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Gideon de Souza Monteiro ​−​ 1365709

História do Brasil II

O século XIX foi marcado por mudanças fundamentais no âmbito da economia com
a consolidação capitalista e por mudanças políticas importantes, decorrentes de
novos arranjamentos nacionais, tendo por exemplo dessas modificações as
independências das colônias americanas das respectivas metrópoles europeias.
Porém, no percurso histórico desse século, o trabalho escravo promovido pelo
abastecimento do tráfico de africanos escravizados teve um aumento exponencial,
contrapondo então os debates abolicionistas geralmente encabeçados pelos
ingleses.
Em território brasileiro, durante a primeira metade dos oitocentos, o tráfico de
africanos escravizados foi proliferado exacerbadamente, mesmo após a aprovação
da lei de 7 de novembro de 1831, que previa a ilegalidade do tráfico. A lei posta em
letras e praticamente nula em ações coincidiu com a expansão da economia
cafeeira durante o império. A cumplicidade das autoridades com o tráfico ou a
negligência dos mesmos com a lei possibilitou que cerca de 42% do total de
africanos destinados ao Brasil, por meio do comércio negreiro, se desse nos
primeiros 50 anos do século XIX.
A alta car​g​a quantitativa do tráfico nas primeiras décadas dos oitocentos não
esteve livre de discussão, sendo algumas favoráveis à perpetuação e conservação
do escravismo e consequentemente de seu tráfico, como também discursos
antagônicos à prática escravista, mais alinhados ao debate abolicionista.
O historiador Sidney ​Chalhoub destaca em seu texto acerca do escravismo, as
posições defendidas por duas figuras antagônicas: Domingos Barreto e José
Bonifácio.
Domingos Barreto, em texto nomeado de “Memória sobre a abolição do comércio
da escravatura” publicado em 1837, anos após sua escritura, defende a
escravização debitando perante os africanos do continente a imputação da condição
de escravo a aquele e aquelas que cometeram delitos, tendo por punição a
escravização. Para fundamentar seus argumentos, buscava exemplos até no plano
legislativo romano. Barreto radicalizou sua posição a afirmar que a escravidão partir
do foro interno de cada nação, não dependendo de aprovação externa para se
legitimar. Era, portanto, lícito o tráfico por não decorrer de pirataria e a escravidão
serveria, ao ver de Barreto, como “salvação” aos africanos pois promoveria a
cristandade aos negros pagãos.
Em contrapartida, José Bonifácio, em texto produzido para ser apresentado durante
a não ocorrida constituinte de 1923, considerou a humanidade dos escravizados,
associando a eles o direito à liberdade. O reconhecimento da humanidade dos
negros submetidos a violencia da escravização estabeleceu o distanciamento da
ideia de objeto/propriedade associada ao pensamento e a economia escravocrata.
Bonifacio prossegue questionando as afirmativas dos “carniceiros” responsáveis
pelo tráfico, buscando desmantelar as prerrogativas que alegavam ser benéfico a
retirada dos africanos do solo natal, e a perpetuação da condição de escravos para
seus descendentes nascidos em território imperial brasileiro. Os esforços
abolicionistas de Bonifácio, entretanto, não foram atendidos. As forças escravistas
foram perpetuadas durante grande parte do século XIX, formando assim a imersão
no "segundo escravismo”.