Você está na página 1de 24

Algumas reflexões sobre os conceitos de ­alfabetização

e letramento apresentados por professores de


educação infantil
Some reflections about the concepts of literacy and
littering presented by the teachers of childhood
education
Maria Angélica Olivo Francisco Lucas*
* Doutorado em Educação pela USP. Professora Adjunta
da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
E-mail: mangelicaofl@ibest.com.br
Resumo
Neste artigo objetivamos analisar conceitos de alfabetização e letramento apresentados por profes-
soras de educação infantil. Apresentamos algumas reflexões acerca da apropriação da linguagem
escrita, destacando a relação entre os processos de alfabetização e letramento compreendendo-os,
respectivamente como: aprendizagem de habilidades necessárias para os atos de ler e escrever;
estado ou condição do sujeito que incorpora práticas sociais de leitura e escrita. Tais reflexões
fundamentaram a análise dos conceitos apresentados por professoras de educação infantil. Por
fim, consideramos ser também papel da educação infantil enriquecer o processo de letramento
das crianças e estimular sua alfabetização, de acordo com as possibilidades e limites desse nível
de escolaridade. Isso requer reconhecer que tais processos são indissociáveis e interdependentes,
porém distintos. Essa conclusão transportou-nos para a necessidade de repensar a formação inicial
e continuada de professores.
Palavras-chave
Alfabetização. Letramento. Educação Infantil.

Abstract
On this article we aim to analyze the literacy and lettering concepts presented by teachers of chil-
dhood education. Introducing some reflections about the appropriation of the written language,
highlighting the connection between the literacy processes and literacy understanding them res-
pectively as: learning skills necessary for the acts of reading and writing, estate or condition of the
person that incorporates social practices of reading and writing. Such reflections are based on the
analysis of the concepts presented by teachers from childhood education. Lastly, we also consider
to be the role of early childhood education to enrich the literacy process of children and stimulate
their literacy, based on the possibilities and limits of this scholarity level. This requires recognizing
that such processes are inseparable and interdependent, but distinct. This conclusion transported
us to the necessity of rethinking the initial and continuing teachers education.
Key words
literacy. Lettering. Childhood education.

Série-Estudos - Periódico do Programa de Pós-Graduação em Educação da UCDB


Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014
Introdução metodologicamente tais práticas insti-
gavam-nos a buscar respostas, princi-
Neste artigo, analisamos conceitos palmente porque as considerávamos
de alfabetização e letramento apresen- não compatíveis com o crescimento da
tados por professoras de educação in- produção bibliográfica sobre alfabeti-
fantil. Tal análise faz parte de um estudo zação e letramento voltada para esse
mais amplo que objetivou “investigar nível de ensino, presenciado nas últimas
como professoras de educação infantil quatro décadas.
compreendem as orientações teóricas e Realizamos tal investigação subsi­
metodológicas fornecidas pela produção diados pelos pressupostos da teoria
bibliográfica voltada para esse nível de histórico-cultural. Assim, entendemos
ensino sobre os processos de alfabetiza- a educação como condição universal do
ção e letramento” (LUCAS, 2009, p. 16). desenvolvimento humano. Isso quer di-
A necessidade de buscar respostas zer que não podemos pensar o processo
a um problema presenciado enquanto de humanização sem estabelecer uma
professora de prática de ensino do Curso relação imediata com a forma pela qual
de Pedagogia, por ocasião da orientação ocorre a transmissão cultural em uma
e avaliação das atividades desenvolvidas dada sociedade. Na nossa, o caminho
pelos acadêmicos - futuros professores encontrado para tal tarefa foi via escola,
- em instituições públicas de educação instituição responsável por possibilitar
infantil motivou a realização desta pes- a apropriação pelos alunos dos bens
quisa. Nessas ocasiões, nos aproximáva- culturais produzidos pela humanidade.
mos das professoras que atuam nessas Acreditamos que esse processo
instituições e as indagávamos a respeito de apropriação da cultura não ocorre
de suas práticas relacionadas aos pro- de forma direta, pois depende, funda-
cessos de alfabetização e letramento mentalmente, de uma organização cujo
realizadas junto às crianças. Era comum papel cabe ao professor. Acreditamos
recebermos respostas que não tinham que toda ação do professor reflete di-
vínculo com os aspectos teóricos e me- retamente, de forma positiva ou não,
todológicos que envolvem esses dois nas possibilidades de aprendizagem e
conceitos, tais como: porque as crianças desenvolvimento de seus alunos, em
gostam, porque viram alguma colega de todos os níveis de ensino. Ao promover
trabalho fazer, porque consta no planeja- a aprendizagem de seus alunos, ele cria
mento, porque alguém mandou, porque condições para que o desenvolvimento
a colega de trabalho vai fazer, porque intelectual destes efetivamente ocorra.
ouviu em um curso ou palestra. Por isso concebemos a mediação
As dificuldades dos professores pedagógica como condição maior do
de educação infantil em formular uma trabalho docente, inclusive dos profis-
explicação que justificasse teórica e sionais que atuam na educação infantil.

70 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


Assim, a mediação exige mais que um mediador competente.
parceiro experiente, requer que o pro- Com base nos esclarecimentos
fessor dote sua prática pedagógica de acima expostos, apresentamos, primei-
intencionalidade, no sentido de ter como ramente, algumas reflexões acerca da
referência o produto final de sua ação apropriação da linguagem escrita, des-
perante as crianças, e de sistematicida- tacando a relação entre os processos de
de, compreendida como organização e alfabetização e letramento. Desde já, es-
sequenciação necessárias para que os clarecemos que, no Brasil, tais processos
objetivos traçados sejam alcançados. compõem a história do ensino da leitura
Dessa forma, cabe ao professor ampliar e da escrita nos anos iniciais de escola-
e qualificar aquilo que foi iniciado pelas rização e que, pautando-nos em Soares
crianças para garantir que elas se apro- (1998, 2004c), concebemos alfabetiza-
priem das máximas capacidades huma- ção como um processo de aprendizagem
nas de um dado momento da história. de habilidades necessárias para os atos
Logo, para a consecução da análise de ler e escrever e letramento como
ora proposta acerca dos conceitos de o estado ou a condição do sujeito que
alfabetização e letramento apresentados incorpora as práticas sociais de leitura
por professoras de educação infantil, e escrita.
consideramos a ideia de intenciona- Tais reflexões fundamentaram a
lidade e sistematicidade do trabalho análise das concepções apresentadas
desenvolvido dentro de instituições por professoras que atuam em centros
de educação infantil – garantindo as de educação infantil de um município
especificidades de cada faixa etária do noroeste paranaense, a partir de
– como forma de nos opormos ao tra- conceitos por elas elaborados e de prá-
balho pautado no espontaneísmo e ticas pedagógicas por elas relatadas, as
no assistencialismo, característicos do quais são apresentadas na segunda parte
atendimento historicamente proposto deste artigo.
à educação das crianças pequenas. Em Desde já, adiantamos que consi-
conformidade com o objeto de análise deramos ser também papel da educa-
deste artigo – processos de alfabetização ção infantil enriquecer o processo de
e letramento – a intencionalidade e a letramento das crianças e estimular
sistematicidade mostram-se, indiscuti- sua alfabetização, de acordo com as
velmente, necessárias. Isso porque tais possibilidades e os limites desse nível
processos dizem respeito ao domínio de escolaridade. Isso requer reconhecer
de habilidades que não podem ser na- que tais processos são indissociáveis e
turalmente conquistadas, uma vez que, interdependentes, porém distintos e
por envolverem conteúdos complexos e que esta é uma condição para sistema-
resultantes de convenções socialmente tizar a prática pedagógica e provê-la de
estabelecidas, exigem a ação de um intencionalidade. Essa conclusão, em

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 71


função do nível de escolarização dos t­ eóricas, ao trazerem suas contribuições
sujeitos que participaram da pesquisa, para a compreensão dos processos de
transportou-nos para a necessidade de alfabetização e letramento, provocaram
repensar a formação inicial e continuada uma tendência em confundi-los ou em
de professores para atuarem na educa- considerá-los substitutos um do outro.
ção infantil. Em países desenvolvidos – salva-
guardando-se as diferenças entre o siste-
1 A relação entre alfabetização e ma educacional e a cultura de cada um –,
l­etramento embora a população seja alfabetizada, é
significativa a quantidade de sujeitos que
Pautando-nos em Soares (1998), não dominam as habilidades de leitura
reconhecemos que os termos alfabeti- e escrita, necessárias para uma partici-
zação e letramento não são sinônimos. pação efetiva e competente nas práticas
Trata-se de dois processos distintos que, sociais e profissionais que envolvem a
contudo, ocorrem de forma indissociável língua escrita. Podemos dizer, pautando-
e interdependente: nos em Soares (2004c), que o problema
[...] a alfabetização se desenvolve lá é o processo de letramento e não
no contexto de e por meio de prá- o de alfabetização, apesar de este ser
ticas sociais de leitura e de escrita, também questionado. Isso fez com que,
isto é, através de atividades de nesses países, as questões relativas ao
letramento, e este, por sua vez, só processo de letramento fossem tratadas
pode desenvolver-se no contexto de forma independente das questões
da e por meio da aprendizagem das relacionadas ao processo de alfabetiza-
relações fonema-grafema, isto é,
ção, revelando que lá são reconhecidas
em dependência da alfabetização.
(SOARES, 2004c, p. 14). [Destaques
as especificidades que envolvem ambos
do autor] os processos.
No Brasil, porém, a partir da dé-
No Brasil, tenta-se conceituar e cada de 1980, o movimento ocorreu de
diferenciar esses dois processos desde forma diferente: as discussões sobre a
a década de 1980, quando o foco da importância e necessidade de habilida-
discussão era o problema da evasão des para o uso competente da leitura e
escolar e da repetência, principalmente da escrita em práticas sociais surgiram
da 1ª para a 2ª série. No entanto nem em razão dos questionamentos a res-
sempre o empenho de pesquisado- peito dos problemas enfrentados pelas
res e estudiosos, apesar das muitas escolas em relação à aprendizagem
contribuições que trouxeram para a inicial da leitura e da escrita. Em poucas
compreensão desses processos, provo- palavras: temos, há décadas, sérios pro-
cou os resultados esperados. Segundo blemas com os processos de alfabetiza-
Soares (2004c), diferentes perspectivas ção e letramento. Mas, diferentemente

72 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


do que ocorre nos países desenvolvidos, c­ onfusão entre ambos os processos.
afirma Soares (2004c), aqui as discussões “Embora a relação entre alfabetização e
realizadas, principalmente nos últimos letramento seja inegável, além de neces-
40 anos, sobre os problemas que envol- sária e imperiosa, ela [produção acadê-
vem o domínio das habilidades de uso da mica], ainda que focalize diferenças, aca-
leitura e da escrita, fizeram com que os ba por diluir a especificidade de cada um
conceitos de alfabetização e letramen- dos dois fenômenos” ­(SOARES, 2004c,
to fossem mesclados ou superpostos, p. 8). A autora sintetiza a tendência em
confundindo-se. fundir os processos de alfabetização e
Colaboraram para essa confusão, letramento presente nas discussões so-
por exemplo, os censos demográficos, a bre os problemas de ensinar as crianças
mídia e a própria produção acadêmica das escolas brasileiras a ler e escrever,
brasileira sobre alfabetização e letra- recorrentes desde a década de 1980, nos
mento (SOARES, 2004c). Os censos, ao seguintes termos:
longo dos anos, estenderam o conceito [...] no Brasil, a discussão do letra-
de alfabetização em direção ao de letra- mento surge sempre enraizada no
mento, ao considerarem alfabetizado, conceito de alfabetização, o que
a princípio, quem soubesse escrever tem levado, apesar da diferencia-
apenas o próprio nome; posteriormen- ção sempre proposta na produção
te, quem fosse capaz de ler e escrever acadêmica, a uma inadequada e
um bilhete simples; depois, adotou-se inconveniente fusão dos dois pro-
o critério da escolarização, o qual su- cessos, com prevalência do concei-
bentende que, quanto mais tempo o to de letramento, [...] o que tem
indivíduo permanece na escola, melhor conduzido a um certo apagamento
uso faz da leitura e da escrita. A mídia, da alfabetização. (SOARES, 2004c,
p. 8).
ao veicular informações e notícias sobre
os dados apresentados pelos censos A referida perda da especificidade
e pelos diferentes sistemas oficiais de do processo de alfabetização em relação
avaliação do nosso ensino – Exame Na- ao de letramento está relacionada ao
cional do Ensino Médio (ENEM), Sistema atual fracasso de nossas escolas em en-
de Avaliação da Educação Básica (SAEB) sinar seus alunos a ler e escrever, apesar
e Prova Brasil – acaba divulgando um de não ser esta a sua única causa. Se, até
determinado conceito de alfabetização meados da década de 1980, as críticas
que se aproxima do de letramento. sobre a escola focavam os elevados índi-
A produção acadêmica brasileira, ces de evasão e repetência, sobretudo da
de forma geral, também acabou apro- 1ª para a 2ª série do ensino fundamen-
ximando os dois conceitos, mesmo que tal, hoje elas continuam direcionadas
a intenção tenha sido diferenciá-los, para o fracasso da escola em alfabetizar,
provocando, em determinados casos, mas este se revela nos anos posteriores

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 73


ao início do processo de escolarização, pela criança. Trata-se do movimento de
por meio de avaliações externas à esco- redefinição do conceito de alfabetização.
la, amplamente divulgadas pela mídia. Se nos métodos de alfabetização,
Portanto o fracasso de nossas escolas hoje denominados “tradicionais”, a
em alfabetizar não é um fato novo, ele criança dependia dos estímulos externos
“[...] apenas mudou de lugar... migrou para aprender a ler e a escrever, na pers-
das primeiras séries para as séries pos- pectiva construtivista, ela passou a ser
teriores” (SOARES, 2004b, p. 6). considerada um sujeito ativo capaz de,
Quando predominava o uso dos progressivamente, construir a linguagem
métodos sintéticos e analíticos, o pro- escrita. Sob esse ponto de vista, acredi-
cesso de alfabetização era entendido, tou-se que bastava estar em contato com
exclusivamente, como apropriação essa forma de linguagem em seus usos e
do código escrito, pois valorizava-se a práticas sociais, e não com materiais ar-
aprendizagem da codificação e da de- tificialmente produzidos para aprender
codificação da escrita em detrimento de a ler e escrever como eram as cartilhas
seus usos sociais. Ao longo das décadas utilizadas pelos métodos sintéticos e
de 1980 e 1990, afirma Soares (2004c), analíticos.
para fugir dessa especificidade tão criti- Concordamos com Soares (2004c),
cada e considerada a causa do fracasso quando afirma que não se pode negar a
de nossas escolas em alfabetizar, passou- contribuição que a perspectiva construti-
se a considerá-la desnecessária. vista trouxe para a compreensão do pro-
Muitas causas concorrem para a cesso de alfabetização. No entanto, afir-
perda da especificidade da alfabetização. ma a autora, tal perspectiva, que à época
No entender de Soares (2004c, p. 9), a foi muito difundida e subsidiou parte
causa maior foi “[...] a mudança con- significativa da produção bibliográfica
ceitual a respeito da aprendizagem da brasileira sobre alfabetização, conduziu a
língua escrita que se difundiu no Brasil equívocos e a falsas inferências que aju-
a partir de meados dos anos 1980”. Ela dam a explicar a perda de especificidade
está se referindo à implantação, em do processo de alfabetização, resumidos
grande parte de nossas escolas – mesmo a seguir: desconsiderar a necessidade
que em nível de ideário e com muitas de um método para alfabetizar; dirigir
distorções –, da perspectiva construti- o foco da ação docente para o processo
vista baseada nas pesquisas realizadas de construção do sistema de escrita
por Ferreiro e Teberosky (1985) acerca pela criança, esquecendo que este se
da psicogênese da língua escrita. Essa constitui de relações convencionais e
perspectiva alterou profundamente a arbitrárias entre fonemas e grafemas
concepção de alfabetização, que passou que precisam ser ensinadas; crer que o
a ser vista como um processo de constru- convívio intenso com materiais escritos
ção da representação da língua escrita utilizados nas mais diversas práticas

74 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


sociais seja suficiente para alfabetizar críticas à perspectiva construtivista de
a criança. alfabetização, principalmente pela au-
Esses equívocos e falsas inferên- sência de intencionalidade no ensino do
cias fizeram com que o processo de código alfabético e ortográfico.
alfabetização fosse, de certa forma, Diante das críticas a esse movi-
ofuscado pelo de letramento, ou seja, mento que não produziu os resultados
ao se conceituá-lo de forma ampla – esperados, pois as crianças continuaram
incorporando os usos sociais da lingua- sem aprender a ler e escrever, apenas
gem escrita –, priorizou-se o processo tendo sido promovidas de uma série,
de letramento em detrimento do de ano ou ciclo a outro, iniciou-se um outro,
alfabetização, que acabou obscurecido, que busca recuperar a especificidade do
perdendo sua especificidade. processo de alfabetização. Para Soares
Utilizando a metáfora da curvatura (2003b, 2004c), trata-se do movimento
da vara, é como se esta estivesse total- de reinvenção da alfabetização ou de re-
mente voltada para a utilização de méto- cuperação da especificidade desse pro-
dos sintéticos e analíticos no processo de cesso, o qual salienta a necessidade de
alfabetização e se curvasse para o lado orientar as crianças de forma sistemática
oposto, que concebe a construção da na aprendizagem do sistema de escrita:
leitura e da escrita por meio do contato “É a retomada da aquisição do sistema
com textos escritos sem que, para isso, alfabético e ortográfico pela criança nas
fosse necessário o ensino direto e explí- suas relações com o sistema fonológico”
cito do sistema convencional da língua (SOARES, 2003a, p. 21).
escrita. Poderíamos considerar que o Para Soares (2004c), essa é uma
movimento esperado seria em direção a tentativa de autonomizar o processo de
uma posição intermediária, ou seja, que alfabetização. Concordamos com a auto-
reconhecesse a indissociabilidade dos ra que se trata de uma forma de recupe-
processos de alfabetização e letramento, rar uma faceta fundamental do processo
sem perder suas especificidades. de ensino e de aprendizagem da língua
Essa situação gerou uma inusitada escrita, mas perigosa, se significar a recu-
forma de fracasso escolar, denunciado peração de paradigmas anteriores. Nas
por avaliações externas à escola, como o palavras de Soares (2004b, p. 7):
SAEB, o ENEM e o Programa Internacio-
Tendência perigosa, porque se
nal de Avaliação de Estudantes (PISA). Os
começa a achar que letramento
resultados desses sistemas de avaliação abrange todo o processo de inser-
denunciaram que há muitos alunos não ção no mundo da escrita, e perde-
alfabetizados ou semialfabetizados ma- se a especificidade do processo
triculados em todos os anos do ensino de alfabetização. São dois fenô-
fundamental, inclusive no ensino médio, menos que têm relações estreitas,
e subsidiaram a formulação de sérias mas que, ao mesmo tempo, têm

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 75


e­ specificidades. De certa forma, a ende tanto a aprendizagem da leitura
alfabetização é um componente do e da escrita, quanto a aproximação do
letramento, mas é preciso distinguir aluno das práticas sociais que envolvem
claramente o que é alfabetização – a essas duas habilidades. Por isso, Soares
aquisição do sistema de escrita, a
(2003b) defende o equilíbrio e a comple-
aquisição da tecnologia da escrita –
do que é letramento – o uso dessa
mentaridade entre ambos os processos,
tecnologia, o exercício das práticas chamando a atenção para o valor da
sociais de leitura e escrita. distinção terminológica:
Voltando à metáfora já utilizada, Porque alfabetização e letramento
são conceitos freqüentemente
no caso de se retornar aos paradigmas
confundidos ou sobrepostos, é im-
que envolviam o processo de alfabetiza- portante distingui-los, ao mesmo
ção tão criticados na década de 1980, a tempo que é importante também
“vara” penderia novamente para o lado aproximá-los: a distinção é ne-
oposto – aquele que prioriza o processo cessária porque a introdução, no
de codificação e decodificação na apren- campo da educação, do conceito
dizagem da linguagem escrita. Dessa de letramento tem ameaçado pe-
forma, não se consideraria a escrita rigosamente a especificidade do
como um complexo processo de simbo- processo de alfabetização; por um
lização, cujo início ocorre, como revelou lado, a aproximação é necessária
porque não só o processo de alfa-
a perspectiva histórico-cultural, quando
betização, embora distinto e espe-
a criança faz seus primeiros gestos com
cífico, altera-se e configura-se no
a intenção de expressar algo, passando quadro do conceito de letramento,
pelo jogo simbólico e pelo desenho, em como também este é dependente
direção aos signos gráficos convencio- daquele. (SOARES, 2003b, p. 90).
nalmente utilizados, tendo sempre como
A concepção de alfabetização
referência a fala.
que permeava os métodos analíticos e
No segundo caso, a “vara” tenderia
sintéticos considerava que primeiro a
a centrar-se no sentindo de reconhecer,
criança tinha que aprender a codificar
concomitantemente, a indissociabilida-
e decodificar para, depois, desenvol-
de e a especificidade dos processos de
ver habilidades de leitura e escrita e
alfabetização e letramento. Deve haver,
compreender as suas funções sociais,
portanto, um equilíbrio entre os dois
por meio do estudo de tipos e gêneros
extremos da aprendizagem inicial da
variados de textos em seus diferentes
linguagem escrita1, pois esta compre-
portadores. Assim, da ótica dos métodos
tradicionais, o processo de alfabetização
1
Soares prefere utilizar a expressão aprendiza- precedia o de letramento.
gem inicial da linguagem escrita para se referir
aos dois processos em questão – alfabetização A perspectiva construtivista, se-
e letramento. gundo Colello (2004), considera que

76 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


“[...] o processo de alfabetização incor- [...] os equívocos e falsas inferên-
pora a experiência de letramento”. Por cias anteriormente mencionadas
isso, Emília Ferreiro (PELLEGRINI, 2001), levaram alfabetização e letramento
em entrevista à revista Nova Escola, a se confundirem, com prevalência
deste último e perda de especifici-
critica a utilização do termo letramento,
dade da primeira, o que se constitui
pois acredita que se corre o risco de o como uma das causas do fracasso
processo de alfabetização voltar a ser em alfabetização que hoje ainda
compreendido somente como codifica- se verifica nas escolas brasileiras, a
ção e decodificação. De acordo com ela, distinção entre os dois processos e
é inadmissível que primeiro a criança conseqüentemente a recuperação
aprenda a decodificar para depois per- da especificidade da alfabetização
ceber as funções sociais da escrita. Para tornam-se metodologicamente e até
ela, o processo de alfabetização com- politicamente convenientes, desde
que essa distinção e a especificidade
preende o de letramento, ou vice-versa,
da alfabetização não sejam enten-
isto é, alfabetização e letramento são
didas como independência de um
processos simultâneos, o que permitiria processo em relação ao outro, ou
a opção por um ou outro termo para de- como precedência de um em relação
signar tanto a apropriação do sistema de ao outro. (SOARES, 2004c, p. 15).
escrita, quanto de seus usos sociais. Se-
É necessário reconhecer que cada
ria necessário, então, convencionar que
um desses processos tem diferentes fa-
alfabetização é muito mais que a apren-
cetas cujas distintas naturezas requerem
dizagem da relação grafema-fonema,
metodologias de ensino diferentes. Para
como tradicionalmente é compreendida,
algumas, não há como abrir mão de me-
ou se no letramento estaria incluída a
todologias dotadas de intencionalidade
aprendizagem do sistema de escrita.
e sistematização, como é o caso, por
Para Colello (2004), entre Ferreiro e os exemplo, da consciência fonológica e
estudiosos do letramento, há, isto sim, fonêmica e da identificação das relações
um mero debate conceitual. fonema-grafema – habilidades necessá-
Como Soares (2004c, p. 15), consi- rias para a codificação e decodificação
deramos conveniente a manutenção dos da língua escrita. Nessas situações, é
dois termos, apesar de eles designarem imprescindível a presença do outro – o
processos interdependentes e indissoci- professor, no caso do ambiente escolar
áveis, uma vez que são “[...] processos de – organizando o ensino com objetivos
natureza fundamentalmente diferente, claros e definidos. Para outras facetas,
envolvendo aprendizagens diferenciadas além de intencionais e sistematizadas, é
e, consequentemente, procedimentos possível recorrer a metodologias indire-
diferenciados de ensino”. Na atualidade, tas, subordinadas às possibilidades e mo-
isso é importante porque tivações das crianças. É o caso ­quando se

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 77


pretende imergi-las no mundo da escrita, alfabético e ortográfico da língua es-
promover experiências variadas com a crita, em situações de letramento,
leitura e a escrita, conhecer diferentes isto é, no contexto de e por meio de
tipos e gêneros de material escrito e interação com material escrito real,
e não artificialmente construído,
interagir com eles (SOARES, 2004c).
e de sua participação em práticas
Vejamos um exemplo apresentado pela
sociais de leitura e de escrita; por
referida autora, em entrevista concedida outro lado, a criança desenvolve ha-
à revista Caderno do Professor: bilidades e comportamentos de uso
Brincadeiras e jogos que envolvem competente da língua escrita nas
a língua escrita, poemas, histórias práticas sociais que a envolvem no
da literatura infantil são práticas de contexto do, por meio do e em de-
letramento a partir das quais devem pendência do processo de aquisição
ser desenvolvidas as atividades que do sistema alfabético e ortográfico
visem à consciência fonológica, da escrita. (SOARES, 2004b, p. 9).
às relações oralidade-escrita, às Enfim, verificamos a importância
equivalências fonemas-grafemas, de se reconhecer o mérito conceitual dos
ao reconhecimento de palavras es-
processos de alfabetização e letramento,
critas. Por exemplo: a professora lê
evidenciando que ambos fazem parte da
uma história, chamando a atenção
para o título, mostrando o texto, história do ensino da leitura e da escrita
identificando personagens, pedin- na fase inicial de escolarização no Brasil.
do inferências ao longo da leitura, Compreender e distinguir tais processos,
discute a história com as crianças, reconhecendo-os como indissociáveis
pede que a recontem, faz perguntas e interdependentes é necessário, prin-
de interpretação – até aqui estamos cipalmente nos dias atuais, quando se
falando de atividades de letramen- constata, além da confusão conceitual
to; em seguida, pode destacar uma entre ambos, a perda de clareza e in-
ou algumas palavras-chave da histó- tencionalidade na prática docente que
ria, que servirão de base para ativi- os envolve.
dades de consciência fonológica, de Essa forma de compreender a
identificação de sílabas, de relações
relação entre os processos de alfabeti-
fonemas-grafemas, etc. – enfim,
zação e letramento é importante, uma
atividades de alfabetização, que
estarão assim contextualizadas em vez que cada um desses processos tem
práticas reais de leitura e de escrita. diferentes facetas cujas distintas natu-
(SOARES, 2004b, p. 7-8). rezas requerem metodologias de ensino
diferentes. Para algumas, não há como
Em poucas palavras: trata-se de al- abrir mão de metodologias dotadas de
fabetizar letrando e letrar alfabetizando. intencionalidade e sistematização, como
A criança alfabetiza-se, isto é, cons- é o caso, por exemplo, da consciência
trói seu conhecimento do sistema fonológica e fonêmica e da identificação
das relações fonema-grafema – habili- remos a seguir, com base em princípios
dades necessárias para a codificação e da pesquisa qualitativa, nossa análise
decodificação da língua escrita. Nessas sobre a forma como professoras de edu-
situações, é imprescindível a presença cação infantil conceituam os processos
do professor organizando o ensino com de alfabetização e letramento.
objetivos claros e definidos. Para outras Em conformidade com as orien-
facetas, além de intencionais e sistemati- tações fornecidas por Triviños (1987)
zadas, é possível recorrer a metodologias a respeito da realização de pesquisas
indiretas, subordinadas às possibilidades qualitativas, recorremos para a conse-
e motivações das crianças. É o caso da cução deste estudo a dois instrumentos:
situação em que se pretende imergi-las questionário e entrevistas semiestrutu-
no mundo da escrita, promover experi- radas. O questionário foi utilizado com
ências variadas com a leitura e a escrita, o objetivo de obter informações que
conhecer diferentes tipos e gêneros de permitissem caracterizar os sujeitos da
material escrito e interagir com eles pesquisa. Foram colhidas informações
(SOARES, 2004c). sobre a situação funcional, formação e
É por isso que defendemos a ne­ experiência profissional de cada sujeito
cessidade de haver, na prática pedagó­ da pesquisa. As entrevistas, realizadas
gica que visa à aprendizagem inicial individualmente, permitiram conhecer
da linguagem escrita, uma relação de as concepções de alfabetização e letra-
equilíbrio e complementaridade entre os mento dos sujeitos da pesquisa a partir
processos de alfabetização e ­letramento. de conceitos elaborados oralmente e do
Respaldando-nos em Soares (2004c; relato de algumas práticas pedagógicas.
2003a), denominamos tal relação como Participaram do estudo 14 pro-
movimento de diferenciação dos concei- fessoras pertencentes à rede pública de
tos de alfabetização e letramento. É com ensino de um município do noroeste do
base nesse entendimento a respeito da Paraná, Brasil, os quais, no ano letivo de
relação entre alfabetização e letramento 2007, atuaram em diferentes centros
que analisamos algumas formas de con- municipais de educação infantil localiza-
ceituar tais processos, apresentadas por dos em bairros distantes um do outro.
um grupo de professoras de educação Quanto à situação funcional, todas as
infantil. professoras eram funcionárias públicas,
aprovadas em concurso para professor
2 Alfabetização e letramento: con- de educação infantil e anos/séries iniciais
cepções de professoras de educação do ensino fundamental, e a maioria (11)
infantil cumpria duas jornadas de trabalho em
instituições públicas de educação infantil.
Tomando como subsídio nossas Em relação à formação profissio-
reflexões aqui apresentadas, demonstra- nal, os dados revelaram que a maioria

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 79


das professoras que compuseram a por enumerá-los. Assim, a primeira pro-
amostra (13) cursou o magistério (ensino fessora entrevistada foi chamada de PE-1
médio). No que diz respeito à formação (professora entrevistada n. 1), a segunda
em nível superior, das 14 professoras da de PE-2 e assim sucessivamente.
amostra, apenas uma não possuía curso Apresentaremos, primeiramente,
superior. Entre as demais, 10 já haviam as respostas que nos permitem analisar
concluído uma graduação (Pedagogia, como as professoras entrevistadas com-
História, Letras, Normal Superior), e qua- preendem o processo de alfabetização.
tro estavam cursando Normal Superior, Posteriormente, as que dizem respeito
modalidade a distância. Vale salientar ao de letramento. Durante as entre-
que, para uma dessas últimas, esse vistas, as questões foram feitas nesta
curso constituía-se em uma segunda mesma sequência, ou seja, primeiro lhes
graduação. perguntamos o que compreendem por
Quanto à experiência profissional, alfabetização e, depois, por letramento.
os dados indicaram que os sujeitos da Essa estratégia nos permitiu verificar
pesquisa atuavam exclusivamente no se elas relacionam um processo com o
campo educacional. O tempo de expe- outro, sem que fossem estimuladas, pela
riência no magistério variou entre 3 e 20 própria questão, a encontrar diferenças
anos e, como professora de educação entre eles e a relacioná-los.
infantil, entre 3 e 4 anos. Adiantamos que, ao falar sobre
Em síntese, os sujeitos dessa alfabetização, nenhuma professora
pesquisa têm um perfil diferenciado da mencionou o processo de letramento,
maioria dos profissionais que atuam na devido ao fato de concebê-lo em sentido
educação infantil pelo Brasil afora. São amplo. No entanto, ao revelarem como
professoras cuja idade varia entre 23 e entendem o processo de letramento, a
52 anos, que possuem formação além maioria das professoras entrevistadas
da mínima exigida pela atual LDB, com relacionou-o à alfabetização, ora apro-
considerável experiência profissional no ximando os dois processos, a ponto de
campo da educação e, em especial, na considerá-los sinônimos, ora confun-
educação infantil; que adquiriram estabi- dindo um com o outro, ora percebendo
lidade no emprego por meio de concurso diferenças entre ambos, apesar de não
público e se dedicam exclusivamente ao conseguirem delimitá-las com clareza.
magistério. As professoras entrevistadas, ao
Trabalhamos com excertos das responderem à pergunta sobre o modo
respostas das professoras entrevistadas como compreendem o processo de
com o objetivo de evidenciar as análises alfabetização, formularam conceitos
realizadas. Apresentamos tais respostas, abrangentes, indicando que o concebem
evitando identificação pessoal e, em fun- como algo que vai “além de” ensinar
ção da quantidade de sujeitos, optamos a codificar sons em sinais gráficos e

80 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


­ ecodificar esses sinais em sons nova-
d fins e suas funções. Vejamos algumas
mente. A resposta da PE-7 exemplifica respostas que indicam proximidade com
essa forma de compreender o processo essa forma de compreender o conceito
de alfabetização: de alfabetização:
Alfabetização é mais que a criança Alfabetizar vai muito além de deco-
decodificar códigos. Estar alfabeti- dificar e escrever palavras. Além de
zada é entender as coisas no todo. conseguirem decodificar, eles têm
Não é só a escrita, não é só a leitura. que conseguir interpretar situações,
[...] Eu acho que alfabetização não usar essa leitura para a vida deles.
é só saber ler e escrever. Estar alfa- Se eles já sabem ler, vão ler uma re-
betizada é compreender as coisas ceita e usá-la. Alfabetizar vai muito
que a rodeiam. (PE-7) além de ensinar letras e números
Ao afirmar que “alfabetização não para as crianças. Elas têm que saber
é só saber ler e escrever”, a PE-7 revela usar aquilo, tirar proveito para a sua
vida. Não é só saber o alfabeto, não
que absorveu o movimento de redefini-
é só saber decodificar. Não adianta
ção do conceito de alfabetização, o qual
ensinar letras, sílabas, palavras ou
passou a ser concebido de forma ampla, até textos que não vão servir para
no período em que os métodos para nada. (PE-4)
ensinar a ler e escrever, tanto de marcha
analítica quanto de sintética, foram seve- Alfabetizar, para mim, é levar a
criança a conhecer o mundo através
ramente criticados. Tais críticas incidiam
da escrita, da leitura. É levá-la a
sobre a forma limitada com que a escrita compreender o que está acontecen-
era apresentada à criança, enfatizando- do ao seu redor, saber o significado
se a associação entre letras e sons, de das coisas. (PE-12)
modo a transformá-la em um recurso útil
Alfabetizar é criar condições para
somente para a escola. Em função dos
que as crianças consigam ler, escre-
insuficientes resultados dessa maneira ver e interpretar não apenas o que
de alfabetizar as crianças, denunciados, eles leem, mas as diversas situações
nas décadas de 1970 e 1980, sob a forma da vida. (PE-14)
de repetência e evasão escolar, urgia
redefinir o conceito de alfabetização. Admitimos, tal como a PE-4, a
Desse modo, passou-se a diferen- PE-12 e a PE-14, a possibilidade de re-
ciar alfabetização em sentido estrito e alizarmos leituras de outros materiais
em sentido amplo. O primeiro corres- que não primam pela linguagem escrita
ponde ao desenvolvimento da capacida- (melodias, pinturas, esculturas) e que,
de de codificar e decodificar; o segundo em muitas situações da vida cotidiana,
como algo que extrapola a aprendizagem é necessário “ler” o que acontece ao
do sistema de escrita, pois envolve a nosso redor. Pesquisas sobre letramen-
compreensão do seu significado, seus to já demonstraram que um sujeito

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 81


a­ nalfabeto – privado do conhecimento todo aprendizado é uma alfabetiza-
do alfabeto, da leitura e da escrita – pode ção, sem escrita, sem leitura, mas
ler e compreender o mundo em que é uma forma de alfabetizar. (PE-3)
vive, participando de práticas sociais Se partirmos das premissas de que
que envolvem a leitura e a escrita. Se- “alfabetizar é tudo”, “tudo envolve a al-
gundo Tfouni (1988), não há, na nossa fabetização” e “todo aprendizado é uma
sociedade, sujeitos com grau zero de alfabetização”, corremos alguns riscos,
letramento, visto que existem muitos como demonstram os pressupostos da
níveis de letramento. Isso quer dizer que teoria histórico-cultural anunciados na
um sujeito pode ser analfabeto, porém introdução deste artigo. Dentre esses
“ler” inúmeras situações do seu dia a dia riscos, podemos mencionar o fato de
e participar de práticas sociais que exi- não considerar necessário revestir de
gem leitura e escrita. Essas explicações intencionalidade as ações realizadas
nos revelam como as professoras acima nas instituições de educação infantil; de
mencionadas, ao expandirem o conceito acreditar que o trabalho com crianças
de alfabetização, aproximaram-no do de pequenas dispensa sistematização, pois
letramento, confirmando o movimento basta propor algo a ser feito com elas,
de redefinição do conceito de alfabetiza- não importa “o que”, “como” e “para
ção, que levou à perda da especificidade que”; de considerar que toda atividade
desse processo, como denunciado por realizada com as crianças, independen-
Soares (2004c). temente da idade, teria como finalidade
As respostas transcritas a seguir alfabetizá-la.
também demonstram o quanto o con- Como decorrência do movimento
ceito de alfabetização foi ampliado pelas de redefinição do conceito de alfabetiza-
professoras entrevistadas, a ponto de ção, algumas professoras indicaram que
gerar equívocos teórico-metodológicos se trata de um processo cujo início ante-
e tornar-se um jargão, devido à ausência cede o ingresso no ensino fundamental,
de conteúdo que lhes permitisse elabo- como podemos observar abaixo:
rar uma definição mais precisa.
Alfabetização começa desde quan-
Alfabetizar é mostrar os caminhos do a gente nasce. (PE-3)
para a criança através de tudo, reco-
nhecendo o seu nome, o nome dos Eu acho que alfabetização começa
amigos... Alfabetizar é tudo. (PE-1) desde o berçário. Porque a partir
do momento que você passa para
Eu acho que tudo envolve a alfabe- criança entender, por exemplo, o
tização. É a criança ver uma bola e que é uma planta, um animal, um
saber que é uma bola. Isto já é uma ser humano, você está, de certa
maneira de alfabetizar. (PE-2) forma, alfabetizando esta criança.
Tudo é uma alfabetização. [...] Eu Até o alfabeto, até a palavra, o que
acho que tudo é um aprendizado e significa a palavra. Tudo isso é alfa-

82 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


betizar. Mesmo que não seja pela ensinando isto para a criança lá no
escrita, mas você está alfabetizando berçário, mas de uma forma lúdica,
através da fala. (PE-11) a criança vai internalizando aquilo.
E quando ela for escrever vai ser
Partindo de um conceito amplo
muito mais tranquilo porque ela já
de alfabetização, não há, conforme o tem aquilo interiorizado: quando eu
depoimento da professora a seguir, uma ouço historinha sempre tem um co-
data para começar ensinar as crianças a meço, meio e fim, sempre acontece
ler e escrever: alguma coisa no final, tem um jeito
Para muitas pessoas parece que de começar. (PE-10)
tem que ter uma data para come- Ao contar/narrar histórias para as
çar a ensinar a ler e escrever. Lá no crianças que frequentam os níveis ini-
maternal, se a criança quer copiar ciais da educação infantil, podemos, por
o nome, não pode porque lá não
exemplo, mostrar-lhes as ilustrações e
pode fazer isto, mesmo que seja a
criança que queira. e eu vou privá-
explorar a linguagem oral e o movimen-
la daquilo? Parece que tem que ter to por meio de gestos e do manuseio
uma data: vamos começar a ensinar de materiais impressos, como livros e
a ler e escrever agora! (PE-10) revistas. No entanto não são estas as
práticas relatadas pela PE-10 ao tentar
Se o processo de alfabetização “é
conceituar alfabetização. Podemos dizer
tudo” e “não tem uma data para come-
que a definição por ela elaborada indica
çar”, já que “começa desde quando a
transposição de ações características dos
gente nasce”, que práticas pedagógicas
anos iniciais do ensino fundamental para
devem ser implementadas em centros
os níveis iniciais da educação infantil.
de educação infantil? A PE-10, diante da
Essa situação pode ser explicada pelo
dificuldade em elaborar uma definição
fato de que muitas instituições de edu-
para o processo de alfabetização, prefe-
cação infantil, na tentativa de superar o
riu responder a essa questão, relatando
estigma assistencialista, acabam seguin-
algumas práticas pedagógicas que, para
do o modelo de escola característico do
ela, envolvem a linguagem escrita:
ensino fundamental.
No berçário, a professora fez car- É por isso que, quando as professo-
tazes sobre o que as crianças do ras entrevistadas admitem a necessidade
berçário comem, vestem. Ela conta de oportunizar às crianças o contato
história e mostra as gravuras mos-
com o mundo do conhecimento – defi-
trando onde está o começo, o meio
nindo essa situação como alfabetização
e o fim. Querendo ou não, ela já
está mostrando isto para a crian- e/ou letramento –, acreditam que, de
ça. As crianças estão, desde cedo, alguma forma, isso lhes confere a pos-
aprendendo que para escrever sibilidade de aprender, inclusive, a ler e
tem uma sequência. Ela não está escrever. Entendemos, porém, que não

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 83


basta colocar a criança em contato com Eu acho que letramento é tudo
o conhecimento para que este seja por que envolve a leitura, que envolve
ela apropriado. No caso da linguagem a letra mesmo. Eu não sei como te
escrita, não é suficiente mostrar cartazes responder. (PE-1)
e gravuras, solicitar que as crianças co- Reconhecemos que estamos tra-
piem o seu nome, contar história, como tando de um termo recentemente inclu-
sugere a PE-10, para que elas aprendam ído em nossa literatura, cujas primeiras
a ler e a escrever ou para promover situ- formulações datam da segunda metade
ações por meio das quais elas conheçam da década de 1980. Segundo Soares
diferentes práticas sociais de leitura e (1998), à medida que uma maior parte
escrita. Não estamos dizendo com isso da população teve acesso à escola, que o
que esse trabalho seja desnecessário; analfabetismo foi sendo gradativamente
estamos apenas afirmando que consi- superado e que a sociedade se tornou
deramos imprescindível que o professor cada vez mais grafocêntrica, uma nova
organize e sistematize o ensino, tanto situação se evidenciou: não mais bastava
para alfabetizar quanto para letrar. saber ler e escrever; era necessário sa-
Nas respostas das professoras ber responder às exigências de leitura e
que explicaram como compreendem o escrita que a sociedade cotidianamente
impunha. Dessa necessidade derivou o
processo de letramento, foi comum o
conceito de letramento, que representa
uso de expressões que denotam dúvi-
uma mudança histórica nas práticas so-
da, imprecisão, desconhecimento, tais
ciais que exigiram novas formas de usar
como: “eu não sei responder”; “eu penso
a leitura e a escrita.
que”; “eu acho que”; “pelo que eu tenho
Além disso, o letramento é um fe-
uma ideia”; “pelo que eu entendi”; “sei nômeno multifacetado e extremamente
lá”; “seria mais ou menos assim”. Isso complexo, o que torna difícil atribuir-lhe
comprova quão incompreendida está uma definição única e precisa (SOARES,
essa temática para elas. Trazemos como 1998). Se isolarmos sua dimensão in-
exemplo, as respostas de duas professo- dividual, o conceituaremos como um
ras, mas adiantamos que tais expressões conjunto de habilidades essencialmen-
foram comuns nos demais depoimentos: te pessoais que envolvem a leitura e a
Ao meu ver o letramento é tudo escrita. Se privilegiarmos sua dimensão
que a criança está em contato, que social, o veremos como um fenômeno
ela está vendo, em casa. Eu tenho cultural, um conjunto de práticas sociais
muitas dúvidas ainda. Tem muitos ligadas à leitura e à escrita e de exigên-
professores que têm essa dúvida: o cias sociais de uso da língua escrita. Se
que é letramento? É confuso ainda. partirmos de uma perspectiva liberal
Não é novo, só não está bem expli- ou progressista, evidenciaremos o valor
cado, não está esclarecido. (PE-2)
pragmático do letramento: conjunto

84 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


de habilidades necessárias para que processos distintos. Todavia, se consi-
o indivíduo aja adequadamente em derarmos uma outra variável presente
práticas sociais de leitura e escrita. Se nesse depoimento, poderemos avaliar
partirmos de uma perspectiva revolu- a situação exposta de uma outra forma.
cionária ou radical, o definiremos como Estamos nos referindo à crítica, mesmo
um conjunto de práticas concernentes à que não intencional, à forma como os
leitura e à escrita socialmente produzi- conceitos de alfabetização e letramento
das por meio de processos sociais mais foram trabalhados com as professoras
amplos e responsáveis por reforçar ou de educação infantil. Acreditamos que,
questionar valores, tradições e formas ao relatar que “cada pessoa que vem,
de distribuição de poder. Portanto, é fala uma coisa” e “um fala que é uma
“impossível formular um conceito único coisa, outro fala outra”, a PE-11 está
de letramento adequado a todas as pes- denunciando a ineficácia ou insufici-
soas, em todos os lugares, em qualquer ência da formação inicial e continuada
tempo, em qualquer contexto cultural ou fornecida por diferentes instâncias que,
político” (SOARES, 1998, p. 78). ao realizarem cursos, palestras, sessões
A PE-11, ao tentar conceituar o de estudos, não esclarecem as diversas
processo de letramento, formula várias formas de conceituar tal fenômeno ou
outras perguntas, indicando dúvida e não o tratam com a profundidade ne-
desconhecimento. Vejamos: cessária para sua efetiva compreensão
e apropriação pelos professores.
Inclusive eu e minha amiga estáva-
mos esses dias discutindo sobre o A resposta acima reproduzida é
que é letramento e o que é alfabe- uma maneira de externar o esgotamento
tização. Cada pessoa que vem, fala desse modelo de formação, geralmente
uma coisa. Então a gente fica assim: marcada por algumas horas ou dias nos
o que é letramento? O letramento quais o acadêmico ou professor (em for-
é aquela criança que conhece as le- mação continuada) se limita a ler alguns
tras, mas não sabe formar palavras excertos ou a assistir uma exposição
ainda? Ou, alfabetização é conhecer sobre determinada temática, cujo ponto
o alfabeto e não saber ler? Então a de vista é aceito como verdade absoluta,
gente está com esta dúvida. Um fala ou mal compreendido, ou tratado com
que é uma coisa, outro fala outra.
descaso.
Então a gente tem várias informa-
Para conceituar letramento, algu-
ções, mas uma informação correta
mas professoras sentiram necessidade
a gente não tem. (PE-11)
de fazer menção ao processo de alfabe-
Admitimos o mérito da PE-11 em tização. Acreditamos que isso se deve
perceber que há diferenças nas formas ao fato de, segundo Mortatti (2004),
de conceituar um mesmo fenômeno tanto a alfabetização como o letramen-
e que alfabetização e letramento são to serem fenômenos complexos que

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 85


mantêm entre si relações igualmente A PE-10, como as demais profes-
complexas, apesar das especificidades soras entrevistadas, para explicar o que
que os envolvem. Por isso a dificuldade é letramento, também fez referência
anteriormente anunciada evidenciou-se ao processo de alfabetização. No início
em respostas, como as exemplificadas da resposta, definiu tal processo como
a seguir, que apresentam incompletas aprendizagem da leitura e da escrita;
formulações conceituais; confundem um no final, acrescentou a necessidade de
conceito com o outro; consideram-nos que a leitura venha acompanhada de
como sinônimos; reconhecem-nos dis- compreensão e reflexão. Contudo, por
tintos, porém não conseguem delimitar admitir que os processos de alfabetiza-
as diferenças entre ambos. Vejamos o ção e letramento acontecem paralela-
que disse a PE-2: mente, essa resposta aproximou-se da
Letramento é a criança estar em
forma como os concebemos, em função
contato direto, porque letramento é da relação de interdependência e indis-
tudo que ela vê. Para mim a criança sociabilidade entre ambos.
está em contato com o letramento. Hoje, para mim, alfabetização é
A alfabetização ela vai aprender. A quando a criança está decodifican-
gente vai alfabetizar a criança. Eu do a letra, quando ela consegue
penso assim, mas não tenho isso ler o que está escrito. Daí vem o
bem esclarecido. (PE-2) letramento, como paralelo, um
trabalho junto com a alfabetização.
Consideramos que o conceito ela-
Se não fica um trabalho separado:
borado pela PE-2 está incompleto, pois primeiro ela é alfabetizada, depois é
lhe faltou dizer com o que a criança pre- letrada. Isto não existe. Se a criança
cisa “estar em contato direto”. Provavel- leu alguma coisa ela tem que en-
mente ela esteja se referindo às práticas tender o que está escrito, tem que
sociais que envolvem a escrita e a leitura, pensar sobre o que está escrito. [...]
ao complementar tal conceito com a fra- Para mim alfabetização é a criança
se: “é tudo que ela vê”. Vemos as afirma- conseguir ler o que está escrito e
ções “a alfabetização ela vai aprender” e entender e pensar sobre o que está
“a gente vai alfabetizar a criança” como escrito. (PE-10)
uma tentativa de estabelecer um parale- No depoimento a seguir, a PE-1, ao
lo entre alfabetização e letramento, pro- afirmar que o letramento pode ocorrer
vavelmente com a intenção de mostrar “mesmo que você esteja na rua”, tentou
que, para o processo de alfabetização, conceituá-lo como “[...] processo de
não há como abrir mão de uma mediação estar exposto aos usos sociais da escri-
revestida de intencionalidade, embora ta” (TFOUNI, 1995, p. 7-8). No entanto
a professora entrevistada não utilize os revelou quão confusos estão, para ela, os
termos adequados para isso. conceitos de alfabetização e letramento,

86 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


ao não conseguir diferenciar uma pessoa de educação infantil ou escolas, ampliar
letrada de uma alfabetizada. esse nível de letramento por meio de
O letramento, o letrar, envolve ações intencionais.
tudo, mesmo que você está na rua. Semelhante à resposta anterior, a
Porque tem diferença da pessoa da PE-12 indica confusão entre os signifi-
letrada e da pessoa alfabetizada. Ela cados dos termos alfabetizado e letrado:
pode conhecer as letras, mas pode Alfabetizado todo mundo é, mas
não saber formar as palavras. Aqui letrado nem todos, porque não tem
[no centro de educação infantil] as o entendimento. Muitas coisas no
crianças já conhecem o alfabeto. dia a dia a gente sabe que tem que
Então, eu acho que são letrados ser feita, que tem que ser praticada
porque eles já conhecem alguns e às vezes a gente não faz porque a
símbolos. (PE-1) gente é um pouco relapsa, a gente
Esclarecemos que um sujeito deixa o nosso letramento, o nosso
pode “não conhecer as letras” e “não entendimento, um pouco de lado.
saber formar palavras”, mas ter um de- O letramento é você entender e pôr
terminado nível de letramento. Como o em prática no seu dia a dia. A educa-
ção infantil tem muito a contribuir
“letramento é uma variável contínua, e
para que isso aconteça. (PE-12)
não discreta ou dicotômica” (SOARES,
1998, p. 71), existem inúmeros estágios Segundo Soares (1998), ao su-
entre os dois extremos constituídos, por jeito que sabe ler e escrever é dado o
um lado, pelo mínimo absoluto de uso adjetivo “alfabetizado” e ao sujeito que
da leitura e da escrita, por outro, pelo se apropriou da leitura e da escrita,
completo domínio dessas habilidades incorporando as práticas sociais que as
nas mais diversas situações. Isso quer demandam, é dado o adjetivo “letrado”.
dizer que, mesmo os sujeitos que não Na sociedade contemporânea, a institui-
dominam a linguagem escrita, desen- ção oficialmente responsável por tornar
volvem habilidades para utilizá-la, pela os sujeitos alfabetizados e letrados é a
exposição continuada, ainda que não escola. Embora possamos todos ter um
sistematizada, a situações permeadas determinado grau de letramento, advin-
pela escrita. Portanto, as crianças que do ou não de experiências escolares, a
frequentam a educação infantil, conhe- apropriação da leitura e da escrita passa
cendo ou não o alfabeto, como disse a necessariamente por essa instituição,
PE-1, podem ser consideradas letradas apesar de nem todos terem acesso a
em determinado nível, pois são capa- ela ou nela permanecerem até concluí-
zes de reconhecer rótulos, placas de rem seus estudos. Isso implica dizer, ao
trânsito, número ou destino do ônibus, contrário do que acima afirmou a PE-12,
entre muitas outras situações. Cabe às que todos os sujeitos que vivem em uma
instituições educativas, sejam centros sociedade grafocêntrica podem ter um

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 87


determinado nível de letramento e, para à capacidade de utilizar a leitura e a es-
isso, não precisam necessariamente ser crita em diferentes práticas sociais.
alfabetizados. Foi o que Tfouni (1988) A PE-8 também definiu letramento
comprovou em sua pesquisa sobre o como “entendimento”. No entanto dá
desenvolvimento cognitivo de um grupo indícios de que essa forma de compre-
de adultos não alfabetizados, concluindo ender o processo de letramento não é
que, em sociedades grafocêntricas, não apenas sua, mas resultado da formação
há total identificação entre os termos continuada em serviço da qual partici-
analfabeto e iletrado e entre alfabetiza- pou, junto com outras companheiras
do e letrado. de trabalho.
Da mesma forma que um adulto Letramento é a pessoa entender o
analfabeto que vive em um meio em que que está acontecendo. Eu lembro
a leitura está presente, que se interessa até de um exemplo que foi dela
pela leitura de uma notícia de jornal ou [professora que ministrou o curso]
de uma reportagem de revista feita em e eu guardei que era sobre o cinto
voz alta por um sujeito alfabetizado, que de segurança. A gente usa por usar,
pede para alguém em um supermercado mas não entende o porquê, quais os
ler as informações que constam no ró- benefícios que ele vai te trazer. Seria
tulo de um produto, é, em determinada mais ou menos assim, o entender.
(PE-8)
medida, uma pessoa letrada porque se
envolve em práticas sociais de leitura e Os depoimentos das PE-12 e ­PE-8,
escrita, uma criança que ouve histórias anteriormente expostos, denunciam
lidas pelos pais ou pela professora de a presença de um “tradutor”: pessoa
educação infantil, que folheia livros, que que, supomos, tenha estudado com
observa a leitura de um manual de ele- profundidade um determinado tema
trodoméstico, ou seja, que vive imersa e “traduzido-o”, de acordo com a sua
no mundo da escrita é, de certa forma, interpretação, às professoras. Esta pode
letrada. ser uma das razões de algumas delas
Apesar de confundir os termos considerarem alfabetização e letramen-
alfabetizado e letrado, acreditamos que to como sinônimos, ou confundirem o
a definição elaborada pela PE-12 apro- significado desses processos, ou mesmo
ximou-se do conceito de letramento, ao reconhecerem que são distintos, mas
considerá-lo como “entendimento”. Para não conseguirem delimitar as diferenças
ela, “letramento é você entender e pôr entre ambos, como demonstraremos
em prática no seu dia a dia”. Mesmo não abaixo, exemplificando.
tendo esclarecido “o que” é preciso “pôr Algumas consideram que alfabeti-
em prática”, acreditamos que esteja se zação e letramento são sinônimos, pois
referindo à leitura e à escrita. Se assim se referem ao mesmo fenômeno, como
for, letramento para a PE-12 diz ­respeito a PE-1:

88 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


Eu acho que o letramento só muda que privilegia a alfabetização. Isso se faz
o nome. Eu acho que alfabetização necessário porque a entrada da criança
e letramento é mais ou menos a no mundo da escrita acontece tanto por
mesma coisa, não é? (PE-1) meio da aquisição do sistema de escrita,
Outras confundem o conceito como por meio de práticas (sociais e es-
de letramento com o de alfabetização, colares) que envolvem a língua escrita,
como fez a PE-13: dando-lhe significado e sentido. Com
Letramento em si é a criança passar
base nessa concepção, é possível dizer,
a conhecer as letras, começar a como nos mostraram Soares (2004b)
montar palavras. (PE-13) e Colello (2004), que, ao alfabetizar as
crianças, estaremos letrando-as e que,
Outras reconhecem diferenças ao letrá-las, estaremos alfabetizando-as.
entre os processos de alfabetização e
letramento, mas não conseguem dife- Considerações finais
renciá-los, como é o caso da PE-14:
Sinceramente eu não lembro. Eu As professoras de educação infantil,
acho que letramento é diferente ao se disponibilizarem a participar da pes-
de alfabetização. A criança, no le- quisa, expuseram seus acertos, suas difi-
tramento, na minha opinião, fala e culdades e dúvidas. Elas demonstraram
já escreve, e alfabetização é aquilo o conhecimento que possuem sobre o
que a gente pede para a criança tema em questão e, em última instância,
aprender, formular palavrinhas, revelaram a fragilidade de sua formação
alguma coisa assim. Sei lá. (PE-14) profissional, o potencial que pode ser
O fato de alfabetização e letra- mobilizado para o seu crescimento profis-
mento serem processos distintos, porém sional, em prol de uma educação infantil
indissociáveis e interdependentes, pode que respeite os direitos da criança e pro-
ter contribuído para que as professoras mova o seu desenvolvimento e indicaram
entrevistadas os tenham definido como um espaço para nossa atuação enquanto
acima expusemos. Reconhecemos que formadora de professores. Por isso acre-
é a natureza distinta desses dois proces- ditamos que o conjunto dos conceitos de
sos que torna complexa a relação entre alfabetização e letramento por elas ela-
ambos e que, justamente por isso, é borados, apresentados e analisados neste
importante diferenciá-los. artigo, permite-nos fazer inferências a
Em função disso, destacamos a im- respeito dos cursos de formação de pro-
portância de os professores reconhece- fessores (inicial e continuada) e das ações
rem as especificidades desses processos pedagógicas implementadas na educação
e de encontrarmos um meio termo entre infantil envolvendo tais processos.
as duas posições anteriormente expos- Nesse sentido, se considerássemos
tas: a que privilegia o letramento e a que os sujeitos dessa pesquisa fossem

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 89


profissionais inexperientes e sem for- responsabilidade de um nível de escola-
mação pedagógica inicial, concluiríamos ridade – educação infantil – é muito mais
este artigo, reafirmando a importância que promover situações de contato com
da formação pedagógica em nível mé- os mais diversos textos escritos (porque
dio e superior, conforme preconiza a isso a sociedade grafocêntrica na qual
legislação brasileira, por meio da Política vivemos o faz com considerável compe-
Nacional de Educação Infantil (1994), das tência), é também oportunizar a apren-
Diretrizes Curriculares Nacionais para dizagem da leitura e da escrita. Mesmo
a Educação Infantil (1999) e da Lei de que um dos processos - alfabetização e
Diretrizes e Bases da Educação Nacional letramento - seja priorizado na prática
(1996). pedagógica, em função do processo de
Porém o perfil das professoras é desenvolvimento dos alunos envolvidos,
outro, o que nos leva a concluir que não há que se ter clareza, por parte dos pro-
é necessário apenas continuar insistindo fissionais responsáveis por encaminhar
na importância da formação inicial, nem tais práticas, que, apesar de serem
apenas investindo na formação continu- distintos, há entre eles uma relação de
ada desses profissionais, mas, sobretu- indissociabilidade e interdependência.
do, encontrar outro modelo de formação Segundo Soares (2004a, p. 14),
inicial e continuada. Sem dúvida, outros dissociar alfabetização e letramento é
estudos serão necessários para dar conta um equívoco porque
dessa tarefa. No momento, a certeza que [...] a entrada da criança (e também
temos é a de que tamanha empreitada do adulto analfabeto) no mundo da
requer formação sistemática (inicial e escrita se dá simultaneamente por
continuada) com grau de profundidade esses dois processos: pela aquisição
que permita alcançar uma compreensão do sistema convencional de escrita
satisfatória da relação entre os processos – a alfabetização – e pelo desen-
de alfabetização e letramento e políticas volvimento de habilidades de usos
públicas comprometidas com esse outro desse sistema em atividades de
tipo de formação. leitura e escrita, nas práticas sociais
Os conceitos de alfabetização e que envolvem a língua escrita – o
letramento.
letramento expressos pelas professoras
de educação infantil, apresentados e Assumindo essa posição, acredi-
analisados neste artigo, permitem-nos tamos não estarmos desrespeitando o
inferir a respeito da necessidade de tempo de infância nem propondo a an-
encaminhar um trabalho pedagógico tecipação da escolarização, nem desres-
que envolva os dois processos desde a peitando o tempo de infância. Trata-se
educação infantil. Afirmamos isso, com de admitir a importância de alfabetizar
a convicção de que assumir a imersão letrando e letrar alfabetizando também
da criança no mundo da escrita como para as crianças pequenas, de acordo

90 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...


com as possibilidades e os limites desse prática pedagógica e provê-la de inten-
nível de escolaridade. Como já dissemos, cionalidade. Trata-se de uma empreitada
isso requer que os profissionais que nele que requer formação sistemática (inicial
atuam compreendam tais processos e continuada) com grau de profundidade
como indissociáveis e interdependen- que permita alcançar uma compreensão
tes, porém, distintos e reconheçam que satisfatória das relações entre os proces-
esta é uma condição para sistematizar a sos de alfabetização e letramento.

Referências
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Departamento de Políticas Educacionais.
Coordenação Geral de Educação Infantil. Política Nacional de Educação Infantil. Brasília,
DF: MEC/SEF/DPE/COEDI, 1994.
______. Lei n. 9.394. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: MEC, 1996.
______. Parecer CEB n. 22/98. Resolução CEB n.1, 7 de abril de 1999. Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Infantil. Brasília, DF: CNE/CEB, 1999.
COLELLO, Silvia Mattos Gasparian. Alfabetização em questão. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
2004.
FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1985.
______. O ato de ler evolui, jun. 2001. Disponível em: <http://revistaescola.abril.
com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/ato-ler-evolui-423536.shtml>. Aces-
so em: 28 mar. de 2009.
LUCAS, Maria Angélica Olivo Francisco. Os processos de alfabetização e letramento na
educação infantil: contribuições teóricas e concepções de professores. 2008, 322f. Tese
(Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, 2009.
MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Educação e letramento. São Paulo: UNESP, 2004.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte, CEALE/Autêntica,
1998.
______. A reinvenção da alfabetização. Presença pedagógica, Belo Horizonte, n. 52, p.
15-21, jul./ago., 2003a.
______. Letramento e escolarização. In: RIBEIRO, Vera Masagão (Org.). Letramento no Brasil:
reflexões a partir do INAF. São Paulo: Global, 2003b. p. 89-113.
______. Alfabetização e letramento. São Paulo: Contexto, 2004a.
______. Alfabetização e letramento. Caderno do Professor, Belo Horizonte, n. 12, p. 6-11,
dez. 2004b.

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 69-92, jul./dez. 2014 91


______. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação. São
Paulo, n. 25, p. 5-17, jan./abr. 2004c.
TFOUNI, Leda Verdiani. Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso. Campinas: Pontes,
1988.
______. Letramento e alfabetização. São Paulo: Cortez, 1995.
TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa
qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.

Recebido em setembro de 2014


Aprovado para publicação em outubro de 2014

92 Maria Cristina L. PANIAGO; Kátia GODOI. Contextos de apropriação tecnológica e pedagógica...

Você também pode gostar