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Que serviço público de educação queremos para Portugal?

No último Encontro do FLE, “Que Serviço Publico de Educação Queremos para


Portugal?” o professor Fernando Adão da Fonseca recordou-nos alguns direitos
constitucionais muito relevantes. Um deles, o da gratuitidade do ensino, merece-nos
hoje uma reflexão particular. De acordo com a nossa Constituição, todos os alunos têm
direito ao ensino gratuito enquanto frequentam o ensino obrigatório. A gratuitidade é
um direito dos alunos e não das escolas, pelo que o direito à gratuitidade beneficia todos
os alunos, independentemente da escola que frequentam, seja ela estatal ou não estatal.
Ou seja, todos os alunos deveriam aceder ao ensino gratuito mesmo quando frequentam
escolas privadas.

Mas porque será que estamos longe desta realidade?


Considerando as dificuldades económicas do país, estabeleceu-se, em 1990, que a Lei
da Gratuitidade viria a ser implementada de forma gradual e, assim, o ensino gratuito
começou por ser assegurado apenas aos alunos que frequentam as escolas oficiais e as
escolas com contratos de associação. Contudo, reforçamos que o direito à gratuitidade
do ensino para todos os alunos que frequentam o ensino obrigatório está consagrado na
Lei Portuguesa e a sua concretização pode ser reclamada. É um direito de todos os
alunos, independentemente da escola que frequentam mas, a título transitório, foi
implementado para a escola estatal e para as escolas com contratos de associação como
ofertas públicas de ensino.

Tendo em conta estes preceitos constitucionais, a Lei de Bases do Sistema de Ensino


(Lei nº 46/86) no seu artigo 58º nº 2, já estabelecia que “no alargamento ou no
ajustamento da rede, o Estado terá também em consideração as iniciativas e os
estabelecimentos particulares e cooperativos, numa perspectiva de racionalização de
meios, de aproveitamento de recursos e de garantia de qualidade”.

Isto significa que o Estado Português deve pautar a sua política no sentido tornar em
realidade o ensino gratuito a todos os alunos que frequentem o ensino obrigatório e em
todas as escolas. Aliás, este é também o entendimento do CNE no seu Parecer nº 1/89
que aqui recordamos alguns excertos a branco.

Assim, aos pais portugueses é lícito reclamarem ao Estado:


- A regulamentação da Lei no sentido de o ensino gratuito ser estendido a todos os
alunos que frequentam o ensino obrigatório; “Assim, como direito fundamental que é, a
gratuitidade do ensino obrigatório tem de ser facultada a todos, sem excepções, isto é,
sem condições discriminatórias negativas. Logo, não podem dessa gratuitidade ser
excluídos os alunos das escolas particulares e cooperativas, tenham ou não contrato de
- Que o apoio ao aluno seja feito de forma equitativa, independentemente da natureza
jurídica do estabelecimento de ensino que frequenta; “Em matéria de direitos
fundamentais, pode haver discriminação baseada na distinção entre estabelecimentos
estatais e privados? A resposta só pode ser negativa”
- A implementação da gratuitidade do ensino obrigatório não colhe no argumento da
escassez de meios financeiros; “A este propósito, deve rejeitar-se o argumento, por
vezes invocado, da escassez de meios do Estado. Este argumento, a merecer aceitação,
só poderia conduzir à repartição por todos os cidadãos igualmente, das restrições que
houvesse de impor; ou, no máximo, a discriminações dos cidadãos com base na
diferença das suas condições materiais. Mas nunca a qualquer discriminação com base
na distinção entre escolas, pois que estas não indiciam nenhum critério que justifique
uma discriminação fundamentada. É inegável que muitos cidadãos, sem
Caso o Governo não tenha intenção de implementar a letra e espírito da Lei, pautando a
sua política educativa no sentido de uma única oferta de ensino gratuita, de gestão
fortemente centralizada e consumidora de recursos públicos, aos pais é legitimo
questionarem-se se a gratuitidade do ensino obrigatório não estará em perigo.

Para quem pretende aprofundar um pouco mais pode ler o DL 35/90 e o Parecer nº 1/89
do CNE. Para isso, juntamos um excerto de um texto do professor Mário Pinto
dedicado a esta problemática , bem como o seu recentíssimo texto, “A Crise na
Educação e a Infidelidade à Constituição".

A Equipa do FLE