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Publicação original: CHILDS, Harwood L. Que é opinião pública. In: _____. Relações públicas, propaganda e opinião pública. 2. ed.

Rio de
Janeiro: FGV, 1967. p. 44-61.

QUE É OPINIÃO PÚBLICA?

Harwood L. Childs

Até agora já lhes formulei as seguintes proposições: 1) a expressão relações pública concerne aos aspectos do nosso comportamento institucional
e individual que tem conseqüências sociais; 2) o problema fundamental de Relações Públicas é ajustar essas relações às atuais tendências
culturais, econômicas e políticas, de modo a promover o interesse público; 3) o melhor modo de saber em que consiste o interesse público é
descobrir o que a opinião pública diz que ele é.

Desejo agora considerar a questão: "Que é a opinião pública?" parece ser evidente que a opinião pública é o próprio âmago de nosso problema.
Sabendo o que é a opinião pública, estamos de posse de um critério para avaliar o estado de nossas Relações Públicas.

A origem da expressão "opinião pública" está envolta em mistério. Na literatura da Grécia e Roma antigas, bem como ao longo da Idade Média, os
filósofos tinham inteira consciência da importância da opinião das massas. A frase "voz populi, vox Dei" data da última parte da Idade Média. Foi
só no século XVIII, entretanto, que se submeteu a expressão opinião pública a uma análise e tratamento sistemáticos. Durante os séculos XVII e
XVIII escritores como Voltaire, Hobbes, Locke e Hume pagaram o seu tributo à força da opinião pública. Mas era esse o período da Revolução
Francesa e devemos voltar-nos mais particularmente para os escritos de Rousseau para uma primeira e cuidados análise do assunto. Hobbes
falou no mundo como sendo governado pela opinião; Lock considerou a opinião como uma das três categorias do direito; e Hume deu expressão à
clássica afirmação de que "é somente na opinião que o governo se fundamenta; e esta máxima estende-se aos governos mais despóticos e
militaristas, tanto quanto aos mais livres e populares". Blaise Pascal referiu-se à opinião pública como "Rainha do Mundo", ao que Voltaire replicou:
"se a opinião é Rainha do Mundo, os filósofos governam a Rainha".

Rousseau, escrevendo no século XVIII, fez uma das mais claras análises do conceito de opinião pública em sua época. Aplicou sua teoria da
infalibilidade popular ao estado, proclamando que "o desejo mais generalizado é também o mais justo". Este ponto de vista tem sido
freqüentemente repetido desde então. Rousseau acreditava que mesmo o despotismo se apoia na opinião pública porque dizia ele, "o governo
despótico é servil, mesmo quando fundamentado na opinião; pois você depende do preconceito daqueles a quem você governa pelo preconceito."
Rousseau parece ter sido o primeiro a usar a expressão "l’opinion publique", e são valiosas suas considerações sobre as relações entre a opinião
e o direito. Afirmou que "quem quer que se dedique à tarefa de legislar para um povo deve saber como manejar as opiniões, e através delas
governar as paixões dos homens."

Um dos primeiros a discutir a importância da opinião pública como fator político, um dos primeiros que demonstraram sentir os problema de
Relações Públicas inerentes à função pública, foi Jacques Necker, ministro da fazenda da França. Sua experiência levou-o a salientar as
correlações existentes entre opinião pública e crédito público. Descobriu também que os salões da França desempenhavam um papel muito
importante na formação da opinião pública de sua época, e que as opiniões da burguesia tinham realmente influência decisiva. Necker foi o autor
da única análise pormenorizada do conceito de opinião pública na época da Revolução Francesa, embora fazendo inúmeras referências a
assuntos tratados nos artigos efêmeros da época.
A Revolução Francesa, entretanto, estimulou a discussão do assunto da opinião pública em uma escala até então sem competência das massas
para governar. Na Alemanha a Revolução inspirou o tratamento sistemático do assunto por Wieland Garve, Fries e Hegel. Dessas discussões
surgiram definições mais precisas dos termos, bem como tentativas de determinar o correto papel da opinião pública nos negócios públicos.
Garve, por exemplo, definiu a opinião pública como "o acordo de muitos ou da maioria dos cidadãos de um país quanto aos julgamentos a que
chegou cada indivíduo de per si como resultado de sua própria reflexão ou de seu conhecimento prático sobre um determinado assunto". Esta
definição chegou a nós praticamente intacta nos escritos de Lowell e outros cientistas políticos. A maioria dos escritores alemães da época
considerava que a competência da opinião pública para governar estendia-se apenas aos princípios gerais. Hegel formulou a teoria, percursora do
fascismo, de que a opinião pública só devia ser respeitada quanto aos princípios essenciais nela contidos, e que cabia ao dirigente descobrir quais
esses princípios essenciais.

Jeremy Bentham foi o primeiro a tratar minuciosamente do assunto em inglês. Sublinhou a importância da opinião pública como meio de controle
social, discutiu sua relação com a legislação e foi um dos primeiros a examinar o papel desempenhado pela imprensa na sua formação. Afirmava
que a opinião pública era necessariamente parte integrante de qualquer teoria democrática do Estado. O problema fundamental da opinião pública,
era a seu ver "salientar a retidão das decisões por ela tomadas".

É, pois, evidente, que desde épocas remotas os estudiosos tem tido contato, com o assunto da opinião pública. Muitos dos problemas que
enfrentamos hoje, foram percebidos e considerados, pelo menos, nos últimos anos do século XVIII e no início do século XIX. Não teria utilidade
enumeramos aqui as referências à opinião pública contidas no que se escreveu do século XIX em diante. O número dessas referências é enorme.
Deu-se muita atenção ao problema da competência das massas de exprimir opiniões inteligentes sobre assuntos de política nacional. A crescente
importância da imprensa em sua relação com a formação da opinião pública atraiu o interesse de muitos. Estudiosos de direito e jurisprudência,
analisaram cuidadosamente as relações entre a opinião pública, o direito e as instituições políticas. Sociólogos e psicólogos prestaram cada vez
mais atenção à questão de como realmente se forma a opinião pública. Muitos outros salientaram o caráter emocional e irracional do processo
formativo da opinião pública.

Os escritos de A F BENTLEY, em 1908, inspiraram longa lista de estudos relativos à influência dos grupos de pressão sobre a opinião pública. A
Guerra Mundial e as obras de LASSWELL, STERN-REUBARTH e outros chamaram a atenção para o papel da propaganda. A variedade de
estudos especializados de fatores particulares que influenciam a formação da opinião pública só teve par na multiplicidade de fatores que podem
ser estudados.

Salientaram os sociólogos a importância da opinião pública como meio de controle social; os psicólogos, o papel desempenhado por vários fatores
hereditários e ambientais na formação das opiniões individuais; estudiosos do direito, a influência da opinião pública sobre as diretrizes
governamentais; estudiosos da ciência política, sua influência sobre o governo, bem como a influência das instituições governamentais, oficiais ou
não, sobre ela.

A pesquisa e o estudo da opinião pública em nossos dias atravessam a ultrapassam as linhas que tradicionalmente separam os departamentos
das ciências sociais e podem ser encontradas praticamente em todas as suas disciplinas. Estatísticos, psicólogos, jornalistas, publicitários e
pesquisadores de mercado prestam agora considerável atenção ao problema da determinação do estado da opinião pública quanto a assuntos
específicos. Vários tipos de amostragem e aplicação de inquéritos estão sendo usados. Observações minuciosas e prudentes tem sido
complementadas por métodos precisos de tomada de opinião. Neste campo são dignas de nota as atividades do Instituto Americano de Opinião
Pública e da revista Fortune.

Estudos sobre atividades de grupos e pressão, sobre propaganda e sobre os instrumentos de comunicação, bem como pesquisas psicológicas
quanto à gênese das opiniões individuais, vão esclarecendo cada vez mais o processo de formação da opinião. Em virtude de tantos fatores
diferentes influenciarem a opinião pública, este campo atrai um número desusadamente grande de estudiosos.
A manipulação e o controle da opinião pública sempre interessaram a muita gente. Antes da Grande Guerra, obteve-se considerável progresso na
pesquisa publicitária e desde 1919 o interesse pela manipulação da opinião pública ampliou-se, passando a compreender o estudo, não só da
propaganda comercial, mas também de qualquer outra espécie de propaganda. Provavelmente nenhum aspecto desse assunto desperta mais
interesse do que o problema de como obter o apoio da opinião pública.

O advento das novas formas de autocracia deu origem a novas discussões sobre o correto papel da opinião pública na vida do país. Formularam-
se, cada vez mais, perguntas deste tipo: a opinião pública, no sentido de opinião das massas, é um guia digno de ser seguido? Sobre que
assuntos se há algum, tem ela competência para exprimir uma opinião? Onde deve ser traçado o limite entre os assuntos sobre os quais ela é e
sobre os quais ela não é competente para emitir um julgamento? Estas perguntas atingem as raízes da teoria da democracia. A maioria dos
defensores do sistema de visa democrático acentua a importância de uma opinião pública informada e inteligente. A questão de como melhorar o
papel da opinião pública nos negócios públicos tem sido o ponto de partida de muitos estudos. Os educadores particularmente, têm-se preocupado
com o problema. Na mente de muitos, o problema fundamental da opinião pública é um problema de educação.

Um dos aspectos mais perturbadores de todo o assunto da opinião pública é a crescente intensidade dos conflitos de opinião; são as divergências
cada vez maiores entre os grupos; é a ausência de premissas e objetivos de aceitação geral. A guerra, seja ela entre povos, raças ou classes, é
um reflexo deste estado de opinião. O problema da redução das diferenças de opinião entre as nações e entre as classes é, em grande parte, um
problema psicológico, o da reconciliação e harmonização das diferenças de opinião. Para consegui-las, é necessário, antes de tudo, descobrir por
que os estados de opinião são o que são, quais as suas verdadeiras causas. Algumas vezes essas causas são imaginárias, baseadas em
concepções erradas e em incompreensões. Quando quer que isso aconteça, as dificuldades podem ser aprimoramento educacional dos grupos.
Erguem-se, entretanto, muitas dificuldades e obstáculos no caminho deste processo, e devem-se envidar todos os esforços para removê-los.

Muitas vezes as diferenças e entrechoques de opinião baseiam-se não em um mal-entendido, mas em interesse e objetivos em conflito.
Quantidade alguma de informação ou esclarecimento puramente intelectual pode, sem auxílio, modificar o coração humano, remover o egoísmo
individual ou de grupo, reconciliar as divergências fundamentais na apreciação filosófica da vida. É preciso um remédio mais forte. As vontades
devem ser modeladas como as mentes. Um egoísmo esclarecido pode, de fato, ser a pior espécie de egoísmo, porque ele é o egoísmo posto em
prática, como os recentes acontecimentos na Europa e através do mundo estão demonstrando. Um dos problemas mais difíceis no campo da
opinião pública é reconciliar as vontades dos homens, bem como suas opiniões.

A expressão "opinião pública" tem sido empregada em muitos sentidos diferentes, em verdade tantos, que alguns estudiosos ficaram em dúvida se
seria aconselhável a sua utilização. Foram feitas muitas tentativas para definir a expressão num sentido que pudesse ser aceito por todos.
Periodicamente aparece alguém que tenta reunir várias definições, classificando-as com o fito de conciliar suas diferenças de significado. E acaba,
inevitavelmente, por acrescentar mais uma à já longa lista. VIRGINIA SEDMANN, por exemplo, depois de cuidadosa análise das definições de
vários autores concluiu que "opinião pública" é, para nós, uma força ativa ou latente, derivada de um agregado de pensamentos, sentimentos e
impressões pessoais, ponderados pelos vários graus de influência ou agressividade das opiniões individuais dentro do todo."

FLOYD H. ALLPORT, no primeiro número de Public Opinion Quarterly também tentou trazer ordem ao caos de conceitos, analisando a literatura
especializada e localizando diversas noções enganadoras que causavam os desentendimentos. Chamou a atenção, especificamente, para as
ilusões e soluções irrefletidas, tais como: 1) a personificação da opinião pública; 2) a personificação do publico; 3) a ilusão do grupo; 4) a ilusão do
uso parcial do termo público; 5) o que ele chama ficção de uma entidade ideativa; 6) a teoria emergente; 7) a teoria eulogística; 8) a ilusão
jornalística. E também acrescentou uma definição como contribuição: "A expressão opinião pública recebe seu significado com referência à
situação pluri-individual na qual os indivíduos se expressam a si próprios, ou podem ser chamados a faze-lo, como favorecendo (ou, pelo contrário,
desfavorecendo e refutando) alguma situação, pessoa ou afirmação definida de grande importância, em uma tal condição numérica, de
intensidade ou de constância que possa causar a probabilidade de uma ação que afete, direta ou indiretamente, o objeto". Se isto é o que
queremos dizer por opinião pública, é fácil compreender por que razão os novatos sentem aversão pelo problema e o evitam.

A expressão "opinião pública" é, evidentemente, uma expressão geral e bastante lata, como muitas outras expressões úteis do nosso idioma, tais
como"partido político","tempo" e"democracia". Só quando se refere a um público específico e a opiniões específicas sobre assuntos definidos é
que ela adquire um significado no sentido de poder ser estudada. Neste ponto, é semelhante à palavra "tempo", definida por um dicionário, no
sentido que nos interessa, como"um estado da atmosfera". Os estudiosos da metereologia não costumam preocupar-se com o tempo em geral,
mas sim com o estado da atmosfera em um determinado período e num determinado lugar. Definida nestes termos, a palavra "tempo" torna-se
significativa e pode ser estudada. Da mesma forma, a expressão "opinião pública" deve ser relacionada com um público específico e com opiniões
definidas sobre alguma coisa. Então é possível estudá-la, descobrir qual o seu estado, por que razão ela é o que é, que mudanças tem ocorrido e
continuam a ocorrer, e o que deve ser feito, se alguma coisa precisar ser feita.

É evidente que há muitas espécies de públicos. Em alguns casos, um público pode ser considerado como um grupo de indivíduos com interesses
comuns e, provavelmente, com uma organização formal. Mas o público em que estamos interessados pode consistir numa coleção de indivíduos
bastante heterogênea e desorganizada, e sem quaisquer símbolos e atributos identificadores. A utilização e definição da palavra "público" não
implica na "seleção de um atributo comum a um grupo e a sua aplicação como característica que dá a essa massa de indivíduos uma
individualidade distinta". Público é, simplesmente, qualquer coleção de indivíduos. A falta de especificação da coleção de indivíduos que
constituem o público a que os referimos tem conduzido a infindáveis dificuldades.

O número de diferentes públicos em uma comunidade é, teoricamente, o número de possíveis diferentes combinações de indivíduos nessa
comunidade. Entre os públicos mais importantes, via de regra, figuram os grupos organizados, tais como os cidadãos de um Estado e os membros
de partidos políticos, sindicatos, organizações comerciais, confrarias e associações políticas e profissionais. Mas públicos são também grupos não
organizados, tais como multidões, fregueses, leitores de jornais e clientelas de diferentes tipos. Para fins de ilustração, um público pode significar
simplesmente um grupo formado por todas as pessoas que, em um determinado dia, passam junto a uma certa caixa de correio. Além disso, os
mesmos indivíduos podem fazer parte, simultaneamente, de vários públicos. Isto quer dizer que eles podem, ao mesmo tempo, fazer parte de uma
torcida de futebol, da clientela de um médico, de uma associação, de uma igreja e de um partido político. Estudiosos do assunto, bem como
líderes e manipuladores da opinião pública, mostram interesse por públicos diferentes e por diferentes aspectos destes públicos.

Nada existe que possa ser chamado "o público", exceto num sentido, que é o de um grupo particular de pessoas sobre as quais estamos falando.
Como estudiosos de Relações Públicas podemos e devemos, naturalmente, estar interessados em um grande número de diferentes públicos,
especialmente aqueles que tem e exercem influência sobre as diretrizes governamentais. Neste aspecto, público importante é o conjunto de todos
os possíveis eleitores dos Estados Unidos. Este é, na verdade, um público muito importante, mas difícil de lidar, em virtude do seu tamanho.
Dentro deste público mais amplo há inúmeros públicos de menor dimensão, mas que exercem considerável influência sobre aquele.

Afirma-se, freqüentemente, que para uma empresa comercial existem quatro públicos principais com ela relacionados: 1) o grupo interno
compreendendo a administração e os empregados; 2) os fregueses; 3) os acionistas, os competidores e o comércio em geral; 4) o público em
geral. Isto é uma superesquematização do panorama geral. Para analisar satisfatoriamente o efeito do comportamento institucional sobre os
empregados, por exemplo, pode ser importante distinguir subpúblicos, tais, como os membros dos sindicatos e das associações de empregados, e
os não organizados; ou, utilizando outros critérios de classificação, os diferentes grupos de idade, ou de salário, os casados e solteiros, e mesmo
aqueles que vão para o trabalho a pé, de automóvel ou em outra condução. Para qualquer indivíduo ou instituição há sempre uma grande
quantidade de públicos importantes.

Pergunta-se, com freqüência, se o significado da expressão "opinião pública" deve ou não restringir-se a coleções de opiniões individuais que
formam os grande públicos, as"massas". As opiniões de grande número de indivíduos são geralmente mais interessantes e significativas que as
dos pequenos públicos. Mas nem sempre é assim. Nas democracias, a opinião daqueles que constituem o eleitorado é indubitavelmente de
grande importância. Na Itália, na Alemanha, na Rússia e em outras autocracias, entretanto, a opinião de públicos pequeníssimos compostos às
vezes de dois ou três homens-chave, pode ter importância capital. Talvez a palavra "opinião" possa ser definida como "a expressão verbal de uma
atitude".

Há, naturalmente, muitas outras expressões de atitude, tais como o riso, o movimento da cabeça e a expressão de um olhar. Pode-se perguntar se
as opiniões expressas em palavras são indicações exatas das atitudes, e a resposta tem de ser freqüentemente negativa. Mas aquilo que uma
atitude, mas também uma indicação do que se pode esperar que seja feito. Quer essas expressões de atitude sejam exatas, quer sejam inexatas,
elas são objetivas e tem importância em si mesmas. São tão importantes que centenas de milhares de dólares são gastos anualmente para
descobrir o que elas são. As opiniões expressas nas urnas são fatores determinantes da vida social e política.

Alguns exigirão uma definição de atitude, mas não precisamos buscar indefinidamente o significado último das coisas.

Para os nossos fins, é bastante aceitar a definição de atitude dada por um psicólogo, que a considera "a soma total das inclinações e sentimentos,
dos preconceitos ou pendores, das noções preconcebidas, idéias, receios e ameaças e convicções que um homem tem sobre qualquer assunto
específico. Em outras palavras é uma tendência para agir de um modo particular, uma tendência que se libera cada vez que surge o estímulo
adequado. Assim como as atitudes são subjetivas, as opiniões são objetivas, e tomam a forma de palavras escritas ou faladas.

O termo "atitude" como está sendo usado em discussões acadêmicas, apresenta algumas dificuldades. Dizer que uma pessoa tem uma atitude
favorável para com um determinado assunto suscita a dúvida sobre se isso implica em algo mais que na afirmação de que ela é favorável a esse
assunto. Dizer que ela é favorável a esse assunto por ter uma atitude favorável a ele, não nos conduz, realmente muito longe. Existe alguma coisa
chamada atitude, com individualidade, distinta e vida própria? Podem as atitudes ter algum sentido real, enquanto não sabemos a que situações e
a que objetos se aplicam? Talvez seja melhor considerar a palavra "atitude" como o termo usado para descrever uma série de respostas típicas e
habituais para com certos estímulos, em vez de considerá-la uma força preexistente e determinante de certas expressões de opinião.

As opiniões diferem uma das outras em muitos aspectos, tais como conteúdo, forma em que são expressam, qualidade estabilidade, intensidade,
e maneira como se formam ou se adquirem. Qualquer um destes aspectos, sozinho ou em conjunto, pode assumir importância, dependendo do
interesse do observador ou pesquisador. Uma cientista pode interessar-se principalmente pela veracidade da opinião, ou pela maneira como ela
se formou; um novelista, pela forma com que ela se expressa. Um publicitário ou político pode prestar atenção, principalmente, para os tipos de
pessoas, que tem uma determinada opinião, para seu nível econômico, sua posição social e sua influência.

É claro que uma opinião é sempre a opinião de uma pessoa, não de um grupo considerado como tal. A opinião pública, refere-se sempre a um
grupo de opiniões individuais, e não a uma coletividade mística que paira no ar por sobre as nossas cabeças. Para descobrir qual é um
determinado estado da opinião pública, portanto, temos de colecionar opiniões de indivíduos. Este ponto não mereceria destaque especial, a não
ser por terem alguns escritores pensando em termos de uma "mente de grupo", completamente separada e distinta das mentes das pessoas
tangíveis.

Por opinião pública considero, pois, simplesmente uma determinada coleção de opiniões individuais. O estudo das opiniões da assistência a uma
reunião é tão especificamente um estudo de opinião pública quanto o das opiniões dos eleitores dos Estados Unidos. Estamos, geralmente,
interessados naquelas coleções de opiniões cuja influência sobre nossos negócios é considerável.

Admito ser esta definição bastante ampla. Pode-se perguntar: que vantagem há em tentar definir opinião pública com tanta latitude? Não há uma
diferença de grau, que corresponde a uma diferença de qualidade, entre as opiniões de um pequeno grupo e as dos grupos maiores?

Talvez a melhor maneira de responder a estas perguntas seja fazer outra. O que se ganha definindo "tempo", como fazem os dicionários,
simplesmente como um estado da atmosfera? Não há uma diferença de grau, que corresponde a uma diferença de qualidade, entre o estado da
atmosfera em um salão de conferências e o seu estado em geral, através dos Estados Unidos? Não penso assim, a menos que estejamos
preparados para admitir que a palavra "tempo" não se aplica a todos os estados da atmosfera.

A fonte de dificuldade parece ser esta. Estudiosos, de per si, buscam continuamente restringir o significado da expressão "opinião pública" para
designar coleções particulares de opiniões individuais ou aspectos destas coleções, pelos quais ele se interessam. Mantendo o termo em seu
sentido amplo, proporciona-se um campo comum para aqueles que se interessam realmente pelos mesmos problemas fundamentais, embora a
primeira vista, suas atividades possam parecer não ter correlação. O problema de centro de interesse varia conforme o pesquisador. Seria um erro
insistirem os estudiosos da opinião pública que os aspectos particulares, em que acontece estarem interessados, são os únicos importantes, e
maior ainda acharem que o próprio significado de opinião pública se limita ao seu campo de interesse.

A pesquisa social tem sido mais prejudicada do que auxiliada pelo esforço em dar aos interesses individuais o prestígio adicional da exclusividade
de definição. Que é ciência política? Demasiado freqüentemente o seu âmbito, como um todo, fica aprisionado entre os muros do interesse
daquele que define o termo. O mesmo se aplica a expressões tais como "interesse público", "democracia", "justiça" e muitos e muitos outros. O
interesse público é, com demasiada freqüência, definido em termos de interesse individual ou de grupo. Democracia refere-se aquilo que
gostaríamos que ela fosse. Cientistas sociais não têm mais razões para definir opinião pública em termos de seus próprios interesses especiais,
creio eu, do que o autor de um dicionário teria para definir a palavra "cão" para demonstrar que o seu próprio cão é o único exemplar que ele
concebe.

Os estudiosos da opinião pública podem todos se encontrar em um terreno comum: o interesse geral por coleções de opiniões individuais. Alguns
focalizarão a atenção em algumas coleções outros em outras. Uns estarão interessados nos assuntos sobre os quais versam as opiniões, outros
no grau de uniformidade existente, na maneira como as opiniões se formaram, naqueles que as tem e na intensidade com que as tem. A
multiplicidade das definições de "opinião pública" deve-se, realmente, ao esforço dos estudiosos do assuntos para restringir o significado do termo
a algum aspecto da opinião pública no qual estão especialmente interessado.

Opinião pública e Relações Públicas são expressões que tem em comum o seu sentido bastante amplo e o fato de só se tornarem interessantes
quando relacionadas com públicos específicos. As discussões sobre opinião pública em geral e sobre Relações Públicas em geral são
prejudicadas porque há comparativamente pouca coisa convincente a ser dita sobe as coleções de opiniões individuais em geral e sobre as
relações entre todos os tipos de públicos. Cada um de nós, todavia, está vitalmente interessado em certos públicos e em nossas relações com
públicos específicos. Como empregadores, desejamos conhecer tudo o que pudermos sobre o público operário. Tenho lido muitos artigos e
assistido a muitas conferências sobre Relações Públicas nas quais está implícito o fato de que, para os homens de negócios, os empregados são
"o público". Na maioria dos casos, Relações Públicas significam relações no trabalho.
Como professores, estamos especialmente interessados em nosso público estudantil. Como norte-americanos, estamos interessados em atitudes
e opiniões de outras nações a nosso respeito. Os que me ouvem nesta sala são um público de tremenda importância para mim! Mas como posso
saber os públicos específicos por que se interessam todos os presentes, e se há um denominador para este interesse? Haverá um público no qual
estejam todos interessados? Haverá um público cujas relações seja de importância capital para cada um de vocês?

Se este auditório fosse formado apenas por empregadores, ou banqueiros, ou protestantes, ou professores, a tarefa da análise da opinião pública
seria mais fácil. Quais os atributos comuns deste grupo? Presumivelmente todos são cidadãos norte-americanos. Todos vivem na costa ocidental
dos Estados Unidos. É difícil ir mais além. Indubitavelmente há consideráveis diferenças de gostos, hábitos, problemas, esperanças, posses,
idades, antecedentes culturais e muitas coisas mais. Certamente os públicos em que cada um de vocês está individualmente interessado são
muito diferentes.

Mas não haverá afirmações que possam ser feitas sobre opinião pública e Relações Públicas em geral, que sejam aplicáveis independentemente
desta falta de homogeneidade? Não haverá certas considerações sobre opinião pública que tenham validade, independentemente da composição
específica das coleções particulares de indivíduos, considerações sobre opiniões que todas as pessoas tem ou pelo menos todas as pessoas que
temos probalidade de encontrar, considerações relativas à maneira como se forma a opinião pública, `a influência de fatores específicos e às
técnicas que podem ser usadas para moldar as opiniões em geral? Em outras palavras, não haverá certos princípios de opinião pública e
Relações Públicas que se apliquem em todas as circunstâncias?

A respostas é desapontadora. Todos os princípios são verdadeiros apenas sob determinadas condições. Enquanto perduram as condições, os
princípios são válidos. Mas as condições são indispensáveis. Isto é o que torna o estudo da opinião pública e das Relações Públicas tão difícil. As
condições variam; os públicos são diferentes; as relações entre grupos estão em constante transformação. As generalizações relativas ao
comportamento humano e às relações humanas são particularmente perigosas. Verificamos que as opiniões de um determinado público variam.
Por que razão? Até sabermos todas as condições que variaram ao mesmo tempo em que a transformação da opinião, não estaremos capacitados
a responder à questão. Com demasiada freqüência somos enganados por miragens e coincidências fortuitas. Sabemos, por exemplo, que nos
anos de 1918-32 houve uma mudança fundamental nas atitudes e opiniões dos norte-americanos com relação à proibição alcoólica.
Simultaneamente com esta mudança, descobrimos que muitos grupos estavam realizando uma vigorosa campanha propagandística neste país. A
relação existe, mas até que ponto foi uma relação causal? Uma empresa adota um novo plano de relações com o empregado. Nota-se,
imediatamente, uma melhora nessas relações. Mas a extensão da relação causal permanece desconhecida.

Embora seja impossível identificar os públicos em que este auditório está interessado e, por conseguintes, relacionar a exposição com assuntos de
maior importância para ele, há alguns aspectos da opinião pública, algumas perguntas que são geralmente interessantes. Todos nós queremos
saber o grau de uniformidade da opinião nos assuntos que nos interessam. Numa democracia, as ações e políticas das autoridades públicas
presume-se que sejam o reflexo das opiniões da maioria dos cidadãos. Isto, porém, nem sempre é verdadeiro, em parte pela dificuldade em
determinar com exatidão qual a opinião pública com relação a uma determinada política ou candidato. Qualquer estado de opinião pública está em
constante transformação, e o mecanismo eleitoral só pode dar informação periódica e um tanto bruta com respeito a essas mudanças. É, porém,
importante descobrir na medida do possível, o grau de uniformidade existente num dado tempo, pois os números eleitorais que revelam uma
opinião da maioria são geralmente influenciados.

Pela importância que tem as coleções de opiniões individuais que revelam um grau substancial de concordância, muitos estudiosos de ciência
política e opinião pública preferem restringir o significado da expressão, fazendo-a incluir apenas aquelas coleções de opinião que tem um
determinado grau de uniformidade. JAMES BRYCE, por exemplo, definiu opinião pública como qualquer ponto de vista ou conjunto de pontos de
vista "aceitos por uma aparente maioria dos cidadãos".

E o professor DICEY expressou mais ou menos a mesma opinião, afirmando: Que a opinião pública compreende "os desejos e idéias relativos à
legislação que o povo da Inglaterra, ou, mais precisamente, a maioria de seus cidadãos, expressa num determinado momento, tomando parte
efetiva na vida pública".

Embora principalmente interessados no grau de uniformidade, alguns autores restringem o termo ainda mais, só considerando aquelas coleções
de opiniões que revelam uma completa ou substancial unanimidade. O professor GAULT compartilha desse ponto de vista quando afiram: "Vai
surgindo geralmente, como resultado de uma análise lenta, porém mais espontânea do que deliberada, em certo entendimento sobre os interesses
comuns e fundamentais de parte de todos os membros do grupo. Isto se chama opinião pública". Da mesma forma, o professor MAXEY interpreta
a opinião pública como sendo "a chegada a um comum acordo sobre uma determinada conclusão ou conjunto de conclusões". É desnecessário
dizer que esse comum acordo é raramente encontrado, especialmente no que concerne a um público tão grande quanto o dos cidadãos ou do
eleitorado dos Estados Unidos. Nenhum dos resultados dos inquéritos de GALLUP, por exemplo, revelou 100% de concordância quanto às
perguntas feitas.

É claro que qualquer coleção dada de opiniões individuais relativas ao assunto considerado pode revelar graus de unanimidade variáveis, desde a
completa unanimidade até um considerável grau de diversidade. O grau de unanimidade não é uma condição para existência da opinião pública,
mas um aspecto a ser pesquisado. Se um pesquisador parte à procura de um estado de opinião pública que represente um determinado grau de
concordância tal como a completa unanimidade, ou o acordo da maioria, ou aspectos vagos, como "os aspectos normativos da consciência
coletiva", "expressões coletivas razoavelmente uniformes das reações de comportamento mental ou interior", ou "reações mentais uniformes para
com os estímulos", então o centro de ação de sua pesquisa ficará restrita a um único aspecto da opinião pública, e além disso a pesquisa será
infrutífera.

O ponto que desejo salientar é apenas este: opinião pública é qualquer coleção de opiniões individuais, independentemente do grau de
concordância ou uniformidade. O grau de uniformidade é um assunto a ser investigado, e não algo a ser fixado arbitrariamente, como condição
para a existência da opinião pública.

Embora a expressão opinião pública possa referir-se a qualquer coleção de opiniões individuais, o fenômeno significativo de nossos tempos é,
entretanto, a crescente importância dos grandes públicos. Por motivos já enumerados anteriormente, a área dos contatos humanos e do
intercâmbio social tem-se expandido tremendamente. É por isso que as Relações Públicas se tornaram tão importantes. Nosso comportamento
individual e institucional afeta públicos cada vez maiores. Nossos problemas de Relações Públicas envolvem não só os nossos empregados,
acionistas e fregueses, mas estendem-se muito além, incluindo as massas. O sentido de opinião pública não se restringe, necessariamente, aos
públicos de massas, mas os públicos de massas dão, realmente, uma nova dimensão ao nosso problema.
Publicação original: CHILDS, Harwood L. Que é interesse público. In: _____. Relações públicas, propaganda e opinião pública. 2. ed. Rio de
Janeiro: FGV, 1967. p. 27-43.

QUE É INTERESSE PÚBLICO?

Harwood L. Childs

Tenho tentado, em nossas discussões, justificar estas duas afirmativas: 1) nossas Relações Públicas consistem essencialmente naqueles
aspectos do nosso comportamento individual ou institucional que tem relevância social; 2) o problema fundamental de Relações Públicas é ajustar
essas relações aos mais amplos aspectos de mudança social, a fim de promover o interesse público.

Minha tese é que nossos problemas de Relações Públicas surgem porque nos falta capacidade ou desejo de assumir, como deveríamos, a
responsabilidade social de nossos atos, seja por não reconhecermos suas conseqüências sociais, seja por insistirmos em definir liberdade
individual em termos que já estão fora de moda. Nossas dificuldades provêm do fato de não ajustarmos ao interesse público a concepção sobre o
que Relações Públicas são ou deixam de ser. Não só nossa visão estreita, mas também nossa relutância em agir, é o que produz lacunas
catastróficas no campo das mudanças sociais.

O próprio cientista social deve, atualmente, aceitar uma parte da responsabilidade por este estado de coisas. Ele tem permanecido bastante
indiferente às suas próprias responsabilidades sociais como líder em vários setores da vida. Defende incessantemente o caráter "científico", mas
muito pouco o caráter "social" das suas atividade. A diferença sensível entre uma ciência social e uma ciência natural está no falto de que uma é
social e a outra não. Este truísmo tem sido freqüentemente negligenciado em intermináveis discussões sobre a natureza da ciência e a
aplicabilidade os métodos das ciências físicas ao estudo dos fenômenos sociais.

Não é, porém, suficientemente que o cientista social analise o comportamento individual e institucional em termos dos seus efeitos sociais. Ele
deve apresentar padrões ou critérios de bem-estar social. E os frutos de sua pesquisa devem ser colocados à disposição da comunidade. Com
demasiada freqüência ele descobre princípios ou inventos técnicos unicamente para monopolizá-los e utilizá-los em detrimento de seus
concidadãos.

Recentemente a imprensa do país anunciou que um famoso cientista natural da Universidade de Harvard, recusou-se a permitir aos cidadãos de
países fascistas o uso de suas descobertas, porque estes poderiam, como seria de supor, utilizá-la não para promover o bem estar público mas
para favorecer o egoísmo e o orgulho raciais. Tratava-se de um pesquisador acadêmico de renome mundial, que tinha a coragem de agir baseado
no reconhecimento das amplas conseqüências de Relações Públicas do seu trabalho e de insistir em que suas descobertas fossem dedicadas ao
que julgava ser o interesse público. O fato de sua atitude ter ido para as manchetes de jornais serve apenas para mostrar como seu gesto se
afastava dramaticamente do quotidiano. A atitude que prevalece entre muitos cientistas naturais parece ser a de que sua profissão os liberta de
qualquer responsabilidade de tomar em consideração o interesse público no que estão fazendo. E sinto ter de dizer que este ponto de vista é
bastante freqüente entre os cientistas sociais. E qual o seu resultado?

Muitas e muitas vezes os laboratórios de pesquisa sociais tem sido desviados para os fins exclusivos de promover os interesses de grupos
privados, com pequeno ou nenhum respeito pelos efeitos sociais. Os frutos da pesquisa de publicidade, por exemplo, tem sido colhidos e usados
por vendedores de produtos farmacêuticos e por fabricantes de alimentos adulterados com muito maior intensidade que pelos que se dedicam,
embora com indiferença, a serviços de utilidade para a sociedade. Em muitos casos, nossos laboratórios psicológicos tem sido prostituídos
dedicando-se causas socialmente indesejáveis. E lamento ter de dizer que muitos dos interesses que prevalecem em Relações Públicas baseiam-
se freqüentemente em um idealismo que não vai além do desejo de promover alguma causa lucrativa, sem nenhuma consideração quanto a sua
utilidade social. Há sempre um interesse escondido na pergunta: como posso modelar a opinião pública? Como posso persuadir as massas a
aceitarem minhas idéias, minhas mercadorias, meus serviços? E quem é capaz de indicar um objetivo social, um interesse público em tudo isto?

Mas o que é o interesse público? – perguntarão nossos espertos amigos. Quem tem competência para indicá-lo? A verdade – prossegue a hábil
argumentação – é que ninguém sabe em que consiste o interesse público. Mesmo os acadêmicos, os eruditos, os cientistas, a inteligência não
chegam a um acordo. Quem sabe, realmente se os impostos são ou não de interesse público? Quem tem competência para dizer se as tarifas
cobradas pelas concessões de serviço público são contrárias ao interesse público? E mesmo quem pode provar, sem nenhuma sombra de dúvida,
que o comércio de narcóticos e de alimentos adulterados e as panacéias dos charlatães não estarão, no longo prazo, sendo úteis ao interesse
público verdadeiro? Com que freqüência temos ouvido dizer que a intemperança pode ser, na verdade, uma benção disfarçada, pois aqueles que
usam o álcool em excesso, conforme temos ouvido, é preferível que morram a que sobrevivam. A intemperança serve para eliminar os
desajustados; assemelha-se à operação seletiva de um sistema competitivo incontrolado. Não faz este último com que apenas sobrevivam os mais
aptos?

O conceito mais idealista de interesse público tem experimentado sensível recuo nos últimos anos, principalmente a partir da Primeira Guerra
Mundial. Em um mundo em que as ideologias se multiplicam e os interessem se chocam, os padrões de valores absolutos entraram em desuso.
Teorias de relativismo e pragmatismo tentaram dar um certo cunho filosófico à situação, satisfazendo, talvez apenas os próprios filósofos. E em
meio às perplexidades e incertezas, os próprios cientistas sociais recolheram-se às quatro paredes dos seus laboratórios e, com um fatalismo e
ceticismo monásticos, alegaram nada ter a ver com questões de valores, de responsabilidade social e de interesse público.

O interesse atual por assuntos de Relações Públicas só poderá produzir alguma coisa útil se conseguir unir os cientistas sociais e os
administradores em uma preocupação conjunto apara com o bem-estar público. Se um dos lados procurar apenas descobrir mais alguns truques,
mais alguns esquemas para atingir objetivos privados, independentemente do interesse público, há poucas justificativas para o empreendimento.
Se o outro lado estiver simplesmente visando uma oportunidade de apoio ou financiamento para alguma espécie de prestígio e projeção social,
então os resultados serão vãos, os problemas de Relações Públicas, em vez de diminuírem, tornar-se-ão mais agudos e desesperadores. A
motivação fundamental para o estudo de Relações Públicas deve ser o desejo de servir o interesse público. Este é, evidentemente, o motivo,
inspirador do grande empreendimento que é o Instituto Americano de Relações Públicas.

A minha tese é que o interesse público, no que concerne aos Estados Unidos, é, e somente pode ser, aquilo que o público, a opinião da massa,
diz que ele é. Por opinião da massa, entendo as opiniões coletivas do povo norte-americano considerando como um todo.

É claro que a opinião pública é alguma coisa dinâmica e mutável. O ritmo da mudança é afetado por muitas influências, e é maior com relação a
alguns assuntos do que a outros. A opinião pública quanto ao valor social de alimentos adulterados e narcóticos é certamente muito mais estável
do que no que diz respeito ao uso de bebidas alcoólicas e ao desejo de uma política de neutralidade. Quando considerarmos, mais tarde, a
eficácia com que a opinião pública determina o interesse público, o relativo grau de estabilidade da opinião pública com respeito a diferentes
assuntos deverá ser considerado. Além disso, é variável o grau de certeza e convicção com que a opinião pública apóia ou reprova os negócios
públicos. A concepção que geralmente se tem de interesse púbico é mais clara e mais precisa em alguns setores do que em outros.

A teoria norte-americana de ajustamento social e de interesse público vem-se divorciando gradativamente de outras noções que prevaleceram há
algum tempo. A teoria de que a revelação divina através de canais humanos específicos deu a um homem ou a um grupo de homens uma visão
prévia monopolista do interesse público tem-se tornado cada vez menos convincente. Descobriram as massas que há menos perigo em aceitar
que a divindade revela o interesse público através da mente das massas do que em acreditar que ela revela esse interesse através de indivíduos
ou grupos especialmente inspirados.

Houve uma época em que as igrejas pretendiam ser os únicos repositórios do ponto de vista divino quanto à verdadeira natureza do interesse
público, mas o impacto persistente das transformações sociais forçou-as a recuar, pelo menos no que tange aos assuntos temporais. A invenção
da imprensa no século XV, a Renascença e a Reforma, as explorações geográficas e a revolução industrial iniciaram uma cadeia de
acontecimentos que acabaram por solapar a posição da Igreja como única fonte de verdade e revelação. O advento do fascismo e do nacional-
socialismo parecia marcar o ressurgimento que estas elites ditatoriais, que se apossaram do poder, tem o cuidado de indicar que a fonte de sua
vontade e inspiração é realmente a opinião pública. Os céticos observam, todavia, que às vezes os ditadores são forçados a utilizar o ardiloso
argumento de que sua vontade pode ser, em certas ocasiões, uma expressão mais verdadeira da opinião pública do que os votos do eleitorado
nas urnas.

Os norte-americanos acostumaram-se às eternas alegações de grupos de interesses especiais, no sentido de que eles, apenas eles, falam em
termos de interesse público. Tanto quanto pude observar, entretanto, esses grupos de interesse especiais nunca chegaram a aceitar a
pseudodialética escolástica dos fascistas, e tem procurado indicar a diferença entre uma verdadeira opinião pública e uma opinião pública vulgar e
ordinária que se expressa nas urnas. Muitas destas alegações têm sido parcial ou totalmente rebatidas. Mas ainda persiste em alguns setores a
idéia de que, de um modo ou de outro, as opiniões das massas tem menos probabilidade de ser a expressão do interesse público do que os
pronunciamentos dos sábios.

Uma das principais contribuições dos inquéritos nacionais de opinião, tais como os levados a efeito pelo Instituto Americano de Opinião Pública e a
revista Fortune, foi a luz que lançaram sobre o assunto da competência das massas, da sensatez do eleitorado ao considerar questões de política
nacional. Os resultados desses inquéritos tende, creio eu, a restabelecer a fé nos princípios democráticos, na teoria de que, em geral, em períodos
razoavelmente longos, a opinião pública é um guia tão seguro quanto as opiniões de grupos menores e mais seletos. Naturalmente estas
experiências não podem, na ausência de padrões objetivos absolutos, assegurar a sabedora das massas. Sugere, entretanto, que as massas não
são, de modo algum, tão destituídas de senso comum quanto muitas vezes se supõe.

Talvez nos ajude a compreender um pouco este senso comum que se encontra na mentalidade coletiva das massas um lançar de olhos nos
resultados dos inquéritos realizados pelo Instituto Americano. Pode surpreender-nos, talvez, a descoberta do quanto os julgamentos das massas
coincidem com os nossos próprios. E, naturalmente, julgamos que nossa concepção do interesse público é sensata. Se o tempo permitisse, seria
interessante e proveitoso obter as respostas do nosso próprio grupo a uma série de questões do Instituto Americano e comparar os resultados
com o do inquérito nacional. A experiência indica que as divisões de opinião dentro deste grupo são, provavelmente, as mesmas de um público
maior. Pelo menos seria improvável que as diferenças fosse, devidas unicamente a um fator de quociente intelectual.

O Instituto Americano de Opinião Pública iniciou seus inquéritos de âmbito nacional em outubro de 1935. Desde essa ocasião o povo deste país
tem sido interrogado sobre mais de quinhentos assuntos: sobre questões políticas e econômicas, sobre relações exteriores e sobre uma vasta
gama de problemas sociais. Em muitos dos assuntos a divisão de opinião era acentuada, indicando não existir uma preponderância decisiva da
opinião de um lado ou de outro. Em tais casos seria arriscado usar a opinião pública como guia para a política nacional. Em outras ocasiões, as
questões eram de interesse transitório e não tinham importância duradoura. Muitas vezes tratavam de situações excepcionais, e as respostas
eram indubitavelmente influenciadas pelas condições particulares. A falta de estabilidade nessas condições permite supor que mudanças da
opinião pública nestes assuntos devem ser freqüentes.

Além disso, algumas eram questões de fato ou pediam que o entrevistado profetizasse o futuro. Por exemplo, a pergunta "Você acha que haverá
outra guerra mundial?", formulada em agosto de 1937, simplesmente pretendia testar o gênio profético das massas, e pouca luz lançou sobre as
questões de interesse público. De tipo semelhante eram as perguntas: "Você acha que os preços das ações subirão ou baixarão nos próximos
seis meses?", "Você ouviu falar no caso de RICHARD WHTINEY em Wall Street?" e "Será que o Partido Republicano morreu?".

Tem, entretanto, importância especial as respostas às perguntas referentes a assuntos de ampla repercussão social, nos quais as massas tomam
uma posição nítida, respostas essas que mostram, por exemplo 79% ou mais de assentimento. Indubitavelmente, muitas dessas perguntas podem
ter sido, formuladas sem que se obtenham respostas mais categóricas, mas uma análise delas poderá ser útil. O que eu gostaria que vocês
tivessem sempre em mente, na consideração dos resultados destes inquéritos, é o seguinte: indicam eles que a opinião das massas é ou não é
um guia seguro para a definição do interesse público?

Examinemos, em primeiro lugar, as questões sobre assuntos políticos e econômicos:

1. Você é favorável a um terceiro período de governo para Roosevelt? (abril de 1938)


Não – 70%
2. Você seria favorável à mudança do período de governo do presidente dos Estados Unidos para seis anos sem possibilidade de reeleição?
(junho de 1936)
Não – 74%
3. Deve o governo federal reduzir agora as suas despesas? (setembro de 1936)
Sim – 77%
4. Em sua opinião, o que seria melhor para tirar-nos da depressão: o aumento das despesas governamentais de assistência e obras públicas, ou
o auxílio às empresas por meio da redução dos impostos? (abril de 1938)
Auxílio às empresas – 79%
5. Deve o governo acabar com a Administração de Projetos de Obras e proporcionar somente auxílio direto ou em dinheiro? (maio de 1937)
Não – 79%
6. Você acha que as pessoas em desemprego remunerado em sua comunidade estão recebendo tanto quanto deviam? (abril de 1938)
Sim – 71%
7. Você é favorável a uma lei que considere crime um funcionário da seção de auxílio aos desempregados tentar influenciar o voto destes? (maio
de 1938)
Sim – 86%
8. Deve o governo recensear os desempregados? (maio de 1937)
Sim – 73%
9. Sempre que o Congresso quiser emendar a Constituição, deverá a emenda ser proposta ao legislativo dos estados ou diretamente ao povo de
cada estado para aprovação? (março de 1937)
Ao povo diretamente – 82%
10. Você acha que a administração de Roosevelt deveria tentar impedir a reeleição dos congressistas do Partido Democrata que se opuseram ao
plano da Corte Suprema? (setembro de 1937)
Não – 73%
11. Empregados e empregadores deveriam ser obrigados por lei a tentar resolver suas disputas antes de recorrerem à greve? (julho de 1937)
Sim – 89%
12. Você é favorável a leis regulamentadoras das greves? (julho de 1937)
Sim - 84%
13. Você aprova certos grupos de cidadãos, chamados "vigilantes", que se tem introduzido ultimamente pelas áreas das greves? (agosto de
1937)
Não – 76%
14. Os sindicatos devem ser obrigados a fundir-se? (maio de 1937)
Sim – 86%
15. Você é favorável aos sindicatos? (julho de 1937)
Sim – 76%
16. Os funcionários públicos devem sindicalizar-se? (agosto de 1937)
Não – 74%
17. Você gostaria que os sindicatos afiliados ao Comitê de Organização Industrial (CIO) e à Federação Operária Norte-Americana (AFL)
resolvessem suas desavenças e trabalhassem como uma única organização sindical? (outubro de 1937)
Sim – 79%
18. Os cargos públicos, exceto os de confiança, devem ser ocupados por: 1) aqueles que ajudam a por seu partido político no poder, ou 2)
aqueles que recebem as melhores notas nos concursos? (março de 1936)
Concursos – 88%
19. Você acha que a inflação seria uma boa coisa? (abril de 1937)
Não – 80%
20. Você acha que o Voluntariado da Proteção Civil deveria ser tornado permanente? (abril de 1938)
Sim – 78%
21. O treinamento militar deve ser parte integrante dos deveres dos voluntários? (agosto de 1938)
Sim – 75%
22. Você é favorável às pensões de velhice que o governo paga aos necessitados? (janeiro de 1936)
Sim – 89%
23. Você aprova os descontos em folha do seguro social? (janeiro de 1938)
Sim – 73%
24. Você acha que um homem solteiro que ganha menos de mil dólares por ano deve pagar imposto de renda? (março de 1938)
Sim – 73%
25. Os funcionários federais e estaduais devem ser isentados do imposto de renda? (março de 1938)
Não – 87%
26. As pessoas que possuem apólices federais, estaduais ou municipais devem ser obrigadas a pagar imposto sobre a renda auferida por meio
destas apólices? (abril de 1938)
Sim – 74%
27. Você acredita que o governo deve comprar, possuir e dirigir serviços ferroviários? (fevereiro de 1938)
Não – 70%
28. Você aprova a política do Secretário de Estado Hull, que procura um acordo comercial bilateral com a Grã-Bretanha? (março de 1938)
Não – 87%
29. Se a Grã-Bretanha reduzir as tarifas sobre as mercadorias americanas, devemos reduzir as tarifas sobre as mercadorias britânicas? (março
de 1938)
Sim – 73%

Nas questões políticas e econômicas mencionadas acima a opinião pública expressou-se com bastante clareza. Sem dúvida, alguns discordarão
de opiniões indicadas quanto a assuntos específicos. Mas podemos nós, honestamente, dizer que um programa político e econômico dentro das
linhas aprovadas pelas massas poderia ser falso em senso comum ou opor-se nitidamente ao interesse público?

Sem rever em minúcias as perguntas que têm sido formuladas em outros campos, verificamos que, quanto a relações exteriores, 70% da
população concorda:

1. Que, se outras nações concordarem em reduzir suas despesas em armamento, os Estados Unidos deverão fazer o mesmo, na mesma
proporção.
2. Que os Estados Unidos devem construir uma grande esquadra e aumentar sua força aérea.
3. Que uma marinha maior, como julgava o Presidente Roosevelt, dá-nos mais possibilidade de evitar a guerra.
4. Que o fabrico e a venda de munições com fins de lucro privado devem ser proibidos.
5. Que, para declarar guerra, o Congresso deveria requerer a aprovação do povo, por meio de um plebiscito de âmbito nacional.
6. Que, se nova Guerra Mundial for iniciada na Europa, os Estados Unidos não deverão tomar parte.
7. Que, em tempo de guerra, todas as nações deveriam concordar em não bombardear os civis das cidades.
8. Que as colônias tomadas da Alemanha ao término da Guerra Mundial não deverão ser restituídas a ela.
9. Que o governo dos Estados Unidos deverá continuar mantendo as atuais forças armadas na China, a fim de proteger os cidadãos norte-
americanos.
10. Que, em vista das condições no Oriente, os Estados Unidos, não devem conceder agora a independência às Filipinas.

No campo da política social, descobrirmos que o povo norte-americano acredita enfaticamente:

1. Que deve ser legalizado o fornecimento de informações sobre o controle da natalidade.


2. Que o governo deve criar uma agência para informar sobre doenças venéreas e instalar clínicas para o seu tratamento que o congresso deve
destinar 25 milhões de dólares para ajudar a combatê-las, e que os Estados devem aprovar legislação exigindo exames médicos quanto a
doenças venéreas para todos que solicitem licença para casamento.
3. Que os criminosos contumazes e os loucos irremediáveis devem ser esterilizados.
4. Que o Congresso deve aprovar uma lei considerando o linchamento crime de competência federal.
5. Que as mulheres casadas não devem ganhar dinheiro no comércio ou na indústria, se seus maridos estiverem em condições de sustentá-las.
6. Que o divórcio deve ser obtido mais facilmente.
7. Que o governo federal deve ajudar os governos estaduais e locais a proporcionar auxílio médico às parturientes.
8. Que a concessão de liberdade condicional deve ser mais rigorosa do que atualmente.
9. Que se deve exigir dos possuidores de arma de fogo o seu registro oficial.

Como afirmou recentemente o professor Paul Cherington: "Temos sido informados pelos magnatas do cinema, pelos autores de novelas
radiofônicas, por alguns propagandistas sardônicos e mesmo por alguns jornalistas que estão razoavelmente certos os resultados dos testes de
inteligência do exército que indicam uma idade mental média de doze anos". Essa parece ser a opinião predominante entre os que desdenham da
inteligência das massas. O Dr. George Gallup, diretor do Instituto Americano de Opinião Pública, tem, porém, alguma coisa a dizer.

"As pesquisas por amostragem realizadas nos últimos anos tem fornecido abundantes provas da sabedora do homem comum. Todos podem
examinar essas provas. E acho que aquele que o fizer sairá acreditando, como eu próprio, que, coletivamente, o povo norte-americano possui uma
dose notavelmente grande de senso comum. Seus componentes podem não ser intelectualmente brilhantes ou particularmente ilustrados, mas
possuem uma qualidade de bom-senso que volta e meia se manifesta ao expressarem suas opiniões sobre os assuntos do dia. Naturalmente seria
tolice pretender que as opiniões coletivas do homem comum representam sempre a resposta mais inteligente e mais exata para qualquer
pergunta. Mas os resultados de inquéritos por amostragem sobre centenas de assuntos indicam, na minha opinião, que podemos depositar grande
fé no julgamento coletivo ou na inteligência do povo".

Outro elemento para a resposta a nossa pergunta inicial é fornecido pela experiência de nossos Estados em legislação direta. O professore Edwin
A Cottrell recentemente publicou uma avaliação de "Vinte e Cinco Anos de Legislação Direta na Califórnia", e suas conclusões são muito
esclarecedoras. Entre outras coisas, mostra que:

"Estes votos não serviam apenas para o reestudo de uma legislação apressada ou irrefletida, mas eram também excelentes instrumentos de
educação. [...] As avaliações das medidas [...] mostram uma atitude decididamente conservadora por parte das massas. [...] Não há prova de ser
grande o número das medidas encaradas com parcialidade, seja em sua aplicação, apoio ou oposição. [...] Onde interesses especiais ou escusos
se ocultavam por trás das medidas, tanto o legislativo quanto o povo recusavam geralmente, transformar suas propostas em lei. [...] Têm
certamente havido um número substancial de medidas apresentadas em cada eleição, e um correspondente interesse em votá-las. [...] Não se
justificaram nem, por um lado, o receio de uma legislação demasiado radical, nem pelo outro, o de atitudes ultraconservadoras por parte do povo.
Há provas de que o povo está mais ansioso por adotar e cumprir uma legislação aprovada diretamente por ele do que uma surgida pelo método
usual de aprovação pelos legisladores. [...] Em verdade, discutem-se e determinam-se medidas mais inteligentemente entre o eleitorado do que
normalmente em uma sessão legislativa, com seu sistema obscuro e ineficiente de comitês. [...] A maioria dos editorialistas e dos estudiosos da
ciência política concorda que, em todo o período de legislação direta, o povo compreendeu a maior parte das medidas propostas e agiu
sensatamente, como um todo, ao tomar as suas decisões. [...] Aqueles que predisseram que a legislação direta levaria o governo às mãos dos
jornais estavam longe da verdade. [...] Medidas antagônicas aparecem freqüentemente na mesma urna. Os votos, entretanto, nunca conduziram à
adoção de medidas que estivessem em oposição direta. [...] A primitiva acusação de que a legislação direta exacerbaria paixões entre os vários
elementos da população não se comprovou."

A experiência de iniciativa popular e plebiscitos, realizada na Califórnia, e os inquéritos por amostragem do Instituto Americano de Opinião Pública
tendem a confirmar a profética afirmação de Theodore Roosevelt de que "a maioria do povo cometerá dia a dia menos erros governando-se a si
própria do que qualquer grupo mais restrito de homens tentando governar a todos".

Foi com considerável interesse que li recentemente um estudo da propaganda da Guerra Mundial, de autoria do Professor Peterson, que trata
principalmente dos esforços feitos pela Grã-Bretanha e pelo aliados com o fito de solapar a política norte-americana de neutralidade durante os
anos de 1914-17. É interessante notar que, embora a campanha tenha sido especialmente bem sucedida na obtenção de uma pronta e decidida
atitude pró-aliados de parte da grande maioria dos jornais do país, da maioria dos membros do gabinete, incluindo do Presidente Wilson, bem
como de parte dos líderes dos negócios e de círculos acadêmicos e políticos, ela foi surpreendentemente ineficaz no que concerne à modificação
das atitudes e opiniões das massas. Em 1917 como em 1914, elas continuavam simpáticas aos aliados, mas absolutamente não tinham nenhum
entusiasmo por abrir mão da política de neutralidade e entrar na guerra. Seria esta a posição sensata e razoável? Alguns dirão que não. Mas creio
que a perspectiva dos anos justifica nossa afirmação de que elas agiram coletivamente com tanta inteligência quanto os seus líderes.

Não desejo insistir muito neste ponto. Sem padrões objetivos fixos para agirmos assim, não podemos proclamar com absoluta segurança que as
massas tem sempre agido com sabedoria e inteligência. Nem podemos dizer que elas são igualmente competentes para julgar umas e outras
questões que tratam de assuntos muito além da experiência e do interesse comuns do cidadão médio, a opinião das massas importe muito. Mas a
evidência nos conduz, sem possibilidade de erro, a conclusão de que, em amplas questões de diretrizes sociais, econômicas e políticas, as
opiniões das massas parecem mostrar "um grau notavelmente alto de seno comum".

Há ainda uma razão mais importante para afirmar que o interesse público é aquilo que a opinião pública diz que ele é. Lord Bryce escreveu uma
vez que "a excelência do governo popular reside não tanto na sua sabedoria quanto na sua força". E continua, afirmando: "Uma vez introduzido na
mentalidade e incorporado nos hábitos da nação, o princípio de que deve prevalecer a vontade da maioria, honestamente aferida, então a nação
adquire não apenas estabilidade mas também uma imensa força efetiva. Não há receio de discussão ou agitação. Ela pode utilizar todos os seus
recursos para a realização de seus fins coletivos". Ele chama a atenção, entretanto, para dois possíveis perigos: 1º) a dificuldade que há em aferir
a vontade da maioria; 2º) a possibilidade de que as minorias não se façam ouvir suficientemente. Acredito que esses perigos, por motivos que
serão dados mais tarde, não sejam agora tão reais quanto em 1893, quando ele escreveu.

As definições de interesse público que refletem a opinião coletiva das massas têm também uma força e estabilidade que de longe excedem os
julgamentos de minorias restritas. Isto não quer dizer que a opinião pública seja inflexível ou estática. Seus movimentos em assuntos de
importância fundamental têm, todavia, a probabilidade de ser mais lentos e previsíveis do que os de grupos menores. É verdade que o advento
dos instrumentos de influenciação das massas e as crescentes facilidades de contato humano tendem a apressar o processo das mudanças
sociais. Não obstante, a força de simples números pode servir, e de fato serve, para filtrar as impurezas dos desejos egoísticos.
Salientando as virtudes da opinião pública, não deixo de preocupar-me com os seus efeitos. Não podemos, de modo algum, usar padrões
absolutos de valores, e a questão está em saber se o julgamento coletivo das massas tem, a longo prazo, probabilidade de ser um melhor guia do
que o de um indivíduo ou de uma minoria especialmente selecionada. A competência das massas está, naturalmente, condicionada pelo ambiente
e pelas oportunidades que tem de adquirir informação, de ouvir diferentes pontos de vista, de discutir e expressar livremente suas opiniões, e de
usar sua faculdade de raciocínio. As condições podem vir a ser tais, que seria absurdo falar da opinião pública como guia seguro para uma política
nacional se e quando todas as facilidades e condições para formar opiniões esclarecidas deixarem virtualmente de existir. Isso já aconteceu no
passado, em alguns países, e pode ser o caso em ditaduras de hoje em dia.

Temos indicado que nossas Relações Públicas são aqueles aspectos de nosso comportamento institucional ou individual que afetam o público e a
comunidade; que o problema fundamental de Relações Públicas é ajustar aqueles aspectos de nosso comportamento que afetam os outros de
modo a promover o interesse público: e que interesse público é o que a opinião pública diz que ele é.

Antes de concluir esta fase de nossa discussão, desejo citar um trecho de recente estudo de Relações Públicas. Ele me parece indicar que,
mesmo dentro do campo da prática profissional, os estudiosos estão começando a perceber que tem à mão um critério tangível para descobrir o
que é o interesse público. Indivíduos ou instituições, já não temos desculpas para nossa negligência em tentar ajustar nossas Relações Públicas
ao interesse público por não sabermos em que o interesse público consiste. Nós o sabemos, ou com pequeno esforço podemos descobri-lo.
Conforme afirmam os autores desse estudo: "Uma base comum sustenta todas as corretas Relações Públicas. Elas devem aderir, em suas
diretrizes básicas, aos padrões de ética pessoal comumente aceitos e ao mais alto conceito de bem-estar público. [...] O supremo juiz dos atos,
políticas, serviços, relações e produtos dos grupos e instituições é a opinião pública".
Ideologia
Termo tem vários significados em ciências sociais
Renato Cancian*

Cazuza trouxe o termo ideologia para a música pop


Nas ciências sociais, filosofia e áreas afins, o termo ideologia é empregado com muita freqüência. Em uma de suas canções, o músico e letrista
brasileiro Cazuza fez uma crítica sagaz à ausência de uma ideologia para seguir nos tempos atuais.

O verso de Cazuza - "Ideologia. Eu quero uma pra viver" - pode ser nosso ponto de partida para perguntar: mas afinal, qual é o significado desse
termo e como ele surgiu?

O conceito ideologia foi criado pelo francês Antoine Louis Claude Destutt de Tracy (1754-1836). Este filósofo o empregou pela primeira vez em seu
livro "Elementos de Ideologia", de 1801. para designar o "estudo científico das idéias".

Destutt de Tracy usou alguns métodos e teorias das ciências naturais (física e biologia basicamente) para compreender a origem e a formação das
idéias (razão, vontade, percepção, moral, entre outras) a partir da observação do indivíduo em interação com o meio ambiente.

Novos significados de ideologia


Nas décadas seguintes à publicação do livro de Destutt de Tracy, o termo ideologia foi utilizado com outros significados. Ele também reaparece de
maneira recorrente nos estudos dos filósofos e pensadores que fundaram a sociologia.

O francês Auguste Comte, criador da doutrina positivista, compartilha da definição de Destutt de Tracy: a ideologia é uma atividade filosófico-
científica que estuda a formação das idéias a partir da observação do homem no seu meio ambiente.

Por outro lado, o sociólogo francês Émile Durkheim usa o termo de maneira distinta. Para Durkheim, os fatos sociais são considerados objetos
únicos de estudo da sociologia. Na perspectiva durkheimiana, as idéias e valores individuais (ou seja, a ideologia) são irrelevantes porque os fatos
sociais são manifestações externas, isto é, estão fora e acima das mentes de cada sujeito que integra a sociedade.

Portanto, para Durkheim, a ideologia é negativa porque nasce de uma noção "pré-científica" e, por isso mesmo, imprópria para o estudo objetivo
da realidade social.

A ideologia segundo Marx


A referência ao pensador e filósofo alemão Karl Marx, é muito importante para qualquer estudo sobre os significados do termo ideologia. O estudo
mais relevante de Marx sobre o tema é o texto chamado de "A Ideologia Alemã". Para Marx, a produção das idéias não pode ser analisada
separadamente das condições sociais e históricas nas quais elas surgem.

Em "A Ideologia Alemã", o fundador do marxismo dirige inúmeras críticas a vários filósofos e ideólogos alemães justamente para demonstrar que o
pensamento, as idéias e as doutrinas produzidas por eles não são neutras. Muito pelo contrário, elas estão impregnadas de noções, isto é, de
ideologias provenientes das condições sociais particulares da Alemanha daquele período.

Marx também distingue tipos de ideologias que são produzidas: política, jurídica, econômica e filosófica. Com base nos pressupostos teóricos do
materialismo histórico, o pensador alemão demonstra que a ideologia é determinada pelas relações de dominação entre as classes sociais.

Ao se referir à ideologia burguesa, Marx entende que as idéias e representações sociais predominantes numa sociedade capitalista são produtos
da dominação de uma classe social (a burguesia) sobre a classe social dominada (o proletariado).

A existência da propriedade privada e as diferenças entre proprietários e não-proprietários aparecem, por exemplo, nas representações sociais
dos indivíduos como algo que sempre existiu e que faz parte da "ordem natural" das coisas. Essas representações sociais, porém, servem aos
interesses da burguesia, classe social que controla os meios de produção numa sociedade capitalista.

Função social da ideologia


Na perspectiva marxista , a ideologia é um conceito que denota "falsa consciência": uma crença mistificante que é socialmente determinada e que
se presta a estabilizar a ordem social vigente em benefício das classes dominantes. Quando a ideologia da classe dominante sofre sérios abalos,
devido ao surgimento de conflitos sociais (contradições sociais), há riscos de ocorrer uma ruptura da ordem social vigente por um movimento
revolucionário.

Historicamente, a burguesia também foi uma classe revolucionária que rompeu com a ordem social do feudalismo e impôs o modo de produção
capitalista. Portanto, Marx argumenta que na ordem social capitalista, o proletariado, ou seja, todos aqueles que não são proprietários dos meios
de produção e precisam vender sua força de trabalho para sobreviver - são os sujeitos depositários da esperança de uma ruptura revolucionária.

Para que isso ocorra, entretanto, o proletariado precisa primeiramente romper com a ideologia burguesa. E isso só se torna possível quando ele
toma consciência de sua condição de classe dominada e explorada.

Uso corrente do termo "ideologia"


Nas pesquisas sociológicas empíricas (ou seja, de caráter não-teórico), é bastante comum o emprego do termo ideologia. Porém, ele é utilizado
como recurso metodológico.

O objetivo é somente descrever o conjunto de idéias, valores ou crenças que orientam a percepção e o comportamento dos indivíduos sobre
diversos assuntos ou aspectos sociais, como, por exemplo, as opiniões e as preferências que os indivíduos têm sobre o sistema político vigente, a
ordem pública, o governo, as leis, as condições econômicas e sociais, entre outros.>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
CARVALHO, Maria Izabel V. de. Estruturas Domésticas e Grupos de Interesse: A Formação da Posição Brasileira para Seattle. Contexto
Internacional – Rio de Janeiro Volume 25, n. º 02 - 2003.
OLIVEIRA, Amâncio Jorge, ONUKI, Janina & NETO, Manoel Galdino Pereira. Revista Brasileira de Informação Brasileira em Ciências Sociais - IBI.

Teoria Da Ação Coletiva E Grupos De Interesse

Este breve ensaio abordará uma das várias possíveis questões que podem surgir referentes ao estudo do tema “decisões coletivas”, bem como de
“grupos de interesse”. Os problemas da agregação de preferências individuais numa escolha coletiva, coordenação e cooperação e as respectivas
teorias e modelos que os podem explicar, tornam-se extremamente relevantes no presente ensaio.
O conflito entre o que é bom para o indivíduo e o que é bom para o grupo, deixa claro a presença do “caroneiro” que podemos definir como
indivíduo que desfruta de bens coletivos providos pelo esforço de terceiros, sem contribuir com esforço ou recurso algum.
Assim, é verificado que a solução para o sucesso na promoção de bens públicos é induzir as pessoas a contribuírem para a criação de benefícios
coletivos. Em outras palavras, um “arranjo institucional”, “regras para regular” a provisão do bem público, apresentam-se fundamentais para tal
objetivo. Como exemplo, os modelos referentes propõem a oferta de “incentivos seletivos”, ou seja, concessão de benefício, de forma a promover
a provisão e produção, contribuindo para a correção de tal problema.
Em termos gerais, a solução para o “problema do caroneiro” e da “provisão de bens públicos” seria a construção de instituições que reduzam os
problemas de coordenação, cooperação e comunicação entre os atores envolvidos.
A elevação dos preços internacionais de petróleo poderia ser considerada como um bem público para os países membros da OPEP. Os preços
eram não excludentes, pois eram os mesmos para todos os produtores de petróleo. Os preços também eram não rivais, porque compartilhados
por todos os produtores.
A estabilidade da coalizão dependeria da disciplina de cada país em não elevar a sua cota. Mas, considerando a forte elevação nos preços, como
manter essa situação estável? Como manter a coalizão coesa e unida? Como garantir que um país, isoladamente, aproveitando o preço alto, não
resolva produzir acima da sua cota?
O problema da ação coletiva se manifestou nesse caso e alguns países acabaram pegando uma carona, elevando sua cota e os preços caíram.
Em suma, atores políticos devem ser instigados para agirem no sentido de viabilizar a provisão desses bens públicos. Mas que incentivo os atores
políticos teriam para se mobilizar para a provisão de bens públicos? Será factível encontrar na sociedade grupos e coalizões que defendam e
suportem a provisão de bens que são sujeitos ao problema do caroneiro?
Muitos bens públicos, sob a ótica do consumo, são produzidos por empresas privadas. Considere, por exemplo, o caso de obras públicas
(saneamento, usinas elétricas, redes de transmissão de energia e telefonia, rodovias, pontes, aeroportos, etc.). A maioria dessas obras é
financiada pelo governo, mas produzidas por empresas privadas (empreiteiras) que, no caso brasileiro, são altamente eficientes e politicamente
ativas.
Muitas das obras públicas são motivadas pela influência e interveniência dessas empresas, e não pelos problemas de ação coletiva que decorrem
do “consumo” desses bens. Portanto, a produção e o consumo de bens públicos envolvem processos diferentes, que seguem lógicas distintas e
que não são, necessariamente, regidos pela lógica da ação coletiva.
Se os grupos que controlam a oferta de bens públicos são considerados “Grupos de Interesse” podemos considerar os que consomem como
“Grupos Consumidores”, portanto a lógica na provisão de bens públicos segue as pressões da oferta e não da demanda.

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