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METODISMO

Categoria: Discipulado

Copyright @ Angular Editora, 2018

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Departamento Editorial da Igreja Metodista - Angular Editora.

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do Código Penal e Lei 9610, de 19 de fevereiro de 1998.

Secretária Editorial:
Joana D 'Are Meireles

Editor:
Emilio Fernandes Junior

Capa, projeto gráfico e diagramação:


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Revisão:
Mauren Julião

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

T689m

Torres, Hideide Brito


Metodismo origem, desenvolvimento e estratégia / Hideide Brito Torres,
led. São Paulo, SP: Angular Editora, 2018.
96 p.
978-85-8046-064-3
1. Religião 2. Tempos, Lugares e Práticas Religiosas 3. Missão I. Titulo

200 CDD
263/266 CDU

CDU Edição-Padrão Internacional em Língua Portuguesa, 1997.

Esta obra tem como base a revista Em Marcha METODISMO: Origem e Desenvolvimento, publicada em
1999 - 2° quadrimestre, através da Coordenação Nacional de Ação Docente, para Adultos das Escolas
Dominicais, sob responsabilidade do Colégio Episcopal da Igreja Metodista.
SUMARIO

Parte I — O Metodismo: origem e desenvolvimento


1. O Metodismo em Oxford......................................................................... 11
2. O Metodismo na Geórgia.........................................................................17
3. O Metodismo em Londres................... ,...................................................23
4. O valor da Bíblia na tradição wesleyana..................................................27
5. O Metodismo e o Evangelho Integral..................................................,...31

Parte II — O Metodismo: princípios e valores


6. João Wesley e sua Bíblia................................... ......................................37
7. A dinâmica do equilíbrio no pensamento wesleyano.............................. 43
8. Unidade e conexidade na tradição wesleyana............................,.............47
-9. A disciplina pessoal e comunitária na Igreja Metodista..........................53

Parte III — O Metodismo e as cinco fontes do conhecimento de Deus


10. Conhecendo a Deus pela Bíblia..................,..........................................59
11. Conhecendo a Deus pela experiência pessoal..................... ,.................63
12. Conhecendo a Deus pela razão......................................... ................. 67
13. Conhecendo a Deus pelos ensinos da Igreja ................... ....................71
14. Conhecendo a Deus através da criação................................................. 75
6 METODISMO

Parte IV — O Metodismo e as experiências em discipulado


15. As sociedades e classes metodistas de Wesley........................................81
16. Grupos pequenos, uma prática metodista................................................ 85
17. Discipulado pessoal, uma experiência metodista.................................... 89

Referências.................................................................................................... 93
APRESENTAÇAO

A história, a teologia, a doutrina e a prática wesleyana são temas que


precisam ser estudados, ampliados e aprofundados sempre. Diante de
muitas interpretações bíblico-teológicas surgidas no decorrer dos anos, é
importante que, como metodistas, conscientes do nosso chamado e com
convicção de nossas raízes, nos preparemos para viver e divulgar nosso
modo de ser. Somos um povo cujo fundamento teórico e prático se encontra
na Bíblia, na história e na tradição e é a partir daí que respondemos aos
desafios da missão no tempo que se chama Hoje. Tal fundamento nos
permite encontrar, em cada geração, as estratégias sólidas e atualizadas
para desenvolver a missão recebida da parte de Deus.
Esta obra aborda a história do Metodismo, destacando seus princípios,
valores, e fontes doutrinárias, iniciando-se com uma apresentação dos
três momentos que marcam o surgimento do movimento metodista, re­
lacionando-os com a Bíblia e a visão missionária do metodismo primitivo.
Segue-se uma série de capítulos sobre temas diretamente ligados a Wesley
e ao povo metodista, à utilização da Bíblia, à dinâmica do equilíbrio, à
8 METODISMO

questão da unidade e conexidade e a um tema muito atual: disciplina.


Trazemos ainda as clássicas cinco fontes do conhecimento de Deus, de­
senvolvidas por João Wesley e os metodistas no século XVIII e finaliza­
mos com capítulos sobre como o metodismo trabalhou o discipulado em
grupos pequenos, em nível pessoal e resgatando o papel transformador
na sociedade de seu tempo.
Que esta ferramenta possa fundamentar nossa reflexão bíblica, histórica
e teológica, dando-nos, ainda, subsídios práticos para o crescimento na fé e
no conhecimento de Deus para a proclamação de sua Palavra ao mundo.
Parte I

O METODISMO:
ORIGEM E
DESENVOLVIMENTO
.
]
O METODISMO
EM OXFORD
Ê xodo 2.1-10

João Wesley nasceu em Epworth, Inglaterra, localidade em que seu


pai era pastor, em 1703. Ele faleceu em 1791, antes de completar 88 anos.
Viveu, portanto, praticamente todo o século XVIII, sendo testemunha das
profundas mudanças que, com base na chamada Revolução Industrial,
alteraram radicalmente o panorama social da Inglaterra. Nesse contexto,
juntamente com outras pessoas, procurou compreender a vontade divina
e responder aos desafios que as exigências do Evangelho e as necessidades
do povo suscitavam.
Com ele, nasceu o Metodismo. No entanto, como movimento dinâmi­
co, sensível aos sinais dos tempos, ele não nasceu pronto! Os seus contornos
foram, aos poucos, sendo construídos e refeitos, com a participação de
muitos homens e mulheres. O próprio Wesley via no surgimento do Meto­
dismo o resultado da ação providencial de Deus a dirigir os acontecimentos,
com a participação humana. Aliás, quando Wesley recorda as origens do
movimento, ele destaca três momentos significativos: Oxford, Geórgia e
Londres. Este capítulo e os próximos tratarão desse assunto. Antes, porém,
12 METODISMO

vamos anaüsar brevemente como o agir de Deus manifesta-se, segundo a


Bíblia. Nosso ponto de partida é o livro de Êxodo.

I. Refletindo sobre Êxodo 2 .1-10


Quando nos voltamos para o texto sagrado, percebemos que Deus sempre
age a favor da vida. Ali, onde as dificuldades multiplicam-se, o sofrimento
transforma-se em experiência diária e a opressão parece reinar, o Senhor
intervém, fazendo renascer a esperança e despertando a solidariedade. Não
era fácil a situação do povo hebreu no Egito. Escravos sem quaisquer direitos,
submetidos a duros trabalhos, contemplavam agora mais uma medida de
força: o extermínio puro e simples de seus filhos (Êx 1.16). Não havia meios
ou condições para resistir. Mas o temor a Deus no coração das parteiras, o
gesto ousado e inteligente da mãe e da irmã de Moisés, e a compaixão da
filha de Faraó começaram a mudar essa história. Nenhuma dessas mulheres
podería imaginar o curso que as coisas tomariam.
O menino, cuja vida foi preservada, seria cuidadosamente educado
como neto de Faraó. Desse modo, foi preparado para desempenhar a missão
de conduzir o povo de Deus nos caminhos da liberdade, no respeito à Lei
do amor a Deus e ao próximo (Êx 20.1-17). Como podemos observar na
narrativa do Êxodo, o Senhor revela- se como Aquele que liberta e con­
cede a vida, como Aquele que convoca servos e servas e capacita para a
missão, como Aquele que deseja instaurar verdadeiros laços de comunhão
e fraternidade na sociedade humana.

II. Retomando a questão inicial


Por que João Wesley considerou Oxford o primeiro começo do me-
todismo? O que de importante aconteceu no longo período em que ele
viveu nessa cidade? O que podemos aprender sobre a herança metodista,
analisando essa época?
Oxford destacava-se, desde a idade média, entre as mais importantes
Universidades da Europa. Para lá muitos jovens dirigiam-se a fim de se
preparar para o exercício da Medicina, do Direito e da Teologia, tornan­
do-se aptos para ocupar postos no governo ou na Igreja. Wesley tinha 17
O METODISMO EM OXFORD 13

anos quando ingressou no Christ Church (junho de 1720), a faculdade de


maior prestígio entre as que compunham a Universidade. Com exceção dos
anos em que auxiliou seu pai nas atividades paroquiais (1727-1729), ele
permaneceu o tempo todo em Oxford até o ano de 1735. Logo se destacou
nos estudos acadêmicos. Alcançou os graus de Bacharel ê Mestre em Artes,
e decidiu preparar-se para receber a ordenação na Igreja da Iijglaterra.
Foi ordenado diácono, eleito como membro integrante do corpo de uma
faculdade com responsabilidades específicas, como o ensino e a pregação
ocasional do Lincoln College e, finalmente, recebeu a ordenação como
presbítero.
É impossível subestimar a importância desses anos de formação. A
aplicação aos estudos, a disciplina intelectual e a agudez de raciocínio se­
rão características marcantes dos irmãos Wesley, e também do movimento
metodista. Aliás, João não apenas exigiu dos pregadores dedicação à leitura
(pelo menos 5 horas diárias), como publicou obras de caráter e preço po­
pulares, visando exatamente expandir o interesse pelo conhecimento e o
saber. Gostava de repetir que “renunciar à razão” equivalia a “renunciar
à religião”. Para ele, o cultivo da piedade não poderia ser desculpa para
a ignorância. Afinal, não é çerto que nós, cristãos e cristãs, devemos estar
sempre prontos para responder a quem indagar sobre a razão da esperança
que há em nós (cf. lPe 3.15)?
Também foi em Oxford que Wesley convenceu-se de que a vida em
santidade pertence à própria essência da fé cristã (lTs 4.1-8). Nutrido
pela leitura de autores ligados à tradição do viver santo, como o místico
medieval Thomas Kempis (que escreveu A Imitação de Cristo), Wesley
decidiu conjugar todos os seus esforços para alcançar essa meta. Ele esta­
va totalmente persuadido de que “a verdadeira religião tem sua sede no
coração e que a Lei de Deus estende-se a todos os nossos pensamentos,
bem como às palavras e ações”. Seguindo, então, os conselhos do anglicano
Jeremy Tayior, ele concluiu que um passo fundamental nesse processo
deveria ser o cuidado com o tempo. Por isso, passou a registrar, na forma
de um diário, todo progresso que obtinha no caminho da santificação,
submetendo-se a severo e constante autoexame. A sua firme resolução
14 METODISMO

nessa clireção, associada à sua decisão de seguir a carreira eclesiástica, tem


levado muitos biógrafos a descreverem essa experiência como a “primeira
conversão” de Wesley.
Sem entrar em discussão sobre essa afirmação, é correto dizer que o
que aconteceu, especialmente no ano de 1725, deu direção e sentido à
sua vida bem como à sua teologia. Doravante, a busca da santidade, tanto
interior como exterior, será a força motriz a orientar todos os seus esforços.
Entre as atividades regularmente realizadas, destacavam-se a leitura e
o estudo conjunto do Novo Testamento em grego, bem como da literatura
clássica e de obras teológicas. Além disso, os membros do grupo eram assí­
duos nos cultos dominicais e participavam com frequência do sacramento
da Ceia. Observavam o jejum, em conformidade com a Igreja Primitiva,
nas quartas e sextas-feiras, e estavam sempre dispostos a avaliar a sua vida
à luz dos propósios de Deus. Visando dar orientações à vida devocional
do gupo, João Wesley publica o seu primeiro trabalho: uma coleção de
orações para cada dia da semana.
Engana-se, no entanto, quem imagina que a prática dos primeiros
metodistas estava restrita a tais exercícios de piedade pessoal e edificação
mútua. Logo o grupo percebeu que a verdadeira santidade nos leva ao
encontro do próximo. O amor e a misericórdia são inseparáveis do viver
santo.Visitas regulares a prisioneiros, o trabalho realizado junto às pessoas
enfermas das paróquias da cidade e arredores, o cuidado dispensado às
famílias pobres, e a alfabetização de crianças (pessoalmente ou através da
contratação de professoras com os recursos que dispendiosamente o grupo
economizava) são apenas algumas ações que constituíam o programa dos
metodistas de Oxford. Para justificar-se, João Wesley, lembrando-se de
Mateus 25.3 í-46, perguntava: “Não devemos imitar, até onde seja possível,
Àquele que passou a vida fazendo o bem?” (At 10.38).

Conclusão
Em todo o tempo, mas especiaimente em meio a crises e mudanças
profundas, Deus manifesta-sc, convocando homens e muiheres para co­
laborarem com Ele na promoção da vida e da santidade. Assim ocorreu
O METODISMO EM OXFORD 15

com Moisés, na história bíblica, e com os primeiros metodistas, no século


XVIII. O Senhor não apenas chamou, como capacitou para a missão.
Ainda hoje, temos o desafio de cooperar com Deus no anúncio do Evan­
gelho que traz vida abundante para todas as pessoas, em particular, para
as mais pequeninas. Nós, metodistas, herdamos uma abençoada tradição,
que encara, com equilíbrio, a experiência da santidade, numa combinação
criativa entre fé e razão, aspecto pessoal e responsabilidade social, piedade
e misericórdia, ação de Deus e participação humana. Precisamos reavivar,
nesta época marcada por contradições, a nossa memória, e nos dispor a
cooperar com Deus na construção do futuro. O momento é agora!
2
O METODISMO
NA GEÓRGIA
Tiago 1.2-4

Cada vez vão tornando-se mais triviais os discursos que apresentam


a vida cristã como uma sequência ininterrupta de sucessos. A pessoa
abençoada por Deus desconhece o fracasso e a frustação em todos os seus
empreendimentos. Êxito e prosperidade a cercam em todo o tempo. Será?
De modo similar, muitos apresentam a história do povo de Deus como
uma escalada progressiva de realizações. Em tais narrativas, não há lugar
para sofrimento, dificuldades ou rejeição. Na verdade, essas experiências
são interpretadas como expressões de pecado e, portanto, do silêncio de
Deus dirigido a pessoas cujos corações são impenitentes. A dor sempre
corresponde à impiedade! Será que a revelação bíblica e o testemunho
humano confirmam essa interpretação?

I. Refletindo sobre Tiago 1.2-4


As comunidades cristãs dos primeiros séculos tiveram de conviver
cotidianamente com a hostilidade e incompreensão. Um preço bastante
elevado foi cobrado por sua adesão a Cristo e ao Evangelho: perseguição,
18 METODISMO

açoites, prisão, confiscos dos bens, martírio. O próprio Paulo descreve, de


forma minuciosa, as privações e ameaças que enfrentou na missão apostó­
lica (2Co 11.23-33). Se Cristo não foi poupado, antes, sofreu a ignomínia e
a vergonha da cruz, por que razão seus seguidores e seguidoras deveriam
esperar melhor sorte (Jo 15.18-25)?
E preciso, pois, desfazer qualquer ilusão! Ser cristão e cristã não é o
caminho mais fácil para se alcançar a felicidade e o bem-estar. Crer no
Evangelho não nos protege contra os males que, eventualmente, atingem
a criatura humana em virtude de sua fragilidade natural ou de enganos
pessoais; muito menos nos livra de assumir os custos que a fidelidade a
Cristo e a seu Reino geralmente acarretam.
Nesse sentido é que se pode entender a recomendação da carta de Tia­
go: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias
provações” (Tg 1.2). O texto é claro: a fé é submetida a múltiplas provas. É
bastante provável que o autor pense, sobretudo, nos desafios que a pessoa
fiel tem de enfrentar ao sustentar as suas convicções em tempos difíceis.
Também não se deve descartar infortúnios que, às vezes, surpreen­
dem o ser humano. Tais episódios, com frequência indesejáveis, levam à
murmuração e à dúvida, isso quando não semeiam o ódio contra Deus e
contra o próximo. Nessas condições, não é fácil alegrar-se. Apesar disso,
os cristãos e cristãs são convidados à alegria, obviamente não por enfren­
tarem provações, e sim porque a comprovação da fé supera o entusiasmo
ingênuo e sem compromisso, gera a perseverança e, por fim, alcança a
perfeição (Tg 1.3-4). Na realidade, nenhuma atitude masoquista é es­
timulada! Pessoas cristãs não amam o sofrimento, embora não temam
enfrentá-lo (Rm 5.3-5). A história do povo chamado metodista concorda
com o ensino bíblico,

II. O SEGUNDO COMEÇO DO METODISMO


Wesley considerou o seu trabalho pastoral na colônia britânica da
Geórgia, na América do Norte, o segundo surgimento do movimento me­
todista. A menção causa surpresa, principalmente, se considerarmos que
muitos historiadores fazem uma avaliação predominantemente negativa
O METODISMO NA GEÓRGIA 19

desse incidente. Alguns falam, inclusive, num verdadeiro fiasco! Por isso,
é preciso analisar o que, de fato, ocorreu.
João Wesley deixou a Inglaterra em fins de 1735, enfrentando, pela
primeira vez, os perigos do mar que, desde a meninice, ele havia te­
mido. Numa correspondência, datada pouco antes de sua partida, ele
revelou as suas intenções naquele momento: “Meu principal objetivo é a
esperança de salvar minha própria alma. Espero compreender o verdadeiro
sentido do Evangelho de Cristo, pregando-o aos pagãos...”. Wesley acre­
ditava, sinceramente, que os indígenas pudessem, como crianças, ou seja,
sem opiniões preconcebidas, acolher a mensagem cristã na sua simplici­
dade. Porém, já em seus primeiros contatos com nativos, tais idéias foram
se desfazendo. Atos de violência, desrespeito pela cultura, e mecanismos
de exploração praticados pelos colonos europeus, identificados pela pro­
fissão de fé cristã, predispunham aqueles corações a se afastarem o quanto
pudessem do Evangelho.
Em certa ocasião, um chefe indígena declarou: “Os cristãos mentem,
roubam e espancam os homens. Eu não quero ser cristão”. Diga-se de
passagem que o próprio navio em que Wesley e seus companheiros ha­
viam embarcado, trouxera barris de aguardente para “presentear”, isto é,
corromper os nativos. Esses acontecimentos, somados aos poucos contatos
que Wesley conseguiu estabelecer com os primeiros habitantes do conti­
nente, deixaram um saldo desfavorável. Aliás, ele não hesitou em empregar
expressões como “glutões, beberrões, ladrões, mentirosos” e outras mais
graves, para descrevê-los. O que Wesley não compreendeu, naquela situa­
ção, foi a total incompatibilidade entre a missão evangelizadora e o projeto
colonialista de dominação. Posteriormente, com veemência profética, ele
condenaria a ação dos ingleses: “também nossos compatriotas têm brincado
com sangue, exterminando nações inteiras, e com isso provando eloquen­
temente qual o espírito que habita e opera nos filhos da desobediência”
(Sermão: Advertência Contra o Sectarismo, I, 10),
De qualquer modo, as dificuldades em aproximar-se dos nativos obriga­
riam Wesley a repensar os seus planos iniciais. Além disso, o atendimento
pastoral aos colonos em Savannah e, mais tarde, em Frederic, consumia
20 METODISMO

quase todas as suas energias. Wesley mostrava-se zeloso com o cresci­


mento espiritual dos seus paroquianos e paroquianas e especialmente
dedicado à direção dos cultos, ao trabalho de visitação, às conversações
com pequenos grupos e pessoas em particular, e à educação de jovens.
Não tardou para que ele procurasse organizar, à semelhança de suas
experiências em Oxford, uma pequena sociedade religiosa com os mem­
bros mais dedicados do seu rebanho, para o cultivo da piedade. Contudo,
os grupos que se formaram como resultado do seu empenho nem sempre
persistiram em seus compromissos, causando desapontamento para o seu
pastor. Apesar disso, Wesley identificou esses momentos como expressões
autênticas do metodismo.
A preocupação pastoral de Wesley ia bem além dos limites da popula­
ção de fala inglesa. Ele Já havia aprendido alemão suficientemente para
comunicar-se com os morávios — cristãos de origem luterana marcada-
mente influenciados pelo movimento pietista. Já na viagem a caminho
da Geórgia, ele ficou impressionado com a fé e a serenidade que eles
demonstraj^m durante uma intensa tempestad^em alto-mar. Agora, çm
terra firme, Wesley reconhecia e admirava outras qualidades: a confiança
em Cristo, a vida comunitária, o estilo dos seus cultos (sobretudo de seus
cânticos), o fervor de suas devoções e a seriedade com que encaravam a
prática cristã no dia a dia. Como resultado parcial desse convívio, João
Wesley publicou uma coleção de Salmos e Hinos em 1737 — o primeiro
hinário editado na América do Norte, incluindo versões de cânticos mo­
rávios, cujos temas revelam preocupações teológicas que o ocuparam até
a experiência de Aldersgate. Ademais, Wesley, valendo-se de sua aptidão
para o aprendizado de outras línguas, colocou-se à disposição para aten­
der pastoralmente colonos franceses e italianos em seu próprio idioma.
O desejo de conversar com judeus procedentes da Espanha também o
levou ao estudo do espanhol. Mais: Wesley entusiasmou-se tanto com a
possibilidade de alcançar a população negra que elaborou um cuidadoso
plano de evangelização que, infelizmente, não foi posto em prática. A
escravidão, contra a qual Wesley escreveu com a indignação própria dos
profetas, invalidava qualquer esforço para anunciar a Boa Nova.
O METODISMO NA GEÓRGIA 21

Durante quase um ano e dez meses Wesley exerceu seu ministério à


semelhança do apóstolo que se fez “tudo para com todos” (ICo 9.19-23).
Entretanto, a maneira como dirigia a vida paroquial foi, lentamente, dei­
xando um rastro de insatisfação. Em diversas circunstâncias, ele demons­
trou inflexibilidade e forte apego às normas eclesiásticas. Parecia-lhe que
os fiéis não cultivavam a mesma seriedade de seu pastor. Ao contrário,
fugiam da disciplina.
Realmente, Wesley demonstrava pouca habilidade em contornar
essas situações. A recusa em receber à mesa da comunhão a jovem se­
nhora Sophy Hopkey e seu esposo, por não cumprirem as determinações
canônicas, foi interpretada como a desforra de um pretendente despeitado,
surpreendido pelo recente casamento da amada. O conflito desemboca na
apresentação de uma série de acusações e num processo contra Wesley.
Embora as acusações não constituíssem, nas palavras de um historiador
atual, “um forte caso legal contra ele”, Wesley deixa a Geórgia antes
que qualquer julgamento fosse realizado, sacudindo o pó de seus pés.

CONQcUSÃO
A passagem pela Geórgia deixou marcas profundas em Wesley. Ele teve
a oportunidade de colocar em prática as suas concepções sobre a vida cristã,
agora, como missionário e pastor, numa realidade social bastante diferente
daquela que conhecera na Inglaterra. Obteve um êxito relativo, porém,
mergulhou numa grave crise, envolvendo tensões pessoais e políticas.
Muitos de seus planos não saíram de sua mente. Em compensação, as
suas convicções foram duramente provadas.
Depois da experiência na Geórgia, Wesley desenvolveu uma visão
mais clara do que havia em seu coração (Dt 8.2). Também encontrou
novos amigos que o acompanhariam em sua busca de santidade. Wesley
cresceu em seu autoconhecimento. O sofrimento trouxe-lhe maturidade
e fortaleceu a sua fé!
3
O METODISMO
EM LONDRES
Lucas 24.1 3-35

Em meio às dificuldades aparentes, ou de fato insolúveis, temos a


propensão de fazer como o salmista, e nos perguntamos: “De onde nos
virá o socorro?”(Sl 121). Parece-nos relativamente fácil falar de Deus e
exaltar-lhe o nome quando todas as coisas transcorrem como esperamos,
sem sobressaltos. Contudo, quando a crise se aproxima, ameaçando nossa
segurança, sentimos o chão escapar de nossos pés.
Algo semelhante aconteceu com o fundador do metodismo. Demolido
o castelo da autoconfiança em que havia se instalado, Wesley interrogava-
-se, com toda a honestidade, sobre o valor da sua fé, ou mesmo se possuía
a fé verdadeira, capaz de transpor montes e caminhar sobre as ondas (Mt
14.22-33). Ainda a bordo do navio que o trazia dc volta à Inglaterra, ele fazia
um rigoroso exame de si mesmo: “Fui à América para converter os índios;
porém, oh! quem me converterá? Quem, quem será aquele que me livrará
deste coração vil de incredulidade?”. O registro, datado em seu Diário no
dia 24 de janeiro de 1738, prossegue com constatação: “Tenho boa religião
de verão; posso conversar bem, sim., e sinto-me seguro quando não há perigo
perto; mas basta a morte olhar-me o rosto, meu espírito fica perturbado”.
24 METODISMO

I. Refletindo sobre Lucas 24.13-35


Apenas o evangelista Lucas conservou com detalhes a memória do
encontro do Jesus Ressurreto com seus discípulos na estrada de Emaús.
E justo pensar que isso se deve ao fato de que a situação dos seus primei­
ros leitores e leitoras identificava-se com aquele momento vivido pelos
seguidores de Cristo, após os trágicos episódios que se consumaram na
crucificação de seu Mestre.
Eles estavam cabisbaixos e irremediavelmente entristecidos. Não
conversavam sobre outro assunto senão os acontecimentos daqueles dias.
Afinal, Jesus havia despertado em seus corações expectativas que estavam
quase adormecidas. O modo como Jesus anunciava a Boa Nova, lembrando
o amor do Pai que recebe o filho que se julgava perdido (Lc 15.11-32); a
liberdade que demonstrava diante da Lei; a firmeza com que apontava os
erros das autoridades, chamando-as à conversão e a ternura que dirigia aos
pequeninos, eram sinais de que Deus estava com Ele. A sua justiça seria
implantada e o seu Reino inauguraria uma nova era de paz! Os discípulos
e discípulas estavam convencidos de que Jesus era o Messias, o Ungido de
Deus, através do qual a redenção de Israel, finalmente, concretizar-se-ia.
A morte de Jesus, no entanto, sepultou consigo essas esperanças. Não
é exagero dizer que os próprios discípulos e discípulas sentiam-se mor­
tos, pois viver sem esperança é morrer! Na época em que Lucas redige o
seu Evangelho, a comunidade cristã também experimentava dissabores
terríveis. Pregava-se que Cristo estava vivo e caminhava entre os seus.
Mas, onde encontrá-lo? A sociedade romana tratava as pessoas cristãs com
hostilidade, reservando-lhes a prisão e a morte, como se fossem criminosas.
Se o Senhor havia derrotado as forças da morte, como elas se mostravam
agora tão potentes? Como renovar a fé e a esperança diante do caos?
O encontro com o Ressurreto reacendeu a confiança e transformou
o abatimento diante da realidade em coragem para agir. Os discípulos e
discípulas também recobraram a vida e o alento! Ao relembrar essa his­
tória, Lucas certamente quis chamar a atenção dos seus leitores e leitoras
para os lugares onde o encontro com o Cristo Vivo poderia ser renovado,
convertendo-a em impulso a favor da vida. Três caminhos são indicados:
O METODISMO EM LONDRES 25

Jesus se faz presente como Aquele que se junta a nós em nossa Jornada
(Lc 24.15-16); na proclamação da Palavra (Lc 24.32); na partilha do
pão que celebra a comunhão na mesma fé e no mesmo ideal (Lc 24.30-31)!

II. O TERCEIRO COMEÇO DO METODISMO


A forma drástica com que Wesley interrompeu a sua missão na Geórgia,
como vimos, deixou, de imediato, um forte sentimento de frustração em seu
espírito. Contudo, ele não ficou paralisado, subjugado por uma sensação
amarga de derrota, com pena de si mesmo. Ao contrário, os acontecimentos
o levaram à autocrítica e serviram como estímulo na busca daquilo que
ele ainda não possuía. Não lhe faltou o companheiro que o acompanhou
e foi solidário em sua peregrinação.
Uma semana após desembarcar em Londres, Wesley encontrou-se
com Pedro Bõhler, um pastor morávio que se preparava para seguir
para as colônias inglesas na América, Nas conversações que regular­
mente mantiveram, Bõhler o fez notar que o seu grande problema não
era uma fé deficiente e frágil, mas unicamente a descrença. Wesley pre­
cisava abraçar a fé viva, que, como dádiva de Deus, implicava em dois
frutos inseparáveis, provenientes do senso de perdão: o domínio sobre
o pecado e a paz constante. Wesley não se deixou convencer facilmen­
te. Procurou a orientação do ensinamento bíblico e ouviu o testemunho de
quem afirmara ter alcançado essa experiência. Decidiu, então, renunciar
a toda confiança em suas “próprias obras de justiça” e diligentemente
interceder a Deus por esse dom. Posteriormente, Wesley irá dizer que,
nesse período, ainda vivia “debaixo da lei”, sob o “espírito de escravidão”,
obedecendo a Deus antes por temor servil do que por amor filial.
De modo semelhante aos discípulos de Emaus, Wesley também vivenciou
a alegria da comunhão e da partilha. No primeiro dia do mês de maio de
1738, nasceu a chamada Sociedade de Fetter Lane, que Wesley considera­
ria mais tarde “o terceiro surgimento do metodismo”, A sua organização
combinava elementos anglicanos e morávios e se inspirava na epístola
de Tiago: “Confessai, pois, uns aos outros, os vossos pecados e orai uns
pelos outros, para que sejais curados" (Tg 5.16). O grupo, entre 40 e 50
26 METODISMO

pessoas, assumia o compromisso de se reunir todas as quartas- feiras, para


confissão, encorajamento e mútua edificação, abrindo e encerrando as
reuniões com cânticos e orações.
Foi num encontro similar a esses, na Rua Aldersgate, em 24 de maio
de 1738, ouvindo a leitura do Prefácio de Lutero à Carta aos Romanos,
exatamente quando se descrevia “a mudança que Deus opera no cora­
ção pela fé em Cristo”, que Wesley sentiu o seu “coração aquecido de
forma singular”: “Eu senti que acreditava em Cristo, apenas em Cristo
e uma segurança me foi dada que Ele havia levado meus pecados, sim,
os meus, e me salvado da lei do pecado e da morte”. De imediato, ele
testemunhou o fato aos presentes. Agora, a fé, como confiança e certeza,
era uma realidade palpável e experimental para Wesley, e não apenas um
conceito defendido — com base em argumentos intelectuais — como ver­
dadeiro. Ele se apropriou pessoalmente da fé justificadora e experimentou
a santidade que procede, não do esforço humano, mas da graça de Deus.
O que ocorreu em Aldersgate dá um novo sentido à vida cristã e
reorienta a prática pastoral de Wesley. A energia que, até então, ele havia
empenhado para obter a santidade pessoal, a partir desse momento será
canalizada para o serviço ao próximo. Mais do que com a própria salva­
ção Wesley vai se ocupar, doravante, com a missão para a qual se sente
especialmente vocacionado, cujos propósitos, mais tarde, resumirá na
conhecida expressão: “Não formar uma nova seita, mas reformar a Nação,
especialmente a Igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a Terra”.

Conclusão
Em sua trajetória, no ano de 1738, Wesley refez o caminho dos viajan­
tes dc Emaús. Repetiu a passagem da tristeza para ò júbilo, do desânimo para
o alento, da morte para a vida. Foi a presença do Senhor na solidariedade
dos que se juntaram a ele, no estudo da Palavra e na celebração da vida e da
comunhão, sobretudo partilhando o pão, que possibilitou essa transforma­
ção e a vitória sobre a crise. Como aqueles discípulos, Wesley sentiu o seu
coração arder e, superando a excessiva preocupação com a própria salvação,
descobriu que a santidade desejada por Deus passa sempre pelo próximo.
4
O VALOR DA BÍBLIA NA
TRADIÇÃO WESLEYANA
Isaías 8.9-22

Vivemos em uma época de notáveis avanços tecnológicos. Queiramos ou


não, recebemos essas influências e temos que nos adaptar a novos modos de
vida. Na Igreja, reconhecemos que a expressão de fé—nos cultos públicos, no
testemunho e no comportamento pessoal — modificou- se profundamente.
Estamos pensando como metodistas. Em se tratando dos ensinos
de João Wesley (que viveu na Inglaterra no século XVIII), como faría­
mos: abandonaríamos ou seguiriamos à risca suas orientações sobre a
prática cristã? Não se trata de abandonar ou assumir integralmente os
ensinos de Wesley, mas de rever a história de seu testemunho e avaliar a sua
importância e contribuição para entender o presente e planejar o futuro.
Assim fazem os luteranos, com Martinho Lutero; os presbiterianos, com
Calvino e Zwinglio, entre outras igrejas cristãs.
O que queremos aqui é promover uma reflexão sobre algumas práti­
cas wesleyanas que possuem valor e importância para o nosso testemunho.
Em nosso caso, queremos encontrar um jeito correto e prazeroso que nos
possa ajudar e incentivar o estudo da Bíblia.
28 METODISMO

I. Contribuições de ontem e hoje


Wesley tinha um jeito próprio de estudar a Bíblia, que mostra certas
afinidades com os estudiosos do seu tempo. Fontes como a Palavra de Deus,
a sabedoria dos Pais da Igreja e a razão, e ferramentas como os Manuais
e Manuscritos Bíblicos são, ainda hoje, instrumentos imprescindíveis à tare­
fa de interpretação bíblica. Mas Wesley restabeleceu alguns caminhos para o
estudo da Bíblia que poderiamos avaliar, sem exagero, como sendo definitivos.

II. Contribuição de Wesley na interpretação da Bíblia


De formação, João Wesley foi biblista, especializado em Novo Tes­
tamento e professor da matéria. Quem se aprofunda na pesquisa bí­
blica, apaixona-se por ela. Certamente isso ocorreu com Wesley, pois
grande parte de sua obra escrita foi dedicada à interpretação da Bíblia.
Mas eis algumas boas novas que Wesley semeou no seu tempo e que
ainda têm produzido frutos:
1. Unir a razão e a experiência na interpretação. Wesley viveu numa In­
glaterra grandemente influenciada pelo pensamento racionalista. Uma pessoa
racionalista é aquela que acredita nas soluções vindas das idéias, da razão, e
nunca da experiência. Isso significa que um (a) racionalista nega qualquer
autoridade ou credibilidade à fé religiosa. Com grande habilidade, Wesley
enfrentou esta realidade. Não negou a importância da razão, tampouco
supervalorizou a experiência. Enfrentando exageros de ambos os lados, e
convicto de que experiência e razão podem contribuir para o bem-estar das
pessoas e, particularmente, para o estudo bíblico, ele escreveu: “Vamos unir
estas duas há tanto tempo separadas: ciência e piedade vital”. O resultado dessa
união entre razão e fé é uma interpretação bíblica clara, verdadeira e voltada
para o aprendizado profundo do propósito de Dètis, E uma espécie de iógíca
(razão) do coração (amor) que atinge a emoção e provoca no homem e na
mulher uma nova vitalidade no testemunho. Foi com esse jeito de interpretar
que Wesley revolucionou o modo de pensar da Inglaterra daquele tempo, e
nos legou uma contribuição de valor para a interpretação bíblica.
2. Realidade da vida. Para Wesley, Deus criou o ser humano com corpo
e espírito, à sua imagem e semelhança: ele ama e raciocina. Entretanto,
O VALOR DA BÍBLIA NA TRADIÇÃO WESLEYANA 29

ele sofreu as consequências da queda: ele também odeia, cobiça e comete


violência. Assim, a Bíblia foi escrita para este povo cuja realidade é cheia de
conflitos. Wesley não vê o homem e a mulher somente no plano espiritual.
Ambos foram criados à imagem e semelhança do Criador, mas, também
estão sujeitos a conflitos, paixões e esperanças. Wesley vê o ser humano de
modo total, completo, e de modo realista, vivendo em sociedade. Por outro lado,
Wesley interpreta a Bíblia a partir da realidade humana, preocupado em tirar
lições dos textos para lançar luzes sobre a nossa realidade torcida e complicada,
encontrar a orientação necessária e animar o povo para encontrar a vida plena e
abundante. Fazendo assim, os trabalhadores nas minas de carvão, os prisioneiros,
os agricultores, as mulheres e as crianças de rua puderam compreender que a
leitura da Bíblia ajudava na tarefa de enfrentar e superar as dificuldades da vida.
3. A Bíblia é linguagem de fé. Esta é uma redescoberta de Wesley
que devemos saudar festivamente. Existe uma forte tendência a ler a Bíblia
com olhos científicos. Embora isso seja possível até certo ponto, temos
de considerar que em todo processo de formação da Bíblia estava a fé e o
testemunho da pessoa crente, seja ela do campo ou da cidade, pobre ou
rica, analfabeta ou não. Wesley entendeu isso, como poucos em sua época,
e passou esta verdade em suas pregações, cartas, comentários bíblicos,
etc. Não abandonando o uso da razão, Wesley valorizou a experiência
pessoal e comunitária de crentes, bem como redescobriu o uso positivo da
emoção na tarefa de interpretar e comunicar os ensinos da Bíblia.

III. O PROPÓSITO PASTORAL NA INTERPRETAÇÃO DA BlBLIA


Para João Wesley, a interpretação da Bíblia e a tarefa pastoral são ativi­
dades interdependentes. Sempre voltado para a finalidade pastoral, ele dei­
xou marcadas algumas ênfases:

■ A interpretação bíblica deve fornecer a necessária orientação e


alento para a prática do testemunho cristão.
■ O estudo da Bíblia não deve visar ao acúmulo de conhecimento,
mas proporcionar o equilibrado alimento para o serviço e teste­
munho da pessoa crente.
30 METODISMO

■ O esforço de orientação no estudo da Bíblia destina-se, especial­


mente, às pessoas simples e sem letras, que conhecem somente sua
língua-mãe, que reverenciam e amam a Palavra de Deus (como
registra no prefácio ao Comentário do Novo Testamento).
■ Deve-se facilitar, ao máximo, o entendimento das Escrituras para
leitores e leitoras comuns, pois estes possuem muita capacidade de
serviço e muita fome de conhecimento da Palavra de Deus.

Conclusão
Alguns detalhes da prática wesleyana parece que ficaram perdidos pelo
caminho do esquecimento ao longo dos anos de nossa história. Diante
disso, a finalidade maior de uma pesquisa é procurar a verdade original
daquilo que se estuda. Nesse caso, ao tirar a poeira depositada sobre a his­
tória de João Wesley, descobrimos ensinos e práticas valiosas para nós hoje.
Primeiro: de origem, o metodismo praticou a fé popular: seja na
evangelização popular de massa, seja na edução cristã (especialmente
entre as crianças de rua), seja no esforço ecumênico para o bem-estar
das pessoas, seja na preocupação com prisioneiros, seja na missão entre
trabalhadores. A história nos deixa a convicção de que Wesley dedicou-se,
principalmente, a levar as boas novas ao povo carente de seu tempo. Esta
preferência ele também encontrou na Bíblia.
Segundo: o metodismo primitivo nos revela uma surpreendente preo­
cupação pela defesa da dignidade humana. Em defesa dos direitos de
vida que cada ser humano possui, Wesley mostrou-se aberto ao diálogo e
disposto a caminhar junto com os homens e mulheres pacificadores. Esta
é uma herança que ninguém poderá esconder ou eliminar.
Terceiro: também não se pode arrancar do metodismo sua característica
pela busca de santificação. Wesley chegou a estabelecer um novo conceito
de santificação: só se alcança a santidade pela prática do amor ao próximo.
A verdade é que Wesley ressalta a importância do andar com Deus e conhe­
cê-lo de perto. Para ele, não bastava interpretar as Escrituras com perfeição
e acerto, era também necessário conhecer bem de perto o Senhor que inspi­
rou a formação desse livro. Isso, também, ele aprendeu no estudo da Bíblia.
5
O METODISMO E O
EVANGELHO INTEGRAL
Mateus 28.1 6-20

A Igreja existe para a missão. A missão pertence a Deus e é expressa


pela Igreja, Povo de Deus e Corpo de Cristo. Em especial para nós, me­
todistas, há uma compreensão muito rica sobre a visão missionária, en­
tendida como uma vocação: “Reformar a Nação, particularmente a Igreja,
e espalhar a santidade bíblica sobre toda a Terra”,
O Metodismo primitivo caracterizou-se por uma ação evangelizadora
dinâmica. Uma ação que buscava alcançar o ser humano em todas as suas
necessidades com a Boa Nova da Salvação em Cristo Jesus.

I. Evangelismo dinâmico
A certeza, a segurança, a alegria e o gozo da fé fizeram do povo me­
todista um grupo de evangelistas dinâmicos. A grande bênção do amor
divino revelado e experimentado de forma pessoal e comunitária seria
partilhada através do testemunho cristão.
A ação evangelizadora foi uma ação de amor - amor a Deus e ao pró­
ximo — expressa das mais diversas formas, procurando levar o poder
do Evangelho às pessoas e à sociedade como um todo.
32 METODISMO

Os cânticos renovadores, a pregação enfática, as novas formas de co­


municação do Evangelho; a pregação dos leigos e leigas, os ajuntamentos
de pessoas em pequenos grupos, o contato com o povo pobre e sofrido,
revelam a natureza e a dinâmica da ação evangelizadora na tradição me­
todista. O Evangelho encarna-se na realidade em que se encontram as
pessoas e a sociedade. A Graça e o Amor divinos são proclamados amorosa
e vigorosamente. A confiança na ação do Espírito Santo e o cumprimento
do mandato missionário de Jesus levaram o povo chamado metodista a
expressar, das mais diversas maneiras, a encarnação do amor divino.
Proclamando, anunciando, sinalizando, vivenciando e dando o testemu­
nho coerente da nova vida, uma diferente dimensão do Evangelho foi sendo
espalhada por toda a parte. Um sentimento profundo de amor a solidarie­
dade para com as pessoas e as suas condições de vida cercou os membros
envolvidos no movimento metodista, caracterizando assim aquele grupo. A
realidade e as necessidades de homens e mulheres e da comunidade sempre
foram levadas em consideração, possibilitando uma interação dinâmica entre
as boas novas de salvação e quem as recebia. Esta paixão evangelizadora,
característica do metodismo primitivo, manifestava-se concretamente através
do compromisso com o total bem-estar das pessoas e da visão de que todas
elas são chamadas a servir ao Senhor através da dedicação ao próximo.
Observamos esta realidade dinâmica da missão na maneira como Jesus
responde aos enviados de João sobre o seu ministério, quando o Senhor
responde: “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo”. A resposta
vem com a prática, com a ação de Deus restaurando as pessoas, livrando-as
de todas as barreiras físicas, emocionais, culturais e religiosas (Mt 11.2-6).

II. Aprendendo com o texto bíblíco


No texto de Mateus 28.16-20, encontramos o princípio básico para a
tarefa evangelizadora correspondente ao ministério de Jesus, a chamada
Grande Comissão. O Evangelho de Mateus apresenta Jesus Cristo como
vindo da linhagem de Davi, reconhecido como o Rei dos Judeus pelos
visitantes do Oriente, exercendo seu ministério, observando e restaurando
a Lei, resgatando o seu sentido de instrução e ensino, sendo levado à cruz
O METODISMO E O EVANGELHO INTEGRAL 33

e considerado como alguém aitamente perigoso. Os últimos versículos do


Evangelho apontam para a autoridade de Jesus, que foi crescendo jun­
tamente com seu ministério. Autoridade para perdoar, restaurar a vida,
libertar os oprimidos, curar os enfermos e anunciar profeticamente o fim
dos tempos. Com muita autoridade Jesus foi ao Calvário, recebeu sua
sentença e padeceu na cruz, ressurgindo da morte após três dias, comple­
tando a sua obra, concedendo autoridade aos discípulos e discípulas - que
teriam a responsabilidade de prosseguir com a missão:
Fazendo Discípulos [e Discípulas]: ao chamar, orientar e caminhar ao
lado de quem for alcançado (a) pela graça e misericórdia de Deus, a fim
de que aprenda a andar como Jesus andou.
Batizando: o sinal público de compromisso comunitário com o Reino
de Deus, a prática que evidenciava o envolvimento sincero e consciente de
todo aquele e aquela que crê e espera no Senhor.
Ensinando: a prática do ensino precisava ser mantida, resgatada e
exercitada, pois era o fundamento básico de toda a Palavra de Deus. O
ensino ocupa lugar central na Bíblia, sendo restaurado com profundo
brilhantismo por Jesus Cristo.

Conclusão
Observamos a evangelização dinâmica na vida e ministério Jesus. Ao
mesmo tempo que as pessoas eram tocadas por suas palavras e se arre­
pendiam, eram estimuladas a ir, anunciar e servir a outras pessoas. Isto
ocorreu com Zaqueu (Lc 19.1-19), com a mulher samaritana (Jo 4.1-18),
com o apóstolo Paulo (At 9.1 -19) e com muitos outros homens e mulheres.
Precisamos enfatizar uma evangelização que destaque a conversão a Jesus
Cristo e que transforme as pessoas em servos e servas dispostos a promo­
ver mudanças, tanto em suas vidas como na sociedade em que vivem. Esta
é a visão de um evangelismo integral que precisamos ter, repartir e praticar.
É importante lembrar que a ação missionária do metodismo, desde
a Inglaterra, inclui o anúncio da Palavra, o ensino e a responsabilidade
social, que envolve o socorro, a preservação da natureza, a promoção da
vida de forma integral. Estes três aspectos são indissociáveis.
Parte II

0 METODISMO
PRINCÍPIOS E
VALORES
ó
JOÃO WESLEY
E SUA BÍBLIA
Salmo 1 1 9.1-8

A Igreja Metodista, seguindo a tradição wesleyana, afirma que a Bíblia


é a suprema fonte de conhecimento e autoridade — a única regra de fé e
prática para o cristão e a cristã. Esta posição wesleyana tem apoio nas
Escrituras Sagradas e nas mais variadas confissões de fé da cristandade.
Para João Wesley, a Bíblia, como Palavra de Deus, concentra em si um
significado que não pode ser definido com palavras ou letras humanas, tendo
em vista o seu alto valor formativo, educativo e normativo, que leva todas
as pessoas que a leem a experimentarem um crescimento em suas vidas.
Wesley entendia que a Bíblia é um livro que se autoexplica, onde di­
ficilmente é encontrada uma passagem inteiramente isolada e que esteja
em desacordo com as demais passagens ou textos. A recomendação era
de que os textos paralelos fossem lidos, possibilitando uma compreensão
mais clara, profunda c abrangente.
Através do estudo do Salmo 119, especialmente dos oito primeiros ver­
sos, podemos entender o significado da Bíblia para nós, a partir da com­
preensão que legamos de Wesley.
38 METODISMO

I. Orientações para o estudo


A forma literária com a qual esse salmo se apresenta tem muito a ver
com a intenção do salmista ao compô-lo. Veja como é significativa e di­
dática a sua apresentação. O salmo abre com a expressão bem-aventura­
dos [as] os [as] que andam conforme a torá (lei, ensino, instrução) do Senhor
(versos 1-4). O salmista felicita as pessoas que se esforçam por andar no
caminho e guardar a instrução (lei) de Deus. A seguir, o salmista pede a
Deus (como nos salmos de lamentação) que os seus passos sejam firmes
e perseverantes na guarda e observação dos ensinos (lei) de Deus (versos
5-6). Finalmente, ele faz um voto de prestar culto a Deus e continuar
guardando e observando os preceitos (lei) de Deus (versos 7-8). Obser­
vando estas três partes, é possível perceber os passos da liturgia do culto.

II. Aprofundando a compreensão do Salmo


1. O uso dos substantivos e dos verbos: Para interpretar um
texto bíblico, é preciso prestar atenção, especialmente, nas palavras contidas
V;> .
nele. Por exemplo í em primeiro lugar, nesse pequeno trecho encontramos
oito palavras para significar lei, instrução ou Palavra de Deus. São estas:
torá - instrução, ensino, lei (v. 1), preceito (v. 2), caminho (v. 3), ordem (v. 4),
estatuto (v. 5 e 8), mandamento (v. 6), direito (v. 7). E importante perceber
que a localização da palavra torá, como cabeça dessa lista de sete palavras
sinônimas, pode esclarecer a intenção maior do salmista (conferir SI 119).
Em segundo lugar, os verbos usados pelo autor do salmo reforçam a
idéia de que ele queria promover, entre o povo, o valor e a importância da
torá (lei, instrução) de Deus para o bem-estar das pessoas e do mundo.
São eles: “ Andar segundo a lei/ instrução...andar no caminho” (v. 1 e 3),
“guardar os preceitos” (v. 2), “buscar a instrução” (v. 2), “observar (vigiar)
a ordem, os estatutos de Deus” (v. 4, 5 e 8), “considerar os mandamentos”
(v. 6), “aprender os justos direitos” (v. 7).
2. Intençõo do salmista: Essa intensa frequência de substantivos
com o mesmo significado não é falta de assunto, pobreza de vocabulário ou
ausência de criatividade do autor. Os verbos dão expressão e ação aos subs­
tantivos. O sujeito, na intenção do salmista, é a pessoa crente (inclusive ele).
JOÃO WESLEY E SUA BÍBLIA 39

Por isso, ele demonstra que a felicidade do ser humano e a hamonia do mun­
do criado por Deus dependem da decisão de uma pessoa “seguir”, “guar­
dar”, “buscar”, “aprender” e “observar” (vigiar) a lei/instrução de Deus.
Enfim, o salmista quer afirmar a importância da lei/instrução para a vida
de homens e mulheres e para o bem-estar de toda a criação divina. Se torá
(lei, instrução) é tão importante para o bem-estar do ser humano e de todo
mundo criado por Deus, então este termo hebraico deve ser entendido e
traduzido como Palavra de Deus. Assim os Pais da fé cristã entenderam
e ensinaram.
3. A teologia do salmista: Os tradutores da Bíblia tomam a palavra
hebraica - torá - como lei. Não é um erro assim fazer. Entretanto, é preciso
observar que no Salmo 119 (como em todo o Antigo Testamento), o sig­
nificado de torá é bem mais rico. Primeiro, o significado de torá tem sua
raiz no verbo hebraico cuja tradução é: instruir, ensinar, lançar. Segundo,
o Salmo 119 confirma o significado original ao colocar seis diferentes
sinônimos da palavra torá. E Interessante perceber que o Salmo 19 faz o
mesmo (versos 7-10). Aqui, torá (verso 7) tem como sinônimo os mesmos
substantivos: “preceito”(verso 7)”ordem” e “mandamento”(verso 8) “direi­
to” (verso 9). Portanto, quando o salmista falava de torá, ele pretendia falar
de algo muito mais amplo e que traz “felicidade/bem-aventurança” para
as pessoas (SI 119.1-2), que faz brotar a vida, alegra o coração, ilumina
os olhos e é mais doce do que o mel (SI 19.7-10). A lei está muito longe
de proporcionar tudo isso às pessoas. Mais uma vez é preciso dizer que
a melhor tradução do termo hebraico torá é instrução, ensino de Deus,
enfim, Palavra de Deus e Escritura Sagrada.

iii. LiÇÕES que tiramos do texto bíblico


Há uma tendência, entre o povo cristão, de tomar parte do Antigo
Testamento (AT) como “lei” e o Novo Testamento (NT) como “graça”.
É preciso corrigir esse erro, pois essa orientação pode levar a doutrina da
Igreja a um beco sem saída. Aqui cabe uma pergunta bem pertinente: a
Palavra de Deus, no AT (como no Salmo 119 — preceito, mandamento,
caminho, ordem, estatuto), é menos intensa do que no NT?
40 METODISMO

Há uma outra tendência, entre grupos que usam a Bíblia como nor­
ma de fé, de exigir que as prescrições contidas no AT sejam cumpridas
dentro dos rigores das exigências humanas. Exemplo: guardar o sábado e
não permitir a transfusão de sangue. A verdade é que a Igreja Cristã não
pode julgar a torá do Senhor sob a perspectiva de grupos de intérpretes do
AT — como os fariseus — que viveram os dois últimos séculos antes de
Cristo, e que foram considerados por Jesus como marginais, por suas ati­
tudes e teologia (Mt 23.13; Lc 11.42). A ênfase maior do AT é que Deus
revelou-se libertador (Dt 26.5-9), fiel e amoroso (SI 98.1-3), e perdoador
(SI 99.8) através da história, dos códigos de lei, dos hinos publicados nas
páginas do AT.
O Salmo 119 reafirma o que o AT proclama: a Torá é uma doação de
Deus à humanidade. Seus ensinos irradiam vida, bem-estar, salvação, fe­
licidade e segurança. Entretanto, o manusear ou o simples fato de portar
um exemplar da Bíblia não garante à pessoa, ou ao lugar onde ela estiver
exposta, imediata felicidade e segurança.
O Salmo 119 mostra que a Bíblia (Escritura Sagrada) quer^struir e
orientar a vida e a conduta das pessoas e não servir como instrumento dé
adorno e magia. Em outras palavras, a Bíblia Sagrada, como livro, não
determina o destino de uma pessoa ou lugar, mas a ação de seus ensinos
depende muito da resposta humana, isto é, da conversão de homens e
mulheres a Deus. Os versos 1 e 2 não dizem: “Quão boa e poderosa é a
torá ou Escritura Sagrada!” Mas sim: “Bem-aventurados são aqueles [e
aquelas] que andam segundo a torá do Senhor e que guardam os seus
preceitos”. A Torá não pretende justificar teoricamente a sua ligação com
o Deus que se revelou ao povo de Israel. Na verdade, ela tenciona fazer
com que, mais e mais, homens e mulheres convertam-se, renovem-se e
assumam novos propósitos de vida.

Conclusão
Quando a Igreja Cristã estabeleceu a sua doutrina da fé, ela declarou
que as Escrituras Sagradas incluem Antigo Testamento e Novo Testamen­
to. Os nossos pais da fé (fiéis do AT, apóstolos, servos e servas da Igreja
JOÃO WESLEY E SUA BÍBLIA 41

Primitiva que deixaram os seus testemunhos por escrito, reformadores e


muitos líderes do cristianismo) não privilegiaram nenhuma parte da Bíblia.
Antes, denominaram-na de Palavra de Deus e Escritura Sagrada. Na ver­
dade, eles e elas interpretaram corretamente as palavras de Jesus no Sermão
do Monte: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas... vim para
cumprir...” (Mt 5.17-20).
Como Martinho Lutero, João Wesley mostrou que a lei desempenha
o papel de um severo mestre-escola ou mestre de disciplina, conforme
Gaiatas 3.24. Para ambos líderes cristãos, Deus costuma convencer os
pecadores pela lei. Portanto, o Antigo Testamento e o Novo Testamento
formam um conjunto de literatura que a experiência dos Pais da Igreja,
ao longo de vinte séculos, denominaram de Palavra de Deus.
. 7
A DINÂMICA DO EQUILÍBRIO
NO PENSAMENTO
WESLEYANO
Atos 5.33-42

A Igreja Metodista, assim como todas as denominações religiosas,


possui suas ênfases doutrinárias* A tradição jdoutrinária metodista orien-
ta-se pelo Credo Apostólico, pelos Vinte e Cinco Artigos de Religião do
Metodismo Histórico, pelos Sermões de João Wesley e por suas Notas
sobre o Novo Testamento.
João Wesley viveu numa época de profundas mudanças sociais, marca­
da por posicionamentos radicais e extremados, tanto na religião como na
filosofia (conhecimento). Porém, no meio de tantas divergências, Wesley
apresentou formas equilibradas de manifestar sua fé e a prática do Evan­
gelho sem cair em extremismos.

Tendências teológicas
Alguns teólogos do tempo de João Wesley interpretavam a salvação
como ato exclusivo da iniciativa de Deus. Tudo estava nas mãos de Deus,
Ele resolvia tudo. Outros já afirmavam que o esforço humano garantia
a salvação. Cada ser humano decidia sobre sua própria salvação. Enquanto
44 METODISMO

uns enfatizavam a necessidade de um crescimeno diário na fé como fruto da


ação de Deus em sua vida, outros pregavam a justificação como ato definitivo
de Deus, feito uma só vez na pessoa: “uma vez saivo(a), salvo(a) para sempre”.
Por outro lado, havia pessoas que davam ênfase ao aspecto geral da sal­
vação dizendo: “A salvação é para todos (as)”, todos os seres humanos serão
salvos independente do seu estado de vida. Havia ainda quem defendia
a salvação como algo individual e pessoal. Um grupo religioso pregava a
importância da fé, da santidade na vida interior, chegando a limitar o cris­
tianismo à meditação e devoção. Outro pregava a necessidade de expressar
a fé através das obras, enfatizando o fruto do Espírito e desenvolvendo um
elevado sentido de responsabilidade social.

Ênfases no pensamentoequilibrado de Wesley


1. Salvação: na salvação tanto há iniciativa de Deus quanto resposta
humana. É Deus quem age em nós, mas a pessoa tem liberdade de aceitar
ou não esta ação. Deus não nega ou viola a liberdade humana, mas ope­
ra por meio dela. João Wesley dizia: “Deus não nos tirou o entendimento,
mas o iluminou e fortaleceu. Muito menos tirou a nossa liberdade, o nosso
poder de escolher o bem ou o mal, o certo ou o errado, não nos forçou.
Mas sendo assistidos [as] pela sua graça como Maria, devemos escolher a
melhor parte.”
2. Justificação e Santificação: para Wesley, não há pessoa santa
sem que seja justificada, ou seja, é impossível haver santidade sem o
perdão dos pecados. A santificação é anulação contínua do domínio do
pecado sobre a pessoa, restauração da vida. Ser justificado (a) é aceitar a
misericórdia de Deus em Jesus Cristo, é renovar-se pelo poder de Deus
em seu Espírito Santo.
3. Universal e Pessoal: João Wesley partia da clássica afirmação
litúrgica: “Cristo na cruz fez um completo, perfeito e sufciente sacrifí­
cio pelos pecados de todas as pessoas”. A obra de Cristo é oferecida a todos
e todas, sem acepção de pessoas, porém a apropriação desta graça é pessoal
e particular em fé. Cristo me amou e morreu por meus pecados: esta era
a compreensão de quem que aceitava esta obra.
A DINÂMICA DO EQUILÍBRIO NO PENSAMENTO WESIEYANO 45

4. O Testemunho e o Fruto do Espírito: João Wesley descreve o


Espírito Santo como aquele que: “ilumina o nosso entendimento, retifica
a nossa vontade, renova a nossa natureza, une a nossa pessoa com Cris­
to, dá-nos a certeza da nossa adoção como filhos e filhas, guia-nos em nos­
sas ações, purifica e santifica a nossa alma e nosso corpo para o gozo com­
pleto e eterno de Deus”. Porém, ele adverte que é impossível afirmar a
presença do Espírito sem a imediata manifestação de frutos. Como diz a
Palavra de Deus: “Pelos frutos se conhece a árvore”. (Mt 7.15-18).
5. Lei e Evangelho: Wesley retornou a posição Bíblica quanto à lei,
citando as palavras de Jesus Cristo: “Não penseis que vim revogar a lei, ou
os profetas, mas sim para cumpri-la” (Mt 5.17). O fundador do Metodis-
mo afirmava que o mau entendimento da lei estava na interpretação feita
quanto à letra e não quanto ao espírito, e seu real significado. Os legalistas
não entendiam o sentido espiritual da lei, limitaram-se a reproduzir o sen­
tido que lhes interessava. A crítica mais comum que Jesus Cristo sofria era
exatamente de desobedecer a lei. Que grande incoerência!
6. Santidade Pessoal e Responsabilidade Social: tomando
por base o resumo de todo o mandamento apresentado por Jesus: ‘Ama­
rás pois o Senhor teu Deus de toda a tua força e amarás o teu próximo
como a ti mesmo” (Mt 12.29-31), a santidade pessoal não se choca com
a dimensão social do amor repartido. Wesley não concebia uma religião
isolada, desvinculada de obras de misericórdia. Ao mesmo tempo reconhe­
cia que estas obras têm fundamento na comunhão íntima com Deus, na
prática dos atos de piedade. Wesley era um homem de oração, leitura da
Bíblia e uma sincera prática piedosa. Ao mesmo tempo praticava obras
de misericórdia visitando pessoas enfermas, providenciando alimento a
quem tinha fome, lutando contra o desemprego, incentivando o desen­
volvimento cultural, etc.

Conclusão
Observamos com as ênfases doutrinárias consideradas básicas do Cristia­
nismo, a dimensão do equilíbrio no pensamento de João Wesley. Scr metodista
no século XVIII, num tempo de tantas radicalidades, significava procurar
46 METODISMO

e exercitar esse equilíbrio. Neste tempo, percebemos que posições radicais


continuam presentes. Diante desta constatação, o que fazemos? Optamos
por posições extremas? Adotamos um pouco de tudo? Caímos na indiferença
não tendo forças para tomar decisões?
A posição metodista continua sendo, hoje, a de equilíbrio como
nos tempos de Wesley. Não podemos concordar com o fanatismo, ra-
dicalidade ou extremismo, e nem aceitar o descaso, indiferença ou
“ficar em cima do muro”, quanto às convicções cristas fundamentais.
A nossa herança wesleyana nos impulsiona a buscar e viver o pensamento
expresso na famosa frase:

“No essencial, unidade. No não essencial, liberdade. Em tudo,


caridade (amor)”.
. 8
UNIDADE E
CONEXIDADE NA
TRADIÇÃO WESLEYANA
João 1 7.1 2-26, .

A Igreja Metodista tem como marca a “conexidade”, uma palavra


de difícil interpretação. Há vários sistemas de organização, governo e
funcionalidade das Igrejas: conciliar (como a Metodista), sinodal (como
a Luterana), convencional (como a Batista e a Assembléia de Deus),
congregacional (como a Cristã do Brasil), etc. Cada um desses modelos
possui suas características próprias.
À luz da Palavra de Deus e da nossa tradição histórica, nós, metodistas,
nos organizamos como uma Igreja de sistema conexional. Ela é dirigida por
colegiados nos quais membros clérigos e leigos participam. E tem suas
decisões emanadas de Concííios nos vários níveis: local, distrital, regional
e geral. Como tudo isso começou?

!. O QUE SIGNIFICA A CONEXIDADE?


E o princípio da mútua cooperação e apoio, do ajuste e do envolvimento
de cada parte do Corpo de Cristo. Há um princípio de unidade e de interação
no movimento metodista. Ele não se caracteriza por ações individualistas
48 METODISMO

ou separatistas, antes expressa a unidade, a diversidade e a mutuaiidade


de todo o Corpo de Cristo. Vários textos bíblicos nos exemplificam este
tipo de relacionamento e modo de ser ( Ef 4.1-6; Jo 17.15-23; ICo 12.12-
27; Ef 4.15-16).
Essa visão de unidade do Corpo de Cristo fez com que João Wesley
levasse os metodistas a permanecerem integrados à Igreja Anglicana. O
movimento metodista seria uma força de renovação para a própria Igreja
da Inglaterra e de transformação da nação. Os diversos grupos não são
corpos partidos, mas integrados. A própria forma organizacional do mo­
vimento ilustra a realidade conexional: a formação dos “bands”, das “clas­
ses” e das “sociedades”, um apoiando o outro, formando uma integração
maior. O surgimento das Conferências (para nós, Concílios) sinaliza, de
forma viva, essa realidade.
Além desse aspecto interno e missionário, há também o da visão da
“Universalidade da Igreja de Cristo”, na qual o reconhecimento, o respeito, o
diálogo e a cooperação com os outros grupos cristãos tornam-se de significa­
tiva importância. Era a busca constante de “preservar a unidade do Espírito,
no vínculo da paz” (Ef 4.3). O sistema conexional é característica básica e
fundamental do Metodismo. É uma forma de ação em mutuaiidade, visando
desenvolver a sua vocação histórica: “ Reformar a Nação, particularmente
a Igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre toda a Terra” . Estamos cons-
ciententes que somos parte da Igreja Universal de Jesus Cristo na expressão
da sua Unidade, Diversidade e Mutuaiidade”. Na igreja local, uma das for­
mas da conexidade se expressar é por meio dos “Dons e Ministérios”. Apesar
de existirem algumas dificuldades práticas para vivenciar a conexidade, ela
segue sendo um alvo e um princípio de atuação dos metodistas.

li. Entendendo a conexidade à luz da Bíblia


No Antigo Testamento, o povo, ainda organizado em tribos, se reuniu
inúmeras vezes para a defesa comum. Também nas festas e celebrações,
todas as famílias se dirigem a espaços sagrados para orar, celebrar a Deus
e compartilhar os frutos da terra, alimentos e artefatos diversos que ga­
rantiam a sobrevivência das comunidades.
UNIDADE E CONEXIDADE NA TRADIÇAO WESLEYANA 49

No Novo Testamento, Jesus intercede, suplicando ao Pai que promova


proteção e livramento a seus fiéis seguidores, tanto àqueles e aquelas que o
acompanharam fisicamente como a tantas pessoas que se uniríam à Igreja Cris­
tã. Um destaque nesta oração é dado ao tema unidade, por meio do testemunho
da Igreja atuante em cooperação, participação e comunhão (Jo 17.20-21).
Foi em meio a provas, tribulação e desafios constantes que os cristãos
e cristãs expressaram-se em generosidade e graça. A comunidade não es­
tava fechada em “si mesma”, mas aberta ao Espírito, à missão, à plena co­
munhão do corpo de Cristo, doando-se para a obra, oferecendo-se como
“dom” aos seus irmãos e irmãs de outra comunidade (At 2.42-47).
O capítulo 9 de 2Coríntios apresenta o preparo e a solidariedade de
uma comunidade para levantar uma oferta de amor. Era uma cooperação
em alegria, conforme proposto pelo coração (2Co 9.7). A visão de mundo
da comunidade cristã era de uma riqueza em todas as áreas da vida. Por
isso, em meio à pobreza, eram capazes de exercer o seu amor, cooperação
e generosidade. As “igrejas” eram desafiadas a sair de si mesmas e dar-se
a Deus, umas às ouí*as e à missão.
*• • - - / A*-.-------------

Exemplos bíblicos do espírito conexional


O Espírito do Senhor gerou unidade no Corpo de Cristo. Os cristãos
e cristãs não eram uniformes na sua maneira de ser, de expressar a fé, de
interpretar a Palavra, de testemunhar o Evangelho, Existiam muitas ten­
sões, tendências diversificadas, distorções culturais, discussões teológicas.
Todavia, a graça do Senhor agia fazendo com que, no Espírito, pudessem
alcançar e vivenciar a unidade.
Atos 2 e 4 informam que “todos os que creram estavam juntos e tinham
tudo em comum” (At 2.44). Havia unidade, diversidade e mutuaiidade,
por meio dos dons e ministérios concedidos pelo Espírito. “Da multidão
dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusi­
vamente sua nem uma das coisas que possuía. Tudo lhes era comum” (At
4.32). O resultado era: “com grande poder (autoridade) os apóstolos da­
vam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, pois em todos eles ha­
via abundante graça. Nenhum necessitado havia entre eles” (At 4.33-34),
50 METODISMO

Há muitas expressões bíblicas desse espírito conexional.

■ “Levai os fardos uns dos outros...” (G1 6.2);


■ “Acolher-vos uns aos outros em amor, andai em amor, como Cristo
vos amou; sede benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos ou­
tros como também Deus em Cristo vos perdoou.,.” (Ef 5.2; 4.32);
■ “Acolhei os frágeis na fé, não para discutir opinião...” (Rm 14.1);
■ “Esforçai-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito
no vínculo da paz...” (Ef 4.3),

Inúmeros textos desafiam e orientam a “comunidade do Senhor” —


as diversas comunidades espalhadas — como o todo o Corpo de Cristo a
viver na expressão da fé: a conexionalidade.
Em Corinto, vemos uma comunidade dividida por cismas, lideranças,
vaidades, ambições, imoralidades, doutrinas, formas cúlticas. Paulo apela
para uma vivência e um relacionamento em amor através da unidade,
diversidade e mutualidade (ICo 12, 14). Tudo deveria existir visando a
edificação de todo o Corpo.
A Igreja em Efeso, ele afirma que os Dons a Ministérios existem para
edificar os santos e santas, equipando-os para a obra missionária, a fim
de que todos e todas sejam edificados no Corpo, visando o desempenho
do serviço. A comunidade deveria crescer, em tudo, naquele que era o
cabeça, Cristo. Para tal, eram necessárias a unidade (Ef 4.1-6) e a vivência
em conexidade: “Todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio
de toda a junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetuando seu
próprio aumento (crescimento) visando a edificação de si mesmos em
amor” (Ef4.7-16).
Aos fiüpenses, ele apela para que pudessem alegrá-lo, talvez num mo­
mento de divisão, cisma... de modo que “pensassem a mesma coisa, tives­
sem o mesmo amor, fossem unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.
Nada de partidarismo ou vanglorias... mas vivendo todos em humildade,
considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.1-5). De­
pois, estabelece um princípio fundamental: “Não tenha em vista cada um
UNIDADE E CONEXIDADE NA TRADIÇAO WESLEYANA 51

o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.
Tende em vós o mesmo sentimento (maneira de ser) que houve também
em Cristo Jesus...”.

Conclusão
A conexidade metodista é uma expressão de compromisso com o ser hu­
mano, com a vida, com todo o Corpo de Cristo e com a comunidade huma­
na. É uma forma de expressar o nosso compromisso diante do Senhor e diante
do próximo. Carecemos nos unir. Consolidar a nossa conexidade. Avançar
em nossa vivência e prática missionárias.
Há uma vocação divina presente no pequeno povo metodista: ex­
pressar-se junto às pessoas, às famílias, à Igreja, ao Corpo de Cristo, às
comunidades, à sociedade e à história.
Nascemos de um movimento do Espírito e devemos continuar a ser um
movimento de ação, renovação e vida. Revistamo-nos desse sentimento.
Lembrando sempre que “Bem-aventurados sois se, sabendo essas coisas,
as praticardes” (Jo 13.17).
9
A DISCIPLINA PESSOAL
E COMUNITÁRIA NA
IGREJA METODISTA
Mateus 1 8 . 1 5-20

A disciplina pessoal e comunitária é fundamental na vida da Igreja, bem


como em toda vida humana. Sem este instrumento norteador, a pessoa e a
comunidade desintegram-se. Vida disciplinada exige de nós o discernimen­
to para não incorrermos em atitudes contrárias ao Evangelho (Boa Nova).
Neste capítulo, queremos estudar este tema à luz da Bíblia e da tradição
metodista, tendo como pano de fundo o “Manual de Disciplina”, publicado
pelo Colégio Episcopal em 1998. Nele, a disciplina não é tratada como um
conjunto de normas rígidas e sim como uma proposta de vida em busca
da santidade, permeada pelo amor redentor de Deus. A razão da discipli­
na, de acordo com o documento, é “a correçã o do nosso comportamento
visando a restauração do pecador e da pecadora, a fim de que tal pessoa
seja perdoada, orientada e corrigida, alcançando assim a santidade bíblica”.

Aprendendo com Mateus 1 8


Todo capítulo 18 de Mateus trata da ordem e da disciplina na comu­
nidade cristã. A parábola da ovelha perdida (10-14) e a questão sobre o
54 METODISMO

número de vezes para perdoar (21-22) fazem a moldura para o texto que
discute a disciplina propriamente dita (15-20). Já aí fica claro o princípio
disciplinar de Jesus, no qual o “sábado foi feito para o homem e não o
homem para o sábado” (a disciplina foi feita para o homem e não o homem
para a disciplina).
“Ligar e desligar” — O texto ensina que a comunidade tem autoridade
para ensinar e perdoar seus membros, mas também para corrigir ou punir
aqueles e aquelas que se desviarem de suas doutrinas e práticas.
“Se teu irmão...” —A prática da disciplina da Igreja, assim como toda e
qualquer pendência entre irmãos e irmãs, é assunto interno da família da fé.
“Se teu irmão pecar...” — Uma dura realidade na vida cristã é o peca­
do. Cria-se um ambiente para a falsa espiritualidade, ao afirmar-se que a
pessoa crente não peca. Esta compreensão errônea da Bíblia tem trazido
danos tremendos. Jesus responsabiliza os discípulos e discípulas em re­
lação ao pecado de seus irmãos e irmãs. Não é admissível a indiferença.
A comunidade de fé tem que ajudar o irmão ou irmã a acertar sua vida.
A disciplina pessoal e comunitária é um recurso para o (a) crente não se
afastar do caminho.
“Vai argui-lo, entre ti e ele só...” — Arguir inclui o confronto pastoral,
em amor, de quem busca convencer a pessoa de seu erro ou pecado, e
aponta a possibilidade do perdão e da graça da restauração. O nível deste
confronto deve ser entre as duas partes. O ideal é que o arrependimento e
a mudança de vida aconteçam neste momento, antes de se tornar público.
Numa comunidade sadia, a cura acontece a partir dos relacionamen­
tos pessoais, pois a disciplina á um padrão comunitário. Por isso, “se ele
te ouvir, ganhaste o teu irmão...”.
“Se, porém, não te ouvir...” — Se não hoúve o arrependimento e
mudança de vida, agora devem ser chamadas duas ou três testemunhas,
com o objetivo de ganhar a pessoa que não se arrepende. Só depois dis­
to é que o assunto deve ser relatado à Igreja. Entre pessoas que não se
amam é comum primeiro se espalhar a notícia do pecado, para depois se
desenvolver procedimentos visando a sua correção. O método de Jesus
começa pelo tratamento pessoal, para depois chegar ao pequeno grupo, a
A DISCIPLINA PESSOAL E COMUNITÁRIA NA IGREJA METODISTA 55

finalmente envolver toda a comunidade. A disciplina em Jesus tem sempre


um conteúdo amoroso.

Disciplina na tradição metodista


E bom lembrar que ao falarmos da tradição metodista, devemos ter em
mente que na sua natureza, no tempo de Wesley, não pretendia-se esta­
belecer uma nova igreja, mas que se tratava de um povo levantado por
Deus para: “Reformar a Nação (inglesa), particularmente a Igreja (da
Inglaterra), e espalhar a santidade bíblica sobre a Terra”. Para quem dese­
jasse tornar-se membro de uma sociedade metodista, havia uma exigência:
a do verdadeiro arrependimento. Wesley traduziu o conceito bíblico do
arrependimento em três regras gerais:

(1) Não praticar o mal;


(2) Zelosamente praticar o bem (Lc 3.11; Mt 25.31-46);
(3) Atender às ordenanças de Deus.

Toda a estrutura local do metodismo visava a edificação e o crescimento em


graça. Através das regras gerais estabelecia-se a disciplina comunitária e pessoal.
A história do metodismo tem em seus registros a vida de muita gente que
se recuperou do pecado inspirada na experiência pessoal que alcançou na
comunidade. Não é a história de uma igreja juíza do mundo, mas sim de
uma comunidade na qual as pessoas arrependidas encontram apoio para
sua recuperação, numa vida disciplinada pelos princípios éticos do Evange­
lho. A vida comunitária necessita de regras orientadoras. Para crescer, cada
um (a) precisa seguir as regras estabelecidas. Estas regras, quando recebidas
como um auxílio ao crescimento em santidade, envolvem a pessoa numa
experiência positiva de vida.

Conclusão
A pessoa e a comunidade que buscam no Evangelho os fundamentos
de seu viver precisam desenvolver uma experiência de vida disciplinada
e amorosa, através da qual todos encontrem motivação para crescer em
56 METODISMO

santidade. Nesta disciplina é necessário lutar contra o pecado e as suas


expressões.
Quem se arrepende precisa encontrar acolhimento de irmãos e irmãs
dispostos a participar em sua restauração e abertos para sua reintegração.
Pois “Deus nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos partici­
pantes da sua santidade” (Hb 12.10b), A vida disciplinada pelo ensino do
Evangelho, inspirada pelo Espírito de Deus, faz da pessoa crente alguém
que busca incessantemente a santidade, desenvolvendo atos de piedade e
obras de misericórdia.
Parte III

O METODISMO E AS •
CINCO FONTES DO
CONHECIMENTO
DE DEUS
10
CONHECENDO
DEUS PELA BÍBLIA
Lucas 4.1 6-2 1

João Wesley acreditava ser a Bíblia a maior fonte de conhecimento e


autoridade: única regra de fé e prática para a pessoa cristã. Wesley mesmo
se declarava “homem de um só livro”. No sermão 6 — “O testemunho de
nosso próprio espírito” ele afirma que a Bíblia “é lâmpada para os pés do [a]
cristão [ã], bem como luz para todos os seus caminhos. Ele [a] a recebe
como a sua única regra do que é justo e do que é errado, de tudo aquilo
que é realmente bom ou mau. Ele [a] nada tem como bom senão aquilo
que nela se contém, quer diretamente ou por simples consequência. Nada
tem como mau senão o que ela proíbe quer claramente ou por inferência
inegável. Tudo que a Escritura não proíbe nem ordena quer diretamente
ou por simples consequência, ele [a] crê que seja de natureza indiferente,
nem bom nem mau em si mesmo. Esta é a regra total e única pela qual a
sua consciência é dirigida em todas as coisas”.
60 METODISMO

Podemos entender que Wesley...

1. Identificava nas Escrituras a mensagem de Deus à humanidade.


E a revelação do propósito de Deus para restaurar plenamente tudo
e todas as pessoas, criatura e criação, por intermédio de Jesus Cristo,
Senhor e Salvador.
2. Reconhecia que Deus inspirou a quem a escreveu, assim como
inspira quem a lê.
3. Aconselha a meditação constante nas Escrituras para o entendimento
melhor da vontade de Deus para a vida pessoal, familiar e comunitária.

II. Como aproveitar a leitura da Bíblia?


Em sua posição metódica e sistemática, João Wesley recomendava o
seguinte procedimento para a leitura da Bíblia:

1. Separar um tempo determinado durante o dia ou durante a noite.


2. Ler, neste tempo separado, um capítulo de um livro do Antigo Tes­
tamento e um do Novo. ^
3. Fazer a leitura com humildade, desejando conhecer a vontade de
Deus, mas também com o objetivo de praticá-la.
4. Prestar atenção àsdoutrinasabordadas:pecado,justificaçãopelafé,novo
nascimento, santificação interior e exterior.
5. Orar antes e ao término da leitura, buscando a presença do Espírito
Santo.
6. Fazer pausas durante a leitura, buscando um exame interior e prática
de vida em confronto com a verdade expressa naquela leitura.

O QUE NOS ENSINA LUCAS 4. 16-21?


Muitos textos, no Antigo Testamento, declaram a importância das
Escrituras para o conhecimento de Deus e o entendimento das ques­
tões ligadas à fé (Dt 4.2; 32.2; Js 1.7-8; SI 119.105; Pv 30.5; Is 55.11; 66.5).
A Palavra de Deus ocupa lugar central na vida de Israel: é a fonte de co­
nhecimento, entendimento e orientação para a caminhada do povo eleito.
CONHECENDO A DEUS PELA BÍBLIA 61

Trata-se da narrativa do que Deus fez, tem feito e fará por seu povo, o
qual deve aprender com o Senhor através dos seus feitos e de sua história.
No texto de Lucas 4.16-21, percebemos o valor das Escrituras, o seu lu­
gar no culto, no aprendizado e na vida do povo de Deus. Jesus segue um
costume, uma prática de instrução: colocou-se em pé para a leitura e foi-lhe
dado Isaías 61.1-2, contendo as promessas de livramento e salvação de Israel
sendo que, sob a unção (poder) do Espírito do Senhor, o povo alcançaria
a bênção da restauração. Logo no início do seu ministério, segundo Lm
cas, Jesus vai à Palavra, busca nas Escrituras a fundamentação para sua
vida, testemunho e missão. Ao dizer: “Hoje se cumpriu a Escritura que
acabais de ouvir” (Lc 4.21), Jesus deixa bem claro o objetivo de sua estada
em Jerusalém: fazer com que a vontade de Deus, o Pai, seja conhecida,
compreendida e aceita por todos aqueles e aquelas que nele confiarem.
Jesus assume ter vindo em cumprimento das Escrituras, como que uma
voz celestial que se tornou matéria, trazendo a mensagem de restauração
para os aflitos e aflitas de Israel e do mundo.

E NÓS, METODISTAS?
Reconhecemos que Deus falou e continua a nos falar através das Escri­
turas. Ele fala de si mesmo, fala do homem e da mulher em sua jornada de
fé. Fala também das nossas oportunidades de servir ao próximo, atendendo
às suas necessidades, demonstrando assim a prática do amor.
Cremos que a Bíblia corrige, persuade, ensina, forma na justiça, pro­
vê ensinamentos para toda boa obra, comunica a sabedoria pela fé em
Jesus Cristo (2Tm 3.14-17).
Cremos na necessidade do estudo e da meditação permanente da e na
Palavra de Deus.
Cremos que a verdadeira sabedoria bíblica não consiste em apenas
acumular mais e mais informações a respeito das Escrituras e nem sim­
plesmente em recitá- las, mas em praticar o que ela ensina.
Cremos na mensagem total da Bíblia. Não construímos dogmas ou
crenças de textos isolados e nem buscamos autoridade em palavras ou
frases soltas. Temos Jesus Cristo como o centro e cremos que é para Ele
que todas as Escrituras nos encaminham.
62 METODISMO

Conclusão
Se recobrarmos nossa herança metodista, podemos afirmar com Wesley
que somos um povo de um só livro. E possível fazer isto sem cair no erro de
um fanatismo biblicista. Como Wesley, podemos conservar a centralidade
da Bíblia como fonte mais importante de nosso conhecimento de Deus e
nossa maior autoridade em matéria de fé, e ao mesmo tempo reconhecer
o valor de uma grande variedade de boas leituras.
CONHECENDO A
DEUS PELA EXPERIÊNCIA
PESSOAL
Romanos 7.14-1 9

--- # it**
Wbsley lia a Bíblia como fonte segura para o conhecimento de Deus. No
entanto, reconhecia na experiência pessoal de cada crente uma outra opor­
tunidade legítima de conhecimento deste mesmo Deus. Ambas se reforçam.
Na medida em que se medita na Palavra, buscando a vontade de Deus, há
mais probabilidade de se ter uma experiência pessoal com Ele. Ao mesmo
tempo, a experiência de fé leva o (a) crente a uma outra leitura das Escrituras.
É indiscutível a primazia da Bíblia no conhecimento da vontade de
Deus, mas este fato não exclui nem diminui a importância de uma ex­
periência pessoal. É possível saber e citar diferentes passagens bíblicas e
ainda permanecer indiferente à vontade de Deus. A pessoa crente toma
conhecimento de Deus c da sua vontade através da comunhão íntima em
que o Espírito testifica com o nosso Espírito que somos filhos (as) de Deus.

I. A PRIMAZIA DA EXPERIÊNCIA PESSOAL


João Wesley cresceu em uma família cristã. Foi instruído nas Escrituras,
aprendeu a ler nelas e fazia isso constantemente. Orava pela manha e à
noite. Esperava ser salvo por três razões:
64 METODISMO

1) Por não ser tão mau como as outras pessoas.


2) Por ter amor à religião.
3) Por ler a Bíblia, frequentar o culto e dizer orações.

Fazia tudo para viver uma vida correta e não duvidava que fosse
um bom cristão. Durante um longo período da sua vida, confiou em suas
próprias obras e justiça, mas ao mesmo tempo dizia como Paulo:
“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal,
vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu
próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro e sim, o que detesto. Ora,
se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem
faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que
em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer
o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que
prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.14-19).
Mas Wesley entendia que havia algo errado: “Antes, havia servido ao
pecado de boa vontade, agora era contra a vontade, mas mesmo assim, eu o
servia. Caía, me levantava, caía de novo. Às vezes, eu era derrotado e pesa­
roso, outras vezes vencia e gozava de alegria... Durante toda esta luta entre
natureza e graça, que já tinha então durado por mais de dez anos, eu bus­
cava o Senhor em oração, especialmente quando estava com problemas; tive
muitos confrontos sensíveis, que não são, na realidade, outra coisa que breves
antecipações da vida da fé. Mas eu ainda estava ‘debaixo da lei’ e não debaixo
da graça (estado em que a maioria dos que se chamam cristãos se contentam
em viver e morrer); pois eu estava apenas lutando com o pecado, mas não
livre dele. Nem tinha o testemunho do Espírito com o meu espírito, e, deveras
não o podia ter, pois o buscava não pela fé, mas como que pelas obras da lei”.

II. Wesley busca uma experiência pessoal de fé


Estimulado por amigos fiéis, Wesley perseverava. Continuou a buscar a
fé que é dádiva de Deus até o dia 24 de maio de 1738, na Rua Aldersgate,
em Londres, na Inglaterra. Pela manhã, o início da experiência vislum­
brava-se ao contato com as palavras de 2 Pedro 1.3-4:
CONHECENDO A DEUS PELA EXPERIÊNCIA PESSOAL 65

“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas
que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele
que nos chamou para e sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm
sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas
vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção
das paixões que há no mundo”.
A noite, ao ouvir a introdução do sermão de Lutero sobre a epístola aos
Romanos, João Wesley sentiu seu coração “estranhamente aquecido”. Ele
mesmo afirma: “Senti que acreditava em Cristo, apenas em Cristo para a
salvação e uma segurança me foi dada que Ele havia levado meus peca­
dos, sim, os meus e me salvado da lei do pecado e da morte”. Wesley ora
e testemunha aos presentes na reunião a sua experiência! Mais tarde
afirma: “Lutava, sim, pelejava com todas as minhas forças debaixo da lei
como debaixo da graça. Mas, então, era às vezes, senão frequentemente,
vencido. Agora, era sempre vencedor”.

III. O QUE REPRESENTA ESTA EXPERIÊNCIA PARA NÓS HOJE?


A religião transmitida ensina o que Cristo realizou por nós. A reli­
gião vivida ensina o que Cristo faz em nós, entre nós e por meio de nós. Há
uma diferença básica! Sentir-se na presença de Deus e em comunhão com
Ele nos proporciona não só o conhecimento da sua vontade mas também
o poder para realizá-la.
A fé não é meramente intelectual, mas primordialmente espiritual.
Compromete o indivíduo na sua totalidade e, por assim dizer, é vivên­
cia mui íntima que o entrelaça ao mesmo Espírito de Deus. Não é a fé
que tem que se completar com obras. As obras não são excluídas, mas
constituem provas de salvação em Cristo. São evidências, projeções da
graça gratuita que tem que se expressar na vida de serviço ao próximo.

Conclusão
Wesley afirma que a experiência da fé não vem pelo esforço, ou da von­
tade própria, mas pela comunhão íntima com o Senhor e Salvador Jesus
Cristo, que nos concede “um coração amoroso para com Deus e todos os
66 METODISMO

homens, confiança plena em Deus, nosso Pai. Lançando a Ele todos os


nossos cuidados, abraçamos todos os filhos dos homens com sinceridade
e terna afeição, estando prontos a dar nossa vida em favor do nosso ir­
mão, assim como Cristo deu a sua por nós. Há consciência de que somos
interiormente conformes, pelo Espírito de Deus, com a imagem de seu
Filho, e que nós andamos perante Ele em justiça, misericórdia, verdade e
fazendo as coisas que lhe são agradáveis” (Sermão 10: O testemunho do
Espírito - discurso 1).
12
CONHECENDO
A DEUS PELA RAZÃO
Tiago 3 . 1 3 - 1 8

Wesley apontava o u$< *da razão em conjunto com as Escrituras e a ex­


periência pessoal como oportunidade de conhecimento e autoridade
cristã. Dizia: “Nós temos o princípio fundamental de que renunciar à
razão é renunciar à religião, que a religião e a razão caminham de mãos
dadas e que toda religião sem razão é falsa”.
O fundador do movimento metodista pergunta: “Não é a razão que,
assistida pelo Espírito Santo, nos capacita a entender o que as Sagradas
Escrituras declaram a respeito do ser e dos atributos de Deus? Da sua
eternidade e imensidade, do seu poder, sabedoria e santidade? E pela
razão que Deus nos capacita, até certo ponto, a compreender o seu
método de tratar com os filhos dos homens a natureza de suas várias
dispensações - da velha e da nova, da lei e do Evangelho. É por esta
que nós entendemos que é pela fé que somos salvos, quais são a natu­
reza e a condição da justificação e quais são os seus frutos imediatos e
subsequentes. Pela razão, aprendemos o que é o novo nascimento sem
o qual não podemos entrar no Reino do céu e a santidade sem a qual
68 METODISMO

ninguém poderá ver o Senhor. Pelo uso devido da razão, nós chegamos
a conhecer os elementos implícitos na santidade interior e o que signi­
fica ser santo: em outras palavras: qual a mente que houve em Cristo e
o que é andar como Cristo andou.”
Por isso, Wesley defendia a necessidade das afirmações da fé serem feitas
com lógica, bom senso. Prevenia contra a falsidade defendida por pessoas
que reuniam informações que não tinham relação entre si. Condenava
a repetição de expressões indevidas sem compromisso e sem experiência
verdadeira.

I. A HARMONIA ENTRE FÉ E RAZÃO


Para Wesley, não há separação entre o intelectual e o espiritual. Ele
não viu conflitos entre estas duas dimensões da vida ou impecilhos para o
desenvolvimento de uma ou outra ao mesmo tempo. Ele próprio aproveitou
o saber humano acumulado lendo bons livros sobre diferentes assuntos e
escrevendo diferentes obras.
Por outro lado, Wesley entendia que a razão por ela mesma não
produz fé, esperança e amor. Compreendeu que Deus usa a razão como
um veículo para o entendimento e o discernimento tão necessários em
nossos dias. Wesley não confundiu pessoas letradas estudadas com
pessoas inteligentes que pediram a sabedoria do Alto e se colocaram à
disposição do Senhor para serem usadas no seu trabalho. Neste sentido,
Wesley soube respeitar pessoas de todos os níveis de instrução e viu a
possibilidade de Deus agir em suas vidas, despertando nelas o entendi­
mento e o discernimento.
Wesley usava sua própria razão e deixava cada pessoa usar a sua. Con­
tudo, ele conseguia adotar esta posição liberal sem ser omisso, indiferente
ou vacilante. Ele soube pensar e deixar pensar,

II. O EQUILÍBRIO ENTRE FÉ E RAZÃO


Novamente observamos o equilíbrio em ação. Wesley era filho do sé­
culo XVIII, o “século das luzes”. Era um século em que o saber humano
era bem valorizado. Wesley mesmo bebeu das fontes da cultura e do saber,
CONHECENDO A DEUS PELA RAZÃO 69

estudando e lecionando na famosa Universidade de Oxford. Mas nem por


isso se considerou um intelectual privilegiado ou alguém que acreditasse
ser sua sabedoria suficiente em si até o ponto de dispensar a fé da sua vida.
Seu movimento religioso foi baseado em profundas emoções e experiências
pessoais com o Deus vivo.
Mas o movimento não se esgotou nisso: ao mesmo tempo que sentiu o
coração aquecido, também estudou para desenvolver sua compreensão da
fé. Certamente Wesley amou a Deus. Mas no sentido bíblico, ele amou ao
Senhor de todo o seu coração, de toda a sua alma e também de todo o seu
entendimento (Mt 22.37). A razão sempre estava presente com as emoções
e o entusiasmo na sua experiência de fé.

III. O QUE NOS ENSINA A BÍBLIA


No livro de Provérbios, há um convite para o encontro com a sabedoria. -
Ela é dádiva de Deus (Pv 9.1-12). Com esta sabedoria, a pessoa pode viver
plenamente e entender os caminhos do Senhor (Pv 1.1-7).
Jesus não tolerava a hipocrisia, a repetição vã ou a falsidade. Estas
situações são afrontas à razão. Elas funcionam na base de ocultar, alterar
ou censurar o pensamento livre e sincero (Lc 12.1-3).
O apóstolo Paulo, um grande estudioso, convida-nos a usar a mente
para discernir a vontade de Deus para nossas vidas. Ele fala da mente renovada
continuamente, em constante funcionamento e desenvolvimento (Rm 12T.1-2).
Tiago faz uma distinção clara entre a sabedoria que vem do alto e as
imitações baratas que existem por aí que só trazem consequências trágicas.
Para o autor, sabedoria é sinônimo de mansidão, pureza, paz, doação,
misericórdia, imparcialidade e sinceridade (Tg 3.17).

Conclusão
Reconhecemos que somos seres racionais, dotados de razão. Isto signi­
fica que temos capacidade de pensar, raciocinar, criar, refletir e imaginar. E
muito importante desenvolver a capacidade de pensar. Se não for utilizada,
ela fica adormecida e paralisada. A falta de entendimento é fator certo de
aniquilamento e servidão.
70 METODISMO

Deus nos deu a razão para evitar tal situação. Cremos ainda que
abrir mão do uso da razão é rejeitar uma das grandes dádivas que Deus
concede aos seus filhos e filhas. Por isso mesmo, ao nos falar nas Es­
crituras, Deus dirige-se à nossa capacidade, à nossa possibilidade de
escolher, decidir, prosseguir, arrepender. Também fala à nossa capaci­
dade de amar, perdoar, reconciliar, sensibilizar e exercer solidariedade.
Cremos que a razão é um talento entregue, pelo qual daremos con­
ta. Cultivá-la como um dom que Deus nos concede é compromisso
de fé! (Mt 25.14-30).
. 13
CONHECENDO A
DEUS PELOS ENSINOS
DA IGREJA
Deuteronômio 6.M5

Wesley considera os ensinos da Igreja como ponto de referencia, ao


conhecimento de Deus revelado nas Escrituras, pela experiência pessoal
e pela razão. Diz ele: “Nunca é demais fazermos um exame da nossa re­
ligião se o fizermos à luz dos mais antigos documentos do Cristianismo.
Saber como nasceu a Igreja Cristã nossa própria Igreja, bem como saber
como viviam nossos irmãos no passado, saber sobre a fé em Jesus Cristo,
saber à respeito da Igreja em seus primórdios, seus costumes, princípios,
doutrinas, saber o porquê da existência da Igreja, sua razão de ser, ajuda
para superar ou diminuir dificuldades que impedem a compreensão do
que somos, nossa identidade particular como grupo, nossa disponibilidade
a Deus — o nosso serviço”.

I. Qual o testemunho bíblico?


O povo de Deus manteve-se unido em torno da verdade transmitida
oralmente, de geração em geração (Dt 6.1-25, 11.19). Os profetas, quan­
do apontavam os desígnios de Deus para o seu povo, sempre recorreram
72 METODISMO

à memória e encontraram as promessas feitas aos seus pais no passado


(Is 63.11-19).
As comunidades cristãs primitivas organizavam-se e cresciam em tor­
no da Palava de Jesus e dos testemunhos dos fiéis (At 15.1-35). Aos pou­
cos, à medida que cresciam em número e expandiam, os cristãos e cristãs
eram exortados a preservar, cuidar e zelar pelas suas tradições (lTm 1.3-7).
Rememorar as tradições tinha como intenção:

■ Manter a unidade da fé (Ef 4.11-14);


■ Valorizar a santidade cristã em oposição à desordem e à dissolução
(Ef 4.17-24);
■ Focalizar os ministérios e serviços que os fiéis poderiam prestar às
outras pessoas como parte do seu testemunho cristão (Rm 12.3-8);
a- Fundamentar a pregação da Palavra nos lugares onde os cristãos
e cristãs se reuniam (At 11.19-26);
■ Incentivar a comunidade cristã a uma vida de oração, meditação
e vivência cristã (At 2.42-47).

Estes testemunhos eram valiosos para demonstrar que a Igreja, obra


de Deus em Jesus Cristo, era fonte de alimento e sustento para as pessoas.

II. A Igreja: Instrumento de Deus


Vivemos em um tempo de muitas mudanças e novidades, e até mesmo
a Igreja tem experimentado novas formas de entender, assimilar e prati­
car a fé. Porém, não podemos abrir mão da nossa compreensão sobre a
razão de ser da Igreja como:

B Uma agência da ação de Deus para manter vivo o Evangelho


(Mt 16.18-19);
■ Um instrumento de Deus para o cumprimento e a continuação da
sua missão (Ef 3.1-13);
B O corpo vivo de Jesus Cristo (ICo 12.27).
CONHECENDO A DEUS PELOS ENSINOS DA IGREJA 73

Reconhecemos que o conhecimento dos testemunhos de fé acumula­


dos ao longo da história só nos trazem benefícios e novos desafios nesta
jornada de fé e compromisso com o Evangelho.
Por exemplo, há uma grande riqueza da Igreja na formulação de credos e
doutrinas logo no início. A Igreja Cristã conseguiu formular um feliz resumo
dos elementos fundamentais da fé cristã nas palavras do Credo Apostóli­
co. Wesley, com sua constante preocupação de trabalhar em cima de uma base
doutrinária bem sólida, sempre em comum com os demais reformadores,
enaltecia os primeiros quatro Concílios Ecumênicos (Nicéia, Constantino-
pla, Éfeso e Calcedônia). Esses eventos, num período entre 325 e 451 d.C.,
estabeleceram as mais essenciais doutrinas da fé cristã. Nestes documentos,
a sabedoria da Igreja conseguiu tomar as verdades bíblicas (o fundamento
por excelência de todas as doutrinas cristãs) e formular expressões de fé em
tomo da Trindade, da Cristologia, da Encarnação e outras preciosas posições
de fé. Já vimos que metodistas aceitam completa e totalmente essas doutri­
nas fundamentais da fé cristã, enunciadas nos Credos promulgados pelos
Concílios da Igreja dos primeiros quatro séculos da Era Cristã, presentes
nos 25 Artigos de Religião do Metodismo Histórico.

III. A família: Instrumento de Deus


Deuteronômio 6.1-15 ajuda-nos a entender como Israel valorizava o
ensino dos mandamentos, estatutos e juízos de Deus. O ensino previa a
prática daquilo que se aprendia. Os termos conhecer e temer estão inti­
mamente relacionados e revelam uma profunda consciência histórica do
propósito de Deus para com seu povo.
O aprendizado da Lei representava aceitar as promessas do Senhor e
cumpri-las, o que garantia a certeza de bem-aventurança. Amar a Deus
sobre todas as coisas e com todas as forças: este é o centro da mensagem
a ser ouvida, aprendida e colocada em prática.
Neste sentido, a família ocupa um lugar de destaque no processo de
ensino da Palavra de Deus. O verso 7 afirma: “Tu as inculcarás a teus
filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e
ao deitar-te, e ao levantar-te.“
74 METODISMO

Inculcar, falar a todo tempo e lugar, uma insistência para que os filhos,
filhas e a família conheçam o conteúdo da fé que movia o povo em dire­
ção ao cumprimento da Palavra, perpetuando nas gerações vindouras o
significado das experiências vividas por Israel.
Um outro valor da família no processo de ensino da Palavra de Deus
é a lembrança. A memória é algo muito valorizado entre o povo de Israel.
Certamente foi ela que manteve viva a esperança de vitória entre os filhos
e filhas de Deus. Lembrar do passado e da escravidão no Egito deveria
levar as gerações a valorizarem os Mandamentos e ensinarem juízos de
Deus. É preciso partir de experiências concretas sobre o importante espaço
da família para que a memória continue viva.

Conclusão
Nos 25 Artigos de Religião do Metodismo Histórico (você pode lê-los
na íntegra buscando na internet), observamos as bases doutrinárias da fé
cristã metodista. Cabe a nós dar continuidade a este trabalho, levando as
pessoas a conhecerem a Deus por meio do ensino ^aquilo que Ele é, fez
e faz, visando alcançar o ser humano em sua integridade.
14
CONHECENDO DEUS
POR MEIO DA CRIAÇÃO
Isaías 42.1-9

são fontes do conhecimento de Deus e da autoridade cristã. Wes.ley acres­


centa ainda outra fonte: a natureza, feita pelo Deus Criador. Nela há
expressão veemente da presença e do poder de Deus. Nela há um retrato
da sabedoria divina e do cuidado amoroso. Nela há uma imagem da per­
feição do poder divino do Senhor.

I. Palavra de Wesley a um amigo


“Contemplando o homem as coisas que o cercam, diz no pensamento:
‘Estas são as tuas obras gloriosas, ó Pai... o Seu poder eterno, a sua sabedo­
ria nas coisas visíveis, os céus, a terra, as aves no ar e os lírios do campo’.
Regozijando-se no constante cuidado que Ele (Deus) ainda tem para com
a obra das suas próprias mãos, o homem surpreende-se num transporte de
amor e louvor. ‘Oh, Senhor, nosso governador, quão excelentes são os Teus
caminhos em toda terra. Oh, Tu que puseste a Tua glória acima dos céus’!
Enquanto o homem vê o Senhor assentado sobre seu trono e governando
76 METODISMO

bem todas as coisas, enquanto ele observa a providência geral de Deus


abrangendo toda a sua criação e examina todos os seus efeitos nos céus e
na terra como um espectador contente, enquanto Ele vê a sabedoria e a
bondade do seu governo, presidindo todo o universo como se fosse uma
única pessoa e vigiando a cada uma como se ela fosse todo o Universo,
como ele exulta revendo os vários traços de bondade onipotente que ele tem
experimentado nas diversas circunstâncias e mudanças da sua própria vida!
Tudo que ele agora vê lhe foi atribuído em número na alma; ao examinar
a providência geral ou particular de Deus, ele observa todas as cenas que
se abrem para a eternidade” (Cartas: “Ao Dr. Conyers Middleton”).

II. O QUE NOS ENSINA A PALAVRA DE DEUS?


Entre os escritores bíblicos que exaltam o Deus criador, temos o
salmista, que lhe canta louvores. Há exaltação do seu poder, sabedoria,
santidade eterna e não uma simples referência à beleza ou à grandeza da
criação propriamente dita. Nas referências à natureza na Bíblia, vemos
sempre uma ênfase no ato criador, ontem, hoje e sempre:

■ “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as


obras das suas mãos” (SI 19.1).
■ “Em tempos remotos lançaste os fundamentos da terra; e os céus
são obras das suas mãos” (SI 102.25).
■ “Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria
as fizeste” (SI 104.24).
■ Louvem o nome do Senhor, pois mandou ele, e foram criados”
(SI 148.5).

III. O SER HUMANO! PONTO IMPORTANTE DA CRIAÇÃO


Os relatos da criação (Gn 1.2-3, 2.4-25) revelam o poder da Palavra
de Deus, quando do caos faz surgir um mundo belo, rico, grandioso e
organizado, assim como o Criador. Um espaço especial é a formação do
homem e da mulher à sua imagem e semelhança. Deus faz do ser humano
o administrador da obra criada. A imagem está diretamente relacionada
CONHECENDO DEUS POR MEIO DA CRIAÇÃO 77

com a capacidade do homem e da mulher de escolherem: obedecer ou


não a palavra/ordem de Deus. É o livre arbítrio, atributo natural de Deus
que se manifesta autônomo e Senhor dos seus atos, sempre buscando o
ser humano com o objetivo de restauração da comunhão, sem abrir mão
do princípio da liberdade.
Semelhança relaciona-se com santidade. O caminho da perfeição cris­
tã passa necessariamente pela santificação como elemento básico no processo
de retorno à origem de tudo: o Criador e Senhor do Universo. O Senhor
Deus, que é santo, espera e age visando a santificação da humanidade.

Conclusão
Como metodistas, cremos que a beleza da criação não é um fim em si.
O propósito de Deus revela-se na natureza das coisas criadas.
Cremos que as maravilhas da criação podem contribuir para nosso
conhecimento de Deus. Não idolatramos os aspectos da natureza, mas
reconhecemos que a ordem criada com sua beleza, suas formas, sua
ordem, suas cores e seus sons maravilhosos podem contribuir para nosso
conhecimento de Deus e podem revelar a presença do Criador.
Aceitamos o compromisso de guardar e cuidar do mundo criado que
Deus nos confiou, como bons administradores e administradoras da mais
sublime manifestação do Senhor..
Cremos que a criação é uma expressão de Deus e que esta criação, na
sua totalidade, aguarda a redenção final do Criador amoroso (Rm 8.18-25).
,


Parte IV

O METODISMO E AS
EXPERIÊNCIAS EM
DISCIPULADO
------ ----------------- _________ ___
15
AS SOCIEDADES E
CLASSES METODISTAS
DE WESLEY
Atos 5.42

Assim o historiador Richard E Heitzenrater descreve a primeira so­


ciedade metodista formalmente organizada por Wesley - a Sociedade
de Fetter Lane: “Reunidos na casa de John Hutton, um pequeno grupo
de pessoas (...) aceitou duas regras, pelas quais uma pequena sociedade
foi estabelecida: 1) Que eles se encontrariam uma vez por semana para
confessarem suas faltas uns aos outros e para orarem também uns pelos
outros a fim de que fossem curados (cf Tiago 5.16); 2) Que qualquer outra
pessoa, de cuja sinceridade eles estivessem bem seguros, poderia, se assim
o desejasse, reunir-se com eles para aquele propósito”.
Neste capítulo, conheceremos a estrutura e o funcionamento das socie­
dades metodistas, um método de pastoreio utilizado por João Wesley e uma
das marcas do Metodismo nascente. Desejamos que este conhecimento
ajude nossas igrejas a entender alguns “formatos” ou estratégias para a
prática do discipulado nas comunidades locais.
82 METODISMO

I. Por que as sociedades surgiram?


Na época de João Wesley, George Whitefield também era um prega­
dor que levava multidões a ouvi-lo. Mas, diferentemente de seu colega
reformado, Wesley se preocupava com os desdobramentos da vida cristã
das pessoas que aceitavam a Jesus por meio de suas pregações. Ele sentia
que devia dar-lhes condições para aprofundarem a experiência com Deus.
Pensando assim, ele organizou os novos discípulos e discípulas para
crescer na vida de santidade. De início, eles já deveríam manifestar a pro­
fundidade de sua conversão. A pregação evangelística leva ao ingresso na
sociedade, que possuía cunho formativo, de crescimento na santificação.
Wesley se inspirou em sua experiência com os grupos morávios (o líder
morávio Peter Bohler esteve envolvido na organização de Fetter Lane, em
1738) e a sua experiência anterior nó Clube Santo, em Oxford.
Ele organizava grupos de doze pessoas, tendo um líder leigo. Eram as
classes. As questões que exigiam atenção pastoral específica eram tratadas
por ele quando encaminhadas ao seu conhecimento por este líder. Garan­
tia-se, assim, o desenvolvimento das pessoas e a devida atenção pastoral
para preservar a santidade, a fé e a doutrina. Diversas “classes” formavam
uma “sociedade” numa determinada cidade ou local de reunião. Ao final
do século 18, os historiadores registram mais de 10 mil grupos e 80,000
membros nas sociedades organizadas como “classes”.

II. As "exigências" da sociedade metodista


A pessoa que se integrava à sociedade metodista deveria ser imediata­
mente encaminhada a uma classe (grupo de 12). Ali, era-lhe recomendado
um conjunto de posturas visando a santidade: orar diariamente muitas
vezes; participar da Ceia do Senhor, pelo menos uma vez por mês; desen­
volver a mansidão, a humildade e o hábito dos pensamentos santos; evitar
situações propensas ao pecado (más companhias, tentações, etc.); fazer um
autoexame todas as noites pensando nas atitudes tomadas durante o dia;
praticar um jejum mensal, especialmente próximo do tempo da Ceia; ler
livros religiosos; dar um testemunho vigoroso.
AS SOCIEDADES E CLASSES METODISTAS DE WESLEY 83

As reuniões das sociedades aconteciam antes de as pessoas irem para o


trabalho. Elas se compunham de uma pregação, cânticos e orações. Havia
os momentos de comunhão nas chamadas festas do amor ou agape, às quais
só eram admitidos os membros em plena comunhão com as sociedades.
Nessas ocasiões, partilhavam pão e água, compartilhavam lutas e vitórias
e cantavam hinos. Mensalmente, faziam vigílias.

III. O CRESCIMENTO EM SANTIFICAÇÃO: OBJETIVO DAS


SOCIEDADES
Por meio de reuniões semanais, as pessoas arrependidas, como explica
o professor Reily, tinham um ambiente apropriado para apropriar-se da fé,
do perdão, da transformação de vida e da santificação progressiva. Essas
pessoas muitas vezes já eram oficialmente pertencentes à Igreja Anglicana,
mas não estavam em comunhão com ela antes de aderir ao metodismo.
O ponto de partida era a pregação ao ar livre e, depois, o convite a
que a pessoa que aceitasse verdadeiramente a Cristo se integrasse a uma
classe. O líder leigo era um facilitador, junto ao grupo, de sua formação
espiritual. Eles exercitavam a disciplina coletiva e o cuidado pastoral uns'
dos outros, por meio de exortações, confissões mútuas de seus pecados e
faltas, ministração da Palavra e leituras dos sermões de Wesley.
A maioria dos participantes eram das classes sociais menos favoreci­
das, em busca de alternativas à vida consumida pelos vícios da sociedade
de então. Ali também havia, a partir dos líderes de classes, coletas, para
ajudar na construção de locais de reunião e por vezes ajudar os próprios
integrantes em suas dificuldades financeiras.
A ênfase na santidade e a seriedade na sua busca fez com que al­
gumas vezes Wesley fosse bastante duro com algumas classes e seus
líderes. Heitzenrater relata algumas exclusões feitas por Wesley por
causa de maus testemunhos, desvios doutrinários, insubordinações
e até mesmo casos de violência doméstica — intoleráveis para quem
estava em busca da santidade.
84 METODISMO

IV. A IMPORTÂNCIA DAS CLASSES PARA O CRESCIMENTO


de novos(as) convertidos(as)
Wesley entendia que nenhuma pessoa recém-convertida podería desen­
volver adequadamente sua decisão por Cristo e levá-la à efetividade sem
se envolver num grupo pequeno, que estimulasse à santificação.
Os líderes tinham de visitar integrantes das classes com o objetivo de
recolher as contribuições estipuladas e exortar à perseverança da fé. Ao fazer
isso, descobriam as situações de relacionamento, testemunho ou prática
distoantes do ideal de santidade. Em reuniões semanais, esses líderes pas­
savam esses relatórios a Wesley, os quais possibilitavam-lhe, como pastor,
conhecer mais profundamente seu rebanho e tomar as medidas pastorais
cabíveis em cada caso. A classe se tornava, deste modo, restauradora e
terapêutica na vida de seus integrantes, tanto homens quanto mulheres.
Com o tempo, surgiram os “tickets”, uma forma de estímulo aos membros
e de “controle de qualidade” do crescimento em santidade. A cada três meses
eles eram renovados e os integrantes da classe subiam de nível dentro dos
assuntos estudados. Isso garantia que o novo convertido ou convertida não
“estagnasse” em sua fé, nem que o mais experiente se acomodasse na rotina
espiritual. Ali, eles poderíam descobrir e exercitar seus dons.

Conclusão
As células ou grupos pequenos atualmente existentes em diversas de­
nominações possuem muitas inspirações no modelo wesleyano. Inclusive
muitos dos livros e treinamentos sobre este tema citam João Wesley. Com
o tempo, a falta de supervisão e do incentivo que Wesley tanto enfatiza­
va, levou os grupos a estagnarem e lentamente, morrerem. Nos Estados
Unidos, a Igreja Metodista organizou-se de outra forma e abandonou os
grupos pequenos. Por isso é que parece novidade ainda para muita gente
na Igreja brasileira. Mas, de alguns modos, a organização dos grupos pe­
quenos é um grande retorno histórico e missionário, que precisamos fazer
com muita consciência de sua inspiração bíblica e fortemente calcada na
tradição wesleyana.
16
GRUPOS PEQUENOS,
UMA PRÁTICA METODISTA
Lucas 10.23

Embora muitas igrejas e grupos na atualidade adotem pequenos


grupos em sua estrutura de funcionamento, ainda falta muita clareza
a respeito de sua função e objetivo. Muitas pessoas utilizam os termos
‘pequenos grupos’ e ‘discipulado’ como sinônimos, mas na verdade não
são. Discipulado é algo para além dos grupos pequenos. Estes constituem,
na verdade, métodos de pastoreio e de cuidado. São um espaço no qual
aspectos fundamentais do discipulado podem ser postos em prática.
Em busca de novidades, muitos nomes, fórmulas e propagandas são
usados, dando a impressão de que a adoção de uma ou outra prática
de discipulado, como os grupos pequenos, pode fazer a igreja explodir em
números de um dia para o outro. Mas quem seriamente trabalha com esses
métodos sabe que existe um exaustivo trabalho anterior a essa “colheita”.
Por outro lado, alguns desses movimentos afastaram-se da ideia da
congregação, do culto público em que toda a comunidade se reúne, fi­
xando-se tão somente nas chamadas “igrejas nas casas”. Há relatos de que
templos foram fechados e até mesmo a celebração comunitária acontece
86 METODISMO

no restrito espaço dos pequenos grupos. Por esta razão, há algum tempo,
o Colégio Episcopal escreveu uma carta pastoral alertando para esses
perigos, especialmente na forma chamada G12.
Entretanto, o fato de haver desvios, dificuldades ou equívocos de
entendimento não significa que a prática dos pequenos grupos não seja
extremamente importante, funcional e, acima de tudo, bíblica. E também
para nós, como já vimos, histórica.
Jesus Cristo ensinava às multidões, pregava a elas, exercia no seu espaço
os milagres narrados no Evangelho. Mas no pequeno grupo dos doze foi
que ele forjou sua Igreja. Foram ao menos três anos, vivendo diariamente
juntos, para que o caráter de cada um dos discípulos assumisse o “molde
do Espírito” nas mãos habilidosas do mestre Jesus...

I. Organização de grupos pequenos


Falando da experiência metodista, existem hoje diversas igrejas locais
que adotam pequenos grupos como método de pastoreio. Sem entrar ainda
no aspecto de seu objetivo, vemos que, em geral, umjj^queno grupo se
estrutura da seguinte formá: a) entre 5 e 12 participantes; b) um(a) líder,
designado (a) pelo pastor ou pastora; c) reuniões semanais em espaço al­
ternativo ao templo (residências, locais de trabalho, salões comunitários,
etc.); d) material orientador para a reflexão (este não é um estudo sistemá­
tico no mesmo formato da Escola Dominical ou dos estudos bíblicos); e)
momentos de cânticos, oração, intercessão e comunhão; f) reuniões com
cerca de uma hora de duração.

II. Objetivos do grupo pequeno


Nos pequenos grupos, os objetivos gerais estão relacionados com a
aquisição de um nível aprofundado de comunhão que gere crescimento
pessoal, maturidade espiritual, integração e desenvolvimento dos dons,
r
moldagem do caráter, etc. (Atos 2.42).
A especificidade do grupo define igualmente seus objetivos por afinida­
de: grupos de homens, de mulheres, de jovens, de casais. De modo geral,
os grupos devem levar ao desenvolvimento de potenciais novos (as) líderes,
GRUPOS PEQUENOS, UMA PRÁTICA METODISTA 87

pois devem reproduzir-se. Depois de algum tempo, espera-se que novas


pessoas despontem, preparadas para ter outras sob sua ação discipuladora.
Ainda hoje em nossas igrejas, podemos encontrar grupos pequenos
cuja existência não possui uma função evangelizadora, no sentido de
incorporar pessoas que ainda não tiveram uma experiência com Cristo.
Sua ênfase principal é na criação de laços profundos de comunhão entre
os membros, de modo a investir no seu crescimento e nos relacionamentos
interpessoais e com Deus.

III. Diferenças entre os grupos pequenos


A maioria das pessoas que escrevem e/ou atuam no trabalho de grupos
pequenos afirma que existem diferenças de abordagens que afetam os
resultados esperados na vida de quem participa. Dentre as mais citadas,
encontramos referências a termos tais como grupos pequenos, grupos
familiares, grupos wesleyanos, fogueirinhas, grupos de multiplicação.
Os chamados “grupos familiares” geralmente reúnem pessoas que
moram ou trabalham numa mesma região. Esses grupos são de cunho
relacionai, de comunhão. Alguns "grupos wesleyanos” estruturam-se desta
mesma forma, sendo tão somente um nome diferente (ex.: Atos 16.13 fala
de um grupo de mulheres que se reuniam para oração).
Os “grupos pequenos” podem organizar-se por idade, sexo, estado
civil ou interesses comuns. Em lugares do mundo, como na Coréia, por
exemplo, existem grupos pequenos que reúnem pessoas por profissões:
grupos de médicos e médicas, de advogados e advogadas, de pastores e
pastoras (ex.: parece haver um grupo de viúvas com Dorcas em Atos 9.39)
As chamadas “fogueirinhas” encontram estilos diferentes de estrutu­
ração. Há relatos de grupos assim, que se reúnem em casas de pessoas
recém-convertidas, com o objetivo de fortalecer os novos na fé. Também
existem fogueirinhas cujo objetivo é atrair pessoas ainda não convertidas a
um espaço onde partilham-se experiências com Cristo sem a formalidade
do templo. E existem ainda fogueirinhas no estilo dos grupos familiares.
Um diferencial são os grupos de multiplicação. Nestes, o objetivo é
reunir pessoas que ainda não tiveram uma experiência com Cristo, para
88 METODISMO

partilhar suas vidas, dilemas e questionamentos de fé num espaço de aco­


lhida, intercessão, compreensão e apoio. As pessoas ali são instruídas nos
fundamentos da fé. Esses grupos, depois de um determinado tempo, são
levados à convivência da Igreja, como família e comunidade, quando são
desafiados à aceitação de Cristo e ingressam em outros grupos já no modelo
de pastoreio e discipulado, para seu crescimento e desenvolvimento na fé.

Conclusão
O objetivo deste capítulo não é esgotar o assunto a respeito dos grupos
pequenos, mas trazer informações de modo prático e claro. É preciso
insistir que os grupos pequenos não são o discipulado, mas um espaço
ou estratégia no qual ele pode acontecer. Isso porque limitar o discipu­
lado aos pequenos grupos pode ser muito restritivo à vivência dos dons e
ministérios na Igreja. O discipulado acontece na vida em todo o tempo, e
na totalidade da vida da Igreja, não só no grupo pequeno em si mesmo.
Por exemplo, um músico experiente que treina e capacita outro para
aprender com ele; uma professora de Escola Dominical que caminha
junto com um adolescente, ensinando-o como atuar com crianças; pessoas
wxwwpamham os líderes; pastores e pastoras que se reúnem com sua
liderança não para resolver problemas, mas para transmitir sua visão de
•igreja, ministério e atuação... tudo isso é discipulado. Tudo isso pode ser
encontrado na maneira como Jesus atuava e se portava junto aos seus mais
próximos seguidores, os discípulos e discípulas.
17 .
DISCIPULADO PESSOAL,
UMA EXPERIÊNCIA
METODISTA
1 Reis 19.19-21

Na Bíblia, vemos a importância do discipulado pessoal na transmissão


do legado, da experiência e da fé. Moisés e Josué, Elias e Eliseu são exem­
plos do Antigo Testamento. No Novo, poderiamos citar Barnabé e Paulo;
depois, Paulo e Timóteo; Barnabé e João Marcos... Na história da Igreja, o
bispo de Esmirna e mártir da Igreja, Policarpo, foi ordenado pelo apóstolo
João e seguiu sua pregação com ênfase no amor. O discípulo de Policarpo
foi Irineu, que disse a famosa frase; “O sangue dos mártires é semente”.
Só esses exemplos servem para nos atestar a força do discipulado pes­
soal na capacitação e firmeza da liderança da Igreja ao longo dos séculos.

I. Discipulado pessoal na Igreja Primitiva


Um exemplo de discipulado pessoal eficiente na igreja primitiva é o de
Barnabé e Saulo. Quando este se converteu, não convenceu de imediato
a seus antigos inimigos. Eles pensavam ser um estratagema para expor e
prender os seguidores de Jesus. Barnabé assume o risco e se torna um men­
tor, um condutor para Saulo, apresentando-o aos discípulos e intercedendo
90 METODISMO

a seu favor (Atos 9.27). A seguir, temos uma janela de 14 anos no tempo.
Quando Barnabé visita a Igreja de Antioquia e percebe suas necessidades
em termos de liderança, logo se lembra de Saulo e o “recruta” para a tarefa
(Atos 11.25). Ali, eles exercitam o disçipulado durante um ano, ao cabo
do qual Deus os comissiona. Observamos o processo do disçipulado a
partir do fato de o livro de Atos trazer sempre a expressão “Barnabé (o
discipulador) e Saulo (o discípulo). Confira: 12.25; 13.1; 13.2; 13.7. Em
algum momento do capítulo 13, exatamente quando se opera a mudança
no nome de Saulo para Paulo, vemos também o processo de maturidade
do discípulo. Em Atos 13.13, temos “Paulo e seus companheiros” e, a
partir daí, “Paulo e Barnabé” (13.43; 13.46; 13.50) e “Barnabé e Paulo” de
modo mais indistinto, em igualdade (Atos 14). Depois de algum tempo,
Barnabé e Paulo se separaram e o processo da multiplicação de discípulos
prosseguiu. Barnabé assumiu João Marcos e Paulo uniu-se a Silas (Atos
15.39-40). Em sua caminhada, Paulo teve outros discípulos, os quais
marcaram a história da Igreja: Tito, Lucas, Timóteo, Priscila e Áquila,
entre outros conhecidos. :-'

II. Disçipulado pessoal no metodismo primitivo


“Dia 13 de 1757. Achando-me em estado de fraqueza, em Snowfields,
orei a Deus para que, se lhe parecesse bem, me enviasse ajuda para minhas
capelas. Assim o fiz. E tão logo terminei de pregar, veio o Sr. Fletcher (...)
com a intenção de ajudar-me, supondo que eu estivesse só. (...) [O Senhor]
enviou-me ajuda das montanhas da Suíça e verdadeiro companheiro em
todo sentido! Onde poderia eu ter encontrado outro igual ? ” - Este trecho de
uma das obras de Wcslcy revela o início do que foi.um disçipulado pessoal
dos mais produtivos da história do Metodismo.
Wesley pensou que não viveria muito mais depois de uma grande en­
fermidade. Então, começou a procurar um companheiro para instruí-lo e
prepará-lo, como Moisés e Josué, para a sequência do trabalho. Fletcher foi
esse importante companheiro, acompanhando e assistindo o trabalho com
Wesley. Foi também de suma importância em controvérsias a respeito do
Metodismo, escrevendo com muita propriedade. É considerado um teólogo
DISÇIPULADO PESSOAL, UMA EXPERIÊNCIA METODISTA 91

do metodismo, por isso. ínfelizmente, ele veio a falecer antes de Wesley,


que o chamou, nos serviços de funeral, de “santo dos metodistas”, dada a
pureza de seu caráter e a mansidão de sua fala. Embora tenha havido entre
eles alguns desentendimentos a respeito de como entendiam e expressavam
sua fé, eles sempre se mostraram companheiros. Wesley chegou a dizer
que ele era um amigo com quem não tinha nenhum segredo.
Wesley exerceu um disçipulado pessoal com diversas pessoas, que se
tornaram fortes líderes no movimento metodista. Para isso, basta exami­
nar sua vasta correspondência, na qual orientou homens e mulheres de
seu tempo, deu conselhos e reprimendas, incentivou à vida de piedade
e acompanhou de perto suas lutas e temores enquanto se empenhavam
por pregar o Evangelho e, para usar uma expressão muito própria de seu
tempo, “fugiam da ira vindoura”.

III. Disçipulado e formação da liderança


As pessoas que estudam o disçipulado e suas implicações na vida da
Igreja atualmente são enfáticas em dizer que o pastor ou pastora só pode­
rá forjar sua liderança à semelhança de Cristo se exercer diligentemente
o disçipulado. Neste caso, trata-se de estabelecer relacionamento com sua
liderança e não somente realizar reuniões referentes à missão da Igreja,
planejamentos e muito mais. É necessário conhecer, partilhar, conviver,
orar juntos, ter a oportunidade e transparência de abrir o coração e também
desenvolver maturidade.
No disçipulado autêntico, existe exigência de entrega e de santidade.
Por esta razão, também existe o espaço da repreensão, da correção e da
exortação. O disçipulado forja caráteres, por isso não permite melindres.
Jesus Cristo não tinha receio de dizer a seus discípulos os seus equívocos,
porque ele sabia dos perigos adiante. Se não os fortalecesse com palavras
de “ferro e fogo” na precisão exata, eles não suportariam a “espada e o
fogo” uas perseguições que enfrentaram (Marcos 13).
Alguns pastores e pastoras exercitam esse disçipulado realizando
encontros e retiros periódicos para comunhão, momentos de intercessão,
visitas, telefonemas e acompanhamentos (Mateus 26.20 - a ceia foi um
92 . METODISMO

momento de comunhão pessoal entre Jesu.s e seus discípulos). Também


podem estabelecer o que alguns chamam de “irmão(ã) de jugo”, que é
organizar sua liderança em duplas para oração e encorajamento mútuo.
Na verdade, a experiência e realidade de cada comunidade estabelecem
os métodos e as estratégias. O que não pode faltar é a clareza do propósito
e o investimento pessoal no discipulado como um estilo de vida e uma
imitação de Cristo.

Conclusão
Uma dificuldade grave ao discipulado pessoal nos dias atuais é que as
pessoas têm vivido de forma muito superficial a sua fé. Vemos pessoas que
reclamam, por exemplo, de que não recebem visitas pastorais. Queixam-
-se de que o pastor ou pastora não vai às suas casas. Mas não é incomum
termos, do modo similar, pastores e pastoras que não conseguem visitar
suas ovelhas! São problemas de agenda, desencontros e desvios... E as
pessoas passam a se ver tão somente nos cultos, sem profundidade de re-
laciqfiaánento com seu pastor ou pastora! E, assim, pessoas que poderiam.
V ser “colunas” em suas igrejas contentam-se em ser apenas “objetos de
decoração”, números num rol e não vidas em discipulado!
Os grupos pequenos possuem um imenso potencial para suprir essa
demanda. Dentro deles, podem brotar relações que estabelecem um dis­
cipulado pessoal, Um bom equilíbrio é necessário para evitar que o dis­
cipulado pessoal se transforme em manipulação, domínio e cerceamento
da vontade do outro. O objetivo do discipulado pessoal é transmitir o que
aprendemos para que a outra pessoa se toma autônoma, confiante em sua
fé, capaz de compartilhar, atuar ministcrialmente e ser fonte de bênção
por onde quer que vá.
REFERENCIAS

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pequenos: lições do Novo Testamento para a igreja do século 21. Curitiba: Mi­
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