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VERBA HISPANICA XX/1 • CLARA NUNES CORREIA

Clara Nunes Correia


Universidade Nova de Lisboa

Os tempos gramaticais em português europeu:


as formas verbais e os valores de tempo, aspeto
e modo(s)

Palavras chave: Português Europeu, tempos gramaticais, valores aspetuais,


valores modais

Nota introdutória
Este trabalho insere-se num projeto bilateral desenvolvido conjuntamente entre
investigadoras da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Ljubljana,
intitulado Estudos Contrastivos Português/Esloveno. Os tempos gramaticais do
Português constituíram um dos tópicos do projeto. Esta comunicação, visa,
assim, contribuir para uma reflexão aprofundada sobre o funcionamento de
alguns dos tempos gramaticais desta língua, mas visa sobretudo contribuir
para um melhor conhecimento dos valores que manifestam na diversidade das
produções realizadas – escritas e orais – pelos falantes de Português enquanto
língua materna ou enquanto língua estrangeira.

1 Observáveis & pressupostos teóricos


No estudo das formas gramaticais que caracterizam uma dada língua pode
assumir-se que a significação de um enunciado é construída a partir da relação
não biunívoca entre formas e operações de natureza cognitiva, subjacentes à
construção desse enunciado.
Seguindo este pressuposto, defende-se que as formas linguísticas são
marcas de operações cognitivas diferenciadas e que os valores semânticos
das diferentes construções em que as formas verbais ocorrem obrigam a ter

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em conta as propriedades temporais, aspetuais (e modais) que lhe são/estão


associadas. Defende-se, ainda, existir uma interação entre formas linguísticas
co-ocorrentes.
Ao partirmos de alguns observáveis, como os que abaixo se apresentam.
1) X esteve doente durante uma semana / x tem estado doente
2) X (já) tinha estado em África / X estivera em África
3) Logo vou ao cinema / Irei ao cinema [aconteça o que acontecer]
4) Em 2001, X deixa Lisboa e parte para o Brasil
5) X chega [todos os dias] atrasado / X tem chegado [todos os dias] atrasado
6) X deve estar em casa / X deve ficar em casa [porque tem Gripe A]
Verificamos que, em 1., com o 1º acontecimento linguístico (em que o tempo
verbal é o pretérito perfeito simples), se predica um estado de coisas sobre
X (sujeito sintático), projetado no passado, com valor acabado. No entanto,
com o pretérito perfeito composto, e com o mesmo predicado – estar doente –
predica-se um estado de coisas sobre X (sujeito sintático), iniciado no passado,
com valor inacabado, incluindo o tempo da enunciação na sua definição.
Se observarmos o que se passa em 2, em que se constrói um dado estado de
coisas quer com as formas do mais-que-perfeito composto, quer com as formas
do mais-que-perfeito simples, a estranheza (ou não interpretação plena) de
ambas as sequências deve-se, em termos gerais, à ausência de um localizador
suplementar que permita estabilizar, temporalmente, estas sequências. O
recurso a uma frase adverbial, co-ocorrente com a forma composta, por
exemplo, resolveria essa fraca interpretabilidade:
2’) Quando foi dar aulas para Universidade Eduardo Mondlane, X já tinha
estado em África. Por essa razão foi-lhe fácil habituar-se àquele estilo de
vida.
Com a forma simples, um adverbial marcador de iteratividade, por exemplo,
contribuiria para a aceitabilidade desta sequência:
2’’) Quando casou, X já estivera em África muitas vezes. Por essa razão foi-
lhe fácil habituar-se àquele estilo de vida.
Assim, qualquer dos acontecimentos linguísticos (com o mais-que-perfeito
simples ou composto1) parece ser mais permeável à interpretação da informação
1 Os valores das formas simples e composta deste tempo gramatical não são sobreponíveis.
Sobre a sua caracterização, de acordo com uma perspetiva diacrónica ver, neste mesmo

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que veicula se for construída uma ancoragem espácio-temporal que os localize


referencialmente.
Se se observar, agora, o exemplo 3 (construção de um valor de posterioridade,
com recurso quer ao presente do indicativo, quer ao futuro sintético do verbo
ir), pode verificar-se que se, sob o ponto de vista temporal, os acontecimentos
linguísticos descrevem um valor de posterioridade (futuro), o mesmo não
acontece sob uma perspetiva modal. Assim, na análise contrastiva dos dois
enunciados de 3., o valor construído é marcado, com a forma de futuro
sintético, por um estado de comprometimento, entre o sujeito enunciador
e o co-enunciador, existindo, por isso, uma sobreposição modal em relação
ao valor de tempo (futuro) construído no primeiro caso (com a forma de
presente do indicativo).
Aliás, uma das características mais interessantes do presente do indicativo o
facto de este tempo gramatical ser um tempo heterogéneo, sob o ponto de
vista referencial. O contraste entre 3 (acima referido) 4 e 5 (X chega [todos os
dias] atrasado) reforça o que se acabou de afirmar. Se em 3, como se afirmou,
o acontecimento linguístico é projetado, temporalmente no futuro e em 4 no
passado, em 5, quando o acontecimento é marcado pela forma de presente,
reveste-se de um valor habitual, próximo do valor desencadeado pelas
predicações genéricas. Em qualquer dos casos, a estabilização referencial
dos enunciados com formas de presente do indicativo é feita a partir da co-
ocorrência de localizadores temporais (logo, em 2001, todos os dias). Ainda
em relação a 4 (Em 2001, X deixa Lisboa e parte para o Brasil) é importante
referir que apesar de se usar o mesmo tempo gramatical, – presente do
indicativo –o valor temporal das sequências é diferente: o adverbial temporal,
em 2001, regula a localização temporal dos acontecimentos linguísticos em
presença, localizando o acontecimento como anterior em relação a hoje
– momento em que me situo – sendo, por isso, deítico, enquanto que a
forma de partir ganha um valor de futuro em relação à primeira predicação,
funcionando em 2001, X deixa Lisboa como termo antecedente da predicação
X parte para o Brasil. No entanto, em relação ao ponto de referência
definido abstratamente como hoje, ambas as sequências têm um valor de
passado. Parece, assim, ser possível verificar que existem formas diferentes
de perspetivar os diferentes valores de sequências linguísticas construídas
com o presente do indicativo, sendo igualmente importante reter que estes
volume, o texto de Brocardo, ou ver a proposta feita pela mesma autora em Brocardo (2010).
Para uma discussão centrada nos dados do Português Europeu Contemporâneo ver, e. o.,
Campos (2005) e Lopes (1997).

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exemplos não esgotam todos os possíveis valores que este tempo gramatical
pode manifestar em Português2.
Se pensarmos, agora, no contraste manifestado em 5 (presente do indicativo vs
pretérito perfeito composto3), constata-se existir uma sobreposição de valores
(sob o ponto de vista temporal e aspetual) dos estados de coisas construídos.
No entanto, essa sobreposição é aparente, ou pelo menos parcial. Em termos
de similitude ambas as predicações partilham entre si a inclusão do tempo de
referência na sua definição e ambas são compatíveis com adverbiais de natureza
iterativa, definindo, em ambos os casos, um valor habitual. As diferenças são,
de forma clara, marcadas pela validação (de natureza modal) que permitem
construir um estado de coisas do dominio do certo com o presente do
indicativo e do quase-certo com o pretérito perfeito composto, sendo plausível
acrescentar a esta predicação um valor complementar, verificável, por exemplo
com a construção adicional de uma adversativa:
5’) X tem chegado todos os dias atrasado, mas hoje prometeu chegar a
horas.
Se nos centrarmos agora sobre o exemplo 6 (X deve estar em casa / X deve ficar em
casa [porque tem Gripe A]), a primeira observação que é importante sublinhar
é a de que, neste paradigma de análise centrado na oposição entre valores de
formas gramaticais definidoras de tempo (e/ou aspeto), este exemplo aparenta
ser algo marginal. O que está aqui em causa não é o contraste entre tempos
gramaticais, mas o facto de uma mesma forma – o verbo dever – poder ser
marcador de modalidades diferentes (modalidade epistémica e modalidade
não-epistémica). Assim, esta aparente polissemia4 de dever, assenta na hipótese
de que o valor epistémico e o valor não-epistémico de dever são regulados
por processos diferenciados de localização. De acordo com esta hipótese, dever
epistémico é construído gramaticalmente (valor de quase certo) em que o
localizador é o sujeito da enunciação, enquanto dever não-epistémico resulta de
uma relação intersubjetiva. Neste caso, o localizador da predicação é o sistema
referencial, e o estado de coisas construído relaciona-se diretamente com o

2 Nesta apresentação não são aqui discutidos nem o valor genérico (strictus sensus), nem o
chamado presente de reportagem.
3 Sobre este contraste ver, sobretudo Campos ([1987] 1997) e Correia (2012, no prelo).
4 O conceito de polissemia não satisfaz a análise que aqui se propõe para a possibilidade de
dever (ou poder) marcarem modalidades diferentes. Seguir-se-á, em termos desta diferença,
preferencialmente a proposta de Campos (1998). Este recurso ao conceito acima mencionado
deve-se apenas a uma abordagem de alguma forma mais transparente na tradição da análise
semântica.

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plano enunciativo e não com o plano nocional5. Esta hipótese de trabalho


permite discutir, para além da evidência linear proposta pelos estudos assentes
na semântica (estritamente) lexical que as formas (e as construções) presentes
numa dada língua têm (sempre) subjacente operações cognitivas diversas. Foi
apenas como forma de ilustrar o que se afirmou, como pressuposto, no início
deste trabalho – a significação de um enunciado é construída a partir da relação
não biunívoca entre formas e operações de natureza cognitiva, subjacentes à
construção desse enunciado – que este exemplo deve ser aqui entendido.

2 Algumas caraterísticas dos tempos gramaticais em PE

2.1 Os tempos do passado


Nas gramáticas do Português é recorrente verificar-se que o pretérito perfeito
simples é o marcador privilegiado de tempo passado. No entanto, e sob o ponto
de vista aspetual, as sequências podem ter ou não valor perfetivo, dependendo
esses valores da co-ocorrência com adverbiais [+/- durativos]. Para além dessa
oposição sobejamente discutida, é importante retomar esta discussão a partir
de uma análise que incida sobre a determinação dos SNs. Se nos centrarmos
apenas no caso de situações eventivas, verificamos que estas determinações
podem desencadear valores aspetuais diferentes, como se pode observar no
contraste dos exemplos de 7:
7) X comeu uma/ a maçã
7’) X comeu maçãs
A oposição verificada, no contraste entre os dois exemplos, centra-se no facto
de os argumentos internos de cada uma das predicações desencadearem ou
estados de coisas que definem um estado resultante (no caso de 7), ou uma
sucessividade de eventos, não sendo necessariamente construído um estado
resultante., como se verifica em 7’. Neste caso, é o valor do determinante zero
que, ao reformatar a ocorrência nominal, obriga a que a discretização direta de
um N discreto (contável) como maçã, passe a uma não discretização, incidindo
essa não discretização sobre um N massivo. Em 7’ o N ‘maçã’, neste contexto
específico, comporta-se como um típico massivo (como água, vinho, arroz…).

5 A hipótese aqui referida deve-se a, e. o., Campos ([1995] 1997). Em termos gerais, a autora
defende que o valor epistémico do modal dever é regulado gramaticalmente, enquanto
que o valor não epistémico é regulado enunciativamente. Esta diferença é crucial para se
entender que uma mesma forma pode ‘representar’ operações de natureza diferente.

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Esta alteração de valor semântico do N reformata aspetualmente a predicação,


obrigando a uma leitura não perfetiva do pretérito perfeito simples. Assim, e
a partir desta observação, parece acentuar-se o facto de que a perfetividade
associada a sequências que contém o pretérito perfeito simples pode ser
repensada tendo em conta todas as formas que co-ocorrem nessa predicação.
O contraste com o pretérito perfeito composto é, no entanto, bem marcado.
Atualmente, em PE, as situações em que o pretérito perfeito composto ocorre
(com qualquer tipo de predicado), parece apresentar uma regularidade
descritiva que incide nas seguintes vertentes: o pretérito perfeito composto
é um marcador / operador aspetual; inclui, temporalmente, na sua definição,
o momento da enunciação e marca exclusivamente valores não perfetivos, ao
associar-se, preferencialmente, a adverbiais [+durativo]; dependendo da classe
de predicados a que se associa, desencadeia valores de continuidade ou valores
de iteratividade. Estas linhas caracterizadoras do pretérito perfeito composto
são (quase) coincidentes nas diferentes análises disponibilizadas nas gramáticas
e na literatura. Por isso, nesta análise, focar-se-á a inter-relação que este tempo
gramatical estabelece com outros que coincidem quer com a sua designação
(pretérito) quer com alguns valores que manifesta.
Os estudos tradicionais sobre o pretérito perfeito composto orientam-se para
as suas especificidades, quer no domínio contrastivo no âmbito das línguas
românicas, quer com as diferenças visíveis quando se afasta dos valores
manifestados pelo pretérito perfeito simples.
Por estas vertentes terem sido abundantemente (e satisfatoriamente, em
minha opinião) tratadas em obras consideradas de referência (cf. Cardoso &
Pereira 2003, sobre a caracterização diacrónica do pretérito perfeito composto,
ou Boléo 1936 e Campos 1982, sobre a sua caracterização sincrónica), neste
artigo, proponho-me discutir de que forma o pretérito perfeito composto se
relaciona com os valores do imperfeito.
Para poder dar resposta, ou pelo menos levantar algumas hipóteses de análise,
em relação a esta questão, partiremos da observação de alguns exemplos:
7) O João estava doente [ontem] / O João tem estado doente [*ontem]
8) O João telefonava [quando vivia] / *[desde que vive em Paris] todos os
dias / O João tem telefonado [*quando vivia] / [desde que vive em Paris]
todos os dias
9) O João comia uma maçã quando chegava / *chega da escola / O João tem
comido uma maçã quando *chegava /chega da escola

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10) O João desmaiava [frequentemente] / O João tem desmaiado


[frequentemente]
Uma análise imediata permite verificar que quer o imperfeito do indicativo,
quer o pretérito perfeito composto são compatíveis com adverbiais
frequentativos, mas só o imperfeito do indicativo permite a co-ocorrência
com adverbiais inclusivos como ontem. Por outro lado, quando a localização do
acontecimento construído é feita a partir de uma oração iniciada com quando,
o pretérito perfeito composto exige que o tempo gramatical do predicado
seja o presente, enquanto que o imperfeito seleciona, preferencialmente,
uma forma de imperfeito na oração adverbial6. Finalmente, só o pretérito
perfeito composto parece ser permeável à marcação de uma fronteira inicial
do processo descrito pelo localizador. Esta análise, algo linear, corrobora a
não sobreposição semântica dos dois tempos. Se o imperfeito é, de facto um
tempo exclusivamente do pretérito, o pretérito perfeito composto parece não
se encaixar neste paradigma, mostrando, no seguimento de Campos (1987)
que partilha mais valores com as formas de presente do que com os tempos
do passado. Por outro lado, e sob o ponto de vista aspetual, há alguns pontos
de convergência, apesar de se projetarem em planos enunciativos diferentes7.
Se ambos os tempos gramaticais permitem uma leitura não resultativa dos
acontecimentos descritos, esse valor é validado em planos diferentes, sendo
interpretados de forma diferente quando nos posicionamos no momento
da enunciação. De forma a ilustrar o que se afirmou, veja-se o contraste
evidenciado pelas glosas dos exemplos 8, 9 e 10:
8’) O João estava doente ontem. Hoje já está ótimo
9’) O João telefonava todos os dias quando estava em Paris. Agora que vive
em Berlim deixou de telefonar.
10’) O João comia uma maçã quando chegava da escola, mas quando foi
para a faculdade perdeu esse hábito.
8’’) O João tem estado doente desde ontem. *Hoje já está ótimo
9’’) O João tem telefonado todos os dias desde que está em Paris. *Agora
que vive em Berlim deixou de telefonar.

6 Sobre as relações dos diferentes tempos gramaticais com orações com quando ver Cunha (2004).
7 Esta hipótese foi defendida por Lebaud (1993) para o Francês e por Sousa (2007) para
o Português. Os autores defendem, em termos gerais, que os acontecimentos linguísticos
construídos com o imperfeito ocorrem num outro plano diferente do plano da enunciação.
Esta hipótese permite justificar a obrigatoriedade de um localizador suplementar (como as
orações adverbiais com quando, por exemplo) que estabilize as predicações com o imperfeito.

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10’’) O João tem comido uma maçã quando chega da escola, *mas quando
foi para a faculdade perdeu esse hábito.
Estes exemplos merecem duas breves observações: a impossibilidade de
construção de um novo estado de coisas, complementar em relação ao primeiro
quando este é construído com o pretérito perfeito composto, reforça a proposta
geral sobre a caracterização desde tempo: ao incluir o momento da enunciação
na sua definição, bloqueia uma informação complementar manifestada por um
novo estado de coisas. Já em relação ao imperfeito, é precisamente esse novo
estado de coisas que permite a definição de uma fronteira entre um antes e
um agora. Sendo essa fronteira tipicamente de natureza temporal, não constrói
um estado resultante, no sentido estrito do termo, mas marca uma mudança
de estado. No interior da predicação com o imperfeito define-se uma linha
ou com valor de iteratividade, ou com valor de continuidade, que preenche
todos os intervalos de tempo, excluindo, no entanto, sempre o momento da
enunciação.

2.2 Futuro e futuridade


No conjunto dos tempos gramaticais do Português, a construção do tempo
futuro constitui um dos casos em que mais se evidencia que as categorias
gramaticais são interdependentes, ou mesmo sobreponíveis. Assim, as formas
de marcação de valores de tempo futuro não se inscrevem necessariamente no
paradigma verbal disponível para este tempo. A estas fica, ou está, reservado
mais do que um valor temporal um valor de natureza modal. É esta uma
das razões porque encontramos, nas sequências orais e escritas produzidas
por falantes do Português, valores de futuro sem que esses valores sejam
construídos com as formas, gramaticalmente, disponibilizadas para esse fim.
De forma a sistematizar o que atrás se afirmou, são elencadas de seguida, as
possibilidades de construção de sequências linguísticas interpretáveis como
marcadoras de posterioridade em Português:
(i) forma simples (Futuro Sintético) morfologicamente marcada,
(ii) forma analítica resultante de perífrases com ‘haver (de) +inf.’, (Futuro
Analítico)
(iii) forma com ‘ir + inf.’
(iv) formas de presente do indicativo, associadas – implícita ou
explicitamente – a adverbiais temporais.

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Sob o ponto de vista desta análise poder-se-á dizer que as diferenças entre
estas incidem sobretudo na preponderância ou não preponderância do
parâmetro temporal em relação ao parâmetro subjectivo (S0), verificando-se a
preponderância deste último parâmetro sobretudo em (i) e (ii).
Deste modo, pode afirmar-se que com o futuro sintético e com formas
perifrásticas com ‘haver (de) + inf.’, o sujeito enunciador (S0) constrói um
valor modal, a partir de um ponto de validação de ‘quase-certo’ sobre o
acontecimento linguístico:
11) Irei ao cinema [aconteça o que acontecer] / Hei-de ir ao cinema
[aconteça o que acontecer]
Já com o presente do indicativo e a perífrase ‘ir + inf.’, S0 projeta
predominantemente esse acontecimento como um acontecimento não
marcado sob o ponto de vista da subjetividade, mas relevante sob o ponto de
vista temporal.
12) Amanhã, acabo este texto / Amanhã vou acabar este texto
Assim, de uma forma general, poderemos afirmar que, com o futuro sintético,
existe a construção de um valor modal, em detrimento de um valor temporal
de futuro. Como reforço a esta hipótese, verifica-se ser possível construírem-
se acontecimentos linguísticos em que, apesar da ocorrência de formas de
futuro sintético, o valor temporal não é de futur(o)idade, mas de presente, ou
mesmo passado:
13) O Presidente da República ontem terá recebido todos os partidos da
oposição
14) A esta hora a tua carta deverá já ter chegado
Se pensarmos nas diferenças existentes entre as sequências construídas
pelos falantes com formas de futuro sintético e formas de futuro analítico,
e se nos centrarmos na hipótese de que estas formas são sobretudo marcas
modais, pode defender-se que, com o futuro sintético, existe um valor
epistémico, validado no domínio do ‘quase-certo’ por um sujeito enunciador
S0 – (juro que hoje irei a tua casa); com o futuro analítico, por sua vez, ativa-
se, preferencialmente, um valor modal, mas de natureza não epistémica,
sobretudo se o sujeito sintático não for uma primeira pessoa: (queiras ou não,
hás de fazer este trabalho).
Para além das formas de futuro que se inserem no modo indicativo é de
sublinhar a existência, em Português, de formas de futuro no paradigma

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do conjuntivo, afastando-se esta língua de outras línguas românicas,


nomeadamente do espanhol.
Estas formas ocorrem em frases hipotéticas /condicionais, como as que se
ilustram em 15 e 16:
15) Se fores ao cinema, telefona-me
16) Eles vão ao cinema se acabarem o trabalho a horas
Nestes exemplos o valor temporal de futuro é dado pela relação que se estabelece
entre a subordinante (com a forma verbal no presente do indicativo, com valor
de futuro) e a subordinada (com a forma verbal no futuro do conjuntivo). A
ordem das duas frases não é fixa, mas a opção de se iniciar a sequência por uma
ou outra depende da focalização que o sujeito enunciador faz da totalidade
da predicação: ao focalizar a oração subordinada, constrói-se a hipótese, como
ponto de partida ou condição, para que a sua (hipotética) realização seja
validada, ou não, pelo co-enunciador, e dependendo de uma validação positiva
realizar-se-á a segunda asserção; em 16, pelo contrário, é construída uma
asserção positiva que só se verificará se a segunda asserção se realizar. Este jogo
inter-enunciativo, ou inter-subjetivo, obriga a que o valor de futuro da asserção
no conjuntivo esteja sempre dependente da validação do estado de coisas da
oração subordinante, nunca podendo, por isso, ocorrer autonomamente.

2.3 Presente e presentificação


Tendo em conta os dados do Português Europeu, em termos gerais, pode
afirmar-se que o presente do indicativo parece ser o tempo disponível para
marcar qualquer situação linguística, estando o seu valor (em termos de
localização temporal) dependente ou de outros marcadores linguísticos (como
é o caso de adverbiais), ou das características semânticas do próprio predicado.
Como proposta, e visando a sua caracterização formal, poderemos dizer que,
quando o presente marca simultaneidade ou atemporalidade, T0 (tempo da
enunciação) está incluído na definição temporal dos enunciados, existindo,
neste caso, existe pelo menos um intervalo de tempo em que se dá uma
sobreposição entre T0 e T2 (tempo gramatical do enunciado).
Os diagramas que abaixo se apresentam, e tendo em vista uma representação
topológica de diferentes situações em que o presente pode ocorrer em
Português, quando existe sobreposição temporal, pretendem ilustrar (e
generalizar) o que se propôs anteriormente:

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(i) ---------------]//I////[-----------
Vejo/sinto/acredito T2=T0
(ii) ---]-------///I//------[----
X chega [todos os dias]a horas T2 ω T0
(iii ) ---------//////I////-----------
O homem é mortal T2 *T0

em que, em (i) o presente do indicativo é um tempo essencialmente marcador


de deixis (o que justifica as múltiplas ancoragens temporais) (Lopes 2005),
definindo uma valor de identificação (marcado por =) entre T0 e T2; em (ii)
e (iii) verifica-se que, de uma forma geral, todas as situações linguísticas
construídas com o presente do indicativo são não delimitadas, sob o ponto de
vista aspetual, não sendo, tal como Lyons (1977) afirma marcadas por qualquer
tempo. Nestes casos, as diferenças entre (ii) e (iii) centra-se, sobretudo, no
facto de (ii) ter como sujeito um indivíduo (o que pressupõe uma delimitação
temporal tendo em conta o estado de coisas construído e o conhecimento
(plausível) de que uma proposição como X chegar é verificável só enquanto
esta predicação puder ser validada, enquanto que em (iii), ao predicar-
se uma propriedade sobre uma espécie, a verdade da proposição é sempre
verificável. Assim, se em (ii) existe, temporalmente, uma rutura entre T0 e
T2, em (iii), o valor estrela (*) marca a não temporalidade da predicação em
qualquer intervalo de tempo. Por outro lado, quando o presente do indicativo
é delimitado temporalmente (com um valor de passado ou de futuro) essa
delimitação é construída a partir de formas semanticamente extrínsecas ao
presente do indicativo (amanhã faço um exame / em 2008, X visita Ljubljana
pela 1ª vez).
Como hipótese geral, defende-se que, para que se dê a estabilização dos
diferentes valores do presente do indicativo, dever-se-á ter em conta o
agenciamento dos valores das formas co-ocorrentes, podendo estas interligar-
se de forma discreta ou de forma contínua. Desta forma, o que parece unificar
os valores do presente do indicativo, independentemente da incidência que
possa ter no eixo temporal, é a construção de um valor de continuidade (cf.,
Langacker, 1994; Culioli, 1994) – oposto ao de discretização. Este valor de
continuidade confere a todas as situações em que o presente do indicativo ocorre
uma homogeneidade de natureza cognitiva, subjacente à heterogeneidade de
valores que manifesta na língua.

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3 O que fazer com estes tempos?


Os valores dos tempos gramaticais aqui apresentados pretenderam ilustrar o
percurso analítico que, numa das suas vertentes, caracterizam este Projeto de
Investigação;
A investigação sobre os valores dos tempos gramaticais, centrada, sobretudo,
na análise dos valores que desencadeiam quando ocorrem em diferentes
sequências linguísticas, pretende estabilizar a diversidade dessas formas. Este
trabalho pretendeu, de alguma forma, ilustrar algumas das hipóteses que têm
sido postas sobre o seu funcionamento.
Assim, o contributo deste trabalho é, para já, o de apontar alguns caminhos
para que possamos compreender as formas que usamos para representar o
mundo em que vivemos.

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Correia, C. N. (no prelo): Formas e construções em português europeu:


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Campo das Letras, 87-103. 
Lyons, J. (1977): Semantics, II. Cambridge: CUP.
Sousa, O. (2006): Tempo e aspecto: o imperfeito num corpus de aquisição. Lisboa:
Colibri.

257
VERBA HISPANICA XX/1

Clara Nunes Correia


New University of Lisbon 

Semantic properties of Portuguese tenses:


temporal, aspectual and modal values

Keywords: European Portuguese, tenses, aspectual values, modal values

The main objective of this article is to define the most relevant factors
responsible for the differences in the uses of the various tenses in European
Portuguese. This paper discusses the semantic properties of some of the
Portuguese tenses (present, future and past tenses, including simple and
compound forms), focusing on their plasticity in terms of temporal, aspectual
and modal values. As a theoretical principle it is argued that semantic value
can be expressed by a set of different forms and one linguistic form can
express more than one semantic value. In some way, this article contributes
to define a ‘work program’ on linguistic research that will help to understand
how linguistic forms can be described and explained, despite the diversity of
their functioning and the instability of grammatical categorization in a given
language.
These general guidelines also allow us to describe grammatical phenomena
from a wide range of perspectives. This paper is based on a specific theoretical
framework (theory of predicative and enunciative operations – cf., a.o., Culioli
1995), which provides us with a more comprehension of linguistic data. The
main proposal of that framework is that linguistic forms are markers of a set
of cognitive operations. In this sense, the grammar of a specific language –
Portuguese, for instance – must be described taking into consideration the
links between the grammatical forms and constructions and the grammatical
categories considered simultaneously, as they occur in language use, rather
than each one in isolation. Therefore, this theoretical framework moves away
from a strict lexical approach.

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VERBA HISPANICA XX/1 • CLARA NUNES CORREIA

Clara Nunes Correia


Nova univerza v Lizboni

Gramatikalni glagolski časi v evropski


portugalščini: glagolske oblike ter časovne,
aspektualne in naklonske vrednosti

Ključne besede: evropska portugalščina, gramatikalni glagolski časi,


aspektualne vrednosti, naklonske vrednosti

Namen prispevka je analizirati rabe in vrednosti nekaterih glagolskih časov


sodobne evropske portugalščine in pri tem upoštevati njihove semantične
vrednosti, ko nastopajo skupaj z drugimi jezikovnimi oblikami. Avtorica
posebej poudarja jezikovne sekvence, kjer so v opoziciji glagolski časi za
preteklost, kot so enostavni preterit (pretérito perfeito simples), sestavljeni
preterit (pretérito perfeito composto) ter enostavni in sestavljeni pluskvamperfekt
(mais-que-perfeito), ter opozicijo (ali vsaj razlikovanje) oblik, ki omogočajo
izražanje vrednosti za prihodnost. Opozarja tudi na nekatere primere, ko
oblike sedanjika indikativa pridobijo časovne vrednosti prek medsebojne
povezave s časovnimi in/ali krajevnimi prislovi. V zadnji skupini zgledov
analizira opozicijo, ki jo določa glagol dever (morati), in dokazuje, da razlike
izhajajo iz dejstva, da gre za označevalce različnih jezikovnih operacij. Na
podlagi teoretičnih izhodišč avtorjev Culioli (1995) in Campos (1997) avtorica
analizira nekatere primere, kjer se pojavljajo različni glagolski časi, relevantni
s stališča heterogenosti, in predlaga delovni načrt za jezikoslovno raziskavo, ki
bi pomagala razumeti, kako lahko jezikovne oblike opisujemo in razlagamo
kljub njihovi funkcijski raznolikosti v določenem jeziku in nestabilnosti
slovnične kategorizacije.

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