oficialmente concluído.
Cumprira-se a profecia de Dom Bosco.

63

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 63 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Dom Bosco no jardim da mansão dos Martí-Codolar, em fotografia de 3 de maio de 1886.

Desde sua criação em 1881, a obra salesiana na Espanha estivera unida


à inspetoria romana, nominalmente uma das seis existentes no momento.
Quando a escola de Barcelona abriu suas portas em 1884, surgiu a questão
da criação de uma província na Espanha, com suas duas casas. Dom Bosco
preferiu esperar mais um pouco.60
Em Madri, fora oferecido aos salesianos um grande colégio para meno-
res, Santa Rita, que estava sendo construído por uma comissão. Sua finalida-
de era “opor-se” ao aumento da delinquência e da influência da Mano Negra.
Depois de longas negociações (1885-1886), a proposta não pôde ser aceita. A
primeira fundação salesiana em Madri só acontecerá em 1899.61
Em 1889, padre Rua nomeou padre Felipe Rinaldi como diretor de Sar-
riá; e em 1892, nomeou-o superior da recém-criada província espanhola, que
incluía Portugal, embora naquele momento ainda não houvesse uma funda-
ção salesiana nesse país. Durante seu mandato como inspetor (1892-1901),
padre Rinaldi abriu 16 casas na Espanha e 3 em Portugal.

60
Cf. MB XVII, 354.
61
Cf. MB XVII, 601, 606.

64

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 64 28/07/14 16:35


Apêndice

ÚLTIMAS FUNDAÇÕES DE DOM BOSCO NA EUROPA


E NA AMÉRICA DO SUL

Criadas no tempo de Dom Bosco (1887-1888)

Chile
O primeiro salesiano a chegar ao Chile, depois de atravessar a Cordilhei-
ra dos Andes, foi o padre Domingos Milanésio. Em Concepción, o vigário da
diocese, padre Domingos Cruz, fazia o possível para obter pessoal salesiano.
Chegou-se a um acordo e seis salesianos, entre eles padre Evásio Rabagliati,
fizeram seu ingresso na cidade em 6 de março de 1887, com grande afluência
de público. A obra teve início com o Oratório e desenvolveu-se aos poucos
com a criação da escola e das oficinas.62

Inglaterra
Dom Bosco, no fim da vida, pôde ver realizado um de seus grandes
desejos, ou seja, mandar seus salesianos à Inglaterra. Alguns jovens de língua
inglesa foram acolhidos no Oratório de Valdocco favorecendo a fundação de
uma casa em Londres. Mais uma vez, foram as Conferências de São Vicente
de Paulo a abrir caminho. As conferências pediram a ajuda de Dom Bosco
para beneficiar a juventude pobre e abandonada do bairro de Battersea. A
condessa de Stacpoole teve um papel importante nas negociações. Os salesia-
nos administrariam uma paróquia e ocupar-se-iam da juventude do bairro.
Em 4 de novembro de 1887, dois padres: o irlandês Eduardo Mackierna,
que seria diretor e pároco, e o inglês Carlos Macey, coadjutor da paróquia e

62
Cf. A. Videla, Don Bosco en Chile: notas para una historia de los salesianos en Chile. Santiago:
Editorial Salesiana, 1983; S. Kuzmanich Buvinic, Presencia salesiana, 100 años en Chile, vol. I: Los
inicios: 1887. Santiago: Editorial Salesiana, 1987.

65

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 65 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

catequista, e um coadjutor italiano, senhor Rossaro, partiam de Turim para


a Inglaterra. Os inícios foram muito difíceis pela pobreza e as contrariedades
que sofreram. Não foram capazes de estabelecer nem um oratório nem esco-
las profissionais, mas aos poucos se foram criando as condições para o futuro
desenvolvimento. As vocações aumentaram tanto que sete anos depois, em
1894, já sob o reitorado do padre Rua, o então diretor padre Macey escrevia
ao padre Rua: “Dê-nos uma casa e em dez anos os salesianos serão mais nu-
merosos na Inglaterra do que em qualquer outro país fora da Itália”.

Equador
O presidente da República interessou-se pessoalmente pela ida dos sa-
lesianos a Quito. De acordo com o arcebispo, em 1885 ele interveio junto
a Dom Bosco. Depois de algumas vacilações por falta de pessoal reuniu-se
um grupo de missionários, com o padre Calcagno à frente; ele foi o último
que, em 6 de dezembro de 1887, recebeu a bênção de Dom Bosco, já muito
doente, antes de partir para a América. Os salesianos chegaram a Quito em
28 de janeiro de 1888 e telegrafaram imediatamente a Turim. O telegrama
foi lido a Dom Bosco no dia 30, que fez sinais de tê-lo entendido. Era a
véspera da sua morte.
O vicariato apostólico de Méndez y Gualaquiza (missão Shuar) foi esta-
belecido em 1892.

Negociações iniciadas com Dom Bosco (obras estabelecidas


mais tarde)
Embora não as tenha visto concretizadas, algumas das negociações de
Dom Bosco chegaram logo a ser realidade. Em Talca, Chile, os salesianos
instalaram-se no mesmo ano da morte do santo, 1888. Na Colômbia, fun-
daram uma casa em Bogotá em 1890. A casa de Lieja fora pedida ainda em
1867. As dificuldades eram grandes. Quem mais se interessou pela fundação
foi o bispo da cidade, dom Doutreloux, que visitou Dom Bosco duas vezes
no Oratório.63 Em 8 de dezembro de 1887, Dom Bosco, acamado, teve um
sonho “no qual a Virgem lhe disse para aceitar a proposta de Lieja”. A casa foi
aberta pelo padre Rua em 1891.

Cf. A. Druart, “Les letres de Monseigner Doutreloux à Don Bosco”, RSS 3 (1983), 274-
63

295; F. Staelens, “La corrispondenza belga di Don Bosco. Profilo socio-religioso dei corrispondenti.
L’immagine di Don Bosco in Belgio”, RSS 34 (1999), 31-65.

66

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 66 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Em Portugal, padre Sebastião Leite de Vasconcellos, muito preocu-


pado em afastar a juventude dos apelos dos protestantes, pressionava Dom
Bosco com insistência para que enviasse salesianos a Portugal. Em 1881,
padre Cagliero foi enviado para cumprimentá-lo e pedir-lhe paciência. Pa-
dre Sebastião foi a Turim e, aconselhado por Dom Bosco, abriu ele mesmo
a Oficina de São José para jovens abandonados, à espera que os salesianos
pudessem encarregar-se da direção quando fosse possível. O patriarca de
Lisboa também pedia com insistência uma obra salesiana na capital por-
tuguesa. Por falta de pessoal, nenhuma dessas obras pôde ser realizada no
tempo de Dom Bosco. A primeira casa salesiana em Portugal seria a de
Braga, aberta em 1894.64

Peru. Em 1885, foi publicada em Lima a primeira tradução castelhana


da obra Dom Bosco, de D’Espiney. O tradutor era o franciscano padre Luís
Torra, que prometera traduzir a obra como ação de graças por ter sido salvo
de um naufrágio por intercessão de Maria Auxiliadora, a Virgem de Dom
Bosco. Entre as intenções da obra, o tradutor assinala:

Se me atrevi a traduzir este libreto, foi unicamente pelo veemente desejo que
tinha de dar a conhecer nestes lugares um homem tão extraordinário como
Dom Bosco, e a obra mais extraordinária ainda, que fundou, isto é, a Con-
gregação Salesiana, altamente filantrópica e humanitária.65

O livro suscitou viva admiração e despertou um movimento de sim-


patia por Dom Bosco, dando origem aos salesianos cooperadores no Peru,
antes da chegada dos salesianos àquelas terras. Todos queriam conhecer
Dom Bosco, ou entrar em contato com ele, e fazer com que os salesia-
nos abrissem alguma obra no Peru. Também o arcebispo titular de Berito,
dom Manoel Teodoro del Valle, quis que a obra salesiana se estabelecesse
em Lima e, para isso, destinou parte de seus bens no testamento de 30 de
março de 1886.
Em 23 de junho de 1866, o general Miguel Iglesias, ex-presidente do
Peru, visitou Dom Bosco. Fora a Turim com o desejo de conhecer de perto
e pessoalmente o “santo” e a obra do Oratório. Ficou entusiasmado e pediu

64
Cf. A. Anjos, Centenário da obra salesiana em Portugal 1894-1994. Lisboa: Província Portu-
guesa da Sociedade Salesiana, 1995.
65
Sobre esta tradução e sua repercussão no Peru, cf. Jesús-Graciliano González, “Publica­da en
Perú la primera traducción del Don Bosco de Charles D’Espiney”, RSS 49 (2006), 397-413.

67

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 67 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

para Dom Bosco pensar numa fundação em seu país.66 Temos também o tes-
temunho do vigário de Huanuco, monsenhor José Del Carmen Maraví, que,
desejoso de encontrar alguma solução para salvar a juventude, tentou fundar
uma sociedade e, em 13 de agosto de 1887, escreveu a Dom Bosco pedindo
um salesiano como mestre de noviços, como formador da nova sociedade. O
ambiente estava bem preparado, a ponto de, quando os primeiros salesianos
chegaram ali em 1891, serem recebidos triunfalmente pelas autoridades e por
um grande número de amigos e de salesianos cooperadores.

A Venezuela estava na agenda de Dom Bosco há muitos anos. Precur-


sores da obra foram algumas personalidades do clero e um grande grupo de
cooperadores. Contudo, até 1894, os salesianos não puderam ali se assentar.
O governo cedeu-lhes em Caracas uma escola de artes e ofícios já existente,
cujo primeiro diretor foi o padre Riva.

Estatísticas à morte de Dom Bosco


Salesianos de Dom Bosco
1888. Professos: 773. Noviços: 276. Casas: 58
1889. Professos: 881. Noviços: 320. Casas: 64

Filhas de Maria Auxiliadora


1888. Professas: 415. Noviças: 164. Casas: 54
1889. Professas: 466. Noviças: 190. Casas: 59

NOTA SOBRE A FRUSTRADA ACEITAÇÃO DO


REFORMATÓRIO DE SANTA RITA (MADRI)

Dom Bosco precisou recusar pedidos de fundação, alguns por falta de pessoal,
outros porque as condições não eram aceitáveis e não garantiam a subsistência dos
salesianos, outros, porque na gestão da obra não se podia pôr em prática seu siste-
ma salesiano. O caso do reformatório de Santa Rita é um exemplo de como Dom
Bosco defendeu seus princípios educativos, mesmo à custa de renunciar a dirigir

66
A notícia pode ser lida nas MB XVIII, 149, e nos Annali I,60. Ali se fala de um “Presidente
da República peruana”. C. Calderón demonstrou que não se trata do então presidente do Peru, André
Avelino Cáceres, mas do ex-presidente, general Miguel Iglesias. Cf. C. Calderón y E. Pennati, Pre-
sencia salesiana en Perú. I. Los inicios 1891-1898. Lima: Editorial Salesiana, 1994, 25-26.

68

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 68 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

alguma obra que lhe era oferecida para trabalhar em favor da juventude carente,
mas com um sistema educativo diferente.
A notícia do bem que os salesianos faziam em Utrera e em Barcelona
propagava-se pela Espanha e despertava como era natural, também em outras
cidades, o desejo de tê-los [...]. Foi por isso que pessoas nobres e com recursos
se reuniram em Madri numa comissão, presidida pelo senador Silvela, que
fora ministro de Estado e depois embaixador em Paris; considerando que o
governo estava impossibilitado de remediar adequadamente, decidiram ofe-
recer por si mesmos um exemplo à nação inteira, assumindo o compromisso
de construir na capital um reformatório juvenil com seus próprios meios.
O Estado não se desinteressou totalmente, pois uma lei de 4 de janeiro
de 1883, autorizava a fundação de um grande instituto privado com a deno-
minação de escola de reforma para jovens e internato de correção paternal,
sob o patrocínio de Santa Rita. Antes de iniciar a obra, desejou-se considerar
qual sistema de educação deveria ser adotado. Para tanto, o deputado e mais
tarde senador Lastres com outro personagem madrileno viajaram por toda
a Europa [...]. Aonde quer que fossem não lhes foram mostrados mais do
que correcionais de todo tipo e retornaram com a ideia predominante de
estabelecimentos que eram mais prisões do que casas de educação [...]. Uma
vez reunidos os jovens, eles pensavam dividi-los em 4 categorias: 1ª os aban-
donados; 2ª os que estavam em perigo; 3ª os perigosos, mas que ainda não
tinham incorrido contra a lei, por não serem ainda responsáveis de seus atos;
4ª os meninos desordeiros de famílias de bem que precisavam de educação
especial, a fim de não manchar a boa fama de suas respectivas famílias [...].
Começou-se a construir um grandioso edifício. Já se tinham erguido
duas alas do edifício, quando chegou aos ouvidos do senhor Lastres a notí-
cia da casa salesiana de Barcelona. Ele mandou suspender imediatamente as
obras e escreveu a um banqueiro daquela cidade, que enviou primeiramente a
Sarriá o seu secretário e, depois, foi pessoalmente. Estes senhores não falavam
mais do que de reformatório, segundo o estilo das conhecidas casas de cor-
reção; mas o padre João Branda respondia-lhes que não era essa a finalidade
dos salesianos [...]. Dois meses depois dessas visitas, padre João Branda viu
chegar a Sarriá o deputado Lastres com outro senhor, que lhe pediam para vi-
sitar a casa detalhadamente, [...] ficaram o dia todo na casa, examinando seu
funcionamento, seus regulamentos e costumes, e concluíram que era preciso
escrever a Dom Bosco. Voltaram a Madri e, um mês depois, escreveram ao
padre João Branda, convidando-o a ir à capital [...]. Apresentou-se na nuncia-
tura e o núncio exortou-o a começar as tramitações, garantindo-lhe que era
um desejo expresso do rei, que prometia seu apoio.

69

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 69 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

No dia seguinte, reuniu-se toda a comissão, composta por senadores,


deputados e banqueiros. Os critérios daqueles senhores não concordavam
com os princípios que regulam o nosso sistema educativo, totalmente desco-
nhecido para eles; apesar disso, com a finalidade de obter seu intento, diziam
que queriam deixar plena liberdade de ação [...]; que se escrevesse a Dom
Bosco, garantindo-lhe que a casa em construção seria de sua propriedade; que
se passaria a escritura notarial correspondente e que Dom Bosco seria muito
livre de atuar como mais lhe agradasse; que não haveria o menor obstáculo
na direção da mesma; que, se precisasse de ajuda, o ajudariam; mas, se não
quisesse e desejasse trabalhar por si mesmo, eles se retirariam [...]. Quando
se discutiu a proposta no Capítulo (foi em 22 de setembro de 1855), Dom
Bosco, depois de ouvir o relatório, exclamou: Paris, Madri, Trento! Que novo
e imenso horizonte tem a Congregação Salesiana! [...]. Padre João Branda,
que participava da sessão, fez saber que os senhores de Madri estavam dispos-
tos a recorrer ao Papa, se o Capítulo Salesiano se opusesse à realização de seu
projeto. E Dom Bosco respondeu: “Crie-se, então, uma comissão para exa-
minar o projeto de Madri e a maneira de adaptá-lo ao nosso sistema [...]. Nós
concordaremos em tudo que não afete a substância do nosso sistema e não
se economize nos meios; mas mantenha-se firme nosso costume de manter
em todos os nossos internatos as duas seções, de estudantes e de aprendizes”.
O Capítulo, depois de escutar as conclusões a que os três chegaram, de-
cidiu responder à comissão e ao Núncio, mostrando-se favorável a iniciar as
negociações e colocando como única condição que tudo pudesse ser resolvi-
do segundo as diretrizes da Congregação Salesiana. Acrescentou-se, também,
um exemplar do Regulamento das casas [...]; no dia 5 de março de 1886,
Silvela renovou seus pedidos [...]. Dom Bosco, de Alassio onde estava, res-
pondeu solicitamente com esta carta, que ditou ao padre Francisco Cerruti:

Excelentíssimo Senhor: examinei atentamente o projeto da escola de Santa


Rita, que V. S. teve a bondade de enviar-me, acompanhado da lei do dia 4 de
janeiro de 1883 que a autoriza, e não posso deixar de manifestar a V.S., e aos
demais digníssimos senhores dessa comissão, meu mais cordial agradecimen-
to pela sua benevolência em favor dos salesianos e a mais sincera admiração
pela delicada caridade cristã que os anima. Deus bem sabe que eu gostaria
de aceitar o convite reiterado por V.S., com sua muito gentil carta do dia 5
do corrente, para assumir a direção. Contudo, deixando de lado a escassez
de pessoal para os compromissos já assumidos, a qualidade deste Instituto e
sua modalidade disciplinar não me permitem endossar este desejo recíproco.
Apesar de toda a vontade de fazer o bem, nós não nos podemos afastar da

70

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 70 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

prática do que estabelece o nosso Regulamento, do qual remeti um exem-


plar em setembro passado. Para nós, aí seria factível um colégio, segundo o
modelo dos Talleres Salesianos de Barcelona-Sarriá; mas não poderia ser uma
escola-reformatório como o de Santa Rita. Espero que, com a ajuda de Deus,
poderei ir a Barcelona no próximo mês de abril e ser-me-á muito grato, se
for possível, encontrar-me novamente nessa ocasião com V.S. e o boníssimo
senhor Francisco Lastres, pois conservo muito grata recordação de ambos, ao
mesmo tempo em que peço de coração ao Senhor que os conserve em sua
santa graça. Creia-me, Ex.mo Senhor, com a mais sentida estima e reconhe-
cimento para com V.E.
Alassio (Gênova), 17 de março de 1886
Humilíssimo servidor, João Bosco, presbítero.

Dom Bosco, nessa época, estava em viagem pela França com a intenção
de continuar, como o fez de fato, até a Espanha. Logo que se soube de sua
chegada a Barcelona, o senhor Lastres foi até lá, sendo portador também de
uma carta do Núncio [...]. Padre Miguel Rua, que acompanhava Dom Bosco
na viagem à Espanha conversou longamente com o senhor Lastres no dia 18
de abril [...]. Assentada a premissa de que Dom Bosco e seu Capítulo tinham
toda a boa vontade de uma fundação em Madri, mas que o pessoal era es-
casso, concretizou tudo nestas 5 condições essenciais: 1ª) liberdade da futura
direção para destinar os meninos aos ofícios que, de acordo com a inclinação
de cada um, parecessem mais adequados, levando em conta as necessidades e
os condicionamentos do estabelecimento; liberdade, também, para destinar
aos estudos os que, por sua conduta e inteligência, se fizessem merecedores
disso. 2ª) Necessidade de alguma medida para poder separar da massa geral os
alunos que fossem de obstáculo. 3ª) Conveniência de dar uma gratificação a
cada salesiano ou, melhor ainda, uma determinada quantia anual para todos
os salesianos que trabalhassem no colégio. 4ª) Oportunidade de estabele-
cer uma pensão para cada menino. 5ª) Necessidade de pensar seriamente no
modo de buscar trabalho para as oficinas.
Estabelecidos estes pontos fundamentais, padre Miguel Rua prometeu
que, em Turim, o assunto seria apresentado ao Capítulo Superior e que,
sendo aceita a proposta, seria redigido e remetido um projeto de convênio
ao senhor Silvela ou ao senhor Lastres, para que o examinassem e fizessem
suas observações a respeito. Ao mesmo tempo, porém, teve o cuidado de
insistir que não seria possível enviar imediatamente os salesianos a Madri
[...]. O Capítulo Superior só pôde ocupar-se do tema em 25 de junho.
Dom Bosco presidia a sessão. Ouvido o relatório do padre Miguel Rua,

71

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 71 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

os capitulares votaram em princípio pela aceitação da casa, desde que se


salvasse, antes de tudo, a independência dos salesianos na direção e admi-
nistração da entidade.
Passou-se, depois, a examinar o projeto apresentado em suas linhas ge-
rais. A discussão centrou-se no caráter de verdadeiro reformatório que, da
parte da comissão madrilena, seria dada à obra toda. Enfim, decidiu-se apre-
sentar as seguintes condições preliminares: 1ª) impedir que a casa tivesse o
nome e o aspecto de correcional, para que os meninos não se sentissem me-
nosprezados. 2ª) Limitar-se, no momento, somente a jovens abandonados ou
em perigo. 3ª) Não receber, no momento, jovens provindos do comissariado
de polícia. 4ª) Que os candidatos não tivessem mais de catorze anos nem
menos de nove. 5ª) Que os meninos considerados aptos pelos salesianos pu-
dessem dedicar-se aos estudos. 6ª) Que fosse enviado a Madri, com algumas
modificações, o programa redigido anteriormente para Trento. Padre Miguel
Rua, quando suas muitas ocupações lhe permitiram, enviou o projeto de con-
vênio, elaborado pelo padre Celestino Durando sobre o de Trento, unindo a
ele uma carta muito expressiva para o senador Silvela [...] que Dom Bosco fez
sua, apondo a sua própria assinatura.

Excelência [...]. Ao regressar de minha longa viagem, senti-me pressionado


por tantas preocupações que não me foi possível até hoje realizar o meu dese-
jo. Anexamos o projeto que V.E., com a mencionada comissão, fará por bem
examinar e fazer-nos as observações que lhes pareçam oportunas. O texto está
incompleto; falta, por exemplo, indicar a data em que o colégio deveria ser
aberto [...]. Encontrarão nele algo que, por certo, causará alguma dificuldade
à comissão, por exemplo, o que se estabelece no artigo segundo de não admi-
tir ninguém que esteja pendente de sentença condenatória. A esse respeito,
lhe darei algumas explicações: nosso desejo é que os jovens que saíssem do
novo colégio, destinado à sua educação civil e cristã, não precisassem sofrer
com qualquer marca infamante. Caso se dissesse que saem de uma casa de
correção, de um reformatório, seria uma mancha para toda a sua vida. Dese-
jamos que seja abolida qualquer identificação que possa induzir o público a
crer que se trata de uma [casa] correcional. Para obter esse intento, somos do
parecer que o centro se denomine residência ou instituto e não reformatório
ou patronato etc.; também desejamos que, ao menos por cinco anos, não seja
admitido ninguém sujeito a condenação, precisamente para acostumar o pú-
blico a não considerá-lo como correcional. Isso também é desejado em vista
de uma maior facilidade de proporcionar ao novo instituto um bom número
de jovens bem preparados, a fim de se poder encaminhar mais facilmente ao

72

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 72 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

trabalho e à virtude os que entrarão posteriormente. Após o primeiro quinquênio,


esperamos poder admitir também, poucos de cada vez, os muitos que já sofreram
condenação; contudo, convirá que também então se faça o possível para que isso
não se propague ao público. É assim que se atua em diversos colégios de outros
países [...]. Espero que também V. E. e a comissão saibam apreciar estas razões.
Em relação à pensão diária a fixar para os meninos e a quantia anual para o pessoal
dirigente etc., deixamos em branco, aguardando a proposta que a comissão nos
possa fazer. Talvez deva levar em consideração a distância da viagem. Resta-nos
ainda um detalhe a notar que é, tratando-se de um instituto para meninos,
que nos pareceria mais oportuno dar-lhe o título de um santo, melhor do que
de uma santa. Poder-se-ia, por exemplo, colocá-lo sob a proteção e o título de
Santo Isidoro. Ainda devo dizer algo mais, com grande pesar de minha parte,
que, dada a escassez do meu pessoal, ainda não me será possível aceder ao de-
sejo seu e meu antes de algum tempo. Deverá esperar provavelmente até 1888
ou 1889 [...]. À espera das considerações que V. E. e a comissão façam a este
projeto, peço ao Senhor juntamente com meus filhos, que encha de seus dons
a V. E. e a todos os honrados membros da comissão e, com toda estima, tenho
o prazer de professar-me, de V. E. Ilma.
Turim, 8 de julho de 1886
Sinceramente seu, João Bosco, Presbítero.

Após esta comunicação, passaram-se os meses e não havia resposta. Dom


Bosco, ao apresentar seus cumprimentos natalícios ao Núncio Apostólico,
aludiu ao inexplicável silêncio [...].
Na conferência de 12 de março de 1888, o senhor Lastres reconheceu
muito implicitamente as razões dos salesianos. Dom Bosco escolhera o siste-
ma da prevenção primária depois de sua experiência como jovem sacerdote
nas prisões de Turim. Ali aprendera que era muito mais vantajoso impedir as
quedas do que remediá-las com meios repressivos. Era natural que, solicitado
a assumir a Escola de Reforma de Santa Rita, de caráter correcional, e, por-
tanto, onde era indispensável a coação, não quisera afastar-se do sistema ado-
tado em suas instituições, nas quais os jovens se sujeitavam espontaneamente
a uma disciplina que, embora séria, não era incompatível com a bondade.67
Não faltariam esclarecimentos orais ou escritos, mas o fato é que aqui
terminam os dados de arquivo. Como os terciários regulares franciscanos que
foram chamados para dirigir o colégio, mantiveram integralmente o estilo de

67
Cf. Don Bosco y la caridad en las prisiones. Conferencia pronunciada en el Ateneo de Madrid
el día 12 de marzo de 1888, por Francisco Lastres. Madri: Tipografía de M. G. Hernández, 1888.

73

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 73 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

reformatório, não é ousada a hipótese de que a comissão se negasse a acei-


tar a exigência fundamental de Dom Bosco sobre este ponto. Os salesianos
chegaram mais tarde a Madri, com seu modo genuíno, onze anos depois da
morte do santo.68

DOCUMENTOS SOBRE A CESSÃO E


PRIMEIRA CAPELA DO MONTE TIBIDABO

Carta de cessão do Tibidabo


Reverendíssimo Sr. Padre João Bosco, Superior Geral da Congregação
Salesiana. Os abaixo-assinados proprietários da parte mais elevada da mon-
tanha denominada Tibidabo, seguindo o exemplo de Nosso Santíssimo Pai
Leão XIII que confiou a Vossa Reverendíssima o honroso encargo de edi-
ficar na Cidade Eterna um templo dedicado ao Sagrado Coração de Jesus,
oferecem-vos, prostrados aos pés da Santíssima Virgem das Mercês, Patrona
desta Cidade e Diocese, o cume do Tibidabo para que vos sirvais também
para elevar nele uma ermida que, consagrada ao Sacratíssimo Coração de
Jesus, detenha o Braço da Justiça divina e atraia as Divinas Misericórdias
sobre nossa querida Cidade e sobre toda a Espanha Católica. Recebei, Reve-
rendíssimo Padre, nossa oferta e dignai-vos confortar-nos com a vossa Santa
Bênção. Barcelona, no presbitério da paróquia de Nossa Senhora das Mercês,
dia 5 de maio de 1886.
Delfín Artos, Álvaro M. Camin, Felipe Camps, Gme. More Y Bosch,
Manuel M. Pascual, Mauricio Serrahima, Manuel Torrebadella, Felipe Vives,
Álvaro Verdaguer, Carmen Garrigolas Vda. De Torrent, por D.a Carmen Font
viúva de Calafell José Xirivell.

A primitiva capela no Tibidabo


“Com a devida autorização e bênção de nosso Prelado, iniciei os tra-
balhos para a criação de uma capela em estilo gótico, dedicada ao Sagrado
Coração de Jesus, no cume do monte Tibidabo. A montanha, que até agora
servia de estímulo à curiosidade pela bela paisagem que domina, servirá
também de agora em diante para render homenagem de adoração ao Sagra-
do Coração do Criador de tantas maravilhas, como desde ali se descobrem.

68
Cf. MB XVII, 597s.

74

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 74 28/07/14 16:35


Fundação e desenvolvimento inicial da obra salesiana na França, Itália e Espanha...

Os piedosos barcelonenses, que durante a permanência do venerável Dom


Bosco nesta cidade quiseram honrá-lo doando-lhe o citado monte, verão
com alegria elevar-se o pequeno monumento, graças, em grande parte, à ini-
ciativa e ao generoso desprendimento de algumas pessoas devotas do Divino
Coração. Bem fariam os Padres Salesianos sob cuja direção a capela vai ser
erguida, poder dar andamento pelo seu próprio esforço à iniciada constru-
ção; contudo, as prementes e diárias necessidades, difíceis de preencher, de
seu benéfico instituto, obrigam-nos a confiar para levá-la a feliz termo na
proverbial e nunca desmentida generosidade dos habitantes da capital do
Principado. Queira Deus que a modesta obra que hoje se inicia, possa ser
concluída em breve prazo e seja o início de outra mais grandiosa digna do
objeto a que se dedica e do povo que a levanta” (Diário de Barcelona, 30 de
maio de 1886).69

69
MB XVIII, 653s.

75

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 75 28/07/14 16:35


Capítulo III

PRESENÇA SALESIANA NA AMÉRICA DO SUL.


1. ORIGEM E PRIMEIRO
DESENVOLVIMENTO

1. A emigração italiana no século XIX


A emigração italiana do século XIX e dos inícios do XX pode ser con-
siderada um dos acontecimentos históricos mais significativos na sociedade
italiana após a unificação. Não era apenas uma questão de gente que buscava
trabalho no exterior como consequência do processo de industrialização. Foi,
na verdade, um movimento populacional de grande escala resultante da com-
binação de questões políticas, econômicas e sociais. Este movimento, similar
ao de outras nações europeias, voltou-se especialmente à América do Norte, à
América do Sul, à Oceania e a algumas partes da África. Foi um movimento
massivo: 60 milhões de europeus entre 1830 e 1930.
De 1876, ano em que começou a elaboração dos registros oficiais na
Itália, até 1914, cerca de 14 milhões de italianos emigraram, principalmen-
te para o continente americano.1 Os imigrantes provinham, sobretudo, das
regiões montanhosas e das zonas agrícolas mais sofridas. O Piemonte (11%)
era a segunda região, depois do Vêneto (13%), com umas 710 mil pessoas
entre os anos 1876-1900.
A emigração italiana para a Argentina fora grande, mesmo antes do iní-
cio da conservação dos registros oficiais em 1876. Estima-se em mais de 210
mil os emigrantes italianos àquele país, entre 1857 e 1875, ano da fundação
ali da primeira casa salesiana. O recenseamento dos italianos no exterior em

Em 1876, foram cerca de 100 mil os italianos emigrantes, porém as cotas anuais aumentaram
1

paulatinamente até a Primeira Guerra Mundial: 1,3 milhão na década 1876-1885; 2,4 milhões entre
1886 e 1895; 4,3 milhões entre 1896 e 1905; 6 milhões entre 1906 e 1914.

76

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 76 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

janeiro de 1871 projeta um total de meio milhão, dos quais uns 50 mil em
Buenos Aires. Entre os anos 1876 e 1914, a Ligúria e o Piemonte foram as
regiões que mais emigrantes enviaram à Argentina, num total de 321.800.2
Em 1900, a população da arquidiocese de Buenos Aires era composta
ao redor de 265 mil pessoas de ascendência italiana, 122 mil de proce-
dência espanhola e outras 30 mil de origem francesa. Poucos milhares de
outras nacionalidades e pequenos grupos da população indígena marcavam
a diferença.

Familiaridade de Dom Bosco com o problema


Dom Bosco conhecia esta questão muito antes de o governo italiano
apresentar as estatísticas oficiais. Estava a par da situação econômica dos ita-
lianos na Argentina, que era melhor do que desfrutaram em sua antiga pátria,
e que a situação religiosa não era boa. Em 1865, por solidariedade, tornara-se
membro da Sociedade de Auxílio Mútuo de Rosário (Argentina), embora sua
participação terminasse em 1870, aparentemente pela falta de pagamento
das cotas, mas provavelmente por razões político-religiosas. Ele teve a opor-
tunidade de visitar com certa frequência, no Piemonte e na Ligúria, alguns
ambientes que sofreram intensa emigração para a Argentina ou outros países.
Mantinha-se em contato com antigos alunos do Oratório que foram para
a Argentina. Enfim, nos inícios dos anos setenta do século XIX, o cônsul
argentino João Gazzolo, que morava em Savona e conhecia a obra salesiana
nessa região, colocara-o em contato com a importante confraria de Nossa
Senhora das Mercês, de Buenos Aires.
Familiares de alguns dos primeiros salesianos missionários também emi-
graram para a Argentina. Padre Domingos Tomatis encontrou seu pai, que
fora dado por morto; padre José Fagnano tinha dois irmãos na região de
Buenos Aires e, mais tarde, levaria também sua mãe. Padre Francisco Bodrato
tinha um cunhado na cidade; padre João Batista Baccino, tinha dois irmãos
em Montevidéu (Uruguai).
A emigração era, portanto, um sério problema já durante a vida de
Dom Bosco e assumirá maiores dimensões no reitorado do padre Rua.
Entende-se, então, que, tanto um quanto o outro, depois do insistente es-
tímulo de Pio IX e Leão XIII, embarcaram rapidamente no ministério do
cuidado dos imigrantes.

2
Assim distribuídos: 39 mil na década 1876-1885; 92 mil entre 1886 e 1895; 81 mil entre 1896
e 1905; e mais de 108 mil entre 1906 e 1914, década da grande onda migratória.

77

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 77 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

O compromisso de Dom Bosco e dos salesianos com os imigrantes


A opção de Dom Bosco pela Argentina era motivada, sem dúvida, por
verdadeiros ideais apostólicos e missionários. Ele experimentara uma autênti-
ca vocação missionária e sonhou com as missões em sentido estrito, in parti-
bus infidelium. O carisma que inspirara a sua opção pelos “pobres e abando-
nados”, unido ao fermento missionário que reinava na Igreja na década dos
anos setenta, encontrou um novo objetivo na atividade evangelizadora em
terras de missão. No sonho de 1871/1872, ele entrevira claramente uma mis-
são entre os selvagens. Mesmo assim, entre as muitas propostas que lhe foram
feitas, aceitou a da Argentina, que não era na verdade uma missão in partibus
infidelium, mas tratava-se de um trabalho como o que fazia em Turim e em
outros lugares, ou seja, educar os jovens das classes trabalhadoras e realizar
outros ministérios em favor da gente pobre.
A escola e a igreja de San Nicolás de los Arroyos eram o destino originá-
rio do grupo de 10 salesianos que chegaram à Argentina em 1875. Entretan-
to, o arcebispo Aneyros decidiu que 3 deles ficariam em Buenos Aires para
trabalhar entre a comunidade mais numerosa de imigrantes, a mais abando-
nada e mais difícil da Argentina, a comunidade dos imigrantes italianos.
As dificuldades surgidas da situação religiosa e moral imperante nas co-
munidades de imigrantes italianos na região do rio da Prata eram, de fato,
de enormes dimensões. Os salesianos encontraram uma cultura familiar que
lhes dava tempo e espaço para poder programar com calma alguma estratégia
com relação às missões propriamente ditas. Embora o apostolado entre os
imigrantes não fosse uma opção programada em vista da missão, mas um
projeto bona fide, serviu, sem dúvida, como ponto de partida para um verda-
deiro compromisso missionário. Ou, mais ainda, a Congregação concebeu-o
de fato como parte do compromisso total com as missões. Assim Dom Bosco
o reconhecia na cerimônia de envio, em 11 de novembro de 1875:

Apresentavam-se diante de nós várias missões na China, Índia, Austrália e


na mesma América, mas, por vários motivos, especialmente por estar nossa
Congregação em seus inícios, preferiu-se uma missão na América do Sul, na
República Argentina...
Recomendo-vos [...] com especial insistência [...] a dolorosa situação de mui-
tas famílias italianas, que vivem disseminadas por aquelas cidades e povoados
e até nos campos. Vivem distantes das escolas e das igrejas; nem pais nem
filhos, pouco conhecedores da língua e dos costumes daquelas terras, parti-
cipam das práticas religiosas [...]. Ide, buscai esses nossos irmãos, aos quais a

78

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 78 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

miséria ou a aventura levou a terras distantes; tende imaginação para fazê-los


reconhecer quão grande é a misericórdia de Deus, que vos envia para o bem
de suas almas...
Além disso, nas regiões que rodeiam a parte civilizada, vivem grandes hordas
de selvagens, para os quais ainda não chegou a religião de Jesus Cristo, nem
a civilização, nem o comércio [...]. Peçamos ao dono da vinha que mande
operários para sua colheita.3

Falando aos jovens alguns dias antes, ele dissera:

Convém que também pensemos no pessoal da América. [...] Há também


uma igreja pública para atender ao culto, e as escolas da cidade estarão em
nossas mãos. É preciso ainda dar aulas de italiano, francês e inglês. Os habi-
tantes são bons por natureza e muito religiosos, mas carecem de instrução e
de sacerdotes que os instruam... Deveis saber também que não muito distante
de San Nicolás começam as regiões habitadas pelos indígenas selvagens, que
são muitos naquele lugar. Eles já aceitam a religião cristã e pedem para serem
instruídos.4

Dessa forma, o trabalho entre os imigrantes italianos, possivelmente os


mais necessitados e abandonados, mas também relacionados culturalmente
com os missionários, converteu-se em parte do compromisso missionário. De
fato, padre Cagliero, com percepção estratégica, escreveu: “A missão parece
mais necessária entre os italianos (imigrantes) do que entre os nativos”.5
Dom Bosco e os salesianos consagraram-se ao serviço dos imigrantes.
Alguns meses antes de sua morte, o Boletim Salesiano sublinhava este dado.
A atenção aos imigrantes era uma missão assumida por Dom Bosco “não só
como boa obra ou ato de caridade movido pelo amor, mas como um estrito
dever. Era uma missão recomendada pelo Supremo Pastor da Igreja, portan-
to, uma tarefa que não se podia deixar de lado, e pela qual deveria prestar
contas ao Senhor”.6

Situação da comunidade italiana de Buenos Aires


Onde quer que se fixassem, os imigrantes formavam comunidades in-
tensamente unidas por laços culturais. A concentração mais numerosa de

3
MB XI, 385s.
4
MB XI, 296s.
5
Carta de Cagliero a Dom Bosco, 4 de março de 1876, ASC A131.
6
BS 11, 10 de outubro de 1887, 122.

79

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 79 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

italianos em Buenos Aires era a “pequena Itália”, cerca de 30 mil pessoas, do


bairro de La Boca, localizado, na época, fora da cidade, na foz do Riachuelo,
curso d’água que nesse ponto une-se ao rio da Prata. Havia outros grupos
italianos na cidade. Um deles estava perto do centro e reunia-se ao redor da
confraria de Nossa Senhora das Mercês e de sua capela, Mater Misericordiae,
conhecida como igreja italiana.
A comunidade italiana de Buenos Aires era formada inicialmente por
genoveses e piemonteses, italianos do norte. Mais tarde, os imigrantes do sul
da Itália seriam mais numerosos. Os líderes da comunidade formavam um
grupo de gente instruída, em geral republicanos da linha Mazzini-Garibaldi
ou anarquistas seguidores de Bakunin. Eles começaram a imigrar depois da
queda da república de Roma (1849); o fluxo continuou durante e depois da
unificação da Itália sob a monarquia dos Saboia (1861 e 1870). Seus líderes
uniam-se pela causa comum da oposição à religião tradicional, à Igreja, e
por um profundo anticlericalismo. Dominavam, naturalmente, o grosso da
população, analfabeta em sua maioria. A comunidade em geral, e a “pequena
Itália” de La Boca em particular, era praticamente governada como uma es-
pécie de república independente, de inspiração mazziniana.7 Apesar de algum
ar de superioridade, que favorecia certo separatismo, a ideologia da elite ma-
zziniana vivia em sintonia com a dos políticos argentinos, que também eram
republicanos e anticlericais. Situação semelhante era encontrada em muitas
comunidades de imigrantes italianos em outras cidades da América, das quais
Buenos Aires era o exemplo mais relevante.8
A Sociedade Italiana de Mútuo Socorro e Beneficência de Buenos Aires
foi monoliticamente mazziniana até 1861, quando dela se separou um ramo
de orientação monárquica. Entretanto, a influência mazziniana continuou.
Quando os salesianos chegaram em 1875, os mazzinianos ainda controlavam
as instituições italianas mais importantes e também os jornais impressos em
italiano. Quanto à fé e a prática religiosa, as comunidades italianas do Rio da
Prata eram as mais assediadas e, por isso, as que estavam em maior perigo e
“maior necessidade”.
A imigração – deve-se recordar – aconteceu de tal modo e em tão gran-
de escala que não se lhe podia dar uma adequada assistência religiosa, nem
pelos padres locais nem pelos padres italianos que acompanhavam as ondas

7
Em 1874, alguns destes “revolucionários” incendiaram o colégio dos jesuítas da cidade enquanto
os líderes do barrio recusaram receber os encarregados do recenseamento enviados pelo cônsul italiano.
8
Ver G. Rosoli, “Impegno missionario e assistenza religiosa agli emigranti nella visione e nell’opera
di Don Bosco e dei Salesiani”. In: F. Traniello, Don Bosco, 289-329, especialmente, 301ss. 317ss.

80

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 80 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

migratórias. Com notáveis exceções, os poucos padres italianos que acom-


panharam os imigrantes estavam mais preocupados com seus próprios inte-
resses do que com as necessidades espirituais de seus compatriotas. Foi essa
a razão pela qual o arcebispo de Buenos Aires desejava obter os serviços de
uma congregação religiosa para poder atender a essa demanda. Os salesianos
foram os primeiros a surgir em cena.

2. A obra salesiana na bacia do Prata


Até fins de 1874, enquanto chegavam convites de todas as partes, Dom
Bosco recebeu um convite formal para que os salesianos fossem à Argentina.
“As primeiras cartas”, ele mesmo declarava, “chegaram-me durante a novena
do Natal; eu as li ao Capítulo Superior na tarde de 22 de dezembro de 1874”.
Outros pedidos, por exemplo, dos Estados Unidos e de Hong Kong não ti-
veram qualquer consequência. No caso da Argentina, porém, as negociações
foram concluídas rapidamente e a proposta foi aceita. Como se deu?

Iniciativa do cônsul Gazzolo, resposta inicial de dom Aneyros e


consentimento de Dom Bosco
A opção, quase repentina, de Dom Bosco pela Argentina, veio das mãos
de um leigo de destaque, chamado João Batista Gazzolo, no momento cônsul
argentino com sede em Savona.9

João Batista Gazzolo nasceu em 22 de dezembro de 1827 em Camogli (Gênova) e morreu


9

em 23 de fevereiro de 1895 em Savona. Serviu como marinheiro na armada do Reino da Sardenha e


chegou ao grau de capitão. Casou-se e teve 4 filhos. Em 1858, aos 31 anos de idade, emigrou para a
Argentina, que se converteu em seu país de adoção. Durante algum tempo ensinou italiano em Rojas,
pequena cidade a sudoeste de Buenos Aires. Depois, graças ao apoio de Domingos Faustino Sarmien-
to (1811-1888), ministro da Educação Pública, obteve o posto de bibliotecário da Universidade de
Buenos Aires. Nesse posto, ampliou as dependências da biblioteca e fundou filiais locais em várias
regiões da cidade, dando atenção especial às necessidades da comunidade italiana. Em 1866, Gazzolo
participou provavelmente da compra do terreno em que se construiu a igreja italiana de Nossa Senhora
das Mercês. A colocação da primeira pedra deu-se no ano seguinte, acontecimento para o qual Gazzolo
editou um folheto comemorativo. Quando Domingos Sarmiento chegou à presidência (1868-1874),
Gazzolo foi nomeado vice-cônsul argentino e depois cônsul em Savona, sua cidade de origem. Padre
Frederico Aneyros, futuro arcebispo de Buenos Aires, estava entre os 20 professores da Universidade
de Buenos Aires que assinaram a carta de felicitações. Em 7 de março de 1870, Gazzolo apresentou
suas credenciais e foi reconhecido oficialmente pelo governo italiano como representante argentino em
Savona. Começou imediatamente sua atividade de promover a emigração para a Argentina. Escreveu
folhetos e cartazes para distribuir nas zonas rurais, nos quais se falava das oportunidades oferecidas pela
Argentina. Tanto fez que o governo o advertiu para abandonar essa atividade, pois povoações inteiras
estavam ficando vazias por causa da emigração. Ver F. Desramaut, Don Bosco, 949 e 972, n. 56.

81

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 81 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

João Batista Gazzolo emigrara para a Argentina ainda jovem, obten-


do algum sucesso social; nomeado cônsul, conseguiu criar uma boa rede de
relações em seu país de adoção. De volta à Itália, converteu-se numa figura
popular, por causa das suas atividades em favor dos emigrantes.
Quase imediatamente depois de ser nomeado cônsul em 1870, co-
nheceu a obra dos salesianos na Ligúria, aonde Dom Bosco ia com fre-
quência para visitar as escolas de Alassio (1870) e Varazze, não muito
distante de Savona (1872). Dom Bosco e o cônsul mantiveram várias
conversações.10 Gazzolo colocava-o ao corrente da evolução da comuni-
dade italiana, de sua situação religiosa e seus problemas. Falavam sobre
as oportunidades para a obra salesiana, uma vez que a igreja de Nossa
Senhora das Mercês, inaugurada em 1870,11 estava aberta ao culto, mas
precisava de padres.
Em algum momento do verão de 1874, deixando desatendidas, entre
outras, as ofertas de Hong Kong e Savannah (Estados Unidos), Dom Bosco
começou a pensar seriamente na Argentina, embora, como fez saber ao côn-
sul, não podia tomar qualquer decisão sem o convite expresso do arcebispo
de Buenos Aires.
O cônsul Gazzolo, provavelmente com a ajuda do próprio Dom Bosco
e do padre Francésia, redigiu um relatório sobre a Sociedade Salesiana, que
enviou ao arcebispo de Buenos Aires, dom Leão Frederico Aneyros, com
um exemplar das Constituições Salesianas.12 A carta, de 30 de agosto de
1874, era “perfeita: direta, informativa, discreta, respeitosa, carinhosa, mas
sem adulação, prudente e clara”.13 Sua importância, contudo, está no fato
de expor a concepção de Dom Bosco e era sua primeira declaração sobre
o que seria conhecido como “o projeto missionário salesiano”, embora em
10
Numa carta datada em 25 de dezembro de 1874, dirigida ao comitê de San Nicolás, Argen-
tina, Dom Bosco escreve: “Faz quatro anos que o honrado João Batista Gazzolo e eu mantemos uma
relação cordial”. Desta familiaridade dá fé uma carta de 22 de dezembro de 1874, em que Dom Bosco
se dirige a Gazzolo como “queridíssimo amigo no Senhor”.
11
R. A. Entraigas, Los salesianos, I, 40.
12
Leão Frederico Aneyros (1826-1894) nasceu em Buenos Aires em 28 de junho de 1826.
Obteve o doutorado em Teologia na universidade de Buenos Aires em 26 de fevereiro de 1846; orde-
nado sacerdote em 1848, obteve o doutorado em Direito Canônico e Civil na universidade, em 16
de setembro de 1848. Envolvido em política por ser editor de um jornal, serviu, desde 1855, como
secretário do bispo de Buenos Aires, dom Mariano José de Escalada, e como vigário-geral desde 1865,
quando a diocese foi elevada a arquidiocese. Foi, ao mesmo tempo, professor de Direito Canônico
na universidade (1854-1870). Nomeado bispo titular de Aulón em 21 de março de 1870, tornou-se
arcebispo de Buenos Aires depois da morte de dom Escalada em 1873. Faleceu em 3 de setembro de
1894. Cf. Epistolario IV Motto, 368.
13
F. Desramaut, Don Bosco, 951-952.

82

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 82 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

suas primeira cartas às autoridade eclesiais argentinas, Dom Bosco nunca


mencionasse objetivos missionários.14 Este é um resumo dessa carta:

O cônsul escreve que, desejando contribuir para o bem do povo argentino,


manteve conversações com um santo sacerdote, o padre João Batista (sic)
Bosco, fundador da recentemente aprovada Sociedade Salesiana, empenhado
na educação dos jovens mais pobres. O cônsul visitou as escolas salesianas, e
está convencido de que “esta sociedade faria um grande bem na Argentina”.
Dom Bosco garantiu-lhe que o Papa e o prefeito da Congregação para a Pro-
pagação da Fé estão a favor de que os salesianos fundem “algumas missões
na Argentina”.
Como muitos sacerdotes italianos emigrados na Argentina não viveram con-
forme deles se esperava, o cônsul fez o possível para explicar com detalhes o
que ele chama de “o espírito do Instituto”, sobre o qual faz um resumo do
capítulo Fim desta Sociedade, das Constituições. Depois, garante ao arcebispo
que Dom Bosco “já tem alguns sacerdotes disponíveis, que, pelo seu espírito
eclesiástico, prometem muitíssimo”.
O que fariam os salesianos na Argentina? O cônsul sugere ao arcebispo
Aneyros que convide os salesianos para Buenos Aires e lhes ofereça algum
lugar onde residir ou uma igreja a atender. A igreja italiana de Nossa Senhora
das Mercês seria ideal, tanto mais que ele, o cônsul, era proprietário de duas
casas próximas à igreja, nas quais poderiam residir.
Após fazer esta discreta sugestão, Gazzolo retorna ao tema das imensas vanta-
gens que a arquidiocese poderia receber da obra dos salesianos com a juventude
em perigo. Estes religiosos, “vivendo no Espírito do Senhor”, proporcionariam
a estes jovens o refúgio e o cuidado que as Conferências de São Vicente de Pau-
lo não lhes podem dar. Seriam “soldados fiéis, trabalhando na vanguarda para
a realização dos planos que monsenhor [o arcebispo] levou a cabo pelo bem de
milhares de almas”. O arcebispo poderia obter mais informações do próprio
Papa, que está muito familiarizado com a obra de Dom Bosco e o Oratório.
O cônsul conclui a carta pedindo desculpas ao arcebispo por assumir essa li-
berdade, e acrescenta: “As palavras e o exemplo de Sua Excelência ensinaram-
-me, quando vivia na Argentina, que todo cristão é chamado a contribuir para
a grande obra da salvação das almas”.

A carta original foi perdida num incêndio nas revoltas de Buenos Aires, em junho de 1955.
14

Felizmente, a carta fora publicada no número de abril de 1934, da Revista Eclesiástica do Arcebispado de
Buenos Aires. Cf. R. A. Entraigas, Los salesianos I, 32-35.

83

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 83 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Dom Aneyros, impressionado com o relatório e a sugestão do cônsul,


respondeu em 10 de outubro de 1874, por meio de seu secretário, monse-
nhor Antônio Espinosa,15 a quem Gazzolo escrevera em 10 de setembro uma
carta pessoal sobre o assunto. Em sua resposta ao cônsul, Espinosa escreve,
em nome do arcebispo, entre outras coisas:

Sobre o assunto dos salesianos, o senhor arcebispo o verá com muito pra-
zer. Conheço bem Dom Bosco e considero-o um santo vivo. Dessa forma,
portanto, monsenhor [o arcebispo] me disse que V. S. pode escrever ao
conselho da confraria e, se esta aceitar, ele lhes dará de todo coração a
posse da igreja16 e os protegerá. Quanto à sua sugestão, em relação aos sa-
lesianos, monsenhor Aneyros ficaria contente de vê-los estabelecidos nesta
arquidiocese. O senhor arcebispo não recebeu os exemplares que V. S. diz
ter-lhe enviado...17

A proposta do cônsul Gazzolo e a resposta favorável do arcebispo


Aneyros só contemplavam uma fundação salesiana em Buenos Aires, a igreja
de Nossa Senhora das Mercês. Contudo aparece em cena nesse momento um
novo personagem, que alarga o projeto inicial, o padre Pedro Ceccarelli e o
colégio de San Nicolás de los Arroyos.18

15
Mariano Antônio Espinosa (1844-1923) nasceu em Buenos Aires em 2 de julho de 1844.
Estudou teologia no Colégio Latino-Americano de Roma (1865-1869), onde foi ordenado no dia 11
de abril de 1868. Obteve o doutorado em Teologia pela Universidade Gregoriana em 1869. De volta a
Buenos Aires, foi nomeado secretário-geral da arquidiocese pelo arcebispo Aneyros e, em 1879, vigário-
-geral. Nesse mesmo ano, acompanhou como capelão, com dois salesianos, a expedição militar argen-
tina que abriu a fronteira sul além de Rio Negro, escrevendo um diário sobre isso. Em 15 de junho de
1893 foi nomeado bispo titular de Tiberiópolis; em 8 de fevereiro de 1898, primeiro bispo de La Plata;
e, em 31 de agosto de 1900, arcebispo de Buenos Aires, sucedendo o arcebispo Aneyros. Construiu a
basílica de Nossa Senhora de Luján e faleceu em 8 de fevereiro de 1923. Cf. Epistolario IV Motto, 368;
F. Desramaut, Don Bosco, 971, n. 45.
16
A igreja de Nossa Senhora das Mercês, Mater Misericordiae, era sede da confraria do mesmo
nome, que a construíra. O cônsul Gazzolo participara da compra do terreno. Para saber mais sobre a
história da confraria e sua relação com os salesianos, ver mais adiante.
17
Ver o extrato de Entraigas editado por F. Desramaut, Don Bosco, 952.
18
Pedro Ceccarelli (1842-1893) nasceu em Módena (Itália) em 1842. Depois de ordenado e
tendo recebido os graus de Doutor em Teologia e em Direito Canônico, emigrou para a Argentina em
1871 acompanhando a Buenos Aires o corpo do arcebispo Mariano de Escalada, que falecera em Roma
em 1870, durante o Concílio Vaticano I. Foi logo nomeado pároco (1873-1893) de San Nicolás de los
Arroyos, pequena cidade junto ao rio Paraná, a 250 quilômetros a noroeste de Buenos Aires. Durante o
seu exercício impulsionou várias obras, como o hospital de São Felipe, a escola infantil de São José e o
colégio do qual os salesianos iriam se encarregar. Em 1893, regressou a Roma em peregrinação; morreu
em sua cidade natal, Módena, nesse mesmo ano. Dom Bosco o conhecera em Roma. Cf. Epistolario
IV Motto, 368.

84

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 84 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Padre Pedro Ceccarelli (1842-1893),


pároco de San Nicolás de los Arroyos.

San Nicolás de los Arroyos


Uma comissão de cidadãos, presidida pelo octogenário e católico intran-
sigente José Francisco Benítez, construíra um internato para meninos numa
pequena cidade situada a 250 quilômetros a noroeste de Buenos Aires na
margem direita do rio Paraná. O pároco, padre Pedro Ceccarelli, presidira a
cerimônia de colocação da primeira pedra em 12 de outubro de 1873 e ben-
zera o edifício depois da conclusão das obras, no outono de 1874. Ele buscara
uma congregação religiosa para dirigir a escola e a comissão fez um pedido
aos padres escolápios [Congregação religiosa das Escolas Pias, fundada por
São José de Calazans], que recusaram a oferta por falta de pessoal.
Em vez de continuar a procurar quem assumisse a escola, Benítez es-
creveu diretamente ao arcebispo Aneyros, que acabava de receber a carta de
Gazzolo recomendando os salesianos. O arcebispo mostrou a carta ao senhor
Benítez, comunicando-a imediatamente ao padre Ceccarelli, que conhecia
Dom Bosco e era amigo próximo do cônsul. Padre Ceccarelli foi em seguida
a Buenos Aires e reuniu-se com o arcebispo. Em 26 de outubro de 1874, da
capital, ele escreveu uma carta esperançosa ao cônsul Gazzolo louvando a
resposta de Espinosa e do arcebispo, e acrescentava um novo componente ao
projeto. Aqui está um resumo dessa carta:

85

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 85 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Padre Ceccarelli escreveu que mantivera uma longa conversa com o arcebispo
“sobre o famoso Dom Bosco e sobre o espírito que infundira na Congregação
fundada por ele”. O arcebispo “estava ansioso por dispor de alguns trabalha-
dores tão capazes e tão santos” em sua vasta arquidiocese, e pedira [a Cecca-
relli] que se encarregasse do assunto para que chegasse a bom porto.

Padre Ceccarelli, porém, dizia ao cônsul que “a cidade de Buenos Ai-


res é grande, comercial, porto de mar; nela se alojam quase todas as sei-
tas e dominam todas as religiões; por isso, em minha opinião, os padres
do Instituto terão sérias dificuldades. San Nicolás de los Arroyos, diversa-
mente, parece-me que seria o ponto onde o Instituto poderia ser fundado
e de onde propagar-se maravilhosamente, por ser uma cidade pequena e
eminentemente católica, situada à margem direita do belíssimo rio Paraná,
com clima excelente, ar salubérrimo, comércio próspero, moral sadia e com
a religião católica triunfante [...]. Podem estabelecer colégios de qualquer
tipo e dedicar-se às aldeias próximas e a toda a arquidiocese, como também
a todas as dioceses”.19
Padre Ceccarelli não perdeu tempo. Retornando a San Nicolás movi-
mentou logo uma comissão, para que cedesse o novo internato aos salesianos.
A comissão reagiu positivamente e o padre Ceccarelli apressou-se a informar
o cônsul sobre a decisão.

San Nicolás, 11 de novembro de 1874


Excelentíssimo Senhor:
Tenho a elevada honra de manifestar a V. E. que o grande assunto que me foi
confiado pelo senhor arcebispo de Buenos Aires, chegou ao final com resul-
tado satisfatório.
Tive primeiramente a alegria de ser escolhido por Deus para informar ao
senhor arcebispo sobre a nova Congregação de São Francisco de Sales, o que
me foi muito fácil por ter admirado o zelo verdadeiramente excelso do ótimo,
mais ainda, incomparável sacerdote Padre João Batista (sic) Bosco em Roma
nos anos 1867, 1868 ou 1869, se bem me recordo. Depois, fui escolhido
pela clemência divina como instrumento para realizar a grande empreitada
da aceitação da Congregação Salesiana nesta cidade, onde terá um belíssimo
colégio, um magnífico oratório público na parte mais saudável da mesma ci-
dade [...]. Também posso garantir a V. E. que o senhor arcebispo e os vigários-
-gerais desta arquidiocese desejam ardentemente esta nova congregação [...].

19
P. Ceccarelli a J. B. Gazzolo, Buenos Aires, 26 de outubro de 1874, ver MB X, 1294s.

86

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 86 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Há aqui, também, um homem verdadeiramente de Deus, José Francisco Be-


nítez, homem octogenário, pai dos pobres, sumamente católico e muito rico;
ele é o presidente da tal comissão; também é presidente da Conferência de
São Vicente de Paulo e presidente da administração dos bens da Igreja, total-
mente afeiçoado ao papa Pio IX [...]. Pois bem, este homem está entusiasma-
do com os padres salesianos e disse-me que se compromete a dar do seu bolso
tudo o que os mencionados padres precisarem.
Que benefícios redundariam em favor desta minha paróquia! Estou certo de
que a renovarão e as pessoas que serão educadas louvarão ao Senhor como diz
o Espírito Santo [...].
O colégio será entregue aos padres salesianos nas melhores condições; [o se-
nhor] receberá os documentos pelo correio nesta mesma semana, assinados
pelo próprio presidente e pelo secretário; espero que sejam aceitáveis [...].
Em meu modo de entender, Dom Bosco, se puder, deveria estabelecer sua
abençoada e santa Congregação em San Nicolás, escolher os jovens mais aptos
para aprender a língua espanhola, os quais, desde o momento em que rece-
bam a notícia da aceitação, teriam que se dedicar plenamente ao estudo dessa
língua. Eu mesmo os alojarei a todos em minha casa, informar-lhes-ei sobre
os costumes, serei um deles para ajudá-los durante os primeiros meses no
ensino e depois promoverei a estima, o afeto das famílias aos recém-chegados
e concluirei a obra que Deus me confiou [...].
Concluo esta carta pedindo que V. E. dê conhecimento do conteúdo da mes-
ma ao padre João Bosco e se interesse para que os mencionados padres acei-
tem de bom grado a oferta do colégio San Nicolás, que lhes será entregue o
quanto antes e, enfim, que me mantenha informado sobre o assunto.
Minhas saudações a sua respeitável família.
Reitero-me, como sempre de V. E.
Seu afeiçoadíssimo,
Padre Pedro B. Ceccarelli.
P.S.: Quase a selar a carta, a comissão comunica-me oficialmente que a Congre-
gação foi aceita com todas as condições propostas por mim; pede-me que envie
a V. E., senhor Gazzolo, o convite formal sobre o mesmo assunto aos reverendos
padres. Concordo com a honrosa comissão. Logo terá todos os documentos.
Padre Pedro B. Ceccarelli.20

20
P. Ceccarelli a J. B. Gazzolo, San Nicolás de los Arroyos, 11 de novembro de 1874, em MB X, 1296s.

87

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 87 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Padre Ceccarelli entra em contato com Dom Bosco


Algum tempo depois, padre Ceccarelli enviou ao cônsul os documen-
tos prometidos. Junto com os documentos, iam duas cartas para Dom
Bosco, uma do padre Ceccarelli e outra do presidente da comissão, senhor
José Francisco Benítez. As cartas do padre Ceccarelli não podiam ter sido
mais entusiastas:

San Nicolás, 30 de novembro de 1874


Ao Il.mo e Rev.mo padre João Batista (sic) Bosco,
geral da congregação de São Francisco de Sales em Turim.
Embora V. R. não me conheça, atrevo-me não obstante a dirigir-me a V. S.
com a presente para pedir-lhe vivamente que aceite o convite, que a comis-
são do colégio de San Nicolás desta cidade lhe faz, para que a benemérita
Congregação de São Francisco de Sales dirija tal colégio, segundo as normas
já estabelecidas pela mencionada Congregação para os colégios abastados. O
senhor cônsul argentino em Savona informará a V. R. não apenas sobre a
minha humilíssima pessoa, mas também sobre San Nicolás e as muitíssimo
vantajosas condições que lhe são oferecidas.
A mim é sumamente grato garantir a V. R. que S. E. R. o senhor arcebispo de
Buenos Aires aceita com muito gosto a nova Congregação Salesiana em sua
arquidiocese e faz ardentes votos para que se dilate e prospere para o bem das
almas e a maior glória de Deus, constituindo-se desde este momento como
pai e protetor nesta sua arquidiocese.
Nada lhe digo sobre mim, mas ardo de desejo de também ser útil a sua be-
nemérita e santa Congregação que, segundo meu pobre parecer, aumentará
extraordinariamente nestas intermináveis planícies, escassas em sumo grau
da água salutar da vida eterna, que brota do costado ensanguentado de nosso
amorosíssimo Pai celestial.
Permita-me V. R. que lhe ofereça de todo o coração meus humildes serviços
para tudo o que eu puder servir e quero esperar que V. R. os aceite com o
mesmo espírito com que os ofereço.
A casa em que moro, com seus móveis e utensílios, as relações que contraí,
tudo, absolutamente tudo, eu ponho aos pés de V. R. e de todos os reveren-
dos padres salesianos aos quais, amando-os desde este momento como meus
queridos irmãos, obedeço como filho de V. R.
Com os sentimentos de minha mais ilimitada consideração e devoção, beijo
sua mão e me professo seu,

88

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 88 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

De V. P. R. afeiçoadíssimo e filho em Jesus Cristo.


Pedro B. Ceccarelli.21

O senhor José Francisco Benítez, presidente da comissão, encantado


com a ideia de ter ali prontamente os salesianos, também escreveu a Dom
Bosco em 30 de novembro de 1874, prometendo as passagens da viagem a
Buenos Aires aos 5 padres que ele esperava receber e, também, assumir os
demais gastos da viagem.22
Estas cartas e documentos estavam com Gazzolo. Dom Bosco precisava
tê-las em mãos, para assim poder responder oficialmente ao convite. Como
viajava pela Ligúria nessa época, recebeu todo o material diretamente das
mãos do cônsul, com quem se encontrou em Varazze entre 15 e 19 de de-
zembro.23 Retornando a Turim, Dom Bosco leu a carta e os documentos aos
membros do Capítulo Superior no dia 22 de dezembro de 1874.

Aceitação formal da oferta da parte de Dom Bosco


Nessa mesma noite, Dom Bosco redigiu uma carta para monsenhor
Antônio Espinosa, secretário-geral da arquidiocese de Buenos Aires, na qual
apresentava sua conformidade à proposta argentina e especificava os termos
da mesma.
Depois de referir-se à correspondência anterior e acrescentar os cumpri-
mentos pertinentes, agradecendo ao arcebispo Aneyros, a monsenhor Espi-
nosa e ao cônsul Gazzolo, Dom Bosco continua:

Estou preparado para aceitar formalmente a oferta e tratar com o senhor


como representante do Ordinário da diocese [...].
1o Desejo enviar alguns sacerdotes a Buenos Aires e fundar uma casa (ospizio
= internato) que sirva de base. Para isso, seria útil dispor de uma igreja para
celebrar o culto e, especialmente, para ensinar o catecismo aos meninos mais
abandonados da cidade. O cônsul Gazzolo sugeriu que a igreja de Nossa Se-
nhora das Mercês seria muito apropriada para esta finalidade. Contudo, se
não houver nenhuma igreja pública disponível, poderemos dispor de alguma
casa para reunir e dar acolhida aos meninos indigentes.
2o Em segundo lugar, mandaria a San Nicolás salesianos clérigos e leigos suficien-
tes para atender aos serviços religiosos, o coral e, se fosse necessário, dar aulas.

21
P. Ceccarelli a J. Bosco, San Nicolás, 30 de novembro de 1874, em MB X, 1300s.
22
J. F. Benítez a J. Bosco, 30 de novembro de 1874, em MB X, 1301s.
23
F. Desramaut, Don Bosco, 953-954 e 972, nota 53.

89

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 89 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

3o A partir destes dois lugares, os salesianos poderiam ser enviados aonde o


Ordinário acreditar que sejam necessários [...].
Gostaria de acrescentar, para sua informação, que nossa Congregação obteve
a aprovação definitiva da Santa Sé; e, embora sua finalidade principal seja a
educação dos jovens pobres, sua atividade estende-se a qualquer aspecto do
sagrado ministério.
Além disso, já que o Santo Padre aceitou ser nosso protetor, é desejo dele ver
este acordo antes de ter efeito definitivo. Consta-me, porém, que sua atitude
é muito favorável ao mesmo, por ter um afeto especial [pelo seu país]...24

No dia de Natal de 1874, Dom Bosco também escrevia ao padre Cecca-


relli. Depois de agradecer-lhe a oferta e dedicar algumas palavras de elogio ao
cônsul Gazzolo, continua:

Tudo o que nós [os salesianos] desejamos é dedicar-nos ao sagrado ministério


especialmente em prol da juventude pobre e abandonada. Nosso principal
campo de apostolado é dar instrução religiosa, ensinar nas escolas, pregar e
dirigir oratórios festivos, casas e internatos.
Escrevi a sua eminência o arcebispo [ao secretário monsenhor Espinosa] co-
municando-lhe minha aceitação do projeto básico e assinalei-lhe que seria
de grande ajuda ter uma casa em Buenos Aires, que servisse como ponto de
referência para os salesianos que cheguem ou estejam esperando que se lhes
indique a destinação.
Confiando em sua boa vontade, mandarei [a San Nicolás] tantos sacerdotes,
clérigos, leigos salesianos, músicos e aprendizes como o senhor crer necessá-
rio. E, por favor, permaneça [em San Nicolás] ao menos até que os recém-
-chegados tenham adquirido o conhecimento suficiente do idioma e dos cos-
tumes locais como para promover a maior glória de Deus.
Quem sabe com seu exemplo, zelo e conselho possa também chegar a ser na
prática o superior de nossos salesianos...25

Dom Bosco escreveu, na mesma ocasião, à comissão fundadora e ao seu


presidente, senhor José Francisco Benítez, em San Nicolás. Depois de referir-se
à sua grande amizade com o cônsul, fala da generosa oferta da comissão de “um
edifício, igreja e terreno para um internato...” e continua:

24
J. Bosco a M. A. Espinosa, 22 de dezembro de 1874, em Epistolario IV Motto, 366-369.
25
J. Bosco a P. Ceccarelli, 25 de dezembro de 1874, em Epistolario IV Motto, 372-374.

90

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 90 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

O internato será confiado aos salesianos sem qualquer limitação no tempo


[...]. Com estas condições, aceito a oferta de bom grado. Para o próximo
mês de outubro [1875] terei preparado todo o pessoal necessário para a
direção material e espiritual da escola, assim como professores para a ins-
trução e assistência dos alunos, e pessoal para atender à igreja e ao edifício
da escola.
Seguirei um programa apropriado para atender um internato de classe mé-
dia. Contudo, como a finalidade principal da Congregação Salesiana é cui-
dar dos jovens pobres em situação de risco, espero que os salesianos sejam
livres de dar aulas noturnas para estes meninos e reuni-los aos domingos e
dias festivos em algum lugar para seu entretenimento, bem como instruí-los
nas verdades da fé.26

Dessa forma, em pouco tempo foi decidido abrir as primeiras casas


na Argentina. O projeto original era que alguns salesianos se instalassem
em Buenos Aires, encarregando-se do culto de algum templo, que resul-
tou ser a “igreja dos italianos”, com a possibilidade de criar uma casa para
meninos pobres. O projeto ampliado incluía o colégio e a igreja de San
Nicolás, com a possibilidade de criar um oratório. As duas tarefas deste
projeto eram tipicamente salesianas. Ao longo de todas as negociações,
incluindo as cartas de aceitação de Dom Bosco, não se faz menção nem
dos nativos que iriam ser evangelizados, nem dos imigrantes que seriam
atendidos embora, como veremos, as duas missões estivessem claramente
no pensamento de Dom Bosco.27

Anúncio de Dom Bosco aos diretores salesianos


As respostas da Argentina com a aceitação das condições de Dom Bosco
e insistindo que ele enviasse prontamente seus salesianos chegaram pouco
mais de um mês depois, em 27 de janeiro de 1875, dois dias antes da festa de
São Francisco de Sales. As cartas eram endereçadas ao cônsul Gazzolo para
que o comunicasse oficialmente, e, com essa finalidade, ele foi a Turim.
As conferências de São Francisco de Sales, ou seja, o encontro anual
dos diretores salesianos acontecia nesses dias, de 26 a 28 de janeiro. Na sexta
sessão das conferências, Dom Bosco fez o anúncio aos diretores e falou de
evangelização, ou seja, de missões entre a população nativa.

J. Bosco à comissão de San Nicolás, 25 de dezembro de 1874, em Epistolario IV Motto, 374-375.


26

Gazzolo enviara-lhe alguns livros que informavam sobre os selvagens da Patagônia. Dom Bosco
27

também conhecia a situação dos imigrantes italianos em Buenos Aires.

91

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 91 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Chegaram-nos nestes dias cartas da América, pedindo-nos para irmos àque-


les distantes países a fim de evangelizar as populações. Colocamos algumas
condições que foram aceitas. Agora, faremos as tramitações do caso para de-
terminar o que se há de fazer. Enquanto isso, esperam-nos em dois lugares.
Na cidade de Buenos Aires e na de San Nicolás de los Arroyos, a um dia de
viagem da capital. Já se falara de missões em outras ocasiões, tanto para a
América quanto para a Ásia, África e Oceania. Entretanto, tenho a impressão
de que esta de Buenos Aires é a que mais nos convém, seja pelas condições es-
peciais, seja pela língua espanhola, mais fácil para nós do que o inglês, idioma
que domina em quase todos os outros lugares.28

Ao fazer este anúncio ao seu conselho e aos diretores que participavam das
conferências, Dom Bosco declarou que a iniciativa viera da Argentina, e que
ele pusera condições para aceitá-la. Os fatos históricos descritos anteriormente
dão uma nova visão do tema. Fora Dom Bosco que, com a mediação do cônsul
Gazzolo, iniciou as conversações, e aceitara a oferta “sem condições”. Mais de-
cisivo ainda é o fato de que Dom Bosco chame todo o empreendimento de mis-
são. E o faz dirigindo-se quer aos seus salesianos quer às autoridades de Roma,
enquanto ao escrever às autoridades da Igreja argentina ele fala simplesmente
nos termos do serviço salesiano: oratório, casa, colégio, paróquia etc.

Anúncio aos salesianos e aos meninos do Oratório


O anúncio feito aos salesianos que participavam das conferências era ofi-
cial, embora de natureza privada. Depois dele, Dom Bosco decidira fazer um
anúncio público oficial, e fazê-lo com grande solenidade. Deu ordens para
que na festa de São Francisco de Sales, 29 de janeiro de 1875, à tarde, todos
os salesianos e meninos do Oratório se reunissem no grande salão de estudo.
Os membros do Conselho Superior e os diretores que se reuniram para as
conferências colocaram-se na plataforma elevada ao redor de Dom Bosco e
do cônsul Gazzolo, que apareceu vestido com seu uniforme de gala, com o
peito coberto de medalhas.29 Ao sinal de Dom Bosco, o cônsul pôs-se em pé
em meio a um profundo silêncio e leu em voz alta as cartas de monsenhor
Espinosa e do padre Ceccarelli.

Ver Documenti XV, 54, FDB 1027 D9.


28

A cena fora orquestrada e organizada por Dom Bosco e o cônsul para causar efeito. R. Entrai-
29

gas, no perfil biográfico do cônsul, diz que lhe agradava articular esses números (ver F. Desramaut,
Don Bosco, 973, nota 67). Ceria acrescenta: “Alguns superiores, diante do que viam, foram reticentes
em sentar-se no estrado. Temiam que, quando chegasse o momento de concretizar o projeto, este viria
abaixo por falta de pessoal ou falta de meios” (MB XI, 143).

92

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 92 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Dom Bosco, em pé, tomou a palavra. Segundo narra o padre Barberis,


disse que para dar uma resposta definitiva ao pedido argentino precisava
do consentimento do Santo Padre e que iria a Roma para obtê-lo. Caso
o Papa não aceitasse, ele o recusaria. Parece que, à luz da história das ne-
gociações, quando o arcebispo Aneyros, através do secretário Espinosa,
respondeu favoravelmente à proposta, Dom Bosco aceitara de imediato,
sem impor condições.
Em todo caso, Dom Bosco sabia que o Papa seria bastante favorável.
Dom Bosco não quis apresentar o assunto ao Papa e obter sua bênção antes
de assegurar-se de que a proposta argentina era concreta.30

Apresentação da “missão”
A reação à apresentação e às palavras do cônsul e de Dom Bosco foi en-
tusiasta e emotiva. Os salesianos e os meninos do Oratório estavam cheios
de espírito missionário. O mundo todo percebeu que se abriam novos hori-
zontes para a jovem congregação. Dom Bosco agiu imediatamente, mesmo
antes de pôr-se a caminho de Roma, para dar a conhecer a nova realidade
a todos os salesianos. Ao fazer um apelo para que se apresentassem volun-
tários para as missões entre os selvagens, enviou instruções a todas as casas
nesta circular:

Aos sócios salesianos:


Dentre as muitas propostas que nos chegaram para abrir uma missão no exte-
rior, parece que se deva aceitar com preferência a da República Argentina. Há
ali, além da região já civilizada, extensões de superfície interminável habitadas
por povos selvagens, com os quais os salesianos podem exercer seu apostolado
com a graça do Senhor.
Começaremos, no momento, abrindo uma casa em Buenos Aires, capital da
vasta República, e um colégio com igreja pública em San Nicolás de los Ar-
royos, não distante da capital.
Pois bem, tratando-se de preparar o pessoal que se deverá enviar para esta
primeira experiência, desejo que a escolha dos sócios que partirão não seja por
obediência, mas por sua própria opção completamente livre. Por isso, os que
se sintam inclinados para ir às missões estrangeiras, deverão:
1o Apresentar pedido por escrito, no qual manifestem sua boa vontade de ir
àquelas terras como sócios de nossa Congregação.

30
MB XI, 143.

93

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 93 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

2o Em seguida, o Capítulo Superior se reunirá e, uma vez invocadas as luzes


do Espírito Santo, examinará a saúde, a ciência e as forças físicas e morais de
cada um. E serão escolhidos somente aqueles que fundadamente se considere
que a expedição resultará vantajosa para sua própria alma e que, ao mesmo
tempo, servirá para maior glória de Deus.
3o Feita a escolha, todos se reunirão, o tempo que for necessário, para instruir-
-se na língua e nos costumes dos lugares aos quais se deseja levar a palavra de
vida eterna.
4o Salvo algum grave motivo, que obrigasse a mudar de parecer, a partida fica
estabelecida para o próximo mês de outubro.
Demos graças com todo o nosso coração à bondade de Deus que, com tan-
ta largueza, concede a cada dia novos favores à nossa humilde Congregação
e procuremos ser dignos deles com a observância exata de nossas Consti-
tuições, especialmente em relação aos votos com os quais nos consagramos
ao Senhor.
Entretanto, não nos cansemos de elevar orações frequentes ao trono do Se-
nhor para que possamos praticar as virtudes da paciência e da mansidão. As-
sim seja.
Crede-me sempre em Jesus Cristo, vosso afeiçoadíssimo amigo.
João Bosco, presbítero.
Turim, 5 de fevereiro de 1875.
P.S.: O senhor diretor leia e explique esta carta aos salesianos que pertencem
a essa casa.31

Viagem de Dom Bosco a Roma com o padre Berto32


A permanência de Dom Bosco em Roma durou quase um mês, de 18 de
fevereiro a 16 de março de 1875, durante a qual obteve três audiências com
o Papa: em 22 de fevereiro, muito longa, e 2 de março e 12 de março. As
atividades de Dom Bosco em Roma, assim como suas conversas com o Papa,

31
João Bosco aos salesianos, circular, Turim, 5 de fevereiro de 1875, em Epistolario IV Motto,
408-409; MB XI, 128-143s. Alguns dias antes, Dom Bosco escrevera pessoalmente a José Francisco
Benítez, presidente da comissão de San Nicolás de los Arroyos, a quem padre Ceccarelli elogiara viva-
mente. Nessa carta, de 2 de fevereiro de 1875, Dom Bosco enaltece o ancião pela sua caridade e “amor
pela Santa Sé”; pede-lhe que tome os salesianos sob sua proteção. Ver João Bosco a J. E. Benítez, Turim,
2 de fevereiro de 1875, em Epistolario IV Motto, 406-407; MB XI, 143s.
32
Para a crônica do padre Berto sobre a viagem de 1875 a Roma, ver ASC A004, Cronachette,
Berto, Memorie del viaggio a Roma nel 18 febbraio 1875, FDB 911 A9-D3.

94

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 94 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

centraram-se no assunto dos privilégios, especialmente no privilégio de emi-


tir cartas dimissórias para a ordenação dos candidatos salesianos. Ele também
tentava explicar sua atitude em relação a dom Gastaldi, com quem enfrentava
naquela época um amargo conflito. Mas não se esqueceu do tema de “sua
empresa missionária” e obteve a bênção e o patrocínio do Papa para o projeto.
Nos dois distintos pedidos de privilégios, escritos em latim e apresentados ao
Papa pouco antes de 26 de fevereiro, “as missões” são a razão dada para pedir
os privilégios. Ele escreve:

2o Os privilégios são uma necessidade nestes tempos, nos quais escasseiam os


sacerdotes em nossas regiões e muito mais naquelas nas quais nos propomos
estabelecer nossas missões...
3o As missões [salesianas] que foram fundadas em diversas partes do globo
e as casas que ali se planeja construir tornam extremamente difícil recorrer
constantemente ao romano Pontífice.33

Durante os primeiros dias em Roma, de 19 a 21 de fevereiro, antes


de ver Pio IX, Dom Bosco conversara com o cardeal Alexandre Franchi e
com o arcebispo João Simeoni, o primeiro, prefeito, e o outro, secretário da
Congregação para a Propagação da Fé, sobre o tema da “missão”. Quando se
dispunha a deixar Roma, os decretos já estavam sendo redigidos.

Um para o ordinário do lugar da missão, com a finalidade de comunicar-


-lhe oficialmente que os salesianos se incorporavam à sua diocese com
licença da Santa Sé, e que iam investidos de todos os privilégios e facul-
dades que se costumam conceder em casos semelhantes; e outro para o
superior-geral no qual lhe eram concedidas as autorizações necessárias
para aquelas circunstâncias.34

Como se deduz do que foi exposto, Dom Bosco conseguiu apresen-


tar a proposta argentina como “uma empresa de missões no exterior”.
Assim o entenderam tanto os salesianos como as autoridades romanas,
inclusive o Papa, que deu seu beneplácito. Dom Bosco não falou com os
mesmos termos quando se dirigiu às autoridades eclesiásticas argentinas
ou ao cônsul Gazzolo.

33
João Bosco a Pio IX, Roma, anterior a 26 de fevereiro de 1875, em Epistolario IV Motto,
224-226.
34
MB XI, 145s.

95

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 95 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Dom Bosco, o cônsul João Gazzolo e os primeiros missionários salesianos.

No início de abril, em carta ao cônsul, Dom Bosco pergunta-lhe se os


motins que aconteciam em Buenos Aires poderiam impedir ou atrasar a par-
tida dos salesianos.35 Dom Bosco refere-se à situação de Buenos Aires no
final do mandato do presidente Domingos Faustino Sarmiento (1868-1874).
A violência que acompanhou a batalha eleitoral para a sucessão degenerou
numa autêntica guerra civil. Nicolau Avellaneda (1874-1880) foi eleito pre-
sidente, mas a intranquilidade prolongou-se até 1875. O palácio do bispo foi
saqueado e o colégio jesuíta de El Salvador incendiado. Aos poucos, as coisas
foram-se acalmando, embora não diminuíssem as políticas anticlericais do
governo de Avellaneda.36

Os salesianos coadjutores associam-se ao “projeto”


A proposta argentina, como atuada em Buenos Aires e San Nicolás de
los Arroyos, previa apenas padres para dirigir a igreja e o colégio. Contudo, no
mês de maio, à medida que a euforia missionária fomentada por Dom Bosco
aumentava entre salesianos e jovens, Dom Bosco decidiu associar o “compo-
nente leigo” ao seu empreendimento missionário. No boa-noite de 12 de maio
de 1875, ele anunciou esse passo ao dar andamento ao seu projeto missionário.
35
João Bosco a J. B. Gazzolo, Turim, 10 de abril de 1875, em Epistolario IV Motto, 449.
36
Estes episódios de distúrbios são referidos em MB XI, 145s.

96

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 96 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Muitos me perguntam se já não se pensava em ir à América; faço-vos saber que


hoje chegou a resposta definitiva. Quem quiser ir, que se prepare [...]. [O prefeito
de San Nicolás] respondeu-me estar de acordo com todas as condições colocadas
e que, desde aquele momento, punha à nossa disposição o colégio, mais um ter-
reno capaz de pastorear 8 mil ovelhas, com plantações e campos de esportes etc.
Vede, então, que naquele país haverá trabalho para todo tipo de pessoas. São
necessários pregadores, porque há igrejas públicas a administrar; faltam pro-
fessores para as escolas; exigem-se músicos e cantores porque lá gostam muito
de música; é preciso quem conduza as ovelhas aos pastos, as tosquie, as orde-
nhe e faça o queijo, e, por fim, faltam pessoas para todos os afazeres da casa.
E o mais importante, queridos jovens, é que começam não longe de San
Nicolás as terras onde habitam as tribos selvagens que são, sem dúvida, de
muito boa índole e muitos deles estão dispostos a abraçar o cristianismo, des-
de que alguém lhes vá ensiná-lo. Contudo, neste momento, não encontram
ninguém a quem enviar; por isso, vivem na idolatria. Carreguemo-nos, então,
de valores e busquemos todas as formas possíveis de nos prepararmos para
fazer o bem naquelas terras. Enquanto isso, serão escolhidos nestes dias os que
deverão ir, que se dedicarão à aprendizagem da língua espanhola, que é a que
se fala na República Argentina.37

Como suas palavras revelam, Dom Bosco desejava não só fundar a obra
salesiana de igreja e colégio, mas também a obra missionária propriamente
dita, que chamava de “conversão dos selvagens”. Mais ainda, a mão de obra
para esta dupla finalidade seria desde o início tanto de leigos como de sacer-
dotes. Padre Ceccarelli queria apenas 5 padres para San Nicolás. Dom Bosco
incluiu salesianos leigos no grupo e, quase imediatamente em 1877, viu a
necessidade de incluir as Filhas de Maria Auxiliadora.
Dom Bosco tinha obsessão pela ideia da missão, obsessão que com o
tempo se tornou mais intensa. Em 20 de maio de 1875, conversando com
padre Barberis, falou longamente sobre a necessidade de converter as massas
de infiéis que ainda existiam no mundo.38

3. Projeto missionário de Dom Bosco


Em 6 de julho de 1875, Dom Bosco falou aos seminaristas e noviços
salesianos sobre como passar as férias de modo proveitoso. Aceita a proposta

37
G. Barberis, Cronachetta autografa, caderno 1, 11, em ASC A000: FDB 833 B9; MB XI, 145s.
38
G. Barberis, Cronachetta autografa, caderno 1, 16-18: FDB 833 C2-4.

97

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 97 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

argentina, o pessoal deveria ser escolhido e preparar-se para partir em outu-


bro ou novembro. Como a situação em Buenos Aires continuava incerta, ele
falou de San Nicolás dando a primeira descrição do que se pode chamar de
“estratégia missionária”.

Há um colégio construído que é posto à nossa disposição. Há também uma


igreja pública na qual atender ao culto, e as escolas da cidade estarão em
nossas mãos [...]. Os habitantes são bons por natureza e muito religiosos, mas
carecem de instrução e de sacerdotes que os instruam.
San Nicolás, que é a cidade aonde iremos, tem cerca de 50 mil habitan-
tes, todos católicos, e não possui mais do que 3 sacerdotes. O que são
3 sacerdotes para uma cidade [dessa dimensão] [...] para administrar os
sacramentos, sepultar, levar o viático, celebrar a missa, confessar, pregar e
ensinar o catecismo?
Deveis saber também que não muito distante de San Nicolás começam as re-
giões habitadas pelos selvagens indígenas, que são muitos naquele lugar. Eles
já admitem a religião cristã e pedem para ser instruídos; mas não há ninguém
que possa atendê-los deixando-os viver e morrer fora da religião católica sem
que cheguem a conhecer quem é Deus. Essas necessidades determinantes são
as que nos fizeram aceitar o colégio, e espero que mais adiante possamos
ocupar-nos também dos selvagens, instruí-los, educá-los e torná-los cristãos.39

Mais tarde, Dom Bosco daria corpo à sua estratégia missionária fazen-
do notar que os missionários anteriores, tentando chegar imediatamente a
essas tribos selvagens, quase sempre encontraram a morte. Os salesianos, ini-
cialmente, fundariam escolas e internatos na zona fronteiriça com as tribos
indígenas. As escolas estariam abertas aos filhos dos selvagens, estratégia que
facilitaria a aprendizagem do idioma, dos hábitos e costumes. Depois, gra-
dualmente, por meio da educação dos meninos seria possível chegar às tribos
propriamente ditas, para sua transformação social e religiosa. Buenos Aires
seria o quartel-general e San Nicolás, o trampolim que facilitaria o contato
religioso e social com os selvagens.
Como se verá em seguida, Dom Bosco estava muito preocupado pelo
bem-estar do grande e crescente número de imigrantes italianos que partiram
para a Argentina, mas estavam concentrados especialmente em Buenos Aires.
Chegaram ao país em busca de fortuna, mas, em parte por própria culpa e em
parte pela escassez de padres, estavam privados de assistência religiosa.

39
MB X, 274s.

98

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 98 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

O primeiro grupo de missionários


Em fins de julho de 1875, Dom Bosco escrevia ao padre Ceccarelli
para contar-lhe como estavam os preparativos. Falando do pessoal, padres
e coadjutores salesianos, estes incluídos “de acordo com nossas Constitui-
ções”, escreve:

A fim de conformar-me às Constituições de nossa Congregação, modifico um


pouco o pessoal que me haviam indicado. Ele será composto por 5 sacerdotes,
todos eles professores com títulos e providos de diploma conferido por nossa
nação. Irá com eles um mestre de música [...]. Dos dois salesianos coadjuto-
res, um se encarregará de atender à igreja e o outro ao colégio. Eu desejaria
que o pessoal de serviço fosse todo da Congregação Salesiana [...].
O reverendo doutor João Cagliero, inspetor e vice-reitor da Congregação,
guiará os salesianos com plenos poderes para tratar e resolver todos os assun-
tos necessários com as autoridades civis e eclesiásticas. Uma vez instalados os
salesianos em suas respectivas ocupações, ele deixará como diretor o professor
padre João Bonetti; [...] então o padre João Cagliero votará à Europa para
estar em condições de resolver e prover o que seja necessário [...].40
E como esta é a primeira viagem que os salesianos fazem através dos mares,
desejo vivamente que sejam acompanhados pelo insigne João Gazzolo, cônsul
argentino em Savona [...].
Os salesianos sairiam de aqui em meados de novembro próximo; notificarei o
dia exato, assim que se possa determinar.41

Em outra carta, de 12 de agosto, Dom Bosco apresenta alguns pequenos


detalhes sobre o que será necessário para a igreja e o colégio de San Nicolás.
Entre outras coisas, pergunta, por exemplo, se poderão dispor de um piano
e de partituras. Quanto às normas do colégio, manda cópias dos regulamen-
tos vigentes nas escolas salesianas, e acrescenta: “Entretanto, o verdadeiro
regulamento está na atitude de quem ensina”. Concluindo, escreve ao padre
Ceccarelli: “Desejo que V. S. tenha um bom papel e que ninguém possa dizer:
é uma mesquinhez. Porque como está empenhada a honra de uma Congrega-
ção nascente, é minha intenção não economizar pessoal ou gastos que possam
contribuir para o sucesso do nosso empreendimento”.42

40
Dom Bosco precisou mudar o plano que envolvia João Bonetti. João Cagliero, embora devesse
ir e retornar, ficou no comando de todo o empreendimento.
41
João Bosco a P. Ceccarelli, Turim, 28 de julho de 1875, em Epistolario IV Motto, 490-493.
42
João Bosco a P. Ceccarelli, Turim, 12 de agosto de 1875, em Epistolario IV Motto, 502-504.

99

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 99 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Nos últimos meses de 1875, Dom Bosco escolheu dentre os muitos


voluntários dez missionários que seriam os fundadores da obra salesiana na
América do Sul. A lista oficial preparada de próprio punho e caligrafia para o
arcebispo de Buenos Aires e para a Congregação para a Propagação da Fé traz
o título, em latim: “Nomes e títulos dos salesianos que vão para a arquidio-
cese de Buenos Aires”. Ao ser publicada para o público em geral, em italiano,
no periódico turinense L’Unità Cattolica, o título foi alterado para “Nomes
dos salesianos missionários”. A lista é esta:

1o João Cagliero, sacerdote, doutor em Sagrada Escritura, professor de Moral,


autor de várias composições musicais. (Ao arcebispo Aneyros acrescenta: é
dotado para todos os assuntos de ordem civil e eclesiástica.)43
2o José Fagnano, sacerdote, doutor em Belas Letras. (Acrescenta para o ar-
cebispo Aneyros: aprovado regularmente para ensinar grego, latim, italiano,
história, geografia e o que se refere ao ciclo humanístico.)44
3o Domingos Tomatis, sacerdote, doutor em Belas Letras, como o anterior.45
4o Valentim Cassini, sacerdote, professor de bacharelado. (Traduz para o arce-
bispo Aneyros: professor de métodos didáticos.)46

43
Padre João Cagliero (1838-1926) tinha 37 anos no momento da partida. Era diretor espiritual ge-
ral da Sociedade Salesiana e das Filhas de Maria Auxiliadora. Posteriormente, seria o inspetor provincial dos
salesianos na América do Sul, vigário apostólico da Patagônia central e do norte (1883), sendo ordenado
bispo (1884). Mais tarde, foi nomeado bispo titular de Sebaste (1904); será, depois, delegado apostólico na
América Central (1908) e, por último, cardeal-bispo da diocese suburbicária de Túsculo (Frascati) (1915).
44
Padre José Fagnano (1844-1916) tinha 51 anos de idade e sete de sacerdócio no momento
da partida. No dia anterior à partida, um padre da primeira lista (Riccardi, cf. a carta de Dom Bosco
ao padre Ceccarelli citada anteriormente) precisou ser substituído. Dom Bosco recorreu ao padre Fag-
nano, que respondeu com generosidade. Foi diretor do colégio de San Nicolás durante seis anos que,
diversamente do prometido, precisou construir. Depois de recobrar-se de uma longa enfermidade, em
1879 foi nomeado pároco da missão de Carmen de Patagones. Em 1883, foi nomeado prefeito apos-
tólico da missão da Patagônia do Sul e da Terra do Fogo, que fundou e expandiu nos anos 1887-1916.
45
Padre Domingos Tomatis (1849-1912), de 26 anos de idade, fora aluno do Oratório. Em 1866,
estava pensando em unir-se aos jesuítas, mas seguiu o conselho de Dom Bosco e professou como salesiano
em 1867. Depois de ordenado em 1872, foi coordenador de estudos no colégio salesiano de Varazze até
quando Dom Bosco o escolheu para fazer parte da expedição missionária. É o autor da crônica da viagem
de Gênova a Buenos Aires. Em San Nicolás de los Arroyos foi coordenador de estudos e diretor. Em 1887,
fundou a obra salesiana no Chile, em Talca e Santiago, onde morreu de ataque cardíaco.
46
Padre Valentim Cassini (1851-1922), depois de trabalhar por oito anos com os aprendizes
do Oratório, foi escolhido para a missão após ser ordenado padre em 25 de outubro de 1875. (Sobre
a história de sua ordenação, ver MB XI, 373s.) Na Argentina, trabalhou como professor em San Ni-
colás de los Arroyos, em San Carlos de Almagro (Buenos Aires) e como diretor da escola agrícola de
Uribelarrea. Posteriormente, participou do grupo que iniciou a obra salesiana em São Francisco (EUA)
(1897-1901); regressou depois à Argentina e trabalhou em Carmen de Patagones e Almagro (Buenos
Aires), onde morreu.

100

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 100 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

5o João Batista Baccino, sacerdote, professor de bacharelado superior.47


6o Tiago Allavena, sacerdote, professor elementar. (Para o arcebispo Aneyros,
Dom Bosco corrige o nome: João Batista, seu verdadeiro nome.)48
7o Bartolomeu Scavini, mestre carpinteiro.49
8o Bartolomeu Molinari, professor de música instrumental e vocal. (Dom
Bosco acrescenta para dom Aneyros: professor elementar.)50
9o Vicente Gioia, mestre sapateiro.51
10o Estêvão Belmonte, administrador da casa. (Dom Bosco acrescentou: pro-
fessor elementar, músico e cantor reconhecido.)52

Dom Bosco pedira expressamente ao cônsul Gazzolo que acompanhasse


os salesianos em sua viagem e constatasse que estavam bem instalados na Ar-
gentina. Mostrou-se sempre muito grato por tudo quanto o cônsul fizera para
concretizar o grande projeto; de fato, considerava-o como o décimo primeiro
missionário da expedição.
Por fim, tendo Dom Bosco reunido o grupo, acompanhou os missio-
nários, incluindo o cônsul, até Roma, de 31 de outubro a 4 de novembro de
1875, onde recebeu as cartas de apresentação para o arcebispo Aneyros das
mãos do cardeal Antonelli, a bênção do Santo Padre e um decreto do cardeal
47
Padre João Batista Baccino (1843-1877) chegou ao Oratório em 1867 aos 24 anos de idade;
professou em 1869 sendo ordenado em 1874. Durante seus dois breves, mas laboriosos, anos de ser-
viço na igreja de Nossa Senhora das Mercês, ficou conhecido como “o padre dos imigrantes”. Morreu
prematuramente em 1877.
48
Padre Tiago Allavena (1855-1887) era um estudante de 20 anos no colégio salesiano de Alassio
em 1875. Pediu para ser salesiano e ir para as missões; como estava na idade do serviço militar, foi-lhe
negado o passaporte. Dom Bosco mandou-o com Vicente Gioia até Marselha, de navio, previsivelmen-
te porque ali poderiam embarcar simplesmente apresentando a passagem. O estratagema funcionou e
os dois viajaram com o restante do grupo. Foi ordenado em Buenos Aires em 1878. Mais tarde, foi o
primeiro salesiano no Uruguai, onde trabalhou como pároco em Las Piedras, Assunção e Villa Rica.
Sofreu muitos ataques dos anticlericais, que incendiaram a igreja e a residência. Morreu em Villa Colón
(Uruguai) aos 32 anos.
49
O coadjutor Bartolomeu Scavini (1839-1918) apresentou-se como voluntário para as missões aos
36 anos. Durante vários anos trabalhou como carpinteiro e marceneiro nas casas salesianas de San Nicolás
e Buenos Aires. Foi chamado novamente à Itália, onde continuou a exercer o seu ofício nas casas salesianas.
50
Coadjutor, ainda noviço, Bartolomeu Molinari (1854-?), de 21 anos, foi diretor de música
em San Nicolás de los Arroyos. É mencionado sempre como noviço. Deixou a Congregação em 1877.
51
Coadjutor, ainda noviço, Vicente Gioia (1854-1890), mestre sapateiro de 21 anos. Acompa-
nhou Allavena e juntos embarcaram em Marselha. Começou seus estudos para o sacerdócio (1878 c.)
e deu aulas em Buenos Aires e Montevidéu (Uruguai), sendo ordenado em 1886. Em 1887, foi para o
Chile com o padre Tomatis a fim de fundar a obra de La Talca, ali falecendo em 1890.
52
Coadjutor Estêvão Belmonte (1846-1905) trabalhou por trinta anos como administrador nas
casas, professor, músico e cantor na igreja de Nossa Senhora das Mercês, em San Nicolás e no colégio
Pio IX de Buenos Aires.

101

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 101 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Franchi, prefeito da Congregação para a Propagação da Fé, em que se decla-


rava o grupo como missionários apostólicos.53
Retornando a Turim, enquanto os preparativos para a partida entravam na
reta final, tentou um encontro com o arcebispo Gastaldi para que abençoasse
os missionários – uma ideia de última hora? –. Não conseguiu.54
A emotiva cerimônia de despedida, precedida pelo exercício da boa
morte, aconteceu na basílica de Maria Auxiliadora em 11 de novembro. Dom
Bosco falou longamente; entregou a cada um dos missionários um memo-
rando de 20 pontos para lhes servisse de guia no apostolado. As Memórias
Biográficas explicam-no detalhadamente.55

Viagem de Gênova a Buenos Aires56


Na mesma noite, em 11 de novembro de 1875, o grupo de oito, acom-
panhados por Dom Bosco e o cônsul Gazzolo, foi de trem a Gênova, enquan-
to Allavena e Gioia partiam para Marselha.
Na manhã de sábado, 14 de novembro, embarcaram no navio Savoie,
com Dom Bosco e os salesianos do lugar que quiseram acompanhá-los. Che-
gou, então, o momento do último adeus e as pontes foram levantadas. Entre
os passageiros estavam 15 irmãs de Nossa Senhora das Mercês, de Savona,
“agradáveis companheiras de viagem e de missão”.57 O cônsul Gazzolo obteve
que viajassem com os salesianos.
O Savoie era um navio a vapor francês, um dos 4 pequenos navios a
carvão da Societé Génerale de Transports Maritimes à Vapeur, que cobria a rota
do Atlântico Sul, de Gênova a Buenos Aires.58 Os alojamentos de primeira e

53
Cf. MB XI, 376s; para ver as cartas, o decreto e o breve papal MB XI, 584s.
54
Cf. MB XI, 380s.
55
Cf. MB XI, 380s. Todo o capítulo (“A partida dos missionários”, 318-333), em particular o
discurso de despedida de Dom Bosco e os 20 memorandos (325-333), merece ser estudado cuidadosa-
mente para entender melhor as intenções de Dom Bosco.
56
Os detalhes sobre o navio e a viagem são da obra do padre Tomatis na edição crítica e comen-
tada de J. Borrego, “De Génova a Buenos Aires: itinerario de los primeros misioneros salesianos, por
don Domingo Tomatis”, RSS 2:1 (1983), 54-96.
57
A congregação das irmãs de Nossa Senhora das Mercês foi fundada em 1837, por Santa Maria
Josefa Rossello, para dedicar-se à caridade entre os pobres. Em Buenos Aires, trabalhariam entre os
imigrantes italianos.
58
O Savoie era um barco de 2.588 toneladas que media 102,86 por 11,46 metros. Lançado em
1854, em 1875 teve acrescentado um novo motor de dois cilindros que proporcionava a força de 350
cavalos com uma só hélice. “O Savoie tinha só dois mastros com a função mais de equilibrar o barco do
que aumentar sua velocidade [...]. Mesmo com vento favorável, com todas as velas enfunadas, o barco
não ganhava mais do que uma ou uma milha e meia por hora”. O barco podia transportar uns 700 pas-
sageiros, a maior parte na terceira classe. Com exceção do refeitório, os passageiros de primeira e segunda

102

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 102 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

segunda classe consistiam em pequenas cabinas individuais, dispostas ao lon-


go de uma sala de estar grande e suntuosa com poltronas forradas de veludo
e candelabros de cristal. As refeições e merendas diárias eram um momento
festivo, embora o mar não ajudasse muito. Se o tempo e a condição do mar o
permitiam, a maior parte dos passageiros ia às celebrações da missa dominical
que aconteciam no salão.
Saíram de Gênova pontualmente às duas da tarde do domingo, 14 de
novembro de 1875, em direção a Marselha, a primeira parada; ali, Allavena e
Gioia, os dois salesianos dispersos, subiram a bordo, completando o grupo dos
missionários. A partir desse momento, os salesianos, com o cônsul e as irmãs
de Nossa Senhora das Mercês, formaram uma comunidade que rezava junto
pela manhã, à tarde e ao anoitecer, e fazia as refeições em comum. Alguns
passageiros uniam-se ao grupo na missa diária e os salesianos organizaram
catequese para as muitas crianças que estavam a bordo.
Fizeram uma breve parada no porto de Barcelona e outra mais longa em
Gibraltar, onde o navio se reabasteceu de carvão. Depois, rodeando as ilhas
Canárias, o navio dirigiu-se a Cabo Verde, ao porto de São Vicente, onde
novamente se abasteceu de carvão para enfrentar a travessia do sudoeste do
Atlântico. Os passageiros foram testemunhas da pobreza absoluta do lugar e
de sua gente, ao contemplar “escravos negros e portugueses de pele amarelada”
e “pequenos negros nus de uns 15 ou 16 anos”. Acrescenta o cronista: “Fica-
ríamos ali com prazer, para ajudar tantos pobres meninos em sua ignorância e
pobreza, se não fosse o destino e o dever que nos chamavam para outro lugar”.
A travessia de Cabo Verde ao Rio de Janeiro durou onze dias, de 27
de novembro a 6 de dezembro, a maior parte marcada pelo calor sufocante,
o mar raivoso e o desalento. Certa noite, um jovem foi confessar-se com o
delírio de que seria condenado à morte por tentar atravessar uma espada na
equipagem. Nessa noite, o pobre transtornado lançou-se pela balaustrada. O
navio parou, foram baixadas duas lanchas, mas não o encontraram.
As atividades, o canto, o baile e os refrescos marcaram a passagem dos
trópicos e do equador. Eram celebrações como de carnaval, organizadas pelo
pessoal do navio.
Enfim, surgiu o Rio de Janeiro. O porto, situado numa baía natural, ofe-
recia um espetáculo magnífico, assim como os edifícios e vilas que salpicavam

classe compartilhavam as mesmas instalações. “Um grande toldo preso a umas grades e sustentado por
escoras arqueadas que se estendia por todo o espaço do navio serve de cobertura e protege os passageiros
da fumaça do motor e do sol. Até o último dos oficiais do barco e dos membros do pessoal de serviço
são sumamente profissionais. A limpeza e a higiene são mantidas com rigor por todo o barco” (Tomatis,
Diário da viagem). O navio transportava, também, animais vivos sob a ponte, com um matadouro anexo.

103

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 103 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

as colinas que o rodeavam. Mas, quando os passageiros desceram para visitar


a cidade, perceberam as condições miseráveis em que viviam os pobres e a
maioria dos escravos negros.
Os salesianos visitaram o bispo, que foi muito afável. No dia seguinte,
8 de dezembro, era a festa da Imaculada Conceição. Não se pôde celebrar a
missa solene porque os marinheiros estavam ocupados carregando carvão e a
maioria dos passageiros descera à terra.
Às 2 da tarde em ponto, o Savoie partia novamente. Em 12 de dezem-
bro, em meio a uma terrível tormenta, o navio entrou no estuário do rio da
Prata e lançou âncoras em Montevidéu (Uruguai). No dia seguinte, à tarde,
o navio continuou sua travessia pelo rio e, ao amanhecer de 14 de dezembro,
entrou no porto de Buenos Aires. “Tínhamos percorrido 11,5 mil quilôme-
tros em 30 dias; não está mal!”, escreveria o padre Tomatis.

Fundação da obra salesiana em Buenos Aires


Logo que o navio lançou âncora, uma lancha aproximou-se dele. Pa-
dre Ceccarelli, que viera receber os salesianos, subiu a bordo rapidamente.
Escoltou-os até a mole, onde um grupo de imigrantes italianos, alguns deles
antigos alunos do Oratório, deu-lhes as boas-vindas. Quando chegaram à
residência temporária, foram gratamente surpreendidos ao encontrar o arce-
bispo, dom Aneyros, para recebê-los. No mesmo dia, mais tarde, retribuíram
a visita ao palácio episcopal, tendo sido convidado o vigário-geral e todo o
pessoal. Os superiores das comunidades religiosas, os párocos da região e o
senhor José Francisco Benítez, de San Nicolás, aproximaram-se para cumpri-
mentá-los e oferecer-lhes apoio.
Padre Cagliero e os salesianos começaram imediatamente um intercâm-
bio de cartas com Dom Bosco, que continuou com regularidade durante
muitos anos. Outros também escreveram cartas expressando suas grandes es-
peranças para o futuro da obra salesiana: padre Ceccarelli, monsenhor Espi-
nosa, o arcebispo Aneyros e o senhor Benítez (em latim!).
Os missionários acreditavam que Buenos Aires seria apenas uma para-
da no caminho para San Nicolás, o destino definitivo. O arcebispo, porém,
decidiu que alguns deles deviam ficar na capital para atenderem à igreja e aos
muitos imigrantes italianos que não tinham assistência pastoral. Fora essa a
proposta inicial! Assim, dividiram-se em dois grupos. Cagliero, Baccino e o
coadjutor Belmonte ficaram em Buenos Aires, enquanto o restante do grupo
partiu para San Nicolás, tendo o padre Fagnano à frente. O arcebispo explicou
a Dom Bosco os motivos dessa decisão numa carta de 18 de dezembro de 1875.

104

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 104 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Primeira residência salesiana construída no bairro La Boca,


junto à igreja de São João Evangelista.

[Seus filhos] certamente farão muito bem não só em San Nicolás, como tam-
bém nesta capital, onde é muitíssimo conveniente que tenham uma casa, não
só para facilitar a comunicação com V. R., mas também porque poderiam
fazer aqui um bem imensamente maior do que farão em San Nicolás. Só aqui
há uns 30 mil italianos e a maioria dos sacerdotes italianos que aqui vêm,
oprime-me o coração dizê-lo, vêm para ganhar dinheiro e nada mais. Creio,
pois, muitíssimo conveniente que seus filhos assumam a direção da igreja
italiana que aqueles bons irmãos lhes oferecem. Prestarão, assim, um serviço
imenso não só aos italianos, mas também aos nossos.59

A confraria e a igreja de Nossa Senhora das Mercês


O arcebispo concedeu aos três salesianos a igreja de Nossa Senhora das
Mercês, onde tinha sua sede a confraria do mesmo nome. Ali fixaram residên-
cia. A história do apostolado salesiano em prol da comunidade italiana em
Buenos Aires está ligada a esta igreja e confraria.60

MB XII, 97s.
59

A confraria fora fundada em 1855 ao redor da imagem de Nossa Senhora das Mercês, de
60

Savona, que um grupo de imigrantes tinha trazido consigo. Originalmente, sua sede foi na igreja
de São Domingos. Foi erigida canonicamente em 1867. A igreja fora construída, pouco maior do

105

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 105 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Em 1875, a igreja não tinha um padre titular. Devido às circunstâncias,


o arcebispo designou padre Cagliero como capelão e nomeou padre Baccino
diretor espiritual da confraria. Padre Baccino, em 1876, negociou um acordo
com a chancelaria, que repassaria a Dom Bosco, com a finalidade de tornar
essas designações permanentes.61
Os salesianos não perderam tempo. Dois dias depois de desembarcar,
padre Cagliero iniciou seu ministério pregando a novena do Natal na igreja
de Nossa Senhora das Mercês, com a participação de muita gente. Com a
ajuda do padre Baccino e do senhor Belmonte, fez com que aquela primeira
celebração de Natal fosse algo memorável.
Alguns meses depois, em 1876, inaugurou-se um oratório para meni-
nos e, com a ajuda das conferências de São Vicente de Paulo, fundou-se não
muito distante de Nossa Senhora das Mercês uma escola vocacional capaz de
acolher uns 50 órfãos e meninos pobres.62
Não se creia que a colônia italiana foi conquistada para a causa num só
dia. O grupo anticlerical, francos-maçons e velhos republicanos mazzinianos,
que lutava pelo controle da comunidade italiana, infiltrara-se também na
confraria de Nossa Senhora das Mercês. Padre Cagliero precisou intervir de
forma rápida e drástica. Trabalhando lado a lado com padre Baccino, deu
passos para depurar a confraria dos indesejáveis; cerca de 500! Todavia, foi
padre Baccino que, em menos de dois anos, pois faleceria em junho de 1877,
conseguiu mudar radicalmente a situação, graças ao seu zelo sacerdotal, con-
seguindo que a confraria voltasse à sua finalidade religiosa original.

San Nicolás de los Arroyos: escola e capela


Os 7 salesianos destinados a San Nicolás de los Arroyos, encabeçados
pelo padre Fagnano, despediram-se de seus companheiros em 21 de dezembro
de 1875, acompanhados pelo padre Ceccarelli e o senhor Benítez. Foram cor-
dialmente recebidos em San Nicolás, especialmente por um grupo de famílias

que uma capela, em 1870; a construção foi obra de uma comissão com contribuições dos imigrantes
italianos. Era e é conhecida simplesmente como a “igreja italiana”; foi dedicada em 1871, momento
em que o arcebispo a converteu em sede da confraria de Nossa Senhora das Mercês, transferindo-a de
São Domingos. A “igreja italiana” foi então dedicada a Nossa Senhora das Mercês. Muito cedo, por
vários motivos, surgiram problemas na confraria. Entre eles, os políticos, que tornaram necessária a
intervenção do arcebispo. Um dos capelães foi destituído; o outro, depois de trabalhar durante certo
tempo, foi embora.
61
Falhas legais no contrato destas designações fizeram com que, com o passar dos anos, a pro-
priedade dos salesianos fosse impugnada. Em 1939, foi confirmado oficialmente o direito dos salesia-
nos tanto à igreja como à confraria.
62
MB XII, 264.

106

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 106 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

italianas dedicadas à agricultura e pecuária. Estas famílias são lembradas com


carinho pela ajuda que deram aos salesianos e pelas vocações religiosas e sacer-
dotais que nelas surgiram.
Quando os salesianos chegaram a San Nicolás, ficaram desagradavelmen-
te surpresos ao ver que o colégio que lhes fora prometido consistia em apenas
3 ou 4 cômodos vazios, num prédio de um só andar. A pequena igreja, porém,
construída e equipada pelo senhor Benítez, estava em bom estado; a ela iam os
imigrantes italianos da região aos domingos e dias de trabalho. Padre Fagnano
pediu ajuda aos colonos e ao padre Ceccarelli para cobrir as necessidades bási-
cas dos salesianos enquanto preparavam a escola para sua abertura.
A escola não dispunha de instalações para organizar um internato; como
fora prometido um internato para seus filhos, os pais ofereciam-se para aju-
dar economicamente. Padre Fagnano, bom administrador e hábil construtor,
começou a levantar um conjunto de pórticos da mesma altura do prédio
existente. Sobre ele ergueu um grande dormitório comum. Infelizmente, as
frágeis fundações e as intensas chuvas fizeram que o novo acréscimo desabas-
se. Padre Fagnano não perdeu a coragem; teve o edifício pronto para o ano
escolar 1877-1878. As atividades juvenis realizadas pelos salesianos – jogos,
música, excursões etc. – contribuíram para que a escola fosse um sucesso.
Contudo, se não fosse a ajuda contínua do senhor Benítez, do padre Cec-
carelli e do grupo de cooperadores que rapidamente se formou ao redor dos
salesianos, o empreendimento teria fracassado. Não havia nem vestígio do
terreno, dos edifícios, dos rebanhos de ovelhas e outros bens que a comissão
prometera. Os 30 mil metros quadrados de terreno pertenciam ao governo,
que só permitiu o seu uso. Mais: quando posteriormente a comissão se desfez,
os supostos direitos sobre a escola passaram a autoridades municipais hostis.

La Boca e a paróquia de São João Evangelista


Após os difíceis e prometedores inícios, parecia natural que padre Ca-
gliero tentasse conquistar a praça forte dos italianos em La Boca. O arcebis-
po avisara-o para não se aventurar num lugar em que os padres não eram
bem-vindos e onde até o momento não fora possível ter serviços religiosos.
Padre Cagliero, porém, foi a La Boca, na primeira vez, distribuindo medalhas
aqui e ali, e detendo-se nas visitas seguintes para conversar com os jovens,
prometendo-lhes criar um pátio para seus jogos. O arcebispo confiou, então,
a Paróquia de São João Evangelista aos salesianos. Padre Cagliero, em meados
de 1877, aceitou-a com gratidão em nome de Dom Bosco.63
63
MB XII, 265s.

107

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 107 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Os salesianos, então, puderam penetrar na comunidade italiana e deixar


sua marca. Dom Bosco oferecera alguns de seus melhores homens a este pro-
jeto, que via como um teste para a Congregação, a ponto de enfraquecer a
liderança em seu centro. Ali havia um grupo de jovens padres e coadjutores e,
pouco depois, de irmãs, todos eles zelosos, dinâmicos e, sobretudo, audacio-
sos e preparados para qualquer coisa. Sua educação e preparação intelectual
eram, em geral, das mais elevadas na comunidade, e podiam enfrentar qual-
quer movimento de oposição. Conquistaram quase de imediato a simpatia
da comunidade pela sua atividade em benefício dos jovens. Seu empenho
incondicional marcou o início do fim do radicalismo e anticlericalismo na
comunidade italiana. A aliança entre a elite secular e os salesianos deu-se em
muitas frentes: as associações, especialmente de mútuo socorro, a imprensa e,
particularmente, a educação.

Procissão para celebrar as primeiras comunhões, em 18 de dezembro de 1900,


na paróquia de São João Evangelista, La Boca (Buenos Aires).

Apesar dos desafios desencorajadores que os dois pequenos grupos de


salesianos precisaram enfrentar, Dom Bosco continuava a receber boas no-
tícias da Argentina: de monsenhor Espinosa, sobre o trabalho dos salesianos
em Buenos Aires, e do padre Ceccarelli, exaltando o trabalho dos salesianos
em San Nicolás.

108

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 108 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Segunda expedição missionária: novembro de 1876


Dom Bosco percebeu que faltavam forças adicionais. Em resposta aos
urgentes pedidos do padre Cagliero, começou a reunir pessoal em vista da
segunda expedição para novembro de 1876. A expedição era formada por 23
salesianos: 6 padres, 7 seminaristas e 10 coadjutores. Depois de uma emotiva
cerimônia na basílica de Maria Auxiliadora, em 7 de novembro de 1876,
foram com Dom Bosco a Roma para receberem a bênção do Santo Padre.
Em seguida, os destinados a Buenos Aires embarcaram em Gênova sob
a direção do padre Francisco Bodrato;64 os que se destinavam ao Uruguai,
encabeçados pelo padre Luís Lasagna, partiram de Bordeaux, França.65
Padre Cagliero preparava uma nova fundação em Villa Colón, próxima
a Montevidéu (Uruguai) depois de receber uma oferta do delegado apostóli-
co, único bispo do Uruguai na época, para dirigir a igreja de Santa Rosa de
Lima e um grande edifício com terras anexas, graças à generosa doação de
certo mister Fynn. A cessão exigia que os salesianos se encarregassem da igre-
ja pública e estabelecessem uma escola secundária. Padre Lasagna, nomeado
diretor, dirigiu a restauração da igreja, que estava há tempos abandonada, do
edifício e da preparação das terras. Um mês depois de sua chegada, a igreja e
a escola estavam em funcionamento, incluindo ensino primário e secundário
e um programa preparatório para a universidade, com internato para cerca

64
Francisco Bodrato (1823-1880) nasceu em Mornese e tornou-se professor na cidade. Viúvo
e com dois filhos, conheceu Dom Bosco em 1864, ingressou no Oratório e fez a profissão perpétua
em 1865 aos 41 anos. Trabalhou como professor e administrador; em 1875, Dom Bosco nomeou-o
ecônomo-geral. Em 1876, foi escolhido para liderar o contingente da segunda expedição a Buenos Ai-
res. Ali trabalhou como pároco de La Boca, o hostil distrito em que o padre Cagliero acabava de fazer-se
presente. Em 1877, quando Cagliero deixou Buenos Aires para participar do I Capítulo Geral, Dom
Bosco nomeou-o administrador de todas as obras salesianas. Fundou uma escola de artes e ofícios que
foi logo transferida à escola Pio IX, de San Carlos de Almagro (Buenos Aires). Em 1878, foi nomeado
provincial da recém-criada Inspetoria Americana. Ao mesmo tempo, porém, que uma sangrenta guerra
civil arrasava a cidade, padre Bodrato, não podendo obter a assistência necessária para uma doença
crônica que sofria, faleceu em meio a dores intensas em 4 de agosto de 1880.
65
O contingente uruguaio partiu de Bordeaux porque as autoridades contrataram a passagem
dos missionários com uma companhia com sede nessa cidade. Luís Lasagna (1850-1895), órfão aos 9
anos de idade, salesiano em 1866, fora ordenado em 1873. Em 1876, foi escolhido por Dom Bosco
para liderar o grupo uruguaio da segunda expedição missionária. Foi o primeiro diretor do colégio
de Villa Colón e depois Inspetor; estava profundamente envolvido e era muito influente em temas
educacionais e sociais, como também no cuidado dos imigrantes. Promoveu a agricultura, a viticultura
e a imprensa católica. Em 1881, fundou um observatório meteorológico em Villa Colón. Trabalhou
para fundar a Universidade Católica de Montevidéu e uma escola superior de agricultura. Em 1893,
Leão XIII nomeou-o bispo entre os nativos da bacia amazônica. Nesse cargo, desenvolveu a missão do
Mato Grosso. Quando organizava uma missão ao norte do Brasil, morreu tragicamente em 1895 numa
colisão de trens em Juiz de Fora (MG), juntamente com seu secretário e 4 irmãs salesianas.

109

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 109 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

de 100 meninos. O povo, desde o início, acolheu os salesianos sem qual-


quer reserva, apesar de os ataques das forças anticlericais, que controlavam a
imprensa, serem desapiedados e constantes, embora não tivessem êxito; e o
colégio, chamado Pio IX, prosperou.
O contingente de Buenos Aires da segunda expedição dividiu-se em dois
grupos, destinados a San Nicolás e Buenos Aires, respectivamente.
A escola de San Nicolás, depois de superar as dificuldades iniciais, pro-
gredia com passos firmes sob a direção do padre Fagnano; com a incorpora-
ção dos reforços, converteu-se numa obra salesiana grande e complexa.
A comunidade salesiana de Buenos Aires sofreu duas sérias perdas em rá-
pida sucessão. Padre João Baccino, o principal pilar do apostolado na igreja de
Nossa Senhora das Mercês, morreu repentinamente em junho de 1877 de uma
doença não identificada. Padre Cagliero, o guia carismático, foi chamado a
Turim no outono de 1877 para o I Capítulo Geral, depois do qual continuou
o seu serviço como diretor espiritual da Congregação. Manteria esse posto até
sua consagração como bispo em dezembro de 1884, após a nomeação como
vigário apostólico da Patagônia. Na ausência do padre Cagliero, padre Bodrato
assumiu a direção da obra salesiana na região do Prata. Em 1878, Dom Bosco
nomeou-o provincial da recém-criada Inspetoria argentina.

Terceira expedição missionária: novembro de 1877


Com base nos relatórios do padre Cagliero, Dom Bosco preparou a ter-
ceira expedição missionária em novembro de 1877. O grupo era formado
por 18 salesianos: quatro padres, oito clérigos e seis coadjutores. Também se
uniram ao grupo seis irmãs salesianas. Padre Tiago Costamagna, no momen-
to diretor das salesianas em Mornese, liderava a expedição.66 Padre Cagliero
e Madre Mazzarello acompanharam o grupo até Roma. Depois de receber
a bênção do Santo Padre, os missionários embarcaram em diversos portos:
alguns em Lisboa, outros em Le Havre, e o grupo mais numeroso, que in-
cluía as salesianas, em Gênova, com o padre Costamagna. Madre Mazzarello,
depois de um emocionante adeus, despediu-se pessoalmente de suas filhas.
Dom Bosco foi criticado por escolher salesianos e salesianas muito jo-
vens para a missão. Dentre os padres, Domingos Milanésio tinha 34 anos;
Tiago Costamagna, 31; José Vespignani, 27; Bartolomeu Panaro, 26; os cléri-
gos José Gamba, 17, e Pedro Rota, 16. Das 6 irmãs, Ângela Cassulo tinha 25;

Tiago Costamagna (1846-1921) professou como salesiano em 1867. Foi ordenado sacer­dote
66

em 1868 e nomeado bispo em 1895 como vigário apostólico de Méndez y Gualaquiza (Equador).
Faleceu em Bernal (Argentina) em 1921.

110

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 110 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Teresa Gedda, 24; Ângela Valiese, 23; Teresa Mazzarello Baroni, 18; Ângela
Negris, 18; e Joana Borgna, 17. Todos deixaram marca extraordinária.
Os missionários da terceira expedição dividiram-se assim: cinco salesia-
nos foram indicados para a obra de Buenos Aires e quatro para San Nicolás.
Os oito restantes, que desembarcaram em Montevidéu, foram destinados ao
colégio de Villa Colón. As seis irmãs também permaneceram em Villa Colón,
onde fundaram sua primeira casa no Novo Mundo.

Almagro (Buenos Aires): igreja de São Carlos e instituto Pio IX


Os padres Cagliero e Baccino, com o coadjutor Belmonte, fundaram
uma pequena escola em locais arrendados, não muito distante da igreja de
Nossa Senhora das Mercês, a primeira residência em Buenos Aires. Em 1878,
com a chegada de novos salesianos, os internos chegaram a uma centena; havia
aprendizes em quatro oficinas. O local, porém, era pequeno e incômodo. Em
1878, com a ajuda das conferências de São Vicente de Paulo e de doadores
anônimos, começou-se a construir um edifício maior. Situava-se num subúr-
bio de Buenos Aires chamado Almagro, perto de uma bonita igreja dedicada
a São Carlos, que o arcebispo confiou aos salesianos. Logo que uma parte
do edifício ficou pronta, em agosto de 1878, transferiram-se para Almagro a
antiga escola e as oficinas. Às oficinas de alfaiataria, sapataria, carpintaria e en-
cadernação acrescentou-se uma tipografia. O instituto foi chamado de Escola
de Artes e Ofícios e foi dedicada a Pio IX, falecido em fevereiro de 1878.
O arcebispo e o ministro da Instrução Pública assistiram à inauguração.
A imprensa, mesmo a anticlerical, deu informação completa do evento. Em
outubro teve início o curso escolar com a matrícula de 115 alunos: 60 estu-
dantes e 55 aprendizes. Sob a direção dos padres Costamagna e Vespignani,
com a incorporação de novos salesianos e salesianas da quarta expedição de
dezembro de 1878, o instituto estava a caminho de converter-se na “Valdoc-
co da Argentina” sendo escolhido também como sede inspetorial e noviciado.

Quarta expedição: 8 de dezembro de 1878


Dom Bosco já estava decidido a fundar obras salesianas na região do
Prata (Argentina e Uruguai) sobre bons alicerces, e os relatórios do padre
Cagliero insistiam nessa necessidade. Não tirara da mente a “missão entre
os selvagens”. Sabia que chegaria o momento, mas também percebia que só
reforçando a base de Buenos Aires conseguiria que isso se tornasse realidade.
A quarta expedição era formada por 11 salesianos e 10 salesianas. Duas
delas desembarcaram em Montevidéu com destino a Villa Colón (Uruguai);

111

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 111 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

as oito restantes seguiram para Buenos Aires e fundaram uma residência em


Almagro, bairro de Buenos Aires, onde os salesianos concretizavam uma im-
portante obra. Ali, as salesianas iniciaram aquela que se converteria numa
espécie de “casa-mãe” para a América do Sul. Muitos dos salesianos desta
expedição também foram encaminhados para Almagro.

Expansão do trabalho entre os imigrantes italianos


Padre Cagliero preparara uma evangelização sistemática dos italianos da
região ao redor de Buenos Aires. Com esse fim, e com a ajuda dos membros
da confraria, foi feito um recenseamento da população italiana para verificar
em que estado se encontravam e quais eram suas necessidades. Os resultados
eram às vezes desencorajadores: analfabetismo, ignorância, prática religiosa
mínima por causa do isolamento etc. Foi organizada uma série de missões
entre o povo do campo, que continuaram periodicamente com bons resul-
tados, mesmo depois da partida do padre Cagliero em 1877. A vantagem de
visitar as zonas periféricas foi o encontro com nativos dos Pampas em vários
assentamentos e a possibilidade de estudar as perspectivas para uma missão
propriamente dita.
Nas três igrejas salesianas de Buenos Aires, Nossa Senhora das Mercês,
São João Evangelista e São Carlos, assim como em 6 igrejas não salesianas
com paróquia etnicamente mista, funcionavam paróquias missionárias, ins-
trução religiosa e várias atividades da vida católica.

4. Comentário final
O apostolado em prol dos imigrantes italianos logo deu fruto de muitas
maneiras. Em primeiro lugar, as conversões e renovações religiosas obtidas
pareciam quase milagrosas; em pouco mais de dez anos, depois da morte de
Dom Bosco, as comunidades italianas em Buenos Aires, incluindo La Boca,
voltaram à prática católica. Em segundo lugar, foi-se criando um forte grupo
local de cooperadores e este grupo tornou possível a continuidade da obra
salesiana. Em terceiro lugar, as vocações para a Congregação Salesiana e o Ins-
tituto das Filhas de Maria Auxiliadora entre o povo do lugar eram promessa
de um futuro brilhante.

112

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 112 28/07/14 16:35


Apêndice

POPULAÇÃO DA AMÉRICA DO SUL:


ORIGENS ÉTNICAS E IMIGRAÇÃO67

São quatro os principais componentes da atual população da América do


Sul: 1o Os índios sul-americanos, nativos ameríndios, ou seja, os habitantes
pré-colombianos. 2o Os ibéricos, espanhóis e portugueses que conquistaram
e dominaram o continente, do século XVI aos inícios do século XIX. 3o Os
africanos importados como escravos pelos colonizadores. 4o Finalmente, uma
onda de imigrantes de além-mar, europeus em sua maior parte, que chegaram
depois da independência, a partir de 1820 aproximadamente.

Indígenas sul-americanos
Na época do descobrimento e da conquista, nos inícios do século XVI,
as sociedades ameríndias apresentam três níveis culturais diversos; isso de-
terminou em grande parte a composição da população durante e depois do
período colonial.

Sociedade e cultura andinas


A sociedade andina era uma civilização arcaica, comparável à egípcia,
mesopotâmica e outras sociedades do mundo antigo pré-helênico. Habitava
a costa do Pacífico e tinha seu centro no Peru. Estima-se que a agricultura,
baseada no cultivo do milho, tenha-se desenvolvido na região ao menos des-
de o ano 2500 a.C. O início do período de formação da civilização andina é
datado ao redor do primeiro milênio antes de Cristo. Nessa época, a comu-
nidade básica era a aldeia dedicada à agricultura. Desenvolveram-se diversas
artes e diversos ofícios e, pelo final do período, começaram a aparecer os
edifícios religiosos.

67
Cf. “South America”, Encyclopaedia Britannica, Macropoedia (1987). Vol. XXIII, 683.

113

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 113 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

A cultura do período andino clássico, aproximadamente do ano 1 ao


1000 de nossa era, alcançou grande refinamento na arquitetura, construindo-
-se palácios e habitações com vários aposentos. Desenvolveu-se a metalurgia,
obtendo-se a fundição de ligas de cobre e ouro; e revolucionaram-se as técni-
cas agrícolas como a irrigação e o cultivo em terraços. A urbanização, ou seja,
o surgimento de cidades habitadas distintas dos centros religiosos e cerimo-
niais, também se deu no período clássico. Com organização política e militar
de nível relativamente elevado, essas civilizações estabeleceram vários reinos.
As civilizações andinas, porém, não conheceram a linguagem escrita nem no
período clássico nem no pós-clássico.
O período pós-clássico, a partir do ano 1000 d.C., foi marcado por uma
grande expansão e centralização. O império inca do Peru, por exemplo, expan-
diu-se desde sua base em Cuzco até o norte, à área ocupada hoje pela Colôm-
bia, com suas relativamente avançadas culturas chibchas. Expandiu-se também
para o sul, até o atual território do Chile, com suas primitivas tribos indígenas
araucanas. Os incas começaram sua conquista pelo ano 1200 d.C., mas a ex-
pansão de seu império acelerou-se consideravelmente depois de 1400, enquan-
to o processo não foi interrompido pela chegada dos espanhóis em 1536.

Outras sociedades sul-americanas


Entre as outras sociedades sul-americanas podem-se distinguir níveis
médios e baixos que não evoluíram além das primeiras fases do desenvolvi-
mento social.
O nível mais baixo deu-se na região de El Guanaco, habitada por tribos
nômades caçadoras. Viviam no território dos atuais Uruguai e Argentina, e
incluíam o extremo sul, concretamente, a Terra do Fogo e o Cabo de Hornos.
O nível intermédio localizava-se na região de Manioca, que cobria da ba-
cia amazônica à costa atlântica, ocupando parte do atual território do Brasil.
A caça era a principal ocupação dessa população, mas também se praticava a
agricultura de queimadas, limpando a terra para cultivá-la temporariamente
cortando e queimando a vegetação.

Origem dos indígenas sul-americanos


O número de indígenas na época da conquista (século XVI) é incerto.
Estima-se que na América do Norte, do Sul e Central houvesse de 8 a 100 mi-
lhões de pessoas. Só para os incas, a estimativa é de 3 a 32 milhões de pessoas.
Alguns pesquisadores estabelecem para toda a América do Sul uma população
de 6,8 milhões de pessoas, das quais pouco mais da metade pertenciam ao

114

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 114 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

império inca ou estavam sob a sua influência. Avaliações mais recentes, que
situam a cifra de habitantes pré-colombianos ao redor dos 14 milhões de pes-
soas, parecem mais realistas. A civilização andina e os povos dominados ou in-
fluenciados por ela incluem talvez a metade da população indígena e também
as áreas mais povoadas do continente. Em outras regiões, a população era mais
escassa e havia também amplas zonas desabitadas.
Ainda hoje, é objeto de controvérsia a procedência dos indígenas sul-
-americanos. Muitos antropólogos acreditam que chegaram à América, vin-
dos da Ásia, em ondas sucessivas, a partir de 2500 a.C. Provavelmente, che-
garam cruzando o estreito de Bering, que separa os extremos do nordeste da
Ásia e o noroeste da América do Norte.

Ibéricos
Após a conquista e ao longo do período de dominação, só os espanhóis
e portugueses eram admitidos nas colônias sul-americanas. A exclusão rígida
de outros estrangeiros contou com poucas exceções embora um pequeno nú-
mero de europeus de outras nacionalidades tenha se assentado nas colônias
como consequência de uma imigração tolerada ou ilegal. O substrato étnico
dos povos da península ibérica também foi muito diverso. A maioria dos es-
panhóis provinha de Castela e das regiões do sul. Sabe-se muito pouco sobre
a procedência dos principais contingentes de portugueses.

Escravos africanos
Os serviçais africanos que acompanhavam seus senhores espanhóis ou
portugueses foram os primeiros escravos que chegaram ao continente. A im-
portação africana de escravos em grande escala aconteceu duas ou três déca-
das depois. A Espanha autorizou o comércio de escravos pela primeira vez em
1518, embora faltem informações confiáveis.
Uma opinião sobre a sua contribuição demográfica em números esti-
maria em 4 milhões para o Brasil e 3 milhões para o conjunto da América
hispânica, da qual só uma minoria foi à região andina e um número ainda
menor ao cone sul, os atuais Uruguai, Chile e Argentina.
Paradoxalmente, o comércio de escravos foi apoiado por aqueles que esta-
vam preocupados com o respeito pelos indígenas. Os escravos africanos eram
tidos por mais eficientes do que os indígenas americanos, particularmente no
trabalho das plantações tropicais. A maioria dos escravos importados vinha da
África ocidental, incluindo Angola. O comércio de escravos, mas não a escra-
vidão, deixou de existir nos inícios do século XIX.

115

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 115 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Imigrantes depois da independência


Com a independência da maior parte das colônias sul-americanas, no
início do século XIX, simultânea e posterior ao período napoleônico, a exclu-
são legal dos estrangeiros chegou ao seu fim. Contudo, a imigração em massa
para o continente só teve início no final do século XIX, chegando ao apogeu
nas três últimas décadas do século e continuando até 1930, ano em que caiu
repentinamente.
Entre 11 e 12 milhões de pessoas chegaram à América do Sul. A grande
maioria foi para a Argentina (mais de 50%) e para o Brasil (uns 37%). Em-
bora muitos tenham ido mais tarde, o impacto demográfico e sociocultural
da entrada na Argentina e, em menor medida, no sul do Brasil, foi tremen-
do. A imigração para outros países foi numericamente menos significativa,
embora social e culturalmente relevante. No Uruguai, por exemplo, onde a
população preexistente não era muito numerosa, o percentual de nascidos no
estrangeiro era alto, 18% em 1908, e ainda maior durante o século XIX. Na
Argentina, a proporção chegou a quase um terço do total e permaneceu nesse
nível durante muitos anos. Em ambos os casos, a contribuição da imigração
posterior à independência foi proporcionalmente mais importante do que a
conhecida pelos Estados Unidos no ponto mais alto da imigração em massa.
Os imigrantes eram europeus em sua maioria. Os italianos formavam
quase a metade dos imigrantes na Argentina, um terço no Brasil e provavel-
mente a maioria no Uruguai. Os espanhóis eram um terço na Argentina e os
portugueses ao redor de 30% no Brasil.
Outras correntes menos numerosas, mas socialmente relevantes, chegaram
da Europa central e oriental. Esta fonte de imigração tornou-se mais importante
a partir da mudança do século, quando era formada mais por pessoas de classe
média e intelectuais. Entre estes havia judeus e outros refugiados.
Após a Segunda Guerra Mundial, outra pequena onda de imigração
chegou da Europa, dirigida principalmente à Venezuela e Argentina.

MOVIMENTOS DE INDEPENDÊNCIA NA
AMÉRICA LATINA68

Espanha e Portugal conquistaram a América do Sul e Central, exceto as


Guianas (Guiana Francesa, Suriname e Guiana) e governaram suas colônias

68
Cf. W. L. Langer, An Encyclopedia of World History. Versão revisada e atualizada da obra de
Ploetz. Boston, Houghton Mifflin Co., 1949.

116

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 116 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

por 300 anos. O isolamento em relação à Europa e outros fatores levaram


muitos colonos a desejar a total independência. A oportunidade chegou quan-
do precisaram agir por conta própria durante a breve conquista da Espanha
por Napoleão, a chamada Guerra da Independência.
As guerras de independência começaram na região do Rio da Prata em
1806. O general que sobressaiu nesta campanha, José de San Martín, libertou
o Chile em 1818. A região então conhecida como Las Charcas foi libertada
por Simón Bolívar e rebatizada como Bolívia. Bolívar já ajudara a libertar a
Venezuela em 1811. Paraguai e Uruguai também proclamaram sua indepen-
dência em 1811, enquanto a Colômbia e o Equador foram libertados por San
Martín e Bolívar em 1822. O México começou sua campanha pela indepen-
dência em 1808, e finalmente a conseguiu em 1821.
O Brasil serviu de refúgio para a família real portuguesa durante a con-
quista napoleônica. Em 1822, diante da demanda portuguesa de que o Brasil
retornasse à situação de colônia subordinada, os brasileiros proclamaram a
independência instaurando dom Pedro, filho do rei português, como seu pri-
meiro imperador, Pedro I.
Esta é a sequência histórica da independência das antigas colônias:
1810 – Independência da Argentina (San Martín).
1811 – Independência da Venezuela (Bolívar).
1811 – O Paraguai declara-se independente.
1811 – O Uruguai declara-se independente.
1818 – O Chile é libertado (San Martín).
1819 – A grande Colômbia (Equador e Colômbia) torna-se indepen-
dente (San Martín e Bolívar).
1821 – O Peru é libertado (San Martín).
1821 – O México obtém a independência.
1822 – O Brasil declara-se independente.
1825 – Independência da Bolívia (Bolívar).
Em 1825, a América do Sul e o México já eram independentes. Mas
o movimento pela independência nas colônias espanholas só produziu uma
cooperação efêmera entre os novos estados da América do Sul e entre México
e América Central, apesar de existir o ideal de união, um dos objetivos de
Bolívar. Muitas causas explicam essa dificuldade. A influência da divisão ad-
ministrativa durante o período colonial interpôs-se no caminho da unidade,
embora se tenha criado um nacionalismo rudimentar e, em alguns casos, uma
entidade cultural entre as classes elevadas. Igualmente, os fatos geográficos e

117

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 117 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

climáticos e a ambição pessoal de líderes individuais impediram a união e a


cooperação entre os Estados.
O progresso organizado nessas nações foi difícil devido aos mesmos fa-
tores: diferenças étnicas, diversidade de classes e interesses pessoais não eli-
minados pela independência. A Igreja estava decidida a manter sua grande
influência, interesses e posição privilegiada. A riqueza e o poder político per-
maneceram nas mãos de uma minoria.
Quanto às diferenças étnicas dos povos da América do Sul, mais ou
menos 19% eram brancos, 31% mestiços (pessoas mescladas com sangue
europeu e ameríndio), 45% nativos ameríndios e 4% negros.
A imensa maioria da população era completamente analfabeta. As clas-
ses mais elevadas com cultura não tinham qualquer experiência de governo
além dos cabidos, ou conselhos, e das organizações governamentais criadas
durante o período de libertação. A influência militar resultante do longo pe-
ríodo de guerras era muito forte.
Não existiam interesses comuns. Como consequência, as dissensões
políticas, econômicas, sociais e religiosas eram frequentes. A divisão entre
grupos conservadores e reformistas, intensamente opostos, foi inevitável. A
situação depois da independência exigia um governo firme e administradores
capazes. San Martín apoiou formas de governo monárquicas. Bolívar, teórico
da democracia e de convicções republicanas, mas que compreendia os proble-
mas em jogo, pedia um acordo entre monarquia e republicanismo.69 A maior
parte dos líderes intelectuais do movimento de independência era de republi-
canos idealistas, doutrinários e pouco práticos. Como resultado, adotaram-se
principalmente as estruturas republicanas, para as quais o povo estava menos
preparado. Os líderes republicanos debatiam-se entre um sistema unitário ou
federativo. O conflito de forças entre os novos Estados tornou inevitável um
longo período de instabilidade social e política.

ARGENTINA, CHILE, BRASIL E URUGUAI NO


SÉCULO XIX. PERSPECTIVA HISTÓRICA70

Com a finalidade de enquadrar melhor as origens da presença salesiana na


América do Sul, apresentamos alguns acontecimentos históricos da Argentina,
69
Os termos democrático e republicano devem ser entendidos no sentido dado pela Revolução
Francesa.
70
Estes apêndices históricos foram revistos com a ajuda do salesiano argentino padre Horácio López.

118

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 118 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Chile, Brasil e Uruguai, países nos quais a obra salesiana se estabeleceu durante
a vida de Dom Bosco.

Argentina
Após a conquista da independência, o sentimento de unidade era
frágil na Argentina, emergindo logo um importante problema político:
a adoção do sistema de governo republicano federativo ou centralizado.
Buenos Aires preferia o sistema unitário, mas as províncias, controladas
por líderes locais (caudillos) que temiam a preponderância da capital, pre-
feriam o sistema federativo. As províncias também queriam incluir o Pa-
raguai e o Uruguai no interior da nova nação, o que serviu de base para
complicações externas.
Em 1828, com a intervenção da Grã-Bretanha e o final da Guerra do
Brasil (entre o Império do Brasil e as Províncias do Prata), o Uruguai torna-se
um país independente. Separado da Espanha em 1811, era reclamado pelo
Brasil e considerado pela Argentina como parte das Províncias Unidas do Rio
da Prata (de fato, com várias províncias argentinas, participou da Liga Federal
ou Liga dos Povos Livres).
Em 1835, João Manuel Rosas assume a autoridade total de Buenos Aires;
12 províncias reconhecem o seu poder executivo na Confederação Argentina,
que se torna realidade. Rosas governa com poder absoluto na Província de
Buenos Aires, com grande ascendência sobre a Confederação, conservando
também sua representação exterior. Procurava levantar o prestígio argentino
no exterior e unir o Uruguai e o Paraguai à Federação.
Na década 1831-1841 surgem controvérsias com os Estados Unidos e a
Grã-Bretanha pelas ilhas Malvinas, cuja soberania reclamava e, com a França,
por causa do tratamento que os súditos franceses recebiam. Houve um blo-
queio francês no Rio da Prata (1838).
Em 1853, Justo José de Urquiza torna-se presidente da Argentina e em
1º de maio promulga a constituição federal, que a Província de Buenos Ai-
res recusou-se a aceitar. Ela estabelecia o mandato presidencial de seis anos,
o parlamento de duas câmaras e a independência do poder Judiciário. Em
1859, Buenos Aires é derrotada e em 10 de novembro une-se à confederação,
depois de se introduzir uma emenda constitucional.
Em 1o de maio de 1865, a Argentina assina uma aliança com o Uru-
guai e o Brasil. Enquanto isso, o Paraguai declara a guerra depois de a
Argentina recusar a permissão da passagem de tropas paraguaias pelo seu
território. A guerra termina em 1870, quando o ditador Francisco Solano

119

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 119 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

López é assassinado e o Paraguai praticamente aniquilado. Sua população


reduziu-se a uns 28 mil homens e pouco mais de 20 mil mulheres.
Durante os governos de Domingos Sarmiento (1868-1874) e Nico-
lau Avellaneda (1874-1880) foram potenciados a educação, o comércio e
a imigração; as fronteiras do país alargaram-se ao sul pela submissão dos
povos indígenas. O primeiro censo, em 1869, projetou uma população
de 1,7 milhão de pessoas. Os salesianos chegam pela primeira vez a Bue-
nos Aires e San Nicolás de los Arroyos em 1875, durante a presidência
de Avellaneda.
A influência de Buenos Aires, em cuja província viviam 30% da po-
pulação, fomentou a insatisfação em outras províncias, que formaram a
Liga de Córdoba, apoiando Júlio Roca para a presidência. Buenos Aires re-
correu à guerra civil para manter sua posição, mas foi derrotada. Em 1880,
a cidade de Buenos Aires, até o momento capital da Província homônima,
tornou-se distrito federal e foi nomeada capital permanente da nação. A
província de Buenos Aires foi reduzida ao mesmo status das outras provín-
cias e foi preciso erigir uma nova capital. Para tanto se fundou a cidade de
La Plata, aonde os salesianos chegaram em 1886, quando a cidade tinha
apenas quatro anos. Roca tornou-se presidente. Dessa forma, ficou resol-
vida a espinhosa questão da relação entre a província e a cidade de Buenos
Aires e o resto do país.
Sob o comando de Roca, continua o progresso econômico e as frontei-
ras com os índios vão mais para o sul. Em 1880, os salesianos fundam sua
primeira missão em Río Negro depois de acompanhar a expedição de Roca
até o sul em 1879. Em 1883, a Santa Sé cria o Vicariato da Patagônia e a
Prefeitura da Patagônia do Sul e Terra do Fogo, entregando-as a dom João
Cagliero e padre José Fagnano, ambos salesianos.
A especulação excessiva e a corrupção, em grande parte por culpa do
presidente Miguel Juárez Celman, provocam uma demanda de reformas.
Funda-se em 1890 um novo partido, a Unión Cívica, para garantir as refor-
mas e ampliar o direito ao voto.
Em julho de 1890 acontece uma revolta infrutuosa. Celman demite-se
e o vice-presidente Carlos Pellegrini assume o cargo.
Os governos sucessivos de Pellegrini (1890-1892), Luís Sáenz Peña
(1892­-1895), José Uriburu (1895-1898) e, novamente, Júlio Roca (1898-
1904) completam a ação de reabilitação econômica. Disputas fronteiriças
com o Brasil, em 1895, e com o Chile, em 1899 e 1902, esta última a ponto
de levar os dois países à guerra, foram dirimidas mediante arbitragem.

120

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 120 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Com Celman como presidente, em 1887, e enquanto Dom Bosco ago-


nizava, os salesianos fundam a primeira missão na Terra do Fogo, na cidade
de Punta Arenas, Chile.

Chile
Após a independência em 1818, o chefe supremo, Bernardo O’Higgins, es-
tabelece as bases do Estado chileno e funda um governo altamente centralizado.
Em 1826, sob o governo de Ramón Freire, adota-se um modelo de go-
verno federalista, mas Freire se vê obrigado a renunciar, e seu sucessor, Fran-
cisco Antônio Pinto, promulga no ano seguinte uma segunda constituição fe-
deral. Crescem os partidos políticos: o liberal, que advoga pela democracia e a
autonomia local, e o conservador, apoiado pelas classes mais altas e pelo clero,
que propugna um sistema centralizado com uma autoridade executiva forte.
Em 1829, estala a guerra civil. Os conservadores, sob a liderança de
Diego José Víctor Portales, vencem e permanecerão no poder até 1861. Em
1833, é adotada uma constituição decididamente centralista, que concede
grandes poderes ao presidente. O catolicismo mantém o status de religião
de Estado. Em 1836, o Chile opõe-se à formação da temida confederação
peruano-boliviana e em 11 de novembro declara guerra. Mais tarde, em
1839, as tropas chilenas, sob o comando de Manuel Bulnes, derrotam a
confederação na decisiva batalha de Yungay.
Durante os dois mandatos de Bulnes acontece um grande desenvolvi-
mento interno e dão-se passos para estender a soberania chilena sobre a re-
gião do estreito de Magalhães. Cria-se um novo partido liberal enfrentando
o controle oligárquico conservador e que defende o corte dos poderes presi-
denciais. Em 1851, Manuel Montt (1809-1880) sucede a Bulnes e desfruta
de dois mandatos. Continua o progresso material, promove-se a educação e
adotam-se algumas reformas liberais.
Com o apoio de Montt, em 1861 é eleito José Joaquim Pérez, aceitável
para os liberais, marcando uma mudança para maior democracia e mudança
no poder a favor de elementos intelectuais e comerciais. Pérez governou em
duas ocasiões, durante as quais aumentou o desenvolvimento interno e inves-
tiu-se capital no Peru e na Bolívia pela exploração do guano e do nitrato. As
terras dos ameríndios araucanos converteram-se parcialmente em território
nacional como raiz da sua submissão total.
Durante o mandato do liberal Frederico Errázuris, em 1871, promove-
-se a educação, adotam-se reformas anticlericais, introduzem-se reformas que
levam a maior democratização enquanto continua o progresso econômico.

121

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 121 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Em 1876, estala a “guerra do Pacífico”, do Chile contra o Peru e a


Bolívia. O Chile sai vitorioso em vista da sua superior eficiência governa-
mental, militar e naval, e emerge como potência inquestionável na América
do Sul ocidental.
Em 20 de outubro de 1883, pelo tratado de Ancón, o Peru cede a pro-
víncia de Tarapacá e o Chile ocupa as regiões fronteiriças de Tacna e Arica
durante dez anos, depois dos quais se realiza um plebiscito.
Em 1884, pelo tratado de Valparaíso, o Chile mantém a posse das regiões
costeiras da Bolívia. Obtém, assim, territórios ricos em nitrato, de grande im-
portância para a estrutura econômica nacional. Depois de terminar a guerra,
adotam-se reformas religiosas e administrativas, mas fracassam as tentativas de
separar o Estado da Igreja. As reformas do presidente Santa Maria levantam
muita oposição do lado conservador e o partido liberal se divide.
Em 1877, os salesianos estabelecem-se em Concepción, durante a pre-
sidência de Balmaceda. A missão da Terra do Fogo é fundada em 1887 em
Punta Arenas, Chile.

Brasil
O Brasil, que fora refúgio da família real portuguesa durante a ocupação
de Napoleão (1880-1814), proclamou sua independência de Portugal, ele-
gendo dom Pedro, filho do rei português, como imperador.
O descontentamento com as atuações do imperador leva algumas
províncias do norte à formação, em 2 de julho de 1824, da Confederação
do Equador, de orientação republicana; o movimento foi sufocado em 17
de setembro.
A província Cisplatina, também chamada Banda Oriental do Uruguai,
anexada ao Império em 1816, opõe-se a participar do Brasil e aspira pela in-
dependência. Por sua vez, as Províncias Unidas do Rio da Prata (Argentina) a
reclamava como parte da confederação.
Em 1825, estala a guerra entre Brasil e Argentina pela Banda Oriental
ou Uruguai, na qual o Brasil foi derrotado na batalha de Ituzaingo, em 20 de
fevereiro de 1827. Com a intervenção da Grã-Bretanha, o Uruguai tornou-
-se independente em 27 de agosto de 1828. A perda do Uruguai aumentou
a impopularidade do imperador. A oposição a Pedro I surge por causa das
tendências autocráticas, sua preferência por conselheiros portugueses e, so-
bretudo, pelo interesse mantido pelos assuntos de Portugal, querendo garan-
tir o trono português para sua filha Maria da Glória. Em 7 de abril de 1831,
enfrentando a oposição, Pedro I vê-se forçado a abdicar em favor de seu filho

122

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 122 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

de 5 anos, Pedro de Alcântara (Pedro II, 1825-1891). Durante o período de


regência domina a anarquia provocada pelas lutas entre facções e as revoltas
provincianas, sendo a mais perigosa o movimento separatista do Rio Grande
do Sul (1835-1845). Para antecipar o governo direto do monarca, Pedro II
recebeu a maioridade aos 15 anos, em 1840.
As revoltas provincianas cessaram e começou um período de ordem e
progresso, alternando-se o controle constitucional entre os partidos liberal
e conservador. Após 1850, deu-se grande avanço econômico. A agricultu-
ra, o comércio e a indústria desenvolveram-se; a ferrovia, impulsionada pelo
governo, aumentou de mil quilômetros em 1870 para 10 mil em 1889. A
produção de açúcar e café e a pecuária foram decisivas em várias províncias
brasileiras. A produção de borracha teve o seu auge na bacia do Amazonas de-
pois de 1880. Em 1850, estimava-se uma população de 8 milhões de pessoas,
incluindo 2,5 milhões de escravos. Em 1872, eram mais de 10 milhões, com
1,5 milhão de escravos. Em 1889, mais de 14 milhões. O movimento para a
emancipação dos escravos cresceu rapidamente a partir de 1850.
Em política exterior, o Brasil procurou estender sua influência a oeste
e sudoeste, intervindo nos assuntos do Uruguai e opondo-se à política do
presidente argentino, Rosas, ajudando a derrubá-lo.
Por volta de 1870, o republicanismo começa a crescer, originariamente
como movimento de intelectuais. Forma-se um partido republicano. A mo-
narquia foi-se enfraquecendo aos poucos por vários fatores: o descontenta-
mento do exército com a política pacificadora de Pedro II depois de 1870,
os atritos com o clero, a rápida expansão do sentimento republicano entre o
povo, a alienação dos aristocratas proprietários de terras por causa da eman-
cipação dos escravos, o desaparecimento virtual da autonomia das províncias
e a impopularidade do francês, Gastão de Orleans, conde d’Eu, esposo da
princesa Isabel, filha de Pedro II.
Em 1889, o exército, às ordens do general Manoel Deodoro da Fonseca,
levantou-se e depôs o Imperador em 15 de novembro. Imediatamente é pro-
clama a república e estabelece-se um governo provisório. Em 24 de fevereiro
1891, é proclamada uma nova constituição, estabelecendo uma república fe-
derativa, os Estados Unidos do Brasil, e uma dupla câmara de representantes.
O presidente seria eleito a cada quatro anos. A separação entre Igreja e Estado
é definitiva. Deodoro da Fonseca foi eleito presidente.
O funcionamento do governo da nação durante a república foi muito
difícil desde o início, por causa da grande taxa de analfabetismo (estimada
em 80% em 1910!). A inexperiência política e a intolerância, a ausência de

123

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 123 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

autênticos partidos políticos e a tendência para um governo militar aumen-


taram as dificuldades.
Os salesianos fundaram sua primeira obra no Brasil, em Niterói, à frente
do Rio de Janeiro, em 1883.

Uruguai
Uruguai é o nome do grande rio que nasce no Brasil, corre de norte a
sul e une-se ao rio Paraná para formar o rio da Prata. A leste do rio Uruguai
e ao sul do Brasil há um território relativamente pequeno, a chamada Banda
ou margem Oriental. Esse território, atual Uruguai, ficou independente da
Espanha juntamente com o Paraguai e a Venezuela em 1811, mas continuou
a ser motivo de disputa entre Argentina e Brasil, até se tornar Estado inde-
pendente.
Em 27 de agosto de 1828, o Uruguai converte-se em Estado soberano
com o tratado que dá fim à guerra entre Brasil e Argentina sobre o status da
Banda Oriental. Redige-se uma constituição para a Banda Oriental do Uru-
guai, aprovada pelo Brasil e Argentina em 26 de maio de 1830.
Surgem algumas lutas entre facções e criam-se dois partidos, blancos e
colorados, encabeçados respectivamente por Manuel Oribe e Frutuoso Rivera.
Rosas, governador da Província de Buenos Aires e responsável pelas relações
exteriores das Províncias Unidas do Rio da Prata, para favorecer sua política,
apoia Oribe, enquanto Rivera recebe ajuda de forças francesas. Após a reti-
rada dos franceses em 1843, seguiu-se um acordo entre o cônsul francês e
Rosas. Oribe iniciou um assédio de oito anos à capital Montevidéu. Durante
o período do cerco do Rio da Prata, tropas francesas e inglesas ocupam terri-
tório uruguaio para controlar o argentino Rosas.
As contínuas desordens internas levam a uma prolongada guerra civil
entre o partido dos blancos com seu presidente Anastácio Aguirre e o governo
dos colorados, de Flores. Os blancos prevalecem. Quando o Brasil reclama pe-
las vexações sofridas por cidadãos brasileiros e Aguirre mostra-se intransigen-
te, chega-se a um acordo com Flores, e as forças brasileiras ocupam cidades
fronteiriças do Uruguai (1864-1865).
Em 1865, Flores ocupa Montevidéu e assume o governo. Dado que
Francisco Solano López, ditador do Paraguai, tinha relações com Aguirre,
estalou a guerra do Paraguai, em que o Uruguai, sob o governo colorado,
aliou-se ao Brasil e Argentina para aniquilar o Paraguai.
A guerra é seguida, nos anos 1870 a 1872, de um prolongado conflito
civil entre blancos e colorados, do qual estes últimos saem vitoriosos. Mas

124

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 124 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

as excessivas alternâncias de governo, embora estando sempre os colorados


no poder, demonstram a instabilidade política. Entretanto, dá-se um grande
avanço econômico. A agricultura desenvolveu-se enormemente, o comércio
cresceu e foi construída uma grande rede ferroviária. Puseram-se as bases do
sistema público de educação. A população, estimada em 70 mil pessoas em
1830 chegou a 224 mil em 1860 e a quase um milhão em 1900.
Em 1877, é fundada a primeira casa salesiana do Uruguai, na Villa Co-
lón (Montevidéu) e, no ano seguinte, nova fundação em Las Piedras, a noro-
este de Montevidéu.

O CATOLICISMO NA AMÉRICA LATINA NO


SÉCULO XIX71

Coexistiam no século XIX duas concepções opostas de Igreja e Socieda-


de. Uma propunha o absolutismo político; a outra defendia a soberania popular.
No final do século XVIII, o clérigo peruano Vicente Amil y Feijoo re-
compilou uma série de argumentos teológicos em defesa do absolutismo po-
lítico, convertendo-se assim no novo porta-voz de um dos aspectos mais tra-
dicionais do variado catolicismo da América hispânica: se o príncipe usa bem
ou mal o seu poder, esse poder é sempre dado por Deus... Mesmo quando o
seu governo é tão tirânico que deixa de ser príncipe e se converte em demô-
nio, mesmo assim... devemos ser fiéis, sem nos permitimos outro recurso que
pedir a Deus, Rei dos Reis, que nos ajude em nossas tribulações.
Grande parte do clero estava em desacordo com a doutrina autoritá-
ria, convencida de que a Igreja deveria ser um instrumento para proteger
os cidadãos contra os abusos políticos, sociais e econômicos. Os que defen-
diam esta ideia enfatizavam a importância da lei natural e sustentavam que
o verdadeiro papel da religião não era reforçar a autoridade política, mas
garantir os direitos dados por Deus a todos os indivíduos da sociedade. O
padre peruano Turíbio Rodríguez de Mendoza, na década de 1790, reformou
sub-repticiamente o currículo de um dos principais colégios de Lima, o Real
Convictorio de San Carlos, para que se insistisse na soberania popular e nos
direitos naturais da pessoa.
Desde os inícios do século XIX, encontram-se exemplos do conflito en-
tre as ideias dos padres Amil y Feijoo e Rodríguez de Mendoza em toda a

71
Cf. R. Aubert (ed.), The christian centuries. Vol. V. Nova York-Londres: Darton, Longman &
Todd, 1978, 321-329, 333-335.

125

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 125 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

América do Sul. De fato, não é fácil determinar qual era a verdadeira natureza
do catolicismo na América hispânica.
Não se tratava de uma situação nova. Na América espanhola, como na
Pátria-Mãe, sempre houvera disputas sobre se o catolicismo devia servir como
instrumento de repressão, recalcando interpretações reducionistas do posi-
tivismo da lei divina em favor de uma elite privilegiada, ou como meio de
defender os direitos dos mais humildes, de acordo com os princípios da lei
natural e dos conceitos mais humanitários e liberais, que sempre foram asso-
ciados à fé. De modo que, nos inícios do período independentista, a Igreja
estava enfraquecida por uma séria dissensão interna.
Além disso, devia mover-se num contexto social e político que se tornara
decididamente hostil por causa do predomínio de sentimentos anticlericais.
A essência do anticlericalismo era uma atitude de desconfiança e também ani-
mosidade pela organização administrativa da Igreja e até do clero em geral.
Sugeriu-se que existisse na mentalidade crioula uma tendência a certas
crenças heréticas relacionadas com o quietismo, ou seja, a identificar a vonta-
de própria com a divina e questionar o valor da prática sacramental da Igreja
institucional e de seus ministros.
Aos problemas surgidos das divisões internas e do sentimento anticle-
rical imperante, logo se acrescentaram outros. A questão do favorecimento:
enquanto a independência era concretizada, surgia uma acalorada disputa
entre os capelães militares e os oficiais sobre o direito de conceder ou reco-
mendar alguém para um determinado cargo. A questão dos impostos: o clero
e os líderes políticos começaram a discutir sobre se os governos nacionais
deviam continuar com a tradição colonial de recolher dízimos para a Igreja. A
questão dos tribunais da Igreja e do privilégio de isenção judicial; autorizados
pelo foro eclesiástico dos tempos coloniais, eram atacados agora tanto por in-
telectuais como pelos burocratas do governo. Além disso, os vastos territórios
e riquezas da Igreja levantavam uma crescente crítica dos leigos e também de
alguns clérigos.
Os temas do favorecimento, dos impostos, dos tribunais eclesiásticos e
da propriedade da Igreja foram contestados intensamente em várias nações
europeias há séculos e, iniciado o século XIX, foram, em grande parte, re-
solvidos. No Brasil e na América hispânica, estas questões incômodas apare-
ceram pela primeira vez em 1800 e foram resolvidas no transcurso de várias
décadas violentas.
Depois de obter a independência, os políticos latino-americanos come-
çaram a olhar para a Europa a fim de inspirar-se em suas ideias. Encantados,

126

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 126 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

em geral, com os preceitos liberais do século XIX, foram particularmente


permeáveis aos aspectos anticlericais do liberalismo. Algum tempo depois,
particularmente no México, Chile, Brasil e em grau considerável na Argen-
tina, Venezuela e Peru, os intelectuais e os líderes políticos porfiaram-se com
as ideias positivas de Augusto Comte e, em nome do positivismo, atacaram
muitas das práticas e crenças do catolicismo.72
Em seguida, na medida em que o nacionalismo se fazia sempre mais re-
levante na América Latina, alguns de seus porta-vozes, que viam a necessida-
de de defender as tradições do passado colonial, denunciaram a Igreja como
instituição extranacional que, embora lhe fosse permitido existir nos novos
Estados nacionais, devia despojar-se de todo poder temporal. Além disso, nos
inícios do período independentista, a Igreja viu-se envolvida no problema de
identidade que assolava as novas repúblicas.
Muitos dos principais líderes intelectuais e políticos estavam preocu-
pados com o progresso e o desenvolvimento econômico; identificavam-se
com os valores que, segundo eles, os levariam a um rápido desenvolvimento.
Parecia-lhes primordial inculcar nos cidadãos os incentivos econômicos, os
instintos competitivos e as diretrizes capitalistas associadas à busca indivi-
dualista da riqueza. Outros, ao contrário, desejavam conservar a orientação
essencialmente medieval dos valores culturais, que foram uma característica
da era colonial. Questionavam a importância do desenvolvimento material
e procuravam mudar os incentivos do capitalismo individualista, mantendo
a primazia das recompensas espirituais, não as materiais, o coletivismo da
organização artesanal, os sistemas rurais e o latifúndio. Em grande parte,
embora não exclusivamente, os homens de Igreja pertenciam a este segundo
grupo. Os clérigos, em muitos casos, também garantiam que o individualis-
mo capitalista devia ser refutado, porque, numa análise de fundo, era fruto
do protestantismo, que exagerava a importância da consciência individual em
temas de religião.
No final do século, por toda a América Latina, com a sugestiva exceção da
Colômbia e parcialmente do Peru, a Igreja perdera a maioria das batalhas que
mantivera com os governos civis. Seu poder econômico e político, como tam-
bém sua influência nos âmbitos culturais e intelectuais, viram-se seriamente

72
Augusto Comte (1798-1857), filósofo e sociólogo, criador do positivismo, teoria que consi-
derava a teologia e a metafísica como formas imaturas e imperfeitas de conhecimento; o saber positivo
seria baseado nos fenômenos naturais, suas leis e relações como verificadas pelas ciências empíricas. Na
esfera sociopolítica, o positivismo afirmava que as leis são normas sociais, válidas quando promulgadas
pelo soberano ou quando derivadas logicamente de decisões preexistentes; a avaliação ideal ou moral,
ou seja, se uma lei é injusta, não deveria limitar sua finalidade ou sua aplicação.

127

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 127 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

enfraquecidos; como instituição temporal, tinha mínima influência. Desalen-


tados diante da situação, os homens de Igreja costumavam atribuir o declínio
do poder e do prestígio da Igreja à instabilidade crônica e ao fermento revolu-
cionário que atormentavam as novas repúblicas.
Ainda em meados do século, boa parte das autoridades eclesiais e seus
partidários leigos insistiram que o catolicismo da era colonial constituía a
única tradição comum sobre a qual os latino-americanos poderiam construir
uma sociedade disciplinada, reiterando o aspecto autoritário do catolicismo
tradicional. Alguns, inclusive, arguiam que a função das classes inferiores era
servir às classes superiores, sem questionamentos.
Os que sustentavam tal postura jamais foram capazes de obter consenso
amplo que apoiasse sua visão da verdadeira tradição católica. Não foram nem
sequer capazes de tranquilizar os que, dentro da própria Igreja, como padre
Rodríguez de Mendoza, associavam a tradição católica à defesa dos direitos
de todas as pessoas e, especialmente, das que eram menos capacitadas para
defender seus próprios direitos. Os partidários dessa tradição eram herdeiros
espirituais de Bartolomeu de Las Casas, o dominicano espanhol protetor dos
índios, que sustentava a igualdade de todos.
Se os eclesiásticos que identificavam o aspecto autoritário e jerárquico
do catolicismo com a verdadeira tradição nacional se impuseram por longo
tempo sobre seus opositores na Igreja foi, sobretudo, porque sua visão refle-
tia a dos leigos que estavam no poder, embora estes fossem anticlericais e se
negassem a associar-se à Igreja como aliado político. A classe dirigente latino-
-americana atuava em geral para defender uma ordem política que insistia
na importância da autoridade e dos direitos das classes altas, assim como os
deveres e obrigações das classes baixas. Dada a rígida estrutura classista man-
tida durante séculos, os líderes políticos eram quase incapazes de imaginar
um tipo diferente de ordem social.
Apenas no final da década de 1850, começou a ganhar adeptos entre as
autoridades eclesiásticas a tendência do catolicismo que se referia à tradição
de Las Casas e que insistia na responsabilidade das classes altas e nos direitos
do povo. Isso aconteceu, em parte, porque os líderes civis, diante de novas
demandas sociais e econômicas, começaram então a descartar os valores aris-
tocráticos do século anterior. Viram-se obrigados a reconhecer a necessidade
de uma sociedade mais aberta e plural, ao mesmo tempo em que lutavam
pelo maior desenvolvimento político, pela modernização e a estabilidade.
A rivalidade entre as duas tradições católicas, a interação entre elas e os
valores predominantes na sociedade temporal determinaram enormemente o

128

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 128 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

curso do catolicismo latino-americano, tanto em seu desenvolvimento como


em sua relação com os órgãos políticos. O fato de os líderes eclesiásticos não
terem encontrado, no início de 1870, um termo médio entre as duas tradi-
ções, dificultou seriamente a tentativa de a Igreja aproveitar um ambiente
político que se tornara mais favorável.

A IGREJA E AS SOCIEDADES LATINO-AMERICANAS


NO FINAL DO SÉCULO XIX

Tendências conservadoras e liberais


Por aproximadamente vinte anos, depois da efetivação da indepen-
dência a partir de 1810, os liberais latino-americanos estavam preocupados
principalmente com considerações políticas. Opunham-se aos esquemas
monárquicos e favoreceram a extensão da participação política e a amplia-
ção do voto. Em geral, apoiavam o federalismo ao mesmo tempo em que
atacavam os males da autoridade centralizada; sustentavam, também, que
os grandes exércitos eram uma ameaça para as liberdades individuais. Os
liberais também acreditavam que a supremacia parlamentar poderia resolver
os problemas.
Entre a primeira geração de liberais podem-se contar muitos membros
do clero nativo; em alguns países eram, inclusive, a maioria. Estes sacerdotes
assimilaram as ideias do iluminismo durante seus anos de seminário, sem
ignorar por completo os temas teológicos. Alguns deles mantinham posições
jansenistas em questões como a interpretação da graça, ou favoreciam posi-
ções deístas, que não deixavam lugar à Providência nos assuntos humanos.
Além disso, muitos liberais acreditavam que seus respectivos países deviam
imitar o modelo dos Estados Unidos e adotar a tolerância religiosa e a sepa-
ração entre Igreja e Estado. Mesmo assim, a grande maioria dos primeiros
liberais latino-americanos, tanto clérigos quanto leigos, dava uma importân-
cia capital aos problemas políticos e econômicos, deixando de lado os temas
meramente religiosos.
Os conservadores latino-americanos, iniciado o período da indepen-
dência, estavam preocupados principalmente com os temas políticos e eco-
nômicos. Segundo seu modo de ver, conservadorismo significava essencial-
mente centralismo autoritário. O que implicava o governo de uma pequena
elite respaldada por um exército poderoso, o predomínio do poder executivo
sobre o legislativo e a proteção dos grupos privilegiados. No momento de
lutar para obter esse tipo de estrutura político-econômica, os conservadores

129

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 129 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

não acreditavam ter qualquer afinidade com a Igreja; ao contrário, incomo-


davam-se por existirem líderes do clero com visão política liberal.
Nos primeiros anos depois da independência, os conservadores latino-
-americanos conseguiram, em geral, conter os principais ataques dos liberais.
Estes só conseguiram evitar o estabelecimento de governos monárquicos nos
novos Estados, exceto no Brasil, onde também fracassou a experiência imperial.

Os neoliberais e conservadores em conflito e a postura do clero


No final da década de 1830, surgira uma nova geração de liberais,
que ganhou força nos anos sucessivos. Animados pela Revolução Liberal na
Europa em 1848, serviram-se da convicção crescente entre os intelectuais
latino-americanos de que a corrente do futuro era o liberalismo. Em mea-
dos do século, os liberais puseram seus opositores na defensiva em muitas
repúblicas, exceto na América Central, onde os conservadores foram em
geral vencedores.
Nos dez ou vinte anos depois de 1848, o domínio político-social alternou
entre liberais e conservadores, com a consequente instabilidade política. Ainda
em meados da década de 1830, a alternativa liberal-conservadora assumira
um novo aspecto em muitos lugares. O clero começava a desertar das fileiras
liberais, desiludido em parte pelo contínuo caos político, que atribuíam a um
suposto relaxamento moral. Esperavam solucioná-lo com o governo autoritário
de líderes políticos dispostos a aceitar a orientação da Igreja.
Além disso, desde 1840, a América Latina começara a receber uma onda
de imigração clerical, devido à escassez de padres. Os clérigos estrangeiros
eram em geral mais bem formados; também devido às experiências vividas
na Europa, eram mais conservadores do que seus colegas nativos. Os padres
estrangeiros souberam ganhar sempre mais para a causa conservadora os na-
tivos, anteriormente liberais.
A postura conservadora adotada pelos homens de Igreja na América La-
tina pode ser entendida como reação às mudanças que uma nova geração de
intelectuais estava introduzindo no movimento liberal. Esses jovens começa-
vam a considerar como requisito prévio para a implantação de seu programa
a transformação da organização tradicional da Igreja e de seus ritos. Pareciam
convencidos de que os costumes democráticos nunca poderiam ser introduzi-
dos na política enquanto a poderosa e influente Igreja não tivesse liberalizado
sua própria estrutura. Em nome da igualdade de todos os cidadãos, os liberais
insistiam na abolição dos privilégios e imunidades da Igreja, que era a marca da
sua estrutura tradicional corporativista. Em nome da liberdade de pensamento

130

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 130 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

demandavam a liberação do exercício do ensino que a Igreja reclamava para si,


tanto em temas religiosos como profanos. Os neoliberais procuravam comple-
tar o controle absoluto da Igreja por parte do Estado. Até mesmo os liberais
afirmavam frequentemente que a riqueza e o poder temporal da Igreja eram
contrários aos primeiros ideais cristãos e, por isso, desejavam despojá-la de sua
riqueza para que não pudesse realizar suas tarefas benéfico-sociais. Segundo
a visão liberal, a beneficência encorajava a preguiça, impedia a expansão dos
valores competitivos do capitalismo entre as massas e, por isso, retardava o pro-
gresso econômico. Enfim, em nome do federalismo e da autonomia local, os
liberais exigiam que a Igreja se libertasse do controle centralizado exercido pelo
Vaticano. Alcançado este objetivo final, poderiam estimular o individualismo
no âmbito religioso e igualá-lo ao individualismo que procuravam introduzir
no âmbito temporal.
Os padres conservadores reagiram energicamente ao neoliberalismo,
que exigia reformas da estrutura interna da Igreja. Queriam que a sociedade
refletisse a organização tradicional da instituição eclesiástica, sublinhando a
ordem, a autoridade e a jerarquia. Enfrentavam os liberais, que percebiam
não poder existir uma nova sociedade enquanto a Igreja mantivesse sua posi-
ção rígida. Temiam, também, que a vida da Igreja fosse ameaçada.
Antes do final da década de 1840, o clero, em sua maioria, adotara uma
posição aceitável aos olhos da classe governante conservadora, que conside-
rava a geração anterior dos padres liberais como seus inimigos. Como con-
sequência, forjou-se uma aliança entre os líderes políticos conservadores e o
clero católico conservador. Ambos temiam e opunham-se às pretensões de
igualdade no âmbito político e por isso desconfiavam da classe média emer-
gente e enérgica.
Unidos, em meados do século XIX, na causa conservadora, os sacerdotes
e seus aliados civis defenderam a filosofia social do paternalismo. Sua crença
fundamental era que a ordem natural da sociedade consistia na existência
de uma classe baixa imóvel, permanentemente ocupada nas tarefas mais hu-
mildes. Essas pessoas não podiam aspirar à ascensão social, pois qualquer
tentativa sua ameaçaria a ordem jerárquica providencialmente estabelecida.
Opostamente, o sucesso social dos liberais latino-americanos foi dar às
classes baixas a possibilidade de ascender no status social. Na medida em que
o sistema desenhado por eles começasse a funcionar, já não seria necessário
que as classes altas precisassem tomar medidas especiais para proporcionar
conforto e segurança às massas; pois bem, as massas deveriam resolver seus
próprios problemas graças às medidas de desenvolvimento proporcionadas
pelos governos liberais.

131

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 131 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Que um grande número de pessoas das classes baixas conseguisse me-


lhorar suas condições de vida convenceu os liberais de que já existiam opor-
tunidades suficientes. Conceder às classes baixas mais oportunidades seria,
em sua opinião, economicamente desaconselhado e moralmente injustifi-
cado. Os liberais, principalmente na medida em que iam aderindo a uma
das escolas do positivismo que floresciam na América Latina, sentiram-se
atraídos pela conveniência proporcionada por uma sociedade estratificada.
Começaram por negar às classes baixas a possibilidade de melhorar e, aos
poucos, tornaram-se indiferentes à hora de proporcionar-lhes oportunidades
de prosperidade. Os líderes políticos, do México à Argentina, consideravam
a população indígena de raça inferior e incapaz de melhorar a si mesma e
contribuir para o desenvolvimento de seus países.
Por outro lado, os conservadores começaram a questionar a viabilidade
da proteção paternalista a grupos que não conseguiam trazer benefícios eco-
nômicos. No final do século, parecia que a única diferença entre conservado-
res e liberais estava no poder temporal que se podia permitir à Igreja.
Como resultado da situação, o problema social começou a adquirir pro-
porções perigosas no final do século. Iniciado o século XX, as classes go-
vernantes, tanto conservadoras quanto liberais, precisaram ou buscar uma
solução ou enfrentar-se numa revolução inevitável.73

A Igreja católica e o Estado liberal na Argentina e Chile


No final do século XIX, a Igreja, no México e na América Central, fora
excluída da estrutura de poder de forma determinante. A situação na Argentina
e no Chile resultara de um processo mais pacífico do que em outras repúblicas.
A disputa entre liberais e conservadores surgira na Argentina durante a
década de 1820 quando Bernardino Rivadavia, governador da província de
Buenos Aires e futuro presidente da Argentina unificada, procurou abolir
os tribunais eclesiásticos, fundou uma sociedade beneficente para neutra-
lizar o monopólio exercido pela Igreja sobre essa atividade e esforçou-se
por criar um sistema educativo público estatal; e, ainda mais, chegou a
confiscar os bens eclesiásticos no estilo do que fora feito no tempo de Dom
Bosco no Piemonte.
73
Deve-se notar este aspecto porque é sintomático para entender muitas coisas que passaram
e passam na América ibérica, e não só ali, onde as classes populares continuaram a ser submetidas e
utilizadas de um lado e de outro. Assim, no século XX, as manifestações populares e politicamente
populistas voltaram a servir-se das classes populares, às quais se supõe deviam defender, até o ponto de
o melhor capital para os políticos liberais, conservadores, de direita ou de esquerda, serem os pobres e,
como capital, são manipulados politicamente. [Nota dos responsáveis da edição castelhana.]

132

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 132 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

Os esforços de Rivadavia foram, em grande medida, inúteis. Entre os


anos 1829 e 1851, a Igreja foi beneficiada com a atitude favorável de João
Manuel de Rosas, considerado pelos católicos conservadores da Argentina
como o continuador da idade de ouro que existira na época colonial, quando
a sociedade era estruturada sobre modelos jerárquicos e imbuída de princí-
pios católicos.
No início da década de 1860, cerca de dez anos depois da deposição de
Rosas, o liberalismo, com orientação claramente positivista, subiu ao poder
na Argentina. Estabeleceu-se um sistema educativo público que proibia o
ensino religioso. O anticlericalismo converteu-se em um dos poucos pontos
que uniam o aristocrático Partido Autonomista Nacional, dominante entre
1874 e 1916, com outros grupos políticos. Havia o consenso generalizado de
que se devia negar à Igreja um poder que impedia o progresso ao impor ao
poder temporal os seus valores supostamente arcaicos.
A supressão do poder temporal da Igreja contribuiu, sem dúvida, para
criar um clima intelectual que facilitou o extraordinário avanço econômico
da Argentina na década de 1880. Os líderes da nação, porém, não se preocu-
param em fazer reformas sociais; em parte, por causa do menosprezo racista
pela população mestiça das províncias do interior.
Como na Argentina, também no Chile, a Igreja católica, que fora insti-
tuição comparativamente fraca na época colonial, sofreu uma perda de poder
na segunda metade do século XIX. A confrontação entre a Igreja e o Estado
começou em 1845, quando Rafael Valentim Valdivieso y Zanartu tornou-
-se arcebispo de Santiago. Ele estava convencido de que não podia haver
acordo com o novo espírito secular e liberal de seu tempo. Com suas ações,
o arcebispo parecia indicar que buscava uma estrutura teocrática e que não
era partidário do equilibro de poder entre a Igreja e o Estado em relação aos
assuntos temporais. À medida que a situação política evoluía, o arcebispo
encontrava apoio numa nova força política, o incondicionalmente católico e
pró-clerical Partido Conservador; este partido proclamava que ser seu mem-
bro aproximava mais de Deus...
O arcebispo encontrou um rival implacável no presidente Manuel
Montt (1851-1861), que estava absolutamente decidido de que o Estado
era supremo em assuntos temporais e não devia, sob qualquer pretexto, ce-
der qualquer prerrogativa à Igreja. Com sua oposição ao arcebispo, Montt
afastou-se de muitos chilenos tradicionalistas e, indiretamente, deu asas aos
ideólogos do Partido Liberal, que aspiravam eliminar qualquer vestígio de
poder político da Igreja e alterar sua estrutura interna.

133

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 133 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Na década de 1870, os liberais chilenos, aliados ao ainda mais anticleri-


cal Partido Radical, reduziram o Partido Conservador praticamente à impo-
tência política. Apesar de a Igreja recorrer à excomunhão em massa, a maioria
dos privilégios da Igreja foi eliminada. Já não havia tribunais exclusivamente
eclesiásticos, e o Estado já não recolhia dízimos para a Igreja; esta tampouco
exercia o monopólio dos cemitérios, da educação e do matrimônio. Os ecle-
siásticos protestaram em vão pelas influências heréticas e ímpias que, segundo
diziam, estavam destruindo as únicas tradições verdadeiras do país.
Como no restante da América Latina, o triunfo dos valores seculares e
anticlericais no Chile pode ter contribuído para criar um ambiente de opi-
nião que o levou a grande desenvolvimento econômico. Entretanto, durante
o processo, exacerbaram-se os problemas sociais. Milhares de camponeses
amontoaram-se nas principais cidades do país, durante a grande transforma-
ção demográfica do final do século XIX; viram-se privados das práticas pa-
ternalistas que, por vezes, mitigaram os rigores de suas vidas no campo. Nas
cidades, estavam sujeitos à exploração sem controle por parte do capitalismo
emergente que, levado pelos valores do liberalismo do laissez-faire, abdicava
de qualquer responsabilidade social.

Porto de La Boca (Buenos Aires), em 1879.

RECOMENDAÇÕES DE DOM BOSO AOS PRIMEIROS


MISSIONÁRIOS

Ao término da cerimônia de partida na igreja de Maria Auxiliadora em


11 de novembro de 1875, cada missionário que partia recebeu de Dom Bos-
co uma pequena lembrança com vinte conselhos:

134

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 134 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 1. Origem e primeiro desenvolvimento

1. Procurai almas e não dinheiro, honras, dignidades.


2. Usai de caridade e suma cortesia para com todos, mas evitai as conversas
e a familiaridade com pessoas de outro sexo ou de procedimento suspeito.
3. Não façais visitas a não ser por motivo de caridade e necessidade.
4. Nunca aceiteis convites para refeições senão por gravíssimos motivos. Nes-
ses casos, procurai ter um companheiro.
5. Cuidai de modo especial dos doentes, meninos, velhos e pobres, e ganhareis
as bênçãos de Deus e a benevolência dos homens.
6. Sede obsequiosos com todas as autoridades civis, religiosas, municipais e
governativas.
7. Encontrando na rua alguma pessoa de autoridade, cumprimentai-a res-
peitosamente.
8. O mesmo fareis com os eclesiásticos ou membros de institutos religiosos.
9. Fugi do ócio e das discussões. Grande sobriedade nos alimentos, nas bebi-
das e no repouso.
10. Amai, reverenciai, respeitai as outras ordens religiosas e falai sempre bem delas. É
esse o meio de vos fazerdes estimar por todos e promover o bem da Congregação.
11. Tende cuidado da vossa saúde. Trabalhai, mas não além do que comportam
as vossas forças.
12. Fazei que o mundo conheça que sois pobres, no vestuário, no alimento, na
habitação e sereis ricos diante de Deus, e conquistareis o coração dos homens.
13. Amai-vos, aconselhai-vos e corrigi-vos mutuamente, mas não haja nunca
entre vós inveja nem rancor; antes, o bem de um seja o bem de todos; as
penas e os sofrimentos de um considerem-se como penas e sofrimentos de
todos, e procure cada um afastá-los ou ao menos minorá-los.
14. Observai as vossas Regras e nunca vos esqueçais, do exercício mensal da
boa morte.
15. Cada manhã recomendai a Deus as ocupações do dia, especialmente as con-
fissões, aulas, catecismos e pregações.
16. Recomendai constantemente a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora e a
Jesus Sacramentado.
17. Aos meninos recomendai a confissão e a comunhão frequentes.
18. Para cultivar as vocações eclesiásticas, inculcai: 1) amor à castidade; 2) hor-
ror ao vício oposto; 3) fuga dos maus; 4) comunhão frequente; 5) caridade
com sinais de bondade e especial benevolência.
19. Nas coisas contenciosas, antes de julgar, ouçam-se ambas as partes.
20. Nas fadigas e sofrimentos não nos esqueçamos de que nos aguarda um gran-
de prêmio no céu. Amém.

135

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 135 28/07/14 16:35


Capítulo IV

PRESENÇA SALESIANA NA AMÉRICA DO SUL.


2. VOCAÇÃO MISSIONÁRIA DE DOM
BOSCO, TOMADA DE CONSCIÊNCIA E
OPÇÃO PELAS MISSÕES

Depois de narrar como Dom Bosco chegou à decisão de ir para a Amé-


rica do Sul e fundar a obra salesiana na Argentina e Uruguai, tendo como
destinatários prioritários os imigrantes italianos, ficou evidenciado que as
obras estabelecidas em Buenos Aires, Montevidéu e, depois, em Niterói
(Brasil) e Concepción (Chile) não eram diferentes das de Turim ou Gênova.
Em todas elas, com escolas ou paróquias, atendiam-se os pobres, imigrantes
em sua maioria.
Agora, para abordar a história dos inícios das missões salesianas propria-
mente ditas, ou seja, entre as tribos nativas de ameríndios, descreve-se o com-
promisso crescente de Dom Bosco com a ideia das missões e o início histórico
das missões salesianas, no contexto da fundação da obra salesiana (1880).

1. Vocação missionária de Dom Bosco e opção pelas


missões1
Em 1876, Dom Bosco contou a Pio IX um sonho que ele recordava
ter tido em 1871 ou 1872, no qual viu um grupo de salesianos missioná-
rios aproximando-se de alguns nativos e conquistando-os. Os sonhos não
acontecem num contexto psicológico ou social vazio; são expressões de uma
experiência pessoal e estimulada, com frequência, pelas preocupações de uma

1
A. Favale, Missioni cattoliche, 13-48; A. Martín, Origen de las misiones, 47-81.

136

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 136 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

pessoa num contexto específico. Os sonhos de Dom Bosco, com as necessida-


des, desejos e possibilidades que expressam, ocorrem também num contexto
determinado pela situação da sociedade e da Igreja. E, embora a consciência
missionária de Dom Bosco tivesse uma longa pré-história, chegou ao seu
clímax quando as mudanças na Igreja e na sociedade fizeram com que a par-
ticipação da Congregação Salesiana na atividade missionária se convertesse
em vocação.
A vocação missionária de Dom Bosco tem suas raízes em sua edu-
cação cristã; cresceu sem cessar e desenvolveu-se em profundidade até
frutificar no momento em que o espírito missionário ressurgia com força
na Igreja.

Contexto histórico
A tomada de consciência e a preocupação de Dom Bosco com as mis-
sões devem ser entendidas no contexto de ressurgimento na época em que
se despertava o interesse geral pela atividade missionária na Igreja. Depois
do revés na Revolução Francesa e como reação a ela, a Europa experimentou
um renascimento espiritual e religioso, favorecido também por ideais român-
ticos. O espírito liberal e anticlerical também estava se consolidando, espe-
cialmente entre a sempre mais numerosa classe média, e a Igreja conseguiu
reorganizar as estruturas para o cuidado pastoral dos fiéis e reabrir seminários.
A pregação e a instrução religiosa, meios de renovação espiritual, como os
Exercícios Espirituais e a imprensa católica reavivaram o espírito cristão com
sua poderosa inspiração missionária.
A contribuição das ordens e congregações religiosas, masculinas e femi-
ninas, de vida ativa e contemplativa, foi considerável; era inspirada na espi-
ritualidade missionária característica do século XIX e no fervor missionário
que frutificou no crescente número de pessoas que se somavam às fileiras dos
missionários que já estavam em ação.
É óbvio que o renovado interesse da Igreja não teria sido possível, se
os papas do período posterior a Napoleão e da época seguinte não tivessem
tomado a iniciativa. No século XIX, os passos mais decisivos foram dados
no pontificado de Leão XIII (1878-1903). Mas o movimento missionário já
tivera progressos significativos sob os papas Gregório XVI (1831-1846) e Pio
IX (1846-1878).
Entre outras conquistas, Gregório XVI atuou com firmeza para fazer a
transição entre a velha estrutura missionária do padroado e o novo sistema de
Igrejas locais e missões. Denunciou a escravidão e promoveu ativamente a sua

137

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 137 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

abolição. Deu novas orientações à Congregação para a Propagação da Fé em


vista do governo das missões, a organização das igrejas locais, o recrutamento
de missionários e a fundação de seminários específicos para a formação de
missionários.2
Embora de maneira menos sistemática, Pio IX continuou o programa de
seu predecessor, acrescentando seu apoio incondicional a todas as iniciativas
missionárias. A estruturação oficial da Igreja nos países de missão durante seu
pontificado produziu muitos frutos. Apenas nos países não católicos, Pio IX
criou 33 vicariatos apostólicos, 15 prefeituras e 3 delegações.3

Comunidades religiosas e missões


Uma das mais fascinantes manifestações do ressurgimento missionário
na Igreja durante o século XIX foi a nova orientação missionária das ordens e
congregações religiosas, recentes e antigas. Comunidades religiosas já assenta-
das, como os padres da Missão de Paris, os padres da Missão (de São Vicente
de Paulo), os jesuítas, reestabelecidos recentemente, as ordens mendicantes e
os clérigos regulares enquanto muitas outras, umas 55, voltaram a assumir a
obra missionária com renovado vigor.
Contudo, durante os primeiros três quartos do século XIX, foram as
novas congregações que fizeram a diferença. As estatísticas, embora prova-
velmente incompletas, dão uma ideia do fenômeno. Nelas aparecem umas
90 congregações de homens, das quais dois terços eram clericais e um terço,
laicais, que tinham o apostolado missionário como fim principal ou secun-
dário. Nesse mesmo período foram fundadas, ao menos quatro vezes mais,
novas congregações de mulheres de vida apostólica, associadas a congregações
masculinas ou independentes delas.
Entre as congregações que mais puderam ter influenciado o pensamento
de Dom Bosco e suas decisões sobre as missões, devem-se mencionar estas:

Padres e Irmãos dos Sagrados Corações de Jesus e Maria (Picpus), fundados entre
1792 e 1817 por Pedro Maria José Coudrin (1768-1837) com a ajuda de
Henriqueta Aymer de la Chevalerie (1767-1837).

2
As declarações oficiais de Gregório XVI estão na encíclica Sollicitudo Omnium Ecclesiarum (18
de setembro de 1835), no breve Commissi Nobis (4 de agosto de 1835), na carta apostólica In Supremo
Apostolatus Fastigio (3 de dezembro de 1839) e na instrução à Congregação para a Propagação da Fé
Neminem Profecto (23 de novembro de 1845).
3
Pio IX também procurou reorganizar a Igreja em países católicos e não católicos considerados
como jurisdições missionárias naquele tempo. Nos Estados Unidos, erigiu 38 novas dioceses e 11 pro-
víncias eclesiásticas. Na Austrália, fundou uma província eclesiástica e 9 dioceses. Em 1850, organizou
a jerarquia católica na Inglaterra, com um arcebispo e 12 bispos.

138

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 138 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Oblatos de Maria Imaculada, fundados em 1817-1826 por Carlos Eugênio


Mazenod (1772-1861).
Sociedade do Imaculado Coração de Maria, fundada por Francisco Maria Paulo
Libermann (1802-1852) em 1839-1840, unida em 1848 aos Padres Missioná-
rios do Espírito Santo.
Instituto para as Missões Estrangeiras de Milão, fundado em 1850 e unido em 1871
ao Pontifício Seminário de São Pedro e São Paulo para as missões estrangeiras, do
qual nasceu o Pontifício Instituto das Missões Estran­geiras (PIME, 1926).
Sociedade para as Missões Africanas, fundada em 1856 pelo bispo Melquior Maria
José de Marion-Brésillac (1813-1859).
Congregação do Imaculado Coração de Maria (Scheut), fundada em 1862 por Teó-
filo Verbist (1823-1868).
Padres Missionários e Irmãs Missionárias de Verona, fundados em 1867 pelo bispo
Daniel Comboni (1831-1881).
Sociedade de Missionários da África (padres brancos) e Irmãs Missionárias de Nossa
Senhora da África (irmãs brancas) fundados em 1868 e 1869, respectivamente,
pelo cardeal Carlos Marcial Allemand Lavigerie (1825-1892).

Visto o notável grupo de congregações de orientação missionária, com-


preende-se por que Dom Bosco decidiu lançar sua própria congregação, que
não fora fundada para as missões, na ação missionária. Além de estar vincu-
lado ao carisma salesiano de Dom Bosco e ser uma extensão natural do seu
apostolado específico, envolver-se no apostolado das missões estrangeiras era
o que devia fazer uma congregação religiosa no século XIX.

Primitiva consciência missionária de Dom Bosco


Ainda em 1844, quando estava para deixar o Colégio Eclesiástico,
depois de completar os cursos de moral e de teologia pastoral, Dom Bos-
co pensou em unir-se aos oblatos da Virgem Maria e ir para as missões.4
Foi padre Cafasso, seu diretor espiritual, quem tomou a decisão e tran-
quilizou-o.

As Memórias do Oratório não mencionam essa crise vocacional, mas as Memórias Biográficas
4

dão-lhe espaço considerável (MB I, 328s, 415s). A Congregação dos Oblatos de Maria foi fundada
pelo padre Pio Bruno Lanteri (1759-1830) junto com outros padres. Foi aprovada pela Igreja em 1825
e 1826. Em 1834, os oblatos tinham sede na igreja da Consolata, em Turim. Entre outros serviços,
ocupavam-se das missões em Burma (atual Mianmar), onde foi criado um vicariato apostólico em
1842. Dom Bosco estava familiarizado com os oblatos, cujo fundador fora um dos iniciadores do
Colégio Eclesiástico. Por isso, é lógico pensar que Dom Bosco estivesse sob a influência oblata durante
seus anos no Colégio Eclesiástico (1841-1844).

139

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 139 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

As Memórias Biográficas documentam em várias passagens a crescente


consciência missionária de Dom Bosco. Sendo jovem sacerdote leu os Anais e
as Cartas edificantes.5 Segundo Lemoyne, em 1848, Dom Bosco falava sobre
a ideia de mandar missionários a regiões distantes, indicando a Patagônia e
a Terra do Fogo. Um dos meninos do Oratório, Tiago Bellia, trazia de sua
casa cópias dos Anais e os lia para Dom Bosco na hora da refeição. Certa vez,
Dom Bosco disse: “Oh! Se eu tivesse muitos padres e clérigos, eu os enviaria
para evangelizar a Patagônia e a Terra do Fogo! Sabes por que, amigo Bellia?
Advinha-o!”. “Talvez por ser onde há mais necessidade de missionários”,
responde Bellia. “Adivinhaste; porque esses povos foram até agora os mais
abandonados”.6 Em 1854, Dom Bosco teve uma premonição sobre a voca-
ção missionária do jovem João Cagliero, ao ver descer uma pomba sobre o
menino que, enfermo em sua cama, estava rodeado de um grupo de nativos.7
Dom Bosco estava em contato com pessoas consagradas e atividades
missionárias e com congregações religiosas, masculinas e femininas, que se
dedicavam às missões. A canonização por Pio IX dos primeiros mártires do
Japão, em 8 de junho de 1862, e a beatificação de outro grupo de 205 pes-
soas, em 29 de junho de 1867, em relação com o décimo oitavo centenário
do martírio de São Pedro, foi ocasião para promover o espírito missionário
no Oratório.
Nessa época, além do seu interesse pessoal e do compromisso com a
causa missionária, ele já estivera considerando a possibilidade de envolver a
Congregação Salesiana na obra missionária.

Influências decisivas
Combonianos e Padres Brancos foram, possivelmente, os grupos religiosos
mais inovadores entre as novas forças no campo da missão na África. Seus
fundadores, respectivamente, o bispo dom Comboni e o cardeal Lavigerie,
foram sem dúvida os missionários mais eminentes do século.8 Eles também
5
Os Anais e as Cartas edificantes eram publicações da Sociedade para a Propagação da Fé e da
Pontifícia Obra da Santa Infância, ambas fundadas em Lyon; a primeira, por Pauline Jaricot (1799-
1862) com o bispo Charles de Forbin-Janson (1785-1844), em 1822; a segunda, pelo mesmo Forbin-
-Janson, em 1842. Cf. New Catholic Encyclopedia, “The Catholic University of America”. McGrill,
1967, V, 1001-1003; VII, 857-858.
6
MB III, 362s.
7
Cf. MB V, 105.
8
São Daniel Comboni (1831-1881) estudou línguas, medicina e teologia com a finalidade de
trabalhar pela evangelização da África. Uma vez ordenado padre, trabalhou como missionário no Nilo
Branco (1857); para essa missão, fundou os padres e as irmãs missionários de Verona (1867). Fun-
daram-se missões no Sudão e um seminário para a formação do clero nativo no Cairo, Egito (1867).

140

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 140 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

foram os inspiradores mais diretos de Dom Bosco em sua opção missionária,


mesmo se esta não se voltasse para a África.
Em 4 de dezembro de 1864, padre Daniel Comboni visitou o Orató-
rio para conversar com Dom Bosco sobre as missões. Estivera há pouco em
Roma, tendo apresentado ao Papa um projeto para a evangelização da África,
segundo o princípio de que a África devia ser evangelizada pelos africanos.
Sem dúvida, a conversa durante a visita tratou desse projeto; os dois, prova-
velmente, trocaram opiniões sobre estratégias missionárias. Dom Bosco, mais
adiante, estabeleceria uma estratégia semelhante para suas missões; estratégia,
porém, em que os jovens ocupavam um papel preponderante. Dom Bosco
pediu a Comboni que falasse sobre as missões para os meninos, o que foi
feito com grande sucesso.9 Em cartas datadas em setembro de 1869 e julho
de 1870, Comboni expôs a Dom Bosco um esquema audacioso para estabe-
lecer a obra salesiana na África.10 A segunda carta indica que, de fato, tinham
falado sobre a estratégia. Suas ideias coincidiam em muitos aspectos, embora
em ocasião posterior, Dom Bosco tenha se mostrado crítico com o estilo
missionário comboniano.11
Carlos Lavigerie também estava familiarizado com Dom Bosco e seu
trabalho. Nos anos 1868-1870 pediu-lhe repetidamente missionários salesia-
nos para colaborar no norte da África e no Sudão, onde era delegado apostó-
lico; pedido que Dom Bosco não pode atender naquele momento. Pediu-lhe,
também, que aceitasse alguns órfãos argelinos, o que Dom Bosco fez de bom
grado.12 O cardeal e Dom Bosco encontraram-se novamente em Paris em
1883. Nessa ocasião, numa breve menção, referiu-se a Dom Bosco como “o
São Vicente de Paulo da Itália”.13 O cardeal Lavigerie visitou novamente o

Comboni foi nomeado pró-vigário apostólico da África Central (1872) e, mais tarde, vigário (1877).
Foi pioneiro na introdução de novos métodos de evangelização; escreveu contra a escravidão, traba-
lhando ativamente pela sua abolição. Como linguista, geógrafo e etnólogo, trabalhou no campo das
línguas e das culturas africanas. Foi canonizado em 1996.
Carlos Lavigerie (1825-1892), catedrático de História da Igreja na Sorbona em 1857, tornou-
-se auditor da Rota Romana em 1861. Em 1863, foi nomeado bispo de Nancy e, em 1867, de Argel.
Depois de ser designado delegado apostólico para o Saara Ocidental e o Sudão em 1868, fundou duas
congregações missionárias para a África. Em 1882, foi nomeado cardeal arcebispo de Cartago. A partir
desse posto, converteu-se em importante força na implantação das diretrizes missionárias do papa Leão
XIII, especialmente no que se refere a potenciar o desenvolvimento dos povos nativos, com ênfase
especial na proteção da gente de raça negra e na abolição da escravidão.
9
Cf. MB XIV, 498.
10
Cf. MB IX, 711s, 889.
11
Cf. MB XII, 221s.
12
Cf. MB IX, 939; 656; XI, 423.
13
Cf. MB XVI, 252s.

141

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 141 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Oratório em 1885, com outro pedido de missionários salesianos para a Áfri-


ca, mas também desta vez o seu apelo não pôde ser satisfeito.14

A atmosfera missionária que rodeou o Vaticano I


Apesar de Pio IX não dar novos passos em sua estratégia missionária, mas
ter continuado fielmente a política de seu predecessor, o movimento missio-
nário alcançou grande impulso na época do Concílio Vaticano I (1869-1870).
O concílio foi obrigado a abordar esta questão decisiva. Durante sua prepa-
ração foi debatida a participação dos vigários apostólicos, que acabou por se-
rem aceitos, caso contrário, a África, Ásia e Oceania não seriam representadas.
Além dos temas jurídicos da vocação missionária da Igreja e seu fundamento
teológico, era preciso rever a atividade missionária. Os bispos missionários
submeteram várias propostas à consideração. Dom Comboni, alinhado com
seu projeto de evangelização, elaborou uma proposta sobre a defesa e pro-
moção do povo de raça negra em sua região missionária, que foi apresentada
em junho de 1870 e confirmada pela assinatura de 70 padres conciliares. Foi
quando escreveu a segunda carta a Dom Bosco, acima mencionada.

Dom Daniel Comboni (1831-1881), bispo e fundador.

14
Cf. MB XVII, 473s.

142

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 142 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

O Schema Constitutionis Super Missionibus Apostolicis, é certo, não con-


seguiu abordar em muitos aspectos novas estratégias teológicas relativas às
missões.15 Todavia, os numerosos bispos “missionários” participantes, cerca
de 180, fizeram muito, apenas com sua presença, para o avanço da causa
missionária. Eles reforçaram a consciência missionária do clero e do laicato,
mobilizaram apoios financeiros e espirituais e recrutaram pessoal, especial-
mente das congregações religiosas.
Durante as primeiras etapas do Concílio e depois da sua interrupção,
Dom Bosco pôde conhecer muitos bispos missionários e ouvir seus pedidos.
No período de sua permanência em Roma, entre 24 de janeiro e 22 de feve-
reiro, quando fez campanha ativa em favor da infalibilidade do Papa, con-
versou com alguns bispos que ouviram falar elogiosamente da Congregação
Salesiana nas sessões conciliares. Depois do Concílio, alguns bispos visitaram
o Oratório, entre outros, dois da China, para solicitar missionários.16 Come-
çaram a chegar pedidos de várias partes do mundo.17

O (primeiro) sonho missionário (1871-1872)


O primeiro sonho missionário de Dom Bosco enquadra-se neste ambien-
te geral. Mas os contatos com os missionários e os apelos dos bispos missioná-
rios, durante e depois do Vaticano I, proporcionaram um estímulo imediato.

Fontes e notícias
Segundo o próprio Dom Bosco, como aparece nas fontes, este sonho
missionário, conhecido a posteriori como Sonho das missões da Patagônia, se
deu em 1871 ou 1872. Dom Bosco tentara identificar no sonho a terra e
o povo que via, mas não foi capaz de fazê-lo. Só depois de receber a oferta

15
Para uma breve, mas detalhada, apresentação de como o Vaticano I tratou do tema missioná-
rio, ver A. Favale, Missioni cattoliche, 29-44. O esquema nunca foi discutido por causa da interrupção
do Concílio provocada pela ocupação de Roma pelo Exército italiano. Visto com o olhar de hoje, pare-
ce retrógrado tanto em teoria missionária, quanto em estratégia, especialmente em sua atitude negativa
em relação à formação do clero nativo.
16
Cf. MB IX, 890s. Foi então, que o bispo José Sadoc Alemany, de São Francisco (EUA), so-
licitou salesianos para cuidar do orfanato de São Vicente em San Rafael, Califórnia, com uma carta
datada em 20 de julho de 1870; mais tarde, em sua visita a Turim, Dom Bosco aceitou o apelo. Mas as
negociações posteriores não levaram a qualquer resultado prático. Para mais detalhes, cf. M. Ribotta,
“The road not taken”, JSS 1:2 (1990), 45-67, principalmente 54-60. Para a história da presença dos
salesianos em São Francisco, cf. F. Motto, Vita e azione della parrocchia nazionale salesiana dei SS.
Pietro e Paolo a San Francisco. Roma: LAS, 2010.
17
Cf. P. Stella, Vita, 167-186.

143

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 143 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

argentina em 1874, ele interpretou como referência à Patagônia. Em feve-


reiro-março de 1875, Dom Bosco, que estava em Roma, foi recebido por
Pio IX. Nessa ocasião deve ter falado com o Papa sobre a missão argentina,
embora não haja registro disso; o certo é que não falou do sonho,18 que
contou pela primeira vez em março do ano seguinte, 1876, e mais tarde fez
o mesmo com alguns salesianos. Ou seja, isso aconteceu ao menos quatro
anos depois de ter tido o sonho e alguns meses depois da ida dos primeiros
missionários à Argentina.
O relato do sonho chegou até nós, segundo a narração de primeira mão
do padre Júlio Barberis, que a introduz da seguinte forma:

Eis o sonho que fez Dom Bosco decidir o início do apostolado missionário
na Patagônia. Contou-o pela primeira vez a Pio IX na recente viagem feita a
Roma [antes de 31 de julho de 1876] e, depois, [contou-o] a alguns de nós. Em
30 de julho [falou dele] ao padre Bodrato. Eu também o ouvi dele na noite
desse mesmo dia em Lanzo, onde fora passar uns vinte dias de férias com
metade dos noviços clérigos. Três dias depois, já de volta a Turim, Dom Bosco
contou-o para mim, enquanto caminhávamos pela biblioteca. Tive o cuidado
de não mencionar que já o tinha ouvido, porque Dom Bosco normalmente
omitia um detalhe ou outro [na primeira narração]; e também porque, ou-
vido de seus próprios lábios, causava maior impressão sobre mim. Disse-nos
que éramos os primeiros a escutá-lo.19

Oferecemos, em seguida, uma breve descrição das crônicas e da tradição


do texto do relato: as crônicas de Barberis e de Lemoyne, e sua edição nos
Documenti e nas Memórias Biográficas.

O relato de Barberis
A crônica de Barberis é a fonte primária; assim o considerava padre
Lemoyne. Em ASC está na coleção de sonhos do padre Lemoyne. O ma-
nuscrito não se apresenta nem com a caligrafia de Barberis nem com a de
Lemoyne; parece ser uma cópia feita do rascunho original de Barberis e
inserida por Lemoyne em seu arquivo pessoal. Lemoyne começou sua edi-
ção tendo por base este manuscrito. Manteve a data original e a referência a

Não se faz qualquer menção a missões ou sonhos em MB XI, 99s.


18

Padre Barberis estava sozinho com Dom Bosco. Mas a afirmação de Dom Bosco pode fazer
19

referência também ao padre Bodrato, que fora o primeiro a ouvir o sonho, e talvez a Lemoyne, que nos
Documenti afirma ter ouvido o sonho do próprio Dom Bosco.

144

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 144 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Barberis, mas omitiu o título original. Fez algumas correções no texto e in-
troduziu algumas notas marginais apenas no primeiro e segundo parágrafo.
Mais adiante inseriu simplesmente barras de edição ( // ) nos lugares onde
pensava fazer mais correções.20

O relato de Lemoyne
Lemoyne afirma nos Documenti ter feito um rascunho da narração di-
reta que Dom Bosco lhe fizera em momento não especificado. O relato de
Lemoyne apresenta-se com sua caligrafia. A única adição marginal, também
de Lemoyne, está no início. As barras de edição em diversos pontos do texto
indicam os lugares correspondentes no relato de Barberis, onde se deveria
elaborar a impressão para que resultasse um texto unificado para os Docu-
menti.21 Diversamente do texto de Barberis, Lemoyne não faz uma introdu-
ção e tampouco afirma que seja narração de primeira mão. Foi redigida em
terceira pessoa.22

Textos nos Documenti e nas Memórias Biográficas


Lemoyne, enfim, seguindo seu método habitual, edita as duas crônicas
nos Documenti convertendo-as numa única narração com alguns acréscimos.
É o texto transcrito por Amadei nas Memórias Biográficas,23 com algumas
modificações secundárias.

20
A crônica Barberis está em ASC A017: Sogni, Lemoyne, “31 de julho de 1876, sonho”: FDB
1314 D1-4. Não se detecta a caligrafia de Barberis; não está onde se esperaria encontrá-la, principal-
mente em ASC A000: Cronachette, Barberis, caderno 8, onde faltam páginas, embora o sonho figure
no Índice desse caderno (cf. FDB 843 E9 e 844 A3 e 5).
21
A crônica Lemoyne está em ASC A017: Sogni, Lemoyne, “1874? Le missioni: sogno”: FDB
1314 A8-11.
22
É a única vez nos Documenti que Lemoyne alega ter escutado o sonho e escrito uma crônica
de primeira mão. No final da introdução de Barberis, que transcreve nos Documentos, Lemoyne insere
estas palavras: “Padre Lemoyne também foi confidente deste segredo: ele e o padre Barberis escreveram
crônicas diferentes deste sonho”. Conclui adaptando as palavras finais de Barberis: “Dom Bosco disse
que nós éramos os primeiros a conhecer esta espécie de visão” (Documenti XIV, 140: FDB 1024 B8).
23
Documenti XIV (c. 28), 140-143 em ASC A063: Cronachette, Lemoyne: FDB 1024 B8-11.
A. Amadei em MB X, 53s (texto do sonho); 1267s (tentativas de Dom Bosco para identificar o povo
e a região do sonho).

145

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 145 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Texto do sonho24
Crônica de Barberis Crônica de Lemoyne Documenti de Lemoyne

31 de julho de 1876 1874 ? Capítulo XVIII

Sonho de Dom Bosco sobre as As missões: um sonho de Sonho de Dom Bosco sobre as
missões na Patagônia Dom Bosco missões na Patagônia

[Introdução do cronista]
[Introdução de Barberis]
Eis aqui o sonho pelo qual Dom
Eis aqui o sonho que levou Dom Bosco decidiu ir às missões na
Bosco a iniciar o apostolado mis- Patagônia. Primeiro, contou-
sionário na Patagônia. Contou-o -o ao Papa numa viagem que
pela primeira vez a Pio IX na re- fez a Roma (em 1876). Depois
cente viagem que fez a Roma (antes [contou-o] a alguns de seus pa-
de 31 de julho de 1876) e, depois, dres. Em 30 de julho de 1876
[contou-o] a alguns de nós. Em 30 [contou-o] ao padre Bodrato.
de julho [contou-o] ao padre Bo- Padre Júlio Barberis escutou-o
drato. Eu também o ouvi dele na de sua boca na noite desse mes-
noite do mesmo dia em Lanzo, mo dia em Lanzo, onde estivera
onde fora passar uns 20 dias de fé- de férias durante vinte dias com
rias com metade dos noviços cléri- metade dos noviços clérigos.
gos. Três dias depois, Dom Bosco Três dias mais tarde, em Turim,
contou-o a mim, já de volta a Tu- padre Barberis escutou o mesmo
rim, enquanto caminhávamos pela sonho dos lábios de Dom Bos-
biblioteca. Cuidei de não mencio- co enquanto caminhavam pela
nar que já o ouvira, porque Dom biblioteca; padre Barberis pro-
Bosco normalmente omitia um curou não mencionar que já o
detalhe ou outro [numa primeira tinha escutado, porque algumas
narração]; e também porque, ou- vezes Dom Bosco acrescentava
vido de seus próprios lábios, fazia detalhes omitidos em narrações
maior impressão em mim. Disse- anteriores. Padre Lemoyne tam-
-nos que éramos os primeiros a bém foi confidente deste segredo
escutá-lo. e ele e o padre Barberis fizeram
crônicas diferentes deste sonho.
Dom Bosco disse que éramos os
primeiros a conhecer esta “espé-
cie de visão”. Transcrevemos suas
palavras quase ao pé da letra.

24
As notas marginais de Lemoyne estão no texto em cursivo. As barras do editor Lemoyne (//) que apa-
recem em vários pontos indicam os lugares onde devia fazer o trabalho editorial. As palavras introduzidas no
relato de Barberis fazem parte do trabalho editorial de Lemoyne. Onde a fonte diz selvaggi, traduz-se por selva-
gens; onde diz indigeni, traduz-se por indígenas e onde diz barbari, por bárbaros. Estes termos, porém, devem
ser lidos no sentido que se lhes dá na literatura romântica, especialmente nas revistas missionárias da época.

146

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 146 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

[Cenário do sonho] [Cenário do sonho] [Cenário do sonho]

Parecia-me estar numa região sel- Parecia estar numa imensa Pareceu-me encontrar-me
vagem e completamente desco- planície em que não se viam numa região selvagem e com-
nhecida [para mim]. // Era uma nem colinas nem montanhas. pletamente desconhecida [para
imensa e deserta planície em que Não era cultivada. Hordas de mim]. Era uma imensa e erma
não se viam nem colinas nem homens vagavam por ali [por planície em que não se viam
montanhas. Em seu extremo mais essa planície]. Estavam quase nem colinas nem montanhas.
distante, quase fora do alcance do nus; seus cabelos eram lon- Em seu extremo mais distan-
olho humano, [a planície] era to- gos e de seus ombros caíam te, porém, podiam-se ver picos
talmente rodeada de montanhas longas capas feitas de peles escarpados que a rodeavam
escarpadas que formavam uma co- de animais. Estavam armados completamente, formando uma
roa de cada lado dela. Na planície com lanças. // coroa de cada lado. Errando
vi dois grupos hordas de homens Esses vários grupos de ho- por essa planície, vi hordas de
// errantes. Estavam quase nus, e mens apresentavam várias homens. Estavam quase nus, de
eram de altura e compleição extra- cenas para o observador: altura e compleição extraordi-
ordinárias, olhar feroz, com cabe- alguns caçavam animais sel- nárias, com olhar feroz, com ca-
los longos e descuidados, // bron- vagens; alguns [outros] cami- belo longo e descuidado, bron-
zeados e de compleição escura, e nhavam com pedaços de car- zeados e de pele escura, como
vestidos tão somente suas únicas ne sangrando espetados nas única roupa umas longas capas
roupas eram grandes capas que ca- pontas de suas lanças; outros que caíam de seus ombros. Por
íam de seus ombros e eram feitas lutavam entre si; [mas] ou- armas, tinham uma espécie de
de peles de animais. Por armas, le- tros estavam lutando contra longa lança e uma funda (la-
vavam uma espécie de lança longa soldados vestidos à maneira ços). Estas hordas dispersas
e uma funda. // europeia; o chão estava cheio apresentavam várias cenas ao es-
de cadáveres. pectador. Alguns corriam atrás
de animais selvagens, enquanto
outros caminhavam com pe-
daços de carne sangrando nas
pontas de suas lanças. De um
lado, alguns lutavam entre si,
enquanto de outro, outros es-
tavam envolvidos num comba-
te corpo a corpo com soldados
vestidos à maneira europeia; o
chão estava cheio de cadáveres.

[Cena I] [Cena I] Cena I]

Apareceu, então, à vista, um gran- Dom Bosco tremeu diante Tremi diante desta visão quan-
de número de indivíduos cuja ma- dessa visão quando, de re- do, no outro extremo da pla-
neira de agir os apontava como pente, alguns missionários nície, apareceram numerosas
missionários de várias ordens [reli- apareceram do outro extremo pessoas cujas roupas e modo
giosas]. Aproximaram-se [dos indí- da planície. // Olhou-os fixa- de atuar os identificava como
genas] para pregar-lhes a fé de Jesus mente, mas não reconheceu missionários pertencentes a vá-
Cristo. ninguém. rias ordens [religiosas]. Aproxi-
mavam-se desses bárbaros para
pregar a religião de Jesus Cristo.

147

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 147 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

[os indígenas] com fúria diabólica Caminharam até os selva- [Olhei-os atentamente, mas não
e com cruel exultação mataram to- gens, mas tão logo estes bár- reconheci nenhum deles. Ca-
dos eles, partindo-os em pedaços baros os viram, lançaram- minharam até os selvagens, mas
que espetaram em suas longas afia- -se sobre eles e os mataram tão logo os bárbaros os viram,
das lanças. De tempos em tempos cruelmente cortando-os em lançaram-se sobre eles e, com
volta a estalar a luta entre eles, e pedaços. fúria diabólica e cruel exultação,
entre eles e as tribos vizinhas. // Em seguida, a luta continuou mataram todos eles. Sacrifica-
como antes. // ram-nos com crueldade, par-
tindo-os em pedaços e espetan-
do pedaços de carne com suas
longas e afiadas lanças. Algum
tempo depois, retomaram a luta
entre si e com os povos vizinhos.
[Cena II] [Cena II] [Cena II]

Depois de observar essas horríveis Então, ao longe, apareceram, Depois de ter observado a terrí-
matanças durante algum tempo, outros missionários. Dom vel carnificina por algum tempo,
perguntei-me: “Como será possí- Bosco olhou-os com atenção perguntei-me: “Como é possível
vel converter esta gente tão agres- e reconheceu-os. Eram pa- converter essa gente tão agressi-
siva?”. Nesse momento, vi um dres e clérigos de nossa Con- va?”. Nesse momento, vi à distân-
pequeno grupo de missionários, gregação. Conhecia os que cia um pequeno grupo de missio-
diferentes dos anteriores, avançan- iam à frente, mas a muitos nários, diferentes dos anteriores,
do com semblante alegre até eles, outros que vinham depois, avançando com semblante alegre
com uma banda de jovenzinhos à obviamente não os conhe- até os selvagens, precedidos por
sua frente. Mas comecei a tremer cia em absoluto. Avançavam uma banda de jovenzinhos. Mas
diante do simples pensamento de até as hordas de selvagens. comecei a tremer enquanto pen-
que iriam matá-los. Caminhei // Dom Bosco estava assustado. sava: “Irão matá-los”. Aproximei-
até eles. Não reconheci ninguém, Queria detê-los. Temia que -me deles; eram clérigos e padres.
mas sabia que eram salesianos mis- a qualquer momento encon- Olhei-os atentamente e reconheci
sionários, os nossos. “Como pode trassem o mesmo destino que nossos salesianos. Identifiquei os
ser isso?” [perguntei-me]. Não os missionários anteriores. // que caminhavam à frente, e em-
bora não sabendo quem eram os
queria que fossem mais adiante, e Os salesianos avançavam até
muitos que os seguiam, percebi
estava a ponto de detê-los e forçá- à multidão de selvagens re-
que também eles eram salesianos
-los a voltar, quando percebi que zando o rosário em voz alta.
missionários. “Como pode ser
sua chegada causava alegria geral Enquanto isso, os selvagens
isso?”, perguntei-me. Não queria
entre os bárbaros. Baixaram suas tinham-se reunido de todas que avançassem mais, e estive a
armas, abandonaram o seu com- as partes, rodeando os mis- ponto de detê-los. Temia que en-
portamento selvagem e receberam sionários à medida que avan- contrassem a qualquer momento
nossos missionários muito amavel- çavam. // o mesmo destino dos primeiros
mente. missionários. Tentava fazê-los re-
troceder quando percebi que sua
chegada estava causando alegria
geral entre os bárbaros. Baixaram
suas armas, abandonaram seu
comportamento selvagem e rece-
beram nossos missionários muito
amavelmente.

148

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 148 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

[Cena III] [Cena III] [Cena III]

Murmurei com total assombro: Os salesianos estavam em pé Murmurei com total assombro:
“Vejamos como isso vai acabar”. em meio à multidão que os “Vejamos como isso vai acabar”.
Vi depois que nossos missionários rodeava, e se ajoelharam. Os Vi depois que nossos missioná-
ensinavam a [os indígenas], e que selvagens deixaram suas ar- rios avançavam até as hordas de
estes prestavam muita atenção e mas aos pés dos missionários selvagens. [Nossos missionários]
aprendiam. [Os missionários] re- e também se ajoelharam. ensinavam [aos indígenas] que
preendiam-nos, e eles punham as lhes prestavam toda atenção e
normas em prática. // Observei-os aprendiam diligentemente. [Os
missionários] admoestavam-
por algum tempo, e depois perce-
-nos, e aceitavam as repreensões
bi que estavam recitando o rosário,
e as punham em prática. Vi-os e
missionários e selvagens, em paz, percebi que os missionários esta-
todos juntos. // vam rezando o santo rosário. Os
selvagens, contudo, chegaram
de todas as direções e, rodeando
os missionários enquanto estes
passavam, respondiam todos
juntos à oração.
[Conclusão do sonho] [Conclusão do sonho] [Conclusão do sonho]

Depois de algum tempo, um dos Então, selvagens e missioná- Depois de algum tempo, os sa-
missionários entoou [o hino] Lou- rios uniram-se num canto sa- lesianos puseram-se em meio à
vor a Maria, e todos esses homens grado: “Louvor a Maria”. multidão e ajoelharam-se. Os
cantaram a canção em uníssono e selvagens deixaram suas armas
com tal força, que despertei em so- aos pés dos missionários e tam-
bém se ajoelharam. De repente,
bressalto.
um dos salesianos entoou [o
hino] Louvor a Maria, e todas
essas gargantas entoaram a can-
ção em uníssono com tanta for-
ça, que despertei em sobressalto.
[Conclusão e comentário de Dom [Conclusão] [Conclusão e comentário de
Bosco] Dom Bosco]

Tive esse sonho há quatro ou cinco Este sonho deixou uma pro- Tive este sonho há quatro ou
anos, // mas não dei muita atenção funda impressão em Dom cinco anos (disse estas palavras
[nesse momento], especialmente Bosco, que o considerou em 1876), que deixou uma forte
porque fui incapaz de averiguar como uma mensagem do céu. impressão em mim, pois o con-
que povos eram os indicados a par- É verdade que lhe escapava sidero uma mensagem do céu. É
tir das características que observara seu significado específico, mas verdade, seu significado concre-
nesses selvagens. sabia que tinha a ver com as to me escapa, mas entendo que
missões estrangeiras que, nesse tenha algo a ver com as missões
tempo todo, foram o seu so- estrangeiras, um projeto que é,
nho mais querido. desde há algum tempo, meu so-
nho mais querido.

149

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 149 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Primeiro, pensei que eram africa- // Não tomara qualquer de- Ao despertar deste sonho, senti
nos // da região das missões de dom cisão a respeito porque, ao como meu velho coração batia
Comboni.25 Depois, como estava em abordar o tema com Pio IX, o de novo e voltava à vida. Mas
negociações com dom Raimondi, papa da Imaculada Conceição não pude fazer muito, especial-
para as missões em Hong Kong,26 // lhe dissera: “Ainda não. Espe- mente porque era incapaz de
pensei que podiam ser esses indíge- ra primeiro que tua obra este- averiguar que povos eram os in-
nas; mas depois de investigar, soube ja suficientemente assentada dicados a partir das característi-
que nem a região nem os habitantes cas que observara nos selvagens.
na Itália; quando chegar a tua
se encaixavam com o que eu vira [no
sonho]. Algum tempo depois tivemos hora, far-te-ei saber”.
a visita do arcebispo Quinn, da Aus-
trália [sic],27 e fiz-lhe perguntas sobre Ao despertar deste sonho,
a condição e o caráter dos selvagens Dom Bosco sentiu seu velho
dali; mas, novamente, disse-me que coração renascer para a vida.
não coincidiam com o que eu vira. As missões são agora uma
E mesmo assim, a impressão que o prioridade em sua mente.28
sonho causara em mim e o pressenti-
mento que me deixara eram tais que
não podia deixá-los passar; especial-
mente desde que, como a experiência
me ensinara o que tinha visto poderia
muito bem ocorrer. Enquanto isso,
começamos a falar da República da
Argentina e [a discutir] as propostas
para [fundar] obras em Buenos Aires
e San Nicolás através do cônsul ar-
gentino. Reuni dados, fiz as pesqui-
sas adequadas e solicitei informação.
Cheguei rapidamente à conclusão de
que o povo que eu vira eram os in-
dígenas da Patagônia, que viviam nas
regiões mais ao sul dessa República.
Desde então, não tive qualquer dúvi-
da sobre para onde devia dirigir meus
esforços e preocupações.

________________
25
Cf. acima, nota 8 deste capítulo.
26
Em 6 de outubro de 1873, o bispo Timoleonte Raimondi buscou a mediação do cardeal Barnabò
para obter salesianos missionários para Hong Kong. Em carta ao padre Rua, de 5 de janeiro de 1874 (Epistolario
IV Motto, 194-195), Dom Bosco escreve que falara com Pio IX sobre o projeto. Em 12 de março de 1874,
apresenta um pedido ao Papa no qual afirma que está para abrir uma “casa para meninos pobres na ilha de
Hong Kong, China” e “um internato e escola em Savannah, Geórgia, na América [do Norte]” (Epistolario IV
Motto, 251-252). Numa de suas crônicas, entrada de dezembro de 1875, Barberis nomeia a China, a América
do Norte, a África e a Austrália como países que solicitam salesianos (F. Desramaut, Don Bosco, 970, nota 31).
27
Dom Mateo Quinn, arcebispo de Sidney (Austrália).
28
Segue imediatamente (cf. FDB 1314 A10f) um extenso comentário de Dom Bosco, com caligrafia
de Lemoyne, que descreve as tentativas de Dom Bosco para identificar as pessoas e a região do sonho. Por
isso, retoma e amplia a crônica de Barberis sobre o mesmo tema (conclusão da narração de Dom Bosco).
Este material foi editado posteriormente. Ver Do­cumenti XIV, 141-143: FDB 1024 B9-11; MB X, 1267s.

150

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 150 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...
25

Comentários sobre as crônicas de Barberis e de Lemoyne


26
Embora os dois relatos geralmente coincidam, é notável a diferença nos
detalhes.
27
Barberis é mais extenso e oferece variantes significativas: 1o A região es-
tava “totalmente rodeada por serras”. 2o Os indígenas eram “gente de altura
28
e compleição extraordinárias”. 3o Suas armas eram lanças e fundas (Lemoyne:
somente lanças). 4o Os salesianos missionários caminhavam “precedidos por
um grupo de jovenzinhos” (diferente de Lemoyne). 5o. Descrevem-se as ações 25
evangelizadoras dos missionários (diferente de Lemoyne). 26
27
Lemoyne, por sua vez, detém-se na descrição das atividades dos indí-
28
genas, acrescentando que “alguns estavam engajados em combates contra
soldados vestidos à maneira europeia”. Afirma que Dom Bosco conside-
rou seu sonho como “uma mensagem do céu” e que só o conselho de Pio
IX, sem especificar quando, retardara sua decisão de fazer algo em relação
às missões.

Comentário sobre o texto dos Documenti e sua edição final


nas Memórias Biográficas
A narração do sonho nos Documenti é uma compilação de relatos; bom
exemplo do método de redigir de Lemoyne. Ele entrelaça escrupulosamente,
com a mínima literatura necessária, todos os elementos disponíveis das fontes
e tenta, nem sempre com êxito, obter uma narração coerente. É uma anoma-
lia, por exemplo, que o trabalho de evangelização dos missionários seja des-
crito antes de ganharem o favor dos indígenas; ou a “funda”, uma das armas
dos indígenas na crônica Barberis, é confundida com “laços”. Padre Lemoyne
começou a trabalhar nos Documenti depois de 1885.
Em relação às Memórias Biográficas, Amadei, no volume X, transcreve
quase literalmente o texto dos Documenti; sua edição limita-se à pontuação
e alguma coisa de ortografia. Mas faz uma nova descrição das montanhas
distantes que circundam a planície, talvez porque a primeira descrição tenha
sido obscura ou porque não parecia encaixar com a topografia da Patagônia,
como se demonstrou mais tarde. Também transformou a funda original e os
laços dos Documenti como laço, segundo informação posterior.
Amadei, porém, tem uma descrição mais completa das especulações de
Dom Bosco sobre a identidade dos indígenas e da terra vista no sonho.29

29
MB X, 52s.

151

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 151 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Repercussões do sonho
A história da proposta argentina e sua aceitação por Dom Bosco já é
bem conhecida.30 Deve-se notar, porém, que Dom Bosco não esperou que
o Papa lhe dissesse que chegara o momento.31 “As missões da América do
Sul que ele já aceitara e outras que a Santa Sé lhe propusera” faziam parte de
um “empreendimento de natureza espiritual” que levou Dom Bosco a Roma
em fevereiro de 1875.32 Não há qualquer registro detalhado do que se disse
nessas audiências com Pio IX, entre 22 de fevereiro e 12 de março de 1875;
mas as missões, com as quais Dom Bosco se comprometera, deveriam estar
na agenda.
Além disso, não é claro em que momento, depois de receber a oferta
argentina, os dados e a informação pertinente, Dom Bosco interpretou seu
sonho como referência à Patagônia. Além de qualquer descrição verbal, o
cônsul Gazzolo parece ter mostrado a Dom Bosco algumas imagens de indí-
genas da Patagônia. Contudo, os que são descritos no sonho não se parecem
com nenhuma dessas etnias. Em todo caso, a identificação é uma conclusão
a posteriori.
João Belza, salesiano estudioso argentino, escreve que, ao fazer essa iden-
tificação, Dom Bosco

[...] fazia uma operação intuitiva e providencial. Porque, embora desconhe-


çamos as gravuras [dos indígenas] exibidas por Gazzolo, as imagens de Dom
Bosco se parecem mais com as dos selvaggi [selvagens] das enciclopédias
do que com qualquer índio do mosaico patagônico [...]. Por outro lado, é
psicologicamente certo que as figuras dos sonhos, sempre confusas, se iden-
tificam apenas por elementos internos do sonhador; e também é facilmen-
te comprovável que as representações indígenas patagônicas da época não
brilham pela fidelidade fotográfica [...]. É ainda muito claro que os sonhos
geográficos [de Dom Bosco], como tantos outros, mesmo em sua origem,
são motivados por acontecimentos da vida diária, inflamados pela tensão
missionária que o possuía.33

30
Cf. MB X, 603s; XI, 142s.
31
Ver o último parágrafo da Crônica do padre Lemoyne (coluna do meio, mais acima).
32
MB XI, 109.
33
Estes são os “comentários adequados” de J. E. Belza, citados por J. Borrego, Proyec­to, 47, nota 157.

152

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 152 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Atividade missionária na Patagônia e Terra do Fogo antes da


chegada dos salesianos
O que Dom Bosco dissera a Bellia sobre serem a Patagônia e a Ter-
ra do Fogo os lugares onde mais necessidade havia de missionários era
só relativamente verdade. Os araucanos dos Pampas, a oeste e sudoeste
de Buenos Aires, tiveram a fortuna de contar entre eles com francisca-
nos, dominicanos e outros missionários. Diversamente dos patagônios
(tehuelches) e dos fueguinos (onas,yamanas e alakalufes). Dom Bosco pro-
vavelmente se referia a estes povos indígenas; era a eles que os salesianos
iriam evangelizar.

A atividade missionária católica de forma esporádica


No século XVII, os missionários jesuítas tiveram muito pouco êxito na
Patagônia.34 No século XVIII, sob o governo do vice-rei espanhol João José de
Vértiz, algumas cidades foram fundadas no sul, ao longo da costa atlântica.
Na Terra do Fogo, a mais importante era Punta Arenas (Chile). O padre T.
Falkner chegou ao lago Nahuel Haupí, nos Andes, província de Neuquén
(1778); posteriormente, escreveu a sua Descripción de la Patagonia; mas por
Patagônia, ele entendia pouco mais do que a parte sul da província de Buenos
Aires. Igualmente, os padres jesuítas Cardiel, Quiroga e Strobel, viajando de
barco, exploraram algumas partes costeiras da Patagônia. Cardiel também se
aventurou terra adentro durante cinco dias, partindo de San Julián, mas não
manteve contato com os indígenas.
Os jesuítas regressaram à região no século XIX. Todavia, desde o as-
sassinato do padre Nicolás Mastardi em 1873, perto do lago de Puyrredón,
província de Santa Cruz, na fronteira chilena, nenhum missionário católico
visitara os patagônios; muito menos convivera com eles. Havia capelães em
Puerto San José (Península de Valdés, Chubut), mas estes, como os que vi-
viam em Carmen de Patagones, na foz do rio Negro, cuidavam exclusivamen-
te das tropas militares e dos colonos argentinos.

A Igreja anglicana e a atividade protestante na Terra do Fogo


No século XIX, C. Darwin e F. Fitzroy exploraram o rio Santa Cruz
(1830-1834). Fitzroy levou com ele para a Inglaterra quatro jovens fueguinos

34
G. Furlong Cardiff, “Los jesuitas en la Patagonia”, em J. E. Belza, Argentina sale­siana,
128-134.

153

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 153 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

e retornou com três, pois um falecera, e com o catequista Ricardo Mathews


da Sociedade Missionária da Igreja. Fixaram-se em Wulaia, mas foram obri-
gados a se retirar.
Em 1833, Guilherme Arms e Titus Coan, missionários dos Estados
Unidos, fixaram-se na baía de San Gregorio, na margem norte do estrei-
to de Magalhães. Permaneceram apenas dois meses e não puderam realizar
nenhum tipo de atividade missionária. Em 1841, o missionário anglicano
Allen Gardiner fez a travessia a partir das ilhas Malvinas e fixou-se na baía
de San Gregorio. Regressou às ilhas e fundou a Sociedade Missionária da
Patagônia. Depois, em 1845, voltou ao estreito de Magalhães e permaneceu
no porto de Oazi. Mais tarde, ao saber que Domingos Pasolini, padre jesuíta
estava realizando atividade missionária em Punta Arenas, preferiu não inter-
ferir e foi para a Bolívia.
O sucessor de Gardiner, pastor Jorge Packenham Despard, viajando
com a escuna da missão, The Allen Gardiner, chegou à ilha Keppel, onde
fundou um assentamento. O lugar foi atacado e muitos colonos foram
mortos pelos yamanas da Terra do Fogo. Um dos sobreviventes foi um
jovem clérigo chamado Tomás Bridge. Tornou-se amigo dos indígenas,
aprendeu sua língua e ensinou alguns grupos a viverem de modo civiliza-
do. Quando padre José Fagnano e seus sucessores fundaram missões cató-
licas na região, estes “grupos protestantes” foram aos poucos absorvidos,
embora não totalmente.

Atividade missionária protestante no sul da Patagônia


Os missionários protestantes precederam os salesianos também na
Patagônia. Teófilo Schmid, que acompanhara Despard às Malvinas como
linguista, foi à Patagônia em 1859. Ali, fez-se amigo do cacique tehuelche
Casimiro e de sua tribo. Adentrou pela província de Santa Cruz e, por terra,
chegou a Valparaíso (Chile), de onde regressou à Inglaterra. Pouco tempo
depois, voltou à ilha Keppel com o catequista João Frederico Hunziger e,
juntos, organizaram a missão. Em 27 de julho de 1861, passado o inverno,
partiram de Punta Arenas e chegaram ao cabo Coig, ao sul de Santa Cruz.
Regressaram a Punta Arenas em novembro; em junho de 1862, voltaram
para fundar uma missão permanente na foz do rio Santa Cruz. Os tehuelches
vieram em grande número. Mas foram embora, porque lhes foram negadas
bebidas alcoólicas além de a missão ficar distante de suas casas. Enquanto
Hunziger permanecia na missão, Schmid atravessou as terras geladas do
sul da Patagônia tentando entrar em contato com os indígenas. Quando

154

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 154 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

retornou em 28 de novembro de 1862, encontrou Hunziger mentalmente


enfermo; perdera o juízo, talvez devido à solidão ou ao medo. Abandona-
ram o lugar e foram para Carmen de Patagones, ali chegando em outubro
de 1863. A região de Santa Cruz onde se localizava a missão ainda traz o
nome de Canyon de los Misionários.
Enquanto isso, missionários galeses fundaram algumas missões no Chu-
but, Patagônia central, onde tiveram bastante êxito. Foi esse um dos motivos
pelos quais, por sugestão de Dom Bosco, Roma criou territórios missionários
no norte da Patagônia e no sul, Terra do Fogo, mas, inicialmente, nenhum
na Patagônia central.
Carmen de Patagones, situada na foz do rio Negro no norte da Patagô-
nia, iria testemunhar os inícios da atividade missionária salesiana, quando em
1880 o arcebispo Aneyros, de Buenos Aires, confiou a enorme paróquia aos
salesianos. Com padre Fagnano, converteu-se em base para a missão salesiana
rio acima do Rio Negro. Seguindo o plano traçado pelo padre Cagliero um
grupo de salesianos e salesianas fundou missões ao longo do rio Negro, desde
Patagones até a província de Neuquén, nos Andes.

2. Estratégia missionária de Dom Bosco


Dom Bosco tinha suas próprias ideias sobre o modo de conduzir a mis-
são entre os indígenas patagônios.35 Citando a crônica de Barberis, entrada de
12 de agosto de 1876, padre Ceria escreve: “Faz quinze dias que Dom Bosco
não sabe falar senão das missões e da Patagônia”.36 E acrescenta, resumindo:
Dom Bosco tentava resolver a questão missionária em todos os seus aspectos.
Embora estivesse apenas nos inícios da atividade missionária, ele já resolvera
colocar como prioritária a criação de clero nativo, e pensava que poderia
consegui-lo num período de sete anos.

Evangelização através das vocações nativas. O papel dos jovens


Abrir escolas ao longo da fronteira da Patagônia, para formar as voca-
ções nativas, parecia-lhe o melhor modo de alcançar o objetivo de, sem mais,
lançar os missionários entre os indígenas. Pensava que San Nicolás serviria
de experiência piloto. Certamente, nenhum padre privadamente estaria em
condições de consegui-lo, mas uma congregação religiosa teria os meios.

35
MB XII, 278s.
36
MB XII, 278s.

155

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 155 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

E dava o exemplo de dom Comboni, que se esforçava em vão para formar o


clero nativo sem qualquer ajuda no coração da África. Dom Bosco opinava
que, para conseguir alguma vocação sacerdotal, seria preciso criar um semi-
nário menor com muitos jovens; se necessário, ele haveria de prover a todas
as necessidades.
As mais fundadas esperanças de um futuro feliz para suas missões esta-
vam na preferência dos salesianos pela juventude pobre: “Quem caminha por
esta estrada, jamais falhará”. Ele referia-se a algumas congregações religiosas,
que fizeram muito bem nas missões, mas precisaram deixá-las. Ele estava
convencido de que, se tivessem dado um passo a mais, ou seja, se tivessem
se dirigido ao povo mediante a educação da juventude pobre, nunca precisa-
riam retirar-se.
Nas missões, como em qualquer outro empreendimento, Dom Bos-
co unia todos os meios humanos à mais absoluta confiança no auxílio
divino. Naqueles dias, como testemunha o padre Barberis, Dom Bosco
chegou a dizer:

Confiemos no Senhor. Façamos neste empreendimento o mesmo que em


todos os outros. Ponhamos a nossa confiança em Deus e d’Ele tudo espere-
mos; mas, ao mesmo tempo, demos o melhor de nós mesmos. Não se deve
descuidar de qualquer meio, não se deve poupar qualquer esforço, não se
devem omitir santos estratagemas, não se deve poupar despesas para chegar ao
sucesso. Deve-se fazer tudo o que a prudência humana sugerir.
Há de se tomar as medidas possíveis de segurança para não colocar a vida
em perigo nas mãos dos selvagens. É verdade que, para quem morre már-
tir, a morte é uma fortuna, porque voa diretamente para o paraíso; entre-
tanto, arruína a conversão de milhares de almas, que poderiam se salvar
tendo maior precaução. É também verdade que o sangue dos mártires é
semente de novos cristãos; isso, porém, quer dizer que, se não se puder
fazer de outro modo, antes de renegar a fé, precisamos estar dispostos a
dar a vida e mil vidas, sem medo de que, com a nossa falta, a boa causa
deva sofrer por causa disso. Neste caso, o Senhor suprirá. Não deveríamos
voltar atrás por isso.37

37
Citado por Ceria em MB XII, 279s.

156

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 156 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Dois indígenas tehuelche chegam à missão salesiana


de Río Gallegos para negócios.

Originalidade do empreendimento missionário de Dom Bosco


na Patagônia38
Poucos meses depois da chegada dos salesianos à Argentina, Dom Bosco
escrevia ao prefeito da Congregação para a Propagação da Fé: “Tendo expli-
cado meu humilde projeto [para a evangelização da Patagônia], [...] desejo
unicamente dedicar os últimos dias de minha vida a esta missão, que me
parece da maior glória de Deus e proveito das almas”. Ao padre Fagnano,
escreveu: “A missão da Patagônia é o maior empreendimento assumido por
nossa Congregação”.39
A primeira prioridade missionária dos salesianos está fixada em seu tes-
tamento espiritual:
38
Edição e adaptação de J. Borrego, “La originalidad de las misiones patagónicas en Don Bos-
co”. In: J. M. Prelezzo, Don Bosco en la historia, 457-472.
39
Dom Bosco ao cardeal Franchi, 10 de maio de 1876 (Epistolario III Ceria, 60-61); Dom Bosco
ao padre Fagnano, 31 de janeiro de 1881 (Epistolario IV Ceria, 14).

157

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 157 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Enquanto nos concentrarmos em converter pagãos (selvagens) e salvar as


crianças mais pobres, o mundo sempre nos dará boas-vindas agradecidas
[...]. Quando fundarmos uma missão em terra estrangeira, ela deve ser apoia-
da zelosamente, mesmo fazendo sacrifícios. Nossos esforços devem dirigir-se
a fundar escolas e animar vocações para o sacerdócio ou a vida comunitária
[...]. No dia em que um salesiano perder sua vida enquanto estiver traba-
lhando pela salvação das almas, podeis dizer que a Congregação obteve um
grande triunfo.40

O empreendimento missionário de Dom Bosco foi concebido e encami-


nhado como extensão de sua obra educativa. Como assinala padre Caviglia, o
conceito de Dom Bosco sobre missão não é mais do que um componente do
seu apostolado multifacetado, ou seja, a salvação das almas mediante a edu-
cação cristã dos jovens, especialmente os pobres. Por isso, ele adota o estilo e
os meios que desenvolvera para sua obra educativa; este enfoque determinará
a estratégia missionária, sua e de seus salesianos.41

Projeto missionário de Dom Bosco para a Patagônia


Dom Bosco falou sobre seu compromisso missionário na Patagônia
como de um “novo projeto” e “uma série de projetos que pareceriam ao
mundo como contos de fada ou sonhos de um louco, mas que são aben-
çoados por Deus tão logo assumidos”. Está falando não de um projeto
detalhado e estruturado que aguardava para ser levado à prática, mas de
uma série de iniciativas surgidas de experiências já realizadas: sua e dos
salesianos.42
O projeto Patagônia foi concebido e desenvolvido por Dom Bosco entre
1876 e 1879; baseava-se no conhecimento acumulado nos anos a partir de
várias fontes, sem esquecer a inspiração divina.43
Inicialmente, a única coisa clara era o duplo objetivo: a evangelização
e implantação da Igreja entre os indígenas dos Pampas e da Patagônia, e o
ministério em prol dos imigrantes italianos, um esforço operativo combi-
nado em favor das populações nativa e imigrante. Este segundo objetivo,
40
F. Motto, Testamento spirituale, 127; MB XVII, 257.
41
A. Caviglia, “La concezione missionaria di Don Bosco e le sue attuazioni salesiane”. Omnis
Terra Adoret Te, 24 (1932), 5. Ver também P. Stella, Vita, 174-175; P. Braido, Progetto operativo, 24-28.
42
Dom Bosco ao padre Cagliero, 27 de abril e 3 de julho de 1876, em Epistolario III Ceria, 52
e 72; P. Braido, Progetto operativo, 5.
43
Epistolario III Ceria, 275: Memorandum de Dom Bosco ao cardeal Franchi, 31 de dezembro
de 1877; P. Stella, Vita, 171ss.

158

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 158 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

que proporcionava um trampolim para a missão patagônica, serviria como


ponto de apoio para os salesianos em meio à população da Argentina.44
Dom Bosco possuía apenas uma experiência limitada das missões. O Va-
ticano I (1869-1870) ampliou seus horizontes missionários, pois, apesar de a
interrupção do Concílio não possibilitar a discussão do esquema preparado
sobre as missões, Dom Bosco teve ocasião de entrar em contato com alguns
bispos de vários continentes e terras de missão.
Um deles foi o bispo de Concepción, Chile, a quem Dom Bosco es-
creveu em 1876 pedindo permissão para tentar evangelizar os “patagônios
[indígenas] e os bárbaros, ou seja, os Pampas (patagones et barbaros sive
Pampas)”.45
Dom Bosco mantinha contatos epistolares e pessoais com grandes mis-
sionários como Massaia, Lavigerie e, especialmente, Daniel Comboni, que
era visitante assíduo do Oratório de Turim e compartilhou com Dom Bosco
seu plano para a regeneração da África. Este plano pretendia criar, para toda a
África, uma cadeia de instituições educativas dirigidas por missionários na-
tivos e europeus em vista da formação de meninos e meninas de raça negra
como religiosos, catequistas e professores. Estes seriam enviados ao interior
da África como missionários para fundar centros e formar comunidades cris-
tãs.46 Dom Bosco adotou um plano semelhante, afirmando, como diz Bar-
beris, que seu método para a evangelização da Patagônia era desenhado de
acordo com o plano que “o bispo Comboni está tentando realizar no coração
da África”.47 Barberis cita as palavras de Dom Bosco:

Parece que a única ação efetiva é adotar o sistema de colonização, estabe-


lecendo nos limites da civilização uma série de pequenas aldeias cercadas,
onde podemos começar por estabelecer internatos, colégios, pensionatos e
orfanatos para os filhos dos selvagens, que estão muito abandonados; de-

44
Cf. G. Rosoli, “Impegno missionario e assistenza religiosa agli emigrati nella visione e
nell’opera di Don Bosco e dei Salesiani”. In: F. Traniello, Don Bosco, 289-329; P. Stella, Vita, 175ss.
Até 1888, ano da morte de Dom Bosco, os salesianos, além dos centros missionários na Patagônia,
mantinham 19 casas na Argentina, Uruguai, Brasil, Chile e Equador, incluindo internatos e escolas
para estudantes e aprendizes, gráficas e livrarias.
45
Dom Bosco a dom José Hipólito Salas, bispo de Concepción, 29 de julho de 1876, ver
Epistolario Ceria III, 79-80.
46
Sobre os contatos com o cardeal Lavigerie, cf. MB IX, 471, 500, 889, 939s. Sobre dom Comboni,
cf. MB IX, 887s: carta de Comboni a Dom Bosco, 30 de julho de 1870, em que Comboni diz ter-lhe en-
viado pelo correio o Postulatum sobre as missões africanas apresentado no Vaticano I. Cf. P. Chiocchetta,
Daniele Comboni: carte per l’evangelizzazione dell’Africa. Bolonha: EMI, 1978, 215-233, 235-247.
47
ASC A000: Cronichetta. Barberis, caderno 8, 87.

159

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 159 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

pois, por meio desses meninos, tentaremos evangelizar, no devido tempo, os


patagônios por meio dos mesmos patagônios. Se soubermos atrair os jovens,
será possível educar as crianças e, por meio delas, estender a religião cristã
aos seus pais.48

Em carta a Leão XIII, Dom Bosco expressa a ligação estreita que via
entre o trabalho de educação nas escolas e a evangelização missionária:

Tão logo chegaram os salesianos à Patagônia, sua primeira preocupação foi


erigir igrejas, lugares onde morar e escolas para meninos e meninas. Enquanto
alguns se ocupavam em ensinar artes e ofícios e agricultura às pequenas colô-
nias que fundaram, outros adentravam entre os selvagens para catequizá-los
e, se fosse possível, fundar colônias nas mais remotas regiões dos Pampas.49

Além de seu otimismo utópico, o plano refletia, sobretudo, a estratégia


missionária de Dom Bosco.

Opção pela Patagônia e pesquisa de Dom Bosco


No contexto do Vaticano I, Dom Bosco recebeu muitos pedidos de mis-
são, especialmente de Comboni. Entre todas, ele escolheu a oferta argentina
por ser a mais prometedora e atraente. O fato de os seus salesianos irem para
estar entre amigos e compatriotas, que precisavam ser evangelizados e assisti-
dos religiosamente, foi um incentivo a mais.

Os sonhos e pensamentos [de Dom Bosco] referem-se às missões em sentido


estrito (in partibus infidelium); [...] ou seja (seguindo a interpretação própria
do romantismo), entre povos cruéis e selvagens [que precisavam de evan-
gelização e civilização]. O mandato do Evangelho [aos apóstolos] “ide pelo
mundo e ensinai às nações” deixou de ser mero objeto de conhecimento [his-
tórico] e fé para os salesianos; foi visto como um mandato do qual foram en-
carregados [...]. Dessa forma, de [simples] crentes e espectadores do trabalho
de outros, os salesianos compreenderam agora que eram chamados a ser parte
ativa no trabalho de estender a fé católica [...]. Ao envolver-se a congregação
no trabalho missionário, a visão que os salesianos tinham de Igreja ganhou

48
Dom Bosco ao cardeal Franchi, 10 de maio de 1876, em Epistolario III Ceria, 58-60; 31 de
dezembro de 1877, em Epistolario III Ceria, 257-261. G. Barberis, “La Repubblica Argen­tina e la
Patagonia”, Letture Cattoliche, 291-292 (1877), 93-94.
49
Dom Bosco a Leão XIII, 13 de abril de 1881: Memoriale intorno alle missione salesiane, em
Epistolario III Ceria, 569, 573-574.

160

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 160 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

nova perspectiva. Para Dom Bosco, o mandato parecia também uma missão
jurídica, buscada e obtida do próprio Papa, pai da família dos crentes.50

No discurso feito à primeira expedição de missionários da Argentina,


Dom Bosco dizia:

Além disso, nas regiões que rodeiam a parte civilizada vivem grandes hordas
de selvagens, aos quais ainda não chegou a religião de Jesus Cristo, nem a civi-
lização, nem o comércio, e aonde os pés dos europeus até agora não puderam
deixar suas marcas. Estes países são os Pampas, a Patagônia e algumas ilhas
próximas, que formam, talvez, um continente superior a toda a Europa.51

Depois de “rigorosa pesquisa” parece que identificara estes selvagens pa-


tagônios com os indígenas que vira no sonho de 1871-1872.
Em maio de 1876, apresentou à Congregação para a Propagação
da Fé seu plano para a Patagônia que incluía “a criação de uma prefeitura
apostólica”.52 Em sua resposta, a Congregação, que aparentemente não tinha
conhecimento dessas regiões, pediu-lhe um relatório detalhado da região.53
Depois de contar seu sonho a Pio IX, e mais tarde a alguns salesianos em
1876, Dom Bosco fez este comentário ao padre Barberis: “Cheguei à idade de
60 anos sem ter ouvido nada sobre a Patagônia. Quem teria imaginado que
chegaria o momento em que precisaria estudá-la tão detalhadamente!”.54
Nessas circunstâncias, Dom Bosco, com a ajuda do padre Barberis, pes-
quisou e redigiu um relatório sobre A Patagônia e as terras austrais do conti-
nente americano.55 O documento de 164 páginas é o mais extenso que pos-
50
P. Stella, Vita, 170-171.
51
MB XI, 386.
52
Memorandum de Dom Bosco ao cardeal Franchi, 10 de maio de 1876, em Epistolario III
Ceria, 58-60.
53
ASC A000, Cronichetta, Barberis, 15 de maio de 1876, 49; G. Barberis, La Repubblica Argen-
tina e la Patagonia en Lecturas católicas, 291-292 (1877), 93-94.
54
ASC A000, Cronichetta, Barberis, 17 de maio de 1876, 55-56.
55
Cf. G. Bosco, La Patagonia e le terre australi del continente americano. Turim, 1876. Trata-se
de um manuscrito de 164 páginas, datado e assinado por Dom Bosco. Foi descoberto em 1983 na
biblioteca da Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma pelo salesiano padre E. Szanto, que publicou
um fac-símile com tradução em castelhano: E. Szanto, La Pata­gonia y las tierras australes del continente
americano. Apresentação, tradução e notas do “Pro­yecto Patagonia Don Bosco”, Bahía Blanca, Arquivo
Histórico Salesiano da Patagônia Norte, 1986. Hoje, há a edição crítica, cf. J. Borrego, “La Patago-
nia e le terre australi del continente americano [pel] sac. Giovanni Bosco”, RSS 13 (1988), 255-418.
Como se afirma no relatório, os dados sobre a Patagônia procediam dos “autores mais renomados que
trabalharam sobre o tema”. Dom Bosco (Barberis) cita D’Orbigny, Lacroix, Guinnard, Dally, V. Que-
sada, Ferrario, como também as Cartas edificantes, a resenha Museo delle Missioni Cattoliche e “cartas

161

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 161 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

suímos, no qual é exposto com clareza o conceito que Dom Bosco tinha
de missão. Quanto à informação que dá sobre a Patagônia, o relatório, sem
dúvida, reflete o conhecimento imperfeito que se tinha sobre essa região na
Europa de 1876. Contudo, alguns geógrafos consideram que esse trabalho de
Dom Bosco é o primeiro estudo científico geográfico de uma missão.56

Salesianos com indígenas, adultos e jovens, da missão de Candelara, na ilha Dawson.

Dom Bosco foi infatigável em sua busca de informação sobre a Patagô-


nia. Isso se torna evidente nos detalhes que aparecem em suas cartas e relató-
rios à Santa Sé e à Congregação para a Propagação da Fé,57 como também na
correspondência com missionários da região. Os artigos publicados no Bole-
tim Salesiano entre 1881 e 1884 também mantinham o leitor atualizado so-
bre os progressos do “projeto” missionário e de suas explicações mais recentes.

que nossos missionários nos escreveram sobre essa região”. O relatório apresentava detalhes históricos
e antropológicos e informação religiosa sobre a Patagônia, e indicava como se fizera muito pouco do
ponto de vista missionário. Concluindo, oferece uma descrição de sua “condição atual”, com detalhes
confiáveis sobre as péssimas condições sociais e religiosas. O documento apresenta o “novo plano” que
Dom Bosco propunha para iniciar a tarefa de evangelização.
56
Por exemplo, as homenagens feitas a Dom Bosco pela Sociedade geográfica de Lyon por uma
conferência feita em 1883, em MB XVIII, 637s. Para uma discussão dos méritos científicos do ensaio,
ver D. Gribaudi, em Bollettino della Società Geografica Italiana. Roma, 1961, 312; P. Scotti, “Missio-
ni Salesiane: contributi geografici”, Missioni Salesiane 1875-1975. Estudos para o primeiro centenário.
Roma: LAS, 1977, 267.
57
Cf. Memorandum de Dom Bosco à Congregação para a Propagação da Fé, 10 de maio de
1876, em Epistolario III Ceria, 58-60. Memorandum de 31 de dezembro de 1877, em Epistolario III
Ceria, 275. Relatório para Leão XIII, 13 de abril de 1881, em Epistolario III Ceria, 569-574.

162

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 162 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Missões ou escolas? Educação e evangelização


“Não há missões salesianas no sul [da Argentina e Chile], mas colégios,
escolas de agricultura e igrejas”; esta afirmação foi feita como crítica à estra-
tégia missionária de Dom Bosco, mas, na verdade, insiste na originalidade de
sua finalidade.58
Realmente, ao falar da originalidade da obra de Dom Bosco, o cardeal
Baggio dizia que “o mais significativo é o tipo de gente que ele escolheu servir,
a dupla condição de jovens e pobres [...]; esta opção é clara como o dia nos
territórios missionários salesianos”.59 Dom Bosco nunca se desviou de sua
opção original. O quinto, dos 20 conselhos dados aos missionários que parti-
ram em 1875, diz: “Cuidai de modo especial dos doentes, meninos, velhos e
pobres, e ganhareis as bênçãos de Deus e a benevolência dos homens”.60 Dez
anos depois, em seu Testamento Espiritual, ele escreve:

O mundo nos acolherá sempre com prazer enquanto nossas solicitudes se


dirigirem aos indígenas, aos meninos mais pobres, mais periclitantes da so-
ciedade [...]. Uma vez iniciada um missão no estrangeiro, [...] o empenho
tenha sempre em mira criar e organizar escolas e tirar delas alguma vocação
[...]. Nossas missões, no seu devido tempo, chegarão à China e precisamente
a Pequim. Mas não se esqueçam de que nós vamos para atender aos meninos
pobres e abandonados. Ali, entre povos desconhecidos e ignorantes do ver-
dadeiro Deus, ver-se-ão maravilhas até agora desconhecidas e que ninguém
acreditaria, mas que Deus poderoso manifestará ao mundo.61

A evangelização que tem por fim “a implantação da Igreja” é o objetivo es-


pecífico de toda atividade missionária; também o foi para Dom Bosco! De fato,
a “genuína evangelização” foi o tema dominante em seus discursos de despedida

58
João B. Francesia, Francesco Ramello, chierico salesiano, missionario nell’America del Sud. San
Benigno Canavese: Tip. e Libr. Salesiana, 1888, 117: “Alguns protestam que as missões de Dom Bosco
na América consistem apenas em abrir escolas e internatos...”. Um dos que fizeram um comentário assim
foi o padre Colbachini, escalabriniano, que escreveu a outro padre amigo, em 28 de fevereiro de 1887:
“Os salesianos no Rio [de Janeiro], São Paulo, Montevidéu, Buenos Aires, com outros salesianos que
estão espalhados pelo mundo, não se preocupam com as missões, exceto por algumas poucas na Patagô-
nia... Só se preocupam em serem professores e diretores das escolas de artes e ofícios que dirigem nesta
parte do mundo. É um bom trabalho, mas muito longe do que a maioria das pessoas acredita ser...”.
Cf. M. Francesconi, Inizi della Congregazione Scalabriniana (1886-1888). Roma: CSE, 1969, 104.
59
S. Baggio, “La formula missionaria salesiana”. In: Centenario delle Missione Salesiane: discorsi
commemorativi. Roma: LAS, 1980, 43; L. Ricceri, “Il progetto missionario di Don Bos­co”, idem, 14.
60
MB XI, 388: vinte lembranças aos primeiros missionários.
61
MB XVII, 274: testamento espiritual.

163

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 163 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

aos missionários que partiam e nas cartas que lhes enviava. Seus salesianos, pa-
dres, coadjutores e irmãs eram enviados “para anunciar a palavra de Deus”, para
“alargar a fé”, para “levar [...], proclamar [e] difundir a luz do Evangelho entre
os habitantes dos Pampas e da Patagônia”.62 Sobre isso, anota padre Caviglia:

O princípio fundamental da atividade missionária salesiana e do seu método


é [...] a conversão dos não crentes dedicando-se a atender às necessidades
educativas dos jovens [...]. Em toda missão salesiana, junto com o trabalho
sacerdotal [específico], sempre deve existir o serviço escolar [...]. Não importa
qual seja seu campo de ação, todas as casas salesianas são “colégios” – este é o
método específico com que os salesianos introduzem o cristianismo. 63

A escola não era apenas um meio útil de evangelização. Para Dom Bos-
co, a educação era “um componente orgânico da atividade missionária”. De
aqui que pedisse aos seus missionários que, uma vez iniciada uma missão, di-
rigissem seus esforços para criar escolas e tirar vocações. Estava convencido de
que, na prática, o melhor método, o mais seguro, para civilizar e cristianizar a
Patagônia era dirigir-se aos jovens, como os de Turim, Nice ou Buenos Aires,
e convertê-los em “cidadãos honestos e bons cristãos”.
O binômio “cidadãos honestos e bons cristãos” converteu-se em sua fór-
mula missionária, como já o fora para a ação entre os pobres e abandonados.
Repete-o constantemente em termos equivalentes durante a década de 1880:
“evangelização e civilização”, “o bem da sociedade e da religião”; “religião e
verdadeira civilização”. É claro que se tratava de civilização cristã, pois estava
convencido de que “não há verdadeira civilização fora do catolicismo, a única
religião verdadeira que santifica, une e civiliza as nações”. Aderia-se, assim, à
posição muito comum naquela época de que uma sociedade seria civilizada
desde que fosse cristã (católica) e, no caso da Patagônia, estaria civilizada
quando fosse evangelizada.64 Dom Bosco garante a um cooperador que os
salesianos missionários “ofereciam suas vidas com prazer em se tratando de
salvar almas e propagar o Reino de Deus para levar a religião e a civilização a
esses povos que não conhecem nenhuma das duas”.65

62
MB XI, 383s: discurso de Dom Bosco aos primeiros missionários.
63
A. Caviglia, La concezione missionaria di Don Bosco e le attuazioni salesiane (Discorso). Roma:
Unione Missionaria del Clero in Italia, 1932, 8-10, 12, 20, 24-26.
64
Dom Bosco ao padre Bodrato, 15 de abril de 1880, em Epistolario III Ceria, 576-577: “civili-
zação e religião”, “civilização e evangelização”. Discurso de Dom Bosco aos cooperadores de Turim, 20
de janeiro de 1881, BS 5 (fevereiro de 1881), 3. Cf. P. Braido, Progetto operativo, 24-26.
65
Dom Bosco a um cooperador desconhecido, 1º de novembro de 1886, em Epistolario IV
Ceria, 363-364.

164

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 164 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Um empreendimento missionário em colaboração


A fim de apoiar e desenvolver a missão patagônica, Dom Bosco recorreu
a todos os recursos disponíveis na Família Salesiana. Os cooperadores, que ele
descreve como “apóstolos associados da Patagônia”, formavam um exército
externo de homens e mulheres que, tanto no novo como no velho mundo,
proporcionavam apoio moral, espiritual e material para este grande empre-
endimento.66
Quanto ao pessoal, ele uniu salesianos, padres e leigos, e salesianas
como coparticipantes da missão. Toda expedição missionária incluía sale-
sianos coadjutores aos quais Dom Bosco dava o nome de “catequistas”. A
partir da terceira expedição, em 1877, contou-se com as salesianas. Dos 8
pioneiros que iniciaram a missão patagônica de Rio Negro, em janeiro de
1880, 4 eram salesianas, 3 salesianos padres e 1 coadjutor, cujo trabalho,
além de ser catequista, era de “ensinar como administrar uma fazenda e os
ofícios mais comuns”.67
Dessa forma, uma característica da estratégia missionária de Dom Bosco
foi a participação na missão, quase desde o início, de numerosas Filhas de
Maria Auxiliadora, uma opção não comum porque “antes, jamais se viram
monjas nestes remotos climas austrais”. Sua presença na Patagônia foi logo
verdadeiramente providencial, pois, sem sua ajuda, “teria sido impossível fa-
zer tanto a favor das mulheres e das meninas”.
Um jornal de Buenos Aires, em artigo sobre os inícios da missão salesia-
na na Patagônia em 1880, comentava:

Os missionários salesianos compartilham o trabalho com as dignas filhas de


Dom Bosco, as irmãs do Instituto de Maria Auxiliadora [...]. É a primeira
vez que veem monjas naquelas remotas regiões; e sua doçura e proverbial

66
Carta circular de Dom Bosco aos cooperadores salesianos, 15 de outubro de 1886, em Epis-
tolario IV Ceria, 360-363.
67
C. Chiala, Da Torino alla Repubblica Argentina: lettere dei missionari salesiani. Turim: Ti-
pografia e Libreria Salesiana, 1877, 28, 30, 36-37: Dom Bosco deu aos coadjutores o título oficial
de catequistas; Bolettino Salesiano 9 (novembro de 1885), 165. Ele prometeu ao arcebispo Aneyros,
de Buenos Aires, que “em curto espaço de tempo, os centros missionários de Rio Negro, Carmen de
Patagones e Viedma teria seu próprio padre e professor. Em Carmen de Patagones será construído um
internato para meninos índios e outro para meninas sob a direção de nossas irmãs, as Filhas de Maria
Auxiliadora. Posteriormente, os coadjutores salesianos embarcariam para Patagones com a finalidade
de ensinar agricultura e os ofícios mais comuns” (Dom Bosco ao arcebispo Aneyros, 13 de setembro de
1879, em R. Entraigas, Los salesianos, III, 85). Quando Dom Bosco falece em 1888, 19 coadjutores
trabalham nas missões da Patagônia. L. Carbajal, Missioni salesiane, 41, 61, 71-72).

165

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 165 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

amabilidade contribuíram grandemente, sem dúvida, para a conversão dos


índios à fé católica, a única religião verdadeira.68

Formação do clero nativo


As palavras com que Dom Bosco conclui a narração de terceiro sonho
missionário expressam um aspecto fundamental de sua estratégia. “Dar a
dom Cagliero e a meus queridos missionários um aviso de suma importância
relacionado com a sorte futura de nossas missões: todas as solicitudes dos
salesianos e das salesianas haverão de se dirigir à promoção de vocações ecle-
siásticas e religiosas”.69
Dom Bosco notara há muito que “a Igreja não pode estabelecer-se
permanentemente em terras de missão se não incentivar a criação de um
clero indígena estável”. Na parte final do Testamento espiritual, Dom Bos-
co recomenda a abertura de escolas para os pobres e o cultivo de vocações
autóctones. Como resultado de sua longa experiência de educador cristão,
estava convencido de que, também nas missões, os jovens que receberam
“educação cristã e científica” seriam “o instrumento mais adequado para
atrair os adultos à fé, dando assim à Patagônia um novo aspecto cristão
e civilizado” e afirmando que “os patagônios deveriam ser evangelizados
pelos patagônios”.70
Dom Bosco não veria o seu sonho realizado. Mas em 1900, no aspiran-
tado de Bernal, Buenos Aires, já havia “12 noviços da região de Rio Negro
[...] dois dos quais são filhos de pais índios”. Em Viedma e Patagones, as sa-
lesianas também tinham bastantes jovens índias professas. Bastantes meninas
da Patagônia eram professoras e missionárias em lugares diferentes daqueles
em que tinham nascido.71

68
“Los verdaderos héroes del desierto”, La América del Sur (jornal de Buenos Aires), 4 (1880),
1152. In: C. Bruno, Los Salesianos y las Hijas de María Auxiliadora en la Argentina. Vol. I. Buenos
Aires: Inst. Salesiano de Artes Gráficas, 1981, 201-202.
69
MB XVII, 306.
70
P. Scoppola, Commemorazione civile di Don Giovanni Bosco nel centenario della sua morte,
Turim, 30 de janeiro de 1988, Roma: Tip. Don Bosco, 1988, 22. Carta circular de Dom Bos­co, 25 de
agosto de 1876, em Epistolario III Ceria, 90: projeto para a formação de missionários nativos. Dom
Bosco ao cardeal Franchi, 31 de dezembro de 1877, em Epistolario III Ceria, 257: selvagens que se
convertem em evangelizados de selvagens. Relatório de Dom Bosco à Congregação para a Propagação
da Fé, Lyon, março de 1882, em Epistolario IV Ceria, 124: “abrir caminho até os indígenas através de
seus filhos”.
71
L. Carbajal, Missioni salesiane, 104.

166

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 166 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Envolvimento das Filhas de Maria Auxiliadora na atividade


missionária
Algumas comunidades de religiosas estabeleceram-se desde o século XVI
na América do Sul. Apesar da clausura estrita, dirigiam escolas conventuais
onde eram educadas meninas indígenas e mestiças. Dentre elas, saíam voca-
ções para suas ordens, de acordo com uma permissão concedida por Gregório
XIII (1572-1585). Assim, as trinitárias, as clarissas descalças e as francisca-
nas, entre outras, trabalharam em prol da evangelização da América do Sul
a partir de seus claustros, apesar de não poderem envolver-se diretamente na
atividade missionária.
O Concílio de Trento estabeleceu que a clausura fosse um elemento
essencial da vida religiosa feminina.72 Em consonância com esse princípio, a
Congregação para a Propagação da Fé proibiu que as religiosas se dedicassem
diretamente às tarefas de evangelização, mas permitiu-lhes ensinar a doutrina
cristã em seus conventos.73 Apesar das restrições, as ursulinas tinham, desde
1639, atividade missionária em Quebec (Canadá), desde 1682 em Martinica
e desde 1738 em Pondichery (Índia).
Entende-se, por isso, que em 1633, São Vicente de Paulo, seguindo o
conselho de São Francisco de Sales, quis que suas Filhas da Caridade fos-
sem leigas, sem hábito religioso, e não estivessem sujeitas à regra do claus-
tro. Eram, assim, livres para servir em hospitais e outros lugares, em contato
direto com o povo. São Francisco de Sales foi o pioneiro da ideia de que as
religiosas se envolvessem no apostolado. Não quis que suas filhas da Visita-
ção vivessem enclausuradas, mas as circunstâncias obrigaram-no a aceitar a
decisão de Roma.

Novo papel das religiosas no século XIX


O movimento pela libertação da mulher iniciado com a Revolução
Francesa e ajudado pelo Romantismo, também fez avançar a libertação das
religiosas, sendo-lhes permitido participar na ação missionária direta, “com

Sessão XXV, novembro de 1563.


72

Collectanea SCPF I, 352, resposta (1784). O caso de Maria Ward é instrutivo. Esta inglesa
73

dinâmica ingressou entre as clarissas descalças na Bélgica; mais tarde, fundou o Instituto da Bem-
-Aventurada Virgem Maria com regra jesuíta. Queria uma comunidade de monjas não enclausuradas,
sem qualquer hábito distintivo, envolvidas em tarefas de caridade e evangelização. Apresentou o plano
a Paulo V (1605-1621) em 1616 e recebeu sua aprovação extraoficial. Posteriormente, sob Urbano VIII
(1623-1643), a Congregação para a Propagação da Fé suspendeu as “jesuitinas”, monjas que não vivam
no claustro. A própria Maria Ward foi “encarcerada” por algum tempo num claustro da Alemanha,
porque trabalhava fora do convento, em contato com o povo. O Instituto seria, finalmente, aprovado
em 1877 e sua fundadora, oficialmente reabilitada.

167

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 167 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

os limites marcados pela prudência”. A ascensão da mulher no século XIX foi


de tal grandeza que os papas, ao se verem livres da dominação de Napoleão,
modificaram a lei do claustro. Muitos institutos masculinos possuíam insti-
tutos femininos associados. Nas missões, religiosos e religiosas trabalhavam
lado a lado na mesma tarefa. Até 1880, uns 30 institutos religiosos femininos
e cerca de 10 mil irmãs participavam do trabalho missionário. Em 1924, as
congregações femininas envolvidas estavam ao redor de 200.
As ordens femininas contemplativas também participaram do esforço
missionário da Igreja. Por exemplo, as carmelitas de Lisieux liam na clausura
os Anuários da Propagação da Fé, correspondiam-se com missionários e ofe-
reciam orações especiais pelas missões. Em 1861, um grupo dessas carmelitas
fundou um convento em Saigon, atual Ho Chi Minh, Vietnã. A partir desse
centro carmelita foram fundados na China, no Japão, nas Filipinas e em
outros países do extremo oriente não menos de 40 conventos. Outras ordens
contemplativas fizeram o mesmo. É verdade que não se envolviam direta-
mente na ação missionária, entretanto sua contribuição foi significativa.
O fervor missionário resultou não só de uma euforia momentânea, mas
de uma espiritualidade que se pode considerar típica do século XIX. Padre Li-
bermann, cardeal Lavigerie e, em menor grau, dom Comboni contribuíram
muito para a espiritualidade missionária, que influiu não só na vida apos-
tólica dos missionários, como também na vida das comunidades religiosas
masculinas e femininas, e dos católicos em geral. A espiritualidade salesiana
também adquiriu forte orientação missionária.

A atividade das Filhas de Maria Auxiliadora nas missões


Entende-se, neste contexto, por que Dom Bosco decidiu fundar um
instituto feminino paralelo à Sociedade de São Francisco de Sales e por que
as salesianas foram, desde o início, companheiras no trabalho missionário
salesiano. Em 6 de novembro de 1877, apenas cinco anos depois da fundação
do Instituto, seis jovens irmãs salesianas saíram de Mornese com a terceira
expedição missionária; o grupo era formado por jovens entre 17 e 25 anos.
Dois meses depois, em seu relatório à Sagrada Congregação para a Pro-
pagação da Fé, Dom Bosco escrevia: “Não distante de Villa Colón [Uruguai]
fundamos um internato e um colégio para meninas abandonadas sob a dire-
ção das Filhas de Maria Auxiliadora, um ramo da Congregação Salesiana”.74
Em 20 de janeiro de 1880, as salesianas estabeleceram-se em Carmen
de Patagones, tornando-se as primeiras religiosas a assumirem atividade

74
Relatório de 31 de dezembro de 1877, em MB XIII, 768.

168

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 168 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

missionária ao sul de Buenos Aires. Em 1888, outras irmãs uniram-se ao


padre Fagnano na missão da Terra do Fogo.
Além do entusiasmo missionário, estas jovens viviam profundamente a
espiritualidade missionária inculcada por Madre Mazzarello e Dom Bosco,
no espírito de São Francisco de Sales. Com total dedicação a Cristo e confian-
ça na Divina Providência, aceitaram o desafio da missão.

Punta Arenas (Chile, 1899): indígenas e autoridades civis diante do


“Colégio para meninas”, dirigido pelas Filhas de Maria Auxiliadora.

169

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 169 28/07/14 16:35


Apêndice

OS POVOS INDÍGENAS DO SUL DA AMÉRICA DO


SUL E A PRIMEIRA AÇÃO MISSIONÁRIA SALESIANA

Anotações de etnografia
Povos indígenas da Patagônia e Terra do Fogo: tribos e características
São duas as características que distinguem os povos indígenas da Argen-
tina, do Chile e do Uruguai: de um lado, uma grande variedade de grupos,
às vezes, de poucos indivíduos, cada um com suas características constitutivas
(polimorfismo); de outro, a ausência de diferenças extremas, por exemplo,
nenhum desses povos apresenta pigmentação escura da pele, cabelo crespo ou
encaracolado, estatura muito pequena, extremidades inferiores muito gran-
des, semblante bem delineado ou formas suaves.
Não há motivo para supor que o ameríndio tenha uma tipologia inde-
terminada, isto é, que seja um tipo básico com potencial para desenvolver-se
tanto para a espécie europeia (austral-caucasiana) como para a mongólica. É
provável que o ameríndio seja uma mescla de tipos básicos. Se assim fosse,
seria possível tirar duas conclusões: 1o) A mescla se deu num momento em
que os tipos básicos estavam na fase inicial de diferenciação. 2o) Para produzir
o grande número de tipos diferentes, a mescla deve ter acontecido numa etapa
muito precoce de diferenciação. As duas conclusões opõem-se à teoria de que
a América foi habitada em época relativamente recente, ou seja, ao final ou
depois do Plistoceno, entre 20 mil e 10 mil anos atrás.
Os primeiros habitantes da América teriam chegado da Ásia através do
estreito de Bering. A passagem deve ter acontecido em tempos muito remotos.
Por causa da falta de uma diferenciação extrema, e por outras razões, a
sistematização dos tipos humanos destes povos indígenas nunca foi feita de
modo conclusivo.

170

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 170 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Grupos e tipos
Concretamente, na Argentina e no Chile, entre os graus 30 e 53 de latitude
sul, dos Pampas ao Estreito de Magalhães, predominam os seguintes grupos:

1o Araucanos, principalmente nos Pampas argentinos e no centro-sul


do Chile.
2o Puelches, no norte da Patagônia (Argentina).
3o Tehuelches, no centro e no sul da Patagônia (Argentina).
Ao sul do Estreito de Magalhães, no arquipélago da Terra do Fogo, pre-
dominam três pequenos grupos:

1o Onas, assentados em terra firme, dividem-se em Shelknam (norte)


e Haus (sul).
2o Yamanas, que vivem em canoas (ou Yahagans).
3o Alakalufes, que vivem em canoas.
Estes grupos podem ser divididos em duas etnias básicas e uma intermédia.

Caçador da tribo Alakaluf com arco e flechas, diante de sua canoa.

171

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 171 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Etnia fueguina
A parte mais ao sul do arquipélago era habitada por grupos étnicos que
entram principalmente sob a denominação de fueguinos. A ela pertencem
principalmente os Yamanas (Yahgans) e os Alakalufes. Sua feição tem pouco
de selvagem ou primitiva. É verdade que possuem arcos ciliares pronunciados
e arqueados, mas esta evolução, provavelmente por causa das severas condi-
ções climáticas da região, não afeta significativamente a posição do olho nem
lhes dá um aspecto primitivo como na etnia australoide. Os olhos, porém,
possuem um ligeiro aspecto mongólico. Eles têm ainda outros aspectos, além
desse, que negam a conexão australiana. A face é pouco proeminente, o na-
riz é bem formado, a cabeça ligeiramente alargada (dólico-meso-cefálica);
o cabelo é escuro, liso e duro na maioria dos casos; quase não têm pelos, a
pigmentação da pele é clara, a estatura é baixa, a parte inferior do corpo,
bastante curta.

Etnia patagônia
Os melhores representantes desta etnia são os tehuelches da Patagônia
central e do sul. Os puelches do norte da Patagônia e os araucanos dos Pam-
pas, com seus subgrupos, também pertencem a esta etnia. Em tempos remo-
tos esta etnia era relacionada com os fueguinos. O cabelo e a pele asseme-
lham-se, mas têm características especiais. Sua estrutura corporal e delicadeza
fazem-nos uma das melhores etnias existentes. Os patagônios são gente alta,
embora, às vezes, se tenha exagerado muito a sua estatura. O corpo tem apa-
rência tosca, mas possuem grande energia e elegância. A face é proeminente, a
testa, ampla e reta, o nariz bem formado, grande e fino, mas não pontiagudo,
e a cabeça arredondada.

Etnia intermédia
Os onas (assentados, sobretudo na Ilha Grande e nas ilhas maiores do ar-
quipélago da Terra do Fogo) representam um grupo intermédio. São mais al-
tos que os fueguinos, embora se pareçam mais a estes do que aos patagônios.
Os povos indígenas dos Andes ocidentais (Chile) assemelham-se muito
aos do lado oriental.

Os “selvagens”, segundo Dom Bosco


Em circular de 5 de fevereiro de 1875, escrita para anunciar aos sale-
sianos que se tinha aceitado a oferta argentina, Dom Bosco escrevia: “Há

172

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 172 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

ali [na Argentina], mais além da região já civilizada, extensões de superfície


interminável habitadas por povos selvagens, com os quais os salesianos po-
dem realizar seu apostolado com a graça do Senhor”.75
A expressão povos selvagens fazia parte do vocabulário habitual da época
para designar os povos “que vivem em estado primitivo e incivilizado; sel-
vagens e ferozes; cruéis e hostis; brutais e bárbaros; membros de uma tribo
selvagem”.76
Na circular, Dom Bosco coloca em oposição “a região já civilizada” e as
“extensões de superfície interminável habitadas por povos selvagens”. Nos
livros e enciclopédias do século XIX, que representam o contexto cultural
de Dom Bosco, esta última expressão evocava um povo nômade, guerreiro,
simples, que vivia sem religião, leis ou moral. Gente assim tinha a pele escura
e com pelos, vivia nua ou coberta apenas com peles de animais e eram, em
sua maior parte, canibais.
Falando do “Progresso do Evangelho no Novo Mundo” em sua História
Eclesiástica (edição de 1870), Dom Bosco insistia na condição de não evange-
lizados dos indígenas, e escreve:

Os missionários que foram por primeiro àquele imenso hemisfério encon-


traram todo tipo de dificuldades para pregar o santo Evangelho e conver-
ter aqueles selvagens. Porém, quando estes selvagens em sua ferocidade
massacraram grande número de missionários e o sangue dos mártires co-
meçou a ser derramado, então, como na Igreja primitiva, o sangue der-
ramado converteu-se em semente fecunda de novos cristãos. Esses povos
que foram durante anos escravos do álcool, da impureza, do roubo e do
que é mais horrível, o consumo de carne humana, na medida em que
foram caindo sob a influência da luz do Evangelho abandonaram seus cos-
tumes selvagens e se tornaram castos, comedidos, fervorosos e dispostos a
derramar seu sangue por Jesus Cristo. (Do Golfo do México às terras de
Magalhães etc.) 77

Este modo de falar aparece no primeiro sonho missionário de Dom


Bosco. Mais tarde, as informações vindas da Argentina, especialmente do
padre Cagliero, obrigou Dom Bosco a suavizar suas expressões, como por

Dom Bosco aos salesianos, Turim, 5 de fevereiro de 1875, em Epistolario IV Motto, 408;
75

MB XI, 143.
76
Oxford Reference Dictionary. Oxford University Press, 1980, s.v., 736. Nova edição em 2000.
77
G. Bosco, Storia ecclesiastica ad uso delle scuole: nuova edizione migliorata ed accresciu­ta. Turim:
Tip. Oratorio di San Francesco di Sales, 1870, 309-310.

173

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 173 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

exemplo, no Boa-Noite de 12 de maio de 1875.78 Entretanto, ele manteve o


termo selvagens para designar os indígenas não civilizados e não evangeliza-
dos, assim como algumas expressões que caracterizavam esse termo.
Os dados antropológicos e etnográficos de que dispunha para referir-
-se às populações indígenas são, em sua maior parte, incorretos, fruto da
sua bagagem cultural genérica. Assim, no primeiro sonho missionário, os
selvagens são descritos como “gente bruta” que “assassina brutalmente e es-
quarteja [os missionários]”. No ensaio sobre a Patagônia, escrito e preparado
pelo padre Barberis para Dom Bosco em 1876, descreve-se os patagônios de
modo parecido:

Esta numerosa população ainda vive na escuridão e nas sombras da morte,


num estado completamente selvagem [...]. Até agora a voz dos missionários
não pôde ser ouvida em toda essa imensa região, apesar das numerosas ten-
tativas de evangelização através dos séculos. O fracasso se deve à ferocidade
com que os indígenas frustraram cada tentativa, visto que assassinaram com
selvageria todos os missionários que ousaram aproximar-se deles, e também
comeram sua carne.79

As descrições dos indígenas feitas por Dom Bosco em seus sonhos não
refletem a realidade, mas as imagens habituais de seu contexto cultural. As-
sim, os selvagens que vê no primeiro sonho missionário (1871-1872) são
descritos como “quase nus, de altura e compleição extraordinárias..., bronzea-
dos”. Esta descrição é mais apropriada para os indígenas da literatura român-
tica e das enciclopédias do século XIX do que de qualquer espécie real, tanto
fueguina como patagônia.

A altura dos patagônios foi tremendamente exagerada na literatura român-


tica. A ideia de que eram gigantescos tem sua origem no relatório de Antô-
nio Pigafetta, cronista da viagem de Fernando de Magalhães na expedição
de 1519-1520. Escreve que os patagônios (tehuelches) eram tão altos que
os europeus da expedição não lhes chegavam mais do que à cintura. Estes
indígenas extinguiram-se, mas se aceita que, de fato, eram de uma raça alta e
atlética. A altura média dos homens é estimada em um metro e setenta e cin-
co centímetros. Era frequente ver indivíduos de mais de um metro e oitenta,
também alguns de dois metros.80

78
MB XI, 146s.
79
J. Borrego, Patagonia, 255-418.
80
S. Kuzmanich, Cuatro pueblos, 30-31.

174

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 174 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

Quantidade de povos indígenas do sul da América do Sul


Em relação à quantidade e distribuição das populações indígenas, Dom
Bosco menciona grande número de indivíduos, tanto nos sonhos como no
ensaio já mencionado. O autor, padre Barberis para Dom Bosco, apresenta
vários cálculos, fixa o número da população indígena na Patagônia e Terra
do Fogo no momento em que escrevia (1876), em não menos de quatro
milhões. Manteve esse número, apesar da informação recebida dos salesianos
na América do Sul. A ideia de Dom Bosco sobre o número de indígenas, em
especial sua fixação de que ainda havia muita população a descobrir, foram
ridicularizadas em Roma.
O número de indígenas nessas regiões no século XIX era, na verdade,
bastante escasso. Borrego, em sua edição crítica do ensaio sobre a Patagônia,
cita estimativas na época de Dom Bosco, em 1876:

1o Padre Cagliero informa que há 30 mil nos Pampas e 40 mil na


Patagônia.
2o A. D’Orbigny, cujas obras foram fonte para o ensaio de Barberis-
-Bosco sobre a Patagônia, apresenta estas cifras: araucanos (pam-
pas), 30 mil; fueguinos (onas, norte e sul, yahgans e alakalufes), 4
mil; patagônios (te­huelches, puelches etc.), 32,5 mil.
3 F. Lacroix e N. Dailly apresentam quantidades menores para a
o

região do rio Negro até o Cabo de Hornos, a totalidade da Pata-
gônia: 8 mil a 10 mil.
4 J. Moroni: dos Pampas ao Cabo de Hornos: 319,6 mil. É a maior
o

estimativa de todas, considerada normalmente como improvável.


5 R. Napp, V. Martin de Moussy: cerca de 30 mil no total.
o

6o O padre salesiano Lino Carbajal apresenta as seguintes estimativas
para os indígenas, em estado selvagem, ou seja, não civilizados: [I]
No início do século XIX, do rio Colorado até o cabo Hornos: uns
50 mil. [II] Em 1880, quando os salesianos iniciaram sua primeira
missão com os indígenas: na Patagônia, 23 mil; na Terra do Fogo,
8 mil. [III] Em 1900, momento em que ele escreve: na Patagônia,
5,5 mil; na Terra do Fogo, 4,2 mil.81
7o Padre Lourenço Massa (SDB) cita várias estimativas: [I] A. Cañas
Pinochet: em 1886, os onas-shelkmam somavam uns cinco mil.

81
MB XVIII, 388s; Annali I, 587f.

175

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 175 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

[II] Tomás Bridge, apóstolo anglicano dos yamanas, em 1883, so-


mavam uns três mil. Numa pesquisa francesa de 1882, chegavam
a dois mil e oitocentos. [III] Registros oficiais chilenos: em 1887,
os alakalufes somavam uns 900 e os tehuelches, apenas dois mil.82
Na verdade, não existe um estudo plausível sobre o número de indígenas.
Como acontece nos povos nômades, eram poucos e deviam vagar por amplos
territórios para subsistirem. As condições climáticas extremas e outras durezas
do meio físico (como a dieta pobre) mantiveram essa quantidade baixa; além
disso, havia elevada taxa de mortalidade, especialmente entre as crianças.

Grupos de mulheres ona com seus filhos.

Os povos descritos acima se moviam pelos seus territórios em peque-


nos grupos tribais, cada um com não mais de 100-150 indivíduos (homens,
mulheres e crianças); em apenas alguns poucos casos está documentado que
chegassem a 500. Quando a Argentina e o Chile começaram a expansão siste-
mática de suas fronteiras para o sul, na década de 1870, o número de nativos
decresceu rapidamente. Quatro fatores contribuíram para isso:

L. Massa, Monografía de Magallanes. Punta Arenas (Chile): Tip. Salesiana, 1945; A. CaÑas
82

Pinochet, La geografía de la Tierra del Fuego y noticias de antropología y etnografía de sus habitantes” .
In: S. Kuzmanich, Cuatro Pueblos, 113-120.

176

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 176 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 2. Vocação missionária de Dom Bosco...

1o Perda do habitat natural e, como consequência, da caça e da pesca,


seu meio de subsistência.
2o Enfrentamento armado com os colonos em que os pequenos gru-
pos sofreram grandes perdas, do que poucos se recobraram.
3 Doenças transmitidas pelos colonos brancos.
o

4o Absorção gradual através dos casamentos mistos.


O último salesiano missionário, no sentido mais estrito do termo, padre
Frederico Torre, visitou pequenos grupos de indígenas em 1945; não pôde
contar mais do que 400 indivíduos, a saber: tehuelches, 180 na Argentina,
nenhum no Chile; alakalufes, uns 130, com seu centro em Puerto Edén,
costa oeste da ilha de Wellington, e nos canais do norte; onas, na missão Can-
delara, ilha Gran­de, na Terra do Fogo, 25 indivíduos; yamanas, que viviam
na ilha de Nava­rino, Chile, e arredores, menos de 40. Em 1976, este grupo
reduziu-se a 6-10 pessoas. A bela raça dos onas desaparecera com a morte de
seu último representante, uma mulher.

177

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 177 28/07/14 16:35


Capítulo V

PRESENÇA SALESIANA NA AMÉRICA DO SUL.


3. MISSÕES SALESIANAS

A proposta oficial argentina, aceita por Dom Bosco, não fazia qualquer
referência à evangelização das tribos indígenas da Patagônia e Terra do Fogo.
Reduzia-se à igreja italiana de Nossa Senhora das Mercês, em Buenos Aires,
e a uma escola em San Nicolás de los Arroyos, mais ou menos a 160 quilô-
metros a noroeste.

1. Objetivo missionário de Dom Bosco ao aceitar a


oferta argentina
Dom Bosco, contudo, não tardou a ver as possibilidades especifica-
mente missionárias da proposta, que correspondia aos planos missionários
que fora cultivando e às sugestões do sonho de 1871-1872. Em suas tra-
tativas com as instâncias argentinas, falou apenas da obra salesiana típica
para os jovens da paróquia, da escola e do Oratório etc.1 Diferentemente,
quando tratava com os salesianos ou a Santa Sé, falava de missões reais.
Como escreve numa carta circular em que convidava os salesianos a se apre-
sentarem como voluntários:
Entre as numerosas propostas recebidas para o estabelecimento de uma mis-
são estrangeira, parece preferível aquela apresentada pela República Argenti-
na. Na Argentina, além das regiões já civilizadas, há imensos territórios ha-
bitados por populações selvagens. É nesse setor que, pela graça de Deus, os
salesianos são chamados a manifestar o seu zelo.2

1
Por exemplo, em cartas ao padre Ceccarelli, 25 de dezembro de 1874, em Epistolario IV Motto,
372-373, e, em latim, a dom Aneyros, 15 de novembro de 1875, em Epistolario IV Motto, 552-553.
2
Carta circular, 5 de fevereiro de 1875, em Epistolario IV Motto, 407-409.

178

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 178 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Dom Bosco esboçou um plano para a evangelização das tribos nativas


num memorando ao cardeal Alexandre Franchi, prefeito da Congregação
para a Propagação da Fé; nele, fala da escola de San Nicolás como seminário
e campo de treinamento para a missão.

A estratégia que parecia ter mais probabilidades de sucesso era a de estabe-


lecer abrigos, escolas, internatos e centros de ensino nas regiões fronteiriças
dos nativos. Entretanto, em contato com as crianças, o fácil passo seguinte
seria pôr-se em contato com suas famílias, e assim fazer uma ponte com as
tribos dos indígenas. Esta cidade [San Nicolás] está a apenas 60 quilômetros
de onde vivem os indígenas. A partir desta [situação vantajosa], os salesianos
poderiam estudar o idioma, a história e os costumes desses povos. Seria tam-
bém possível desenvolver vocações de missionários nativos entre os alunos...
Chama-se escola de San Nicolás, com a finalidade de não ofender as sensibi-
lidades nacionais. Mas, na realidade, é um seminário, ou seja, uma escola em
que se formam as vocações missionárias para o trabalho entre os indígenas.3

A não possível atividade missionária salesiana imediata entre


os nativos
Esta estratégia de evangelizar indígenas por meio de vocações nativas
era muito idealista para ser concretizada. Os salesianos não podiam realizar
missões entre os indígenas, devido à escassez de pessoal, às dificuldades lin-
guísticas e culturais, à organização eclesiástica e pelo fato de que, aos olhos
das autoridades eclesiásticas de Buenos Aires, eles estavam ali para cuidar dos
pobres nos bairros da cidade. Não eram vistos como missionários. Além disso,
os enfrentamentos armados na fronteira sul entre o governo argentino e os
indígenas complicavam as coisas.
Dom Bosco, contudo, não deixava de falar e escrever em termos entu-
siasmados e otimistas sobre a conversão dos nativos e a estratégia que pensara
há muito tempo: os internatos previstos para os jovens indígenas que ser-
vissem também como seminários menores para as vocações nativas. E o fez
escrevendo aos salesianos e às autoridades romanas. Dessa forma, manteve
vivo o espírito missionário entre os salesianos e jovens, e favoreceu a ideia de
possíveis territórios de missão perante as autoridades romanas.
As perspectivas, porém, para a atividade dos missionários entre os indíge-
nas não eram boas. É certo que houve alguma ação missionária nos Pampas, ao
3
Dom Bosco ao cardeal Franchi, 10 de maio de 1876: FDB 23 A3-6 (autógrafo), em Episto­lario
III Ceria, 58-61.

179

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 179 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

sul e sudoeste das regiões de Buenos Aires. Ali, os Padres da Missão [de São Vi-
cente de Paulo] estabeleceram uma missão em Los Toldos e uma base na foz do
rio Negro, onde estavam os postos militares de Carmen de Patagones e Viedma.
A partir dessa base, atendiam aos colonos ou gaúchos; ocasionalmente, também
se puseram em contato com os nativos dos arredores. Em 1872, os franciscanos
evangelizaram as tribos ranqueles dos Pampas. Entretanto, as constantes hostili-
dades na fronteira tornavam impossível uma atividade missionária continuada.
Dom Bosco persistiu em suas ideias e sonhos sobre as missões; para ele, a
proposta da Argentina dava oportunidades que iam além das igrejas e escolas
em Buenos Aires e San Nicolás. Era só uma questão de tempo; a hora das
missões haveria de ecoar.

Solução de Dom Bosco para a questão dos imigrantes italianos


Segundo informa padre Barberis em sua crônica, em fevereiro de 1876,
Dom Bosco falou de um plano audacioso que apresentaria ao primeiro-mi-
nistro da Itália numa próxima visita a Roma.

Dom Bosco esteve a considerar seriamente uma ideia que, de início, podia
parecer absurda, mas que, apesar disso, apresentará ao [primeiro-ministro]
Minghetti. A proposta é estabelecer uma [colônia de imigrantes italianos]
na América do Sul, especificamente na Patagônia. O primeiro passo seria
estabelecer um forte ou paliçada; depois, aos poucos, em sucessivas incursões,
poder-se-ia dominar toda a região; e, ao mesmo tempo, os indígenas [selvag-
gi] poderiam ser civilizados. Os missionários salesianos estariam à disposição
para facilitar o processo neste último aspecto.
Dom Bosco propôs seu plano pela primeira vez na noite de sábado 5 [de
fevereiro de 1876]. Nesse ínterim, chegaram cartas do padre Cagliero, porta-
doras de excelentes notícias das missões [ou seja, da obra salesiana em Buenos
Aires]. Dessa forma, no dia seguinte, à noite, Dom Bosco voltou a falar de
seu plano com mais detalhes e de uma maneira que o fez parecer factível. E
acrescentou: “A primeira coisa que farei ao chegar a Roma será apresentá-lo
ao [primeiro-ministro] Minghetti”.4

Enquanto isso, apesar de muitos compromissos e preocupações, Dom


Bosco continuava obcecado com seus “projetos patagônicos”; dedicou muito
tempo e energia a articulá-los para si e para as autoridades. Escreveu ao padre
4
Crônica autógrafa de Barberis, caderno IV, 46-47, entrada de 5-6 de fevereiro de 1876: FDB
837 D6-7.

180

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 180 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Cagliero que trabalhava numa “série de projetos que aos olhos do mundo
pareceriam sonhos de um louco”.5 Provavelmente, ele se referia ao plano que
preparara para solucionar a questão dos imigrantes.
Dias antes desta carta, em abril de 1876, ele apresentara ao ministro ita-
liano de Assuntos Exteriores um plano para o estabelecimento de uma colô-
nia de imigrantes italianos. Essa colônia, “completamente italiana no idioma,
nos costumes e no governo”, daria as boas-vindas aos imigrantes italianos da
Argentina, do Chile, do Uruguai e do Paraguai e se estabeleceria na região
costeira, entre Rio Negro e o estreito de Magalhães. Dom Bosco acreditou
erroneamente que a região era uma espécie de terra de ninguém, “sem hospe-
darias, sem portos e nenhum governo estabelecido”.6
Um mês depois, escrevendo ao prefeito da Congregação para a Propaga-
ção da Fé, sugeria que se devia criar uma prefeitura apostólica “que exercesse
a autoridade eclesiástica sobre os habitantes dos Pampas e da Patagônia”, por-
que (assim acreditava) “nenhuma autoridade civil ou eclesiástica tinha influ-
ência nem poder algum... sobre essa vasta região”, pois carecia de qualquer
administração diocesana ou civil”.7
As cartas de Buenos Aires dos padres Fagnano e Cagliero indicaram-lhe
respeitosamente que o projeto não era factível. Padre Cagliero escrevia:

É temerário até mesmo mencionar [tal] coisa por aqui. Não estamos entre os in-
fiéis! Nem sequer podemos falar de nós mesmos como missionários apostólicos!
Depois de contatarmos os nativos e termos trabalhado entre eles durante alguns
anos, veremos... Em relação à Patagônia, é uma empresa para a qual os salesianos
ainda não estão preparados... É fácil fantasiar sobre ela, mas difícil de realizá-la na
prática... Temos de trabalhar para isso com zelo e paciência, sem fazer ruído. Não
podemos pretender, nós que acabamos de chegar, conquistar uma terra que nos é
desconhecida, com uma língua que não podemos falar... O senhor, porém, reve-
rendo pai, se o senhor pensa que é o correto, não dê importância ao raciocínio de
minha prudência demasiado humana, para não interferir nos planos de Deus!8

A resposta do ministro Melegari, através de seu secretário, Tiago Malva-


no, chegou três meses depois. Ele escreveu cortesmente:

Dom Bosco ao padre Cagliero, 27 de abril de 1876, em Epistolario III Ceria, 52. Para um
5

comentário destes projetos e sobre o conhecimento geográfico de Dom Bosco destas regiões do sul da
Argentina em 1876, cf. J. Borrego, Primer proyecto, 21-72.
6
Dom Bosco ao ministro Melegari, Memorandum, 16 de abril de 1876, em Epistolario III Ceria, 44-45.
7
Dom Bosco ao cardeal Franchi, Memorandum, 10 de maio de 1876, em Epistolario III Ceria, 60.
8
Padre Cagliero a Dom Bosco, 5-6 de março de 1876, em ASC A131.

181

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 181 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Quanto ao projeto para a colonização da Patagônia, o ministro se reserva o


direito de examinar suas repercussões... Em vista do recente retorno da velha
disputa entre Chile e Argentina pela divisão de suas regiões, parece mais pru-
dente adiar qualquer ação até uma ocasião mais adequada.9

Dom Bosco reconheceu o seu erro, mas continuou a sustentar que “um
sistema de colonização” era “o meio mais conveniente para cristianizar e civi-
lizar os povos [da Patagônia]”. Ele nunca renunciou ao plano de erigir cano-
nicamente um ou mais vicariatos, pois os considerava como essenciais para
consolidar a ação de difundir o Evangelho, que culminaria na plantatio Ecclesiae
e na “criação de uma forma estável de civilização entre esses povos”. O vicariato
apostólico seria “o centro das colônias estabelecidas e das que, com a ajuda do
Senhor, esperava que fossem criadas”.

Carta de Tiago Malvano, secretário do ministro de


Assuntos Exteriores, a Dom Bosco, 18 de agosto de 1876.

9
Tiago Malvano a Dom Bosco, 18 de agosto de 1876: FDB 1543 A5, citado em J. Borrego,
Originality, 479, nota 41.

182

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 182 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

2. Dom Bosco, impaciente para iniciar a atividade


missionária
Entretanto, Dom Bosco não duvidava em falar e dar publicidade aos
seus planos de missão entre os selvagens. Contudo, seriam precisos mais
alguns anos, antes que os salesianos pudessem estabelecer uma base em
Carmen de Patagones, em 1880, e começar a atividade missionária entre
os indígenas.10

De Buenos Aires, conselhos prudentes


Padre Cagliero escreveu ao padre Rua: “O senhor vive num mundo de
fantasia: ‘Ide e pregai aos nativos, convertei e civilizai os nativos!’. Não po-
demos nem sequer encontrar um caminho... Todo mundo, a começar pelo
arcebispo, aconselha-nos a esperar o nosso momento”.11
Essas motivações foram decisivas. Dom Bosco respondia simplesmente:
“Aquilo que escreves sobre a Patagônia está em pleno acordo com meus pró-
prios sentimentos sobre a questão”.12 Os projetos utópicos de Dom Bosco
deviam aceitar, forçosamente, a dura realidade enfrentada por seus salesianos
no campo concreto. Seu fervor missionário e a impaciência haveriam de
suavizar-se pelo doloroso processo de estabelecer as bases e conseguir uma
abertura. Dom Bosco, porém, considerava que o trabalho missionário ob-
teria o reconhecimento oficial dos salesianos na Igreja como “missionários
apostólicos”, através da criação de vicariatos ou prefeituras.
Enquanto isso, dom Aneyros aconselhava aos salesianos a consolidarem
sua posição em Buenos Aires e em toda a região do Prata, que lhes serviria
de base e centro. Deveriam ampliar sua ação em paróquias e escolas e nas es-
truturas de formação já constituídas. E, para preparar-se ao eventual contato
com os nativos, os salesianos deveriam desenvolver uma estratégia pastoral
adequada. Padre Cagliero estava totalmente de acordo.

Atividade militar do governo argentino para alargar a fronteira ao sul


Na década de 1870, a fronteira sul da Argentina não se estendia além
do limite próximo dos Pampas e do rio Colorado. Os soldados construíram
uma série de fortes ou paliçadas na fronteira para proteger os assentamentos e

10
Cf. J. Borrego, Proyecto, 61-67.
11
Padre Cagliero ao padre Rua, 20 de dezembro de 1876.
12
Epistolario III Ceria, 170.

183

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 183 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

procuravam empurrar os nativos para o sul. Os indígenas, porém, voltavam;


embora saíssem vencidos das escaramuças, na prática só se tratava de um
afastamento temporário. O catalisador da resistência era o chefe araucano
Calcufurá, que morreu em junho de 1873. A resistência, todavia, continuou
com seu filho Manoel Namuncurá; os enfrentamentos continuaram com
crescente frequência e violência.
Em 1875, o ministro da Defesa, general Alsina, propôs a construção
de um grande canal ou fosso na divisa dos Pampas, para manter os nativos
afastados. O plano foi abandonado, mas ainda em 1875, o governo argentino
iniciou um esforço contínuo e organizado para estabelecer o controle perma-
nente da Patagônia pela Argentina.
O plano era exigido não só pelas ameaças dos nativos, mas também por
outros fatores. Um deles era o temor de que a Grã-Bretanha, que mantinha
o controle das Malvinas (Falkland), tentasse penetrar até a Patagônia. Outra
razão, e mais grave, era a tentativa do governo chileno de controlar parte
desse território.
Em abril de 1879, o general Júlio Roca, sucessor de Alsina como
ministro da Defesa, organizou uma grande expedição militar com a fi-
nalidade de ampliar a fronteira mais ao sul e fazer com que os indígenas
retrocedessem além dos rios Negro e Neuquén. Com isso, a Argentina
garantiria o controle indiscutível da Patagônia. Monsenhor Mariano
Antônio Espinosa, vigário de Buenos Aires, e os salesianos, padre Tiago
Costamagna e clérigo Luís Botta, uniram-se à expedição como capelães.
Sempre ciente dos acontecimentos, Dom Bosco escreveu à Santa Sé uma
nota de triunfo:

No dia de hoje, 20 de abril de 1879, três missionários salesianos, acompa-


nhando uma expedição encabeçada pelo ministro da Guerra, partiram para
o território dos índios dos Pampas. Seu propósito é resgatar o maior número
possível daquelas crianças que, parece, estão condenadas ao massacre pela
política do governo argentino.13

Em 27 de abril de 1879, contataram pacificamente os indígenas em


Carhué e, mais a sudoeste, em Choele-Choel, no rio Negro, porta de entrada
para a Patagônia. E ali foi celebrada a santa missa perante os olhares dos nati-
vos. A viagem terminou em Carmen de Patagones na foz do rio Negro, onde
padre Costamagna pregou uma missão aos colonos.

13
Dom Bosco à Santa Sé (Leão XIII), 20 de abril de 1879, em Epistolario III Ceria, 468-470.

184

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 184 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Os salesianos estabelecem-se em Carmen de Pagones e em Viedma


Dom Aneyros previra entregar aos salesianos as paróquias de Carmen de
Patagones e Viedma, na foz do rio Negro, de onde se poderia iniciar a conta-
tar os nativos que viviam ao longo do rio. Entretanto sentiu-se na obrigação
de confiar as paróquias aos Padres da Missão, que tiveram de abandonar Los
Toldos (Pampas).

Terra do Fogo: Missão de São Sebastião, primeira fundação salesiana entre nativos (1893).

Mediante uma carta dirigida ao arcebispo Aneyros, em 15 de agosto


de 1879, os Padres da Missão renunciaram a Patagones, por causa da falta
de pessoal. Então, o arcebispo confiou a paróquia aos salesianos. Em 2 de
fevereiro de 1880, padre Fagnano foi nomeado pároco. Alguns meses depois,
padre Emílio Rizzo foi designado pároco de Nossa Senhora das Mercês, em
Viedma, futura sede do vicariato na margem sul do rio.14 Foi assim que, a
partir das duas bases, o trabalho propriamente missionário salesiano estende-
ria seus ramos, nos próximos anos, ao longo do rio Negro.
Enquanto isso, a campanha do general Roca para controlar o terri-
tório defrontou-se com a feroz resistência de muitos grupos de indígenas
mapuches liderados pelo cacique Manoel Namuncurá. As escaramuças

14
J. Borrego, Primo iter, 78-85.

185

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 185 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

continuaram por alguns anos, com resultados, em geral, indefinidos; mas


com considerável perda de vidas dos nativos. Alguns foram para o Chile,
enquanto outros se renderam e foram aprisionados ou recrutados para
o exército argentino. Em fins de 1882 e em 1883, o general Conrado
Villegas, a quem o general Roca entregara o comando da fronteira do rio
Negro, iniciou outra campanha que obrigou Namuncurá a se render. Pa-
dre Domingos Milanésio atuou como intermediário nas negociações que
pacificaram a região sob o controle argentino. Essas operações militares
impediram em grande parte a atividade salesiana. Após 1883, cessando
a ação militar, a atividade missionária salesiana entre os restantes grupos
tribais recobrou impulso ao longo do vale do rio Negro, até chegar aos An-
des. O relatório do padre Fagnano, de 1883, descreve o primeiro sucesso
missionário dos salesianos.15
A fundação em Carmen de Patagones e no rio Negro marcou a fase
inicial da atividade missionária salesiana. Fique claro que os salesianos come-
çaram a sua ação missionária entre os indígenas sob o patrocínio da arquidio-
cese de Buenos Aires, não como missionários apostólicos. A obra missionária
salesiana só passou à jurisdição da Congregação para a Propagação da Fé
quando foi criado o vicariato (1883-1885); desde então, os salesianos se con-
verteram em missionários de “direito apostólico”. Dom Bosco celebrou essa
conquista como o maior triunfo da Congregação e como profecia da futura
expansão da obra salesiana na América do Sul.

3. Dom Bosco busca o reconhecimento oficial das


missões salesianas
Na verdade, ainda antes da efetivação da primeira etapa do projeto
missionário, quando os salesianos da primeira expedição estavam inician-
do a obra em Buenos Aires e San Nicolás, Dom Bosco pedira à Santa Sé o
reconhecimento oficial da atividade missionária da Congregação Salesia-
na mediante a criação de vicariatos ou prefeituras. O reconhecimento da
Santa Sé concederia o status apostólico à atividade das missões salesianas
na Patagônia.
15
A história da pacificação da província do Rio Negro é contada em MB XVI, 370s. Padre Do-
mingos Milanésio (1843-1922) fez-se salesiano em 1869, foi ordenado padre em 1873 e participou da
terceira expedição missionária de 1877. Em 1880 uniu-se ao pequeno grupo que fundou a missão em
Rio Negro e distinguiu-se como missionário atuante. Em 1883, atuou como intermediário na rendição
do chefe Namuncurá, a quem converteu; em 1888, batizou Zeferino, filho de Namuncurá; e veio a
falecer em Bernal, Argentina, em 1922.

186

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 186 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Importância do reconhecimento da Santa Sé


Dom Bosco dava a maior importância a esse ato oficial de aprovação, a
ponto de esta nova etapa do projeto converter-se na preocupação absorvente
de todos. Ele chegou praticamente a considerar sua concretização como uma
reivindicação da Congregação Salesiana e sua missão na Igreja. E escreveu ao
padre Costamagna que, nessa época, sucedera como provincial ao falecido
padre Bodrato (1880):

A obtenção da ereção de uma prefeitura ou de um vicariato apostólico da


Patagônia é de suma importância. O Santo Padre o quer e o está urgindo. É
vantajoso também para nós, porque, sem ela [confirmação oficial] não con-
taremos com o apoio da Congregação para a Propagação da Fé, nem com o
da sociedade da Propagação da Fé, de Lyon, nem com o da Santa Infância.
Parece que nem o padre Bodrato nem tu mesmo estais conscientes da impor-
tância desse projeto.16

Ao padre Fagnano, escreveu em 1881:

A missão da Patagônia é o maior empreendimento de nossa Congregação.


Tudo te será contado no devido tempo. Mas devo logo avisar-te, que te estão
impondo grandes responsabilidades. A ajuda de Deus, porém, não faltará.17

Desde 1876, Dom Bosco solicitara esse reconhecimento à Congregação


Romana.

Ensaio de Dom Bosco sobre a Patagônia, pesquisado pelo padre


Barberis (1876)
Patagônia não era uma palavra comum em Roma. As autoridades da
Igreja queriam informação mais detalhada sobre a terra e a população indí-
gena. Por isso, a pedido do prefeito da Congregação para a Propagação da
Fé, foi solicitado a Dom Bosco que apresentasse um memorando a respeito.
Tinha à disposição a pesquisa do padre Barberis, A Patagônia e as regiões mais
austrais do continente americano. O resultado constituiu uma importante mo-
nografia que, assinada por Dom Bosco, em 20 de agosto de 1876, foi apre-
sentada à sagrada Congregação.18

16
Dom Bosco ao padre Costamagna, 31 de janeiro de 1881, em Epistolario IV Ceria, 7.
17
Dom Bosco ao padre Fagnano, 31 de janeiro de 1881, em Epistolario IV Ceria, 13-14.
18
G. Bosco, La Patagonia e le terre australi del continente americano. Turim, 1876.

187

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 187 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Na conclusão da obra, descreviam-se os possíveis novos projetos para a


evangelização da Patagônia, baseados nas propostas que os salesianos estavam
apresentando e o padre Cagliero estava avaliando como possíveis pontos de
partida para a missão.
Por exemplo, como já se mencionou, a paróquia de Patagones era uma
possibilidade; mas foi concedida aos Padres da Missão. Falou-se de muitas
outras possibilidades. Oferecia-se uma capelania em Carhué, onde o exército
argentino estabelecera uma nova fronteira ao sul. Padre Cagliero e outros
dois salesianos receberam um convite para ir e permanecer com duas tribos
indígenas de Chubut, na Patagônia central. O governo argentino estava para
fundar uma colônia em Santa Cruz, na Patagônia austral onde os salesianos
poderiam ser capelães. Lamentavelmente, porém, por diversas razões, esses
planos não se materializaram. As capelanias de Carhué e de Santa Cruz, por
exemplo, estariam a serviço dos militares; padre Cagliero pensou que essa
ligação seria imprópria. A oferta de Chubut teve de ser recusada pela forte
presença de missionários protestantes galeses no local.

Propostas apresentadas por Dom Bosco à Congregação para a


Propagação da Fé
Logo que os primeiros salesianos estabeleceram-se em Buenos Aires e
San Nicolás, Dom Bosco começou a trabalhar sobre o seu projeto missioná-
rio perante as autoridades romanas. O ensaio sobre a Patagônia (1876) é um
exemplo disso. Parece, também, que concebesse e falasse do empreendimento
em termos de missão. Entre 1876 e 1883 concretizaram-se neste sentido nu-
merosos intercâmbios e negociações.
No memorando ao cardeal Franchi, depois de expor sua estratégia para a
evangelização das tribos indígenas fora de San Nicolás, acrescenta:
Peço humildemente a Vossa Eminência:

3o A criação de uma prefeitura apostólica, que pudesse exercer autoridade


eclesiástica sobre os indígenas dos Pampas e da Patagônia, que até agora
não foram sujeitos a nenhum ordinário diocesano nem a qualquer gover-
no civilizado.19

Em nota posterior ao mesmo prefeito, ao falar da criação da obra salesia-


na na Argentina e no Uruguai como missão e dos movimentos militares do

19
Dom Bosco ao cardeal Franchi, 10 de maio de 1876, em Epistolario III Ceria, 58-61.

188

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 188 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

governo para ampliar a fronteira sul, Dom Bosco sugeria-lhe a ereção de uma
Prefeitura Apostólica em Carhué e de um Vicariato em Santa Cruz.20
Pouco depois, em carta ao cardeal João Simeoni, recém-nomeado pre-
feito da Congregação para a Propagação da Fé, propunha a criação de um
vicariato ou de uma prefeitura em Carmen de Patagones na foz do rio Negro.
Aqui “dois conhecidos chefes [nativos] pedem nossos missionários, com ga-
rantias de ajuda e proteção”.21
O cardeal Caetano Alimonda, arcebispo de Turim, e monsenhor Do-
mingos Jacobini foram nomeados delegados para estudar a proposta. Du-
rante essa fase das negociações, Dom Bosco escreveu a Leão XIII em 1880,
quando os salesianos, embora já estabelecidos na Patagônia, ainda não tives-
sem iniciado nenhuma atividade missionária.

Por obediência ao mandato de Sua Santidade, tive uma longa entrevista com
Sua Eminência o cardeal Alimonda e com o reverendíssimo monsenhor Ja-
cobini... Nós três concordamos que se deve erigir um vicariato apostólico
para as colônias [missões] estabelecidas no rio Negro e que se deve fundar na
Europa um seminário para preparar os operários evangélicos.

No detalhado “Relatório sobre as missões salesianas”, ou melhor, sobre


o trabalho salesiano na Argentina e no Uruguai, acrescentado à carta, Dom
Bosco assinalava que o governo argentino acabava de criar a província da
Patagônia. Sugeria que o vicariato pudesse ter o mesmo nome e abranger o
mesmo território, incluindo todas as terras a leste da cordilheira dos Andes
“até que se erija outro vicariato em Santa Cruz”.22
Ele formulou a proposta definitiva depois de novas consultas e negocia-
ções, num memorando ao cardeal Simeoni, redigido laboriosamente em 29 de
julho de 1883. A proposta contemplava três vicariatos e/ou prefeituras. Dom
Bosco propunha a criação imediata do vicariato da Patagônia (Rio Negro)
com sede em Carmen de Patagones e a prefeitura da Patagônia austral (Santa
Cruz). A Patagônia central (Chubut), ainda sem desenvolvimento e “com-
pletamente sob o controle protestante”, estaria sob o patrocínio do vicariato
20
Dom Bosco ao cardeal Franchi, 31 de dezembro de 1877, em Epistolario III Ceria, 256­-261. Cf.
MB XIII, 768s. Em Carhué, nos Pampas a sudoeste de Buenos Aires, e em Santa Cruz, na costa atlântica
na Patagônia, havia postos militares. Padre Cagliero recusou a oferta de os salesianos serem capelães ali.
21
Dom Bosco ao cardeal Simeoni, março de 1878, em Epistolario III Ceria, 320-321. Nessa car-
ta, Don Bosco também declara sua disposição de preparar missionários “para o vicariato de Mangalore,
Índia, ou para alguma outra missão”.
22
Epistolario III Ceria, 567-575; MB XIV, 623s: carta e relatório de Dom Bosco a Leão XIII,
1º de abril de 1880.

189

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 189 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

norte, enquanto não se pudesse estabelecer ali outro vicariato. Igualmente, a


prefeitura do sul se manteria sob o patrocínio geral do vicariato norte, a menos
que o Santo Padre decidisse que houvesse um vicariato independente.
Quando lhe pediram para apresentar candidatos para esses postos,
Dom Bosco encaminhou os nomes dos padres Cagliero ou Costamagna para
o vicariato norte (e central), e o do padre Fagnano, para o sul da Patagônia.
Dom Bosco elogiou os três como “homens fortes e muito trabalhadores,
bons pregadores, acostumados ao trabalho e de condição moral inatacável”.
Elogiava padre Fagnano como o mais adequado para o sul da Patagônia,
porque era “um homem de físico poderoso e imperturbável diante dos tra-
balhos e perigos”.23
Nessa época, fim de julho de 1883, Dom Bosco parou com as gestões
e esperou a decisão de Roma. Dias antes, a obra salesiana estabelecera-se em
Niterói (Brasil).24
Um mês depois, reunia-se o III Capítulo Geral da Congregação. As mis-
sões eram representadas pelos padres Cagliero e Costamagna.25 Embora as mis-
sões não fossem um tema da agenda do Capítulo, deram seguramente ocasião
de animada conversação.26 Padre Costamagna mantivera o primeiro contato
com os indígenas mapuches durante a expedição de 1879 e celebrara uma
missa memorável diante deles, em Choele Choel. Os dois missionários cria-
ram um verdadeiro rebuliço com seus relatórios. O próprio Dom Bosco, sem
dúvida, atiçaria as chamas, dando explicações sobre o grande projeto e seus
planos futuros. Eram as próprias pessoas que Dom Bosco nomeara para o car-
go de vigário apostólico em sua proposta à Santa Sé. Isso talvez ainda não fosse
de conhecimento público, mas certamente Dom Bosco lhes abriu o coração e
eles puderam compartilhar os sucessos, decepções e projetos futuros.
Nesse clima, no último dia dos Exercícios, Dom Bosco, que esperava a
iminente decisão da Santa Sé com ansiedade e grandes expectativas, teve um
sonho, o segundo sonho missionário.27

23
Dom Bosco ao cardeal Simeoni, 29 de julho de 1883, em Epistolario IV Ceria, 225-227. Cf.
MB XVI, 375s.
24
MB XVI, 366s; Annali I, 457-460.
25
Cf. ASC D579, Capitoli Generali presieduti da Don Bosco: FDB 1863 E7, onde aparece a
lista oficial dos participantes, 35 no total.
26
Nem a carta de convocação de Dom Bosco de 20 de junho de 1883, nem os oito temas indi-
cados na mesma data, nem as minutas do Capítulo, nem suas atas, publicadas conjuntamente com as
do CG IV em 1887, dão a entender que se falasse das missões. Cf. Epistolario IV Ceria, 221-222; ASC
D578: Capitoli Generali: FDB 1863 E7 - 1864 B6; OE XXVI, 249-280.
27
Cf. o capítulo seguinte.

190

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 190 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Aprovação oficial da atividade missionária salesiana


Padre Costamagna já estava em alto-mar com destino às missões à frente
de um grupo de 20 salesianos e 10 Filhas de Maria Auxiliadora, quando a
Congregação para a Propagação da Fé tomou a decisão.28 Lamentavelmen-
te, pelos decretos de 16 e de 20 de novembro de 1883, erigiu-se apenas o
pró-Vicariato da Patagônia norte e uma prefeitura para a Patagônia austral
e Terra do Fogo, nomeando respectivamente os padres Cagliero e Fagnano
para esses postos. A decisão da Santa Sé, pela qual estabelecia territórios de
missão sob o patrocínio da Congregação para a Propagação da Fé convertia os
salesianos em missionários apostólicos. A disposição concedia menos do que
Dom Bosco esperara, pois nem o padre Fagnano como prefeito, nem o padre
Cagliero como pró-vigário seriam nomeados bispos.
Em uma reunião do Capítulo Superior, celebrado em Alassio em 5 de
abril de 1884 e presidida por Dom Bosco, foi comentada a decisão da Santa
Sé. Dom Bosco insistiu que era importante para a Congregação Salesiana
ter um vicariato pleno e um bispo. Anotou-se que o delegado apostólico
na Argentina, dom Luís Matera, se opunha a erigir um pró-Vicariato, por
motivações políticas, eclesiásticas e pessoais.29 Dom Bosco comentou que “a
nomeação de um pró-vigário poderia não ser ofensivo para a Argentina”. Ele
mesmo tinha “escrito ao arcebispo de Buenos Aires e ao presidente da Repú-
blica, apresentando o plano à sua consideração”.30
De Alassio, Dom Bosco, acompanhado pelo padre Lemoyne, foi a Roma
com a principal intenção de apresentar pessoalmente a Leão XIII o pedido
de privilégios e, possivelmente também, falar sobre o vicariato. Sua perma-
nência em Roma foi de 14 de abril a 14 de maio de 1884 sendo para ele um
28
Carta de Dom Bosco ao padre Costamagna, 12 de novembro de 1883, em Epistolario IV
Ceria, 240-241.
29
Dom Matera conseguira como secretário particular o clérigo salesiano Bernardo Vacchina,
mas este não resistiu ao ambiente mundano do qual se via obrigado a participar. Como suas queixas
não eram atendidas, ele abandonou por sua conta o cargo e foi para a casa de Almagro. O fato desgos-
tou o arcebispo, que mudou de atitude em relação aos salesianos. Cf. MB XVI, 380s.
30
As cartas de Dom Bosco ao arcebispo e ao presidente, com data de 29 de julho e 31 de outubro
de 1883, respectivamente, tratam das propostas para a criação das jurisdições missionárias. O pró-vica-
riato e a prefeitura foram criados em novembro. O fato de ter sido Dom Bosco, e não a Congregação
Romana, a informar às autoridades, continua inexplicável. O arcebispo fala sempre de forma benévola
e favorável. Não há qualquer registro da resposta do presidente Júlio Roca. É sabido que o presidente
opunha-se à criação das jurisdições missionárias; o arcebispo Aneyros estava ciente disso. Por outro
lado, em 1883 e 1884 as autoridades argentinas pediram ao padre Costamagna alguns salesianos como
capelães ou missionários em vários assentamentos nos territórios do sul, fato que revela uma atitude
favorável por parte de algumas autoridades.

191

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 191 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

período de apreensão e dor. Quando, enfim, foi-lhe concedida a audiência,


em 9 de maio, o Papa garantiu ao venerável ancião enfermo que concederia
os privilégios, que o amava, sim, ele e os salesianos. O tema do vicariato apa-
rentemente não foi levantado na audiência. 31
Em todo caso, de volta a Turim, Dom Bosco buscou a mediação do
arcebispo, cardeal Alimonda. Grande amigo dos salesianos, também acredi-
tava que, tendo em consideração o grande desenvolvimento das missões no
rio Negro, teria sido mais adequado contar com um vicariato pleno estabe-
lecido ali, com um bispo à frente. Como consequência, em 26 de setembro,
ele apresentou um pedido nesse sentido a Leão XIII. O Papa não estava
bem a par da situação na Argentina nem da situação das missões salesianas
em particular, apesar de Dom Bosco, no mencionado memorando de 13 de
abril de 1880, e em relatório detalhado sobre as missões, apresentado nos
inícios de 1883, ter explicado à Santa Sé o que se conseguira e o que estava
em andamento ou em projeto.32 Leão XIII, contudo, acolheu o pedido de
Dom Bosco e, por decreto de 30 de outubro de 1884, elevou a Patagônia a
vicariato, nomeando padre Cagliero vigário de pleno direito e bispo. A Pa-
tagônia austral com a Terra do Fogo, tendo padre Fagnano como prefeito,
conservou o status de Prefeitura.

4. Vicariato apostólico da Patagônia norte


As medidas da Santa Sé, a modernização da missão e a nomeação do pa-
dre Cagliero como bispo-vigário, representaram para Dom Bosco uma gran-
de vitória, assim como um grande incentivo material e moral. Eram, tam-
bém, um sinal claro da benevolência do Papa por Dom Bosco e os salesianos.
Mais significativo, porém, foi o reconhecimento da Igreja da homologação
e convalidação da vocação missionária da Congregação Salesiana e de seus
projetos missionários. Ceria escreve acertadamente:
A elevação deste filho de Dom Bosco ao episcopado foi, para toda a Famí-
lia Salesiana, um acontecimento de importância sem igual. As gerações sale-
sianas posteriores não poderão nem sequer imaginar o júbilo triunfante dos
salesianos de então. Quem se teria atrevido a manter tal esperança? Para os

31
A permanência de um mês em Roma é descrita com detalhes em MB XVII, 66s. Para uma
discussão, a partir de fontes primárias, dos eventos desta permanência romana: saúde de Dom Bosco,
privilégios, audiência papal, Carta de 1884, nomeação de um sucessor etc., cf. F. Desramaut, Don
Bosco, 1256-1262. Os privilégios foram enfim concedidos por decreto de 28 de junho de 1884.
32
Carta e memorando de Dom Bosco a Leão XIII, 13 de abril de 1880, em Epistolario IV Ceria,
567-575; MB XIV 624s. O relatório de 1883 do padre Fagnano sobre a missão de Rio Negro, em MB
XVI, 370s, foi utilizado por Dom Bosco para dar a conhecer às autoridades romanas o progresso da missão.

192

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 192 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

cooperadores também foi motivo de alegria, pois nessa eleição reconheceram


a consagração, por parte da Igreja, do apostolado missionário salesiano.33

A ordenação do padre Cagliero como bispo titular de Magida pelo


cardeal Alimonda deu-se em 7 de dezembro de 1884. Em 1º de fevereiro
de 1885, o bispo estava pronto para partir para a missão à frente de um
grupo de 18 salesianos, padres e coadjutores, e seis irmãs. Dom Bosco
passou os dias anteriores num doloroso, quase angustioso, estado de espí-
rito. Estava também confinado doente em seu quarto. Cagliero, seu amado
filho, ia deixá-lo. Podia ser que não o visse mais. Nesse contexto e estado
de espírito, na noite de 31 de janeiro de 1885, dia anterior à saída dos mis-
sionários, teve um sonho, o terceiro sonho missionário, sobre a América
do Sul.34

Dificuldade da tomada de posse. Missões de jure e de facto


Quando o bispo Cagliero e os missionários chegaram a Montevidéu
(Uruguai) havia uma crise em gestação na Argentina. A oposição aos sale-
sianos e à sua obra na região de Rio Negro e em outros lugares, já amarga
em 1884, acabou em verdadeira perseguição. O instigador foi o governa-
dor da província de Rio Negro, general Winter, que também comandava
os destacamentos militares que custodiavam a fronteira. As acusações, di-
rigidas principalmente contra o padre Fagnano, foram recolhidas e reedi-
tadas com sucesso pela imprensa anticlerical. Em seguida, para complicar
a situação, o mandato do general Roca estava para terminar, provocando
agitação e perturbações. Temia-se que as novas forças políticas que com-
petiam pelo controle fosse ainda mais radicais. Nessas circunstâncias, seja
por dobrar-se aos ventos dominantes seja por evidente maldade, o governo
negara-se a aceitar o novo vigário, porque não houvera nenhuma consulta
prévia em relação à criação de um vicariato.35 Dom Cagliero, depois de

33
Annali I, 504-505.
34
Dom Bosco acompanha os missionários à América [do Sul]. É o título dado a este sonho no proje-
to modificado de Lemoyne e nos Documenti. Resta apenas o testemunho de Lemoyne. Encontrando-se
numa grande planície, Dom Bosco vê todas as obras interligadas por uma rede fantástica de estradas.
Então, depois de um voo de volta a Turim, e de novo à América do Sul, vê a planície transformada
numa esplêndida sala em que se reúnem cheios de alegria os missionários e todos os que foram salvos
através deles (rascunhos de Lemoyne A e B, em ASC A017, Sogni: FDB 1321 C11-D8 e B7-C10;
Docu­menti XXIX, 43-48 em ASC A078, Cronachette: FDB 1106 D12-E5). Cf. MB XVII, 299s.
35
Em carta a Dom Bosco, de 2 de janeiro de 1885, dom Aneyros comentara o mal-estar do go-
verno ao ver-se diante de fatos consumados sobre o vicariato. Cf. Epistolario IV Ceria, 314, nota 1; MB
XVII, 311s: comentário do prefeito da Congregação para a Propagação da Fé, escrevendo a Dom Bosco.

193

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 193 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

breve permanência no Uruguai, entrou sem ruídos na Argentina e fixou


sua residência na escola salesiana de Almagro, Buenos Aires, esperando o
momento oportuno para fazer sua aparição oficial e que lhe fosse permiti-
do entrar em sua sede.
Como o padre Fagnano era o principal alvo das acusações do governa-
dor e da imprensa, ao mesmo tempo em que procurava pacificar-se com o
governador de Patagones, apresentou o assunto perante o arcebispo, expondo
os fatos detalhadamente. O arcebispo, então, levou o caso ao ministro do In-
terior que, aparentemente, aceitou a explicação e se absteve de pronunciar-se
sobre a ordem do governador.
Estando assim as coisas, e aproveitando a pausa da imprensa, dom Ca-
gliero pediu para ser recebido pelo general Roca. Acompanhado pelo padre
Costamagna, que participara da expedição do general em 1879, apresentou-
-lhe as cartas credenciais. A audiência começou mal; melhorou quando padre
Costamagna começou a recordar os acontecimentos da expedição e dom Ca-
gliero garantiu-lhe que, como salesiano e vigário, trabalharia pelo desenvol-
vimento de todo o povo da região. Assim tranquilizado, Roca entregou-lhe
uma carta de apresentação para o governador. Finalmente, em 9 de julho de
1885, dom Cagliero obteve permissão para entrar em sua sede em Patagones.
As missões salesianas poderiam considerar-se então estabelecidas tanto de fac-
to como de jure.36
A saúde de Dom Bosco piorara nessa época. Estava perdendo a visão,
como consequência da rápida degeneração de seu físico e premonição de
seu fim próximo. Parecia, porém, que aumentavam sua força moral e sua
visão espiritual. Estava certo de que ninguém poderia deter a difusão da obra
salesiana na América do Sul e no mundo todo. Com dificuldade, escrevia
aos seus generais de campo. Essas cartas são guias preciosas para a estratégia
missionária salesiana, como também uma espécie de testamento espiritual.37
E continuava a sonhar. Agora, porém, seus sonhos transcendiam a Amé-
rica do Sul e tinham alcance mais amplo. Projetavam a expansão mundial da
obra salesiana.

36
Para a história da perseguição do governador de Rio Ne­gro aos salesianos e sobre a entrada de
dom Cagliero em seu vicariato, ver MB XVII, 314s.
37
Cartas de Dom Bosco: a dom Cagliero, 6 de agosto de 1885; ao padre Costamagna, inspetor,
e ao padre Fagnano, prefeito apostólico, 10 de agosto; ao padre Tomatis, diretor de San Nicolás, 14
de agosto; ao padre Lasagna, diretor de Villa Colón e inspetor do Uruguai e Brasil, 30 de setembro,
em Epistolario IV Ceria, 327-329, 332-337, 340-341; [San] Juan Bosco, “Cinco últi­mas cartas a jefes
misioneros, em Escritos espirituales. Introducción, selección de textos y no­tas por J. Aubry. Guatemala:
Instituto Teológico Salesiano, 1980, 309-319.

194

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 194 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Monsenhor José Fagnano (1844-1916), após sua nomeação


como prefeito apostólico da Patagônia austral e da Terra do Fogo.

5. Prefeitura Apostólica da Patagônia austral e Terra do


Fogo com as ilhas Malvinas38
A Prefeitura Apostólica da Patagônia austral e Terra do Fogo foi cria-
da em 1883, ao mesmo tempo em que se erigia o Vicariato Apostólico da
Patagônia norte (Rio Negro). Pelo mesmo decreto, padre José Fagnano
fora nomeado prefeito apostólico. A missão era integrada pela província
de Santa Cruz (Patagônia Austral, Argentina), Terra do Fogo (Chile e Ar-
gentina) e ilhas Malvinas (Falkland, britânicas desde 1833). A missão não
pôde desenvolver-se imediatamente, por várias razões, principalmente de-
vido à natureza inóspita e ao subdesenvolvimento da região, especialmente
da Terra do Fogo.

38
MB XVIII, 742s, 390s, 408, 745s; Annali II, 61-73.

195

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 195 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

A atividade missionária salesiana em sentido estrito teve início na Terra


do Fogo em 1888; seu primeiro desenvolvimento e consolidação deram-se nos
inícios de 1890. Entre os muitos missionários dedicados, salesianos e salesia-
nas, que trabalharam dura e longamente na criação e desenvolvimento da mis-
são destacam-se, acima de todos, monsenhor Fagnano e padre José Beauvoir.39

Patagônia sul e ilhas Malvinas


Em 1885, padre Fagnano, com a ajuda do padre Beauvoir, estabelecera
a missão de Santa Cruz (Patagônia sul). Mais tarde, em 1888, estabeleceram
uma missão em Rio Gallegos, mais ao sul na mesma província. Consolidados
os assentamentos, estes poderiam servir também de base para a missão na
Terra do Fogo.
Padre Beauvoir, companheiro do padre Fagnano e sua mão direita, de-
veria ser considerado um dos pilares da missão do sul, tanto na Patagônia
austral como na Terra do Fogo. Foi quem trabalhou mais tempo como mis-
sionário em contato com os indígenas. Compilou um dicionário da língua
fueguina ona e um estudo sobre as tribos shelknam.
Em 1888, os padres Fagnano e Patrício Diamond (1863-1937) visita-
ram Port Stanley (ilhas Malvinas) e estabeleceram um centro católico, depois
de ponderar sobre sua necessidade. O pastor anglicano da Igreja da Inglaterra
contava com uma bela igreja e escola. Como muitos católicos participavam
dessa igreja e enviavam seus filhos à escola, padre Diamond, encarregado do
centro, pôs logo em funcionamento uma pequena escola (1889).

Terra do Fogo
Em 1886, os padres Fagnano e Beauvoir acompanharam uma expe-
dição militar argentina ao sul, além do estreito de Magalhães, quando se
puseram em contato com os nativos e avaliaram as possibilidades de uma
missão na região.

39
José Beauvoir (1850-1930), nascido em Turim, fez-se salesiano em 1870 e foi ordenado padre
em 1875. Em 1878, Dom Bosco perguntou-lhe se iria como voluntário para as missões da América
do Sul; aceitou e partiu no mesmo ano. Depois de breve permanência no Uruguai e em Buenos Aires,
ofereceu-se como voluntário para a missão da Patagônia e Terra do Fogo. Foi o missionário que traba-
lhou mais duramente e durante mais tempo entre os indígenas. Participou em 1882-1883 da expedição
do general Villegas aos Andes como capelão militar e foi condecorado com a medalha de prata pelo
seu zelo sacerdotal. Com monsenhor Fagnano pôs as bases da missão de Santa Cruz e Rio Gallegos;
em seguida, passou vinte e cinco anos evangelizando os nativos da Patagônia central e Terra do Fogo.
Compilou um pequeno dicionário da língua ona, que mais tarde se fundiu com sua obra maior, Los
indíge­nas Selknam de la Tierra del Fuego. Faleceu em Buenos Aires em 1930.

196

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 196 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Punta Arenas (Chile), centro da missão na Terra do Fogo


Em 1887, Punta Arenas foi escolhida como sede da Prefeitura. Situada no
continente, na costa norte ocidental do estreito de Magalhães, a ilha Dawson,
situada a sudeste de Punta Arenas no cotovelo do estreito, e o resto do arquipé-
lago, exceto a metade oriental da ilha Grande, eram territórios chilenos.
De Punta Arenas, em 1887-1888, padre Fagnano e o coadjutor Carlos
Audisio, com a ajuda de três leigos, organizaram uma expedição à ilha Da-
wson, de navio, levando com eles cavalos, ovelhas e o equipamento neces-
sário. Dom Bosco morreu enquanto os missionários faziam essa excursão.
Desembarcaram na baía de Willis e foram para o interior. No segundo dia,
puseram-se em contato com alguns índios e convidaram-nos a irem até
Punta Arenas.
O grupo continuou de navio, para o sul, até a baía de Almirantaz­go,
com a esperança de avistar os nativos na margem. Uma tormenta obrigou-
-os a desembarcar na ilha Grande e caminhar um pouco terra adentro, en-
contrando-se com pequenos grupos de nativos. Os missionários só puderam
comunicar-se com eles para convidá-los a Punta Arenas. Os nativos da ilha
Grande eram hostis aos brancos, por terem sido expulsos pelos ingleses ga-
rimpeiros de ouro e pastores de ovelhas, que se estabeleceram nos campos e
matavam guanacos, alimento básico dos nativos. Os missionários tiveram a
sorte de escapar sem danos pessoais.
Depois de regressar a Punta Arenas e inteirar-se da morte de Dom Bos-
co, padre Fagnano foi à Itália em busca de ajuda. Padre Rua dispôs o envio
de 10 Salesianos e 5 Filhas de Maria Auxiliadora à Terra do Fogo. O grupo
foi diretamente a Punta Arenas e iniciou a organização sistemática da vida
religiosa daquela missão.

A missão de San Rafael na ilha Dawson


Padre Fagnano fez uma segunda expedição (de navio) à ilha Dawson
com o material essencial para fundar um pequeno povoado. A missão foi
criada na baía de Willis, em Dawson, com o padre Antônio Ferrero, o coad-
jutor João Silvestro e 10 leigos, pastores e construtores. Aos poucos, os índios
passaram a ir à missão e ali ficar. Iniciou-se assim a missão de San Rafael. Em
seguida, contudo, a missão foi transferida para um local mais adequado na
baía de Harris (Dawson). Um grupo de construtores uniu-se ao padre Barto-
lomeu Pistone, fazendo a missão crescer.
Em setembro de 1889, quando os trabalhadores, os pastores e o padre
Ferrero foram a Punta Arenas em busca de víveres, os indígenas atacaram

197

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 197 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

com facas, ferindo não gravemente, o padre Pistone e o coadjutor Silvestro.


Os nativos fugiram, mas os dois missionários viviam amedrontados. Mais tar-
de, comunicaram o ataque a Punta Arenas e ao padre Fagnano. Este contra-
tou e enviou um bote para recolher o coadjutor, ferido com mais gravidade; o
barco, porém naufragou e o coadjutor Silvestro perdeu-se no mar. Padre Fag-
nano e o coadjutor Antônio Bergese retornaram à ilha Dawson e puseram-se
imediatamente a recomeçar a missão de San Rafael. Os índios foram atraídos
aos poucos e reconstruíram-se 60 casas e uma igreja. Salesianos e salesianas
instalaram uma escola, alguns barracões e um hospital.
Com certas condições padre Fagnano obteve do governo do Chile o
uso da ilha Dawson durante vinte anos, com o fim explícito da evange-
lização e fixação dos nativos. Em 8 de dezembro de 1890, 33 indígenas
foram batizados.
Embora Punta Arenas continuasse a ser a residência da Prefeitura Apos-
tólica e base para o fornecimento de víveres, o ponto central da atividade
missionária foi, depois de 1890, a ilha Dawson, localizada no centro do es-
treito além de ser local de trânsito da migração dos nativos da parte ocidental
do arquipélago à ilha Grande e vice-versa. A missão de San Rafael na baía
de Harris desfrutava de uma situação favorável, com bons pastos e grandes
bosques. A pecuária prosperou, mas a maior parte dos alimentos devia ser
enviada todos os meses de Punta Arenas.
Os nativos, quando passavam em seus barcos, iam até a missão. Alguns
chegavam atraídos pelas notícias de outros nativos que visitaram a missão;
com maior frequência, porém, eram os missionários que saíam à busca dos
nativos ao longo dos muitos canais e ilhas.
Os indígenas homens ajudavam nos trabalhos pesados, como a limpeza
dos bosques e o pastoreio do gado. As mulheres aprendiam economia do-
méstica. Às crianças, uns 50 meninos e 40 meninas, ensinavam-se noções
práticas. Ao chegarem à missão, todos eram lavados e desinfetados; em segui-
da, recebiam roupa e alojamento, mas negavam-se a usar sapatos. A vida era
muito bem regulamentada: levantar-se cedo, orações, trabalho, alimentação,
aulas etc.
Em fevereiro de 1892, dom Cagliero, acompanhado pelo governador
local e outras autoridades, visitou a missão num navio colocado à disposição
pelo governo chileno. Ficaram muito impressionados com a recepção e o
que viram do trabalho da missão. Cruzando até Punta Arenas, foram teste-
munhas das atividades do centro missionário. Nessa ocasião, benzeu-se uma
nova igreja.

198

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 198 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Há muito tempo o padre Fagnano queria um barco para a missão, que


poderia servir para transportar provisões e pessoal de forma segura e rápida.
Pediu ao padre Beauvoir que conseguisse um, mas não lhe pôde dar dinheiro,
nem sequer para viajar. Padre Beauvoir conseguiu a passagem para Santiago
(Chile) como capelão num navio militar, com a intenção de buscar ajuda
das autoridades governamentais. Não pôde reunir-se com o presidente, mas
conseguiu falar com o primeiro-ministro, que ouviu o relato sobre a missão
e ofereceu-lhe “armas de fogo e munição”. Padre Beauvoir pediu um barco
e foi enviado ao ministro da Defesa. Em vez do barco, o ministro ofereceu-
-lhe uma subvenção de 6 mil pesos por ano para a missão. Padre Beauvoir,
audaciosamente, pediu também os mapas militares de observação e as cartas
náuticas da região, que lhe foram concedidas. Depois de alguns meses de mi-
nistério sacerdotal na capital, com a ajuda de benfeitores, encontrou e com-
prou um barco a vapor de 35 toneladas, que chamou de Maria Auxiliadora.
Carregou-o de víveres, encontrou uma tripulação improvisada e embarcou
para o estreito. Depois de sobreviver a uma tormenta, próximo de Punta
Arenas, o barco chocou-se com um banco de areia e, como os marinhei-
ros ameaçavam abandoná-lo, padre Beauvoir ordenou que descarregassem a
embarcação e a carregassem novamente. Dessa forma, a missão contou com
uma embarcação.

A missão Candelária da ilha Grande


Os indígenas que viviam na missão de San Rafael na ilha Dawson ou va-
gavam pelos arredores eram predominantemente yaganes e uns poucos onas.
Os yaganes contagiavam-se com diversas doenças pelo contato com os euro-
peus. Padre Fagnano deu-se conta de que seria melhor manter separados os
onas que vivam na ilha Grande e planejou uma missão para eles.
Em fevereiro de 1893, padre Fagnano, padre Beauvoir, dois coadjutores,
um jovem operário e dois índios ona, como intérpretes, embarcaram para
uma expedição exploratória à ilha Grande. As provisões incluíam 9 cavalos,
vários cães, arroz, massas, açúcar, café e uma barraca de campanha. Carrega-
ram também uma provisão de mantas de lã e objetos religiosos como presen-
tes para os nativos que encontrassem. Após a viagem de uma semana para o
interior chegaram à cabeceira do rio Bravo, que flui da cadeia montanhosa
da ilha até o Atlântico. Descendo para o Atlântico, chegaram a um acampa-
mento ona. Os onas desconfiavam dos europeus por causa da perseguição
que sofreram dos mineradores de ouro e dos pastores ingleses. Os intérpretes
deram segurança ao chefe, que se apresentou com alguns homens para cum-
primentar os missionários. Cada um recebeu uma manta e uma medalha

199

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 199 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

de Maria Auxiliadora, que puseram no pescoço. Em seguida, conduziram


ao acampamento os missionários, que deram a todos os mesmos presentes.
Depois de prometerem que voltariam, começaram outro dia de caminhada
costa abaixo, encontrando-se com uma tribo ainda maior e mais guerreira.
Os intérpretes e os presentes aquietaram-nos. Sem muitos preâmbulos, os
missionários decidiram o lugar da nova missão: devia situar-se junto à mar-
gem do rio Grande, a cerca de 3 quilômetros da foz. O lugar era acessível e
tinha abastecimento de água e terras de pastoreio. Depois disso, retornaram
a Dawson pelo mesmo itinerário.
Em junho de 1893, em barco alugado, padre Beauvoir, um outro padre,
3 coadjutores e 4 operários contratados, foram até o rio Grande. Devido às
águas agitadas e as escarpas perigosas da foz do rio, o capitão negou-se a na-
vegar, a não ser que o padre Beauvoir fizesse um seguro para o barco, sendo
fiador das eventuais perdas ou danos. Ao negar-se, o capitão deu a volta para
regressar a Punta Arenas. Padre Beauvoir rogou-lhe que deixasse os homens e
as provisões na baía de San Sebastián, situada mais ao norte. Nesse processo,
perdeu-se grande quantidade de material de construção e provisões além de
alguns animais.
Padre Beauvoir e seus companheiros desembarcaram, enquanto os de-
mais regressaram a Punta Arenas para informar ao padre Fagnano e obter
ajuda. Impaciente pelo atraso, padre Beauvoir decidiu ir pessoalmente a
Punta Arenas. Cruzou a ilha Grande a cavalo e tomou um barco para atra-
vessar o estreito.
Em Punta Arenas, carregaram alimentos frescos no barco da missão,
Maria Auxiliadora, e outro barco contratado, e navegaram até o rio Grande.
Desafiando os penhascos, navegaram pelo rio com a maré alta e encontraram
um pequeno ancoradouro natural. A missão foi erguida no local indicado
anteriormente e foi chamada de Candelária, festa da Purificação de Maria. A
missão está em terreno argentino da ilha Grande, tendo o governo concedido
gratuitamente os direitos de missão das terras de pastoreio extensivo. Durante
meses, enquanto se construía o edifício, não se viram nativos. Com o tempo,
porém, foram aproximando-se em pequenos grupos. Em maio de 1894, uns
350 índios ona estavam acampados ao redor da missão.
Como o abastecimento de víveres devia ser contínuo de Punta Arenas e
o barco da missão era muito pequeno, padre Fagnano comprou um navio de
200 toneladas, chamando-o de Torino, e trouxe novos missionários e, entre
outras provisões, madeira suficiente para construir uma centena de pequenas
casas, escolas para meninos e meninas, barracões, um hospital e a igreja, na
verdade, um povoado inteiro.

200

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 200 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Padre Tiago Costamagna evangelizando um grupo


de indígenas durante uma expedição missionária.

6. Conclusão
A coragem e a perseverança de missionários e de missionárias tornaram
realidade o sonho original de Dom Bosco sobre as missões entre os indígenas.
De Turim, padre Rua, com grande investimento de pessoal e dinheiro e seu
contínuo apoio pessoal, respaldou os esforços dos missionários. A ajuda e o
apoio dos salesianos cooperadores foram decisivos. Em 1900, toda a parte
inferior da América do Sul, desde os Pampas até a Terra do Fogo, era reco-
nhecida como campo de missão confiado aos salesianos e, por eles, à Família
Salesiana de Dom Bosco.

201

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 201 28/07/14 16:35


Apêndice

CRONOLOGIA DA FUNDAÇÃO E PRIMEIRA


ORGANIZAÇÃO DA OBRA SALESIANA NA AMÉRICA
DO SUL (1871-1888)

1871-1872
Primeiro sonho missionário de Dom Bosco, narrado ao papa Pio IX em
1876, e aos padres Lemoyne e Barberis.

1874
Agosto: o cônsul João Gazzolo escreve ao arcebispo de Buenos Aires,
dom Aneyros, propondo que os salesianos estabeleçam uma obra na Ar-
gentina e comecem assumindo a igreja Mater Misericordiae, dos italianos,
em Buenos Aires.
24 de setembro: Dom Bosco recebe o pedido de enviar missionários
à Austrália.
10 de outubro: dom Aneyros escreve ao cônsul Gazzolo e envia a Dom
Bosco a proposta de uma fundação salesiana na Argentina.
Novembro: intercâmbio de cartas sobre uma escola em San Nicolás de
los Arroyos (padre Ceccarelli, senhor Benítez).

1875
28 de janeiro: Dom Bosco comunica aos diretores que as missões serão
estabelecidas na América do Sul.
5 de fevereiro: circular de Dom Bosco sobre a futura missão.
12 de maio: nos boas-noites, Dom Bosco dá por certo os planos de
estabelecer fundações salesianas na Argentina. Aceitou a proposta argentina.

202

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 202 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

28 de julho: carta de Dom Bosco ao padre Ceccarelli, de San Nico-


lás de los Arroyos, em que descreve a preparação dos missionários para
a viagem.
1º de novembro: audiência papal e primeira expedição missionária.
11 de novembro: cerimônia de despedida e saída da primeira expedição
missionária; as 20 “lembranças”.
14 de dezembro: os missionários chegam a Buenos Aires, via Rio de
Janeiro. São recebidos por dom Frederico Aneyros e uns 200 imigrantes ita-
lianos, entre eles alguns ex-alunos do Oratório.

Estabelecimento da obra salesiana na região do Prata


(Argentina e Uruguai)

1875
Os salesianos, de imediato, assumem a igreja de Nossa Senhora das
Mercês e atendem à comunidade de imigrantes italianos em Buenos Aires
(Argentina).
21 de dezembro: 7 dos 10 salesianos continuam em San Nicolás de los
Arroyos a fim de encarregar-se da escola.
Provável pedido feito a Dom Bosco para uma fundação na Índia.

1876
5 de abril-15 de maio: viagem de Dom Bosco a Roma com padre Berto;
na audiência, Dom Bosco fala das missões ao Papa e relata-lhe o sonho de
1871-1872.
Julho: o bispo de Concepción (Chile) solicita salesianos.
29 de julho: resposta de Dom Bosco: uma fundação no Chile só será
possível mais tarde, não antes de 1887.
Agosto: Dom Bosco faz um apelo público para financiar a segunda ex-
pedição missionária e informa ao governo italiano sobre o trabalho dos mis-
sionários em favor dos imigrantes italianos.
Dom Bosco também recebe o pedido de uma obra salesiana no Ceilão
(Sri Lanka), e pensa em enviar padre Cagliero. O plano é cancelado [a pri-
meira fundação deverá esperar até 1956].

203

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 203 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

29 de outubro: Pio IX manda 5 mil liras a Dom Bosco para a segunda


expedição missionária.
7 de novembro: segunda expedição com 24 missionários salesianos, pre-
cedida da audiência papal a Dom Bosco e aos missionários: 14 deles vão à
Argentina partindo de Gênova; 10 viajam de trem para partirem de Bordéus
em direção ao Uruguai, mas retardam até 2 de dezembro.

De 1876 a 1883
Dom Bosco pressiona pelo reconhecimento de Roma para as missões
apostólicas salesianas.

1877
Os salesianos encarregam-se da igreja e da escola Santa Rosa de Lima,
em Villa Colón, próxima de Montevidéu (Uruguai): os edifícios foram trans-
feridos ao padre Cagliero em 24 de maio de 1876.
1o a 24 de junho: Dom Bosco, em Roma com o arcebispo Aneyros, de
Buenos Aires, a serviço das missões, e, de volta a Turim com o arcebispo.
6 de novembro: em Mornese, cerimônia de despedida da primeira
expedição missionária de 6 irmãs salesianas.
7 de novembro: em Turim, cerimônia de despedida da terceira expedi-
ção de 18 missionários salesianos, com os padres Costamagna e Vespignani
entre eles.
Paróquia e escola de São João Evangelista fundadas no bairro de La
Boca, Buenos Aires.
1o de setembro: é aceita a paróquia de Maria Auxiliadora e tem início a
escola Pio IX no bairro de Almagro, Buenos Aires, que em seguida se conver-
teria em centro de formação profissional.

1878
18 de setembro: breve de Leão XIII apoiando as missões salesianas.
Dezembro: quarta expedição missionária com alocução de Dom Bosco.

1879
Os salesianos estabelecem sua obra em Las Piedras (Uruguai)

204

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 204 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

Padre José Beauvoir (1850-1930), capelão militar na expedição


do general Villegas às montanhas andinas (1882-1883).

Missões salesianas realmente estabelecidas


1879
Abril: expedição militar argentina, sob o comando do general Júlio
Roca. Monsenhor Espinosa, padre Costamagna e clérigo Luís Botto unem-se
à expedição e entram em contato com os nativos.
Junho: a paróquia e a missão de Carmen de Patagones, na desemboca-
dura do rio Negro, são confiadas aos salesianos.
18 de dezembro: padre Rua anuncia numa circular que, em junho, os
salesianos entraram na Patagônia.

1880
A paróquia, a missão e o internato de Viedma, na foz do rio Negro, são
confiados aos salesianos.

1881
Os salesianos estabelecem uma obra em Paysandú, Rosário (Uruguai).

205

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 205 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

1882
A obra salesiana é estabelecida em Neuquén (Argentina).

1883
Os salesianos estabelecem uma obra em Niterói (Brasil).
29 de julho: por solicitação da Santa Sé, Dom Bosco apresenta uma proposta
para a formação de três territórios de missão de direito apostólico (vicariatos, pre-
feituras) e os nomes de Cagliero, Costamagna e Fagnano como possíveis prelados.
30 de agosto: segundo sonho missionário de Dom Bosco sobre a Amé-
rica do Sul.

Missões salesianas de direito apostólico

1883
Novembro: a Santa Sé cria dois territórios de missão: o pró-vicariato da
Patagônia norte e central e a prefeitura da Patagônia austral e Terra do Fogo.

1884
30 de outubro: solicitado por Dom Bosco, com o apoio do cardeal Ali-
monda, a Santa Sé eleva as missões a pleno vicariato e prefeitura, nomeando pa-
dre Cagliero e padre Fagnano, respectivamente, vigário e prefeito apostólicos.
7 de dezembro: Cagliero, vigário apostólico, é ordenado bispo.

1885
31 de janeiro: terceiro sonho missionário de Dom Bosco sobre a Amé-
rica do Sul.
9 de julho: dom Cagliero entra em sua sede em Carmen de Patagones,
na foz do rio Negro.
Estabelecem-se em Buenos Aires a escola de Santa Catarina e um centro
da juventude.
Os salesianos estabelecem-se em São Paulo (Brasil).

1887
21 de julho: padre Fagnano e 3 salesianos situam-se em Punta Arenas
(Terra do Fogo, Chile).
São criadas escola e paróquia salesianas em Concepción (Chile).

206

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 206 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 3. Missões salesianas

1887-1888
Expedição à ilha Dawson.

Negociadas por Dom Bosco, criadas pelo padre Rua


1888
Os salesianos começam uma obra em Talca (Chile).
Os salesianos encarregam-se de um orfanato em Quito (Equador).
O vicariato apostólico de Méndez y Gualaquiza (Equador) é confiado
aos salesianos.

207

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 207 28/07/14 16:35


Capítulo VI

PRESENÇA SALESIANA NA AMÉRICA DO SUL.


4. SEGUNDO SONHO MISSIONÁRIO:
SAN BENIGNO, 30 DE AGOSTO DE 1883

O segundo sonho missionário, relativo às missões na América do Sul,


deu-se em San Benigno, ao final dos exercícios espirituais de preparação ao
III Capítulo Geral, na noite de 30 de agosto de 1883, véspera da festa de
Santa Rosa de Lima.1 Dom Bosco narrou o sonho cinco dias depois aos
membros do Capítulo Superior, reunido em Valsálice, durante a sessão da
manhã de 4 de setembro.

1. Fontes e tradição textual do sonho


Em alguns manuscritos, traz o título de As missões da América ou Gran-
de reunião no Equador. A crônica, extensa, do sonho fala de uma reunião
numa grande sala situada na região equatorial da América do Sul. O sonho
tem início com o tema das missões e uma série de cenas alegóricas. Em se-
guida, continua com uma viagem de trem para o sul, pela vertente oriental
dos Andes ao longo de toda a extensão da América do Sul, até o estreito de
Magalhães. Durante a viagem vai sendo mostrado a Dom Bosco, acompa-
nhado de um intérprete, “a messe confiada aos salesianos”. Segundo uma
versão do sonho, há uma viagem de volta ao ponto de partida, embora por
outro caminho.
Uma série de documentos de arquivo permite reconstruir a história do
texto do sonho, ou seja, a crônica Viglietti, as atas do III Capítulo Geral e os
relatos de Lemoyne, um dos quais foi revisto por Dom Bosco. Lemoyne é,
por isso, a nossa fonte principal.
1
A festa de Santa Rosa de Lima era, então, em 31 de agosto. Agora, é celebrada em 23 de agosto.

208

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 208 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

Rascunho presumido de Viglietti


Numa breve introdução biográfica à sua crônica, Carlos Viglietti afirma que
na manhã de 31 de agosto, em San Benigno, Dom Bosco chama-o ao seu
quarto e pede-lhe para redigir o sonho ditado por ele. Tinha a intenção de lê-
-lo aos membros do Capítulo Geral. O texto de Viglietti não foi encontrado.2

Atas do III Capítulo Geral


Os apontamentos do III Capítulo Geral, como se conservam em ASC, con-
têm uma narração do sonho de Dom Bosco na sessão da manhã de 4 de
setembro. Este rascunho, muito superficial, revela a estrutura e a forma da
narração original. O relato do sonho de Dom Bosco termina em Punta Are-
nas e não há qualquer descrição do trajeto de volta.3

Lemoyne A
Padre Lemoyne, que participava do Capítulo,4 elaborou um relato de pri-
meira mão (Lemoyne A). Trata-se de uma longa narração autógrafa com
algumas notas suas à margem. Fala da reunião na grande sala no Equador
e relata a viagem para o sul, que termina em Punta Arenas, com uma con-
clusão do sonho e do despertar. Não fala de uma viagem de volta ao ponto
de partida.5

Lemoyne B
Posteriormente, padre Lemoyne redigiu um segundo relato, a partir do pri-
meiro, que apresentou a Dom Bosco para sua revisão (Lemoyne B). Como na
primeira redação, temos uma longa redação autógrafa que descreve a reunião

2
Carlos Maria Viglietti (1864-1915) foi secretário de Dom Bosco de 1884 até a morte do
santo. Em relação ao sonho, ele escreve: “Certa manhã de 1883, dia [da festa] de Santa Rosa de
Lima, Dom Bosco, assim que se levantou da cama, chamou-me ao seu quarto. Ditou-me um belo
sonho que tivera nessa noite e que tratava de nossas missões na América [do Sul]. O sonho foi lido
alguns dias mais tarde no Capítulo Geral, reunido em Valsálice” (ASC A010: Cronachette, Viglietti,
Memorie: FDB 1232. C6).
3
O relato das Atas do III Capítulo Geral está em ASC D579: Capitoli Generali presieduti da
Don Bosco, III CG (1883): FDB 1863 E12-1864 A1. Recorde-se que no III Capítulo Geral (1-7 de
setembro de 1883), padre Lemoyne, embora presente no Capítulo, ainda não fora nomeado secretário
geral. As atas, que deixam muito a desejar, eram obra do padre João Marenco (cf. MB XVI, 412s). Em
seu conjunto, a cópia de arquivo das atas parece ser transcrição das notas originais. Contudo, a narração
do sonho, que se conserva (à mão, com caligrafia diferente?), apresenta todas as características de um
rascunho original, não publicado.
4
O nome do padre Lemoyne aparece entre os 35 membros do CG III anotados nas atas. Cf.
ASC D579: Capitoli Generali presieduti da Don Bosco: FDB 1863 E7.
5
Lemoyne A está em ASC A017: Autografi-Sogni: FDB 1347 B10-C9.

209

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 209 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

na sala, a viagem de trem para o sul, que termina em Punta Arenas com uma
conclusão sobre o sonho e o despertar. Também aqui não há qualquer refe-
rência a uma viagem de volta.
Ao longo da primeira parte deste texto, aparece uma série de adições e cor-
reções da mão de Dom Bosco. Um grande acréscimo marginal, com mais de
160 palavras, quase no início, informa sobre a conversa que Dom Bosco escu-
tou na sala. Também Lemoyne redige outras notas marginais, provavelmente
acrescentadas mais tarde.

Apêndice X
Ao Lemoyne B, com sua conclusão, segue imediatamente um apêndice
bastante longo da mão de Lemoyne, com notas marginais, mas nenhu-
ma é de Dom Bosco. Nele se descreve uma viagem de volta ao ponto
de partida, por outro caminho. Esse apêndice está marcado com um X,
que corresponde a um X anterior colocado antes da conclusão do sonho
em Lemoyne B. 6
Lemoyne B, depois de ser autenticado por Dom Bosco, deve ser considerado o
texto legítimo do sonho. O valor do Apêndice X é incerto. Não fazia parte da
narração original; foi acrescentado à narração depois da conclusão do sonho e
do despertar e não tem sinais de ter sido revisado por Dom Bosco.

Lemoyne C
Posteriormente, Lemoyne elaborou o texto definitivo. Editou Lemoyne B me-
diante a inserção do Apêndice X em sua sequência lógica, antes da conclusão
e do despertar, integrando no texto todas as notas marginais e outros detalhes,
colhidos presumivelmente de Dom Bosco. Dessa forma, ele conseguiu uma
narração “completa e coerente”.7

Memórias Biográficas e Documenti


A edição completa de Lemoyne C é o texto que o próprio Lemoyne transcre-
veu em seus Documenti, e que, com alguma adição do padre Ceria, aparece
nas Memórias Biográficas.8

Lemoyne B está em ASC A017: Autografi-Sogni: FDB 1347 A6-B5; seguido do Apêndice X:
6

FDB 1347 B6-9.


7
Lemoyne C está em ASC A017: Sogni: FDB 1318 D7-E12+1319 A1-9.
8
Documenti XXVI, 525-534, em ASC A075: Cronachette, Lemoyne-Doc: FDB 1089 E11
-1090 A8; MB XVI, 384s.

210

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 210 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

2. A narração do sonho (Lemoyne B)9


[Introdução do narrador]
Na noite anterior à festa de Santa Rosa de Lima, tive um sonho. De
alguma maneira, eu estava ciente de estar dormindo. Ao mesmo tempo, pa-
recia-me estar correndo tão velozmente, que fiquei esgotado, a ponto de ser
incapaz de falar, escrever e trabalhar em minhas ocupações habituais.

[Lugar do sonho: na sala de recepção]


Enquanto me perguntava se isso era sonho ou realidade, pareceu-me
entrar numa sala de recepção, onde muitas pessoas conversavam sobre di-
versos assuntos.
Entabulou-se uma conversa prolongada sobre o grande número de sel-
vagens que na Austrália, na Índia, na China, na África e, particularmente, na
América, ainda vivem envolvidos nas sombras da morte.
Um orador disse: “A Europa, a Europa cristã, a grande mestra da ci-
vilização e da fé católica, parece que vai se tornando apática em relação às
missões estrangeiras. Poucos têm a coragem de desafiar longas viagens ou
[terras] desconhecidas para salvar as almas desses milhões de almas [sic], que
não obstante foram redimidas pelo Filho de Deus, Jesus Cristo”.10
Outro orador acrescentou: “Quantos idólatras, só na América, levam vida infe-
liz fora da Igreja, privados do conhecimento do Evangelho! A gente pensa (e há geó-
grafos que cometem o mesmo erro) que as cordilheiras da América são uma muralha
que nos separa daquela parte do mundo. Mas não é assim. Essas elevadas e longas
cadeias montanhosas são atravessadas por vales que têm mais de mil quilômetros de
comprimento. Nelas há selvas inexploradas, plantas (raras), animais, pedras (precio-
sas) que (também) escasseiam ali (sic). Carvão, petróleo, chumbo, cobre, ferro, prata
e ouro são encontrados enterrados nas montanhas, onde a mão poderosa do Criador
os colocou em benefício das pessoas. Ó cordilheiras, quão rica é vossa região oriental!”.
Nesse momento, senti a necessidade de buscar explicação para uma série de
assuntos e averiguar quem eram essas pessoas e onde me encontrava. Mas pensei:
Antes de falar, devo observar que tipo de gente é essa!”.
9
As adições e correções marginais, autógrafas de Dom Bosco, estão inseridas em cursivo no
corpo principal do texto. Os acréscimos de Lemoyne são deixados à margem, no lugar onde estão no
manuscrito. Foram incluídos alguns títulos e outros acréscimos entre colchetes para facilitar a leitura.
10
A parte do texto contínuo em cursivo a seguir é o grande acréscimo marginal de Dom Bosco, que
já mencionamos. Nos sonhos, as escutas e as conversas são usuais, mas esta conversa é pouco usual pela sua
grandeza e complexidade lógica. As demais correções marginais e interlineares ou adições de Dom Bosco
(inseridas em cursivo) referem-se a pequenos detalhes. O decisivo é que Dom Bosco reviu este texto.

211

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 211 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Olhei, então, ao meu redor para averiguar, mas não reconheci ninguém.
Enquanto isso, como se só nesse momento percebessem a minha presença, convi-
daram-me para ir adiante e receberam-me amavelmente.
Perguntei, então: “Onde estamos? Estamos em Turim, Londres, Madri
ou Paris? E quem são os senhores?”. Mas aqueles homens ignoraram a minha
pergunta e continuaram o discurso sobre as missões.

[Ato I: Ações alegóricas na sala de recepção]


Nesse momento, um jovem de extraordinária beleza, irradiando luz mais
brilhante do que o sol, que parecia ter uns 16 anos de idade, aproximou-se
de mim. Suas roupas eram bordadas esplendidamente, trazia um ornamento
em forma de coroa na cabeça, recamado de pedras brilhantes. Olhou-me
com amabilidade e parecia estar interessado em mim de maneira especial. Seu
sorriso expressava um afeto extremamente atraente. Chamou-me pelo nome,
tomou-me pelas mãos e começou a falar da Congregação Salesiana.
Em dado momento, interrompi-o: “Com quem tenho a honra de falar?
Por favor, dize-me teu nome”.
O jovem respondeu: “Não tenhas medo! Fala com liberdade, porque
estás com um amigo”.
“Mas, como te chamas?”
“Gostaria de dizer-te meu nome, mas não é necessário. O senhor deve
saber quem eu sou.”
Olhei, então, com mais atenção para aquele rosto radiante. Como era
belo! Imediatamente o reconheci como o filho do conde Colle, o ilustre ben-
feitor de todas as nossas casas e, em especial, de nossas missões da América
[do Sul].11 “Ó, és tu”, disse, chamando-o pelo nome.

11
Em vários sonhos, Dom Bosco é guiado por um intérprete. Domingos Sávio, por exemplo, faz
esse papel no sonho de Lanzo, de 1876. Aqui o intérprete é Luís Colle, filho do conde Luís Antônio
Fleury Colle, de Toulon, França. Em março de 1882, Dom Bosco visitou o jovem quando estava para
morrer de tuberculose. Morreu em 3 de abril aos 17 anos. Dom Bosco tinha uma tão elevada estima por
Luís e por seus pais, grandes benfeitores, que pouco tempo depois, com a ajuda do padre de Barruel,
escreveu e publicou uma biografia do jovem Luís Antonio Fleury Colle dedicada “A monsieur e madame
Colle” (Montevidéu: Editora Dom Bosco, 1954). Cf. MB XV, 74s, 91s. Luís iria ser o novo Domingos
Sávio? Seja como for, a identidade do intérprete-guia, segundo se apresenta nas fontes deste sonho, é
problemática. Nas atas do CG III o guia é simplesmente um “leigo”. Em Lemoyne A, e até a quarta
página do texto principal, o intérprete é descrito como “um personagem”, “aquele homem”. Todavia,
nas notas marginais posteriores de Lemoyne, desde a segunda página, já se especifica que era um jovem
identificado como “o filho dos condes Colli” (sic). Depois, da quarta página em diante, Lemoyne elimina
sistematicamente as denominações originais (“esse homem” etc.), que são substituídas com expressões

212

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 212 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

“E quem são todos estes senhores?”


“São amigos dos salesianos; eu, como teu amigo e de teus salesianos e em
nome de Deus, quisera que realizasses uma pequena tarefa”.

Padre Mayorino Borgatello (1857-1929) e alguns salesianos com um grupo de meninos


indígenas da escola primária diante da missão Candelaria, ilha Dawson.

[Cena 1. Alegoria da ação: a corda numerada]


“Que tipo de tarefa? Do que se trata?”
“Senta-te aqui, nesta mesa, e depois puxa a corda”. No meio daquela
grande sala havia uma mesa sobre a qual havia uma corda enrolada, e vi tam-
bém que a sala se situava na América do Sul, precisamente sobre a linha do
Equador e que os números gravados na corda correspondiam aos graus geo-

como “aquele jovem”, “aquele jovem querido”. Parece, então, que na narração original, Dom Bosco não
tenha identificado o intérprete com o jovem Luís Colle. Em Lemoyne B, a reelaboração do texto de Le-
moyne, revisto por Dom Bosco, o intérprete identifica-se com o jovem Colle desde o início. Sobre isso,
é significativo que, em outras ocasiões, Dom Bosco tenha falado de Luís Colle, que aparece com ele nos
sonhos missionários e em outros contextos (cf. MB XV, 85s). Concretamente, em relação a este segundo
sonho missionário, na carta ao conde Colle, de 11 de fevereiro de 1884, ele fala de Luís como seu guia:
“A viagem que fiz em companhia de nosso querido Luís é cada vez mais clara à medida que passam os
dias” (Epistolario IV Ceria, 501). Faz o mesmo em relação ao quarto sonho missionário nas cartas ao
conde e à condessa Colle, em 10 de agosto de 1885 e 15 de janeiro de 1886 (Epistolario IV Ceria, 516 e
521), onde se menciona um “passeio” que fiz em segredo com Luís à África central e China. Assinale-se,
porém, que como sustentam nossos documentos, no quarto sonho missionário, Luís Colle só aparece
entre os que exortam Dom Bosco, não como guia ou intérprete. No terceiro sonho missionário, há um
intérprete não identificado, mas Luís Colle só aparece no final entre os bem-aventurados.

213

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 213 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

gráficos de latitude. Peguei, então, uma ponta da corda, examinei-a e vi que no


começo estava assinalado o número 0. Eu comecei a rir.
O jovem angelical me disse:
– “Não é tempo de rir. Observa! O que está escrito na corda?”.
– “O número zero”.
– “Puxa um pouco”. Puxei um pouco da corda e apareceu o número 1.
– “Puxa ainda mais um pouco e faze um grande rolo com a corda”. As-
sim o fiz e apareceram os números 2, 3, 4, até o 20.
– “Basta?”, perguntei.
– “Não; mais, mais. Continua a puxar até encontrares um nó”, respon-
deu-me o jovenzinho.
Continuei a puxar até o 47, onde encontrei um grande nó. A partir dali
a corda continuava dividida em numerosas cordinhas que se dirigiam para o
Oriente, Ocidente e Sul.
– “Já basta?”, perguntei.
– “Que número é?”, perguntou por sua vez o jovenzinho.
– “O número 47”.12
– “Quanto somam 47 mais 3?”.
– “Cinquenta!”.
– “Mais 5?”.
– “Cinquenta e cinco!”.
– “Não o esqueças: Cinquenta e cinco!”.
[Nota marginal de Lemoyne]
Depois me disse: “Continua a puxar”.
Parece que o nó colocado
– “Já chegou ao fim”, disse-lhe.
sobre o número ou grau
47 representasse o local de – “Volta, então, para trás e puxa a cor-
partida, o centro salesiano, da pelo outro lado”. Puxei a corda pela parte
a missão principal de onde oposta até chegar ao número 10.
os missionários, depois de
concentrados, sairiam para
O jovem, então, me disse: – “Puxa mais!”.
as ilhas Malvinas, Terra do – “Já não é possível. Não há mais”.
Fogo e outras ilhas daquelas – “Como, não há mais? Observa bem! O
terras [sic] regiões da Améri-
que há?”.
ca [do Sul].
– “Há água”, respondi.

A nota de Lemoyne, que segue, localiza um centro salesiano no grau 47 de latitude sul. Na
12

verdade, não há um centro salesiano nesse lugar. Santa Cruz, que historicamente se pode considerar
como a base de partida da futura missão de monsenhor Fagnano está quase no grau 50 de latitude sul.
Ushuaia, a futura fundação salesiana mais ao sul, está ao redor dos 55 graus.

214

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 214 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

Com efeito, naquele momento operou-se um fenômeno extraordinário,


que seria impossível descrever. Eu me encontrava naquela sala e, ao puxar a
corda, diante de meus olhos, oferecia-se a perspectiva de um país imenso que
eu dominava com a visão de um pássaro e que se estendia sempre mais, na
medida em que a corda ia se estendendo.
Desde o primeiro zero até o número 55, era uma extensão imensa de terra
que, depois de um mar estreito, se dividia ao fundo em centenas de ilhas, das
quais uma era muito maior do que as outras. Essas ilhas pareciam aludir às cor-
dinhas estendidas que partiam do grande nó. Cada cordinha ia dar numa ilha.
Algumas delas eram habitadas por indígenas bastante numerosos; outras, esté-
reis, despojadas, rochosas, desabitadas; outras, completamente cobertas de gelo
e neve. A ocidente, numerosos grupos de ilhas, habitadas por muitos selvagens.
Da parte oposta, isto é, do zero ao 10, continuava a mesma terra, termi-
nando naquela água que já vira anteriormente. Pareceu-me que aquela água
era o Mar das Antilhas, que contemplava então de maneira tão surpreendente
que não seria possível expressar tal visão com palavras.13

Nota marginal de Lemoyne Quando eu disse: “Há água!”,


Há de se notar que eu via tudo em seu con-
o jovenzinho respondeu-me:
junto, como em miniatura, o mesmo que
“Agora, soma 55 mais 10. Quan-
depois, como direi, vi em sua grandiosa re- tos somam?”.
alidade e em toda sua extensão, e os graus E eu: “Somam 65”.
assinalados na corda e que correspondiam – “Agora, coloca tudo junto e
com exatidão aos graus geográficos de la- farás uma [só] corda”.
titude, foram os que me permitiram reter
na memória durante vários anos os pontos
– “E depois?”.
sucessivos que visitei, ao fazer a viagem na – “Até aqui, o que é que há?”.
segunda parte do sonho. E indicava-me um ponto no
panorama.

– “A Ocidente, vejo montanhas altíssimas, e a Oriente, o mar”.


Meu jovem amigo continuou: – “Pois bem, essas montanhas são como
uma margem, como um limite. De aqui até lá se estende a messe oferecida
aos salesianos. São milhares e milhões de habitantes que esperam vosso auxí-
lio, que aguardam a fé”.
Essas montanhas eram as cordilheiras dos Andes da América do Sul e o
mar, o Oceano Atlântico.

Em nota mais tardia, no final do sonho, Lemoyne afirma que o bispo de São José da Costa
13

Rica, em carta de 15 de setembro de 1883, pedira salesianos. Essa cidade está no grau 10 de latitude
norte. A obra salesiana em São José seria iniciada em 1933.

215

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 215 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

[Cena 2. A alegoria de figos verdes]


– “E como fazer?”, respondi. “Como conseguir conduzir tantos povos
ao redil de Jesus Cristo?”.
– “Como fazer? Olha!”. A esta altura chega o padre Ângelo Lago14 tra-
zendo um cesto de figos pequeninos e verdes, que me disse:
– “Toma, Dom Bosco!”.
– “O que me trazes?”, perguntei, enquanto me fixava no conteúdo do cesto.
– “Disseram-me para trazer (estes figos) ao senhor”.
– “Mas estes figos não são comestíveis; não estão maduros”.
Então, meu jovem amigo pegou o cesto, que era muito grande, mas pouco
profundo e apresentou-o a mim, dizendo: – “Eis aqui o presente que te faço!”.
– “E o que devo fazer com estes figos?”.
– “Estes figos não estão maduros, mas pertencem à grande figueira da
vida. Deves procurar o modo de fazê-los amadurecer”.
– “E de que modo? Se fossem maiores… poderiam amadurecer com
palha, como se costuma fazer com os outros frutos; mas tão pequenos... tão
verdes... É impossível”.
– “Muito ao contrário; deves saber que para fazer amadurecer estes figos
é preciso que todos eles se unam novamente à planta”.
– “Isso é incrível! Como fazer?”.
– “Olha!”, e tomando um daqueles frutos introduziu-o num vaso cheio de
sangue; depois em outro vaso de água, e disse: – “Com o suor e o sangue os sel-
vagens ficarão novamente unidos à planta e serão agradecidos ao senhor da vida”.
Eu pensava: “Mas, para conseguir isso, é preciso muito tempo”. E em
seguida disse em alta voz: – “Não sei o que dizer”.
O jovem, porém, para mim tão querido, lendo meus pensamentos, con-
tinuou: – “Isso será obtido antes que se cumpra a segunda geração”.
– “E qual será a segunda geração?”
– “A presente [geração] não se conta. Haverá uma e depois outra”. Eu
falava confusamente, aturdido e como que balbuciando ao escutar os magní-
ficos destinos reservados à nossa congregação e perguntei:
– “Mas, cada uma dessas gerações, quantos anos compreende?”.
– “Sessenta anos!”.
– “E depois, o que [sucederá]?”.
– “Queres ver o que sucederá depois? Vem!”.

14
Padre Ângelo Lago, secretário particular do padre Miguel Rua, morreu em odor de santidade
em 1914. [Nota dos editores]
216

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 216 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

Início do texto transcrito pelo padre Lemoyne do sonho


de Dom Bosco sobre a evangelização da América do Sul.

217

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 217 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

[Ato II. A viagem para o sul pela ferrovia]


E sem saber como, encontrei-me numa estação ferroviária. Nela estava
reunida muita gente. Subimos no trem. Eu perguntei onde estávamos. O jo-
vem respondeu-me: – “Observa. Olha! Estamos em viagem ao longo da Cor-
dilheira. Tens o caminho aberto também para o Oriente até o mar.15 Trata-se
de outro presente do Senhor”.
– “E a Boston, onde nos aguardam, quando iremos?”.16
– “Cada coisa no seu tempo”. E assim dizendo pegou um mapa onde se
destacava a diocese de Cartagena (Colômbia). (Seria esse o ponto de partida?)17

[Cena 1. Primeira etapa da viagem]


Enquanto eu examinava o mapa, a máquina rangeu e o trem pôs-se em
movimento. Durante a viagem meu amigo falava muito, mas eu não o podia
ouvir por causa do barulho do trem. Contudo, aprendi coisas belíssimas e
novas sobre astronomia, náutica, meteorologia, sobre a fauna e a flora, sobre a
topografia daquelas regiões, que ele me explicava com admirável precisão. En-
tretanto, suas palavras brotavam com digna e, ao mesmo tempo, terna familia-
ridade, demonstrando o afeto que tinha por mim. Desde o início, ele tomara-
-me pela mão e assim me manteve dócil até o fim do sonho. Eu colocava, às
vezes, a outra mão que me ficava livre sobre a sua, mas esta parecia escapar da
minha como se evaporasse e somente sua esquerda estreitava a minha direita.
O jovenzinho sorria diante da minha tentativa inútil.18 Ao mesmo tempo, eu
olhava através das janelas do vagão e via desfilar diante de mim diversas e mag-
níficas regiões. Bosques, montanhas, planícies, rios larguíssimos e majestosos
que jamais pensei existirem em regiões tão distantes de suas fontes. Por um
espaço de mais de mil milhas, costeamos a borda de uma floresta virgem, ain-
da hoje sem explorar. Meu olhar adquiria uma visibilidade assombrosa. Não
encontrava obstáculos para chegar ao limite daquelas regiões. Não sei explicar
como se dava fenômeno tão extraordinário em minha visão. Podia penetrar
15
Uns dois meses antes do sonho, Dom Bosco, em resposta a repetidos pedidos, decidiu abrir
uma casa no Brasil e pediu ao padre Luís Lasagna que iniciasse as negociações. A primeira fundação
salesiana foi em Niterói, próxima ao Rio de Janeiro, em meados de 1883.
16
A proposta para fundar uma obra salesiana em Boston foi recebida através de intermediários,
no final de 1882. A primeira obra salesiana nessa cidade, a Don Bosco Technical High School, seria es-
tabelecida em 1945.
17
A cidade de Cartagena, Colômbia, como São José da Costa Rica, está situada a uns 10 graus de
latitude norte. No início da narração do sonho, diz-se que a sala de recepção está situada no Equador.
18
Experiência transcendente semelhante de aparições celestes é comentada em relação a Domin-
gos Sávio, com explicações apropriadas no sonho de Lanzo em 1876; cf. MB XII, 586s.

218

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 218 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

não só no interior das cordilheiras, mas também ver através das solitárias cris-
tas das montanhas aquelas planícies intermináveis (Brasil?).
Tinha diante do meu olhar as riquezas incomparáveis daqueles países,
riquezas que seriam descobertas um dia. Vi inumeráveis minas de metais
preciosos, galerias intermináveis de carvão mineral, depósitos de petróleo tão
abundantes como até agora não encontraram em outros lugares.19

[Nota marginal de Lemoyne] Isso, porém, não era tudo.


Entre os graus 15 e 20 havia uma O que mais me surpreendeu foi ver que
sinuosidade tão longa e tão estrei- em vários lugares nos quais as cordilheiras,
ta que partia de um ponto onde se dobrando-se sobre si mesmas, formavam
formava um lago. Então, uma voz vales, dos quais os atuais geógrafos nem se-
disse repetidas vezes: – “Quando quer suspeitam a existência, imaginando-se
começarem a explorar as minas es- que naquelas partes as encostas das monta-
condidas naqueles montes aparece-
rá aqui a terra prometida de onde
nhas são cortadas a pico. Nesses vales e nes-
brota leite e mel. Será uma riqueza sas sinuosidades que, talvez, se estendessem
inconcebível”. por milhares e milhares de quilômetros, ha-
bitam densas populações que ainda não en-
traram em contato com os europeus, povos
que são completamente desconhecidos.20

O trem, todavia, continuava a toda velocidade e depois de circular de


um lado para outro, deteve-se. Ali desceu grande parte dos passageiros que,
passando sob as cordilheiras, dirigiu-se a Ocidente. [Dom Bosco referia-se à
Bolívia. A estação talvez fosse La Paz, onde um túnel, abrindo passagem para
o litoral do Pacífico, pode pôr em comunicação o Brasil com Lima por meio
de outra ferrovia.]21

19
A nota marginal da mão de Lemoyne foi interpretada como indicação geográfica da futura
capital do Brasil, Brasília; apesar de não se mencionar qualquer cidade, e a descrição geográfica do lugar
ser muito geral para qualquer identificação. Neste momento, Dom Bosco tinha em mente o Brasil, mas
também Boston (Estados Unidos) e São José (Costa Rica).
20
Estas ideias foram ridicularizadas em Roma. Informando sobre as palavras de Dom Bosco, nos
Documenti, Lemoyne escreve: “Em Roma, eu o apresentei por completo ao cardeal Barnabò [prefeito
da Propaganda Fidei], que ridicularizou o projeto como fantasia infantil, especialmente a minha afir-
mação de que na América do Sul há grandes populações ainda por descobrir. Por isso, recusou-se a falar
com o Papa sobre isso. Então, o próprio Dom Bosco disse-o ao Papa, que, em seguida, levou a coisa
a sério, e pediu ao cardeal Franchi [próximo prefeito da Congregação] que fizesse um relatório. Sua
Eminência, porém, o foi postergando e, quando Pio IX insistiu, ele respondeu: ‘São delírios de uma
mente doentia!’. Pio IX, porém, ordenou, recebeu o relatório e respaldou plenamente a nova missão”.
(Documenti XIV, 143, ASC A063: Cronachette Lemoyne-Doc: FDB 1024 C4). Cabe assinalar que Pio
IX estivera como auditor nas delegações apostólicas do Chile e Peru de 1823 a 1825.
21
As palavras entre parêntesis deste e dos seguintes parágrafos são comentários de Lemoyne.

219

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 219 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

[Cena 2. Segunda parada da viagem]

[Nota marginal de Lemoyne] O trem pôs-se novamente em movi-


+ Será preciso indicar qual seria o mento. Rodeamos o Uruguai. Creio que
nome do rio (creio que o Paraná). era um rio pouco caudaloso, mas extre-
++ Dom Bosco também poria mamente amplo. Em certo momento vi
aqui o nome do rio (Uruguai) o rio que se aproxima do Uruguai como
que, como antes, escorre por pon- se viesse oferecer-lhe o tributo de suas
tes, túneis, lagos, rios e florestas.
águas; mas, depois de correr durante um
bom trecho paralelamente, se afastam
fazendo uma ampla curva. Os dois rios
eram caudalosos.

O trem continuava a marcha, e circulando de um lado para outro, de-


pois de longo espaço de tempo, deteve-se pela segunda vez. Aqui também
desceu do comboio muita gente que, passando sob as cordilheiras, dirigiu-se
para Ocidente.
[Dom Bosco indicou na República Argentina a província de Mendoza.
Por isso, a estação era, talvez, a de Mendoza e o túnel, aquele que punha em
comunicação com Santiago, capital da República do Chile.]

[Cena 3. Terceira parada da viagem]


O trem retomou a marcha através dos Pampas e da Patagônia. Os cam-
pos cultivados e as casas espalhadas de um lado e de outro indicavam que a
civilização tomava posse daqueles desertos. Finalmente, chegamos ao Estrei-
to de Magalhães. Eu olhava. Descemos. Diante de mim, via Punta Arenas.

[Nota marginal de Lemoyne] A terra, por várias milhas, era reco-


Imensos montes de metal, em par- berta de minas de carvão, tábuas, vigas de
te bruto, em parte depurado. madeira, imensos montes de metal, em
parte bruto, em parte trabalhado.
Longas filas de carrinhos com mercadorias ocupavam as ruas.
Meu amigo indicou-me todas essas coisas. Perguntei-lhe, então: – “O
que isso tudo quer dizer?”.
Ele respondeu-me: – “O que agora é apenas um projeto, será um dia
realidade. Os selvagens serão tão dóceis no futuro, que eles mesmos irão se
instruir prestando seu tributo à religião, à civilização e ao comércio. O que é

220

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 220 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

motivo de admiração em outras partes, aqui o será a ponto de superar o que


causa estupor entre outros povos (sic)”.
– “Já vi bastante”, repliquei; “agora, leva-me a ver meus salesianos da
Patagônia”.
Ele o fez e os vi. Eram muitos, mas não os conhecia; e entre eles não vi
nenhum dos meus primeiros filhos. Todos me contemplavam admirados. E
quando lhes perguntei:
[Nota marginal de Lemoyne] – “Não me conheceis? Não conheceis
Desci do trem e encontrei-me Dom Bosco?”.
imediatamente com os salesianos. (Responderam) – “Ó, Dom Bosco!
Havia ali muitas casas e grande Nós o conhecemos de fama, mas o vimos
número de habitantes; várias igre- apenas nas fotografias. Em pessoa, não o
jas, escolas, vários colégios para
jovenzinhos, internatos para adul-
conhecemos!”
tos, aprendizes e agricultores e um “E padre Fagnano, padre Costamag-
dispensário de religiosas (Filhas de na, padre Lasagna, padre Milanésio, onde
Maria Auxiliadora), que se dedi- estão?”22
cavam a vários trabalhos. Nossos
missionários encarregavam-se ao “Não os conhecemos pessoalmente.
mesmo tempo dos jovenzinhos e São os que vieram aqui em tempos passa-
dos adultos. Eu misturei-me entre dos: os primeiros salesianos que chegaram
eles. Eram muitos, mas não os co- da Europa a estes países. Mas já se passa-
nhecia e entre eles não vi nenhum ram muitos anos desde a sua morte!”.
de meus primeiros filhos. Todos
me olhavam admirados, como se Ao ouvir esta resposta, pensei admirado:
fosse uma pessoa desconhecida. – “Isto, todavia, é sonho ou realida-
de?”. E batia as mãos uma contra a outra,
tocava-me nos braços e movia-me ouvin-
do as palmas, e sentia-me a mim mesmo e
persuadia-me de que não estava dormindo.

[Conclusão e despertar]
Enquanto contemplava aquele mapa à espera que o jovenzinho
acrescentasse alguma explicação, emocionado pela surpresa do que ti-
nha diante dos olhos, pareceu-me que Quirino tocasse a Ave-Maria do

22
Luís Lasagna (1850-1895), ordenado padre em 1873, foi para as missões com o segundo
grupo, em 1876. Como diretor e, depois, como inspetor, desenvolveu a obra salesiana no Uruguai e
iniciou projetos científicos e culturais. Ele estabeleceu a obra salesiana no Brasil. Foi ordenado bispo
em 1893 e encarregado por Leão XIII da missão de proteger e evangelizar os nativos. Contudo, pouco
depois, morreu em uma trágica colisão de trens.

221

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 221 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

alvorecer; despertei-me, porém, e percebi que eram os sinos da paróquia


de San Benigno.23
O sonho durara a noite toda.24

[Conclusão moralista]
Dom Bosco concluiu seu relato com estas palavras: – “Com a doçura de
São Francisco de Sales, os salesianos atrairão para Cristo os povos da América
[do Sul]. Será empresa dificilíssima moralizar os selvagens, mas seus filhos
obedecerão com toda facilidade as instruções dos missionários e se fundarão
colônias e a civilização suplantará a barbárie, e assim muitos selvagens entra-
rão no redil de Cristo”.
N.B.: Como confirmação dessas visões extraordinárias, passaram-se ape-
nas alguns dias, até que o bispo de São José da Costa Rica, dom Bernardo Au-
gusto Thiel, e alguns senhores da missão, escreviam uma carta a Dom Bosco
pedindo-lhe alguns missionários salesianos. Pois bem, essa cidade encontra-se
precisamente sob o grau 10, mencionado no sonho.25

Comentário
O relato do sonho não apresenta outras observações nas fontes, exceto a con-
clusão anterior moralista de Dom Bosco. Entretanto, nas Memórias Biográficas,
Ceria tece extensos comentários sobre o caráter revelador do sonho e a precisão
de suas predições, além de ter previsto o futuro da obra salesiana. Ele afirma que
o conhecimento de Dom Bosco expresso no sonho relativo à geografia andina,
ao desenvolvimento da futura ferrovia, às riquezas materiais das cordilheiras e à
geografia e demografia da Terra do Fogo, não poderiam ser de origem humana.26
Igualmente na tradição salesiana, todas as referências geográficas,
como a Boston e São José da Costa Rica, neste e em outros sonhos, são
23
Dom Bosco estava em San Benigno Canavese, casa de noviciado nesse momento, para os Exer-
cícios Espirituais com os membros do CG III; foi despertado pelos sinos do Ângelus da igreja local de
San Benigno. Em seu estado de semivigília em que estava no início, pensou que era o sino do Ângelus
da igreja de Maria Auxiliadora em Turim, que era tocado pelo coadjutor Camilo Quirino (1847-1892),
“aquele santo coadjutor matemático, poliglota e sineiro” (MB XVI, 393s; MB XV, 564).
24
Os sonhos não duram a noite toda, embora possa parecê-lo. Duram apenas 15 ou 20 minu-
tos em tempo real, durante o sonho REM até o final de um ciclo de sonho. O sonho REM é sonhar
dormindo, que se relaciona com emoções frequentes, recordações vivas e preocupações importantes.
Enquanto se dorme, pode-se ter de três a cinco momentos de sonho REM; costuma começar depois
de 70 ou 90 minutos.
25
Nota de pé de página, acrescentada pelo editor Lemoyne.
26
Cf. MB XVI, 393s.

222

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 222 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

interpretadas como predições proféticas sobre o estabelecimento da obra


salesiana nesses lugares. Quando, talvez, meio século depois, chegava-se a
fundar a obra, pensava-se que a predição profética se cumprira. O mesmo
acontece com o “mito Brasília”, construído baseando-se numa passagem da
narração do segundo sonho missionário.27

Dom Bosco com os salesianos, padres e coadjutores,


da segunda expedição missionária (1876).

3. Algumas questões sobre o sonho28


Falou-se que Dom Bosco evidencia em alguns de seus sonhos um conhe-
cimento que não poderia ter obtido por meios humanos. A afirmação não se
refere especialmente às características geográficas e físicas das regiões que viu
e das populações que contemplou.
O conhecimento de Dom Bosco sobre coisas ocultas comunicadas atra-
vés dos sonhos é reivindicado pelos hagiógrafos do santo, sobretudo em rela-
ção às referências que o sonho de 1883 faz sobre a Patagônia e a Terra do Fogo.
Padre Ceria escreve sobre isso: “Dom Bosco oferece-nos uma série de
notícias positivas das quais ele não podia ter conhecimento nem por geógrafos

27
Para um comentário sobre essas questões e a “interpretação Brasília”, em particular,
ver p. 232-234 deste volume.
28
MB XVI, 393s, cf. A. Lenti, “Mission dreams II”, JSS 4:1 (1993), 1-60.

223

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 223 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

nem por viajantes, pois aquelas latitudes estavam ainda por explorar e eram
desconhecidas pelo turismo e pelas expedições científicas”.29 E falando, depois,
das explorações do salesiano padre Alberto de Agostini na Patagônia austral e
Terra do Fogo, Ceria enumera quatro âmbitos nos quais Dom Bosco demons-
tra esse conhecimento misterioso:30
1. A estrutura das cordilheiras andinas: Dom Bosco assinala que es-
tas montanhas não se elevam como uma muralha divisória, ou
seja, como uma cadeia homogênea (como comumente se acre-
ditava), mas que elas formam um complexo sistema de elevações
intercaladas e divididas por grandes depressões, “canais” ou vales;
e cita como exemplo desta última característica o “canal de Baker”,
no sul do Chile, “o mais extenso dos fiordes patagônicos, cujas ra-
mificações continentais formadas por profundas depressões, vales
e bacias lacustres, cortam a cordilheira patagônica entre os graus
45 e 52 de latitude sul”.
2. As redes ferroviárias: Dom Bosco fala das ferrovias onde então
reinavam o deserto e a solidão (e que, quando Ceria escreve, já
estavam em construção ou em planejamento, o que seria uma de-
monstração do conhecimento prévio e da realização das profecias).
3. A riqueza mineral ainda por descobrir, como o petróleo e o carvão:
Dom Bosco fala de grandes recursos minerais [nas] cordilheiras;
Ceria cita poços de petróleo em Comodoro Rivadavia31 e outras
partes da América do Sul.
4. O caráter geofísico do arquipélago fueguino e a distribuição da po-
pulação nativa nas ilhas: Dom Bosco descreve com exatidão as ilhas
e suas populações.

A visão da América do Sul nos sonhos


No sonho missionário de 1883, Dom Bosco fala das diversas característi-
cas da cordilheira andina, das florestas virgens, dos rios, da extensão da Patagô-
nia inferior etc. Esta era, com maior ou menor exatidão, a tradição geográfica
recolhida pelos mapas e livros da época e que aparece no sonho com imagens
fantásticas. Seria um erro tomar essas imagens como se fossem a descrição de
lugares reais por conhecimento revelado. O mesmo se diga da ideia, expressa

29
MB XVI, 394.
30
Parece não ser necessário recorrer a meios extraordinários de conhecimento para explicar o que
foi “visto” por Dom Bosco em seus sonhos missionários, pois podem ter uma explicação mais natural.
(Nota dos editores)
31
Cidade na costa argentina (não na cordilheira dos Andes) a 46 graus de latitude sul.

224

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 224 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

reiteradamente por Dom Bosco neste e em outros sonhos e escritos, de que a


Patagônia era uma terra completamente desconhecida, uma terra de ninguém,
ou seja, uma terra de selvagens, não pertencente à República Argentina.32

Características geofísicas e recursos minerais


O sonho apresenta os dados ora pela narração do próprio Dom Bosco,
ora por meio das notas de Lemoyne.
Dom Bosco escreve: “A gente pensa, e há geógrafos que cometem o
mesmo erro, que as cordilheiras da América são como uma muralha que nos
separa daquela parte do mundo. Mas não é assim. Estas altas e longas cadeias
montanhosas são atravessadas por vales que têm mais de mil quilômetros de
extensão. Nelas há florestas inexploradas... Carvão, petróleo, chumbo, cobre,
ferro, prata e outros [minerais] estão enterrados nas montanhas, onde a mão
poderosa do Criador os colocou para o bem das pessoas. Ó, cordilheiras,
cordilheiras (sic), quão rica é a vossa região oriental!”.33
Por sua vez, Lemoyne, em nota marginal, acrescenta: “Entre os graus
15 e 20 [de latitude sul] havia uma ‘sinuosidade’ tão longa e tão estreita
que partia de um ponto onde se formava um lago”.34 A região, não iden-
tificada com precisão, deve ser relacionada, aparentemente, com a parte
norte das cordilheiras.
Num primeiro momento, nada se diz da Patagônia ou da Terra do Fogo
em particular, mas quando finalmente chega ao estreito de Magalhães, Dom
Bosco vê que “o solo pelo espaço de várias milhas estava todo coberto de mi-
nas de carvão, de tábuas, de vigas de madeira”. Lemoyne acrescenta que tam-
bém havia “imensos montes de metal, em parte bruto, em parte depurado”.35
Não se menciona o petróleo; chama a atenção, por isso, que Ceria fale das
reservas de petróleo. Quanto à madeira, embora as florestas abundem nessas
regiões do sul, elas se encontram principalmente nas costas do Pacífico e nas
ilhas. A estepe pedregosa e os arbustos improdutivos são as principais carac-
terísticas da província de Santa Cruz no lado argentino. Sabe-se, porém, que
há carvão.36
A fim de avaliar essas afirmações em sua justa medida, é preciso levar
em consideração que, por razões históricas, Dom Bosco dispunha de grande

32
Para um comentário mais detalhado, ver J. Borrego, Proyecto, 21-72, esp. 28-33.
33
MB XVI, 384s.
34
Ver o texto do sonho, na página 219 deste volume.
35
Ver o texto do sonho, na página 220 deste volume.
36
Cf. Hammond Citation World Atlas, Maplewood, NJ, Hammond Inc., 1977, 141.

225

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 225 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

quantidade de informação confiável em relação às antigas colônias espanholas


nas regiões andinas superiores.
Já dissemos que em 1876, Dom Bosco reunira grande quantidade de in-
formação sobre a Patagônia e a Terra do Fogo, terras que até pouco antes não
tinham suscitado particularmente a sua atenção. Nessa época, porém, inves-
tigou detalhadamente todos os seus aspectos e utilizou essa informação para
apresentar em Roma o importante estudo intitulado A Patagônia e as regiões
mais austrais do continente americano37 que, embora escrito por Barberis, foi
abonado pela assinatura de Dom Bosco, que o tornou seu. Em sua crônica,
padre Barberis reconhece a pesquisa febril, tanto sua como de Dom Bosco,
para escrever este ensaio de 164 grandes páginas.
Nesse ensaio, como introdução, enumeram-se as fontes utilizadas: dez
títulos. Em seguida, Barberis continua: “Eu levei dois mapas, um da Patagônia
e outro da América (do Sul). Começamos a estudar a geografia [da Patagônia]
detalhadamente. Passamos muito tempo estudando suas características, como
os golfos, o estreito de Magalhães e o contorno das ilhas”.38 Dom Bosco con-
tinuou a pesquisar aquele que, com determinação irredutível, se converteu
rapidamente em seu campo missionário; de modo que, no momento do sonho
(1883), além de seus conhecimentos gerais geográficos históricos e culturais,
tinha armazenado abundante informação específica sobre o tema.39
No ensaio sobre a Patagônia, na seção relativa à geografia física da região,
descrevem-se as ilhas do arquipélago, mais ou menos como descritas no relato
do sonho.40 Embora seja certo que o ensaio não traz qualquer informação
sobre os recursos minerais da região,41 deve-se levar em consideração, como se
disse anteriormente, que Dom Bosco tinha informação disponível sobre a re-
gião das antigas colônias espanholas. Além do mais, os espanhóis exploraram

37
Como já mencionamos, esta obra foi editada criticamente, com extensa introdução, notas e
apêndices, Cf. J. Borrego, Patagonia. Borrego assinala que Ceria sabia que Barberis preparara algum
tipo de relatório (cf. MB XII, 261; 542-544), mas que não chegou a conhecer esse relatório (J. Bor-
rego, Patagonia, 3-4).
38
ASC A001 Cronachette-Barberis; cf. J. Borrego, Patagonia, 8. Também sabemos que, em
1876, ou seja, desde que a Argentina foi oferecida em 1874 até a redação do ensaio sobre a Patagônia
em 1876, Dom Bosco acumulara grande informação, exata ou não, sobre as regiões do sul da Argentina
e do Chile. O cônsul Gazzolo foi uma de suas fontes (cf. J. Borrego, Proyecto, 42-50).
39
Cf. J. Borrego, Patagonia, 40-42.
40
Cf. J. Borrego, Patagonia, 46-47.
41
Em um parágrafo de seis linhas sobre “Recursos minerais”, o autor escreve: “As altas montanhas
da cordilheira andina [na Patagônia] são formadas sobretudo por rochas duras. A planície, por outro lado,
é um aglomerado de rocha calcária, com grandes porções cobertas de areia e massas salinas...” (J. Borrego,
Patagonia, 51).

226

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 226 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

os recursos minerais e humanos das regiões andinas desde o século XVI. Com
essa base, Dom Bosco podia extrapolar facilmente e tirar deduções aplicáveis
ou não a outras regiões. Contudo, ainda assim, o relato do sonho demonstra
que, embora descreva com fidelidade os enormes recursos das regiões andi-
nas do norte, não é tão explícito ao falar da Patagônia e Terra do Fogo. O
único mineral mencionado neste território é o carvão, e é citado em relação
ao desenvolvimento cultural e econômico da região. Por outro lado, fala de
petróleo entre os recursos das cordilheiras, onde não foi encontrado.
Quanto aos países andinos do Peru, Equador e Colômbia, há algo de
petróleo nas regiões costeiras do Pacífico e em alguns vales baixos interiores.
Contudo, todas estas considerações não nos devem fazer perder de vista o
fato de que é muito provável que todas as ideias sobre os recursos minerais
proviessem da própria experiência cultural de Dom Bosco.42

Os nativos
Em relação à situação demográfica, no sonho de 1883 e em outros lu-
gares, Dom Bosco fala do grande número, inclusive de milhões de “selva-
gens”, que vivem em muitos lugares e particularmente na América. Falando
da Europa, diz: “Poucos têm a coragem de desafiar longas viagens ou [terras]
desconhecidas para salvar as almas desses milhões de almas”. Ele também alu-
de à “elevada densidade de população” que habita os grandes vales andinos.
Concluindo a alegoria da corda no sonho, o intérprete diz a Dom Bosco:
“Pois bem, essas montanhas são como uma encosta, como um limite. De
aqui até lá, estende-se a messe oferecida aos salesianos. São milhares e milhões
de habitantes que esperam o vosso auxílio, que aguardam a fé.”
Ao referir-se às ilhas do sul, Dom Bosco diz: “Algumas delas eram habita-
das por indígenas muito numerosos; outras, estéreis, nuas, rochosas, desabitadas,
outras completamente cobertas de gelo e neve. A ocidente, numerosos grupos
de ilhas, habitadas por muitos selvagens”.43

42
A mineração do carvão, em particular, fazia parte da experiência cultural de Dom Bosco. O
carvão, em suas diversas formas, fora utilizado como energia antes dos tempos de Dom Bosco. Em
meados do século XIX, a necessidade de aumentar a produção de coque e gás para a calefação e ilumi-
nação deu novo impulso à indústria do carvão. Igualmente, em meados do século XIX, a introdução da
dinamite (em substituição da pólvora nas explosões) e de brocas rotatórias ampliou muito a produção
de carvão. Pode-se dizer o mesmo sobre o petróleo. O primeiro poço foi perfurado em Titusville, Pen-
silvânia (Estados Unidos), em 1859. Em algumas décadas, a exploração petrolífera estendera-se não só
nos Estados Unidos, como também na Europa, no Oriente Médio e na Ásia oriental (cf. Enciclopedia
Britanica, Micropedia, 15ª ed., 1987, 3408; 8158; 9344). Sobre o petróleo nos países andinos, cf.
Hammond Citation World Atlas, Maplewood, NJ, Hammond Inc., 1977, 127 e 130.
43
Para todas as cifras deste parágrafo, ver sonho no capítulo IV, p. 146-150.

227

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 227 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Em seu ensaio sobre a Patagônia, depois de vários cálculos, fixa o núme-


ro mínimo da população nativa da Patagônia e Terra do Fogo em 4 milhões,44
e o faz, apesar da informação contrária recebida dos missionários da América
do Sul.45
Igualmente, as ideias e descrições feitas por Dom Bosco sobre os indígenas,
e que viu em seus sonhos, aproximam mais os nativos da literatura romântica
e das enciclopédias do século XIX, do que a qualquer tipo real da Patagônia.
Outros dados antropológicos e etnográficos relativos às populações na-
tivas, por exemplo, seu caráter, cultura etc., são bastante imprecisos e pro-
vêm do acervo cultural geral e específico de Dom Bosco. No primeiro sonho
missionário (1871-1872), os selvagens são descritos como gente feroz, que
“sacrificam e esquartejam [os missionários] em pedaços”.46
Além dos sonhos, Dom Bosco escreve que os numerosos indígenas pata-
gônios ainda se encontram nas trevas e sombras da morte, e vivem em estado
completamente selvagem; e que, até o momento, a voz do missionário não
pôde ser ouvida em toda essa imensa região, apesar das muitas tentativas de
evangelização através dos séculos. Deve-se o fracasso à ferocidade com que
os nativos frustraram todos os esforços em seu favor, pois sacrificavam de
maneira selvagem todos os missionários que tentavam aproximar-se deles e,
também, comiam sua carne.47
Estas ideias, bem inexatas, faziam parte da cultura geral do tempo e de
Dom Bosco, que as fizera suas.48

As ferrovias
Pode-se dizer o mesmo sobre as ferrovias do sonho. Primeiramente, a
experiência cultural imediata de Dom Bosco reflete-se no fato de ser o trem
o meio de transporte escolhido para a viagem em seus sonhos. Por isso, se a
viagem devia percorrer todo o continente, de norte a sul, pela lógica, a uma
pessoa que está diante do mapa da América do Sul ocorreria seguir o caminho
que passa pela encosta dos Andes. Do mesmo modo, se o trem, como era de
44
J. Borrego, Patagonia, 22 e 159.
45
Ver, por exemplo, carta de Cagliero a Chiala, de 4 de abril de 1876, em J. Borrego, Pata­gonia,
22, nota 80. Para outros detalhes, ver dados estatísticos nas p. 175-177 deste volume.
46
Ver o relato do sonho, de 1871-1872, feito por Barberis, apresentado no capítulo 2. No sonho
missionário de Barcelona, de 1886, relatado por Carlos Viglietti, Dom Bosco fala de populações nati-
vas dos lugares que vê (com menção específica de Hong Kong, Calcutá e Madagascar) como “selvagens
que se alimentam de carne humana” (MB XVIII 73s).
47
J. Borrego, Patagonia, 159.
48
J. Borrego, Patagonia, 20-21.

228

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 228 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

esperar, devia deter-se para que os passageiros saíssem, escolheria certamen-


te os bem conhecidos centros da La Paz (Bolívia) e Mendoza (Argentina).
Olhando para um mapa, seria fácil para ele saber como chegar desses lugares
às importantes cidades do Pacífico no Peru e no Chile.49
Portanto, não parece necessário recorrer à teoria da ciência infusa através
dos sonhos para possuir os conhecimentos que Dom Bosco demonstra ter.
Esses elementos derivam da experiência cultural do sonhador. Alguns podem
ser acertados e apropriados, enquanto outros, inexatos, como assinalamos
anteriormente.
Acreditamos que se possa compartilhar, como conclusão deste tema, a
opinião de João Belza que, do ponto de vista psicológico, as imagens do so-
nho, sempre imprecisas, só podem ser interpretadas a partir dos conteúdos do
mundo interior do sonhador... Pode-se demonstrar também que os sonhos
geográficos [missionários] de Dom Bosco, como muitos de seus outros so-
nhos, inclusive em relação à sua origem, procedem das experiências da vida
diária, aumentadas pelo fervor missionário que o possuía.50

Caráter premonitório dos sonhos


Os sonhos missionários de Dom Bosco são reveladores ou proféticos
no sentido de serem expressões de suas esperanças e projetos para a ex-
pansão mundial da obra salesiana. Contudo, além do que já se comentou
sobre a misteriosa sabedoria de Dom Bosco, parece oportuno abordar aqui
a questão do caráter pré-cognitivo ou inspirado destes sonhos, quando se
referem a certos casos particulares, nos quais alguns biógrafos quiseram ver
revelações proféticas.
Já aludimos ao caso da localização de um futuro sistema ferroviário da
América do Sul. Além dele, há quem tenha afirmado que Dom Bosco previu
profeticamente a criação da obra salesiana em determinados lugares quando,
na verdade, não são nomeados e indicados de modo algum nesses sonhos.
Assim mesmo, ouvem-se muitas vezes salesianos que afirmam, com orgulho
compreensível, que esta ou aquela fundação é a realização de uma das pre-
dições de Dom Bosco. Na verdade, a maioria dos lugares geográficos men-
cionados nestes sonhos teve, ou possivelmente poderia ter no futuro, uma
fundação salesiana; e, por conseguinte, poderiam ser escolhidos para essa in-
terpretação. Vejamos em seguida alguns dos casos que têm sido assinalados.

Estas cidades são sugestões próprias de Dom Bosco, segundo comentários do narrador.
49

Juan E. Belza, Sueños patagónicos. Buenos Aires: Instituto de Investigación Histórica Tierra
50

del Fuego, 1982, 24-26, em J. Borrego, Proyecto, 47, nota 157.

229

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 229 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Igreja em construção em Rio Gallegos, sul da Patagônia.

Um centro salesiano da Patagônia nos 47 graus de latitude sul?


A alegoria da corda, no sonho de 1883, apresenta os números 47, 50
e 55 graus de latitude sul que se tornaram referência para as fundações sale-
sianas nesses lugares. No ponto 47, a corda divide-se em muitas linhas que
unem os lugares mais ao sul. Nenhuma cidade é mencionada, mas uma nota
marginal da mão de Lemoyne interpreta expressamente o número 47 como
representando “o centro salesiano do qual se poderia chegar às ilhas Malvinas,
à Terra do Fogo e a outras ilhas, [as] mais almejadas da América [do Sul]”.51
Realmente, nenhum centro que realize historicamente essas condições está
situado nos 47 graus na Patagônia austral. Santa Cruz, situada aproximadamen-
te nos 50 graus, embora nunca tenha sido um centro salesiano importante, ser-
viu historicamente como ponto de ligação com as missões na Terra do Fogo.

51
Cf. nota 12 deste capítulo.

230

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 230 28/07/14 16:35


Presença salesiana na América do Sul. 4. Segundo sonho missionário: San Benigno...

Ushuaia, situada a uns 55 graus na margem sul da Ilha Grande, é a fundação


salesiana mais meridional, assim como a cidade mais austral do mundo.

No grau 10 de latitude norte: São José (da Costa Rica)?


Na mesma alegoria da corda, o número 10 representava os 10 graus de
latitude norte; todavia, tampouco se menciona alguma cidade. Numa nota
de pé de página, Lemoyne escreve: “O bispo de São José, capital da Costa
Rica, mediante carta datada em 15 de setembro de 1883, pediu a Dom Bos-
co alguns missionários salesianos. Esta cidade está situada no grau 10, como
indicado no sonho de Dom Bosco”.52
Entretanto, isso também coincide, por exemplo, com Valência, locali-
zada no grau 10, e com Caracas (Venezuela), pouco mais ao norte. As duas
cidades da Venezuela possuem fundações salesianas e realizam o requisito de
estar “no mar das Antilhas” (Caribe). Cartagena (Colômbia), mencionada
expressamente no mesmo sonho, está na mesma posição mais a oeste, mas
não teve fundação salesiana (SDB) anterior a 1939.53

Boston, Massachusetts (Estados Unidos)


Mais adiante no sonho, quando Dom Bosco está para iniciar a viagem
de trem para o sul, ele perguntou ao guia: “E quando iremos a Boston? Es-
tão nos esperando ali”. A resposta, que significava uma recusa, foi “No seu
devido tempo”.54
O motivo que origina esta pergunta no sonho deve ser buscado no fato
de, como mostram os documentos de arquivo, em 1882-1883, fora feita uma
proposta a Dom Bosco, através de um intermediário, J. Moigno, SS, cônego
de Saint-Denis (Paris), para abrir uma “escola para sacerdotes missionários”
sob o título de Confrérie de Notre Dame des Victoires et de Saint Pierre, anexa
à igreja francesa do mesmo nome, em Boston. Depois de receber várias cartas
do cônego Moigno, Dom Bosco orienta o padre Bonetti, por meio de seu se-
cretário francês, padre Camille de Barruel, que recuse a oferta: “Os compro-
missos já assumidos para a fundação de obras muito importantes na Europa e
na América do Sul impedem-me de aceitar imediatamente a obra de Boston,
que nos propõe com tanta bondade”.

Cf. nota 13 deste capítulo. O pedido de São José foi feito duas semanas depois do sonho, mas
52

as primeiras fundações foram criadas ali em 1907; em Valência (Venezuela), em 1895; em Caracas
(Venezuela), em 1894.
53
Cf. p. 214 deste volume.
54
Cf. p. 218 deste volume.

231

Dom_bosco_historia_e_carisma_03_fechado.indd 231 28/07/14 16:35


Dom Bosco: história e carisma 3

Segundo a nota do padre Bonetti, que transmitia as orientações de Dom


Bosco, pedia-se um tempo de espera: três ou quatro anos. Tudo isso se deu como
resposta a uma carta do cônego Moigno, datada em 13 de julho de 1883. A cor-
respondência, todavia, continuou em agosto. Dessa forma, até praticamente o
momento do sonho (31 de agosto de 1883), Dom Bosco estivera interessado na
oferta de Boston e não descartara a possibilidade de um compromisso futuro.55
Isso explicaria por que o assunto apareceu no sonho. Finalmente, resul-
tou que a obra salesiana só se estabeleceu em Boston em 1945, com a abertu-
ra da Don Bosco Technical High School.

Entre os graus 15 e 20 de latitude sul, Brasília?


Deu-se considerável atenção à passagem do sonho de Dom Bosco em
sua fantástica viagem de trem até o sul das cordilheiras, no qual, com enorme
capacidade de visão, penetra nas montanhas e planícies mais distantes e des-
cobre os recursos minerais escondidos na região.
Padre Lemoyne conjectura que essas planícies eram o Brasil; na nota escri-
ta à mão por ele, alude a uma “enseada” (vale?), que começa num lago e se situa
entre os graus 15 e 20 de latitude sul. Embora não se mencione qualquer cidade,
nem se dê a posição longitudinal, o texto foi interpretado como uma referência a
Brasília, a moderna capital do Brasil, localizada junto a um grande lago artificial
ao redor dos 16 graus de latitude. Antes de formular qualquer juízo ou fazer
qualquer comentário, deve-se recordar que Lemoyne, provavelmente refletindo
o pensamento de Dom Bosco, renova esta paisagem em várias revisões.
Pode-se vê-lo no manuscrito Lemoyne C e, igualmente, nos Documenti,
que representam a elaboração final do texto de Lemoyne e q