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WALLON – UMA CONCEPÇÃO DIALETICA DO DESENVOLVIMENTO

INFANTIL

Apresentação Pés no Chão.

Temos diversas leituras e visões sobre o desenvolvimento infantil na


nossa sociedade. Esse estudo tem como objetivo, fazer um recorte sobre o
desenvolvimento infantil numa perspectiva referencial teórica de Henri Wallon.
O autor percebe a infância como um estado provisório, uma fase de
preparação para a vida adulta e procurou observar a criança tanto na sua
dimensão atual e também como um ser em desenvolvimento.

Dessa forma torna-se importante e relevante fazer uma apresentação


histórica e conceitual de alguns elementos importantes para a compreensão
desse estudo.

Henri Wallon nasceu na França em 1879 e viveu em Paris toda sua vida.
Foi um período marcado por muita instabilidade social e turbulências políticas.
Acontecimentos como as duas guerras mundiais (1914-18 e 1939- 45),
envolveu-se em movimentos contra o fascismo, atuou intensamente na
Resistencia Francesa, filiou-se ao Partido Comunista e participou de grupos
formados por intelectuais, como o Grupo Francês de Educação Nova

Graduou-se em Filosofia e Medicina, interessando-se pela organização


biológica do homem, atuou-se como médico em instituições psiquiátricas
infantil, e dedicou-se ao atendimento de feridos com lesões celebrais de ex–
combatentes. Os conhecimentos adquiridos ao longo de sua experiência,
tiveram um importante papel na constituição da sua teoria psicológica com as
crianças e o foram aproximando cada vez mais do campo da educação.

Por um lado, viu o estudo da criança como um recurso para compreender o


psiquismo humano, por outro, interessou-se pela infância como um problema
social. Wallon percebia a escola como um contexto privilegiado para ter
acesso a criança contextualizada, ou seja, inserida no seu meio, pois encarava
a criança como um ser total, concreto e ativo.

Buscando compreender então, os dos processos mentais, Wallon volta a


sua atenção para a Psicogênese da Pessoa, isto é, para um estudo sobre a
origem da psique humana. Admite o organismo como condição primaria do
pensamento, pois toda função psíquica supõe um equipamento orgânico, e que
o homem é determinado tanto por sua fisiologia, quanto pelas situações vividas
ao longo de sua vida. Considerando que não é possível selecionar um único
aspecto do ser humano, propõe o estudo integrado do desenvolvimento, da
criança contextualizada, em suas atitudes afetivas, motoras, cognitivas,
orgânicas.

Dessa forma Wallon propõe a articulação da história vivida, demanda


atual, e da perspectiva do desenvolvimento infantil, como ponto de partida para
a compreensão da criança e suas manifestações, onde a cada idade
estabelece-se um tipo particular de interação entre o sujeito e seu ambiente, ou
seja, conforme as disponibilidades da idade, a criança interage mais fortemente
com um ou outro aspecto de seu contexto, retirando- se dele os recursos para
seu desenvolvimento.

No desenvolvimento humano podemos identificar claramente a


existência de etapas diferenciadas, caracterizada por um conjunto de
necessidades e interesses. O simples amadurecimento do sistema nervoso não
garante o desenvolvimento de habilidades intelectuais mais complexas. Para
que se desenvolvam, precisam interagir com a cultura, isto é, a linguagem, os
costumes e conhecimento.

Henri Wallon concebe o desenvolvimento da pessoa de maneira


dinâmica e por estágios, vinculando as dimensões do movimento não linear, há
momentos com predominância da afetividade como forma de interação, e a
momentos em que à inteligência se torna predominante. Durante esse
processo, fatores orgânicos e sociais estão em constante interação. Assim, as
mudanças que acontecem ao longo do desenvolvimento são dependentes das
possibilidades da pessoa, do amadurecimento do seu organismo e das
condições externas.

No primeiro ano de vida, ocorre o estágio impulso-emocional, sendo


predominantemente uma afetividade impulsiva, já que, devido as condições do
bebê, a emoção é o principal instrumento que ele utiliza para a interação com o
meio, como exemplo, o choro.
O estágio sensório-motor e projetivo se inicia por volta de um ano e se
estende até o terceiro ano de vida da criança. É uma fase caracterizada pela
investigação e exploração da realidade exterior e marcada pela aptidão
simbólica (aquisição da fala) e pela representação mental. A aquisição da
linguagem irá propiciar a oportunidade de a criança ingressar em um mundo
completamente novo - o mundo dos símbolos. Dessa forma, inicia-se a
segunda característica desse estágio, sua dimensão projetiva, ou seja, para
expressar os seus pensamentos e afetos, a criança necessita do auxílio dos
gestos uma vez que sua linguagem ainda é frágil, isto é, para criança,
aprender, ela precisa estar em constante movimento.

O estágio do personalismo acontece dos três aos seis anos e é


caracterizado por uma fase onde a criança começa a construir a consciência do
seu eu psíquico e da representação de si mesma, saindo do egocentrismo. A
construção da consciência de si, reorienta o interesse da criança para as
pessoas, o outro já está existindo, retornando a predominância das relações
afetivas. Entretanto, será necessário que a criança seja capaz de se diferenciar
psiquicamente do outro de modo a reconhecer-se como um eu próprio. Essa
diferenciação se processa em três etapas distintas e simultâneas: a oposição, a
sedução e a imitação.

A primeira delas, a oposição, inicia-se por volta dos três anos e tem por
objetivo permitir a afirmação do próprio eu em oposição ao eu do outro. Nas
atitudes de oposição, a criança tem o prazer em se contrapor ao outro
justamente para experimentar sua autonomia e independência, como exemplo,
a birra.

A segunda etapa do processo de diferenciação refere-se à sedução na qual a


criança deseja mostrar seu eu recém construído e ser elogiada e amada pelos
outros, pois só assim que ela conseguirá se amar também. Então, percebe que
determinadas ações, brincadeiras e gestos, agradam ou desagradam, e usa
deles para chamar atenção e se mostrar.

Por fim, na terceira etapa, da imitação, a criança começa a imitar as pessoas


que ela mais admira e gosta. Isto acontece porque, para a criança, suas
próprias qualidades já não são suficientes e ela necessita ampliar seu eu com
as qualidades e características do outro, como exemplo, personagens.

Por volta dos seis anos, inicia-se o estágio categorial, em que graças à
consolidação da função simbólica e à diferenciação da personalidade realizada
nos estágios anteriores, traz importantes avanços no desenvolvimento da
inteligência. Dessa forma, as funções cognitivas sobrepõem-se ao aspecto
afetivo dirigido.

No estágio da adolescência impõe a necessidade de uma nova definição dos


contornos da personalidade, desestruturados devido às modificações corporais.
Este processo traz à tona questões pessoais, morais e existenciais, numa
retomada da predominância da afetividade.

Podemos perceber que então, a relação entre afetividade e a inteligência estão


em constante ligação como forma de interação com o meio, e seu
desenvolvimento, e que cada vez em que esta aquisição dos processos
intelectuais é desenvolvida, a afetividade torna-se cada vez mais racionalizada.
Os sentimentos são elaborados no plano mental, podendo haver uma,
elaboração sobre uma idéia, suas relações afetivas.

Desta forma para Wallon, o sentido das emoções no desenvolvimento torna-se


fundamental, uma vez que, estas são manifestações afetivas, isto é, que tem
uma expressão, uma utilidade, uma função social. Sua primeira atividade eficaz
é desencadear no outro, reações de ajuda para satisfazer suas necessidades e
desejos. O autor afirma que a emoção também tem uma grande capacidade de
contágio, uma vez que, as reações que as emoções causam no outro, pais,
amigos e professores, tem um grande impacto para aqueles a quem apresenta,
tanto de forma negativa quanto positiva, e quanto menor a criança mais
capacidade de se contagiar por essas emoções externas, uma vez que elas
ainda se encontram num processo de identificação com o outro, conforme esse
processo de individualização aumenta, aumenta também esse distanciamento.
Por exemplo, um bebê chora, todos bebês choram, uma pessoa está alegre,
contamina o ambiente.
O estudo da inteligência segundo Wallon, nasce das emoções, pois esta se
constrói graças a esse primeiro contato relacional com a mãe. Portanto, para o
autor, a inteligência e afetividade estão intimamente ligadas.

A dimensão expressiva do movimento e seus elementos, também tem um


grande marco na compreensão do desenvolvimento da pessoa, segundo a
teoria de Wallon, uma vez que, os gestos, posturas, tom de voz, nos ajudam a
entender a criança, nela o pensamento é sustentado pelo movimento, e
perceber essa necessidade da criança, nos ajuda a pensar formas e maneiras
de trabalhar. A criança pequena, precisa de se mexer para construir um
pensamento, ele vai destrinchar o complexo processo de controlar o próprio
movimento, um processo gradual e trabalhoso, por isso, é preciso apontar
alguns aspectos.

Não é possível perceber a produção da criança apenas pela sua produção


escrita, é necessário compreende-la de uma forma global, e por meio de sua
mobilidade postural, gestual, sua instabilidade, apatias, e outros elementos,
compreender quando o movimento da criança precisa ser contido, e quando ele
ter que ser favorecido. No primeiro momento para representar alguma coisa a
criança utiliza também o movimento, aos poucos a inteligência vai se
descolando do movimento, por exemplo, mover as mãos para falar, falar
andando.

Para o autor a criança, o desenvolvimento infantil é o que se articula entre o


movimento, afetividade, inteligência. A consciência de si vai sendo construída
por meio de processos gradualmente, é um percurso em que a criança vai
tendo que se diferenciar do Outro para poder se constituir como uma
identidade. Essa separação é feita ao longo da vida.

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