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Revisão da Obra de Peter Drucker (1993)

“The Post-Capitalist Society”

Dora Cristina Moreira Martins Dezembro de 2006

Introdução

A obra The Post-Capitalist Society” de Peter Drucker, publicada em 1993, pretende fazer o

enquadramento caracterizador da Sociedade Pós-Capitalista. Austríaco, Peter Drucker (1909-2005), viveu grande parte da sua vida nos E.U.A., mas reconhecido mundialmente como o Pai da Gestão Moderna. Dotado de uma sabedoria visionária,

os seus principais contributos estão fortemente ligados à evolução do mundo social e económico.

Na obra que aqui será objecto de reflexão, o pensamento-chave do autor centra-se na transição da sociedade capitalista para a sociedade pós-capitalista, identificando o conhecimento como

principal recurso da sociedade emergente no final do Século XX. Uma leitura atenta do seu livro The Post-Capitalist Society”, permite-nos concluir que Drucker procurou reforçar a abordagem outrora feita aquando da publicação do título “The Age of Descontinuity” (1969), no qual falou pela primeira vez na emergência de uma nova sociedade baseada no conhecimento. Do ponto de vista organizacional, Drucker considerava que o conhecimento assumia um papel fulcral, afirmando mesmo que a par dos colaboradores, o conhecimento representa a fonte de vantagem competitiva das empresas que enfrentam os desafios da globalização do final do Século XX. Ao longo dos 12 capítulos, Drucker estrutura a sua teoria sobre o terceiro mundo em torno de três conceitos fundamentais: Sociedade, Política e Conhecimento a partir dos quais pretende enfatizar as principais alterações resultantes da evolução das sociedades ao longo dos tempos. Nascida após os anos de 1990, a sociedade pós-capitalisa ainda não está totalmente criada, acreditando Drucker que tal venha a acontecer entre 2010 e 2020. Estamos, portanto, numa fase

de transição caracterizada por profundas alterações a nível político, económico, social e moral,

onde o recurso básico será o conhecimento. Explorando a argumentação utilizada pelo autor, centraremos esta reflexão nas principais mudanças ocorridas ao nível das estruturas social e política da sociedade dos últimos anos, evidenciando o papel do conhecimento e, mais especificamente, dos trabalhadores do conhecimento, no desenvolvimento económico da sociedade pós-capitalista. Partindo da metodologia de Toulmin (in Hart, 1998) o pensamento de Drucker nesta obra estrutura-se da seguinte forma:

Clain: transição da sociedade capitalista para a sociedade pós-capitalista Evidence: identificação do conhecimento como o recurso fulcral da sociedade pós-capitalista (considera que o conhecimento estrutura a sociedade e as suas organizações sociais, políticas e económicas)

Warrant: A sociedade não se caracteriza por um estado intemporal. Esta está em constante evolução, estimando Drucker que a ruptura com os princípios-base da sociedade vigente ocorrem a cada dois séculos. Backin: As mutações que caracterizam a transição das sociedades estão associadas à visão da sociedade, nomeadamente, aos seus valores, estrutura social, política e económica.

1. Evolução da sociedade capitalista para a sociedade do conhecimento Assumindo-se como um crítico activo da perspectiva de Marx sobre a sociedade, Drucker prospectiva que é o conhecimento que vitaliza a sociedade do ponto de vista económico, social e político, paralelamente à perda de importância dos conceitos posse de terra, posse de capital e posse de trabalhadores que caracterizaram a sociedade capitalista segundo a perspectiva teórica de karl Marx. Drucker foi o primeiro autor a falar e a utilizar os termos “trabalho do conhecimento”, “trabalhadores do conhecimento”, “trabalhadores dos serviços”, na sua obra The New Society (1949), bem como o conceito de “sociedade das organizações”, no seu livro The Age of Discontinuity (1969). Mais tarde, na sua obra The New Realities (1989) fala do colapso do marxismo bem como da sua ideologia e do comunismo como um sistema. A publicação destas suas três obras marca, segundo o autor, o fim da Era Capitalista/marxista e a efectiva entrada na Era Pós-Capitalista/druckeriana, isto é, para uma nova e muito diferente sociedade, cristalizando novas obrigações pessoais, sociais, económicas e políticas. Crítico das teorias económicas marxista, keynesiana ou neo-clássica, defende que é e será o conhecimento o novo recurso capaz de gerar valor. É através da produtividade e inovação que o conhecimento é criado e aplicado ao trabalho. Os grupos sociais dominantes passam a ser os trabalhadores do conhecimento, isto é, os executivos do conhecimento definidos por Drucker como aqueles que sabem alocar o uso do conhecimento à produtividade. São profissionais que, actualmente, estão empregados em praticamente todas as organizações. Da transição da sociedade capitalista para a sociedade pós-capitalista, Drucker refere que a grande dicotomia já não é a existência de duas culturas – literária e científica – como defendeu C. P. Snow em 1959 no seu livro The Two Cultures and The Scientific Revolution mas uma nova dicotomia onde o desafio central está entre a filosofia e a educação para a sociedade pós- capitalista. Drucker destaca como principais mudanças a) a Produtividade do Conhecimento e o Trabalho do Conhecimento (do ponto de vista económico) e; b) a emergência de uma nova

classe social constituída por Trabalhadores do Conhecimento e Trabalhadores dos Serviços (do ponto de vista social), onde a prioridade passa a ser a formação destes trabalhadores.

2. Sociedade, Governo e Conhecimento Esta obra procura transmitir um olhar sobre a sociedade actual divulgando os novos desafios da sociedade pós-capitalista. Sem qualquer hierarquia na ordem de importância, as áreas de discussão sobre as quais Drucker se debruça são a Sociedade, o Governo e o Conhecimento.

2.1. Sociedade Centrado na dicotomia existente entre a sociedade capitalista e a sociedade pós-capitalista, Drucker encontra na Revolução Industrial, na Revolução Produtiva e na Revolução da Gestão argumentos sustentáveis para a mudança radical no significado do conhecimento tornando-se, pela primeira vez, um conceito plural. Na revolução industrial (1750 e 1990), tratando-se de uma revolução técnica, o conhecimento era aplicado apenas às ferramentas, aos processos e aos produtos. Mais tarde, com a revolução da produtividade (1990-1950), o conhecimento passa a ser aplicado a si mesmo, isto é, transformando-se rapidamente num factor de produção a par do capital e do trabalho. Ainda que Drucker reconheça a importância das teorias sobre a revolução industrial dos economistas mundiais seguidores da teoria capitalista de K. Marx (1818-1883) 1 ou dos autores anti-capitalistas 2 ou do neo-conservadorista F. V. Hayek (1899-1992) para os quais o conhecimento estava concentrado na produção, destaca também o contributo de F. Taylor (1856- 1915) como o primeiro autor a utilizar o conhecimento para o estudo do trabalho, a análise do trabalho e a engenharia do trabalho, isto é, o conhecimento significando trabalho na fábrica, defendendo que para ter trabalhadores produtivos bastava que estes ganhassem o dinheiro justo. A revolução da gestão (1945-1990) também trouxe mudanças na transformação da sociedade e da economia ao reconhecer no conhecimento o principal recurso pessoal e económico. Estas perspectivas capitalistas, sobre o significado do conhecimento, levam Drucker a afirmar que hoje o conhecimento é um recurso cheio de significado e utilidade para obter resultados quer económicos quer sociais. Considerando que a revolução da produtividade ligada ao trabalho manual nas empresas terminou na década de 1950, ao referir-se aos trabalhadores da década de 1990, Drucker está a falar de trabalhadores do conhecimento. Estes trabalhadores não manuais

1 A. Smith’s (1723-1790), D. Ricardo (1772-1832), J. Austen (1775-1817), A. Hamilton (1757-1809), H. Balzac (1799-1850), C. Dickens (1812-1870).

2 Morgan (1837-1913), B. Disraeli (1804-1881), O. V. Bismarck (1815-1898), H. Janes (1843-1916).

requerem a aplicação do conhecimento pelo conhecimento, ou seja, a capacidade de através do conhecimento obter outros recursos. Hoje, para os gestores o conhecimento é aplicado para o conhecimento, isto é, mais do que aplicado às ferramentas, processos ou produtos, ele é aplicado ao trabalho humano e à gestão dos negócios, dando abertura a uma sociedade pós-capitalista caracterizada fundamentalmente por uma nova estrutura social onde a ênfase é colocada na performance das pessoas a par da criação de uma nova dinâmica social, económica e assente em novas políticas. Outro conceito importante para Drucker é o de Organização do Conhecimento, definida como instituição composta por um grupo humano de especialistas que trabalham num espaço comum. Tem como objectivo produzir conhecimento em função das suas áreas de especialização com vista aos resultados que a organização necessita. São estes trabalhadores do conhecimento que dão valor à organização, pois são pessoas altamente qualificadas, conhecedoras e dedicadas, que estão numa procura constante de novas habilidades e conhecimentos. Do lado da organização espera-se que esta seja capaz de atrair, manter, reconhecer, recompensar, motivar e satisfazer os seus trabalhadores. São organizações que não podem ser estruturadas na lógica tradicional de autoridade e controlo mas em equipas de trabalho onde os seus membros mais do que pagos são recompensados em função do seu desempenho, não necessitando de serem supervisionados. Apresentam uma gestão de mudança com o objectivo de produzirem constantemente produtos ou serviços diferentes e inovadores. Esta tendência pressupõe que desapareça o trabalho como factor de produção e seja redefinido um novo papel e função para as organizações, baseadas no conhecimento e informação. Por oposição ao período de Taylor, em que o trabalhador servia a máquina, agora é a máquina que serve o trabalhador, nomeadamente na eliminação de tarefas que não contribuam para a sua alta performance. As sociedades pós capitalistas, caracterizadas por organizações e trabalhadores do conhecimento, têm, portanto, como grande desafio a produtividade desta nova força de trabalho jovem e altamente qualificada. Nos mais recentes requisitos para a produtividade dos trabalhadores do conhecimento, Drucker refere a necessidade de se decidir como o trabalho deve ser organizado. Propõe, na criação das equipas de trabalho, ter em atenção a sua auto-disciplina, uma vez que terão que trabalhar simultaneamente durante um longo período de tempo, devendo concentrarem-se nas tarefas que lhes estão claramente definidas. Esta nova força de trabalho necessita de saber quem faz o trabalho, o que tem que aprender e comunicar acerca do trabalho, que ferramentas, que informação necessita e que responsabilidades tem. Ter trabalhadores responsáveis, segundo Drucker, é o único caminho para melhorar a produtividade. Esta ideia do autor pressupõe ainda que se construa uma aprendizagem contínua, uma vez que na sociedade do

conhecimento está-se continuamente a mudar, exigindo uma auto-melhoria quer ao nível da aprendizagem quer ao nível do ensinar dentro da organização. Outra forma de aumentar a produtividade dos trabalhadores do conhecimento é concentrá-los apenas no desenvolvimento de um trabalho que seja realmente produtivo, focando-se na sua missão e trabalhando directamente

para os resultados que acrescentem valor. As actividades consideradas não nucleares deverão ser subcontratadas extra equipa de trabalho. Ao mesmo tempo, propõe a eliminação dos níveis intermédios de gestão ao considerar que a sociedade do conhecimento exige organizações baseadas na responsabilidade. Hoje não basta às empresas concentrarem-se na sua performance económica, sendo apenas responsáveis pelo negócio. Há que ser socialmente responsável pelo impacto que esse negócio tem na comunidade. Contudo, é importante que todos os seus membros sejam responsáveis pelos seus objectivos, contributos e comportamentos, devendo dar informação dos resultados conseguidos a todos os membros da organização bem como contribuir para o melhor desempenho de cada trabalhador, articulando os seus objectivos com os objectivos

da equipa. Mais do que fazer de cada um um chefe, o que importa é fazer de cada um um

contribuinte da empresa.

2.2. Governo As invasões aos Estados Árabes pelos países ocidentalizados, nas décadas de 1980-1990,

justificaram o fim do Estado-Nação. A divergência de interesses económicos ligados ao petróleo, opondo os povos ocidentais e povos árabes requer, como resposta, um sentimento mais do que nacionalista, emergindo o megaestado com uma acção mais transnacional.

O estado-nação existia para proteger a vida dos cidadãos, as suas liberdades e as suas

propiedades, mas Drucker defende que, no final do Século XX, ele deixa de ser solução passando o megaestado a assumir-se como dominante da economia, regulando a estabilidade dos principais negócios nacionais. Esta perspectiva teórica produz avanços face ao conceito de megaestado na sua forma anglo-saxónica de J. Schumpeter, para quem o megaestado devia existir apenas para manter a segurança dos cidadãos ou face aos economistas que acreditavam

que o mercado económico era auto-regulável. Keynes ao afirmar que a economia nacional está isolada da economia mundial dos países

desenvolvidos (ao ser totalmente determinada pelas políticas governamentais nacional), leva Drucker a alertar para o risco de a manter-se este controlo autoritário das políticas governamentais nacionais poder desenvolver-se um estado fiscal debaixo de extremas restrições, impossibilitando que o estado seja visto como uma agência social ou económica. Para Drucker,

só é possível falar em megaestado se este assumir políticas reais sobre o desenvolvimento dos

países em todos os seus aspectos: como agência social, como governante económico, como estado fiscal, fazendo dele um estado governante da sociedade e da economia. Drucker, adicionalmente, chama a atenção para a necessidade do desenvolvimento do pensar e agir local, regional e globalmente. Afirma que o megaestado apresenta algumas limitações de intervenção governamental na sociedade pós-capitalista, nomeadamente incapacidade de responder eficazmente a necessidades locais e regionais, como sejam, dar viabilidade económica às regiões mais pequenas e mais pobres, promover a criação de raízes culturais numa comunidade multicultural, resultando na redução da soberania do megaestado. Tal exige, por parte de alguns estados, a criação de uma nova realidade, mais regional que, em alguns casos, se torna tribalista, com a criação de organizações de cariz transnacional e regional mas com funções específicas. Drucker dá como exemplo a Comunidade Europeia, criada como espaço alargado de países que criaram áreas de comércio livre ao mesmo tempo que se assumia como protectora dos interesses dos seus estados membros. O transnacionalismo, o regionalismo e o tribalismo rapidamente criaram a necessidade de uma nova e complexa estrutura política sem precedentes. Drucker propõe, como primeira tarefa política do pós-capitalismo, restituir a capacidade de performance do governo que foi seriamente diminuída pelo megaestado. Prospectiva que as próximas décadas exigem políticas de coragem, de imaginação, de inovação e de liderança. Exige-se um governo altamente competente, como qualquer outra organização, quer nas relações transnacionais quer nas relações regionais. Para o efeito, não basta assumir uma atitude de patriotismo mas promover uma atitude de cidadania activa que faça a diferença de uma comunidade, de uma sociedade ou de um país, capaz de providenciar serviços e políticas comunitárias que se tornem num compromisso para a sociedade pós-capitalista.

2.3. Conhecimento Drucker fala na necessidade de desenvolver uma teoria económica que coloque o conhecimento no centro do processo produtivo, capaz de explicar a economia presente, o crescimento económico e a inovação. Temas estes, outrora, nunca explorados por Adam Smith ou David Ricardo ou por outros autores Keynesianos, Neo-Keynesianos, Clássicos ou Neo-Clássicos. No seu artigo publicado no “The Economist” (4 January, 1992), defende que o conhecimento deve ser conhecido, aplicado e explorado como uma curva de aprendizagem, de forma permanente e irreversível. Isto implica que nem as economias livres nem as economias proteccionistas poderão tornar-se economias políticas. Contudo, para Drucker, o conhecimento é económico, é produtividade, pelo que a produtividade dos recursos se tornou um interesse central das

economias da sociedade pós-capitalista, sublinhando a relação entre o crescimento económico e ambiental. Ainda que defenda a descentralização, considerando que a centralização impede a produtividade, Drucker considera estes termos como mais do domínio da gestão do que da economia rejeitando, por isso, os conceitos de descentralização, centralização e diversidade como termos a estarem na base da construção de uma teoria económica sobre a produtividade do conhecimento. Alerta para a necessidade de pensar numa teoria organizada em função do principio “aplicação de conhecimento para conhecimento”, onde a primeira regra pode ser entender o conhecimento orientado para elevados resultados produtivos. Segundo ele, o conhecimento apenas é produtivo se for aplicado apenas para fazer a diferença. Este pressuposto druckermiano exige uma sistemática exploração de oportunidades para a mudança, combinando competências e força do trabalhador e da equipa de conhecimento, ao mesmo tempo que exige gestão do tempo podendo, nesta perspectiva, ser aplicado a diferentes áreas como a Economia, a Tecnologia ou a Medicina. Conclui que a especialização do conhecimento dá um enorme potencial à performance de cada área. No entanto, há que impor uma metodologia e disciplina para tornar o conhecimento produtivo. Drucker ao reflectir sobre o conhecimento na sociedade pós-capitalista questiona, também, a responsabilidade da escola. Segundo ele, a revolução tecnológica transformou o caminho da aprendizagem, levando à mudança da economia da educação e a que muitas escolas, até então centradas no trabalho intensivo, se tornassem em capital intensivo. Esta perspectiva teórica pressupõe a mudança na posição social e papel da escola, vista pela primeira vez, como responsável pela performance e resultados. A escola deve, portanto, ser centrada num novo curriculum que providencie a literacia universal, motive os estudantes de todos os níveis e idades a aprenderem continuamente, impeça o acesso a uma educação avançada nos primeiros anos, dê uma formação diversificada e ensine para todos os sectores de empregabilidade em vez de monopolizar ou servir determinadas organizações empregadoras. Esta mudança na performance das escolas possibilitará, segundo Drucker, que todos os estudantes adquiram o mínimo de habilidades nas principais áreas de competências profissionais terminando o conceito de escola que forma para a mediocridade, como acontecia nas escolas das sociedades tradicionais. Na sociedade do conhecimento, recomenda Drucker, há que deixar de olhar para a escola como o lugar que ensina e forma apenas crianças e jovens mas que possibilite que qualquer pessoa de qualquer idade entre ou regresse à escola para aprender conhecimento de que sente necessidade ou quando os que possui já estejam obsoletos. É esta atitude de responsabilidade social das escolas que possibilita aos estudantes tornarem-se trabalhadores do conhecimento ao mesmo

tempo que a escola se torna parceira das empresas ao criar condições para receber adultos que decidem voltar ao ensino sem que esta decisão colida com as exigências do trabalho que continua a manter. Daí, Drucker recomendar, adicionalmente, que é muito importante manter aberto o acesso a uma educação avançada sem olhar à idade ou anteriores credenciais educativas

dos estudantes. Logo é importante articular a relação de parceria entre as escolas e as instituições empregadoras. Outra questão fundamental é a responsabilidade da Escola, em que Drucker sugere que devemos avaliá-la não em função do seu estatuto mas dos seus resultados sobre os estudantes nela formados. Drucker explora, igualmente, o conceito de pessoa educada. Segundo ele, o conhecimento está na pessoa pelo que se torna necessário prepará-la para viver num mundo global, ocidentalizado. Este pressuposto deixa como alerta a necessidade de educar a pessoa para viver e trabalhar simultaneamente em duas culturas diferentes, pois parece-lhe inevitável, na sociedade pós- -capitalista, que cada trabalhador do conhecimento não transite entre um mundo mais intelectual (focalizado mais nas ideias e palavras) e um mundo mais executivo (focalizado mais nas pessoas

e no trabalho).

Educar uma pessoa é, portanto, dotá-la de conhecimento sobre a sociedade em que vive, conclui.

Súmula Conclusiva e análise crítica à obra de Peter Drucker Drucker está consciente que este é um período de transição. Não deixa, contudo, de alertar que o

futuro da sociedade pós-capitalista depende muito da forma como o desenvolvimento dos países bem como os seus líderes intelectuais, políticos e de negócio respondem aos desafios intrínsecos

a esta nova sociedade.

Tradicionalmente o conhecimento tinha um significado geral, dado o trabalhador ser muito especializado mas o conhecimento ser individual. Actualmente o conhecimento está na acção, na informação, focado nos resultados, mas externos à pessoa. É o conhecimento colectivo, da organização. Os conceitos de Sociedade Pós-industrial, Sociedade de Informação, Sociedade do Conhecimento começaram a ser utilizados, pela primeira vez, na década de 70, a partir de uma análise feita por Daniel Bell (1974). Este autor começou por defender, inicialmente, a transição de paradigma industrial para pós-industrial a partir da substituição do trabalho e do capital pelo conhecimento e informação. Seu contemporâneo, Alain Tourraine (1970, citado por Brandão e Kóvacs, 2001:30) defende que a sociedade pós-industrial é uma sociedade programada,

mobilizada para o crescimento económico, ou seja, “o crescimento depende mais da investigação científica e técnica, da formação profissional, da capacidade de programar a mudança e controlar as relações entre os seus elementos, de gerir organizações ou de difundir atitudes favoráveis à movimentação e à transformação contínua de todos os factores de produção, de todos os domínios da vida social”. Logo, a Era da Informação e do Conhecimento, provoca não só transformações a nível económico como, igualmente, transformações a nível social, inclusive, atingindo todos os aspectos da vida pessoal. Assiste-se, segundo estes autores, à expansão do sector quaternário composto por indústrias relacionadas com o conhecimento e a informação, onde as principais actividades dizem respeito não à indústria transformadora mas às indústrias intelectuais. Toffler (1980) e Naisbitt (1982) dão o mote para a discussão sobre o futuro da Sociedade e das Organizações. Fazem uma análise retrospectiva à década de 60, altura em que os países industrializados entraram na era caracterizada pela informação e conhecimento trazendo mudanças radicais às estruturas organizativas, isto é, a substituição de estruturas hierárquicas e rígidas por estruturas flexíveis, despoletando o interesse pela análise destas transformações sócio-organizacionais. Peter Drucker baptizou este período como a Era do Conhecimento na qual a importância de criação de novos conhecimentos será análoga à produção de novos produtos. Drucker refere que, na Sociedade do Conhecimento, a pertinência do saber faz com que a liderança esteja nas mãos dos trabalhadores do conhecimento, pessoas altamente especializadas, afirmando que as pessoas são valorizadas por aquilo que sabem e não por aquilo que fazem. Sociedade pós-capitalista, sociedade pós-industrial, sociedade do conhecimento, da informação, do saber, de rede, do paradigma digital…são variadas as designações que encontramos na literatura actual, consoante o autor e o desenvolvimento da sua linha de pensamento. Contudo, estes diferentes conceitos não deixam de reflectir uma mesma realidade: a emergência de uma nova sociedade que, do ponto de vista económico-social, reveste-se de uma nova configuração, permitindo a combinação de novas práticas organizacionais, novas formas de organização do trabalho e novos métodos de gestão. Ao contrário do carácter finito do capital da economia clássica, Sousa (2001) afirma que hoje o capital é exponencial dado que o mesmo conhecimento pode ser aplicado simultaneamente por muitos utilizadores diferentes e, utilizado inteligentemente, pode gerar ainda mais conhecimento. Esta ideia já fora anteriormente transmitida por Drucker (1988) ao afirmar que as organizações devem-se achatar e a decisão deve ser mais descentralizada à medida que se dispersa o conhecimento e a informação.

No Século passado muitas das grandes empresas baseavam as suas estratégias competitivas fundamentalmente em recursos de propriedade, mas, no início do século XXI o êxito empresarial parece estar mais relacionado com a gestão do talento humano pois este assume-se determinante para o crescimento, desenvolvimento competitivo das organizações actuais. Hoje, as empresas incentivam junto dos seus colaboradores o desejo do conhecimento. A sua aplicação, distribuição e o seu incremento em toda a empresa apresenta-se como uma componente fundamental do seu sucesso. A estratégia está em não promovê-lo Top-Down (onde

a confiança dos gestores está mais nas infraestruturas de que dispõem do que nos seus Recursos Humanos) mas Bottom-Up, criando ambientes que encorajam os trabalhadores a procurarem por

si próprios o conhecimento e a recolhê-lo junto de fontes internas e externas à própria empresa.

Para tal há que ter em conta alguns estímulos à criação e partilha do conhecimento, nomeadamente, capacidade interna das empresas para alinharem a motivação individual com os objectivos da empresa. Enquanto as economias industriais do século passado giravam em torno dos recursos físicos e

energéticos, as novas economias giram em torno da informação e das ideias. Isto é, mais do que

o controlo das matérias-primas, recursos energéticos e meios de produção, o que importa é o

desenvolvimento de maneiras originais e criativas de gerir os recursos existentes. Na esteira das teorias de gestão que reconhecem o conhecimento como o recurso fulcral das sociedades pós-capitalistas, podemos concluir que o livro de Drucker, objecto desta revisão crítica, se apresenta como uma obra bastante actual. O autor anuncia a sua visão da sociedade futura, a qual designa de “sociedade do conhecimento” explorando algumas dimensões da sociedade sua contemporânea, concluindo que esta, pelo forte contributo do conhecimento, quebrará radicalmente com as anteriores estruturas governamentais e comunitárias bem como trazendo profundas alterações no mercado de trabalho e natureza deste, ao enfatizar o papel dos trabalhadores do conhecimento. Drucker coloca, portanto, em foco, a discussão sobre a nova fase empresarial emergente nos finais do Século XX.

Contemporâneos de Drucker, muitos dos pensadores da actualidade (Cabrera (2002); Kluge, Stein, Licht (2002); Nonaka (1994) defendem que, no mundo competitivo de hoje, as empresas ganhadoras são aquelas que melhor sabem capturar e utilizar o conhecimento dos seus empregados. Não basta terem o controlo dos recursos físicos e energéticos se não souberem desenvolver novas maneiras de os explorar para proporcionar melhores e novos serviços. Este pressuposto faz com que o conhecimento se converta no recurso mais valioso para as empresas do século XXI.

Referencias Bibliográficas

Cabrera, A. – “La Gestión del Conocimiento”, in Bonache, J. e Cabrera, A. (2002), Dirección Estratégica de Personas, Madrid, Prentice Hall, 293-316.

Drucker, P. (1993) – Post-Capitalist Society, Butterworth Heinemann, Oxford.

Harts, C. (1998) - Doing a Literature Review, London, Sage Publications.

Kluge, J.; Stein, W. e Licht, T. (2002)- Gestão do Conhecimento, Cascais, Principia

Moniz, António Brandão e Kóvacs, Ilona (2001) – Sociedade de Informação e Emprego, Colecção Cadernos de Emprego, nº28, Lisboa, MTS-DGEFP.

Nonaka, I. - “A Dymanic Theory of Organizational Knowlegde Creation”, in Organazation Science: a Journal of the Institute of Management Sciences, Vol. 5, nº1, February, 1994.

Nonaka, I.; Takeuchi, H. (2001) – “Organizational Knowledge Creations”, in HENRY, Jane (ed.) – Creative Management, Londres, Sage, 64-82

SOUSA, Célio (2001) – Gestão do Conhecimento, Lisboa, Edições RH.