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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

ANÁLISE DE JULGADOS DO STF E STJ


Análise do RE nº 1.045.273 e do REsp nº 1.658.903/RN

Resenha apresentada por Ana Luísa


Brêtas Bruno, matrícula 201704054,
e Victoria Presoti Paixão, matrícula
201704026, matriculadas no 8º
período do curso de Direito Diurno da
Universidade Federal de Juiz de
Fora, à professora Kelly Cristine
Baião Sampaio, como parte dos
pré-requisitos necessários à
aprovação na disciplina de Direito de
Família.

27 DE JANEIRO DE 2021
JUIZ DE FORA
Conforme destaca o autor José Fernando Simão, o afeto inegavelmente é um valor
jurídico e, como tal, faz com que se configurem parentescos diversos, independentes do
vínculo sanguíneo, levando o Direito de Família a uma constante evolução. A Resolução 175
do Conselho Nacional de Justiça, de 14 de maio de 2013 foi considerada uma grande evolução
ao determinar, de maneira objetiva, que os registros civis deveriam habilitar casais do mesmo
sexo ao casamento. Essa resolução trouxe consigo diversas novas discussões, buscando cada
vez mais a construção de um direito de família mínimo concretizador da família
constitucionalizada e dotada de autonomia existencial.
Apesar de estar em constante evolução, buscando acompanhar os novos contextos
culturais da sociedade, é preciso ressaltar que simples mudanças na legislação de família, com
o reconhecimento de certa estrutura familiar, pode gerar impactos profundos nos mais diversos
institutos do direito civil. O planejamento sucessório é um grande exemplo dessa constatação,
tendo em vista que, o reconhecimento de uma estrutura familiar implica em uma reorganização
de toda uma legislação civil que garanta os direitos sucessórios aos herdeiros, agora tutelados.
É nesse complexo contexto, com diversas implicações multidisciplinares, que se insere
a discussão das uniões simultâneas, da tutela jurídica da multiparentalidade, discutida
recententemente pelas Cortes Superiores, com a finalidade de sedimentar um entendimento
sobre o assunto que, embora não legislado, já é recorrentemente demandado em Juízo.
O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 1.045.273, na qual se analisou um
caso advindo do Sergipe, cujo pleito principal era o reconhecimento de uma segunda união
estável, em concomitância com a primeira, e a consequente divisão dos valores previdenciários
devidos à título de pensão por morte.
O julgamento iniciado em setembro de 2019 foi retomado e resultou na seguinte
repercussão geral, aprovada em 11/12/2020:

"A preexistência de casamento ou de união estável de um dos


conviventes, ressalvada a exceção do artigo 1.723, parágrafo 1º, do
Código Civil, impede o reconhecimento de novo vínculo referente ao
mesmo período, inclusive para fins previdenciários, em virtude da
consagração do dever de fidelidade e da monogamia pelo ordenamento
jurídico-constitucional brasileiro".

Em votação acirrada, por 6 votos a 5 contrários, prevaleceu o entendimento do Ministro


Relator Alexandre de Moraes, de forma a negar reconhecimento à segunda união estável em
concomitância para fins previdenciários. Mais uma vez o Direito de Família foi utilizado para
reafirmar um padrão cultural, transformado em valor jurídico: a monogamia. José Fernando
Simão destaca bem a presente discussão em seu texto “há limites para o princípio da
pluralidade familiar na apreensão de novas formas de conjugalidade e de parentesco?”:

O sistema é monogâmico por opção do legislador. Não se trata de


admitir ou proibir que uma pessoa possa ter mais de uma família
simultaneamente. Trata-se de restringir a autonomia privada
negando efeitos jurídicos às famílias paralelas ou poligâmicas.

Cabe ressaltar que no caso em análise, o Estado restringiu a autonomia privada


existencial familiar de sujeitos que comprovadamente estavam de boa fé, com o único e
retrógrado argumento baseado no valor jurídico da monogamia.
Foi com base na existência de boa-fé entre os sujeitos envolvidos nas uniões estáveis
simultâneas que alguns Ministros construiram votos contrários ao entendimento do Relator.
Edson Fachin destacou a importância da boa fé no julgamento, ao argumentar que: "O tema
passa por três temas importantes: benefício previdenciário; dependência e eficácia póstuma.
Na situação dos autos, foi a morte do homem a causa da cessação das relações jurídicas; mas
os efeitos post-mortem da boa-fé devem ser preservados".
Ademais, importa ressaltar relevante trecho do voto do Ministro Dias Toffoli, indicando
que não há “superioridade de uma forma jurídica sobre a outra. Em verdade, na multiplicidade
familiar estabelecida pela Constituição, se atribuiu idêntica relevância a cada forma familiar”.
A divergência acirrada no julgamento desse leading case apenas retrata a polarização
da doutrina e da própria sociedade acerca do assunto. No entanto, é presciso ressaltar que a
presente decisão surte efeitos em inúmeras famílias que necessitam da tutela jurídica como
forma de terem direitos básicos garantidos, reconhecidos. Em alguns casos como esse, a falta
de tutela jurídica representa o não-direito, o não-direito sucessório, o não-direito de registro, o
não-direito previdenciário, o não-direito à pensão.
Ao buscar a manutenção do tradicional valor jurídico da monogamia, estaria o
entendimento da Corte Suprema em consonância com o princípio da dignidade humana e
todos os demais princípios constitucionais que dele decorrem? Em resposta objetiva, afirma
José Fernando Simão “Em conclusão, os afetos são ilimitados, mas aqueles que contam com a
proteção jurídica o são e sempre serão.”
Ademais, cabe ressaltar que a união estável, embora pressuponha a ausência de
impedimento matrimonial entre duas pessoas, não impede de pessoas casadas, mas
separadas de fato, ou separadas judicial ou extrajudicialmente, constituírem relacionamentos
estáveis, alçados como foram pela Constituição Federal de 1988 (art. 226, § 3º) à condição de
entidade familiar.
Não se pode confundir o concubinato adulterino com a união estável, tendo em vista
que o artigo 1.727 do Código Civil considera como mero concubinato o relacionamento
adulterino, a relação dúplice, uma vez que a mesma é concomitante a outro relacionamento em
plena comunidade de vidas. A redação desse dispositivo não é clara, porque é possível existir
uma relação eventual de um homem e de uma mulher que, embora impedidos de casar, por já
serem casados, ainda assim podem constituir união estável por estarem faticamente separados
(CC, art. 1.723, § 1º), e nesse caso poderá ser considerado uma união estável simultânea ao
casamento. Melhor teria sido se o legislador completasse no artigo 1.727 do Código Civil que
considera concubinato a relação notoriamente adulterina, porque um dos concubinos ou
mesmo ambos continuam casados e convivem paralelamente com o seu primitivo cônjuge, ou
porque convivem com outro companheiro, descaracterizando o primado da relação
monogâmica.
Dessa forma, a legislação proíbe a dupla e paralela convivência, não admitindo que
alguém possa viver ao mesmo tempo uma relação matrimonial e outra de união estável, em
uniões concomitantes. Deve existir unicidade do vínculo, não havendo igualmente a
possibilidade jurídica de duas uniões estáveis concomitantes, pois, como escrevem Ana
Carolina Brochado Teixeira e Renata de Lima Rodrigues, “a família sempre se fundou no
princípio da monogamia, ordenador da organização familiar do mundo ocidental, que determina
que cada pessoa deve viver uma relação conjugal de cada vez, com exclusividade”.
No entanto, tem sido cada vez mais frequente se deparar com decisões judiciais
reconhecendo direitos às uniões paralelas ao casamento, ou correlata à outra união afetiva,
como no caso da da decisão da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, no REsp. n.
1.658.903/RN, em 28 de novembro de 2017, que, posto vez reconhecida a união dupla ou
paralela, não haveria mais como conceber a clássica partilha dos bens pela metade, entre duas
pessoas, tendo em vista o ex-cônjuge deve ter seus direitos resguardados, principalmente a
ampla defesa e o contraditório, devendo ser inserido no polo passivo da demanda, por possuir
interesse direto na causa.
No caso julgado pelo STJ, apesar do réu e da ex-esposa já estarem separados de fato,
quando esse mantinha uma união estável com outra pessoa, não retira o direito da mesma
proteger e reivindicar seus direitos, principalmente os que afetarem diretamente sua esfera
patrimonial.
Nesse sentido, conforme o art. 115 do CPC, no caso da não citação da parte, a qual
deveria integrar o polo passivo do processo como litisconsorte necessário, acarreta a nulidade
da sentença. Fica evidente que a ausência de citação de litisconsorte necessário viola a
natureza unitária da relação jurídica entre as partes e, consequentemente, impede que terceiro
interessado participe.
No âmbito processual, o devido processo legal assegura igualdade de tratamento aos
indivíduos, principalmente à garantia da ampla defesa, com iguais oportunidades para a prática
de todos os atos processuais e observância do contraditório.
Destarte, no caso da sentença ser proferida sem a participação de litisconsórcio
necessário, será configurada um vício considerável na relação jurídica processual, inclusive
ferindo isonomia entre a ex-cônjuge que ainda vivia maritalmente com réu e a companheira.
Além disso, não pode aquele que ficou excluído pela ausência de citação ou ainda,
nulidade da mesma, ficar condicionado ao lapso temporal da ação rescisória para fins de ser
abarcado pela coisa julgada sobre um conteúdo que sequer teve a oportunidade de se
manifestar, ferindo o básico preceito constitucional do contraditório e ampla defesa, sendo
retirado, portanto, a possibilidade de influir nos desígnios da sentença proferida.
Logo, para que haja a efetiva observância ao contraditório substancial deve se
assegurar ao ex-cônjuge a garantia de influir no próprio destino da tutela jurisdicional a ser
prolatada, especialmente no que concerne ao patrimônio a ser partilhado.
Com a certeza de que os temas seguirão sendo discutidos e demandados no
ordenamento jurídico, já que retrata uma realidade que não é nova, é importante que levemos
em conta o importante ensinamento do autor José Fernando Simão:

“A resposta “depende do caso concreto” não é jurídica. Se é conveniente


para muitos temas, em Direito Civil, representa o fracasso do jurista na
construção de categorias jurídicas que se propõem sérias. É a fuga da
construção de um direito como ciência para se voltar ao empirismo
romano, superado há mais de um mil e quinhentos anos.”

COSTA FILHO, Vanceslau Tavares. O RE 1.045.273 e o Reconhecimento de Efeitos


Previdenciários a Uniões Simultâneas. Associação de Direito de Família e das Sucessões. 14
de dez. de 2020. Disponível em:
http://adfas.org.br/2020/12/14/o-re-1-045-273-e-reconhecimento-de-efeitos-previdenciarios-a-un
ioes-simultaneas/. Acesso em: 25 de jan. de 2021.

RODAS, Sérgio. Supremo nega reconhecimento de uniões estáveis simultâneas. Consultor


Jurídico, 14 de dez. de 2020. Disponível em:
https://www.conjur.com.br/2020-dez-14/stf-nega-reconhecimento-unioes-simultaneas-fins-previ
denciarios. Acesso em 25 de jan. de 2021.

ROLF, Madaleno. Direito de Família. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020.


TEIXEIRA, Ana Carolina Brochardo e RODRIGUES, Renata de Lima. O direito das famílias
entre a norma e a realidade. São Paulo: Atlas, 2010. p. 116.