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VALTER LUCIANO GONÇALVES VILLAR

A PRESENÇA ÁRABE NA LITERATURA BRASILEIRA:


JORGE AMADO E MILTON HATOUM

João Pessoa – PB
2008
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

A PRESENÇA ÁRABE NA LITERATURA BRASILEIRA:


JORGE AMADO E MILTON HATOUM

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado


em Letras da Universidade Federal da Paraíba,
como requisito parcial à obtenção do grau de
Mestre em Literatura Brasileira.

Orientadora: Profa. Dra. Wilma Martins de


Mendonça.

João Pessoa
2008
VALTER LUCIANO GONÇALVES VILLAR

A PRESENÇA ÁRABE NA LITERATURA BRASILEIRA: Jorge Amado e Milton


Hatoum, dissertação defendida e aprovada no dia 27 de junho de 2008, como condição para
obtenção do título de Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal da Paraíba.

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________________
Profª Draª Wilma Martins de Mendonça – Orientadora
Universidade Federal da Paraíba

________________________________________
Profª Draª Liane Schneider (examinadora)
Universidade Federal da Paraíba

_____________________________________________
Profº Drº Lourival Holanda (examinador)
Universidade Federal de Pernambuco

_______________________________________________
Profº. Drº.Expedito Ferraz Júnior (suplente)
Universidade Federal da Paraíba
A Vanderley Caixe,
em nome das gentes árabes,
dedico este trabalho.
AGRADECIMENTOS

À professora Wilma Martins de Mendonça, pela orientação,


sabedoria e zelo na construção de todo o trabalho.

Ao casal José Aldemir de Oliveira e Rita do Perpétuo Socorro


Barbosa de Oliveira, professores da Universidade Federal do
Amazonas, pela ajuda, incentivo e apoio nesse difícil caminho.

Ao Professor Marcos Frederico Krugger Aleixo, pelo carinho,


gentileza e atenção.

Ao professor Nelson de Matos Noronha, pela confiança e apoio.

Aos meus pais José Valter e Angelita e irmãos Marcos,


Anselmo, Tânia e Analândia pela compreensão, suporte e
incentivo em todo o processo.

À Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas –


FAPEAM, pelo apoio financeiro, sem o qual não seria possível
concluir o término desse trabalho em tempo hábil.

Ao Programa de Pós-Graduação em Letras, especialmente aos


professores Arturo Gouveia, Ana Marinho, Diógenes André,
Elisalva Madruga, Liane Schneider, Genilda Azeredo, Luiz
Mousinho, Sandra Luna e Zélia Bora, pelas aulas ministradas,
pelas observações, pela simpatia e gentileza durante o convívio
acadêmico.

Aos amigos e amigas da Linha do Grupo de Estudos sobre


Brasilidade, da Escola Estadual Myrtes Marques Trigueiro e da
Universidade Federal do Amazonas, pelo privilégio de
compartilhar momentos agradáveis em estudos coletivos.

Aos amigos Marcos Antonio Soares, Eliana Gato e Rainério dos


Santos Lima, pela disponibilidade, atenção e presteza.

À Comunidade indigenista e à Comunidade de Maria pelo


apoio espiritual.
SUMÁRIO

Resumo

Abstract

INTRODUÇÃO 09

1. CAPITULO I

A PRESENÇA ÁRABE NA LITERATURA BRASILEIRA 13

2. CAPÍTULO II

JORGE AMADO E A REPRESENTAÇÃO DO MUNDO ÁRABE 39

1.1. A freqüentação árabe nos romances de Jorge Amado 40

1.2. Nacib Saad: um brasileiro das Arábias 60

3. CAPÍTULO III

A REPRESENTAÇÃO ÁRABE EM MILTON HATOUM 74

3.1 Ficção e história de imigrantes 75


3.2 Nacib e Halim: os árabes no Brasil 89

CONCLUSÃO

JORGE AMADO E MILTON HATOUM: SIMETRIAS E ASSIMETRIAS 98

REFERÊNCIAS 100
RESUMO

O trabalho A presença árabe na literatura brasileira: Jorge Amado e Milton Hatoum

trata dos estudos das representações árabes em nossa literatura, através dos discursos

romanescos de Jorge Amado (1958) e de Milton Hatoum (2000). Assim, elegeram-se como

objetos de análise os romances Gabriela, cravo e canela e Dois irmãos que, não obstante

separados pelo vácuo de quase meio século, permitem, pelo viés da similaridade, o diálogo

pretendido. Nesse intuito, e concebendo, à maneira de Antonio Candido, a literatura brasileira

como sistema, trataremos a esse cotejo várias outras realizações estéticas que contemplem a

representação árabe em suas letras.

Guiados pela concepção de Antonio Candido no que tange à nossa produção literária,

aliaremos o discurso clássico de Edward Said para o entendimento das representações e

configurações árabes no Ocidente, denominadas de “orientalismo”. Nessa macro-orientação,

procederemos à leitura dos textos recortados para análise, nos inserindo, dessa forma, na

tradição, crítica e ensaísta que se volta, recorrentemente, para as representações das

identidades nacionais, em confronto e/ou harmonia com os imigrantes aqui chegados. Assim,

procuraremos aferir a enorme contribuição do mundo árabe em nosso fazimento, expressão de

Darcy Ribeiro, antropólogo, ensaísta, romancista e educador.

Palavras-chave: Literatura, representação identitária, Jorge Amado, Milton Hatoum.


ABSTRACT

The work “A presença árabe na literatura brasileira: Jorge Amado e Milton Hatoum”

(Arabian presence in Brazilian literature: Jorge Amado and Milton Hatoum) deals with the

study of Arabian representations in Brazilian literary representation of, through the discourse

presented in of novels by Jorge Amado (1958) and Milton Hatoum (2000). Thus, it has been

elected, as analysis objects, the novels Gabriela, cravo e canela (Gabriela, clove and

cinnamon) and Dois irmãos (Two brothers) which, regardless separated by the gap of almost

half a century, permit the intended discourse by means of similarity. With this aim and,

following of Antonio Candido, is concept of brazilian literature as a system, many other

esthetical realizations that contemplate the Arabian representation in the literary field will be

brought to this analysis.

Inspired by Antonio Candido´s conception we will use the support of is discouse

Edward Said on the representations of Arabian configurations in the Ocident, usually referred

to as “Orientalism”. In this macro-orientation, the reading of the texts cut out for analysis will

be proceeded, inserting the readers, thus, in the critical and essayist tradition directed,

recurrently, to the representation of the national identities, in confront and/or harmony with

the immigrants who arrived here. Thus, we try to survey the huge contribution of the Arabian

world to our historical-literary “fazimento” (an expression of Darcy Ribeiro, which means

“making of”).

Key-words: Literature, identity representation, Jorge Amado, Milton Hatoum.


I N T R O D U Ç Ã O

Se isso estimular um novo tipo de relações com o


Oriente, se, na verdade, isso eliminar o “Oriente” e o
“Ocidente” como um todo, teremos avançado um pouco
no processo daquilo que Raymond Williams chamou de
“desaprendizado” do “modo dominativo inerente.

Edward Said
INTRODUÇÃO

O trabalho A Presença Árabe na Literatura Brasileira: Jorge Amado e Milton

Hatoum trata do estudo das configurações árabes na literatura brasileira, elaboradas no

período do Modernismo do Nordeste, através de Jorge Amado, e em nossa

contemporaneidade, através da escrita amazonense de Milton Hatoum. Para tanto, elegemos

como textos privilegiados dessa pesquisa o romance Gabriela cravo e canela: crônica de

uma cidade do interior, elaborado em 1958 por Jorge Amado e o discurso ficcional de Milton

Hatoum, Dois irmãos, editado em 2000, isto é, publicado no alvorecer desse século. Essa

aproximação demonstra, por si só, não apenas a presença árabe em nossa literatura, como a

recorrência dessa temática em nosso corpus ficcional.

Não obstante as diferenças verificáveis entre Jorge Amado e Milton Hatoum, de

contexto histórico e literário, em particular às de convenções literárias, as duas obras,

separadas por quarenta e oito anos, se aproximam pelas similaridades de soluções estéticas

utilizadas por ambos os escritores.

Nessa compreensão, nos voltaremos para Jorge Amado e Milton Hatoum, numa leitura

dialógica que, longe das noções de fonte e influência, como defende Silviano Santiago (1982,

p. 13-25) busque observar as similaridades e diferenças nas representações do árabe no Brasil,

procedidas pelo escritor nordestino e pelo romancista do Norte, espaços geográficos

irmanados numa mesma região, até a segunda década do século XX.

Como caminhos interpretativos, procederemos, num primeiro momento, a leitura da

obra Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado, procurando observar, na história amorosa de

Nacib e Gabriela, as linhas responsáveis pela configuração da identidade árabe-brasileira do


sul da Bahia, tecida pela inter-relação entre os traços culturais da sertaneja nordestina, expulsa

do sertão pela seca, e pelos traços culturais do imigrante árabe, igualmente tangido de sua

terra pela necessidade, ou pelas guerras.

Guiados pelo mesmo propósito, nos voltaremos, num segundo momento, para a obra

Dois irmãos, atentos, sobretudo, aos procedimentos literários utilizados por Milton Hatoum

em sua configuração da identidade manauara, configurada pelos traços culturais dos

imigrantes árabes e pelos traços indígenas, num curioso convívio interétnico entre as gentes

árabes e as gentes autóctones brasileira.

Reconhecendo a fascinação despertada pelo estrangeiro em nossos literatos e que essa

fascinação instaurou um topoi em nossa literatura, apresentaremos, num terceiro momento, ou

parte conclusiva, nossas conclusões acerca das convergências e das diferenças entre as

narrativas estudadas, procurando situá-las não apenas dentro do contexto histórico dos seus

autores, mas principalmente no interior do nosso contexto escritural, em sua dinâmica de

incorporação, de rejeição ou de renovação da tradição. Não é demais lembrar que tanto a

sertaneja Gabriela quanto a índia Domingas descendem, literariamente, de nossos ancestrais

indígenas representados, em nosso Romantismo, como signos essenciais de brasilidade.

Nessa leitura intertextual das obras de Jorge Amado e Milton Hatoum, nos apoiaremos

num referencial teórico-metodológico, cujos autores, citados nesse texto dissertativo,

constituem nosso corpo teórico-chave. Assim, nos valeremos das contribuições teóricas de

Antonio Candido, no que diz respeito à compreensão do estético, da literatura brasileira como

um sistema; das reflexões de Silviano Santiago acerca da leitura comparada e das

especificidades do discurso latino-americano; dos estudos de Luiz Costa Lima sobre as

relações discursivas entre literatura, memória e história; e das idéias defendidas por Flora

Süssekind quando do estudo do naturalismo em suas manifestações na literatura brasileira,

além de outros referenciais chamados ao texto.


Em relação à compreensão do universo árabe no Ocidente, nos valeremos da

compreensão do intelectual palestino, Edward Said, como também dos Cursos, dos escritos,

produzidos e/ou veiculados pelo Instituto de Cultura Árabe – ICARABE/SP. Nessa conjunção

textual, procederemos nossa leitura dialógica entre Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge

Amado e Dois irmãos, de Milton Hatoum, com o objetivo de contribuirmos para os estudos

literários no Brasil, em especial das pesquisas que tratam das configurações árabes produzidas

entre nós.
CAPÍTULO I

A PRESENÇA ÁRABE NA LITERATURA BRASILEIRA

Se isso estimular um novo tipo de relações com o


Oriente, se, na verdade, isso eliminar o “Oriente” e o
“Ocidente” como um todo, teremos avançado um pouco
no processo daquilo que Raymond Williams chamou de
“desaprendizado” do “modo dominativo inerente.

Edward Said
– Poeta de Chiraz, teu verso
Tuas mágoas e as minhas diz.

Manuel Bandeira

Uma das verdades incontestes é de que os saberes da humanidade provêm de um

acúmulo gradativo, contínuo e permanente de conhecimentos para os quais contribuem os

mais diversos povos. Não obstante justa, a concepção de que os conhecimentos humanos

originam-se das mais diversas procedências é, no mundo ocidental, quando não silenciada,

narcisicamente deformada.

É o que ocorre com as configurações e com as representações das gentes árabes que,

desde as Cruzadas, especialmente em sua segunda etapa1, isto é, após o aniquilamento dos

povos pagãos ao redor da Europa, têm enfrentado uma campanha depreciativa, redutora de

sua cultura na qual se acentuam o caráter de irracionalidade, de luxúria, de crueldade e de

barbárie, notadamente na Europa Ocidental e, mais recentemente, entre os seus povos

transplantados, em especial entre os descendentes britânicos, que ocuparam uma vasta

extensão da América do Norte e nela fundaram os Estados Unidos da América (EUA),

desalojando e dizimando os índios que ocupavam essa parte americana.

1
Segundo Yuri e Vera Sanada, o aperfeiçoamento da doutrina da Guerra Justa ou Santa foi alcançado “por
monges do movimento denominado Reforma Cluniac, nos séculos X e XI. Eles concluíram que o desejo de
Cristo para a humanidade, corporificado pela Santa Igreja, podia avançar sob o domínio das sociedades cristãs, e
que a violência não era mais maligna, mas sim moralmente neutra. Se usada para aumentar o reino cristão, a
violência se tornava, em verdade, boa. Esta doutrina foi chamada de Guerra Santa. Agora podia-se matar e
pilhar, sob proteção divina. Mas os nobres cristãos puseram tanto entusiasmo nas doutrinas da Guerra Justa e
Guerra Santa, usadas para aniquilar os povos pagãos ao seu redor, como os Viquingues e Magiares, que logo se
viram sem inimigos próximos. Apenas os muçulmanos sobraram.” (SANADA, Yuri; SANADA, Vera. As
Cruzadas. In: Histórias e lendas do descobrimento: a história completa de como Cabral obteve o conhecimento
para chegar às Terras de Santa Cruz e outros descobrimentos de 2000 a.C. a 1500 d.C. Rio de Janeiro: Ediouro,
1999, p. 19-47)
Exemplificadora dessa campanha, continuadamente reatualizada e transplantada,

constitui a fala do escritor inglês, Ian McEwan. Reconhecido como um dos mais importantes

autores britânicos na atualidade, McEwan veio ao Brasil por ocasião do lançamento de sua

nova obra, Na praia, editada pela Companhia das Letras (2007). Entrevistado pela Revista

Época, o ficcionista inglês discorre sobre sua obra, cujo tema se volta para os

comportamentos sexuais, anteriores à revolução sexual, no Ocidente. Ao comentar o

comportamento amoroso de seus personagens centrais, um casal jovem numa lua de mel mal

sucedida, Ian McEwan sustentaria que essa dificuldade amorosa ocorreria, ainda hoje, na

Inglaterra, entre os imigrantes muçulmanos. Nessa constatação, acresceria ao caráter árabe

uma nova “qualidade”, a de reprimidos sexuais, enquanto vê, na violência louca dos

extremistas islâmicos, apenas a frustração sexual do Islamismo, de acordo com o texto abaixo:

Acho que seria possível, sim. Ela pode ocorrer hoje. Por exemplo, temos 2
milhões de muçulmanos na Inglaterra. Os meninos jamais se encontram
com as meninas antes do casamento. E eles não costumam ter namoradas,
nunca falam de sexo e a virgindade ainda é um tabu. Acho que a
frustração sexual é um dos grandes problemas do islamismo. E essa
pode ser uma das explicações da violência louca dos extremistas islâmicos.
Eles não passam de reprimidos sexuais. Tenho certeza de que muitos
deles sofrem na noite de núpcias.
(McEWAN, 2007, p. 120-121 – grifos nossos)

Marcado pela linearidade, pelo tom e pelos velhos interesses que abriga, o discurso de

hostilidade e de desclassificação do mundo árabe vem atravessando os séculos da

modernidade, chegando aos nossos dias em forma de uma violenta atualidade; seja ela verbal,

como atesta o discurso de Ian McEwan, seja ela propriamente bélica, como atestam a

ocupação do Afeganistão (2001) e a recentíssima invasão do Iraque (2003), e suas funestas

conseqüências, tais como a violência fratricida entre os muçulmanos, em especial entre os

xiitas e sunitas, no território iraquiano.


Capitaneada pelos Estados Unidos, em parceria íntima com a Inglaterra, já habituada às

investidas no mundo árabe; com os experientes conquistadores e colonizadores da América

Latina – Portugal e Espanha; com a Itália, terra de Cristóvão Colombo, defensor, em plena

modernidade, do projeto das Cruzadas (TODOROV, 1993, p. 10-11), essa nova agressão

contra os árabes é, ideologicamente, justificada através de um aparato discursivo,

pretensamente científico, chamado de Orientalismo, sobre o qual discorre, longa e

profundamente, o intelectual árabe, de origem palestina, Edward Said. Responsável por

conceituar o discurso hegemônico que se construiu em torno dos árabes, problematizando a

própria noção de orientalismo, criada pelo Ocidente, Edward Said em seu livro,

Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente (1990), ressalta o caráter etnocêntrico,

aliado à perspectiva eurocêntrica, que caracteriza o conjunto desses discursos, denominado

por ele de pensamento desumanizado, como se vê a seguir:

Essas atitudes orientalistas contemporâneas povoam a imprensa e a mente


popular. Os árabes, por exemplo, são vistos como libertinos montados em
camelos, terroristas, narigudos e venais cuja riqueza não-merecida é uma
afronta à verdadeira civilização. Há sempre nisso a presunção de que o
consumidor ocidental, embora pertença a uma minoria numérica, tem
direito a possuir ou a gastar (ou ambas as coisas) a maioria dos recursos
mundiais. Por quê? Porque ele, ao contrário do oriental, é um verdadeiro ser
humano. Não existe hoje um melhor exemplo do que Anwar Abdel Malek
chamou de ‘hegemonismo das minorias possuidoras’ e de antropocentrismo
aliado ao eurocentrismo: uma classe média branca ocidental que acredita ser
sua prerrogativa humana não apenas administrar o mundo não-branco, mas
também possuí-lo, apenas porque, por definição, ‘ele’ não é tão humano
quanto ‘nós’ somos. Não há um exemplo de pensamento desumanizado
mais puro que este.
(SAID, 1990, p. 117 – grifos nossos)

Esse pensamento atual atinge, notadamente, os muçulmanos, ou seja, os árabes

convertidos ao Islamismo, configurados, agora, como fanáticos, terroristas, reprimidos

sexuais; representados como loucos, conseqüentemente como perigo ao Ocidente. Criada por

Muhammad, em 570-632 EC, a religião do Islam, relativamente recente, é, hoje,


ironicamente, a religião que mais cresce no mundo, principalmente entre os ocidentais,

disputando a hegemonia espiritual no mundo com o Cristianismo, especialmente com Igreja

Católica2. Em face desse novo contexto que, pela ação, pelos personagens e pelos discursos,

reatualiza o passado, insurge-se a voz cáustica, desmistificadora e de um impressionante

domínio histórico, do homem latino-americano, no caso do índio Guaicaípuro Cuatemoc. 3

Cacique de uma nação indígena da América Central, Cautemoc se fez presente à

Conferência dos Chefes de Estado da União Européia, MERCOSUL e Caribe, ocorrida em

Madri, em maio de 2002, quando se processava, no mundo ocidental, a campanha pela

globalização na América Latina e Caribe, entendida, pelos povos americanos, como um

neocolonialismo na América Latina. Ao fazer uso da palavra, diante dos atônitos chefes de

Estados europeus, o cacique americano denuncia a violência da colonização na América

Ibérica, os saques de nossas riquezas, perpetrados pelos cristãos europeus, as guerras contra

os muçulmanos, enquanto procede a um explícito elogio a esses povos, salientando,

concomitantemente, a dívida econômica dos europeus para conosco e a dívida cultural para

com os mulçumanos:

Eu também posso reclamar pagamentos e juros. Consta no Arquivo das


Índias que somente entre os anos de 1503 e 1660 chegaram a São Lucas de
Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata
provenientes da América. Terá sido isso um saque? Não acredito porque
seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao Sétimo Mandamento! Teria
sido espoliação? Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos
de prata foram o primeiro de outros empréstimos amigáveis da América
destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir
a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a
devolução, mas indenização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese
menos ofensiva. Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o
início de um plano Marsthalltesuma, para garantir a reconstrução da
Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos,
criadores da álgebra, da poligamia, do banho diário e outras conquistas
da civilização.
(CUATEMOC, 2002, p. 16 – grifos nossos)

2
Ver O homem em busca de Deus, texto publicado, no Brasil, pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e
Tratados, de São Paulo.
3
Texto apresentado e discutido pela Profa. Wilma Martins de Mendonça, durante o Curso de Literatura
Brasileira, da Universidade Federal da Paraíba, no período de 2006.2.
Na verdade, além da álgebra, dos banhos diários, da tradução dos textos gregos, à época,

proibidos no Ocidente, a Europa deve, também, aos árabes, a arte da navegação. Aprimorando

os conhecimentos náuticos árabes, os europeus alcançam os quatros cantos do mundo,

chegando às terras americanas, até então completamente desconhecidas aos europeus, como

reconhece Américo Vespúcio, em seu texto epistolográfico, Mundus Novus, de 1550,

traduzido por Gian Battista Ramusio, conforme anota Riccardo Fontana:

Portanto, não sem razão o chamamos Mundo Novo, porque todos os antigos
não tinham dele nenhuma consciência e as coisas que foram por nós
descobertas ultrapassam a sua concepção. Eles pensaram que além da linha
equinocial, para o sul, não existia nada a não ser o mar amplíssimo e
algumas ilhas queimadas e estéreis. Chamaram-no mar Atlântico, e se
alguma vez reconheciam que aí estava um ponto da terra, afirmavam que
ela era estéril e que não podia ser habitada. A presente expedição refuta a
opinião deles e demonstra abertamente a todos que é falsa e distante de toda
a verdade.
(VESPÚCIO, apud FONTANA, 1994, p. 150)

Dessa sorte, os europeus ampliariam, assim, os seus horizontes visuais, políticos,

econômicos e culturais. Essa ampliação, contudo, que poderia favorecer um conhecimento

humano mais universal, serve, antes, para que o homem europeu, sob a forma de conquistador

e de colonizador, reproduza, em outras terras, seus conflitos, seus impasses sociais,

econômicos, políticos e religiosos, como também seus medos e os seus preconceitos, como

observa Silviano Santiago:

Mas em lugar de esse ampliar do horizonte visual operar um desequilíbrio


positivo e fecundo nos alicerces do homem e da sociedade que descobrem,
serve ele antes para que o desbravador reproduza – em outro lugar – os
conflitos e impasses político-sociais e econômicos da sua sociedade sob a
forma básica de ocupação. Exemplo concreto: o Novo Mundo serviu de
palco para onde deslocar o beco-sem-saída das guerras santas que se
desenrolavam na Europa.
(SANTIAGO, 1982, p. 13-14)
Na verdade, desde o aportamento da frota de Pedro Álvares Cabral, em nossas terras, a

presença árabe, mesmo em absência, se insinua em nosso país. Como fantasma europeu, o

árabe estará presente num dos primeiros testemunhos sobre o Brasil, redigidos in loco, por um

dos integrantes da expedição de Cabral: A Relação do Piloto Anônimo (1500). A

importância dessa Relação se deve, sobretudo, ao ineditismo ou ao seqüestro, como quer

Jaime Cortesão (1943, p. 25), da Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão oficial da esquadra

de Cabral. O desaparecimento, durante três séculos, do texto epistolar de Caminha, tornaria a

Relação do Piloto Anônimo, provavelmente também um escrivão de ofício, nas primeiras

impressões européias divulgadas sobre o Brasil, como atesta a sua publicação, em língua

italiana, no ano de 1507 (CORTESÃO, 1943, p. 26).

Súditos-marinheiros do Rei de Portugal, verdadeiros agentes do expansionismo lusitano,

o Piloto Anônimo e o escrivão oficial de Cabral, como os demais navegantes, descobrem e

tomam posse da terra brasileira, em nome de seu monarca. Ciosos da nova propriedade de seu

Rei, o Piloto Anônimo, assim como Caminha, perscruta os perigos, as possíveis dificuldades

que o seu Rei possa enfrentar na terra encontrada e, em seguida, apropriada, criando em

nossas terras a ética da propriedade, depois do primeiro e grande roubo, como assinala

Santiago.

O conquistador europeu usurpa e, ao camuflar este gesto com a noção de


propriedade, já aí institui como indispensável para o contrato social futuro a
noção de roubo e conseqüente e indispensável punição. A cadeia em suma.
A noção de propriedade só pode ser considerada como legítima e corrente
depois que o primeiro e grande roubo for feito. A redenção do aventureiro
estaria na imposição radical de um código de conduta (ou de justiça) que
seria válido para todos menos para ele.
(SANTIAGO, 1989, p. 196)

Temerosos de que os nossos nativos, claramente de feições orientais, fossem oriundos,

etnicamente, dos seus fantasmas semitas, em particular dos árabes e dos judeus, os missivistas

portugueses examinarão, com atencioso cuidado, os traços físicos e culturais dos nossos
indígenas, como antes observara Wilma Mendonça (2002, p. 79). Por um lado, Caminha

observará, redundantemente, a genitália índia masculina, identificando, na ausência da

circuncisão judaica, uma proximidade entre os homens brasileiros do século XVI e os

europeus, segundo anotações abaixo:

Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar


suas vergonhas [...] Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem
buscarem maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas;
e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas [...] Nenhum deles era
fanado, mas, todos assim como nós.
(CAMINHA, 1999, p. 34-41 – grifos nossos)

Por outro lado, o Piloto Anônimo, ao documentar a rota determinada pelo Reino lusitano

à armada de 1500, do extremo Ocidente ao Oriente, verificaria, na cultura alimentar indígena,

o único traço que aproximaria os nossos índios dos povos árabes. Das anotações do Piloto

Anônimo, resultaria a inserção da presença árabe, tanto no evento inaugural da conquista

européia em nosso solo, como também em um dos textos iniciais do nosso corpus escritural.

Dessa forma, não obstante constituir-se como uma das mais recentes ondas migratórias no

Brasil, os árabes desfrutariam de uma inusitada presença entre nós, desde os primeiros

escritos coloniais:

Das quais 12 naus ordenou que 10 fossem a Calecute e as outras duas para a
Arábia para irem a um lugar chamado Sofala [...] Aos 24 dias de abril, que
foi quarta-feira da oitava da páscoa houve a dita armada vista de terra [...] E
alguns dos nossos foram à terra donde estes homens são, que seria a três
milhas da costa do mar e compraram papagaios e uma raiz chamada
inhame, que é o pão que comem os árabes.
(PILOTO ANÔNIMO, 1999, p. 75 – grifos nossos)

Acirrando a similaridade entre árabes e indígenas, ligeiramente esboçada pelo Piloto

Anônimo, os portugueses veriam no índio brasileiro, então confundido com o homem árabe, a

própria feição semítica arábica. Ante a enorme resistência indígena à perda de sua terra e de
sua liberdade, os colonizadores recorriam, sistematicamente, ao termo alarve, isto é, aquele

que é árabe, para designar os nossos indígenas. Ao mesmo tempo em que expressam essa

similaridade, manifestam o desejo do extermínio dos nossos ancestrais ameríndios, obstáculos

à empresa lusitana, como se verifica nos discursos dos colonos portugueses Pero de

Magalhães Gandavo e Gabriel Soares de Sousa, ao se referirem aos Aimoré, indígenas que

povoavam as capitanias de Ilhéus, a de Porto Seguro e áreas circunvizinhas da Bahia:

Estes Aimorés são mais alvos e de maior estatura que os outros Índios da
terra, com língua dos quais não têm destes nenhuma semelhança, nem
parentesco. Vivem todos entre os matos como brutos, animais sem terem
povoações, nem casas em que se recolham [...] Estes alarves têm feito
muito dano nestas Capitanias depois que desceram a esta costa e mortos
alguns Portugueses e escravos, porque são muito bárbaros. [...] Até agora
não se pode achar nenhum remédio para destruir esta pérfida gente.
(GANDAVO, 1980, p. 140 – grifo nosso)

Deu nesta terra esta praga dos Aimorés de feição que não há aí já mais que
seis engenhos, e estes não fazem açúcar, nem há morador que ouse plantar
canas, porque em indo os escravos ou homens ao campo não escapam a
estes alarves, com medo dos quais foge a população de Ihéus para a Bahia,
e tem a terra quase despovoada.[...] e se senão busca algum remédio para
destruírem estes alarves, eles destruirão as fazendas da Bahia.
(SOUSA, 2000, p. 42-43 – grifos nossos)

Percorrendo o caminho narrativo do Piloto Anônimo, de Pero de Magalhães Gandavo e

de Gabriel Soares de Sousa, José de Anchieta também traria a presença árabe à sua catequese.

Sequioso da conversão indígena ao credo cristão e, ao mesmo tempo, receoso de uma

improvável, à época, inclinação ameríndia ao Islamismo, o jesuíta, em sua atividade religiosa,

busca, principalmente, preparar e incitar os nossos aborígines a brigar, sem que eles saibam a

razão (SANTIAGO, 1982, p. 14), contra os reformados e contra os árabes, estes últimos

representados por Muhammad, vulgarmente denominado de Maomé, entre os povos

ocidentais ou ocidentalizados.
Num tom distante da fraternidade entre os homens, máxima da religiosidade cristã,

marcado pela hostilidade e desumanização, para lembrar Edward Said, Anchieta procede a

uma configuração, cruel e demoníaca, do Profeta dos muçulmanos, conforme vemos expressa

nos “Diálogos dos Diabos, Satanás e Lúcifer, contra São Maurício, no adro da igreja”, ato II,

do texto dramático anchietano, Na vila de Vitória ou de S. Maurício, encenado em 22 de

setembro de 1595, na Vila de Vitória no Espírito Santo:

Satanás a Lúcifer, antes que tente a São Maurício:


Onde irás,
sem levar a Satanás,
teu fiel, servo contigo?
Tens outro melhor amigo?
Eu te dou Barrabás
E com Judas te maldigo.
Com Mafoma e com Lutero,
Com Calvino e Melantão,
Te cubra tal maldição
que te queimes, bem, o quero,
ardendo como tição.
(ANCHIETA, 1977, p. 289-290 – grifo nosso)

Nessa recorrência, a frequentação árabe em nossa literatura – sem destacarmos, ainda, o

importante papel da narrativa arábica, na formação da moderna ficção européia e,

consequentemente, na constituição e sedimentação da nossa – chegaria às letras poéticas do

Barroco, pelos versos satíricos do poeta brasileiro, Gregório de Matos.

Filho da nobreza luso-baiana, o berço fidalgo propicia a Gregório de Matos uma

esmerada formação acadêmica, de base européia. Em Coimbra, onde se tornara bacharel,

Gregório de Matos é agraciado com o título de doutor in utroque jure, num reconhecimento

que, aliado à sua origem, abre-lhe amplas possibilidades de uma carreira promissora, como

salienta Alfredo Bosi (BOSI, 1992, p. 99). O vendaval mercantil, da segunda metade do

século XVII, vem alterar-lhe, no entanto, o curso de sucessos.


Com a queda do preço do açúcar e com a perda da proteção real à sua pequena fidalguia

baiana – Portugal, a esse tempo, encontrava-se submisso, economicamente, aos ingleses –

Gregório dispara contra essa desordem, elegendo, como seus objetos de ataque, os velhos

alvos europeus: o árabe e o homem brasileiro. Nesse caminho, Gregório de Matos investe

contra o brasileiro em formação, ainda com uma boa dose do sangue indígena, reatualizando,

assim, em nossos primeiros versos, os discursos de Pero de Magalhães Gandavo, de Gabriel

Soares de Sousa e de José de Anchieta. Nessa poeticidade, o poeta baiano reporia, em

circulação, os preconceitos étnicos e religiosos, herdados dos europeus, conforme se lê nos

versos abaixo:

O certo é, pátria minha,


Que fostes terra de alarves,
E inda os ressábios vos duram
Desse tempo e dessa idade.
(MATOS, 1990, p. 83 – grifos nossos)

Que pregue um douto sermão


Um alarve, um asneirão,
E que esgrima em demasia,
Quem nunca já na Sofia
Soube dar um argumento:
Anjo Bento.
(MATOS, 1990, p. 31 – grifo nosso)

Como na lei de Mafoma


Não se argumenta, e se briga,
Ele, que não argumenta,
Tudo porfia.
(MATOS, 1990, p. 61-62 – grifo nosso)

Dessa forma, Gregório de Matos garantiria, em vários de seus poemas satíricos, a

presença árabe em nossa poesia que se iniciava. Elaborada, poeticamente, num estreito

amalgamento com os traços indígenas, ou melhor, confundida com o próprio rosto ameríndio,

a representação árabe/indígena de Gregório alteraria a nossa ascendência étnica. Com os olhos

guiados pelo etnocentrismo europeu, tematizaria o Brasil, como pátria de alarves, nos
considerando, cegamente, como descendentes do povo árabe, enquanto desclassifica, como

José de Anchieta, o Profeta e fundador da religião dos muçulmanos.

Com o surgimento do Arcadismo, o tom do nosso discurso poético se alteraria. Última

expressão da literatura clássica portuguesa no Brasil, o Arcadismo se processaria em meio à

circulação das idéias iluministas, das idéias escolásticas, das discussões antimonarquistas,

procedidas por setores do Iluminismo. Importando as teorias francesas e italianas, os árcades

brasileiros se preocupariam com os grandes temas vindos do Ocidente, compartilhando, com

o pensamento ilustrado, o ideal da paz, o elogio do saber e a condenação da violência, de

acordo com Fábio Lucas, estudioso do Arcadismo no Brasil (1998, p. 18).

Partidários do despotismo esclarecido, da simplicidade da linguagem e do racionalismo

filosófico, os neoclássicos do Brasil se ocupariam, tematicamente, com a virtude civil, a

melhoria do homem pela instrução, pela obediência às leis da natureza, como assinalam os

vários compêndios de literatura. Mais laicos, os nossos árcades se afastariam do verbalismo

barroco e do seu espírito, que se identificava com a glorificação da monarquia absoluta como

fato de origem divina; e, como que esmagado pelo sentimento da fé e do poder, favorecia na

literatura o senso agudo das tensões (CANDIDO; CASTELLO, 1988, p. 78). Assim se

distanciariam do conformismo barroco, ante os fundamentos da ordem social estabelecida,

como também da delimitação geográfica, ao qual estava circunscrita a poética barroca, como

observam Antonio Candido e José Aderaldo Castello, quando discorrem sobre a ação mais

ampla do Arcadismo:

A Academia dos Renascidos, fundada naquela cidade em 1759, já procura


superar o âmbito local e congregar escritores de todo o país, numa primeira
demonstração de solidariedade geral. Esta tendência aumentou difusamente
a partir de então, e por isso o legado dos árcades foi mais atuante que o dos
cultistas, o principal dos quais, Gregório de Matos, ficou esquecido nos seus
manuscritos inéditos até o século XIX.
(CANDIDO; CASTELLO, 1988, p. 84)
Numa escritura diferenciada da que lhe antecedeu, as representações árcades brasileiras,

apesar da roupagem mitológica e da identificação cultural com as metrópoles européias, se

voltariam para o cenário nacional, particularizando-o. Nessa particularização, se não elegem o

autóctone como herói ficcional, lhe garante o estatuto de objeto estético e de signo de

brasilidade em sua lírica e epopéia. Dessa forma, os árcades se afastam das representações

indígenas de Gregório de Matos, transformando suas manifestações literárias em

representações pré-românticas, como reconhece Walnice Nogueira Galvão, em diálogo com o

crítico Antonio Candido:

Volvendo os olhos para as representações pré-românticas do índio na


literatura brasileira, há que mencionar obrigatoriamente dois poemas épicos
setecentistas, O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, e o Caramuru (1781),
de Santa Rita Durão, cuja matéria indígena se expõe desde o título. Num
caso, o assunto é o arrasamento das reduções jesuíticas dos Sete Povos de
Missões; no outro, a colonização da Bahia através do oportuno conúbio
entre o pioneiro português e a princesa indígena. Mesmo assim os índios lá
estão mais como signo, como observou Antonio Candido, do que
propriamente como personagem literária. Ambos os poemas pretendem
defender outra causa que não a dos índios, o primeiro a causa da Ilustração
e da política portuguesa contra os catequizadores, ao modo arcádico, e o
segundo, da autoria de um padre, a causa da religião cristã contra a
Ilustração anticristã, ao modo clássico-barroco.
(GALVÃO, 1979, p. 384)

Nesse caminho, os árcades abririam seus textos à presença indígena, transfigurando-os

em gênese da vertente indianista em nossa literatura. Gênese, essa, que os românticos

brasileiros souberam muito bem aproveitar, em suas representações do índio como objeto

estético, herói literário e antepassado mítico-histórico (GALVÃO, 1979, p. 383).

Apesar da ausência da representação árabe nos textos do Arcadismo brasileiro,

encontramos, contudo, uma representação do Outro, totalmente diversa das formas lusitanas

no tratamento ao distinto de si. Desejosos da harmonia social e da felicidade na terra, os

nossos árcades defenderiam os métodos pacíficos para a resolução dos conflitos entre os
povos, como lavraria Cláudio Manoel da Costa, em sua poética. Em “Vila Rica”, o líder do

Arcadismo no Brasil descarta a violência na resolução das discórdias entre as nações,

elegendo a brandura como o caminho privilegiado para o exercício do poder e da interação

humana. Curiosamente, os versos de Cláudio Manoel da Costa retomam, pelo tom e pelo

conteúdo, o discurso de Japia-açu, cacique tupinambá do Maranhão, no século XVII.

Aliado dos franceses na luta contra os portugueses, Japia-açu manifestaria, ao

comandante da França, não somente a esperança de seu povo na brandura e na amabilidade

dos soldados franceses, notadamente de seus comandantes, enquanto explícita, numa atitude

preventiva, o modus político dos nossos indígenas. Nesse discurso, Japia-açu precede Cláudio

Manoel da Costa na recusa da violência e da aspereza no exercício do poder, como também

no elogio da brandura, tematizada como signo da sabedoria, conforme se observa na leitura

dos discursos do árcade e do índio brasileiro:

Convém que antes os meios da aspereza


Se tente todo o esforço da brandura.
Não é destro cultor o que procura
Decepar aquela árvore que pode
Sanar, cortando um ramo, se lhe acode
Com sábia mão a reparar o dano.
(COSTA, 1996, p. 390 – 420 – grifos nossos)

Te direi a esse propósito que quanto mais um homem é grande de nascença


e quanto maior autoridade tem sobre os outros, mais brando, obsequioso e
clemente deve ser. Pois os homens, especialmente os desta nação, mais
facilmente se levam pela brandura do que pela violência.
(JAPI-AÇU, apud D′ABBEVILLE, 1975, p. 61 – grifos nossos)

Com o advento do Romantismo, surgido nas últimas décadas do século XVIII, o

discurso literário ocidental passaria por uma revolução. Substituiria o racionalismo

neoclássico e estabeleceria, nas letras, o reino da emoção, da fantasia e da imaginação.

Compreendido como visão do mundo, ou como crítica da modernidade, isto é, da civilização


capitalista moderna, em nome de valores e ideais do passado (pré-capitalista, pré-moderno)

(LÖWY; SAYRE, 1995, p. 34), essa vertente literária se abriria à curiosidade do exótico, do

diferente, do longínquo; atenta a outros povos e a outras civilizações, como ressaltam Antonio

Candido e Aderaldo Castelo:

A curiosidade do romântico, alimentada pela insatisfação e também


indefinição, multiplica-se no tempo e no espaço. Ela pode ser largamente
enumerada, a partir do interesse pela cor, pelo exotismo que apresentam os
países estrangeiros ou as regiões longínquas, com outros povos e outras
civilizações. Para o europeu é a América ou o Oriente, para o brasileiro a
Europa, por exemplo, aspectos da paisagem romântica da Itália, o mistério
também do Oriente, sugestões retomadas à Bíblia, freqüentes em Castro
Alves que chegou mesmo a contaminar com tudo isso as impressões da
própria paisagem brasileira.
(CANDIDO; CASTELLO, 1988, p. 160)

No Brasil, os inícios do Romantismo seriam marcados pela busca de si mesmo.

Identificados com a recente nacionalidade, os românticos brasileiros, seja de forma mais

acentuada ou de modo mais sutil, empreendem uma jornada escritural em busca de nossas

feições culturais. Na atualização da temática do local e do próprio, da representação do índio

como objeto estético, herói literário e antepassado mítico-histórico, prenunciadas pelos

árcades, as nossas letras se dedicariam a traçar os variados tipos nacionais: o índio, o

bandeirante, o sertanejo, o matuto, o gaúcho, o cangaceiro, o malandro, o senhor, o escravo,

ao lado do universo feminino – urbano ou rural, de cujo mundo o Romantismo se ocupava.

Mesmo envolvidos nas configurações de nossas identidades, os românticos não se

desapercebiam do novo aparato literário, nem da nova temática européia. Assim, se não

vamos encontrar, restritamente, a presença árabe nesses textos, encontramos, porém, a

presença oriental, como se verifica em Castro Alves, em sua saudação às noites orientais

expressa no poema “A bainha do punhal”, do livro Os escravos (1972):


Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólman azul:
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Istambul.

Salve, serralhos severos


Como a barba dum Pachá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fieis de Alá!...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre quiosques!
Mulheres nuas do Harém!

Mas embalde a lua inclina


As loiras tranças p’ra o chão...
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afan...
Soam timbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Iran!...
(ALVES, 1972, p. 217-220)

Unindo-se, solidariamente, às escrituras dos românticos europeus, Castro Alves inclui,

em seus versos, a presença oriental, alusões e citações bíblicas, terminando por trazer a

presença semítica, tanto a ligada ao Islamismo quanto ao Judaísmo, à sua poética. No poeta

baiano, essa presença se fará de duas formas. Seja pelo discurso do próprio eu lírico, como no

caso de “A bainha do punhal”; seja pela voz do artista europeu, mais particularmente de

Victor Hugo e Edgar Sue, a quem incorpora em sua poesia.

Dispostos por Castro Alves em forma de epígrafes, os discursos de Les Orientale, de

Victor Hugo, e Canto dos filhos de Agar de Sue, antecedem os poemas, “A criança”

(ALVES, 1972, p. 75) e “Bandido negro” (ALVES, 1972, p. 83), ambos do livro Os escravos.
Dessa inclusão resulta, no texto do poeta, tanto a adequação das letras nacionais à moda

européia, quanto a presença do mundo oriental na escritura romântica brasileira.

Exemplo dessa adequação constitui o “Navio Negreiro”. Nesse poema, um dos mais

conhecidos de Castro Alves, o chamado poeta dos escravos ao tematizar a forçada travessia

dos africanos para o Brasil o faz em aproximação com o êxodo forçado de Agar e de seu filho

Ismael. Assim, configura, através de suas mulheres, os africanos seqüestrados para o trabalho

forçado em nossas terras, em analogia com a narrativa sagrada dos árabes.

São mulheres desgraçadas,


Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas
De longe...bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma – lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leito de pranto
Têm que dar para Ismael.
(ALVES, 1972, p. 180-181)

Em relação às manifestações literárias correspondentes ao período do Realismo, é

importante observar como o seu maior representante, Machado de Assis, se debruça, em sua

poesia e em sua prosa, sobre a figura árabe.

Em relação ao seu discurso poético, vamos encontrar além de a “Lira chinesa”, escrita

em 1870 (MACHADO, 1994, p. 53), o poema, “A cristã nova“ elaborada em 1875

(MACHADO, 1994, p. 110). Nesse último poema, o eu lírico tematiza a difícil aclimatação da

mulher palestina, e de sua descendência, às voltas com as restrições religiosas impostas pela

Inquisição, em nosso país, como se afere do texto de Machado de Assis:

Olhos fitos no céu, sentado à porta


O velho pai estava. Um luar frouxo
Vinha beijar-lhe a veneranda barba
Alva e longa, que o peito lhe cobria
..........................................................

Assim talvez nas solidões sombrias


Da velha Palestina
Um profeta no espírito volvera
As desgraças da pátria. Quão remota
Aquela de seus pais sagrada terra
Quão diferente desta em que há vivido
.........................................................

“Braço lhe ameaça a vida?” Cavernosa


Um voz lhe responde: “O santo ofício!”
(MACHADO, 1994, p. 110-123)

Quanto à prosa machadiana, mais precisamente em suas crônicas, vamos encontrar

várias referências ao mundo árabe, especialmente à poesia, à religião e ao declínio do Império

Otomano (1281-1923), visivelmente expressas nas manchetes ocidentais e transfiguradas em

signos literários. Revelando-se um profundo conhecedor da doutrina islâmica, Machado de

Assis ressalta-lhe a profunda unidade entre o poder político e o poder sagrado, lamenta e

critica o processo de ocidentalização do Oriente, terminando por associar o declínio do

Oriente à morte da poesia, como expressa, em crônica publicada no primeiro dia de julho de

1876:

Dou começo à crônica no momento em que o Oriente se esboroa e a poesia


parece expirar às mãos grossas do vulgacho. Pobre Oriente! Mísera poesia!
Um profeta surgiu em uma tribo árabe, fundou uma religião, e lançou as
bases de um império; império e religião têm uma só doutrina, uma só, mas
forte como o granito, implacável como a cimitarra, infalível como o
Alcorão. Passam os séculos, os homens, as repúblicas, as paixões; a história
faz-se por dia, folha a folha; as obras humanas alteram-se, corrompem-se,
modificam-se, transformam-se. Toda superfície civilizada da terra é um
vasto renascer de coisas e idéias. Só a idéia muçulmana estava de pé; a
política do Alcorão vivia com os paxás, o harém, a cimitarra e o resto [...]
Mas o que eu apuro de tudo o que nos vem pelo cabo submarino e vapores
transatlânticos é que o Oriente acabou e com ele a poesia.
(MACHADO, 1994, p. 335-336)

O período que se processa entre a última década do século XIX e a Semana de 22, fase

que corresponde às experiências pré-modernistas e a uma boa parte do período de apogeu da


entrada de imigrantes no país, verificada, segundo Lucia Lippi Oliveira, entre os anos de 1870

a 1930 (2002, p. 11), coincide, também, com a retomada da discussão, de forma mais

sistemática, acerca da brasilidade, como ilustram as publicações de Os sertões (1902), de

Euclides da Cunha; Canaã (1902), de Graça Aranha; Triste fim de Policarpo Quaresma

(1915), de Lima Barreto e de Urupês (1918), de Monteiro Lobato. Desse contexto cultural,

marcado pelos traços da mudança e da diversidade que caracterizariam o nosso Modernismo,

surgiriam também as primeiras obras significativas dos brasileiros filhos de imigrantes, a

exemplo das obras plásticas de Anita Malfatti, iniciada desde 1915, e as do pintor Victor

Brecheret, iniciada em 1919.

A partir do Modernismo, cujo marco inicial é, comumente, assinalado pelo evento da

Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), a presença do imigrante no Brasil se tornaria

mais visível e sistemática em nossos escritos literários. Movimento de ruptura estética, de

busca de novas formas de expressão, de redefinição do papel da literatura e do escritor, de

reinterpretação da cultura e do homem brasileiro (MENDONÇA, 2002, p. 20), os nossos

vários Modernismos se voltariam para esses brasileiros, alguns já atuantes em nosso espaço

artístico; outros recém-chegados, como se verifica, explicitamente, na narrativa de Menotti

Del Picchia, O estrangeiro (1926), publicada quatro anos após a ocorrência da Semana.

Exemplares da abertura modernista, à tematização do mundo oriental e à figura do

imigrante árabe, constituem a produção do poeta nordestino, Manuel Bandeira, e a elaboração

dos escritores de Minas Gerais, Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa.

Em relação a Manuel Bandeira, em ação escritural desde 1917, as presenças orientais e a

árabe, em particular, só se dariam a partir de 1936, se processando, para além das temáticas,

nas próprias formas poéticas utilizadas. Após publicar “Canção das duas Índias” (Estrela da

manhã, 1936), Bandeira escreverá “Haicai tirado de uma falsa lira de Gonzaga” e “Gazal em

louvor a Hafiz”, ambos do livro Lira dos cinquent’anos, publicada em 1940. Assim, inclui
em sua obra tanto a forma poética de origem japonesa, como o gazal, gênero lírico-amoroso

dos árabes.

Apropriando-se da forma dos gazais, Bandeira incorporaria à sua poesia uma das formas

poéticas mais importantes da literatura árabe: os gazais ou gazéis. Escritas no ano 800 da Era

Cristã, por Abbas de Marv, os gazais desfrutam do status de primeiras manifestações

conhecidas da literatura persa. Seria, pois, com o auxílio formal dos primeiros versos árabes

que Manuel Bandeira homenagearia e imortalizaria Hafiz, poeta persa do século XIV, autor

de poemas líricos, conhecido pelos versos harmoniosos, pela presença do amor, do vinho e da

natureza em seus poemas:

GAZAL EM LOUVOR DE HAFIZ


Escuta o gazal que fiz
Darling, em louvor de Hafiz:

– Poeta de Chiraz, teu verso


Tuas mágoas e as minhas diz.

Pois no mistério do mundo


Também me sinto infeliz.

Falaste: “Amarei constante


Aquela que não me quis.”

E as filhas de Samarcanda,
Cameleiros e sufis

Ainda repetem os cantos


Em que choras e sorris.

As bem-amadas ingratas,
São pó; tu, vives, Hafiz!
(BANDEIRA, 1976, p. 159 – grifos nossos)

Dirigindo-se a um Outro, curiosamente nomeado pelo vocábulo inglês, Darling,

Bandeira aponta para as afinidades líricas entre a sua poesia e a do poeta persa, reconhecendo,

nas mágoas que se desprendem dos versos Hafiz, os seus próprios desencantos. Nesse
caminho, em que forma e conteúdo se conjugam na aproximação entre a poesia brasileira e a

poética árabe, Bandeira se aproxima de Jorge Amado, enquanto se anteciparia a Milton

Hatoum, mais precisamente ao seu romance Dois irmãos (2000), publicado sessenta anos

após a Lira de Bandeira.

Encaminhando-se nessa tradição, Milton Hatoum se utilizaria dos gazais de Abbas como

elemento de mediação amorosa de seus personagens, Halim e Zana, casal árabe de origem

libanesa; ele muçulmano, ela cristã maronita. Atualizando a presença da poesia e do poeta

persa em nossa literatura, através de um artifício ficcional, Milton Hatoum transforma o poeta

Abbas e os seus gazais em signos árabes já aclimados ao solo de Manaus. Em Dois irmãos, o

poeta que elabora os gazais com os quais Halim conquista Zana já vive no Brasil e é, entre

nós, que se processa a sua bilíngüe produção poética. Assim, tanto Manuel Bandeira, em

meados do século passado, quanto Hatoum, no alvorecer do século atual, estabelecem um

diálogo entre a literatura brasileira e a literatura árabe, manifestando, então, a importância da

literatura árabe entre nós, como ilustra a voz narrativa em Milton Hatoum:

Quem indicou o restaurante ao jovem Halim foi um amigo que se dizia


poeta, um certo Abbas [...] Um dia Abbas viu o amigo na loja Rouaix [...]
Halim queria comprar um chapéu francês [...] Abbas se adiantou a madame
Rouaix, cutucou o amigo, saíram da loja [...] Halim desabafou, e Abbas
sugeriu que desse a Zana um gazal, não um chapéu [...] Abbas escreveu em
árabe um gazal com quinze dísticos, que ele mesmo traduziu para o
português. Halim leu e releu os versos rimados: lua com nua, amêndoa com
tenda, amada com almofada. Pôs a folha de papel num envelope e no dia
seguinte fingiu esquecê-lo na mesa do restaurante [...] na manhã daquele
sábado, Halim entrou cambaleando no Biblos [...] deu três passos na direção
de Zana, aprumou o corpo e começou a declamar os gazais, um por um, a
voz firme, grave e melodiosa, as mãos em gestos de enlevo [...] dois meses
depois voltou como esposo de Zana.
(HATOUM, 2000, p. 48-51)

Quanto a Carlos Drummond de Andrade, integrante do Modernismo Mineiro e em

atividade literária desde 1928, a freqüentação de personagens árabes se verificaria a partir de

1952. Atento, como Machado de Assis, ao que se passa no mundo, Carlos Drummond de
Andrade publica a crônica, “Sinais do tempo: reflexões sobre o fanatismo”, que integra seu

livro Passeios na Ilha (DRUMMOND, 1988, p. 1405-1406). Nesse texto, originado de um

período marcado pelas dissensões entre interesses do capitalismo ocidental e os interesses

árabes, o poeta de Itabira apreenderia a paisagem política mundial, através da apreensão dos

conflitos religiosos, conflitos muitas vezes mascaradores dos interesses políticos.

Nessa apreensão, Drummond retoma Voltaire, endossando-lhe a crítica ao Concílio de

Nicéia, marco inicial das guerras de religião, segundo os dois escritores. Assim, problematiza

a Fé e o Político, no contexto do segundo quartel do século passado, enquanto expressa a

estranha condição da sociedade moderna, desejosa de paz, mas arredia às diferenças e

profundamente bélica:

Não é fácil decidir se nossa época se caracteriza pelo excesso ou pela


míngua da crença Enquanto o século XVIII ficou marcado pelo
racionalismo filosófico e revolucionário, e o século XIX pelo cientificismo
e a idéia socialista, o período em que vivemos não logrou ainda definir-se
como um tempo ateu, místico e idealista, materialista, hedonista, surrealista,
infantil ou bárbaro [...] Ao definir em seu Dicionário Filosófico o conceito
de tolerância (“perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices; é a primeira lei
da natureza”.), Voltaire tinha em mente as guerras de religião, que desde o
primeiro concílio de Nicéia vinham ensangüentando o mundo. Hoje em dia
os concílios não têm mais poder para devorar o homem; mas os partidos,
certos partidos, têm [...] Aspiramos a uma terra pacífica, através da
crescente militarização dos espíritos, para já não falar na preparação bélica
total. Pretendemos o congraçamento humano, eliminando a divergência
política ou estética.
(DRUMMOND, 1988, p. 1405-1407)

Ao aproximar-se do fim do século, Drummond retomaria a tematização do mundo árabe,

de forma mais explícita e específica. Em seu poema, “Turcos”, do livro Boitempo (1968), o

poeta imortaliza a presença árabe entre nós, caminhando por uma ambigüidade poética que

ora problematiza a presença árabe (síria) na região mineira – A língua cifrada/ cria um

mundo-problema, em nosso mundo/ como um punhal cravado/ – ora se pergunta se os árabes

já não são mineiros de tanta convivência com as Minas Gerais. Nesse artifício poético,
Drummond terminaria por se aproximar da mesma perspectiva solidária em que o árabe

assimila o Brasil e o Brasil assimila o árabe. Assim, terminaria por configurá-lo como a

balança, o espelho, o perfume de Minas Gerais, num reconhecimento do entranhamento dos

traços arábicos na cultura mineira, conforme se verifica a seguir:

OS TURCOS nasceram para vender


bugigangas coloridas em canastras
ambulantes.
Têm bigodes pontudos, caras
de couro curtido,
braços tatuados de estrelas.
Se abrem a canastra, quem resiste
ao impulso de compra?
É barato! Barato! Compra logo!
Paga depois! Mas compra!

A cachaça, a geléia, o trescalante


fumo de rolo: para cada um
o seu prazer. Os turcos jogam cartas
com alarido. A língua cifrada
cria um mundo problema, em nosso mundo
como um punhal cravado.
Entendê-los, quem pode?
....................................................................

A turca, ei-la que atende


A fregueses sem pressa,
Dá de mamar, purinha, a seu turquinho
O seio mais que farto.
Jacó, talvez poeta
Sem verso e sem saber que existe verso
Altas horas exila-se
No alto da cidade, a detectar
No escuro céu por trás das serras
Incorpóreas Turquias. E se algum
Passante inesperado chega perto
Jacó não o conhece. Não é o mesmo
Jacó de todo dia em sua venda.
É o ser não mercantil, um elemento
Da noite perquirinte, sem fronteiras

Os turcos,
meu professor corrige: Os turcos
não são turcos. São sírios oprimidos
pelos turcos cruéis. Mas Jorge Turco
aí está respondendo pelo nome,
e turcos todos são, nesse retrato
tirado para sempre.... Ou são mineiros
de tanto conviver, vender, trocar e ser
em Minas: a balança
no balcão, e na canastra aberta
o espelho, o perfume, o bracelete, a seda,
a visão de Paris por uns poucos mil-réis?
(DRUMMOND, 1988, p. 604-606)

Como se pode observar, através dos exemplos anteriores, a tematização árabe em nossa

literatura ultrapassaria a fase dinâmica do Modernismo, compreendida pelo período que vai

de 1922 a 1945 (CANDIDO; CASTELLO, 1983, p. 7), persistindo nos meados do século XX e

nos anos que se aproximam do fim do século, nos mais variados modernismos, nas mais

variadas formas e nas mais diversas concepções literárias.

Em face do contexto atual, marcado pelas invasões e guerras no mundo árabe, pelos

mais diversos tipos de terrorismo, não é demais assinalar que, em seu poema “Elegia 1938”,

do livro Sentimento do mundo (1940), considerado como marco de reorientação de sua

estética, Drummond abriria sua poesia para os conflitos do mundo externo, confessando, nos

últimos versos, o desejo desesperado de implodir o centro financeiro dos Estados Unidos,

Manhattan, como se lê na última estrofe do poema:

Coração orgulhoso, tens pressa em confessar tua derrota


e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
Porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
(DRUMMOND, 1988, p. 73)

Numa ininterrupta continuidade, as gentes árabes voltariam à nossa narrativa com o

lançamento, em 1956, do romance de João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas.

Acolhido, entusiasticamente, pelos leitores e pela crítica brasileira, o livro de Guimarães Rosa

tematizaria a relação interétnica no Brasil, através de dois personagens imigrantes, um árabe e

um alemão.
Estudiosa de Guimarães Rosa, Walnice Nogueira Galvão é a primeira a observar, na

representação do imigrante, procedida pelas letras do romancista mineiro, a diferença de

tratamento dada ao imigrante árabe e ao imigrante alemão. Sem a perspectiva histórico-

literária assumida por esse trabalho, o artigo “Forasteiros” (1998, p. 15-28), de Walnice

Galvão, acentuaria essa diferença, embora não observe que a conduta literária, adotada por

Guimarães na representação árabe, se constitui numa tradição, iniciada desde os inícios do

Modernismo:

Um alemão e um turco aparecem inextricavelmente ligados em


Grande sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa [...] O turco de
Grande sertão: veredas se chama Seo Assis Wababa e o seu nome
próprio árabe Azis aparece assimilado ao sobrenome luso-brasileiro.
É o proprietário da venda O Primeiro Barateiro da Primavera de São
José, cidadão instalado na vida, comerciante de reputação e pai de
família numerosa. Riobaldo, assíduo conviva, aprende a apreciar as
comidas típicas [...] Contrastando com Seo Assis Wababa, de quem
Riobaldo é amigo e cuja casa freqüenta, há o alemão Vupes. Mascate
e portanto itinerante, é admirado por Riobaldo, que lhe realça as
qualidades de sensatez, bom humor, sangue frio, completadas pela
capacidade de procurar seu conforto [...] Essas são, em suma, as
relações de Riobaldo com os dois expatriados. Mais rica em
implicações para a narrativa é a oposição entre os dois homens de
negócios, o alemão e o turco. Enquanto este, como vimos, encarna a
estabilidade, a permanência, a respeitabilidade familiar, e sua casa se
abre para receber os nômades, o alemão, inversamente, está sempre
passando. Ele vem de fora [...] E será fora do horizonte tanto da
narrativa quanto do sertão que o Alemão Vupes vai-se sedentarizar,
ao instalar-se um dia como abastado comerciante “na capital”.
(GALVÃO, 1998, p. 15-19)

Se os modernistas de São Paulo, Graça Aranha (egresso do pré-modernismo) e Menotti

Del Picchia, inauguram a tematização do imigrante em nossas letras, seria no Movimento

Modernista do Nordeste, especialmente em Jorge Amado, que essa representação,

notadamente a árabe, se tornaria, sistêmica e assídua, como se observa da leitura de todos os

seus romances, notadamente configurados com a presença de personagens árabes, em especial


o protagonismo do sírio Nacib, personagem a quem dedicaremos nossos estudos, com a

finalidade de fundamentar nossas afirmações.


CAPÍTULO II

JORGE AMADO E A REPRESENTAÇÃO DO MUNDO ÁRABE

Os turcos descobriram a América, desembarcaram


no Brasil e se fizeram brasileiros dos melhores.

Jorge Amado
A FREQÜENTAÇÃO ÁRABE NOS ROMANCES DE JORGE AMADO

Os anos 30 foram de engajamento político, religioso e


social no campo da cultura [...] Os decênios de 1930 e
1940 assistiram à consolidação e difusão da poética
modernista, e também à produção madura de alguns de
seus próceres, como Manuel Bandeira e Mário de
Andrade.
Antonio Candido

Em seu texto, Menino de engenho: a memória das perdas, Heloísa Toller Gomes

procede a uma leitura do Modernismo brasileiro, em especial de suas duas vertentes mais

conhecidas e estudadas, a de São Paulo e a do Nordeste, buscando precisar as diferenças que

separam essas experimentações modernistas em nosso país:

Delinearam-se, naqueles anos, as duas vertentes principais do modernismo


literário brasileiro: a vertente do Sul, com seu nacionalismo irreverente e
sua escrita iconoclasta, geradora e herdeira da “Semana”; e o modernismo
regionalista do Nordeste, mas carrancudo e introspectivo, desconfiado do
humor desbragado da nova literatura paulista e menos explicitamente
ousado em termos formais. Esse segundo modernismo desdenhava a
“calçada das cidades inacessíveis”, optando pelo cenário das grandes
plantações e pelos ermos do agreste e da caatinga. Insistindo no meio físico
e antropo-social da seca, do brejo e do sertão, ele também procurou, à sua
maneira, sons, gostos e cheiros a partir dos quais modelar espaços,
personagens e dramas entranhadamente brasileiros. Surgiu, assim, o
chamado “romance de 30”.
(GOMES, 2003, p. 646)

Embora ainda marcado por um olhar hierarquizante, através do qual situa essas

tendências literárias numa ordem sucessiva, cabendo ao movimento de São Paulo o estatuto
de primeiro modernismo e ao do Nordeste o lugar de segundo, o texto de Heloísa Gomes se

constitui como uma espécie de inventário crítico do Modernismo brasileiro. Nele, a autora

assinalaria tanto as diferenças quanto as similaridades entre essas modalidades literárias.

Nesse caminho, chegaria à tese da complementaridade entre essas duas vertentes, vendo no

comum esforço de construção (e reconstrução) identitária, o eixo unificador dessas duas

tendências modernistas:

O sentido de brasilidade da produção literária nordestina, embora bem


diferente daquele exibido pelos modernistas de São Paulo e do Rio de
Janeiro, era também ambicioso em suas propostas estéticas, indo além da
manipulação do rico repertório imagístico e temático nacional – este, aliás,
já intensamente explorado desde o romantismo e agora coloridamente
reinaugurado na novidade das diversas nuanças modernistas. Na verdade,
complementavam-se as duas perspectivas, a do Sul e a do Nordeste, em
relação a um Brasil que, encaminhando-se de maneira incerta para uma
controvertida e avassaladora modernidade, necessariamente dramatizaria e
confrontaria, na cena literária de então, e das décadas subseqüentes, a
sofisticação e a miséria das metrópoles aos grandes sertões e às decadentes
casas-grandes, com sua “senzala dos tempos do cativeiro”.
(GOMES, 2003, p. 646)

Na verdade, o Modernismo do Nordeste, denominado também de Romance de Trinta ou

de Regionalismo Nordestino, operou uma ruptura de maior porte. Rompeu, como destaca

Antonio Candido, com a perspectiva mistificadora do Brasil, com a qual se tecia, em nossos

textos literários e culturais, de forma geral, as elaborações de brasilidade, atuante na escritura

nacional, desde o Romantismo. Ao se voltarem para a tematização do espaço nordestino, os

modernistas do Nordeste além de inaugurarem um novo olhar sobre o Brasil, dotam o

romance de uma força desmistificadora, como salienta Antonio Candido:

A consciência do subdesenvolvimento é posterior à Segunda Guerra


Mundial e se manifestou claramente a partir dos anos de 1950. Mas desde o
decênio de 1930 tinha havido mudança de orientação, sobretudo na ficção
regionalista, que pode ser tomada como termômetro, dada a sua
generalidade e persistência. Ela abandona, então, a amenidade e a
curiosidade, pressentindo ou percebendo o que havia de mascaramento no
encanto pitoresco, ou no cavalheirismo ornamental, com que antes se
abordava o homem rústico. Não é falso dizer que, sob esse aspecto, o
romance adquiriu uma força desmistificadora que precede a tomada de
consciência dos economistas e políticos.
(CANDIDO, 1987, p. 142)

Não obstante a atitude pessimista e desmistificadora em face das possibilidades

brasileiras, os modernistas nordestinos, a exemplo dos modernistas do Sul, também

retomariam a tradição romântica em suas apreensões de brasilidade, como aponta Antonio

Candido, ao analisar a importância do romântico Franklin Távora, primeiro romancista do

Nordeste, na formação da vertente nordestina do Modernismo:

O seu regionalismo parece fundar-se em três elementos, que ainda hoje


constituem, em proporções variáveis, a principal argamassa do regionalismo
literário do Nordeste. Primeiro o senso da terra, da paisagem que condiciona
tão estreitamente a vida de toda a região, marcando o ritmo da sua história
pela famosa ‘intercadência’ de Euclides da Cunha. Em seguida, o que se
poderia chamar patriotismo regional, orgulhoso das guerras holandesas, do
velho patriarcado açucareiro, das rebeldias nativistas. Finalmente, a
disposição polêmica de reivindicar a preeminência do Norte [...] Távora foi
o primeiro ‘romancista do Nordeste’, no sentido em que ainda hoje
entendemos a expressão; e deste modo abriu caminho a uma linhagem
ilustre, culminada pela geração de 1930.
(CANDIDO, 1981, p. 268 – grifos do autor)

Integrante do Modernismo do Nordeste, movimento oficialmente iniciado por José

Américo de Almeida, em 1928, com a publicação de A bagaceira, Jorge Amado, como a

maioria de seus pares, traria à sua obra, o senso da terra e da paisagem nordestina, o

sentimento de patriotismo regional, o desejo de exprimir a preeminência do Nordeste, como

se refere Antonio Candido, ao voltar-se para as linhas do pensamento de Távora, retomadas

desde 1921, com a publicação de Senhora de engenho: romance, do pernambucano Mário

Sette.

Surgida na década de 30, com a publicação de O país do carnaval (1931), a obra de

Jorge Amado, pela importância e pela freqüentação da presença árabe, representa uma curiosa
especificidade, tanto no conjunto de obras elaboradas pelos romancistas modernistas do

Nordeste, como também no universo de nossa própria literatura, como comprova o dicionário

biográfico das personagens de Jorge Amado, Criaturas de Jorge Amado (1985), elaborado

por Paulo Tavares.

Procurando, confessadamente, seguir o exemplo de Fernand Lotte, responsável pela

identificação e relação dos personagens anônimos da Comédia Humana, de Honoré de

Balzac, Paulo Tavares relaciona todas as personagens, reais ou imaginárias, das narrativas de

Jorge Amado, se voltando, ainda, para a discussão dos títulos das obras amadianas, como

afirma a seguir:

Seguindo o exemplo de Fernand Lotte, que relacionou os personagens


anônimos da Comédie Humaine – publicado em suplemento ao seu
Dicionnaire, quatro anos mais tarde – organizou-se também idêntico
repertório de personagens sem nome encontrados nas páginas do romancista
patrício. Tal relação, em separado, acompanha a lista alfabética dos
nominativos, complementando o recenseamento das criaturas de Jorge
Amado. Mas a pesquisa não se ateve somente às criaturas – prossegui na
garimpagem através do rico manancial que são os vinte e sete títulos de
ficção de Jorge Amado e deles recolheu as informações agrupadas nos três
apêndices anexados a este trabalho.
(TAVARES, 1985, não paginado)

Pioneiro em nosso mundo editorial, o recenseamento das criaturas de Jorge Amado,

procedido por Paulo Tavares, terminaria por nos apresentar uma variedade de perfis árabes no

universo narrativo amadiano que, mesmo confirmando as nossas leituras, nos surpreenderia

pela explícita assiduidade e pela diversidade que emolduram os perfis árabes, na obra do

escritor baiano.

Mais tarde, num outro caminho, o romancista, contista e poeta Jorge Medauar,

objetivando a identificação das marcas árabes nas várias culturas do mundo, ratificaria a

pesquisa precedida por Paulo Tavares. Em seu artigo, “Introdução: aspectos gerais da cultura

árabe”, publicado originalmente pela Revista de Estudos Árabes – DLO-FFLCHUSP, em


1993, Medauar veria, com naturalidade, a ostensiva presença árabe nos textos de Amado,

resultante, segundo ele, do caráter popular da obra de Jorge Amado, como se apreende nessa

passagem do seu discurso:

É mais do que natural que um escritor, com raízes tão populares quanto
Jorge Amado, traga, no bojo de sua tão extensa obra, a presença marcante
dessa influência não apenas na língua, seu preponderante instrumento de
expressão, como nos personagens árabes ou de origem árabe que se
misturam.
(MEDAUAR, 1993, não paginado)

Em relação à influência do popular na obra de Jorge Amado, traço importantíssimo às

elaborações românticas, sua presença seria reconhecida pelo próprio autor baiano, em

entrevista a Eduardo de Assis Duarte, em dezembro de 1988, na qual também se refere ao

contexto de atraso e de injustiça social no qual o Brasil estava inserido:

Na minha primeira juventude, minha quase meninice, quando comecei a


trabalhar na imprensa e a ter contato com outros jovens ‘subliteratos
retados’, nós vivíamos intensamente a vida popular baiana e nos
revoltávamos contra as condições existentes de atraso e injustiça social, mas
de uma forma muito vaga. Não havia nenhuma idéia mais precisa de ordem
revolucionária, era uma rebeldia natural da juventude e muito literária, no
sentido de fora da realidade.
(AMADO, apud DUARTE, 1995, p. 339 – grifos nossos)

Na verdade, nascido em 1912, período do grande boom do cacau, que se iniciara na

virada do século XIX, Jorge Amado assistiria à chegada dos imigrantes árabes,

testemunhando seus esforços e suas estratégias de acomodação e sobrevivência na nova terra.

Convivendo com os árabes desde a sua infância, o escritor baiano alimenta as suas narrativas

com as lembranças dessa convivência amigável e duradoura, tornando-os importantes e

significativos personagens de suas obras, como testemunha o poeta Jorge Medauar:


Quem poderá dizer que Jorge Amado não conviveu, no Vesúvio, na cidade
de Ilhéus, com Nacib e Gabriela, por exemplo, já que a casa do grande
romancista (hoje Fundação Cultural de Ilhéus) era vizinha daquele bar? Os
Nazal, Medauar, Maron, Daneu, Chalub, eram famílias de Ilhéus, portanto
pessoas de seu convívio. Daí a matéria prima. O retrato. A matriz.

(MEDAUAR, 1993, não paginado)

Elemento recorrente na obra do escritor nordestino, a presença árabe encontra-se desde

as suas primeiras narrativas, O país do carnaval, de 1931; Cacau, de 1933 e Suor, de 1934.

Primeiras manifestações da escrita amadiana, esses primeiros textos seriam denominados,

pelo próprio Jorge Amado, como cadernos de aprendiz de romancista, segundo afirma Assis

Eduardo Duarte, estudioso da obra amadiana:

Jorge Amado costuma demarcar o início efetivo de sua obra romanesca a


partir da publicação de Jubiabá em 1935. Os livros anteriores, País do
Carnaval (1931), Cacau (1933) e Suor (1934), considera-os como
experiência da juventude, simples ‘cadernos de aprendiz de romancista’,
opinião de resto semelhante à boa parte da crítica.
(DUARTE, 1995, p. 45)

Desses cadernos de aprendizagem romanesca, vítimas de desqualificação crítica do

próprio autor, se iniciaria um modelo narrativo, marcado, acintosamente, pela presença árabe,

em íntimo contato e solidariedade com o mundo brasileiro. Ironicamente, essas obras,

responsáveis por um modelo narrativo incomum, tanto no conjunto de obras do Modernismo

do Nordeste, quanto no acervo dos modernistas de São Paulo, seriam descartadas por Jorge

Amado, apesar de desenharem, originalmente, as feições-mestras da maioria dos personagens

de Jorge Amado, como se confere abaixo:

(Dona Maria era uma árabe muito magra que alugava todo o sótão e
realugava os quartos. “Ganhava fortuna...” cochichavam pelos cantos os
inquilinos) [...] Tão pequeno aquele sótão... E morava tanta gente nele! Na
sala da frente D. Maria, a árabe, com dois filhos pequenos, chorões e sujos
que punham o sótão e a escada em polvorosa com as suas brincadeiras [...]
No quarto defronte morava outra árabe, que tinha um nome complicado que
se reduzira a Fifi. D. Fifi, mãe de um filho malandrão, já homem (seus
dezessete anos), que só vinha em casa buscar dinheiro para a farra. Vivia no
meio de moleques da pior espécie, a calotear mulheres nojentas da Ladeira
do Tabuão. Quando dormia em casa vez por outra, ficava nu no mesmo
quarto com a mãe que, deitada [...] não cansava de reclamar o seu modo de
vida. Ele a xingava muito em árabe. Às vezes, escapava alguma palavra em
português que as vizinhas atentas percebiam.
(AMADO, 1979 1, p. 70-71)

A casa acordava aos poucos. Na pia do sótão lavavam os rostos. A venda de


Fernandes abria as portas, homens apareciam no pé da escada. Toufik
juntou-se à negra: – Bom dia, sinhá Maria. – Bom dia meu branco. – Não
vai descer? Ela esticou o dedo apontando o embrulho de papel de jornal.
Toufik assobiou. – Um feitiço, puxa! Pra quem será? O árabe também
acreditava. E quem não era dominado pela religião bárbara dos negros?
(AMADO, 1980, p. 69)

Inaugurando, no Modernismo do Nordeste, uma recorrência que chegaria à literatura de

nossos dias, como comprova a obra de Milton Hatoum, Jorge Amado inunda suas narrativas

de criaturas árabes, tematizando, dessa forma, a nossa própria constituição cultural, que se vai

configurando pelas tintas da mestiçagem, da interação cultural.

Nesse patriotismo regional, como classifica Antonio Candido, Jorge Amado cria um

mundo ficcional habitado pelos imigrantes árabes, tornados, em suas ficções, elementos de

nossa própria identidade cultural, numa configuração de suas personagens árabes, como

membros do corpo brasileiro, posto que íntima e indissoluvelmente entranhadas ao Brasil.

Nesse entranhamento, circulam na obra de Amado, apesar do sotaque árabe, os mais

variados tipos nacionais, do malandro ao capitão da areia, atendendo ora por nomeações

brasileiras, como é o caso de Dona Maria e de Dona Fifi, personagens árabes femininas d’O

país do carnaval, primeiro romance amadiano, ora por nomes e sobrenomes árabes, como é o

caso do próprio Nacib que, representado, ao longo da narrativa, continuadamente como bom

brasileiro, se manifesta, em momentos de emoção, na língua árabe:


E por mais espantoso que pareça, naqueles dias vibrantes do comício, no
maior deles, quando dr. Ezequiel bateu todos os recordes anteriores de
cachaça e inspiração, Nacib pronunciou um discurso. Deu-lhe uma coisa
por dentro, depois de ouvir Ezequiel. Não agüentou, pediu a palavra. Foi
um sucesso sem precedentes sobretudo porque, tendo começado em
português e faltando-lhe as palavras bonitas, pescadas dificilmente na
memória, ele terminou em árabe, num rolar de vocábulos sucedendo-se em
impressionante rapidez. Os aplausos não findavam. – Foi o discurso mais
sincero e mais inspirado de toda a campanha – classificou João Fulgêncio.
(AMADO, 1979 1, p. 327)

Nessa transfiguração do imigrante em tipo nacional, Jorge Amado consegue não apenas

naturalizá-lo, mas inseri-lo em todas as esferas da vida brasileira, sejam elas públicas ou

privadas. Nesse intento, desfilam pela obra de Jorge Amado o brasileiro-árabe mascate, o

comerciante, seja proprietário de bares (como Nacib) seja proprietário de loja de calçados ou

de outros tipos de comércio; o fazendeiro, o vagabundo, o contrabandista, o intelectual, o

poeta, o alfaiate, a prostituta, a dançarina, o revolucionário, o estudante, o cirurgião-dentista,

o advogado, o menor abandonado, o conquistador da terra baiana, em meio aos diversos tipos

étnicos que formam o nosso mosaico cultural, como já percebera Jorge Medauar ao se voltar

para a movimentação árabe no tecido romanesco de Jorge Amado:

Movimentando-se entre negros, crioulos, espanhóis ou portugueses criados


para viverem o drama, a tragédia ou o amor que palpita nos romances desse
autor que é o mais expressivo escritor da ‘nação grapiúna’ definida por
Adonias Filho, outra não menos significativa expressão daquela
‘civilização’ tão particular.
(MEDAUAR, 1993, não paginado)

Na realidade, ao privilegiar a presença árabe, em meio à sua construção identitária do

sul da Bahia, Jorge Amado inauguraria um caminho estético, marcado pela ausência de

estranhamento e por uma perspectiva de mão dupla, que ora realça o agudo sentimento árabe

de pertencimento à nossa terra, com a correspondente e efusiva aprovação das personagens

brasileiras, o que só é possível graças ao apagamento das diferenças e ao realce das

similaridades culturais entre nós e os árabes; ora o caminho em que, numa estratégia
claramente mais complementar, tanto o árabe quanto o brasileiro reconstroem, solidariamente,

o espaço nacional, como se verifica, hoje, em Milton Hatoum.

Nesse itinerário narrativo, Jorge Amado tematiza o abrasileiramento árabe no interior da

Bahia, enquanto põe e repõe em circulação um assimilacionismo de correspondência, o

mesmo do qual se nutririam Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de

Andrade, mais ambiguamente, e Milton Hatoum, no século atual.

Ignorada e ocultada, ainda hoje, pelas mais variadas perspectivas acadêmicas que, ao

renegarem a perspectiva do Naturalismo adotada por Jorge Amado, e por outros importantes

autores de nossa literatura, condenam a obra do autor baiano a uma quase esterilidade crítica,

ou a uma leitura de depreciação, a significativa contribuição estética do escritor grapiúna é,

geralmente, encoberta por essas interpretações que a rebaixam à categoria de expressão

menor, como exemplifica as observações críticas de Alfredo Bosi:

Cronista de tensão mínima, [Jorge Amado] soube esboçar largos painéis


coloridos e facilmente comunicáveis que lhe franqueariam um grande e
nunca desmentido êxito junto ao público. Ao leitor curioso e glutão a sua
obra tem dado de tudo um pouco; pieguice e volúpia em vez de paixão,
estereótipos em vez de trato orgânico dos conflitos sociais, pitoresco em vez
de captação estética do meio, tipos ‘folclóricos’ em vez de pessoas,
descuido formal a pretexto de oralidade... [...] O populismo literário deu
uma mistura de equívocos, e o maior deles será por certo o de passar por
arte revolucionária.
(BOSI, 1980, p. 456-457)

Considerando Jorge Amado como cronista de tensão mínima e a sua obra como uma

mistura de equívocos, Alfredo Bosi procede a uma dura crítica às narrativas amadianas.

Assim, ressalta como caracteres dos romances amadianos o descuido formal, a orientação

populista, a pieguice e a velha perspectiva pitoresca, comum às nossas primeiras elaborações

identitárias. Nessa visão, procede a uma classificação, ou mais precisamente a uma

desclassificação, das narrativas de Jorge Amado:


Na sua obra podem-se distinguir: a) um primeiro momento de águas-fortes
da vida baiana, rural e citadina (Cacau, Suor) que lhe deram a fórmula do
“romance proletário”; b) depoimentos líricos, isto é, sentimentais,
espraiados em torno de rixas e amores marinheiros (Jubiabá, Mar Morto,
Capitães da Areia); c) um grupo de escritos de pregação partidária (O
Cavaleiro da Esperança, O Mundo da Paz); d) alguns grandes afrescos
da região do cacau, certamente suas invenções mais felizes, que animam de
tom épico as lutas entre coronéis e exportadores (Terras do Sem-Fim, São
Jorge dos Ilhéus); e) mais recentemente, crônicas amaneiradas de costumes
provincianos (Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois
Maridos) [...] Na última fase abandonam-se os esquemas de literatura
ideológica que nortearam os romances de 30 e 40; e tudo se dissolve no
pitoresco, no “saboroso”, no “gorduroso”, no apimentado do regional.
(BOSI, 1980, p. 457)

Longe de se constituir como uma visão particular e isolada, a leitura de Alfredo Bosi é

paradigmática da recepção acadêmica à obra de Jorge Amado, como demonstram as

observações da ensaísta Walnice Nogueira Galvão e as de Tânia Pellegrini, professoras de

Literatura de importantes centros acadêmicos. Nessas observações, abaixo descritas, essas duas

intérpretes assinalam, à maneira de Bosi, a ausência do trabalho e do rigor formal na obra

amadiana, enquanto apontam a perspectiva mercadológica como norteadora da produção do

escritor baiano:

Quanto nós, entra ano sai ano, aguarda-nos mais um romance de Jorge
Amado, reiterando seu amaneiramento, apenas aguçando seus instrumentos
para pior. Os livros são cada vez mais volumosos, o que lhes aumenta o
preço e a decorrente quantia para o autor sobre o total da venda. Há, cada
vez mais, trechos obviamente repetidos; percebe-se que são três ou quatro
versões de um mesmo episódio [...] Cada vez mais, há menor elaboração
artística [...] A bandeira progressista de Jorge Amado é o populismo.
(GALVÃO, 1976, p. 15-16)

Tomando o conjunto da obra de Jorge Amado, o que na verdade se percebe


é uma acentuação gradativa daquilo que era apontado como fragilidade ou
deslize, na mesma proporção em que se dilui seu traço de força maior, a
saber, a fusão harmoniosa entre documento e poesia, espécie de chave de
sua fórmula estética, nos primeiros romances. O que prevaleceu parece ter
sido o “mínimo de literatura” como compromisso estético, enquanto o
“máximo de honestidade”, como compromisso ético, foi aos poucos
adquirindo conotações mais ligadas à lógica da mercadoria.
(PELLEGRINI, 1999, p. 128)
Leitor atento de Jorge Amado, Paulo Bezerra, estudioso e tradutor da literatura e da

teoria russa entre nós, se contrapõe, com indignação, a essa corrente do pensamento crítico-

acadêmico, reconhecendo-a como absurda, responsável por uma lacuna injustificável em

nossas interpretações do acervo literário nacional, segundo denuncia em seu prefácio à obra

de Eduardo Assis Duarte, Jorge Amado: romance em tempo de utopia, publicada em 1995:

Entre os absurdos que a universidade brasileira comete, há um que


certamente chega ao paroxismo: a ausência de estudos sistemáticos e
abrangentes sobre a obra de Jorge Amado, o nosso escritor mais lido dentro
e fora do país. Essa lacuna, injustificável sob qualquer motivo, deve-se a
vários fatores, um dos quais ligado ao falacioso argumento de que a obra do
romancista baiano seria de baixa qualidade estética, o que a tornaria
desmerecida de integrar o Olimpo das obras pesquisáveis. Daí a ausência ou
o número ridiculamente irrisório de teses sobre Jorge Amado nas nossas
universidades.
(BEZERRA, 1995, não paginado)

Nesse entendimento. Paulo Bezerra afirma que essa posição teórico-acadêmica seria

decorrente do preconceito estético, em face da convenção estética adotada por Amado,

mascarador, por sua vez, do preconceito ideológico, que vitima, freqüentemente, a obra

amadiana. Em sua interpretação da recepção crítica a Jorge Amado, acusaria também o

despreparo teórico dessa postura crítica que a incapacitaria, segundo Bezerra, à compreensão

das convenções que sedimentam o projeto amadiano:

Por sua vez, a crítica da obra amadiana tem-se caracterizado, com raras
exceções, pela falta de abrangência e profundidade, por um preconceito
estético que freqüentemente mascara o preconceito ideológico e,
principalmente, pelo despreparo teórico para compreender o real significado
da obra, além do desconhecimento das matrizes populares que a alimentam.
Em vista disso, mantém-se quase sempre alheia à natureza do projeto
amadiano, passando à margem ou simplesmente ignorando as convenções
de que o autor lançou mão para concretizá-lo.
(BEZERRA, 1995, não paginado)
De forma similar, Eduardo de Assis Duarte se debruçaria sobre a questão da recepção

crítica a Jorge Amado. Numa clara demonstração de confluência entre a sua perspectiva e a

do prefaciador de sua obra, Assis Duarte acentuaria na “Apresentação” de sua obra o

alheamento crítico em face da natureza do projeto amadiano e das convenções adotadas pelo

autor baiano para concretizá-lo. Esse alheamento, somado a uma perspectiva critica que

privilegia os parâmetros estéticos do modernismo, seria, segundo Assis Duarte e Paulo

Bezerra, a razão da reserva crítico-acadêmica e da incompreensão do discurso romanesco de

Jorge Amado:

A crítica brasileira, salvo raras exceções, poucas vezes dedicou-se a uma


leitura do romance amadiano que levasse em conta a natureza de seu projeto
ou as convenções adotadas para a sua concretização. Marcada pelas balizas
estéticas do modernismo, dedicou-se em grande parte ora uma crítica dos
defeitos, ora a uma crítica das belezas, para ficarmos com as expressões de
Agripino Grieco. No primeiro caso, buscando ressaltar tão somente as
fragilidades, no segundo, apenas os méritos e, em ambos, não conseguindo
uma compreensão mais profunda e global desses escritos.
(DUARTE, 1995, p. 37 – grifos do autor)

Nesse caminho interpretativo, Assis Duarte procederia a uma leitura dos textos críticos

acerca de Amado, em especial dos ensaios de Álvaro Lins, depreciador da obra amadiana, e

do texto de Roger Bastide que, levando em conta a convenção naturalista de Jorge Amado,

acentua a inovadora contribuição efetuada pelo escritor nordestino, na transformação dessa

herança estética entre nós. A partir dessa leitura de revisão, Eduardo Duarte se voltaria para o

projeto amadiano e dos recursos utilizados para a sua concretização. Em sua apreciação do

projeto amadiano, problematizaria, novamente, as pesquisas elaboradas acerca do conjunto da

obra de Jorge Amado:

Tal projeto tem como premissa básica a ampliação do horizonte recepcional


da obra. ‘Escrever para o povo’ constitui-se como meta primordial e ponto
de partida para a adoção de uma linguagem marcada pela oralidade, com o
uso do coloquial configurando-se grande traço distintivo da expressão
amadiana. No plano do enredo, essa busca do popular leva à absorção dos
esquemas de aventura e heroísmo amplamente disseminados, seja no cordel
ou no romance de folhetim, seja no melodrama, na novela radiofônica ou no
cinema popular da época. Ao lado disso, há um inconfundível acento
emotivo, de origem melodramática, perpassando os enredos. Ao invés de
pesquisar o porquê desses recursos, alguns críticos preferiram o caminho
mais cômodo de apontar a ‘pieguice’ ou o ‘romantismo’ de determinadas
soluções, pouco contribuindo para o entendimento da questão.
(DUARTE, 1995, p. 39)

Mais recentemente, Lúcia Lippi Oliveira (2002), numa leitura orientada pelo recorte

étnico-identitário, se aproximaria das perspectivas de Eduardo de Assis Duarte e de Paulo

Bezerra. Ao se deter sobre Jorge Amado, especialmente sobre as suas representações das

gentes baianas, reconhece a importância de Jorge Amado, tanto como romancista, quanto

como intelectual. Observando a constituição do povo baiano, na qual se verifica a ostensiva

presença de negros e mestiços, e os preconceitos que, historicamente, cercam essas

populações, Lúcia Lippi veria a obra amadiana como signos literários responsáveis pela

redefinição e pela reinterpretação dos traços culturais baianos, ao mesmo tempo em que

assinala a ruptura amadiana com as idéias que alimentaram a escola Baiana de Medicina,

especialmente com a visão de Nina Rodrigues:

Não por acaso é na Bahia, profundamente impregnada de preconceitos


raciais, que se desenvolve a Escola Baiana de Medicina, com Nina
Rodrigues à frente, absorvendo da Europa a ciência racialista que classifica
os povos a partir de traços raciais! É também na Bahia, pela obra de Jorge
Amado, que se reconstrói nova versão da mistura das três raças originais e
se produz a imagem do paraíso racial. Os personagens de seus romances, na
maioria figuras populares, mestiças, falam da alegria, da sensualidade, da
sexualidade, do sincretismo religioso. Jorge Amado, entre outros, pode ser
tomado como romancista, como intelectual, que produziu uma mudança de
sinal interpretação dos traços da cultura baiana.
(OLIVEIRA, 2002, p. 44)

Escritor engajado, atento às vicissitudes de seu tempo, Jorge Amado entranha, à sua

tessitura narrativa, as suas perspectivas e anseios políticos. Nesse entranhamento, nos legaria
um conjunto textual no qual se pode aferir, simultaneamente, as suas opções estéticas e as

suas reivindicações políticas, num comportamento pouco raro entre os nossos literatos, como

assinala Eduardo de Assis Duarte ao se voltar para o contexto escritural brasileiro, dos fins do

século dezenove e inícios do século vinte:

No Brasil, em cuja história a literatura e a política andaram quase sempre de


mãos dadas, este é o momento em que muitos escritores começaram a
querer dar as mãos aos operários. A onda de agitações e greves do período
1917-1920, encabeçada pelos anarquistas e anarco-sindicalistas, funciona
como reflexo, embora longínquo, dos acontecimentos russos, e dá
oportunidades a intervenções como as de Lima Barreto [...] Avançando um
pouco o retrospecto histórico, pode-se notar que o ano de 1922 enseja três
acontecimentos de importância decisiva na carreira de Jorge Amado: a
Semana de Arte Moderna, o levante do Forte de Copacabana e a fundação
do PCB [...] No caso específico de Jorge Amado, modernismo, tenentismo e
comunismo funcionarão como referenciais muito precisos numa trajetória
em que política e literatura vão caminhar lado a lado.
(DUARTE, 1995, p. 22-23)

Na verdade, não obstante as diversidades, de objetivos e de organização textual,

verificadas entre o discurso literário e o discurso científico da sociedade, essas modalidades

discursivas apresentam um contínuo diálogo que acirra o debate sobre o contraponto entre o

discurso artístico e o discurso sociológico, principalmente quando a temática trabalhada, a

exemplo da de Jorge Amado, diz respeito às questões nacionais, como ressaltam o filósofo

Octávio Ianni, ao discorrer sobre as afinidades entre a literatura e a sociologia e o crítico

Antonio Candido, ao ressaltar o caráter empenhado de nossa literatura:

É mais do que evidente que a sociologia e a literatura nascem e


desenvolvem-se desafiadas, influenciadas ou fascinadas pela questão
nacional. Colaboram decisivamente na elaboração do mapa da nação,
ajudando a estabelecer o território e a fronteira, a história e a tradição, a
língua e os dialetos, a religião e as seitas, os símbolos e as façanhas, os
santos e os heróis, os monumentos e as ruínas.
(IANNI, 1999, p. 14)
Tanto no caso da literatura messiânica e idealista dos românticos, quanto no
caso da literatura realista, na qual a crítica assume o cunho de verdadeira
investigação orientada da sociedade estamos em face de exemplos de
literatura empenhada numa tarefa ligada aos direitos humanos. No Brasil
isto foi claro nalguns momentos do Naturalismo, mas ganhou força real
sobretudo no decênio de 1930, quando o homem do povo com todos os seus
problemas passou a primeiro plano e os escritores deram grande intensidade
ao tratamento literário do pobre. Isso foi devido sobretudo ao fato do
romance de tonalidade social ter passado da denúncia retórica, ou da mera
descrição, a uma espécie de crítica corrosiva, que podia ser explícita, como
em Jorge Amado, ou implícita, como em Graciliano Ramos [...] mas que
contribuíram para formar o batalhão de escritores empenhados em expor e
denunciar a miséria, a exploração econômica, a marginalização, o que os
torna [...] figurantes de uma luta virtual pelos direitos humanos.
(CANDIDO, 1995, p. 255-256)

Voltado para as questões identitárias no Brasil, em cujas representações deixa as marcas

de sua trajetória literária e política em nossa vida contemporânea, no Brasil e no exterior,

Jorge Amado vai impregnar a sua obra de um realismo manifesto, que o filiará ao naturalismo

francês, em especial ao de Émile Zola, autor de sua admiração e de sua predileção

sentimental, segundo afirma, em 1992, em entrevista à Folha de São Paulo:

Divido os escritores franceses entre os que amo e admiro e aqueles a quem


simplesmente admiro. Flaubert não é do meu amor. Mesmo Balzac, um
imenso escritor, não é dos meus preferidos. Entre os franceses, o que me diz
mais mesmo é Zola.
(AMADO, 9.8.1992)

As escolhas ou preferências de Jorge Amado, no que diz respeito à perspectiva literária

do Naturalismo e a Zola, longe de serem gratuitas se adéquam ao seu projeto e aos seus

intentos literários, como se apreende da leitura de suas obras e da observação das linhas

norteadoras da vertente naturalista. Para essa compreensão, concorre a obra de Flora

Süssekind, Tal Brasil, qual romance?: uma ideologia estética e sua história: o naturalismo,

publicada em 1984.

Longe de ver a gratuidade e/ou o mero prestígio das idéias européias como elementos

motivadores da calorosa e duradoura recepção ao Naturalismo entre nós, Flora Süssekind


procede a um verdadeiro inventário crítico acerca do Naturalismo, utilizando-se das mais

variadas fontes críticas. Em sua leitura, ressalta a filiação de Jorge Amado a essa tradição

estética, aproximando-a a Aluísio Azevedo, a José Lins do Rego e a Zola:

Em O Cortiço, romance exemplar da virada do século, usa Aluísio


Azevedo como uma de suas epígrafes um dos mais conhecidos
enunciados do Direito Criminal: ‘La vérité, toute la vérité, rien que la
vérité’. Na nota introdutória de 1933 a Cacau, avisa, por sua vez, Jorge
Amado: ‘Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um
máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau
do sul da Bahia’ [...] Diante da ênfase nos ciclos se poderia perguntar [...]
Por que Cacau se desdobra em Terras do Sem Fim e São Jorge dos
Ilhéus? Por que Menino de Engenho continua em Doidinho, Bangüê,
Moleque Ricardo e Usina? Por que um ‘ciclo’ do cacau e um ‘ciclo’ da
cana-de-açúcar? A idéia do ciclo não chega a ser exclusiva dos anos
Trinta. Basta lembrar o ciclo dos Rougon-Macquart de Zola. Ou o esboço
de um ciclo romanesco que Aluísio Azevedo apresentara num artigo de
1885, publicado em A Semana.
(SÜSSEKIND, 1984, p. 36; 162-163)

Apoiada em Adonias Filho, Antonio Candido, José Guilherme Merquior, Nelson

Werneck Sodré, Otto Maria Carpeaux, entre outros, Flora Süssekind reconhece os vínculos de

afinidades entre o discurso literário brasileiro, recorrente na incessante busca de nossas

identidades, e as linhas norteadoras da estética naturalista, em especial as da busca da

referencialidade, do documental, apropriadas às construções de nacionalidade, como se lê em

seu discurso abaixo, no qual insere a leitura de Adonias Filho:

Normalmente, procura-se uma literatura que, ao documentar o país, pareça


acreditar na existência de uma identidade nacional. Uma literatura que, não
se indagando como linguagem, funcione no sentido de exterminar quaisquer
dúvidas, digam elas respeito à ficção ou ao país. O que corrobora algumas
observações de Adonias Filho a respeito da vinculação do romance
brasileiro ao documentário: “O país nele pode encontrar a sua identidade. E
pode encontrá-la sobretudo porque, em estado de testemunho, guardando as
imagens como em um espelho, não anula em sua fixação as percepções dos
romancistas”. A estética naturalista funciona, portanto, no sentido de
representar uma identidade para o país, de apagar, via ficção, as divisões e
dúvidas [...] É em sentido literalmente oposto a essa fragmentação que se
constroem os textos pautados numa estética naturalista.
(SÜSSEKIND, 1984, p. 43-44 – grifos da autora)
Em relação à preferência brasileira por Émile Zola, como a manifesta explicitamente

Jorge Amado, Flora Süssekind, utilizando-se das ponderações de Merquior, ressalta o caráter

pragmático da acolhida dos nossos escritores à estética de Zola, descartando, mais uma vez, o

simples prestígio das idéias européias como fator determinante das escolhas brasileiras:

Não se procura observar por que justamente o naturalismo entrou em moda


e que vínculos orgânicos mantinha com o sistema intelectual brasileiro para
que adquirisse tão grande repercussão. Não é qualquer “idéia estrangeira”
que recebe acolhida tão boa. Em meio às diversas sementes intelectuais
lançadas à terra nem sempre tudo “dá”. Em meio a Flaubert e Zola,
escolheu-se o último. Coisa de que o próprio Merquior se dá conta na sua
Breve História da Literatura Brasileira: “Foi o romance naturalista à Zola,
que trocou a objetividade esteticista de Flaubert pela análise de pretensões
científicas, que constituiu, entre nós, a primeira manifestação de peso de um
estilo pós-romântico”. Prefere-se Zola a Flaubert, como entre Marx, Comte
e Spencer, escolhem-se os dois últimos. Não é muito difícil perceber o que
se repete nas escolhas. Não se trata de “plágio” ou de “imitação”
indiscriminados. A preferência é sempre por qualquer pensamento que
ajude a estabelecer um conjunto de identidades, leis e semelhanças.
(SÜSSEKIND, 1984, p. 53)

A perspectiva estético-ideológica adotada e o seu compromisso seriam, recorrentemente,

tematizados por Jorge Amado, em seus escritos. Essa insistente tematização se efetivaria das

mais variadas formas discursivas. Seja através de entrevistas, seja como elemento de seu

próprio discurso romanesco, como se observa em São Jorge dos Ilhéus (1940), ou como

elementos paratextuais, como se verifica em Cacau:

Joaquim trata Sérgio com mostras de grande respeito, dá importância ao que


o poeta faz e durante muito tempo negou-se a opinar sobre os seus poemas.
Porém, certa vez, muito instado pelo poeta, perguntou-lhe por que ele
escrevia poesia revolucionária numa forma que nenhum operário poderia
ler. Sérgio levara semanas preocupado com o problema e foi devido a essa
observação que mudara seus ritmos e procurava, agora, numa busca por
vezes frutífera, os ritmos populares.
(AMADO, 1981 2, p. 140 – grifos nossos)
Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de
honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da
Bahia. Será um romance proletário?
(AMADO, 1980, p. 8)

Se, no fragmento de São Jorge dos Ilhéus, é o narrador amadiano quem expressa,

através do personagem Joaquim, seu projeto escritural, estruturado em dois eixos solidários, o

militante e o popular; na epígrafe de Cacau, seria o próprio Jorge Amado quem, revestido do

poder autoral, revelaria a sua perspectiva estético-ideológica.

Tornada num leitmotiv crítico de realce da “pouca literatura” amadiana, a epígrafe de

Cacau revela, antes de tudo, uma faceta do Modernismo brasileiro que, em suas várias

vertentes complementares, busca novas formas de expressão, de redefinição do papel da

literatura e do escritor, de reinterpretação da cultura e do homem brasileiro, numa

continuidade que se processa via desvio, via descontínuo, ou pelo endosso das velhas

soluções propostas, como observa Wilma Mendonça (2002, p. 20). Na realidade, “o mínimo

de literatura” e o “máximo de honestidade” amadianos indiciam a busca literária do escritor

nordestino em resolver a contradição que caracteriza nossa cultura, como afirma Antonio

Candido, como também o seu engajamento ao contexto escritural e social de sua época, como

se apreende das palavras de Luiz Lafetá, em seu estudo sobre o projeto estético e ideológico

do Modernismo e da análise de Eduardo Assis Duarte sobre a narrativa Cacau:

Talvez se possa dizer que os romancistas da geração de Trinta, de certo


modo, inauguraram o romance brasileiro, porque tentaram resolver a grande
contradição que caracteriza a nossa cultura, a saber, a oposição entre as
estruturas civilizadas do litoral e as camadas humanas que povoam o
interior [...] a massa começou a ser tomada como fator de arte, os escritores
procurando opor à literatura e à mentalidade litorâneas a verdade [...] No
trabalho de revelação do povo como criador, que assinalei atrás, nenhum
escritor se apresenta de maneira mais característica do que o Sr. Jorge
Amado.
(CANDIDO, 1992, p. 45-49 – grifos do autor)
Decorre daí que qualquer nova proposição estética deverá ser encarada em
suas duas faces (complementares e, aliás, intimamente conjugadas; não
obstante às vezes relacionadas em forte tensão): enquanto projeto estético,
diretamente ligada às modificações operadas na linguagem, e enquanto
projeto ideológico, diretamente atada ao pensamento (visão de mundo) de
sua época. [...] na verdade o projeto estético, que é a crítica da velha
linguagem pela confrontação com uma nova linguagem, já contém o seu
projeto ideológico. O ataque às maneiras de dizer se identifica ao ataque às
maneiras de ver (ser, conhecer) de uma época; se é na (e pela) linguagem
que os homens externam sua visão-de-mundo (justificando, desvelando,
simbolizando ou encobrindo suas relações reais com a natureza e a
sociedade) investir contra o falar de um tempo será investir contra o ser
desse tempo [...] Tal coincidência entre o estético e o ideológico se deve em
parte à própria natureza da poética modernista.
(LAFETÁ, 1974, p. 11-13 – grifos do autor)

O “mínimo de literatura” expressa, antes de tudo, oposição à retórica da


pompa e circunstância, ao “falar difícil das classes dominantes e da tradição
bacharelesca herdada do Império. Acoplado ao “máximo de honestidade”,
soa como declaração de guerra à tradição ficcional idealizadora da vida no
campo e porta-voz da ideologia do latifúndio. Uma literatura que propagava
as imagens do bom senhor e do escravo contente, vivendo num ”paraíso” de
fartura e inocência, livre de sofrimentos, longe das contradições.
(DUARTE, 1995, p. 58 – grifos do autor)

Na verdade, em sua proposição modernista, Jorge Amado assenhora-se das linguagens

populares da Bahia através das quais organiza a sua visão de mundo, em face dos problemas

sociais do cenário nordestino. Nessa conjunção, se tornaria num dos escritores de maior

repercussão popular entre nós, na mesma medida em que sofre restrições da crítica acadêmica.

Reconhecidamente um dos autores brasileiros mais conhecidos e festejados no Brasil e

no exterior, Jorge Amado tinha ciência de que, não obstante o inegável sucesso editorial de

sua obra, esta se movia com dificuldades entre os teóricos da literatura no Brasil, como revela

em O sumiço da Santa: uma história de feitiçaria: romance baiano, publicada em 1988:

Inegável audácia de um Autor, velho de idade e de batalhas perdidas, que


ainda não conseguiu levar a crítica literária a se esporrar de gozo com a
leitura de seus tapácios, de linguagem escassa, vazios de idéias,
populacheiros. Quem não estiver de acordo com a inovação não é obrigado
a ler.
(AMADO, 1992, p. 409-410)
Levando em consideração o projeto literário de Jorge Amado, e as soluções estéticas por

ele utilizadas para concretização de seu intento, nos voltaremos, através de um recorte étnico-

identitário, à maneira, embora noutra direção, de Lúcia Lippi de Oliveira, para a leitura da

narrativa amadiana, Gabriela cravo e canela: crônica de uma cidade do interior, na qual se

verifica, através do intercurso amoroso entre o árabe Nacib Saad e a sertaneja mestiça do

Nordeste, Gabriela, a representação do imigrante árabe no interior da Bahia.


2.2 NACIB SAAD: UM BRASILEIRO DAS ARÁBIAS

Era comum tratarem-no de árabe, e mesmo de turco,


fazendo-se assim necessário de logo deixar
completamente livre de qualquer dúvida a condição de
brasileiro, nato e não naturalizado, de Nacib. Nascera na
Síria, desembarcara em Ilhéus.

Jorge Amado

Publicada em 1958, dois anos após o afastamento de Jorge Amado do Partido

Comunista do Brasil – PCB, a narrativa Gabriela, cravo e canela: crônica de uma cidade do

interior é apreciada por Alfredo Bosi, juntamente com Dona Flor e seus dois maridos

(1966), como “crônica amaneirada de costumes provincianos”, destituída, segundo esse

crítico, dos esquemas ideológicos que caracterizaram a primeira fase da literatura amadiana,

como se lê em sua História concisa da literatura brasileira:

Mais recentemente, crônicas amaneiradas de costumes provincianos


(Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos). Nessa
linha, formam uma obra à parte, menos pelo espírito que pela inflexão
acadêmica do estilo, as novelas reunidas em Os Velhos Marinheiros. Na
última fase abandonam-se os esquemas de literatura ideológica que
nortearam os romances de 30 e 40; e tudo se dissolve no pitoresco, no
“saboroso”, no “gorduroso”, no apimentado do regional.
(BOSI, 1980, p. 457)

Em visão assemelhada a Bosi, Tânia Pellegrini apreciaria a narrativa de Jorge Amado.

Ao tratar do Sumiço da Santa, uma das últimas narrativas de Jorge Amado, Pellegrini
qualificaria essa narrativa como um exemplar bem construído do que se denomina,

atualmente, de literatura de mercado. Nessa avaliação, construída a partir de uma perspectiva

mercadológica da obra amadiana, Pellegrini assinalaria que os recursos, largamente utilizados

por Jorge Amado, não apenas já se encontravam em Gabriela, cravo e canela, como também

se apresentavam, nessa narrativa, de forma mais relevada:

O Sumiço da Santa (Amado, 1988), de que nos ocuparemos, apresenta-se


como um exemplo bem construído do que hoje se pode chamar de
‘literatura comercial’. Um dos últimos livros do escritor revela-se como um
conglomerado de recursos já bastante usados em outros romances seus, com
mais ênfase a partir de Gabriela, cravo e canela, considerado um ponto de
ruptura no interior do conjunto de sua obra.
(PELLEGRINI, 1999, p. 124)

Nessa compreensão, Tânia Pellegrini, como a maioria de nossos críticos, consideraria a

narrativa do amor entre Nacib e Gabriela como marco de ruptura, de finalização do projeto

ideológico amadiano e, ao mesmo tempo, como ponto de partida de sua trajetória literário-

comercial. Assim, vê, no formidável êxito editorial, na contundente recepção popular à

Gabriela, cravo e canela, apenas a celebração da nova inclinação de cunho mercadológico,

de Jorge Amado:

Só para citar alguns exemplos, Gabriela, cravo e canela, publicada em


1958, vendeu imediatamente duzentos mil exemplares e, em edições
sucessivas, atingiu a casa do milhão em 1990 [...] Como se vê, esses
números ofuscam – desde a época em que uma indústria editorial brasileira
de peso era apenas um quase-projeto – as tímidas tiragens de dois ou três
mil exemplares que ainda hoje caracterizam a publicação da grande maioria
das narrativas nacionais.
(PELLEGRINI, 1999, p. 123)

Ao se voltar para a discussão sobre a relação da literatura/mercado e mídia, Tânia

Pellegrini veria, na produção e na recepção literária contemporânea, as determinações

mercadológicas e midiáticas, como elementos estruturadores desses escritos. Ao atribuir esses


traços à maioria dos escritores jovens, que internalizaram as perspectivas da chamada pós-

modernidade, Pellegrini ressaltaria que alguns antigos também se renderam a essas

determinações, ilustrando como exemplo lapidar o caso de Jorge Amado:

Dentre estes últimos, o caso de Jorge Amado é lapidar. Tendo iniciado sua
carreira literária como autor reconhecidamente engajado, que usava sua
ficção como instrumento de luta política, alimentado por todo o contexto
político-social das décadas de 1930 e 1940, aos poucos derivou para uma
literatura descompromissada, leve crônica de costumes, exótico cartão
postal da Bahia [...] O que nos interessa em particular na obra de Jorge
Amado é de que maneira ela – um dos baluartes do regionalismo engajado –
também acabou incorporando sensivelmente as mudanças nos modos de
percepção gerados pelas transformações nos modos de produção da cultura
(sobretudo a máquina da indústria cultural, no sentido adorniano do termo).
(PELLEGRINI, 1999, 122-124)

Na perspectiva de que a obra mais recente de Jorge Amado se constitui como objeto da

indústria cultural, Pellegrini iria, noutra passagem de seu texto, responsabilizar o gosto, ou a

falta de gosto, do leitor amadiano, pelo sucesso editorial/comercial do escritor grapiúna,

acentuando, antropofagamente, que Jorge Amado é consumido, com grande sucesso por todos

os paladares ao redor do mundo (PELLEGRINI, 1999, p.122). Dessa forma, estende aos

leitores de Jorge Amado, concebidos como abstratos, médios e poderosos, a desqualificação

que procede ao próprio autor, numa passagem em que, contraditoriamente, registra o enorme

êxito escritural de Amado, bem antes de Gabriela, cravo e canela.

Jorge Amado é, reconhecidamente, um dos primeiros autores que aqui se


podem considerar de ‘profissionais’, ou seja, aquele autor que consegue
viver dos lucros auferidos pela venda de seus livros [...] capaz de mobilizar
a máquina editorial e as glórias acadêmicas, além de seduzir o mercado
estrangeiro e conquistar o abstrato e poderoso ‘leitor médio brasileiro’.
(PELLEGRINI, 1999, p. 122-123)

Autodefinindo-se, com simplicidade, como apenas um baiano romântico e sensual

(apud BOSI, 1980, p. 455), Jorge Amado inundaria suas narrativas com a temática do amor e
da sensualidade, como bem observa Antonio Candido, em seu texto, “Poesia, documento e

história”, como se verifica abaixo:

O amor carrega de uma surda tensão as páginas dos seus romances,


avultando por cima do rumor das outras paixões. Na nossa literatura
moderna, o sr. Jorge Amado é o maior romancista do amor, da força da
carne e de sangue que arrasta os seus personagens para um extraordinário
clima lírico. Amor dos ricos e dos pobres; amor dos pretos, amor dos
operários, que antes não tinha estado de literatura senão edulcorado pelo
bucolismo ou bestializado pelos naturalistas.
(CANDIDO, 1992, p. 52)

Contemplando, com a temática do amor e da sensualidade, todos os estratos sociais

presentes em sua obra, como já observara Antonio Candido, Jorge Amado transformaria

Gabriela, cravo e canela numa verdadeira polifonia amorosa. Há o amor trágico e adúltero

de dona Sinhazinha Guedes Mendonça, esposa do coronel Jesuíno, e o dentista Osmundo

Pimentel, símbolo desconstrutor do velho código da família patriarcal, cujos assassinatos

assinalam, cronologicamente, o início do amor entre Nacib e Gabriela:

Essa história de amor – por curiosa coincidência, como diria dona Arminda
– começou no mesmo dia claro, de sol primaveril, em que o fazendeiro
Jesuíno Mendonça matou, a tiros de revólver, dona Sinhazinha Guedes
Mendonça, sua esposa, expoente da sociedade local, morena mais para
gorda, muito dada às festas de Igreja, e o dr. Osmundo Pimentel, cirurgião-
dentista chegado a Ilhéus há poucos meses, moço elegante, tirado a poeta.
(AMADO, 1979 1, p. 9)

Há o idílio, delicadamente insinuado entre o dr. Mundinho Falcão, exportador de cacau

e símbolo da nova ordem econômica, e Jerusa, neta do coronel Ramiro Bastos, representante

do poder da velha ordem econômica, cuja perspectiva de um desfecho feliz funciona como

solução conciliatória, preservadora da posição, do prestígio e das vantagens das antigas e

poderosas famílias dos senhores do cacau, como indicia, continuadamente a narrativa:


Houve ainda duas sensações no baile. Uma foi quando Mundinho Falcão
[...] reparou na moça loira de pele de fina madrepérola, de olhos cor do azul
celeste: – Quem é? – perguntara. – A neta do coronel Ramiro, Jerusa, filha
do dr. Alfredo. Sorriu Mundinho, parecia-lhe divertida idéia [...] O
aniversário do coronel Ramiro [...] Mundinho Falcão não fora à missa nem
lhe levara pessoalmente o seu abraço. Mandara, porém, um grande
ramalhete de flores para Jerusa, com um cartão onde escrevera: “Peço-lhe,
minha jovem amiga, transmitir a seu digno avô meus votos de felicidade.
Em campo oposto ao dele, sou, no entanto seu admirador”. Foi um sucesso
[...] O próprio coronel Ramiro Bastos, ao ler o cartão e olhar as flores,
comentou: É sabido esse senhor Mundinho! Se me manda o abraço por
minha neta, não posso deixar de receber... Por um curto espaço de tempo
chegou-se a pensar num acordo [...] Esse Mundinho, podre de rico, rapaz
elegante do Rio, combatia num combate mortal a família dos Bastos. Uma
luta com jornais queimados, homens surrados, atentados de morte. Fazia
frente ao velho Ramiro, disputava-lhe os cargos, levava-o a ataques de
coração. E, ao mesmo tempo, dava um conto de réis, duas reluzentes notas
de quinhentos, por meia dúzia de xícaras de louça barata, prenda da neta de
seu inimigo [...] Tonico Bastos espiava a conversa. Não entendia esse tipo.
Sonhava ainda com um acordo de última hora, a salvar o prestígio dos
Bastos.
(AMADO, 1979 1, p. 192; 229; 299 – grifos nossos)

Se o amor entre Mundinho e Gerusa não se realiza no tecido narrativo, Jorge Amado, à

maneira de Gregório de Matos, é extremamente discreto quando se volta para as relações

sensuais do feminino patriarcal, isto é, das mulheres brancas e de posse, o acordo sonhado e

esperado por Tonico Bastos se concretizaria plenamente, como demonstra a passagem na qual

Mundinho, vencedor, revela o desejo de não prejudicar a família dos Bastos, principalmente o

pai de Jerusa: Não penso em perseguir ninguém. Não sou disso. Ao contrário, o que desejo é

discutir com o senhor a maneira de não prejudicar o Dr. Alfredo (AMADO, 1979 1, p. 335)

Há o amor romântico, tísico e infeliz, de Ofenísia pelo Imperador. O amor adúltero de

Glória, amásia do coronel Coriolano e Josué, professor, metido a poeta, como anota o

narrador. Os amores dos pobres, das prostitutas, dos retirantes. Entrelaçadas, em meio ao

cenário da transformação econômico-política de Ilhéus, essas múltiplas narrações amorosas,

tecidas pela simpatia e cumplicidade do narrador, não ofuscam e nem comprometem a

primazia do amor entre Nacib e Gabriela, caracterizada como doida paixão, como o ponto de
irradiação de toda a vida ilheense, como o qualifica o narrador, nas páginas iniciais de

Gabriela, cravo e canela:

Naquele ano de 1925, quando floresceu o idílio da mulata Gabriela e do


árabe Nacib, a estação das chuvas tanto se prolongara além do normal e
necessário que os fazendeiros, como um bando assustado, cruzavam-se nas
ruas [...] Ninguém, no entanto, fala desse ano, da safra de 1925 à de 1926,
como o ano do amor de Nacib e Gabriela e, mesmo quando se referem às
peripécias do romance, não se dão conta de como, mais que qualquer outro
acontecimento, foi a história dessa doida paixão o centro de toda a vida da
cidade naquele tempo, quando o impetuoso progresso e as novidades da
civilização transformavam a fisionomia de Ilhéus.
(AMADO, 1979 1, p. 19)

Estruturado por essa temática, o romance narra, em meio ao contexto do apogeu do

cacau no sul da Bahia e das grandes transformações econômicas que caracterizam o Nordeste

cacaueiro, a relação amorosa entre o imigrante árabe, Nacib Saad, e a imigrante sertaneja,

cujo sobrenome, ou epíteto, nos remete aos cheiros do mundo do Oriente: Gabriela, cravo e

canela.

Oriunda da cultura popular, mais propriamente do cancioneiro baiano, universo do qual

Jorge Amado se alimenta e estrutura o seu projeto estético, Gabriela é personagem de versos

anônimos, das modinhas cantadas pelos trabalhadores da zona cacaueira, transposta para a

cultura letrada, como ressalta, em epígrafe, o próprio escritor:

‘O cheiro de cravo,
A cor de canela,
Eu vim de longe
Vim ver Gabriela’.
(Moda da zona de cacau, apud AMADO, 1979 1, p. 8)

Nessa transposição e transfiguração do popular, Jorge Amado elaboraria a sua primeira

narrativa em que o imigrante árabe é elevado à condição de protagonista, como explicita o

narrador amadiano, ao anunciar o assunto de sua narração romanesca, como se lê, nas páginas

iniciais de Gabriela, cravo e canela:


Aventuras e desventuras de um bom brasileiro (nascido na Síria) na cidade
de Ilhéus, em 1925, quando florescia o cacau e imperava o progresso – com
amores, assassinatos, banquetes, presépios, histórias variadas para todos os
gostos, um remoto passado glorioso de nobres soberbos e salafrários, um
recente passado de fazendeiros ricos e afamados jagunços, com solidão e
suspiros, desejos, vingança, ódio, com chuvas e sol e com luar, leis
inflexíveis, manobras políticas, o apaixonante caso da barra, com
presdigitador, dançarina, milagre e outras mágicas ou um brasileiro das
arábias.
(AMADO, 1979 1, p. 11)

Utilizando-se da linha temática regionalista e amorosa, Jorge Amado estrutura e

compõe, em plena proximidade com o brasileiro do interior nordestino, as suas representações

identitárias, em especial do imigrante árabe, do sul da Bahia, dos meados dos anos Vinte.

Nessa construção, afasta-se da perspectiva etnocêntrica, com a qual, no mais das vezes, se

representa o diferente de si. Fugindo ao etnocentrismo, Jorge Amado se aproximaria da

concepção interativa da identidade, na qual a identidade se plasma a partir da ‘interação’ entre

o eu e a sociedade, como expõe Stuart Hall:

De acordo com essa visão, que se tornou a concepção sociológica clássica


da questão, a identidade é formada na ‘interação’ entre o eu e a sociedade.
O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o ‘eu real’, mas
este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos
‘exteriores’ e as identidades que esses mundos oferecem. [...] A identidade,
então, costura (ou para usar uma metáfora médica, ‘sutura’) o sujeito à
estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles
habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e previsíveis.
(HALL, 2001, p. 11-12)

Na utilização dessa visão sociológica, Jorge Amado procede à sua configuração do

imigrante árabe pelas letras da aproximação; da ausência de estranhamento, em plena

interação com a cultura baiana, como se afere da passagem, na qual Jorge Amado, retomando

Machado de Assis, expressa o sentimento de mal estar de Nacib ante o cozinheiro estrangeiro

que contratara, a conselho do seu sócio Mundinho, na presença do qual se sente estrangeiro,

amedrontado e humilhado, como se pode observar nas passagens a seguir:


O cozinheiro chegou, via Bahia, junto com Mundinho Falcão [...] Nacib
embasbacou-se ante o cozinheiro. Estranha criatura: [...] Português de
nascimento, de sotaque pronunciado, muitas palavras a caírem depreciativas
se seus lábios eram francesas. Nacib humilhado não as entendia [...] Exigia
fogão de metal, a carvão. Quanto antes. Nacib sentia-se humilhado e
amedrontado. Ia dizer qualquer coisa, o ‘chef de cuisine’ aplicava-lhe um
olho crítico, superior, deixava-o gelado. Não fosse o homem ter vindo do
Rio, custar tanto dinheiro e, sobretudo, ter sido idéia de Mundinho Falcão, e
o mandaria estourar-se no inferno com suas comidas de nomes complicados
e suas palavras francesas. [...] Quanto a Nacib, esse brasileiro nascido na
Síria, sentia-se estrangeiro ante qualquer prato não baiano, à exceção do
quibe. Era exclusivista em matéria de comida.
(AMADO, 1979 1, 340-341)

Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava o


açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. [...]
O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que
Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que
estava acostumado aos seus crioulos de Minas e não queria línguas
estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a
necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom
pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província nem o
pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a
outros serviços.
(MACHADO, 1994, p. 676)

Nessa concepção interativa, em que lança mão do melhor de nossa tradição literária,

Jorge Amado procede à representação de Nacib. Dessa interação não escapará sequer os

traços físicos da personagem, curiosamente aproximada do biótipo nordestino, como atesta a

descrição física do personagem, em especial o realce de sua “cabeça chata”, traço fisionômico

pelo qual se costumava distinguir os brasileiros oriundos do Nordeste:

Frondosos bigodes plantados num rosto gordo e bonachão, de olhos


desmesurados, fazendo-se cúpidos à passagem das mulheres. Boca gulosa,
grande e de riso fácil. Um enorme brasileiro, alto e gordo, cabeça chata e
farta cabeleira, ventre demasiadamente crescido, “barriga de noves meses”,
como pilheriava o Capitão ao perder uma partida no tabuleiro de damas.
(AMADO, 1979 1, p. 40 – grifos nossos)
Nesse percurso, Jorge Amado ressaltaria o legítimo pertencimento de Nacib ao Brasil, à

Ilhéus, reconhecendo-o como um verdadeiro grapiúna. Recorrentemente assinalada, a

condição pátria de Nacib seria ora apontada pelo narrador, ora pelo próprio personagem que,

continuadamente, elide sua terra de nascimento, identificando-a apenas como a terra de seu

pai, como se afere das passagens abaixo:

Era comum tratarem-no de árabe, e mesmo de turco, fazendo-se assim


necessário de logo deixar completamente livre de qualquer dúvida a
condição de brasileiro, nato e não naturalizado, de Nacib. Nascera na Síria,
desembarcara em Ilhéus com quatro anos, vindo num navio francês até à
Bahia. Naquele tempo, no rastro do cacau dando dinheiro, chegavam à
cidade de alastrada fama, diariamente, pelos caminhos do mar, do rio e da
terra, nos navios, nas barcaças e lanchas, nas canoas, no lombo dos burros, a
pé abrindo picadas, centenas e centenas de nacionais e estrangeiros [...]
Chegavam e em pouco eram ilhenses dos melhores, verdadeiros grapiúnas
plantando roças, instalando lojas e armazéns.
(AMADO, 1979 1, p. 39)

– Tudo que quiser, menos turco. Brasileiro, – batia com a mão enorme no
peito cabeludo – filho de sírios, graças a Deus. [...] – Na terra de meu pai...
– assim começavam suas histórias nas noites de conversas longas, quando
nas mesas do bar ficavam apenas uns poucos amigos. Porque sua terra era
Ilhéus, a cidade alegre ante o mar, as roças de cacau, aquela zona ubérrima
onde se fizera homem. Seu pai e seus tios, seguindo o exemplo dos Ashcar,
vieram primeiro, deixando as famílias. Ele embarcara depois, com a mãe e a
irmã mais velha, de seis anos, Nacib ainda não completara os quatro.
Lembrava-se vagamente da viagem na terceira classe, o desembarque na
Bahia onde o pai fora esperá-los. Depois a chegada a Ilhéus, a vinda para a
terra numa canoa pois naquele tempo nem ponte de desembarque existia.
Do que não se recordava mesmo era da Síria, não lhe ficara lembrança da
terra natal tanto se misturara ele à nova pátria e tanto se fizera brasileiro e
ilheense. Para Nacib era como se houvesse nascido no momento mesmo da
chegada do navio à Bahia, ao receber o beijo do pai em lágrimas. Aliás, a
primeira providência do mascate Aziz, após chegar a Ilhéus, foi conduzir os
filhos a Itabuna, então Tabocas, ao cartório do velho Segismundo, para
registrá-los brasileiros.
(AMADO, 1979 1, p. 40-41)

Legitimamente brasileiro, posto que ungido pelo velho e persistente “jeitinho nacional”,

Nacib usufruiria da cordialidade brasileira, termo aqui utilizado no sentido difundido por

Sergio Buarque de Holanda, ao se referir a nossa propensão adversa a todo o formalismo e


convencionalismo social (HOLANDA, 1988, p. 106-107), entre eles o disciplinamento

burocrático. Desse desvio da legalidade, aprovado pelos moradores de Ilhéus, se deve a

condição de brasileiro nato de Nacib, cujo registro civil de nascimento, comprado a preço

módico, havia sido consumido pelo incêndio do cartório de Tabocas, como registra

ironicamente o narrador:

Processo rápido de naturalização que o respeitável tabelião praticava com a


perfeita consciência do dever cumprido por uns quantos mil-réis. Não tendo
alma de explorador, cobrava barato, colocando a operação legal ao alcance
de todos, fazendo desses filhos de imigrantes, quando não dos próprios
imigrantes vindos trabalhar em nossa terra, autênticos cidadãos brasileiros,
vendendo-lhes boas e válidas certidões de nascimento. Acontece ter sido o
cartório incendiado [...] Livros de registros não existiam, mas existiam
idôneas testemunhas a afirmar que o pequeno Nacib e a tímida Salma, filhos
de Aziz e de Zoraia, haviam nascidos no arraial de Ferradas e tinham sido
anteriormente registrados no cartório, antes do incêndio [...] Como pensar
em míseros detalhes legais, como o lugar e a data exata do nascimento de
uma criança [...] Acreditava simplesmente na palavra daqueles simpáticos
imigrantes, aceitava-lhes os presentes modestos, vinham acompanhados de
testemunhas idôneas, pessoas respeitáveis, homens cuja palavra, por vezes,
valia mais que qualquer documento legal.
(AMADO, 1979 1, p. 41-42)

Assegurada pelo desvio da legalidade, a nacionalidade brasileira de Nacib também se

estenderia aos seus familiares, concebidos pelo narrador como conquistadores lendários,

heróis do imaginário e da memória popular, juntamente com outros pioneiros e desbravadores

de Ilhéus, de origem brasileira. Nesse caminho, Jorge Amado indicia o assunto de seu último

livro, A descoberta da América pelos turcos (1994), ao mesmo tempo em que assegura, à

família do protagonista, o estatuto de ilhenses por fora e por dentro, expressão popular bem

ao gosto nordestino:

Já ilhenses por fora e por dentro, além de brasileiros naturalizados, eram os


parentes de Nacib, uns Ashcar envolvidos nas lutas pela conquista da terra,
onde seus feitos foram dos mais heróicos e comentados. Só encontram eles
comparação com os dos Badarós, de Braz Damásio, do célebre negro José
Nique, do coronel Amâncio Leal. Um deles, de nome Abdula, o terceiro em
idade, morreu nos fundos de um cabaré em Pirangi após bater três dos cinco
jagunços mandados contra ele, quando disputava pacífica partida de pôquer.
(AMADO, 1979 1, p. 40)

A ênfase no caráter brasileiro de Nacib, na sua completa aclimatação pautará toda a

narrativa. É notório o esforço do narrador amadiano em confirmar a completa integração de

Nacib à vida de Ilhéus, seja como cidadão estimado e respeitado pelos senhores cacaueiros,

seja como político, de cujas ações também advêm às mudanças em curso, como demonstram a

sua indicação à diretoria da Associação Comercial de Ilhéus e a sua aliança, política e

comercial, com Mundinho:

Um dos mais importantes sucessos daquele ano em Ilhéus foi a inauguração


da nova sede da Associação Comercial [...] As eleições para a diretoria
precederam a da mudança [...] Além do nome de Ataulfo Passos, um outro
se repetia nas duas chapas [...] Nacib A. Saad [...] Assim, viu-se eleito
Nacib quarto-secretário da Associação Comercial de Ilhéus, companheiro
de Ataulfo, Mundinho, Maluf, do joalheiro Pimenta, de outros tipos
importantes, inclusive do dr. Maurício e do Capitão.
(AMADO, 1979 1, p. 186-188)
O bar de Nacib agora era um reduto de Mundinho Falcão. Sócio do
exportador e inimigo de Tonico, o árabe (cidadão brasileiro nato e eleitor)
entrara na campanha. E, por mais espantoso que pareça, naqueles dias
vibrantes do comício, no maior deles, quando dr. Ezequiel bateu todos os
recordes anteriores de cachaça e inspiração, Nacib pronunciou seu discurso.
Deu-lhe uma coisa por dentro, depois de ouvir Ezequiel. Não agüentou,
pediu a palavra. Foi um sucesso sem precedentes.
(AMADO, 1979 1, p. 327)

Utilizando-se da perspectiva interacionista, Jorge Amado compõe o mosaico identitário

da Bahia, privilegiando o imigrante árabe. Nessa composição, organizada pelas lentes da

simpatia e da afinidade, o aproximará, amorosamente, de Gabriela, sertaneja tangida pela seca

no sertão, chegada à Ilhéus abrindo picadas, numa passagem que, embora marcada pela

sutileza, lembraria a personagem Iracema, de José de Alencar:

Só Gabriela parecia não sentir a caminhada, seus pés como que deslizando
pela picada muitas vezes aberta na hora a golpes de facão, na mata
virgem. Como se não existissem as pedras, os tocos, os cipós emaranhados
[...] no começo da viagem, a cor do rosto de Gabriela e de suas pernas era
ainda visível e os cabelos rolavam sobre o cangote, espalhando perfume.
(AMADO, 1979 1, p. 84 – grifos nossos)

Não obstante essa sutil aproximação, Gabriela seria, antes, uma espécie de Rita Baiana,

recém saída das matas. Configurada pelas tintas do Naturalismo, essa descendente dos nossos

aborígines co-divide, com a personagem de Aluísio Azevedo, precursor da vertente naturalista

no Brasil, a forte sensualidade, o gosto pela música e pela dança, o forte apelo do amor

sexual, a pouca propensão ao seu disciplinamento, através do casamento, num completo

alheamento ao formalismo e ao convencionalismo social. Filhas da mesma concepção

naturalista, a aproximação entre essas duas personagens seria inevitável, como demonstram as

várias passagens das narrativas de Aluisio Azevedo e Jorge Amado.

Representante de uma das nossas feições nacionais, derivada, literariamente, da obra de

José de Alencar, O sertanejo (1875), Gabriela é o elemento autóctone com o qual Jorge

Amado recria o “encontro”, em seu país regional. Desta feita, elegendo, como mediadores, a

intensa conexão sexual, a afinidade de temperamento e, principalmente, a ausência de

estranhamento entre o imigrante árabe e a sertaneja nordestina. Reciprocamente, ambos são

para si mesmos, o elo que preenche o espaço entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ – entre o mundo

pessoal e o mundo público (HALL, 2001, p. 11), como se pode aferir das passagens seguintes.

Ele se havia sentado. Gabriela acomodou-se no chão a seus pés. Tomou-lhe


da grande mão e peluda, beijou-lhe a palma naquele gesto que recordava a
Nacib, nem mesmo sabia por que, a terra de seus pais, as montanhas da
Síria. Depois encostou a cabeça em seus joelhos, ele passou-lhe a mão nos
cabelos. O pássaro sossegara, soltou seu trinado. – Dois presentes de uma
vez... Moço tão bom! – Dois? – O passarinho e, mais bom ainda, ter vindo
trazer.
(AMADO, 1979 1, p. 198)

Gabriela o puxou pra si, mergulhando-o nos seios. Nacib murmurou: Bié...E
em sua língua de amor, que era o árabe, lhe disse a tomá-la: “De hoje em
diante és Bié e essa é a tua cama, aqui dormirás. Cozinheira não és apesar
de cozinhares. És a mulher desta casa, o raio de sol, a luz do luar, o canto
dos pássaros. Te chamas Bié...” – Bié é nome de gringa? Me chames Bié,
fale mais nessa língua... Gosto de ouvir.
(AMADO 1979 1, p. 200)

Nesse caminho interativo, marcado por uma reciprocidade estável entre o interior e o

exterior, produto da primeira metade do século XX, como acentua Stuart Hall (2001, p. 32),

Jorge Amado procede à recriação de sua pátria regional, proposta privilegiada do Modernismo

nordestino, pautando-se pela ênfase nas origens, na continuidade, na tradição e na

intemporalidade (HALL, 2001, p. 53), como se apreende do fragmento abaixo:

Muita coisa recordava ainda o velho Ilhéus de antes. Não o tempo dos
engenhos, das pobres plantações de café, dos senhores nobres, dos negros
escravos, da casa ilustre dos Ávilas. Desse passado remoto sobravam
apenas vagas lembranças, só mesmo o Doutor se preocupava com ele. Eram
os aspectos de um passado recente, do tempo das grandes lutas pela
conquista da terra. Depois que os padres jesuítas haviam trazido as
primeiras mudas de cacau. Quando os homens, chegados em busca de
fortuna, atiraram-se às matas e disputaram, na boca das repetições e dos
parabeluns, a posse de cada palmo de terra. [...] Quando o caxixe reinou, a
justiça posta a serviço dos interesses dos conquistadores de terra, quando
cada grande árvore escondia um atirador na tocaia esperando sua vítima.
Era esse passado que ainda estava presente em detalhes da vida da cidade e
dos hábitos do povo. Desaparecendo aos poucos, cedendo lugar às
inovações, a recentes costumes. Mas não sem resistência, sobretudo no que
se referia a hábitos transformados pelo tempo em lei.
(AMADO, 1979 1, p. 21-22)

Em sua narrativa da nação grapiúna, Jorge Amado subordina, ideologicamente, as raízes

da identidade do sul da Bahia às raízes indígenas e árabes, se valendo de nossa tradição

literária, em suas mais variadas vertentes. Nesse aproveitamento escritural, o escritor baiano

aproxima, física e culturalmente, as gentes árabes das nordestinas, ao mesmo tempo em que

assegura a esses imigrantes, o importante papel de elemento constitutivo de uma feição

baiano-nacional.
CAPÍTULO III

A REPRESENTAÇÃO ÁRABE EM MILTON HATOUM

Perdido no passado, sua memória rondava a tarde distante


em que o vi recitar os gazais de Abbas. Era um
preâmbulo, e Zana se excitava com aquela voz grave,
cheia de melodia, que devia tocar a alma dela antes da
loucura dos corpos.
Milton Hatoum
3.1 FICÇÃO E HISTÓRIA DE IMIGRANTES

Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas.


Mas as palavras parecem esperar a morte e o
esquecimento. Permanecem soterradas, petrificadas, em
estado latente, para depois, em lenta combustão,
acenderem em nós o desejo de contar passagens que o
tempo dissipou.
Milton Hatoum

O tema da identidade nacional é, sabidamente, uma das grandes recorrências nas

literaturas dos países colonizados nos inícios da modernidade, abertos, após suas

independências políticas, a um intenso fluxo imigratório, como sucedeu nos países da

América Latina e, evidentemente, no Brasil.

Constituindo-se como elemento privilegiado de nossa produção romanesca, dramática,

poética e crítica, a discussão acerca de nossa identidade cultural seria iniciada pelos viajantes

e colonizadores europeus que transformariam suas crônicas de viagem, em verdadeiros

ensaios sobre a natureza brasileira no século XVI.

Não obstante o acentuado etnocentrismo com o qual esses cronistas vêem a cultura

indígena, não lhes passaria despercebida a explícita diversidade cultural que povoa o Brasil

desde os seus primórdios. Essa diversidade seria, num contínuo, atestada nos mais variados

relatos europeus, através da invariável comparação entre os índios tupinambás, detentores da

hegemonia cultural no Brasil do século XVI – antropófagos e poligâmicos – e os demais

povos indígenas, muito deles monogâmicos e abstêmios da carne humana, que habitavam o

solo brasileiro nesse período. Assim, os narradores europeus pontuavam, em suas inaugurais

descrições sobre o caráter brasileiro, a marca da nossa diversidade cultural.


Parecendo fortalecer-se com o passar dos tempos, a tematização de nossa identidade

cultural seria retomada, vigorosamente, pelos românticos, em especial pelos nacionalistas, que

a enriqueceria com a vertente do regionalismo, numa explícita reafirmação de nossa

pluralidade cultural. Nesse enriquecimento, inauguram, em nossas letras, um procedimento

estético que antecipa as grandes obras regionalistas do chamado Romance de Trinta, como

ressalta Antonio Candido:

Vem a propósito dizer que o caso do Brasil é talvez peculiar, pois aqui o
regionalismo inicial, que principia com o Romantismo, antes dos outros
países, nunca produziu obras consideradas de primeiro plano [...] De tal
modo que só a partir mis ou menos de 1930, numa segunda fase que
estamos tentando caracterizar, as tendências regionalistas, já sublimadas e
como transfiguradas pelo realismo social, atingiram o nível das obras
significativas.
(CANDIDO, 1987, p. 161)

Não obstante o nível mediano das primeiras obras regionalistas, essa vertente da

temática identitária, despojada da ideologia romântica de “país novo”, orientada pela

consciência dilacerada de “país subdesenvolvido”, transformaria as obras modernistas do

Regionalismo de Trinta em ícones da modernidade nordestina, como observa Heloísa Toller

Gomes (2003, p. 643-653), voltada para as variadas nuanças do modernismo brasileiro, atenta

aos seus diferentes caminhos e olhares, na reincidente busca de desvendamento de nossas

feições culturais. Essa busca, responsável pela reinvenção de nossa tradição literária, seria

efetuada tanto pela ousadia dos modernistas de São Paulo quanto pela circunspeção dos

modernistas do Nordeste, num movimento de complementaridade, como aponta Heloísa

Toller Gomes (2003, p. 646):

Na perspectiva de que a tradição auxilia a invenção literária, trataremos do texto

romanesco de Milton Hatoum, Dois irmãos, procurando observar as maneiras com as quais

esse escritor amazonense, filho de imigrantes libaneses, destribalizado e aculturado como os


caboclos amazônicos, reatualiza a temática identitária em nosso país, entrelaçada, pela via da

ficção e da memória cultural, ao drama dos descendentes dos indígenas brasileiros e ao dos

imigrantes libaneses, igualmente distantes e sequiosos de suas origens, como se vê na

narrativa, principalmente através das personagens, Nael, narrador da obra, filho de Domingas,

índia destribalizada, desconhecedor de sua origem paterna, representação máxima do drama

que nos gerou, e do libanês, Halim, que ignora a data do próprio nascimento, fato considerado

na narrativa como sina de imigrante.

Dessa reatualização de nossa tradição, vem-nos a certeza de que, longe de esgotar-se ou

arrefecer-se, o tema da identidade readquire, no início desse milênio, um novo e intenso vigor,

conservando a sua capacidade de impulsionar a produção literária e a conseqüente produção

crítica em nosso país, conforme se pode verificar, hoje, em toda a América Latina.

Filho de imigrantes libaneses, Milton Hatoum assinala a sua construção identitária do

Brasil, através da reciprocidade cultural entre o mundo árabe e o mundo de Manaus,

representado pelo elemento indígena, igualmente “emigrado” de sua aldeia, a exemplo da

índia Domingas.

Sistemática e abundante, como se processa na obra do romancista nordestino, a presença

árabe, em Milton Hatoum, também se transformaria num dos traços estruturantes mais

importantes da produção romanesca de Hatoum, freqüentando todas as suas narrativas, numa

verdadeira multidão. Desses traços, entranhados e transformados no mundo manauara,

reavivados pela memória, Hatoum criaria o seu Oriente em Manaus.

Professor de Literatura Brasileira, contista, romancista e crítico literário, Milton Hatoum

tem, desde sua estréia no universo romanesco em 1989, com a publicação do romance, Relato

de um certo Oriente, despertado a atenção e o reconhecimento de teóricos e críticos

nacionais, como Davi Arrigucci Jr., Flora Süssekind, Leila Perrone-Moisés, entre outros

importantes ensaístas brasileiros.


Leitor confesso de Graciliano Ramos, Milton Hatoum aproxima-se desse escritor pela

reafirmação da literatura como ficção, pela explicitação do trabalho com a linguagem, pelo

projeto estético comum. Como Hatoum, na atualidade, Graciliano Ramos configura sua obra

através da ruptura com o sentimentalismo, com o empirismo social, com a transparência da

linguagem, com o documentário social, pretensões que o Naturalismo pôs em circulação, na

fase da consolidação de nossas letras. Nesse sentido, torna sua obra, na década de Trinta,

numa faca amolada, como a denomina Flora Süssekind:

Não é apenas por contrapor sua série de romances à continuidade dos ciclos
que Graciliano Ramos funciona como faca amolada, como corte no modelo
romanesco dominante. Sua ameaça vai além da opção por uma obra mais
cheia de rupturas que os ciclos de Jorge Amado e José Lins do rego.
Funciona como um corte crítico na própria estética naturalista. Quando
explicita em seus romances o trabalho com a linguagem, Graciliano joga
por terra a obsessão fotográfica e documental dominante no neonaturalismo
de Trinta. Dominante tanto num Jorge Amado quanto num José Lins do
Rego [...] Graciliano foge à regra. Opõe a série ao ciclo. Uma literatura que
se afirma como ficção à obsessão fotográfico-documental do decênio de
Trinta. Uma economia expressiva, uma linguagem contida à verbosidade, à
abundância descritiva dos romancistas-modelo à época.
(SÜSSEKIND, 1984, p. 170-172 – grifos da autora)

Contrariando as tendências naturalistas, rompendo com as velhas soluções nacionalistas

do romantismo, descartando, em seu percurso ficcional, os tons pitorescos e exóticos na

configuração de seu Brasil amazonense, ignorando, enfim, as soluções estéticas românticas,

retardatárias e, ainda assim, insistentemente utilizadas na representação atual do Amazonas,

em textos restritos à circulação local, o romancista Milton Hatoum – precedido por Márcio

Souza, autor da obra, Galvez, imperador do Acre (1977) – parece querer preencher, pela via

da excelência estética, a lacuna da literatura (erudita) em solo amazonense. Carência, essa,

vivamente lamentada por Graciliano Ramos quando, no século passado, incumbido pela Casa

do Estudante do Brasil a proceder a uma seleção das narrativas mais expressivas publicadas
em nosso solo, no período compreendido entre a segunda metade do século XIX e o primeiro

quartel do século XX, declararia consternado:

Ambicionávamos fazer uma espécie de exposição das mais expressivas


histórias publicadas em um século, mas este projeto esbarrou com sérias
dificuldades. Não nos foi possível recolher e estudar a produção do interior
[...] Nada encontrei no Amazonas, em Mato-Grosso. Do resto do país vão
novidades e velharias.
(RAMOS, [s.d.], p. 16)

Como se procedesse a uma reparação do contexto literário amazonense, lamentado pelo

mestre alagoano, Milton Hatoum, num trajeto de negação e de afirmação de nossas tradições

literárias, publica, num período de quinze anos, sua trilogia sobre o Brasil caboclo,

alcançando uma enorme visibilidade, afirmando-se, assim, como um grande escritor

contemporâneo, a ponto de conquistar para sua obra o Prêmio Jabuti de melhor romance em

1989, com a narrativa, Relato de um certo Oriente, o Prêmio Jabuti de melhor romance em

2000, com Dois irmãos e, em janeiro de 2006, o Prêmio Jabuti de melhor romance em 2005 e

o Grande Prêmio da Crítica da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – com o

romance, Cinzas do Norte, publicado em outubro de 2005.

Além desses prêmios, a obra de Hatoum tem atraído o reconhecimento internacional,

tanto nos países do Oriente Médio quanto nos Estados Unidos e na Europa, onde tem

circulado em meio a um receptivo acolhimento. No Brasil, além dos críticos citados, vemos a

obra de Hatoum tornar-se, cada vez mais, objeto de nossa ensaística, dos estudos acadêmicos,

como demonstram as Monografias, as Dissertações de Mestrado, defendidas e aprovadas nos

Programas de Pós-Graduação das Universidades Federais de Brasília, de Minas Gerais e da

Universidade de Sorocaba, presentes em nossa bibliografia.

Não obstante a trilogia de Hatoum voltar-se, recorrentemente, para o mundo manauara

em seu contato com a cultura árabe, elegemos a obra Dois irmãos (2000) no intuito de
observar as maneiras e os gestos estéticos com os quais o romancista líbano-amazonense

capta as transformações históricas e étnicas na antiga morada dos índios manaós, após os

quinhentos anos de conquista e de colonização européia.

Nessa compreensão, nos voltaremos para o texto Dois irmãos numa perspectiva

interdisciplinar, que nos possibilite a apreensão da Manaus de Milton Hatoum, antiga morada

dos índios manaós; Porto de Lenha, para os imigrantes e viajantes ingleses; Vila da Barra,

para os colonizadores portugueses e Terra de Ajuricaba, para os caboclos amazônicos.

Ao publicar Dois irmãos, seu segundo romance, voltado para o mundo dos imigrantes

árabes, Milton Hatoum, valendo-se de sua prerrogativa autoral, se utilizaria de um curioso

elemento paratextual, no qual previne seu leitor de que sua obra é tão somente produto da

imaginação, um fato ficcional, portanto. Dessa forma, indica ao leitor o caráter de sua obra e,

evidentemente, o modo como lê-la: como verdade ficcional, conforme se nota na página

destinada às informações técnicas de composição do livro: Os personagens e situações desta

obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e

sobre eles não emitem opinião (HATOUM, 2000, p. 4).

Num desejo, simetricamente inverso às epigrafes e/ou notas dos autores naturalistas, a

advertência de Milton Hatoum, além de apontar para a instigante vitalidade da discussão

sobre a difícil relação entre Ficção e História, se constitui como um dado diferenciador entre a

sua escritura e a dos romancistas naturalistas que, a exemplo de Jorge Amado e Aluisio

Azevedo, insistem na perspectiva da honestidade, da verdade, mesmo com o sacrifício do

literário, em acordo com o que já expusemos nesse trabalho.

Tematizando, como Jorge Amado, a presença do imigrante árabe, num contexto

relativamente recente de nosso país, Milton Hatoum parece se preocupar com a possibilidade

de sua ficção ser lida como verdade, como ícone de autenticidade do narrado. Nessa

preocupação, tenta esvaziar, da leitura de sua obra, quaisquer analogias entre o que narra e o
vivido ou experimentado. Assim, subtrai, na advertência, o importante papel que desfruta as

memórias, no processo do fazer literário e no da sua própria ficção, como se constata da

leitura de sua narrativa. Nessa subtração, Milton Hatoum parece antecipar-se,

contraditoriamente, ao seu próprio narrador, que confere às reminiscências, às suas e às que

colhe dos variados personagens, o caráter de indispensabilidade, em seu projeto escritural.

Concebendo, implicitamente, a sua narrativa como um jogo prazeroso de lembranças e

esquecimentos, o narrador de Dois irmãos concebe as memórias como elementos

privilegiados de reinvenção da realidade, do processo de ficcionalidade, portanto.

Mas a memória inventa, mesmo quando quer ser fiel ao passado [...]
Naquela época, tentei em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras
parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas,
petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão,
acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o
tempo que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo
transforma nossos sentimentos em palavras verdadeiras [...] o jogo de
lembranças e esquecimentos – me dava prazer.
(HATOUM, 2000, p. 90; 244; 265)

Nesse exercício, Nael, o narrador de Dois irmãos, assinala a instável relação entre o

Tempo e a Memória, caracterizada, dialeticamente, pelos princípios da corrosão

(esquecimento) e o princípio da combustão (reavivamento). Assim, procede a uma implícita

alusão ao elemento predominante nas memórias poéticas de Carlos Drummond de Andrade, o

princípio da corrosão, traço considerado capital em sua memorialista, como assegura Luiz

Costa Lima, ao analisar o poema drummondiano, “Destruição”, que Hatoum escolheu como

epígrafe de sua obra:


Na verdade, este seu retrato de castelo solar apenas representa o lado da
adesão afetiva, do apego ao que, cruel, era entretanto amado. Se esta fosse a
inteireza recordada o poeta seria preso do saudosismo e assim não
alcançaria o estado de poeta maior. Mas o solar não fora isento ao tempo; o
tempo se introduz como cupim, lenta corrosão de seus alicerces e
travejamentos de que só conhecemos o resultado [...] A corrosão é assim a
figura central da poética drummondiana. Por ela tanto fala o poder que se
carcome, quanto da dissolução que se processa. Ou seja, a corrosão abarca
tanto a adesão afetiva ao espaço contra que o poeta se rebelara – sua culpa.
(LIMA, 1981, p. 172)

Trazido à narrativa como epígrafe, o poema de Drummond não apenas sinaliza para a

perspectiva de Hatoum acerca das memórias, como também para o princípio construtor,

elemento comburente, de sua tessitura memorialista, como já apontara, noutra direção, Maria

Zilda Ferreira Cury (2007, p. 84). Sorrateira e concomitantemente, indicia o seu processo

narrativo centrado no segredo e no anúncio (PERRONE-MOISÉS, 2007, p. 110), no sugerido

e no escamoteado e, muitas vezes, num silêncio que, embora sustente o interesse, confunde e

desorienta o leitor. Entre nós, esse desejo de confundir o leitor está presente tanto nas

memórias ficcionais de Machado de Assis, quanto nas memórias de Graciliano Ramos.

Para essa compreensão, concorrem o poema de Drummond, o exercício de

metalinguagem do narrador e as próprias palavras de Milton Hatoum. Este, como afirma em

entrevista concedida a Susana Scramim, publicada pela BABEL – revista de poesia, tradução

e crítica, nutriu-se largamente da memória da família, dos amigos e conhecidos para a

elaboração de seu Relato de um certo Oriente (1989), reconhecendo esse exercício, a

exemplo de seu narrador, como elemento decisivo na composição de seu discurso romanesco,

como se apreende do fragmento abaixo:

Quando comecei a escrever o Relato, a memória da família, dos amigos e


conhecidos, toda a memória da infância foi decisiva [...] Foi um alívio saber
que meus parentes não se reconheceram nas personagens do livro. Sei que
alguns deles estão lá, mas mascarados, metamorfoseados.
(HATOUM, 2000, p. 11)
Acreditamos que o recurso autoral, utilizado por Milton Hatoum, intenta, sim, o alívio

que Graciliano Ramos não encontrou quando das publicações de seus discursos

memorialistas, especialmente de Infância (1945), segundo testemunha o filho do escritor

nordestino, Ricardo Ramos, em discurso certamente conhecido pelo autor de Dois irmãos.

Testemunho esse que se refere ao processo escritural e à recepção das obras memorialistas de

Graciliano Ramos:

Não sei até que ponto foi compreendido o processo de Graciliano


memorialista. Sei que aqui e ali, com alguma freqüência, há pessoas que
estranham a colocação de figuras do Memórias do cárcere ou do Infância,
em particular quando elas são parentes do autor [...] Logo depois da
publicação de Infância, chegaram a meu pai uns ecos magoados, claro que
de parentes ou pessoas próximas. Ele se espantou, se irritou vendo que não
o entendiam [...] E concluía: “eu tenho lá problema com ninguém?
(RAMOS, 1987, p. 14-15)

Lançando mão das lembranças do vivido e da tradição literária, Milton Hatoum iniciaria

sua trajetória de romancista, elegendo como ambiente privilegiado o norte do Brasil, mais

especificamente Manaus, onde se verifica, em meio à profusão de traços indígenas, um

expressivo contingente populacional de imigrantes árabes, mais especificamente, de origem

sírio-libanesa.

Apreendida, literariamente, através de três grandes momentos históricos de importância

no Brasil, a obra de Hatoum se voltaria para a Manaus dos anos da Segunda Guerra Mundial,

marcada pela penúria e pela fome; para a Manaus dos anos Cinqüenta, caracterizada pelo

alheamento à euforia do progresso e, finalmente, para a Manaus dos anos Sessenta/Setenta,

duplamente penalizada, às voltas com o temporal político dos anos ditatoriais que nos

infelicitou e com a tempestade econômica que transfigura a cidade, irreconciliando-a com o

seu passado, conforme se afere da contraposição de Halim e do lamento, assombrado e triste

de Nael, o narrador de Dois irmãos:


O pai reclamava que a cidade estava inundada, que havia correria e
confusão no centro, que a Cidade Flutuante estava cercada por militares [...]
“Eles estão por toda parte”, disse abraçando o filho. “Até nas árvores dos
terrenos baldios a gente vê uma penca de soldados...” “É que os terrenos do
centro pedem para ser comprados”, sorriu Yaqub. “Manaus está pronta para
crescer.” Halim enxugou o rosto, olhou nos olhos do filho e disse sem
entusiasmo: – “Eu peço outra coisa, Yaqub... Já cresci tudo o que tinha de
crescer...”.
(HATOUM, 2000, p. 196)

Eu acabara de dar a minha primeira aula no liceu onde havia estudado e vim
a pé para cá, sob a chuva, observando as valetas que dragavam o lixo, os
leprosos amontoados, encolhidos debaixo dos outizeiros. Olhava com
assombro e tristeza a cidade que se mutilava e crescia ao mesmo tempo,
afastada do porto e do rio, irreconciliável com o seu passado.
(HATOUM, 2000, p. 264)

Ao se debruçar sobre esse último momento histórico, Milton Hatoum expressa uma

enorme discordância com a ideologia do progresso, representada, recorrentemente, pelos

traços da perda, da desordem, do constrangimento, responsável pela presença volumosa e

incômoda de “estrangeiros” e de imigrantes interioranos, pela azáfama que se instaura em

Manaus, desfigurando-a e descaracterizando-a, como afirmam Omar, o Caçula, e Nael, este ao

explicar a que se devia a presença do indiano Rochiram, denominado, tanto por Zana, quanto

por Domingas, de estrangeiro:

O Caçula acordava, ela ouvia as histórias dele. O Café Mocambo fechara, a


praça das Acácias estava virando um bazar. Sozinho à mesa, ele ia contando
suas andanças pela cidade. A novidade mais triste de todas: o Verônica,
lupanar lilás, também fora fechado. “Manaus está cheia de estrangeiros,
mama. Indianos, coreanos, chineses... O centro virou um formigueiro de
gente do interior... Tudo está mudando em Manaus.”
(HATOUM, 2000, p. 223)

Ouvira dizer que Manaus crescia muito, com suas indústrias e seu comércio.
Viu a cidade agitada, os painéis luminosos com letreiros em inglês, chinês e
japonês. Percebeu que sua intuição não falhara. Quando Zana não
compreendia a algaravia de Rochiram, ela perguntava ao filho: ‘O que esse
estrangeiro está querendo dizer?” [...] Domingas não se sentia à vontade
com aquele estrangeiro, mais estranho do que todos nós juntos. Ela me
dizia.
(HATOUM, 2000, p. 226-227)

Nesse sentido, a narrativa de Milton Hatoum se afasta do discurso romanesco de Jorge

Amado, não obstante a temática comum – a aclimatação árabe em solo nacional – que os

aproxima. A perspectiva ideológica amadiana, de civilização e progresso, que alimenta

Gabriela, cravo e canela é, em Milton Hatoum, explicitamente problematizada, recusada por

seus vários personagens. A esse afastamento do projeto ideológico amadiano se somaria

também a recusa e o distanciamento da perspectiva literária adotada pelo escritor baiano, no

caso o Naturalismo, como já foi referido em passagem anterior.

O afastamento ideológico da obra de Jorge Amado conduziria Milton Hatoum à

aproximação com Graciliano Ramos. Este, em meio às variadas elaborações modernistas,

otimistas e ansiosas de progresso, se constitui como um fato isolado, como ressalta Silviano

Santiago, ao proceder a um balanço inicial sobre o nosso Modernismo:

Eu acho que é porque Graciliano Ramos, de todos os autores modernistas,


foi o único que não esteve comprometido com o projeto de modernização
do Brasil. Acho que a impiedade do balanço vai ser em demonstrar que
todos estavam, mais ou menos, comprometidos com o projeto de
modernização do Brasil, todos tinham uma mente desenvolvimentista, em
todos a necessidade de atualização era capital e todos queriam fazer com
que o Brasil entrasse na História, e numa História que seria pura
industrialização.
(SANTIAGO, 1987, p. 422-423)

As afinidades pontuadas entre Milton Hatoum e Graciliano Ramos se devem,

essencialmente, ao fato do escritor manauara, a exemplo do romancista nordestino, construir,

através do apuro e do rigor da técnica narrativa, a sua novelística. Esse cuidado com a técnica

narrativa, que tem no contexto regionalista de Trinta, em Graciliano Ramos o seu precursor,

se matiza após esse período, propiciando o aparecimento de Guimarães Rosa. Para Antonio
Candido, o criador de Diadorim seria tributário dessas obras de refinamento do Regionalismo,

às quais denomina de super-regionalismo.

Levando em consideração as observações de Antonio Candido sobre a trajetória do

regionalismo no Brasil e na América Latina, como também as reflexões de Tânia Pellegrini

sobre o regionalismo de Milton Hatoum, acreditamos que o autor de Dois irmãos pode ser

incluído na linhagem desse super-regionalismo que, como acentua Candido, ao estilizar o

regional, alcança a universalidade:

O que vemos agora, sob este aspecto, é uma florada novelística marcada
pelo refinamento técnico, graças ao qual as regiões se transfiguram e os
seus contornos humanos se subvertem, levando os traços antes pitorescos a
se descarnarem e a adquirirem universalidade. Descartando o
sentimentalismo e a retórica; nutrida de elementos não-realistas, como o
absurdo, a magia das situações; ou de técnicas antinaturalistas, como o
monólogo interior, a visão simultânea, o escorço, a elipse – ela implica não
obstante em aproveitamento do que antes era a própria substância do
nativismo, do exotismo e do documentário social. Isto levaria a propor a
distinção de uma terceira fase, que se poderia (pensando em surrealismo, ou
super-realismo) chamar de super-regionalista [...] Desse super-regionalismo
é tributária, no Brasil, a obra revolucionária de Guimarães Rosa,
solidamente plantada no que poderia chamar de a universalidade da região.
E o fato de estarem ultrapassados o pitoresco e o documentário não torna
menos viva a presença da região em obras como as de Juan Rulfo.
(CANDIDO, 1987, p. 161-162 – grifos do autor)

Esse regionalismo revisitado de Hatoum consiste, portanto, numa mescla de


elementos que brotam de todos os matizes de uma matéria dada por uma
região específica, com outros advindos de matrizes narrativas de inspiração
européia e urbana, formadoras da nossa literatura, tudo filtrado por um olhar
que contém horizontes perdidos num certo Oriente e num outro tempo. Com
isso o autor revitaliza o gênero, num momento da história da ficção
brasileira em que ele parecia aos poucos estar se esgotando. Talvez essa seja
a chave para entender a repercussão que a ficção de Hatoum encontrou:
dentro da estrutura geral da sociedade brasileira, o seu regionalismo ainda
tem o papel de acentuar as particularidades culturais que se forjaram nas
áreas internas, contribuindo para definir sua outridade, ao mesmo tempo
que as reinsere no seio da cultura nacional como um todo, por meio de sua
temática universal.
(PELLEGRINI, 2007, p. 107-108 – grifos da autora)
Não obstante a nova inflexão que empresta ao romance regional, da catalisação dos

diversos elementos que compunham essa modalidade estética e da expressa diferença entre a

sua perspectiva literária e a de Jorge Amado, Milton Hatoum ora se avizinharia, ora se

afastaria do escritor grapiúna, precursor, entre nós, da sistêmica e larga freqüentação árabe no

romance brasileiro, que regressaria à nossa literatura através de Hatoum.

Como Jorge Amado que projeta, em 1948, a história de Ilhéus na literatura, Hatoum

também alinharia o percurso histórico de Manaus, em sua obra, no alvorecer desse milênio.

Sem a premissa básica de Jorge Amado de escrever para o povo, Milton Hatoum, a exemplo

de Amado, também marcaria sua narrativa pela pluralidade lingüística, pela formidável

multiplicidade de vozes, constituindo-se como uma verdadeira polifonia que contempla os

coloquialismos regionais e assegura o tom de oralidade das obras, enquanto garante a

presença dos mais variados tipos étnico-sociais, historicamente silenciados, conforme se

observa na apreciação de Stefania Chiarelli, ao analisar a primeira obra de Hatoum.

No romance de Hatoum, muitas falas historicamente silenciadas serão


articuladas: faz-se presente, na narração, a união dos retalhos de diferentes
memórias, espécie de tapete persa tecido por vozes indígenas, amazônicas,
árabes, brasileiras. Estão presentes terapias da fauna amazônica, trechos
d’As mil e uma noites, lembranças de rituais indígenas, passagens do
Alcorão, orações em nheengatu.
(CHIARELLI, 2007, p. 39)

Aos coloquialismos regionais se juntam, nas obras estudadas, à notória presença de

outros signos literários da literatura universal e local. Em Jorge Amado, Zola, Aluisio

Azevedo e às alusões à literatura indianista. Em Hatoum, As mil e umas noites, tessituras

ocidentais e, também, a mesma vaga referência aos textos nativistas, como se vê na menção

de Halim ao poema indianista, “Leito de folhas verdes”, de Gonçalves Dias, quando recorda,
em conversa com Nael, os bons e velhos tempos de amor com Zana, antes da chegada dos

filhos:

“Ali mesmo, debaixo da seringueira” apontou com o indicador da mão


enrugada, mas firme: “Era o nosso leito de folhas. Dava uma coceira
danada, porque aquele canto do mato era cheio de urtigas. Foi assim até o
nascimento dos gêmeos”.
(HATOUM, 2000, p. 69)

Narrativas de nação, as obras Gabriela, cravo e canela e Dois irmãos entranham às

suas letras uma profusão de gostos e sabores que, aliados à multiplicidade lingüística, reforça,

na obra de Amado, e reencena, na obra de Hatoum, um dos princípios mais caros aos

romancistas do Nordeste, o da ruptura da oposição entre os traços culturais do interior

brasileiro e os padrões culturais do litoral, estes subtendidos como “civilizados”, como se

apreende da leitura de Candido:

Talvez se possa dizer que os romancistas da geração de Trinta, de certo


modo, inauguraram o romance brasileiro, porque tentaram resolver a grande
contradição que caracteriza a nossa cultura, a saber, a oposição entre as
estruturas civilizadas do litoral e as camadas humanas que povoam o
interior – entendendo-se por litoral e interior menos as regiões
geograficamente correspondentes do que os tipos de existência, os padrões
de cultura comumente subtendidos em tais designações [...] Ora,
precedendo a obra de políticos, dos economistas, dos educadores, a
literatura, a seu modo, colocou primeiro e encaminhou em seguida a
solução do problema.
(CANDIDO, 1992, p. 45)

Reconhecendo que as diferenças, de ambiente histórico, de contexto escritural e de

perspectiva literária, verificadas entre Jorge Amado e Milton Hatoum, não abolem traços

pontuais de convergência entre os dois autores, procedemos, no momento a seguir, um cotejo

entre as configurações árabes de Gabriela, cravo e canela e as Dois irmãos. Assim, fazendo-

nos acompanhar com Nacib e Halim, adentraremos no universo árabe que povoa a obra de

Jorge Amado e a de Milton Hatoum.


3.2 NACIB E HALIM: OS ÁRABES NO BRASIL

O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos


sente o desejo de uma cidade [...] Na praça, há o murinho
dos velhos que vêem a juventude passar, ele está sentado
ao lado deles. Os desejos agora são recordações.

Ítalo Calvino

Levando em consideração a orientação histórica que norteia esse trabalho, faremos uma

leitura das similaridades entre as representações árabes do escritor baiano e as do escritor

nortista, respeitando a precedência histórico-literária de Jorge Amado, em sua escritura do

protagonismo árabe. Assim, nos faremos acompanhar de Nacib e de Halim, caminho

escolhido para adentrarmos no universo escritural de Amado e de Milton Hatoum.

Em 1958, surge, na literatura brasileira, o personagem árabe Nacib que dividiria o

protagonismo da narrativa, Gabriela, cravo e canela, com a personagem que dá título à obra,

representada ora como mulata, ora como sertaneja tangida pela seca, para o sul da Bahia,

espaço esse, que seria representado em plena adversidade ao de onde migrara Gabriela para o

seu encontro com Nacib. Desse encontro, se formaria o par amoroso central da narrativa

amadiana, conquistando uma ampla simpatia dos inúmeros leitores de Jorge Amado:

Naquele ano de 1925, quando floresceu o idílio da mulata Gabriela e do


árabe Nacib, a estação das chuvas tanto se prolongara além do normal e
necessário que os fazendeiros, como um bando assustado, cruzavam-se na
rua a perguntar uns aos outros, o medo no olhar e na voz: – Será que não vai
parar?
(AMADO, 1979 1, p. 15)
Precedido, na obra de Amado, de uma ampla galeria de retratos árabes, Nacib se

constitui como o primeiro personagem árabe a desfrutar do protagonismo literário em nossas

letras. Quarenta e dois anos depois, surge a obra Dois irmãos, de Milton Hatoum, na qual

vamos encontrar o personagem Halim, desfrutante, como Nacib, do protagonismo literário.

À maneira de Jorge Amado, Hatoum entrelaçaria à narração da trajetória de Halim,

patriarca de uma família sírio-libanês-brasileira, o próprio percurso histórico da cidade de

Manaus, aprendida em perspectiva antagônica, não obstante simétrica, da prosa de Jorge

Amado. Se, em Hatoum, as transformações pelas quais passam Manaus são representadas

pelos signos da contrariedade e da desolação, em Amado, Ilhéus se irreconcilia com o seu

passado pela via da positividade:

Uma noite que ele escapara [Halim] logo depois da sesta eu o encontrei na
beira do rio Negro. Estava ao lado do compadre Pocu, cercado de
pescadores, peixeiros, barqueiros e mascateiros. Assistiam, atônitos, à
demolição da Cidade Flutuante. Os moradores xingavam os demolidores,
não queriam morar longe do pequeno porto, longe do rio. Halim balançava
a cabeça, revoltado, vendo todas aquelas casinhas serem derrubadas. Erguia
a bengala e soltava uns palavrões, gritava “Por que estão fazendo isso? Não
vamos deixar, não vamos”, mas os policiais impediam a entrada no bairro.
Ele ficou engasgado, e começou a chorar quando viu a taberna e o seu bar
predileto [...] Depois da morte de Halim, a casa começou a desmoronar.
(HATOUM, 2000, p. 211; 220)

Havia um ar de prosperidade em toda parte, um vertiginoso crescimento.


Abriam-se ruas para o lado do mar e dos morros, nasciam jardins e praças,
construíam-se casas, sobrados, palacetes. Os aluguéis subiam, no centro
comercial atingiam preços absurdos. Bancos do sul abriam agências, o
Banco do Brasil edificara prédio novo, de quatro andares, uma beleza. A
cidade ia perdendo, a cada dia, aquele ar de acampamento guerreiro que a
caracterizava [...] Seu tema foi a civilização e progresso. Pela primeira vez,
na história de Ilhéus, um coronel do cacau viu-se condenado à prisão por
haver assassinado esposa adúltera e seu amante.
(AMADO, 1979 1, p. 20-21; 358)

Elaborada a partir da modalidade literária regionalista, marcada pela perspectiva

histórica e pelo amplo povoamento e centralidade dos personagens árabes, a narrativa de

Hatoum também adotaria a visão social em seu recorte identitário, num processo
interacionista, que Tânia Pellegrini chamaria de transculturalismo, num evidente apoio à

denominação criada por Angel Rama:

Nos textos em questão [Dois irmãos e Relato de um certo Oriente], a busca


da identidade corresponde à histórica busca da expressão nacional que
sempre orientou a ficção brasileira, pois, além da experiência compartilhada
da desigualdade – mais que o essencialismo desta ou daquela identidade –,
elabora-se sobre uma dupla comprovação: de um lado registra que a cultura
presente na comunidade manauara, em permanente mutação, compõe-se de
valores particulares, historicamente elaborados; são os elementos indígenas,
os mestiços e os resultantes dos vários fluxos migratórios; de outro,
corrobora a energia criadora que move essa cultura, fazendo-a muito mais
que um simples conjunto de normas, comportamentos, crenças, culinária e
objetos, pois trata-se de uma força que atua com desenvoltura, criando
nexos profundos e originais no interior das narrativas. Tem-se, pois, o que
Rama chama transculturação.
(PELLEGRINI, 2007, p. 108 – grifos da autora)

Nesse caminho, Tânia Pellegrini terminaria por descartar a perspectiva multiculturalista

como ângulo de orientação da narrativa de Hatoum, vendo em suas apreensões identitárias,

certo comprometimento com as perspectivas ideológicas do mercado capitalista, conforme

pondera a seguir:

Não por acaso, portanto, o que emana do discurso com mais contundência é
o sentido da busca de identidade; manauara, brasileira, libanesa ou tudo isso
ao mesmo tempo, expressa sobretudo na figura do narrador. Não se trata
aqui de uma relação com a que se tem denominado multiculturalismo; este,
na verdade, parece expressar o desejo e a possibilidade de integração de
setores de grupos social e economicamente subalternos ao mercado do
capitalista, por meio de uma representação apenas formal das identidades,
que se dão a conhecer como uma mercadoria entre outras.
(PELLEGRINI, 2007, p. 108 – grifos da autora)

De acentuado tom oral, a narrativa de Milton Hatoum caracteriza pela mistura

simultânea de vários sons, democraticamente elaborada, numa visível polifonia em que os

tons regionais se conjugam com as vozes estrangeiras, num manifesto borburinho de vozes

que a aproxima da prosa de Amado. Nesse plurilinguísmo, à língua árabe, algavarias do

desejo, como recita Halim, caberia o papel discursivo da mediação amorosa entre Halim e
Zana; entre Nacib e Gabriela; é língua de amor nas duas narrativas que sabemos funcionar

também como resistência à integração:

Ela [Zana] leu os versos e entregou o envelope ao pai, dizendo-lhe: “Aquele


mascateiro esqueceu esse papel na mesa dele” [...] Riu soluçando,
engasgada, dizendo que tinha pensado em jogar fora aquela folha de papel,
mas a curiosidade foi maior que a apatia, maior que o desdém e a
indiferença. Ainda bem que leu: como teria sido a vida dela sem aquelas
palavras? Os sons, o ritmo, as rimas dos gazais. E tudo o que nasce dessa
mistura: as imagens, as visões, o encantamento, Jade e eternidade, alcova e
amorosa, aroma e esperança. Ela espremia os lábios, recitava, curvando-se
sobre o marido morto.
(HATOUM, 2000, p. 220)

Gabriela o puxou para si, mergulhando-o nos seios. Nacib murmurou: Bié...
E em sua língua de amor, que era o árabe, lhe disse a tomá-la: “De hoje em
diante és Bié e essa é a tua cama, aqui dormirás. Cozinheira não és apesar
de cozinhares. És a mulher desta casa, o raio de sol, a luz do luar, o canto
dos pássaros. Te chamas Bié... – Bié é nome de gringa? Me chame Bié, fale
mais nessa língua... gosto de ouvir [..] Bié, gostava do nome.
(AMADO, 1979 1, p. 202-203)

Perpassadas pelos mais variados idílios amorosos, as narrativas de Amado e de Hatoum

privilegiam a temática amorosa, envolta numa acentuada sensualidade, que caracteriza o

pendor amoroso dos protagonistas, igualmente representados como românticos, pelos seus

narradores:

Coração romântico, as histórias terríveis que ele contava nada significavam.


Nem o revólver que conduzia no cinto como todo homem em Ilhéus,
naquele tempo. Hábitos da terra [...] Ia ao cabaré com Nhô-Galo, dormia
com Mara, com outras também. Com Gabriela: todas as vezes que não tinha
mulher e chegava em casa sem cansaço e sem sono. Mais com ela, talvez,
do que com as outras. Porque nenhuma se lhe comparava, tão fogosa e
úmida, tão louca na cama, tão doce no amor, tão nascida para aquilo. Chão
onde estava plantado. Adormecia Nacib com a perna passada sobre sua anca
redonda.
(AMADO, 1979 1, p. 355)
Um romântico tardio, um tanto deslocado ou anacrônico, alheio às
aparências poderosas que o ouro e o roubo propiciam. Talvez pudesse ter
sido poeta, um flâneur da província; não passou de um modesto negociante
possuído de fervor passional [...] Mas era um demônio na cama e na rede.
Ele me contou cenas de amor com a maior naturalidade, a voz pastosa,
pausada, a expressão libidinosa no rosto estriado, molhado de suor,
molhado pelas lembranças das noites, tardes e manhãs em que os dois se
enrolavam na rede, o leito preferido do amor, ali onde os poderes de Zana
se desmanchavam em melopéia de gozo e riso. “Algavarias do desejo”,
repetia Halim, citando as palavras de Abbas. Com o tempo, ela acabou por
se acostumar com os dois corpos acasalados, escandalosos, que não tinham
hora nem lugar para o encontro. Nas manhãs de domingo Zana resistia aos
galanteios de Halim e corria para a igreja Nossa Senhora dos Remédios.
Mas ao regressar a casa, com a alma pura e o gosto da hóstia no céu da
boca, Halim a erguia na soleira da porta e subia a escada carregando-a no
colo. E, enquanto subia, deixava as alpercatas e o roupão nos degraus, e
mais os sapatos, as meias, as anáguas e o vestido dela, de modo que
entravam quase nus na alcova aromada por orquídeas brancas. “Por Deus,
nunca pude levar a sério o comércio”, disse ele, num tom de falso lamento.
“Não tinha tempo nem cabeça para isso. Sei que fui displicente nos
negócios, mas é que exagerava nas coisas do amor.”
(HATOUM, 2000, p. 52-54; 65)

Representada como canal lingüístico da emoção, como se verifica em Amado e Hatoum,

a língua árabe, além de mediar o convívio amoroso entre os personagens, também

desempenha o papel desencadeador das lembranças de si, o que Hall denomina de núcleo ou

essência interior, embora em contínua formação e modificação com os mundos culturais

“exteriores” (HALL, 2001, p. 11), como se vê sugerido nas narrativas:

E, por mais espantoso que pareça, naqueles dias vibrantes do comício, no


maior deles, quando dr. Ezequiel bateu todos os seus recordes anteriores de
cachaça e inspiração, Nacib pronunciou um discurso. Deu-lhe uma coisa
por dentro, depois de ouvir Ezequiel. Não agüentou, pediu a palavra. Foi
um sucesso sem precedentes, sobretudo porque, tendo começado em
português e faltando-lhe as palavras bonitas, pescadas dificilmente na
memória, ele terminou em árabe, num rolar de vocábulos sucedendo-se em
impressionante rapidez. Os aplausos não findavam. – Foi o discurso mais
sincero e mais inspirado de toda a campanha – classificou João Fulgêncio.
(AMADO, 1979 1, p. 327)

Às vezes ele se esquecia e falava em árabe. Eu sorria, fazendo-lhe um gesto


de incompreensão: “É bonito, mas não sei o que o senhor está dizendo”. Ele
dava um tapinha na testa, murmurava: “É a velhice, a gente não escolhe a
língua na velhice. Mas tu podes aprender umas palavrinhas querido [...]
Numa noite, o tal de Zunuri reapareceu, intruso e dissimulado. Ela o
enxotou com o abanador do fogareiro, insultou-o nas duas línguas que
falava. O gatuno alesado, o ladrão, harami! [...] Zana deu um passo na
direção dele, perguntou por que dormira no sofá. Depois, menos trêmula,
conseguiu iluminar seu corpo e ainda teve coragem de fazer mais uma
pergunta: por que tinha chegado tão tarde? Então com o sotaque árabe,
ajoelhada gritou o nome dele, já lhe tocando o rosto com as duas mãos.
Halim não respondeu. Estava quieto como nunca. Calado, para sempre.
(HATOUM, 2000, p. 51; 146; 213)

Em suas construções identitárias, os discursos de Jorge Amado e de Milton Hatoum,

num sinestésico apelo aos sentidos, exalam cheiros, sugerem sabores, se apresentando como

um mosaico alimentar, duplamente dirigido para o paladar de origem e para o paladar da terra

adotada, num saboroso jogo de retorno e de permanência. Desse jogo, deriva mais uma

afinidade entre os árabes Nacib e Halim:

A viagem de Filomena [...] impedia-o de voltar-se por inteiro para as


múltiplas novidades, tanta coisa a comentar quando os amigos chegassem.
Novidades a granel e na opinião de Nacib, nada mais gostoso – só mesmo
comida e mulher [...] Ele gostava mesmo era de comer bem, bons pratos
apimentados, beber sua cerveja geladinha, jogar uma apurada partida de
gamão.
(AMADO, 1979 1, p. 77; 116)

Mas ele foi aprendendo, soletrando, cantando as palavras, até que os sons
dos nossos peixes, plantas e frutas, todo aquele tupi esquecido, não
embolava mais na sua boca [...] Ele era assim: não tinha pressa para nada,
nem para falar [...] esbanjava na comida, nos presentes para Zana, nas
vontades dos filhos. Convidava os amigos para partidas de gamão, o taule,
e era uma festa, noitadas de grande demora, cheias de comilança [...] Ele
preparou e serviu o último almoço [...] Ele festejava a volta cozinhando
acepipes amazônicos: o piracu seco com farofa, tortas de castanhas, coisas
que levava do Amazonas [...]
(HATOUM, 2000, p. 51-56)

Avizinhando-se da obra de Jorge Amado, tangenciando Gabriela, cravo e canela,

curiosamente, o romance de Hatoum se achegaria a essa personagem, quando se debruça

sobre o destino/sina do imigrante. Nessa ponderação, verbalizada por Halim, encontramos a

mesma condição vivida pela imigrante do sertão:


Estava envelhecendo, o Halim: uns setenta e tantos, quase oitenta, nem ele
sabia o dia e o ano do nascimento. Dizia: Nasci no fim do século passado,
em algum dia de janeiro... “A vantagem é que vou envelhecendo sem saber
minha idade: sina de imigrante”.
(HATOUM, 2000, p. 151)

Eu me lembro que, quando você me anunciou o casamento, contou que ela


não sabia o nome da família, nem data do nascimento... – Nada. Não sabia
nada... – E Tonico se ofereceu para arranjar os papéis necessários. –
Fabricou tudo no cartório dele. – E então?
(AMADO, 1979 1, p. 311)

Em sua representação árabe no Brasil, observa-se que o romance Dois irmãos não

apenas estabelece um diálogo com Gabriela, cravo e canela, como, também, adota soluções

já utilizadas, em outras obras amadianas. Ao assinalar a fé árabe no sistema sagrado dos

caboclos amazônicos, Hatoum o aproximaria de uma das recorrências das narrativas de

Amado, a da fé e do respeito árabe, ao código religioso popular, especialmente de matizes

originadas das etnias não-européias, como se afere da passagem textual da narrativa, Suor,

escrita em 1934, um dos primeiros romances de Jorge Amado:

A negra ficou sentada no degrau. O medo abriu-lhe os olhos. Seria pra ela?
Não tinha inimigos, não roubara o marido de ninguém, estava velha demais
para ser cobiçada. De qualquer maneiram não passaria sobre o despacho.
[...] Toufik juntou-se à negra: – Bom dia, sinhá Maria. – Bom dia, meu
branco. – Não vai descer? Ela esticou o dedo apontando o embrulho de
papel de jornal. Toufik assobiou. – Um feitiço, puxa! Pra quem será? O
árabe também acreditava.
(AMADO, 1980, p. 68-69)

Halim nunca me falou da morte, senão uma única vez, com disfarce,
triscando as beiradas do assunto. Falou quando já se sentia perto do fim, uns
anos depois da história do filho com a Pau-Mulato. Ele não viu o pior, o
descalabro. Não viu, mas era dado a apreciar presságios: as tantas
antevisões que escutara dos caboclos companheiros dele, filhos da mata e
da solidão. Tinha tendência a crer piamente nessas histórias, e se deixava
embalar pela trama, pela magia das palavras.
(HATOUM, 2000, p. 148)
Também não se pode esquecer-se do tom incestuoso que perpassa a relação entre mãe e

filho árabe, no caso Zana e Omar, largamente insinuado na narrativa de Hatoum. Embora

mais abrandado, leve indício do desejo filial, esse tom se faria presente, originalmente, na

obra de Jorge Amado, mais precisamente em Suor:

Ficaram juntos, os braços dela enroscados no pescoço do Caçula, ambos


entregues a uma cumplicidade que provocou ciúmes em Yaqub e
inquietação em Halim [...] Ao contrário de Zana, ela conseguia disfarçar o
ciúme que sentia do Caçula e ambas faziam tudo para reinar nas noites de
festa [...] Beijou-a com ardor, e nesse momento Zana lagrimou, em parte
por emoção, em parte porque o Caçula, depois do beijo, apresentava-lhe a
namorada. Dessa vez ela não quis disfarçar: encarou com um sorriso dócil e
um olhar de desprezo a mulher que jamais seria a esposa de seu filho, a
rival derrotada de antemão.
(HATOUM, 2000, p. 26; 98-98)

O calor da noite não o deixava dormir, excitava-o. Levantou-se e molhou a


cabeça na pia de água do sótão. Cuspiu e voltou. Notou que a mãe estava
com as coxas descobertas. Primeiro, horrorizou-se. Depois não pensou mais
naquilo e se deitou junto da velha. Encostou-se nas pernas descobertas,
como fazia diariamente, mas nessa noite quase não dormiu, roçando-se na
mãe que roncava.
(AMADO, 1980, p. 57)

Como se pode verificar, a importância da obra de Jorge Amado não se constitui apenas

pelo recorte espacial do seu discurso romanesco, à produção de “postais da Bahia, como ainda

a reduz, variadas visões críticas. Dento da concepção estética que escolheu, Jorge Amado se

faz pioneiro de um modo de olhar o imigrante árabe que não cessa de se reatualizar, em nosso

corpus literário. Parafraseando Lúcia Lippi Oliveira, acreditamos que o escritor nordestino,

ultrapassando a perspectiva puramente regionalista, pode ser considerado como romancista e

como intelectual que soube ler, literariamente, o seu país e o seu tempo, nos legando uma obra

que ainda espera ser reconhecida.


CONCLUSÃO

Deu aula de português, até traduziu [Milton Hatoum]


Jorge Amado.
Daniel Piza
JORGE AMADO E MILTON HATOUM: SIMETRIAS E ASSIMETRIAS

O pintor de costumes que não se ocupe da América não é


incompleto, por enquanto. Mas daqui a cem anos – talvez
cinqüenta – ele certamente o será.

Henry James

Acostados à visão de Antonio Candido de que a nossa literatura se constitui como um

sistema, abrigando em seu interior determinados comportamentos e soluções estéticas que se

repetem ao longo de nosso fazer literário, nos voltamos para a representação árabe em nossa

literatura, tentando apreender as formas com as quais os nossos literatos representam esse

universo. Utilizando-nos da perspectiva histórica e comparada, dividimos este trabalho em

três momentos.

No primeiro, buscamos, essencialmente, verificar a presença árabe em nossa literatura,

através dos mais variados momentos literários, alcançando, inclusive, o contexto literário do

mundo colonial. Para, então, chegarmos à conclusão de que a presença árabe se constitui num

topoi, grandemente utilizado em nossa produção poética e narrativa. Verificamos, ainda, que à

exceção do satírico Gregório de Matos, que representa o universo árabe em estreita ligação

com o mundo indígena, os nossos poetas e romancistas representam o elemento árabe em

pleno olhar de proximidade, auto-reconhecimento, como Manuel Bandeira, e solidariedade,

como Machado de Assis.

Num segundo momento, procuramos observar a representação árabe na literatura

brasileira, através de um enfoque mais restrito, o da temática identitária. Levando em


consideração a ostensiva presença árabe na obra de Jorge Amado em meio às suas

elaborações da identidade nacional, nos voltamos para a narrativa, Gabriela, cravo e canela,

primeira obra romanesca brasileira a elevar o elemento árabe à personagem-protagonista.

Nessa leitura, verificamos, com surpresa que, não obstante a crítica desfavorável que padece a

obra amadiana em nosso meio, principalmente a obra analisada, Jorge Amado, em sua

perspectiva naturalista, revisitaria alguns grandes autores do Brasil, de perspectiva

diferenciada da sua, como o discurso dos romancistas românticos e o de Machado de Assis.

Por outro lado, observamos, ainda, que os procedimentos utilizados por Jorge Amado, em sua

aproximação identitária árabe-brasileira, seriam, em larga medida, retomados por muitos dos

nossos escritores, a exemplo de Milton Hatoum, cuja obra tangencia o romance amadiano,

apesar do vácuo, de quase cinqüenta anos que as separa, da concepção artística e da visão

memorialista que norteiam Milton Hatoum.

Terceiro momento de nosso trabalho, a leitura da obra Dois irmãos, de Milton Hatoum

se daria em estreita comparação com o discurso amadiano, respeitando a precedência histórica

e literária do escritor nordestino. Nessa leitura mais uma surpresa. Apesar das diferenças

assinaladas entre os dois romancistas, do sucesso da obra de Hatoum em nosso meio

acadêmico, a obra do escritor amazonense se aproximaria da de Jorge Amado pela recorrência

às maneiras pelas quais o escritor grapiúna constrói a identidade brasileira em intercurso com

as feições árabes. Nessa compreensão, Jorge Amado pode e deve ser visto como pioneiro

dessas construções identitárias.

Nesse percurso, organizamos esse trabalho, esperando contribuir para os estudos

lierário-identitários entre nós, mais especialmente das representações árabes e brasileiras, em

nosso sistema literário.


REFERÊNCIAS

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