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Cândida Manuela Selau Leite

Cassiano Ricardo Haag


Gabriel de Ávila Othero
[organizadores]

Entrevistas
com Linguistas ReVEL
(2003-2018)
Conselho Editorial: Alexandre Cadilhe [UFJF]
Ana Cristina Ostermann [Unisinos/CNPq]
Ana Elisa Ribeiro [CEFET-MG]
Carlos Alberto Faraco [UFPR]
Cleber Ataíde [UFRPE]
Clécio Bunzen [UFPE]
Francisco Eduardo Vieira [UFPB]
Irandé Antunes [UFPE]
José Ribamar Lopes Batista Júnior [LPT-CTF/UFPI]
Luiz Gonzaga Godoi Trigo [EACH-USP]
Márcia Mendonça [IEL-UNICAMP]
Marcos Marcionilo [editor]
Vera Menezes [UFMG]

Produção do Ebook: Telma Custódio

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Q54
Entrevistas com linguistas [recurso eletrônico] : ReVEL (2003 - 2018) /
organização Cândida Manuela Selau Leite, Cassiano Ricardo Haag, Gabriel
de Ávila Othero. - 1. ed. - São Paulo : Pá de Palavra, 2020.
recurso digital

Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
Inclui índice
ISBN 978-65-86250-95-4 (recurso eletrônico)

1. Linguística. 2. Linguística - Pesquisa. 3. Linguagem e línguas -


Estudo e ensino. 4. Entrevistas. 5. Livros eletrônicos. I. Leite, Cândida
Manuela Selau. II. Haag, Cassiano Ricardo. III. Othero, Gabriel de Ávila.

20-66519 CDD: 410


CDU: 81

Camila Donis Hartmann - Bibliotecária - CRB-7/6472

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ISBN: 978-65-86250-95-4
© da edição: Pá de Palavra, São Paulo, dezembro de 2020.
Apresentação

N
esta coletânea, encontram-se diversas entrevistas com pesquisadores bra-
sileiros e estrangeiros, especialistas em diferentes aspectos dos estudos
da linguagem, representando uma ampla gama de áreas de estudo den-
tro do que hoje se entende por linguística. Aqui estão reunidas as entrevistas
das edições regulares e das edições especiais publicadas nos primeiros quinze
anos da Revista Virtual de Estudos da Linguagem – ReVEL entre os anos
2003 e 2018 (aqui estão todas as entrevistas que publicamos em português
ou que foram traduzidas para o português). A fim de comemorar este perío-
do emblemático de existência da ReVEL e, sobretudo, seu pioneirismo como
periódico online de acesso livre e gratuito e organizado por linguistas desde
seu primeiro volume, decidimos reunir, em uma única obra, as entrevistas
publicadas no período, favorecendo a busca por esse gênero de texto de modo
ágil, bem como a procura de leitores que buscam informações panorâmicas
sobre determinada área da linguística sem dispensar a opinião de quem está
na ponta das pesquisas.
Sendo um periódico temático, nesses quinze anos de existência, a ReVEL
pôde abordar uma grande diversidade de assuntos. Ao longo desse tempo,
foram enfocadas muitas das tradicionais áreas da linguística (como sintaxe,
morfologia, semântica, pragmática, fonética e fonologia, por exemplo), bem
como áreas mais recentes (como a linguística computacional, a linguística de
corpus e a sintaxe experimental), ou mesmo áreas que apenas recentemente
vêm recebendo atenção no contexto brasileiro (como a linguística forense e
a linguística aplicada a contextos empresariais, por exemplo). Aliás, o com-
promisso que este livro herda – mas também tenta deixar de herança – é o de
contribuir para o protagonismo do pesquisador e do estudante brasileiros na
formação de uma linguística sólida no país – a ReVEL, lembremos, começou
com a iniciativa de dois (à época) jovens estudantes, Cassiano e Gabriel. O
conteúdo das entrevistas, na medida do possível, de um lado, tenta perceber
a produção de destaque internacional em determinada área da linguística,
de outro, busca reconhecer a caminhada que o pesquisador brasileiro vem

Apresentação
3
trilhando não apenas no contexto nacional, mas também no internacional.
Vale aqui uma ressalva: as entrevistas foram publicadas em sua íntegra, tal
como haviam sido publicadas originalmente em cada edição da ReVEL. Em
todas elas, indicamos seu ano original de publicação – e o leitor deve lê-las
considerando essa informação. Algumas das referências bibliográficas cita-
das pelos autores já saíram do catálogo das editoras e outras que estavam por
ser publicadas acabaram não publicadas ou publicadas com datas diferentes
das antecipadas pelos autores. Afora isso, todas elas ainda estão atuais e re-
presentam as grandes áreas da investigação linguística.
A ReVEL, desde sua concepção, foi um periódico de acesso livre e, ago-
ra, este livro, com o mesmo espírito, está disponível para circulação gratuita.
Primeira revista acadêmica brasileira de linguística a publicar de maneira re-
gular exclusivamente online, lançamos agora este e-book com a “marca” desse
reconhecido periódico: livre, de qualidade e digital. Isso só foi possível com a
parceria da Parábola Editorial, outro nome de referência nos estudos da lin-
guagem no Brasil. Agradecemos, em especial, a atenção dada ao manuscrito
pelo editor Marcos Marcionilo, um parceiro de longa data da ReVEL.

C ândida M anuela Selau L eite


Gabriel de Ávila O thero
C assiano R icardo H aag

4 Cândida Manuela Selau Leite


Análise do discurso1
Dominique Maingueneau

Quando poderíamos dizer que a análise do discurso (ad) se concretizou


como subárea da ciência linguística? Quais foram os textos e autores fun-
dadores da ad?
Maingueneau — Não se pode responder a esta pergunta sem adotar implici-
tamente determinada concepção de análise do discurso [ad]. Não me pare-
ce evidente, de fato, que a ad seja uma “subárea” da linguística. Há, de fato,
ciências sociais de pesquisa que se valem da ad, mas que não se apoiam na
linguística; elas se inspiram, por exemplo, em Michel Foucault. No que con-
cerne à ad de inspiração linguística, podemos sustentar a ideia de que ela é
menos uma “subárea da ciência linguística” do que uma zona de contato entre
a linguística e as ciências humanas e sociais. É uma maneira de ver o proble-
ma que me parece mais realista; mas, evidentemente, a ad deve manter uma
ancoragem forte na linguística, ela faz parte das ciências da linguagem, noção
mais abrangente que a de “linguística”.
Quanto à questão de saber se existem textos e autores fundadores da ad,
na verdade, é apenas uma questão de saber quando ela apareceu. Aqueles que,
por exemplo, fizeram de Michel Pêcheux o fundador da ad têm certa concep-
ção da ad. Aqueles que, como eu, pensam que houve diversos atos de fundação
da ad têm outra concepção. A meu ver, correntes como a etnografia da comu-
nicação, as correntes pragmáticas, a linguística textual ou as problemáticas de
Foucault participaram, sem saber, do desenvolvimento desse agrupamento de
pesquisas hoje em dia encontráveis sob o rótulo de análise do discurso.
De minha parte, distinguirei três maneiras de praticar a ad; dessas, so-
mente a última é a que me interessa. A primeira consiste em utilizar a ad para
perguntar de maneira indireta questões filosóficas; nesse caso, a dimensão
da análise empírica de discurso é secundária. A segunda consiste em ver na

1
Entrevista publicada em março de 2006, originalmente em francês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.

Análise do discurso
5
ad um conjunto de “métodos qualitativos” à disposição das ciências humanas
e sociais; a ad não passaria, então, de uma espécie de caixa de ferramentas
para construir interpretações em outras disciplinas. A terceira maneira con-
siste em ver na ad um espaço de pleno direito dentro das ciências humanas e
sociais, um conjunto de abordagens que pretende elaborar os conceitos e os
métodos fundados sobre as propriedades empíricas das atividades discursi-
vas. Isso não quer dizer que a ad se reduza a uma disciplina empírica, mas ela
deve se organizar tendo as pesquisas empíricas em vista.

A análise do discurso se desenvolveu no Brasil  com  forte  dependência do


conceito de “formação discursiva”. Ainda é possível fazer da formação dis-
cursiva o conceito-chave da ad?
Maingueneau — Já falei sobre esse assunto diversas vezes. Acredito que essa
noção tenha rendido bons serviços nos princípios da ad, mas ela é muito im-
precisa, como mostra o fato de ter sido empregada tanto por Michel Pêcheux
quanto por Michel Foucault, e em sentidos bastante diferentes. Nem mesmo
se tem certeza de que ela tenha tido um significado claro nesses dois autores.
Hoje, para trabalhar em ad, me parece ser de interesse trabalhar com noções
mais precisas. Propus restringir o emprego dessa noção a certas “unidades”;
assim, quando falamos de “discurso patronal”, “discurso racista”, “discurso da
publicidade para as mulheres” etc., o termo “formação discursiva” seria útil.
De fato, trata-se de corpora que transpassam os gêneros ou os tipos de discurso
e que o pesquisador pode constituir bastante livremente em função de suas hi-
póteses de pesquisa. Em contrapartida, não acredito haver clareza em utilizar
a noção de formação discursiva para designar um gênero de discurso ou um
posicionamento em um campo discursivo (um movimento literário, um parti-
do político etc.). Ao fim das contas, esse é um problema de terminologia: cada
um pode empregar “formação discursiva” como bem entende, sob a condição
de haver uma proposta bem clara de definição. O que nem sempre é o caso.

Como a análise do discurso estuda, hoje, discursos distanciados do contex-


to político ideológico (patologias da linguagem, diferentes estruturações
psíquicas, textos literários etc.)? 
Maingueneau — Esta é uma questão gigantesca. Já faz um bom tempo que a ad
estuda os discursos bem distanciados do espaço político. De fato, desde o iní-
cio, mesmo na França, muita gente não trabalha com o discurso político. Não
creio que Michel Foucault, por exemplo, tenha se interessado por esse tipo de

6 Dominique Maingueneau
corpus. Além disso, não podemos confundir a análise do discurso político e a
análise política do discurso, que pode levar em conta textos que não revelam
o discurso político; este último é, aliás, praticado no mundo inteiro hoje em
dia, particularmente com as correntes da “critical discourse analysis”.
O problema é que o empreendimento mais visível da ad na França foi
aquele conduzido em torno de Michel Pêcheux e da revista Langages. À épo-
ca, essa atitude inspirou ao mesmo tempo Althusser e Lacan, que estava ani-
mado por um projeto marxista de transformação da sociedade que tinha um
sentido profundamente político. Podíamos então ter a impressão de que a
ad estava estreitamente ligada ao estudo do discurso político. Mais uma vez,
retornamos à questão da origem da ad. Se pensarmos que o empreendimento
de Michel Pêcheux fundou a ad, a questão do discurso político é essencial. Se,
ao contrário, considerarmos que esse empreendimento não foi mais do que
um foco de desenvolvimento da ad, então não há por que se perguntar por que
e como se trabalha com outros corpora que não sejam os corpora políticos.
Há um segundo aspecto na sua pergunta que merece comentário: vo-
cês mencionam os trabalhos sobre a literatura, a cognição, as patologias da
linguagem. Efetivamente, esses domínios, e vários outros, são hoje objeto
de numerosos trabalhos que reclamam uma problemática do discurso. Mas
todo o problema é saber se uma problemática do discurso substitui necessa-
riamente a ad. De minha parte, faço habitualmente uma distinção entre os
estudos sobre o discurso (“discourse studies” dos anglo-saxões) e as diversas
disciplinas do discurso. A ad é uma dessas disciplinas, com um ponto de vista
específico sobre o discurso. Nessa perspectiva, o mesmo tipo de corpus pode
ser estudado por diversas disciplinas.

Dentro de cada tradição de investigação no âmbito dos estudos da lingua-


gem, a noção de “texto” é algo que varia muito, mas, quase sempre, há, por
parte dos linguistas, uma resistência em relação a um diálogo com a semióti-
ca. Na perspectiva da análise do discurso, esse diálogo começa a se delinear.
Gostaríamos que o senhor falasse um pouco mais sobre esse importante di-
álogo entre a análise do discurso e a semiótica. Qual seria, na sua opinião, o
caminho possível para os estudos da linguagem, na perspectiva da análise
do discurso, libertarem-se das limitações do material linguístico e fortalece-
rem sua noção de “texto”, dando lugar às formas de expressão e às imagens?
Maingueneau — É compreensível que os linguistas resistam à semiótica; de
fato, o exemplo do estruturalismo mostrou que um esforço para aproximar a

Análise do discurso
7
análise da linguagem verbal e os domínios semióticos não verbais conduziram
facilmente à perda de vista das propriedades específicas das línguas naturais.
A ad não tem o mesmo problema, na medida em que trabalha com textos que
são realidades sempre plurissemióticas. Seja no texto oral, em que é preciso,
em particular, prender por completo a dimensão gestual, ou no escrito, cuja
materialidade tem sempre algo a ver com uma imagem. De toda maneira, o
analista do discurso não pode jamais tratar da língua “pura”. O analista do
discurso que estuda a publicidade, por exemplo, é obrigado a apelar aos co-
nhecimentos da semiótica da imagem, mas no interior de um quadro defini-
do pela ad. Existe, na verdade, uma grande diferença entre a semiótica como
disciplina que visa abranger as condições de manifestação do sentido em toda
a sua diversidade e as semióticas regionais: semiótica do corpo, da imagem,
do cinema, da narrativa, do gesto etc. Os analistas do discurso recorrem de
bom grado às semióticas regionais, mas se mostram desconfiados quando se
trata da semiótica como disciplina globalizante, da qual o estudo do discurso
seria apenas um ramo.
É inegável: as correntes da ad hoje ocupam boa parte do espaço da semióti-
ca dos anos 1970-1980. Ainda é muito cedo para explicar esse fenômeno. Pode-
mos, entretanto, destacar ser menos a semiótica que está enfraquecida do que
sua pretensão hegemônica de unificar todas as práticas de análise de produ-
ções culturais. Atualmente, tenho a impressão de que uma parte da semiótica,
a mais teórica, se regenerou em contato com as ciências cognitivas e com a
filosofia, em particular com a fenomenologia. Já a outra parte, sem dúvida a
mais importante quantitativamente, investiu em domínios como a publicidade,
a estética e, sobretudo, as novas tecnologias da informação e da comunicação.
Nessas condições, os intercâmbios com a ad só podem ser frutíferos.

8 Dominique Maingueneau
Aquisição da Linguagem de Sinais1
Lodenir Karnopp

Em linhas gerais, como ocorre a aquisição da linguagem em crianças surdas?


Karnopp — O que passo a relatar faz parte de minha experiência como pro-
fessora de surdos, pesquisadora na área de linguística e intérprete da língua
de sinais. Desde o primeiro dia em que comecei a observar surdos usando a
língua de sinais, fiquei curiosa na tentativa de entender um pouco mais aque-
la língua tão diferente da nossa. Essa foi a minha opção em termos profissio-
nais: passei a estudar linguística e a decifrar a estrutura gramatical e o modo
como essa língua era usada entre os surdos. No curso de Letras, realizei pa-
ralelamente um curso de língua de sinais e, posteriormente, comecei a traba-
lhar em uma escola de surdos (Escola Especial Concórdia, em Porto Alegre).
Ingressei no mestrado em linguística e o meu interesse esteve voltado para o
entendimento da aquisição da língua de sinais. Para isso, focalizei a investi-
gação na aquisição fonológica (entendida como a aquisição dos parâmetros de
configuração da mão, movimento e locação).
Apresento, em linhas gerais, a aquisição da linguagem por crianças sur-
das, do nascimento aos 5 anos, descrevendo aspectos do desenvolvimento
pré-linguístico e linguístico (produção de enunciados de um sinal, enuncia-
dos de dois sinais e estágios posteriores).
As investigações sobre a aquisição da linguagem de crianças surdas pro-
curam separar os informantes em categorias isoladas, considerando o am-
biente linguístico da criança. Assim, temos crianças surdas com pais surdos
(ou somente o pai, ou somente a mãe) e crianças surdas com pais ouvintes
— o ponto central é saber se a criança surda esteve exposta à língua de sinais.

O período do desenvolvimento pré-linguístico

O período pré-linguístico se inicia quando a criança nasce e finaliza com


o aparecimento dos primeiros sinais. A análise de bebês surdos adquirindo a
1
Entrevista publicada em agosto de 2005.

Aquisição da Linguagem de Sinais


9
língua dos sinais evidencia que eles produzem gestos que são, quanto à forma,
semelhantes aos sinais, mas não possuem significado (Newport; Meier 1986:
888). Esse período caracteriza-se pela produção do que é denominado balbu-
cio manual, pelos gestos sociais e pela utilização do apontar (Karnopp, 1999).
Uma descrição detalhada do desenvolvimento pré-linguístico deveria, além
de discutir aspectos da produção gestual da criança, incluir também informa-
ções sobre a percepção visual da criança e sobre a interação entre o adulto e o
bebê no processo de aquisição da língua de sinais. Aqui, entretanto, nos limi-
tamos a discutir prioritariamente os aspectos ligados à produção linguística.
Pesquisas que realizei durante o mestrado (1994) e o doutorado (1999)
com crianças surdas adquirindo a língua de sinais brasileira trazem contri-
buições para a discussão das primeiras produções linguísticas. O input visu-
al é, obviamente, necessário para que o bebê passe a etapas posteriores no
desenvolvimento da linguagem. Aspectos como o contato visual entre os in-
terlocutores, isto é, o olhar fixo do bebê surdo na face da mãe/pai, o uso de
expressões faciais, a atenção que o bebê surdo dá ao meio visual, a produção
de um complexo balbucio manual, de gestos sociais e do ‘apontar’ são aspec-
tos observados nessa fase.
O período pré-linguístico inclui a produção do balbucio manual — pro-
duções manuais, corporais e faciais. Nesse sentido, encontram-se registros de
que, no primeiro ano de vida, a criança passa por mudanças que vão de um
simples choro a um complexo balbucio manual.
Surdos e ouvintes produzem gestos manuais muito similares durante o
primeiro ano, tornando-se difícil a distinção entre o balbucio manual com-
partilhado por bebês surdos e bebês ouvintes e as produções manuais especí-
ficas dos bebês surdos. Há situações em que as crianças produzem gestos que
representam ou referem algum objeto ou evento, tais como abrir e fechar a
mão para pedir algo, mover os braços para indicar um pássaro — tais produ-
ções são comuns em crianças surdas e ouvintes. Esse fato torna complexa a
distinção entre sinais e gestos, pois ambos são referenciais, comunicativos e
produzidos manualmente. Por isso, a distinção desses dois tipos de atividade
manual e o status simbólico dos gestos iniciais na aquisição da linguagem é
uma questão que tem recebido atenção recentemente.

O período do desenvolvimento linguístico

O termo aquisição da palavra (sinal) pode ser entendido de diversas


maneiras, ou seja, pode se referir a qualquer gesto produzido e usado pelo

10 Lodenir Karnopp
bebê em um contexto consistente, ou pode se referir a um sinal da lingua-
gem adulta entendido e usado como tal. Em analogia com a definição que
Ingram (1989: 139) adota para as línguas orais, definimos aqui o primeiro
sinal como um sinal da linguagem adulta e entendido com algum significa-
do, embora variável.

Enunciados de um sinal

Os resultados do estudo de Schlesinger e Meadow (1972), na língua de


sinais americana (American Sign Language, asl), fornecem dados importantes
sobre o tamanho do vocabulário e o período em que o primeiro sinal foi pro-
duzido. Os autores relatam: as crianças inicialmente produzem enunciados
com um só sinal e então começam a produzir dois ou mais sinais em combi-
nação. Mostraram que uma das crianças, Ann, tinha um amplo vocabulário
em sinais aos 19 meses, se comparado ao vocabulário de crianças ouvintes.
Em diários da aquisição da linguagem de duas crianças ouvintes, expostas ao
inglês e à asl, eles verificaram que o primeiro sinal surgiu antes da primeira
palavra, sendo que, para uma das crianças, o primeiro sinal apareceu aos 5
meses e meio. Pode-se, entretanto, questionar os critérios utilizados pelos au-
tores para identificar a produção do primeiro sinal. Uma das alternativas uti-
lizadas para evitar esse tipo de objeção é investigar não somente a produção
do primeiro sinal, mas a produção dos dez primeiros sinais. Utilizando essa
alternativa, a maioria dos estudos de aquisição da linguagem registra que o
aparecimento das primeiras palavras/sinais ocorre em torno dos 10 meses.
Ackerman et al. (1990: 339) confirmam tais dados, relatando que os
primeiros sinais na língua de sinais britânica (British Sign Language, bsl)
foram produzidos aos 11 meses por uma criança surda e aos 11 meses por
uma criança ouvinte. Além disso, os autores relatam que a média de idade
na produção dos dez primeiros sinais é de 15 meses em crianças surdas e de
13 meses em crianças ouvintes adquirindo a língua de sinais britânica e o
inglês, respectivamente.
Por outro lado, a hipótese de que a aquisição da língua dos sinais se ini-
ciaria mais cedo do que a aquisição das línguas orais gerou discussões entre
alguns pesquisadores sobre a questão da iconicidade nas línguas de sinais,
sobre o desenvolvimento motor das mãos, sobre a questão da visibilidade dos
articuladores e a interferência dos pais na produção dos sinais.
Das discussões realizadas sobre a questão da produção dos primeiros
sinais e das primeiras palavras no vocabulário da criança e sobre as possí-

Aquisição da Linguagem de Sinais


11
veis implicações da iconicidade na aquisição de sinais, pode-se concluir que,
apesar das diferenças individuais dos informantes, das diferenças entre as
línguas e entre as modalidades de línguas, há certo paralelismo no processo
de aquisição e desenvolvimento da linguagem, independentemente da distin-
ção língua gestual-visual ou oral-auditiva.
Em termos gerais, os primeiros sinais ou as primeiras palavras apare-
cem entre os 10 meses e o 1º ano de idade. Estudos de aquisição da linguagem
de crianças surdas com pais surdos têm mostrado que elas inicialmente bal-
buciam com as mãos, começam então a produzir enunciados com um único
sinal e, em seguida, combinam sinais formando sentenças simples.
Quanto ao tamanho do vocabulário, a evidência compilada por vários es-
tudos sugere generalizações quanto à produção dos primeiros sinais. McInti-
re (1977) examinou a produção de sinais na asl de uma criança surda, filha de
pais surdos, e registrou que, no início da investigação, quando a criança esta-
va com 1 ano e 1 mês (1;1), o vocabulário girava em torno de 85 sinais e que, ao
final da investigação, com 1;9, ela estava produzindo mais de duzentos sinais.
Marentette (1995: 75) realizou um estudo de caso, acompanhando longitudi-
nalmente uma menina ouvinte, filha de pais surdos, que apresentou a seguinte
média de aquisição na asl: com 1;0 (5 sinais), com 1;3 (11 sinais), com 1;5 (18 sinais),
com 1;6 (42 sinais), com 1;9 (63 sinais), com 1;11 (19 sinais) e com 2;1 (70 sinais).
Em Libras, estudos que realizei em meu doutorado (Karnopp, 1999) des-
crevem a aquisição de sinais dos 11 meses até os 2;5, em um estudo longitudinal
realizado com uma criança surda (Ana), filha de pais surdos. Os levantamen-
tos dos primeiros sinais produzidos por Ana totalizaram 117 tipos de sinais
(em 288 ocorrências). O acompanhamento da aquisição da linguagem de Ana
mostrou que dos 8 aos 30 meses de idade ela inicialmente produziu balbucio
manual, começou então a produzir enunciados com um único sinal e, em se-
guida, combinou sinais formando sentenças simples. O início da aquisição e
o tamanho do vocabulário de Ana estão apresentados na tabela a seguir.

Idade nº de sinais produzidos


0;11 02
1;1 04
1;5 12
1;9 28
2;1 49
2;5 81

Tabela 1: Início da aquisição e tamanho do vocabulário em Libras (Karnopp, 1999).

12 Lodenir Karnopp
Enunciados de dois sinais e estágios posteriores do
desenvolvimento linguístico

Ao final do período caracterizado pelos enunciados de um sinal (mais


ou menos aos 2 anos, variando de criança para criança), começam a aparecer
enunciados formados por dois sinais. Eles consistem, basicamente, no agru-
pamento de dois sinais que apresentam algum tipo de relação semântica.
Estudos realizados por Bonvillian et al. (1983) constataram que a média
de idade na produção dos enunciados de dois sinais é de 17 meses (variando
entre 12 e 22 meses), enquanto nas línguas orais os enunciados de duas pala-
vras ocorrem entre os 18 e 21 meses. Para tais autores, isso sugere que tanto
a fala quanto o sinal são restritos por fatores cognitivos ou linguísticos e não
por fatores superficiais relacionados à modalidade (articulação motora).
Como na aquisição das línguas orais, o início do estágio de dois sinais
co-ocorre com a produção de enunciados de duas palavras. De modo geral, o
período do desenvolvimento de dois sinais apresenta as seguintes caracterís-
ticas, conforme Newport & Meier (1986) e Deuchar (1984):
— emergência de relações semânticas entre os elementos (sinais), em uma
mesma ordem. Os tipos de relações semânticas entre os elementos dos
enunciados são os seguintes: agente + ação; ação + objeto; agente + obje-
to; ação + lugar; demonstrativo + entidade; entre outros;
— os enunciados consistem tipicamente em itens lexicais produzidos atra-
vés de formas de citação não flexionadas;
— o uso da ordem (por exemplo, sujeito-verbo, verbo-objeto, sujeito-verbo-
-objeto) funciona como uma estratégia sintática para marcar e atribuir
função aos elementos do enunciado. Tal estratégia sintática é adquirida
antes das flexões em nível morfológico. Assim, a ordem adotada pelas
crianças é a ordem canônica da linguagem do adulto. Em enunciados
produzidos pelas crianças, apareceram as seguintes funções: localizar,
nomear, pedir, desejar, negar, descrever evento ou situação, indicar pos-
se, entre outros.
Após a fase de dois sinais, surgem enunciados com maior número de si-
nais que, aos poucos, vão se aproximando da linguagem do adulto. O período
de maior desenvolvimento linguístico vai mais ou menos até os 5 anos, quan-
do a criança já tem uma capacidade linguística bem próxima à do adulto. Su-
põe-se que, como nas línguas orais, as aquisições posteriores nas línguas de
sinais estejam relacionadas à complexidade sintática e semântica da língua
em questão.

Aquisição da Linguagem de Sinais


13
Por fim, gostaria de ressaltar que o interesse pelo estudo das línguas
de sinais é crescente, pois, até bem pouco tempo, as concepções e inves-
tigações acerca da linguagem humana eram proporcionadas somente pelo
estudo das línguas orais. Entretanto, as línguas de sinais, por serem lín-
guas naturais, mas de modalidade gestual-visual, podem fornecer novas
perspectivas teóricas sobre as línguas humanas, sobre os determinantes da
linguagem e sobre o processo de aquisição e desenvolvimento das línguas
humanas e naturais.

A língua de sinais pode ser adquirida/desenvolvida pela criança a partir


de estímulos dos pais tão naturalmente como a linguagem oral em crianças
sem problemas auditivos?
Karnopp — A língua de sinais é uma língua natural. Estudos da aquisição
da linguagem revelam uma semelhança no processo de aquisição dos sinais
comparados com a aquisição da fala nas línguas orais. Quando investiguei o
desenvolvimento fonológico em crianças surdas, filhas de pais surdos, ana-
lisando a aquisição de sinais, foi surpreendente constatar que tal língua não
é ensinada, mas adquirida naturalmente. É praticamente impossível ao sur-
do falar de forma natural, tendo em vista o bloqueio sensorial em relação
ao input linguístico sonoro que o circunda. Embora os surdos possam ser
ensinados a falar uma língua, nunca serão capazes de compreender a fala
tão bem quanto uma pessoa ouvinte. 75% das palavras faladas não podem
ser lidas nos lábios (Fromkin; Rodman 1993: 416). Por outro lado, crianças
surdas, expostas à língua de sinais, adquirem de forma natural tal língua, da
mesma forma que as crianças ouvintes de forma espontânea adquirem uma
língua oral. Assim, as crianças surdas adquirem a língua de sinais à sua vol-
ta sem nenhuma instrução especial. Elas começam a produzir sinais, mais
ou menos na mesma idade em que as crianças ouvintes começam a falar, e
atravessam os mesmos estágios de desenvolvimento linguístico das línguas
naturais. Portanto, se a linguagem humana é universal, visto que todos os
seres humanos possuem a capacidade de adquirir uma língua, não é sur-
preendente que as línguas de sinais se desenvolvam entre pessoas surdas.
É fascinante constatar: “Enquanto houver dois surdos no mundo e eles se
encontrarem, haverá o uso de sinais” (Long, 1910). Essa frase expressa a im-
portância da língua de sinais para as pessoas surdas, que usam uma língua
visual-espacial, isto é, uma língua em que se utilizam a visão e o corpo nos
processos de percepção e produção linguística.

14 Lodenir Karnopp
Qual é o melhor procedimento para lidar com crianças surdas em fase de
aquisição da linguagem?
Karnopp — Exposição à língua de sinais. A língua de sinais deve ser adquirida
tão cedo quanto possível, e a criança surda deve ser exposta e interagir com
sinalizadores fluentes — pais, professores ou outras pessoas, preferencial-
mente surdas. Depois de adquirir os sinais, a aquisição da leitura, escrita e
da fala (opcionalmente) pode se seguir. Nesse sentido, ressalto a importância
de escolas de surdos, ou mesmo de creches com turmas e professores surdos
para que essa criança tenha um ambiente linguístico apropriado à aquisição
e desenvolvimento da linguagem.

Qual é a situação no Brasil referente à Libras?


Karnopp — Segundo a Secretaria de Educação Especial (SEESP/MEC), 1,5% da
população brasileira é de surdos. Isto significa dizer que existem aproxima-
damente 2.400.000 surdos no país!
No Brasil, muitas coisas mudaram nos últimos dez anos, principalmente
em termos de legislação. Nos últimos tempos, tivemos a oficialização da Libras
(Lei Federal 10.436 de 24/04/2002) — após uma intensa luta e organização da
comunidade de surdos, representada por associações e pela Federação de
Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) —, o desenvolvimento de pesqui-
sas na área da educação, linguística, psicologia, entre outras, intérpretes de
LIBRAS em situações educacionais, sociais e políticas, entre outras conquis-
tas. Por outro lado, tais conquistas necessitam ser mantidas e há ainda outras
lutas a empreender: envolver mais surdos, por exemplo, a garantia da língua
de sinais na educação e escolas de surdos em diferentes regiões do país, legen-
das e intérpretes na televisão, ensino da Libras npara ouvintes, formação de
profissionais e professores surdos, regulamentação da lei 10.436 etc.

Aquisição da Linguagem de Sinais


15
Bilinguismo1
Annick De Houwer

Durante o processo de aquisição de linguagem, uma criança bilíngue co-


mete os mesmos tipos de “erros” que uma criança monolíngue? Em outras
palavras, os erros em uma aquisição bilíngue acontecem graças a uma in-
terferência entre as línguas? Ou eles são apenas erros “comuns”, encontra-
dos tanto na aquisição bilíngue, quanto na aquisição monolíngue?
De Houwer — Antes de responder especificamente à pergunta, gostaria de
deixar claro: o que vou dizer nesta entrevista se aplica a crianças de até, di-
gamos, 6 anos.
Em relação à primeira pergunta: bem, tudo depende de quando a crian-
ça bilíngue começou a aprender suas duas línguas. Uma criança que cresce
com duas línguas maternas desde o nascimento geralmente não vai cometer
erros que mostram a influência de uma língua sobre a outra. Isso me per-
mitiu propor a hipótese do desenvolvimento separado (ou Separate Develo-
pment Hypothesis — sdh), segundo a qual crianças que ouvem duas línguas
desde o nascimento desenvolvem suas duas línguas essencialmente como
dois sistemas morfossintáticos distintos (a sdh não prediz nada sobre fono-
logia ou léxico). Os tipos claros de erros que esse tipo de bilíngue comete
se parecem muito com os erros cometidos por crianças monolíngues. Por
outro lado, crianças que comecem a aprender uma segunda língua depois de
já se terem tornado monolíngues em sua língua materna apresentam erros
típicos de interferência, por influência da língua que aprenderam primeiro.
Existe uma enorme diferença entre esses aprendizes de segunda língua no
que se refere à interferência de uma língua sobre a outra e à velocidade com
que eles aprendem a não cometerem esses erros de interferência. Os erros
particulares de interferência cometidos são muito diferentes dos erros espe-
cíficos cometidos por crianças monolíngues, embora, é claro, além dos erros

1
Entrevista publicada em agosto de 2005, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.

16 Annick De Houwer
de interferência, os aprendizes da segunda língua possam também cometer
“erros monolíngues” típicos.

Como o aparato cognitivo da criança está equipado para lidar com itens
lexicais de duas diferentes línguas?
De Houwer — Sabemos tão pouco a esse respeito sobre a aquisição bilíngue
como sobre a aquisição monolíngue. O que sabemos é que crianças que cres-
cem com dois idiomas desde seu nascimento não aparentam nenhum proble-
ma diante do fato de um mesmo referente poder ter dois nomes, enquanto
algumas crianças monolíngues podem apresentar problemas com a sinoní-
mia em sua própria língua (é a isso que se referem, basicamente, o princípio
do contraste, de Eve Clark, e o princípio de exclusividade, de Ellen Markman).
Contudo, assim como acontece com a aquisição monolíngue da criança, sabe-
mos tão pouco sobre desenvolvimento lexical em crianças bilíngues quanto
sobre desenvolvimento morfossintático.

Existem exemplos na literatura sobre crianças que adquiriram mais do


que duas línguas ao mesmo tempo? É possível uma criança adquirir três
ou quatro línguas durante sua infância?
De Houwer — Bem, há um livro saindo a qualquer momento, Multilingual
Matters, de Julia Barnes, que descreve o desenvolvimento linguístico de uma
criança que cresceu com inglês, basco e espanhol desde o berço. Outros estu-
dos de trilinguismo precoce falam sobre crianças que começaram com duas
línguas e depois adicionaram uma terceira em seu segundo ano de idade.
Apesar da falta de estudos sistematizados sobre desenvolvimento trilín-
gue, evidências a partir de casos e histórias mostram que é certamente possí-
vel crianças bem novas adquirirem três línguas em idade precoce. E na antiga
literatura europeia sobre o bilinguismo, há alguns relatórios de estudiosos
que descrevem seu próprio desenvolvimento quadrilíngue.
Acredito ser possível uma criança adquirir três ou mais línguas em
uma idade muito tenra, mas isso não acontece com frequência: fiz uma pes-
quisa sobre o uso da língua no lar, com mais de 18.000 famílias em Flandres,
que é a parte da Bélgica onde se fala holandês, e nessa ampla amostra, havia
apenas cerca de trezentas famílias onde as crianças cresciam aprendendo
três ou quatro línguas, comparado ao número de 2.500 famílias com crian-
ças bilíngues.

Bilinguismo
17
Qual a importância do input durante a aquisição bilíngue?
De Houwer — A frequência do input (combinada, obviamente, com um input
apropriado para a idade e respostas afetivas) é crucial tanto para o desenvol-
vimento monolíngue quanto para o bilíngue. Contudo, acredito ser o papel
do input ainda mais importante em uma aquisição bilíngue do que em uma
aquisição “normal” monolíngue. A principal razão é que, na aquisição mo-
nolíngue, o que você não recebe das pessoas no seu ambiente irá aprender
com outros. A situação do input, se você preferir, é menos vulnerável. Mas em
uma aquisição bilíngue, é possível que apenas uma pessoa seja o “portador”
de uma língua em particular. Se essa pessoa não fala muito com a criança, ela
tem muito menos chances de adquirir aquela língua. As pessoas seguidamen-
te esquecem que as crianças não aprendem a partir do nada. Ao aprender a
falar, as crianças precisam ouvir muita linguagem e precisam ter a oportuni-
dade de falar bastante. Isso exige muito tempo e esforço, tanto na aquisição
monolíngue quanto na bilíngue. Geralmente, se as pessoas veem problemas
com a situação bilíngue, não é o fato de o input ter sido dado nas duas línguas
que é realmente o problema, mas o fato de ter sido dado input insuficiente
nas duas línguas (ou numa das duas). Infelizmente, muitos pais desconhe-
cem isso. Muitas vezes, as pessoas se mudam com seus filhos pequenos sem
levar em conta os efeitos negativos das mudanças drásticas nos ambientes
linguísticos que as cercam. Isso pode ser muito ruim para o desenvolvimento
linguístico da criança e, por consequência, acaba afetando negativamente seu
desenvolvimento social e educacional. As crianças precisam de um input fre-
quente e consistente em todas as línguas que elas precisam aprender.

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18 Annick De Houwer
Estudos de língua falada1
Ataliba Teixeira de Castilho

O senhor foi um dos precursores do estudo da língua falada no Brasil. De


onde surgiu a necessidade científica de transformar a fala em um “pro-
blema empírico”, em uma época em que predominavam os estudos formais
da linguagem? E quais foram os pesquisadores e os trabalhos pioneiros no
estudo da linguagem falada?
Castilho — Ali pelos anos 1960, a linguística estava passando por várias
mudanças. Uma delas foi causada pela invenção do gravador portátil. Até
então, os estudos sobre a língua falada (como o de Spitzer sobre o italiano,
o de Beinhauer sobre o espanhol e outros) eram feitos “de orelhada”, isto é,
com base naquilo de que o pesquisador se lembrava de ter ouvido. O novo
dispositivo permitia gravações ao vivo, e as transcrições das fitas foram re-
velando um mundo até tão desconhecido, embora cotidiano: o modo como
as pessoas conversam.
Ao mesmo tempo, a linguística brasileira ingressava na era dos projetos
coletivos, através da adesão ao Proyecto para el Estudio de la Norma Lingüís-
tica Culta, elaborado por Juan M. Lope Blanch em 1967. As principais lide-
ranças linguísticas hispano-americanas tinham aderido ao projeto. O Brasil,
em 1968, graças a um relatório elaborado por Nelson Rossi (UFBA). Esse pro-
jeto, agora resumidamente denominado Projeto NURC, envolveu equipes de
Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Muita gente que
trabalhava isoladamente passou a trabalhar em equipe. Novos temas foram
incorporados à investigação científica. A história de tudo isso está contada
num texto que escrevi para o vol. IV do livro O português culto falado em São
Paulo, organizado por Dino Preti e Hudinilson Urbano.

1
Entrevista publicada em março de 2005.

Estudos de língua falada


19
Como o senhor vê a importância dos estudos envolvendo a linguagem fala-
da para o ensino de língua materna, especialmente no Brasil?
Castilho — A língua falada foi descrita no Brasil, tanto pelo Projeto NURC
quanto e principalmente pelo Projeto de Gramática do Português Falado (8
volumes publicados pela Editora da Unicamp). No final dos anos 1980, surgi-
ram algumas teorizações fundamentadas nos achados. O interesse era basica-
mente descritivo, sem preocupações educacionais. Mas esta foi, aliás, a típica
história de atirar no que se vê e acertar no que não se vê. O ensino foi o alvo
dessa bala que se supunha perdida. Pois logo nos demos conta (digo nós por-
que há pelo menos três livros publicados sobre o aproveitamento da língua
falada nas práticas escolares: o de Luiz Carlos Travaglia, o de Jânia Ramos e
o meu) de que a oralidade abria caminhos de muito interesse para uma nação
pouco letrada como a nossa. Por meio da língua falada poderíamos chegar à
língua escrita, num percurso mais proveitoso, porque fundamentado no que
o aluno já sabe para chegar a domínios que ele não conhece. Por outro lado, a
universalização do ensino fundamental no Brasil trouxe para a escola alunos
de todos os níveis. Aproveitar o conhecimento linguístico já disponível pelos
alunos das camadas socioculturais baixas é uma ótima estratégia para con-
jurar a evasão escolar. Os alunos deixam a escola pela necessidade de ajudar
economicamente a família — e a Bolsa-Escola busca resolver este lado do pro-
blema — e também por desinteresse com respeito ao que lá é ensinado. Ora,
nossa identidade está em nossa língua. Se a vemos respeitada e aproveitada
na escola para o início de nosso percurso, tudo bem. Mas se de cara vão te
dizendo que sua linguagem é uma lástima, tchau mesmo! Aqui reside a maior
importância da incorporação da língua falada no ensino.

Por que será que, mesmo com muitas pesquisas de qualidade sendo feitas
na área do estudo da linguagem falada, a tradição normativa da gramáti-
ca tradicional ainda se preocupa quase que exclusivamente com o ensino
e a descrição da norma escrita da língua?
Castilho — Há duas questões nessa pergunta: língua falada versus língua es-
crita, língua versus norma escrita.
Os pesquisadores da língua falada jamais disseram que era para descar-
tar a língua escrita. O que disseram era que atingiríamos com mais eficácia
a língua escrita se começássemos nossa prática escolar pela reflexão sobre
a língua falada. O fato é que a língua falada é mais reveladora que a escrita
quanto aos processos constitutivos da linguagem humana. Quando falamos,

20 Ataliba Teixeira de Castilho


não preparamos um rascunho, verbalizando um script depois de corrigido.
Quando falamos, jogamos tudo para o ar, tanto o assunto da conversação
quanto os processos de criação linguística que estão sendo desenvolvidos.
Por isso, a reflexão sobre a linguagem é mais rica quando partimos da ora-
lidade. Já a língua escrita é uma transposição da oralidade, com direito a
plano prévio, várias versões e muita borracha sobre o que não deu certo.
Com isso, os caminhos da criação linguística são omitidos. Isso é ótimo para
os grandes voos da arte literária e do raciocínio filosófico, e péssimo para
quem quer refletir sobre a linguagem — a função maior de quem ensina a
quem já fala a língua.
Outra coisa é substituir um belo percurso de descoberta científica em
classe pelas falsas convicções da gramática escolar — e aqui entra a gramática
tradicional, que de tradicional, aliás, não tem nada. Em que tradição assenta a
gramática no mundo ocidental? Na retórica, vale dizer, na análise do discur-
so. O que os gregos e depois os latinos faziam era visar uma execução linguís-
tica eficaz através da exploração do léxico, da organização das palavras e das
frases. Essa é a boa tradição esquecida pela gramática escolar atual. A gramá-
tica era uma disciplina vivaz, cheia de perguntas e buscas de respostas. Hoje
foi reduzida à observação estrita da norma escrita, isto é, a uma variedade
apenas da língua. Assim empobrecida, a gramática se reduziu a um conjunto
de cânones, que você deve decorar “para passar no concurso”, “para passar
no vestibular”. Quer dizer, a gramática não tem mais um objetivo próprio, e
sobrevive por obra e graça de fazedores de testes cheios de pegadinhas. Que
tipo de gente esses testes de concurso e de vestibular vai selecionar? Gen-
te que raciocina e reage, ou gente que decora passivamente, sem entender?
Ainda bem que várias universidades quebraram a espinha dorsal da grama-
tiquice, trocando testes bobos por questões que levam ao raciocínio. Deve-se
reconhecer a primazia da Unicamp nesta virada dos vestibulares.

Para descontrair um pouco, conte-nos, como foi trabalhar com gravações


de falas na época da ditadura militar?
Castilho — Durante a ditadura, sair gravando por aí era a pior ideia que um
cristão podia ter. Tanto assim que tomamos vários cuidados, explicando aos
nossos informantes que coisa estávamos fazendo, para o que serviriam as fi-
tas etc. Também tocávamos a fita antes de dar o fora, e se a pessoa tivesse
alguma preocupação, tudo era desgravado na mesma hora. Que me lembre,
ninguém optou pela saída do “delete”. Mas houve em São Paulo um treina-

Estudos de língua falada


21
mento para as chamadas “gravações secretas”, aquelas em que, para se obter
um registro absolutamente espontâneo, gravaríamos primeiro para explicar
depois. Ou seja, os depoentes não seriam previamente informados da ativi-
dade. Os gravadores, apesar de portáteis, não eram pequenos como esses de
hoje em dia. As gravações eram feitas num rolo — não me entendam mal — e
o aparelho pesava pra caramba. Como disfarçar o trambolho? A equipe, então
chefiada por Dino Preti, imaginou colocá-lo dentro de uma daquelas maletas,
então muito apropriadamente conhecidas como “007”. Agasalhos e objetos
pessoais prendiam habilmente o gravador junto a um buraco que se tinha
praticado na maleta, não fossem o gravador e seu microfone sair do lugar!
Decisões tomadas, fez-se um teste, escolhendo como depoente uma pessoa
muito amiga de um dos membros da equipe de gravação — afinal, se algo
desse errado, viria aquela fase do plano, a fase das explicações. Será que co-
lariam? Pois não é que em meio aos trabalhos o depoente-amigo implica com
a maleta? Achou curiosa, andou rodeando-a, e acabou por pedir que fosse
aberta. Desânimo geral! Feita a vontade do freguês, novo susto: o sujeito não
percebera nada! Entretanto, bem ponderadas as coisas, optou-se por omitir
essa parte do projeto, “dada a falta de equipamento adequado”…

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22 Ataliba Teixeira de Castilho


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24 Ataliba Teixeira de Castilho


Estudos de línguas de sinais1
Roland Pfau

Quando o senhor começou a trabalhar com línguas de sinais? Qual era seu
principal interesse ao estudar essa área?
Pfau — Comecei a estudar línguas de sinais — a língua alemã de sinais naque-
le momento — em 1995. Eu acabara de iniciar meu projeto de doutorado na
Universidade de Frankfurt, que era, na verdade, sobre erros espontâneos de
fala, e não sobre língua de sinais, quando minha professora, Helen Leuninger,
se interessou pelas línguas de sinais. Ela estava apta a ministrar cursos de
língua alemã de sinais (Deutsche Gebärdensprache, dgs) na universidade, e
me matriculei, simplesmente porque estava intrigado com as possibilidades
de uma língua na modalidade visual. Primeiramente, olhei para essa língua
a partir da perspectiva de um aprendiz de segunda língua — lutando com
suas complexidades gramaticais — antes de desenvolver qualquer interesse
em investigar sua estrutura linguística.
Logo fiquei fascinado pelo fato de as línguas de sinais, apesar do uso de
um modo de transmissão diferente, empregarem estruturas e regras muito
similares àquelas descritas para as línguas faladas. Sinceramente, fiquei tão
fascinado que, por algum tempo, dei muita atenção à língua de sinais e pouca
à minha tese. Trabalho no quadro teórico da gramática gerativa, e o estudo de
línguas de sinais é revelador nesse contexto, já que fornece evidências para
a hipótese de uma capacidade linguística independente de modalidade. O
estudo das estruturas linguísticas da dgs, especialmente sob uma perspecti-
va gerativa, ainda era muito recente naquela época e, portanto, basicamente
tudo necessitava de minuciosa investigação — o que representava, ao mesmo
tempo, um desafio e uma oportunidade incrível.
Assim que obtive um pouco de compreensão da língua alemã de sinais,
comecei a fazer pesquisas sobre sua estrutura fonológica e morfológica, esta
1
Entrevista publicada em agosto de 2012, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero e Ana
Carolina Spinelli.

Estudos de línguas de sinais


25
última em cooperação com minha colega Susanne Glück. Meus primeiros es-
tudos sobre a dgs, publicados em 1997, centravam-se em um inventário das
formas das mãos e da estrutura silábica da dgs e em seu sistema classificador.
Na literatura da língua de sinais, o termo “classificador” se refere a formas das
mãos que combinam com verbos de movimento e localização (por exemplo,
‘mover-se’ e ‘dar’) e que refletem propriedades semânticas e morfológicas de
um argumento; o verbo ‘mover-se’, por exemplo, pode ter uma movimentação
diferente das mãos dependendo de se o argumento que se move é uma pessoa
ou um carro; e a forma das mãos no verbo ‘dar’ reflete se o objeto dado é um
livro ou uma caneta. Susanne e eu sustentamos a ideia de que esse fenômeno
não deve ser analisado como um exemplo de formação lexical de palavras ou
incorporação (como tem sido sugerido na literatura sobre o assunto), mas,
antes, como um caso de concordância. Em outras palavras: o movimento for-
mado pelas mãos nesses verbos são morfemas de concordância. Desde então,
meu principal interesse tem sido estudar a estrutura gramatical das línguas
de sinais, dando ênfase a suas estruturas morfossintáticas e sintáticas, e eu
particularmente gosto de discutir esses fenômenos em perspectiva tipológica.

Que tipo de evidência gramatical um linguista pode obter a partir do estu-


do da estrutura e tipologia da língua de sinais?
Pfau — A tipologia da língua de sinais ainda é uma área de pesquisa recente;
porém, já se produziram resultados empolgantes. O trabalho com tipologia
de línguas de sinais envolve dois componentes, ambos interessantes e recom-
pensadores. Em primeiro lugar, é importante comparar as estruturas da lín-
gua de sinais com as estruturas da língua falada; afinal, muitas comparações
nos ajudam a entender quais aspectos da gramática são realmente indepen-
dentes de modalidade, ou seja, os mesmos para línguas de modalidade visual
e oral, e quais são dependentes de modalidade. Graças a numerosos estudos
em diferentes línguas gestuais, agora está claro que, em grande medida, as
línguas de sinais empregam o mesmo mecanismo gramatical das línguas
faladas. Dessa forma, todas as línguas naturais podem ser explicadas pelos
mesmos modelos teóricos — sejam quais forem —, e explicações de modali-
dades específicas não são necessárias. Certamente, essa é uma importante e
estimulante descoberta. Em particular, as aparentes estruturas simultâneas
das línguas de sinais, resultantes da disponibilidade de dois articuladores
idênticos — as duas mãos —, bem como do uso simultâneo de meios de ex-
pressão manuais e não manuais, podem ser capturadas pelos mesmos mo-

26 Roland Pfau
delos hierárquicos fonológicos e sintáticos. Observe-se que o termo ‘meios
não manuais’ inclui todas as informações não transmitidas pelas mãos, como
as expressões faciais e os movimentos corporais, que podem desempenhar
um papel crucial na gramática das línguas de sinais. É verdade que, dada a
disponibilidade de diferentes articuladores (manuais e não manuais), gran-
de gama de informação pode ser expressa simultaneamente, à medida que
seis ou mais morfemas podem ser expressos dentro de uma única sílaba, mas
essa é uma diferença quantitativa, não qualitativa. Estabelecer esse tipo de
informação foi um grande avanço, não apenas para os linguistas dedicados às
línguas de sinais, mas também para os linguistas em geral.
Quanto mais se investigarem as línguas de sinais, maior será a possibi-
lidade de comparação entre as diferentes línguas gestuais entre si, a fim de
descobrir em que medida elas variam em suas estruturas gramaticais. Gra-
ças a esforços assim, agora sabemos que as línguas de sinais são similares
entre si em algumas instâncias (por exemplo, seus sistemas pronominais e o
uso de reduplicação de flexão de modo e de número), mas que elas também
apresentam uma interessante variação interlinguística (em se tratando de or-
dem de palavras, negação e estratégias de relativização, por exemplo) e que
os padrões de variações atestados espelham aqueles anteriormente descritos
para as línguas faladas. Novamente, isso implica que não devem sempre sur-
gir classificações totalmente novas apenas para o fim de explicar os dados
de uma língua de sinais. Para dar apenas um exemplo: descobriu-se que a
tipologia de orações relativas, desenvolvida com base nas línguas faladas e
que distingue, entre outras, orações relativas com núcleo externo de orações
relativas com núcleo interno, também é válida para línguas de sinais; a dgs
apresenta orações relativas com núcleo externo, enquanto a língua de sinais
italiana faz uso de orações relativas de núcleo interno.

Muitos estudantes que começam a estudar linguística não se dão conta que
uma língua de sinais é um sistema tão complexo quanto qualquer outra
língua natural. O senhor pode nos dar alguns exemplos de trabalhos em
sintaxe, morfologia ou fonologia de línguas de sinais?
Pfau — Bom, acabei de dar um exemplo acima, quando falamos sobre as
orações relativas. Claramente, as estratégias de relativização nas línguas de
sinais são tão complexas e diversas quanto nas línguas faladas. Isso não im-
plica necessariamente que todas as línguas de sinais tenham uma estratégia
de relativização tão sofisticada, ou que a dgs sempre faça uso da estratégia

Estudos de línguas de sinais


27
disponível — entretanto, obviamente, o mesmo vale para as línguas faladas.
Isso mostra, contudo, que o sistema gramatical (a gramática universal, se você
quiser) disponibiliza certas opções e que as línguas naturais, faladas ou ges-
tuais, escolhem uma (ou mais) dessas opções.
Ficando ainda na área da sintaxe, também já se afirmou que a negação
e a interrogação envolvem estruturas e derivações características de outras
línguas naturais (faladas). Em muitas línguas de sinais, a negação pode ser ex-
pressa por uma partícula negativa manual em combinação com um marcador
não manual, geralmente um balançar de cabeça. À primeira vista, essa combi-
nação de um elemento manual com um elemento não manual parece ser espe-
cífica da modalidade; tem-se argumentado — muitos pesquisadores, incluindo
eu mesmo — que isso é, na verdade, um caso da negação dividida, como aque-
la que podemos ver, por exemplo, no francês falado. Na dgs, o elemento ma-
nual negativo se comporta como uma partícula (que, assim como a partícula
negativa ne do francês, é opcional), ao passo que o balançar de cabeça pode
ser analisado como um afixo que se liga ao verbo. As interrogativas-qu (isto
é, as interrogativas que envolvem um pronome interrogativo como “quem” ou
“qual”) têm atraído alguma atenção, porque, assim como em muitas línguas
faladas, elas envolvem uma palavra-qu que aparece na periferia da sentença.
Em um contraste surpreendente com a maioria das línguas faladas (incluindo
o português), contudo, a posição mais comum para o gesto-qu nas línguas de
sinais parece ser a posição de final de sentença (por exemplo: Livro comprou
quem? para “Quem comprou um livro”?). Isso gerou um interessante debate a
respeito das supostas propriedades universais das perguntas-qu — universais
estabelecidos levando em conta apenas os dados das línguas faladas. A pergun-
ta é a seguinte: os dados das línguas de sinais contradizem esses universais ou
podem ser explicados por mecanismos independentemente de modalidade?
No domínio da morfologia, já se demonstrou que muitas línguas de si-
nais permitem sinais morfologicamente muito complexos. Pelo que sabemos,
há pouca morfologia derivacional, mas existem compostos, e os sistemas fle-
xionais de muitas línguas de sinais são muito ricos e incluem modulações
aspectuais, concordância com o sujeito e com o objeto, morfemas classifica-
tórios, entre outros. O que torna o sistema especial é o fato de que muito da
informação pode ser expressa simultaneamente; assim, um verbo com um
significado complexo como “você me dá um grande objeto plano com algum
esforço” tem a mesma estrutura silábica (ou seja, tem o mesmo “tamanho”)
que a forma base do verbo “dar”: ambos consistem de uma sequência de um
lugar, um movimento e outro lugar, mas o formato da mão, o movimento e

28 Roland Pfau
os traços não manuais da forma flexionada são diferentes daqueles da forma
base. Apesar da realização simultânea, todos os morfemas são rapidamente
identificados, e, portanto, pode-se afirmar que as línguas de sinais (algumas,
pelo menos) podem ser encaixadas dentro do grupo de línguas aglutinantes.
Estruturas simultâneas também são observadas no sistema fonológico das
línguas de sinais. Os primitivos fonológicos (às vezes chamados de “parâme-
tros”) das línguas de sinais são o formato das mãos, o movimento, o lugar e os
traços não manuais. Claramente, isso é muito diferente do sistema fonológico
das línguas faladas, que inclui vogais e consoantes. Ainda assim, tem-se de-
monstrado que esses primitivos estão organizados em uma hierarquia fonoló-
gica não muito diferente daquela das línguas faladas. Além disso, a combinação
de parâmetros é restringida por regras fonológicas. Por exemplo, se dois dedos
estão estendidos em um sinal (como o indicador e o dedo médio, por exemplo),
ambos devem ter a mesma posição, seja estendida ou flexionada; o sistema
fonológico não permite uma forma em que o indicador esteja completamente
estendido, mas o dedo médio flexionado, ainda que, de um ponto de vista arti-
culatório, tal forma não seria tão problemática. Além disso, no léxico, os sinais
que usam apenas uma das mãos devem ser distinguidos dos que usam ambas
as mãos. Esse último tipo de sinal é restringido por outra regra fonológica que
parece ser a mesma em todas as línguas de sinais já estudadas até hoje: se am-
bas as mãos se movem em um sinal monomorfêmico, ambas devem apresentar
a mesma forma e efetuar o mesmo movimento, de maneira simétrica ou com
alternância de mãos. Mais uma vez, as formas que violam essa restrição são, em
princípio, fáceis de articular, mas elas simplesmente não existem.
Tudo isso serve de evidência para um sistema gramatical complexo, regi-
do por regras em todos os níveis de descrição linguística, de maneira similar,
mas não idêntica, ao que tem sido descrito sobre as línguas naturais orais. Na
verdade, todos os que começam a aprender uma língua de sinais logo perce-
bem que ela é muito mais do que uma simples combinação de gestos icônicos
— uma língua de sinais é tão difícil (ou tão fácil) de ser aprendida quanto
qualquer outra língua.

O senhor é um dos editores do periódico acadêmico Sign Language & Lin-


guistics (John Benjamins Publishing Company). Pode nos contar um pouco
sobre esse periódico? Quais são seus objetivos e escopo?
Pfau — Meu colega Josep Quer, da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona,
e eu temos editado o periódico Sign Language & Linguistics (SL&L) desde 2007,

Estudos de línguas de sinais


29
quando tomamos essa tarefa do editor anterior, Ronnie Wilbur, que fundou
o periódico em 1998. Editar o periódico é muito divertido, mas — como você
pode imaginar — é também uma tarefa desafiadora. Gostamos de entrar em
contato com os (futuros) autores e de estar sempre atualizados com o que está
acontecendo no mundo consideravelmente pequeno, mas sempre em expan-
são, da linguística das línguas de sinais. É bem empolgante.
O foco do periódico está em estudos teoricamente concebidos sobre a es-
trutura das línguas de sinais, ou seja, estudos que aplicam modelos teóricos
existentes às línguas de sinais e podem, portanto, expandir nosso conhecimen-
to de gramática tendo por base as línguas de sinais. São sempre bem-vindos
estudos que adotam uma perspectiva interlinguística e intermodal sobre os fe-
nômenos investigados, bem ao estilo que descrevi acima, na segunda pergunta
desta entrevista. O SL&L está aberto a todas as áreas da investigação linguísti-
ca: das diversas áreas da gramática (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica),
via pragmática até estudos em psico- e neurolinguística. Obviamente, também
temos interesse em estudos que tratem de tipologia linguística e dos possíveis
efeitos da modalidade linguística na estrutura da gramática.
A edição atual (15:1) é uma edição especial, com artigos selecionados
sobre fonética e fonologia apresentados na última Conference on Theoreti-
cal Issues in Sign Language Research (TISLR 10). Recentemente, o periódico
também incluiu artigos sobre um marcador discursivo na língua de sinais da
Nova Zelândia, sobre o reconhecimento de sinais na língua de sinais da Ho-
landa e vários outros artigos (compilados em outra edição especial) sobre o
uso de sinais não manuais fonológicos, morfológicos e sintáticos na língua de
sinais americana, na língua de sinais britânica, na dgs, na língua de sinais de
Hong Kong e na língua de sinais turca.

Referências
Johnston, T.; Schembri, A. (2007). Australian Sign Language. An Introduction to Sign Language
Linguistics. Cambridge: Cambridge University Press.
Leeson, L.; Saeed, J. I. (2012). Irish Sign Language. A Cognitive Linguistic Account. Edinburgh:
Edinburgh University Press.
Meir, I.; Sandler. W. (2008). A Language in Space. The Story of Israeli Sign Language. New York:
Lawrence Erlbaum.
Pfau, R.; Steinbach. M.; Woll, B. (orgs.) (2012). Sign Language. An International Handbook. Berlin:
Mouton de Gruyter.
Sandler, W.; Lillo-Martin, D. (2006). Sign Languages and Linguistic Universals. Cambridge: Cam-
bridge University Press.
Sutton-Spence, R.; Woll. B. (1999). The Linguistics of British Sign Language. An Introduction. Cam-
bridge: Cambridge University Press.

30 Roland Pfau
Estudos de línguas de sinais1
Ronice Müller de Quadros

A seu ver, qual seria o estado da arte dos estudos linguísticos sobre a Li-
bras no Brasil?
Quadros — Os estudos linguísticos sobre a Libras no Brasil estão começando
a se estabelecer de forma mais ampla. Esses estudos tiveram início na déca-
da de 1980, com Lucinda Ferreira Brito (1984, 1990, 1993, 1995). Por exemplo,
Ferreira Brito (1984, 1993) apresentou ao mundo duas línguas de sinais brasi-
leiras, a língua de sinais dos centros urbanos brasileiros (atualmente referida
como Libras), focada na variante de São Paulo, e a língua de sinais urubu-
-kaapor, pertencente à família tupi-guarani, uma língua usada na comuni-
dade indígena urubu-kaapor do interior do Maranhão. Nesse artigo, a autora
apresenta algumas similaridades e diferenças entre essas duas línguas. Por
exemplo, na língua de sinais urubu-kaapor, o uso do espaço parece ter uma
flexibilidade bem maior do que na língua de sinais usada em São Paulo, em
que os sinais são realizados em um espaço bem mais restrito. Por outro lado,
ambas as línguas usam os intensificadores e os quantificadores depois do
nome ou incorporados ao nome.
A década de 1990 também contou com produções acadêmicas pontuais
em diferentes Estados do país. Felipe (1998), Karnopp (1994, 1999) e Quadros
(1997, 1999) são exemplos dessa fase das pesquisas sobre a Libras.
Felipe (1998) apresenta uma descrição tipológica para os verbos da Li-
bras. A autora apresenta os verbos em duas classes principais, aqueles que
não apresentam flexão e os que a apresentam. Os primeiros são verbos de
flexão zero, produzidos sem associação a morfema algum. Os segundos são
referidos pela autora como verbos direcionais, que apresentam uma trajetó-
ria de movimento incorporada a sua raiz. A autora também apresenta os ver-
bos quanto à categoria semântica. Os verbos instrumentais, por exemplo, são

1
Entrevista publicada em agosto de 2012.

Estudos de línguas de sinais


31
aqueles que incorporam o instrumento a sua raiz (como pintar-com-pincel); os
verbos de movimento envolvem eventos (como entregar) e os verbos locativos
envolvem locativos (como ir).
Karnopp (1994, 1999) apresenta uma descrição básica da estrutura fono-
lógica da Libras. A autora se aprofunda no parâmetro configuração de mão e
analisa os processos fonológicos de apagamento, assimilação e substituição
em uma criança surda adquirindo a língua de sinais brasileira. A autora ba-
seia sua análise em dados longitudinais de uma criança surda, filha de pais
surdos, coletados mensalmente entre 1 e 4 anos. A menina apresenta várias
evidências de aplicação de processos fonológicos. Entre eles, por exemplo, a
criança apresenta substituição de uma configuração de mão mais complexa
por uma configuração de mão mais simples: pato produzido com a configu-
ração de mão 5 sendo aberta e fechada, em vez da configuração de mão com
dois dedos selecionados. Esse tipo de exemplo evidencia que crianças surdas
em fase de aquisição apresentam os mesmos processos fonológicos observa-
dos em crianças adquirindo uma língua falada.
Quadros (1997) apresenta uma análise de crianças surdas adquirindo a
Libras como primeira língua em nível sintático. Descreve o fenômeno do li-
cenciamento de argumentos nulos considerando o padrão de aquisição des-
sas estruturas na aquisição monolíngue da Libras (L1) — a partir de dados
coletados de forma transversal — de diferentes crianças surdas, filhas de pais
surdos. As crianças produzem sentenças com pronomes nulos tanto com ver-
bos com flexão marcada, como com flexão não marcada. No entanto, os con-
textos dessas marcações determinam a recuperação dos referentes por via
sintática ou por via pragmática. O uso da apontação, o estabelecimento de
nominais no espaço, o uso do espaço fazem parte do sistema sintático da Li-
bras, apresentando uma evolução durante os diferentes estágios de aquisição.
Inicialmente, as crianças surdas não estabelecem os nominais no espaço de
forma apropriada. Esse uso apropriado do espaço e utilizado de forma com-
plexa na língua vai ser estabelecido por volta dos 5 anos.
Quadros (1999) apresenta a estrutura da frase na Libras, incluindo uma
análise dos verbos simples (sem marcação de flexão) e verbos com concor-
dância (com flexão marcada). Ela identifica uma assimetria entre esses dois
grupos de verbos refletida nas estruturas geradas nessa língua. Por exemplo,
o licenciamento de pronomes nulos apresenta um comportamento diferen-
ciado quando seleciona verbos com ou sem concordância. Outra consequên-
cia observada no comportamento sintático da Libras diante do tipo de verbo
selecionado relaciona-se à ordenação dos sinais. As sentenças com verbos

32 Ronice Müller de Quadros


com concordância parecem apresentar maior flexibilidade na ordenação do
que aquelas com verbos simples. A autora também descreve estruturas com
verbos “pesados” (heavy verbs), ou seja:
(a) formas produzidas por meio de classificadores que incorporam a ação
verbal;
(b) verbos manuais (aqueles que incorporam instrumentos ou partes de
objetos);
(c) verbos com flexão aspectual (incorporada ao verbo por meio de mudan-
ça no padrão do movimento).
Essas estruturas sempre apresentam esses verbos na posição final, ten-
do os argumentos estabelecidos em posição que antecede esses verbos pesa-
dos, independentemente da classe à qual o verbo pertence. A autora também
apresenta as sentenças com tópicos, com interrogativas e com foco. A partir
de toda essa descrição, ela propõe duas estruturas sintáticas que podem ser
aplicadas à Libras de acordo com as duas classes verbais existentes (com e
sem flexão verbal).
A partir do novo milênio, os estudos sobre a Libras começam a ganhar for-
ça. Não podemos ignorar o acontecimento da Lei de Libras (Lei 10.436/2002) e
sua regulamentação em 2005 (Decreto 5.626/2005) como fundamentais para
o estabelecimento das pesquisas em Libras no Brasil. Com essa legislação,
temos a criação do curso de Letras/Libras na Universidade Federal de Santa
Catarina, em 2005. Em seguida, temo os cursos criados na Universidade Fe-
deral de Goiás e na Universidade Federal da Paraíba. O reconhecimento da
Libras como língua nacional impulsionou os estudos sobre ela.
Nesse milênio, realizamos a 9a Conferência de Questões Teóricas de
Pesquisas de/sobre Línguas de Sinais (o TISLR), em 2006, na Universida-
de Federal de Santa Catarina. Esse evento também marca as produções de
pesquisas com a Libras no Brasil e no exterior. O TISLR é um evento liga-
do à Sociedade Internacional de Pesquisadores de Línguas de Sinais (http://
www.slls.eu) e é considerado o evento internacional mais importante de es-
tudos de línguas de sinais. No Brasil, reunimos pesquisadores de 33 países
apresentando pesquisas sobre diferentes línguas de sinais e seus impactos
teóricos sobre a linguística. A partir desse evento, foram produzidos dois vo-
lumes disponibilizados gratuitamente para download com os textos na ínte-
gra apresentados por ocasião do evento em inglês e uma versão com artigos
selecionados traduzidos para o português e para a Libras (Quadros, 2008;
Quadros e Vasconcellos, 2008).

Estudos de línguas de sinais


33
Os Cursos de Letras/Libras têm possibilidade de se alastrarem por todo
o país, formando mais pesquisadores surdos. Isso garantirá a devida docu-
mentação dessa língua.

Quais são as áreas da linguística que têm dispensado maior atenção à Li-
bras e quais são as que ainda deixam a desejar?
Quadros — Como as produções acadêmicas são pontuais ainda, temos traba-
lhos que envolvem diferentes áreas da linguística. No entanto, há uma pro-
dução intensa em pesquisas envolvendo a aquisição da linguagem no campo
da psicolinguística. Isso se dá em função da necessidade de responder aos
problemas identificados no desenvolvimento da criança surda. A questão
da aquisição da linguagem, portanto, torna-se fundamental (Karnopp, 1994;
Quadros, 1995, 1997). Atualmente, a produção nessa área ganha força com a
criação do Banco de Dados de Aquisição de Língua de Sinais, do Núcleo de
Pesquisas em Aquisição da Língua de Sinais (NALS) da Universidade Federal
de Santa Catarina (http://www.nals.cce.ufsc.br).
Temos também alguns trabalhos no campo da fonologia, da morfologia,
da sintaxe e da semântica e pragmática. Há alguns estudos relativos à socio-
linguística, à linguística do texto e à análise do discurso. Todas essas áreas
requerem mais estudos. O momento atual requer a constituição do corpus de
Libras, com o objetivo de organizar dados com diferentes tipos textuais para
estudos que podem incluir vários campos da linguística. O primeiro passo
para a constituição do corpus de Libras foi dado com o desenvolvimento de
um software chamado de Identificador de Sinais (www.idsinais. Libras.ufsc.
br). O Identificador de Sinais — id — é uma ferramenta que disponibiliza os
nomes dados aos sinais para as glosas utilizados nos sistemas de transcri-
ção, bem como a respectiva escrita deste sinal utilizando a escrita de sinais.
É uma ferramenta proposta para servir de apoio às pesquisas relacionadas
com corpora de línguas de sinais. Atualmente, o id apresenta cerca de 1.000
sinais levantados por meio de reuniões periódicas realizadas com a equipe de
pesquisa do NALS. O grupo se reúne e debate sobre os sinais que surgem nos
vídeos que estão sendo descritos e “batiza” os sinais ainda não identificados.
Os sinais batizados com um id são imediatamente incorporados ao sistema de
identificadores de sinais.
O futuro exige ações que viabilizem a documentação da Libras para fins
de pesquisa sobre essa língua, com a participação mais efetiva de pesquisa-
dores surdos.

34 Ronice Müller de Quadros


A relação entre uma língua oral e uma língua de sinais é semelhante à de
duas línguas orais? Como você vê a relação entre o português e a Libras?
Quadros — As línguas de sinais estão em contato com as línguas faladas em
todo país que as utiliza. No entanto, há algumas implicações decorrentes da
diferença de modalidade dessas línguas. As línguas de sinais são visuais-espa-
ciais, enquanto as línguas faladas são orais auditivas. Por exemplo, quando a
língua de sinais toma emprestado um item lexical da língua falada, ele toma
uma forma visual-espacial na língua de sinais, ou seja, entre línguas orais, o
item emprestado pode manter ou não suas características fonológicas. No caso
do empréstimo para a língua de sinais, a informação fonológica não é preser-
vada. A palavra emprestada passa a ter uma representação visual na Libras,
embora tenhamos como recuperá-la como um item lexical da língua falada.
Por exemplo, a palavra ‘bar’ envolve um sinal que foi emprestado da palavra
‘bar’ em português. O sinal produzido em Libras utiliza configurações de mão
que identificam letras do português, mas produzidos com padrão fonológico
da Libras: bar. Esse processo fonológico é típico na produção de sinais que
representam palavras do português por meio das configurações de mão. Veja
que eles nunca tiveram a representação fonológica do português desde o mo-
mento em que foram emprestados a esta língua, apesar da relação letra-sinal
existente por meio de configurações de mão associadas a letras do alfabeto
em português. Isso decorre da modalidade da língua de sinais que é visual-
-espacial usada por vários surdos que não ouvem a língua portuguesa falada.

Quais são as principais dificuldades a serem superadas e os requisitos bá-


sicos a serem preenchidos quando um linguista se propõe a pesquisar a
Libras?
Quadros — O linguista que decide pesquisar uma língua de sinais precisa
aprendê-la. Essa é a grande dificuldade dos linguistas que iniciam essa em-
preitada. Aprender uma língua exige muita dedicação e anos de envolvimento
com pessoas que a usam, e isso extrapola a participação em cursos de Libras,
exatamente como acontece em qualquer processo de aprendizagem de uma
L2. Além disso, normalmente, o linguista não se depara com uma L2 apenas,
mas com uma M2, isto é, uma língua em uma segunda modalidade. Como a
língua de sinais apresenta a modalidade visual-espacial, o desafio do linguis-
ta é passar a olhar para língua e analisá-la visual-espacialmente. As formas
de organização de sistemas linguísticos visuais-espaciais requerem também

Estudos de línguas de sinais


35
do linguista o desenvolvimento de habilidades para observar e identificar
fenômenos linguísticos de outra ordem, mesmo fazendo parte de campos
linguísticos tradicionalmente estudados. Isso seria menos complicado para
linguistas surdos que usam a Libras, ou para linguistas ouvintes bilíngues.
De qualquer forma, a formação dos linguistas atuais, normalmente, não com-
preende o desenvolvimento dessas habilidades. Isso teria de ser incorporado
como desafio pelo próprio linguista que se decida a estudar essa língua.

Em seus estudos, destaca-se o interesse pela aquisição de linguagem e pelo


bilinguismo. Fale um pouco sobre como esses temas se desenvolveram nos
últimos anos e para onde estão caminhando hoje.
Quadros — Quando eu atuava como professora de crianças surdas na edu-
cação infantil e na educação básica, não compreendia por que aquelas
crianças estavam tendo problemas com a linguagem. Em 1990, iniciei um
projeto de estudos com os professores da Escola Municipal Helen Keller
a partir de pesquisas que abordavam a aquisição da língua de sinais em
crianças surdas, filhas de pais surdos. Os estudos sempre concluíam que o
desenvolvimento da linguagem dessas crianças era normal. Como, em sua
maioria, as crianças surdas na escola não eram filhas de pais surdos, a con-
clusão era óbvia: elas não tinham acesso a uma língua visual-espacial de
forma efetiva. Elas chegavam à escola tardiamente já apresentando atrasos
no desenvolvimento da linguagem. Tendo esses estudos como base, iniciei
minhas pesquisas sobre a aquisição da língua de sinais em 1992. Ao mesmo
tempo, sempre havia uma necessidade emergente de discutir a questão do
acesso à língua portuguesa pelos alunos surdos. Assim, sempre estudei a
questão do bilinguismo. A aquisição de L1 e de L2 por crianças e jovens sur-
dos é tema do meu primeiro livro publicado em 1997, Educação de surdos: a
aquisição da linguagem. A partir disso, sempre tive produções de pesquisas
envolvendo tanto a aquisição da L1, como da L2. Atualmente, o projeto de
pesquisa que me toma quase todo o tempo está voltado para a aquisição
bilíngue intermodal, ou seja, para a análise do desenvolvimento da língua
de sinais e da língua portuguesa de forma simultânea. Compreender como
esse processo se dá trará mais subsídios concretos para propostas de edu-
cação bilíngue para surdos e ouvintes interessados em se tornarem bilín-
gues intermodais. O termo ‘intermodal’ aqui indica que você é bilíngue,
com uma língua visual-espacial e outra oral-auditiva.

36 Ronice Müller de Quadros


Referências
FELIPE, T. (1998). A relação sintático-semântica dos verbos e seus argumentos na LIBRAS. Tese. Rio
de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro.
FERREIRA-BRITO, L. (1984). Similarities and Differences in Two Sign Languages. Sign Language
Studies. 42: 45-46.
______ (1990). Epistemic, Alethic, and Deontic Modalities in a Brazilian Sign Language. In: Fi-
sher, S. D.; Siple, P. (orgs.). Theoretical Issues in Sign Language Research, vol. 1. Chicago: Uni-
versity of Chicago Press.
______ (1995). Por uma gramática de línguas de sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.
KARNOPP, L. B. (1994). Aquisição do parâmetro configuração de mão dos sinais da LIBRAS: estudo
sobre quatro crianças surdas filhas de pais surdos. Dissertação. Porto Alegre: PUCRS.
______ (1999). Aquisição fonológica na língua brasileira de sinais: estudo longitudinal de uma crian-
ça surda. Doutorado. Porto Alegre: PUCRS.
QUADROS, R. M. de (1995). As categorias vazias pronominais: uma análise alternativa com base
na língua de sinais brasileira e reflexos no processo de aquisição. Dissertação. Porto Alegre:
PUCRS.
______ (1999). Phrase Structure of Brazilian Sign Language. Tese. Porto Alegre: PUCRS.
______ (1997). Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas.

Estudos de línguas de sinais


37
Filosofia da Linguagem1
John Searle

O que é a filosofia da linguagem? Como ela se relaciona com a linguística


e com a filosofia?
Searle — A questão mais geral em filosofia da linguagem é a seguinte: como
exatamente a linguagem se relaciona com a realidade? Quando faço barulhos
com minha boca, estou tipicamente fazendo uma declaração, uma pergunta,
um pedido ou uma promessa, ou estou ainda desempenhando outro tipo de
ato de fala, um tipo que Austin batizou de ato ilocucionário. Como isso é pos-
sível, já que tudo o que sai da minha boca não passa de um conjunto de sopros
acústicos? Outra maneira de fazer essa mesma pergunta é: o que exatamente
é o significado? Como um falante diz algo e torna esse algo significativo pelo
que diz? Qual é o significado das palavras em uma língua, onde as palavras
têm um significado convencional?
O motivo pelo qual as perguntas “como a linguagem se relaciona com a
realidade?” e “o que é o significado?” são variantes da mesma questão é que a
função do significado é relacionar a linguagem com a realidade.
Ao responder a essas perguntas, a filosofia da linguagem tem de lidar
com todo um conjunto de outras questões, tais como: o que é a verdade? O
que é a referência? O que é a lógica? O que são relações lógicas? O que é o
uso da língua e como o uso se relaciona ao significado? E por aí vai, com um
grande número de outras perguntas, tanto tradicionais quanto novas.
Não há linha divisória bem delimitada entre a filosofia da linguagem e a
linguística, mas, em geral, pode-se dizer que a linguística lida com fatos reais
empíricos sobre as línguas humanas. A filosofia da linguagem também lida
com fatos empíricos, mas geralmente a proposta é atingir certas característi-
cas universais subjacentes ao significado e à comunicação e, especialmente,
analisar a estrutura lógica da referência, da necessidade da verdade, dos atos

1
Entrevista publicada em março de 2007, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.

38 John Searle
de fala etc. E essas análises não são dadas simplesmente analisando fatos des-
sa ou daquela língua particular.
As relações da filosofia da linguagem com a filosofia geral são também
bastante complexas. Por um longo tempo, muita gente pensou que toda a fi-
losofia era, na verdade, a filosofia da linguagem, porque se pensava que to-
das as questões filosóficas poderiam ser resolvidas analisando a linguagem.
Acredito que muito poucas pessoas ainda pensam assim, mas a filosofia da
linguagem continua sendo uma parte importante da filosofia geral.
O motivo por que a filosofia da linguagem não é central como já foi há,
digamos, cinquenta anos, é que muitos filósofos — eu mesmo, por exemplo —
passaram a pensar que a filosofia da linguagem é, em si mesma, dependente
de resultados da filosofia da mente. A linguagem é uma extensão de capaci-
dades biológicas fundamentais da mente humana.

Qual é a relação entre linguagem e pensamento?


Searle — É impossível responder a essa pergunta em espaço tão curto, mas
certas considerações gerais podem ser mencionadas. Muitas pessoas acham
impossível haver pensamento sem linguagem, mas isso está claramente er-
rado. Temos agora uma enorme quantidade de provas de que os animais são
capazes de apresentar pelo menos algumas formas simples de processos de
pensamento. No entanto, formas mais complexas de pensamento exigem algo
como a linguagem humana. Então, os seres humanos têm pensamentos de
uma maneira que os animais não têm. Um animal poderia sair de um labi-
rinto de uma maneira que mostraria que ele pode compreender a diferença
entre um, dois, três e quatro caminhos, mas sem a linguagem, um animal não
pode saber que a raiz quadrada de 625 é 25. Existe, literalmente, um número
infinito de pensamentos que só podem ser expressos com a linguagem, e a
área de pensamento que pode ser feita sem a linguagem é bastante restrita.

O senhor teve grande participação no desenvolvimento da teoria dos atos


de fala e nas origens da pragmática. Como vê suas contribuições hoje?
Searle — Não gosto muito do termo “pragmática”, porque ele sugere uma dis-
tinção rigorosa entre pragmática e semântica, e não acredito que essa distin-
ção possa ser feita. Contudo, acredito que o estudo dos atos de fala e o estudo
do uso da linguagem são absolutamente essenciais para a linguística e para a
filosofia da linguagem. Acredito que não ser possível começar a compreender

Filosofia da Linguagem
39
o que é a linguagem ou como ela funciona sem ver que a unidade fundamental
do significado é o que o falante quer dizer ao produzir um enunciado e que
a unidade fundamental de enunciados significativos é o ato de fala, especi-
ficamente, o ato ilocucionário, como referido originalmente nos primeiros
trabalhos de Austin.

O seu argumento do “quarto chinês” contra a inteligência artificial forte já


é clássico. Mas há várias críticas a ele. Quais são os principais argumentos
dos críticos e como o senhor responde a eles?
Searle — Existem tantos argumentos contra o argumento do quarto chinês
que não conseguirei resumi-los aqui. Todos eles falham basicamente pela
mesma razão: eles falham em compreender o que é um computador digital.
Um computador digital, como descrito originalmente por Alan Turing, é um
mecanismo que manipula dois tipos de símbolos, normalmente imaginados
como zeros e uns. Qualquer símbolo, no entanto, servirá. O motivo pelo qual
esse mecanismo falha em produzir, sozinho, consciência, intencionalidade
e significado é que as propriedades do mecanismo são definidas de maneira
puramente formal ou sintática, e a sintaxe dessas operações não é, por si só,
suficiente para garantir a presença de semântica ou de significado. No quarto
chinês, o homem tem toda a sintaxe que os programadores de computador
podem fornecer a ele, mas ele ainda não sabe o que as palavras significam. E
se ele não compreende as palavras com base na implementação do programa
de compreensão, então nenhum outro computador digital irá compreender
sozinho com essa base, porque nenhum computador digital, sendo justamen-
te um computador digital, tem algo que esse homem não tem.

40 John Searle
Fonética1
Luiz Carlos Cagliari

Quais foram os trabalhos fundadores em pesquisa fonética? Quando se


passou a pensar a fonética como subárea linguística de certa forma inde-
pendente da fonologia?
Cagliari — A fonética é a preocupação de investigação mais antiga da huma-
nidade com relação à linguagem. Todos os criadores de sistemas de escrita
tiveram de buscar na observação da fala as diretrizes para a formação dos
sistemas de escrita. Isso é particularmente claro no caso da criação do alfa-
beto. Criado um sistema de escrita, surge necessariamente a ortografia, para
não deixar a escrita variar sem controle. Os ortógrafos sempre foram bons
foneticistas. Os gramáticos foram aos poucos explicando os mecanismos de
produção dos sons da fala. A grande virada aconteceu quando surgiu a ne-
cessidade de estudar escritas antigas, com as descobertas arqueológicas do
século XVIII, vindo ao mesmo tempo uma preocupação com a origem das lín-
guas. Os comparatistas do século XIX precisaram definir a fonética em bases
mais sólidas. Na mesma época, surgiram os grandes estudos de dialetologia
que, naturalmente, tinham na fonética uma ferramenta essencial. Foi então
que surgiram os alfabetos fonéticos como o IPA (da Associação Internacional
de Fonética). Na virada do século XIX para o século XX, o mundo viu um enor-
me desenvolvimento científico, tecnológico e industrial. As pesquisas com os
sons da fala criaram laboratórios. Surgiram equipamentos para a análise da
fala, como o quimógrafo, o raio-X, o palatógrafo etc. Três grandes foneticis-
tas se destacam naquela época: Abbé Pierre Rousselot, na França; Structure,
nos Estados Unidos, e Daniel Jones, na Inglaterra. Dessa época em diante,
a fonética seguiu por dois caminhos paralelos, não incompatíveis, mas nem
sempre amigáveis entre si. Um deles vinha de longa tradição e se dedicava ao
estudo dos mecanismos de produção dos sons da fala. Um grande foneticista

1
Entrevista publicada em agosto de 2006.

Fonética
41
nessa linha fora Henry Sweet, em Oxford. Daniel Jones, seu aluno, e David
Abercrombie, aluno de Daniel Jones, continuaram essa tradição com uma
contribuição notável, procurando conciliar a fonética articulatória e auditiva
com a fonética de laboratório. Trabalhando em Edimburgo, M. A. K. Halli-
day desenvolve modelos descritivos da prosódia, tema que viria a despertar
grande interesse na fonologia. Nos Estados Unidos, Kenneth Lee Pike funda o
SIL (Summer Institute of Linguistics) e coloca a fonética em estreita relação
com a fonêmica e com outros níveis da gramática (tagmêmica). Na Alema-
nha, o trabalho de Von Essen e, na França, os trabalhos de M. Grammond se
destacaram na história da fonética. Todos esses foneticistas contribuíram de
maneira muito significativa para o desenvolvimento da fonética.
O outro caminho da fonética é o das pesquisas em laboratório. O sueco
Gunnar Fant, que tinha muitas ligações com Edimburgo, desenvolveu os fun-
damentos da teoria acústica da fala e construiu protótipos de sintetizadores da
fala, a partir de ideias dos japoneses Chiba e Kayamma. A fonética de laborató-
rio teve também outras preocupações que não eram apenas estudos acústicos.
Surgiram muitos estudos de anatomia, de fisiologia dos mecanismos de pro-
dução de fala, investigações do mecanismo aerodinâmico, assim como estudos
sobre a percepção e audição. A história tem detalhes que não serão mencio-
nados aqui. A fonética foi construída com o trabalho fundamental de muitos
pesquisadores e professores. Todavia, se eu precisasse indicar quais pessoas
contribuíram mais na história da fonética, criando um caminho bem traçado e
enriquecendo a fonética com o que ela tem de melhor, diria que foram Henry
Sweet e Gunnar Fant. A fonética de antes e de depois deles é muito diferente.
A pergunta acima levanta outra questão, de que vou tratar a seguir. Trata-
-se da relação entre fonética e fonologia. Na verdade, a fonética sempre esteve
ligada aos estudos linguísticos, como mostram as gramáticas antigas. Com
Ferdinand de Saussure, houve uma ruptura teórica, mas não prática. Tanto
isso é verdade que foi justamente dentro da abordagem estruturalista que a
fonética teve seu desenvolvimento mais significativo. Logo após a metade do
século XX, surgiram as propriedades distintivas na fonologia, com os traba-
lhos de um linguista (Roman Jakobson), de um engenheiro (Gunnar Fant) e
de um fonólogo (Morris Halle), unindo as características articulatórias, au-
ditivas e acústicas dos sons. Essa foi uma ponte importante entre a fonética
e a fonologia. A partir de então, a fonética passou a se preocupar de modo
mais estreito com outros níveis da análise linguística. As fonologias gerati-
vas, como a fonologia prosódica, só tiveram um avanço porque as pesquisas
fonéticas nessa área também avançaram muito. Com as facilidades da inves-

42 Luiz Carlos Cagliari


tigação acústica da fala nos atuais computadores, apareceram recentemente
muitos estudos fechados em procedimentos estatísticos duvidosos, deixando
de lado a relação estreita que os sons da fala têm com a fonologia e com a lin-
guagem em geral. São estudos sem valor linguísticto, porque não procuram
descrever a linguagem como os falantes a entendem, mas as características
sonoras da fala como a física as entende.

Qual a sua opinião sobre a fonética não ser uma disciplina independente
nos cursos de graduação, tendo seu espaço apenas nos cursos de fonologia
ou linguística geral? Isso pode se refletir no fato de haver poucos grupos
de linguistas dedicados aos estudos fonéticos no Brasil?
Cagliari — Antes de tudo, seria preciso discutir o conteúdo programático do
que deveria ser um curso de graduação em Letras. O que é e o que não é rele-
vante? Na minha opinião, os cursos de Letras são, de modo geral, mal estrutu-
rados. Esquecendo um pouco essa questão, com relação ao ensino de fonética
(e de fonologia), uma disciplina de três horas semanais por semestre seria
suficiente para que um professor ensinasse os elementos teóricos básicos de
fonética e de fonologia, treinasse os alunos em algumas técnicas de fonética
de laboratório, desenvolvesse bom treino de produção e transcrição de sons
da fala, a partir das possibilidades articulatórias humanas, além de treiná-los
na descrição e análise fonológica. Constato um desequilíbrio nos programas,
com pouca ênfase nas áreas centrais da linguística (fonética, fonologia, mor-
fologia, sintaxe, semântica, pragmática, análise do discurso) e um excesso
de matérias de educação (estágios etc.) ou de línguas (latim, grego, línguas
modernas, literatura). Dentro da linguística, não raramente, há um exagero
nos estudos do discurso e do texto, com prejuízo de outras áreas também
essenciais. Por outro lado, não há professores universitários suficientes para
que todas as faculdades contem com pessoas devidamente preparadas. Nos
últimos anos, nos cursos de pós-graduação, formamos muitos professores
nas áreas do discurso e quase ninguém nas áreas da fonética e da fonologia.
Em que faculdades do Brasil, hoje, há pessoas devidamente habilitadas para
ensinar, por exemplo, a teoria das vogais cardeais, para fazer um rigoroso
treinamento de transcrição e de produção de sons da fala, para trabalhar com
fonética de laboratório dentro de uma visão linguística do fenômeno? Essas
são habilidades essenciais para um professor linguista, não apenas para es-
pecialistas em fonética. E um professor que sai de um curso de Letras tem de
ser, antes de tudo, um linguista.

Fonética
43
Respondendo à segunda parte da pergunta, parece óbvio que, se não
formamos pessoas interessadas na área, nos cursos de pós-graduação, não
formamos pesquisadores. Sem pesquisadores, não surgem os grupos de pes-
quisa. Criamos, assim, um círculo vicioso. Apesar dessa situação geral, cons-
tata-se que, em determinados lugares, há pequenos grupos de pesquisadores
levando adiante trabalhos interessantes e relevantes de fonética neste país.
Também se constata que nossas faculdades não dispõem de recursos míni-
mos para o desenvolvimento das atividades de uma matéria como a fonética.
Há uma necessidade de equipamentos caros, que nunca são prioridade nos
orçamentos das faculdades nem dos órgãos financiadores de pesquisa. Há,
ainda, os pareceres negativos que os foneticistas costumam ganhar em seus
projetos e trabalhos, porque nossos pares (será?) acham que a fonética é algo
menor, secundário, ou até mesmo descartável. Todos esses fatores têm con-
tribuído para uma enorme diminuição na formação e na atuação de foneti-
cistas entre nós. Finalmente, os grupos que trabalham com línguas indígenas
mantêm uma prática descritiva com suporte imprescindível da fonética. Na
medida em que o interesse pela fonética diminui, essas áreas de pesquisa e de
trabalho também começam a diminuir. Por outro lado, as línguas indígenas
começam a despertar interesses de outros níveis da linguística, como o dis-
curso. Porém, se não houver descrições básicas da língua, não haverá dados
para um estudo em outros níveis, como o discurso.

Qual é o foco de pesquisas consideradas de ponta em fonética hoje?


Cagliari — Do ponto de vista dos estudos articulatórios e auditivos, o enfoque
mais atual está voltado para as pesquisas prosódicas: entoação, ritmo etc. No
Brasil, há um trabalho, que vem de longa data, investigando a variação linguís-
tica no país. Porém, as pesquisas mais avançadas da área estão voltadas para o
reconhecimento automático da fala por máquinas. Dadas as enormes dificul-
dades, as pesquisas avançam muito vagarosamente. Já há, porém, resultados
interessantes. Essas pesquisas baseiam-se na busca de algoritmos tirados de
uma enorme quantidade de fala gravada e processada com o objetivo de obter
invariantes acústicas dentro do caos da variação da fala de uma língua. Esse
tipo de pesquisa só foi possível depois de os computadores terem chegado à
configuração atual em termos de velocidade de processamento e memória.
Enquanto os resultados mais desejados não chegam, algumas pesquisas pro-
curam resolver problemas mais localizados, por exemplo, tentando passar da
transcrição fonética (ou fonológica) para uma transcrição ortográfica. Esse

44 Luiz Carlos Cagliari


tipo de pesquisa não interessa muito aos engenheiros, porque a transcrição
fonética não é algo de que eles precisem, a não ser em situações muito espe-
cíficas. Há cerca de cinquenta anos, outras abordagens foram sugeridas, mas
depois descartadas porque, naquela época, não havia condições computacio-
nais para sua implementação. Hoje, ninguém se preocupa com elas, porém,
poderiam trazer alguma contribuição nova. Como ainda não chegamos a um
ponto ideal na produção de fala sintética, há alguns estudos nesse sentido.
Um tipo de pesquisa que tem tido destaque nos últimos anos é a produção
de programas de computador capazes de passar de uma escrita ortográfica
para uma produção de fala sintética. Outro foco de pesquisa de ponta, hoje,
é a investigação neurolinguística. A fonética tem participação especial nesse
tipo de pesquisa. Curiosamente, os dois focos mais destacados nos trabalhos
atuais não têm como objetivo imediato descrever características fonéticas
das línguas, mas contribuir para o avanço de outras áreas.

Que interfaces com outras subáreas da linguística a fonética apresenta


hoje, além dos estudos que fazem a interface fonética x fonologia?
Cagliari — Das respostas apresentadas acima, fica claro quais interfaces a
fonética tem estabelecido com outras áreas, além da interface direta com
a fonologia. A interface mais usada atualmente é, sem dúvida, a interface
com a engenharia de comunicação: telefonia, fala sintética, produção escrita
a partir da fala e reconhecimento automático da fala por máquinas. Outra
interface que tem apresentado grande interesse de ambas as partes é a que
une a fonética aos estudos de neurolinguística, em particular, com a patolo-
gia da fala e a fonoaudiologia. Numa dimensão bastante reduzida, a fonética
mantém interface com outras áreas, em que os estudos dos sons da fala en-
tram com elementos importantes. Desse modo, a fonética contribui para os
estudos do processo de alfabetização, da leitura e da formação e do uso dos
sistemas de escrita. Contribui também para o estudo específico de alguns as-
pectos da teoria literária, como os estudos sobre poética, metrificação, esti-
lística e até para mostrar características textuais relacionadas, por exemplo,
com as atitudes do falante. Essas interfaces têm ajudado a fonética a se inte-
ressar por aspectos da linguagem oral que nem sempre tiveram um destaque
e uma atenção especial. Obviamente, a grande preocupação da fonética é com
o sistema da língua e, nesse sentido, as pesquisas fonéticas, mesmo estando
ligadas a áreas extralinguísticas, passam por uma reinterpretação fonológica
e de outras áreas da linguística e não acabam fora dos estudos linguísticos.

Fonética
45
Nesse sentido, a ação dos engenheiros de sons não pode ser considerada uma
atividade linguística. Não há um retorno devido, a partir do trabalho de enge-
nharia para a descrição linguística das línguas. Os aparelhos enganam mais
do que descrevem. Quem interpreta é o ouvido e a mente humana tendo, no
sistema da língua, seu programa interpretativo, não nos programas das má-
quinas, pelo menos de acordo com o estado atual das investigações.

46 Luiz Carlos Cagliari


Fonologia1
Leda Bisol

Quais foram os trabalhos fundadores da fonologia? Pode-se dizer que a


disciplina tem suas bases em Saussure e/ou nos estudos do Círculo Linguís-
tico de Praga?
Bisol — Os principais trabalhos que dão início à história da fonologia são os
seguintes:
Princípios de fonologia, de Nikolay Sergeyevich Trubetzkoy. De uma famí-
lia de príncipes, Trubetzkoy nasceu na Rússia, em 1890. É curioso saber que,
como dizem seus biógrafos, aos 15 anos, publicou seus dois primeiros artigos
e, aos 17, dedicava-se ao estudo de línguas siberianas e caucásias. Forçado a
deixar a Rússia em tempos da revolução, lecionou, a convite, em diferentes
universidades da Europa, incluindo Viena e Praga, quando foi convidado para
fundar, com Jakobson e Mathesius, o Círculo Linguístico de Praga. Sua obra
póstuma e inacabada, escrita durante toda a sua vida através de anotações,
teve uma edição alemã em 1939 e outra francesa em 1949, Principes de phonolo-
gie, com reedições. Nela elabora a ideia de fonema de Baudouin de Courtenay
(1845-1890) de que sons linguísticos são distintivos, dando ênfase ao caráter
funcional da oposição de dois sons de uma mesma língua para diferenciar
significados. Insiste na distinção entre o som como pronúncia e o som como
representação, isto é, como portador de uma intenção do falante. De um lado,
a fonética, de outro a fonologia, embora uma e outra estejam relacionadas.
Expõe, inspirado na ideia de sistema de Saussure, um método de classificação
de oposições bilaterais ou multilaterais, proporcionais ou isoladas, privadas,
graduais e equipolentes. Discute os sons em termos de suas funções: culmi-
nativa, delimitativa e distintiva. O fonema, contudo, é o ponto central de sua
obra. Elaborou em detalhes a ideia de fonema como conjunto de traços com
valor contrastivo, assim como a ideia de arquifonema como resultado da neu-

1
Entrevista publicada em agosto de 2006.

Fonologia
47
tralização de dois fonemas e estabeleceu princípios para a análise fonológica,
trazendo para a exemplificação diferentes línguas. Vale observar que muitas
ideias que sustentaram a fonologia estruturalista ou que hoje fazem parte de
teorias modernas, como neutralização e subespecificação, foram discutidas
pela primeira vez em Princípios. Eis aí o começo da fonologia.
Mattoso Camara Júnior, o nosso primeiro fonólogo, foi um dos seguido-
res de Trubetzkoy, embora também sofresse influência da escola americana.
Mas é digno de nota que sua definição de vogal nasal do português em termos
de vn, isto é, uma vogal oral seguida de consoante nasal subespecificada que a
cobre de nasalidade, é assegurada, na época de sua divulgação, somente pela
linguística da Escola de Praga. Da mesma forma, tem esse apoio sua descrição
da redução vocálica no sistema das átonas.
Linguagem, de Leonard Bloomfield, nascido em Chicago em 1887, é ou-
tra obra de relevo na constituição da fonologia. Depois de uma primeira edi-
ção em 1914, que passou despercebida, Language reaparece em 1933, ficando
como uma referência importante da linguística americana.
Motivado pelo pensamento linguístico de Franz Boas, um antropólogo,
Bloomfield inicia a descrição de línguas indígenas e, consequentemente, a fo-
nologia na América. Na obra citada, os capítulos V, VI, VII e VIII versam sobre
fonema, tipos de fonemas, modificações e estrutura fonética. Afastando-se
de qualquer ideia mentalista de fonema, mas fiel ao conceito de Baudouin
de Courtenay, seu principal intento é diferenciar fonologia de fonética, em
termos de estudo dos sons que portam significado e estudo da manifestação
pura do som. Lança a sua proposta de análise com base na comutação e na
distribuição dos elementos da cadeia de fala. Por comutação, levantam-se as
unidades distintivas, por distribuição complementar e livre dos sons, organi-
zam-se os fonemas com seus respectivos alofones.
Embora a ideia de fonema como um feixe de traços distintivos e a noção
de distribuição complementar e livre estivessem presentes em Trubetzkoy e
Bloomfield, este, que não admite o conceito de neutralização, trabalha exaus-
tivamente a distribuição posicional dos segmentos. As ideias de Bloomfield,
norteadoras da linguística americana estruturalista, inspiraram um tratado
de muito uso, sobretudo, na descrição de línguas indígenas, Phonemics, de
Kenneth Pike (1947), um excelente método de levantamento de fonemas com
base em traços articulatórios, que compreende três premissas básicas:
(a) os sons tendem a ser modificados pelo ambiente;
(b) os sons tendem a uma simetria fonética;
(c) os sons tendem a flutuar.

48 Leda Bisol
Costuma-se diferenciar a fonologia americana — Bloomfield, Sapir e
seus seguidores, conduzidos por uma linha antropológica de estudos — da
fonologia europeia — Trubetzkoy e Jakobson, conduzidos por uma linha fi-
lológica — através dos termos fonêmica e fonologia.
Por fonêmica, entende-se uma descrição minuciosa das unidades dis-
cretas, levantadas por comutação e analisadas por sua distribuição livre ou
complementar. Por fonologia, entende-se o estudo do conjunto de funções dos
sons das línguas humanas com mais espaço para a abstração na distinção do
fonema e distribuição de suas variantes. Uma é mais extensa do que a outra,
mas os princípios básicos do estruturalismo linguístico, nome com que se
identifica a primeira fase da linguística sincrônica, estão presentes em ambas.
A primeira publicação de Edward Sapir, Language, an Introduction to the
Study of Speech, foi traduzida por Mattoso Camara Jr., o qual também organi-
zou Linguística como ciência, uma seleção de artigos de Sapir.
Sapir (1884-1939), de origem alemã, viveu nos Estados Unidos desde os
5 anos. Ao lado de Bloomfield, iniciou a fonologia americana, referida como
fonêmica, inicialmente voltada para os estudos de línguas indígenas. Sapir
deixou importantes descrições que até hoje são referências em abordagens
modernas. Adepto da mesma concepção antropológica de Bloomfield, ele tem
uma visão mais ampla da linguística, vendo-a não só ligada à cultura do povo,
mas à perspectiva filosófica e psicológica, o lado que o aproxima da fonologia
do Círculo de Praga.
Em um de seus artigos, “Os padrões sônicos da linguagem”, incluído em
Linguística como ciência, mostra que os sons que constituem um sistema e
os processos que sofrem, como, por exemplo, o umlaut ou a palatalização de
uma consoante diante de /i/, não podem ser entendidos em termos puramen-
te mecânicos, pois existe uma diferença entre som isolado e som linguístico.
Exemplifica com o ato de assoprar uma vela, um ato diretamente funcional,
e o som de wh do inglês, um w surdo (com aspiração ou sem aspiração), em
palavras como when, na pronúncia americana. Esse último é um elo na cons-
trução de um símbolo que não é meramente um som, mas é, sobretudo, o
indício de uma função simbólica que não se realiza por si só. Na época, havia
grande preocupação em distinguir o som linguístico do não linguístico, assim
como fonética de fonologia, pois até então os estudos de línguas eram feitos
tão somente com base da fonética.
No livro supracitado, Sapir fala em padrões fonéticos, com exemplos de
várias línguas, para referir-se a um sistema de fonemas com suas variantes
livres e condicionadas, levantados na base da comutação e de associações

Fonologia
49
múltiplas. Sapir e Bloomfield são os iniciadores não só da fonologia, mas da
linguística americana.
Ensaios de linguística geral, de Roman Jakobson, é, entre nós, a mais co-
nhecida de sua imensa obra. Sua divulgação se deve à tradução francesa de
Nicolas Ruvet, Essais de linguistique générale. Jakobson nasceu em Moscou
em 1896. Depois de muitas atividades de relevo em seu país, na área da lin-
guística, onde fundou o Círculo Linguístico de Moscou, a revolução e duas
guerras levaram-no a peregrinar por diferentes países escandinavos, e fundar
o já referido Círculo Linguístico de Praga, com Trubetzkoy e Mathesius, na
intenção firme de mostrar a importância do estudo dos sistemas de signos,
na linha de Saussure. Mais tarde, fixa-se nos Estados Unidos, Nova York, sua
última morada. Amigo de Mattoso Camara, visitou o Brasil no final da déca-
da de 1960, brindando o Rio de Janeiro com conferências, uma das quais no
Museu Nacional.
A grande contribuição de Jakobson está no estudo do traço distintivo
para definir o que se entende por qualidades distintivas estritamente rela-
cionais. Um exemplo que se pode citar para esclarecimento é o da classe uni-
versal das oclusivas (p, t, k), que opõem pares pelo vozeamento, distinguindo
dessa forma, por exemplo, /p/ de /b/ Todavia, outras oposições estão implí-
citas nessa classe, pois há línguas que, ao invés de valerem-se da dimensão
de vozeamento, valem-se, para a organização de seu sistema, da dimensão
acústica, compacto versus difuso, ficando, por exemplo, apenas com as não
compactas /p, t/. Tais sistemas distinguem /p/ de / t/, por grave versus agu-
do. Outras línguas que têm oclusivas e fricativas somente surdas podem, por
sua vez, opor as labiais /p, f/ a todo o resto. Neste caso, a dimensão acústica
“estridente” separa /f/ de /p/, quando todas as contínuas forem estridentes,
como ocorre em muitas línguas. O ponto importante a ser assinalado é que
um traço não se define somente por sua posição relativa a uma dada proprie-
dade (traço), mas a muitas outras.
A Jakobson se deve também a introdução do traço redundante. Traço
redundante não significa supérfluo, pois o redundante é indispensável na co-
municação. A noção de redundância funcional tem por objetivo separar o pa-
pel dos traços distintivos do papel dos traços redundantes. Os primeiros são
expressivamente ativos no sistema, isto é, na estrutura subjacente, enquanto
os segundos são ativos na fala, isto é, na estrutura de superfície, pois refor-
çam os traços pertinentes, ao tornarem os segmentos mais robustos.
Vale notar que Jakobson, ao explorar amplamente o estudo de traços
fonológicos, abriu caminho para o modelo gerativo que, com Chomsky e Hal-

50 Leda Bisol
le (1968), em The Sound Pattern of English, abandona o conceito de fonema
para pôr em foco uma teoria exclusiva de traços distintivos e redundantes,
os quais oferecem os elementos para a elaboração de regras que, a partir de
estruturas subjacentes, geram estruturas de superfície. As portas se abrem
para novas investidas.
Toda a história da fonologia é tecida de caminhos que se sucedem
ininterruptamente: A fonologia dos primeiros tempos com duas vertentes,
a da Europa e a dos Estados Unidos, abre o caminho para o gerativismo de
Chomsky e Halle, que avança paulatinamente para as teorias não lineares,
fonologia métrica, fonologia autossegmental, fonologia lexical e vem, atual-
mente, tomando a feição da teoria da otimidade. Em uma e outra fase, muitas
vozes se fizeram ouvir e novas conquistas emergiram. Isso foge, porém, da
questão em pauta, restrita aos fundadores da fonologia.
Mas o tema, origem da fonologia, aqui não se esgota, pois a fonte mais
antiga da fonologia está em tempos muito longínquos, precedentes aos da voz
dos herdeiros de Saussure. Está no século IV a.C., na Gramática do sânscrito,
escrita por Pānini com base na linguagem coloquial de seu tempo. Regras de
juntura interna e externa foram pela primeira vez descritas nessa gramática,
sob o nome de sândi, nome que passou a ser incorporado à teoria fonoló-
gica. Regras que dizem respeito ao apagamento ou acréscimo de segmentos
são descritas de forma muito complexa para sua época, merecendo por essa
razão edições explicativas. É o documento mais antigo de que se tem conhe-
cimento de organização de uma gramática, entendida como sintaxe, morfolo-
gia verbal e nominal e descrição de sons. Certas regras e princípios da teoria
fonológica aí têm espaço e forma.

Como você vê o avanço da teoria fonológica de base gerativa nos últimos


anos? Ela contribui efetivamente para o caráter explicativo da linguagem
ou ainda está muito circunscrita à descrição?
Bisol — Em boas análises, descrição e explicação andam juntas. No entanto,
é digno de nota que a gramática gerativa teve e tem por meta a explicação,
uma vez que a língua passa a ser entendida como uma faculdade do ser hu-
mano. A partir de um modelo que se fundamenta no racionalismo cartesia-
no, inicia-se um procedimento de análise sincrônica muito interessante que,
em seus primeiros tempos, todavia, foi motivo de muita discussão, pois não
raro o analista se satisfazia com frases criadas e testadas apenas na intuição
do falante, sem olhar para o dado real. A consequência é uma análise que

Fonologia
51
não alcança explicar aparentes fatos de exceção senão com o alto custo de
abstrações subjacentes absurdas. Felizmente, na década de 1970, linguistas
começam a discutir quão profunda pode ser uma estrutura profunda com
consequências positivas, especialmente para a fonologia, pois em (1973), Ki-
parsky, como gerativista, estipula a condição de alternância, segundo a qual
o nível máximo de abstração de uma estrutura profunda é o nível fonêmico.
E então prossegue a fonologia na trilha gerativista em busca das descrições
explicativas, com base em Chomsky e Halle (1968), mas via observação de da-
dos, dando margens ao surgimento de diferentes modelos não lineares, todos
compatíveis: geometria de traços, fonologia métrica, fonologia prosódica, fo-
nologia lexical. É evidente que, com recursos de análise cada vez mais ricos,
o nível explicativo torna-se cada vez mais acessível, mas a descrição e a ex-
plicação, assim como a observação do dado real, na fonologia, andam sempre
de mãos dadas.

A teoria da otimidade parece ter conquistado lugar permanente na pesqui-


sa em fonologia. Como a senhora avalia o modelo?
Bisol — Embora a teoria da otimidade tenha começado na fonologia com
Prince e Smolensky (1993) e McCarthy e Prince (1993), o modelo proposto é
um instrumento de análise para qualquer área da gramática. Na fonologia,
vem conquistando um grande número de adeptos. É uma teoria de base ge-
rativa, extremamente cativante, que deixa de lado regras e derivação para
privilegiar princípios que se denominam “constraints”, em português “res-
trições”. Princípios universais sem os quais nenhuma gramática das línguas
dos homens se constrói não estão em jogo; tão somente princípios univer-
sais violáveis, cuja satisfação ou não permite fazer distinção entre línguas.
São esses classificados em três tipos, restrições (constraints) de fidelidade, de
marcação e de alinhamento, disponíveis para a construção de gramáticas par-
ticulares. As restrições de fidelidade estabelecem a relação input-output, as
de marcação cobram a boa-formação do output sem olhar para o input e as de
alinhamento olham para relações entre categorias, como, por exemplo, entre
uma categoria morfológica e uma categoria prosódica. O ponto central está
na gramática, definida pela hierarquização de um conjunto de restrições, em
que toda restrição no alto da hierarquia tem um poder muito grande sobre
as restrições mais baixas. Isso se chama ordenamento harmônico, definido
em termos do teorema de Pānini (gramática do sânscrito), segundo o qual a
restrição mais específica deve dominar a mais geral, a fim de que seus efeitos

52 Leda Bisol
fiquem visíveis. Esse teorema serviu de base a Kiparsky (1973) para estabe-
lecer, no modelo gerativo anterior à otimidade, o princípio conhecido como
“Elsewhere Condition”, segundo o qual a regra mais restrita tem prioridade
de aplicação sobre a mais geral. Cito esse princípio como um exemplo de que
a teoria fonológica foi se construindo através dos tempos, sedimentando no
passado suas conquistas mais atuais.
A teoria da otimidade, que vem produzindo inúmeros artigos e teses,
enfrenta também muitos desafios, o primeiro dos quais relacionado à supo-
sição de inputs universais, uma vez que a variação entre línguas é definida
por diferentes conjuntos de restrições hierarquizadas, portanto, definida
pela gramática, não pelo léxico, embora esse seja sempre respeitado. Com a
otimização lexical, que, como corolário, veio determinar que, diante de inputs
diferentes para o mesmo output, deve ser escolhido aquele que incorrer em
menos violações, a questão parece resolvida, embora ainda venha sendo mo-
tivo de discussão. Há ainda o problema da variação ou mudança linguística,
um desafio para uma gramática que escolhe, entre vários candidatos, apenas
o candidato ótimo. Por outro lado, há duas questões ainda à espera de maio-
res esclarecimentos: a função de gen, cuja propriedade de criar candidatos
linguísticos a partir de um input não está de todo esclarecida e, finalmente, o
campo aparentemente muito extenso das restrições ou princípios violáveis à
espera de uma condição controladora.
Mas é inegável que a teoria da otimidade mais centralizada no output do
que no input vem contribuindo de forma expressiva para explicar o fato lin-
guístico, sobretudo por fundamentar-se na ideia de que todas as gramáticas
particulares são manifestações da gramática universal, distinguindo-se uma
da outra pela hierarquização dos princípios violáveis.

A fonologia é reconhecida por alguns como uma das áreas da linguística


menos atendidas nas universidades brasileiras, o que acaba resultando na
formação de poucos fonólogos. Essa situação é típica de nossa realidade ou
ocorre em outros países? A que você atribui o fato?
Bisol — De modo geral, o número de estudantes que buscam a “hard linguis-
tic” tem diminuído tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, por questões
ligadas ao mercado de trabalho. Um exemplo é o professor Ben Hermans, um
fonólogo de renome que viu sua universidade, na Holanda, fechar-lhe as por-
tas porque a fonologia saía do programa. Ben Hermans hoje está ligado a um
centro de pesquisa, altamente credenciado, mas não leciona.

Fonologia
53
No Brasil, o panorama é diferente. Fonólogos estão sendo solicitados por
diferentes universidades do País, pois apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Mi-
nas Gerais e Rio Grande do Sul privilegiam a teoria fonológica, situando-a
junto às áreas principais do programa.
Em meu entender, contudo, a razão principal desse vazio está no curso
de graduação que, com raras exceções, vem descurando da fonologia, deixan-
do-lhe um espaço mínimo no programa ou ignorando-a de todo, assim como
a fonética, um rico instrumento de aprendizagem dos sons da fala que, junto
à fonologia, ajuda a entender falhas no processo de aprendizagem da escrita,
com reflexos na escrita dos primeiros anos escolares, assim como problemas
na aquisição da fala. Os alunos, de modo geral, não saem preparados para es-
tudos fonológicos, em outros termos, não são motivados para a escolha desse
caminho em seus cursos de especialização.
Voltando ao mercado de trabalho, saliento que, apesar de não termos a
tradição da pesquisa, como Europa e Estados Unidos, o mercado ainda está
aberto para fonólogos no País, desde que os candidatos se prontifiquem a sair
de seu torrão natal.

54 Leda Bisol
Fraseologia1
Carmen Mellado Blanco

A fraseologia é uma área estabelecida ao longo dos anos, e isso se deve


principalmente aos estudos desenvolvidos em diferentes países. No entan-
to, existem várias opiniões sobre sua condição, sobre seu status. Alguns
acreditam que a fraseologia é um ramo da linguística, outros a afirmam
como uma área da lexicologia e outros acreditam tratar-se de uma disci-
plina autônoma. O que você poderia nos dizer a respeito disso?
Blanco — Certamente a fraseologia é um âmbito de estudo que tem obtido
reconhecimento na maioria das línguas europeias durante as três últimas
décadas; na Espanha, especialmente nos últimos vinte anos. Não é um fato
isolado, mas está em sintonia com o crescente interesse em linguística, de-
senvolvido a partir dos anos 1990 pela língua falada, pela semântica cognitiva
e por aspectos pragmáticos da comunicação. Esses três elementos constituem
três pilares nos quais se fundamentam os estudos fraseológicos, uma vez que
grande parte das unidades fraseológicas é empregada primordialmente na
oralidade, tem uma semântica figurada e está, além disso, vinculada a condi-
ções de uso particulares, em especial as fórmulas rotineiras.
No entanto, apesar do empenho de todos nós que nos dedicamos à pes-
quisa das unidades fraseológicas, a fraseologia, na Espanha, segue sendo um
apêndice da lexicologia e não se considera que possua peso suficiente para
constituir uma disciplina autônoma. Isso é um erro, pois a fraseologia deve
ser analisada de maneira diferente da dos lexemas simples. Sua condição plu-
rimembre lhe dá, certamente, um significado e um comportamento discursi-
vo especiais. Não é o fato de serem cadeias formadas por vários constituintes,
mas as propriedades semânticas e pragmáticas que daí resultam, o que faz
com que as unidades fraseológicas sejam entidades diferentes que merecem
ser estudadas em uma disciplina independente.

1
Entrevista publicada em agosto de 2017, originalmente em espanhol, e conduzida por Maria Luisa Ortiz
Alvarez. Trad.: Mônica Rigo Ayres; revisão técnica: Gabriel de Ávila Othero.

Fraseologia
55
Segundo seu ponto de vista, a fraseologia no século XX teve um auge extra-
ordinário devido às contribuições das escolas russa e alemã?
Blanco — Sim, foram linguistas da antiga União Soviética que começaram a
se interessar pela fraseologia e seu tratamento lexicográfico a partir dos anos
1940 (V. V. Vinogradov). Ela deve ser entendida no contexto do auge da pesquisa
linguística nesse país. Anos depois, a partir da década de 1970, alguns linguis-
tas alemães da extinta República Democrática da Alemanha que dominavam
o russo, como J. Häusermann e, especialmente, W. Fleischer, atuaram como
intermediários entre a pesquisa soviética e a europeia ocidental, escrevendo
as obras-chave em alemão. Germanistas russos também se interessaram pela
fraseologia da Alemanha desde os anos 1970, em especial I. Černyševa, e con-
tribuíram enormemente para o avanço das pesquisas fraseológicas do alemão.
Essas pesquisas, juntamente com as do russo, dominaram o panorama euro-
peu até o fim do século XX. Não podemos esquecer os estudos pioneiros dos
anglo-saxões, ainda que seu ponto de vista estivesse, desde o princípio, mais
focado nas colocações e na combinatória dos lexemas, e não tanto em aspectos
teóricos, como classificatórios ou terminológicos. Por fim, gostaria de prestar
homenagem a duas compatriotas suas, muito conhecedoras da língua russa.
Refiro-me às fraseólogas cubanas Antonia Maria Tristá Pérez e Zoila Victoria
Carneado Moré, cuja contribuição para a fraseologia do espanhol nas décadas
de 1980 e 1990 foi especialmente significativa por sua moderníssima visão da
linguística e da lexicologia. Elas foram as primeiras a formular a necessidade
de interpretar as unidades fraseológicas em seu contexto, a reconhecer mode-
los semântico-estruturais e a lançar as bases da fraseografia moderna.

Quais são as atuais tendências nos estudos fraseológicos? Estão de acordo


com as demandas do mundo contemporâneo?
Blanco — Esta é uma pergunta complicada. A língua é, como todos sabemos,
parte fundamental da existência humana, mas também somos conscientes de
que os estudos humanísticos estão bastante desacreditados na nossa socie-
dade ocidental, que parece se interessar apenas por áreas do conhecimento
relacionadas às ciências econômicas, naturais e experimentais. A chave está,
talvez, precisamente nisso, em saber transmitir à sociedade a importância da
competência fraseológica nas línguas, e se acessa o conhecimento e a descri-
ção dessa competência fundamentalmente através dos corpora. Saber se ex-
pressar de maneira idiomática, seja na língua materna, seja em uma segunda

56 Carmen Mellado Blanco


ao discurso e reforça nossas estratégias comunicativas, o que é útil em todos
os âmbitos da vida, não só no âmbito acadêmico da linguística.

A linguística de corpus tem desempenhado um papel importante na recu-


peração de unidades fraseológicas em contexto?
Blanco — Efetivamente, a análise de corpus permite ver, estudar e compre-
ender o comportamento das unidades fraseológicas no discurso, ajudando
assim a descrever a competência fraseológica em cada língua. Hoje em dia,
tende-se a trabalhar com grandes corpora, de milhões de tokens, para alcan-
çar resultados mais representativos. Além disso, é conveniente especificar
esses resultados em função dos gêneros textuais, já que tipologia e volume
de fraseologismos nos corpora estão bastante vinculados ao tipo de texto em
que aparecem.
A linguística de corpus se transformou, não somente para a fraseologia,
mas também para as disciplinas linguísticas em geral, em uma ferramenta
totalmente imprescindível porque parte de textos reais e não da intuição do
linguista, que era a prática comum (introspecção) nos estudos linguísticos
europeus até praticamente o final do século XX.

As unidades e os enunciados fraseológicos são reflexo das línguas de cul-


tura das diferentes comunidades sociolinguísticas. Qual é a importância
de seu conhecimento e seu uso para a tradução e para a comunicação
intercultural?
Blanco — Grande parte do fluxo fraseológico das línguas se nutre de ima-
gens, tradições, anedotas e fatos históricos específicos dessa comunidade
linguística. Assim, uma frase em espanhol como “Esto dura más que las
obras de la Sagrada Familia” pode despertar a curiosidade de um estran-
geiro que estuda o espanhol, que vai querer saber que obra é essa da Sagra-
da Família, onde está situada (Barcelona) e por que está sendo usada como
exemplo para expressar que uma obra demora muito para ser concluída.
Conhecer esse tipo de fraseologia nos ajuda, sem dúvida, a conhecer mais a
cultura da língua estrangeira, mas não só isso. Também a abordagem ono-
masiológica na fraseologia, por exemplo, no âmbito das comparações este-
reotipadas, destaca quais temas ocupam e/ou preocupam cada povo. Nessa
linha, o estudo que conduzi há uns anos (em 2010) mostrou, por exemplo,
que em alemão há muitas comparações fraseológicas em torno da grosseria

Fraseologia
57
(ser mais grosseiro que…), um tema que nas comparações fraseológicas do
espanhol é inexistente, enquanto nesse idioma a feiura (mais feio que…) é a
temática de muitas comparações, e isso acontece em um grau muito maior
que em alemão. De todo modo, é preciso prudência com esses estudos de
binômio “língua-cultura” e com as conclusões que se podem extrair deles,
pois, às vezes, a relação entre língua e cultura não é tão direta quanto pare-
ce. O fato de que, para seguir com o mesmo exemplo, as comparações estere-
otipadas em alemão com a palavra “feio” (hässlich) não sejam tão frequentes
proporcionalmente como em espanhol não significa necessariamente que
esse tema não tenha importância para os alemães…
Sobre a segunda parte da pergunta, é evidente que, para poder traduzir
um texto da língua a para a língua b, é necessário, em primeiro lugar, reco-
nhecer como tais as expressões fraseológicas que aparecem na língua a. Se
não houver o reconhecimento dessas estruturas, não haverá compreensão do
texto, e, por isso, o texto na língua b será errôneo por não transmitir o sentido
da língua original.
Para a comunicação intercultural, as fórmulas rotineiras de interação so-
cial são especialmente importantes, pois são as que permitem nos adaptar e
reproduzir os usos e as normas sociais da língua estrangeira. Devemos saber
qual expressão utilizar para agradecer um favor, para oferecer condolências,
para desejar boa sorte, para felicitar alguém, para nos desculpar por chegar
tarde etc. E todas essas expressões estão ritualizadas e fixadas na língua.

Que desafios ainda temos pela frente e como poderíamos enfrentá-los


para fortalecer ainda mais os estudos fraseológicos, paremiológicos e
fraseográficos?
Blanco — O principal desafio é o estudo da língua oral. Grande parte de nossos
enunciados na comunicação oral não são “produzidos”, mas “reproduzidos”,
ou seja, em uma alta porcentagem o que falamos é discurso pré-fabricado
(fraseologia). Comentei que a análise da fraseologia deve ser realizada através
de textos; o problema é que os corpora são constituídos, em sua maioria, por
textos de produção escrita — e não de produção oral. Esse fato dificulta o
desenvolvimento da fraseologia porque faz com que muitas unidades e esque-
mas fraseológicos sejam excluídos por não aparecerem na escrita. O desafio
é, realmente, desenvolver uma metodologia adequada que permita criar uma
maior quantidade de corpora de língua falada e espontânea, para assim po-
dermos coletar e descrever as unidades fraseológicas nos dicionários.

58 Carmen Mellado Blanco


Você acabou de lançar Discurso repetido y fraseología textual español y
español-alemán, em coautoria com Katrín Berty e Inés Olza. Poderia des-
crever quais são os principais aspectos abordados no livro?
Blanco — O livro consiste em três blocos, um dedicado basicamente a ques-
tões tradutológicas e contrastivas da fraseologia, outro a aspectos discursivos
(por exemplo, o uso de unidades fraseológicas nos talk shows, nos jornais ou
em obras literárias) e um terceiro bloco dedicado aos esquemas fraseológicos,
ou seja, às estruturas formadas por constituintes fixos e outros que são slots
atualizáveis no discurso, cujo significado global permanece constante. Um
exemplo de esquema fraseológico ecoico em espanhol seria [¡Ni X ni narices!],
como refutação de um enunciado anterior no qual já aparecia o constituinte
X. Por sua temática, trata-se de uma obra bastante inovadora e espero que
também inspiradora de trabalhos futuros em outras línguas diferentes do es-
panhol e do alemão.

Você publicou a obra La fraseología del siglo XXI. Nuevas propuestas para
el español y el alemán. Em seu ponto de vista, quais são as necessidades
mais urgentes, os principais desafios nesse domínio (a fraseologia e a pa-
remiologia) no século XXI?
Blanco — As necessidades mais urgentes são, em primeiro lugar, reconhe-
cer a importância da competência fraseológica dentro do ensino das línguas
estrangeiras, o que até agora tem sido muito negligenciado na maioria das
línguas. Em segundo lugar, é necessário abordar o estudo da fraseologia e
da paremiologia com um enfoque semântico e pragmático, em sintonia com
a semântica cognitiva, a linguística de corpus e a gramática de construções.
Até pouco tempo, a pesquisa fraseológica estava centrada na morfologia e nas
classificações das unidades fraseológicas — na paremiologia, prevalecia um
interesse compilatório e não tanto linguístico. Acredito que já está na hora de
adequar as pesquisas fraseo-pareminológicas às tendências e aos aperfeiçoa-
mentos linguísticos do momento.

Quais são seus interesses de pesquisa nesse momento? Em que está traba-
lhando especificamente?
Blanco — Nesse momento, em nossa equipe FRASEPAL, estamos condu-
zindo uma pesquisa bastante completa sobre esquemas fraseológicos e a
combinatória das unidades fraseológicas do alemão e do espanhol, em cor-

Fraseologia
59
pora de ambas as línguas. Trata-se de um projeto de pesquisa interuniver-
sitário, em colaboração com o Institut für Deutsche Sprache de Mannheim,
pioneiro em linguística de corpus na Alemanha. Nossa ideia para o futuro
é ampliar o número de línguas estudadas e implementar os resultados em
um dicionário multilíngue online de esquemas fraseológicos. Como grupo,
já temos experiência lexicográfica e fraseográfica, pois em 2013 publica-
mos nosso dicionário bilíngue alemão-espanhol, Idiomatik Deutsch-Spanis-
ch, pela editora Buske (Hamburgo), com 35.000 entradas e mais de 1.200
páginas, absolutamente pioneiro por seu volume no âmbito da fraseologia
do alemão e do espanhol. Dessa vez, queremos nos centrar somente nos
esquemas fraseológicos, que até agora aparecem apenas nos dicionários
por serem difíceis de identificar e lematizar. O dicionário é planejado para
publicação digital.

Nas primeiras etapas dos estudos fraseológicos, encontramos a delimita-


ção do objeto da fraseologia, a definição e a classificação das unidades de
análise. Essa ideia ainda continua sendo importante?
Blanco — O objeto de estudo da fraseologia, a delimitação de seus elemen-
tos adjacentes (como nos compostos sintagmáticos), assim como sua clas-
sificação, seguem sendo questões sem resolução na pesquisa fraseológica.
A tendência atual é converter qualquer combinação usual de duas ou mais
palavras em fraseologia, independentemente de sua idiomaticidade e de cri-
térios de fixação. Assim, uma combinação de palavras como café com leite
seria uma unidade fraseológica por ser muito usual e aparecer recorrente-
mente em corpora.
Pessoalmente, tenho a impressão de que atualmente o status e a iden-
tificação dos critérios da categoria “fraseologismo” estão menos claros do
que estavam há alguns anos, devido ao desenvolvimento e a preponderância
da linguística de corpus, que, como disciplina, provocou a visão estática das
categorias linguísticas que tínhamos. Também a separação entre gramática
e léxico está desaparecendo e a tendência atual é uma análise abrangente
das unidades linguísticas, sem levar em conta tal diferenciação. De qualquer
forma, creio que essas mudanças não devem nos desanimar; pelo contrário,
são positivas para a fraseologia, já que o que importa realmente é a descrição
léxico-gramatical dos fraseologismos, assim como seu comportamento dis-
cursivo, independentemente de seu rótulo formal. É igualmente importante
ter em mente que as unidades do sistema formam um continuum em todos os

60 Carmen Mellado Blanco


níveis: morfológico, lexical, semântico, pragmático, discursivo etc., ou seja,
não representam categorias fechadas.

Gostaria de deixar uma mensagem aos fraseólogos brasileiros?


Blanco — Como indiquei há alguns anos no prefácio de seu maravilhoso li-
vro, Uma (re)visão da teoria e da pesquisa fraseológicas (2011), a fraseologia
do Brasil está vivendo um momento verdadeiramente doce. Isso se deve, em
grande parte, à longa lista de linguistas, em sua maioria mulheres, que estão
conduzindo pesquisas profundas sobre as unidades fraseológicas a partir de
diferentes âmbitos: a linguística cognitiva, a linguística de corpus, as lingua-
gens especializadas (por exemplo, a fraseologia jurídica), a lexicografia. Essa
atividade gigantesca resultou em uma produção ampla de livros e artigos que
colocam o português brasileiro em um nível muito próximo ao de outras lín-
guas que têm mais tempo de tradição no estudo da fraseologia, como o ale-
mão e o inglês. Além disso, vale mencionar que há, no Brasil, há muitos anos,
a Associação Brasileira de Fraseologia e Paremiologia, criada por Maria Luisa
Ortiz. Nesse terreno fértil, foram organizados, desde 2010, três congressos
internacionais (Brasília, Fortaleza e São José do Rio Preto), dos quais parti-
ciparam as maiores personalidades internacionais do âmbito da fraseologia.
Por tudo isso, meus mais sinceros parabéns ao Brasil e a seus pesquisadores
e pesquisadoras de fraseologia e paremiologia. Sem dúvida, dispõem de bases
bastante firmes para continuar avançando e contribuindo com o desenvolvi-
mento científico dessa disciplina em todo o mundo.

Fraseologia
61
Fraseologia1
Gloria Corpas Pastor

A fraseologia é uma área consolidada nos últimos anos, principalmente,


devido aos estudos desenvolvidos em diferentes países. No entanto, ain-
da existem várias opiniões acerca da sua condição, de seu status. Alguns
acreditam que a fraseologia é um ramo da linguística, outros a consideram
um ramo da lexicologia, alguns acreditam tratar-se de disciplina autôno-
ma. O que você pode nos dizer sobre isso?
Corpas — A fraseologia é considerada tradicionalmente um ramo da linguís-
tica, concretamente uma subdisciplina da lexicologia. Também se estudou
a fraseologia a partir da etnolinguística, especialmente no que se refere à
paremiologia (os provérbios são considerados um repositório de sabedoria
popular, cf. o folclore popular). Desde finais da década de 1990, porém, muito
especialmente desde o início do século XXI, a fraseologia experimentou um
auge, a tal ponto que já se pode considerar uma disciplina autônoma e inde-
pendente, que desenvolveu um aparato teórico próprio e interdisciplinar.

A fraseologia no século XX teve um auge extraordinário devido aos apor-


tes da escola russa?
Corpas — A escola russa (quer dizer, da antiga União Soviética) teve muita influ-
ência no desenvolvimento da fraseologia contemporânea. Seu principal foco de
influência pode ser notado na escola alemã e na cubana. No entanto, o século
XXI assistiu ao desenvolvimento fervoroso das teorias alemãs e do restante de
estudos continentais: especialmente a fraseologia espanhola, que influenciou
notavelmente a italiana e a portuguesa; e a fraseologia francesa, que anda pelos
caminhos da lexicogrammaire. Nesse sentido, ela se aproxima dos postulados

1
Entrevista publicada em agosto de 2017, originalmente em espanhol, e conduzida por Maria Luisa Ortiz
Alvarez. Trad.: Ana Carolina Spinelli. Revisão técnica: Gabriel de Ávila Othero.

62 Gloria Corpas Pastor


da fraseologia britânica, de base sistêmico-funcional, e na qual o princípio de
idiomaticidade e a semântica léxica ocupam um lugar privilegiado.

Quais são as tendências atuais nos estudos fraseológicos? Eles estão em


consonância com as demandas do mundo contemporâneo?
Corpas — Atualmente a fraseologia está tomando um caminho interdiscipli-
nar muito interessante. Uma vez que já se estabeleceram o quadro conceitual
de base e as tipologias de unidades mais aceitas e depois de a disciplina ha-
ver alcançado a “maioridade”, se exploram novos horizontes que permitirão
um enriquecimento e uma projeção ainda maiores. Nesse sentido, convém
destacar vários aspectos que marcam os avanços atuais: os estudos contras-
tivos e de tradução, a gramática de construções, os estudos cognitivos e psi-
colinguísticos e as aplicações da linguística de corpus e do processamento de
linguagem natural.

A linguística de corpus teve um papel importante na recuperação de uni-


dades fraseológicas em contexto?
Corpas — A linguística de corpus possibilitou uma mudança radical nos es-
tudos de base linguística em geral. Estamos diante de um novo paradigma
que vem transformando a pesquisa em todos os âmbitos. E a fraseologia
não é uma exceção. Atualmente assistimos a uma proliferação dos estudos
de fraseologia (monolíngue ou em contraste) baseados em corpus. Seja para
exemplificar teorias ou para extrair novas premissas e resultados, o manejo
de corpus para o estudo da fraseologia se converteu em condição sine qua non.
As unidades fraseológicas representam o uso vivo da linguagem e, portanto,
requerem um conjunto de dados representativos que só os corpora podem
proporcionar. O futuro está na análise de corpora de enormes proporções (big
data) e na sensibilidade à variação linguística.

As unidades e enunciados fraseológicos são reflexo das línguas-culturas


das diferentes comunidades sociolinguísticas. Qual a importância do seu
conhecimento e uso para a tradução e para a comunicação intercultural?
Corpas — Na tradução, não se podem deixar espaços em branco. É necessário
ser valente… a competência fraseológica se situa no nível mais alto da com-
petência dos falantes. No caso do tradutor ou do intérprete, a fraseologia re-

Fraseologia
63
presenta um obstáculo importante porque precisa passar por vários filtros
(reconhecimento, compreensão no contexto e reverbalização). Nem sempre
o mediador cultural é bilíngue cultural, o que dificulta ainda mais a tradução
correta de unidades fraseológicas. Além disso, a especificidade cultural das
unidades fraseológicas é responsável por muitos casos de tradução exagera-
da (overtranslation, sobretraducción), tradução insuficiente (undertranslation,
infratraducción), simplificação ou “domesticação/aculturação” do texto-meta.

Quais desafios ainda existem na área e como eles poderiam ser enfrenta-
dos, de maneira a fortalecer ainda mais os estudos fraseológicos, paremio-
lógicos e fraseográficos?
Corpas — Ainda que a fraseologia tenha alcançado sua maturidade e já se
constitua como uma disciplina independente, os grandes desafios seguem
sendo em parte os mesmos de vinte anos atrás: a metafraseologia e os termos
que denotam os conceitos básicos e os principais tipos de unidades. Além
disso, o fato de continuarmos falando de “paremiologia” indica uma parada
nociva no passado e em épocas ateóricas.

Seu livro Manual de fraseología española, publicado em 1996, foi e ainda


é uma obra de referência internacional. Você imaginava que ele teria toda
essa repercussão, que se tornaria uma obra tão reconhecida?
Corpas — O meu Manual de fraseología española (1996) é só uma parte da
minha tese de doutorado (1994). O presidente da minha banca de defesa, o
germanista Emilio Lorenzo, me disse, ao começar o discurso: “Senhorita, eu
esperava ver uma mulher de 50 anos, pelo menos, por tudo o que você sabe,
e me encontro aqui com uma mocinha”. Eu, nesses momentos, não estava
consciente do que representaria o meu trabalho. Sabia apenas que havia es-
crito minha tese sozinha, sem nenhuma orientação, e que as minhas pernas
tremiam quando entrei na sala. Claro que eu estava consciente do quanto ha-
via trabalhado, numa época em que não havia internet nem se podia pegar
nada por meio de empréstimo interbibliotecário… a minha pesquisa me en-
cantava (e segue me encantando). Foram anos muito difíceis, de muito traba-
lho. Vinda de províncias menores, consegui defender minha tese em Madrid
(Universidad Complutense), nada menos que diante do pai da filologia anglo-
-germânica na Espanha; e nada menos que diante de meus pais, que estavam
muito orgulhosos de mim. E é isso que guardo, a emoção que arrebatava meu

64 Gloria Corpas Pastor


pai quando se referia a sua “menina”. O restante é coisa do destino e da aca-
demia, ambos muito caprichosos.

Quais são seus interesses de pesquisa neste momento? No que você traba-
lha especificamente?
Corpas — A fraseologia segue sendo uma das minhas linhas de pesquisa.
Comecei a pesquisar fraseologia movida pelo meu interesse genuíno pelas
colocações. Quando estava escrevendo minha tese, entendi que, para com-
preender todo o espectro de unidades relacionadas e a magnitude do fenô-
meno fraseológico, teria de pôr as mãos na massa, abarcar todas as unidades
e desenvolver uma teoria que desse conta de tudo. E foi isso que eu fiz. Atu-
almente sigo trabalhando com colocações, especialmente na perspectiva da
linguística de corpus, tradução e fraseografia. Outras linhas de pesquisa com-
plementares são a linguística de corpus, as tecnologias da tradução e inter-
pretação e a lexicografia multilíngue. Minhas publicações e projetos recentes
podem ser consultados na página do grupo de pesquisa que dirijo desde 1997:
Lexytrad (http://www.lexytrad.es).

Quais são as necessidades mais urgentes, os principais desafios nesse do-


mínio (da fraseologia e da paremiologia) no século XXI?
Corpas — Esta pregunta é muito interessante, porém difícil de responder. Em
primeiro lugar, é necessário entender que a “paremiologia” não é mais que
o estudo de uma parte da fraseologia. De fato, para poder seguir avançando
no estudo das parêmias, seria necessário integrar a pesquisa nas correntes
atuais de fraseologia. Sobre as necessidades mais urgentes, seria conveniente
acordar uma terminologia comum por parte de toda a comunidade científica,
primeiro monolíngue e depois multilíngue. Muitas vezes, o que nos impede
de avançar é a profusão terminológica (em grande medida, desnecessária).
Também é necessário fazer uma investigação de forma empírica, estatística
e com base quantitativa.

Você disse, em uma entrevista em 2015, que o futuro dos investigadores


passa pela criação de sinergias. Você poderia argumentar mais sobre
esse assunto?
Corpas — A palavra sinergia vem do grego e significa cooperação. O Dicionário
da RAE (Real Academia Española) oferece duas acepções: 1. f. Acción de dos

Fraseologia
65
o más causas cuyo efecto es superior a la suma de los efectos individuales. 2. f.
Biol. Concurso activo y concertado de varios órganos para realizar una función.
O conceito de sinergia é utilizado para denominar a ação de duas ou mais
causas que geram um efeito superior ao que se conseguiria com a soma dos
efeitos individuais; e a ação de dois órgãos que colaboram para realizar uma
função de forma necessária e exitosa. Visto dessa maneira, a sinergia seria
quase uma definição válida para unidade fraseológica (uf), onde o efeito glo-
bal das suas partes é superior à soma dos elementos individuais e onde todas
as partes integrantes são necessárias para o desempenho da função da uf. O
conceito de sinergia define também a cooperação necessária de diversas dis-
ciplinas e correntes que servem de base para o tipo de estudo interdisciplinar
que requer a pesquisa em fraseologia.

Nas primeiras etapas dos estudos fraseológicos, encontramos a delimita-


ção do objeto da fraseologia, a definição e a classificação das unidades de
análise. Você acredita que essa ideia ainda continua sendo importante?
Corpas — Esses aspectos seguem sendo centrais e cruciais para a pesquisa
fraseológica. A ampliação de línguas de estudo, correntes de investigação e
novos enfoques implicam necessariamente uma reflexão contínua das bases
das teorias fraseológicas atuais.

Que recado você deixaria para os fraseólogos brasileiros?


Corpas — Meu primeiro recado para os fraseólogos brasileiros é que se mante-
nham alertas às pesquisas que se fazem atualmente, especialmente no Velho
Continente, que é onde se desenvolvem os estudos mais atuais. Meu segundo
recado é que se mostrem especialmente atentos à variedade linguística do
português transnacional e, muito especialmente, à riqueza brasileira. Para
isso, são necessários corpora de grandes dimensões que contenham varieda-
des anotadas e identificadas adequadamente.

66 Gloria Corpas Pastor


Fraseologia e paremiologia1
Claudia Zavaglia

Como delimitar o campo de atuação da fraseologia e da paremiologia? Os


estudos na área são recentes ou apenas o enfoque se concentrou mais?
Zavaglia — Os estudos na área da fraseologia e da paremiologia não são re-
centes. Pelo contrário. E tudo o que se refere à história é sempre difícil de
se resgatar; nesse sentido, o primeiro texto de que tenho notícia publicado
no Brasil, no Rio de Janeiro, sobre o assunto é o de Perestrelo da Câmara, de
1848, intitulado Provérbios, adágios, rifãos, anexins, sentenças morais e idiotis-
mos da língua portuguesa.
Até a primeira década do século XX, a fraseologia (deixemos a paremiolo-
gia um pouco de lado neste momento) fazia parte da lexicologia, que por sua
vez vinculava-se à linguística aplicada, tendo como área maior de estudos a
linguística. Foi Charles Bally que estimulou os estudos da fraseologia como
disciplina, nesse momento histórico, quer dizer, deu o pontapé inicial para
que as unidades fraseológicas fossem vistas e entendidas como unidades de
sentido pela conjugação de todas as suas unidades e não uma a uma.
Em meados do século XX, na antiga União Soviética, os estudiosos come-
çaram a considerar a fraseologia como uma disciplina autônoma e não mais
como sendo uma subárea da lexicologia. Com efeito, iniciaram-se os estudos
dos modismos russos e das parêmias com Lomonósov, segundo Tristá Pérez.
Nos anos que se seguiram, vários estudiosos de diversos países se interessa-
ram pelos estudos da fraseologia, suas características, tais como a fixidez, a
idiomaticidade, entre outros. Saussure mencionou a existência de expressões
que não aceitavam modificações na língua e então Vinográdov iniciou os es-
tudos dessa disciplina de forma sistematizada.
As observações e os textos produzidos por Vinográdov foram difundi-
dos pela Europa por Alexander V. Isačenko, que, além de difundir a tipologia

1
Entrevista publicada em agosto de 2017 e conduzida por Guilherme Fromm.

Fraseologia e paremiologia
67
das expressões fraseológicas, observou também aquelas que eram equivalen-
tes a frases fixas e provérbios, chamadas por ele de clichés-phrases, segundo
Marušinová (2014). E foi nesse momento, ao que tudo indica, que o olhar tam-
bém se voltou para os estudos paremiológicos, o que talvez possa ter sido o
ponto inicial para o surgimento da paremiologia (voltando a ela então, aqui).
Dito isso, acredito numa retomada desses estudos, talvez com um enfo-
que mais delimitado, como suscita a questão, já que os trabalhos que tenho
visto na área estão preocupados em descrever determinado campo lexical
ou até mesmo um domínio específico, visto que a fraseologia (acredito que
a paremiologia não) também encontra expoentes em unidades fraseológicas
especializadas.
Tanto a fraseologia quanto a paremiologia possuem em comum o seu
objeto de estudo, ou seja, as unidades fraseológicas, sendo que a primeira se
debruça, mais comumente, sobre as expressões idiomáticas, locuções, frases
feitas e rotineiras e a segunda sobre os provérbios, aforismos, ditados, máxi-
mas, entre outros. Entretanto, nem sempre é fácil encontrar as linhas limí-
trofes que separam uma expressão idiomática de um provérbio, uma frase
feita de um ditado e assim por diante; de fato, elas são tênues e muitas vezes
se confundem. O ideal seria que os campos de atuação de uma e de outra área
convergissem e não divergissem. A meu ver, tudo é fraseologismo e como tal
deveriam ser entendidos, tratados, estudados e denominados.

Em relação à abordagem e/ou metodologia a serem desenvolvidos para le-


vantamento e tratamento de fraseologismos e/ou parêmias, o que você re-
comendaria para o pesquisador iniciante que esteja começando os estudos
na área?
Zavaglia — Antes de mais nada, que leia e se inteire dos estudos lexicológicos,
como ponto de partida, pois ninguém poderá se lançar na fraseologia e/ou
paremiologia sem ter a noção básica do que é léxico, palavra, lexia, lexema,
sistema linguístico, norma, cultura, morfologia, semântica etc. Em segundo
lugar, que busque os expoentes da literatura das duas áreas e também os leia.
Isso é o básico para qualquer iniciante.
Se, por outro lado, o iniciante passar a ser pesquisador, aí sim ele deverá
se interessar sobre qual abordagem gostará de aplicar em seu trabalho com
os fraseologismos e, a partir dela, qual o tipo de metodologia a ser usado.
Nos últimos anos, tenho visto alguns trabalhos seguindo a abordagem
discursiva, ou seja, o ensino de fraseologismos em sala de aula, também de-

68 Claudia Zavaglia
nominado de fraseodidática. Trata-se, em sua maioria, de dissertações ou
teses propondo novas propostas de ensino, principalmente de expressões
idiomáticas que objetivam levar o aluno a identificá-las bem e decodificá-las
no texto. Em geral, esse tipo de atividade é negligenciado nos livros didáticos
adotados e os professores se esforçam em produzir, em paralelo, material ex-
tra sobre o argumento.
Os estudos fraseológicos têm se aliado cada vez mais à linguística de
corpus, principalmente no que diz respeito ao levantamento das unidades
fraseológicas em grandes corpora, uma vez que um corpus possui uma gran-
de quantidade de ocorrências de palavras e é por meio do levantamento de
concordâncias dessas unidades lexicais com outras que surgem os padrões
lexicais e gramaticais que se tornam frequentes pela repetição que aparecem
nos textos ali presentes. A partir desses padrões, é possível que se identifi-
quem locuções, expressões idiomáticas, colocações.

Como você vê a questão de inserção de parêmias e fraseologismos nas ma-


cro- e microestruturas nos dicionários gerais de línguas? Há a necessidade
de obras específicas para esses dois tipos de estudos lexicais ou a inclusão
dos mesmos em obras tradicionais é factível?
Zavaglia — Essa é uma questão bastante delicada na lexicografia moderna e,
a meu ver, bastante importante, já que os fraseologismos não têm uma posi-
ção fixa em dicionários gerais monolíngues, sejam eles locuções, expressões
idiomáticas ou provérbios. A tradição lexicográfica no Brasil registrou, até
meados do século XXI, essas unidades lexicais na microestrutura do verbe-
te, sendo a subentrada o lugar preferido para elas, e excepcionalmente na
macroestrutura, quando o lema era alguma expressão, por vezes, em latim.
Exemplo do que digo é a última publicação do Dicionário Houaiss Eletrônico,
que data de 2009, em que as únicas unidades lexicais com mais de dois itens
sem hífen, salvo maior juízo, em sua nomenclatura são latinismos: ad judi-
cia, ad libitum, ad litem, ad litteram, ad majorem Dei gloriam, ad mensuram, ad
multos annos ou outros estrangeirismos, tais como: blue chip, blue jeans, cash
flow. As outras entradas com mais de dois itens lexicais são as compostas e
formadas por hífen, tais como: afro-brasileiro, boca-de-leão, castanha-do-pará.
O que se vê, portanto, é um dicionário moderno, em pleno século XXI, “viven-
do exatamente como seus pais”.
Por outro lado, observamos uma mudança em nossa lexicografia, a meu
ver, bastante positiva, quando dicionários como o Aurélio Eletrônico (2010) e

Fraseologia e paremiologia
69
o Caldas Aulete on-line inserem em suas macroestruturas a expressão maria
vai com as outras como entrada independente, categorizada como substanti-
vo de dois gêneros e de dois números, ao passo que no Houaiss, é registrada
como locução. O mesmo se observa com maré me leva maré me traz. O Dicio-
nário Aurélio (2010), em sua versão eletrônica, além de contemplar em sua
macroestrutura todo o tipo de entrada que o Houaiss traz, inovou e incluiu
entradas do tipo: menina dos olhos, mesinha de cabeceira, mesinha de centro,
obra de arte, nem sei que diga, entre várias outras.
Embora as entradas maria vai com as outras, maré me leva maré me traz,
nem sei que diga pareçam expressões idiomáticas, por exemplo, elas foram ca-
tegorizadas como substantivos. Isso demonstra que não houve, ainda, inser-
ção de expressões idiomáticas ou provérbios na macroestrutura do dicionário
Aurélio. De fato, essas unidades fraseológicas encontram-se na microestrutu-
ra do verbete, mais frequentemente como subentradas.
Em relação ao registro lexicográfico de parêmias, parece-me que cada
caso é um caso, como se fossem “tipos lexicais” distantes e díspares e que, por
isso mesmo, um tratamento diferenciado deve ser dado para cada um deles,
fato que não padroniza e torna disforme qualquer tipo de dicionário geral
em relação à inserção e à sistematização de suas unidades léxicas. Certo está
que um provérbio será inserido na microestrutura do verbete, mas de qual
entrada e em qual posição, será sempre um mistério.
Os fraseologismos devem ser incluídos em dicionários gerais de língua,
mas urge a necessidade de sistematizá-los para isso. Não estou dizendo que
deva haver “regras únicas” e que todos os dicionários devam segui-las. Tra-
ta-se de cada dicionário sistematizar seus fraseologismos e informar a seu
consulente a forma de inserção e de realização da busca. Com o avanço da
tecnologia, os dicionários on-line e eletrônicos não deveriam mais ter proble-
ma de espaço, como era então no passado com a impressão em papel. O maior
número possível de fraseologismos deveria ser incluído nos dicionários de
língua geral. Com o avanço também dos recursos computacionais, novos ex-
pedientes podem ser pensados para inseri-los na macroestrutura. Isso, sem
dúvida alguma, facilitaria sobremaneira a vida do consulente dessas obras de
referência.
Dicionários especiais são e serão sempre bem-vindos em qualquer le-
xicografia. Produzir dicionários específicos é uma maneira de enriquecer a
cultura lexicográfica de nosso país e de aprofundar estudos lexicais em de-
terminado campo lexical ou domínio do saber.

70 Claudia Zavaglia
Como você vê a possibilidade de publicação de obras plurilíngues volta-
das para parêmias e fraseologismos? Qual seria a melhor mídia de saída e
como elas podem ajudar os tradutores?
Zavaglia — A possibilidade de publicação de obras plurilíngues voltadas para
parêmias e fraseologismos é totalmente factível, tanto que há algumas obras
no mercado plurilíngues (o mais famoso é o Dicionário de provérbios, do La-
cerda). Contudo, o que se vê são obras com duas, três ou no máximo quatro
línguas utilizadas nas obras, o que é justificável, dado o trabalho e a seriedade
que devem ser levados em consideração para a elaboração de uma obra desse
tipo. Há muito trabalho a ser feito nesse sentido.
Nos dias de hoje, não vejo outra mídia de saída que possa ajudar os tra-
dutores e os professores de língua ou mesmo de tradução que não seja a on-
-line ou a “descarregável”, porque até mesmo a eletrônica, em cd, parece estar
com os dias contados.

Você poderia nos fornecer algumas indicações de textos básicos para o lei-
tor compreender melhor essas duas subáreas dos estudos lexicais?
BEVILACQUA, C. R. (2205). Unidades fraseológicas especializadas: estado da questão em relação
a sua definição, denominação e critérios de seleção. Tradterm, 11, p. 237-253. Disponível em:
https://www.revistas.usp.br/tradterm/article/view/49689/53800
CANSANÇÃO, J.; MARQUES, E. A. (2015). As locuções: uma breve discussão sobre o seu lugar
na fraseologia. Domínios de Lingu@gem - vol. 9, n. 5. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/
index.php/dominiosdelinguagem
CORPAS PASTOR, G. (1996). Manual de fraseología española. Madrid: Gredos.
Domínios de Lingu@gem. Fraseologia e Paremiologia. ZAVAGLIA, C. (org.). vol. 8, n. 2 (jul/dez
2014). Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/issue/
view/1209
GARCIA, D. M. (2006). Fraseología bilingue: un enfoque lexicográfico-pedagógico. Granada: Edi-
torial Comares.
TAGNIN, S. E. O. (2005). O jeito que a gente diz: expressões convencionais e idiomáticas. São Paulo:
Disal.
TRISTÁ, A. M. (1988). Fraseología y contexto. Havana: Editorial de Ciencias Sociales.

Fraseologia e paremiologia
71
Gramaticalização1
Elizabeth Closs Traugott

O que é a gramaticalização? Quais áreas da linguística se relacionam com


os estudos sobre gramaticalização?
Traugott — “Gramaticalização” é o desenvolvimento de expressões proce-
durais, entre elas as expressões de tempo, aspecto, modalidade, caso, pro-
nomes pessoais, complementizadores e outros conectivos. Também se refere
ao estudo de tal desenvolvimento. Expressões procedurais têm significados
abstratos que sinalizam relações linguísticas, perspectivas e orientação dê-
itica. Dependendo da visão de gramática adotada, a gramaticalização tam-
bém inclui o desenvolvimento de marcadores pragmáticos como marcadores
de fronteiras (por exemplo, bem), construções-comentário (por exemplo, eu
acho) e tag questions (por exemplo, né?). Em meu ponto de vista, qualquer as-
pecto semântico da estrutura da língua é parte da gramática, por isso incluo
as marcações pragmáticas e considero seu desenvolvimento como típico do
desenvolvimento de expressões procedurais.
O modelo de gramaticalização dominante no século XX foi o de redução.
Suas raízes podem ser encontradas na maioria dos registros do século XIX e
principalmente em Meillet (1958[1912]). Meillet discute a mudança de item
lexical para item gramatical (perda de significado do conteúdo e de limites
morfológicos) e a fixação da ordem de palavras (por isso a perda da liberdade
sintática). Em seu livro Thoughts on Grammaticalization (1995), Lehmann su-
geriu um conjunto de “parâmetros” e “processos” que tiveram ampla aceita-
ção. Os processos são “desgaste” das características semânticas e segmentos
fonológicos, paradigmatização, “obrigatorificação”, condensação, coalescên-
cia e fixação. Tudo isso reduz a sinalização linguística ou sua liberdade po-
sicional, motivo pelo qual a gramaticalização veio a ser associada com perda,
seja de elemento lexical (“branqueamento”) ou de complexidade estrutural

1
Entrevista publicada em março de 2014, originalmente em inglês. Trad.: Ana Carolina Spinelli e Gabriel
de Ávila Othero.

72 Elizabeth Closs Traugott


(como redução de sentenças complexas para simples e perda de limites mor-
fêmicos). O desenvolvimento do latim cantare habeo ‘cantar.inf ter.pres para o
francês chanterai veio a ser um exemplo prototípico de gramaticalização: um
item lexical com conteúdo habe — ‘ter’ deixou de se referir a (abstrato) posse,
deixou de ser usado livremente antes ou depois do verbo no infinitivo, foi fun-
dido com o marcador de infinitivo, foi morfofonologicamente reduzido e veio
a ser usado como membro do paradigma de tempo. Outro exemplo prototípi-
co é o desenvolvimento de be going to. Inicialmente, um verbo de movimento
usado em uma construção teleológica imperfectiva, passou a ser usado como
auxiliar. Aqui há perda de significado de movimento e de intenção, fixação
da ligação be going to v com o verbo imediatamente adjacente (I am going to
Beijing to give a course, com um sintagma de direção entre be going e a inten-
ção, não está sendo usado como auxiliar) e, eventualmente, fusão fonológica
como em be gonna. O modelo de gramaticalização como redução levou a hipó-
teses sobre a unidirecionalidade de mudança. Pelo fato de ser uma hipótese
testável de unidirecionalidade, era um conceito desafiador, particularmente
interessante, que ganhou muita atenção na virada do século, especialmente
em Campbell (2001).
O modelo de gramaticalização como redução começou a ser desafiado
em torno do fim do século XIX por diversos pesquisadores, incluindo eu
mesma. A dessemantização passou a ser entendida como perda de sentido
com conteúdo, mas com ganho de significado procedural (por exemplo, se
existisse perda de significado de movimento, com a ascensão do auxiliar be
going to, haveria ganho de significado temporal; ver Sweetser, 1988). Em uma
conferência de 1995, sugeri que a ocorrência dos marcadores pragmáticos —
a exemplo da remarcação de in fact como em I like it, in fact I love it — é um
caso de gramaticalização. Marcadores pragmáticos evidenciam fixação e al-
guma coalescência, mas seu desenvolvimento envolve ampliação do escopo
(de advérbio intrafrasal para marcador extrafrasal), o que viola o parâmetro
de condensação de Lehmann. Em 2004, Himmelmann publicou um artigo
surpreendente argumentando que a gramaticalização envolve três tipos de
expansão de contexto:
(i) expansão da classe hospedeira (itens lexicais usados como proposições
procedurais são usados com mais e mais “hospedeiros”; por exemplo,
como um auxiliar, be going to passou a ser usado com verbos estáticos
como gostar, incompatíveis com movimento);
(ii) expansão sintática (as novas formas gramaticais estão disponíveis em
mais e mais estruturas sintáticas, por exemplo be going to passou a ser

Gramaticalização
73
usado em construções de alçamento, como There is going to be a storm
[haverá uma tempestade]);
(iii) expansão semântico-pragmática (primeiramente o tempo relativo ‘de-
pois’ vinculado pela intenção passou a ser parte da semântica de be going
to, e posteriormente o dêitico futuro baseado na perspectiva do falante
foi desenvolvido).
A expansão começou a ser vista como um resultado necessário da re-
dução: se um item é dessemantizado ou “obrigatorificado”, então é usado em
mais e mais contextos e também com mais frequência. Um olhar mais atento
sobre as histórias da maioria das mudanças consideradas como gramaticali-
zação mostra que a redução e a expansão estão intimamente ligadas. Nesse
modelo, a unidirecionalidade tem um papel menos significativo a desempe-
nhar do que no modelo de redução, e não segue as propriedades e caracterís-
ticas da gramaticalização.
Em resposta a sua questão, quais áreas da linguística estão envolvidas
nos estudos de gramaticalização, eu diria: a maioria das áreas de linguísti-
ca histórica. Embora originalmente estudada por perspectivas amplamente
funcionais, atualmente é explorada em perspectivas minimalistas e outras
perspectivas gerativas (ver, por exemplo, Roberts e Roussou, 2003; van Gel-
deren, 2004). As principais áreas de estudo são a semântica, a pragmática, a
sintaxe, a morfologia e a morfofonologia. Já que a mudança surge da variação
e também a faz surgir, o estudo da variação e da mudança é central para vá-
rios estudos. Por muito tempo, houve uma tradição de trabalho na gramati-
calização e tipologia (por exemplo, Heine e Kuteva, 2002). Como uma análise
do Oxford Handbook of Grammaticalization (2011) de Narrog e Heine mostra,
ainda há um trabalho ativo em sociolinguística, fenômenos de contato e de
área, entre outros tópicos. A linguística de corpus é uma metodologia de im-
portância crescente para o trabalho em gramaticalização (ver, por exemplo,
Lindquist e Mair, 2004).
Defini gramaticalização como o estudo da mudança. Entretanto, mui-
tos acadêmicos usam as descobertas da pesquisa em gramaticalização para
organizar a variação sincrônica no domínio procedural da língua e para
sugerir possíveis caminhos nos quais a mudança ocorreu. Os dados são
frequentemente mais conversacionais do que escritos. Isso abriu novos
caminhos para a pesquisa, assim como para um estudo de possíveis cor-
relações prosódicas com gramaticalização (Wichmann, 2011). No trabalho
em dialetos do inglês, Tagliamonte (2004) usa análise multivariada para
modelar fatores de obstáculos e pesos na variação entre Northern British

74 Elizabeth Closs Traugott


have to, gotta e must para sugerir meios em que as normas da comunidade
podem afetar caminhos de gramaticalização ao longo do tempo e como sur-
gem as diferenças dialetais (o uso dos modais no Southern British English é
consideravelmente diferente). Outra área relativamente nova de pesquisa se
baseia em evidências sincrônicas de processamento para hipotetizar como
e por que ocorre a gramaticalização. Aqui há ligações com a psicologia [ver
Fischer (2007), baseado na psicologia (Tomasello, 2003) e na neurolinguís-
tica (Pulvermüller, 2002)].

De acordo com o biosketch no seu website, sua “atual pesquisa foca nos
caminhos para trazer as teorias da gramática construtiva, gramaticaliza-
ção e lexicalização juntas em uma teoria unificada de mudança constru-
cional”. Você pode nos falar mais sobre este projeto?
Traugott — Graeme Trousdale e eu publicamos um livro sobre esse as-
sunto com o título Constructionalization and Constructional Changes (2013). Há
inúmeros modelos de gramática construcional. Em todas as unidades básicas
da gramática, está a construção do par forma-significado (também conhecido
como “sinais”). As construções podem ser procedurais (gramaticais) ou de con-
teúdo (lexicais); em muitas, há ambos os elementos. O modelo que adotamos se
baseia no uso e geralmente concorda com Croft (2001) e Goldberg (2006).
Em síntese, a construcionalização é o desenvolvimento de pares do tipo
formanova-significadonovo. O estudo da construcionalização envolve grama-
ticalização e lexicalização, mas vai além deles em dois aspectos importantes.
O primeiro é que forma e significado devem ser considerados igualmente. Em
oposição, a gramaticalização frequentemente tem sido pensada fundamen-
talmente em termos de significado e estrutura conceitual (por exemplo, o
trabalho de Brend Heine) ou de forma (por exemplo, o trabalho de Christian
Lehmann). Em contraste, a lexicalização tem sido vista em termos de mu-
dança na forma somente, especialmente na coalescência (por exemplo, Lipka
2002, Brinton e Traugott 2005). Já que a arquitetura da gramática construtiva
não apresenta diferentes módulos de gramática e a unidade básica da gra-
mática é a construção, não são necessárias interfaces específicas (por exem-
plo, entre sintaxe e semântica ou entre estrutura de informação e prosódia).
Preferencialmente, uma construção consiste em um conjunto de traços que
inclui a semântica, a pragmática e função discursiva no lado do significado e
sintaxe, morfologia e fonologia no lado da forma (ver Croft 2001). Qualquer
um desses pode mudar (chamamos isto de mudança construcional); apenas

Gramaticalização
75
quando o emparelhamento forma-significado aparece nós consideramos
como uma construcionalização.
O segundo caminho pelo qual a construcionalização envolve e vai além
da gramaticalização e da lexicalização é que as mudanças são pensadas não
apenas em termos de elementos específicos, mas também em função dos es-
quemas abstratos para os quais eles são recrutados ou aos quais eles servem
de fonte. Para evitar possíveis confusões, pensamos os esquemas como pares
abstratos de forma-significados com espaços e conexões para redes mais am-
plas. Alguns esquemas consistem inteiramente em espaços. Provavelmente
o mais amplamente discutido desses esquemas seja o bitransitivo suj v od oi,
como em eu dei o livro a ela [I gave her the book]. Essa visão de esquemas como
pares de forma-significado contrasta com a da gramática cognitiva, em que os
esquemas são conceituados como estruturas cognitivas e principalmente se-
mânticas abstratas (ver, por exemplo, Lakoff, 1987 e Langacker, 1987). Heine,
Claud e Hünnemeyer (1991) discutem esquemas em gramaticalização a partir
dessa perspectiva da gramática cognitiva.
Sob uma perspectiva da construcionalização, a história de be going to
deve ser vista não apenas em termos de mudança para a ligação be going to,
mas também em termos do sistema auxiliar. Enquanto é certamente possível
usar essa dupla perspectiva no trabalho com gramaticalização, e de fato essa
aproximação está cada vez mais vindo a ser a regra, também se tornou comum
analisar um item específico sem particular atenção para outros membros do
conjunto para o qual e de qual são recrutados. No trabalho com construcio-
nalização, a habilidade de ver como os esquemas e microconstruções são
criados ou crescem e decaem, assim como a habilidade de acompanhar o de-
senvolvimento de padrões a níveis substantivos e esquemáticos, permite ao
pesquisador ver como cada microconstrução tem sua própria história dentro
das restrições de padrões mais amplos (de maneira mais imediata, esquemas;
mas também outros nós da rede). Isso também fornece um caminho para
pensar em mudança analógica, assim como em reanálise.
Nosso modelo de construcionalização foca em mudanças em composi-
cionalidade, esquematicidade e produtividade e no laço da redução e expan-
são não apenas em nível de itens específicos, mas também de esquemas. Esse
fato coloca um gradiente entre construções procedurais e construções com
conteúdo e confirma hipóteses anteriores (por exemplo, Brinton e Traugott,
2005) que mudanças para resultados — tanto procedurais como de conteú-
do — são similares em muitos aspectos. Enquanto a lexicalização tem sido
pensada como redução, Trousdale e eu mostramos que, quando se pensa em

76 Elizabeth Closs Traugott


desenvolvimento de construções com conteúdo, assim como na ascensão de
padrões de formação de palavras como o inglês x-dom (kingdom, boredom [rei-
no, tédio]) ou padrões idiomáticos como o padrão “snowclone” x é o novo y (por
exemplo, laranja é o novo preto), há expansão. Novos esquemas são desenvol-
vidos de modo a sancionar novas formações. Também pode haver redução:
esquemas podem deixar de ser usados, tornarem-se obsoletos, e construções
específicas podem submeter-se a coalescência e fusão. Um exemplo de cresci-
mento e obsolescência é o desenvolvimento em inglês antigo de um esquema
de formação de palavra x-ræden ‘x-status’; no inglês médio, isso foi substituí-
do por x-dom­ (originalmente também x-status’). Apenas dois membros do es-
quema permanecem em uso contemporaneamente, hatred e kindred, ambos
uma redução fonológica.
Da forma que vejo, o acréscimo positivo de uma aproximação da constru-
cionalização não é apenas o modelo de sinais, mas também o modo com que
isso também agrega muitas linhas na literatura de gramaticalização e lexica-
lização, algumas delas não resolvidas, e firmemente os incorpora na visão de
uma língua como um sistema que é ao mesmo tempo comunicativa e cognitiva.

Entre os linguistas, é amplamente aceita a ideia de que a mudança linguísti-


ca acontece pela aquisição da linguagem — em suas próprias palavras, pro-
fessora Traugott, “que a mudança linguística ocorra primordialmente como
um resultado da aquisição é uma questão incontroversa” (2011)2. A história,
porém, não termina aí. A senhora poderia nos explicar suas ideias sobre mu-
dança linguística e a relação entre mudança e processo de aquisição?
Traugott — Apesar de falarmos de “mudança linguística”, a língua não muda
por vontade própria. Da maneira como eu entendo, ela só muda porque falan-
tes e ouvintes a utilizam. Todos devem aprender uma língua antes de poder
usá-la. O input linguístico está repleto de variação, e tanto a produção (pelos
falantes) como a percepção (pelos ouvintes) são afetadas pelo contexto. Por
isso, a produção e a percepção frequentemente não combinam exatamente e
parece improvável que um usuário da linguagem possa adquirir exatamente o
mesmo sistema que outro. No meu ponto de vista, a aquisição ocorre ao longo
da vida, e os jovens adultos (ou adolescentes), e não as crianças pequenas,
são os principais responsáveis pela mudança, porque eles estão particular-

2
“Pragmatics and Language Change”. In Keith Allan and Kasia Jaszczolt (orgs.). The Cambridge Hand-
book of Pragmatics, 549-565. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Trecho original traduzido:
“That language change occurs primarily as a result of acquisition is uncontroversial”.

Gramaticalização
77
mente interessados na formação de identidade e na marcação das diferen-
ças. Essa visão da mudança pressupõe que as mudanças aconteçam através
de negociações de significado ativas dos interlocutores (Bybee, 2010) e que,
ainda que existam algumas capacidades cognitivas gerais, a língua é, em sua
grande parte, aprendida ao longo da vida através de seu uso na comunicação
(cf. Goldberg, 2006). Isso contrasta com a visão gerativa, que afirma:
(i) a língua é adquirida por crianças amplamente passivas, cuja experiên-
cia com o input linguístico dispara o conjunto de parâmetros disponíveis
universalmente;
(ii) a mudança acontece quando o input não é suficientemente robusto para
disparar o mesmo conjunto de parâmetros dos pais ou de outros usos
mais antigos da língua (ver, por exemplo, Lightfoot, 1999).
Uma questão para qualquer trabalho sobre mudança linguística diz
respeito a como conciliar inovação individual com mudança compartilhada
(Weinreich; Labov; Herzog, 1968). Se eu inovar com alguma estrutura linguís-
tica nova, mesmo que eu a repita ao longo de toda a minha vida, isso não se
caracteriza como mudança, porque não foi transmitido a outra pessoa. Para
que a mudança aconteça, creio que deva existir uma prova de “convencionali-
zação” — outros devem usar a estrutura de maneira semelhante e ela deve es-
tar suficientemente arraigada para que os outros possam repeti-la. Uma vez
que os textos históricos até o século XIX são escritos e que sua sobrevivência
se deu em grande parte a acasos da história, o mínimo que um pesquisador
deve procurar é um par de exemplos de evidência de transmissão de um es-
critor para outro. Entretanto, na prática, é bom encontrar uma meia dúzia de
exemplos em uma meia dúzia de textos antes de de levantar a hipótese de que
alguma mudança linguística possa ter ocorrido.

Existem muitos estudos sobre processos de gramaticalização em inglês e


outras línguas germânicas (como seus livros Approaches to Grammatica-
lization, com Bernd Heine, 1991); Grammaticalization, com Paul Hopper,
1993; Gradience, Gradualness and Grammaticalization, com Graeme Trou-
sdale, 2010 etc.). E estudos de gramaticalização em línguas indo-europeias,
como o português? As línguas indo-europeias também contam com estudos
na área da gramaticalização?
Traugott — Sim, as línguas indo-europeias certamente são consideradas
para estudos de gramaticalização. Temos visto muitos trabalhos sobre grama-
ticalização nas mais diversas línguas ao redor do mundo, incluindo as línguas

78 Elizabeth Closs Traugott


indo-europeias, sobre o chinês, o japonês e o coreano. Alguma coisa apare-
ce nos livros mencionados na pergunta acima. Na verdade, a maior parte do
trabalho sobre mudança morfossintática, recebendo ou não o nome “grama-
ticalização”, tem prestado atenção ao desenvolvimento de marcadores proce-
durais. O Oxford Handbook of Grammaticalization, organizado por Narrog e
Heine (2011), traz um artigo detalhado sobre gramaticalização em português
brasileiro, escrito por Martelotta e Cezario, com exemplos do crescimento de
alguns pronomes (você e a gente, por exemplo), auxiliares (ir, por exemplo) e
conectores (apenas).

A senhora poderia recomendar algumas leituras essenciais sobre grama-


ticalização para nossos leitores?
Traugott — Irei restringir minha resposta a trabalhos de gramaticalização
como mudança linguística. Vou mencionar primeiramente três livros: Thou-
ghts on Grammaticalization, de Lehmann (1995), é um livro-chave sobre gra-
maticalização como redução. O livro de Heine, Claudi e Hünnemeyer, de 1991,
é essencial para saber mais sobre abordagens cognitivas da gramaticalização,
com foco em metáforas conceituais. E, se me permitem, destacarei a segunda
edição do livro Grammaticalization, organizada por Hopper e por mim mesma
(2003), que apresenta uma ampla gama de trabalhos sobre gramaticalização
no começo deste século. Se os leitores preferirem artigos, eu recomendo qua-
tro. O texto de Lehmann (1985) é uma breve antecipação de seu livro de 1995
e excelente introdução à sua perspectiva sobre gramaticalização. O texto de
Himmelmann (2004) sobre gramaticalização e lexicalização é um trabalho
fundamental para o trabalho de gramaticalização como expansão. O texto de
Bybee (2011) fornece um excelente panorama de teorias de mudança linguís-
tica baseadas em uso e mostra como a redução cresce a partir da repetição
crescente. O texto de Traugott (2010) fornece um panorama dos trabalhos fei-
tos no final da primeira década deste século.
Qualquer um que queira ter uma visão ampla dos tipos de trabalho que
a gramaticalização engloba deve consultar Narrog & Heine (2011) — com suas
900 páginas, é grande demais para ser lido, mas essencial para ser consultado!

Referências
Brinton, L. J.; Traugott, E. C. (2005). Lexicalization and Language Change. Cambridge: Cambrid-
ge University Press.
Bybee, J. L. (2010). Language, Usage and Cognition. Cambridge: Cambridge University Press.

Gramaticalização
79
Bybee, J. L. (2011). Usage-based Theory and Grammaticalization. In: Narrog, H.; Heine, B. (orgs.).
The Oxford Handbook of Grammaticalization. New York: Oxford University Press, p. 69-78.
Campbell, L. (org.) (2001). Grammaticalization: A critical assessment. Language Sciences 23, n.
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Croft, W. (2001). Radical Construction Grammar: Syntactic Theory in Typological Perspective.
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Fischer, O. (2007). Morphosyntactic Change: Functional and Formal Perspectives. Oxford: Oxford
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Gelderen, E. van (2004). Grammaticalization as Economy. Amsterdam: Benjamins.
Goldberg, A. E. (2006). Constructions at Work: The Nature of Generalization in Language. Oxford:
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Heine, B.; Claudi, U.; Hünnemeyer, F. (1991). Grammaticalization: A Conceptual Framework. Chi-
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Gramaticalização
81
Gramaticalização1
Lorenzo Teixeira Vitral

Em um de seus projetos recentes, o senhor investiga os fundamentos da


gramaticalização. O que o senhor poderia nos dizer sobre essa área de es-
tudo dentro dos estudos da linguagem?
Vitral — Ressentimo-nos muitas vezes, ao lidar com fenômenos de gramati-
calização, da falta de uma fundamentação que torne de fato a gramaticaliza-
ção uma teoria de pleno direito. Muitos críticos estão de acordo em dizer que
a gramaticalização é um epifenômeno (cf. o número especial da revista Lan-
guage Sciences, organizado por Campbell, 2001). Segundo essa visão, no me-
lhor dos mundos, a noção de gramaticalização teria apenas valor heurístico,
ou seja, permitiria tão somente “captar” fenômenos que seriam “fatorados” e
encontrariam análise e explicação no interior de quadros teóricos estabele-
cidos (por exemplo, o trabalho de Roberts e Rousseau (2003), que analisa os
processos de gramaticalização de verbos em auxiliares, na ótica gerativista,
como uma recategorização de itens que passam a ocupar ou sofrer desloca-
mentos de posições verbais para posições de flexão ou de tempo).
Por outro lado, a imensa produção recente de artigos e livros na pers-
pectiva da gramaticalização, com o aumento de línguas analisadas, atesta o
vigor da área e também o desejo de constituir a gramaticalização uma teoria
autônoma. Leve-se também em conta o fato de nossa noção levantar, como
mostro a seguir, certo número de questões estimulantes e desafiadoras.
A busca de fundamentação para a noção de gramaticalização dispõe, no
meu modo de ver, de algumas frentes de trabalho, com os seguintes temas:
(1) comprovar a natureza discreta dos fenômenos de gramaticalização como
processos independentes de inovação e mudança linguísticas, ou seja,
trata-se de garantir que o conjunto de propriedades apresentado por um
processo de gramaticalização é o mesmo que ocorre em todos os proces-
sos desse tipo;

1
Entrevista publicada em março de 2014.

82 Lorenzo Teixeira Vitral


(2) estabelecer como objeto de estudo da gramaticalização a inovação lin-
guística (que, como explico na resposta à pergunta seguinte, deve ser
distinguida de mudança linguística).
Nessa perspectiva, nossa atenção se desloca para a emergência do novo
nas línguas, ou seja, pretende-se que a inovação deva ser o foco da teoria
da gramaticalização, recusando-se, portanto, a concebê-la como um acaso,
improvável de ser regulada por leis ou além do alcance da ciência objetivis-
ta. Assim, devem-se tomar como objeto empírico os processos de formação
dos arranjos sintáticos a partir das inovações por que passam os itens que
os compõem. Importa ainda, a fim de explicitar esse tema (2), dizer que, ao
privilegiar os produtos engendrados pelo nosso sistema computacional inter-
no, não se pretende reviver a concepção estruturalista da língua como um
conjunto de enunciados que convém descrever ou retratar. Como bem mos-
trou a teoria gerativa, tendo em vista as operações mentais internas que, re-
cursivamente, geram enunciados infinitos, delimitar nossa tarefa à maneira
do estruturalismo é, como mostrou a história da nossa disciplina, uma visão
superada. O que nos distinguiria assim da perspectiva estruturalista, ou que
compartilha a concepção de uma língua como um inventário de itens, é exata-
mente o foco na inovação, ou seja, a descrição dos produtos engendrados pelo
sistema computacional é apenas a via de acesso aos princípios que governam
o mecanismo da inovação linguística. Assim, descobrir e descrever os princí-
pios internos e o mecanismo psicossocial subjacentes à inovação linguística
é parte considerável da fundamentação da almejada teoria da gramatica-
lização [apontei uma direção de reflexão sobre esse tema em Vitral (2012)].
Nessa visão dos fatos, talvez tenhamos como falar, num futuro próximo, de
reapropriação do objeto da teoria linguística, que se tornou, no gerativismo
contemporâneo, com a formulação da biolinguística — que desloca o lócus dos
princípios que compõem a faculdade de linguagem humana, ou seja, esses
princípios não são mais vistos como específicos da faculdade da linguagem
e sim como de natureza cognitiva mais ampla [cf. Hauser, Chomsky e Fitch
(2002); Di Sciullo & Boeckx(2011), Pinker e Jackendoff (2005)] —, uma disci-
plina auxiliar do cognitivismo, sustentada, em última instância, no estado de
fatos descritos pela biologia ou, mais especificamente, pela biologia molecu-
lar contemporânea.
(3) a busca de princípios subjacentes aos processos de gramaticalização
também se justifica tendo em vista ser possível depreender desses pro-
cessos características universais não só do ponto de vista da forma como
também do ponto de vista substantivo.

Gramaticalização
83
Um bom exemplo desta última afirmação é a criação de itens que indi-
cam a existência a partir do verbo lexical que significa “posse”, isto é, ter. Em
várias línguas, entre elas, o nosso pb, o hebraico contemporâneo, o turco, o
hindi, o francês, o húngaro etc. (cf. Rubin (2004); Clark (1978)), as formas para
os dois conteúdos são as mesmas. Trata-se de pensar assim a relação entre as
fontes e os alvos dos processos de gramaticalização. As questões seguintes, de
natureza programática, podem assim ser formuladas (cf. Heine et al., 1991):
(a) Que acepções e/ou categorias são fontes de que alvos?
(b) Dada uma categoria ou acepção, é possível definir de forma inequívoca
sua fonte?
(c) Em que medida a relação entre fontes e alvos da gramaticalização é de-
terminada universalmente?
(d) É possível definir que fatores determinam a escolha de determinada fon-
te para determinado alvo?
Apesar do considerável avanço na descrição de fenômenos de gramati-
calização realizada nas duas últimas décadas, ainda estamos longe de poder
responder de forma satisfatória às questões acima. Entre as dificuldades,
pode-se citar o fato de já se saber que determinada fonte pode dar origem a
mais de uma acepção ou categoria e vice-versa, isto é, determinada acepção
ou categoria pode se originar de mais de uma fonte.
O desenvolvimento dos pontos (1), (2), (3) acima, que, como se vê, são
bastante amplos, é ssencial na busca de fundamentação da gramaticalização
como uma teoria linguística autônoma.

Como a área da gramaticalização se relaciona com outras áreas da lin-


guística, tais como a linguística histórica e os estudos variacionistas?
Vitral — Os fenômenos analisados pela noção de gramaticalização são cap-
tados quando se comparam estágios diacrônicos de uma língua ou os está-
gios, no tocante a cada processo de gramaticalização, em que se encontram
línguas distintas. Essa afirmação, por si só, já nos faz pensar no cotejo da
gramaticalização com a teoria da variação e mudança, bem como com a área
da linguística histórica. É preciso ter claro, desde o início, que nem todo fenô-
meno de mudança, como, por exemplo, as mudanças sonoras que envolvem
sons vozeados e não vozeados, se deve à um processo de gramaticalização.
Nossa noção se ocupa assim de tipos especiais de fenômenos diacrônicos que
devem, por outro lado, ser distinguidos, pelo menos num primeiro momen-
to, dos fenômenos de mudança que são objeto da teoria laboviana. Quando

84 Lorenzo Teixeira Vitral


se observam os dois primeiros estágios de um processo de gramaticaliza-
ção, isto é, quando o item pertencente a uma das categorias lexicais passa
a ser empregado também como um item de uma das categorias funcionais
ou gramaticais, vê-se que não há de se falar propriamente em mudança lin-
guística, já que o item fonte subsiste na língua: as formas fonte e alvo do
processo não dispõem, para usar a fórmula conhecida, do mesmo valor de
verdade. Por isso, tenho optado por me referir aos processos de gramatica-
lização como fenômenos de inovação linguística. É verdade, por outro lado,
que, se o processo adentra sua fase formal, ou seja, se o item passa a se re-
duzir foneticamente, trilhando sua rota de conversão em afixo, pode ocor-
rer concorrência de formas no sentido da teoria da variação e mudança.
Foi o caso, por exemplo, das formas você e cê, analisadas por Vitral (1996), que
se tornaram concorrentes.
Os processos de gramaticalização e de variação e mudança podem ainda
interagir quando se observa a obediência ou não da trajetória prototípica de
um processo de gramaticalização. Nessa trajetória, prevê-se, quando se cote-
jam estágios diacrônicos de uma língua e levando-se em conta o universo de
ocorrências do item em análise, que a frequência de ocorrência global desse
item aumente, bem como diminua sua frequência na função de item de uma
das categorias lexicais e aumente sua frequência na função de item de uma
das categorias gramaticais (cf. Vitral, 2006). Ora, a evolução do processo pode
não seguir o previsto devido ao fato de o item poder entrar em concorrência,
em algum estágio, ocorrendo assim a interação entre os dois processos, com
um item preexistente pertencente à mesma categoria alvo. Pode ocorrer, por
exemplo, o decréscimo e não o aumento do uso gramatical do item (cf. Vitral et
al., 2010, sobre os processos de gramaticalização de ter e haver em português).
É preciso mencionar ainda que a alegada unidirecionalidade dos proces-
sos de gramaticalização tem feito ressurgir a discussão acerca da razão do
sentido, o que pressupõe finalidade da inovação e da mudança, que vigorou,
como é sabido, no tempo da linguística histórico-comparativa. Também sabe-
mos que hipóteses teleológicas não são bem-vindas: a ciência contemporânea
se contenta com o acaso lá onde ela vê limites na sua maneira de lidar com o
que considera real (Monod, 1970). A unidirecionalidade torna-se uma questão
de fato se se comprovar o caráter discreto dos fenômenos de gramaticalização
com as propriedades que lhes atribui a literatura, como propomos no tema
(1) acima da resposta à primeira pergunta. Trata-se de um problema empíri-
co, mas, apesar das opiniões contrárias, há fortes evidências para se manter
a unidirecionalidade, ainda que uma mesma forma fonte possa dar origem

Gramaticalização
85
a mais um de um percurso de gramaticalização, se levarmos em conta que
muitos dos alegados contraexemplos da unidirecionalidade, muito reduzidos,
não resistem à uma análise isenta que identificam, nesses supostos contrae-
xemplos, fenômenos de natureza diferente (cf. Martelotta, 2010). Se assim for,
podemos aceitar a unidirecionalidade, sem a especulação de que a evolução
linguística dispõe de um projeto predeterminado, desenvolvendo a proposta,
que tem se mostrado empiricamente estimulante, de que os ciclos de inova-
ção e mudança linguística evoluem e podem se extinguir, tendo a ocorrência
de um morfema zero como o ocaso de um processo, para dar lugar a novos
ciclos e assim sucessivamente.
Em relação às questões da área de linguística histórica, destaco, por fim,
o debate acerca da natureza abrupta ou gradual da mudança linguística. Lê-se
com frequência que, no caso da gramaticalização, ter-se-iam processos gra-
duais de mudança. Creio que as duas propriedades caracterizam a gramati-
calização, mas as interpreto da seguinte maneira: uma vez constatado o uso
inovador de um item, com nova função gramatical, já se pode afirmar a gra-
maticalização desse item, o que se observa após isso, a chamada gradualidade,
é, na realidade, a expansão, ou espraiamento, do novo uso do item no sistema
da língua. Assim, um falante de um dado “état de langue” dispõe, no seu léxico
mental, da forma categorizada de duas maneiras diferentes. Não há, do ponto
de vista do falante que produz o enunciado, indefinição ou gradualidade no
que se refere à categorização do item. Em outras palavras, podemos falar en-
fim de polissemia do item quando nosso olhar é a sua trajetória no tempo, mas
devemos empregar homonímia quando se tratar de retratar as duas formas
disponíveis, numa dada comunidade de fala, numa sincronia determinada.

Como estão os estudos de gramaticalização sobre o português brasileiro


(pb)? Quais são, no momento, os grandes pontos de investigação no que diz
respeito a processos de gramaticalização no pb?
Vitral — Os temas abordados, desde o início da retomada dos estudos da gra-
maticalização no Brasil em meados dos anos 1990, continuam sendo descritos
e analisados a partir de suas consequências teóricas. É preciso ter em mente,
por outro lado, que o que se chama de gramaticalização comporta, na reali-
dade, três tipos de fenômenos:
(1) os processos de gramaticalização, propriamente ditos;
(2) os processos de lexicalização;
(3) os processos de discursivização.

86 Lorenzo Teixeira Vitral


Deixo para outra ocasião a tarefa de diferenciá-los. Vou simplesmente
listar alguns dos fenômenos mais estudados pela linguística brasileira sem
me preocupar em classificá-los segundo os tipos supramencionados. Pode-
mos destacar assim a redução dos pronomes, como os casos de você e a gente;
as formas de tratamento como o senhor; os processos de formação de orações
ou integração de cláusulas; o percurso de formação de conjunções antigas,
como logo, e inovadoras, como tipo assim; o papel dos marcadores discursi-
vos na organização textual; as formas reduzidas da negação; os processos de
auxiliarização já estabelecidos, como o do verbo ir e inovadores, como o caso
de danar a; a gramaticalização das preposições e muitos outros fenômenos.

Há muitos estudos sobre o português falado em Minas Gerais — que pare-


ce ter características bastantes peculiares. O que o senhor poderia dizer
sobre o chamado “mineirês”?
Vitral — Todo dialeto dispõe de suas particularidades. Talvez o dialeto mi-
neiro chame mais a atenção quando se fala em gramaticalização devido ao
fato de haver certa propensão à redução fonética no nosso dialeto. É bem
verdade, por outro lado, que nem toda redução fonética ocorrida em nosso
dialeto pode ser debitada à gramaticalização. Mas alguns fenômenos têm sido
tratados por nós nessa perspectiva. Cito os casos de
(1) Vossa mercê>você>cê;
(2) eles>ez;
(3) Senhor>seu>sô;
(4) Senhora>sinhá>sá;
(5) não>num>nu>n’;
(6) Nossa senhora>nossa>nó>nu etc.
Alguns desses fenômenos não são exclusivos do dialeto mineiro, como,
por exemplo, o caso de Vossa mercê>você>cê. A pergunta a ser feita é por que
fenômenos de gramaticalização são, se não mais frequentes, pelo menos mais
visíveis no nosso dialeto. A esse respeito, podemos propor apenas uma espe-
culação que tem a ver com a história do nosso estado: com o fim do ciclo do
ouro em Minas Gerais, a região culturalmente e economicamente mais rica
da colônia na segunda metade do século XVIII passou por graves dificuldades
de toda natureza, o que, aliado à sua topografia montanhosa, contribuiu para
se estabelecer certo isolamento da região no decurso do século XIX, período
em que se constituiu o dialeto mineiro na região central da capitania. Atentos
agora ao fato de que a inovação e mudança linguísticas podem ser promovidas

Gramaticalização
87
por fatores internos e externos, pode-se especular que o isolamento natural
do estado, o que incluiu o isolamento também linguístico, pode ter favore-
cido, ou deixado atuar “mais livremente”, tendências internas de inovação e
mudança no sentido previsto pela gramaticalização. Essa suposição deverá
ser investigada com muito cuidado e não podemos também descartar, para
justificar as características do dialeto mineiro, fatores externos, como o fato
de boa parte dos portugueses vindos para nossa região ser falante do dialeto
do norte de Portugal ou a contribuição das línguas africanas.

O senhor poderia sugerir referências de leituras na área da gramaticali-


zação, para que nossos leitores possam se iniciar ou mesmo se aprofundar
no assunto?
Vitral — Como disse, são em grande número os trabalhos mais recentes so-
bre gramaticalização; precisaríamos de uma longa lista para citá-los de ma-
neira satisfatória.
Para o leitor iniciante, pensando na literatura em inglês, os textos se-
guintes podem ser considerados “clássicos”:
Heine, B.; Claudi, U.; Hünnemeyer, F. (1991). Grammaticalization: a Conceptual Framework. Chi-
cago: University Chicago Press.
Hopper, P.; Traugott, E. (1993). Grammaticalization. Cambridge: Cambridge University Press.
Lehmann, C. (1995). Thought on Grammaticalization. Munich: Lincom Europa (originalmente
publicado como Thought on Grammaticalization: A Programatic Sketch. Köln: Arbeiten des
Kölner Universalien 49 — Projetcs, v.1 [1982].
Traugott, E.; Heine, B. (1991) (orgs.). Approaches to Grammaticalization. Amsterdam: John Benja-
mins, em dois volumes.
Dos textos escritos por linguistas nacionais, podemos destacar:
Castilho. A. T. (1997). A Gramaticalização. Estudos Linguísticos e Literários. UFBA 19,25-63.
Gonçalves, S. C. L.; Lima-Hernandes, M. C.; Casseb-Galvão, V. C. (2007). Introdução à gramatica-
lização. São Paulo: Parábola.
Gorski, E.; Gibbon, A.; Valle, C.; Rost, C.; Mago, C.; Freitag, R. M. Ko (2002). Gramaticalização/
discursivização de itens de base verbal: funções e formas concorrentes. Estudos Linguísticos
31: cd-rom.
Martelotta, M.; Votre, S.; Cezario, M. M. (1996). Gramaticalização no português do Brasil: uma
abordagem funcional. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro;
Menon, O. (1996). A gente: um processo de gramaticalização. Estudos Linguísticos XXV,662-28.
Naro, A.; Braga, M. L. (2000). A interface sociolinguística/gramaticalização. Gragoatá 9, 125-134.
Ramos, J. (1997), A forma você, ocê e cê no dialeto mineiro. In: Hora, D. (org.). Diversidade linguís-
tica no Brasil. João Pessoa: Ideia Editora, 43-60.
Vitral, L. (1996). A forma cê e a noção de gramaticalização. Revista de Estudos da Linguagem
4,1,116-124.
Vitral, L.; Ramos, J. (2006). Gramaticalização: uma abordagem formal. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro/FALE-UFMG.

88 Lorenzo Teixeira Vitral


História e filosofia da linguística1
Frederick J. Newmeyer

Quem foram os primeiros linguistas norte-americanos e qual sua contri-


buição para o desenvolvimento da linguística?
Newmeyer — As origens da linguística na América do Norte são um pouco
diferentes daquelas que originaram o campo na Europa. Na Europa, em sua
maior parte, a linguística está enraizada na tradição filológica. Dada a longa
história do estudo de grego e do latim, foi muito natural ir disso à linguística
comparativa do indo-europeu e, a partir daí, ao desenvolvimento de princí-
pios em termos de mudança linguística. A linguística da sincronia foi, nesse
caso, um desenvolvimento tardio. Na América do Norte, porém, pesquisado-
res se depararam com centenas de línguas sem registros escritos. Nesse caso,
as línguas deveriam ser descritas sincronicamente desde o começo. As pri-
meiras gramáticas foram escritas por missionários, obviamente, mas mesmo
no século XIX já havia descrições em nível de pesquisa para línguas indíge-
nas, primariamente realizadas por aqueles interessados na cultura e tradi-
ções indígenas. Mas o real fundador da linguística na América do Norte foi
Franz Boas (ver especialmente Boas 1911, 1963). Mesmo hoje, Boas merece ser
lido. Uma das mais claras especulações acerca de como todas as línguas são
gramaticalmente iguais, ou seja, não há — na realidade — algo que possamos
chamar de “língua primitiva”, encontra-se em seus escritos. E Boas treinou
muitos linguistas que foram em frente para dar à linguística norte-america-
na seu caráter descritivista. Edward Sapir, por exemplo, um dos principais
linguistas do início do século XX, foi aluno de Boas. O fato de a maior parte
das línguas norte-americanas apresentar estruturas radicalmente diferentes
daquelas encontradas em línguas europeias encorajou descrições detalhadas
de formas gramaticais nunca anteriormente encontradas por pesquisadores.
Logo, a linguística norte-americana foi fundada em dados de um modo dife-

1
Entrevista publicada em março de 2010, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero e João
Paulo Cyrino.

História e filosofia da linguística


89
rente da linguística europeia. Infelizmente, há um lado ruim ao se focar em
dados desconhecidos. Muitos norte-americanos, da década de 1920 aos anos
1960, eram muito “antiteóricos”. Sua ideia era a de que cada língua olhada
poderia ser completamente diferente das já olhadas até então, o que dificulta
chegar a conclusões acerca de universais. Daí o extremo empirismo de tantos
linguistas americanos naquele tempo (embora Sapir nunca tenha hesitado na
hora de teorizar).
Outra figura importante nesse contexto foi Leonard Bloomfield, que tra-
balhou entre os anos 1920 e 1940. Bloomfield, mais do que ninguém até então,
batalhou por uma área distinta para a linguística, tanto acadêmica quanto
intelectualmente. Como resultado de seus esforços em demonstrar que a lin-
guística não era uma subárea dos estudos das línguas, da antropologia, da
psicologia ou o do que fosse, acabou que sempre foi mais fácil estabelecer
departamentos autônomos de linguística na América do Norte do que em
qualquer outro lugar no mundo.

Em seu livro Language Form and Language Function (1998), o senhor cita
uma observação interessante de Elizabeth Bates: “O funcionalismo é como
o protestantismo: é um grupo de seitas que concordam entre si somente na
rejeição da autoridade do papa” (p. 13). O que o senhor pensa a respeito
disso agora, após uma década desde a publicação do livro e quase duas
décadas do trecho citado?2
Newmeyer — Pouca coisa mudou, na verdade. Há muito mais diversidade den-
tro da linguística funcional do que na linguística formal. Uma face extrema
do funcionalismo nega, por exemplo, a realidade da estrutura linguística —
por exemplo, Hopper (1988), Thompson (2002). Contudo, há outro polo do
funcionalismo que não somente propõe estruturas formais como faz questão
de formalizá-las precisamente, como no caso da Functional Discourse Gram-
mar (Hengeveld, 1989) e da Role-and-Reference Grammar (Van Valin & LaPolla,
1997). A linguística formal não é tão dividida. Mesmo modelos formais mui-
to diferentes, como o Programa Minimalista (Chomsky, 1995) e a HPSG (Sag,
Wasow & Bender, 2003) compartilham mais fundamentos essenciais do que
acontece entre as várias propostas funcionalistas. Então, todos os funciona-
listas podem concordar que Chomsky está fundamentalmente errado, mas
isso não acarreta automaticamente um programa de pesquisa unificado.
2
Essa citação aparece Robert D. Van Valin (1990). Functionalism, Anaphora and Syntax. Resenha de
Functional Syntax, de S. Kuno. Studies in Language 14, p. 171.

90 Frederick J. Newmeyer
Há também a questão acerca do que exatamente significa uma “expli-
cação funcional” a respeito de um fenômeno. Nesse quesito, há pouco em
comum entre os funcionalistas. Para muitos, a explicação dos fenômenos
deve ser “externa”, ou seja, enraizada em pressões oriundas do discurso,
cognição não linguística, ou outras influências externas. Funcionalistas ti-
pologicamente orientados normalmente tomam tal postura (Comrie, 1989;
Croft, 2003). Por outro lado, a linguística cognitiva (Lakoff, 1987; Langacker,
1988) é tipicamente considerada como sendo uma espécie de funcionalis-
mo, apesar de a maior parte dos artigos nessa perspectiva não fornecer, a
sério, nenhuma explicação externa. Tudo o que fazem é argumentar (algu-
mas vezes com sucesso, outras não) que a ligação entre forma e significado
é muito mais próxima do que os gerativistas acreditam. Essa não é uma “ex-
plicação externa”.

Algumas teorias — como a teoria da otimidade, ou a spot (Strong Paral-


lel Optimality Theory), como usou David Teeple em seu artigo de 20083 —
tentam conciliar descrições e explicações formais com funcionais. Como o
senhor vê essa aproximação?
Newmeyer — Eu argumentei em meu livro Possible and Probable Languages
(Newmeyer, 2005) que a teoria da otimidade não fornece a melhor maneira
de reconciliar a linguística formal com a linguística funcional. A ideia básica
dessa abordagem é que cada restrição é pareada com uma motivação funcio-
nal. Contudo, isso não nos ajuda muito a entender a natureza da estrutura
gramatical, já que podemos encontrar alguma motivação funcional em qual-
quer processo gramatical. Ainda pior, a teoria da otimidade baseada em res-
trições de natureza funcional é incapaz de responder à questão fundamental
da linguística tipológico-funcional: por que alguns traços gramaticais são
mais comuns nas línguas do que outros? Lembre-se de que as restrições em
to são universais — apenas seu ranqueamento é que é específico de língua
para língua. Então, um ranqueamento de restrições resulta na ordem comum
nas línguas svo, e outro ranqueamento resulta numa ordem bastante rara osv.
A teoria da otimidade não tem qualquer mecanismo para explicar por que o
primeiro ranqueamento é comum, enquanto o último é raro. Parear restri-
ções com motivações funcionais é um erro crucial. As gramáticas são com-
plexas demais para permitir tal abordagem atomista. Uma gramática, como
3
David Teeple (2008). Prosody Can Outrank Syntax. Proceedings of the 26th West Coast Conference on For-
mal Linguistics.

História e filosofia da linguística


91
um todo, é, em parte, uma resposta a pressões funcionais. Não faz sentido,
para mim, argumentar que as subpartes individuais da gramática (restrições,
regras, construções etc.) sejam funcionalmente motivadas.
O artigo de Teeple é muito interessante, mas não acredito que se neces-
site da teoria da otimidade para expressar generalizações relevantes. O que
temos aqui é simplesmente algo de arquitetura gramatical — modular versus
paralelo. Temos modelos diferentes da to que são capazes de expressar essas
generalizações sem recorrer aos complexos tableaux da to. Até mesmo ver-
sões do Programa Minimalista que postulam um spell-out múltiplo permitem
expressar as generalizações apresentadas por Teeple em seu artigo, já que a
sintaxe e a fonologia interagem em mais do que num só nível.
É importante apontar o fato de poucos linguistas estarem fazendo sinta-
xe em to hoje em dia. Fonologia em to tem certa lógica, que falta na sintaxe
em to. As noções-chave da to, a saber, “marcação” e “fidelidade”, estão pre-
sentes há muito tempo na pesquisa fonológica. Mas o que esses construtos
teóricos têm a ver com a sintaxe? O que é marcado ou não marcado em sin-
taxe? E fiel a que exatamente? Estruturas sintáticas profundas? Forma lógi-
ca? Significado conceitual? Discurso? Ninguém tem a menor ideia. Não sou
fonólogo suficiente para prever o futuro da fonologia em to, mas não ficaria
surpreso em ver cada vez menos trabalhos de sintaxe em to.

Como conciliar linguística formal e linguística funcional nos dias de hoje?


Newmeyer — Minha posição com relação a essa questão é basicamente a mes-
ma já expressa em meu livro Language Form and Language Function (New-
meyer, 1998). Ali, argumentei a evidência esmagadora de que a gramática (e
a sintaxe dentro da gramática) forma sistemas autônomos. Ou seja, os prin-
cípios de combinação obedecem à sua própria álgebra e não se referem a
elementos externos a essa álgebra. Contudo, a conclusão não impede a pos-
sibilidade de as gramáticas serem funcionalmente motivadas. Na verdade,
as pressões funcionais estão constantemente modelando e remodelando as
gramáticas. A maior parte dos funcionalistas não acredita que formalismo e
funcionalismo sejam compatíveis, evidentemente. Uma citação típica é a se-
guinte, de Bates e MacWhinney:

A autonomia da sintaxe rompe [a estrutura frasal] das pressões de função co-


municativa. Na visão [formalista], a língua é pura e autônoma, irrestrita e não
modelada por intenções ou por uma função (Bates e MacWhinney 1989: 5).

92 Frederick J. Newmeyer
Mas Bates e MacWhinney e outros que compartilham esse tipo de pon-
to de vista estão enganados. A autonomia da sintaxe e a explicação externa
funcional são completamente compatíveis. Deixe-me ilustrar esse ponto com
uma observação que você poderia até mesmo chamar de um ponto de lógica.
Citações como essa de Bates e MacWhinney parecem tomar como ponto pací-
fico que uma vez caracterizado um sistema como autônomo, uma explicação
funcionalista desse sistema (ou de suas propriedades) é impossível. Contudo,
isso não é verdade, e parece que apenas os linguistas têm essa ideia curiosa.
Em outras áreas, explicações formais e funcionais são vistas como comple-
mentares, não contraditórias. Para ilustrar, vamos dar uma olhada em um
sistema formal por excelência: o jogo de xadrez. O xadrez é um sistema autô-
nomo: existe um número finito de statements e regras. Apenas com o layout
do tabuleiro, das peças e das jogadas, podem-se “gerar” todos os possíveis
jogos de xadrez. Mas considerações funcionais vão influenciar no design do
jogo, como fazer com que o xadrez seja um passatempo prazeroso. E fatores
externos podem modificar o sistema. Por mais improvável que seja, um de-
creto da Autoridade Internacional de Xadrez poderia rever as regras do jogo.
Além disso, em qualquer jogo de xadrez, as jogadas estão sujeitas à vontade
consciente dos jogadores, assim como qualquer ato de falar está sujeito à de-
cisão consciente do falante. Logo, o xadrez é tanto autônomo, quanto explica-
do de maneira funcional.
Se você quiser algo mais concreto, sinto que a abordagem de John Ha-
wkins é a mais promissora para reconciliar a linguística formal com a lin-
guística funcional (cf. Hawkins 1994, 2004). Hawkins supõe uma gramática
gerativa formal; entretanto, ele é agnóstico em relação ao quadro teórico geral
e mostra como princípios de processamento sintático explicam a distribuição
tipológica de propriedades gramaticais. Por exemplo, considere as já conhe-
cidas correlações entre vo e preposicional e ov e posposicional. Hawkins mos-
tra que o processamento é mais difícil quando uma língua vo é posposicional
e quando uma língua ov é preposicional. Tais línguas existem (finlandês e
amárico, respectivamente), mas são muito mais raras do que línguas mais
“amigáveis” em seu processamento. A pressão do desempenho atua, então,
tipologicamente.
Podemos ver como a pressão do processamento funciona se olharmos
para o uso da língua. Quando as gramáticas permitem duas alternativas para
expressar o mesmo conteúdo, normalmente o escolhido pelos falantes é o
mais facilmente analisado. Por exemplo, o inglês e o português permitem su-
jeitos sentenciais tanto in situ como movidos:

História e filosofia da linguística


93
(1) a. [That Mary will win] is likely.
b. It is likely [that Mary will win].
(2) a. [Que a Maria vença] é provável.
b. É provável [que Maria vença].
Frases como (b) são largamente mais prováveis de serem proferidas do
que frases como (a). Apesar das duas possibilidades em inglês e português,
outras línguas banem o sujeito sentencial in situ logo de cara. Repare que não
há nada aqui que desafie a ideia básica da linguística formal. É cada vez me-
nos provável que as crianças, aprendendo inglês ou português, irão escutar
frases como (a), o que quase certamente irá levá-las a não considerar tais sen-
tenças como gramaticalmente possíveis. Mesmo assim, elas ainda adquirem
uma gramática formal autônoma.

94 Frederick J. Newmeyer
História e filosofia da linguística1
José Borges Neto

Podemos dizer que a linguagem é um objeto complexo, independentemente


do recorte epistemológico que se faça; parece que é isso que gera diferentes
teorias. Como se pode compreender essa pluralidade teórica, sem necessa-
riamente ter de aceitar a noção de “complementaridade” entre as diferen-
tes teorias linguísticas?
Borges Neto — Deixe-me, primeiro, abordar a questão da complexidade. Mar-
celo Dascal e eu, num texto de 1991 (ver Dascal e Borges Neto 1991)2, propomos
a distinção entre objeto observacional e objeto teórico. O objeto observacio-
nal de uma teoria científica é o conjunto de fenômenos, a porção de realida-
de, que a teoria assume como seu objeto; o objeto teórico é a construção (o
modelo) que o cientista idealiza como representação do objeto observacional.
Por exemplo, a sintaxe estruturalista e a sintaxe gerativista, em princípio, po-
dem ter o mesmo objeto observacional (o conjunto de sentenças bem forma-
das que podem ser ditas em alguma língua); os objetos teóricos, no entanto,
podem ser bastante diferentes: a sintaxe estruturalista vê as sentenças como
cadeias estruturadas de palavras (ou morfemas) e sua tarefa é revelar essas
estruturas, enquanto a sintaxe gerativista vê as sentenças como o resultado
da aplicação de regras internalizadas (inatas, em parte). Assim, onde o es-
truturalista encontra cadeias estruturadas, o gerativista encontra indícios da
aplicação de regras presentes na mente/cérebro do falante. Os “dados” são os
mesmos (as sentenças da língua), mas o que se faz com eles (o que se depre-
ende deles) é absolutamente distinto.
Pois bem. A complexidade pode se dar no nível observacional. Dizer que
a língua é um objeto complexo pode significar que os fenômenos linguísticos a

1
Entrevista publicada em março de 2010.
2
M. Dascal; J. Borges Neto (1991). De que trata a linguística, afinal? Histoire, Epistemologie, Langage 13(1),
p. 13-50 [recolhido como capítulo 10 em J. Borges Neto (2004). Ensaios de filosofia da linguística. São Paulo:
Parábola].

História e filosofia da linguística


95
serem estudados são fenômenos complexos (envolvem, por exemplo, fenôme-
nos de várias naturezas: fenômenos físicos, como as cadeias sonoras, fenôme-
nos estruturais, fenômenos relacionados ao uso das expressões, fenômenos
relacionados às imagens que os usuários das expressões supõem para si e para
os outros falantes/ouvintes, fenômenos ligados às posições ideológicas assumi-
das pelos falantes etc.). O objeto observacional tomado pelo linguista é de na-
tureza complexa porque contém em si fenômenos dificilmente relacionáveis.
Da mesma forma, a complexidade pode estar ligada à dificuldade de
construir modelos teóricos capazes de abranger o maior número de fenô-
menos — de construir modelos teóricos que consigam dar conta do maior
conjunto possível de fenômenos de naturezas distintas. Construir uma teoria
qualquer supõe fazer um recorte no objeto observacional e em “organizar”
essa porção do mundo a partir de noções teóricas.
Aparentemente, é fácil fazer isso para alguns recortes. Podemos, por
exemplo, decidir que vamos nos ocupar apenas do elemento fônico que serve
de apoio material para as línguas. Neste recorte, reconhecemos fones, orga-
nizamos os fones em vogais e consoantes (que são noções teóricas), estrutu-
ramos as sílabas, acrescentamos prosódia etc. Ou seja, tomamos um objeto
observacional e construímos, a partir dele, um objeto teórico: a fonologia da
língua. Podemos, por outro lado, decidir que vamos nos ocupar dos elemen-
tos significativos da língua (do material que dá apoio semântico). Podemos
decidir que nossa unidade é o morfema ou que nossa unidade é a palavra (que
também são noções teóricas). Vamos organizar nossas unidades em classes
e estudar, por um lado, as possibilidades combinatórias que essas unidades
admitem (fazer “sintaxe da palavra”, por exemplo) ou, por outro lado, as re-
lações que podemos encontrar entre essas unidades e “coisas” do mundo (e
fazer “semântica lexical”).
A grande questão, no entanto, está em unificar esses objetos. Fazer fono-
logia e fazer semântica lexical, separadamente, é fácil. O difícil é criar uma te-
oria que unifique esses vários objetos teóricos. Uma teoria capaz de dar conta
da semântica lexical em termos fonológicos.
Uma olhadela no que acontece em outras ciências sempre é instrutiva.
Vejamos o seguinte trecho do livro de Michel de Pracontal3:

Um sólido cristalino é constituído de uma rede de átomos dispostos segundo


um motivo que se repete regularmente, um pouco como o de um papel pinta-

3
Michel Pracontal (2002). A impostura científica em dez lições. São Paulo: Editora da UNESP, p. 289-290.

96 José Borges Neto


do, salvo que ele é em três dimensões. O motivo depende de ligações químicas
garantidas pelos elétrons. Nesse sentido, a “forma” do cristal é a expressão de
sua estrutura. Esta se interpreta em termos de química eletrônica, e sua expli-
cação se situa no nível atômico.
É completamente diferente para a morfologia de uma planta ou de um animal.
Ela depende de interações muito complexas entre as células que a ou o consti-
tuem. Se as células são elas próprias feitas de átomos ou de moléculas, não se
pode descrever a “forma” externa de um organismo a partir de uma estrutura
atômica. A arquitetura de um babirrussa4 não depende dos mesmos mecanis-
mos que a estrutura de um cristal. Ela é o resultado de um processo evolutivo
que não pode reduzir-se apenas aos conceitos da física ou da química funda-
mentais, da mesma maneira que o estilo de uma mesa Luís XVI não pode se ex-
plicar apenas pelas propriedades dos átomos ou das moléculas que compõem
a madeira. Isso não quer dizer que o babirrussa e a mesa “escapem” às leis da
física: isso significa que nem sempre existe tradução entre os diferentes níveis
da descrição científica.

Apesar, então, da óbvia natureza fônica das palavras e das sentenças da


língua, a explicação de sua “forma” (de sua estrutura) nada tem a ver com a
matéria fônica. A descrição fônica e a descrição estrutural de uma sentença
seriam mutuamente “intraduzíveis”. É isso, aliás, o que está por trás da co-
nhecida distinção de André Martinet, a dupla articulação da linguagem.
Provavelmente, o caminho do linguista diverge do caminho do físico,
nesse momento: enquanto o físico procura unificar sua ciência, buscando
uma teoria que unifique a física quântica (que trata bem do microcosmos)
e a física relativística (que trata bem do macrocosmo), caberia ao linguista
estabelecer que porções de seu objeto constituiriam áreas “intraduzíveis”.
Em outras palavras, caberia ao linguista aceitar que as duas articulações de
Martinet se constituem em dois objetos, sujeitos a diferentes elaborações te-
óricas porque de naturezas distintas.
Precisamos ter claro que a linguagem engloba fenômenos de diversas or-
dens, heterogêneos, que pedem explicações também heterogêneas. Creio que
aí reside parte da complexidade a que se alude na pergunta.
De outro lado, tentar entender o tratamento dessa massa heterogênea
de “objetos” como um quebra-cabeça, em que as partes se completam e per-
mitem a visualização do todo, não me parece o melhor caminho. Em outro

4
O babirrussa é um mamífero da Malásia (JBN).

História e filosofia da linguística


97
lugar5, afirmo que a imagem do conjunto de fotos de uma mesma casa não
serve como metáfora da construção da linguística porque nunca podemos ter
certeza de que as várias fotos são, de fato, fotos de uma mesma casa. Cada
linguista, a partir de seus recortes no objeto observacional, cria uma imagem
teórica (um modelo) de seu objeto que é fruto de concepções “metafísicas” e
não precisa coincidir, ajustar-se ou ser compatível com nenhum outro mode-
lo, seja do mesmo recorte no observacional, seja em recortes “complementa-
res”. Isso impede tomar por princípio a complementaridade e impede que a
metáfora das fotos de uma casa possa ser sustentada.
As tentativas de enxergar a linguagem e suas partes como um grande
lego podem ser substituídas pela metáfora da sinfonia6, em que as várias par-
tituras (dos violinos, do oboé, dos contrabaixos, das trompas etc.), não sen-
do “complementares” já que se sobrepõem a todo momento, permitem um
conjunto harmonioso. Às vezes, os violinos se calam enquanto os metais são
acionados; às vezes, o fagote faz um solo; outras vezes, todos os instrumentos
tocam simultaneamente; e esses movimentos, no seu conjunto, constituem o
todo harmônico.
Talvez eu esteja ficando velho, mas penso que considerar que há uma
abordagem única (ou, mesmo, unificada) da linguagem é uma falsa crença.
Eu arriscaria dizer que sabemos muito pouco sobre as línguas e que, assim,
fica difícil até sabermos por onde começar a pensar em unificação. O desen-
volvimento harmônico das áreas (mesmo sem unificação teórica) parece ser
o caminho. Certamente, devemos ter pessoas pensando nas interfaces entre
as teorias e buscando articulações entre elas. Não posso deixar de dizer que
vejo o Programa Minimalista de Chomsky como uma primeira tentativa re-
almente séria de desenvolver um programa de investigação com o objetivo
de entender como algumas dessas articulações poderiam ser constituídas.
Acho, no entanto, que os caminhos trilhados por Chomsky não vão nos le-
var lá, embora, com certeza, vão nos legar uma montanha de conhecimentos
sobre a sintaxe das línguas — o que não é pouco. A centralidade da sintaxe
impede que uma parte importante dos lugares de articulação entre as teorias
possa ser adequadamente visualizada.
Podemos ficar no seguinte estado: por um lado, é preciso admitir um “re-
lativismo” temporário; por outro, é preciso procurar a harmonia consistente
entre as várias “linguísticas”.

5
Ver “Diálogo sobre as razões da diversidade teórica na linguística”, recolhido como capítulo 1 (p. 17-29) de
J. Borges Neto (2004). Ensaios de filosofia da linguística. São Paulo: Parábola.
6
Essa metáfora da sinfonia aparece no texto de Pracontal (2002: 297) e é atribuída a Walter Gehring. O
uso que Pracontal faz da metáfora, no entanto, é substancialmente diferente do uso que faço aqui.

98 José Borges Neto


No plano do fazer epistemológico, há diferenças entre linguística teórica e
linguística aplicada? Isto é, há diferença entre o compromisso do pesqui-
sador em relação ao conhecimento quando faz ciência teórica ou quando
faz ciência aplicada?
Borges Neto — Essa é uma questão complexa. Em primeiro lugar, precisamos
entender que o rótulo “linguística aplicada” tem pelo menos dois sentidos:
a aplicação de descobertas da linguística, digamos, teórica, à resolução de
problemas de outra ordem (processamento de língua natural, aprendizagem
de L2, aquisição de L1, tratamento de patologias da linguagem, aquisição de
escrita etc.) ou, estritamente, o ensino e aprendizagem de L2.
Provavelmente porque, no Brasil, a primeira aplicação da linguística se
deu na área do ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras, a expressão
“linguística aplicada” acabou se ligando preferencialmente a essa área de es-
tudos. É interessante notar que, embora constituída como uma área de estu-
dos desde, pelo menos, o século XIX (e se ignorarmos o uso do termo, desde a
antiguidade), a grande explosão dos estudos linguísticos se dá na metade do
século XX, como consequência, em parte, da Segunda Grande Guerra. É jus-
tamente no final dos anos 1940 que começam a surgir os departamentos de
linguística nas universidades americanas, por exemplo. E parte importante
das discussões se dará no quadro do ensino/aprendizagem de línguas estran-
geiras. No Brasil, sintomaticamente, um dos primeiros centros a desenvolver
pesquisa linguística e a congregar pesquisadores foi o Yázigi, uma escola de
línguas estrangeiras. Não tenho certeza disso, mas possivelmente foi o gru-
po ligado ao Yázigi que cunhou o termo “linguística aplicada” para denotar
o trabalho que faziam. É importante notar, também, que os esforços para a
criação das organizações brasileiras de pesquisadores em linguística — Abra-
lin e GEL — receberam forte influência dos seminários do PILEI (Programa
Interamericano de Linguística e Ensino de Idiomas).
Não podemos, no entanto, esquecer todas as outras “aplicações” dos
resultados das teorias linguísticas. Em grande parte, surgidas mais recente-
mente (e, muitas delas, caudatárias da gramática gerativa), as aplicações da
linguística à descrição da aquisição de primeira língua, à aquisição da escrita,
ao tratamento de patologias da linguagem, ao processamento computacional
de língua natural etc., por um lado, nada têm a ver com o ensino de línguas
estrangeiras enquanto, por outro lado, são “aplicações” muito mais claras e
diretas dos resultados da teoria linguística a novos objetos. Temos um caso
interessante de aplicação da linguística em outras áreas na proposta que
Zeno Vendler faz aos filósofos analíticos, no capítulo 1 de seu livro Linguis-

História e filosofia da linguística


99
tics in Philosophy7 (chamado “Linguistics and the A priori”), de que deveriam
olhar para os resultados que a linguística obtinha e levar esses resultados em
consideração em suas pesquisas filosóficas.
É preciso reconhecer, no entanto, a constituição de algumas dessas áreas
“aplicadas” como algo mais do que simplesmente a aplicação da linguística a
novos objetos. Um estudo que surge área de interface ou de aplicação pode
conseguir autonomia e constituir-se como uma nova ciência, com novos ob-
jetos observacionais e, consequentemente, novos objetos teóricos.
De certa forma, é o que penso acontecer com o processamento de língua
natural (pln), por exemplo. Os recortes no objeto observacional e o tipo de
teorização determinada pela natureza do meio computacional acabam por
colocar os pesquisadores de pln numa rota paralela à do linguista. Há transa-
ções de lado a lado, mas nem os objetivos, nem os procedimentos podem ser
os mesmos. Lembro de ter apontado a pesquisadores de pln, numa época em
que estive envolvido com o assunto, que os mecanismos teóricos utilizados
por eles eram insuficientes, seja porque permitiam determinados resultados
(que não se verificavam na língua portuguesa), seja porque impediam certas
construções claramente gramaticais, e a resposta padrão era que incluir ou
excluir esses mecanismos era muito custoso e que o sistema funcionava a
contento para a esmagadora maioria dos casos. E o assunto se encerrava por
aí. Certa vez, propus discutir as classes de palavras usadas na anotação de
textos pelos etiquetadores (classes que, para mim, como linguista, não diziam
nada ou, pior, diziam o que não deviam dizer). Não houve nenhuma voz a fa-
vor da discussão. Ouvi de uma pesquisadora importante da área de pln que os
linguistas eram “sonhadores” e que, para ela, a gramática do Celso Pedro Luft
era suficiente. Enfim, tal como vai, a linguística e o pln rapidamente não terão
nada a dizer um para o outro.
Da mesma forma, raras vezes encontramos trabalhos de ensino de L2
que sejam, de fato, aplicações da linguística teórica. Eles existem e são muito
interessantes, mas de forma geral os pesquisadores em ensino/aprendizagem
de L2 recusam a teoria linguística. É moda hoje propor cursos de Letras ex-
clusivamente voltados à formação de professores de línguas estrangeiras que
prescindem totalmente de conhecimentos teóricos de linguística. Ao invés de
um curso de fonologia, por exemplo, fica-se no nível das generalidades sobre
a pronúncia das palavras, e assim por diante. Em outras palavras, implicita-

7
Cornell University Press, 1967, p. 1-32.

100 José Borges Neto


mente, a área do ensino/aprendizagem de L2 recusa o rótulo de “linguística
aplicada”, mesmo quando, explicitamente, o usa.
Quanto aos compromissos ligados ao fazer científico, não vejo diferen-
ças entre o pesquisador “teórico” e o pesquisador “aplicado”. Em outras áreas
— isso não fica claro na linguística —, o pesquisador “aplicado” desenvolve,
basicamente, tecnologia (enquanto o pesquisador “teórico” faz a chamada “ci-
ência básica”). O antropólogo Bruno Latour — embora faça uma filosofia da
ciência, no mínimo, polêmica e nem sempre merecedora de citações — ar-
gumenta, convincentemente, que as fronteiras entre a ciência básica e a tec-
nologia estão cada vez mais borradas. Quando Galileu construiu sua luneta
(feito tecnológico) usou uma teoria ótica (ciência básica); para justificar e dar
credibilidade a suas observações com a luneta, precisou desenvolver e aper-
feiçoar a teoria ótica (ciência básica); por meio das observações com o uso
da luneta, trouxe novos conhecimentos sobre a natureza dos corpos celestes
(luas de saturno, superfície da lua etc.) que reforçaram a teoria copernicana
(ciência básica). Em suma, os feitos tecnológicos permitem avanços na ciên-
cia básica que, por sua vez, permite o surgimento de novas tecnologias que,
na sequência, interferem nas observações dos cientistas, e assim por dian-
te. Qualquer biólogo sabe que nenhuma biologia teórica seria possível sem o
massivo auxílio da tecnologia. Embora, no mais das vezes, com objetivos bas-
tante distintos, as atividades dos cientistas e dos “tecnólogos” se interpene-
trem a todo instante. De certo modo, era isso que eu gostaria de ver acontecer
na linguística: “aplicados” auxiliando “teóricos” e vice-versa, numa espiral de
cooperação que só faria bem a todos. Claro que para isso, seria preciso que
as formações desses dois tipos de cientista mudassem radicalmente, com o
desaparecimento dos feudos e das intolerâncias.
Uma das experiências mais interessantes que vivi foi no final dos anos
1980, quando comecei a lecionar linguística num curso de informática. De-
pois de alguns tropeços, resolvi entender como funcionava a área de estudos
dos alunos e fui aprender a programar, entender a lógica das linguagens de
programação, a ver as questões do ponto de vista da informática. Esse esforço
(inútil, em parte, já que definitivamente não sou um programador) me permi-
tiu abordar com os alunos as questões linguísticas de uma forma que fizesse
sentido para eles. Durante cerca de dez anos, mantive uma disciplina de lin-
guística, obrigatória, no curso de informática da UFPR, com alguns resulta-
dos notáveis (um deles, talvez, foi o de ter alguns alunos fazendo letras depois
de formados em informática).

História e filosofia da linguística


101
Qual é a relevância, na pesquisa em linguística, de conhecer e se orientar
pelos filósofos da ciência? Como eles devem dialogar com a filosofia da
linguística?
Borges Neto — Rodrigo Faveri, orientando meu de doutorado na UFPR que
fez um estágio com Marcelo Dascal na Universidade de Tel-Aviv, acha que a
ciência e sua filosofia são interdependentes e tem alguns argumentos para
sustentar sua posição. Eu, por outro lado, não tenho clara essa relação. Os
cientistas, de modo geral, ignoram a filosofia e grande parte dos filósofos não
tem formação científica. O diálogo, assim, é muito difícil.
Há um descompasso entre o que é e o que deveria ser. Não quero ser nor-
mativo, mas certo grau de “idealização” não pode ser evitado. Minha posição
é a de que a filosofia deveria ser sempre acompanhada da história da ciên-
cia, que vai nos mostrar como tem sido o comportamento dos cientistas para
que escapemos das armadilhas normativas. E, na história da relação entre
filósofos e cientistas, vemos muito mais os filósofos atentos ao trabalho dos
cientistas do que os cientistas atentos às recomendações e constatações dos
filósofos. O caso de Vendler — que apontei em resposta acima — é exemplar.
Se passamos a “o que deveria ser”, creio que os linguistas deveriam estar
mais atentos aos filósofos, porque assim não fariam tantas bobagens.
Um bom exemplo é o da felizmente falecida sociolinguística paramétrica.
Uma tentativa de fazer coexistir, numa mesma teoria, a gramática gerativa
— com seu inatismo, suas regras determinísticas, sua busca do invariante
nas línguas — e a teoria laboviana da variação — com seu culturalismo, suas
regras variáveis, sua busca da variação nas línguas. E uma tentativa de cons-
trução teórica sem qualquer alteração significativa nas teorias “compatibi-
lizadas”, uma mera justaposição de teorias. Se, por um lado, não creio ser
impossível a construção de uma sociolinguística no seio da teoria gerativa,
por outro, não creio que a gramática gerativa saia ilesa desse processo. O mes-
mo acontece com a teoria da variação. Tentar justapor as teorias — e essa é a
minha questão — não passa da mais rematada bobagem, fruto de um entendi-
mento ingênuo da natureza do conhecimento científico. Este seria um lugar
— e um momento — em que uma maior atenção à filosofia seria essencial
para o linguista.
Da mesma forma, os filósofos também deveriam estar mais atentos ao fa-
zer dos linguistas. Os filósofos trazem para o interior da linguística, sem ne-
nhuma modalização, suas questões (e, pior, suas respostas) e também dizem
bobagens. Há filósofos, por exemplo, que defendem o realismo semântico. E
seriamente! Explico.

102 José Borges Neto


O realismo metafísico é uma teoria que sustenta que os objetos do mun-
do existem independentemente da atividade cognitiva de algum agente e que
nossa experiência desse mundo externo tem como causa imediata esses obje-
tos. O realismo semântico, além disso, sustenta que as expressões linguísticas
significam esses objetos, isto é, que todas as afirmações sobre o mundo são
verdadeiras ou falsas em função de como as coisas do mundo são em relação
a esses objetos independentemente existentes, sem levar em consideração
quaisquer pensamentos, crenças ou experiências de um agente cognitivo.
Ora, é possível pensar que existe um mundo exterior independente de
nós e de nossas atividades cognitivas. Em outras palavras, o realismo meta-
físico é uma teoria ontológica respeitável. Por outro lado, assumir o realis-
mo semântico é — ao menos para um linguista — uma rematada bobagem.
É óbvio que as expressões linguísticas falam de coisas que não existem (ou a
literatura seria impossível), falam de coisas que só existem para pessoas que
compartilham certas ideologias e que tais expressões são verdadeiras ou fal-
sas — no interior dos discursos — como quaisquer outras.
Aqui, a necessidade de mais atenção por parte dos filósofos ao que os
linguistas dizem seria fundamental.

Quais são os problemas de epistemologia mais comuns que têm ocorrido


nas pesquisas em linguística, especialmente no Brasil? Nesse aspecto, há
diferenças entre a pesquisa no Brasil e em outros países?
Borges Neto — Creio que o problema mais sério, porque recorrente, é a cria-
ção de “monstrinhos teóricos”. O linguista lê um autor que lhe parece interes-
sante e passa a usar suas ideias acriticamente, sem nunca perguntar sobre a
consistência das ideias, suas consequências para a manutenção das propos-
tas assumidas em conjunto. De modo geral, onde deveria haver síntese, só há
justaposição.
É preciso ser justo, no entanto. Esse tipo de atitude entre os linguistas é
herdado dos gramáticos que dominaram os estudos linguísticos por muitos
séculos. O problema da linguística atual é a grande dificuldade de se desven-
cilhar dessa herança.
Posso dar um exemplo. Na morfologia, os gramáticos, tradicionalmente,
usam o modelo de análise que Hockett8 denominou “palavra-e-paradigma”.
Nesse modelo, a palavra é a unidade de análise (e nada há abaixo da palavra).
8
Charles F. Hockett (1954). Two Models of Grammatical Description. Word 10, p. 210-231 [reimpresso em
M. Joos (org.) (1957). Readings in Linguistics I. Chicago: University of Chicago Press, p. 386–399].

História e filosofia da linguística


103
As palavras podem ser ditas variáveis ou invariáveis e essa distinção apoia-se
na existência de apenas uma ou de mais de uma forma no paradigma asso-
ciado à palavra. A palavra “número” é variável porque seu paradigma contém
as formas “número” e “números”; a palavra “aqui” é invariável porque seu pa-
radigma contém apenas a forma “aqui”. O verbo “cantar” também é variável,
já que seu paradigma contém as formas “cantar”, “cantei”, “cantávamos”, “can-
tando”, “cantasses” etc., num conjunto de mais de setenta formas alternati-
vas da mesma palavra. Esse é o ponto crucial: as formas dos paradigmas são
formas de uma mesma palavra. Ou assumimos isso ou deixa de fazer sentido
falar em palavra variável.
No modelo “palavra-e-paradigma”, as noções de flexão e derivação são obti-
das de forma absolutamente coerente: é a flexão que opõe as formas do paradig-
ma entre si, enquanto a derivação permite a obtenção de novas palavras a partir
de palavras, digamos, “primitivas”. E essas novas palavras terão seus próprios
paradigmas. Por exemplo, de “número”, cujo paradigma tem duas formas (“nú-
mero” e “números”), podemos obter “numérico”, cujo paradigma tem quatro
formas (“numérico”, “numérica”, “numéricos” e “numéricas”). Ou seja, flexão é
uma relação intraparadigmática e derivação é uma relação interparadigmática.
Pois bem. Os gramáticos tiveram contato com um modelo de análise
morfológica alternativo: o modelo que Hockett chamou de “item-e-arranjo”.
No modelo “item-e-arranjo”, a unidade não é a palavra, mas o morfema.
As palavras são objetos teóricos construídos a partir dos morfemas. As pa-
lavras podem ter apenas um morfema, como “aqui”, dois morfemas, como
“números” (que além do morfema raiz “número” apresenta o morfema “-s”,
indicador do plural), três morfemas, como “senhoras” (que contém os mor-
femas “senhor”, “‑a” e “-s”), e assim por diante. Na medida em que a palavra
é entendida como um conjunto de morfemas (ordenados num arranjo), fica
difícil pensar que “senhoras” e “senhor” sejam formas de uma mesma pala-
vra, já que essas duas palavras são constituídas por conjuntos diferentes de
morfemas. Já não podemos mais falar em palavras variáveis. A distinção va-
riável/invariável perde o sentido. Também não podemos mais falar em flexão
e derivação (ao menos com o sentido anterior desses termos), já que a noção
de paradigma desaparece.
Pois não é que os gramáticos passam a falar de morfemas no interior
mesmo do modelo “palavra-e-paradigma”? Definem “morfema” como a me-
nor unidade significativa da língua (que, no seu modelo de análise, deveria
ser a palavra) e são capazes ainda de dizer que a vogal temática e as conso-
antes e vogais de ligação são morfemas. Claro que a análise apresentada nas

104 José Borges Neto


gramáticas continua sendo exatamente a análise que vem sendo copiada de
gramático a gramático desde Dionísio Trácio, no século I a.C. Alguns ocultam
a inconsistência ao usar termos como “morfemas flexionais” e “morfemas
derivacionais”. Mas essas novas noções precisam ser definidas e explicitadas.
E não podemos mais usar a noção de paradigma para fazê-lo. Pior: os resul-
tados a que devemos chegar com as novas noções devem ser exatamente os
mesmos a que chegaríamos sem elas. Ou seja, os “morfemas flexionais” de-
vem corresponder exatamente às desinências e os “morfemas derivacionais”
devem corresponder aos afixos. Ora, se era para chegar exatamente ao mes-
mo lugar, para que as novas noções?
Estou dizendo que isso acontece com os gramáticos — e é verdade. Mas
isso também acontece com boa parte dos trabalhos de morfologia feitos pelos
linguistas. Tem muita gente tentando distinguir flexão de derivação; gastan-
do tempo e energia com uma distinção que só faz sentido numa determinada
perspectiva teórica que, na maior parte das vezes, não é a perspectiva assu-
mida pelo linguista. Se a desculpa é que só se está usando o termo e não a
noção teórica associada a ele, fica a questão de que sempre se procura chegar
ao mesmo lugar a que termo e noção nos levavam.
Estou tentando não me referir a ninguém especificamente (as carapuças
servirão para alguns), mas não posso deixar de dizer que um dos responsáveis
por esse procedimento, no mínimo, estranho, é Mattoso Camara Júnior, que,
aparentemente, não entendeu o que estava em jogo quando tentou — fora
do modelo “palavra-e-paradigma” — distinguir flexão de derivação (sem abrir
mão dos resultados a que o modelo anterior chegava). E muita gente boa con-
tinua, inutilmente, a seguir seus passos.
Se isso não é a busca deliberada de “monstrinhos teóricos”, não sei o que
mais poderia ser.
No fundo, a questão toda se liga a uma ignorância geral dos linguistas
quanto às questões epistemológicas. Ao menos, a um desprezo generalizado
por essas questões, que parecem para alguns como uma reflexão “de filóso-
fos”, que não interessa ao linguista.
Outra questão tem a ver com a quase completa ausência de uma história
da linguística (o quadro vem mudando substancialmente nos últimos anos,
devo reconhecer).
A história que muitas vezes se faz é a história externa (“fofoca externalis-
ta”, como me disse alguém há uns anos). Uma história assim serve pouco aos
interesses da filosofia da linguística. Pior, desserve, já que por não se remete-
rem às questões epistemológicas, dão vazão, e até incentivam, o sincretismo.

História e filosofia da linguística


105
Tenho tentado incentivar meus alunos a que se dediquem à história da
linguística e tenho obtido algum sucesso, principalmente entre os alunos
de línguas clássicas e com a preciosa colaboração dos professores de gre-
go e latim da UFPR. Muitos alunos têm dedicado esforços na tradução e no
comentário de autores clássicos (“linguistas anacrônicos”). Já conseguimos
uma boa tradução para o português (direto do grego) da Tekhné Grammatiké
de Dionísio Trácio (século I a.C.); uma tradução de boa parte da Gramática
especulativa de Tomás Erfurt (1310), escrita originalmente em latim; uma tra-
dução diretamente do grego dos Dissoi Logoi (do século V a.C.), texto de au-
tor anônimo, mas de possível autoria do sofista Protágoras; uma tradução de
boa parte das Noites áticas do latino Aulo Gélio (século IV). Tenho uma aluna
trabalhando na tradução de Varrão e outra na tradução de Sexto Empírico.
Creio que assim podemos dispor de um acervo mínimo de história do pen-
samento linguístico antigo e medieval para podermos começar a pensar os
fundamentos da gramática. Além disso, já temos alguns trabalhos sobre as
primeiras gramáticas portuguesas (Fernão de Oliveira, em particular) e esta-
mos começando a investir na análise das gramáticas filosóficas (portuguesas
e brasileiras) dos séculos XVIII e XIX. Tenho também alunos pensando histo-
ricamente a linguística do século XX, com a gramática gerativa como objeto
privilegiado. Enfim, há muito o que fazer, e estamos procurando dar nossa
pequena contribuição.
Quanto à situação no exterior, não creio que seja muito diferente do que
ocorre no Brasil. Por um lado, tenho a tentação de dizer que não é. Por outro
lado, vejo muito mais trabalhos epistemológicos sobre a linguística publica-
dos lá fora, o que poderia indicar a presença mais forte desse tipo de reflexão.
Claramente, a história da linguística é imensamente mais forte no exte-
rior do que no Brasil.

106 José Borges Neto


Interacionismo sociodiscursivo1
Jean Paul Bronckart

Quais foram as áreas da linguística que influenciaram mais as bases teó-


ricas do interacionismo sociodiscursivo (ISD)?
Bronckart — Antes de responder a essa questão, tomarei a liberdade de, pri-
meiramente, ampliá-la, não me limitando apenas às influências da linguís-
tica, mas evocando também as bases, pelo menos as mais importantes, de
outras ciências humanas/sociais, em particular, da psicologia e da sociologia.
Em seguida, distinguirei, sem dúvida um pouco artificialmente, as influên-
cias de ordem técnico-linguísticas das de ordem mais nitidamente epistemo-
lógicas e até filosóficas.

1.1. As influências “técnicas”

Nesse domínio, por mais surpreendente que possa parecer, o primei-


ro linguista que mencionaremos será Bloomfield (1933), pois a metodologia
que ele construiu (cf. a análise distribucional e a análise em constituintes
imediatos) forneceu instrumentos que foram, e continuam sendo, indispen-
sáveis para toda operacionalização de uma descrição e de uma classificação
das empirias linguísticas. Não nos inscrevemos, portanto, no movimento,
particularmente vivo na França e em certos países latinos, que, após o de-
senvolvimento das abordagens enunciativas e/ou pragmáticas, literalmente
“diabolizou” o estruturalismo e seus aportes. Em nossos estudos, que se vol-
tam para a organização e o funcionamento dos textos/discursos, a primeira
etapa consiste sempre em uma identificação das categorias de unidades e de
estruturas que lhes são atestáveis, mesmo que depois prossigamos por outros
procedimentos de análise e de interpretação, que podem remeter à origem
da identidade ou do estatuto dos “objetos” gerados nessa análise estrutural

1
Entrevista publicada em março de 2006, originalmente em francês. Trad.: Cassiano Ricardo Haag e
Gabriel de Ávila Othero.

Interacionismo sociodiscursivo
107
inicial. De fato, a maioria dos linguistas contemporâneos procede como nós e
explora efetivamente os métodos estruturais; em vez de mascarar essa situa-
ção, nós preferimos explicitá-la e reconhecer nossa dívida com essa corrente,
da mesma forma que, por outro lado, reconhecemos nossa dívida com alguns
aportes teóricos e metodológicos de behaviorismo na psicologia. Dito isso,
se exploramos sem paixão as técnicas provindas do behaviorismo linguístico,
não aderimos, entretanto, à epistemologia que essa abordagem subentende,
como veremos no item 1.2.
Sem dúvida, a mais decisiva influência para o estabelecimento da cami-
nhada própria do ISD foi, no entanto, a obra de Culioli (1990, 2002, 2005), em
contato com a qual se efetuou nossa verdadeira formação linguística, e da
qual três aportes serão sublinhados. O primeiro consiste em um substancial
alargamento da metodologia bloomfieldiana: tentar, a partir dos enunciados
“dados”, prever o previsível como se fosse “o menos previsível”, de modo a
ultrapassar o caráter “local” dessa caminhada fundadora. Isso implica consti-
tuir corpus de enunciados atestados assim como de enunciados construídos,
e, em seguida, proceder a manipulações que visam evidenciar o que há de
comum e de diferente nas famílias de enunciados, remetendo a um mesmo
universo de referência. O segundo aporte, mais propriamente teórico, tratou
da reinterpretação do estatuto das empirias linguísticas, em termos de “mar-
cadores” e de “operações”. Qualquer que seja sua delimitação e seu estatuto
do ponto de vista estrutural (signo, sintagma, proposição), cada entidade lin-
guística constitui (também) um marcador, isto é, um veículo ou um revela-
dor material de uma ou mais operações constitutivas do trabalho enunciativo
subentendido em toda produção verbal. Esse segundo nível de interpretação
não anula o primeiro; antes evidencia que, do ponto de vista praxeológico, a
identidade de uma entidade verbal só pode se estabilizar com base nas ope-
rações que a subentendem (em outros termos, entidades linguísticas diversas
constituem uma mesma marca, desde que materializem uma mesma opera-
ção). O terceiro aporte é o da rede de conceitos introduzidos pelo autor para
designar e descrever as diferentes operações de linguagem2*: as noções, as
relações primitivas e o esquema da lexis para reformular o estatuto da rela-
ção predicativa e de seus constituintes de base; a extração, as indicações e os

Nas expressões operations langagières, activité langagière, action langagière e pratiques langagières, o
2 *

termo langagière será traduzido pela expressão “de linguagem”, conforme já consagrada com a tradução
de Anna Rachel Machado. A expressão socio-langagier foi traduzida por “sociodiscursivo”. Em outros ca-
sos, optamos pelo termo “linguageiro”, já bastante utilizado também em traduções do francês. Em caso
de exceções serão feitas notas de rodapé (N.T.).

108 Jean Paul Bronckart


diversos tipos de determinações para codificar os processos que se aplicam
secundariamente aos esquemas da lexis. Certamente, pode-se lamentar que
essa abordagem permaneça centrada nos enunciados, e não tenha, verda-
deiramente, integrado a dimensão textual/discursiva, mas alguns alunos de
Culioli procederam a essa ampliação, Simonin-Grumbach (1975) tendo nota-
damente introduzido a noção de tipos de discurso que nós retomamos tal qual
em nossos próprios trabalhos.
A terceira influência é, então, como se pode presumir, a das ciências dos
textos-discursos. Os escritos de Volochinov (1929/1977) constituíram para nós
uma fonte de inspiração maior, na medida em que forneceram as bases de
nossa abordagem do estatuto da unidade-texto, de um lado, das modalidades
de interação entre as atividades de linguagem e os outros tipos de atividades
humanas, de outro. Além desses, seguramente, trabalhos próprios de Bakhtin
(cf. 1978, 1984), que, nos parece um pouco atrás em relação ao acento que pu-
nha Volochinov nas dimensões praxeológicas e sócio-históricas da atividade
discursiva, propôs uma análise do estatuto dos gêneros textuais, de um lado,
dos mecanismos interativos que os organizam, de outro, que é unanimemen-
te aceito e por demais conhecido para que o comentemos novamente. Nesse
domínio, para descrever alguns fenômenos linguísticos locais, bem como para
elaborar nosso modelo da arquitetura textual, tomamos emprestados múlti-
plos trabalhos de autores de cujas orientações teóricas gerais não necessa-
riamente compartilhamos: estudos detalhados dos mecanismos de conexão,
de coesão (cf., por exemplo, Charolles, 1994) ou de estruturação temporal (cf.
Benveniste, 1966; Weinrich, 1973); elaboração de modelos gerais da organiza-
ção textual, como o de Roulet et al. (1985) e, sobretudo, o modelo construído
progressivamente por Adam (1990, 1992, 1999), autor com o qual estamos em
permanente debate crítico e construtivo; trabalhos, enfim, da corrente da nar-
ratologia, e de Genette (1972) em particular, que evidenciam a complexidade
e a heterogeneidade dos mecanismos enunciativos-discursivos, com tal fineza
de análise que apenas parcialmente podemos explorar em nosso trabalho.

1.2. As influências “epistemológicas”

Como se verá na questão 2, o propósito do ISD não é, em si, propor um


novo modelo de análise do discurso. Certamente, efetuamos esse tipo de tra-
balho (e isso durante várias décadas), mas apenas enquanto possa nos forne-
cer o auxílio necessário para abordar nosso questionamento central, que é o
do papel que a linguagem desempenha, e, mais precisamente, as práticas de

Interacionismo sociodiscursivo
109
linguagem, na constituição e no desenvolvimento das capacidades epistêmi-
cas (ordem dos saberes) e praxeológicas (ordem do agir) dos seres humanos.
Sob esse ângulo, nossa influência primeira é Vygotski (1934/1997; 1999),
que elaborou uma psicologia de desenvolvimento à qual aderimos desde o fim
dos anos 1960. Tratar do desenvolvimento humano implica necessariamen-
te (em nosso ponto de vista) fazer opções epistemológicas claras, e, como
veremos a seguir em 2, Vygotski sobre esse ponto adotou um quadro essen-
cialmente inspirado nas proposições de Spinoza e Marx-Engels. Para esses
últimos autores, o objeto primeiro de toda ciência humana não é mais, como
era na filosofia clássica, a relação que se instala entre o sujeito que pensa e o
mundo, mas sim, a práxis coletiva, ou ainda, “a atividade humana, enquanto
atividade objetiva, pois é na prática que o homem tem de fazer a prova da verda-
de, isto é, da realidade e da potência de seu pensamento, a prova que é deste mun-
do” (Marx, 1951: 23-4). Nessa perspectiva, as capacidades de pensamento ativo
do ser humano não podem derivar diretamente das propriedades físicas de
seus corpos ou de seus comportamentos objetivos; elas só podem proceder,
como o mostra Engels em La dialectique de la nature (1925/1971) que a reinte-
gração, no homem, das propriedades da vida social objetiva, em seus aspectos
de criação de instrumentos, de cooperação no trabalho e de linguagem. O ob-
jetivo fundamental de Vygotski era propor uma análise da ontogênese humana
compatível com essas posições, o que o levou a elaborar um esquema desen-
volvimental que se pode resumir em cinco pontos:
(1) o jovem humano é dotado de um equipamento biocomportamental e psí-
quico inicial, que, enquanto procede da evolução contínua das espécies,
o dote de potencialidades novas;
(2) desde o nascimento, o jovem humano é mergulhado em um mundo de
pré-construtos sócio-históricos: formas de atividade, coletivas, obras e
fatos culturais, produções semióticas que emergem de uma língua natu-
ral dada etc.;
(3) desde o nascimento, ainda, o ambiente humano empreende caminhadas
deliberadas de formação, que visam integrar o jovem humano nessas re-
des de pré-construtos, ou que guiam sua apropriação destes últimos;
(4) no quadro desse processo de apropriação, a criança interioriza proprie-
dades da atividade coletiva assim como signos e estruturas de linguagem
que a mediatizam;
(5) essa interiorização das estruturas e significações sociais transforma ra-
dicalmente o psiquismo herdado e dá origem às capacidades do pensa-
mento consciente.

110 Jean Paul Bronckart


Nessa perspectiva, é, então, a integração de elementos semióticos e so-
ciais que é constitutiva do pensamento propriamente humano.
Vygotski, entretanto, não pôde fornecer uma verdadeira validação argu-
mentativa ou empírica de seu esquema desenvolvimental, e é, notadamen-
te, para fazer face a esse problema que solicitamos a contribuição da obra
de Saussure. Na cronologia de nosso percurso, esse autor é, portanto, nossa
segunda referência epistemológica maior, mas ele tende, hoje, a tornar-se
nossa referência principal, em razão da importância decisiva das perspec-
tivas abertas por seus escritos (1916, 2002). Num primeiro momento, então,
exploramos a teoria saussuriana do signo para validar as teses vygotskianas,
ou para mostrar em que a apropriação e a interiorização dessas entidades
semióticas podem “causar” a emergência do pensamento consciente huma-
no. Uma vez que os signos são, a princípio, imotivados (independência das
propriedades dos significantes em relação às de seu referente), sua interiori-
zação, confere-se ao funcionamento psíquico uma verdadeira autonomia em
relação aos parâmetros do ambiente. Esse caráter imotivado é, no entanto, me-
nos importante que o do arbitrário radical, noção que exprime o fato que, na
medida em que eles se originam no uso social de uma comunidade particular
(e então de uma língua), os signos submetem as representações individuais a
uma reorganização cujo caráter é radicalmente não natural. O significante de
um signo (o termo fruta por exemplo) impõe, a uma só vez, uma delimitação
e uma federação das diversas imagens mentais que um humano é capaz de
construir em sua interação solitária com esse tipo de objeto; e o significado
do signo é constituído pelo conjunto das imagens mentais que se encontram
assim submetidas pelo significante. As línguas naturais se diferenciam não
apenas por seus significantes aparentes, mas sobretudo pela extensão e pela
estrutura interna das imagens constitutivas dos significados, como atestam
os problemas de tradução. É, portanto, no quadro dessas formas sociolingua-
geiras particulares e arbitrárias, que se organizam as representações huma-
nas. Nessa perspectiva, os signos são entidades representativas desdobradas;
apresentam-se como envelopes em que agrupam representações individuais,
ou ainda, como representações (sociais) de representações (individuais). E
quando a criança interioriza os signos, ela os interioriza com essa proprie-
dade metarrepresentativa, propriedade possibilita esse desdobramento do
funcionamento psíquico que é a condição sine qua non da emergência de seu
caráter autorreflexivo. Essa emergência só é possível, todavia, na medida em
que os signos apresentam uma terceira propriedade: eles são discretos, isto
é, seus significantes são “recortados” em unidades descontínuas, e a interio-

Interacionismo sociodiscursivo
111
rização de tais significantes acarreta necessariamente uma interiorização
correlativa de seu significado, significado, portanto, ele mesmo, delimitado e
com a capacidade de absorver e de reorganizar as imagens mentais de caráter
idiossincrático:

Psicologicamente, abstração feita de sua expressão pelas palavras, nosso pen-


samento é somente uma massa amorfa e indistinta. […] O papel característico
da língua face ao pensamento não é criar um meio fônico material para a ex-
pressão das ideias, mas servir de intermediário entre o pensamento e o som,
em condições tais que sua união acarreta necessariamente delimitações recí-
procas de unidades. O pensamento, caótico por natureza, é forçado a se preci-
sar decompondo-se. Não há, então, nem materialização dos pensamentos, nem
espiritualização dos sons, mas trata-se de fato de alguma forma misteriosa,
que o “pensamento-som” implica divisões e que a língua elabora suas unidades
constituindo-se entre duas massas amorfas (Saussure, 1916: 155-156).

Num segundo momento, graças, notadamente, aos trabalhos de alguns


de nossos colaboradores (cf. Bulea, 2005), tomamos consciência do caráter
propriamente revolucionário3 das proposições saussurianas, das quais ao
menos três alimentam os desenvolvimentos atuais (e futuros) do ISD: a con-
cepção do signo como entidade fundamental processual, que jamais é dotado
de um significado imutável, mas que acolhe imagens mentais temporárias e
instáveis, porque sempre dependentes do uso; a concepção do sistema da lín-
gua, não como entidade fechada, mas como estando em perpétua interação
com os sistemas sociais, psicológicos e discursivos; o acento, enfim, sobre os
mecanismos de mudança, e sobre a dinâmica temporalizada que anima o con-
junto dos sistemas que subentendem os fatos linguageiros.
Além desses autores, poderíamos citar vários outros, dos quais pegamos
emprestadas proposições ou análises teóricas que nos parecem fundamen-
tais. Para nos limitar aos principais (que ainda não foram mencionados),
citaremos: no campo propriamente filosófico, as abordagens de Wittgens-
tein (1961); no campo filossociológico, as de Habermas (1987), Ricœur (1986)
e Schütz (1998); no campo psicológico, as de Leontiev (1967), Piaget (1970) e
Wallon (1938); no campo linguístico, enfim, as de Humboldt (1835/1974) e Co-
seriu (2001).

3
A identificação desse caráter revolucionário exige, entretanto, que se tome distância da recepção es-
truturalista do Curso de linguística geral (1916) e se proceda a uma análise detalhada das notas de Saussu-
re, principalmente das publicadas nos Escritos de linguística geral (2002).

112 Jean Paul Bronckart


Alguns, ao se referir ao interacionismo sociodiscursivo, o tratam por uma
“teoria”. Anna Rachel Machado (da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo — PUCSP) propõe encarar o ISD como um novo “paradigma científi-
co” da linguística. Para o senhor, o que é o ISD?
Bronckart — Honestamente, eu realmente não estou preocupado com a ques-
tão de saber se o ISD constitui uma “teoria”, um “paradigma científico” ou o
que quer que seja do gênero. Decidir essa questão implicaria, além do mais,
dispor de uma concepção relativamente clara do que são teoria e/ou paradig-
mas, o que me parece longe de ser evidente. Em consequência, me limitarei a
tentar explicar o que é e o que quer ser a “caminhada” do ISD.

2.1. Uma variante e um desenvolvimento do interacionismo social

O ISD se inscreve claramente no movimento do interacionismo social, do


qual constitui, simultaneamente, uma “variante” e um prolongamento.
O interacionismo social é uma vasta corrente de pensamento das ciên-
cias humano-sociais que se constituiu no primeiro quarto do século XX, no-
tadamente através das obras de Bühler (1927), Claparède (1905), Dewey (1910),
Durkheim (1922), Mead (1934), Wallon, e seguramente Vygotski. Em sua ver-
são original, essa corrente sustentava que a problemática da construção do
pensamento consciente humano deveria ser tratada paralelamente à cons-
trução do mundo dos fatos sociais e das obras culturais e considerava que os
processos de socialização e os processos de individuação (isto é, de formação
das pessoas individuais) constituíam duas vertentes indissociáveis do mesmo
desenvolvimento humano. Sustentava também, de um lado, que o questiona-
mento das ciências humanas em vias de constituição devia se apoiar sobre
o impressionante corpus de filosofia do espírito (de Aristóteles a Marx), de
outro lado, que os problemas de intervenção prática, e notadamente as ques-
tões suscitadas pela educação e pela formação, constituíam objetos centrais
para as ciências humanas. Ele contestava, enfim, radicalmente, o corte das
ciências em múltiplas disciplinas e subdisciplinas, descolando da adesão à
epistemologia positivista de Comte (1830/1907). Esse último procedeu, como
se sabe, a uma classificação das diversas ciências fundada sobre os graus de
generalidade e de complexidade dos objetos aos quais se dedicam, designou
aos estudiosos um trabalho de descrição dos fenômenos e de identificação
das leis ou da ordem que as organizam e interditou, enfim, a esses mesmos
estudiosos toda forma de transgressão das fronteiras que separavam as disci-
plinas científicas: cada objeto deve se explicar por sua economia ou sua siste-

Interacionismo sociodiscursivo
113
mática própria, sem levar em consideração aquisições de outras disciplinas.
O interacionismo social rejeita essa epistemologia, pois considera que suas
problemáticas centrais são, de um lado, as das relações de interdependência
que se instauram e se desenvolvem entre os aspectos fisiológicos, cognitivos,
sociais, culturais, linguísticos etc., do funcionamento humano, de outro lado,
as dos processos evolutivos e históricos pelos quais essas diferentes dimensões
foram engendradas e co-construídas.
Essa corrente histórica foi, entretanto, diminuída e combatida, em ra-
zão da adesão majoritária ao positivismo manifestada no conjunto das ciên-
cias humanas a partir de 1930, e em razão também da ênfase nas questões de
intervenção prática e educação. Ele ressurgiu, no entanto, a partir dos anos
1970, graças à descoberta da obra de Vygotski, assim como dos trabalhos de
Bruner (1993) e de outros.
O ISD aceita todos os princípios fundadores do interacionismo social,
como a contestação do corte atual das ciências humanas/sociais: nesse sen-
tido, ele não pode se constituir mais como uma corrente propriamente “lin-
guística” do que como uma corrente “psicológica” ou “sociológica”; ele se quer
uma corrente da ciência do humano.
Mas, de uma maneira apenas aparentemente contraditória com o que
precede, o ISD considera que a problemática da linguagem é absolutamente
central ou decisiva para essa mesma ciência do humano. No prolongamento
da tese compartilhada por Saussure e Vygotski, segundo a qual os signos lin-
guísticos estão nos fundamentos da constituição do pensamento conscien-
te humano, visa demonstrar, mais geralmente, que as práticas de linguagem
situadas (quer dizer, os textos-discursos) são os instrumentos maiores do de-
senvolvimento humano, não somente sob o ângulo dos conhecimentos e dos
saberes, mas, sobretudo, sob o das capacidades de agir e da identidade das
pessoas. A posição do ISD pode, então, por esse ponto de vista, ser qualificado
de logocêntrico, mas trata-se de um logocentrismo moderado, que recusa todo
determinismo “definitivo” do sociodiscursivo: sustentar que as práticas de
linguagem estão nos fundamentos (isto é, na origem) de todo funcionamento
especificamente humano não pode levar a contestar essa realidade indiscutí-
vel que constitui a emergência de capacidades cognitivas gerais, tendendo a
abstrair diferenças sociais, culturais ou linguageiras, tais como Piaget nota-
damente as descreveu. Aqui, o importante é considerar que essa construção
de capacidades cognitivas tendencialmente universais resulta de um processo
secundário, aplicando-se progressivamente a capacidades de pensamento ini-
cialmente marcadas pelo sociocultural e o linguageiro.

114 Jean Paul Bronckart


2.2. Uma ancoragem em uma filosofia materialista,
monista e dialética
O ISD se articula a um conjunto de princípios filosóficos, fundados pri-
meiramente sobre a obra de Espinoza, depois sobre sua releitura por Marx-
-Engels, enfim, sobre a filosofia implícita em Saussure.
De Espinoza (1677/1954), o ISD retém os princípios do materialismo mo-
nista e paralelista. O materialismo vem para afirmar que o universo é apenas
a matéria em perpétua atividade e que todos os “objetos” que ele inclui com-
preendem nele os processos de pensamento atestáveis na espécie humana,
são realidades propriamente materiais. O princípio do monismo afirma que,
se alguns desses objetos nos aparecem, entretanto, enquanto físicos, (inscritos
no espaço), outros nos aparecem enquanto psíquicos (não estando aparente-
mente inscritos, e, portanto, não diretamente “observáveis”), trata-se apenas
aí de uma diferença fenomenal, e não de uma diferença de essência. Em essên-
cia, tudo é, definitivamente, matéria, e é somente em razão da mediocridade
de nossas capacidades de entendimento (ou de nossas capacidades cognitivas)
que apreendemos essa realidade única sob a forma de dois tipos de fenômenos
disjuntos. O princípio do paralelismo vem para considerar que, no decorrer da
“caminhada do universo”, a matéria ativa fez nascer “objetos” cada vez mais
complexos, e notadamente organismos vivos, num processo geral segundo o
qual cada objeto produz os mecanismos dinâmicos de sua organização interna.
Isso implica que, a cada etapa da evolução, as propriedades dessa organização
interna dos objetos “correspondem” às de suas interações comportamentais
com o meio externo; nos organismos vivos em geral, essa organização é gerada
por um psiquismo primário (sistema de traços internos não autônomos, pou-
co operacionalizáveis e inacessíveis a eles mesmos), enquanto no homem, esse
psiquismo primário se encontra em harmonia com um (e reorganizado por
um) psiquismo secundário, isto é, por um pensamento consciente.
De Marx & Engels (1846/1968), o ISD retém que o desenvolvimento hu-
mano deve ser apreendido em uma perspectiva dialética e histórica. O mar-
xismo propõe que os estados iniciais do psiquismo humano não podem ser,
a princípio, conscientes, mas que essa função superior é construída histo-
ricamente: as capacidades biocomportamentais específicas dos organismos
humanos tornaram possível a elaboração de atividades coletivas, assim como
instrumentos a serviço de sua realização concreta (as ferramentas manufatu-
radas) e instrumentos a serviço de sua gestão de conjunto (os signos linguís-
ticos), o que produziu um mundo econômico, social e semiótico que constitui
doravante uma parte específica do ambiente dos humanos; é, em seguida,

Interacionismo sociodiscursivo
115
o reencontro com essas propriedades radicalmente novas do meio, depois
sua apropriação e sua interiorização pelo organismo, que progressivamente
transformou o psiquismo primário e deu lugar à emergência do pensamento
consciente em seu estado atual. Essa posição se acrescenta à rejeição de toda
concepção essencialista do humano e à necessidade de estudar cientifica-
mente as capacidades desse último em uma perspectiva genealógica ou “ge-
nética”, no sentido de Piaget e de Vygotski: só se pode compreender o humano
compreendendo sua construção ou futuro.
Combinando esses dois aportes, o ISD sustenta (isto é, sua tese, sem dú-
vida, mais “profunda”) que a emergência das práticas de linguagem ou semi-
óticas se inscrevem na continuidade da evolução das espécies, constitui, ao
mesmo tempo, o elemento decisivo da “ruptura humana”: a prática dos signos
e dos textos que os organizam constituiria uma forma de materialização dos
processos dinâmicos que, tendo o homem, permanecem inobserváveis ou im-
plícitos; com o homem, elabora-se uma nova rede de processos dinâmicos,
de origem radicalmente social, que, de um lado, se sobrepõe à rede dinâmica
herdada ou biológica, que, de outro lado, porque é material e, portanto, aces-
sível, permite ao homem pensar e gerar seu próprio futuro.
Dos aspectos “revolucionários” de Saussure (2002), o ISD retém, além
das três teses evocadas acima em 1.2. (caráter processual dos signos; intera-
ções constantes entre os sistemas da língua, dos discursos e do sociopsicoló-
gico; centramento na temporalidade da vida da linguagem), uma quarta, que
é a da dupla ancoragem da língua. Para Saussure, toda língua é, por um lado,
se ancora na comunidade verbal, e é nesse único nível que se pode apreender
a totalidade dos recursos, e ela é, por outro lado, ancorada em cada indivíduo,
a título de “repositório” parcial dessa realidade coletiva. Consequentemente,
considera-se que o discursivo está nos fundamentos do psiquismo. Essa tese
implica, então, que esse psiquismo é duplamente ancorado: de um lado, nos
mundos das obras e da cultura (cf. Dilthey, 1883/1992), de outro, em cada or-
ganismo humano singular, o que conforta singularmente as teses do intera-
cionismo social inicial, e que demonstra que o “psicológico” não pode jamais
ser retido no nível único dos indivíduos, mas na interação desses últimos com
o ambiente social.

2.3. Os gêneros dos textos e os tipos de discurso


À medida que visa estudar os efeitos das práticas de linguagem no de-
senvolvimento humano, o ISD precisou forjar uma concepção da organização
dessas práticas sob a forma de textos e/ou de discursos. É a razão pela qual

116 Jean Paul Bronckart


se elaborou, de um lado, um modelo das condições de produção de textos (cf.
entretanto 3, infra) e um modelo da arquitetura textual, elaborado como in-
dicado em 1.1., ao que se seguiram diversos trabalhos de linguística ou das
ciências do texto.
No âmbito desta entrevista, não será possível descrever em detalhes es-
ses dois modelos, para os quais enviamos o leitor a nossa obra (em português)
de 1999 (cf. nossas referências em 5). Vamos nos limitar a destacar uma das
originalidades de nossa concepção: a distinção de estatuto e de função entre
os “textos”, os “gêneros de textos” e os “tipos de discurso”.
Qualificamos de textos todas as produções de linguagem situadas, cons-
truídas, de um lado, mobilizando os recursos (lexicais e sintáticos) de uma
língua natural dada, de outro, levando em conta modelos de organização
textual disponíveis no quadro dessa mesma língua. Esses textos podem ser
definidos como manifestações empíricas/linguísticas das atividades de lin-
guagem dos membros de um grupo. Sob esse ângulo, e de maneira paradoxal,
se um texto mobiliza unidades linguísticas (mais eventualmente de outras
unidades semióticas), não constitui em si mesmo uma unidade linguística;
suas condições de abertura, de fechamento (e provavelmente de planificação
geral) não são da competência do plano linguístico, mas são inteiramente de-
terminadas pela ação que a gerou (cf., sobre esse ponto, Bakhtin, 1984); é a ra-
zão pela qual nós qualificamos o texto como unidade comunicativa. Por outro
lado, à medida que as formações sociodiscursivas elaboraram, no decorrer
da história, modelos de organização textual diversos suscetíveis de realizar
empiricamente uma mesma ação de linguagem (cf. Foucault, 1969), não existe
(ou existe apenas excepcionalmente) correspondência biunívoca entre uma
ação de linguagem e uma espécie de texto.
Os textos são produzidos pela operacionalização de mecanismos estru-
turantes heterogêneos e frequentemente facultativos, que exploram recursos
linguísticos por vezes em concorrência. E toda confecção de texto implica
consequente e necessariamente escolhas, relativas à seleção e à combina-
ção dos mecanismos e de suas modalidades linguísticas de realização. Nessa
perspectiva, os gêneros de textos constituíam os produtos de configurações
de escolhas entre as possíveis, que são momentaneamente estabilizadas pelo
uso, escolha que emerge do trabalho que realiza as formações sociodiscur-
sivas para que os textos sejam adaptados às atividades que eles praticam,
adaptados a um meio comunicativo dado, eficazes em face a tal aposta social
etc. Em razão desse estatuto, os gêneros mudam necessariamente com o tempo,
ou com a história das formações sociodiscursivas. Por outro lado, como toda

Interacionismo sociodiscursivo
117
obra humana, os gêneros fazem o objeto de avaliações ao termo das quais
se encontram afetados de diversas indexações sociais: indexação referencial
(que atividade geral o texto é suscetível de comentar?); comunicacional (para
que interação esse comentário é pertinente?); cultural (qual é o “valor social
agregado” à matriz de um gênero?) etc. Essa situação explica que não se possa
estabelecer relação direta entre espécies de agir linguageiro e gêneros de tex-
tos; ela explica também a impossibilidade de classificação estável e definitiva
dos gêneros, sublinhada por inúmeros autores; impossibilidade de classifica-
ção que é apenas a consequência da heterogeneidade e do caráter geralmente
facultativo dos subsistemas que contribuem à confecção da textualidade.
Em sua Introduction à l’architexte (1979), Genette evidenciara claramente
a necessidade de distinguir as tentativas de classificação dos textos em gê-
neros, daquelas fundadas em seus modos de enunciação. Para ele, os gêneros
têm modalidades de estruturação diversas e heterogêneas e não podem, por-
tanto, ser arranjadas conforme um sistema hierárquico estável, enquanto os
“modos” seriam atitudes de locução de caráter universal, traduzindo-se por
formas linguísticas mais estáveis e, então, identificáveis. A distinção posta
por Benveniste entre “história” e “discurso”, a de Weinrich entre “mundo
comentado” e “mundo narrado” traçaram bem esses modos de enunciação;
elas descrevem atitudes de locução gerais, que se traduzem, no quadro de
uma língua natural dada, por configurações de unidades e processos linguísti-
cos relativamente estáveis. Simonin-Grumbach (op. cit.) tentou formalizar as
operações que esses planos enunciativos subentendem e identificar as pro-
priedades linguísticas das formas que os realizam, formas que ela qualifica-
va de tipos de discurso. É essa abordagem que nos inspirou e que tentamos
prolongar, sobretudo, sob dois aspectos. Reanalisamos as operações que os
tipos de discurso subentendem, fazendo intervir duas decisões binárias. Para
a primeira (disjunção-conjunção), as coordenadas que organizam o conteúdo
temático verbalizado estão explicitamente postas à distância das coordena-
das gerais da situação de produção do agente (ordem do narrar), ou elas não
estão (ordem do expor). Para a segunda, as instâncias de agentividade verbali-
zadas estão postas em relação com o agente produtor e sua situação de ação
de linguagem (implicação), ou elas não estão (autonomia). O cruzamento do
resultado dessas decisões produz, assim, quatro “atitudes de locução” que
chamamos de mundos discursivos: narrar implicado, narrar autônomo, expor
implicado, expor autônomo. Procedemos a análises distribucionais e estatís-
ticas das configurações de unidades e de processos da língua francesa que
exprimem esses mundos discursivos, o que permitiu identificar quatro tipos

118 Jean Paul Bronckart


de discurso, que chamamos de discurso interativo, discurso teórico, relato in-
terativo e narração. Ainda que pareça minoritária, essa escolha de utilizar a
expressão tipos de discurso em vez de “modo de enunciação” nos parece mais
que legítima. Além de sua acepção banal, designando toda operacionalização
de uma língua, a noção de “discurso” reenvia mais profundamente ao proces-
so de verbalização do agir linguageiro, ou de sua semiotização no quadro de
uma língua natural. Ora, esse processo se realiza manifestamente segundo
modalidades diversas (possíveis de descrever em termos de operações), ex-
pressas por formas linguísticas relativamente estáveis, que exercem influên-
cias maiores sobre a distribuição e as condições de emprego das unidades;
o que justifica falar em “tipos” de semiotização, ou tipos de discurso. Esses
tipos constituem, em outros termos, formatos de operacionalização das uni-
dades de uma língua (vertente significante), que traduzem alguns formatos
que organizam as trocas linguageiras humanas, ou trocas interindividuais de
representações (vertente significado).

2.4. Práticas de linguagem e desenvolvimento

Os trabalhos descritos, além do interesse intrínseco, constituem tam-


bém uma espécie de pressuposto para a análise dos efeitos que as práticas de
linguagem exercem sobre o desenvolvimento humano, que asseguramos, de
um lado, sob o ângulo epistêmico, de outro, sob o ângulo praxeológico.
O primeiro deve levar a pesquisas que analisem os efeitos dessas práticas
sobre o desenvolvimento da organização dos conhecimentos. O único trabalho
pronto, hoje, foi realizado no domínio da estruturação temporal. Bronckart
(2005) fez um interessante paralelismo entre as etapas de matriz da estrutu-
ração temporal dos tipos relato interativo e narração, e as etapas da constru-
ção do “tempo social” estabelecidas notadamente por Piaget (1946). Outros
trabalhos estão em curso sobre o tema do papel da matriz dos tipos de discur-
so sobre a emergência das diversas formas de raciocínio: os tipos de discurso
servem, de fato, como lugar de interface entre as representações individu-
ais (tendo sua sede nas obras humanas) e constituem os formatos obrigados
dessa colocação em interface. Quando (re-)produz um tipo de discurso, um
indivíduo deve proceder à planificação interna dos segmentos concernidos,
e aprende assim a operacionalizar esses processos indiscutivelmente men-
tais e linguageiros que são os raciocínios: raciocínios práticos implicados nas
interações dialogais (cf. Rolet et al., op. cit.); raciocínios causais-cronológicos
implicados nos relatos interativos e nas narrações (cf. Ricœur, 1983); racio-

Interacionismo sociodiscursivo
119
cínios de ordem lógica e/ou semiológica implicados nos discursos teóricos
(cf. Grize, 1984). Essa mediação pelos tipos parece constituir um processo de
desenvolvimento fundamental, à medida que é por ela que se transmitem as
grandes formas de operatividade do pensamento humano.
A maioria de nossas pesquisas atuais concernem, entretanto, ao desenvol-
vimento praxeológico; elas visam compreender como, a partir de uma leitura
de segmentos de atividade coletiva, se constroem essas formas interpretativas
que constituem as ações, de um lado, e os atores responsáveis, de outro. Nossa
caminhada consiste em selecionar um conjunto de tarefas precisas, realiza-
das em três situações de trabalho contrastadas (usina, hospital, instituição de
ensino); para cada uma dessas tarefas, recolhemos três tipos de dados: — os
textos produzidos pelas organizações em questão para descrever e/ou orien-
tar essas tarefas (ordem do trabalho prescrito); — dos registros áudio-vídeo
da realização efetiva dessas tarefas pelos trabalhadores (ordem do trabalho
real); — conversas realizadas com trabalhadores antes e depois da realização
das tarefas (ordem do trabalho representado). Isso nos forneceu três tipos de
dados linguageiros, produzidos em contextos diferentes, mas contendo seg-
mentos de interpretação da mesma tarefa. Analisamos esses segmentos sob
dois ângulos: — uma análise de conteúdo centrada nas dimensões da tare-
fa ou do trabalho nele tematizadas; — uma análise textual centrada nos re-
cursos linguísticos nele mobilizados (tipos de discurso; tipo de localização
temporal; modos de expressão da agentividade; modos de expressão das mo-
dalizações pragmáticas etc.). Os resultados desses trabalhos são múltiplos (cf.
Bronckart e Groupe LAF, 2004), mas nós poderemos sublinhar aqui somente
dois aspectos. Eles fizeram aparecer primeiramente a diversidade das formas
interpretativas da atividade, que qualificamos de figuras de ação (cf. Bulea &
Fristalon, 2004). De maneira geral, essas figuras de ação se caracterizam pela
dificuldade de articular três dimensões: — o actante, com as decisões de ação e
as suposições de responsabilidade que o erigem em ator; — os determinismos
da tarefa que se apresentam, seja como normas gerais do trabalho, seja como
restrições de uma situação de intervenção determinada; os aspectos do desen-
rolar temporal e lógico da própria tarefa. Nenhuma das figuras identificadas
propõe uma combinação completa dessas três dimensões; elas acentuam uma
ou mais, em detrimento das outras. Nossos resultados fizeram aparecer, além
disso, que se a distribuição dessas figuras é evidentemente dependente da
natureza das tarefas realizadas, assim como das condições de produção ver-
bal (trabalho prescrito, real ou representado), elas são, sobretudo, claramente
dependentes dos tipos discursivos mobilizados nos segmentos interpretativos;

120 Jean Paul Bronckart


essas figuras são, então, primeiramente, figuras discursivas, o que explica em
qualquer espécie a variedade das concepções, teóricas ou profanas, que se
pode ter das ações e dos atores.

2.5. As caminhadas de intervenção

Na perspectiva vygotskiana, a ciência integrada do humano deveria ter


como objetivo último tratar (ou até resolver) os problemas que se colocam
concretamente na vida das “gentes”: problemas de trabalho, de formação ou
de educação, de patologia social ou individual etc. Aderimos firmemente a
essa concepção e sustentamos, consequentemente, que uma ciência do hu-
mano só tem legitimidade se estiver apta a analisar e a transformar as situa-
ções de atividade humana. Essa é a razão pela qual, no quadro do ISD, ao lado
de trabalhos propriamente teóricos, foram operacionalizados, simultânea e
permanentemente, caminhadas de intervenção sobre situações práticas, na
ocorrência essencialmente no domínio da didática das línguas. A nosso ver,
essas caminhadas têm o estatuto de pesquisas, da mesma forma que as ou-
tras, e recusamos toda distinção entre “pesquisa fundamental” e “pesquisa
aplicada”; além disso, consideramos que as situações práticas constituem
um dos maiores lugares de validação das proposições teóricas, no sentido de
que se a operacionalização de uma dessas proposições se revela impossível
ou ineficaz na prática, não é obrigatória sua rejeição, mas seu estatuto e sua
formulação devem ser reinterrogados. Enfim, conforme nossa ancoragem fi-
losófica (cf. 2.2.), pensamos que todo projeto da ciência do humano comporta
necessariamente uma dimensão política, conduzindo, portanto, a nos enga-
jar em terrenos práticos, em vista de uma melhoria das situações, cujo teor é
evidente e democraticamente “discutível”.
No domínio da didática das línguas, dois primeiros tipos de caminhadas
foram conduzidos, e um terceiro é atualmente operacionalizado.
O primeiro tipo de intervenção consistiu numa aplicação direta nas re-
formas dos programas de ensino textual na Suíça francesa, em particular no
nível secundário obrigatório; em uma perspectiva de diversificação dos tipos
de textos a ensinar, nossas propostas visaram centrar o trabalho didático, a
cada grau, numa só e mesma “família de gêneros” (finalidade narrativa no
grau 7; finalidade informativa no grau 8; finalidade argumentativa no grau 9).
O segundo tipo de intervenção consistiu na elaboração, com professo-
res, de esquemas de lições chamadas de sequências didáticas destinadas ao
conjunto dos graus da escolaridade obrigatória (cf. Dolz e Pasquier, 1993; Sch-

Interacionismo sociodiscursivo
121
neuwly e Dolz, 1997). O princípio geral dessas sequências é tentar integrar
(e hierarquizar) dois objetivos: — partindo da constatação de que existem
conjuntos de gêneros textuais adaptados a situações de comunicação ou de
atividades determinadas, trata-se, a princípio, de tornar o aluno conscien-
te dessa correspondência e de habilitá-lo a escolher os modelos de gêneros
pertinentes para uma atividade de linguagem dada; — sabendo, além disso,
que os alunos encontram diversos problemas linguísticos durante a redação
ou a leitura-compreensão de todo texto, trata-se de subordinar ao primeiro
objetivo, adaptativo, um objetivo segundo de matriz técnica de subconjuntos
de processos de estruturação de textos. Nessa perspectiva, as sequências são
organizadas como segue (ver Dolz, Noverraz e Schneuwly, 2000). É, primeiro,
empreendido um importante trabalho de concepção da sequência, implican-
do: — a própria escolha do gênero a ensinar, que deve levar em conta sua
utilidade-finalidade prática e a possibilidade de o fazer funcionar na situação
de aula; — a constituição de um corpus de exemplares de textos que emergem
desse gênero, que estejam adaptados às capacidades presumidas dos alunos;
— a elaboração de um modelo didático do objeto a ensinar, por transposição
das referências teóricas que têm traço na organização desse gênero, assim
como das “práticas sociais de referência” que lhe são associadas. O desenro-
lar da sequência se caracteriza quanto a isso por um encadeamento temporal
de atividades, organizado, conforme os princípios evocados acima, em dois
níveis embutidos. O primeiro tem a ver com a funcionalidade do gênero. No
início da sequência, os alunos são chamados a elaborar um projeto comunica-
tivo capaz de se concretizar numa produção escrita destinada a certo públi-
co; a classe se engaja, então, em uma reflexão sobre os diversos parâmetros da
situação em questão (estatuto dos interlocutores, restrições do tipo de mídia
etc.), bem como sobre os diferentes elementos de conteúdo que poderiam por
ele ser mobilizados. Empreende uma pesquisa de exemplares de gêneros que
parecem adaptados a essa situação e a esse conteúdo; cada aluno redige, en-
fim, um texto adaptado ao projeto retido. No fim da sequência, uma situação
de comunicação análoga à precedente é definida, e os alunos precisam redigir
um segundo texto que lhe é adaptado. O segundo nível trata da matriz téc-
nica de algumas características do gênero retido (gestão dos organizadores,
das retomadas anafóricas, da temporalidade, das vozes enunciativas etc.), e
dá lugar à realização de diversos exercícios que se desenrolam entre as duas
fases de produção textual. O exame dos textos finais dos alunos permite, en-
fim, avaliar os progressos feitos e medir a eficácia das atividades didáticas
desenvolvidas.

122 Jean Paul Bronckart


Esse tipo de caminhada conheceu um sucesso real, que se mede notada-
mente na divulgação da prática das sequências didáticas e que se explica pe-
las dimensões de explícito e de racionalidade que essa abordagem introduziu
em didática da expressão: das referências teóricas estruturadas; dos objeti-
vos claramente conceitualizados; dos procedimentos didáticos programáveis
e avaliáveis. Mas esse mesmo caráter estruturado, ou até “rígido”, da cami-
nhada das sequências engendrou reservas e críticas da parte de educadores
menos centrados nos objetos-gêneros, e mais sensíveis à heterogeneidade-
-criatividade textual e aos processos gerais que os alunos operacionalizam
em sua apreensão dos textos, tanto em produção como em compreensão. Por
outro lado, os próprios partidários das sequências tomaram consciência de
que, se essa caminhada contribui indiscutivelmente para o esclarecimento
dos objetivos e para as condições de preparação das tarefas dos professores,
ela não assegura, no entanto, que a aprendizagem efetiva em aula se desen-
role conforme os objetivos e os planejamentos. Um terceiro tipo de pesquisa-
-intervenção foi, a partir daí, colocado para determinar em que medida esse
“trabalho prescrito” se realizaria efetivamente no curso das lições. Em outros
termos, para identificar as propriedades do “trabalho didático real” atestável
em aula, quer se trate do trabalho do professor ou do aluno.

Os trabalhos desenvolvidos na perspectiva do ISD até o momento se pre-


ocuparam, na grande maioria das vezes, com a produção. Já se iniciam,
no entanto, algumas pesquisas que abordam questões relacionadas com a
recepção. Por que se optou, no início, por deixar de lado o problema da
recepção e quais os cuidados que se devem tomar para se tratar desse pro-
blema no âmbito do ISD? 
Bronckart — O ISD está centrado, com efeito, quase exclusivamente na ver-
tente de produção dos textos, em detrimento de sua recepção, o que consti-
tui indiscutivelmente uma limitação da caminhada em seu estado atual; há,
portanto, necessidade de ultrapassar essa situação e empreender pesquisas
sobre os mecanismos de interpretação textual.
A razão dessa centralização inicial sobre a produção está ligada à pro-
blemática da intervenção que acabamos de evocar em 2.5: na origem, os tra-
balhos teóricos do ISD foram empreendidos para responder a demandas de
professores da escola obrigatória, e visaram construir elementos de referên-
cia que lhes fossem úteis em suas práticas didáticas. Ora, na escola obrigatória
(graus 1 a 9), os programas estão essencialmente centrados nas capacidades

Interacionismo sociodiscursivo
123
de matriz dos diversos gêneros de textos, nas condições contextuais de sua
produção e na resolução dos problemas técnico-linguísticos suscitados por
sua redação. Questões de recepção ou de interpretação serão tratadas, sobre-
tudo, nos níveis pós-obrigatórios da escolaridade.
Se essa razão é principalmente de ordem conjuntural, convém observar
que, no plano teórico, as problemáticas da produção e da recepção-interpretação
são ainda abordadas, atualmente, por diferentes autores, inscritos em tradições
disciplinares diferentes e explorando redes conceituais nitidamente distintas.
Nossos colegas que praticam a análise do discurso ou a linguística do texto (cf.
Adam, Roulet etc.) partem, como nós, de um quadro globalmente bakhtiniano e
estão de fato centrados na análise dos processos de produção e em seus produ-
tos textuais. As abordagens da recepção se inscrevem na continuidade de uma
hermenêutica (cf. Ricœur 1986), eventualmente material (cf. Rastier, 2001), cuja
problemática de conjunto parece mais complexa que a da produção (mas isso
carece de confirmação), e que, em todo caso, é de outra natureza.
Consequentemente, se só podemos encorajar essas e aquelas que con-
tribuem para o desenvolvimento do ISD explorando as questões de recepção,
sustentaremos, por princípio, de um lado, que essas abordagens não podem
repousar sobre a tese de uma espécie de “simetria” entre essas duas vertentes
e, de outro, que elas devem explorar e levar em conta todas as aquisições da
hermenêutica, caminhada essencial, pesada, e que não tivemos o “tempo” de
empreender nós mesmos.

No seu livro Atividades de linguagem, textos e discursos: por um intera-


cionismo sociodiscursivo, o conceito de texto aparece diversas vezes de
maneira bem nítida. Nessa obra, o senhor deixa claro que está preocupado,
naquele momento, com textos standard. Hoje, entretanto, o ISD movimenta
trabalhos com textos artísticos, como o de Maurício Érnica, e com textos
produzidos no ambiente digital, como a pesquisa de Dinorá Fraga (UNISI-
NOS). Que influências podem ter esses estudos que se preocupam com textos
não standard na própria noção de texto apresentada no seu livro de 1997?
Bronckart — Esses trabalhos, interessantes e indispensáveis, não substituem,
no entanto, a definição geral de texto apresentada sob 2.3: “Unidade comuni-
cativa codependente do quadro da atividade linguageira e que mobiliza os re-
cursos de uma língua natural dada”. Toda produção verbal situada é um texto.
A questão aqui é essencialmente de outra metodologia. Entre a junção
de gêneros disponíveis no arquitexto (cf. Bakhtin) de uma comunidade (aí in-

124 Jean Paul Bronckart


cluindo então os textos artísticos, poéticos, informatizados etc.), defendemos
a ideia de que certos tipos de texto são mais simples que outros, ou repousam
sobre operações linguageiras menos numerosas e menos complexas, ou ainda
que constituem uma espécie de tipos ideais. São esses textos que qualificamos
de standard e que escolhemos para analisar inicialmente, buscando eviden-
ciar as “regras de base” de organização de todos os textos.
Para nós, os textos produzidos no contexto digital são essencialmente
variantes de textos standard, analisáveis dentro do quadro atual do ISD, mas
eles exigem também a captura dessa nova dimensão de contextos de produ-
ção que constitui a informatização.
Os textos artísticos, poéticos, ou relevantes da “literatura” não seriam
textos standard, seriam parte de um trabalho secundário ou suplementar, ex-
plorando a autorreflexão dos processos linguageiros (sua capacidade de se
autoexceder); eles se caracterizam pelas transformações das regras de base
dos textos standard. Essa posição é evidentemente discutível, mas repousa
sobre a tese segundo a qual, assim como os estudantes devem inicialmente
dominar as regras de funcionamento de narrativas comuns antes de poder
compreender os processos que compõem um texto “literário”, os produtores
dos textos não standard devem inicialmente dominar as regras dos textos
standard para, em seguida, transformá-las em função de seus próprios obje-
tivos. Transformações que obedecem a outras regras, o que é indispensável
deixar em evidência, e que começam a aparecer em certos estudos, em Gene-
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Interacionismo sociodiscursivo
127
Lexicologia1
Ieda Maria Alves

O seu Projeto Observatório de Neologismos do Português Brasileiro Con-


temporâneo, sob o nome de Observatório de Neologismos Científicos e Téc-
nicos do Português Contemporâneo, foi fundado em 1988, com apoio do
CNPq. Já contava com corpora extraídos de veículos de comunicação de
massa. Naquela época, bem sabemos, as dificuldades de informatização
eram comuns a todos no Brasil. Como a senhora conseguiu driblá-las e,
apesar de tudo, reunir um corpus tão vasto?
Alves — O Observatório de Neologismos Científicos e Técnicos do Português
Contemporâneo foi implantado em agosto de 1988, junto à Faculdade de Ciên-
cias e Letras de Assis de Assis (FCL-Assis) da Universidade Estadual Paulista,
onde eu atuava. O Projeto foi iniciado com a colaboração do CNPq, procuran-
do atender a uma dupla finalidade: atender à necessidade de elaboração de
trabalhos terminológicos sobre as áreas científicas e tecnológicas; e, de ma-
neira mais específica, descrever algumas ciências e técnicas para responder
às necessidades do desenvolvimento tecnológico e científico, que ocasiona a
criação contínua de novos termos que devem ser catalogados e difundidos.
Com as duas bolsas de iniciação científica que me concedeu o CNPq, dei
início à pesquisa de neologismos em algumas áreas de especialidade. Três
áreas foram inicialmente privilegiadas, por diferentes razões: a área de ci-
ências agrárias, pelo fato de eu trabalhar em Assis, uma cidade em que as
atividades agrícolas tinham grande importância; a psicologia, por ser uma
área de humanas e a FCL-Assis oferecer o curso, o que me facilitava o contato
com psicólogos, já que os especialistas de áreas são parceiros importantíssi-
mos em todo trabalho terminológico; e a informática, que se implantava no
Brasil e cuja terminologia ainda estava em formação. Essas diferentes áreas
foram estudadas em diferentes corpora: textos especializados (artigos de pe-

1
Entrevista publicada em agosto de 2011.

128 Ieda Maria Alves


riódicos) da área da psicologia, facilmente encontrados na biblioteca da fFa-
culdade, e materiais de divulgação das áreas das ciências agrárias (revistas e
cadernos de jornais) e da informática (revistas).
A informática estava engatinhando nas universidades, e o Projeto foi
iniciado por meio da leitura de textos, forma de trabalho habitual entre os
que — não apenas no Brasil — faziam pesquisa na área de neologia. Os dados
recolhidos foram registrados em fichas terminológicas, em suporte papel, até
meados da década de 1990.
A partir de janeiro de 1993, paralelamente à pesquisa em neologia de al-
gumas línguas de especialidade, o Projeto Observatório passou a dedicar-se
também ao estudo da neologia geral, por meio da busca de neologismos em
jornais (Folha de S.Paulo e O Globo) e revistas (IstoÉ e Veja) de grande divulgação.
Foi então criada a Base de Neologismos do Português Brasileiro Contemporâ-
neo. Com a criação desse subprojeto, os objetivos do Projeto modificaram-se
parcialmente, passando a ser: coletar, analisar e difundir aspectos da neolo-
gia geral e da neologia científica e técnica do português contemporâneo do
Brasil; elaborar glossários e dicionários terminológicos em algumas das áreas
estudadas. As áreas de especialidade restringiram-se a duas, a inteligência
artificial e a economia, embora mestrandos e doutorandos possam escolher
outras áreas para o desenvolvimento de suas dissertações e teses.
Já atuando na Universidade de São Paulo (desde janeiro de 1990), conti-
nuei contando com o apoio do CNPq, e também da FAPESP, relativamente à
obtenção de bolsas de iniciação científica, o que foi fundamental para o de-
senvolvimento do Projeto.
O desenvolvimento do Projeto foi seguindo o desenvolvimento da infor-
mática, outro apoio fundamental. não apenas em relação à utilização de cor-
pora informatizados para a obtenção e a otimização de dados como também
em sua divulgação. Esse apoio tornou-se mais eficaz em meados da década de
1990, quando as fichas lexicológicas e terminológicas passaram a ser registra-
das em uma base de dados do programa Access da Microsoft, o que eliminou
as fichas em suporte papel. Também nesse período pude contar com edições
informatizadas da revista Veja, fornecidas pela Editora Abril e, pouco tempo
depois, a disponibilização de jornais e revistas pela internet possibilitou o
acesso aos textos jornalísticos informatizados que serviam como corpora.
Já no século atual, o apoio informático vem-se consolidando, e o Projeto
conta com um extrator de neologismos desenvolvido por pesquisadores do
NILC (Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional) da USP-São
Carlos, Sandra Maria Aluísio e Thiago Salgueiro Pardo, o que permite a coleta

Lexicologia
129
semiautomática de neologismos. Outro importante fruto da parceria com a
informática é representado pela consulta on-line de neologismos constituin-
tes da Base de Neologismos do Português Brasileiro Contemporâneo, que
abrange, atualmente, cerca de 35.000 unidades lexicais neológicas e mais de
50.000 ocorrências. Essa consulta pode ser efetuada no site do Projeto (www.
fflch.usp.br/dlcv/neo), em que também estão sendo disponibilizados termos
da economia, tanto neológicos como já consolidados, sob forma de verbetes
que apresentam: referências gramaticais e processo de formação do termo,
sua definição e um exemplo de uso, extraído de materiais de divulgação da
área econômica.

Como a senhora avalia a importância e a visibilidade da pesquisa sobre neo-


logia em linguagem cotidiana e em linguagens especializadas no Brasil hoje?
Alves — A pesquisa sobre neologia, tanto a referente à linguagem cotidiana,
quanto a que concerne às linguagens especializadas, é de grande importância
para o conhecimento do desenvolvimento de uma língua.
A pesquisa sistemática sobre a língua cotidiana, que na terminologia
da lexicologia é denominada língua geral, em oposição às línguas de espe-
cialidade, permite verificar, em um período e em um corpus determinado:
os processos de formação mais usuais; os prefixos e sufixos mais usuais; a
concorrência entre estrangeirismos e elementos vernáculos na evolução do
léxico de uma língua.
Relativamente ao estudo da neologia nas línguas de especialidade, a aná-
lise da formação dos termos permite também verificar, em um período e em
um corpus determinado, os processos de formação e os afixos mais usuais.
Permite também observar se uma língua de especialidade segue os proces-
sos históricos de formação dessa área, a exemplo das áreas médicas, que com
frequência recorrem a radicais gregos e latinos para a constituição de novos
termos. Várias outras possibilidades de estudo se oferecem ao pesquisador:
diferentes gêneros textuais (do científico stricto sensu à divulgação científi-
ca) permitem estudos contrastivos no que concerne à observação da variação
terminológica, em suas diferentes modalidades (morfológica, lexical, sintáti-
ca); à formação de termos metafóricos; ao emprego de estrangeirismos e for-
mas decalcadas, entre outras possibilidades.
Outros estudos podem enfocar as relações que as unidades lexicais neo-
lógicas estabelecem com a sintaxe, a semântica, o texto. Na verdade, a unida-
de lexical neológica abre, como salienta o pesquisador francês Jean-François

130 Ieda Maria Alves


Sablayrolles (La néologie aujourd’hui. In: C. Gruaz, À la recherche du mot: de
la langue au discours. Limoges: Lambert-Lucas, 2006), inúmeras possibili-
dades de estudo, ultrapassando o âmbito da lexicologia, da lexicografia e da
terminologia e podendo ser enfocada sob diferentes teorias, sob diferentes
perspectivas de análise linguística. Assim, em virtude de refletir uma carga
cultural nova (um novo fato) e um processo de formação, uma palavra neo-
lógica pode ser estudada a partir de todas as teorias e de todos os pontos de
vista linguísticos.
No entanto, a visibilidade da pesquisa sobre a neologia, tanto a da língua
cotidiana quanto a das línguas de especialidade, não acompanha ainda a im-
portância desses estudos. Mas ressalto, com muita satisfação, que a visibili-
dade dos estudos neológicos e terminológicos é cada vez maior, em razão de
diferentes fatores.
O mais importante deles é representado pela criação, e sobretudo pela
atuação do Grupo de Pesquisa em Lexicologia, Lexicografia e Terminologia da
ANPOLL, que criado em 1986, tem desde então buscado consolidar a área do
léxico entre os estudos de linguística no Brasil.
Essa consolidação tem-se efetuado por meio de um trabalho de forma-
ção, que, inicialmente limitado a algumas universidades brasileiras (Univer-
sidade de São Paulo, Universidade de Brasília, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, Universidade Estadual Paulista), foi, com a formação cres-
cente de mestres e doutores em lexicologia e terminologia, apresentando um
efeito propagador, fazendo com que outras universidades passassem a ofere-
cer formação nessas áreas.
A realização de numerosos encontros sobre o léxico, tanto no âmbito do
gt — nos encontros nacionais bienais, e nos anos ímpares, desde 1997, nos
encontros intermediários — como em eventos fora do âmbito do gt, também
tem contribuído sobremaneira para a visibilidade dos estudos lexicais. Como
consequência desses encontros, nacionais e intermediários, a publicação de
Ciências do léxico: lexicologia, lexicografia e terminologia, com cinco volumes
editados, representa importantíssima mostra da quantidade e da qualidade
de trabalhos produzidos nessas três subáreas do léxico.
Ressalto ainda a atuação do gt junto às agências de fomento e às gran-
des associações de linguística, o que tem contribuído para que a área do lé-
xico tenha inserção junto às demais áreas de estudos linguísticos. Números
especiais dedicados à lexicologia e à terminologia representam também um
índice de consolidação da importância da pesquisa em neologia no português
brasileiro contemporâneo.

Lexicologia
131
Especificamente no que concerne à pesquisa em neologia das línguas de
especialidade, ressalto que a visibilidade também transparece por meio dos
numerosos glossários disponibilizados em formato papel e em sites de ban-
cos, órgãos governamentais e diferentes empresas, que refletem a consciên-
cia da importância comunicativa da terminologia nas atividades cotidianas.

O seu trabalho relativo à observação de estrangeirismos rendeu um impor-


tante apoio para a ALAB quando da discussão de um projeto de lei sobre es-
trangeirismos. Qual a sua posição sobre os estrangeirismos no português do
Brasil? Eles têm/teriam mesmo algum poder para corromper a nossa língua?
Alves — Todos os estudiosos das línguas sabem que os idiomas se influenciam
mutuamente e que estrangeirismos se incorporam a todas as línguas vivas.
Também sabem que o prestígio de uma língua está muito ligado ao(s) povo(s)
que a fala(m). Relembrando o que Mattoso Camara (História e estrutura da
língua portuguesa. Rio de Janeiro: Padrão, 1975) escreveu há quase quatro dé-
cadas, a língua portuguesa tem aumentado seu patrimônio lexical por meio
de empréstimos íntimos — de substrato (línguas ibéricas pré-românicas), de
superstrato (elementos germânicos) e de adstrato (elementos árabes, africa-
nismos e tupinismos) — e culturais (sobretudo elementos do provençal, do
francês, do italiano e, mais contemporaneamente, do inglês).
Desde que iniciei o estudo de observação sistemática da neologia no por-
tuguês do Brasil, fui constatando que os estrangeirismos eram relativamente
poucos, se comparados com os neologismos criados por meio dos processos
vernaculares. Os dados da Base de Neologismos do Português Brasileiro Con-
temporâneo mostram que os estrangeirismos representam 17% dos neologis-
mos do corpus estudado, sendo os demais 83% representados por processos
vernáculos. Dentre os neologismos não vernáculos, 73% são de origem ingle-
sa, seguindo-se os de origem francesa (8%) e os de origem japonesa (3%), ita-
liana (3%) e espanhola (2%).
Grande parte desses estrangeirismos (68%) é representada por hapax,
ou seja, unidades lexicais que ocorrem no corpus uma única vez. Dentre es-
ses — especialmente os de origem não inglesa —, vários são empregados em
textos bastante específicos, que se referem a características de outros países
e culturas. São unidades lexicais designativas de pratos regionais (carcerato
pistoiese, uma sopa da região italiana de Pistoia), de traços típicos de regiões
ou cidades (hutong, quarteirão com casas pequenas existentes em ruelas de
cidades chinesas), de práticas locais (takraw, esporte praticado na Tailândia).

132 Ieda Maria Alves


Os estrangeirismos que circulam nos jornais e revistas analisados pelo
Projeto Observatório pertencem, sobretudo, à área musical e designam no-
mes de danças (street dance), gêneros musicais (black music, britpop, pop-
-rock). Em seguida, destacam-se os termos da área tecnológica e informática
(closed caption, smart card, stent). A área dos esportes também é responsável
pela introdução de termos, tanto de origem inglesa (jab, pitcher), como de ou-
tras origens (ippon, de origem japonesa; tai chi chuan, de origem chinesa). A
economia, ciência responsável pela criação de numerosos neologismos ver-
naculares, apresenta também estrangeirismos de origem inglesa que circu-
lam internacionalmente: são, especialmente, os termos das bolsas de valores
(after market), do comércio internacional (trader), do comércio eletrônico
(e-money).
Observa-se, assim, que os estrangeirismos são introduzidos pelos falan-
tes para acompanhar a introdução de uma dança, um tipo de música, um es-
porte, uma técnica, um novo tipo de transação comercial. Designam ainda
novos hábitos e modos de agir, como a entrega rápida de uma mercadoria
(delivery), a refeição rápida (fast-food), o convívio após um dia de trabalho (ha-
ppy hour). Muitos deles são também empregados em outros idiomas e podem
fazer parte dos Mots sans frontières, de Sergio Corrêa da Costa (Poitiers: Ro-
cher, 1999), ao lado de bunker, geisha, kibbutz, made in, match, nec plus ultra,
pizza, réveillon, souvenir, tortilla, entre tantas outras unidades lexicais inter-
nacionalizadas citadas pelo autor.
Além da adaptação fonológica ao idioma que os recebe, os estrangeiris-
mos adaptam-se também, não raro, à morfologia da língua receptora, tanto
do ponto de vista flexional quanto derivacional. Relativamente ao gênero, os
estrangeirismos tendem a seguir a flexão da língua de origem (exigir minha
appellation contrôlée, Veja, 03-2006), ou, se esta não apresenta flexão em gê-
nero, tendem a receber o gênero masculino, não marcado (o blog, o twitter).
Tendem também a adaptar-se ao sistema da flexão em número do idioma, a
exemplo do italiano famiglias, empregado ao invés de famiglie (o crime orga-
nizado das famiglias, IstoÉ, 03-1995). Vários derivados são também formados
a partir de um estrangeirismo, como blogueiro, em que a forma inglesa blog
junta-se ao sufixo português -eiro (Quase simultaneamente, entra no ar o we-
blog coletivo blogueiros, Época, 07-2006).
A adaptação semântica também ocorre, nos casos em que um estran-
geirismo, introduzido na língua receptora com um significado, torna-se po-
lissêmico. Exemplifico com a unidade lexical upgrade, que, introduzida no
português brasileiro em referência à atualização dos componentes de um

Lexicologia
133
computador, passou também a ser empregada para designar outras formas
de atualização e de aperfeiçoamento (A cada novo patamar da fama de Ronal-
do, a família imediatamente ganha upgrade, Veja, 12-1996).
Alguns estrangeirismos não apresentam nenhuma forma de integração
— com exceção da integração fonológica — à língua portuguesa. Palavras de
origem estrangeira bastante frequentes como jeans (do inglês) e pizza (do ita-
liano) guardam a grafia das respectivas línguas de origem. Este fato pode ser
devido ao prestígio da língua estrangeira, porém, acredito que a ausência de
integração ortográfica é, em alguns casos, condicionada pela estrutura da pa-
lavra estrangeira. Se um estrangeirismo, como surf, facilmente se integra orto-
graficamente ao português, com o acréscimo da vogal temática -e à consoante
final, formando uma sílaba do português — surfe —, outros estrangeirismos
frequentes, como jeans e software, resistem à integração ortográfica, possivel-
mente em razão da estrutura vocabular mais conforme à língua inglesa.
Considero que os estrangeirismos são inevitáveis em toda língua viva,
enriquecem-na e representam as relações que essa língua estabelece com ou-
tras culturas.

Que tipo de perspectiva a senhora tem adotado no estudo de terminologia


e de linguagens especializadas? Como a senhora vê os estudos sobre a pre-
sença de metaforização em meio às linguagens científicas?
Alves — Os trabalhos terminológicos realizados no âmbito do Projeto Ob-
servatório sempre se enquadraram nas características da terminologia
descritiva, vertente que se contrapõe aos trabalhos de natureza normativa,
preconizados especialmente pelo engenheiro austríaco E. Wüster (1898-1977).
Embora a terminologia enquanto prática seja bastante antiga e remon-
te à Idade Média, ou mesmo antes, seu marco inicial, como disciplina, é
atribuído a Eugen Wüster. Representante de um importante grupo de es-
tudiosos da terminologia, a Escola de Viena, Wüster apresenta em 1931, na
Universidade Técnica de Stuttgart, sua tese de doutorado intitulada A nor-
malização internacional da terminologia técnica. Nesse trabalho, demonstra
preocupações metodológicas e normativas, expõe os princípios que devem
presidir os trabalhos relativos ao estudo dos termos e esboça as linhas de
uma metodologia referente aos bancos de dados terminológicos. As ideias
de Wüster, desenvolvidas nessa tese e em trabalhos posteriores, constituem
a teoria geral da terminologia (tgt), que até hoje influencia a elaboração de
trabalhos terminológicos.

134 Ieda Maria Alves


Paralelamente a essa vertente — que preconiza, de maneira idealística,
uma relação biunívoca entre o termo e seu significado, o conceito — contra-
põe-se uma terminologia de caráter descritivo, em que a variação e a mudança
linguística são observadas e respeitadas. Nessa perspectiva, a relação unívoca
entre um termo e um conceito, pregada pela teoria geral da terminologia, dei-
xa de ser um pressuposto necessário para garantir a eficácia da comunicação.
A prática do trabalho terminológico tem mostrado que, contrariamente ao
que prega a Escola de Viena, não existe uma relação unívoca entre termo e
conceito. O termo, signo linguístico, está sujeito a variações, como as demais
unidades da língua, e tece relações de caráter sinonímico, antonímico e polis-
sêmico com outros termos. Essa última vertente trabalha com a observação
dos dados e considera que, tanto quanto na língua geral, as línguas de espe-
cialidade são sujeitas a variações e a relações sinonímicas e polissêmicas.
Assim, à teoria geral da terminologia tem-se oposto a terminologia de
caráter variacional, relativa tanto ao conceito quanto ao termo, que também
leva em conta a dimensão textual e discursiva dos termos. Um dos expoentes
dessa teoria de caráter variacional, Maria Teresa Cabré, propõe um conjunto
de princípios e de fundamentos, sintetizados sob a denominação teoria comu-
nicativa da terminologia (tct) (cf. Maria Teresa Cabré. La terminología. Teoría,
metodología, aplicaciones. Barcelona: Editorial Antártida / Empúries, 1993).
Deve-se acentuar que a terminologia normativa é também importante,
especialmente em situações em que não pode haver riscos e em que a ausên-
cia de ambiguidade é essencial.
Os estudos sobre a metaforização nas linguagens científicas represen-
tam um dos aspectos comuns entre a língua cotidiana e as línguas de espe-
cialidade. A utilização do recurso figurado, presente na linguagem cotidiana,
não se mostra incompatível com a busca de precisão que caracteriza as termi-
nologias. Ao contrário, o uso da metáfora procura tornar o termo mais trans-
parente ao usuário. Por essa razão, embora o emprego de metáforas esteja
presente em todo tipo de texto científico, é nos textos de divulgação científica
que elas se mostram mais atuantes.
Vou exemplificar com a linguagem da economia, que se revela plena
de metáforas. Os economistas vão atribuindo a palavras da língua geral e a
termos de diferentes áreas técnicas outro significado, criando, assim, pelo
processo da neologia semântica, novos termos. Termos como âncora fiscal e
âncora monetária, ataque especulativo e paraíso fiscal revelam, pelo recurso
metafórico, o empréstimo de outras terminologias: da terminologia da ma-
rinha é oriundo o termo âncora, peça que fixa o navio ao fundeadouro e na

Lexicologia
135
economia designa um conjunto de medidas que objetivam manter a econo-
mia estável por meio da contenção dos gastos públicos (âncora fiscal) e de
um limite à oferta de moeda (âncora monetária); da terminologia bélica está
presente o termo ataque, que forma ataque especulativo: situação em que um
país sofre a ação de investidores, que, inicialmente, aplicam na moeda local
para, em seguida, trocá-la por dólares, o que ocasiona a desvalorização da
moeda ou a elevação da taxa de juros. A terminologia religiosa faz-se repre-
sentar por paraíso fiscal, um país que concede isenções tributárias a investi-
dores estrangeiros, que nele realizam operações financeiras permitidas por
lei. Nesses termos sintagmáticos, o elemento determinado do sintagma cor-
responde ao termo emprestado e metafórico e o elemento determinante, de
caráter adjetival, pertence à área da economia.

136 Ieda Maria Alves


Linguística aplicada a
contextos empresariais1
Maria do Carmo Leite de Oliveira

A linguística aplicada a contextos empresariais já é uma área de atuação


estabelecida? Quais linguistas podem atuar nessa área?
Oliveira — Os estudos em linguística aplicada com foco no discurso empresa-
rial e de natureza mais descritiva, como os estudos de gênero (genre), são uma
área de pesquisa já estabelecida. Uma tradição nesses estudos é a pesquisa
desenvolvida há décadas pelo LAEL, da PUC-SP. Fora desse paradigma, há,
em termos de Brasil, áreas ainda emergentes. É o caso, por exemplo, dos es-
tudos interpretativos da fala-em-interação no contexto empresarial. Um tra-
balho pioneiro é o de Pedro de Moraes Garcez, da UFRGS, na década de 1990,
sobre negociação empresarial. Outro exemplo é o das pesquisas centradas em
problemas que podem ser ou não definidos pela empresa, mas que serão in-
vestigados por meio do ferramental analítico do estudioso da linguagem, sem
desprezar o conhecimento prático dos profissionais envolvidos. Alguns pro-
gramas de pós-graduação no Brasil já oferecem linhas de pesquisa que con-
templam esse paradigma, como os da Unisinos, da Universidade Federal de
Juiz de Fora, da PUC-Rio. Inclusive, já contam com uma produção expressiva
de trabalhos que analisam eventos interacionais relacionados ao mundo dos
negócios. Agora, se pensarmos no potencial da área, se compararmos com o
que é produzido internacionalmente, temos de admitir: há muito o que cres-
cer em termos de Brasil.
Ninguém é médico, professor, militar ou padre por acaso. Do mesmo
modo, as nossas escolhas sobre o objeto e o objetivo da pesquisa estão for-
temente relacionadas à nossa identidade e, consequentemente, à nossa mo-
tivação para a pesquisa. Somos diferentes, e nossas escolhas refletem nossas
1
Entrevista publicada em agosto de 2013.

Linguística aplicada a contextos empresariais


137
diferenças. Por isso, uma condição para atuar na área é ter o que Sarangi
(2005) denomina uma mentalidade aplicada. Na expressão de Celia Roberts
(2003), é fazer uma ‘applied linguistics applied’. Em outros termos, é fazer
uma linguística aplicada aplicável, isto é, assumir o compromisso de produzir
conhecimento de relevância social. No que diz respeito aos problemas de re-
levância social situados no contexto da empresa, entendo isso como utilizar
nosso ferramental teórico sobre interação para produzir conhecimento que
agregue valor ao campo da gestão e tenha relevância prática. Isso é diferente
de entrar nas empresas para canibalizar o campo. Mas temos alguns desafios.
É preciso humildade para não impor nossa visão do objeto e nossa linguagem,
para negociar entendimentos com interlocutores a quem ainda precisamos
persuadir quanto ao valor dos nossos conhecimentos especializados. Outro
desafio é a entrada no campo. Somos ainda invisíveis. As organizações reco-
nhecem a relevância do conhecimento de psicólogos, pedagogos, profissionais
da comunicação social, mas ainda não descobriram o dos linguistas aplicados.
Logo, nem sempre há uma demanda por parte das empresas. No meu caso,
entrei pela mão do departamento de administração, como parceira, tanto no
ensino, quanto na pesquisa e na consultoria. Outro desafio é a entrega. Os
resultados de nossas pesquisas têm de voltar às empresas como algo que res-
ponda às suas necessidades. Isso pode ser feito por meio de apresentações em
congressos da área da gestão, em publicações conjuntas com pesquisadores
em administração, em participação em MBAs em administração, em cursos
in company, em consultorias, ou simplesmente, em um relatório que ofereça
aos gestores uma nova perspectiva sobre a realidade estudada. O importante
é “entregar” o que produzimos, e entregar embalado na linguagem do outro.

Que tipos de demanda existem em empresas para o trabalho do linguista?


Em outras palavras, o que uma organização privada espera ou pode espe-
rar de um linguista?
Oliveira — Atuei mais em empresas públicas do que privadas, mas posso ga-
rantir que os problemas são semelhantes e que o desconhecimento da nossa
expertise para esclarecê-los também. Há muitas necessidades, mas há muita
dificuldade de formular as demandas. São questões que precisam de um olhar
multidisciplinar, mas que estão centralizadas na linguagem. Hoje, a interati-
vidade é condição de trabalho, e as tarefas são cada vez mais textualizadas.
As necessidades vêm crescendo na proporção da complexidade das transfor-
mações de um mundo globalizado. A diversidade da força de trabalho, por

138 Maria do Carmo Leite de Oliveira


exemplo, agravou as dificuldades de comunicação interpessoal/cultural no
ambiente profissional. Do mesmo modo, o crescente emprego de ferramentas
tecnológicas, como o e-mail, o call center, favoreceu a proliferação de trombo-
ses comunicativas. Um exemplo mais atual é o uso do twitter corporativo. A
empresa abriu com o twitter a possibilidade de novas formas de associação
se estabelecerem, mas ainda não sabe o significado desse uso para o cliente e,
de modo geral, não consegue se aproximar do cliente como desejaria. Outra
demanda fica clara quando examinamos os processos de seleção. Hoje se enfa-
tiza importância da competência interpessoal no perfil de profissional deseja-
do. Mas a empresa sabe como isso se manifesta linguística e discursivamente?
Enfim, demanda é o que não falta. O que falta é mostrarmos a nossa cara,
reivindicar o nosso lugar no desenvolvimento dos estudos organizacionais.
Mais do que isso: precisamos criar canais com os profissionais de gestão e
seus formadores nas instituições de ensino superior. No meu caso, por exem-
plo, além da parceria com a administração, desenvolvi também parceria com
a Superintendência de Recursos Humanos da PUC-Rio. Isso tem-me permiti-
do ter acesso, em cursos e palestras, a profissionais de diferentes áreas, con-
tribuindo para explicar problemas e para facilitar a formulação de demandas.

Como o linguista pode trabalhar para construir/ampliar esse novo campo


de atuação dos estudos da linguagem? Ou seja, como o linguista pode en-
contrar uma empresa e formular um problema de pesquisa que seja atra-
ente para a iniciativa privada?
Oliveira — O primeiro passo é criar visibilidade. Primeiro, internamente. Em
termos de pós-graduação, precisamos investir em linhas de pesquisa que pos-
sibilitem a formação de recursos humanos na área. Se orientarmos disserta-
ções e teses que levem nossos alunos para dentro das empresas, abriremos
uma porta para demandas e também para oportunidades de trabalho. Um
exemplo são as pesquisas orientadas por Ana Cristina Ostermann com foco
no Disque Saúde e no Emergência 190. Para um linguista aplicado, um pro-
blema atraente é aquele que leva à reflexão sobre uma prática, ajudando-nos
a entender como, na e por meio da linguagem, está sendo construída não só a
empresa, mas o país, a sociedade. E isso tem impacto em nossas vidas.
Em termos de graduação, é levar o que os estudos acadêmicos descre-
vem sobre as rotinas e demandas da empresa para investir na qualificação da
formação dos profissionais de texto, de tradução. Algumas dessas ações vêm
sendo contempladas no novo currículo de Letras da PUC-Rio, seja no bacha-

Linguística aplicada a contextos empresariais


139
relado, seja na licenciatura. Muito da pesquisa que desenvolvi, com o apoio do
CNPq, incorporei às oficinas de material didático dos cursos de licenciatura.
Um exemplo foi a criação de material que contempla o mundo do trabalho. Se
pensarmos que uma quantidade expressiva de alunos que terminam o ensino
médio vai direto para o primeiro emprego, concluímos que temos um débito
com relação à formação desses(as) meninos(as).
O segundo passo talvez seja criar visibilidade intramuros na universida-
de. Procurar pesquisadores em administração que tenham linhas de pesquisa
voltadas para questões em que possamos atuar conjuntamente e que tenham
interesse em estreitar relações, seja por meio da pesquisa, do ensino ou da
consultoria. O terceiro passo é criar visibilidade externa. Precisamos de mais
divulgação do que fazemos, seja na mídia de negócios, seja em espaços como
congressos ou publicações da área da gestão. Nos últimos anos, os estudos
organizacionais vêm recebendo a influência das pesquisas em discurso. O
momento, portanto, é o mais favorável possível.

A ida do linguista para contextos empresariais exige uma nova postura,


em alguma medida, diversa da tradicionalmente esperada na academia?
Oliveira — Lívia Barbosa, uma antropóloga que fez, com sucesso, a traves-
sia das tribos exóticas para as grandes empresas, nos oferece, no capítulo 4
do seu livro Igualdade e meritocracia, uma bela e rica discussão sobre essa
questão. Considerando que o livro foi escrito em 1999, alguns dos aspectos
levantados já não exigem de nós tantos ajustes de postura. As relações entre
universidades e empresas nunca foram tão próximas. E, queiramos ou não,
a cultura acadêmica vem sendo influenciada pela cultura de negócios. Como
nas empresas, somos avaliados em função de nossa produção, da qualidade
do trabalho, dos nossos resultados. O tempo acadêmico, referido pela autora
como um tempo que, no Brasil, tende ao infinito, também ganhou, até certo
ponto, um ritmo mais veloz. Tudo isso não significa, porém, que a entrada
seja fácil. Há um esforço contínuo para nos fazermos entender, para negociar
lógicas, valores e expectativas. Mas nada que alguém especialista em estudo
do contexto não consiga enfrentar.

Você poderia contar como se deu sua inserção profissional em contextos


empresariais?
Oliveira — Isso é uma história antiga. Não escolhi a empresa; foi ela que me
escolheu. Tudo começou na década de 1970 e da maneira mais tradicional.

140 Maria do Carmo Leite de Oliveira


Fui convidada pelo IAG — a escola de negócios da PUC-Rio —, para dar um
módulo sobre redação empresarial, num curso para executivos de empre-
sas públicas e privadas. De um profissional de letras, espera-se que seja um
profissional de texto. Mas foi aí que descobri — ainda sem teoria sobre a in-
teração — que o mais interessante não estava nas linhas do texto, mas nas
entrelinhas. Foi ali que vi a possibilidade de construir pontes entre letras e
administração. O marco da minha pesquisa aplicável às organizações aconte-
ceu alguns anos depois. Eu estava dando um curso — de novo de redação — na
Eletrobrás, e um executivo trouxe, inconformado, para eu apreciar a minuta
de uma carta de reclamação que ele escreveu para uma empresa parceira e a
reescrita dessa carta feita pelo gerente. Fiquei fascinada. O gerente dizia tudo
o que o técnico dizia, mas de outro modo, estabelecendo outra relação com o
parceiro. Foi aí que resolvi fazer minha tese de doutorado sobre polidez em
cartas empresariais (Oliveira, 1992). E contrariando o modelo de polidez da
época — o de Brown e Levinson —, descobri que, no contexto empresarial,
quem tem mais poder não é necessariamente menos polido. Ao contrário,
apesar do poder, é até mais polido. Lembrando de uma antiga propaganda de
biscoito (“vende mais porque é mais fresquinho ou é fresquinho porque ven-
de mais?”), também me perguntei: é polido porque tem poder ou tem poder
porque é polido? Daí em diante, passei a ser convidada para dar cursos sobre
comunicação interpessoal. E aqui estou, buscando novos desafios.

Linguística aplicada a contextos empresariais


141
Linguística aplicada a
contextos empresariais1
Patrick Studer

É possível considerar a linguística aplicada a contextos empresariais como


um campo autônomo? Qual a perspectiva para este campo na Europa?
Studer — Isso depende um pouco daquilo que se entende por ‘linguística’
quando se fala em ‘linguística aplicada a contextos empresariais’, e da pers-
pectiva a partir da qual você observa o fenômeno. O estudo da linguagem em
contextos empresariais é altamente interdisciplinar e baseia-se em diversas
(sub-)disciplinas no interior das ciências econômicas, bem como no das hu-
manas e sociais. Se concordarmos em situar a investigação fundamentada no
que acontece comunicacionalmente em empresas no interior dos estudos de
comunicação, devemos então considerar toda a série de ‘produtos’ escritos
e falados de uma empresa — desde o marketing até a comunicação interna,
passando por relatórios de negócios, reuniões de equipes, interações gestor-
-colaborador, conversações de vendas etc. O estudo desses vários eventos
comunicativos possui uma longa tradição nos estudos de comunicação em-
presarial, psicologia comunicacional, psicologia organizacional e estudos de
mídia. Portanto, como primeiro passo, é preciso nos perguntar: onde come-
ça propriamente a linguística? Onde ela termina? O questionamento sobre
a definição do campo é particularmente importante quando vislumbramos
o problema a partir de uma perspectiva aplicada, que, mais do que qualquer
outra, inspira-se nas muitas disciplinas que a circundam.
Se olharmos para sua pergunta a partir do interior da linguística, a sub-
disciplina mais bem habilitada a fornecer respostas é a linguística aplicada
(sobre a distinção entre ‘linguística aplicada’ e ‘aplicação da linguística’ ver

1
Entrevista publicada em agosto de 2013, originalmente em inglês. Trad.: Raquel Salcedo Gomes e Ca-
mila De Bona.

142 Patrick Studer


Widdowson, 2001). A linguística aplicada pode ser entendida, em sentido
amplo, como um campo de estudos que investiga a linguagem relevante para
tópicos do mundo real. A linguística aplicada se preocupa com aplicações
práticas dos estudos da linguagem e está centrada, ao contrário de outras áre-
as da linguística, em contextos onde a linguagem aparece como um problema
do mundo concreto. É particularmente essa abordagem de estudo da língua
voltada para problemas que torna a linguística aplicada uma base teórica e
prática atraente para o estudo de como o uso da linguagem no contexto em-
presarial pode ser desenvolvido e otimizado (sobre abordagem orientada a
problemas, ver Grabe, 2010: 40-41; e também Strevens, 1992). Kaplan (2010:
8-9; fundamentado em Grabe, 2004) identifica treze ‘especialidades’ da lin-
guística aplicada, algumas das quais parecem particularmente pertinentes a
contextos empresariais. De importância especial para o estudo da linguagem
em contextos empresariais são os temas diversidade, política e planejamento
linguísticos, além da escrita profissional.
Algumas das especialidades identificadas por Kaplan desenvolveram-
-se mais rapidamente do que outras e, nesse ínterim, tornaram-se campos
de investigação independentes. Podemos, num primeiro momento, dividir as
várias atividades de pesquisa da linguística aplicada ao longo do continuum
escrita-fala. No extremo da escrita, o foco está na implementação de estu-
dos linguísticos aplicados ao treinamento de habilidades de escrita especia-
lizados (literatura sobre como fazer). Esses estudos podem se concentrar em
gêneros ou tipos de texto específicos (por exemplo, de forma aleatória, rela-
tórios anuais das empresas, em Rutherford, 2005; Klímová, 2004) e fornecer
uma visão teórica incorporável à produção de manuais (por exemplo, Gree-
nhall, 2010). Tais estudos, manuais (e possíveis treinamentos deles decorren-
tes) podem surgir a partir de ocasiões específicas (por exemplo, a introdução
de um novo sistema de informação em uma empresa) e ser desenvolvidos sob
medida para resolver os problemas de uma empresa. Ao longo do extremo
da fala, no continuum, a pesquisa em linguística aplicada pode proceder de
modo similar, orientada a necessidades, oferecendo insights sobre como as
diversas formas e tipos de interações comerciais são planejadas e gerenciadas
linguística e comunicativamente (por exemplo, através dos estudos empíricos
sobre as habilidades de comunicação de liderança em contextos locais, como
Akhteret al., 2009; ver também Barrett, 2006).
Eu gostaria, a seguir, de dar uma olhada mais de perto na área de polí-
tica e planejamento linguísticos em contextos de negócios, uma vez que essa
área não se dirige apenas às duas dimensões oral e escrita, mas também in-

Linguística aplicada a contextos empresariais


143
clui o tema da diversidade linguística. Política e planejamento linguísticos
tornaram-se uma tendência particularmente forte em linguística aplicada
nos últimos anos. Vou discutir brevemente uma instituição que estabelece
políticas na Europa — a Comissão Europeia — e rever suas atividades polí-
ticas recentes e em curso na interface da linguística aplicada e de contextos
empresariais. A Comissão Europeia, como caso-referência, nos permite ge-
neralizar as tendências discursivas atualmente ativas no mundo dos negócios
na Europa e reconhecer seu potencial para a linguística aplicada.
A Comissão Europeia, mais do que qualquer outra instituição, preocupa-
-se com a diversidade cultural e linguística de um ponto de vista econômico.
Desde o início da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e da Comunida-
de Econômica Europeia, o maior objetivo da União Europeia (UE) tem sido
a integração do mercado europeu e, indiretamente, a neutralização da frag-
mentação linguística, cultural e nacional-estatal. Nesse contexto, a UE desen-
volveu diversos portfólios de políticas no curso de sua existência, de modo a
incentivar e facilitar a colaboração entre as empresas de toda a Europa (ver
Davignon, 1970). Não é sem consideração a tais atividades que o slogan do
novo milênio da UE — a unidade na diversidade — deve ser interpretado.
No que diz respeito às línguas, unidade na diversidade significa duas coi-
sas: maior intercâmbio intercultural e multilíngue e maior utilização das lín-
guas comerciais importantes. O esforço para a integração linguística europeia
culminou, por um breve período, no estabelecimento de uma política na área
de “multilinguismo” e na nomeação de um comissário para o multilinguismo
em 2007 (Leonard Orban). O estabelecimento do multilinguismo como área
política separada na comissão ecoou uma mudança global a que as economias
do mundo eram (e ainda são) submetidas. Empresas na Europa, pequenas e
grandes, têm sido cada vez mais confrontadas com a necessidade de utilizar
mais de um idioma no trabalho, de usar o inglês como língua franca e de lidar
com uma força de trabalho cada vez mais culturalmente diversificada. Como
resultado, o aspecto linguístico dos negócios tem conquistado mais atenção
política generalizada e sistemática nos últimos anos. Ambientes multilinguís-
ticos, originalmente considerados barreiras comerciais, têm sido mais e mais
percebidos como oportunidades, quando aproveitados adequadamente.
Assim, ao tentar responder à sua pergunta sobre a independência de um
campo linguístico aplicado preocupado com contextos empresariais, olhe-
mos para a questão a partir da perspectiva dos esforços concretos de política
linguística que têm sido feitos nessa área nos últimos anos. Em termos de
Europa, a primeira década do novo milênio viu a publicação de uma série de

144 Patrick Studer


importantes estudos encomendados pela UE, que foram realizados no espíri-
to da Estratégia de Lisboa do ano 2000. A estratégia lisboeta de 2000 procu-
rou aumentar a produtividade e a competitividade na Europa, com o objetivo
ambicioso de transformar a Europa na “economia baseada no conhecimento
mais dinâmica e competitiva do mundo até 2010, capaz de um crescimento
econômico sustentável, com mais e melhores empregos e maior coesão so-
cial e respeito pelo meio ambiente” (SEC, 2010, 114, final). A estratégia, sem
dúvida um esforço para a integração europeia, foi embalada discursivamente
em termos econômicos, enfatizando o lucro e o crescimento do mercado e de
oportunidades de trabalho em relação à coesão social. Treze anos mais tarde,
sabemos que a Estratégia de Lisboa não alcançou seus objetivos originais (ver
o relatório de avaliação da Comissão Europeia SEC, 2010, 114, final) e Clau-
dio Radaelli, no prefácio à Copeland e no estudo da extensão de um livro de
Papadimitriou (2012) sobre o tema, pode estar certo quando escreve: “Talvez
Lisboa vá ser lida no futuro como um exemplo de aprendizado coletivo, uma
espécie de lição negativa sobre como não definir e promover a integração”.
No que diz respeito às línguas, a Estratégia de Lisboa desencadeou uma
série de estudos linguísticos aplicados que começaram a investigar as inter-
conexões entre desempenho econômico e linguístico. Esses estudos tinham
como alvo, particularmente, as pequenas e médias empresas (PMEs), entida-
des comerciais mais importantes da União Europeia. Um estudo muito citado,
encomendado pela União Europeia ao Centro Nacional de Línguas do Reino
Unido em 2006, intitulou-se “Efeitos na economia europeia do déficit de com-
petências em línguas estrangeiras na empresa (ELAN)”. O objetivo do ELAN
foi o de “fornecer, à Comissão e a outros decisores nos Estados Unidos, infor-
mações práticas e análise do uso das competências linguísticas por parte das
PMEs e seu impacto no desempenho dos negócios” (Hagen et al., 2006). Antes
do ELAN, uma série de estudos sobre o uso da linguagem das PMEs tinha sido
realizada na Europa, nomeadamente REFLECT, ELISE, e ELUCIDATE. Esses
estudos anteriores delinearam conjuntos de problemas típicos encontrados
no comércio internacional e chamaram a atenção para os recursos de lingua-
gem e as estratégias utilizadas pelas empresas pesquisadas. Estudos seme-
lhantes também foram realizados com relação a empresas maiores, globais, a
saber, o estudo denominado TALKING SENSE, o qual analisou as políticas de
linguagem e sua implementação pelas empresas nas dimensões de prepara-
ção da linguagem, capacidade de resposta, consciência e gestão linguísticas.
Enquanto estudos anteriores enfocaram a “ligação entre competências
linguísticas, competência cultural e desempenho exportador” (Hagen et al.,

Linguística aplicada a contextos empresariais


145
2006: 4), a pesquisa ELAN tentou calcular, especificamente, o prejuízo eco-
nômico (em ativo líquido) que a economia europeia sofreu por conta de pro-
blemas de linguagem ou barreiras culturais e as exigências formuladas para
promover competências linguísticas nas pmes. A abordagem adotada pelo
ELAN e por estudos anteriores tem sido mantida até os dias atuais. Isso pode
ser percebido no estudo denominado PIMLICO, também desenvolvido por
Hagen et al. (2011). A pesquisa PIMLICO compõe o pano de fundo científico
para a recente iniciativa de comunicação europeia “Línguas significam ne-
gócios”, que busca “promover a prática e a aplicação exemplar de estratégias
de gestão linguística entre as empresas da Europa” (Hagen et al., 2011: 2). A
iniciativa mostra esforços concretos para realimentar os conhecimentos ad-
quiridos a partir de estudos linguísticos aplicados a empresas na forma de
manuais e sistemas para promover as PMEs na Europa. Outros estudos re-
centes realizados em solo europeu podem ser interpretados à luz das ativida-
des de pesquisa acima mencionadas [por exemplo, Rinsche; Portera-Zanotti
(2009), calcularam o tamanho estimado e o valor da indústria das línguas na
Europa; Davignon et al. (2008) abordaram a contribuição das línguas para a
competitividade, ou o Bureau van Dijk de Gestão da Informação, (2011)].
O foco econômico traçado nessas diversas investigações e atividades re-
flete uma tendência, percebida em outros lugares, de a linguística aplicada
se concentrar na interação entre linguagem e variáveis econômicas. Na sua
forma mais consequente, nos lembra o trabalho feito pelo economista suí-
ço François Grin (ver, por exemplo Grin, 2002, 2006; Grin et al., 2010). Ten-
dências semelhantes podem também ser vistas em projetos de pesquisa em
linguística aplicada financiados pela União Europeia. Nesse contexto, dois
projetos maiores de investigação em linguística (aplicada) saltam à mente:
Dynamique des Langues et gestion de la diversité, 2006-2011 (DYLAN) e Lín-
guas em uma Rede de Excelência Europeia, 2006-2010 (LINEE). Ambos os
projetos de pesquisa investigaram as inter-relações entre uso linguístico, di-
versidade, internacionalização e economia e, tanto o DYLAN quanto o LINEE
incluíram a economia como uma variável-chave no estudo da diversidade lin-
guística (sobre o DYLAN, ver, por exemplo, Berthoud et al., 2010; a respeito do
LINEE, ver Studer; Werlen, 2012). Embora mais esforços de financiamento,
nos últimos anos, tenham sido direcionados para a área da tradução (dubla-
gem, legendagem, qualidade de tradução) e, em particular, para a própria in-
dústria da linguagem, as questões da política e do planejamento linguísticos
em ambientes empresariais multilíngues, sem dúvida, continuarão a ser uma
área de pesquisa essencial por muitos anos vindouros.

146 Patrick Studer


Assim, a partir da perspectiva da pesquisa em linguística aplicada a con-
textos empresariais, a mais importante área de estudos nos próximos anos
encontrar-se-á na investigação das inter-relações entre o multilinguismo, a
comunicação intercultural e a eficiência comunicativa em línguas comerciais
importantes (a saber, linguae francae, em latim). Eu gostaria, para concluir
minha resposta à sua primeira pergunta, de comentar a respeito dessas dire-
ções por alguns instantes. Enquanto parte da pesquisa irá se preocupar com
a economia da linguagem, isto é, com considerações econômicas sobre o uso
da língua, muito trabalho ainda precisa ser feito para entender como os ato-
res sociais negociam significados culturais em diferentes contextos da socie-
dade. Muitas das pesquisas futuras dedicar-se-ão ao estudo próximo, quase
etnográfico, de comunidades locais e suas soluções pragmáticas para contro-
vérsias linguísticas enfrentadas. Essa orientação para contextos socialmente
situados enfatiza o que Grabe (2010: 35) refere como a crescente “importância
da análise de necessidades e soluções de variáveis​em diferentes contextos lo-
cais” — tanto de uma perspectiva “aplicada” (aplicabilidade dos resultados de
um estudo a determinado ‘campo’), como de uma perspectiva de construção
de teoria em linguística aplicada. Essa orientação também chama a atenção
para a ênfase de Grabe (2010: 44) na motivação, na atitude e no afeto de ato-
res sociais envolvidos na concepção, na execução e na “implementação” de
estratégias de linguagem (ou seja, de projetistas e de “usuários” de estraté-
gias). A consideração das percepções dos atores envolve também questões a
respeito de como os atores sociais constroem sentidos e conciliam discursos
e ideologias muitas vezes contraditórios sobre o uso da linguagem no local de
trabalho (Studer et al., 2010; Studer, 2012). Não deixam de ser as percepções
dos atores sociais que orientam sua disponibilidade, sua capacidade de res-
posta, e, por fim, sua capacidade de aprender a usar uma língua franca [por
exemplo, BELF, Business English as a Lingua Franca, Kankaanranta; Planken
(2010); Gerritsen; Nickerson (2009)]. Percepções a respeito da língua repre-
sentam também um âmbito de disputa pelas tensões e desigualdades sociais
subjacentes, que podem ser trazidas à luz pela aplicação da perspectiva dis-
cursiva crítica (Pennycook, 2001; Studer, 2013). Será um desafio teórico e prá-
tico contínuo para linguistas aplicados entender melhor a interação entre a
estratégia de linguagem, adaptações locais, o desempenho real de linguagem
e as percepções dos
Em resposta à sua pergunta sobre linguística aplicada aos contextos
empresariais como sendo um campo próprio, eu definitivamente concordo
com a expressão ‘campo’, visto que a linguística aplicada lida concretamente

Linguística aplicada a contextos empresariais


147
com contextos e questões do mundo real. No entanto, relutaria em chamá-
-la de uma disciplina linguística de direito próprio (uma vez que acredito já
existir uma forte tendência de compartimentar demasiadamente a linguís-
tica em subcampos). Eu a vejo como uma orientação de pesquisa forte e bem
estabelecida na linguística aplicada, que se desenvolveu a partir de uma ne-
cessidade real para a eficiência da comunicação. Compreendo que estudos
linguísticos nessa área utilizem, em parte, seus próprios fundamentos teó-
ricos e dependam de tradições de investigação especializadas. O estudo de
princípios da inter-relação entre linguagem e negócios, especialmente quan-
do se leva em conta a natureza situada da linguagem em uso, deverá fascinar
e ocupar linguistas aplicados na Europa e em diversos outros lugares ainda
por muitos anos.

Quais parecem ser as maiores dificuldades no trabalho do linguista que


resolve fazer de uma empresa o seu campo de atuação?
Studer — As dificuldades são muitas quando se trabalha como linguista com
objetos de estudo do mundo real. Em primeiro lugar, os pesquisadores pre-
cisam levar em conta a especificidade da cultura empresarial. A cultura dos
negócios não permite qualquer uso não contabilizado de tempo; o tempo é
traduzido diretamente em termos de esforço financeiro por parte da em-
presa e está relacionado, de um jeito ou de outro, à produtividade e ao de-
sempenho. Isto significa que a cooperação em pesquisa oferecida por uma
empresa é tratada como um investimento que, em última análise, precisa ser
recompensado financeiramente. Uma comunicação mais eficiente e melho-
res habilidades linguísticas certamente contribuem para o desempenho e a
produtividade através da satisfação do funcionário, da melhor gestão ou do
melhor relacionamento com os clientes. O desafio fundamental dos estudos
linguísticos aplicados a contextos empresariais, no entanto, reside na difi-
culdade de medir, em termos econômicos, a contribuição exata da linguagem
para esses processos. Aqui, o linguista pode encontrar um ambiente de ne-
gócios não muito aberto à linguística e pode ser confrontado com perguntas
sobre o uso da pesquisa linguística aplicada no mundo dos negócios em geral.
Além disso, os linguistas que trabalham em ambientes empresariais transi-
tam em território interdisciplinar no qual as questões da linguística aplicada,
com exceção dos cursos de línguas (estrangeiras), muitas vezes são subordi-
nadas às unidades organizacionais dentro da empresa (os departamentos de
comunicação ou de recursos humanos, por exemplo).

148 Patrick Studer


Geralmente, as culturas organizacionais de (processo de) feedback lento
são mais abertas e dispostas a cooperar do que as culturas de recompensa
rápida (para distinção, ver Dean; Kennedy, 2000). Culturas de feedback lento
são muitas vezes organizações maiores que têm os recursos e os meios para
desenvolver sua equipe de funcionários a longo prazo e de forma sustentá-
vel. Culturas que procuram uma retribuição de forma mais rápida são nor-
malmente encontradas em pequenas e médias empresas. Como resultado, a
pesquisa linguística aplicada realizada até agora tende a se concentrar em
empresas maiores. Isso é lamentável, pois as descobertas feitas nas grandes
empresas não parecem ser imediatamente aplicáveis a estruturas empresa-
riais menores. Isso é lamentável, também, porque as empresas menores têm
repetidamente relatado prejuízos financeiros por conta de falta de habilida-
des linguísticas e comunicacionais.
Ao se preparar para trabalhar com empresas, os linguistas podem que-
rer primeiro mapear o território organizacional no qual estão se aventuran-
do. Estudos sobre a cultura organizacional, como o trabalho de Edgar Schein
(2010: 13-16), podem ajudar a melhor compreender a organização com a qual
alguém planeja trabalhar. Parâmetros culturais importantes que se deve
procurar nos negócios incluem assimetrias de poder, aversão à incerteza,
individualismo versus coletivismo ou orientação de longo versus curto prazo
(Hofstede, 1980; 1991). Uma breve análise da organização ajuda a decidir sobre
as melhores modalidades de desenvolvimento e manutenção de contato com
as empresas.
Você pergunta sobre as dificuldades que surgem quando um linguista
decide trabalhar em uma empresa. Essa questão está equivocadamente posta
— na verdade, temos um cenário mais favorável quando a decisão de colabo-
ração diz respeito aos linguistas; mais frequentemente, os desafios residem
na falta de consciência das empresas sobre a existência de linguistas e do
seu potencial benefício para as organizações empresariais. Os linguistas são,
muitas vezes, forçados a dar o primeiro passo, fazendo contato com as empre-
sas de forma proativa e tentando convencê-las do valor de determinada ideia
ou empreendimento de pesquisa.
Na Suíça, por exemplo, existem instrumentos de financiamento apoia-
dos pelo governo que institucionalizam a colaboração entre uma instituição
de pesquisa e uma empresa privada (Comissão para Tecnologia e Inovação -
CTI). Projetos executados no âmbito desse esquema exigem que as empresas
privadas contribuam com uma quantia substancial de dinheiro e/ou tempo
para o projeto. Em projetos da CTI, uma instituição de pesquisa, normalmen-

Linguística aplicada a contextos empresariais


149
te uma instituição de ensino superior, desenvolve inovação com base nos pro-
blemas identificados pela indústria. Ambos os lados do processo de inovação
dividem custos e esforços, enquanto a pesquisa propriamente dita é finan-
ciada pela CTI. Pode acontecer de as empresas procurarem diretamente as
instituições de pesquisa com uma determinada ideia de pesquisa em mente.
Muitas vezes, no entanto, a ideia se desenvolve no sentido inverso. Mesmo
que encontrar empresas dispostas a colaborar em projetos linguísticos não
seja impossível, é muito mais difícil do que encontrar empresas interessa-
das ​​em inovação tecnológica. Os linguistas, por isso, têm de estar preparados
para enfrentar a resistência de todos os lados (também do lado do próprio
órgão de financiamento), se quiserem realizar com sucesso a pesquisa com
ajuda da indústria privada.

Para o senhor, quais seriam as condições ideais para que um programa de


pós-graduação possa se tornar “visível” para as empresas?
Studer — Há uma questão filosófica incluída na sua pergunta sobre as con-
dições dos programas de pós-graduação em linguística. Você parece sugerir
que é desejável para todos os linguistas serem percebidos pelas organiza-
ções empresariais e que os programas em linguística aplicada devam ser
orientados para ‘agradar’ a agenda dos negócios. Eu não estou certo de que
esse deva ser o objetivo principal de um programa de linguística aplicada
no ensino superior. Os linguistas tradicionalmente ocupam um número de
domínios profissionais no setor da educação pública ou privada (escolas pú-
blicas, escolas particulares de idiomas) e têm uma posição sólida na língua,
na mídia e nas editoras. Então, em primeiro lugar, os linguistas são forma-
dos para uma das áreas de trabalho acima citadas, caso a formação profis-
sional seja um ponto forte dentro do programa de graduação. Organizações
empresariais são um campo de aplicação para linguistas muito parecido
com a indústria da saúde ou do setor educacional. Claro que há sempre os
linguistas que querem ser ativos no setor de negócios privados e, para esses,
há programas em vigor que visam prepará-los para posterior trabalho em
contextos empresariais.
Entendo sua pergunta sobre visibilidade como uma pergunta sobre a
qualidade dos cursos de graduação e pós-graduação voltados aos negócios já
em vigor em toda a Europa. A qualidade de um programa pode ser medida
em termos do sucesso profissional alcançado pelos alunos após a graduação,
e uma maneira de descobrir sobre o sucesso ou fracasso de um programa é

150 Patrick Studer


acompanhar as carreiras dos ex-alunos. Deixe-me dar a minha escola como
exemplo. A Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (ZHAW) coorde-
na um programa de graduação e pós-graduação no departamento de estudos
de mídia chamado ‘comunicação organizacional’. Dentro desse programa, os
alunos são preparados para posterior trabalho em comunicação de empre-
sas públicas e privadas. Em um estudo longitudinal (Perrin, 2010), o departa-
mento de estudos de mídia descobriu que dentro dos dez anos de existência
do programa, 94% dos egressos do Bacharelado em Artes tinham encontrado
trabalho dentro do campo de seus estudos (agências de relações públicas, de-
partamentos de comunicação em instituições públicas, empresas privadas,
associações e organizações sem fins lucrativos). O sucesso do curso de gra-
duação (e do programa de pós-graduação) depende de uma série de fatores
que residem nas estreitas ligações existentes entre os estudos acadêmicos e
o mundo profissional:
(1) Conteúdo: o conteúdo ensinado corresponde em grande medida aos re-
quisitos profissionais que os graduados posteriormente encontram em
seus trabalhos.
(2) Personalidade: os futuros alunos precisam passar com êxito em um tes-
te de admissão sobre personalidade; os elementos testados — habilida-
des analíticas, competência ao lidar com a crítica, empatia, autoestima,
curiosidade e orientação de equipe — foram corroborados pelos ex-alu-
nos como chave para o sucesso no mundo dos negócios.
(3) Natureza ‘híbrida’ do programa: o programa está estruturado de forma a
capacitar os alunos para o trabalho, tanto como jornalistas quanto como
especialistas em comunicação no setor privado.
Na pesquisa, muitos ex-alunos classificaram a sua competitividade no
mercado como alta e indicaram que estavam trabalhando nas áreas em que
eles sempre quiseram.
No nível de mestrado, o departamento tem coordenado o Mestrado em
Estudos Avançados (em inglês, Master of Advanced Studies, doravante, MAS)
em Gestão de Comunicação e Liderança desde 2006. Muito recentemente, o
mestrado consecutivo do departamento foi aprovado e será posto em vigor a
partir de 2014. O sucesso do programa MAS, mais especificamente do que o
Bacharelado em Artes, assenta nas suas ligações estreitas com o mundo do
trabalho. O programa foi concebido para atrair estudantes com experiência
de trabalho considerável (nove anos em média). Esse foco profissional dife-
rencia o programa dos programas de mestrado consecutivo, que seguem ime-
diatamente aos estudos de graduação.

Linguística aplicada a contextos empresariais


151
A vantagem de um mestrado profissionalmente orientado é óbvia: dá aos
alunos uma base acadêmica sólida para alcançar posições superiores na car-
reira. A pesquisa demonstrou que foram oferecidos, com o passar do tempo,
melhores empregos e salários mais elevados a um número significativo de
graduados. Tal como acontece com o bacharelado, os alunos indicaram na
pesquisa que se beneficiaram, em particular, da perspectiva teórica sobre
o mundo real e os problemas presentes em seus trabalhos. A estrutura mo-
dular do programa ajudou os alunos a darem continuidade aos seus estudos
de forma flexível. Finalmente, do ponto de vista do empregador, o programa
pode ser visto como bem-sucedido, uma vez que muitas vezes é financiado
(em parte) por empresas que desejam especializar seus funcionários. Do pon-
to de vista da empresa, portanto, o financiamento de um mestrado é uma
forma poderosa de manter seus funcionários a longo prazo.
Programas como o MAS em ZHAW existem em muitos lugares da Euro-
pa. Como o exemplo de ZHAW mostra, as condições ‘ideais’ dos programas de
(pós-)graduação que desejam ser vistos pelas empresas são as seguintes: pri-
meiramente, os programas devem ter ligações muito próximas com as indús-
trias a que ‘servem’. Em segundo lugar, os programas devem ser conhecidos
pelas empresas e seus empregados por oferecerem conhecimento especiali-
zado e treinamento profissional em questões do mundo real necessárias para
o avanço no mercado. Um programa MAS pode inicialmente parecer mais
adequado para atender às exigências profissionais, uma vez que recruta seus
alunos diretamente da própria indústria. Um programa consecutivo deve ser
estruturado de forma a permitir o intercâmbio considerável com o mundo
profissional (em termos de prática de campo) para que os alunos entrem em
contato com potenciais empregadores desde o início. E, finalmente, a seleção
de alunos deve ser guiada por testes de personalidade que meçam a adequa-
ção dos candidatos para o programa.

A ida do linguista para contextos empresariais exige uma nova postura,


em algum momento diversa da tradicionalmente esperada na academia?
Studer — Não. Se prestarmos atenção à especificidade do campo como des-
crito anteriormente, estamos bem preparados para lidar com o público dos
negócios. Linguistas precisam estar sempre cientes de estarem trabalhando
em uma área disciplinar diferente com regras também diferentes, mas isso
é algo com que eles geralmente já estão acostumados, tendo em vista que
aprenderam a decodificar o comportamento comunicativo e a se adaptar

152 Patrick Studer


comunicativamente às comunidades que se propuseram a estudar. Também
linguistas que desejam estudar contextos de negócios estarão cientes de que
projetos de pesquisa são muitas vezes esforços colaborativos para os quais
pesquisadores de diversas áreas de especialidade contribuem. Pesquisas lin-
guisticamente orientadas em contextos empresariais são muitas vezes reali-
zadas em conjunto com psicólogos organizacionais, psicólogos sociais e até
mesmo economistas. O estabelecimento interdisciplinar garante uma abor-
dagem equilibrada para o problema que leva em conta os diferentes pontos
de vista sobre o assunto. Se você mostrar pouca vontade ou capacidade para
adotar conceitos e terminologias utilizadas por disciplinas mais ligadas à eco-
nomia que à linguística, pode ser alvo de críticas. Mas isso se aplica a todos
os contextos que os linguistas estudam no mundo real.

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Linguística aplicada a contextos empresariais


155
Linguística aplicada ao ensino de
língua estrangeira1
Nina Spada

Quais são as contribuições mais importantes da linguística moderna para


o ensino de língua estrangeira?
Spada — Uma das primeiras e mais significativas contribuições da linguís-
tica moderna para o ensino de segunda língua e de língua estrangeira foi a
concepção de linguística estrutural, que, quando combinada com a teoria
behaviorista de aprendizagem, levou ao desenvolvimento do método audio-
lingual. Esse método, considerado o primeiro método “científico” de ensino
de língua, passou a dominar a área por muitas décadas antes da chegada
da “revolução linguística” de Chomsky no final dos anos de 1960, com a in-
trodução da gramática universal (gu). A ideia de que existe uma gramática
universal das línguas humanas se originou com a visão de Chomsky sobre
a aquisição da língua materna (L1). Ele estava procurando uma explicação
para o fato de que praticamente todas as crianças aprendem sua língua
em um momento de seu desenvolvimento cognitivo em que estão experi-
mentando dificuldades para conquistar outros tipos de conhecimento que
parecem ser bem menos complicados do que a linguagem. Chomsky argu-
mentou que isso não poderia ser conquistado pela mera exposição a amos-
tras de linguagem no ambiente linguístico, porque a língua a que a criança
é exposta é incompleta e, algumas vezes, “degenerada” ou fragmentária.
Além disso, as crianças parecem ser capazes de adquirir sua língua mater-
na sem qualquer “feedback” sistemático de correção, nem qualquer instru-
ção. Chomsky então concluiu: as crianças devem ter uma faculdade inata da
linguagem — um mecanismo com o qual já nascem — que as torna capazes

1
Entrevista publicada em março de 2004, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.

156 Nina Spada


de “decifrar o código” da linguagem que eventualmente irão aprender como
língua materna, através de um processo de formulação de hipóteses e testes.
Mesmo que Chomsky não tenha um interesse particular por ensino ou apren-
dizagem de segunda língua, seu trabalho influenciou as duas áreas. Uma vi-
são de aprendizagem de segunda língua que compartilha alguns pressupostos
da abordagem da gu é a Monitor Theory, de Krashen (1982). Com base em pes-
quisas em aquisição de segunda língua (L2), Krashen propôs que, pelo fato de
a aprendizagem em L2 ser similar à aprendizagem em L1, deveriam ser feitos
esforços para criar ambientes em salas de aula de L2 que se aproximassem
das condições da aquisição de L1. Ele supôs que, se aprendizes de L2 fossem
expostos a um “input compreensível” e se recebessem oportunidades de se
concentrarem mais em significados e mensagens do que em formas gramati-
cais e acuidade, eles seriam capazes de adquirir sua segunda língua de forma
parecida com que os aprendizes de L1 aprendem sua língua materna. Dessa
forma, a Monitor Theory disponibilizou um considerável apoio para o ensino
de língua estrangeira e segunda língua, particularmente para o Communi-
cative Language Teaching (CLT) e para o movimento que não se centrava em
forma linguística, mas em comunicação e significado.
Outra importante contribuição da linguística moderna para o ensino de
língua estrangeira, e particularmente para o CLT, pode ser encontrada na teo-
ria da competência comunicativa, proposta pelo sociolinguista Dell Hymes no
começo dos anos 1970. Essa teoria postula que saber uma língua inclui muito
mais do que saber as regras de sua gramática (i.e., competência linguística).
Hymes chamou a atenção para a importância das regras do uso linguístico
(i.e., competência comunicativa). Essa visão levou a diversos desenvolvimen-
tos no campo do CLT, incluindo a criação de currículos comunicativos, ma-
teriais de ensino de línguas e metodologias. Desde a década de 1980, o CLT,
em suas várias formas e interpretações, tem continuado a dominar o campo
de ensino de segunda língua e também, cada vez mais, o campo de ensino de
língua estrangeira. É claro que a linguística é apenas uma das disciplinas que
têm influenciado o ensino de língua estrangeira. Muitas outras têm desempe-
nhado um papel muito importante, como a psicologia e a educação.

É importante um professor de língua estrangeira ter formação em linguística?


Spada — Uma formação em linguística é muito importante para os professo-
res de língua estrangeira se essa formação for suficientemente abrangente,
abordando aspectos formais, funcionais, pragmáticos e sociolinguísticos da

Linguística aplicada ao ensino de língua estrangeira


157
linguagem. O professor com formação em linguística deveria não apenas
compreender o funcionamento da linguagem, mas também entender como
o aluno faz esforços para aprender. Assim, o professor pode ter a sensibi-
lidade para compreender os erros e outras características do desenvolvi-
mento do aprendiz de língua estrangeira. É importante para o treinamento
linguístico incluir algo sobre como as línguas são aprendidas. Obviamente,
os professores de língua estrangeira deveriam não apenas possuir conheci-
mento e domínio avançados da língua, mas também a habilidade de tornar
esse conhecimento acessível e compreensível para o aluno. Frequentemen-
te esse tipo de conhecimento é obtido em cursos de gramática pedagógica
geralmente oferecidos em programas de linguística aplicada e não em pro-
gramas de linguística.
Nas palavras de um conhecido linguista aplicado, “parece razoável espe-
rar que os professores devam saber a sua matéria [i.e., a língua]. Esse conhe-
cimento fornece as bases de sua autoridade e dá a garantia da ideia de que
eles estão praticando uma profissão. Sem esse conhecimento especializado,
eles não têm autoridade, nem profissão… O mínimo que poderíamos esperar
dos professores, então, é que saibam a sua matéria” (Widdowson, 2002: 67).

O quanto um professor pode aprender ao analisar os erros dos alunos?


Spada — Como Corder (1967) afirmou em seu artigo sobre a análise de erros,
“quando os alunos produzem ‘frases corretas’, eles podem apenas estar repe-
tindo algo que já tenham ouvido; quando eles produzem frases que diferem
da língua-alvo, podemos crer que essas frases refletem o verdadeiro conheci-
mento do aluno sobre as regras e padrões daquela língua”. Os erros dos alunos
são uma fonte muito importante para o professor de língua estrangeira. Eles
são uma espécie de janela para o que está acontecendo “dentro da cabeça do
aluno” e podem ajudar os professores de diversas formas. Por exemplo, pres-
tando atenção aos erros dos alunos, os professores podem diagnosticar que
tipos de erros os estudantes estão cometendo e então decidir o que fazer com
eles. Os erros também sempre fornecem uma indicação sobre o progresso do
aprendiz e, por isso, podem ajudar no processo de avaliação. A ocorrência de
um número mais alto de erros do que o esperado em determinada atividade
pode indicar que aquela atividade está muito difícil. Por outro lado, poucos
erros de certo tipo podem indicar ao professor que o processo de aprendi-
zagem está acontecendo. Por isso, um professor pode aprender um bocado
analisando os erros dos alunos.

158 Nina Spada


A habilidade de perceber e analisar os erros dos estudantes requer um
sólido conhecimento da língua ensinada. Conhecer a língua materna do alu-
no também pode ajudar bastante. Este último tipo de conhecimento pode ser
mais objetivo e realístico ao se ensinar língua estrangeira (ao contrário de
segunda língua), em que tipicamente a maioria dos estudantes compartilha
da mesma língua materna.

Qual é a melhor idade para que uma criança comece a aprender uma lín-
gua estrangeira?
Spada — Praticamente qualquer um diria “quanto mais novo, melhor”, quan-
do se trata de aprender uma língua estrangeira através da educação formal,
em escolas. Contudo, tanto a experiência como a pesquisa têm mostrado que
estudantes mais velhos podem obter um nível de proficiência alto, se não na-
tivo, em uma língua estrangeira. Então a resposta para a pergunta “qual é a
melhor idade para que as crianças comecem a aprender uma língua estran-
geira” depende de diversos fatores, sendo os dois mais importantes:
(1) os objetivos e as expectativas do programa instrucional;
(2) o contexto em que o ensino acontece.
Se o objetivo de aprender/ensinar uma língua estrangeira é obter o mais
alto nível de habilidade na segunda língua, ou seja, o nível em que um falan-
te de segunda língua se torne igual ao falante nativo, há sustentação para o
argumento de “quanto mais cedo, melhor”. Esse apoio, encontrado na litera-
tura sobre a hipótese do período crítico, se baseia no princípio de que fatores
biológicos e maturacionais limitam a capacidade de aprendizagem de línguas
depois de determinada idade.
No entanto, alcançar a fluência de uma língua estrangeira em um nível
de falante nativo não é o objetivo de todos os alunos em todos os contextos.
Na verdade, a maioria dos aprendizes de língua estrangeira está principal-
mente interessada em obter uma habilidade básica de comunicação na língua
estrangeira, porque a sua língua materna continuará sendo a sua língua prin-
cipal. Nesses casos, pode ser mais eficiente começar o aprendizado da língua
estrangeira mais tarde. Pesquisas têm mostrado que, quando recebem ape-
nas algumas horas de instrução por semana, alunos que começam mais tarde
(por exemplo, por volta dos 10-12 anos, ao invés de 6-8 anos) geralmente se
igualam àqueles que começaram mais cedo. Sendo assim, uma ou duas horas
por semana não irão produzir falantes de segunda língua muito avançados,
não importa o quão cedo tenham começado.

Linguística aplicada ao ensino de língua estrangeira


159
Linguística aplicada ao
ensino de língua materna1
Luiz Carlos Travaglia

Para o senhor, quais são as principais contribuições que a linguística mo-


derna trouxe para o professor de língua materna?
Travaglia — São tantas que fica impossível enumerar. Todavia, podemos di-
zer, de maneira genérica, que a grande contribuição da linguística moderna
para o professor foi trazer um conhecimento mais estruturado, científico e
profundo sobre como a língua é constituída e sobre como ela funciona en-
quanto instrumento de comunicação com uma dimensão social e histórica
que é mesmo constitutiva da língua. O professor que domina esse conheci-
mento tem melhores condições de decidir o que é pertinente trabalhar com
os seus alunos e como estruturar as atividades que os ajudem a atingir um
maior domínio da língua e a ter uma maior e melhor competência comuni-
cativa. É preciso, entretanto, ter a humildade de reconhecer que o muito que
sabemos hoje em relação ao que se sabia no início do século XX é ainda pouco.

Ainda hoje, infelizmente, a linguística não tem muito espaço nos cursos de
graduação em Letras no Brasil. O senhor acha que deveria haver mais dis-
ciplinas de linguística teórica e/ou aplicada nos currículos dos cursos de
graduação em Letras? Como uma formação em linguística pode auxiliar o
futuro professor de português?
Travaglia — Evidentemente, quanto mais se estuda as formulações de uma
ciência, mais condições de trabalhar de modo competente com o seu objeto
(no nosso caso a língua), e por isso é desejável estudarmos o mais que puder-
mos. Já disse como basicamente o conhecimento linguístico (uma formação
1
Entrevista publicada em março de 2004.

160 Luiz Carlos Travaglia


em linguística) pode auxiliar o futuro professor tanto de língua materna (no
nosso caso, o português), quanto de língua estrangeira.
A questão dos currículos é complexa. Há limitações de tempo dos cursos
e limitações legais entre outras e é preciso fazer o possível para obter o má-
ximo nas condições disponíveis. Você diz do pouco espaço da linguística nos
cursos de graduação em Letras no Brasil. Em primeiro lugar, é preciso lembrar
que a situação é diferente em cada curso em termos do número de disciplinas
específicas de linguística e/ou linguística aplicada. Mas devemos lembrar que
nas aulas de língua portuguesa e estrangeira dos cursos de graduação em Le-
tras, o professor pode trabalhar com uma visão linguística dos fatos relativos
à língua, seu funcionamento, seu ensino/aprendizagem. Isso aumentaria em
muito o contato dos alunos com os conhecimentos desenvolvidos pela ciência
linguística tradicional e moderna (pós-Saussure?). Em segundo lugar, não se
pode esquecer que nosso estudo e formação são constantes: você pode fazer
cursos de aperfeiçoamento, de especialização, de mestrado, doutorado e pós-
-doutorado. Mesmo que faça tudo isso, descobrirá que ainda sabe pouco do
que a linguística já disponibiliza hoje. Sendo assim, é preciso crer no estudo
individual, pois é possível lermos constantemente sobre linguística. Pense
bem no seguinte: mesmo que fosse possível colocar cinquenta disciplinas de
linguística em um curso de graduação, isto seria suficiente ou não? A respos-
ta é obviamente não. O curso de graduação precisa estabelecer uma base de
conhecimentos que permita ao estudante continuar seus estudos em outros
níveis e mesmo sozinho. Essa é a função do curso de graduação: a formação
básica sólida e claro, o mais ampla possível, que nos permita ir em frente.
Ninguém pode esperar que qualquer curso lhe dê tudo. Não falei das dife-
renças individuais de empenho e capacidade na captação do que está sendo
tratado nos cursos, pois esta é outra questão bastante complexa.

Em torno dos PCNs, foram provocadas muitas polêmicas desde sua cria-
ção. Enquanto uns acreditam que foi um grande avanço para a Educação,
outros pensam o contrário. Qual o seu posicionamento diante dos Parâme-
tros Curriculares Nacionais?
Travaglia — Embora seja óbvio que tudo neste mundo tem aspectos positi-
vos e negativos, não posso me furtar a dizer esse lugar-comum: os PCNs re-
ferentes ao ensino de língua tiveram a grande vantagem justamente de pôr
em campo as conquistas da linguística moderna, propondo um ensino que
se atenha a uma visão mais apropriada da língua como meio de comunicação

Linguística aplicada ao ensino de língua materna


161
e de que o importante é desenvolver a competência comunicativa do aluno
tanto quando usa a modalidade oral como quando usa a modalidade escri-
ta da língua. O que os PCNs propõem acarreta um rompimento com certas
tradições do ensino/aprendizagem de língua e força o professor a uma busca
de atualização. É aquela coisa que falei do estudo constante, mesmo fora de
cursos. Isso evidentemente mexe com certas condições de trabalho, ataca de-
terminadas posições em que nos acomodamos (como, por exemplo, a de que
precisamos ensinar metalinguagem, teoria linguística/gramatical) e que sem
dúvida são confortáveis. Os PCNs obrigam-nos a estudar, a rever posições, a
usar a criatividade para fazermos algo de forma diferente e para fins que não
são aqueles que sempre julgamos inarredáveis. É preciso convir que tudo isso
gera inquietação, polêmica, defesas e ataques. Mas tudo isso é muito saudá-
vel para nós enquanto professores e enquanto seres humanos, cidadãos que
queremos instaurar melhores condições de existência para todos. Em meus
artigos e livros, tenho sugerido algo que espero seja igualmente provocador
de uma reflexão do professor sobre sua função e sua prática. Precisamos de
estabilidade para fazer as coisas, mas precisamos evoluir, tentar; mesmo que
seja para ver que a outra possibilidade não é boa ou não é tão boa quanto
aquela em que temos atuado. Vale manter o que é bom e é desejável, procu-
rar alternativas, possibilidades, outras coisas que são boas, ótimas, positivas,
caminhos alternativos que somam resultados. Vale a boa diversidade.

Hoje em dia, fala-se muito em ensino de língua materna por meio do traba-
lho com gêneros textuais — inclusive nos PCNs. O que o senhor pensa sobre
o trabalho com gêneros textuais nos ensinos fundamental e médio?
Travaglia — É importante. Por diferentes razões. A maior delas é que temos
de trabalhar a competência comunicativa dos alunos e, como a comunica-
ção se faz por textos, uma das coisas mais importantes no ensino de língua
é possibilitar às pessoas que saibam produzir e compreender textos de ma-
neira adequada a cada situação de interação comunicativa. Ora, cada tipo de
situação de interação comunicativa estabelece um modo de interação que
acaba configurando uma categoria de texto (vou usar esta denominação em
vez de gênero, pois este termo já está muito comprometido com conceitu-
ações diversas e distintas) adequada àquele tipo de situação. Dessa forma,
uma pessoa só terá boa competência comunicativa se for capaz de produzir e
compreender textos de diferentes categorias. Cada categoria de texto possui
características próprias em termos de conteúdo, estrutura (inclusive a supe-

162 Luiz Carlos Travaglia


restrutura) e aspectos linguísticos específicos (marcas) em correlação com as
propriedades discursivas dessa categoria de texto. Essas configurações sem
dúvida pertencem à gramática de cada língua. Assim sendo, é preciso e con-
veniente estudar/trabalhar (não necessariamente numa perspectiva teórica)
essas configurações associadas a cada categoria de texto, pois o aluno precisa
ter a habilidade de construir categorias de textos diversas adequadas às dife-
rentes situações de interação comunicativa em que ele se encontra envolvido.
Todavia, como disse em um texto meu (“Tipologia textual, ensino de gramá-
tica e o livro didático” — apresentado, em outubro de 2003, no VII Fórum de
Estudos Linguísticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro), há muitos
elementos da língua cujo uso não está vinculado a categorias de textos e, as-
sim sendo, não é possível fazer um estudo centrado apenas em gêneros tex-
tuais como alguns têm proposto a partir de certa leitura dos PCNs. Já disse
algumas coisas a esse respeito em trabalhos meus. Infelizmente nosso espaço
aqui é pouco. Mas espero que tenha ficado claro que penso que o trabalho
com a língua por meio de categorias de textos é muito importante, mas não
é suficiente.

Linguística aplicada ao ensino de língua materna


163
Linguística computacional1
Renata Vieira

Com que se preocupa a área da linguística computacional? Qual é o en-


foque da linguagem — e das línguas — que a linguística computacional
pretende estudar?
Vieira — A área preocupa-se com a compreensão da língua e de técnicas com-
putacionais adequadas para o tratamento da língua escrita e falada, tanto
para sua interpretação como sua geração.

A área do processamento de linguagem natural (pln) é relativamente nova.


Como ela começou a se estruturar? Quais foram os pesquisadores e os pro-
jetos pioneiros nessa área?
Vieira — Podemos dizer que a área possui aproximadamente meio sécu-
lo de existência, começou juntamente com a área de inteligência artificial (ia),
que tem o objetivo de reproduzir comportamento inteligente em sistemas com-
putacionais, como a solução de problemas e automatização do raciocínio. Um
exemplo bastante popular de aplicação de ia é a área de jogos, como o xadrez.
Uma das características inteligentes investigadas por pesquisadores da área de
ia, desde seu início, é a capacidade de comunicação humana. O desenvolvimen-
to de pesquisas nessa questão em particular, originou a área denominada pln.
Os primeiros projetos na área são relacionados à tradução automática.

Entre os inúmeros problemas de pesquisa em pln, quais são considerados por


você de resolução mais complexa? Qual o estado da arte nessa(s) área(s)?
Vieira — Os problemas são muitos, seria difícil enumerá-los. Grande par-
te deles está relacionada com a ambiguidade, referências ao contexto e a di-

1
Entrevista publicada em agosto de 2004.

164 Renata Vieira


ficuldade de representação de conhecimento do senso comum, todos fatores
muito presentes na interpretação da língua. Mas a área avançou muito, o re-
conhecimento e a síntese de fala, por exemplo, são tecnologias praticamente
dominadas, porém com algumas restrições. Vou usar esse caso para exempli-
ficar alguns dos problemas complexos nessa área. Um sistema desses é capaz
de reconhecer a fala de uma pessoa a partir da interação dele com o sistema,
mas não poderá reconhecer a fala de um segundo falante sem o devido trei-
namento. Para que o reconhecimento seja realizado independentemente de
falante, o vocabulário a ser reconhecido tem de ser muito controlado.

Em que área da linguística computacional podemos perceber maior evolu-


ção nos últimos anos?
Vieira — Além do exemplo citado acima, uma tendência mais recente da área
é sair de um conjunto experimental reduzido para trabalhar com problemas
de larga escala, como por exemplo, corpora linguísticos extensos. A área de
análise sintática está bem desenvolvida e consolidada, a área da semântica
computacional também evoluiu muito, mas por ser uma área que apresenta
mais desafios, há ainda muitos problemas em aberto.

Linguística computacional
165
Linguística da enunciação1
Marlene Teixeira e Valdir Flores

Quais foram os trabalhos fundadores da linguística da enunciação? Po-


demos encontrar, entre os pioneiros, os trabalhos de Saussure e Émile
Benveniste?
Teixeira & Flores — Poderíamos dividir essa resposta em dois momentos: há
os fundadores lato sensu e os fundadores stricto sensu.
Podemos chamar de fundadores lato sensu os estudos não necessaria-
mente voltados para uma abordagem linguística: a retórica clássica, a gramá-
tica tradicional e a lógica.
Por exemplo, há, na retórica de Aristóteles, princípios que consideram o
que facilmente chamaríamos, hoje em dia, de situação de enunciação na me-
dida em que a elocução, as provas e a disposição assentam-se sobre a distin-
ção daquele que fala, do assunto sobre o qual se fala e daquele a quem se fala.
Ou seja, assentam-se sobre o eu/tu/ele. Na gramática tradicional, por sua vez,
encontramos uma série de estudos voltados a mecanismos linguísticos que
têm grande destaque nas teorias enunciativas: as modalidades, a dêixis, as fi-
guras de linguagem, entre outros. Na lógica, há também estudos precursores,
em especial aqueles que problematizam a diferença entre sentido e referên-
cia. No entanto, não podemos esquecer que os postulados da lógica clássica
são verdadeiramente antienunciativos, devido principalmente ao privilégio
do cálculo das expressões em termos de valores de verdade, da atenção dada
à denotação das expressões, do tratamento da função referencial, da inde-
pendência entre sintaxe, semântica e pragmática, entre outros postulados.
Em resumo e para que fique bem entendido: não estamos querendo di-
zer que a retórica, a gramática tradicional e a lógica são estudos enunciativos.
Estamos apenas localizando nesses campos as raízes das preocupações que
viriam, mais tarde, ocupar os linguistas da enunciação.

1
Entrevista publicada em março de 2011.

166 Marlene Teixeira e Valdir Flores


Quanto aos fundadores stricto sensu, sim, Saussure é um fundador. Mas
sua posição ainda é, poderíamos dizer, externa ao campo. Em outras pala-
vras, é verdade que todos os autores da enunciação se reportam à famosa di-
cotomia langue/parole, à noção de sistema e à de valor. É também verdade que
esses conceitos/noções foram reinterpretados, modificados e mesmo alarga-
dos no quadro das teorias enunciativas. Mas não podemos dizer que Saussure
fazia linguística enunciativa. Isso seria um exagero.
No campo da linguística, além de Saussure, há outros autores que es-
tão na origem de uma abordagem enunciativa da linguagem, embora não
possam ser identificados como linguistas da enunciação. Há, por exemplo,
Michel Bréal, que mostra novos valores sintáticos surgindo do emprego das
formas. Em Ensaio de semântica (1897/1992), ele se propõe a detalhar as leis da
linguagem, os mecanismos de construção de sentido das palavras, além dos
problemas da relação entre a sintaxe e a semântica. Destaca-se, no livro, o
capítulo XXV, “O elemento subjetivo”, em que Bréal define o que entende por
parte subjetiva da linguagem — “a parte mais antiga” como ele diz — a qual
pode ser representada por palavras, membros de frase, formas gramaticais e
pelo plano geral das línguas.
Quanto a Émile Benveniste, sua posição é realmente central nos estudos
enunciativos. No entanto, isso também merece ser analisado com cuidado.
O pioneirismo de Benveniste, se assim se quiser dizer, não se deve a uma
anterioridade temporal de desenvolvimento das pesquisas enunciativas. Esse
lugar seria mais adequado a Charles Bally que, bem antes de Benveniste, já
havia tratado dos temas relacionados à enunciação. Em 1932, por exemplo,
Bally publica Linguistique générale et linguistique française, que traz, entre os
parágrafos 26 e 212, o capítulo intitulado “Teoria geral da enunciação”.
Não se pode deixar de mencionar os pensadores russos M. Bakhtin e V. N.
Voloshinov, que desenvolvem uma teoria da linguagem antecipadora de ques-
tões que, algumas décadas depois, viriam a ser problematizadas por Benveniste.
Além de darem lugar à intersubjetividade nos estudos da linguagem, conceben-
do a enunciação como atividade intrinsecamente dialógica, em que o reconheci-
mento de si se dá pelo reconhecimento do outro, esses pensadores consideram
que o repetível e o irrepetível — que recebem diferentes designações no conjun-
to de sua obra (significação/tema; oração/enunciado; relações lógicas/relações
dialógicas) — articulam-se no processo de constituição do sentido.
O pioneirismo de Benveniste, então, diz respeito mais à generalidade do
que ele propõe: sua reflexão sobre a enunciação é inspiradora porque gestada
a partir de um profundo diálogo com outras áreas (antropologia, psicanálise,

Linguística da enunciação
167
sociologia e filosofia, principalmente) e em direção a perspectivas linguísti-
cas ainda não vislumbradas. Sobre esse último ponto, o trabalho de Benvenis-
te é contundente: ele produz um retorno da linguística ao estudo da língua
viva, do discurso, no exato momento — fim da década de 1940, início da de
1950 — em que a herança saussuriana se limita aos estudos estruturalistas
da langue. É Benveniste quem produz um retorno — alguns inclusive diriam
que é uma primeira abordagem e não um retorno — da linguística ao estudo
da língua que serve para viver, como ele mesmo diria.
No entanto, o reconhecimento desse lugar fundador de Benveniste é tar-
dio, mesmo na França. Claudine Normand, em um texto publicado em Lan-
gages 77, fala da recepção das ideias de Benveniste na França. Ela compara as
anotações feitas por ocasião do curso do filósofo Paul Ricoeur com as feitas
durante o curso do linguista Jean Dubois, ambos na Universidade de Nanter-
re, e mostra que Benveniste era muito mais estudado no curso do filósofo do
que no curso do linguista. Nessa mesma revista, na apresentação, Claudine
Normand mostra que na França dos anos 1960 não é a Benveniste que se re-
feriam os autores quando falavam de enunciação, mas a Roman Jakobson,
especialmente em função do texto em que ele elabora a noção de shifters, o
que é, no mínimo, interessante, uma vez que Jakobson, em nota, no texto so-
bre os shifters, diz se inspirar no trabalho sobre os pronomes de Benveniste.
O que já se deve ter percebido é que traçar um panorama histórico da
linguística da enunciação não é fácil. Gostaríamos, ainda, de aproveitar a per-
gunta e chamar a atenção para outro ponto que, inclusive, foi objeto de gran-
de discussão entre nós por ocasião da elaboração do Dicionário de linguística
da enunciação: a especificidade de formulação da teoria enunciativa de cada
autor. Vejamos.
Há autores do campo da enunciação que, mesmo sem explicitar uma
metodologia de análise enunciativa, refletiram sobre os fenômenos da enun-
ciação. A teoria que esses autores fazem é, em boa parte, derivada da leitura,
a posteriori, do conjunto de seus escritos e não do estabelecimento explícito
de uma metodologia. Esse é o caso de Émile Benveniste e Mikhail Bakhtin,
por exemplo. São autores que podem ser chamados, de certa forma, de fun-
dadores stricto sensu do campo. Há, por outro lado, autores cujas propostas
de análise enunciativa são explicitamente elaboradas. São exemplos disso:
Oswald Ducrot, Jacqueline Authier-Revuz e Antoine Culioli.
Além disso, não podemos esquecer que muitos autores pertencentes à
linguística da enunciação desenvolveram um pensamento que ultrapassa o
campo da enunciação e que não poderiam ter seu pensamento reduzido à te-

168 Marlene Teixeira e Valdir Flores


mática enunciativa. Exemplos disso não faltam: além dos próprios Benveniste
e Bakhtin, há Jakobson, Greimas, entre outros.

Na proposição de uma “linguística da enunciação” (no singular), pode-


ríamos dizer que vocês a sustentam com as “teorias da enunciação” (no
plural), ao encontrar fundamentos comuns entre as diferentes teorias.
Pensando que hoje em dia a palavra “enunciação” tem sofrido uma vulga-
rização, muitas vezes, mesmo no meio científico, o que está mais funda-
mentalmente na base epistemológica de uma teoria ou de um estudo que se
quer “enunciativo”?
Teixeira & Flores — Há três pontos importantes nessa pergunta:
(a) a relação entre teorias da enunciação e linguística da enunciação;
(b) a vulgarização da palavra “enunciação”;
(c) as bases epistemológicas de uma teoria enunciativa.
Para respondê-la, é necessário fazer um “desvio” grande.
Em primeiro lugar, é preciso chamar a atenção para a forma como os
estudos enunciativos se instauraram no cenário da linguística brasileira.
Entre nós, as referências ao campo enunciativo datam, aproximadamen-
te, do início da década de 1980 e são feitas de uma maneira que podemos
chamar de “indireta”. Ou seja, os linguistas brasileiros não recorreram dire-
tamente aos estudos da enunciação — e Benveniste era, a esse tempo, quase a
única lembrança — para, com eles, fundamentar algum estudo do português.
Ao contrário disso: a reflexão enunciativa apareceu nos artigos e livros dessa
época de maneira secundada, em textos de outras perspectivas teóricas e nos
quais foi objeto de críticas.
Assim, são comuns, nos anos 1980, textos de análise do discurso (ad), por
exemplo, que se dedicam a fazer uma severa crítica aos trabalhos benvenistia-
nos. Encontramos, nesses textos, uma leitura muito particular de Benveniste.
A principal crítica era a de que havia em Benveniste uma visão supostamente
egocêntrica, idealista, de sujeito cuja característica principal é ser a fonte e a
origem dos sentidos da língua.
Ora, a ad, como se sabe, é um campo fortemente ancorado numa visão
marxista das relações sociais e, evidentemente, sob essa perspectiva, todos os
estudos da linguagem — não apenas os enunciativos — poderiam ser vistos
como idealistas, afinal, supor uma implicação entre a linguagem e as relações
de classe é algo que apenas a ad faz. Isso não é extensível a outra área dos estu-
dos linguísticos. Aos olhos da ad, toda a linguística contemporânea é idealista.

Linguística da enunciação
169
Além da ad, outras disciplinas — de maneira menos crítica, é verdade
— fizeram referência, a essa época, à enunciação: a linguística do texto, os
estudos da conversação, as pragmáticas, entre outras. Exemplos disso não
faltam, na linguística brasileira. Na linguística do texto, é comum a referên-
cia aos estudos sobre os pronomes e os verbos, de Benveniste, e aos estudos
da semântica argumentativa (operadores, articuladores, pressuposição, en-
tre outros), de Oswald Ducrot. Nos estudos da conversação, encontramos
referências também ao trabalho benvenistiano dos pronomes em textos da
Gramática do português falado. Na pragmática, é exemplar da presença da
enunciação o fato de Marcelo Dascal ter incluído o artigo “A natureza dos
pronomes”, de Benveniste, no quarto volume de seu Fundamentos metodológi-
cos da linguística, dedicado à pragmática, ao lado de autores como Bar-Hillel,
Grice, Stalnaker e Hockett.
Durante muito tempo, o que se viu nas salas de aula de linguística, no
Brasil, foi apenas o registro da existência da perspectiva enunciativa como
se fosse algo que já tivesse perdido o fôlego. Isso impediu que se avaliasse
com justeza o potencial descritivo de teorias muito importantes. Não ra-
ras vezes, vemos professores, em palestras e mesmo em artigos, traçando
uma espécie de história recente dos estudos linguísticos que supõe certa
evolução entre eles. Dizem eles: primeiro tem-se os estudos da linguísti-
ca do texto, que trata da imanência do texto; depois temos os estudos da
enunciação, que já se propõem a trazer aspectos contextuais, mas ainda são
“excessivamente” descritivistas; por fim, temos a ad, que aborda os aspectos
sócio-históricos.
Ora, esquecem-se os “historiadores” de que essa evolução inexiste, que
esses estudos são contemporâneos uns dos outros, que não há evolução entre
eles. Portanto, trata-se de uma história falseada.
Essa análise que fazemos do contexto de aparecimento dos estudos enun-
ciativos do Brasil não encerra nenhuma crítica desfavorável de nossa parte. É
apenas uma constatação. É evidente que os saberes se instauram em sintonia
com as condições sócio-históricas, epistemológicas e disciplinares de cada
organização social e cultural. No Brasil, isso não seria diferente. Nosso jeito
de fazer linguística é diferente dos outros “jeitos”. Apenas queremos registrar
que o surgimento do campo da enunciação no Brasil é mediado criticamen-
te por outras disciplinas dos estudos da linguagem. E isso é determinante,
por exemplo, para o entendimento não só do uso da palavra enunciação, mas
também de outras palavras (enunciado, discurso, locutor, referência etc.). É de-
terminante até mesmo para a consolidação da pesquisa na área.

170 Marlene Teixeira e Valdir Flores


Por exemplo, a publicação, no Brasil, de um manual — critério básico
para se poder afirmar a “disciplinarização” de uma área — que busque dar
alguma sistematicidade ao campo é datada somente de 2005. Quando publi-
camos Introdução à linguística da enunciação, tentamos apenas suprir uma
carência de material didático. A repercussão que esse pequeno livro teve
atesta a falta que havia de material dessa natureza. Antes desse livro, o único
“manual” que havia disponível para os estudantes brasileiros era a tradução
do livro de Jean Cervoni, A enunciação.
Em resumo, linguística da enunciação não é o mesmo que linguística do
texto, análise do discurso ou pragmática, apenas para citar essas. Há especi-
ficidades na enunciação que a diferenciam dos demais estudos da linguagem.
Talvez o uso indiscriminado dos termos da área seja apenas uma consequên-
cia da forma como ela foi instaurada na linguística brasileira.
Bom, agora podemos passar aos pontos “a” e “c” da pergunta.
Quando propusemos que a linguística da enunciação, no singular, era
constituída por teorias da enunciação, no plural, não tínhamos nenhuma in-
tenção de inventar um jeito “novo” de vê-la. Nossa ideia foi mesmo dizer ao
estudante: “Olhe, existem pontos em comum entre esses estudos”. Obviamen-
te, não inventamos os sintagmas “linguística da enunciação” nem “teorias da
enunciação”. Eles são recorrentes na área. O que fizemos foi utilizá-los para
nomear aspectos distintos da mesma questão.
E parece que é assim também que se entende a organização do campo na
França, país berço dos estudos enunciativos. Prova disso é que ocorrerá um
colóquio, em novembro deste ano, na Université Paris Est-Marne La Vallée,
denominado Colloque International de Linguistique Énonciative, cujo tema
será “L’énonciation comme spécificité théorique”. No texto de apresentação
do colóquio, dizem os organizadores:

“Ce colloque souhaite inviter à une discussion et une confrontation de points


de vue sur l’énonciation, c’està-dire en tant que façon de poser et traiter des
problèmes en linguistique, par opposition à l’appréhension des faits de langue
dans les autres grands courants théoriques d’aujourd’hui. Un des objectifs de
cet événement serait notamment de consolider la visibilité de la perspective
énonciative et de favoriser l’échange entre ses acteurs qui, du fait même de
leur dispersion géographique ou de la spécialité de leur domaine de recherche,
suivent parfois des cheminements séparés. Ainsi, il paraît crucial de montrer
que la recherche énonciative, pour diverses que puissent être ses approches,
reste l’objet d’un projet commun et d’une spécificité scientifique qui demande
à être entretenue et pérennisée”.

Linguística da enunciação
171
Ora, não é exatamente isso que propõe o Dicionário de linguística da
enunciação? Ou seja: mostrar que a pesquisa enunciativa, por mais diferentes
que possam ser suas abordagens, tem um projeto comum? Cremos que sim.
Os organizadores desse colóquio são conhecedores do Dicionário; tivemos a
oportunidade de explicar-lhes como procedemos para a execução do projeto
de elaboração do Dicionário e entendemos haver sintonia entre nossas abor-
dagens do campo.
Então, parece que nossa intuição à época da publicação de Introdução
à linguística da enunciação e sua ratificação no Dicionário fazem eco. Há um
campo dos estudos enunciativos (que até podemos chamar de linguística da
enunciação) e esse campo é constituído por diferentes perspectivas de estudo
da enunciação (que podemos chamar de teorias da enunciação). Os pontos
em comum são muitos: a referência a Ferdinand de Saussure, a ênfase nos
aspectos do sentido, a vocação descritivista dos mecanismos linguísticos, en-
tre outras. E poderíamos acrescentar ainda talvez outro ponto comum, reco-
nhecido inclusive na súmula do Colóquio do qual falávamos acima: a posição
central dos estudos de Émile Benveniste. Assim, voltamos à primeira questão.

Mencionando Milner, vocês fazem uma “divisão didática” entre as linguís-


ticas do um e as do não um, isto é, aquelas que não consideram ou que
consideram o sujeito da enunciação, respectivamente. A linguística da
enunciação está para a do não um, portanto. Na opinião de vocês, de que
maneira a noção de uma linguística da enunciação contribui enquanto
“novidade” no debate científico em torno da linguagem?
Teixeira & Flores — A utilização que fazemos dos termos um e não um em
Introdução à linguística da enunciação (2005: 99-101), é inspirada em Milner,
mas está longe de corresponder à complexidade de suas formulações. Esses
termos são também utilizados por Authier-Revuz (1989, 1992), também em
sentido diferente daquele que propomos.
Nosso intuito foi o de, com esses termos, encontrar uma forma didática de
evidenciar que a linguística da enunciação se singulariza, entre outros estudos,
por tomar a linguagem desde um ponto de vista que leva em conta o sujeito.
Assim, ao contrário da linguística do um, que, por desconsiderar esse as-
pecto, volta-se para fenômenos linguísticos apreensíveis no quadro da repe-
tibilidade, a linguística da enunciação olha para o irrepetível (não um), pois,
na enunciação, a língua é usada em condições de tempo (agora), espaço (aqui)
e pessoa (eu-tu) sempre singulares.

172 Marlene Teixeira e Valdir Flores


Como toda tentativa de divisão do campo da linguística, esta peca pelo
reducionismo. Em primeiro lugar porque, sob os rótulos um e não um, co-
locam-se teorias muito diferentes entre si. Além disso, os termos um e não
um são trazidos, tanto por Milner quanto por Authier-Revuz, da psicanálise
lacaniana, ainda que para propósitos diferentes.
Milner os utiliza em O amor da língua (1987) para falar da constituição da
linguística como ciência, a partir do movimento de Saussure nessa direção.
O termo um diz respeito à concepção de ciência que, segundo o autor, desde
Aristóteles, evoca domínios de investigação claramente definidos, acerca dos
quais os cientistas aperfeiçoam métodos de análise e elaboram conhecimen-
tos que se articulam num todo coerente.
Milner interroga se, em relação à linguística, a ideia de completude é
lícita, e o faz a partir da psicanálise, particularmente recorrendo ao conceito
lacaniano de alíngua (lalangue), visto como um conceito que impõe limites ao
de língua.
Segundo ele, o um que estrutura a língua possibilita a escrita da linguís-
tica como ciência ideal, isto é, autoriza a linguística a reivindicar o estatuto
de ciência. No entanto, a língua é uma realidade falha, em que o equívoco não
cessa de aparecer.
A linguística que podemos chamar do um, na visão de Milner, se vê ame-
açada pela psicanálise em sua pretensão de cientificidade, por estar fundada
sobre a homogeneização do objeto, pelo desconhecimento dos elementos he-
terogêneos que o constituem. O “elemento exorbitante” está fora da órbita da
escrita formalizada da linguística. Para dar conta do resíduo, deve-se falar da
língua desde o lugar em que se vê nela espaço para a inscrição de um sujeito,
capaz de desejo e não simetrizável. Ou seja: só uma linguística afetada pela
psicanálise pode assumir que há um impossível próprio à língua, que não se
submete ao domínio do homem.
Authier-Revuz utiliza os termos um e não um em dois contextos. Na des-
crição das formas de modalização autonímica, o um é a representação ima-
ginária de uma homogeneidade do dizer do falante na enunciação, enquanto
o não um designa a heterogeneidade constitutiva, irredutível, que afeta o di-
zer. O estudo da modalização autonímica proposto pela autora mostra que a
enunciação é lugar de tensão entre o um do dizer (o repetível) e o não um do
irrepresentável.
A segunda utilização desses termos ocorre quando Authier-Revuz afirma
a necessidade de convocar heterogeneidades teóricas para descrever o campo
da enunciação. Nesse contexto, ela argumenta que passar da língua, concebida

Linguística da enunciação
173
como “ordem própria”, sistema finito de unidades e de regras de combinação,
à consideração da fala, do discurso, é abandonar um domínio homogêneo,
fechado, onde a descrição é da ordem do repetível, do um, por um campo
marcado pelo não um (1989: 166). Isso porque essa passagem implica o sujei-
to, definido no quadro teórico da autora, de acordo com a psicanálise, como
sujeito do inconsciente, o que coloca o estudo da enunciação, na perspectiva
da autora, como inscrito na ordem do não inventariável, portanto, do não um.
Se fizemos esse preâmbulo foi para tentar localizar a dificuldade de ma-
nutenção da divisão proposta em 2005.
O ato de transposição didática, na tentativa de transformar em objeto de
ensino conteúdos de caráter complexo, via de regra, opera simplificações que,
não raras vezes, esvaziam os conceitos de sua essencialidade. É de perguntar
se, descoladas do quadro da psicanálise onde foram concebidas, as noções de
um e não um não perderiam sua razão de ser.
Por outro lado, tentar fazer retornar essas noções a seu campo de origem
e inscrever a linguística da enunciação no campo do não um, talvez dê mar-
gem a se entender que a convocação da psicanálise — tão bem conduzida na
proposta de Authier-Revuz — é parte do projeto comum dos estudos enun-
ciativos, o que não corresponde à realidade. Diríamos que esse é o aspecto
que singulariza essa autora entre os demais teóricos da enunciação.
Embora problematizando a partição da linguística em um e não um, feita
em 2005, mantemos a ideia de que os estudos enunciativos permitem apre-
ender os fatos de língua de modo crucialmente diferente em relação a outras
correntes teóricas voltadas para a língua em uso. O que propriamente marca
a especificidade dos estudos enunciativos?
A apresentação do colóquio da Université Paris Est-Marne La Vallée
(Colloque International de Linguistique Énonciative), já mencionado em ques-
tão anterior, que vai tratar exatamente da especificidade teórica da enuncia-
ção, reconhece dois grandes nomes cujas teorias são “molas propulsoras” do
que se faz hoje no campo da linguística: Chomsky, nos Estados Unidos, que
recoloca a dimensão mentalista, fortemente afastada de cena pelos estudos
bloomfieldianos; e Benveniste, na França, que reabilita o interesse pela dis-
cursivização, no próprio quadro da herança saussuriana. Enquanto Chomsky
se inscreve, de algum modo, numa tradição formalista, colocando a ênfase no
estudo da competência, Benveniste opera uma ruptura, ao atribuir a fatores
da performance uma importância que não lhes era reconhecida.
À diferença de Chomsky, Benveniste não associa seu empreendimento a
nenhum princípio de formalização. Talvez se possa dizer que as teorias enun-

174 Marlene Teixeira e Valdir Flores


ciativas — grande parte delas tributárias de Benveniste — sustentam-se so-
bre a base de uma reflexão geral, mais do que sobre um modelo de análise
voltado para a regularização.
A repetição, seja de aspectos universais, funcionais, contextuais ou con-
versacionais/interacionais, não chama a atenção da linguística da enunciação.
Agora, é inegável que há variações consideráveis que resultam do fundo
comum herdado do pensamento de Benveniste, e que dão lugar a abordagens
diversificadas. A teoria das operações predicativas e enunciativas de Antoine
Culioli, por exemplo, vê a enunciação como o modo de constituição do senti-
do no enunciado, cujas formas remetem à produção de valores referenciais.
Os mecanismos enunciativos devem ser analisados no arranjo de formas ex-
pressas no enunciado e este objeto de análise é que possibilita reconstituir a
enunciação. Tais mecanismos constituem um sistema de representações for-
malizáveis como um encadeamento de operações. Em outras palavras, facil-
mente podemos ver que Culioli radicaliza a ideia de formalização do objeto,
mas sem abrir mão, em nossa opinião, do que estamos chamando de a relação
entre o repetível e o irrepetível.
Se a linguística da enunciação, por focalizar a relação singular do sujei-
to com a língua, não está preocupada com a formalização, isso não significa
que ela negligencie a forma. A consideração de que a organização do siste-
ma é da ordem do repetível, não está só em Benveniste, mas em Ducrot e
Authier-Revuz.
O diferencial da linguística da enunciação é prever nessa ordem da lín-
gua o lugar da irrepetibilidade. Nesse sentido, há uma contribuição significa-
tiva ao campo de estudo do significado.
Desde que se começou a questionar que o objeto da linguística não é as-
sim tão uno e homogêneo, uma série de propostas inter/multidisciplinares
foram elaboradas, movidas por um fascínio pela diversidade concreta da lin-
guagem. Essas tentativas de alargamento de domínio, destinadas a preencher
o vazio deixado pelas abordagens ditas “científicas” dos fenômenos da lingua-
gem, não se dão sem o risco de promover a pulverização do próprio campo
da linguística e, assim, comprometer avanços obtidos a partir da teorização
de Saussure.
Nesse sentido, a linguística da enunciação se coloca como uma alternati-
va de estudar a língua do ponto de vista do sentido, sem abandonar a crença
na língua como ordem própria que precisa ser atualizada pelo sujeito a cada
instância de uso.

Linguística da enunciação
175
Em suas obras, são apontadas várias “intersecções” com a linguística da
enunciação, como a psicanálise, a ergologia, a literatura, entre outras.
Nessas intersecções, quais são as contribuições da linguística da enuncia-
ção que mais têm surpreendido a comunidade científica com que se está
fazendo essas interfaces?
Teixeira & Flores — Hoje o campo das chamadas ciências humanas questio-
na um conjunto de premissas e noções que orientaram, por longo tempo, a
atividade científica, dando lugar a reflexões sobre a ação social e a subjetivi-
dade, intimamente ligadas ao conceito de discurso. É natural, então, que a
linguística da enunciação, por considerar o processo de instituição subjetiva
na linguagem, seja vista como uma área dotada de uma espécie de “vocação”
ao diálogo com outras disciplinas.
Não estamos sozinhos nesse posicionamento.
Em relação a Benveniste, particularmente, há um reconhecimento de
que seus trabalhos no domínio da linguística geral modificaram fundamen-
talmente a paisagem das ciências humanas. Visando uma teoria de conjunto
da linguagem, ele acabou se envolvendo com questões que, a princípio, esta-
riam fora da cogitação de linguistas, questões essas relacionadas a arte, filo-
sofia, sociologia, psicanálise, literatura. Suas proposições dizem respeito às
relações entre a linguagem, a sociedade e a subjetividade e se revelam de uma
espantosa lucidez, embora só recentemente comecem a ser consideradas em
toda sua relevância.
Gérard Dessons, professor de língua e literatura francesa, considera que
Benveniste “faz pensar” com as palavras da linguagem ordinária; ele escreve
um livro2 para mostrar que, por introduzir a noção de enunciação na lin-
guística de seu tempo, Benveniste desempenhou um papel fundamental na
“invenção” desse grande conceito do campo da linguagem, o discurso. O pos-
tulado benvenistiano “a enunciação instala o universo do discurso” tem gran-
de força heurística, abrindo a via à tomada em consideração da “atividade de
linguagem” no conjunto das ciências humanas e sociais. A obra de Dessons
é dedicada ao estudo dos modos pelos quais essa “invenção do discurso” se
opera no trabalho de Benveniste.
Ainda no universo da França, o filósofo Dany-Robert Dufour, em Os mis-
térios da trindade3, utiliza a teoria dos pronomes de Benveniste para lançar
uma nova luz sobre a história da cultura, a partir da reintrodução da forma

2
G. Dessons(2006). Émile Benveniste, l’invention du discours. Paris: Éditions In Press.
3
D.-R. Dufour (2000). Os mistérios da trindade. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

176 Marlene Teixeira e Valdir Flores


trinitária no debate das regiões constitutivas do saber (Escritura, teologia,
antropologia, linguística, psicanálise, literatura, música, filosofia, medici-
na…). Na leitura de Dufour, Benveniste foi um dos raros a empreender uma
descrição sistemática desse dispositivo intralinguístico singular pelo qual a
língua é posta em ato: eu diz a tu histórias que obtém d’ele. Dufour destaca a
posição ímpar de Benveniste entre as exigências filosófica e linguística, num
texto que “não cede às banalidades filosóficas, como também não se perde
nas derivas linguísticas hipertecnicistas, tão cômodas para recalcar o lado ao
mesmo tempo trivial e pungente da tomada dos corpos na língua”4.
Opinião semelhante tem Claudine Normand5, para quem a teoria de
Benveniste associa a reflexão epistemológica ao detalhe das análises empíri-
cas; e à medida que se toma contato com esse autor, torna-se cada vez mais
claro que, além do linguista, profundamente identificado com o saussurianis-
mo, ocupado com descrições minuciosas de natureza morfossintática, pode-
-se encontrar um pensador cujos textos contêm reflexões epistemológicas de
grande amplitude para quem quer que se interesse pela relação entre lingua-
gem e subjetividade.
Como prova do caráter multiforme do pensamento de Benveniste, po-
demos destacar ainda o fato de ele ter sido chamado a falar para públicos
diferentes, o que lhe rendeu a publicação de artigos em revistas dos campos
da psicologia, antropologia, psicanálise, sociologia, filosofia, linguística.
O potencial teórico-metodológico da teoria de Benveniste, que ele pró-
prio não teve a oportunidade de avaliar, está longe de ser esgotado. Apenas a
título de ilustração, sem preocupação com a exaustividade, fazemos, a seguir,
uma breve referência a algumas tentativas de intersecções, sob o viés benve-
nistiano, que estão sendo realizadas entre nós.
Começamos pela referência a um conjunto de pesquisas desenvolvidas
na UFRGS, por alunos de mestrado e doutorado, das áreas de linguística, fo-
noaudiologia e psicanálise, destinadas a investigar a fala com desvios em con-
textos clínicos. Essa perspectiva de estudos parte de um a priori geral, qual
seja: se a linguística da enunciação, em especial a vertente benvenistiana,
supõe que a organização do sistema linguístico se realiza de forma singular
na e pela enunciação — única e irrepetível —, então essa concepção de lín-
gua parece ser relevante para abordar aquilo que “não vai bem” na fala, uma
vez que os distúrbios de linguagem têm particularidades muito específicas e

4
Idem, ibidem, p. 70.
5
C. Normand (1996). Os termos da enunciação em Benveniste. In: S. L. Oliveira; E. M. Parlato; S. Rabello
(orgs.). O falar da linguagem. São Paulo: Lovise, p 127-152.

Linguística da enunciação
177
muito próprias a cada locutor. Em outras palavras, uma vez admitido que a
fala desviante tem aspectos singulares, a noção de língua implicada em um
estudo que os contemple deve considerar suas singularidades.
A contribuição que essa visada teórica traz ao campo da clínica é permi-
tir a passagem de uma perspectiva que contempla o distúrbio da linguagem
“em si” para uma perspectiva que o contempla relativamente ao locutor. As-
sim, embora se utilizem classificações gerais como “a” gagueira”, “a” afasia,
“o” desvio fonológico, uma visão enunciativa da linguagem estabelece que há
marcas próprias em cada fala, que a particularizam.
Ainda no âmbito da UFRGS, há que se destacar a contribuição aos estu-
dos em aquisição da linguagem trazida pelo trabalho inovador de Carmem
Luci da Costa Silva, publicado em 2009, sob o título A criança na linguagem:
enunciação e aquisição, que enfrenta o desafio de trazer um olhar enunciativo
para a fala da criança. A autora constrói, com base em Benveniste, “um apara-
to enunciativo para contemplar a relação da criança com a linguagem como
ato singular de sua instauração na língua-discurso”6, o que representa uma
maneira diferenciada de analisar os dados de fala da criança. O diálogo entre
as áreas da aquisição e da enunciação permite constituir um novo saber para
os dois campos, uma vez que não se trata simplesmente de uma aplicação da
teoria de Benveniste aos dados da criança, mas da formulação de princípios
para uma teoria enunciativa em aquisição da linguagem que fundamentem a
análise da fala da criança.
Na UNISINOS, o Grupo de Estudos Enunciação em Perspectiva (GEEP)
tem por meta desenvolver, com base na linguística da enunciação, modos de
análise da linguagem no campo aplicado. Particularmente, vem desenvolven-
do pesquisas que colocam a teoria enunciativa de Benveniste em contato com
a perspectiva ergológica de estudo da atividade de trabalho proposta pelo fi-
lósofo francês Yves Schwartz. O ponto em que os dois autores convergem diz
respeito ao entendimento de que, embora as ações humanas sejam pautadas
pela repetibilidade, o sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares, promo-
vendo uma tensão/negociação entre o que está instituído e o que é da ordem
do irrepetível. As produções do GEEP têm ilustrado que o estudo da enun-
ciação pelo paradigma benvenistiano constitui uma via possível de acesso à
singularidade que, segundo Schwartz, é inerente à atividade de trabalho.
No que diz respeito à teoria de Oswald Ducrot, o Centro de Estudos do
Discurso da PUC/RS tem realizado estudos que priorizam a análise do sen-
6
Carmem Luci da Costa Silva (2009). A criança na linguagem: enunciação e aquisição. Campinas: Pontes,
p. 286.

178 Marlene Teixeira e Valdir Flores


tido na linguagem em uso — sem, contudo, desvincular o sentido da forma
— a partir do pressuposto de que a linguagem é essencialmente argumen-
tativa. Ao tomarem o enunciado no conjunto do texto, esses estudos têm
trazido discussões produtivas, principalmente para a construção de meto-
dologias de aplicação de conceitos da teoria da argumentação na língua no
âmbito do discurso.
Reiteramos que os destaques aqui feitos nem de longe dão conta das pos-
sibilidades de intersecções da linguística da enunciação com outras áreas,
mas apenas objetivam ilustrar a natureza da contribuição que esses estudos
podem oferecer. Evidentemente, pecamos pela omissão e pela parcialidade.
Antes de encerrar essas observações, é necessário referir a controverti-
da relação das teorias da enunciação com a psicanálise.
Deve-se a Authier-Revuz a abertura de uma possibilidade fecunda de in-
tervenção de um campo de saber em outro, exemplar para que se entenda
o modo de interlocução da linguística da enunciação com outras áreas, que
não busque promover a completude do campo nem a perda da identidade do
objeto teórico próprio à linguística.
Na proposta da autora, o olhar da psicanálise incide sobre a economia
enunciativa dos modos pelos quais a língua realiza a configuração complexa
do dizer de um elemento que comporta o desdobramento de sua autorrepre-
sentação (a modalização autonímica). É importante destacar que o recurso à
psicanálise aí feito implica o reconhecimento da intervenção do inconsciente
na constituição do sentido, mas não autoriza qualquer tentativa de “acessá-
-lo”. Se o psicanalista realiza cortes no discurso em análise para promover a
emergência de um sujeito desejante, é porque na psicanálise a tarefa inter-
pretativa se dá em uma cena enunciativa particular: a da transferência. Isso
não está facultado ao linguista.
Desse modo, não se trata, para o linguista que toma a psicanálise como
exterioridade teórica, de entender as marcas como tendo a propriedade de
atribuir ao outro um lugar linguisticamente descritível, claramente delimita-
do no discurso, mas como formas linguísticas através das quais o enunciador
representa a heterogeneidade que o constitui. Essa representação não pode
ser tomada como uma evidência, como se, via linguagem, a falta pudesse ser
mostrada. O estatuto do representado só pode ser compreendido na articula-
ção necessária com o que, na enunciação, escapa radicalmente ao enunciador.
Nessa perspectiva, a marca é sempre uma dobra sobre o mesmo: ela aponta
para o caráter heterogêneo do processo enunciativo e, simultaneamente, pro-
cura preservar o fantasma da homogeneidade desse processo.

Linguística da enunciação
179
O leitor poderia perguntar: se o saber da psicanálise não incide sobre o
conteúdo, em que lugar ele produz seu efeito? O que significa trabalhar no
campo da linguística a partir da hipótese do inconsciente?
O linguista afetado pelo saber da psicanálise torna-se sensível à escu-
ta dos “restos” de sentido oriundos de determinada forma linguística, em-
pregada de um jeito estranho ou inesperado. Ele necessariamente se depara
com o incontornável do não sistemático, uma vez que a linguagem, a partir
da consideração do inconsciente, não pode mais ser dita como referindo o
mundo. Entre as palavras e as coisas, existe uma intermediação importante:
um sujeito “capaz de desejo e não simetrizável”, para usar uma expressão de
Milner. Sua escuta é já um momento de análise.
Finalmente, gostaríamos de chamar a atenção para uma recomendação
importante feita por Authier-Revuz (1995) a respeito dos diálogos interdis-
ciplinares. Trata-se do alerta feito por ela para o fato de que o movimento
de abertura do objeto língua para outra coisa além do estrito sistema da lín-
gua, corre o risco de promover o apagamento da especificidade desse objeto
como ordem própria, em proveito de aspectos psicológicos, sociológicos ou
biológicos.
Atentos a essa recomendação, consideramos que o linguista não tem de
adicionar outra dimensão ao que se estabeleceu como seu saber, isto é, que
ele não precisa agregar conhecimentos, seja sobre a clínica, seja sobre o so-
cial, aos que tem sobre fonologia, sintaxe e semântica. Isso não significa que
deva manter-se fiel à tradição imanentista, que o levou, por tanto tempo, a
preservar seus achados no próprio território, sem conseguir colocá-los em
circulação.
Nesse sentido, temos defendido que diferentes campos teóricos, ao se
encontrarem, não estariam “explicando” uns aos outros, mas produzindo
questões e compartilhando entre si suas próprias interrogações. Trata-se de
pensar na afetação de um discurso por outro, configurando o avanço teórico
de um campo em função de sua exposição ao saber do outro.

180 Marlene Teixeira e Valdir Flores


Linguística de corpus 7
Tony Berber Sardinha

Com o que se preocupa atualmente a linguística de corpus?


Beber Sardinha — A linguística de corpus se ocupa de quase todas as áreas de
investigação linguística. O léxico é a que mais recebe a atenção dos linguistas
de corpus e é a que mais se projeta para o mundo, basta ver os dicionários
de inglês atuais, produzidos com base em corpus. Além do léxico, o estudo
da gramática começa a se tornar baseado em corpus. A gramática da editora
Longman de 1999, sob direção de Douglas Biber, é uma delas. Outras são as
do COBUILD, tanto a ‘geral’ do inglês quanto as específicas (verbos, adjetivos e
substantivos), de autoria de Susan Huston e Gill Francis. Ainda podemos citar
a sintaxe, a morfologia e a fonologia como áreas que possuem extensa partici-
pação de pesquisas baseadas em corpora. Afora essas áreas ‘tradicionais’ da
linguística, há outras mais novas, como os tradução, de um lado, e metáfora,
de outro. Esses dois são mais recentes. O ensino de línguas estrangeiras como
corpus também é relativamente recente, embora já venha há mais tempo do
que tradução ou metáfora.

Quais foram os primeiros estudos baseados em corpora linguísticos de


que se tem conhecimento? E quais foram os primeiros estudos baseados
em corpora eletrônicos?
Beber Sardinha — Talvez sejam os relativos à Bíblia. Aqui me refiro às com-
pilações de citações dos livros sagrados, compilados por monges, provavel-
mente na Idade Média. Não sei se podemos chamá-los de estudos, tal como
entendemos essa palavra hoje, mas são certamente concordâncias extraídas
de um grande corpus. Essa compilação de citações ainda hoje é comum, in-
clusive como auxílio a pastores e pregadores, que precisam encontrar rapida-

7
Entrevista publicada em agosto de 2004.

Linguística de corpus
181
mente as partes das Escrituras que desejam. É interessante tentar entender
por que se fazia e se faz esse tipo de trabalho. A razão é bem simples: não se
pode ‘inventar’ ou adaptar a palavra de Deus. Ela devia ser transcrita tal qual
aparecia no texto original. Não se cogitava alguém ter ‘intuição’ da palavra
de Deus. Talvez os que a tivessem fossem tidos como profetas ou santos, não
seres humanos quaisquer. Já com a palavra do homem, a situação foi bem
diferente, como nos mostra a história dos estudos linguísticos.

Que tipos de aplicativos podem resultar a partir de pesquisas baseadas em


estudos de corpora eletrônicos?
Beber Sardinha — Há muitos. No âmbito dos grupos de pesquisa, praticamen-
te não há limite. Aliás, nem podemos conhecer todos os que existem, porque
há incontáveis grupos de pesquisa que utilizam corpora, e os programas que
esses grupos criam são particulares e de acesso restrito. Na esfera do que
poderíamos chamar de ‘consumidor final’, ou seja, aqueles programas a que
podemos ter acesso, podemos destacar alguns, como corretores ortográficos,
resumidores, sintetizadores de voz, tradutores e digitadores (Via Voice, por
exemplo). Todos esses programas hoje estão disponíveis para o usuário final
de um sistema operacional como Windows ou Mac. Isso tudo sem falar nos
programas para manuseamento de corpora, como concordanciadores, extra-
tores de frequência e etiquetadores.

Como o senhor avalia a linguística de corpus no Brasil? Já possuímos


grandes recursos para trabalhar com corpora em língua portuguesa?
Beber Sardinha — Ela está se desenvolvendo bastante rápido nos últimos
anos. Já contamos com muitos recursos para a pesquisa, a começar por cor-
pora eletrônicos disponíveis à comunidade em geral. O Banco de Português
tem parte de seu acervo na Web. O Lácio Web já se encontra na Web e ten-
de a crescer. O Tycho-Brahe, de português histórico, também está na Web
há muitos anos. Fora do Brasil, a Linguateca já disponibiliza vários corpora
em português, inclusive o do NILC, de português brasileiro, há certo tempo.
Temos software para a análise de corpus em português, como etiquetadores.
Temos também literatura sobre corpora em português, artigos, dissertações,
um livro, muitas apresentações nos mais variados encontros científicos rela-
cionados à linguagem, como os Encontros de Corpora (www.nilc.icmc.usp.br/
iiiencontro), o GEL (www.gel.org.br), o InPLA (lael.pucsp.br/inpla), o CIATI

182 Tony Berber Sardinha


(www.unibero.br), o CBLA (lael.pucsp.br/cbla), entre outros. Há também vá-
rios grupos de pesquisa cadastrados no CNPq que utilizam corpora. Contudo,
a literatura sobre corpora é quase toda em inglês; embora muitos saibam ler
nessa língua, ainda assim acho necessário termos um diálogo em português
sobre corpus. Só assim podemos nos apropriar de fato da linguística de cor-
pus e dizer que temos uma linguística de corpus brasileira. Não quero dizer,
claro, que não devamos produzir em inglês, ir a congressos fora do Brasil etc.
Muito pelo contrário. O que eu quero enfatizar é que a literatura e os discur-
sos compartilhados em português são o alicerce para criarmos uma discipli-
na e uma comunidade no país. Mesmo com todo esse desenvolvimento, ainda
precisamos de várias coisas, que virão a seu tempo. Por exemplo, estamos
caminhando para termos, a certa altura, um Corpus Nacional de Português
Brasileiro, talvez nos moldes do British National Corpus. Esse é um projeto
de grande envergadura, que precisaria de muito investimento e de parceiros
comerciais, além do financiamento público. Outro elemento que precisamos
é de ferramentas simples para o usuário iniciante. Digo isso por experiência
própria, lecionando e orientando dissertações. Não podemos nos esquecer
que boa parte de nosso público é de alunos de cursos de Letras, de Tradução,
por exemplo, que possuem conhecimento básico de informática. Programas
que exijam conhecimento de programação, com instruções via linhas de co-
mando, por exemplo, são inviáveis para esses alunos. Não quero dizer que não
devamos ter programas assim, claro que não, até porque alunos ‘computeiros’
não se intimidam com linhas de comando e coisas assim. Mas não podemos
nos esquecer de nossos alunos sem grande conhecimento de informática e
de como podemos fornecer meios para incluí-los nas pesquisas com corpora.

Como especialista na área, que livros o senhor poderia indicar para aque-
les que estão começando seus trabalhos com corpora linguísticos?
Beber Sardinha — Já que você levantou a bola… ;-) não poderia deixar de men-
cionar o meu Linguística de corpus. Outro livro, A língua portuguesa no compu-
tador, é uma coletânea organizada por mim sobre linguística de corpus, PLN
e áreas afins, publicada em 2005.
Em inglês, temos várias ótimas introduções à linguística de corpus (McE-
nery e Wilson, Biber et al.; Kennedy; Hunston). Para quem quer ter uma visão
ampla e histórica da linguística de corpus, recomendo a antologia Corpus Lin-
guistics: Readings in a Widening Discipline, organizado por Geoffrey Sampson
e Diana McCarthy. Para o futuro, deixo a recomendação de Corpus Linguistics

Linguística de corpus
183
— Critical Readings a ser organizado por Wolfgang Teubert. Para o pessoal
mais voltado à PLN, creio que Foundations of Statistical Natural Language Pro-
cessing, de Manning e Schutze, seja leitura obrigatória, além de possivelmen-
te ‘Probabilistic Linguistics’, de Bod, Hay e Jannedy.
Mas além dos livros (que são caros!), lembro que muitas revistas publi-
cam artigos sobre corpora e podem ser acessadas pela internet sem preci-
sar pagar pela aquisição dos artigos. O Portal de Periódicos da CAPES é um
recurso extraordinário (www.periodicos.capes.gov.br) e traz muitas revistas
com trabalhos sobre corpus. Dá certo trabalho ‘pescar’ os artigos, porque o
portal não permite busca direta, de entrada, por título ou assunto do artigo,
mas apenas do periódico. Mas uma vez encontrado o periódico ou editora,
fica fácil baixar muitos artigos preciosos sobre corpora. Lembro que o Portal
CAPES só permite baixar artigos se for acessado de dentro de uma universi-
dade conveniada. Acessar diretamente de casa não funciona — você apenas
vê o título e o resumo, mas não o artigo inteiro. A SciELO (www.scielo.br), ou-
tro recurso público financiado pela FAPESP, dispõe a revista D.E.L.T.A. online,
também de graça, onde é possível encontrar vários artigos sobre linguística
de corpus. Para o pessoal mais computacional, indico o site da ACL (Associa-
tion for Computational Linguistics) que traz o ACL Anthology, com artigos
sobre linguística computacional, também de graça, em http://acl.ldc.upenn.
edu; é um verdadeiro tesouro de artigos atuais e antigos sobre computação,
muitos dos quais sobre corpora. Outro site na mesma linha é o http://xxx.lanl.
gov/cmp-lg/, com milhares de artigos.

184 Tony Berber Sardinha


Linguística forense1
John Gibbons

A linguística forense é uma área relativamente nova no campo do estudo


da linguagem. Aqui no Brasil, ainda é muito pouco conhecida. Você poderia
nos contar onde e como a linguística forense começou?
Gibbons — Como avisei anteriormente, estou viajando, e não tenho acesso aos
meus livros e bibliotecas, somente a internet, então estou trabalhando prati-
camente apenas com a memória (uma má ideia, na minha idade). Peço des-
culpas de antemão se não me for possível prover-lhes referências ou fontes
apuradas. (Nota: Uso o termo ‘linguística forense’ para referir a toda área da
interface entre a linguagem e a lei, não apenas às evidências comunicativas.)
Houve muitos estudiosos que trabalharam na linguagem da lei, incluindo
algum trabalho notável no século XIX. Linguistas evidenciaram em corte em me-
ados do século XX, em especial Jan Svartvik. No entanto, o surgimento da linguís-
tica forense como um campo organizado aconteceu no final de 1980 e início de
1990 mais ou menos ao mesmo tempo, na Europa e nos EUA (especialmente nas
conferências sobre direito e sociedade). Nos EUA, isso se tornou disponível pu-
blicamente, a princípio, em Levi e Walker (1990). Um relato do desenvolvimento
na Europa, incluindo a primeira conferência em linguística forense e a fundação
da Associação Internacional de Linguística Forense, pode ser encontrado no se-
guinte endereço eletrônico: http://lss-iafl-01.aston.ac.uk/confs.htm.

Quais foram as principais áreas da linguística que serviram como base


para a linguística forense?
Gibbons — Sou da sociolinguística aplicada, então sempre tive uma aborda-
gem eclética — o que funciona é bom, o que não funciona é ruim. Acredito
que noções de quase todas as áreas da linguística têm sido usadas em algum
momento.

1
Entrevista publicada em agosto de 2014, originalmente em inglês. Trad.: Paloma Petry.

Linguística forense
185
Quais são as diferenças entre o trabalho de campo e o trabalho acadêmico
(na universidade), quando se trata de linguística forense?
Gibbons — Sou um dinossauro nessa questão. Muito do trabalho atual é im-
pulsionado pela teoria, e baseado em livros e discussões filosóficas. Só estou
interessado se as descobertas e teorias surgem de dados e prática.
A meu ver, a sequência dos eventos é:
uma questão ou problema surge (campo);
é feita uma tentativa de enquadrar e analisar a questão (acadêmico);
alguns meios de abordar a questão são desenvolvidos (acadêmico);
os meios de abordar a questão são testados e implementados (campo);
esse tratamento é avaliado (acadêmico);
e quaisquer novas questões e problemas começam o ciclo novamente.
Portanto, há uma constante interação entre o campo e a academia.

Quais são os países líderes na pesquisa em linguística forense atualmente?


Gibbons — A linguística forense é, atualmente, um fenômeno global, com tra-
balhos de alta qualidade sendo feitos na China, por exemplo. Mas este campo
se originou principalmente na anglosfera e na Europa.

Você poderia sugerir algumas leituras essenciais sobre linguística forense


para os nossos leitores?
Gibbons — Lamento não poder responder isso adequadamente sem acesso aos
meus livros e a uma biblioteca. Posso listar alguns livros de memória:
Coulthard, M.; Johnson, A. (2010). The Routledge Handbook of Forensic Linguistics. New York:
Routledge.
Eades, D. (2008). Courtroom Talk and Neocolonial Control. Berlin: Mouton de Gruyter.
______ (2010). Sociolinguistics and Legal Process. Bristol: Multilingual Matters.
Gibbons, J. (2003). Forensic Linguistics: An Introduction to Language in the Justice System. Oxford:
Blackwell.
Heffer, C., Rock, F., & Conley, J. (2013) Lay-Legal Communication: Textual Travels in the Law.
Oxford: Oxford University Press.
Tiersma, P. (1999) Legal Language. Chicago: The University of Chicago Press.

Referência
Levi, J. N. and Walker, A. G. (orgs.) (1990). Language in the Judicial Process. Springer: New York.

186 John Gibbons


Linguística forense1
Malcolm Coulthard

Podemos dizer que a linguística forense ainda não é uma área muito co-
nhecida nos estudos da linguagem. O senhor poderia nos contar qual é o
objeto dela?
Coulthard — A linguística forense é a área da linguística aplicada envolvida
com a inter-relação entre linguagem e direito. Ela pode ser utilmente subdi-
vidida em três subáreas: a linguagem escrita do direito, a interação em con-
textos legais e a linguagem como evidência. Vejo a linguística forense como
uma ramificação da análise crítica do discurso, logo, os linguistas forenses
não apenas descrevem, eles também tentam mudar/melhorar o mundo.
Portanto, na área da linguagem escrita do direito, um dos tópicos que
nos interessam na comunidade falante do inglês é o movimento da linguagem
acessível. No Brasil, sente-se a necessidade de um movimento do português
acessível para driblar os extremos do juridiquês.
Na área de interação em contextos legais, interessam-nos os direitos re-
lacionados à linguagem de falantes não nativos e os problemas de como lidar
em delegacias e tribunais com testemunhas vulneráveis: crianças, vítimas de
estupro, os intelectualmente desafiados e os idosos.

No estudo da linguística, lidamos com o conceito de “fenômeno linguístico”.


Como é possível transformar o fenômeno linguístico em evidência?
Coulthard — Há muitas áreas em que os linguistas podem atuar como pe-
ritos. Uma que me agrada muito é a questão da autoria. Trabalhei, nos anos
1980 e 1990, no Reino Unido, com vários casos em que a polícia havia falsifi-
cado confissões e foi necessário ir ao tribunal para demonstrar condenações

1
Entrevista publicada em agosto de 2014, originalmente em inglês. Trad.: João Gabriel Rodrigues Mar-
ques Padilha.

Linguística forense
187
errôneas com base em uma análise detalhada de traços lexicais e gramaticais
nos textos. Esse trabalho prático no tribunal também melhora a teoria e a
descrição linguística, então, por exemplo, agora nós temos uma ideia muito
mais clara da singularidade linguística do indivíduo e de que nós precisamos
achar uma sequência compartilhada de palavras minimamente idênticas para
ter certeza de que um texto foi copiado de outro. No momento, um de meus
alunos de doutorado está trabalhando na questão do plágio em universidades
brasileiras, em como nós podemos detectar o plágio dentro da universidade e
o que podemos fazer para reduzir sua incidência.

O senhor poderia nos dar alguns exemplos de diferentes tipos de “mate-


riais linguísticos” que podem ser usados por um linguista forense em uma
atividade de campo?
Coulthard — Uma área que interessa a muitas pessoas é a das marcas regis-
tradas — como alguém pode alegar e defender a propriedade de porções de
linguagem. Um caso brasileiro interessante foi quando a marca de uísque Jo-
hnny Walker tentou sem sucesso fechar a marca de cachaça brasileira João
Andante alegando roubo por tradução. Outro caso ocorreu nos Estados Uni-
dos, em que o McDonalds conseguiu que um juiz lhe desse o uso exclusivo
do morfema “Mc” quando usado em contextos de alimentação amplamente
relacionados e forçou uma grande cadeia de hotéis a abandonar sua marca
registrada McSleep.

É um grande privilégio para a linguística forense brasileira tê-lo em nosso


país. Como o senhor vê o cenário brasileiro em relação a essa área, tan-
to do ponto de vista acadêmico quanto do ponto de vista do trabalho de
campo?
Coulthard — Estou gostando da tentativa de introduzir uma nova disciplina
no Brasil — considerando que tenho uma longa história, uma vez que trouxe
a análise do discurso e a linguística funcional sistêmica para a UFSC em me-
ados dos anos 1980.
Nos dois anos desde que entrei na UFSC, com a ajuda de um pequeno nú-
mero de colegas e de um número crescente de estudantes de pós-graduação,
muito já foi realizado. A UFSC agora tem uma disciplina chamada Linguagem
e Direito, oferecida anualmente; temos um grupo de trabalho em linguística
forense com mais de uma dúzia de membros; em Recife, durante uma confe-

188 Malcolm Coulthard


rência de linguagem e direito, fundamos a Associação de Linguagem e Direito
(ALIDI); em dezembro de 2013, organizamos a primeira conferência interna-
cional sobre linguagem e direito na UFSC; em breve, lançaremos uma revista
online internacional bilíngue chamada Linguagem e Direito­— para a qual eu
gostaria de aproveitar esta oportunidade no intuito de solicitar submissões;
neste momento, três de nossas doutorandas em linguística forense estão em
outras universidades, com bolsas sanduíche, uma na USP, duas na Universi-
dade de Birmingham, no Reino Unido, onde a linguística forense começou
como disciplina oferecida nos anos 1990.
Nosso interesse atual é construir elos fora da universidade com profis-
sionais do direito, oficiais de polícia, advogados e juízes a fim de influenciar
no que acontece nas suas áreas de expertise, da mesma forma que temos feito
em jurisdições que falam inglês. Estamos particularmente interessados em
conhecer como a evidência linguística é registrada e perceber como os méto-
dos atuais podem ser significativamente melhorados se pudermos convencê-
-los de suas fraquezas.

O senhor poderia sugerir algumas leituras essenciais em linguística foren-


se para nossos leitores?
Coulthard — Estes são os melhores lugares para começar a ler:
COLARES, V. (2010). Linguagem e direito. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris downloadable
from the internet.
COULTHARD, M.; JOHNSON, A. (2007). An Introduction to Forensic Linguistics: Language in Evi-
dence. London: Routledge.
COULTHARD, M.; JOHNSON, A. (2010). The Routledge Handbook of Forensic Linguistics. London:
Routledge.
TIERSMA, P.; SOLAN, L. (orgs.) (2012). The Oxford Handbook of Language and Law. Oxford: OUP.

Algumas pessoas podem gostar de começar com um vídeo do Youtube de uma


palestra que dei sobre Linguística Forense:
Versão completa: http://www.youtube.com/watch?v=SBrmMAdsR8c
Excerto de 10 minutos: http://www.youtube.com/watch?v=L67UKsZ4RJ4

Linguística forense
189
Linguística textual1
Ingedore Villaça Koch

O que mudou e o que ainda pode mudar no ensino de língua portuguesa a


partir dos estudos de linguística textual?
Koch — A maior mudança foi que se passou a tomar o texto como objeto cen-
tral do ensino, isto é, a priorizar, nas aulas de língua portuguesa, as atividades
de leitura e produção de textos, levando o aluno a refletir sobre o funciona-
mento da língua nas diversas situações de interação verbal, sobre o uso dos
recursos que a língua lhes oferece para a concretização de suas propostas de
sentido, bem como sobre a adequação dos textos a cada situação.
Quanto ao que ainda pode mudar, diria que, em primeiro lugar, tal me-
todologia teria de ser estendida a todas as escolas, públicas e privadas, o que,
evidentemente, ainda está longe de ser uma realidade. Para tanto, todos os
professores teriam de estar preparados para utilizar em aula os conceitos e as
estratégias propagadas pela linguística textual e aplicá-los ao ensino da pro-
dução textual, quer em termos de escrita, quer de leitura, já que esta orien-
tação se conforma ao que postulam os Parâmetros Curriculares Nacionais de
Língua Portuguesa.

Qual a principal contribuição da linguística textual para o professor de


língua materna?
Koch — A principal contribuição é dotar o professor de um instrumental te-
órico e prático adequado para o desenvolvimento da competência textual dos
alunos, o que significa torná-los aptos a interagir socialmente por meio de
textos dos mais variados gêneros, nas mais diversas situações de interação
social. Isto significa, inclusive, uma revitalização do estudo da gramática:
não, é claro, como um fim em si mesma, mas para evidenciar de que modo o

1
Entrevista publicada em agosto de 2003.

190 Ingedore Villaça Koch


trabalho de seleção e combinação dos elementos, dentro das inúmeras pos-
sibilidades que a gramática da língua nos põe à disposição — e que, portan-
to, é preciso conhecer —, nos textos que lemos ou produzimos, constitui um
conjunto de decisões que vão funcionar como instruções ou sinalizações a
orientar a construção do sentido.

Qual o lugar do Brasil nos estudos da linguística textual?


Koch — Atualmente, a linguística textual, que se desenvolveu na Europa, par-
ticularmente na Alemanha, vem ocupando um lugar de destaque no cenário
acadêmico nacional. Esse ramo da linguística, depois de ter sido introduzi-
do na Universidade Federal de Pernambuco e em universidades paulistas
(PUC-SP, UNICAMP, UNESP, USP), ganhou espaço em grande número de
universidades brasileiras, vindo a fazer parte dos currículos de graduação e
pós-graduação, o que deu origem a um número respeitável de publicações na
área, além de uma série de teses e dissertações, que têm contribuído para a
sua divulgação no país e no exterior.

Quais são os limites da linguística textual e quais são suas perspectivas?


Koch — A linguística textual, como toda e qualquer ciência, tem evidente-
mente os seus limites. Sua preocupação maior é o texto, envolvendo, pois,
todas as ações linguísticas, cognitivas e sociais envolvidas em sua organiza-
ção, produção, compreensão e funcionamento no seio social. Tais questões,
contudo, só a interessam na medida em que ajudam a explicar o seu objeto de
estudo — o texto — e não a sociedade, a mente, a história, objetos de outras
ciências afins.
Como defende Antos (1997), os textos, como formas de cognição social, per-
mitem ao homem organizar cognitivamente o mundo. E é em razão dessa capa-
cidade que eles são também excelentes meios de intercomunicação, bem como
de produção, preservação e transmissão do saber. Determinados aspectos de
nossa realidade social só são criados por meio da representação dessa realidade
e só assim adquirem validade e relevância social, de tal modo que os textos não
apenas tornam o conhecimento visível, mas, na realidade, sociocognitivamente
existente. A revolução e evolução do conhecimento necessita e exige, permanen-
temente, formas de representação notoriamente novas e eficientes.
Assim, a linguística textual, baseada nessa concepção de texto, parece
ter-se tornado um entroncamento para o qual convergem muitos caminhos,

Linguística textual
191
mas que é também o ponto de partida de muitos deles, em diversas direções.
Essa metáfora da linguística textual como estação de partida e de passagem
de muitos — inclusive novos — desenvolvimentos abre perspectivas otimis-
tas quanto a seu futuro, como parte integrante não só da ciência da lingua-
gem, mas das demais ciências que têm como sujeito central o ser humano.
É essa a razão por que a ciência, ou linguística, do texto sente necessida-
de de intensificar sempre mais o diálogo que já há muito vem travando com
as demais vivências — e não só as humanas! —, transformando-se numa “ci-
ência integrativa” (Antos; Tietz, 1997). É o caso, por exemplo, do diálogo com a
filosofia da linguagem, a psicologia cognitiva e social, a sociologia interpreta-
tiva, a antropologia, a teoria da comunicação, a literatura, a etnometodologia,
a etnografia da fala e, mais recentemente, com a neurologia, a neuropsicolo-
gia, as ciências da cognição, a ciência da computação e, por fim, com a teoria
da evolução cultural. Torna-se, assim, cada vez mais, um domínio multi- e
transdisciplinar, em que se busca compreender e explicar essa entidade mul-
tifacetada que é o texto — fruto de um processo extremamente complexo de
interação e construção social de conhecimento e de linguagem.

192 Ingedore Villaça Koch


Minimalismo1
Jairo Morais Nunes

A sintaxe gerativa chomskyana já passou pela teoria padrão, teoria esten-


dida, teoria da regência e ligação. Por que Chomsky se refere ao minimalis-
mo como “Programa Minimalista” e não “teoria minimalista”?
Nunes — O Programa Minimalista se propõe a explorar a hipótese de que a
faculdade da linguagem tem domínios regidos por questões de economia e
otimização. Chamar o conjunto de pesquisas com essa preocupação de pro-
grama ressalta o fato de que, mais que a formalização de um conjunto conso-
lidado de conhecimentos, trata-se de uma empreitada científica que requer
esforço interdisciplinar e pode ser ainda muito cedo para que as questões
pertinentes possam ser adequadamente respondidas ou mesmo formuladas,
dados os variados graus de desenvolvimento das disciplinas envolvidas.

O senhor tem participado de perto de debates interessantes sobre o Progra-


ma Minimalista, desde os primeiros desenvolvimentos do minimalismo na
década de 1990. Conte-nos como foi — e como ainda está sendo — mais essa
transição no modelo de sintaxe chomskyana para o Programa Minimalista.
Nunes — Creio que o título de um dos últimos trabalhos do Chomsky, “Beyond
Explanatory Adequacy”, sintetiza bem os novos horizontes que se espera que
o Programa Minimalista explore. A segunda metade do século XX foi marcada
por grandes avanços na descrição das propriedades estruturais das línguas
humanas (a chamada adequação descritiva), bem como pelo desenvolvimento
do modelo de princípios e parâmetros, que formulou uma hipótese sobre o
formato da faculdade da linguagem que pela primeira vez permitiu que o fas-
cinante “problema de Platão” no domínio da linguagem — como as crianças
passam a dominar estruturas linguísticas incrivelmente complexas na ausên-

1
Entrevista publicada em março de 2008.

Minimalismo
193
cia de evidência sobre essa complexidade em sua experiência — pudesse ser
explorado com considerável sucesso (a chamada adequação explanatória). O
passo além que o Programa Minimalista pretende dar é investigar por que a
faculdade de linguagem tem as propriedades que tem e não outras proprieda-
des concebíveis. Evidentemente esse tipo de pergunta só pode ser seriamente
contemplado uma vez que temos à disposição o formidável conjunto de co-
nhecimento sobre a estrutura e aquisição das línguas naturais alcançado na
segunda metade do século passado. Como mencionei antes, pode ser que ain-
da seja muito prematuro para esse tipo de pergunta encontrar hoje alguma
resposta satisfatória. Mas o mero fato de já existir um programa de pesquisa
devotado a essa questão reflete o promissor e instigante estágio em que os
estudos sobre a linguagem humana se encontram.

Historicamente, percebemos que, desde o começo da teoria gerativo-


-transformacional nos anos 1950, o papel das transformações foi sendo
gradativamente reduzido. Hoje há modelos sintáticos formais bastante in-
teressantes (como a hpsg e a lfg), que não lidam com movimento ou trans-
formações. O senhor acredita que a noção de movimento também poderá
ser descartada em futuras versões da teoria gerativa chomskyana?
Nunes — Bem, essa pergunta pressupõe que se separem os fenômenos lin-
guísticos do aparato técnico desenvolvido para dar conta desses fenômenos.
Uma das propriedades centrais das línguas humanas é constituintes sintá-
ticos poderem aparecer numa determinada posição e serem interpretados
como se estivessem ocupando outra posição na sentença. Qualquer modelo
que se quiser adequado terá de capturar esse fato. Alguns modelos fazem isso
postulando uma operação formal, que metaforicamente recebe o nome de
movimento. Gostaria de enfatizar que movimento é um termo metafórico para
descrever determinado passo computacional que nada tem a ver com a no-
ção de movimento empregada em física ou no uso comum. Afinal de contas,
nenhum sintaticista mede a velocidade dos constituintes que se “movem”. A
questão diz respeito à adequação dos vários dispositivos técnicos de que um
modelo lança mão para descrever essa propriedade de “deslocamento” das
línguas naturais. Em geral, grande parte do debate é improdutiva na medida
em que as alternativas, no fundo, não passam de variantes notacionais e fa-
zem as mesmas previsões empíricas. Existem, no entanto, alguns casos em
que modelos derivacionais e modelos representacionais fazem previsões di-
ferentes e o resultado do debate em andamento com certeza será de grande

194 Jairo Morais Nunes


relevância para os estudos da mente humana com um todo. Respondendo,
então, à pergunta:
(i) se movimento for tomado como um termo metafórico para descrever a
chamada propriedade de deslocamento das línguas naturais, minha res-
posta é negativa: a menos que haja alguma mudança genética na espécie
humana, movimento sempre será parte das análises sintáticas, pois não
há língua natural que não envolva movimento;
(ii) se movimento for tomado como o dispositivo técnico empregado em al-
guns modelos sintáticos a partir do trabalho de Chomsky (1973), minha
resposta é positiva. Uma das questões que se têm levantado dentro do
Programa Minimalista diz respeito exatamente ao estatuto teórico da
operação “mover dentro do sistema”. Em meu próprio trabalho, tenho
argumentado que, se a operação complexa “mover” for tomada como re-
sultante da interação das operações básicas “copiar e conectar” (“mer-
ge”), o sistema não só ganha em elegância formal, mas também amplia
seu domínio de cobertura empírica.

Algumas ideias centrais em modelos anteriores da teoria gerativa (como a


estrutura-d, a estrutura-s, a teoria x-barra etc.) estão sendo abandonadas
ou inteiramente revistas. Para dar conta dos fatos linguísticos, outras no-
ções estão sendo introduzidas. O senhor poderia explicar um pouco sobre
as principais inovações do Programa Minimalista em relação à teoria dos
princípios e parâmetros e à teoria da regência e ligação?
Nunes — Uma das linhas mestras de investigação dentro do Programa Mini-
malista é tentar determinar em que medida as propriedades associadas à fa-
culdade da linguagem são de fato propriedades intrínsecas da faculdade de
linguagem ou são reflexo de uma interação otimizada entre a faculdade da
linguagem e outros módulos da mente. Para lidar com essa questão geral, que
retoma a questão da autonomia da sintaxe, todo o aparato conceitual e técnico
desenvolvido anteriormente tem sido submetido a uma meticulosa reanálise.
Por exemplo, uma das principais hipóteses do Programa é que níveis de
representação sintática, se existirem, devem ser conceitualmente motivados
em termos das interfaces da faculdade da linguagem com outros módulos da
mente. Nesse sentido, níveis como Estrutura-d e Estrutura-s se tornam sus-
peitos na medida em que sua motivação é essencialmente interna ao modelo.
Vários trabalhos foram então desenvolvidos para investigar se esses dois ní-
veis poderiam ser eliminados, e os resultados parciais são bastante animado-

Minimalismo
195
res. Dentro dessa reavaliação, surge a questão de como objetos sintáticos são
montados, uma vez que não se dispõe de estrutura-d. A solução foi retomar
a noção de transformação generalizada e desenvolver um modelo em que
constituintes sintáticos complexos (sintagmas) são formados pela operação
conectar (“merge”), que concatena dois objetos sintáticos e identifica o núcleo
do objeto complexo resultante. Essa visão de “montagem” sintática, por sua
vez, permitiu que se derivassem várias propriedades que eram axiomáticas
na teoria x’.
Outra propriedade distintiva das investigações no Programa diz res-
peito à importância reservada à interpretabilidade dos traços manipulados
pela computação sintática. Numa computação totalmente otimizada, seria de
se esperar que todo traço recebesse interpretação na interface. No entanto,
uma das propriedades marcantes das línguas naturais é determinados tra-
ços serem redundantemente especificados sem que contribuam para a inter-
pretação, como as marcas de feminino e plural do adjetivo em meninas altas.
Como nem todo traço recebe interpretação na interface, isso pode sugerir
que a computação sintática em si seja responsável por eliminar traços não
interpretáveis. Essa linha de investigação pôs fenômenos de concordância
como ponto crucial no modelo. Em outras palavras, uma das perguntas sobre
o porquê das coisas que mencionei antes: por que deveria haver concordância
nas línguas naturais?
Finalmente, como último exemplo, uma das hipóteses mais intrigantes
do Programa é que a computação sintática está sujeita a questões de otimi-
zação que tomam certas operações como mais econômicas que outras. Nes-
se domínio de investigação, interessam sentenças que, apesar de julgadas
inaceitáveis, são perfeitas em relação aos seus outputs fonético e semântico,
sugerindo que o problema não está no objeto linguístico resultante, mas no
processo de construção desse objeto.

196 Jairo Morais Nunes


Morfologia1
Margarida Maria de Paula Basílio

Qual é o objeto de estudo da morfologia?


Basílio — Tradicionalmente se define a morfologia como a parte da gramáti-
ca que estuda a palavra do ponto de vista da forma. Entretanto, é necessário
especificar os termos centrais palavra e forma, ambos altamente indetermi-
nados, além de comuns à linguagem técnica e à linguagem cotidiana e cam-
biantes, em diferentes visões do fenômeno linguístico. Se considerarmos, por
exemplo, a gramática clássica, a morfologia se concentra na flexão; o objeto
de estudo seria o paradigma ou esquema de variações de forma da palavra na
expressão de categorias gramaticais. No século XIX, a palavra deixa de ser a
unidade mínima de análise linguística; a comparação de elementos grama-
ticais como suporte a hipóteses de relação genética entre línguas favorece a
adoção de um modelo de descrição que reconhece formativos como raiz e de-
sinência. O estruturalismo herda essa situação de desmembramento da pa-
lavra, sendo, portanto, natural o estabelecimento do morfema como unidade
básica da morfologia. O objeto de estudo da morfologia no estruturalismo é,
portanto, o morfema, e seus padrões de combinação, no modelo ia. Em conse-
quência, a palavra passa a ser menos relevante, ou mesmo questionável como
unidade estrutural, ainda que Bloomfield proponha uma definição de palavra
de crucial relevância na metodologia de análise descritiva. Saussure proble-
matiza o escopo da morfologia de outro ângulo, ao condenar a não inclusão da
lexicologia no âmbito da gramática, juntamente com a morfologia flexional;
por outro lado, considerando como do âmbito da morfologia a determinação
de classes de palavras e formas de flexão, duvida que ela possa constituir uma
disciplina distinta da sintaxe. Saussure explicita, ainda, os aspectos concre-
tos e abstratos da palavra e ressalta as dificuldades de delimitação.

1
Entrevista publicada em março de 2009.

Morfologia
197
Maior reviravolta no tema surge no gerativismo: nada mais radical do
que a total eliminação da morfologia e, portanto, do seu objeto de estudo
enquanto tal, nos primeiros momentos do gerativismo. Mas, mesmo quando
instaurada a possibilidade de um componente morfológico na versão original
da hipótese lexicalista, ainda assim o objeto de estudo da morfologia na teo-
ria gerativa apresentará uma diferença fundamental em relação a abordagens
anteriores, na medida em que esse objeto se desloca da forma externa para
o conhecimento interno, correspondente à capacidade de identificação de
formas lexicais estruturalmente legítimas. O objeto de estudo da morfologia
no gerativismo não é a forma concreta das palavras, mas a representação do
conhecimento lexical, através de regras que, numa primeira fase, represen-
tam relações lexicais e, posteriormente, determinam objetos morfológicos.
Mais recentemente, no enfoque da morfologia distribuída, a morfologia volta
a ser dominada pela sintaxe. O morfema pode ser considerado novamente a
unidade básica, mas a relevância maior é atribuída ao feixe de traços formais
nos quais a inserção de traços fonológicos pode ser tardia. Assim, temos um
retorno à situação do estruturalismo e das primeiras fases do gerativismo,
em que a palavra se torna questionável como unidade básica da morfologia.
Talvez possamos dizer, então, que o objeto de estudo da morfologia tem
oscilado entre duas possibilidades:
(1) a palavra: na gramática clássica, e, portanto, na tradição gramatical, a
morfologia estuda a palavra e seu paradigma de variações de forma, na
expressão de categorias flexionais; no gerativismo lexicalista, o objeto da
morfologia é a palavra enquanto item lexical estruturado por padrões ou
produto de regras de formação de objetos morfológicos.
(2) os elementos constituintes da palavra: no método comparativo, esses
constituintes (raízes, desinências) são concretos; no estruturalismo,
esses elementos (os morfemas) são sobretudo concretos, mas também
abstratos, como meios de expressão de propriedades gramaticais; na
morfologia distribuída, os morfemas são fundamentalmente abstratos,
consistindo sobretudo em feixes de traços formais.

A senhora tem tido uma participação importante nos estudos morfológicos


do português do Brasil. Quais foram os primeiros trabalhos em morfologia
publicados no Brasil que se preocuparam com os dados do português?
Basílio — Esta é uma pergunta delicada, pois o risco de cometer injustiças é
grande, e alguns trabalhos podem ter uma divulgação de caráter mais regio-
nal. Assim, prefiro começar lamentando inevitáveis omissões.

198 Margarida Maria de Paula Basílio


As publicações específicas de morfologia no Brasil são relativamente re-
centes. Claro, publicações de cunho geral que apresentam uma parte dedica-
da à morfologia são muitas e existem há muito tempo; o exemplo mais óbvio
é o das gramáticas tradicionais. Na verdade, a primeira gramática da língua
portuguesa, a Gramática da linguagem portuguesa, de Fernão de Oliveira, tem
uma parte relativamente extensa dedicada à morfologia (há uma edição bra-
sileira, publicada por Olmar Guterres da Silveira em 1954). Nas gramáticas
mais recentes, talvez mereça um destaque especial a Gramática histórica da
língua portuguesa, de M. Said Ali (1964), que apresenta pontos de vista de ex-
trema lucidez sobre diferentes aspectos da formação de palavras na língua
portuguesa.
Passando a obras vinculadas a teorias linguísticas mais recentes, o tra-
balho mais fundamental a ser citado, apesar de não ser dedicado apenas à
morfologia, é o livro Estrutura da língua portuguesa, de Mattoso Camara Jr.,
publicado inicialmente em 1970, em que vários capítulos tratam de questões
morfológicas e da morfologia do português. Esse livro, juntamente com outros
do mesmo autor, como Problemas de linguística descritiva (1969) e Princípios de
linguística geral (1954), que o antecedem, tem um valor intrínseco e um valor
de irradiação. Em outras palavras, existe, por um lado, o valor das proposi-
ções descritivas inéditas e elegantes de Mattoso Camara Jr. para a estrutura
do português. Por outro, a obra do Prof. Mattoso influenciou profundamente
os estudiosos e publicações que se seguiram, assim como a formação de algu-
mas gerações de linguistas e professores de língua portuguesa.
Outras obras que focalizam a morfologia do português neste período in-
cluem A estrutura do verbo no português coloquial, de Eunice Pontes (1972); e
data de 1979 a primeira edição de Princípios de morfologia, de Horácio Rolim
de Freitas. Vemos, pois, um início de preocupações descritivas na morfologia
do português, de inspiração essencialmente estruturalista.
Dentro da perspectiva gerativista, é provável que meu livro Estruturas
lexicais do português — Uma abordagem gerativa (1980) tenha sido o primeiro
a focalizar a morfologia enquanto conhecimento lexical, com uma preocupa-
ção específica: a formação de palavras na língua portuguesa. Ainda em 1986,
surge a primeira edição de Morfologia portuguesa, de José Lemos Monteiro,
inspirada na obra de Mattoso Camara para fazer um abrangente manual de
morfologia centrado nos dados do português. Em 1987, publico Teoria lexical,
no qual a relevância do fator semântico em construções lexicais começa a ser
ressaltada; em 1989, temos a publicação de Formação de palavras no português
contemporâneo, de Antonio José Sandmann, que apresenta pela primeira vez

Morfologia
199
num trabalho de morfologia do português um levantamento de dados coleta-
dos sistematicamente em jornais brasileiros.
A partir dos anos 1990, há um significativo desenvolvimento da área de
morfologia no país, ao qual corresponde uma crescente atividade editorial,
seja em termos de novos volumes, seja em termos de reedições. Paralela-
mente, publicações em periódicos e anais de congressos também crescem
significativamente. Talvez mereçam destaque, nesse período, os vários volu-
mes editados no âmbito do Projeto Gramática do Português Falado contendo
trabalhos do GT de Morfologia, em conexão com o enfoque inédito da morfo-
logia num corpus de língua falada; e várias publicações de livros didáticos de
morfologia e léxico, em que, em diferentes abordagens, dados e questões da
morfologia do português são apresentados e analisados.

Como a senhora vê os estudos morfológicos atualmente no Brasil? Quais


são os principais estudos recentes voltados para o português?
Basílio — Vejo a morfologia no Brasil como uma área em franca expansão, se
tomarmos como ponto de comparação a situação de marginalidade em que
esta disciplina sempre esteve, embora isto não signifique necessariamente
um crescimento proporcional dentro dos estudos linguísticos (por exem-
plo, no VI Congresso Internacional da ABRALIN, em março de 2009, temos
quinze trabalhos inscritos no GT de Morfologia, um número historicamente
significativo para o tema, mas modesto, se comparado com as 33 inscrições
em sintaxe, 45 em semântica, 57 em fonética e fonologia, 51 em linguística
aplicada etc.). Sabemos que, no momento atual, estudos de discurso, texto,
semântica, pragmática e linguística aplicada, de modo geral, apresentam um
apelo maior do que estudos gramaticais, dada a tradição da pesquisa linguís-
tica em departamentos de Letras. Por outro lado, há um desenvolvimento
significativo de estudos do português no enfoque da morfologia distribuída,
o que é interessante, dado que os estudos de flexão sempre foram minori-
tários em relação aos de derivação em abordagens gerativas de fenômenos
morfológicos, em consequência da hipótese lexicalista, mas também pela
forte influência das análises estruturalistas de Camara Jr. na morfologia fle-
xional do português. E é especialmente bem-vindo o interesse crescente que
se observa atualmente pelos dados derivacionais do português nesse enfo-
que, pois o confronto de propostas certamente contribuirá para um apro-
fundamento do nosso conhecimento de estruturas morfológicas e lexicais
da língua portuguesa.

200 Margarida Maria de Paula Basílio


A atual expansão dos estudos morfológicos a que me referi não corres-
ponde diretamente a publicações, embora esse aspecto também possa ser
englobado. O que considero mais importante nesse momento, entretanto, é
a quantidade de projetos sobre morfologia do português sendo propostos e/
ou executados, em diferentes abordagens, em diferentes instituições em todo
o país. Não pretendo singularizar nenhum trabalho ou grupo, mas ressaltar
alguns temas e enfoques. Por exemplo, acredito ser importante, além do de-
senvolvimento de estudos de morfologia distribuída, a tendência recente de
se resgatarem construções que, embora mencionadas, nunca foram realmen-
te levadas em conta em estudos morfológicos, tais como a siglagem e os cru-
zamentos vocabulares, entre outros. Em outra perspectiva, a discussão maior
sobre a questão da (não)delimitação de unidades lexicais continua produzin-
do trabalhos de relevância. Também considero bem-vinda a maior atenção
dada à prefixação, já que trabalhos anteriores de vinculação gerativa se fixa-
ram quase exclusivamente na sufixação, por causa da relevância gramatical
da mudança de classe. É altamente positiva, ainda, a investigação de fenô-
menos morfológicos em análises que utilizam corpora considerados médios
ou grandes, utilizando ferramentas computacionais. Finalmente, começam a
despontar estudos morfológicos de cunho histórico. É de ressaltar também,
noutro ângulo, que, ao contrário das décadas de 1970 e 1980, em que surgiram
livros fundamentais, o que é mais relevante agora é o volume de trabalhos
mais recentes, sobretudo em artigos e teses, muitos dos quais facilmente ac-
cessíveis via internet. Não há dúvida de que estamos vivendo uma fase inte-
ressante e promissora no que tange a estudos morfológicos.

Qual é a importância de trabalhos de interface em morfologia, que levem


em consideração também outras áreas da gramática, como as interfaces
com a sintaxe, com a fonologia ou com a semântica?
Basílio — A importância de trabalhos de interface é óbvia, não apenas em
geral, mas especialmente no âmbito da morfologia, já que a palavra, que tra-
dicionalmente determina o âmbito da morfologia, é naturalmente multifa-
cetada, sendo, portanto, necessário enfocá-la em seus múltiplos aspectos e
conexões. Para citar exemplos concretos, a distinção entre flexão e derivação,
tradicionalmente complexa e controversa, é feita, entre outros critérios, pela
interface morfologia/sintaxe; fatores fonológicos e semânticos interferem
na produtividade de processos de formação de palavras; o fator fonológico é
essencial nos cruzamentos vocabulares; e assim por diante. Por outro lado,

Morfologia
201
todas essas subdivisões são provisórias e apresentam limites imprecisos, o
que deve ser levado em conta e investigado mais de perto. Por exemplo, a
formação de palavras por composição apresenta um problema óbvio para a
distinção estrutura vocabular/estrutura frasal; as locuções e expressões de
diversos tipos desafiam as noções tradicionais de item lexical circunscritas
à morfologia; e, como vimos na primeira pergunta da entrevista, diferentes
abordagens estabelecem diferentes fronteiras e hierarquias, de modo que é
praticamente impossível tratar da questão de modo teoricamente neutro.
Mas o que considero mais relevante em termos de trabalhos de interface,
desviando um pouco a possível filiação teórica da pergunta, são os trabalhos
que focalizam questões morfológicas em áreas como psicolinguística e estu-
dos de afasia, por um lado, e, por outro, os que exploram territórios de ain-
da mais difícil e controversa delimitação, como a semântica e a pragmática,
para não mencionar a questão central da distinção ou não entre morfologia e
sintaxe ou morfologia e léxico ou a conexão (ou não) entre semântica lexical
e conhecimento enciclopédico nos processos de formação de palavras, entre
tantas outras áreas de difícil demarcação.

202 Margarida Maria de Paula Basílio


Morfologia1
Mark Aronoff

Quais foram os principais marcos no estudo da morfologia?


Aronoff — Acredito fortemente na continuidade da linguística. Os trabalhos
que mais influenciaram minhas ideias desde o começo foram os clássicos
do estruturalismo norte-americano: Language, de Bloomfield, Language, de
Sapir, e os trabalhos em morfologia de Harris, Hockett e Nida. Juntamente
com Saussure e Baudouin de Courtenay, esses estudiosos estabeleceram os
problemas fundamentais implicados em qualquer teoria morfológica, e suas
preocupações permanecem relevantes ainda hoje.
Nos últimos cinquenta anos, eu destacaria o livro-texto de Matthews,
Morphology, como sendo o trabalho mais importante. A maioria dos morfolo-
gistas de hoje segue o modelo geral que ele apresentou.

Sua tese de doutorado, Word Formation in Generative Grammar2, ainda


é um trabalho de grande influência. O senhor poderia nos falar um pouco
sobre algumas das ideias centrais desenvolvidas ali que ainda são interes-
santes para os estudos em morfologia do século XXI?
Aronoff — Esse trabalho foi baseado na noção de que a morfologia deveria
ser tratada como um objeto de estudo em si mesma e não apenas como uma
fonte de dados para teorias sobre outros aspectos da linguagem. Ainda acre-
dito nisso. A noção de bloqueio, já muito antiga, mas que meu trabalho trouxe
novamente à tona para os linguistas modernos, também continuou central,
ainda que hoje mais nos estudos de inflexão. O estudo da produtividade se
beneficiou de novos métodos, tanto quantitativos como experimentais. A

1
Entrevista publicada em março de 2009, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.
2
Mark Aronoff (1976). Word Formation in Generative Grammar. Cambridge, Mass.: MIT Press (versão publi-
cada da tese de doutorado de M. Aronoff).

Morfologia
203
melhor evidência de que o livro continua influente é o fato de que ele segue
sendo editado, passados mais de trinta anos.

O senhor tem trabalhado com a morfologia e suas relações com outras su-
báreas da linguística, como a fonologia, a sintaxe, a semântica e a psicolin-
guística. Qual é a importância que o senhor vê no estudo de relações entre
a morfologia e essas outras áreas? Qual a importância desses estudos de
interface para o trabalho em morfologia?
Aronoff — Nos últimos quinze anos, tenho alargado a noção de morfologia
por si mesma, a ideia de que ao menos certos aspectos da morfologia são au-
tônomos. Mas a única maneira de demonstrar autonomia é através da inte-
ração. Uma das características da linguagem como um sistema é a medida
em que os componentes realmente interagem. Essa interação costumava ser
vista mais ou menos como sendo linear, com um componente alimentando
outro (a ordem exata dependia da teoria adotada), mas cada vez mais ela é
vista como algo muito mais complicado do que isso.
Eu sempre fui muito conservador na minha escolha de ferramentas e
métodos, usando análise linguística tradicional, técnicas experimentais,
ferramentas computacionais ou o que fosse. Especialmente graças ao cres-
cimento da internet, existem agora diversos métodos e ferramentas basea-
dos em corpus, disponíveis para qualquer um. Até mesmo uma ferramenta
simples como o Googlefight (www.googlefight.com) pode fornecer resultados
muito interessantes sobre produtividade, que seriam completamente impen-
sáveis alguns anos atrás.
Nos últimos seis anos, passei uma boa parte de meu tempo estudando
línguas de sinais, que forneceram um entendimento completamente dife-
rente sobre morfologia, por causa do efeito visual do meio e da novidade de
muitas línguas de sinais do mundo. Em alguns casos, fomos capazes de docu-
mentar o desenvolvimento da morfologia praticamente em tempo real, o que
é muito emocionante.

Muitos estudos recentes em morfologia e fonologia têm sido desenvolvidos


dentro do quadro da teoria da otimidade (ot). Como o senhor avalia o mo-
delo, especialmente no que concerne à morfologia?
Aronoff — Há alguns anos, meu aluno de doutorado, Zheng Xu, me propôs a
possibilidade de um tratamento em ot da realização da morfologia flexional.

204 Mark Aronoff


A ideia básica era codificar as regras de realização morfológica como restri-
ções em ot, que poderiam ser ordenadas e ranqueadas com outras restrições,
e tratar princípios morfológicos dessa mesma maneira. Ele tocou o projeto
adiante e escreveu sua tese, Inflectional Morphology in Optimality Theory, apli-
cando suas ideias a um número de problemas incríveis em morfologia flexio-
nal. Nós dois escrevemos diversos artigos desenvolvendo os detalhes de sua
análise, que apresentamos em conferências internacionais — alguns textos
serão publicados em breve.
O que fazemos nesse trabalho é aplicar a ot a fenômenos morfológicos
centrais, aqueles que têm relação com a realização morfológica efetiva, in-
cluindo bloqueio (blocking), exponência alargada (extended exponence), expo-
nência múltipla (multiple exponence), ordenação de afixos, escopo e modelos
(templates) morfológicos. A abordagem em ot para a realização morfológica
permite a unificação de fenômenos antes vistos como não relacionados. Ela
também nos permite compreender coisas que antes eram simples exceções
ou enigmas.

Morfologia
205
Morfologia distribuída1
Ana Paula Scher

A morfologia distribuída é um modelo relativamente recente dentro dos es-


tudos de linguística formal. Quando o modelo começou a ser desenvolvido
e de que forma ele “dialoga” com outros modelos correntes em morfologia
(e sintaxe)?
Scher — O modelo da morfologia distribuída, md, de agora em diante, come-
çou a ser desenvolvido a partir do texto seminal de Morris Halle e Alec Ma-
rantz, intitulado Distributed Morphology and the Pieces of Inflection, publicado
em 19932. As principais ideias do modelo, no entanto, já apareciam em Halle
(1973), um texto intitulado Prolegomena to a Theory of Word Formation e publi-
cado pela Linguistic Inquiry. Ora, Matushansky, em sua introdução à coletâ-
nea Distributed Morphology Today: Morphemes for Morris Halle, publicada em
2013, faz a seguinte afirmação:

While many of the particulars of the theory of Distributed Morphology grew


from discussions between Morris and one of us (Marantz) starting around
1990, the seeds of the theory were of course planted in Morris’s thinking, as
summarized in, for example, the Prolegomena (1973), from his International
Congress of Linguists address. In Marantz’s contribution to this book (chap-
ter 6), he identifies as crucial to the birth of DM a dispute over the role in the
grammar of what Morris called “abstract” morphemes, or “Q”s. What emerged
from these discussions was a radically antilexicalist theory that joined two
core assumptions: (1) syntactic approaches to word structure most importan-
tly championed by Shelly Lieber and (2) a rejection of a phonologized set of
morphological pieces stemming from “realizational” theories of morphology
like those of Robert Beard (1995) and Steve Anderson (1992) (Matushansky &
Marantz, 2013: vii).

1
Entrevista publicada em março de 2015.
2
H&M, a partir de agora.

206 Ana Paula Scher


O diálogo com outros modelos correntes em morfologia e sintaxe, por
sua vez, se faz pelo reconhecimento da eficácia de algumas propriedades
pertinentes a esses modelos, e que, combinadas, constituem os preceitos do
modelo da md. É de H&M, por exemplo, a seguinte afirmação:

In this paper, we describe and defend a third theory of morphology, Distribu-


ted Morphology, which combines features of the affixless and the lexicalist al-
ternatives. With Anderson, Beard, and Aronoff, we endorse the separation of
the terminal elements involved in the syntax from the phonological realization
of these elements. With Lieber and the lexicalists, on the other hand, we take
the phonological realization of the terminal elements in the syntax to be go-
verned by lexical (Vocabulary) entries that relate bundles of morphosyntactic
features to bundles of phonological features (H&M: 111).

Mesmo assim, ainda há muito espaço para que novos diálogos se estabe-
leçam e possam, assim, contribuir para que as pesquisas realizadas dentro
desse campo do conhecimento possam chegar cada vez mais perto de seu
objetivo, nomeadamente, a descrição do conhecimento linguístico de um fa-
lante de uma língua natural.

A senhora iniciou sua pesquisa dentro de um modelo lexicalista. Como foi a


passagem de um modelo lexicalista para um modelo não lexicalista, como
a morfologia distribuída? Quais foram as vantagens que a senhora viu
para essa mudança?
Scher — Não foi exatamente traumática, posso dizer. Ao contrário, foi um
momento de muita efervescência acadêmica na minha vida profissional. No
desenvolvimento de minha pesquisa de doutorado, que vinha sendo funda-
mentada por modelos gerativos de análise linguística, percebi que havia lugar
para um modelo de formação de palavras que pudesse dar conta da formação
de nominalizações em que ocorriam o(s) sufixo(s) -ada ou -ida, tais como olha-
da ou subida, no contexto de construções com o verbos leve dar, como dar
uma olhada no nenê ou dar uma subida no telhado.
Era por volta do ano 2000 e, ao cursar a morfologia no IEL-UNICAMP, de-
parei com o texto de H&M. Nele, chamou-me a atenção a proposta de formas
abstratas a serem manipuladas pela sintaxe, gerando morfemas abstratos que
seriam, pós-sintaticamente, preenchidos por material fonológico, por meio
de regras de inserção chamadas de itens de vocabulário. No que diz respeito,

Morfologia distribuída
207
especificamente, ao tratamento das nominalizações, a definição, por Artemis
Alexiadou, em 2001, de critérios por meio dos quais seria possível determinar
sua estrutura funcional veio ao encontro das questões que eu investigava na
época, sobre as leituras de processo e resultado que podiam ser atribuídas às
nominalizações em -ada ou -ida no português brasileiro.
Partindo da ideia presente nos pressupostos da md, de que o léxico re-
duzido contém apenas raízes atômicas e feixes de traços gramaticais, e do
princípio, defendido pelo mesmo modelo, de que categorias lexicais podem
se formar independentemente de operações lexicais, a autora destaca as di-
ferenças de comportamento entre nomes e verbos relacionados e dá conta
dessas diferenças por meio de processos gerais que operam em estruturas
sintáticas específicas e estão vinculados à presença ou ausência de categorias
funcionais, tais como t, a aspect, ou, ainda, v.
Por outro lado, tratando particularmente das diferenças de compor-
tamento observadas entre nominais de processo e de resultado, Alexiadou
assume que tais distinções devem ser explicitadas pela estrutura sintática
proposta para cada um desses tipos de nominais. A autora sugere que, di-
ferentemente das nominalizações de resultado, as de processo incluem em
sua estrutura interna tanto projeções nominais, quanto verbais, tais como
voice/v e aspect, associados à expressão da eventividade.
A presença dessas camadas funcionais se justifica por evidências trazi-
das do grego e, também, por dois fatores:
(a) apenas algumas classes de advérbios podem co-ocorrer com nominais
de processo;
(b) há reflexos morfológicos da presença das categorias voice e aspect em
muitas línguas.
Para Alexiadou, essas nominalizações realmente têm propriedades ver-
bais que justificam a presença dessas categorias. A possibilidade de ocorrên-
cia de um advérbio no domínio da nominalização, por exemplo, não é apenas
resultado de uma compatibilidade semântica entre um evento e um advérbio
que o modifica. É um fato sintático que determina o tipo de elemento que
pode ocorrer nas diferentes posições da estrutura sintática e, nesse sentido,
a distribuição dos advérbios é crucial para a definição da configuração sintá-
tica das expressões linguísticas em que aparecem.
Os dados que eu investigava corroboravam essas afirmações. A diferença
entre as leituras possíveis para as nominalizações em -ada ou -ida do PB — de
processo e de resultado — não podia, a meu ver, decorrer do fato de essas no-
minalizações poderem (ou não) determinar uma estrutura argumental, como

208 Ana Paula Scher


sugere Grimshaw (1990)3. Cada vez mais, as leituras que eu fazia de textos
de md, ou relacionados a esse modelo, convenciam-me de que essa diferença
poderia ser atribuída à configuração sintática em que são inseridas as raízes
que formam essas nominalizações. No caso específico das nominalizações
formadas com o(s) sufixo(s) -ada ou -ida, participantes de construções com
o verbo leve dar, somente as nominalizações denotadoras de eventualidades
que não contêm os traços de estaticidade e telicidade intrínseca, e que, por-
tanto, admitem uma leitura de processo (não estática), podem apresentar, em
sua configuração sintática, um conjunto de categorias funcionais, geralmente
associadas a sintagmas verbais e que resultam nessa leitura. Isso quer dizer:
as propriedades das eventualidades denotadas pelas nominalizações em -ada
ou -ida resultam dos nós funcionais presentes na estrutura interna dessas
nominalizações.
A partir daí, o foco da minha pesquisa mudou, e considero que foi van-
tajosa a opção por um modelo não lexicalista. Não apenas porque foi possí-
vel, no meu doutorado, dar uma explicação satisfatória e interessante para
as leituras distintas das nominalizações formadas pelo(s) sufixo(s) -a(i)da no
contexto das construções com o verbo leve dar no português brasileiro, mas,
e principalmente, porque, a partir daí, tive oportunidade de rediscutir uma
série de fenômenos para os quais se ofereciam tratamentos lexicalistas —
tanto na minha própria pesquisa, quanto na pesquisa de meus orientandos e
de outros colegas que fazem ou fizeram parte do GREMD4. Esse novo olhar
tem nos revelado muitas propriedades das línguas naturais que não nos cha-
mavam a atenção em modelos anteriores.

Seus últimos trabalhos têm discutido um dos chamados processos não con-
catenativos no português brasileiro. Sendo a morfologia distribuída uma
teoria derivacional, processos como truncamento e blending representam
desafios para a teoria?
Scher — Certamente representam um grande desafio! Estamos nos prepa-
rando para enfrentá-lo. Entre os exemplos que você traz em sua pergunta,
tenho discutido, mais particularmente, as formas que venho chamando de
truncadas, por não acreditar que exista, de fato, um processo de truncamento

3
Jane Grimshaw (1990). Argument Structure. Cambridge, Mass.: MIT Press.
4
O GREMD é o Grupo de Estudos em Morfologia Distribuída da USP (http://gremd.fflch.usp.br/), que
completou dez anos em 2014, e que, desde sua formação, vem se constituindo num polo importante de
discussão sobre fenômenos morfológicos no Brasil.

Morfologia distribuída
209
gerando tais formas. Os casos de blending vêm sendo tratados, dentro da md,
por outros membros do GREMD. Há o trabalho de Rafael Minussi e Vitor Nó-
brega, além da pesquisa de iniciação científica realizada por Angelly A. Mar-
ques de Gouveia.
Mas sua pergunta nos leva a uma reflexão sobre a natureza de modelos
para a análise de fatos linguísticos: derivacionais e representacionais. Mode-
los derivacionais ou localistas, por um lado, e modelos representacionais ou
globalistas, por outro, foram discutidos de forma extremamente interessante
por David (2010). Sem me deter aqui no detalhamento da distinção existente
entre esses modelos, chamo a atenção para apenas uma das terminologias
usadas pelo autor para indicar a distinção entre eles: serialist models e paral-
lelist models. Nos primeiros, as expressões linguísticas são geradas a partir de
uma série de pequenas mudanças locais, enquanto nos últimos, as expressões
linguísticas são definidas a partir da comparação entre as diversas formas de
output possíveis para uma única forma de input. Trata-se de um mecanismo
representacional que, a partir de um sistema de classificação, determina o
vencedor dessa comparação, ou seja, a melhor forma de output correspon-
dente a determinada forma de input.
De modo geral, modelos localistas ou derivacionais têm se ocupado de
processos concatenativos de formação de palavras, ou seja, daqueles em que
a concatenação de partes menores leva a formação de uma unidade maior
(afixação e composição, por exemplo). Modelos globalistas ou representacio-
nais, por sua vez, se voltam também para a investigação de processos não
concatenativos de formação de palavras e, dessa forma, têm se ocupado de
casos tradicionalmente tratados como derivação regressiva, truncamento,
blending etc.
Uma das razões para essa aparente divisão de tarefas é a própria natu-
reza dos fenômenos analisados por cada tipo de modelo: as línguas semíti-
cas como o hebraico, por exemplo, com suas raízes triconsonantais5 e seus
padrões vocálicos, tradicionalmente, têm recebido tratamentos baseados
em modelos globalistas. Mesmo essas línguas, no entanto, têm sido tomadas
como importantes fontes de evidências em favor de análises localistas, tais
como as baseadas no modelo da md. Isso significa que, embora o desafio seja
grande, a possibilidade de encontrarmos respostas adequadas para ele den-
tro da md também o é. E é isso que temos tentado fazer…
Volto-me, agora, especificamente para um desses exemplos de morfolo-
gia não concatenativa que têm nos ocupado ultimamente: as formas trunca-

5
Às vezes, com até quatro consoantes, como é o caso do árabe.

210 Ana Paula Scher


das. No meu modo de entendê-las, essas formas são derivadas diretamente
da raiz. Formam-se, portanto, independentemente de formas não truncadas
que lhes são correspondentes. Isso significa que, de acordo com a análise que
estou propondo, não há cortes ou apagamentos em palavras como delegado
e cerveja que as transformem em delega ou cerva, respectivamente. As dife-
rentes interpretações que se podem depreender desses dois pares de dados
(delegado — delega; cerveja — cerva) justificam essa independência na sua de-
rivação: assim, por exemplo, delega e cerva carregam todo um valor apreciati-
vo ou avaliativo que não está presente em delegado ou cerveja, o que justifica
a assunção de que, embora tenham as mesmas raízes, tais pares de palavras
não se relacionam por subtração. Ao contrário, as formas truncadas são de-
rivadas por meio de mecanismos sintáticos gerais que operam em estruturas
sintáticas específicas, exatamente como acontece com suas correspondentes
não truncadas, nomeadamente, as formas plenas que exibem a mesma raiz.
Esse mesmo fenômeno já foi investigado por outros pesquisadores no
português brasileiro e já recebeu outras análises, inclusive fundamentadas
em modelos globalistas6. Minha análise, portanto, em que as formas trunca-
das são geradas a partir de uma série de pequenas mudanças locais, opõe-se
frontalmente a essas propostas.

Quais são alguns dos principais temas que ainda precisam ser discutidos
dentro desse quadro teórico, e, em especial, quais as contribuições que as
pesquisas no Brasil — sobre o português brasileiro — podem dar para o
avanço da morfologia distribuída?
Scher — A discussão sobre os processos tratados como não concatenativos
precisa continuar a ser feita de forma ainda mais sistemática. Já temos um
começo, como apontei acima, mas há muito a fazer.
Penso, também, que a produção e o processamento dos erros de fala, tais
como se vê na sentença “A rasg-ola sac-ou.”7, em lugar de “A sac-ola rasg-ou.”, é
outra grande questão a ser investigada. Esse tipo de “erro” é mais comum do
que podemos pensar e, a meu ver, a md tem muito a dizer sobre ele. O traba-
lho de Pfau dá início às investigações sobre esse tema dentro do modelo, mas
ainda há muito a ser feito.
6
Para citar apenas um exemplo, tem-se a dissertação de Ana Paula V. Belchor (2009). Construções de
truncamento no português do Brasil: análise estrutural à luz da teoria da otimalidade. (Mestrado em
Letras Vernáculas). Rio de Janeiro: UFRJ.
7
Essa sentença foi produzida espontaneamente por uma de minhas sobrinhas. E uma breve discussão
sobre o fenômeno aparece em Ana Paula Scher (2014). Notas de aula do curso de Tópicos em Sintaxe: Morfo-
logia Distribuída. São Paulo: USP.

Morfologia distribuída
211
Além desses temas e de tantos outros já investigados pelos membros do
GREMD, nosso grupo vem se preocupando, mais particularmente, com ques-
tões relativas:
(i) à derivação e interpretação de objetos linguísticos com significados não
composicionais ou idiomáticos;
(ii) ao estudo de paradigmas verbais defectivos;
(iii) à caracterização das categorias de adjetivo e advérbio dentro do modelo
da MD e, finalmente,
(iv) à determinação do real estatuto da noção de raiz dentro desse modelo.
Sabe-se que a noção de raiz não é exclusiva da md, mas sabe-se também
da importância que ela representa para o modelo.

A senhora poderia indicar sugestões de leituras na área da morfologia dis-


tribuída? Algumas leituras essenciais, clássicas ou modernas, para nossos
leitores…
Scher — Começo pela explicitação das referências que trouxe nas respostas
anteriores desta entrevista:
Alexiadou, A. (2001). Functional Structure in Nominals. Nominalization and Ergativity. Amster-
dam: John Benjamins.
Embick, D. (2010). Localism Versus Globalism in Morphology and Phonology. Cambridge, Mass.:
MIT Press.
Halle, M. (1973). Prolegomena to a Theory of Word formation. Linguistic Inquiry, vol. 4, nº 1.
Halle, M.; Marantz, A. (1993). Distributed Morphology and the Pieces of Inflection. In: Hale, K.;
Keyser, S. J. (orgs.). The View from Building 20: Essays in Linguistics in Honor of Sylvain Brom-
berger. Cambridge, Mass.: MIT Press, p. 111-176.
Marques Gouveia, A. A. (2015). A presença de blends no léxico rosiano. Trabalho apresentado no
22o SIICUSP.
Matushansky, O.; Marantz, A. (orgs.) (2013). Distributed Morphology Today: Morphemes for Morris
Halle. Cambridge, Mass.: MIT Press.
Minussi, R.; Nóbrega V. (2014). A interface sintaxe-pragmática na formação de palavras: avalian-
do os pontos de acesso da enciclopédia na arquitetura da gramática. Veredas, vol. 18, nº 1.
Pfau, R. (2000). Features and Categories in Language Production. Diss. Frankfurt/Main: Johann
Wolfgang Goethe Universität.
______ (2009). Grammar as Processor: A Distributed Morphology Account of Spontaneous Speech
Errors. Amsterdam: John Benjamins.
Scher, A. P. (2004). As construções com o verbo leve “dar” e as nominalizações em -ada no português
do Brasil. Tese de doutoramento. Campinas: UNICAMP.

A essas referências, acrescento outras que remetem a temas que fazem


parte das preocupações de pesquisadores interessados em morfossintaxe
em md:

212 Ana Paula Scher


Doron, E. (org.) (2014). Theoretical Linguistics: On the Identity of Roots (target article), vol. 40, nº
3/4.
Fábregas, A. (2005). La definición de la categoría gramatical en una morfología orientada sintácti-
camente: nombres y adjetivos. Tese. Madrid: Universidad Autònoma de Madrid.
Marvin, T. (2003). Topics in the Stress and Syntax of Words. Tese. Cambridge, Mass.: MIT.
Oltra Massuet, M. I. (2010). On the Morphology of Complex Adjectives. Tese. Barcelona: Universitat
Autònoma de Barcelona.

Morfologia distribuída
213
Morfologia distribuída1
Jonathan David Bobaljik

Na sua opinião, quais são os principais avanços da morfologia distribuída


no que diz respeito à compreensão da gramática e da linguagem humana?
Bobaljik — A morfologia distribuída (md) é, fundamentalmente, uma ideia so-
bre a arquitetura da gramática e a relação entre seus vários componentes.
A md fornece uma base para pensar problemas morfológicos não de forma
isolada, mas em termos de conexões específicas com a sintaxe, a morfologia
e a semântica. Já se reconhece, entre diversos modelos, o fato de que a alguns
aspectos da gramática (como os padrões de sincretismo) não é possível apli-
car explicações fonológicas ou sintáticas. Antes, eles são mais bem formaliza-
dos em termos puramente morfológicos (digamos, hierarquias sobre traços,
talvez melhor compreendido como refletindo a estrutura interna de traços
complexos). Muitos contrastes de traços relevantes para a sintaxe e a semân-
tica são neutralizados na morfologia (por exemplo, os pronomes de 1ª pessoa
em muitas línguas não têm gênero, ou ainda algumas classes de palavra que
não têm caso), ainda que as distinções subjacentes pareçam ser relevantes
para a sintaxe. A md acrescenta uma medida de transparência no que diz res-
peito à relação entre a sintaxe e a morfologia.
O ponto inicial é a ideia de que as representações sintáticas, para as quais
conseguimos fornecer evidência sintática independente, devem servir como
input para as operações morfológicas. Se tomarmos uma relação direta entre
a sintaxe (interna à palavra) e a morfologia como hipótese nula, forçamo-nos
a jogar luz em casos em que a estrutura morfológica e a estrutura sintática
não se alinham. Os princípios básicos da md nos forçam a fazer perguntas
sobre a natureza desses desalinhamentos e sobre os limites da variação. Des-
sa forma, a md fornece ferramentas para pensarmos não apenas sobre como

1
Entrevista publicada em março de 2015, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero, revi-
são técnica: João Paulo Cyrino.

214 Jonathan David Bobaljik


a evidência sintática pode corroborar a análise morfológica, mas também o
contrário: como a evidência morfológica pode embasar a sintaxe. Esse é um
tema da minha pesquisa sobre comparativos e superlativos, por exemplo.
Acredito que exista evidência morfológica substancial (generalizações robus-
tas em padrões morfológicos irregulares, como as supleções) pressupondo
que as representações sintáticas subjacentes devam ter propriedades parti-
culares — a abordagem da md nos permite ligar-os-pontos entre os compo-
nentes gramaticais dessa forma.

A morfologia distribuída contém uma série de propostas sobre os compo-


nentes da gramática, como a organização ramificada de pf [cf. Embick;
Noyer (2001), Embick (2010), Arregi; Nevins (2012)] e a natureza dos pri-
mitivos que alimentam o componente sintático (se as raízes são abstratas
ou não, por exemplo). Com isso em mente, seria possível dizer que a morfo-
logia distribuída figura como um programa de pesquisa que inclui um con-
junto de teorias sobre a organização da gramática, em que apenas duas
suposições básicas permanecem constantes, a saber: (i) estrutura sintáti-
ca externa e interna à palavra e (ii) inserção tardia?
Bobaljik — Sim, isso está no núcleo da md. E é o que o termo “distribuída”
quer dizer: o papel do “morfema” clássico é distribuído em (pelo menos) dois
componentes:
(i) uma lista de elementos atômicos, mas abstratos, que servem como input
para as regras combinatórias (sintaxe);
(ii) regras de inserção de vocabulário que proporcionam a realização fonoló-
gica desses elementos.
O que torna esse programa de pesquisa instigante é a evidência vinda
da sintaxe (e da semântica também) de alguma estrutura às vezes está em
desacordo com a evidência aparente advinda da investigação em exponen-
tes manifestos — encontramos ordens de afixos inesperadas, disparidades
no número de pedaços (morfemas) que poderiam ser esperados, entre outras
coisas do tipo. Teorias de md particulares formam propostas para uma teoria
mais restritiva sobre como os dois tipos de representação (sintático/abstrato
e morfológico/manifesto) podem variar.
Uma maneira de abordar as disparidades aparentes pode ser enrique-
cendo o aparato sintático, postulando uma sintaxe mais complexa e reduzin-
do o conteúdo do componente morfológico. Uma ideia importante na md é que
ao menos algumas das complexidades aparentes no nível morfossintático são

Morfologia distribuída
215
produto de dois sistemas, relativamente simples, que interagem: um estilo de
sintaxe do tipo “concatenar-e-mover” (merge-and-move) e uma morfologia que
manipula o output da derivação sintática, de forma a integrá-lo ao componen-
te fonológico da gramática.
Algumas das questões que vocês mencionaram — por exemplo, a questão
da abstração das raízes — estão fortemente relacionadas com a literatura em
md, mas transversalmente a seus princípios centrais. Seria possível vislumbrar
uma arquitetura da md em que as raízes têm categorias, ou mesmo uma teoria
com raízes de categoria neutra, fora da perspectiva da md. Outro trabalho que
vocês mencionaram é mais central: o estudo de Arregi e Nevins (2012) sobre
o auxiliar em basco compromete-se explícita e implicitamente com questões
muito importantes sobre as maneiras em que a variação de superfície nas for-
mas de palavras pode ou não coincidir com a variação sintática.

Desde o trabalho de Marantz (2000), muitas propostas diferentes para


uma teoria de fases dentro da formação de palavras foram levadas adian-
te na morfologia distribuída. Qual é a relevância de uma abordagem base-
ada em fases para uma teoria sintática de formação de palavras? Quais
dessas propostas parecem trazer evidências mais robustas para delimitar
as fronteiras das fases?
Bobaljik — As questões fundamentais aqui são localidade, e me parece que
as questões mais interessantes são por que diferentes processos obedecem
às condições de localidade a que obedecem e como (ou e se) os domínios de
localidade dos diferentes componentes estão relacionados. As propostas em
sintaxe têm tido a tendência de voltar a três domínios distintos: o sintagma
nominal, a oração e alguma projeção funcional verbal intermediária; com uma
dúvida aberta sobre se esses domínios são determinados inerentemente (cer-
tas categorias são designadas núcleos de fase) ou contextualmente [por exem-
plo, como argumentamos em Bobaljik e Wurmbrand (2005): o complemento
verbal de um verbo lexical é inerentemente uma fase, independentemente
do rótulo ou do núcleo de sua projeção máxima]. Em morfologia, encontra-
mos processos internos à palavra, sobretudo a alomorfia contextual (sendo
a supleção o caso limite) aparentemente sujeita a domínios de localidade. A
hipótese nula poderia estipular: o que quer que determine uma propriedade
de domínio no nível sintático-sintagmático deveria determinar essa mesma
propriedade de domínio dentro da palavra morfológica, dentro de um nó X0
complexo. Para pegar um exemplo programático, se alguns núcleos tornam

216 Jonathan David Bobaljik


o conteúdo de seu irmão opaco para outros processos, então, no melhor dos
casos, poderíamos esperar encontrar correlações entre condições sobre ex-
tração em sintaxe e condições correspondentes sobre restrições contextuais
de alomorfia, por exemplo.
Em termos gerais, isso parece ser promissor, ainda que existam muitas
questões para ser resolvidas [cf., por exemplo, Embick (2010), ou os traba-
lhos recentes de Tobias Scheer, numa perspectiva distinta]. Olhar tudo isso
é complicado, já que as fases sintáticas mais claras (cp e dp/np) também são
domínios sobre os quais a formação de palavras (movimento de núcleo) tipi-
camente não ocorre, deixando as fases intermediárias (vp ou aspp, por exem-
plo) como a área na qual podemos encontrar as perguntas mais interessantes.
Uma linha promissora de pesquisa é olhar para as diferenças (morfo)fono-
lógicas entre verbos e substantivos: se houver um domínio-limite interme-
diário (fase núcleo) na “espinha da oração” (as projeções de v até t e c) e se
os verbos flexionados incluírem os núcleos de v até t, incluindo esse núcleo
de fase, então poderíamos esperar efeitos fonológicos cíclicos em verbos que
não possuem nomes correspondentes. Por exemplo, se a silabificação pro-
ceder por domínios, haverá mais domínios internos nos verbos do que nos
substantivos. Essa é uma área pronta para novas investigações, no molde, por
exemplo, do texto de Newell e Piggott na revista Língua (2014), entre outros
trabalhos relacionados. Num viés diferente, Harðarson (2013) amplia o tipo
de abordagem de “fase dinâmica” de Bobaljik e Wurmbrand a interações mor-
fofonológicas dentro de palavras complexas, baseando-se em evidências de
compostos do islandês.
Também parece claro que há processos morfofonológicos (acento, har-
monia vocálica) que não ficam confinados a domínios particulares. Isso su-
gere que, se tivermos uma teoria geral de domínios, não será uma teoria em
que os domínios (as fases etc.) sejam completamente estanques ou catego-
rialmente “impenetráveis” e imunes a operações de fora. Isso pode ser ver-
dade também na sintaxe (por exemplo, as fases não limitam dependência de
concordância entre o antecedente e um pronome, mesmo quando se trata de
uma dependência gramatical de um quantificador ou de uma variável ligada).
Por isso, podemos chegar a uma modelo mais do tipo spell out cíclico,
de Pesetsky e Fox (2005), em que o efeito paralisador de domínios do tipo
fase não é absoluto; apenas fixa certas propriedades das representações. Por
isso, um programa de pesquisa muito interessante não apenas pergunta por
que os domínios são esses ou aqueles (tanto na morfologia como na sinta-
xe), mas também pergunta quais processos são sensíveis a esses domínios.

Morfologia distribuída
217
Pode também haver assimetrias na direção das dependências — parece que
a alomorfia na raiz (supletivismo) é fortemente condicionada com o núcleo
que pode provocar mudanças na raiz (Moskal, em texto a ser publicado na
Linguistic Inquiry, fornece novas evidências a respeito), mas as condições de
localidade parecem ser menos rigorosas no que diz respeito a como classes
idiossincráticas das raízes determinam alomorfia de núcleos funcionais mais
periféricos.

Sobre seu livro mais recente, Universals in Comparative Morphology: Sup-


pletion, Superlatives and the Structure of Words (2012), levantamos duas
questões: primeiro, como os estudos tipológicos podem influenciar pesqui-
sas formais gerativas? Segundo, qual é a melhor maneira de desenvolver
um estudo tipológico abrangente, em larga escala, de maneira paralela a
um estudo formal de gramática?
Bobaljik — Teorias gerativas formais são teorias explícitas de gramáticas
possíveis e, por isso, de línguas possíveis também. Saber o que acontece no
universo das línguas deveria ser, por isso, um ponto central ao empreendi-
mento gerativo. Um dos obstáculos para que possamos ver uma interação
mais frutífera entre estudos tipológicos e estudos com abordagens formais
gerativas esteja na granularidade das questões formuladas e em até que ponto
estamos prontos para ver além das descrições de superfície para fazer per-
guntas sobre padrões em um nível superior de abstração. Isso já foi dito por
muitos outros, e há uma excelente discussão feita por Baker e McCoskey no
seu artigo “On the Relationship of Typology to Theoretical Syntax” (Linguistic
Typology  11:273-284, 2007). Ali, eles discutem uma maneira de equilibrar a
amplitude em função da profundidade na sintaxe — mas suas observações se
aplicam também à morfologia.
Ao trabalhar no livro que vocês mencionaram, tive a sorte de encon-
trar uma área em que os dados relevantes são geralmente bem cobertos nas
gramáticas descritivas e em que o nível de abstração necessário para ver pa-
drões gramaticais extremamente robustos não fica muito longe da superfí-
cie. Contudo, ainda exige um pouco de escavação abaixo da superfície. Por
exemplo, um estudo orientado aos padrões de superfície pode não notar que
os superlativos às vezes são derivados pela adição de elementos morfológi-
cos aos comparativos (como em húngaro, tcheco e ubykh), mas em muitos
casos, tal processo não é visível na morfologia de superfície (como em inglês)
e para por aí. Sem fazer perguntas teóricas sobre o que explica o que, fica

218 Jonathan David Bobaljik


difícil de enxergar além desse nível de observação; por isso, foi a pesquisa
formal gerativa, fornecendo um modelo explícito para as condições de loca-
lidade do supletivismo (no meu caso), que impulsionou a questão de saber se
a variação nas formas de superfície poderia ocultar uma unidade subjacente
na estrutura (abstrata), como argumentei. Alguns pesquisadores falam em
uma descrição que seja “teoricamente neutra”, mas acho isso um equívoco —
sempre existe algum nível de abstração em qualquer estudo, e há uma tensão
saudável na tentativa de encontrar o nível certo de abstração, onde podemos
conectar os postulados teóricos a fenômenos observáveis, sobretudo nos es-
tudos de grande escala.
Ao menos em alguns casos, a desconexão entre os estudos tipológicos e
os gerativos pode estar calcada em desafios para relacionar as observações
descritivas com as entidades teóricas. Acho, porém, que existe um amplo
espaço para ambos os lados se beneficiarem. Teorias formais gerativas são
modelos explícitos de gramáticas possíveis e impossíveis. Mesmo que elas fa-
lem de entidades que não sejam diretamente visíveis (constituintes, traços,
movimento etc.), as teorias sobrevivem ou caem não apenas por causa de
noções de coerência interna, mas também por fazerem previsões empíricas
acertadas. Além disso, estudos tipológicos podem fornecer evidências extre-
mamente valiosas sobre generalizações interlinguísticas específicas e são um
grande recurso para a identificação de desafios e áreas que necessitam de
investigação mais aprofundada. Então, na minha opinião, em grande escala,
os estudos interlinguísticos devem estar no centro do esforço gerativo formal,
e, da mesma forma, a importância da hipótese de gramática universal dentro
de uma teoria da cognição poderia muito bem informar os tipos de pergun-
tas que podem ser proveitosamente investigados em estudos tipológicos de
grande escala.

O senhor poderia sugerir uma lista de leituras (entre clássicas e recentes)


sobre morfologia distribuída a nossos leitores?
Bobaljik — Quatro trabalhos recentes oferecem uma exploração profunda so-
bre tópicos em md:
Arregi, K.; Nevins, A. (2012) Morphotactics: Basque Auxiliaries and the Structure of Spellout. Ber-
lim: Springer.
Bobaljik, J. D. (2012). Universals in Comparative Morphology: Suppletion, Superlatives, and the
Structure of Words. Cambridge, Mass.: MIT Press.
Embick, D. (2010). Localism versus Globalism in Morphology and Phonology. Cambridge, Mass.:
MIT Press.

Morfologia distribuída
219
Kramer, Ruth (no prelo). The Morphosyntax of Gender: Evidence from Amharic. Oxford University
Press

Os textos presentes em Matushansky e Marantz (2013) representam uma


seleção do pensamento corrente em md, por pesquisadores que contribuíram
para o desenvolvimento do modelo.
Matushansky, O.; Marantz, A. (orgs.) (2013). Distributed Morphology Today: Morphemes for Morris
Halle. Cambridge, Mass.: MIT Press.
Entre os trabalhos mais antigos, alguns dos mais citados em md (tirando
os artigos do estilo overview) e seus precursores imediatos são os seguintes:
Bonet, E. (1991). Morphology After Syntax: Pronominal Clitics in Romance. Cambridge, Mass.: MIT
Press
Embick, D.; Noyer, R. (2001). Movement Operations After Syntax. Linguistic inquiry, 32(4), 555-
595.
Halle, M.; Marantz, A. (1993). Distributed Morphology and the Pieces of Inflection. In: Hale, K.;
Keyser, S. J. (orgs.). The View from Building 20: Essays in Linguistics in Honor of Sylvain Brom-
berger. Cambridge, Mass.: MIT Press, p. 111-176.
Marantz, A. (1997). No Escape From Syntax: Don’t Try Morphological Analysis in the Privacy of
Your Own lLexicon. University of Pennsylvania working papers in linguistics, 4(2), 14.
Noyer, R. R. (1992). Features, Positions and Affixes in Autonomous Morphological Structure. (Tese).
Cambridge, Mass.: Massachusetts Institute of Technology.

220 Jonathan David Bobaljik


O papel do léxico
na variação fonológica1
Thaïs Cristófaro-Silva

A redução de segmentos fonológicos tem desafiado tanto modelos de re-


presentações abstratas quanto modelos baseados em exemplares. Na sua
opinião, quais são os principais alcances dessas abordagens e que desafios
ainda precisam ser vencidos? 
Cristófaro-Silva — Em primeiro lugar, eu gostaria de reavaliar a dicotomia
entre “modelos de representações abstratas” e “modelos baseados em exem-
plares” indicada na primeira sentença da pergunta. Essa dicotomia parece
indicar que exemplares não sejam construtos abstratos: e são! A questão em
pauta diz respeito à natureza das representações. Vários modelos, geralmen-
te rotulados como “formais”, sugerem uma representação única da qual são
obtidas (por algum mecanismo formal) as representações reais de uso da
fala. Por outro lado, na teoria de exemplares, a representação é compreendi-
da como sendo múltipla, constituída dos vários exemplares registrados pela
experiência real de uso da fala. É através de mecanismos de categorização que
os exemplares se consolidam como categorias abstratas. Há exemplares mais
ou menos robustos, a depender da frequência em que foram atestados para
fins de categorização. É a categorização que promove a emergência de catego-
rias abstratas. Para discussão sobre a natureza das representações — simples
ou complexas — recomendo a leitura de Johnson e Mullenix (1997), em espe-
cial, do capítulo 1, que discute o mapeamento das representações mentais.
Para a leitura em português sobre o tema, recomendo Cristófaro-Silva (2003).
A aparente dicotomia apresentada na pergunta, de fato, reflete uma po-
sição teórica. O debate não é quanto às representações serem abstratas ou
não, e sim entre a representação ser simples (excluindo o detalhe fonético
1
Entrevista publicada em novembro de 2017, conduzida por Camila De Bona.

O papel do léxico na variação fonológica


221
e parâmetros extralinguísticos) ou complexa (compreendendo o detalhe fo-
nético e parâmetros extralinguísticos). As representações simples são tipi-
camente assumidas em modelos formais e as representações complexas são
assumidas na teoria de exemplares.
Um segundo ponto da pergunta diz respeito aos alcances das aborda-
gens formais e de exemplares. Tendo pressupostos diferentes, espera-se que
os percursos a serem trilhados por cada modelo sejam diferentes. A elegância
de modelos formais é encantadora! Modelos formais pautam-se pela mate-
mática discreta, ou finita, associada à lógica formal e que acomoda belamente
a noção de contraste categórico e a organização lógica de unidades discre-
tas. Por outro lado, a matemática contínua, associada ao cálculo, permite a
análise de fenômenos contínuos e gradientes. A teoria de exemplares assume
princípios da matemática contínua, e a tendência atual é a de modelos hí-
bridos que consideram princípios da matemática contínua e discreta (Pier-
rehumbert, 2016). Para a discussão sobre a matemática discreta e contínua
veja Cristófaro Silva (2006: 29-31).
A teoria de exemplares traz para a agenda de debate a interação entre a
fonética e a fonologia. Modelos formais tendem a separar explicitamente o
domínio dessas disciplinas. Por outro lado, a teoria de exemplares acomoda a
interação entre a fonética e a fonologia e busca explicar como estes domínios
se articulam entre si (Cristófaro-Silva; Gomes, 2017). A discussão, portanto,
não é sobre o alcance das teorias, e sim sobre a natureza das categorias de
análise: discretas ou gradientes? E também quanto aos domínios de análise:
fonética ou fonologia x fonética e fonologia.
Portanto, retomando a pergunta, o alcance da teoria tem a ver com suas
premissas e seus objetos de análise. Por exemplo, um modelo que assuma
categorias discretas em que a variabilidade é descartada não terá instru-
mentos óbvios para analisar casos de variação linguística. Por outro lado,
modelos que assumem categorias gradientes e representações múltiplas
terá instrumentos claros para analisar casos de variação linguística. E, é na
perspectiva da matemática contínua que efeitos de frequência têm sido con-
siderados em linguística.
Retomando o início da pergunta — sobre a redução de segmentos fo-
nológicos —, o debate pauta-se pela natureza do cancelamento: abrupto (de
categorias discretas) ou gradiente (de categorias contínuas). Evidências ro-
bustas da literatura indicam que a redução segmental tende a ser gradiente,
exceto em casos de analogia [cf. o debate lançado por Phillips (1984, 2001) e
Bybee (2001)].

222 Thaïs Cristófaro-Silva


Finalmente, quanto aos desafios impostos para qualquer modelo, apon-
to a multimodalidade da fala que deve incorporar aspectos da produção, da
percepção e outros aspectos relevantes para a comunicação oral ou gestual
(visual, sensorial etc). A modelagem multimodal lança grandes desafios me-
todológicos, mas, possivelmente, oferecerá explicações consistentes sobre a
natureza da linguagem.

A relação entre variantes reduzidas e frequência lexical tem sido bastante


discutida na literatura linguística recente. Em sua opinião, frequência le-
xical tem papel crucial (ou isolado) na redução segmental?
Cristófaro-Silva — A relação entre as diversas variantes reduzidas e não re-
duzidas se dá ao longo de um contínuo gradiente. A concepção de que um
segmento possa desaparecer abruptamente na fala é difícil de ser mantida.
Obviamente, o ponto inicial e final do percurso de redução pode ser assumi-
do como categoria discreta. Por exemplo, uma vogal é apagada em final de
palavra: V à Ø / __ #. Sabemos pela literatura que o apagamento de vogais em
final de palavra passa pelo desvozeamento de tais vogais (Dias; Seara, 2013).
O desvozeamento de vogais seria um estágio gradiente na implementação do
apagamento da vogal.
Portanto, se o foco de análise for categorias discretas, o pesquisador in-
vestigará os estágios inicial e final do fenômeno em questão. Por outro lado,
se o foco de análise for a implementação do fenômeno — que eventualmen-
te poderá ser concluído — a investigação será em categorias gradientes. Ou
seja, o estudo de categorias gradientes só é foco de análise quando se investi-
ga a implementação ou evolução de um fenômeno. Assim, surge uma questão:
como fenômenos variáveis são implementados?
Uma hipótese de trabalho é que a implementação de mudanças sonoras
ocorra inicialmente em palavras mais frequentes da língua. Tal hipótese foi
consolidada em Bybee (2001: 64), que sugere que “on-line adjustments that
take place in production and have as their motivation the increased fluency
of the sequences of gestures”. Ou seja, é a prática de padrões inovadores que
reflete a redução (ou assimilação) de categorias. As formas reduzidas, ino-
vadoras, se tornarão mais robustas e, eventualmente, a forma não reduzida
desaparece da língua. Uma vez que as palavras mais frequentes são usadas
recorrentemente, temos que as formas inovadoras serão consolidadas nestas
palavras. Obviamente, a frequência lexical não é o único fator que propul-
siona uma mudança sonora. A frequência de tipo, parâmetros sociais, redes

O papel do léxico na variação fonológica


223
morfológicas, dentre outros fatores, podem contribuir para a implementação
da mudança sonora em questão. Oliveira-Guimarães (2004) estudou a redu-
ção de [ʃtʃi] > [ʃi] em palavras como triste ou plástico. A autora observa que,
de maneira geral, as palavras com o sufixo -ik, como por exemplo, caracte-
rística, estatística, artística, favorecem a redução de [ʃtʃi] > [ʃi]. Embora haja o
favorecimento da redução de [ʃtʃi] > [ʃi] em palavras com o sufixo -ik, a autora
observa que palavras menos frequentes são afetadas mais tardiamente do que
as mais frequentes: cabalística, ritualístico etc. O estudo de caso discutido por
Oliveira-Guimarães (2004) mostra que a redução de [ʃtʃi] > [ʃi] é motivada pela
sobreposição de gestos articulatórios afetando palavras mais frequentes ini-
cialmente, mas favorecendo palavras que tenham o sufixo -ik.
Bybee (2001: 6) observa: “High-frequency words and phrases have stron-
ger representations in the sense that they are more easily accessed and less
likely to undergo analogical change”. Por essa razão, as mudanças de natureza
gramatical ou analógica tendem a afetar as palavras menos frequentes pri-
meiro. Temos, no português brasileiro, que um verbo pouco frequente como
pelejar tende a apresentar pronúncias variáveis como (ele/a) pel[e]ja ou (ele/a)
pel[ɛ]ja quando o prescrito seria (ele/a) pel[e]ja. Por outro lado, um verbo mais
frequente como desejar não apresenta tal variação. O estudo de caso apresen-
tado em Cristófaro Silva e Campos (2011) oferece evidências para a frequência
lexical em casos que não tenham motivação fonética.
Resumindo, efeitos de frequência são relevantes na implementação de
mudanças sonoras. Em casos de redução segmental e de assimilação, há evi-
dências de que a evolução seja gradiente, podendo ou não haver a conclusão
do fenômeno variável. As palavras mais frequentes são afetadas inicialmente.
Por outro lado, em fenômenos gramaticais, as palavras menos frequentes são
afetadas inicialmente e a mudança entre as categorias tende a ser abrupta.

Como você vê a relação entre frequência lexical e aspectos gramaticais,


como morfologia interna à palavra ou categoria? E entre frequência lexi-
cal e fatores extralinguísticos?
Cristófaro-Silva — Em 1985, Joan Bybee escreveu um livro muito interessante
chamado Morphology, no qual discute a natureza discreta ou gradiente das
categorias morfológicas e pondera sobre efeitos de frequência na morfologia
e na fonologia. A autora sugere, ainda nesse livro, um modelo de redes, para
a época, inovador e cuja proposta foi parcialmente incorporada na teoria
de exemplares. Contudo, foi somente no final da década de 1990 que efeitos

224 Thaïs Cristófaro-Silva


de frequência passaram a ser discutidos de maneira abrangente. Em 2010,
Joan Bybee escreveu o livro Language and Cognition, lançado em português
em 2017. Neste livro, ela apresenta uma abordagem de análise gramatical que
considera efeitos de frequência em vários níveis. A análise apresentada em
Bybee (2017) se beneficia da gramática de construções (Goldberg 1995, 2006;
Rosario; Oliveira, 2016; Oliveira, 2013; Coelho; Silva, 2014). Portanto, a rela-
ção entre frequência lexical e aspectos gramaticais decorre da concepção de
gramática assumida pelo pesquisador. Em uma gramática formal, com ca-
tegorias discretas, em que o uso é excluído da análise, não há qualquer jus-
tificativa para se considerar efeitos de frequência. O mesmo pode ser dito
da frequência lexical e dos fatores extralinguísticos. A teoria de exemplares
sugere que fatores linguísticos e extralinguísticos atuem nas representações
mentais (Cristófaro Silva e Gomes 2017).

Nem sempre é simples definir uma escala ideal de frequência lexical ou


decidir pelo melhor método estatístico de análise. Nesse aspecto, que reco-
mendações você daria a um pesquisador da área?
Cristófaro-Silva — Há vários problemas em mensurar frequência. O maior
deles, possivelmente, é a impossibilidade de medir a frequência das palavras
para uma comunidade, ou língua. Isso porque a frequência deveria ser medi-
da para cada pessoa — uma vez que cada uma tem acesso diferente à frequ-
ência das palavras da língua. Contudo, a tarefa de medir a frequência lexical
para cada falante de uma língua é inatingível.
Por outro lado, há indícios importantes de que a frequência lexical é um
parâmetro importante na gramática das línguas. Por exemplo, verbos irre-
gulares tendem a ser muito frequentes em várias línguas, como é o caso dos
verbos ir, ser, estar, comer etc. Este fato pode ser explicado por efeitos de
frequência (Bybee, 2001: 110). Devido ao uso frequente, esses verbos têm re-
presentações robustas e desenvolvimento diferente de verbos regulares. Por
outro lado, verbos irregulares de baixa frequência ou caem em desuso ou se
regularizam, como, por exemplo, os verbos espelhar, velejar, ansiar, remediar
(Campos, 2005). O trabalho clássico de Zipf (1929, 1949) e o de outros como
Baker (1968) mostraram que a frequência das palavras tem organização parti-
cular: de maneira geral, há poucas palavras muito frequentes e inúmeras pa-
lavras pouco frequentes. Esse padrão de organização de frequência é também
encontrado em várias outras áreas da ciência como a sociologia, a psicologia,
a educação etc.

O papel do léxico na variação fonológica


225
Portanto, de um lado, é aparentemente impossível medir frequência le-
xical e, por outro lado, há evidências de que a frequência lexical é relevante.
A questão metodológica que se coloca é: o que é um corpus representativo
para medir a frequência em uma língua? A ampla literatura em linguística
de corpus tem contribuído significativamente para o desenvolvimento de
corpora balanceados e representativos. Sugiro a leitura de Berber Sardinha
(2004), Gries (2009) e McEnery e Hardie (2012) como introdução à linguísti-
ca de corpus. Entre os corpora para o português brasileiro, temos o NILC2,
Corpus Brasileiro3, Portal Minas4, Corpus Eye5 e o C-Oral Brasil6. O Projeto
Avaliação Sonora do Português Atual7 (ASPA) oferece busca de frequência
com parâmetros fonológicos.
Respondendo objetivamente à pergunta formulada: realmente não é
simples definir uma escala ideal de frequência lexical. Deve-se considerar a
natureza contínua da frequência de um corpus e buscar os métodos adequa-
dos para o projeto que se pretende desenvolver.
Quanto às recomendações, sugiro ao pesquisador aceitar os desafios im-
postos por uma análise de efeitos de frequência e buscar modelos teóricos
que acomodem tais efeitos. É a partir do poder explicativo das teorias que
conseguimos avançar na ciência. Quanto aos métodos estatísticos, o impor-
tante é avaliar o conjunto de dados para ser possível modelá-los de maneira
apropriada. Os desafios são inúmeros! Mas, com as ferramentas adequadas, é
possível vislumbrar um futuro muito interessante para o estudo da variação
fonológica e sua contribuição para o conhecimento linguístico.

Que textos sobre o papel do léxico na variação fonológica você considera


essenciais para sugerir a pesquisadores iniciantes na área?
Cristófaro-Silva — O debate sobre a perspectiva neogramática e da difusão
lexical trouxe à baila a questão da frequência lexical na variação fonológica.
Isto porque o debate entre as duas perspectivas centrou-se na questão de a
mudança sonora se dar no som ou na palavra (Wang, 1969; Labov, 1981; Olivei-
ra, 1991). Tendo a palavra como objeto de análise na perspectiva difusionista,
surgiu a questão da frequência lexical (Fidelholtz, 1975; Phillips, 1984, 2001).

2
http://www.linguateca.pt/acesso/corpus.php?corpus=SAOCARLOS
3
http://corpusbrasileiro.pucsp.br/cb/Inicial.html
4
http://portalminas.letras.ufmg.br/
5
https://corp.hum.sdu.dk/cqp.pt.html
6
http://www.linguateca.pt/acesso/corpus.php?corpus=CORALBRASIL
7
www.projetoaspa.org/

226 Thaïs Cristófaro-Silva


A partir desse debate, os trabalhos de Bybee (2001), Bybee e Hopper (2001),
Pierrehumbert (2001, 2016) trouxeram um novo olhar sobre a natureza das
representações mentais com ênfase na variação fonológica. Bybee (2017) é um
texto importante em português sobre a natureza das representações mentais.
Para efeitos de frequência na interação fonologia-morfologia, sugiro: Bybee
(1988, 1995); Hay (2001); Losiewicz (1992). Alguns trabalhos em português que
consideram o papel do léxico na fonologia: Albano et al. (1995), Gomes e Cris-
tófaro Silva (2005), Cristófaro-Silva (2006), Cristófaro-Silva e Gomes (2007).

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O papel do léxico na variação fonológica


229
Políticas Linguísticas1
Bernard Spolsky

Você poderia explicar aos nossos leitores o que é política linguística? Como
ela está relacionada à linguística e à política pública (ou privada)?
Spolsky — Embora os esforços na gestão da linguagem possam ser encontra-
dos antes do desenvolvimento de sistemas de escrita e do trabalho de nor-
malização realizado por escribas no mundo antigo e tipógrafos e professores
começando no renascimento, o campo moderno da política linguística foi
iniciado por linguistas que trabalharam na assistência a estados recém-inde-
pendentes depois da Segunda Guerra Mundial. Encorajados pelo sucesso de
físicos que construíram grandes instrumentos de destruição e pelo otimismo
de economistas que esperavam ser capazes de reconstruir sociedades destru-
ídas pela guerra, esses linguistas propuseram diversos planos para resolver
os problemas linguísticos de nações em desenvolvimento. Com o passar do
tempo, tornou-se claro que nem os planos econômicos nem os planos lin-
guísticos pareceriam funcionar. Por exemplo, a maioria dos países africanos
continuou usando as línguas coloniais, que deveriam ser substituídas pelo
desenvolvimento de línguas nativas africanas. Em uma reflexão mais recen-
te sobre a natureza do campo, sugeriu-se que a política linguística tem três
componentes inter-relacionados, mas independentes: as práticas linguísticas
reais dos membros da comunidade, as crenças daqueles membros sobre a lín-
gua e os esforços de alguns membros para mudar as práticas e as crenças
existentes. Também foi proposto que, em cada domínio e em cada subcomu-
nidade (governamental, de negócios, educacional, religiosa, familiar), é possí-
vel encontrar um conjunto de práticas e crenças complexo, mas organizado
e alguns indivíduos (gestores) que desejam modificar o comportamento lin-
guístico e as crenças de outros. O campo da política linguística é considerado

1
Entrevista publicada em março de 2016, originalmente em inglês. Trad.: Ana Carolina Spinelli e Gabriel
de Ávila Othero.

230 Bernard Spolsky


um tipo de sociolinguística aplicada, com muitas de suas atividades direcio-
nadas à educação.

Você poderia nos contar sobre sua carreira como professor de linguística,
com experiência em diferentes países e continentes? Como você começou a
estudar política linguística?
Spolsky — Comecei como professor de ensino secundário e lecionei na Nova
Zelândia, na Austrália e na Inglaterra antes de me mudar para Israel, onde
me tornei professor universitário de inglês como língua estrangeira. Após
alguns anos, mudei-me para o Canadá para realizar estudos de doutorado e
lecionei em Montreal, onde conheci uma das maiores áreas em que a políti-
ca e a gestão linguísticas estavam se tornando politicamente significativas.
Quando completei meu doutorado, comecei a dar aulas no Departamento de
Linguística da Universidade de Indiana, onde parte dos meus deveres estava
relacionada a um programa de graduação para professores estrangeiros de
inglês. Essa experiência despertou a minha preocupação sobre influências
políticas no ensino de línguas, e por isso fiquei feliz em aceitar um cargo na
Universidade do Novo México, onde logo me envolvi em um projeto para es-
tudar os efeitos de ensinar crianças navajo a lerem primeiro em sua própria
língua. Ali comecei a estudar as forças que afetam a política de ensino de
línguas e os valores da educação bilíngue. Quando retornei a Israel, um rico
exemplo de diversidade linguística, continuei com esses interesses e, durante
uma licença em Washington, comecei a perceber que estava trabalhando com
política linguística. No ano seguinte, um colega e eu propusemos uma polí-
tica de ensino de línguas ao ministro da Educação de Israel, baseada em um
estudo que conduzimos sobre as práticas correntes no campo. Ao longo do
tempo, tenho feito visitas ocasionais à Nova Zelândia, onde observei o início
do movimento de restabelecimento linguístico do maori. Combinando essas
experiências com pesquisas sobre o restabelecimento do navajo, do maori e
do hebraico, escrevi duas monografias, uma sobre política linguística e outra
sobre gestão linguística.

Quais foram as maiores conquistas na área de políticas linguísticas duran-


te o século XX?
Spolsky — Durante o século XX, a maior parte da gestão linguística foi influen-
ciada pela ideologia monolíngue de antigos e novos Estados. As tentativas de

Políticas Linguísticas
231
desenvolver políticas que reconheciam o multilinguismo e a diversidade da
maioria das comunidades geralmente não obtinham sucesso, de modo que os
vários planos de ativistas que procuravam reverter o processo de substitui-
ção linguística — e fazer valer os direitos linguísticos das minorias étnicas —
naufragaram, por um lado por causa de pressões nacionalistas; por outro, por
causa do inglês, visto como língua global. Houve alguns poucos casos de su-
cesso: o hebraico foi revernaculizado, revitalizado e estabelecido como a lín-
gua dominante no novo Estado de Israel; a Indonésia conseguiu estabelecer
a utilidade da língua padrão; a China obteve sucesso ao espalhar a língua pu-
tonghua como uma língua oficial; a União Soviética consagrou o russo como a
língua dominante e obteve sucesso em acabar com língua minoritárias como
o iídiche; e em várias partes do mundo, os ativistas de direitos humanos enco-
rajaram atividades para preservar línguas indígenas. Em resumo, ao mesmo
tempo em que a compreensão da natureza da área e dos problemas da gestão
linguística aumentou, as atividades mais bem-sucedidas foram aquelas que
encorajaram a hegemonia das línguas nacionais e o papel auxiliar do inglês
como uma língua global.

E o que está começando no século XXI? Quais outras realizações na área de


políticas linguísticas podemos esperar para este século?
Spolsky — Imagino que a luta continue. O multilinguismo também vai con-
tinuar, mas uma grande parte das mais ou menos 6.000 línguas de hoje vai
desaparecer rapidamente por causa da pressão das línguas nacionais e inter-
nacionais. Os peixes grandes continuarão a comer os pequenos. Ao mesmo
tempo, há esperança de que, na diversidade que se desenvolve especialmen-
te nas áreas urbanas, muitas minorias permaneçam falando suas línguas de
origem, fazendo com que novas variedades híbridas possam aparecer. Há si-
nais de que os esforços de gestão linguística baseados no reconhecimento das
muitas comunidades envolvidas comecem a ter efeito. Por exemplo, o País de
Gales parece estar conseguindo avanços na gestão da língua galesa; a língua
maori foi reconhecida como uma língua oficial e agora recebe auxílio de gran-
des atividades educacionais; muitos países sul-americanos reconhecem agora
a existência das línguas indígenas e apoiam seu ativismo; a China reconheceu
o papel dos muitos topoletos do país e reconhece algumas das suas línguas
minoritárias; a União Europeia tem uma política de apoio a línguas indígenas,
mas não a línguas migrantes; continuam a existir esforços para que as línguas

232 Bernard Spolsky


africanas sejam usadas em alguns Estados; e a pressão continua para que a
língua seja entendida como um dos direitos humanos.

Você poderia recomendar uma lista de trabalhos influentes (pioneiros e re-


centes) na área de políticas linguísticas, para nossos leitores?
Spolsky — A lista abaixo contempla obras clássicas e livros mais recentes em
políticas linguísticas.
COBARRUBIAS, J.; FISHMAN, J. A. (orgs.). (1983). Progress in Language Planning: International
Perspectives. The Hague: Mouton.
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Políticas Linguísticas
233
Políticas linguísticas1
Gilvan Müller de Oliveira

O que se entende hoje por “políticas linguísticas”? Que tipo de trabalho um


linguista que atua nessa área desenvolve?
Oliveira — Em primeiro lugar, considero necessário fazer uma distinção en-
tre as instâncias que fazem políticas linguísticas e as que tradicionalmente
estudam as políticas linguísticas, isto é, que fazem o que Louis-Jean Calvet
chamou de politologia linguística. Trata-se de dois fazeres muito diferentes
e que às vezes se tocam. Entendo que as políticas linguísticas são uma área
das políticas públicas, concebidas e executadas por instituições que têm in-
gerência na sociedade, como os Estados, os governos, as igrejas, as empresas,
as ongs e associações, e até as famílias.
A maior parte das políticas linguísticas são realizadas sob outros no-
mes, embutidas dentro de outras políticas, de modo que podem não ser
imediatamente identificáveis. Isso não ocorre por um suposto secretismo
dos agentes de políticas linguísticas — os Estados, por exemplo —, mas por-
que as línguas e os seus usos estão conectados a todo o agir social humano.
Assim, uma política de saúde ou de defesa, de transporte ou editorial pode
ter implicações sobre os usos das línguas e gerar demandas de intervenção
sobre as próprias línguas.
Grande parte das políticas linguísticas não é feita por linguistas ou
mesmo com a participação de linguistas, e a maior parte dos linguistas pro-
fessionais, por exemplo no Brasil, pode não se envolver diretamente com a
concepção e execução de políticas linguísticas, embora o seu fazer muitas ve-
zes possa ser usado para determinadas políticas, por exemplo para instruí-
-las ou legitimá-las.
Em parte isso ocorre porque o mainstream da linguística do século XX,
que teve como uma das suas preocupações centrais constituir uma ciência —

1
Entrevista publicada em março de 2016.

234 Gilvan Müller de Oliveira


ciência entendida dentro de uma ótica mais ou menos positivista (e que não
pode por isso, naturalmente, incluir o político) — atuou na direção contrária:
fez um esforço para separar a linguística da política, da cultura e da histó-
ria — e também das demais ciências humanas — e para produzir uma visão
cada vez mais imanentista e sistêmica — estrutural — da língua, focada no
código. Evidentemente isso influenciou gerações de linguistas professionais
e acabou conduzindo ao desenvolvimento uma linguística de perfil mais teó-
rico, e mais ou menos restrita ao campo universitário.
Quando fiz o bacharelado em linguística, na minha graduação, no início
dos anos 1980, tive 53 disciplinas, mas nunca ouvi falar em política linguísti-
ca, área acadêmica com a qual fui me familiarizar minimamente apenas no
mestrado na Alemanha na segunda metade da mesma década. Não era algo
corriqueiro, naquele momento, pensar que numa graduação em linguística
houvesse necessidade de tratar de política linguística, ou de mostrar ao es-
tudante que são tomadas decisões sobre as línguas e realizadas ações sobre as
línguas, isto é, que as línguas são também moldadas pela intervenção humana.
A universidade, por outro lado, é um campo com lógica própria na socie-
dade, como diria Bourdieu. Tanto é que a maioria dos linguistas que conheço
são professores universitários, e é dentro da universidade que fazem as suas
carreiras e constroem suas práticas profissionais. Para todos os fins, conside-
ram-se muito mais professores universitários que linguistas.
Assim, é importante ver o termo das duas perspectivas: da perspectiva
das políticas linguísticas propriamente ditas, como políticas públicas, por
um lado, e da área acadêmica chamada de “política linguística” por outro,
que, para a CAPES, é uma área da linguística, dentro da subárea de sociolin-
guística ou de linguística aplicada, com uma história de uns sessenta anos no
meio universitário ocidental, e recém na adolescência no Brasil.
No entanto, dos anos 1980 para cá, a questão tem mudado bastante, e
desde o início do século XXI tem crescido exponencialmente o interesse dis-
ciplinar pela política linguística no Brasil e no mundo, o que chamei em outra
oportunidade de “a virada político-linguística” nos estudos linguísticos.
O crescimento do interesse pelas políticas linguísticas, e igualmente
pela área acadêmica chamada política linguística, tem relação com pressões
da sociedade brasileira sobre o Estado após o processo de redemocratiza-
ção, plasmado pela Constituição de 1988. Essa “nova república” que se inicia
mais concretamente naquele momento, e tem hoje quase trinta anos, com
altos e baixos (até mais baixos que altos), interrompeu o processo autoritá-
rio do Regime Militar e quis introduzir modificações no Brasil, quis introdu-

Políticas linguísticas
235
zir um modelo mais inclusivo de cidadania, mais aberto ao reconhecimento
da diversidade e da legitimidade das diferenças culturais e linguísticas dos
brasileiros.
A Nova República quis mudar algumas compreensões que o Brasil tinha
sobre si, tanto para acompanhar o movimento mundial de reconhecimento do
direito de ser diferente como para atualizar o conceito de cidadania, essencial
para o funcionamento de uma democracia, e isto precisava ser feito com a re-
visão das compreensões mais tradicionais sobre o país e sobre os brasileiros.
Essa movimentação trouxe à luz diferentes políticas de inclusão, de fo-
mento à diversidade, de reconhecimento de direitos culturais, de interna-
cionalização, de desnaturalização, enfim, dos pressupostos da “Ilha Brasil”
monolíngue e monocultural, perfeitamente ocidental e cristã, estabilizada
nos seus pressupostos pelo Estado Novo e depois pelo Regime Militar, e com
um espaço público criado e mantido por meios de comunicação do nosso
mainstream, em especial televisivos, de perfil ainda colonial e antidemocráti-
co, e que restringem fortemente o conhecimento dos brasileiros sobre o que
acontece no mundo e até mesmo dentro da própria “Ilha Brasil”.
No bojo dessa movimentação, e para citar apenas consequências linguís-
ticas mais palpáveis, criaram-se programas governamentais para os indíge-
nas, para os descendentes da imigração, para as fronteiras, para a integração
com os países vizinhos, para as línguas de sinais, para a língua portuguesa no
exterior, para os brasileiros nas diásporas, para a necessidade de aprendiza-
do de outras línguas, só para citar alguns poucos, programas que acabaram
precisando de linguistas e atraindo muitos deles, que tiveram já suas forma-
ções nesse novo quadro e que foram tocados pelo “bafo das multidões”, como
diria Leminski. Uns adotaram, para esses novos desafios, uma linha teórico-
-metodológica (heterogênea) cada vez mais chamada de “política linguística”,
com autonomia conceitual e crescente espaço nos meios universitários bra-
sileiros, enquanto outros tentam ainda adaptar as linhas teóricas do século
XX ao novo contexto, na esperança de que elas sejam úteis para resolver os
novos problemas.
O fato é que pouco a pouco a sociedade e o Estado foram abrindo as
portas da universidade e cobrando pesquisas, assessorias, formações para
os mais variados contextos, também no caso das línguas. Por outro lado, a
universidade foi também chamando a atenção para determinadas questões
linguísticas que acabaram tenho repercussões na sociedade.
Considero um avanço o que ocorreu com a linguística no século XX. Foi
muito importante propor um objeto linguístico em nova chave em relação aos

236 Gilvan Müller de Oliveira


pressupostos da filologia e da literatura, ótica predominante no estudo das
línguas no século XIX. Muito se aprendeu com a aventura epistemológica do
estruturalismo e suas variantes. Se hoje, talvez, podemos construir políticas
linguísticas mais adequadas, em parte é também porque temos um controle
conceitual muito maior sobre o código linguístico, conseguimos fazer descri-
ções mais refinadas, entender melhor a variação e a mudança, a constituição
das normas, entre outros aspectos, o que possibilita intervenções mais ade-
quadas no seu corpus, por exemplo, e também no seu estatuto.
Trata-se, então, de colocar esses ganhos epistemológicos e metodológi-
cos a serviço das sociedades, novamente citando Calvet, “porque afinal os
homens não existem para servir às línguas, mas as línguas, para servir aos
homens”. As políticas linguísticas nos dão uma conexão entre as línguas e
todo o resto do universo humano, seus interesses, suas necessidades, suas
visões de futuro.
Construir políticas linguísticas é participar da construção do futuro das
sociedades, mais especificamente, da nossa sociedade; fazer política linguís-
tica, pela própria noção de intervenção sobre as línguas, sem a qual ela não
existe, é atuar para um mundo mais justo neste campo específico das línguas
e dos seus usos, mais plural, mais democrático e mais aberto à ecologia de
saberes humanos. É reconhecer que também no campo do uso das línguas há
constantemente assimetrias de poder que favorecem a uns e calam os outros,
assimetrias que constantemente combateremos com os instrumentos da pla-
nificação ou planejamento linguístico, numa guerra que finalmente não te-
mos (historicamente) como ganhar definitivamente, mas na qual podemos
vencer muitas batalhas importantes, “combatendo o bom combate”.
Dificilmente poderíamos dar hoje uma visão totalmente exaustiva sobre
as variadíssimas iniciativas, trabalhos e pesquisas que merecem o nome de
“políticas linguísticas”, dada a amplitude, e dado, ainda, que nos encontramos
em plena revolução digital no campo das línguas, que traz tantas modifica-
ções para o campo.

Em quais países os estudos de políticas linguísticas se encontram mais


avançados?
Oliveira — Bem, para retornarmos à dicotomia que propus no início da en-
trevista, entre fazer política linguística e estudar as políticas linguísticas, em
primeiro lugar, cada país tem a política linguística de que necessita e que
pode realizar. Não se pode fazer qualquer política linguística em qualquer

Políticas linguísticas
237
lugar ou país simplesmente porque os fatores de poder, fatores geopolíticos,
condicionam fortemente cada movimento. Seria difícil falar de políticas lin-
guísticas mais avançadas ou mais atrasadas e mais adequado tentar entender
como é que um Estado, por exemplo, tenta resolver um problema que se lhe
coloca, com os meios de que dispõe e no horizonte da sua governança e das li-
mitações ideológicas da sua época e dos seus quadros gestores. Essa compre-
ensão nos ajudará a intervir para tornar essas políticas mais democráticas e
respeitosas da diversidade, se isso estiver ao nosso alcance.
Nesse caso, encontraremos, nos diversos países, problemas e interesses
políticos fundantes, que fazem com que o Estado e suas instituições, mas
também o mercado ou a sociedade civil, se concentrem em ações diversas no
âmbito das políticas linguísticas. Para uns, como a Índia, foi preciso reconhe-
cer uma multiplicidade de línguas para garantir a governança e a adesão ao
Estado e diminuir os conflitos. Para outros, como o Brasil, a continuidade da
dominação ideológica, econômica e militar do segmento luso-brasileiro so-
bre outros segmentos constitutivos da cidadania garantiu a força para levar
adiante a imposição do português como língua única, ainda que lentamente
se tenha permitido algum avanço, bastante tímido ainda, de iniciativas para
o plurilinguismo, como comentei acima.
Agora, em se tratando de estudos acadêmicos sobre as políticas linguís-
ticas, evidentemente o que acontece nas outras áreas universitárias também
acontece nesta: uma grande concentração de publicações em língua inglesa e
nos países anglo-saxões, simplesmente porque eles têm universidades muito
ágeis em organizar publicações com especialistas do mundo todo, isto é, em
centralizar lá pesquisas feitas em inúmeros enquadres e países, editoras efi-
cientes em distribuir os resultados e obter lucros com eles e em quase mono-
polizar os olhares e hábitos dos acadêmicos do mundo todo que, assim, quase
não se enxergam e conhecem entre si exceto passando pelos centros de redis-
tribuição anglo-saxônicos ou, em menor escala, de outros países europeus.
Tenho tentado sempre ter certa autonomia para diversificar essas rela-
ções. Assim, por um lado, represento a Universidade Federal de Santa Catari-
na (UFSC) no Programa de Políticas Linguísticas do Núcleo de Educação para
a Integração (NEI) da AUGM Associação de Universidades do Núcleo Monte-
vidéu (http://grupomontevideo.org/sitio/), uma reunião de 56 grupos univer-
sitários que pesquisam políticas linguísticas na macrorregião do Mercosul,
publica uma revista especializada e realiza a cada dois anos um Encontro
Internacional de Investigadores de Políticas Linguísticas das universidades
públicas da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. É uma for-

238 Gilvan Müller de Oliveira


ma de nos conhecer diretamente, colaborar, estabelecer pautas de pesquisa
nossas, relevantes para nossa região.
Por outro lado, tenho tido a oportunidade de participar de eventos orga-
nizados pelo Programa Informação para Todos (IFAP) da UNESCO, em espe-
cial na Rússia, como por exemplo, entre outros, o UGRA Expert Meeting on
Multilingualism in the Cyberspace, realizado na Região Autônoma de Kanthy-
-Mansiysk, nos Montes Urais, em 2015, para as quais afluem pesquisadores de
mais de trinta países, muitos deles de países sobre os quais temos pouca in-
formações aqui, como os da Ásia Central, dotados de tradições muito interes-
santes de estudo das políticas linguísticas. Como o IFAP/UNESCO está neste
momento realizando as discussões para a elaboração do Atlas das Línguas do
Mundo, que virá a substituir o Atlas Mundial das Línguas Ameaçadas (http://
www.unesco.org/languages-atlas/), temos aí um observatório privilegiado so-
bre o que acontece em muitas regiões do mundo, através de um contato direto
com os pesquisadores.
Finalmente, no ano passado fui eleito secretário executivo adjunto da
Rede Internacional para a Diversidade Linguística MAAYA, presidida pelo ex-
-ministro da Educação do Mali e criador da Academia Africana das Línguas
(ACALAN), da União Africana, Adama Samassekou, e que é também uma rede
diversificada de pesquisadores de todos os continentes.
Seria importante nossos pesquisadores tentarem, na medida do possível,
estabelecer e fortalecer relações acadêmicas com redes menos concentradas
em dois ou três países, para podermos criar uma cooperação acadêmica mais
diversificada, aprender e ensinar nesses ricos contextos.

Em 1999, o senhor ajudou a fundar o Instituto de Investigação e Desenvol-


vimento em Política Linguística (IPOL) e, entre 2010 e 2014, o senhor esteve
na direção do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP). Pode
nos contar como foram essas experiências? Qual é a importância do IPOL,
e do IILP para a comunidade de países lusófonos?
Oliveira — É difícil contar essas experiências de anos assim muito concisa-
mente, mas aprecio muito o percurso que fiz junto ao IPOL e ao IILP porque
me permitiu participar de muitas formas na elaboração e na execução de po-
líticas linguísticas, com o que aprendi e refleti muito sobre o campo.
O IPOL, Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguísti-
ca (http://e-ipol.org/), foi criado em 1999 por um pequeno grupo de pessoas com
alguma experiência ou vontade de se dedicar de forma mais específica ao cam-

Políticas linguísticas
239
po. O grupo vinha da assessoria à educação escolar indígena e às suas línguas,
do campo da educação popular, da reflexão sobre o ensino de línguas estran-
geiras, e foi formado por brasileiros e argentinos. A participação argentina foi
fundamental, porque eles tinham uma tradição bem mais consolidada, muitas
reflexões e publicações e também contatos com pesquisadores de outros países.
A partir da sua fundação, o IPOL foi trabalhando para ser um “think
tank” em políticas linguísticas, para chamar a atenção do Estado sobre a
questão do multilinguismo, induzi-lo — doucement, quando possível — à
criação e execução de políticas, colocando-se em posição de ajudar na elabo-
ração e implementação dessas políticas, além de refletir e escrever sobre as
experiências, para registrar as experiências, de modo a deixar cada vez mais
patente a importância das línguas para a construção da inclusão social e de
uma cidadania ampliada. O objetivo sempre foi construir um Brasil e uma
América Latina diferentes do/da que tínhamos, identificar fraturas e tensões
que permitissem avançar e reconhecer o país como plurilíngue.
Associo meu percurso junto ao IPOL aos projetos que conseguimos en-
caminhar e que marcam hoje, já, um pouquinho da história das políticas lin-
guísticas brasileiras. Afinal, política linguística, finalmente, não é a prática de
intervir no campo de funcionamento das línguas? Então procuramos e locali-
zamos onde as decisões sobre as línguas são tomadas e de que modo podíamos
colaborar para qualificar política e tecnicamente as decisões e os programas
delas decorrentes. Dividimos o campo das políticas linguísticas, estrategica-
mente, em programas: línguas indígenas, línguas alóctones ou de imigração,
ensino do português, línguas estrangeiras, no caso das políticas linguísticas
internas, e Mercosul e Lusofonia, como um horizonte de atuação no campo
das políticas linguísticas externas. Isso foi há quinze anos, mais ou menos no
ano 2000, e desde lá o IPOL atuou em projetos em todos esses campos, que co-
locam as línguas, como o nome diz, numa relação de gestão por um Estado ou
por um conjunto de Estados. Havendo gestão de línguas, há programas, ações,
legislação, financiamentos, capacitação de quadros, enfim, há intervenção e aí
está o canteiro onde nascem e crescem as políticas linguísticas.
O primeiro trabalho em que o IPOL pode participar mais concretamente
foi um conjunto de projetos no município de Blumenau, junto com a Secre-
taria Municipal de Educação, num leque de ações que foi desde a criação do
primeiro sistema de escolas bilíngues públicas não indígenas do Brasil (nove
escolas multisseriadas rurais alemão-português e uma escola bilíngue polo-
nês-português) até a criação do Conselho Municipal da Língua Alemã, passan-
do pela formação continuada de professores de línguas do município (alemão,

240 Gilvan Müller de Oliveira


inglês e português) e pela valorização do alemão falado no Vale do Itajaí em
seminários, um deles intitulado, por exemplo “Silenciamento linguístico: 60
anos de repressão à língua alemã em Santa Catarina”. Ali foi possível, em dois
anos, visualizar políticas que ajudariam a tornar a região, outra vez, uma área
bilíngue português-alemão, políticas, no entanto, que não tiveram continuida-
de depois da mudança do governo municipal ocorrida em 2004.
Três políticas linguísticas muito importantes que o IPOL teve a oportu-
nidade de iniciar, ou de participar mais intensamente, foi a dos processos
de cooficialização de línguas em nível municipal, iniciada em 2002 em São Ga-
briel da Cachoeira, no Amazonas, a do Projeto Escolas Interculturais Bilíngues
de Fronteira (PEIBF) do Setor Educacional do MERCOSUL (MEC Brasil), em
parceria com a Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela, iniciado em 2005
e a do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), a partir de 2006,
e que conduziu aos inventários de línguas e ao reconhecimento de línguas
brasileiras como patrimônio cultural do Brasil.
Hoje a cooficialização de línguas em nível municipal, através de lei pro-
mulgada pela câmara de vereadores, é um verdadeiro movimento social no
Brasil, que conta já com onze línguas oficializadas em dezenove municípios,
sete línguas indígenas e quatro línguas alóctones ou de imigração, em sete es-
tados brasileiros nas regiões norte, centro-oeste, sudeste e sul. Em 2015, esses
diversos municípios e outros com potencial de oficializar as línguas faladas,
às vezes majoritariamente, pelos munícipes, encontraram-se em Florianópo-
lis no I Encontro Nacional dos Municípios Plurilíngues (I ENMP) para discu-
tir a regulamentação das leis e sua implementação. Especialmente para esse
encontro foi organizado por Rosângela Morello, coordenadora geral do IPOL,
o livro Leis e línguas no Brasil, que reúne o corpo legislativo dos municípios e
faz várias discussões sobre esta política.
Quanto ao Inventário Nacional da Diversidade Linguística, administra-
do pelo IPHAN/MINC, o IPOL foi um estimulador de primeira hora para a
criação do programa, a partir de 2006, através de contato com a Comissão de
Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, à época presidida pelo deputa-
do Carlos Abicalil, para iniciar as conversações com o IPHAN em busca de re-
conhecer que as línguas faladas pelos brasileiros, isto é, as línguas brasileiras
(indígenas, de imigração, de sinas, crioulos, etc.) também são patrimônio cul-
tural da nação, as línguas de todos os grupos sociais que contribuíram para a
construção do país. Foi um longo percurso de discussão político-linguística,
numa época em que o IPHAN ainda tinha muitas dificuldades conceituais
com esse novo âmbito de trabalho.

Políticas linguísticas
241
No projeto Escolas Interculturais Bilíngues de Fronteira (PEIBF), nasci-
do de iniciativa argentina a partir de acordos entre os presidentes Kirchner
e Lula em 2005, assessoramos a Secretaria de Educação Básica do MEC na
criação do quadro conceitual e jurídico do projeto, sempre em trabalho con-
junto com a Argentina, no início, e depois também com o Paraguai, Uruguai e
Venezuela, para onde o projeto se expandiu. Coordenei na época a equipe de
assessoria do IPOL, que se deslocava permanentemente nas fronteiras, entre
o Chuí, no Rio Grande do Sul e Pacaraima, em Roraima, passando por várias
outras cidades gêmeas nas fronteiras do Brasil com os países citados, mas
também em Brasília e Buenos Aires, sobretudo, nas reuniões de planejamen-
to dos ministérios de educação envolvidos. Fazíamos a formação docente dos
professores responsáveis pelo “cruze”, a estratégia central do projeto, pela
qual as maestras argentinas cruzavam a fronteira para o Brasil e ensinavam
em espanhol para as crianças brasileiras, enquanto no mesmo horário as
professoras brasileiras atravessavam e ensinavam aos alunos argentinos em
português, desenvolvendo projetos didáticos bilíngues em comum, através do
ensino via pesquisa. Foi um projeto que refletiu uma forma nova de olhar para
a fronteira e para os milhões de cidadãos que vivem na faixa de fronteira,
bem como para os nossos vizinhos, através da integração das comunidades
de aprendizado que são as escolas.
Em 2010, fui convidado para ser diretor executivo do Instituto Interna-
cional da Língua Portuguesa (IILP), da Comunidade dos Países de Língua Por-
tuguesa (CPLP), situado na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, um cargo
ocupado de forma rotativa por linguistas dos nove estados-membros da orga-
nização. De 2010 a 2014, coube ao Brasil ter, então, o cargo de direção. O site
do IILP é o http://www.iilp.cplp.org/ .
Essa indicação se deu porque desde 2006 fiz parte da COLIP, a Comissão
para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da
Língua Portuguesa, da Secretaria de Educação Superior (SESU) do MEC, que
chamávamos apenas de Comissão da Língua Portuguesa, junto com um gru-
po de linguistas brasileiros, vários deles meus professores, e que tinha como
propósito central realizar os estudos e discussões para a criação e o estabe-
lecimento do Instituto Machado de Assis, o órgão brasileiro que cuidaria da
promoção da língua portuguesa no exterior.
No bojo da COLIP, foi possível discutir muitos dos tópicos que depois
seriam relevantes no meu trabalho junto ao IILP e me enfronhar nas políticas
linguísticas externas. Mais do que isso, a COLIP assumiu também o papel de
Comissão Nacional Brasileira do IILP (cada país tem a sua comissão nacional,

242 Gilvan Müller de Oliveira


já que o IILP é uma organização internacional), e com esse papel pude acom-
panhar a coordenação em viagens a Portugal para os trabalhos de atualização
do regimento do IILP, na sede da CPLP, ou para assistir aos debates parlamen-
tares na Assembleia da República Portuguesa sobre o Acordo Ortográfico de
1990. Fui ainda duas vezes ao Cabo Verde, como membro da Comissão Nacio-
nal Brasileira do IILP, para reuniões do Conselho Científico da instituição, de
modo que passei a ter um bom conhecimento dos objetivos e dos modos de
funcionamento do instituto, e consequentemente me habilitei a ser escolhido
como diretor executivo quando a vez coube ao Brasil.
O Instituto Machado de Assis (IMA) nunca foi criado, e parti para Cabo
Verde em 2010, logo após ter sido realizada, em Brasília, a I Conferência In-
ternacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que
reuniu pela primeira vez os ministros das Relações Exteriores dos Estados-
-Membros da CPLP para um planejamento internacional da nossa língua co-
mum, e que foi plasmado no Plano de Ação de Brasília para a Promoção, a
Difusão e a Projeção do Português (PAB).
Foi esse documento muito importante, assinado pelos presidentes das
Repúblicas dos Estados-Membros, que serviu de norte para a minha gestão
à frente do IILP. O PAB atribuía ao Instituto Internacional da Língua Portu-
guesa várias missões importantes, entre as quais eu destacaria a criação do
Portal do Professor de Português Língua Estrangeira/Língua não materna
(PPPLE) e do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC).
O PPPLE (http://www.ppple.org/) é uma plataforma digital comum a to-
dos os países de língua portuguesa, e na qual cada um, através do trabalho
das suas equipes técnicas, disponibiliza unidades didáticas para o ensino do
português como língua não materna, a partir de uma metodologia conven-
cionada. Hoje estão já no PPPLE quase 400 unidades didáticas de Angola,
Brasil, Moçambique, Portugal e Timor-Leste, o que significa material para
cerca de 800 horas-aula, que os professores do mundo todo podem usar
gratuitamente para montar os seus cursos de língua. Entre as novidades do
portal está a da superação da ideia de que o aluno de português como língua
estrangeira tem de optar entre o português do Brasil e o português de Portu-
gal apenas, porque o portal permite, por exemplo, que um professor chinês
de português ensine português pelas unidades didáticas de Moçambique,
sem passar por Brasil ou Portugal, mas permite também que o professor
ensine o português desde um percurso mais cosmopolita e internacional,
usando unidades didáticas provenientes dos vários países, e fazendo o aluno

Políticas linguísticas
243
deslocar-se entre a América, a Europa, a África e a Ásia, continentes onde a
língua portuguesa é falada.
Já o VOC — Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa,
(http://voc.iilp.cplp.org/) é uma grande base de dados lexicais, decorrente do
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90), e que aplica as ba-
ses do AO90 a mais de 280 mil palavras da língua portuguesa. É constituído
pelos Vocabulários Ortográficos Nacionais dos Estados-Membros da CPLP, de
modo que coleta contribuições lexicais dos vários países, mas mantém tam-
bém, ao mesmo tempo a identidade nacional do léxico. Antes do VOC, ha-
via o vocabulário ortográfico do Brasil e de Portugal, e os demais países não
possuíam um instrumento comparável. Negociamos a cedência, ao IILP, dos
vocabulários brasileiro e português, eles foram compatibilizados em termos
de disposição digital da base e ao mesmo tempo iniciaram-se as construções
dos Vocabulários Ortográficos Nacionais dos demais países, de modo que
pude entregar o VOC, ao final do meu mandato, em julho de 2014, com os
vocabulários do Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Timor-Leste já
integrados.
Foi possível realizar ainda muitas outras ações no período da direção
brasileira do IILP, que melhoraram a estrutura da instituição e lhe deram
visibilidade; fiz palestras em 36 cidades em quinze países, organizamos coló-
quios internacionais sobre os temas estratégicos do Plano de Ação de Brasília
em quatro países, envolvendo discussões sobre o português na internet, nas
organizações internacionais, nas diásporas, e no contexto do multilinguismo
dos países da CPLP.
Trata-se de uma organização muito inovadora na sua concepção, que
permite ver o português como língua comum a nove países, como uma ver-
dadeira língua internacional, aos moldes do século XXI, mas ao mesmo tem-
po envolver a cada um dos países gestão da língua, no seu financiamento, de
modo que a língua comum também seja expressão das identidades desses vá-
rios países que a têm como oficial. Foi, sem dúvida, um grande aprendizado
para um linguista da área das políticas linguísticas poder atuar num órgão
executivo como o IILP por quatro anos.
Nessas duas experiências, do IPOL e do IILP, pude atuar em políticas
linguísticas concretas, uma orientação que procurei dar à minha prática
profissional desde o meu primeiro emprego, como linguista, na Assessoria
de Estudos e Pesquisas da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), nos anos
1985-1986.

244 Gilvan Müller de Oliveira


Quais são os principais temas que ainda precisam ser discutidos em políti-
cas linguísticas, em especial no cenário brasileiro? Como estão os estudos
de políticas linguísticas no Brasil?
Oliveira — Políticas linguísticas são uma faceta das políticas públicas dos paí­
ses, das organizações internacionais, das corporações e instituições. Nesse
sentido, são um fazer permanente do homem, sempre adaptadas à sua época,
aos interesses geopolíticos, econômicos e culturais em jogo em determina-
da fase histórica. Não se esgotam, mudam de foco; não se completam, estão
sempre em construção. Então talvez essa pergunta queira focalizar esse atual
momento histórico do Brasil, os desafios que estamos vivendo nessa segunda
década do século XXI.
Vou responder lançando mão da contribuição de Richard Ruiz, de 1984,
no seu artigo “Orientations in Language Planning”, no qual apresenta três
grandes perspectivas dentro das quais as políticas linguísticas funcionam e
que captam os esforços geopolíticos dos Estados na sua gestão do universo
linguístico sob seu poder ou alcance.
Ruiz divide o campo das orientações em três: língua como problema,
língua como direito e língua como recurso. Se mapearmos as políticas lin-
guísticas, veremos que elas, em grande parte, derivam de uma das três preo-
cupações e transcorrem dentro de uma das três chaves.
Assim, quando o Estado Novo brasileiro instituiu a Campanha de Na-
cionalização do Ensino — com as suas ações de proibir o uso de línguas de
comunidades descendentes da imigração, algumas delas, então, já faladas em
território brasileiro há mais de cem anos —, estava claramente vendo as lín-
guas como problema. Quando a Constituição de 1988, no entanto, incluiu a
temática indígena em seus artigos 210, 215, 231 e 232 e reconheceu aos índios
“sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos
originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”, está no segundo
quadro, que trata a língua como direito. Quando os países de língua portugue-
sa, finalmente, criam um instituto para promover a sua língua no exterior,
tratam a língua como recurso, nesse caso um recurso do “soft power”, político,
diplomático, com desdobramentos econômicos.
Vivenciamos um momento histórico em que língua como direito e lLíngua
como recurso orientam grande parte das políticas linguísticas. Boa parte das
ações do IPOL, acima mencionadas, foram possíveis, nos últimos quinze anos,
dado o crescimento da ideia de que as comunidades têm direito ao uso das
suas línguas. Mas ainda mais forte é a expansão das políticas que se orientam
pela ideia de língua como recurso, especialmente na relação com a interna-

Políticas linguísticas
245
cionalização dos mercados, do fluxo de pessoas nas migrações internacionais,
dos fluxos da informação e do conhecimento na internet, em forma digital.
Parece ser verdade, como dizia Sylvain Auroux, que a digitalização das
línguas e dos conteúdos expressos nas línguas é a terceira revolução tecno-
lógica do campo linguístico, de uma importância comparável à da invenção
da escrita e depois da invenção da gramática. Essa digitalização dos conhe-
cimentos, em que a língua entra não apenas como veículo das informações,
mas também como organizador dos conteúdos, como, por exemplo, ocorre
no caso dos buscadores da internet, que procuram diretamente pelos nomes
linguísticos das coisas, modifica e aprofunda dramaticamente a compreen-
são de como e em que sentido as línguas são recursos.
Tive a oportunidade de discutir isso em um texto de 2009, publicado em
2010 na Revista Synergies Brésil com o título de “O lugar das línguas: a Améri-
ca do Sul e os novos mercados na nova economia”, e que serviu para o debate
com o linguista francês Louis-Jean Calvet no encerramento do Ano da França
no Brasil, ocorrido na Universidade de Brasília.
Os vários sentidos em que as línguas podem ser entendidas como recursos
refletem-se na sua preparação para diversos fins, muitos deles surpreenden-
temente novos. O crescimento acelerado da necessidade de aprendizado de
línguas estrangeiras e a organização tecnologicamente diferenciada das opor-
tunidades para este aprendizado, desde a proliferação das escolas bilíngues até
os aplicativos de celular para ensino de línguas, a multiplicação do número de
línguas oficiais nos mesmos espaços políticos, a preparação das línguas com
uma multiplicidade de bancos de dados, voltados a torná-las aptas para funcio-
nar nos novos aplicativos são alguns poucos exemplos desta tendência.
Essas tendências, associadas à internacionalização e à digitalização das
línguas, serão fundamentais nas décadas que virão e já estão modificando
profundamente os instrumentos e dispositivos tradicionais desenvolvidos
para as línguas na época pré-digital. Um exemplo é o da gramática, que está
deixando de se orientar, em primeira linha, para um usuário humano, que a
consulta quando tem alguma dúvida, para se orientar a um usuário máqui-
na, que intervém já na escrita de um texto, aplicando conhecimentos de uma
gramática desenvolvida para ela. Outro exemplo é o da fixação das normas
linguísticas, num momento em que os Estados Nacionais já não são o alfa e o
ômega do processo, mas têm de ceder soberania a organizações internacio-
nais, ou de fonias, que realizam um trabalho de normatização no quadro de
línguas pluricêntricas, compartilhadas por vários países. Ou ainda, em casos
mais radicais, em que são empresas transnacionais que passam a normatizar

246 Gilvan Müller de Oliveira


crescentemente as línguas através dos seus programas de edição de textos e
de outras aplicações das suas bases de dados digitais.
A própria noção de direito linguístico vem sendo modificada pela noção
de língua como recurso, na medida em que já não basta poder falá-la ou es-
crevê-la, mas é preciso ainda que ela também possa ser um veículo de inclu-
são digital, de modo a evitar a chamada “brecha digital” que separa aqueles
que têm acesso à rede na sua própria língua daqueles que não o têm. E, ainda,
porque os países vão se transformando paulatinamente, em hubs linguísticos
e deixando de ser os Estados Nação que foram um dia.
Assim, para abreviar a conversa, estou sugerindo que a área mais dinâmi-
ca das políticas linguísticas nas próximas décadas ocorrerá com as políticas
da chave de língua como recurso, na gestão do multilinguismo e na criação de
soluções plurilíngues onde antes se propunham soluções monolíngues.
Precisamos ficar atentos a esses acontecimentos e às novas políticas que
daí decorrerão. Estamos numa fase, no Brasil, de grande crescimento do inte-
resse pela política linguística, exatamente pela percepção da necessidade de
intervir no campo das línguas, num fenômeno que chamei, há uns anos, de a
“virada político-linguística”. A linguística do século XXI será grandemente e
cada vez mais política linguística.

O senhor poderia sugerir leituras no tema “políticas linguísticas” para os


leitores da ReVEL?
Oliveira — Bem, são tantas as direções em que leituras podem ser feitas…
Isso vai depender dos interesses específicos dos leitores. No decorrer do tex-
to, citei algumas obras que podem ser relevantes, entre tantas, mas em vez
de passar uma bibliografia prefiro recomendar que as pessoas fiquem aten-
tas em identificar as políticas linguísticas onde elas estão ocorrendo, olhar
para a língua e as línguas com uma perspectiva política, que considera que
as línguas não são fenômenos da natureza, mas profundamente moldadas pe-
las experiências humanas e sujeita, sempre, a intervenções de todo o tipo. E,
claro, pensar que se estudamos as políticas linguísticas, se observamos as ex-
periências passadas ou em curso, se escrevemos e analisamos o assunto, isto
serve para que nos habilitemos a colocar em marcha um projeto de futuro,
expresso em políticas públicas para maior inclusão cidadã, mais democracia
e menos desigualdade de acesso à produção de conhecimento por parte das
diferentes comunidades linguísticas. O linguista, como outras profissões, é
também chamado a contribuir com a construção de uma sociedade mais jus-
ta, é para isso que trabalhamos.

Políticas linguísticas
247
Pragmática1
Heronides Moura

Na sua concepção, qual é a linha divisória entre semântica e pragmática?


Moura — Essa é uma questão ainda aberta, há muitas respostas. Há alguns
anos, no meu livro Significação e contexto, defendi que devemos reservar
para a pragmática o estudo dos conteúdos informativos e inferenciais que
dependam estritamente da intenção do falante, ou seja, que envolvam uma
suposição sobre o que está representado, sob a forma da linguagem, na mente
do falante. Meu interesse era evitar que a linha divisória fosse traçada pelo
contexto, o que dá a fórmula, que eu queria evitar, semântica + contexto =
pragmática. A ideia é que proposições acessíveis aos falantes, pressupostas,
podem entrar no cálculo semântico normalmente, pois tais proposições de
conhecimento comum, linguisticamente codificadas, não dependem em nada
de inferências sobre a mente do interlocutor. Uma aplicação recente desse
princípio se encontra na tese de Maria Leonor dos Santos, intitulada Condi-
cionais e contexto. Ela dá exemplos como este: “Se o árbitro não viu a cabe-
çada do Zidane, um de seus auxiliares viu”. Consideramos, como falantes do
português, que esse condicional expresse uma verdade, mas para chegarmos
a essa verdade tomamos por base uma informação de conhecimento comum,
externa à sentença em si: na final da copa de 2006, Zidane deu uma cabeçada
num jogador italiano e foi expulso da partida pelo árbitro. Se dispomos dessa
informação, consideramos o condicional citado como expressando uma ver-
dade. Ou seja, uma sentença, linguisticamente expressa, “puxa” uma série de
outras sentenças não expressas, mas linguisticamente codificadas, que aju-
dam a calcular o valor de verdade da sentença em causa. Isso implica que
essas sentenças que dependem de outras sentenças não expressas não têm
condições de verdade ou têm condições de verdade dependentes da pragmá-
tica? Não, necessário é ampliar as condições de verdade de uma sentença de

1
Entrevista publicada em março de 2007.

248 Heronides Moura


modo a abarcar informações contextuais transparentes para os interlocuto-
res. O uso dessas informações contextuais pode ser regular e sistemático, e
totalmente independente de suposições sobre o que se passa na mente dos
falantes, limiar a partir do qual entraríamos na seara da pragmática.
Outro tipo de delimitação é o seguinte: se determinado fenômeno, consi-
derado como caracteristicamente pragmático, recebe um tratamento formal
compatível com uma representação semântica e funciona segundo as mes-
mas regras e condições dessa representação semântica, esse fenômeno deve
ser considerado semântico e não pragmático no âmbito dessa teoria. Vou dar
um exemplo. Na teoria do léxico gerativo (Pustejovsky, 1995), é possível atri-
buir duas proposições à sentença “João começou o livro”: “João começou a
ler o livro” e “João começou a escrever o livro”. Num primeiro momento, já se
poderia arguir que essas atribuições de sentido dependem de conhecimento
de mundo e que a parte faltante na sentença é agregada no formato de uma
explicatura, ou seja, um acréscimo pragmático à proposição inicial. Mas o que
faz a teoria do léxico gerativo? Ela está ancorada em regras gerativas compo-
sicionais e em representações lexicais enriquecidas. Sem entrar nos detalhes
técnicos, notemos que, para chegar àqueles sentidos, é preciso fazer uso, em
primeiro lugar, da regra composicional de coerção de tipo, em que um cons-
tituinte semântico altera (coage) o tipo semântico de outro tipo com o qual se
combina. Assim, o verbo “começar” claramente pede como complemento um
constituinte de tipo eventivo, como em “João começou a correr”. No entanto,
na sentença “João começou o livro”, o substantivo “livro” não é um evento,
mas isso geraria um choque semântico, como em “Comi Coca-Cola”. Por que
esse choque não ocorre? Porque “livro” é convertido num evento. E é conver-
tido num evento graças à representação enriquecida do item lexical “livro”,
que deve conter informações não apenas de inserção categorial, do tipo “é
uma publicação”, mas também sobre a forma de criação (“um livro é escrito
por um autor”) e sobre sua função (“um livro serve para ser lido”). Logo, na
representação semântica do item lexical “livro”, há dois eventos embutidos:
o evento de ler o livro e o evento de escrevê-lo. Se é assim, a coerção de tipo
pode se aplicar: o signo “livro”, que não é do tipo eventivo, é reconvertido num
evento, de ler ou escrever o livro, e a parte faltante na sentença “João come-
çou o livro” pode ser inferida com base num mecanismo puramente semân-
tico, sem o recurso a qualquer elemento pragmático. Mas, para isso, é preciso
aceitar que o conteúdo semântico do signo “livro” nos informe que o objeto
a que ele se refere serve para ser lido… A função tipicamente associada a um
objeto poderia ser considerada como conhecimento enciclopédico e, como

Pragmática
249
tal, de natureza pragmática. Mas se tal informação for inserida num mecanis-
mo de cálculo semântico, ele passará a ser semântico… Essa segunda possi-
bilidade de delimitação pode ser compatível com a que propus acima: se “um
livro serve para ser lido” é informação consensual disponível para os falantes
de uma comunidade, então pode entrar no cálculo semântico sem problemas,
pois não depende de inferências concernentes à mente dos falantes.
Outra possibilidade de delimitação é considerar que todo elemento
linguístico que funcione como dêixis, ou seja, de forma indicial, seja consi-
derado dependente da pragmática. O exemplo mais claro desses elementos
indiciais são os pronomes pessoais. Assim, uma sentença como “Eu comecei
o livro” só ganharia sentido no campo da pragmática, pois o pronome “eu” é
um elemento dêitico que só adquire sentido no momento da enunciação. E
aí deveria intervir uma explicatura que desse valor a esse elemento indicial,
convertendo-o num nome próprio, por exemplo: “Heronides começou o li-
vro”. Essa linha de demarcação dos campos da semântica e da pragmática
muitas vezes implica não ser possível obter uma representação semântica
pura, sem o recurso à pragmática, pois praticamente toda sentença contém
elementos dêiticos. Ora, note que a troca de “eu” por “Heronides” em nada
altera o sentido das outras palavras que formam a sentença e que as mesmas
regras de interpretação que funcionam para “Heronides começou o livro”
funcionam também para “Eu comecei o livro” (desconsiderando a questão
da pessoa gramatical). Inclusive a regra, que acabamos de ver, que permite
interpretar “Heronides começou o livro” como “Heronides começou a es-
crever o livro” ou como “Heronides começou a ler o livro”, aplicar-se-ia da
mesma forma à sentença “Eu comecei o livro”. Assim, há um plano de repre-
sentação semântica que existe independentemente do plano pragmático. A
diferença entre o uso do dêitico e o uso do nome próprio é que o primeiro
é uma variável e o segundo é uma constante, e isso é tudo o que importa
para a interpretação semântica. Note, aliás: para a perfeita interpretação,
na vida real, de “Heronides começou o livro”, é preciso que eu saiba quem
é o tal Heronides de que se está falando, de tal modo que voltamos à prag-
mática mesmo com o uso do nome próprio! O nome próprio também é um
índice, também aponta para um referente, logo é preciso saber para quem
ele aponta! A diferença entre um índice como “eu” e um índice como “He-
ronides” é que “Heronides” designa sempre um mesmo indivíduo, ao passo
que “eu” designa indivíduos específicos a cada enunciação. “Heronides” de-
signa rigidamente, é um designador rígido, na terminologia de Kripke. Bem,
se é assim, então também só podemos interpretar “Heronides começou o

250 Heronides Moura


livro” a partir da pragmática? Se não sei que indivíduo o signo “Heronides”
designa, não sei nada sobre as condições de verdade dessa sentença? Claro
que não! As condições de verdade dessa sentença são tais que existe um
referente que recebe o nome de “Heronides” e que esse indivíduo, seja qual
for, começou a ler ou escrever um livro específico, assim como as condições
de verdade da sentença “Eu comecei o livro” são tais que existe um indiví-
duo que começou a ler ou escrever um livro específico. Bem, ainda pode-
mos complicar mais o cenário, e lembrar que a própria expressão “o livro”,
que é uma descrição definida, se refere a um objeto específico, e não a um
livro qualquer, mas simplesmente não sei que livro é esse, se não disponho
do contexto. Esse caráter dêitico de “o livro” anula a possibilidade de dar
sentido à sentença “Heronides começou o livro”? Claro que não! Exigir que,
para haver uma proposição, seja preciso dar valor a todas as expressões in-
diciais que ocorrem numa sentença equivale a exigir da semântica uma foto
precisa das situações de comunicação da linguagem humana. Ou seja, para
um falante f, dirigindo-se a um ouvinte o, num tempo t, e numa circuns-
tância comunicativa específica, é de fato importante definir precisamente
as denotações de “Heronides” e “o livro”, mas exigir que tais especificações
sejam representadas semanticamente é cobrar da semântica algo que não é
de seu escopo. Como diz Jorge Campos (2004), a linguagem humana pode
ser examinada segundo múltiplas interfaces, e só quando há uma interface
com a comunicação é que se deve representar as denotações dos elementos
dêiticos. A semântica não está voltada para a representação de cenários es-
pecíficos de comunicação humana (esse aliás talvez seja um dos objetivos
da pragmática), embora ela deva fornecer uma representação a partir da
qual seja possível analisar esse uso comunicativo pelos seres humanos. Sem
semântica, não há comunicação, mas a semântica sozinha não é condição
suficiente para a comunicação.
Há pontos muito controversos na delimitação das fronteiras da semânti-
ca e da pragmática. Um exemplo é o da denotação das expressões vagas. Um
caso clássico é o dos adjetivos graduais, como “alto” ou “rico”. Qual o valor de
verdade de uma sentença como “João é alto”? Nitidamente, precisamos, em
primeiro lugar, definir a denotação do adjetivo “alto”, mas isso não é possível
sem o recurso a um contexto muito específico. Não é o caso de falta de in-
formação sobre o mundo (imaginemos que João tem 1,80m), mas de falta de
especificação da palavra “alto”. Se aplicada num contexto familiar, de compa-
ração entre irmãos, por exemplo, “João é alto” pode ser verdadeira, mas se re-
lativa a jogadores de vôlei ou basquete, essa sentença é falsa. Devemos então

Pragmática
251
dizer que sentenças com adjetivos graduais não têm valor de verdade, sendo
totalmente definidas a partir de negociações pragmáticas sobre os sentidos
das palavras? Onde traçar a fronteira entre sentido fixo e negociação?
Um aspecto que não se pode perder de vista é que, para certos casos, a
atribuição de verdade à sentença com expressões vagas não depende do con-
texto: por exemplo, se João tem 2,0m, ele será alto em qualquer contexto de
nosso mundo real (podemos é claro imaginar mundos possíveis em que ho-
mens de 2 metros não sejam altos, mas aí é outro problema). Uma modelo ano-
réxica de 50kg será certamente magra em qualquer contexto… Logo, há uma
parte fixa na denotação das palavras vagas e uma parte sujeita à flutuação.
Podemos ampliar o alcance da semântica e considerar que a parte flutuante
da denotação indica que uma expressão vaga é um predicado comparativo, de
dois argumentos, e quando se diz “João é alto”, se exprime de fato, no plano
da forma lógica, a comparação “João é mais alto que a média de indivíduos
pertencentes à classe c”. Assim, se c indica a classe de irmãos de João, então
“João é alto” é uma sentença verdadeira; se c indica a classe de jogadores de
basquete, então “João é alto” é uma sentença falsa. Em suma, a semântica de
expressões vagas se baseia não em uma única interpretação, mas numa classe
de interpretações vericondicionais. Analisamos a verdade de uma sentença
como “João é alto” com base nessas diferentes interpretações possíveis (ver
Chierchia, 2003: 225).
Um caso um pouco mais sutil é o da delimitação precisa das condições
de verdade de uma sentença. Se um professor pede ao aluno para abrir a
porta da sala, e o aluno vai lá e bate com uma marreta na porta até que ela
abra, podemos dizer que o aluno seguiu as instruções contidas no pedido do
professor? Acho difícil responder positivamente a essa questão, embora na
ordem “Abra a porta” não haja nenhuma especificação sobre o modo de se
abrir a porta. Quais as condições de verdade da ordem “Abra a porta”? So-
mos tentados a imaginar que essa ordem não fornece todos os dados, e que
boa parte do que se deseja transmitir está elidido, apagado. Uma informação
completa seria: Abra a porta (agora) (usando a maçaneta) (usando suas mãos)
(calmamente) etc. Quanto de informação precisamos para obter uma propo-
sição? Entre o que dizemos e a especificação, no mundo, das condições de
verdade do que dizemos parece haver muitas vezes um lapso, que só pode ser
preenchido pragmaticamente (ver Recanati, 2004). Onde vamos estabelecer
a fronteira entre o que é dito no plano semântico e o que é implicado no pla-
no pragmático só pode ser estabelecido internamente em cada teoria sobre a
linguagem humana.

252 Heronides Moura


Quais são as principais linhas de pesquisa em pragmática hoje? Quais são
as atuais “preocupações” dos estudos pragmáticos?
Moura — Esquematicamente, há três linhas de pesquisa em pragmática. A
primeira é a linha neogriciana, muito apreciada pelos semanticistas, pois dá
à pragmática uma posição secundária, ancilar. Quando a semântica não ex-
plica, Grice saves!
A segunda sustenta que a linguagem humana se baseia num sistema in-
formal de inferências, totalmente dependente do contexto, e não estabelece
uma linha muito nítida entre semântica e pragmática. É o caso da teoria da
relevância e também de teorias contextualistas.
Uma terceira é a de uma pragmática social e discursiva, na linha do que
se faz no IPrA (International Pragmatics Association) (http://ipra.ua.ac.be).
A linha neogriciana tem a vantagem de ser muito clara. Por exemplo, no
caso da ordem “Abra a porta”, a semântica estipularia apenas uma injunção
para que se realize um estado de coisas muito geral, no qual a porta deve estar
aberta, e nada se diz sobre como isso deve ser feito. No meu entendimento,
uma abordagem neogriciana deve dizer que não há problema algum, do ponto
de vista semântico, em usar a marreta e não a maçaneta para abrir a porta!
A impropriedade seria apenas pragmática, como alguém que responderia à
frase “Sente aqui”, sentando-se de costas na cadeira indicada, com as pernas
voltadas para o espaldar! A representação semântica dá um retrato esque-
mático do estado de coisas, os detalhes do retrato devem ser fornecidos pelas
implicações pragmáticas, que são extremamente variadas e ricas, embora re-
gidas por poucos princípios (as máximas da conversação).
Outro exemplo: quando se diz “Está chovendo”, um elemento importan-
tíssimo da comunicação não está expresso na frase: está chovendo aqui e não
alhures. Uma abordagem griciana diria: a proposição completa expressa é
essa mesmo, muito genérica e lacunar, de que está chovendo em algum lugar.
O “aqui” só entra depois de uma inferência pragmática baseada na relevância
e na quantidade de informação fornecida. Se o falante me informa que está
chovendo (e é só essa parte da informação que define as condições de verdade
da sentença), posso inferir que isso foi dito para me informar de algo impor-
tante para mim, e que se o lugar da chuva não foi especificado, devo inferir
a parte que falta na informação e, se nada na mensagem me leva a pensar o
contrário, o mais importante é saber que aqui, e não na China, está chovendo.
Os contextualistas advogam que esse tipo de exemplo mostra, ao con-
trário, que a representação semântica é insatisfatória, pois a sentença “Está

Pragmática
253
chovendo” não exprime uma proposição completa, já que um lugar deve ser
especificado. Como o lugar é um índice, uma dêixis, essa sentença é indicial
e só ganha sentido no contexto. Mas não! A sentença “Está chovendo” é ver-
dadeira se e se somente está chovendo, e a chuva tem de cair em algum lugar,
logo a sentença é verdadeira se e somente se está chovendo em algum lugar.
O lugar não é especificado na sentença, mas isso não é problema: podemos
quantificar a variável de lugar e traduzir a sentença como: existe um lugar x
tal que está chovendo em x. Note que essa tradução capta perfeitamente as
condições de verdade de “Está chovendo”, mas é claro que pragmaticamen-
te podemos inferir que esse lugar é aqui, como aliás poderia ser outro lugar
(imagine que você está preocupado com a seca que tem assolado o Nordeste
e seu amigo diz: “Está chovendo agora”. Ele deve estar querendo dizer: está
chovendo lá no Nordeste agora). Continua sendo verdadeiro, nesse caso, que
“existe um lugar x tal que está chovendo em x”. Obviamente, essa tradução diz
menos do que é necessário para a comunicação, mas qual o problema disso?
Nem tudo o que pensamos vem expresso nas palavras que dizemos, mas isso
não implica que elas não tenham sentido por si mesmas.
Há outros problemas com a abordagem contextualista. Um deles é um
argumento comumente usado pelos defensores dessa abordagem. Como vi-
mos, a abordagem griciana ou neogriciana postula que a pragmática não tem
efeito sobre as condições de verdade da sentença; o caráter vericondicional
da sentença está no escopo da semântica. Logo, elementos contextuais in-
feríveis a partir da situação comunicativa seriam agregados, num momento
logicamente posterior, ao conteúdo propriamente proposicional. Os contex-
tualistas, ao contrário, argumentam que retirar da sentença o seu contexto
comunicativo pode simplesmente esvaziar a sentença de qualquer sentido
plausível. Um exemplo clássico é: “O sanduíche de presunto saiu sem pagar”,
frase usada, por exemplo, por uma atendente de lanchonete, para se referir
ao consumidor que pediu um sanduíche de presunto. As condições de ver-
dade dessa sentença obviamente tomam como referente de “sanduíche de
presunto” não o lanche, mas seu comprador, ou seja, um sentido metonímico
derivado do literal. Os contextualistas argumentam que só o sentido derivado
importa, pois de outra forma teríamos uma sentença absurda, segundo a qual
os alimentos ganham vida e dão calote! Bem, é o sentido metonímico que é
usado, mas o argumento falha ao inferir com base em um exemplo de metoní-
mia contextual a ideia de que TODA a linguagem é também contextual. Nesse
tipo de uso específico, como podemos dispensar o contexto, se é o contexto
que serve de ancoragem para o sentido? Isso absolutamente não prova que

254 Heronides Moura


todas as sentenças precisem de contexto inferível a partir das intenções co-
municativas. Prova apenas que nessa sentença o contexto é necessário.
Outra objeção é que podemos analisar o caso do sanduíche de presunto
como um caso de polissemia regular, segundo Nunberg, pois, para certa co-
munidade de falantes, há uma regra metonímica que converte as palavras re-
ferentes a produtos alimentares em termos referidos aos compradores desses
produtos. Ora, uma polissemia regular que usa o signo referente ao veículo
para se referir ao motorista do veículo é usada normalmente pela maioria dos
falantes de português, como em “Eu estou estacionado no pátio”. Ocorre aqui
uma “transferência de sentido” regular, e o verbo “estacionar”, que se refere
normalmente a veículos, passa a se referir a pessoas que dirigem os veículos.
Essa regra (cuja natureza semântica ou pragmática precisa ser investigada) é
comum a todos os falantes do português. Já a sentença com o sanduíche de
presunto é usada por apenas algumas comunidades de falantes, que formam
uma espécie de dialeto. Ora, nesse dialeto, a regra que converte signos de co-
mida em signos de consumidores é perfeitamente regular e intersubjetiva.
Assim, a linguagem dessa subcomunidade fornece suas próprias regras para
a interpretação dessa metonímia, tão banal para os membros dessa comu-
nidade quanto para nós a referência a termos de massa e termos contáveis
com um mesmo signo (p. ex., “João cria alguns coelhos” e “João come coe-
lho”). Portanto, pode-se muito bem questionar a ideia de que é preciso passar
pela intenção específica de um falante específico para chegar às condições de
verdade da sentença “O sanduíche de presunto saiu sem pagar”. Uma regra
lexical de certo “dialeto” do português provê a interpretação correta, de uma
forma regular e previsível para todos os falantes daquela comunidade.
A tese de Mônica Trindade (2006) mostra que é possível representar esse
tipo de regra lexical em termos semânticos, e não pragmáticos. Usando o con-
ceito de composição enriquecida de Jackendoff (2002) e a representação do
léxico gerativo, ele propõe um formalismo que permite explicar como se che-
ga à interpretação de sentenças desse tipo de uma forma regular e previsível.
A terceira linha de pesquisa em pragmática que eu gostaria de ressaltar é
a social-discursiva, ou macropragmática, de acordo com a definição de Jacob
Mey, no verbete “Pragmatics” da Concise Encyclopedia of Pragmatics. Nessa
abordagem, “the emphasis is on what actually goes on in language use; the
context of use is not limited in advance, and basically comprises the enti-
re environment, both linguistic and ‘extralinguistic’” (op. cit., p. 728). O que
passa a ser importante é a definição de um cenário de uso mais amplo (por
exemplo, linguagem médico-paciente, linguagem do ambiente de trabalho,

Pragmática
255
linguagem da mídia, da sala de aula etc.), e a forma como tais cenários inte-
ragem com os usos linguísticos. Portanto, há um distanciamento dos tópicos
de interesse mais tradicionais da pragmática, como a dêixis, a referência, a
anáfora e os atos de fala, que estabeleciam um recorte de análise muito mais
estrito, no âmbito da sentença e de seu contexto imediato. Esses tópicos mais
tradicionais correspondem ao que Mey denomina micropragmática. Os tópi-
cos da micropragmática são aqueles ligados à questão dos limites da semân-
tica e da pragmática, ao contrário dos temas de análise da macropragmática,
que ultrapassam o âmbito da análise linguística. De fato, a macropragmática
implica uma abordagem interdisciplinar da linguagem, utilizando ferramen-
tas da análise da conversação, da etnometodologia, da sociologia etc.
A forma como essa abordagem pragmática encara o papel da semântica
varia de autor para autor. Tanto se pode adotar uma perspectiva contextua-
lista, que pressupõe não haver significado proposicional fora de um contexto
de uso específico, quanto se pode adotar uma perspectiva neogriciana, que
reserva à proposição um papel fundamental no cálculo das mensagens codi-
ficadas linguisticamente.
Vou dar um exemplo de análise de pragmática social, ou macropragmáti-
ca, e tentar mostrar, brevemente, que esse tipo de análise não é incompatível
com a ideia de que as palavras tenham um valor semântico fixo, que ultra-
passa as situações de discurso. Permito-me aqui citar um texto meu (Moura,
1999): “Sarangi e Slembrouck (1992) analisam uma interação em que um mi-
grante de origem asiática, Aziz, solicita auxílio da seguridade social britâni-
ca. Em função de diferenças culturais e da discrepância de objetivos, Aziz e
o funcionário do governo não conseguem se entender mutuamente sobre o
sentido de ‘seguridade social’. Aziz, que está desempregado, solicita ‘seguro-
-desemprego’, não desejando, todavia, obter um complemento ‘salário-família’
(oferecido a famílias de baixa renda), pois para ele seria vergonhoso admitir
que não tem condições de sustentar sua família. Já o funcionário do governo
pretende apenas averiguar as condições legais de Aziz receber um auxílio,
seja ele o seguro-desemprego ou o salário-família. Isso gera uma interação
problemática, como no diálogo abaixo (op. cit: 148):

Funcionário: Por que você não se candidatou à seguridade social?


Aziz: Não, eu teria de receber dinheiro do seguro-desemprego.

A partir desse diálogo, fica claro que o funcionário e Aziz usam o termo
‘seguridade social’ com sentidos diferentes. Para o funcionário, ‘seguridade

256 Heronides Moura


social’ engloba os auxílios desemprego e família, ao passo que para Aziz ‘segu-
ridade social’ engloba apenas ‘salário família’. Portanto, Aziz deseja receber
seguro-desemprego e não deseja receber ‘seguridade social’, o que é simples-
mente contraditório para o funcionário. O diálogo termina truncado.
Esse é um exemplo de análise de pragmática social. A assimetria dos pa-
péis sociais dos falantes, e não qualquer fator intrínseco à linguagem, leva a
um conflito de interpretação. Mas note que, em última instância, esse con-
flito está ligado a uma questão de sentido e de referência: a significação de
“seguridade social” é vaga. Mas isso não implica que não exista um núcleo
fixo de significação nesse termo. Há uma parte fixa e uma parte negociável
nos sentidos das palavras vagas. O processo interativo gira em torno da parte
flutuante do significado da palavra, como quando discutimos se uma pessoa
que tem um patrimônio de R$200.000,00 reais é rica ou de classe média. O
estudo da linguagem em uso não projeta qualquer sombra sobre a estrutura
semântica da linguagem, que é, de um ponto de vista lógico, anterior ao uso.

Referências
CAMPOS, J. (2004). Os enigmas do nome. Porto Alegre: Age Editora.
JACKENDOFF, R. (2002). Foundations of Language. Brain, Meaning, Grammar, Evolution. Oxford:
Oxford University Press.
MOURA, H. (1999). Significação e contexto. Florianópolis: Insular.
______ (2000). “Indeterminação e negociação do sentido”. Intercâmbio 9. São Paulo: PUC-SP.
PUSTEJOVSKY, J. (1995). The Generative Lexicon. Cambridge, Mass.: MIT Press.
SANTOS, M. L. (2006). Condicionais e contexto. Doutorado. Florianópolis: UFSC.
TRINDADE, M. (2006). Um estudo léxico-conceptual da metonímia. Doutorado. Florianópolis:
UFSC.

Pragmática
257
Pronomes e categorias vazias em
português e nas línguas românicas1
Scott Schwenter

Onde podemos traçar uma linha divisória entre semântica e pragmática?


Schwenter — Na teoria, essa linha é muito clara: significado codificado vs. sig-
nificado contextual. Nesse sentido, concordo com pesquisadores como Mira
Ariel (como em seu livro Defining Pragmatics, 2010), especialmente porque
não acredito em uma semântica de condições de verdade — tem muito sig-
nificado codificado que não tem absolutamente nada a ver com as condições
de verdade. Realmente, Grice parece ter percebido isso em 1967, quando criou
sua própria “lata de lixo” para a implicatura convencional. O único motivo
pelo qual ele chamou o fenômeno de “implicatura”, apesar de ter significa-
do codificado, foi porque ele não estava relacionado, em sua natureza, com
as condições de verdade. Felizmente, Potts (2007) percebeu isso e criou uma
abordagem completamente nova para a implicatura convencional, que não
teve de fingir que era pragmática, e essas duas áreas estão muito melhores
separadas mesmo.
Dito isso, essa divisão é muito facilmente identificável na teoria, mas
extremamente difícil na prática! Qualquer um que já tenha trabalhado com
mudança semântica sabe disso muito bem: quando é que certo componen-
te do significado se torna “codificado”? Ou “codificado o suficiente” para ser
chamado de semântico e não de contextual? Essas são perguntas muito difí-
ceis, cujas respostas estão ainda longe de serem alcançadas.

1
Entrevista publicada em março de 2018, originalmente em inglês, e conduzida por Luana Lamberti Nu-
nes. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.

258 Scott Schwenter


Considerando o fato de você ter uma vasta publicação sobre a variação en-
tre pronomes nulos e expressos nas línguas românicas, qual é a principal
característica ou a principal generalização entre o português e o espanhol
no que diz respeito a esse fenômeno?
Schwenter — Em geral, as pessoas tendem a acreditar que os objetos nulos
em espanhol existem apenas em variedades de contato, mas os trabalhos de
Assela Reig (2009, 2015, 2016) mostraram que isso está longe de ser verdade.
Existe uma grande variação entre as formas nulas e expressas percorrendo
os dialetos de espanhol no que diz respeito aos objetos diretos com referen-
tes proposicionais, e Reig descobriu essa variação em sua pesquisa. O mais
interessante no seu trabalho com o português é que ele sugere que os objetos
nulos referenciais em espanhol têm seu ponto de início em proposições, o
que é precisamente o que o estudo clássico de Cyrino (1997) mostrou para os
objetos nulos em português. Então, estamos de fato olhando para um caso
em que o espanhol está logo atrás do português em uma espécie de caminho
evolutivo. Obviamente, permanece uma questão: saber se os objetos nulos
vão continuar se expandindo em espanhol, mas há alguns contextos particu-
lares em que eles são, de fato, a opção mais favorecida em alguns dialetos, e.g.
quando co-ocorrem com um clítico dativo (te lo dije à te dije).
Além dessa similaridade de superfície, existe uma similaridade mais
profunda entre o espanhol e o português. É algo que discuti no meu artigo de
2006, “Null Objects Across South America”. A marcação diferencial de objeto
(dom, do inglês differential object marking) em espanhol acontece basicamente
com os mesmos referentes de objeto direto manifestos como pronomes tô-
nicos no vernáculo atual do português brasileiro (por exemplo, Maria viu ele
ontem). Já os referentes de objeto direto que ocorrem sem dom em espanhol,
por outro lado, são os mesmos que ocorrem como objetos nulos em pb. Essa
generalização é surpreendente; fiquei realmente chocado que nunca ninguém
tinha notado isso: os referentes prototípicos de objetos diretos em ambas as
línguas não recebem nenhuma marcação especial, ao passo que os referentes
atípicos recebem. A marca de dom em espanhol é a preposição a e em portu-
guês é um pronome explícito. Esse é um caso claro de motivação icônica e de
isomorfismo entre forma e função. Então, mesmo que, estritamente falan-
do, o português não tenha mais marcação diferencial do objeto (exceto com
o substantivo Deus), claramente há aí um sistema diferencial de marcação de
referentes em objetos diretos anafóricos.

Pronomes e categorias vazias em português e nas línguas românicas


259
Qual é a importância de o método variacionista ser aplicado à pesquisa de
fenômenos pragmáticos?
Schwenter — É absolutamente crucial, mas, ao mesmo tempo, ele não pode
substituir a pesquisa pragmática qualitativa. Para quase todos os casos de
variação morfossintática, sempre houve uma necessidade de pesquisa prag-
mática para se determinar o “envelope de variação” laboviano (ou “variável
contextual”). Então, quando estudamos, por exemplo, a alternância entre os
objetos diretos anafóricos nulos ou explícitos, temos de usar hipóteses prag-
máticas para delimitar o conjunto de contextos em que essa variação é possí-
vel (mesmo se for improvável) e, assim, determinar quais ocorrências devem
ser incluídas na análise. Além desse passo inicial necessário, análises de varia-
ção morfossintática se beneficiam amplamente de explicações pragmáticas,
mesmo quando essas explicações ainda não forem sofisticadas (por exemplo,
mesmo quando forem descritivamente meras intuições como “enfático” ou
“contrastivo”). A teoria pragmática já avançou o suficiente para poder fornecer
mais conteúdo e poder explanatório a tais noções intuitivas. Ao mesmo tempo,
as ferramentas da linguística variacionista, como a análise quantitativa usan-
do técnicas estatísticas avançadas, nos permite definir — com muito maior
precisão do que antes — exatamente quais restrições regulam os fenômenos
pragmáticos. A relação entre análise da variação e a pragmática, portanto, é
uma relação sinergética que pode melhorar consideravelmente a validade e
a confiabilidade de nossas análises. Ao mesmo tempo, ser explícito sobre tais
métodos nos permite desenvolver a pesquisa de maneira muito mais replicá-
vel do que já foi no passado, quando a teorização de poltrona ainda era a nor-
ma na pragmática. Ainda bem — na minha opinião —, esse tipo de pesquisa
(na sintaxe e na semântica também) está se tornando a regra geral.

Quais são os prós e os contras de usarmos corpus e experimentos para


investigarmos fenômenos pragmáticos?
Schwenter — Essa questão foi em parte respondida na resposta à pergunta
anterior, uma vez que os dados de corpus estão intimamente relacionados à
pesquisa variacionista. Mas, devemos esclarecer, também existem estudos
que usam corpus e que não são variacionistas, além de existirem pesquisas de
cunho variacionista não baseados em corpus. Uma das principais vantagens
do corpus é ele ser bem útil para permitir ao pesquisador enxergar quais são
as possibilidades de qualquer fenômeno que esteja interessado em investi-
gar. Há tantas afirmações na literatura linguística do tipo “a expressão X não

260 Scott Schwenter


é possível no contexto Y”, e muitas vezes uma simples busca no Google vai
mostrar que tal afirmação simplesmente não é verdadeira. O Twitter é es-
pecialmente bom para isso — nós o usamos recentemente, por exemplo, em
um estudo que desenvolvi com alguns alunos, em que encontramos formas
de particípios passados irregulares, como peço e trago, com o verbo ter. Al-
guns falantes nos disseram explicitamente que tais formas não eram usadas
(e elas, de fato, não constam em gramáticas ou manuais do português), mas
aparecem em todo lugar no Twitter. Não estou querendo dizer que os méto-
dos “de poltrona” não têm seu lugar na pragmática — porque eles têm. Mas o
que os corpora, o Twitter e outros tipos de dados de fala natural podem fazer
é nos ajudar a decidir exatamente que tipos de contextos queremos testar
quando estivermos desenvolvendo um trabalho de poltrona. Para mim, essa é
a maior vantagem. A principal desvantagem, obviamente, é que nem tudo vai
aparecer no corpus, e pode haver contextos que estejam faltando no corpus.
Contudo, as compensações muito mais positivas e, por isso, encorajo o uso de
corpus na pesquisa pragmática, seja ela quantitativa ou qualitativa.
Com respeito aos experimentos, seu uso para a pesquisa de fenômenos
pragmáticos é bem novo na área e sua utilidade reside na possibilidade de tes-
tar hipóteses muito específicas e precisas que não podem ser determinadas
em dados de fala espontâneos. Em outra pesquisa recente com meus alunos,
olhamos para a alternância entre te e você como pronomes de objeto direto.
Tais usos não são frequentes na fala natural — pelo menos não em dados que
possamos obter facilmente — porque ocorrências de 2ª pessoa do singular
na função de objeto direto não são muito típicas em contextos de entrevistas.
Contudo, conseguimos usar as ocorrências obtidas para formular hipóteses
que poderiam ser testadas através de métodos de pesquisa experimental. En-
contramos, particularmente, alguns contextos no Twitter que mostraram a
alternância entres os dois pronomes e outros que não mostraram. Montamos,
então, os itens de nossa pesquisa baseados nesses contextos, com o intuito de
sondar as intuições dos falantes de maneira refinada.

Quais são as diferenças e as semelhanças entre o sistema pronominal do


português europeu (pe) e do português brasileiro (pb)?
Schwenter — Muitas dessas semelhanças e diferenças são bem conhecidas,
como a completa ausência do pronome vós no Brasil, o uso rareado de você
em Portugal e os diferentes usos de tu com as formas verbais corresponden-
tes (ou não) em ambos os países! Aquilo com que mais trabalhei, obviamente,

Pronomes e categorias vazias em português e nas línguas românicas


261
foi o sistema de objetos diretos anafóricos, e acredito haver algumas similari-
dades que foram negligenciadas — especialmente por causa de toda a atenção
que tem sido posta nos objetos nulos e sua suposta diferença sintática entre
o pb e o pe (como um aparte, também relacionado à questão acima, usar as
intuições do linguista nessas diferenças não é absolutamente suficiente! Ne-
cessitamos desesperadamente de experimentos para testar as hipóteses cir-
culantes pela literatura). Um ponto que me incomodou por muito tempo foi
o uso inovador dos pronomes tônicos no Brasil, se esse uso fosse, de alguma
maneira, um substituto para os pronomes clíticos o, a, os, as, perdidos na fala
espontânea em pb, mas não em pe. Em Schwenter (2014) e Sainzmaza-Lecanda
e Schwenter (2017), finalmente consegui fornecer dados que mostravam que,
de fato, os pronomes tônicos de 3ª pessoa em pb são usados de modo quase
idêntico aos seus correspondentes clíticos em pe. Então, os sistemas de mar-
cação anafórica de 3ª pessoa em objetos diretos do pb e do pe são, na verdade,
muito parecidos, já que os objetos nulos também aparecem na maior parte
dos mesmos contextos (com as supostas exceções encontradas na literatura
sintática sobre o fenômeno). Contudo, como a maior parte das pessoas pa-
rece intuir, os objetos nulos são muito mais frequentes em pb do que em pe,
apesar de o artigo que começou esse fluxo de pesquisa no assunto ter sido
Raposo (1986), sobre o pe! Em geral, o que está acontecendo com o pb é uma
mudança radical para longe dos clíticos (talvez com uma exceção, o clítico
me), em direção às formas tônicas. Eventualmente, até mesmo o te acabará
sendo substituído pelo você em função de objeto direto, pelo menos na maio-
ria dos dialetos que usam você como pronome sujeito. Repare, contudo, que,
na nossa pesquisa sobre a variação entre te/você como pronomes de objeto
direto, mesmo os falantes da pesquisa que disseram usar mais (ou apenas) tu
como pronome sujeito mostraram intuições claras sobre em que contextos o
uso de você era possível, e essas intuições foram semelhantes às dos falantes
que escolheram você como principal (ou único) pronome usado na função de
sujeito. Em resumo, há muito mais para ser estudado sobre os pronomes em
português, tanto em pb quanto em pe!

Quais as principais diferenças entre as pesquisas variacionistas feitas nos


Estados Unidos em comparação com as que têm sido feitas no Brasil? O que
poderia melhorar nessa área no Brasil?
Schwenter — O pb (e também o espanhol) têm contribuído muito para o de-
senvolvimento da pesquisa variacionista. Obviamente, no Brasil, o movimento

262 Scott Schwenter


variacionista foi capitaneado por Anthony Naro (um aluno de Labov), quando
de sua chegada ao país, e tem continuado a crescer desde então. A tese de
Gregory Guy (1981) sobre o pb também foi crucial e levou a muitas outras pes-
quisas sobre fenômenos variáveis no Brasil. Há duas direções principais para
melhorar a pesquisa variacionista, não apenas no Brasil:
(1) estender a análise variacionista a um conjunto maior de fenômenos;
(2) usar de maneira mais uniforme as técnicas analíticas e estatísticas.
Ambos os pontos têm começado a ser seguidos no trabalho de jovens
acadêmicos brasileiros, como Lívia Oushiro, que está treinando uma nova
geração a usar uma rede mais ampla em seus estudos e ensinando técnicas
estatísticas avançadas usando o r. Ao mesmo tempo em que vemos uma cur-
va íngreme de crescimento no uso do r, ele é uma ferramenta tão poderosa
que faz sentido que qualquer um aprenda a usá-la, especialmente porque essa
ferramenta permite a criação de modelos mistos com efeitos randomizados.
Isso, como Johnson (2009) apontou em sua crítica mordaz, é algo impossível
de ser feito em programas antigos como o GoldVarb. Nos Estados Unidos e na
Europa, o r é empregado regularmente e de maneira padrão pelos variacio-
nistas, e insisto: os pesquisadores brasileiros deveriam aprender a usá-lo o
quanto antes.

Pronomes e categorias vazias em português e nas línguas românicas


263
Pronomes e categorias vazias em
português e nas línguas românicas1
Sonia Maria Lazzarini Cyrino

Sonia, tua tese O objeto nulo no português do Brasil: um estudo sintáti-


co-diacrônico2 foi um trabalho pioneiro sobre o objeto nulo em pb e ainda
hoje é um dos textos mais influentes na área. Qual foi a importância desse
trabalho na tua trajetória acadêmica, por um lado, e no desenvolvimento
de estudos sobre o objeto nulo em pb e em outras línguas românicas, por
outro? Como você pode fazer essa avaliação hoje, passados quase 25 anos
da publicação do trabalho?
Cyrino — Gabriel, me sinto privilegiada de ter feito parte de um grupo de
sintaticistas que iniciou pesquisas diacrônicas sobre o português brasileiro
dentro da perspectiva gerativista. Esse grupo foi formado pelos alunos de
pós-graduação orientados por Mary Kato, Fernando Tarallo e Charlotte Gal-
ves no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Foi um momento especial
em que novas perspectivas de pesquisa se abriam para nós, plena de desafios,
que aceitamos. Os desafios se estendiam desde o próprio quadro teórico até
a busca de corpora para desenvolvermos nossas pesquisas. O tópico ao qual
me dediquei, objetos nulos, era um assunto que já tinha captado a atenção de
pesquisadores no estudo sincrônico do português brasileiro, mas, até então,
tinha sido pouco (ou nada) explorado em termos diacrônicos. Minha ideia
inicial para o doutorado era explorar a aquisição do objeto nulo, uma vez que
meu mestrado tinha sido sobre a aquisição do sujeito nulo em L2. Porém,
após um excelente curso sobre sintaxe diacrônica na perspectiva gerativista,
ministrado por Fernando Tarallo e Mary Kato em preparação para a vinda de

1
Entrevista publicada em março de 2018 e conduzida por Gabriel de Ávila Othero.
2
S. M. L. Cyrino. O objeto nulo no português do Brasil: um estudo sintático-diacrônico. Doutorado: Unicamp,
1994 (publicada em 1997 pela Ed. da Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR).

264 Sonia Maria Lazzarini Cyrino


Ian Roberts no semestre seguinte, não tive dúvidas em investigar o fenômeno
do ponto de vista diacrônico. As perguntas de pesquisa estavam muito claras
e, a partir daí, iniciei uma trajetória de investigação que até hoje continuo a
empreender. Em termos diacrônicos, parece que os estudos subsequentes à
minha tese confirmam seus resultados. Em termos teóricos, no entanto, a
categoria “objeto nulo” é ainda alvo de muitas investigações, pois se manifesta
com diferentes propriedades em diversas línguas. Nesse sentido, é ainda um
campo a explorar, e este número da ReVEL deve contribuir na elucidação de
várias questões envolvidas no tema.

Em que as gramáticas do pb e do português europeu (pe) diferem quando o


assunto é objeto nulo? Temos aí um indício de diferença sintática entre as
gramáticas dessas duas variedades do português?
Cyrino — No ano 2000. iniciei uma colaboração com Gabriela Matos (Univer-
sidade de Lisboa), dentro de um projeto cujo objetivo era o estudo compara-
tivo do português brasileiro e o português europeu, organizado e dirigido por
Mary Kato e João Peres. Começamos a investigar as diferenças entre as duas
variedades do português em relação à possibilidade de elipse de VP. A partir
daí investigamos outros fenômenos relacionados, como a realização da anáfo-
ra de complemento nulo e pudemos constatar uma diferença sintática entre
as línguas manifesta no movimento do verbo, que permite licenciamento de
categorias vazias de forma distinta entre as variedades. Em relação ao objeto
nulo, o fenômeno do português europeu é diverso do que ocorre no portu-
guês brasileiro. Na nossa língua, temos outras mudanças que contribuíram
para o surgimento do nosso objeto nulo característico, entre elas, a perda dos
clíticos de 3a pessoa e a perda do movimento longo do verbo. Em português
europeu, essas mudanças não ocorreram, e a existência do objeto nulo deve
ser consequência de outras possibilidades da gramática (universal), possibi-
lidades também existentes em outras línguas como hebraico, turco, russo,
chinês, japonês, coreano, quéchua, espanhol basco, entre outras, cada língua
apresentando o objeto nulo com propriedades específicas e diferentes da-
quelas que caracterizam o objeto nulo do português brasileiro. Obviamente,
objetos nulos permitidos universalmente e regidos por questões pragmáticas
também existem no português brasileiro. Mas meu ponto é que, além desses,
temos outro tipo de objeto nulo que não ocorre em outras línguas, pois em
nosso caso, trata-se da consequência de mudanças sintáticas que outras lín-
guas não sofreram.

Pronomes e categorias vazias em português e nas línguas românicas


265
Sonia, o que podemos dizer sobre o estatuto teórico dessa categoria vazia
que é o objeto nulo? Ainda há divergência para saber se estamos diante de
um pro ou de outro elemento vazio em português (pb e pe)? E nas demais lín-
guas românicas, há algum consenso sobre como o objeto nulo se enquadra
na tipologia das categorias vazias?
Cyrino — “Objeto nulo” é um termo abrangente que pode designar uma sé-
rie de fenômenos diferentes. Há línguas que apresentam o fenômeno “topic
drop”, que tem características diferentes do objeto nulo típico do português
brasileiro. Outras línguas permitem o objeto nulo como elipse (por exemplo,
hebraico, turco), ou seja, uma construção semelhante àquela que proponho
para o objeto nulo do português brasileiro. Porém, as propriedades do obje-
to nulo dessas línguas são diferentes, por exemplo, na questão do traço de
animacidade do antecedente do objeto nulo: essas línguas permitem objetos
nulos com antecedente animado, ao passo que os objetos nulos do português
brasileiro não o permitem. O tema ainda suscita muitas investigações e há
literatura recente discutindo essas questões.

O trabalho pioneiro de Fernando Tarallo3 constatou uma relação entre o


aumento da frequência do objeto nulo e a diminuição de ocorrências de su-
jeito nulo em pb. Desde o trabalho de Tarallo, a que conclusão chegamos no
estudo dessa relação entre sujeito nulo e pronominal versus objeto nulo e
pronominal?
Cyrino — Mary Kato, Eugênia Duarte e eu escrevemos um artigo em 2000 em
que investigamos essa correlação. De fato, essas duas mudanças ocorrem no
português brasileiro, mas uma questão ainda em debate envolve o estatuto
da categoria vazia em ambos os fenômenos. Não creio que possamos chegar
a alguma conclusão sobre o fator “categoria vazia pronominal” e sua relação
com a realização do sujeito ou do objeto no português brasileiro, uma vez que
a própria definição de categoria vazia pronominal é ainda alvo de debates. O
que podemos determinar é a relevância dos traços dos antecedentes para a
realização ou não do sujeito e do objeto, e esse fato deveria contribuir para
uma análise teórica mais profunda. No artigo em questão, baseamos nossos
resultados na proposta de uma hierarquia de referencialidade seguida pela

3
F. Tarallo (1983). Relativization Strategies in Brazilian Portuguese. Doutorado. Filadélfia: University of
Pennsylvania, 1983.

266 Sonia Maria Lazzarini Cyrino


criança no processo de aquisição. Porém, o próprio estatuto de tal hierarquia
dentro de uma proposta gerativista ainda é alvo de discussões.

Os estudos gramaticais em pb avançaram muito nos últimos anos, devido,


em grande parte, à boa capacidade de formação de novos pesquisadores e
às publicações de fôlego de pesquisadores da tua geração, Sonia. Sobre o
tema desta edição da ReVEL (“Pronomes e categorias vazias”), por exemplo,
contamos com teus trabalhos pioneiros e influentes, além dos trabalhos de
José Lemos Monteiro, Fernando Tarallo, Mary Kato, Sergio Menuzzi, Ma-
ria Eugenia Duarte, Maria Cristina Figueiredo Silva, entre outros. Além
disso, vocês ajudaram a formar novas gerações de linguistas brasileiros.
Nesse sentido, o que há ainda para desvendarmos, em pb, quando o assun-
to é “pronomes e categorias vazias”? O que novos estudos podem revelar
sobre a gramática do pb nesse sentido?
Cyrino — Muitos estudos serão bem-vindos para explicar o português brasi-
leiro em relação às possibilidades de realização pronominal. Um dos temas
ainda aguardando maiores esclarecimentos é a própria estrutura dos prono-
mes. A partir do trabalho seminal de Cardinaletti e Starke, algumas propos-
tas foram feitas em relação aos pronomes tônicos do português brasileiro,
mas o estatuto dos pronomes clíticos ainda existentes aguarda uma investi-
gação mais profunda, uma vez que seu comportamento tem sido comparado
a uma manifestação de concordância. Quanto às categorias vazias, estudos
que discutissem as suas várias manifestações, no intuito de desvendar as pro-
priedades que caracterizam as diferenças encontradas a depender da função
desses elementos vazios, também seriam bem-vindos.

Sonia, normalmente, encerramos as entrevistas pedindo sugestões biblio-


gráficas a nosso entrevistado. Então, como uma autoridade na área, você
poderia indicar a nossos leitores alguns textos influentes sobre o assunto
“pronomes e categorias vazias”, em especial textos que investiguem o pb e
as demais línguas românicas?
Cyrino — Há muitos textos sobre o tema, e é difícil fazer uma indicação exaus-
tiva. Todos os trabalhos de Mary Kato e Charlotte Galves versando sobre o
tema são leitura obrigatória. Além desses, temos os trabalhos de Eugênia Du-
arte e seu grupo, os trabalhos de Sergio Menuzzi, Maria Cristina Figueiredo
Silva e outros pesquisadores brasileiros que se dedicaram ao tema. Além des-

Pronomes e categorias vazias em português e nas línguas românicas


267
ses e mais recentemente, Gabriela Matos e eu escrevemos um capítulo sobre
objetos nulos e elipse de vp no português brasileiro e europeu, publicado no
Handbook of Portuguese Linguistics. Sobre a mudança diacrônica, teremos em
breve o lançamento do volume VI da coleção História do Português Brasilei-
ro. Nesse volume, organizado por mim e por Maria Aparecida Torres Morais,
há vários capítulos abordando a questão dos pronomes e categorias vazias
do português brasileiro em sua perspectiva diacrônica, sob o ponto de vista
gerativista. Também sob a perspectiva diacrônica, tivemos a recente reedição
do Português brasileiro: uma viagem diacrônica, organizado por Ian Roberts e
Mary Kato e, em breve, teremos um segundo volume trazendo vários capítu-
los abordando o tema. Espero não ter deixado nenhuma referência impor-
tante fora desta breve apresentação, mas me coloco à disposição dos leitores
para indicações de leitura mais específicas.

268 Sonia Maria Lazzarini Cyrino


Prosódia1
Marina Nespor

Quando a prosódia passou a ser incluída na “agenda de estudos da linguís-


tica”? Quem foram os primeiros pesquisadores a estudar a prosódia? Por
que eles se interessaram por esse estudo?
Nespor — A primeira pesquisadora interessada em prosódia, na tradição da
gramática gerativa, foi Lisa Selkirk, que escreveu sua tese de doutorado (1972),
intitulada The Phrase Phonology of English and French, entre outros temas,
sobre a liaison em francês. Mas, antes uma questão de esclarecimento: o que
quer dizer “prosódia”? Embora esse termo seja geralmente usado para se re-
ferir a ritmo e entoação, na teoria fonológica, ele pretende incluir todos os
fenômenos fonológicos que consideram o formato regular do som dos enun-
ciados, isto é, não apenas ritmo e entoação, mas também fenômenos segmen-
tais que podem ser aplicados entre palavras.
O interesse pela prosódia, acredito — já que foi o meu logo em seguida
— foi que o livro clássico de fonologia gerativa (The Sound Pattern of English,
de Chomsky e Halle 1968) dedicava-se exclusivamente ao formato do som das
palavras. Tanto os fenômenos regulares como os irregulares — ou seja, fenô-
menos que devem se referir à informação não fonológica — foram tratados da
mesma forma. A fonologia de domínios prosódicos maiores do que a palavra2
era então considerada como questão de desempenho, ao invés de competên-
cia. Nos anos seguintes, tornou-se claro, entretanto, que a fonologia, isto é, o
estudo da competência dos sons das línguas naturais, deveria incluir também
fenômenos de ordem frasal3.
A teoria da fonologia prosódica, então, também inclui crucialmente
a fonologia de domínios prosódicos maiores do que a palavra. Na verdade,

1
Entrevista publicada em agosto de 2010, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.
2
Não encontrei um termo adequado para traduzir “phrasal phonology”. Por sugestão de Ubiratã K. Alves,
uso aqui “fonologia de domínios prosódicos maiores do que a palavra”. N. T.
3
“Phrasal pheonomena” no original. N. T.

Prosódia
269
fica claro que todos os fenômenos regulares referentes a ritmo, entoação ou
fenômenos fonológicos regulares que afetam matéria segmental, tal como
a liaison em francês ou o r de ligação em inglês britânico, formam parte da
competência dos falantes nativos. Na verdade, não é uma questão de desem-
penho retrair a primeira sílaba acentuada de thirteen em thirteen men na fala
conectada4. Isso, assim como muitos outros fenômenos prosódicos frasais, se
aplica de maneira invariável e dá conta da relativa coesão dos elementos de
uma sequência.
A fala não seria prontamente compreendida sem fenômenos de ordem
frasal. A prosódia, na verdade, permite desambiguar frases que apresentam
uma sequência idêntica de palavras, mas têm significados diferentes, como
em inglês John gave her cat food, que significa tanto “O João deu comida para
o gato dela, como “O João deu a ela comida de gato”. Ou nesta frase em italia-
no, Quando Luca chiama Martina è sempre felice, que significa tanto “Quando
Luca chama, Martina está sempre feliz”, ou “Quando Luca chama Martina, ela
está sempre feliz”5. Então, em um caso, Martina é o objeto direto do primeiro
verbo, e, em outro, Martina é sujeito do segundo verbo. É por causa do fenô-
meno da juntura, do acento frasal e do comprimento em diferentes partes
que frases como essas são desambiguadas. Então, uma teoria da competência
prosódica que incluísse propriedades universais e propriedades que variam
sistematicamente entre as línguas tornou-se necessária.

A maior parte de sua pesquisa tem se focado na interpretação fonológica


da sintaxe. Quais são alguns dos pontos interessantes da interface entre
sintaxe e prosódia?
Nespor — Realmente, a maior parte de minha pesquisa tem se focado nis-
so. O interesse pela interação sintaxe-prosódia recai sobre o fato de que nós
não conseguiríamos entender um ao outro sem a prosódia. Existem, de fato,
sentenças potencialmente ambíguas, com a mesma sequência de palavras.
Quando enunciadas, contudo, elas não são ambíguas, porque sua prosódia é
diferente. E mesmo que as sentenças não sejam potencialmente ambíguas,
sequências aprosódicas de palavras são difíceis de compreender. Para dizer
o mínimo, a comunicação não seria efetiva sem prosódia.

4
Em português, observamos o fenômeno em João canTOU mas João CANtou HOje pela manhã. N. T.
5
Em português, temos esse efeito em uma sequência semelhante: “Quando João chama Maria fica con-
tente”. Essa sequência recebe duas interpretações distintas, dependendo de sua prosódia: ela pode ser
interpretada como “Quando o João chama, a Maria fica contente” (a vírgula marca uma pausa prosódica)
ou como “Quando o João chama a Maria, (ele, o João) fica contente”. N. T.

270 Marina Nespor


Por essa razão, a prosódia chamou a atenção não apenas de linguistas
teóricos, mas também de psicolinguistas e de acadêmicos investigando a
aquisição da linguagem. Hoje, já se sabe que as crianças são sensíveis a dife-
rentes aspectos da prosódia desde muito cedo. Por exemplo, bebês de 3 dias
conseguem discriminar duas línguas se elas pertencem a classes rítmicas di-
ferentes, mas não se elas pertencem à mesma classe rítmica (Ramus; Nespor;
Mehler, 1999). Recentemente, mostrou-se que os choros dos recém-nascidos
são influenciados pela língua da mãe (Mampe; Friederici; Christophe; Wer-
mke, 2009). Por ser um dos primeiros aspectos de aprendizado linguístico, a
prosódia é possivelmente a parte mais difícil da gramática a ser aprendida na
aquisição de segunda língua na fase adulta (como a maioria dos adultos que já
aprendeu uma segunda língua bem sabe).
De maneira semelhante, a interação sintaxe-prosódia é interessante para
a aquisição de primeira língua. Ou seja, a prosódia ajuda os ouvintes a anali-
sar a sintaxe das mensagens ouvidas e auxilia as crianças a iniciarem o pro-
cessamento de sua língua de exposição. Quando vêm ao mundo, os bebês têm
sua dotação genética e os sons (ou sinais) de seu ambiente. O que esses sons (e
sinais) revelam sobre a estrutura da língua? Ou seja, o que as crianças apren-
dem sobre sintaxe antes de adquirirem a estrutura da língua? Nossa proposta
diz que a prosódia dá uma dica sobre a ordem de palavras da língua (Nespor;
Guasti; Christophe, 1996; Nespor; Shukla et al., 2008). Em Prosodic Phonolo-
gy, propusemos que o destaque principal no nível da frase fonológica recai
sobre a palavra mais à esquerda em línguas em que o objeto precede o verbo
(complemento-núcleo), e na palavra mais à direita em línguas em que o objeto
segue o verbo (núcleo-complemento). Entre as línguas do primeiro tipo, estão
o turco, o basco e o japonês; entre as línguas do segundo tipo, estão o inglês,
o grego e o árabe. E em Nespor, Guasti e Christophe (1996), propusemos que
a diferença de localização de acento pode ajudar crianças a descobrirem a
ordem das palavras da sua língua nativa. Um sinal de marcação de início e
fim de agrupamento, no entanto, também é necessário. O local diferente da
proeminência da frase fonológica é necessário; porém, não é suficiente para
aprender se uma língua tem a ordem núcleo-complemento (head initial) ou
complemento-núcleo (head final). Na verdade, se ouvirmos uma sequência de
palavras fortes (ou acentuadas) alternando com palavras fracas, não podere-
mos decidir se um grupo começa com uma palavra forte ou fraca. A proposta
de Nespor, Shukla et al. resolve o problema de agrupamento: propõe-se, na
verdade, que o acento da frase fonológica é principalmente realizado através
de um aumento de tom (pitch) e de intensidade se for inicial e principalmen-

Prosódia
271
te através da duração se for final. Assim, o tipo de proeminência a que uma
criança é exposta poderia permitir que ela descubra a ordem das palavras de
sua língua. A aquisição pré-lexical da ordem de palavras poderia explicar por
que, quando as crianças começam a combinar duas palavras, elas não come-
tem erros em sua ordem relativa.
Mampe, B.; Friederici, A.; Christophe, A.; Wermke, K. (2009). Newborns’ Cry Melody Is Shaped
By Their Native Language. Current Biology. 19. 1994-1997.
Nespor, M.; Guasti, M.T.; Christophe, A. (1996). Selecting Word Order: The Rhythmic Activation
Principle. In: Kleinhenz, U. (org.). Interfaces in Phonology. Berlim: Akademie Verlag, p. 1-26.
Nespor, M.; Shukla, M.; van de Vijver, R.; Avesani, C.; Schraudolf, H.; Donati, C. (2008). Different
Phrasal Prominence Realization in vo and ov Languages. Lingue e Linguaggio. 7.2. 1-28.
Ramus, F.; Nespor, M.; Mehler, J. (1999). Correlates of Linguistic rhythm in the speech signal.
Cognition. 73. 265-292.

A hierarquia prosódica apresentada em Nespor & Vogel (1986) é conside-


rada um dos marcos da fonologia prosódica. Como a senhora vê as ideias
apresentadas em Nespor e Vogel (1986) hoje, quase 25 anos depois da pu-
blicação da primeira edição de seu livro6?
Nespor — Algumas das ideias apresentadas em Nespor e Vogel (1986) — e na
versão de 2008, uma segunda edição com uma nova introdução de Gruyter —
ainda suscitam investigações. Nesse sentido, ainda vale a pena ler esse texto.
Pessoalmente, o constituinte daquele livro que mais me ocupa hoje é a frase
fonológica. Esse nível da estrutura prosódica é importante para pesquisado-
res de diferentes disciplinas relacionadas à linguagem. Não estou dizendo
que outras ideias apresentadas no livro não sejam válidas hoje. Entretanto,
a ideia de que a ordem das palavras é marcada por pistas contidas no fluxo
da fala é importante não só para a teoria da gramática, mas também para a
percepção e aquisição da linguagem. Pelo menos, a frase fonológica é o nível
da hierarquia prosódica em que tenho trabalhado mais após a publicação do
nosso livro.
Nossa análise da fonologia da métrica poética, relacionada com a pro-
posta de Hayes (1989), vale a pena ser expandida para mais tradições poéticas,
especialmente para as tradições desenvolvidas em línguas com diferentes sis-
temas fonológicos. A ideia básica é que a sintaxe não influencia a forma da
métrica diretamente, mas apenas através da fonologia prosódica. Em outras

6
M. Nespor; Irene Vogel (1986). Prosodic Phonology. Dordrecht: Foris. O livro continua sendo publicado;
a edição mais recente foi publicada em 2008 pela editora Mouton de Gruyter. No entanto, não conta com
uma edição em português. N.T.

272 Marina Nespor


palavras, apenas aquela parte da sintaxe é incorporada à fonologia prosódica
pode influenciar a forma de versos.

Muitos pesquisadores que trabalham com a teoria da otimidade (to) apre-


sentam argumentos a favor da to usando exemplos de estudos em pro-
sódia. A senhora acredita que a to fornece insights interessantes para a
teoria prosódica?
Nespor — Quando as primeiras propostas sobre a teoria da otimidade estavam
circulando, eu estava gradualmente mudando para a investigação de como os
sinais prosódicos — e quais sinais — podem ser explorados na aquisição de
língua materna. Em particular, estou interessada nos passos que as crianças
podem dar na aquisição da sua língua materna nos primeiros meses de vida,
preferencialmente antes da aquisição do léxico. Ao mesmo tempo, tornei-me
menos interessada em novas teorias fonológicas. Mas diversos estudiosos têm
trabalhado sobre a interação sintaxe- prosódia ou sobre prosódia no quadro
da to, como, por exemplo, Selkirk, Yip, Hayes, Kager, Truckenbrodt. Algumas
referências são fornecidas abaixo.

Prosódia
273
Prosódia1
Plínio A. Barbosa

Qual é o objeto de estudo da prosódia?


Barbosa — Definida pelos funcionalistas de forma negativa como “todos os
fatos de fala que não entram no quadro fonemático, isto é, aqueles que não
concernem, de uma forma ou outra, à segunda articulação” (Martinet, 1991:
83), no cenário de pesquisa atual, a prosódia tem seu campo de estudo nos
domínios linguístico, paralinguístico e extralinguístico. Nesses três domínios
estudam-se as funções prosódicas de demarcação (indicadores de constituin-
tes prosódicos, como sílabas, palavras fonológicas, grupos acentuais, sintag-
mas entoacionais, entre outros), proeminência (saliência de um constituinte
prosódico em relação a outro) e de marcação discursiva (marcadores de turno
num diálogo, modalidade da frase, entre outros). Essas funções são veiculadas
tanto pela entoação quanto pelo ritmo, pela imbricação entre restrições bio-
mecânicas ligadas à produção da fala (tendência à regularidade de constituin-
tes prosódicos) e restrições linguísticas e paralinguísticas ligadas à percepção
da fala (tendência à estruturação dos mesmos constituintes).
Os estudos linguísticos avaliam as funções linguísticas do ritmo, da ento-
ação, da acentuação, do acento lexical e frasal. Já os estudos paralinguísticos
e extralinguísticos procuram dar conta de diversos fenômenos linguageiros e
comunicativos como marcadores discursivos (“né”, “entendo”, “an-han”), ên-
fase, atitudes, emoções e fonoestilos, que se encontram imbricados a fatores
sociais e individuais (biológicos ou aprendidos) como gênero e sexo, classe
social, faixa etária, condição de saúde, entre outros. Aos estudos de prosódia
cabe a análise de unidades fônicas e de suas relações desde a sílaba até o texto
oral, cuja extensão máxima é cada vez mais longa. A análise prosódica se dá
nos eixos linguísticos tradicionais, o eixo sintagmático e o eixo paradigmáti-
co, tanto do ponto de vista fonológico quanto fonético.

1
Entrevista publicada em agosto de 2010.

274 Plínio A. Barbosa


Como começaram os estudos prosódicos no Brasil?
Barbosa — A história de um campo de pesquisa é aquela do conjunto das
micro-histórias de seus pesquisadores e da colaboração entre eles. O mesmo
se dá no estudo de prosódia no Brasil. Portanto, para entender sua pesquisa
hoje, é preciso examinar o papel de precursores, de inspiradores e das siner-
gias anteriores entre grupos de pesquisa.
No que diz respeito ao estudo do acento em português brasileiro, temos
de começar nos referindo aos estudos pré-estruturalistas de Gonçalves Viana
(1973 [1892]), Manuel Said Ali (1908 [1895]) e Antenor Nascentes (1960 [1926]).
Já na via estruturalista, devemos citar, também por conta do tratamento do
acento lexical e frasal, os trabalhos de Mattoso Camara nas décadas de 1950 a
1970. No que concerne aos estudos fonológicos e fonéticos em domínios mais
extensos, os primeiros passos foram dados ao longo de duas décadas, entre
meados dos anos 1960 e meados dos anos 1980, pelos trabalhos de cunho
majoritariamente estruturalista ou funcionalista de Miriam Lemle (1965),
Cléa Rameh (1962), Ester Scarpa (1976, 1984), Lilia Carioni (1978), Josefa Rizzo
(1981) e Luiz Carlos Cagliari (1978, 1982), de cunho fonético-instrumental de
Norma [Fernandes] Hochgreb (1977, 1983), César Reis (1984) e João Antônio de
Moraes (1984) e de cunho fonológico não linear de Maria Bernadete Abaurre
(1981, 1984).
Como relatado na tese de doutorado de Moraes (1984: 74-86), baseando-
-se em análise de oitiva, as três primeiras autoras estudaram a função mo-
dal em português brasileiro: Lemle dedica um capítulo de sua dissertação de
mestrado à proposta de um sistema de três níveis melódicos capaz de dar
conta da entoação da asserção, questão total, enumeração e continuação;
Rameh propõe quatro níveis para descrever a entoação da asserção, questão
total, questão parcial e enumeração. Entre 1972 e 1976, Scarpa, por sua vez,
orientada por Aryon Rodrigues no mestrado, segue o modelo de Halliday para
distinguir a entoação de enunciados assertivos, interrogativos e imperativos.
Em 1984, trabalha no doutorado com a emergência da entoação e o papel da
prosódia na aquisição, sobretudo como primeiro vetor de coesão textual e
dialogia, fazendo para isso uma incursão na análise acústica.
Também adotando o modelo funcionalista de Halliday a partir de aná-
lise de oitiva, Carioni faz uma análise contrastiva da entoação do português
brasileiro e da do inglês britânico, enquanto Rizzo descreve a entoação de
diferentes atos de fala. Praticamente na mesma época, Cagliari, seja de oitiva,
seja pela análise espectrográfica, aplica o modelo de Halliday à descrição do

Prosódia
275
sistema entoacional de São Paulo. Também pela análise espectrográfica dá
os primeiros passos para o estudo do ritmo do português brasileiro (1982),
o que decorre do interesse do autor por metrificação desde seu doutorado
(1977). Tais trabalhos são precedidos de publicações suas em 1980. Em coau-
toria com Cagliari, em 1984, Maria Bernadete Abaurre apresenta trabalho
de caracterização fonológica de estilos que continua o que fora feito com o
trabalho pioneiro sobre o papel de processos fonológicos segmentais como
índices de padrões prosódicos em dois estilos de elocução em 1981. Também
em 1984, Reis, orientado por Cagliari, defende a dissertação sobre Aspectos
entoacionais do português de Belo Horizonte.
Numa abordagem claramente instrumental, Hochgreb estuda, em 1977,
o acento e a entoação do português brasileiro, e, em 1983, conclui sua tese de
doutorado sobre a entoação da frase interrogativa. Em 1984, Moraes, orien-
tado por Fónagy, defende sua tese Recherches sur l’intonation modale du por-
tugais parlé à Rio de Janeiro também abordando, do prisma instrumental, a
questão da modalidade que marcara os primórdios da prosódia no Brasil.
No início dos anos 1990, Sandra Madureira trabalha instrumentalmente
com fonoestilos, enfocando, pioneiramente no Brasil, o papel da qualidade
de voz para sua constituição. São também da mesma época seus primeiros
trabalhos sobre a caracterização de padrões de acento de altura e de mo-
dalidade para a síntese automática da entoação, bem como o estudo ins-
trumental da relação entre entoação e ritmo da fala. Sua preocupação foi
se delineando para os estudos de expressividade na fala na constituição do
sentido a partir do som.
São também estudos de expressividade e de sua relação com funções dis-
cursivas, paralinguísticas e extralinguísticas que hoje permeiam os trabalhos
instrumentais de Madureira, Reis, Moraes, bem como mais especificamente
a afetividade e a fala nos trabalhos de Barbosa. Os dois primeiros autores ini-
ciaram, há alguns anos, trabalhos experimentais da relação entre prosódia e
patologias de fala que têm norteado o que fazer nessa área, incluindo a rela-
ção com a pesquisa de fonoaudiólogas com trabalhos experimentais de relevo
como os de Zuleica Camargo e Luísa Barzaghi, que estudam o emprego da
qualidade de voz e do acento por deficientes auditivos.
Os estudos relatados até aqui trataram, sobretudo, de uma das faces da
prosódia, a entoação, que se refere ao estudo das modulações de altura (pi-
tch) ao longo dos enunciados. Estudos fonéticos sistemáticos do ritmo vão
esperar meados da década de 1980 e início da década de 1990 para emergir.
Afastando-se de estudos métricos propriamente ditos, os estudos de ritmo da

276 Plínio A. Barbosa


fala requerem uma análise fonético-acústica de padrões de duração de cons-
tituintes prosódicos.
Sobre o pioneirismo no estudo do ritmo, destacam-se os trabalhos de Ca-
gliari (com Abaurre, 1986) sobre relações entre padrões rítmicos e processos
fonológicos; de Moraes (com Yonne Leite, 1992) a respeito da interação entre
ritmo e taxa de elocução (speech rate), de Reis (1995) sobre a interação entre
acento, entoação e ritmo em sua tese de doutorado, e meus trabalhos a partir
de 1995 sobre a relevância de unidades silábicas e acentuais para a emergên-
cia do ritmo da fala (Barbosa, 1996, inter alia), ampliando para o português
brasileiro as questões tratadas no ritmo do francês (1994).
Também da mesma época datam os trabalhos em prosódia de cunho
fonológico inspirados pelas fonologias não lineares, especialmente a fonolo-
gia prosódica, de Nespor e Vogel (1986), e a fonologia métrica, de Liberman
e Prince (1977). Destacam-se os trabalhos sobre a relação entre acento e pé
métrico e sândi vocálico, por Leda Bisol (1992), e o trabalho publicado no mes-
mo ano, de Abaurre e Leo Wetzels, sobre a estrutura da gramática fonológica,
que apresenta pressupostos dos modelos referidos acima. Em 1994, Abaurre
também trata a questão acentual e do sândi, defendendo a hipótese de que
determinados bloqueios à aplicação de processos de sândi vocálico em por-
tuguês brasileiro poderiam ser explicados pela presença do acento frasal. É
importante notar também que já em 1990 Abaurre dedica-se a projeto voltado
à descrição e análise fonológica dos padrões rítmicos das diversas variedades
do portu­guês brasileiro, com base nos pressupostos teóricos e metodológicos
das fonologias não lineares, que tinha por um dos objetivos a busca de uma
representação linguística do ritmo do português brasileiro. Na mesma época,
no quadro de projeto de longo fôlego, Abaurre colabora com Charlotte Galves
na busca de uma caracterização precisa dos padrões rítmicos preferenciais
no português brasileiro e no português europeu.
Também na área de fonologia, dessa vez histórica, é o excelente trabalho
de prosódia diacrônica sobre o ritmo do português arcaico que vem sendo
conduzido por Gladis Massini-Cagliari desde a década de 1990 (1996, 1999,
2007, inter alia), aliando rigor metodológico e inovação. Para tanto também
faz inédito recurso das aproximações que existem entre a execução e a pro-
dução musical da mesma época, numa interessante incursão pela prosódia
musical diacrônica.
Uma série de estudantes que receberam formação em prosódia dos pro-
fessores elencados acima são hoje docentes e pesquisadores em universida-
des públicas e privadas. Em sua maioria, continuam os estudos prosódicos no

Prosódia
277
Brasil, cabendo a eles incentivar e angariar novos pesquisadores que possam
continuar essa história com olhares dentro e fora do país.

Estudos prosódicos mantêm interfaces muito interessantes com outras su-


báreas da linguística, como a fonética, a fonologia, a psicolinguística e a
sintaxe. Que área tem recebido maior destaque no cenário nacional?
Barbosa — No cenário nacional, recebem destaque os estudos da prosódia à
luz da metodologia da fonética experimental, sobretudo na UFMG, na UFRJ,
na PUC-SP e na Unicamp, bem como estudos prosódicos através do aporte de
diversas teorias fonológicas funcionalistas e não lineares, especialmente na
Unesp, na USP, na PUC-RS e na Unicamp, sem contar os estudos da interface
entre prosódia e sintaxe pela via da fonologia prosódica derivada do traba-
lho seminal de Nespor e Vogel (1986), especialmente na Unesp, na USP e na
Unicamp.
De relevo são também os trabalhos de interface nas áreas de entoação de
atitudes na UFRJ, UFMG e PUC-SP, da expressão dos afetos na Unicamp e na
PUC-SP, das relações entre prosódia e aquisição da linguagem na Unicamp e
na USP, ou sua perda nas patologias na UFMG, na PUC-SP e na Unicamp, além
de trabalhos sobre o ritmo da fala que envolvem a interface com os mecanis-
mos de produção e percepção da fala, na Unicamp e, mais recentemente, na
UFES. A interface com a psicolinguística, que contribuirá muito para os es-
tudos de percepção da prosódia, tem dado seus primeiros passos a partir do
trabalho de Janet Fodor (2002) sobre prosódia implícita que inspirou estudos
de José Olímpio de Magalhães na UFMG. A metodologia psicolinguística ins-
pira hoje a importação de técnicas de investigação que alimentam trabalhos
de percepção do ritmo na Unicamp.

Desenvolver o estudo e a investigação da prosódia de uma língua pode exi-


gir foneticistas treinados e equipamentos tecnológicos de ponta (como gra-
vadores, computadores, microfones etc.). Como o Brasil se encontra nesses
quesitos?
Barbosa — Nesse quesito convém nos referirmos primeiramente aos estu-
dos instrumentais da prosódia. Para tanto, o país tem investido na formação
de pesquisadores capazes de fazer uma análise instrumental adequada pelo
oferecimento, nos institutos e faculdades da região sudeste, de disciplinas
de fonética acústica e prosódia experimental em cursos de graduação e pós-

278 Plínio A. Barbosa


-graduação. Quanto ao equipamento, o ponto mais relevante para uma boa
análise prosódico-acústica é a aquisição de qualidade do corpus, o que recai
essencialmente, hoje em dia, sobre a qualidade e as características do micro-
fone, associado intimamente ao ambiente em que se dá a aquisição. O desen-
volvimento da informática fez com que o computador fosse cada vez menos
o fator limitante para a análise, tendo em vista o aumento dos espaços de
memória viva e rígida, bem como da velocidade de processamento. Na mes-
ma categoria de avanço, podemos colocar as mídias para armazenamento dos
dados adquiridos.
De posse de um corpus com uma relação sinal-ruído que permita fazer a
análise prosódico-acústica, o uso de software apropriado para análise prosó-
dico-fonética é crucial. O uso disseminado do programa livre Praat (Boersma;
Weenink, 2010) minimizou enormemente o problema da obtenção desse re-
curso, ao mesmo tempo em que fez nascer a necessidade de aperfeiçoamento
no aprendizado do uso de técnicas de análise fonético-acústica, condição sine
qua non para a pesquisa em prosódia experimental. Muito embora os centros
de pesquisa em prosódia experimental não se encontrem desprovidos de har-
dware ou software, quando pensamos no estudo da fala de sujeitos adultos
sem patologia, a questão do equipamento e do ambiente de aquisição passa a
ser um nó górdio na pesquisa com línguas e falares minoritários, com grupos
indígenas, na zona rural ou periférica, no caso de aprosódias e disprosódias,
nos estudos com fala espontânea e expressiva. Em relação a esses últimos,
estamos dando os primeiros passos para dar conta do problema da aquisição
em condições ecológicas.
Cada vez mais a interface entre fonética e fonologia no campo prosódico
requer que o fonólogo também se interesse pelas questões evocadas acima,
para obter corpora com condições naturalísticas que permitam uma análise
linguística capaz de dar conta dos fenômenos comunicativos, especialmente
os espontâneos.

Prosódia
279
Psicolinguística1
Gary F. Marcus

Na sua opinião, o que é a psicolinguística? Como a área se relaciona com a


psicologia e com a linguística?
Marcus — A psicolinguística é — ou deveria ser — um esforço para unir as
duas áreas, psicologia e linguística, que são suas partes componentes. A lin-
guística, ao menos como é praticada frequentemente, lida com a descrição
básica da estrutura da língua — e isso, por sua vez, é uma questão fundamen-
tal para a psicologia, sobre como a mente funciona. Sempre que produzimos
ou compreendemos uma sentença, nosso cérebro aciona uma série de com-
putações intrincadas, e (espera-se que) os métodos da psicologia possam nos
dar alguns insights sobre como isso acontece em tempo real.

Por que você acha que alguns projetos em linguística ainda não se bene-
ficiam dos resultados da neurociência? Em outras palavras, por que você
acredita que alguns linguistas não estão dispostos a aceitar as descober-
tas mais recentes da neurociência?
Marcus — Muitos linguistas estão interessados em saber o que está acontecen-
do no campo da neurociência, mas eles se preocupam, corretamente, com o
quanto a neurociência contemporânea pode lhes dizer. O problema, acredito,
é que as pessoas estão tentando dar saltos muito grandes, pulando por cima
de muitas disciplinas de uma única vez. Para conectar realmente a linguística
à neurociência, você deve poder discriminar os algoritmos e estruturas de
dados usados na linguagem e conectá-los ao modo como os circuitos neurais
representam algoritmos e estruturas de dados. Mas não sabemos quase nada
sobre como os circuitos neurais realizam esse tipo de computação, e até que
tenhamos entendido esse tipo de questão, boa parte do trabalho sobre as ba-
ses neurais da língua provavelmente deverá permanecer insatisfatória.
1
Entrevista publicada em agosto de 2008, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero.

280 Gary F. Marcus


Agora, (mais) uma questão complicada: como o senhor vê a diferença entre
mente e cérebro, no que diz respeito aos estudos linguísticos?
Marcus — No fundo, a mente é somente aquilo que o cérebro faz; eles são
a mesma coisa, descrita em termos diferentes. Mas a curto prazo, pode ser
mais sensato tentar conectar a linguagem a uma função psicológica (a mente)
do que a uma função neural (o cérebro), porque o nível de descrição psicoló-
gica está mais próximo da linguagem. Poder-se-ia conectar a geologia com a
mecânica quântica, mas a química está mais perto.

Conte-nos um pouco sobre seu livro The Algebraic Mind: Integrating Con-
nectionism and Cognitive Science. Foi difícil escrever sobre o assunto?
Marcus — Esse foi meu primeiro livro, sobre as computações básicas que a
mente realiza e sobre como essas funções podem ser implementadas no cé-
rebro. Foi também um desafio para uma linha de pensamento muito popular
à época.
A maior dificuldade foi política. Eu era um jovem na época e estava de-
safiando algumas figuras importantes no campo do “conexionismo” ou “redes
neurais”, sugerindo que esses modelos que eles promoviam estavam demasia-
damente simplificados. E ninguém gosta que uma criança lhe diga que está
errado!

Psicolinguística
281
Psicolinguística2
Leonor Scliar-Cabral

A senhora tem participado de perto do desenvolvimento da psicolinguísti-


ca no Brasil. Quais foram os primeiros estudos de impacto e qual é o estado
da arte da área hoje no país?
Scliar-Cabral — Os primeiros estudos de impacto na área da psicolinguís-
tica no Brasil aconteceram na década de 1970 com a elaboração das teses
de doutorado e uma dissertação de mestrado, nas quais podemos rastrear o
pensamento dominante em aquisição da linguagem: Lemos (1987 [1975]), com
doutorado na Universidade de Edinburgh, orientada por Lyons; Scliar-Cabral
(1977a, b, c), com doutorado na USP, orientada por Geraldina Witter e Albano
(1975, então Motta Maia), mestre pela UFRJ, orientada por Heye e, posterior-
mente, doutorada pela Universidade de Brown. Enquanto Albano buscava as
bases empíricas da teoria de Chomsky a partir do estudo da aquisição da ne-
gação e Scliar-Cabral testava, a nível explanatório, os modelos de Chomsky e
Fillmore, formalizando seis gramáticas de uma criança aos 20m21d, 22m20d
e aos 26m8d, Lemos, sob forte influência, então, da epistemologia genética,
postulava a preexistência de um conhecimento não linguístico (Lemos, 1978).
A área se encontra bastante desenvolvida hoje: houve mudanças teóricas
por parte dos pesquisadores que iniciaram os estudos psicolinguísticos no
Brasil e surgiram jovens pesquisadores que passaram à posição de lideran-
ça, em novos centros irradiadores e respectivas linhas de pesquisa. Podemos,
exemplificativamente, arrolar alguns, para que se tenha uma ideia do estado
da arte atualmente.
Entre as discípulas de Lemos, podemos citar Pereira Castro Campos
(posteriormente somente Pereira Castro, 1978), que pesquisou a emergência
das sentenças causais e condicionais, sob o enfoque funcionalista, e, em fe-
vereiro de 2007, concluiu seu projeto “A interpretação e o conceito de língua

2
Entrevista publicada em agosto de 2008.

282 Leonor Scliar-Cabral


materna na teorização sobre o interacionismo em aquisição de linguagem”.
Perroni Simões (1977) trabalhou com a emergência das categorias temporais
em vinte sessões de uma criança dos 25 aos 35m; atualmente, Perroni (2003)
aderiu ao pensamento chomskyano, com trabalhos sobre complementação e
adjunção em sentenças complexas. Figueira (1977) se dedicou a pesquisar áre-
as de dificuldades na aquisição do léxico em seu filho dos 32m aos 44m; mais
recentemente (2003), essa pesquisadora tem se ocupado com as primeiras
manifestações da reflexividade linguística. Outra autora influenciada por Le-
mos é Scarpa, que estuda os vários traços prosódicos além do tom, tais como
intensidade e ritmo e apresenta estratégias prosódicas para a produção de
enunciados mais longos e a emergência da entoação coesiva entre os enuncia-
dos, as chamadas macroestruturas entonacionais, ou paratons (Scarpa, 1985).
A evolução do pensamento de Albano nos remete a uma linha de pesqui-
sas em aquisição da linguagem, centrada na fonologia e na fonética, na qual a
tônica tem sido a elaboração de um modelo dinâmico que supere a distinção
tradicional entre os componentes fonético e fonológico da gramática fônica
(comensurabilidade). As ideias de Albano se fazem sentir na orientação de
duas dissertações de mestrado, Gama (1989) e Gonçalves (1989), que registra-
ram quinzenalmente em videoteipe uma criança desde os 1m;21d até os 24m;17.
Uma jovem pesquisadora que vem despontando é R. S. Santos, atualmen-
te vinculada à USP, onde desenvolve projeto sobre a aquisição do ritmo no
português brasileiro, investigando a interface fonologia-sintaxe, com vários
trabalhos já publicados (2003, 2005).
Duas pesquisadoras no Rio Grande do Sul têm desenvolvido importantes
pesquisas no campo da aquisição da componente fonológica, Regina Lampre-
cht e Cármen Matzenauer, a primeira na PUCRS e a segunda na UCPel, tendo
ambas aderido à teoria da otimalidade. Regina Lamprecht é editora do único
periódico do Brasil especializado em aquisição da linguagem, Pesquisas em
aquisição da linguagem, editado pela editora da PUCRS.
Na UFBa, a pesquisadora mais influente é E. R. Teixeira, também dedica-
da à aquisição da componente fonológica e aos distúrbios fonológicos.
Entre as pesquisas de aquisição da linguagem deve-se mencionar a con-
tribuição de Scliar-Cabral para o banco mundial de dados CHILDES, no site
http:/childes.psy.cmu.edu/data/Romance/Portuguese/florianopolis.zip, onde
se podem ouvir as gravações e checar os enunciados da criança em transcri-
ção fonética.
Sicuro Corrêa fundou e coordena o Laboratório de Psicolinguística e
Aquisição da Linguagem (LAPAL), na PUCRJ, onde desenvolve pesquisas pio-

Psicolinguística
283
neiras no Brasil sobre processamento em aquisição da linguagem, com inú-
meras publicações.
Com uma tese (2003) sobre o discurso humorístico na criança, Del Ré
desenvolveu sua pesquisa de mestrado (1998) sobre a compreensão e produ-
ção de metáforas por crianças pré-escolares.
Para finalizar a exemplificação sobre as pesquisas atuais em psicolin-
guística no Brasil, cabe mencionar as pesquisas em processamento de Maia
(2008) e França (Maia; Lemle; França, 2007).

Que relação que a psicolinguística mantém com a linguística e a psicologia?


Scliar-Cabral — A psicolinguística, como o nome indica, é uma ciência híbri-
da que resultou da intersecção entra a linguística e a psicologia, acrescidas
pela teoria da informação, no que elas têm em comum. As bases epistemo-
lógicas que possibilitaram o surgimento da psicolinguística no seminário de
verão, da Universidade de Cornell, realizado de 18/06 a 10/08 de 1961, eram
semelhantes. A interdisciplinaridade passou a prevalecer cada vez mais no
cenário científico atual, onde as neurociências dominam.

O conexionismo é um paradigma que tem encontrado muitos adeptos no


Brasil. Como a senhora avalia as contribuições de estudos conexionistas à
Psicolinguística e ao estudo da linguagem de maneira geral?
Scliar-Cabral — Uma corrente que vem ganhando terreno no Brasil é o cone-
xionismo, com a adesão de cientistas de renome, como Albano. O introdutor
do conexionismo na psicolinguística, no Brasil, foi José Marcelino Poersch,
que estimulou vários de seus orientandos a aprofundarem a formação com
as maiores autoridades mundiais na área. Exemplo de suas contribuições é a
tese de Celso Augusto Nunes da Conceição, sobre a inteligência artificial na
morfologia da língua portuguesa, uma simulação computacional conexionis-
ta da aquisição do plural. Exposições sobre o paradigma conexionista e aqui-
sição da linguagem têm sido desenvolvidas por vários pesquisadores (Cielo,
1998; Gabriel, 1998, 2001, 2004; Rossa; Rossa, 2004; Zimmer; Alves, 2006; Po-
ersch; Rossa, 2007).
Podemos citar ainda a tese na qual Bonilha (2005), orientada por Leda
Bisol, casa a teoria da otimidade com o conexionismo.

284 Leonor Scliar-Cabral


Qual foi a principal contribuição dos estudos psicolinguísticos para a ciên-
cia linguística e a compreensão do funcionamento da linguagem?
Scliar-Cabral — O olhar da linguística até meados do século XX, tanto sob
a influência do pensamento saussuriano, quanto nos Estados Unidos, sob a
ótica do distribucionalismo, era focado sobre o objeto língua, desvinculado
de como era processado por falantes e ouvintes ou leitores e escritores. A
grande contribuição da psicolinguística foi a de se propor explicar, através
de métodos experimentais, como o ouvinte transforma o sinal acústico da
fala em significado e como, ao falar, percorre o caminho inverso, o mesmo
se aplicando ao sinal luminoso da cadeia escrita. Hoje, graças aos avanços da
irm e da eletroencefalografia, foi possível demonstrar empiricamente como o
cérebro numa área altamente especializada, a área occípito-temporal ventral
esquerda, processa as invariâncias das letras: o conceito de invariância, pos-
tulado no primeiro quartel do século XX pelos estruturalistas, está definiti-
vamente comprovado!

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286 Leonor Scliar-Cabral


Referenciação1
Mônica Magalhães Cavalcante

A temática da referência, inicialmente, era uma preocupação da filosofia.


Em que medida os estudos linguísticos redirecionaram a compreensão so-
bre esse fenômeno e quais momentos desse percurso a senhora destacaria?
Cavalcante — Do pouco que conheço dos estudos filosóficos, posso dizer que
a preocupação da filosofia da linguagem era, na verdade, não com os sentidos
originados das relações entre referentes, mas com o modo como a linguagem
dizia a realidade. A diferença entre os dois grandes paradigmas filosóficos que
se ativeram às ligações de dependência, ou não, entre linguagem e mundo —
essencialismo e relativismo — residia no caráter puramente representacional
ou não atribuído à linguagem. Para as correntes mais representacionistas,
fundadas no essencialismo de Platão e Aristóteles, a linguagem expressava
a realidade. Na tese platônica, as palavras teriam o poder de representar a
realidade essencial (autônoma) das coisas. Na tese aristotélica, o pensamento
(a alma) intervinha nessa relação: as coisas do mundo afetavam o pensamento
de maneira semelhante para todos os seres humanos, e a linguagem expres-
sava o pensamento. Por outro lado, para as correntes mais antirrepresenta-
cionistas, seguidoras de posturas mais plásticas, mais relativas, tal como a
dos sofistas, a linguagem participava da própria construção da realidade, e,
portanto, não lhe cabia a mera função de etiquetagem das coisas do mundo.
A realidade nunca poderia ser completa e precisamente dita pela linguagem,
nem mesmo quando os sujeitos têm a ilusão de total domínio de seu dizer.
Como se vê, a concepção dos relativistas foi, com efeito, precursora das
abordagens pragmáticas das pesquisas linguísticas. Por isso mesmo, penso
que os estudos do texto já nasceram dentro de um paradigma mais relativis-
ta, porque a unidade do texto só se constrói, necessariamente, no uso, em
circunstâncias concretas de enunciação. Por mais que se acusem de “estrutu-

1
Entrevista publicada em agosto de 2015.

Referenciação
287
ralistas” as primeiras propostas de análise do texto da linguística textual (lt)
e por mais que ela tenha, de fato, adotado alguns procedimentos formalistas,
ainda assim, não me parece apropriado ligar a lt aos paradigmas realistas
e mentalistas que orientam as pesquisas em linguística formal. De vocação
funcionalista, a lt radica, desde sempre, num paradigma pragmatista, voltado
para o texto em situações enunciativas particulares, pois nunca se ocupou em
descrever e conceituar parcelas da realidade, nem tampouco em caracterizar
processos e conteúdos mentais aprioristicamente dados.
Quando floresceu no Brasil, nos anos 1980, principalmente pelas mãos
de Luiz Antônio Marcuschi e de Ingedore Koch, mas também de Leonor Fáve-
ro, Irandé Antunes e outros, a linguística textual já começava a se distanciar
das análises transfrásticas, praticadas por autores alemães, como Isenberg e
Harweg, para quem o texto se dava em sequências lineares e constituía uma
soma de significados, ou uma cadeia de substituições. Também se distancia-
va, mas ainda guardava muitos resquícios disso adaptados para seus próprios
fins, de pressupostos das gramáticas de texto, propostas por autores como
Charolles e van Dijk, para os quais o texto era uma unidade formal, gerada
por regras que comporiam a competência textual do falante.

E como era tratada a questão da referência nesses tipos de abordagem?


Que heranças o estudo da referência recebeu dessas vertentes pioneiras
da linguística textual?
Cavalcante — Uma vez que, nas análises transfrásticas, se dava atenção aos
fenômenos que, tal como a referência, não conseguiam ser satisfatoriamen-
te explicados pelas teorias sintáticas e semânticas limitadas ao nível da sen-
tença, as relações eminentemente coesivas de substituição de um termo por
outro em relações correferenciais ganharam muito vigor. A anáfora, nessas
pesquisas, era bem prototípica de mecanismos linguísticos que careciam de
explicações para além do nível das relações intra e interfrasais, já que seu
sentido só se completava em outros elementos que ultrapassavam esse nível e
se localizavam em outras porções do texto. O procedimento de análise consis-
tia em ir da frase para segmentos maiores no texto pela observação de recur-
sos linguísticos coesivos como os pronomes anafóricos. Os anafóricos eram,
pois, vistos como termos que entravam no lugar de outros — uma condição
que, na verdade, nunca deixou de ser importante para as costuras textuais,
mas que, por outro lado, jamais poderia ser suficiente, nem mesmo para a
apreensão de sentidos do texto como unidade semântica, quanto mais para a

288 Mônica Magalhães Cavalcante


(re)construção coparticipativa dos sentidos e das referências do texto como
unidade de comunicação.
Foi por reivindicarem que a noção de texto deveria ser mais que uma
“sequência pronominal ininterrupta” e mais que um conjunto coerente de
enunciados que alguns estudiosos, sobretudo os de formação gerativista,
propuseram a concepção de “gramática de texto”. Como na teoria gerativa,
falava-se de regras internalizadas, só que, neste caso, essas regras corres-
ponderiam não à competência linguística do falante, mas ao que se passou a
chamar de “competência textual”. Numa paráfrase da competência linguísti-
ca, a competência textual foi definida por Charolles como a capacidade de o
falante produzir e interpretar um número infinito de textos, permitindo-lhe
não somente reconhecer quando um conjunto de palavras ou frases poderia
constituir um texto com sentido completo, como também resumir, parafra-
sear textos, atribuir-lhes título, estabelecer relações entre as partes que os
compõem e identificar e/ou produzir gêneros etc. O trabalho pedagógico com
o desenvolvimento dessas habilidades da competência textual foi fecunda-
mente explorado por professores, linguistas e autores de livros didáticos, e
ainda reverbera, até hoje, em numerosos materiais didático-pedagógicos. As
gramáticas de texto tiveram, sem dúvida, o grande mérito de considerar o
texto como a unidade linguística mais elevada, decomponível em unidades
menores, além do mérito de privilegiar o critério de coerência, ainda que a
tomando apenas como uma unidade semântica subjacente à superfície tex-
tual. Como elemento alicerçante do texto, a coerência semântica foi descrita
por van Dijk sob o aspecto microestrutural das relações inter e intrafrásticas,
léxicas e gramaticais, mas, principalmente, sob o aspecto macroestrutural da
unidade semântica global do texto. As formas referenciais não se notabiliza-
ram nessa abordagem, mas estavam pressupostas tanto nas análises micro-
estruturais, quanto na macroestrutural e superestrutural.
A preocupação com a referência ganhou espaço, por outro lado, num
movimento paralelo ao das pesquisas em gerativismo: o das vertentes da
pragmática. Por isso, reitero que a linguística textual sempre esteve, ine-
vitavelmente, arraigada a princípios do pragmatismo, desde os filósofos da
linguagem que propuseram a teoria dos atos de fala (Austin e Searle) até o
princípio de cooperação (de Grice) na pragmática da inferência, passando por
Bühler, Benveniste e Fillmore, com a caracterização do processo referencial
da dêixis, e chegando à noção de face da sociolinguística interacional e à te-
oria da polidez linguística. Todas essas abordagens da pragmática repercuti-
ram diretamente nos conceitos sustentados pela linguística textual e pelas

Referenciação
289
análises da conversa. A pragmática se inscreveu também nos pressupostos de
todas as pesquisas gramaticais que se assumiram como funcionalistas, entre
as quais ressalto a sistêmico-funcional, proposta por Halliday, que sempre
reservou ao texto um lugar de destaque.
Foram exatamente Halliday e Hasan que, numa perspectiva funcionalis-
ta — portanto, necessariamente, pragmática —, definiram a coesão como o
fator de textura (ou de textualidade) mais fortemente responsável pela iden-
tificação da unidade semântica de um texto. Veio daí a tão propalada ideia de
que o que distinguiria um texto de um não texto seria a textura, reconhecível
por um conjunto de características que colaborariam para sua unidade total.
Essas características seriam exatamente as relações coesivas. Por essa descri-
ção, percebe-se que, para Halliday e Hasan, a coesão se definia por traços não
necessariamente formais de emprego de elos coesivos, mas por propriedades
essencialmente semânticas de articulação de ideias. Entendo, assim, que a
coesão seria, para os autores, um dos fatores de coerência — posição que te-
nho endossado nos últimos tempos, só que dentro de uma visão muito mais
ampliada de coerência.
As ligaduras coesivas foram classificadas por Halliday e Hasan, em 1976,
em cinco tipos, quatro dos quais envolvendo conexões referenciais: referên-
cia, substituição, elipse e coesão lexical (fica de fora apenas a conjunção). Foi,
pois, como processo coesivo, articulador e assegurador de relações semânti-
cas que o estudo da referência se estabeleceu definitivamente na linguística
textual e nela prosperou de tal maneira que passou a estereotipá-la: há quem
suponha, ainda hoje, equivocadamente, que a linguística textual se circuns-
creva a análises de coesão e coerência.
Não preciso salientar a influência que essa classificação de tipos coesi-
vos exerceu sobre a linguística textual que se iniciou no Brasil na década de
1980. Mas foram, a meu ver, os pressupostos de Beaugrande e Dressler quanto
aos fatores de textualidade que mais influenciaram os trabalhos de Marcus-
chi, Koch, Fávero, Antunes e seguidores brasileiros. Todavia, no que tange
ao estudo da referência, Beaugrande e Dressler não propuseram nenhuma
abordagem classificatória ou metodológica desse fenômeno, de modo que
prevaleceu por muitos anos a análise da referência como um processo de ar-
ticulação entre segmentos textuais via retomada anafórica direta e indireta.
Ninguém se dedicou tanto aos mecanismos coesivos de referência e a
suas aplicações ao ensino de compreensão e produção textual quanto Inge-
dore Koch aqui no Brasil. Argumentando contra a fragilidade da classificação
de Halliday e Hasan, assim como o fizeram outros autores, tais como Brown e

290 Mônica Magalhães Cavalcante


Yule, que igualmente criticavam a sobreposição dos critérios definidores dos
processos de referência, substituição, elipse e coesão lexical, a autora agrupou
esses quatro tipos coesivos classificados por Halliday e Hasan em um só me-
canismo guarda-chuva, a que chamou de “coesão referencial”. A ela se oporia
a “coesão sequencial”, correspondente à conjunção, de Halliday e Hasan.

Em seus estudos, a senhora realiza uma abordagem sociocognitivo-dis-


cursiva da referenciação. Quais são as bases epistemológicas que carac-
terizam essa abordagem, e, quanto ao estudo da referenciação, teria como
identificar um projeto comum entre os diferentes pesquisadores dentro
dessa perspectiva?
Cavalcante — Para responder a esta pergunta sobre o que é a abordagem
sociocognitivo-discursiva da referenciação, é necessário, antes, justificar por
que a referenciação se diferencia das análises de referência da linguística tex-
tual na década de 1980, assim como é necessário enquadrar esse fenômeno
linguístico na noção de texto e de coerência em que ele se apoia.
A passagem da concepção da referência para a da referenciação acontece
em 1994, com a tese de Lorenza Mondada, e com a de Denis Apothéloz, em
1995. Mondada inaugura a visão dinâmica de referente como objeto de dis-
curso, alegando que o referente não mais corresponde nem às coisas reais
do mundo que ele representa, nem às relações entre expressões referenciais
manifestadas no cotexto, do modo como se fazia nas análises de coesão re-
ferencial. Para Mondada, e depois para Apothéloz, o referente ou objeto de
discurso é elaborado na própria “atividade textual”, sim, porque o texto é, ele
também, uma construção dinâmica. Quando encampou esse ponto de vista,
a linguística textual, mais uma vez encabeçada por Marcuschi e Koch, passou
a defender que a unidade de coerência se ajusta localmente aos contratos de
comunicação estabelecidos no momento em que o texto se enuncia. Como
elementos imprescindíveis para a coerência, os referentes se tornam enti-
dades negociadas durante a interação, não importa se em circunstâncias de
fala, de escrita ou de enunciação hipertextual.
O texto deixa de ser um veículo neutro de conteúdos preexistentes, se-
gundo Mondada, porque não deve ser pensado segundo uma concepção re-
presentacionista, pela qual a linguagem estabelece uma correspondência
cartográfica entre o mundo dado e as palavras que o representam. O texto
instaura sua própria realidade, seu próprio universo de discurso, dentro de
uma visão interacional e praxeológica da linguagem, porque está imbricado

Referenciação
291
nas práticas sociais em que se efetiva. Por essa visão, não há conteúdos e sa-
beres estáveis nem no mundo nem na linguagem, isto é, nem a realidade, nem
as palavras, nem os referentes são imutáveis. Se há significados e denotações
culturalmente registrados — e sempre há —, eles entram imediatamente
num jogo de desestabilização e estabilização a cada momento em que são usa-
dos no enunciado, de tal sorte que, no uso (e o texto é sempre uso), sentidos e
referentes se tornam uma reconstrução negociável, um contínuo processo de
ação e de atenção conjunta, uma “referenciação”.
Esse posicionamento encontra acolhida na filosofia wittgensteiniana,
para a qual o papel da linguagem não se restringe à nomeação e à descrição
de estados ou de coisas já dados, pois a linguagem, na verdade, constitui as
próprias práticas humanas, assim como é por elas constituída. Assim, em
complexos jogos de linguagem, as entidades vão sendo percebidas e ditas
num processo de “categorização adaptativa”, segundo Mondada. Por isso, a
designação dos referentes nunca parece completa aos sujeitos participantes
da interação. Para Mondada e Dubois, as estruturas cognitivas memoriais dos
seres humanos permitem-lhes acreditar em certas estabilidades categoriais
que se lexicalizam e se convencionam, mas é a mesma intelecção humana
que também permite desorganizar e reorganizar a construção conjunta (ou
coconstrução) dos referentes pelos interlocutores. É com base nesse pen-
samento que explico o pressuposto de que a referenciação é um processo
sociocognitivo.
Algumas aproximações epistemológicas podem ser feitas com esse
pressuposto da sociocognição na elaboração de referentes como objetos de
discurso. Uma delas é que a ideia de recategorização contínua, por catego-
rizações adaptáveis aos contextos e às práticas sociais, pode convergir para
algumas afirmações da fenomenologia biológica e relacional de Maturana,
para quem a cognição dos seres humanos é um sistema dinâmico e histórico.
Para o autor, o mundo se configura na linguagem e depende da cognição dos
sujeitos que o enunciam. Nesse “acoplamento estrutural”, nessa influência
mútua entre a cognição dos seres humanos e o meio, as categorias vão sendo
constituídas e vão constituindo domínios consensuais, o que afeta e modifica
a própria biologia humana e, consequentemente, a própria cognição.
Essas concepções de uma cognição intricada com o meio social e com
as práticas discursivas dão suporte ao que defendemos como sociocognitivis-
mo e nos afastam, definitivamente, do cognitivismo clássico, que supõe ser a
razão humana um sistema de princípios gerais, formais e lógicos, acionados
sempre que as condições do meio assim o exigem. Acreditam que o conhe-

292 Mônica Magalhães Cavalcante


cimento que se armazena na mente poderia ser todo representado por sím-
bolos e por operações lógicas formalizáveis, por isso interessa à ciência da
cognição elaborar modelos cada vez mais sofisticados que lhes possibilitem
explicar como o conhecimento é processado na mente humana.
Não é esse o objetivo da linguística textual. Ao contrário dos estudos
semântico-cognitivos, a sociocognição pressuposta na linguística textual só
se ocupa de enunciados em uso, mas não para abstrair deles estruturas e re-
gras abstratas que seriam válidas para dados comportamentos linguísticos.
Importa-nos interpretar os sentidos e as referências (re)categorizadas ad hoc
em situações específicas de elaboração e reconstrução do texto. Os conhe-
cimentos compartilhados não se supõem apenas “convocados”, mas também
ajustados a cada particularidade contextual em que se “desajustam” e se rein-
ventam a todo instante, de maneira que nunca há total controle sobre regras
e modelos subjacentes.
No Brasil, o sociocognitivismo recebeu forte influência dos trabalhos de
Margarida Salomão, que define três premissas básicas para a hipótese socio-
cognitiva: a escassez do significante, a semiologização do contexto e o drama da
representação. Por escassez do significante, a autora entende que não basta
dizer que a forma linguística é econômica e permite a produção de infini-
tas representações. As expressões linguísticas operam apenas como instru-
ções, como pistas que suscitam tarefas semântico-sociais da linguagem. Por
semiologização do contexto, Salomão entende que o contexto não se reduz
a aspectos estáticos circunstanciais da situação imediata, mas inclui todos
os elementos de uma cena enunciativa enquadrada e focalizada no momento
da situação comunicativa. Esse enquadramento de cenário social está com-
pletamente imbricado nas instruções linguísticas e nas configurações cog-
nitivas que se criam e recriam na interação. Por “drama da representação”, a
autora entende que fazer sentido é, necessariamente, uma operação social e
que, dessa forma, os sujeitos não constroem os sentidos em si mesmos, mas
para alguém, com objetivos específicos, assumindo certos posicionamentos
sociais, numa dinâmica de reenquadramentos.
O fato de nos orientarmos por uma visão sociocognitivista não signifi-
ca que rejeitemos as análises cognitivas de fenômenos linguísticos. Aponta
apenas para uma necessária delimitação de terreno, de objetivos e métodos
concernentes a cada área do saber. Nada obsta a que a linguística textual,
que aceita a interdisciplinaridade, recorra a conclusões semântico-cognitivas
para, com base também nelas, proceder à análise do funcionamento textu-
al. Assim como podemos recorrer — e, muitas vezes, o fazemos — a descri-

Referenciação
293
ções funcionalistas e a conceitos das análises de discurso. Não podemos, por
exemplo, sustentar que os processos de referenciação constituam um fenô-
meno sociocognitivo e discursivo sem invocar o auxílio das abordagens dis-
cursivas do texto.
Para mim, a construção coletiva e colaborativa dos referentes ancora
num pressuposto de intersubjetividade no sentido não apenas benvenistiano,
mas também bakhtiniano do termo, porque, como toda prática discursiva, é
sempre ideológica. Defendo, com base nisso, que o texto está constitutiva-
mente vinculado à cenografia e ao cenário social em que se desenvolve, e é
essa peculiaridade que inscreve o texto numa dimensão discursiva. Não é
objeto de investigação da linguística textual, todavia, a interdiscursividade,
nem as práticas sociais em si mesmas e as explicações dos discursos a que se
integram. Isto é o alvo de interesse da análise do discurso.
Aceito as interfaces, por exemplo, quando me sirvo da análise crítica de
discurso praticada por van Dijk, hoje, para afirmar, com ele, que os esque-
mas ou modelos mentais são socialmente produzidos e passam a ser com-
partilhados por determinado grupo social. Tais modelos mentais comportam
crenças, ideologias e conhecimentos, que se estabelecem com alguma estabi-
lidade na memória de longo termo dos sujeitos. O que é cognitivo, para van
Dijk, é necessariamente social e ideológico.
A linguística textual em que acredito assume uma necessária interface
com as relações discursivas sem fazer delas seu objeto de análise; incorpora
pressupostos de uma enunciação ampla, sócio-historicamente constituída,
mas utiliza seus próprios parâmetros de investigação. A referenciação é ape-
nas um deles.

A compreensão dos efeitos de sentido produzidos pelo fenômeno da refe-


renciação pode ser de interesse de diversas áreas do conhecimento. Que
áreas já têm percebido esse valor do saber do linguista sobre os processos
de referenciação, pensando no campo da linguística aplicada, e, a seu ver,
como se pode ampliar esse interesse?
Cavalcante — A referenciação pode interessar a diversas áreas do conheci-
mento porque é um dos critérios mais indispensáveis para a elaboração e in-
terpretação da coerência, e a coerência é a condição fundamental do texto.
Impossível não lidar com textos, porque é por meio deles que interagimos.
Portanto, o interesse pelo assunto já é um fato.

294 Mônica Magalhães Cavalcante


O estudo do texto é muito caro à linguística aplicada ao ensino de língua
portuguesa, uma vez que a maior parte dos temas de pesquisa nessa área está
reservada às práticas de leitura, de produção escrita e de desenvolvimento
de gêneros da oralidade. Todos esses eixos requerem a compreensão de rela-
ções de coerência e, para tanto, há que se tratar de construções referenciais,
mesmo quando isso se faz intuitivamente, sem consciência metalinguística.
Mas não somente a linguística aplicada tem dispensado atenção aos pro-
cessos referenciais para a incrementação de seus estudos. Por limitações de
espaço, mencionarei apenas alguns eixos que vêm reivindicando uma relação
possível e profícua com a referenciação.
O grupo de pesquisa que coordeno na Universidade Federal do Ceará, o
PROTEXTO, vem desenvolvendo, numa tendência mais teórica, artigos, dis-
sertações e teses para redefinir um tipo de processo referencial: ou de in-
trodução referencial, como a tese de Franklin Silva; ou de anáfora indireta e
de funções referenciais, como os trabalhos de Suele Alves; ou de encapsula-
mento e suas funções, como a dissertação de Jammara Oliveira; ou de dêixis,
como minha tese e um capítulo que elaborei recentemente e que sairá em
breve, além da tese de Abniza Pontes de Barros Leal. Todos esses estudos, evi-
dentemente, contrapõem um processo referencial a outros irmanados a ele.
Outras pesquisas do grupo, de natureza mais empírica, buscam analisar
a participação dos processos referenciais na organização textual e no fun-
cionamento social de gêneros particulares e, para isso, socorrem-se de des-
crições já postas ou na análise de gêneros fundada em Bazerman e Miller, e
em Bakhtin, como se encontra em algumas teses orientadas por Margarete
Fernandes de Sousa; ou na linguística sistêmico-funcional, como a tese em
andamento de Sâmia Araújo dos Santos; ou na gramática do design visual, de
Kress e van Leeuwen, como a tese de Suelene Oliveira Nascimento. Citem-se
ainda os trabalhos de Mariza Brito e Carlos Magno Viana Fonseca, que, en-
quadrados na interface entre linguística textual, psicanálise e a linguística da
enunciação de Authier-Revuz, refletem sobre um tipo de recategorização de
referentes não explicitados, senão apenas indiciados por certos significantes
que poderiam expressar desejos do inconsciente.
Várias pesquisas funcionalistas, caudatárias das descrições propostas
por Maria Helena de Moura Neves nos estudos da gramática funcional dos
discursos, definem os referentes como entidades que constituem termos
de predicações e tentam explicar como determinadas escolhas semânticas,
como o tipo modal de proposição e o valor aspectual dos tempos verbais,

Referenciação
295
condicionam certos empregos referenciais, o que é caracterizado como re-
gularidades de uso.
Estudos de cognição realizados na Unicamp, sob a coordenação de Edwi-
ges Morato, tratam da referenciação metadiscursiva no contexto das afasias e
da doença de Alzheimer. O foco recai, prioritariamente, sobre os movimen-
tos referenciais reflexivos realizados pelos falantes para voltar-se sobre o seu
próprio dizer ou sobre o dizer do interlocutor. O objetivo é explicar como os
pacientes e seus interlocutores (também pacientes, por vezes) constroem, de
forma situada e contextual, os objetos de discurso e, por meio disso, organi-
zam os tópicos discursivos. Ainda na perspectiva cognitiva, destaco dois tra-
balhos que vêm se desdobrando em outras pesquisas: a tese de Maria Helenice
Costa, sobre a acessibilidade de referentes, e a de Silvana Calixto de Lima, so-
bre os modelos cognitivos idealizados licenciadores de processos anafóricos.
Algumas pesquisas começam a constatar a importância da referenciação
para a descrição da língua brasileira de sinais, a libras. O estudo de Christiana
Leal, sob a orientação de Leonor Werneck dos Santos, na Universidade Federal
do Rio de Janeiro, comparou as relações referenciais engendradas no texto em
libras com a referenciação nos textos escritos em português pelos surdos, a
fim de verificar a influência de uma modalidade enunciativa em outra.
Diversos estudos vêm demonstrando a importância das estratégias de
referenciação para a condução argumentativa de dado gênero e, para isso,
têm discutido as funções discursivas viabilizadas por processos de recatego-
rização. A tese de Alena Ciulla, sob minha orientação, deu o pontapé inicial
a essa empreitada, que já rendeu bons resultados e continua estimulando a
elaboração de novas pesquisas. A tese de Valdinar Custódio Filho propõe uma
descrição dos processos referenciais em termos de funções que eles exercem
em narrativas extensas e em textos multissemióticos, ambos com quebra de
expectativa final.
Este espaço não me permitiria falar de todos os trabalhos já concluídos
ou em andamento, por isso vou limitar-me a essas menções, mas não sem an-
tes ressaltar estudos mais afeitos a análises contextuais e culturais que vêm
sendo realizados por Geralda Lima e orientandos, na Universidade Federal
de Sergipe.
Parte desse percurso das pesquisas em referenciação está muito bem
discutida na tese de Walleska Bernardino, na Universidade Federal de Uber-
lândia, que analisa a elaboração referencial em textos verbo-imagéticos e que
sintetiza, com maestria, as principais conclusões de nosso posicionamento
mais recente sobre referenciação.

296 Mônica Magalhães Cavalcante


Nos últimos tempos, o fenômeno da referenciação tem recebido a atenção
de todo tipo de prova de proficiência em língua portuguesa, desde a Pro-
vinha Brasil até concursos públicos para preenchimento de cargos públi-
cos. Como a senhora avalia a presença desse fenômeno no ensino básico
hoje, e quais seriam as próximas metas a se atingirem, nesse sentido, na
educação básica?
Cavalcante — Já nos Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCN, na carac-
terização da área de língua portuguesa, sobretudo no item “Linguagem, ati-
vidade discursiva e textualidade”, devota-se particular atenção ao texto e às
práticas intersubjetivas que ele torna viáveis. O termo referenciação não se
encontra, infelizmente, nomeado, mas os mecanismos referenciais estão pos-
tos, porque, como já disse, deles dependem a construção e a reconstrução da
coerência. Mas essa ausência, ou insuficiência, não é única nos PCN. Quando
se afirma, por exemplo, que a linguagem se realiza “na interação verbal dos
interlocutores”, não se contempla a multimodalidade presente nos textos, do
mesmo modo que não se dá o devido crédito ao modo de enunciação digital da
hipertextualidade, que determina a maior parte das interações de hoje. Tam-
bém quando se define texto como uma “atividade discursiva oral ou escrita”
e como “uma sequência verbal construída por um conjunto de relações que
se estabelecem a partir da coesão e da coerência”, percebe-se um pressuposto
de coerência ainda entendida como unidade significativa global, ainda muito
dependente de sua textura interna.
Se a referenciação tem recebido toda a atenção dos documentos oficiais
que balizam o ensino de língua portuguesa e dos exames nacionais e locais
que diagnosticam o nível dos alunos, então, para ser coerente com a própria
definição de processo referencial, é preciso ainda superar a noção de texto
como materialidade explícita dos gêneros e dos discursos. Para mim, o texto é
uma unidade abstrata de comunicação e de sentidos (não de significados ape-
nas internos). Sua unidade de coerência emerge de um evento comunicativo
que, de algum modo, vai a termo e no qual os sujeitos são vistos como agen-
tes sociais inseridos num contexto sócio-histórico e cultural. Não há regras
específicas e universais sobre a coerência que possam ser aplicadas a todo
e qualquer texto: elas são tão dinâmicas quanto dinâmicos são os processos
referenciais que se negociam durante as interações. Os referentes precisam
ser considerados, na escola e nos exames que avaliam o ensino, como uma
representação na mente dos interlocutores de entidades que são construídas
na inter-relação entre o cotexto, o contexto social e os conhecimentos com-
partilhados no evento em que o texto acontece.

Referenciação
297
Esse salto me parece fundamental para não se ter uma perspectiva estrei-
ta não só de coerência, mas também de coesão. A coesão diz respeito à arti-
culação entre construções sintático-semânticas e segmentos tópicos do texto.
Usar processos referenciais não é a mesma coisa de empregar expressões refe-
renciais com a mera função de elos coesivos. É muito mais do que isso.
Um passo importante nessa direção foi dado pelo Enem, que reservou
aos parâmetros textuais mais de uma competência. O Enem teve o mérito
de estabelecer um teto para cada critério de correção das redações e, com
isso, promoveu uma mudança de hábitos e de exigências: os corretores não
poderiam mais deduzir pontos em excesso dos erros relativos à norma escri-
ta formal da língua portuguesa, como costumava acontecer nas correções de
produção escrita. Agora, haveria um limite de pontuação para cada critério, e
assim passou a ser obrigatório avaliar a redação quanto à coerência (incluin-
do-se aí a referenciação) e à elaboração argumentativa, para a qual também
colaboram os processos referenciais.
A medida surtiu efeito não só sobre todo o ensino médio, mas também
sobre o fundamental: interveio no ensino de redação e de compreensão de
textos, além de ter fomentado a discussão entre professores e pesquisadores
sobre o que é um texto composicionalmente argumentativo e sobre como pre-
parar o aluno para a habilidade de argumentar com eficácia.
A maneira mais eficaz de fazer as concepções mais pragmático-discursi-
vas de texto, de referenciação, de coerência, de argumentação e de intertex-
tualidade chegarem ao ensino básico é aperfeiçoar os professores. Os exames
nacionais já expuseram as deficiências pelas quais somos diretamente res-
ponsáveis. Resta, agora, investir em cursos que concedam aos professores
uma chance de se reciclar. Por isso, apoio iniciativas como a do mestrado
profissional em Letras, o PROFLETRAS, que tentam dar a professores de es-
cola pública algum aprofundamento teórico sobre conteúdos com os quais li-
dam em sala de aula, ao mesmo tempo em que estimulam a sugestão de novos
recursos e materiais didático-pedagógicos. O ideal seria que o PROFLETRAS
se estendesse a professores da rede privada e que se cobrasse das escolas o
legítimo direito de redução de carga horária para o professor que desejas-
se melhorar sua formação. O investimento no professor me parece uma das
principais metas a serem alcançadas. Só assim, ele poderá usar de criativida-
de para ensinar o que realmente domina.

298 Mônica Magalhães Cavalcante


Semântica1
Jerry Fodor

Certamente há diferentes respostas para uma pergunta como “O que é a


semântica?”. Mesmo assim, nós nos atreveremos a perguntar: na sua opi-
nião, o que é a semântica e o que ela estuda?
Fodor — Suponho que uma semântica que seja uma teoria de uma língua,
natural ou artificial, é parte de uma gramática daquela língua. Em particular,
é a parte da gramática que se preocupa com as relações entre os símbolos da
língua e as coisas no mundo a que eles referem, ou para as quais mantêm con-
dições de verdade. A analogia é com uma teoria sintática da língua. A noção
de sintaxe, para os gramáticos “gerativos”, é que a sintaxe se preocupa com
quais expressões são “bem formadas” na língua que ela descreve; em parti-
cular, a sintaxe distingue as expressões que pertencem à língua daquelas que
não pertencem; e ela também representa certas propriedades estruturais de
símbolos complexos, incluindo, crucialmente, sua estrutura de constituintes.
A intuição é de que a sintaxe trata de como as expressões em uma língua são
colocadas juntas, e a semântica trata de como elas se relacionam aos seus
referentes no mundo não linguístico.
Isso se tomarmos uma visão mais ou menos “tarskiana” de semântica.
Como Tarski diz, uma semântica apropriada da língua l deveria, no mínimo,
determinar as condições sob as quais as sentenças (declarativas) de l são ver-
dadeiras. Uma semântica para o inglês incluiria, então, entre sua infinidade
de acarretamentos, o teorema que diz: a sentença inglesa “snow is white” (“a
neve é branca”) é verdadeira se e somente se o mundo é tal que “a neve é
branca”; a sentença inglesa “Kant was a philosopher” (“Kant foi um filósofo”)
é verdadeira se “Kant foi um filósofo”, e assim por diante. Apesar da aparência
das “Tarski sentences”, elas não são, de forma alguma, triviais ou vazias. Você

1
Entrevista publicada em março de 2007, originalmente em inglês. Trad.: Gabriel de Ávila Othero e Gus-
tavo Brauner.

Semântica
299
pode ver isso se você assume que as propriedades semânticas das sentenças
do inglês são descritas em alguma língua que não seja o inglês. Que “the cat
said ‘meow’” (“o gato fez ‘miau’”) seja verdadeira se e somente se “le chat a
dit ‘meow’” aparentemente não é trivial. Ao contrário, é justamente o tipo de
fato que um falante de francês que esteja aprendendo inglês (ou um falante
de inglês que esteja aprendendo francês) necessitaria saber.
Algumas advertências:
— Assumo que um sistema de representações mentais constitua uma língua
(o “mentalês”); dessa maneira, o entendimento proposto sobre aquilo de
que trata a semântica está vinculado, entre outras coisas, às represen-
tações mentais (em particular, aos conceitos e às construções em que
eles entram, ambos são considerados, para essas propostas, com fórmu-
las do mentalês). É bem provável que apenas as representações mentais
tenham propriedades semânticas (verdade e referência) “em primeira
instância”. As fórmulas nas línguas naturais herdam suas propriedades
semânticas daquelas representações mentais que estão acostumadas a
expressar. Em uma primeira aproximação, “snow is white” significa que
a neve é branca em inglês porque é a forma de palavras que os falantes
de inglês usam para expressar a crença de que a neve seja branca.
— Essa proposta é, em vários aspectos, um entendimento relativamente
exíguo do que é a semântica e do que ela trata. Na tradição empirista, es-
pecialmente, tem-se geralmente suposto que a semântica deveria especi-
ficar quais das fórmulas em uma língua são “analíticas” ou “verdadeiras
em virtude apenas de seu significado”. Então, por exemplo, uma teoria
semântica apropriada do inglês acarretaria que “x é solteiro” signifique
algo como x é um homem não casado, e isso também é verdade sobre uma
pessoa x se e somente se x é homem e não casado. Da mesma forma, a
sentença “se x é solteiro, então x é não casado” é verdadeira em virtude
do significado de seus termos constituintes; ela expressa uma verdade
analítica. Essa visão da semântica preocupada fundamentalmente com
a verdade linguística (/conceitual) é ainda amplamente predominante
entre os linguistas; e muitos filósofos analíticos acreditam em alguma
versão dela. E isso não é surpreendente. Esse tipo de teoria pretende ex-
plicar noções como “verdade conceitual”, verdade de “lógica informal”,
“verdade de uma gramática profunda”, “critério” etc. Essas diversas no-
ções diferem umas das outras em diversas maneiras; mas compartilham
a ideia de que algumas verdades são necessárias a priori porque se man-
têm apenas pelos significados dos símbolos que as expressam. Se isso for

300 Jerry Fodor


verdade, esse tipo de teoria semântica irá racionalizar empreendimentos
como a análise do significado das palavras ou de conteúdo conceitual;
e, de acordo com muitos filósofos, tais análises conceituais/linguísticas
são os típicos produtos do questionamento filosófico. Contudo, por (inter
alia) razões familiares aos trabalhos de Quine e seus seguidores, duvido
muito que essa concepção de semântica possa ser sustentada.
— Assumo que, em todas as línguas de interesse (incluindo o inglês e o
mentalês), existem infinitamente muitas expressões que podem ser ana-
lisadas por seu valor de verdade e sua referência: “este é o gato”, “este é o
cachorro que perseguiu o gato”, “este é o cachorro que perseguiu o gato
que comeu o rato”… e assim por diante, indefinidamente. O maior traba-
lho de uma teoria semântica é explicar como a semântica dessas (infini-
tas) muitas fórmulas são determinadas por sua sintaxe juntamente com
a semântica de seus (infinitos) muitos constituintes primitivos. Então,
grosso modo, “o gato comeu o rato” é verdadeiro se e somente se o gato
em questão comeu o rato em questão; e isso é, por sua vez, verdadeiro
porque “o gato” se refere ao gato, e “o rato” se refere ao rato, e o mundo
é tal que aquele comeu este. Esse é o tipo de coisa que os semanticistas
têm em mente quando dizem que a semântica das línguas naturais (e
do “mentalês”) deve ser “composicional”. Aparentemente, a composicio-
nalidade é uma restrição forte nas teorias semânticas; tanto que, muito
possivelmente, pode ser alcançada apenas por teorias que identificam
as propriedades semânticas fundamentais dos símbolos, como valor de
verdade e referência.

Na sua opinião, por que o significado parece ser central a todas as coisas
humanas, como disse Ray Jackendoff em seu Foundations of Language?
Fodor — Na verdade, não acho que seja. Se o significado parece estar em to-
dos os lugares, isso é porque ele é usado como um termo abrangente para
vários tipos de coisas que são, na verdade, bem diferentes umas das outras.
“Significado” é, em suma, radicalmente ambíguo; sem contar que ele turva a
água de diversas maneiras.
Por exemplo, o significado em noções como “o significado de uma pala-
vra” é bem diferente do significado em “fumaça significa fogo”, que, por sua
vez, é bem diferente do significado em: “Não consigo nem dizer o quão pouco
a fenomenologia significa para mim”. É bem fácil mostrar que isso é assim
mesmo. Considere o seguinte raciocínio: “‘Fumaça’ significa fumaça; fumaça

Semântica
301
significa fogo; logo, ‘fumaça’ significa fogo”. Claramente o raciocínio mostra
a ambiguidade de “significa”: na primeira premissa, “significa” significa algo
como faz referência a; na segunda premissa, significa algo como indica. Se, con-
tudo, você achar que o “significa” significa a mesma coisa nas duas premissas,
você não conseguirá explicar por que o raciocínio não é válido.
Com todo o respeito a Jackendoff, acredito que, para construir uma
teoria, deveríamos esquecer a noção de significado do dia a dia, que parece
saturar nossas vidas. Mesmo naquilo que se pretende ser discurso científi-
co, existem diversos tipos de coisas que psicólogos e filósofos têm dito ser o
significado, e tentativas de trazer todos para o mesmo modelo de teoria têm
sido geralmente malsucedidas. Veja o associacionismo psicológico como um
exemplo pertinente. Só Deus sabe quantos livros e artigos foram escritos, nos
últimos 150 anos, que afirmam que o significado de uma palavra ou o conte-
údo de um conceito é o conjunto de associações com uma alta probabilidade
de ser invocado pela palavra. Isso não pode ser verdade, obviamente; “cachor-
ro” é uma palavra altamente associada a “gato”, mas “gato” não significa “ca-
chorro”. No entanto, a confusão de significado com associação persiste em
psicologia e continua na ciência cognitiva. Tais pontos de vista atualmente
na moda, como o que diz que os conteúdos conceptuais são estereótipos, ou
o que afirma que os conceitos estão organizados em uma “rede neural”, são
versões correntes do associacionismo tradicional e sucumbem aos argumen-
tos antiassociacionistas tradicionais.
Ainda assim, realmente acredito que exista uma noção semântica de
interesse teórico central na psicologia e na linguística e que essa noção de-
sempenha alguns dos papéis que o significado tem tradicionalmente desem-
penhado; a saber, a representação. Talvez o mais importante para entender a
mente cognitiva é que ela é, de alguma forma, capaz de representar o mundo.
O que torna isso tão importante é que a maneira como alguém age é determi-
nada pela maneira como se representa o mundo (ao invés de ser determinada
pela maneira como o mundo realmente é). Obviamente, quando tudo está bem
e sua crença sobre o mundo é verdadeira, a maneira como você representa o
mundo é a maneira como o mundo realmente é. É nesses casos que as ações
baseadas em suas crenças provavelmente serão bem-sucedidas. Caso contrá-
rio, se as ações baseadas em crenças falsas — ou seja, representações erradas
do mundo — forem bem-sucedidas, será por algum acidente de percurso. Da
mesma forma, é parte do que os falantes de inglês sabem sobre inglês que se
alguém disser “John is hungry” (“João está com fome”) (e uma variedade do
que John Austin chamou de “condições de adequação”, nos atos de fala, for

302 Jerry Fodor


satisfeita), ele está dizendo que João está com fome. É nesses casos que as
ações baseadas no que alguém diz provavelmente serão bem-sucedidas.
Isso está bem da maneira que está indo; é completamente plausível que,
do ponto de vista semântico, a essência da linguagem e da mente seja a re-
presentação. Mas essa afirmação carece de metafísica; ela não nos diz o que a
representação é, exceto pelo fato de que ela é tipificada por relações símbolo x
mundo como valor verdade e referência. Saber como representar a metafísica
da representação está entre os debates mais profundos e mais quentes das
questões filosóficas atuais; ainda mais se você aceita a suposição de que a me-
tafísica da representação deve ser “naturalista”. Quer dizer, uma psicologia (/
linguística) representacional deve ser compatível com outras teorias empíri-
cas que supomos serem verdadeiras; por exemplo, com a neurociência, para
não falar das ciências não biológicas em química, física entre outras. Muitos
filósofos que assumem algum tipo de naturalismo acham que uma teoria ade-
quada de representação explicaria as propriedades semânticas como consti-
tuídas, de certa maneira, de relações causais entre a mente e o mundo. Isso
me surpreende à primeira vista como uma explicação plausível, já que, em
diversos tipos de casos, parece que são nossos encontros casuais com o mun-
do que fazem nossos pensamentos terem o conteúdo que têm. A muito grosso
modo, o paradigma poderia ser que o conceito cachorro representa cachorros
porque interações com cachorros nos fazem pensar em cachorro. A expres-
são a ser lembrada aqui é “a muito grosso modo”. Ninguém sabe, em detalhes,
como uma teoria causal da representação poderia funcionar realmente; mas
ela deve funcionar de uma maneira ou de outra se a linha de pensamento que
estou perseguindo está ao menos perto de estar certa.

O problema da referência é um problema clássico no estudo da semântica


e da filosofia da linguagem. E o senhor fez algumas contribuições interes-
santes ao problema. Como o senhor pode comparar a sua abordagem com
outras abordagens, como a de Noam Chomsky, por exemplo?
Fodor — Não estou completamente convencido de compreender a visão de
Chomsky sobre semântica. Mas o que posso dizer é que ele acha que ela não
trata das relações entre as ideias e o mundo, mas das relações entre as próprias
ideias. As relações semânticas típicas entre as ideias, nesse tipo de visão, são
aquelas que envolvem analiticidades (tais como aquela onde o que quer que
esteja sob o conceito solteiro também está sob o conceito de homem não ca-
sado, veja acima). Em filosofia, existe uma longa história desse tipo de visão

Semântica
303
(Hume, por exemplo, parece ter feito isso; talvez Kant também o tenha feito).
Muitas vezes, as razões para se optar por essa visão são epistemológicas. A
linha de pensamento é algo do tipo: “Uma vez que o conhecimento envolve
representação, uma pessoa não pode saber o que o mundo é ‘em si mesmo’,
visto que ele é independente das maneiras que o representamos”. Assim, se
a própria representação é, em si mesma, um tipo de relação mente-mundo,
então não podemos saber se nós alguma vez fomos bem-sucedidos ao pensar
sobre o mundo (/sobre o que as nossas palavras significam etc.). Suponha-se,
entretanto, que a representação seja constituída por relações entre os pensa-
mentos. Uma vez que nós podemos conhecer tais relações (por introspecção,
por exemplo), podemos, da mesma forma, conhecer, com certeza, verdades
putativamente analíticas, tais como solteiros serem não casados, gatos serem
animais e assim por diante. Com efeito, a proposta é evitar o ceticismo sobre
o conhecimento por se adotar certo tipo de idealismo sobre o significado: to-
das as nossas ideias são ideias sobre ideias.
Como eu disse, não estou certo de ser essa a visão de Chomsky. Espero
que não, uma vez que embora a minha confiança em muitas outras das visões
de Chomsky seja praticamente ilimitada, sucumbir ao idealismo representa-
cional é, para mim, uma estratégia que deve ser evitada a todo custo. Aqui vão
algumas razões, quase todas mais ou menos verdadeiras:
— É amplamente implausível que, pelo menos alguma vez, nós não pense-
mos a respeito do mundo. O idealismo semântico parece negar isso e,
assim, deve ser falso.
— O tipo de semântica idealista exige que existam muitas proposições ana-
líticas (pelo menos o suficiente para fixar o conteúdo de cada um dos
nossos conceitos). No entanto, as evidências mostram que não existem
muitas (muito possivelmente não existem muitas que não sejam tenden-
ciosas, incluindo ‘homens não casados são solteiros’. O Papa é solteiro?).
— A visão de significado que estou assumindo seja a endossada por Chomsky
evita o ceticismo sobre o fato de solteiros serem não casados; realmente
podemos saber que eles o são; de fato, qualquer um que tenha o conceito
solteiro deve saber que eles são não casados. Da mesma forma, se João
matou Maria, Maria está morta etc. Contudo, não está muito claro como
isso supostamente funciona para o conhecimento de proposições ‘con-
tingentes’ (por exemplo, o caso de uma pessoa que tenha a crença com-
provadamente verdadeira de que o gato está no tapete). Nesses casos, os
nossos conhecimentos simplesmente não podem vir das nossas relações
entre ideias: não é parte da ideia de gato que esse gato (o gato que estou

304 Jerry Fodor


observando agora) esteja no tapete; e não é parte da ideia de tapete que
esse tapete tenha um gato em cima. É plausível, logo de cara, que esse
conhecimento empírico seja uma relação mente-mundo. Assim sendo,
pareceria que o idealismo semântico evitaria o ceticismo sobre ‘verdades
conceituais’ apenas ao custo de tornar as verdades empíricas um verda-
deiro mistério (é notável que o relativismo corrente, pós-moderno e na
moda sobre verdade, conhecimento e o resto (que, por sua vez, detesto,
e você também deveria detestar) comece, invariavelmente, por assumir
que não existe ‘nada além do texto’; visto que os nossos conceitos são
restringidos por suas relações de um para o outro, mas não por suas re-
lações com o mundo).
— Por razões essencialmente similares, o idealismo semântico não dá
conta do fato de que, pelo menos algumas vezes, nós somos capazes de
fazer escolhas racionais entre ideias conflitantes; em particular, entre
teorias científicas conflitantes. Mas, de acordo com os idealistas se-
mânticos, as teorias não podem ser racionalmente comparadas devido
ao fato de que o que seus termos significam dentro da teoria é deter-
minado internamente à teoria. Se acredito que cães têm unhas e você
acredita que não tenham, então devemos ‘significar algo diferente’ por
‘cão’, e não existe nenhuma maneira de haver desentendimento entre
nós dois. Para vermos um exemplo realmente flagrante dessa dialética,
veja A estrutura das revoluções científicas de Thomas Khun, de acordo
com o qual cientistas cujas teorias diferem radicalmente “vivem em
mundos diferentes”. Deve haver algo errado com uma semântica que
acarreta esse tipo de coisa, uma vez que, claramente, todos vivemos no
mesmo mundo, este aqui.
A história longa e a história curta é que a semântica idealista rejeita a
noção de uma correspondência mente-mundo, torna o conteúdo das
nossas crenças intratavelmente holísticas, e faz, contraintuitivamente,
com que qualquer uma das nossas crenças seja racional. Duvido que a
semântica idealista valha esse preço.
— Se as relações semânticas forem entre as ideias, então tudo o que possa-
mos pensar depende da mente. Mas é simplesmente falso que o que quer
que possamos pensar seja dependente da mente. Por exemplo, podemos
pensar sobre o Grand Canyon, que certamente já estava por aí antes de
qualquer uma de nossas mentes e, presumivelmente, ainda estará por
aí depois que as nossas mentes se forem. O mundo (considere-o como o
objeto potencial de uma quantidade indefinida de pensamentos) é ante-

Semântica
305
rior à mente. A fortiori, os objetos do pensamento não podem ser todos
mentais.
O sinal infalível de uma semântica ruim é que ela leva para uma metafí-
sica ruim.

Como a ideia do mentalês se relaciona com outras teorias semânticas atu-


ais? Sabemos que essa ideia tem sido criticada por diversos filósofos e lin-
guistas. Quais são os principais argumentos dos críticos e como o senhor
responde a eles?
Fodor — A história do ‘mentalês’ não é, nem nunca tentou ser, uma versão da
semântica. Pelo contrário, se (como suponho), o mentalês for uma linguagem
(visto que é a linguagem em que as pessoas pensam), então ela exige uma se-
mântica, tanto quanto qualquer outra linguagem. Na visão tarskiana crua de
semântica que venho esboçando, uma semântica aceitável para o mentalês
deveria acarretar, por exemplo, que o conceito cão é satisfeito por — e apenas
por — cães; que o pensamento aquilo é um cão é verdadeiro se e somente se
aquilo for um cão; e assim por diante para um número infinito de conceitos
e pensamentos que nossa psicologia nos permita observar.
Em resumo, enquanto linguagem, o mentalês precisa de uma teoria da
verdade e referência para suas fórmulas. De fato (como lembrado acima),
pode ser que o mentalês seja a única linguagem que precise de semântica; por
exemplo, as palavras e sentenças em inglês têm os conteúdos que têm porque
são usadas para expressar o conteúdo das palavras e sentenças correspon-
dentes em mentalês. Isso é, com certeza, uma teoria ‘psicológica’ do conteúdo
linguístico, tanto quanto posso dizer, não é nem um pouco pior por isso.
Assim, a história do mentalês (não é sobre semântica, mas) é sobre o ca-
ráter das representações mentais; é a teoria que diz que os símbolos mentais
que usamos para representar o mundo em nossos pensamentos são como
sentenças (e não tanto como, por exemplo, fotos). Os argumentos para essa
visão são, acredito, quase esmagadores. Por um lado, ela é necessária para
dar conta da produtividade do pensamento; da mesma forma como a gramá-
tica do inglês não impõe nenhum limite com relação ao número de sentenças
disponíveis para que nós as enunciemos, a gramática do mentalês não impõe
limites ao número de pensamentos disponíveis para que nós os pensemos.
Da mesma forma, ele é necessário para conectar a psicologia cognitiva com
a lógica. Isso porque o mentalês explica como a ‘forma lógica’ das inferências
pode afetar o curso do nosso pensamento em processos inferenciais. E é ne-

306 Jerry Fodor


cessário para conectar a psicologia cognitiva com a teoria da computação.
O mentalês faz isso ao explicar como os objetos mentais como pensamentos
e conceitos podem dar domínios para processos mentais como o raciocínio;
nomeadamente, por tratar os processos mentais como tipos de computações
que são, por definição, operações formais definidas sobre as estruturas sin-
táticas das representações.
Esse último ponto não é um assunto pequeno. Um dos principais erros
da tradição empirista em teorias representacionais da mente era seu com-
promisso com um tratamento associativo dos processos cognitivos que, no
caso, provaram ser altamente intratáveis. Que o tratamento computacional
dos processos cognitivos oferece uma quebra radical na tradição associacio-
nista pode muito bem ser a ideia mais importante a servir de base para nossa
ciência cognitiva corrente. E, repetindo, a teoria de que os processos mentais
são computacionais depende da teoria de que as representações mentais se-
jam similares a sentenças; em particular, computações em que representa-
ções mentais tenham estruturas constituintes.
Parece-me esmagadoramente plausível que, se alguém vai realmente en-
dossar uma teoria representacional da mente, esse alguém deve optar pela
versão do mentalês. Mas os argumentos para o mentalês, embora suportem
a teoria de que pensamos através de algum tipo de linguagem, deixam em
aberto que linguagem é essa. Eles não excluem, por exemplo, a possibilidade
de que ‘nós pensamos em inglês’. Então, ainda que as versões canônicas das
teses da língua do pensamento sustentem que o mentalês é um sistema re-
presentacional não aprendido com muitas das propriedades formais de uma
lógica, é possível sustentar uma versão muito menos dramática dessa tese,
concordando com sua ideia, e até mesmo com seu espírito. Alguém poderia
dizer que pensamos na língua que falamos; por exemplo, os falantes do in-
glês pensam em inglês, os do francês em francês, e assim por diante. Essa é,
talvez, a única versão de uma teoria representacional da mente que muitos
filósofos estão, mesmo que remotamente, inclinados a aceitar. Não por aci-
dente, ela tem grandes afinidades com o tipo de behaviorismo watsoniano, de
acordo com o qual o pensamento é um tipo de falar consigo mesmo. Embora
poucos filósofos endossem explicitamente o behaviorismo hoje em dia, é sur-
preendente o quanto dele se pode encontrar vivo logo abaixo da superfície.
Acredito, no entanto, que a identificação do mentalês com o inglês não
é, em verdade, uma opção. A consideração mais persuasiva é a verdade de
que o inglês precisa ser aprendido, presumivelmente por alguns tipos de in-
ferências indutivas (ou abdutivas) sobre o que uma pessoa ouve em seu am-

Semântica
307
biente linguístico. Mas uma vez que tirar inferências é em si mesmo um tipo
de pensamento, a teoria de que uma pessoa pensa em uma linguagem que
tenha aprendido é destinada à circularidade; a identificação do mentalês com
o inglês (ou, mutatis mutandis, com qualquer outra língua ‘natural’) está real-
mente fora de questão.
Se isso estiver correto, então não existe nenhuma razão decisiva para
dissociar dois usos de linguagens que os filósofos normalmente colocam
juntos, algumas vezes como uma questão de princípio. Por um lado, existe o
papel da linguagem como um meio onde os processos cognitivos são tipica-
mente formulados; e, por outro lado, existe o papel da linguagem de mediar a
comunicação entre falantes e ouvintes. A linha de pensamento que estávamos
seguindo sugere que essas funções devem ser desenvolvidas por linguagens
diferentes: o mentalês é empregado para o primeiro, mas não para o segundo;
o inglês é empregado para o segundo, mas não para o primeiro. Isso é enfa-
tizado à luz de afirmações de wittgensteinianos (e também de whorfianos)
que pareceriam negar ser tal dissociação possível; para assegurar, com efei-
to, que apenas uma linguagem ‘pública’ realmente seja possível. Pelo que sei,
nenhum argumento sério para essa visão foi proposto; e, tanto quanto sei,
nenhum wittgensteiniano (ou whorfiano) ofereceu sequer um rascunho de
como, se o inglês é em si mesmo um pensamento, o aprendizado do inglês é
simplesmente possível (Wittgenstein diz, embora não ajude muito, que é uma
questão de treinamento).
Se, entretanto, essa linha de argumentação não convence, existem outras
para oferecer. Em um exame apressado, o inglês pareceria uma escolha ruim
como o formato representacional do pensamento. Mencionarei apenas duas
razões. A primeira, o inglês é cheio de ambiguidades tanto lexicais quanto
estruturais, e não está minuciosamente claro com o que se pareceria pensar
uma ambiguidade. Vale a pena notar que ‘todos amam alguém’ é ambíguo no
que diz respeito ao escopo dos quantificadores. Mas será que alguém poderia
pensar o pensamento de que todos amam alguém sem escolher entre os es-
copos possíveis? É possível pensar que todos amam alguém e simplesmente
não saber se alguém está pensando que existe alguém que é amado por todos?
Com o que se pareceria estar em tal estado? E, mais importante, como diabos
alguém conseguiria sair uma vez que já tivesse entrado?
O ponto ilustrado por isso (que a linguagem do pensamento deve ser li-
vre de ambiguidades) é, de fato, um caso especial de uma consideração bem
geral: as representações mentais devem ser explícitas quanto à sua forma
lógica. Os filósofos têm apontado que, literalmente, desde Aristóteles, as lín-

308 Jerry Fodor


guas naturais não observam essa condição; ou seja, elas não são explicitas
quanto às propriedades dos pensamentos que determinam os seus papéis nas
inferências. A conclusão inevitável parece ser a de que uma pessoa não pensa
em uma língua natural.
Repito o argumento que defendi acima: se uma pessoa realmente deve
ter uma teoria representacional da mente, a versão a ser escolhida é clara-
mente aquela que usa o mentalês como seu formato (onde, por hipótese, o
mentalês não é uma língua natural; ele nunca é usado como um veículo de
comunicação). Certamente isso deixa em aberto que alguém poderia se recu-
sar a endossar uma teoria representacional da mente de qualquer tipo. Mas
o único tipo de alternativa sobre a qual já ouvi falar é algum tipo de behavio-
rismo; e já trilhamos esse caminho. Ele não leva a lugar algum.

Semântica
309
Semântica lexical1
Márcia Cançado

Qual é o objeto de estudo da semântica lexical? Em que esse recorte se es-


pecializa ou se diferencia da semântica formal?
Cançado — Valendo-me de Chierchia (1990), comecemos pela diferença entre
o objeto de estudo da semântica formal e da semântica lexical. A semântica
formal, se esse termo é entendido como um tipo de semântica referencial,
tem como principal foco a investigação da relação da língua com o(s) mundo(s)
sobre o qual(is) nós falamos, trata de questões relacionadas ao “mundo públi-
co” e vale-se de noções objetivamente não linguísticas, tais como valores de
verdade. Essas teorias referenciais tratam do significado informacional e tem
relação com o que Chierchia chama de “aboutness” (‘sobre o que se fala’). Por
outro lado, a semântica lexical, vista como uma ampla área de investigação,
trata do significado cognitivo que envolve a relação entre a língua e os cons-
trutos mentais que de alguma maneira representam ou estão codificados no
conhecimento semântico do falante. Teorias que tratam do significado cogni-
tivo olham para dentro do aparato linguístico do falante e não estão preocu-
padas com o “mundo público”, que envolve a comunicação linguística.
Levando-se em conta esse pressuposto básico assumido pela chama-
da semântica lexical, devemos chamar a atenção para o fato de que, nessa
área, há vários tipos de fenômenos e abordagens sendo estudados. Poderí-
amos afirmar: são muitas “as semânticas lexicais”. Vou seguir brevemente a
apresentação de Geeraerts (2010), que apresenta em seu livro Theories of Le-
xical Semantics, uma ampla trajetória das possíveis teorias e tipos de estudo
elencados como semântica lexical. O primeiro estágio da história da semân-
tica lexical pode ser datado de 1830 a 1930 e é conhecido como semântica
histórico-filológica. Com uma orientação histórica, a preocupação principal
concerne às mudanças dos sentidos das palavras: a identificação, classifica-
ção e explicação das mudanças semânticas. Por volta de 1930 a 1960, temos

1
Entrevista publicada em março de 2013.

310 Márcia Cançado


a semântica estruturalista, evidentemente influenciada e orientada pelo tra-
balho de Saussure. Em meio a uma variedade de posições teóricas e métodos
descritivos que surgem da concepção estruturalista, podemos apontar três
pontos que distinguem essa corrente teórica: o aparecimento do conceito
“campo lexical”, a análise componencial (traços semânticos) e a semântica
relacional (sinonímias, hiponímias, antonímias e meronímias). Em 1963, no
artigo intitulado “The Structure of a Semantic Theory”, Katz e Fodor intro-
duzem a noção de análise componencial na gramática gerativa. Em meio a
vários problemas enfrentados pelos autores em suas propostas, surge a ideia
de usar o aparato formal da lógica na semântica das línguas naturais. Essa
ideia é muito bem recebida por alguns linguistas de formação gerativista
(Lakoff, McCawley, Fillmore, Ross, Langacker, entre outros), e com isso surge
a semântica gerativa. Esse tipo de semântica, em oposição aos sintaticistas
gerativos, coloca a semântica, em vez da sintaxe, como a base da arquitetu-
ra do modelo formal de gramática, originalmente concebido por Chomsky.
Nesse ponto da história da semântica, surge a análise por decomposição em
predicados primitivos, em que se assume que a semântica de um verbo não é
unitária, mas composta por subpartes e componentes, os primitivos semânti-
cos. A maneira pela qual esse tipo de semântica decomposicional se ajustava
à estrutura da gramática, proposta pelos semanticistas gerativos, foi mais tar-
de duramente criticada na literatura, o que levou a teoria ao seu esvaziamen-
to. Entretanto, a ideia de decomposição do sentido de itens, expressos em
um sistema de predicados primitivos, perpetuou-se nos estudos linguísticos.
Muitos semanticistas, tais como Jackendoff, Levin, Rappaport Hovav, Van Va-
lin, LaPolla, Wunderlich, Dowty, Parsons, entre outros, continuam a explorar
a ideia de que o significado dos verbos pode ser decomposto em elementos
básicos, utilizando-se da noção de predicados primitivos nessas decompo-
sições lexicais. A preocupação central dessas propostas é a relação entre a
estrutura argumental dos verbos e a estruturação e propriedades sintáticas
das sentenças. Poderíamos nomear essa linha de uma forma mais adequada
como sendo o estudo da interface sintaxe-semântica lexical. Entretanto, se-
gundo a análise de Geeraerts, esse tipo de estudo se encaixaria em uma ver-
tente do que ele chama de semântica neoestruturalista, pois esses estudos,
de uma forma ou de outra, dão continuidade às ideias estruturalistas e gera-
tivistas. Outras vertentes dessa linha podem ser encontradas em trabalhos
de semanticistas tais como Wierzbicka, Jackendoff (em seus trabalhos mais
recentes), Bierwisch, Pustejovsky, que, também se valendo da linguagem de-
composicional de predicados, têm como principal preocupação a interação

Semântica lexical
311
entre o léxico e a cognição, podendo ser esse tipo de estudo ligado a estudos
de semântica lexical computacional (trabalhos do tipo WordNet). E, final-
mente, nos anos 1980, surge a semântica cognitiva, como parte da linguística
cognitiva, um movimento que se opõe à autonomia da gramática, assumindo
que a distinção entre semântica e pragmática é irrelevante. Linguistas como
Lakoff, Langacker, Fillmore, Fauconnier, Croft, Goldberg fazem parte desse
tipo de proposta, que tem como principais orientações a teoria de protótipos,
as metáforas conceituais e a semântica de “frames” (‘estruturas’).
Portanto, grosso modo, não podemos falar de uma teoria classificada
como semântica lexical, mas de várias “semânticas lexicais”, e o que teria de
comum entre esses estudos é ter como principal objeto a relação entre a lín-
gua e a sua representação mental.

Em seus artigos mais recentes sobre a semântica verbal no português, a


senhora assume a abordagem da decomposição lexical, na mesma linha,
por exemplo, dos trabalhos de Beth Levin e Malka Rappaport Hovav. Quais
são as principais vantagens dessa abordagem?
Cançado — São várias as semânticas lexicais. E, ainda, se focalizamos nosso
estudo em um tipo de semântica, como por exemplo, a denominada inter-
face sintaxe-semântica lexical, onde se encaixa o meu trabalho, temos ain-
da várias possibilidades de teorias de representações lexicais para o estudo
da semântica verbal. Levin e Rappaport Hovav (2005) fazem uma excelente
revisão de todas essas representações, que podem ser dadas por: uma lista
de papéis temáticos, papéis temáticos generalizados (protopapéis), decom-
posição em predicados primitivos e estruturas de eventos (noções de mo-
vimento e locação, a estrutura causal ou estrutura aspectual). As autoras
realçam que cada tipo de representação salienta uma faceta cognitiva mais
relevante para a realização argumental, mostrando as vantagens e desvan-
tagens dessas propostas.
Até 2010, meus trabalhos envolviam as noções de papéis temáticos, mais
como noções generalizadas, para tratar das representações de classes verbais
do português brasileiro e sua relação com a sintaxe, que sempre foi o meu
principal objeto de estudo. Entretanto, a partir de leituras mais aprofunda-
das de Hale e Keyser, Levin e Rappaport Hovav, Foley e Van Valin, Dowty e
Parsons, meu grupo começou a trabalhar usando a representação lexical por
decomposição em predicados primitivos, o que me pareceu uma mudança
bem proveitosa em termos de resultados mais consistentes e rigorosos. Vou

312 Márcia Cançado


me valer das argumentações de Levin e Rappaport Hovav e de exemplos do
português brasileiro tirados desses trabalhos para ilustrar o motivo dessa
mudança de abordagem e porque me parece mais vantajoso trabalhar em
uma teoria como a teoria de decomposição em predicados primitivos para se
estudar a semântica verbal.
Em um trabalho que acabamos de concluir, descrito no artigo que publi-
camos neste volume, Cançado, Godoy e Amaral (no prelo) propõem e exem-
plificam amplamente (860 verbos) que existem quatro grandes classes (e três
subclasses) verbais no português brasileiro que denotam um tipo de mudan-
ça e podem ser representadas pelos verbos nas seguintes sentenças:
— A soprano quebrou a taça de cristal. (mudança de estado)
— O marceneiro acomodou a mobília no quarto. (mudança de estado
locativo)
— O domador enjaulou o leão. (mudança de lugar)
— A cozinheira apimentou a comida. (mudança de posse)
Se usássemos a grade temática dos verbos, uma possível representação
das estruturas argumentais dessas classes seria:
— quebrar: {causa (agente), paciente}
— acomodar: {agente, paciente, locativo}
— enjaular: {agente, paciente}
— apimentar: {agente, paciente}
Todas as sentenças acima denotam um tipo de mudança específica, que
se reflete nas propriedades sintáticas de cada classe; o que também é ilustra-
do amplamente no nosso trabalho, com aproximadamente 5500 sentenças.
Por exemplo, os verbos de mudança de estado aceitam a alternância intran-
sitivo-causativa, o que não é possível com os outros verbos:
— A taça de cristal (se) quebrou.
— *A mobília se acomodou no quarto.
— * O leão (se) enjaulou. (na leitura incoativa, não na reflexiva)
— * A comida (se) apimentou.
A partir das representações por grades temáticas dadas acima não terí-
amos como prever a diferença de comportamento gramatical entre os verbos
que denotam uma mudança de estado e os verbos que denotam outros tipos
de mudança, pois a todos os argumentos que sofrem essa mudança seria atri-
buído o mesmo papel temático de paciente.
No entanto, usando a linguagem de decomposição em predicados pri-
mitivos, podemos capturar essas diferenças de mudança, sem perdermos o
sentido recorrente das várias classes dos verbos. Vejamos as estruturas de

Semântica lexical
313
predicados primitivos propostas em nosso trabalho, salientando que nas es-
truturas de predicados primitivos podemos distinguir duas partes; a estrutu-
ra que representa o sentido recorrente entre os verbos de uma classe, e a raiz
que é o sentido idiossincrático do verbo, tem relação com o seu nome e vem
representada entre colchetes angulados:
— quebrar: [ [x (volition)] cause [ become y <quebrado>] ]
— acomodar: [ [x volition ] cause [become y <acomodado> in z]]
— enjaular: [ [x volition ] cause [become y in <jaula>] ]
— apimentar: [ [x volition ] cause [become y with <pimenta>] ]
Primeiramente, podemos observar que o agrupamento proposto para es-
sas classes, verbos de mudança, não é apenas descritivo, mas tem respaldo na
estrutura de predicados de todas as classes. O sentido de mudança está explí-
cito em todas as representações semânticas das classes analisadas pelo meta-
predicado become associado ao argumento interno (seja o argumento interno
y <quebrado>, seja y <acomodado> in z, seja y in <jaula>, seja y with <pimenta>). É
esse metapredicado que reúne todas as classes apresentadas em uma grande
classe semântica. E, ainda, através dos argumentos do metapredicado become,
podemos captar as diferenças de mudança: y <quebrado> representa o estado,
y <acomodado> in z representa o estado locativo, y in <jaula> representa o lugar
e y with <pimenta> representa a posse. São essas informações que dividem os
verbos em classes de mudança mais específicas.
Veja, ainda, que em uma abordagem mais fina do conteúdo dos papéis
temáticos, seria possível distinguir os “pacientes” mostrados acima, consi-
derando que pode haver pelo menos três tipos de afetação: um “paciente”,
afetado fisicamente, que muda de estado, um “tema”, que seria o participante
afetado em seu deslocamento, e ainda um “possuidor” ou “beneficiário”, um
participante afetado em suas posses. Ou seja, poderíamos propor grades te-
máticas diferentes para cada uma das quatro classes tratadas aqui. No entan-
to, tal refinamento significaria perder a representação da generalização de
que todas as quatro classes expressam uma mudança. Ou seja, a linguagem da
decomposição em predicados primitivos, é, por um lado, capaz de explicitar
as diferenças entre as classes, e, por outro, é capaz de abarcar sentidos re-
correntes. Na linguagem por papéis temáticos, uma das duas opções deve ser
feita: refinar, explicitando-se as diferenças, mas perdendo o sentido comum
às classes, ou generalizar, capturando o sentido comum entre as classes, mas
perdendo as suas especificidades.
Podemos destacar também que a maior formalização da linguagem nos
dá uma descrição mais fina e menos divergente do que a descrição em termos

314 Márcia Cançado


de papéis temáticos, questão já tão discutida na literatura. Ainda, podemos
destacar a vantagem de uma linguagem como a decomposição de predicados
representar não somente a relação semântica que os argumentos estabele-
cem com seus predicados, mas também representar a estrutura dos eventos.
A partir das representações acima, podemos dizer se o evento denotado é
uma atividade, um estado etc. Esse tipo de informação não é acessível a uma
estrutura argumental dada em termos de papéis temáticos.
Finalmente, pode-se destacar que, em uma representação por grades te-
máticas, não podemos fazer a distinção entre raiz e estrutura, o que é uma
grande perda em termos analíticos. Se a raiz representa a parte idiossincráti-
ca do sentido do verbo, podemos aí alocar várias propriedades que fazem par-
te do sentido dos verbos, mas que não são relevantes gramaticalmente para
a classificação verbal; as propriedades relevantes para tal classificação são
sempre alocadas na parte estrutural e recorrente dos verbos. Tal distinção
não é captada por uma linguagem em termos de papéis temáticos. Uma evi-
dência da importância da raiz pode ser exemplificada pelos verbos chamados
psicológicos e recíprocos.
Mesmo não tendo como explicar a proposta, aqui, em detalhes, espero
ter ilustrado de uma maneira convincente as vantagens da representação le-
xical através da linguagem formal de decomposição em predicados primiti-
vos em relação à representação lexical por grades temáticas (para maiores
detalhes, ver o artigo de Cançado, Godoy e Amaral, publicado nesta edição).
Entretanto, é importante realçar que mesmo não sendo, os papéis temáticos,
uma representação tão abrangente para classificar verbos, essa represen-
tação ainda pode ser um importante instrumento de análise semântica em
várias outras esferas, constituindo-se em um relevante instrumento de des-
crição linguística.

A senhora trabalha na interface semântica lexical-sintaxe das línguas na-


turais. Que tipo de trabalho pode ser desenvolvido em semântica lexical e
suas interfaces com a sintaxe e a morfologia?
Cançado — Os trabalhos desenvolvidos nessa abordagem visam principal-
mente explicitar e representar as propriedades semânticas com interferência
em propriedades sintáticas (como alternâncias verbais, passivas, reflexivas
etc.) e propor regras de ligação entre a estrutura semântico-lexical e a sinta-
xe (hierarquia temática, regras de linking). Na última questão da entrevista,
indicarei algumas leituras relevantes.

Semântica lexical
315
Já quanto à interface entre semântica lexical e morfologia, tenho uma
única orientação de iniciação científica na área [L. Meirelles (2013). Análise
semântica do prefixo re- em classes verbais do português brasileiro. Relatório
de IC), que é sobre o funcionamento do prefixo re- na ideia de repetição. Nes-
se trabalho, mostramos a que grupo de verbos do português brasileiro esse
prefixo pode aderir para formar palavras derivadas, que o aspecto lexical res-
tringe ou licencia tal derivação e damos um esboço de qual seria o papel desse
prefixo dentro de representações verbais dadas por estruturas de decomposi-
ção em predicados primitivos.
Além disso, posso citar alguns trabalhos mais específicos sobre o tema,
existentes na literatura:
Aronoff, M; Anshen, F. (1998). Morphlogy and the Lexicon: Lexicalization and Productivity. In:
Spencer, A.; Zwicky, A. Handbook of Morphology. Oxford: Blackwell, p. 283-305.
Jackendoff, R. (1975). Morphological and Semantic Irregularities in the Lexicon. Language 51,
p. 639-671.
Lieber, R. (2004). Morphology and lexical semantics. Cambridge, UK: Cambridge University Press.
Rappaport Hovav, M.; Levin, B. (1998). Morphology and Lexical Semantics. In: Spencer, A.; Zwi-
cky, A. Handbook of Morphology. Oxford: Blackwell, p. 248-271.

Que tipo de trabalho vem sendo desenvolvido no Brasil, especialmente com


dados do português brasileiro, na área de semântica lexical?
Cançado — Posso apontar alguns trabalhos que conheço mais de perto, den-
tro da área específica da interface sintaxe-semântica lexical.
Primeiramente, gostaria de destacar o meu grupo de trabalho, sobre o
qual, naturalmente, tenho mais conhecimento e do qual posso falar com mais
propriedade. O NuPeS (Núcleo de Pesquisa em Semântica Lexical), coordena-
do por mim e composto por orientandos, desenvolve pesquisas na Interface
sintaxe-semântica lexical desde 1995, trabalhos esses sempre baseados em
muitos dados do português brasileiro; lição que aprendi com o meu saudoso
orientador, Carlos Franchi, e de quem eu diria ser o precursor dos estudos da
Interface sintaxe-semântica lexical no Brasil. Basicamente, nossos trabalhos
tentam agrupar os verbos em classes sistemáticas, delimitadas pelas suas pro-
priedades sintáticas e semânticas, e propõem representações das estruturas
argumentais dessas classes. Como já enfatizei acima, os trabalhos, até 2009,
utilizavam e exploravam muito a linguagem por papéis temáticos. A partir de
2009, começamos a trabalhar com a linguagem de decomposição em predica-
dos primitivos, passando a ser a delimitação desses primitivos, também, um
dos objetivos da nossa pesquisa. Gostaria ainda de enfatizar que, além das

316 Márcia Cançado


teses, dissertações e monografias com todos esses dados analisados estarem
disponibilizadas na página: www.letras.ufmg.br/nucleos/nupes, acabamos de
concluir um amplo e longo trabalho, teórico e empírico, eu juntamente com
duas orientandas, Luisa Godoy e Luana Amaral, que é um Catálogo de verbos
do português brasileiro. Esse trabalho, que se assemelha em alguns pontos
ao trabalho de Levin (1993) para o inglês (English Verb Classes and Alterna-
tions), cataloga 860 verbos do português brasileiro em 4 classes e 3 subclas-
ses, definidas pela estrutura argumental dada em termos de estruturas de
predicados primitivos, que apresentam propriedades sintáticas e semânticas
comuns, tais como: aceitação de agentes e/ou causas, alternâncias causativas,
ocorrência do clítico se, passivas, adjunção por instrumentos, aspecto lexical,
grade temática, entre outras; e, também, traz informações sobre as reflexi-
vas e algumas outras alternâncias, além de nomear quais verbos podem ser
classificados como psicológicos e recíprocos. Todas essas propriedades são
exemplificadas em cerca de 5500 sentenças. Poderia, ainda, dizer que esse
trabalho apresenta uma consistente introdução à Interface sintaxe-semânti-
ca lexical, como parte teórica. O livro vai ser editado pela Editora UFMG e
logo estará disponível. Deixo registrada a minha satisfação em concluir um
trabalho dessa natureza, pois, com certeza, além de ser uma ampla descrição
do léxico verbal do português brasileiro, também traz uma relevante contri-
buição para a compreensão do funcionamento da gramática do português e
pode ser um importante instrumento de pesquisa para linguistas.
Posso citar, também, os trabalhos desenvolvidos por Maria José Foltran e
Teresa Wachowicz, na UFPR, trabalhos esses que têm como foco de pesquisa
principal a relação do aspecto lexical com dados do português brasileiro. Ainda,
na UFRGS, existe o grupo de Sérgio Menuzzi que vem desenvolvendo pesqui-
sas sobre a relação entre a semântica lexical dos verbos e a realização sintáti-
ca de seus argumentos, usando dados do português brasileiro e utilizando-se
também da linguagem formal de decomposição em predicados primitivos. E o
trabalho desenvolvido por Perini, na UFMG, que visa fazer uma descrição das
valências dos verbos do português brasileiro, utilizando-se de grades temáticas
e as possíveis construções sintáticas de verbos utilizados na fala.
Evidentemente, essa lista não se encerra aqui, citei apenas os pesqui-
sadores com os quais tenho mais contato, existindo vários outros trabalhos,
que, de uma maneira ou outra, se esbarram nesse tema de investigação.

Semântica lexical
317
Semântica lexical1
Ray Jackendoff

Como o senhor definiria o ramo da linguística que chamamos de “semânti-


ca lexical”? Como ele se relaciona com os estudos sobre o léxico e sobre a
gramática das línguas naturais?
Jackendoff — Uma das primeiras coisas que se descobre quando se estuda
semântica lexical é a impossibilidade de definir quase qualquer termo. Sem-
pre há casos de núcleos estereotípicos, mas você geralmente encontra uma
variedade de casos periféricos em que pode não conseguir dizer se estão no
escopo do termo ou não. No continuum das cores, onde termina o vermelho
e começa o laranja? Quantas pessoas têm de ser mortas para se caracterizar
um genocídio? Definições do tipo comum não podem capturar esse tipo de
julgamento gradiente, que são geralmente frágeis e dependentes de contexto.
O termo “semântica lexical” apresenta esta dificuldade em várias formas.
Um problema é a denotação de lexical, “pertencente ao léxico”. O léxico é pen-
sado geralmente como um depósito de palavras, então semântica lexical geral-
mente é vista como significando “pertencente ao significado das palavras”.
Entretanto, existem muitas outras coisas significantes que um falante arma-
zena além de palavras, especialmente expressões idiomáticas como chutar o
balde e trocar os pés pelas mãos, além de expressões fixas ou “pré-fabricadas”,
como lar doce lar, ao raiar do dia e para encurtar a história. Também há que
se armazenar formas especiais de sentenças tais quais que tal xp?, longe de
mim vp e é suficiente dizer que s. Não muito além desses estão construções
sentenciais especiais como o comparativo correlativo (quanto mais leio, me-
nos entendo) e o condicional conjuntivo (você diz mais uma palavra e te chuto
pra fora). Além disso, há construções que partem da sintaxe do vp que tem
significados especiais, como João saltitou para fora do restaurante (“João saiu
do restaurante saltitando”), O ônibus rangeu o caminho todo (“o ônibus passou

1
Entrevista publicada março de 2013, originalmente em inglês. Trad.: Gustavo Breunig.

318 Ray Jackendoff


rangendo por todo o caminho”), e Ela leu a tarde toda (“ela passou a tarde len-
do”). Cada um destes fenômenos envolve sutilezas de significado exatamente
como aqueles das palavras, portanto, um estudo da assim chamada semânti-
ca lexical deve incluí-los.
Também não é o caso de a semântica lexical ter de incluir mais fenômenos
do que apenas palavras. Estudando a semântica das palavras, imediatamente
somos forçados a nos confrontar com a forma como as palavras impõem sua
estrutura ao resto da sentença em que ocorrem. O caso clássico são os verbos,
cuja estrutura argumental semântica (agente, paciente, objetivo etc.) tem um
maior papel na determinação dos padrões sintáticos nos quais as palavras
aparecem. Mas muitos nomes também impõem estrutura. Uma parte deve
ser uma parte de algo, uma noiva deve ser uma noiva de alguém e uma venda
envolve alguém vendendo algo para outro alguém. Para entender a semântica
lexical dos quantificadores, temos de entender como eles tomam escopo so-
bre a sentença inteira; o significado das palavras qu envolve a semântica das
perguntas, até e apenas estão intimamente ligados com a estrutura informa-
cional (tópico e foco). Em outras palavras, a semântica das palavras não pode
ser dissociada da semântica dos sintagmas e das sentenças.
O significado das palavras também tem de ser separado de fenômenos
semânticos mais gerais. Considere a questão da polissemia. Em O ônibus ran-
geu o caminho todo, queremos dizer que ranger é polissêmico entre “emitir
um rangido” e “mover-se produzindo rangidos”? Ou no famoso exemplo da
garçonete dizendo O sanduíche de presunto quer um pouco de café, o sanduíche
de presunto é polissêmico entre o sanduíche e a pessoa comendo o sanduí-
che? Em casos como esse, eu preferiria dizer que ranger e sanduíche não são
polissêmicos; ao invés disso, a interpretação extra vem de um princípio geral
de enriquecimento semântico que não faz parte do significado das palavras.
Mas só é possível definir uma teoria de enriquecimento semântico no con-
texto tanto de uma teoria do significado das palavras quanto no de uma de
significado sintagmático.
O que concluo destes exemplos e em muitos outros como eles é que não
há uma linha definida entre estudar o significado das palavras e a forma
como o significado das palavras se compõe no significado das sentenças. É
necessário manter ambos em mente.

Quais foram os principais avanços para o entendimento da linguagem


humana que foram trazidos à tona pelos estudos de semântica lexical? E

Semântica lexical
319
quais são os principais tópicos na agenda de um semanticista estudando
propriedades lexicais nos dias de hoje?
Jackendoff — Não posso falar da agenda dos semanticistas em geral, apenas
da minha. Mas muitas propriedades dos significados das palavras foram es-
tabelecidas, satisfatoriamente pelo menos para mim. Aqui estão alguns deles.
1. Os significados das palavras são conceitos humanos, não objetos abstra-
tos que existem em algum espaço platônico, ou como padrões de ocor-
rência em um corpus de sentenças. Quando estudamos os significados
das palavras, estamos estudando cognição. Assim sendo, tanto quanto
possível, deveríamos procurar evidências psicológicas para a validade de
nossos construtos teóricos — não apenas de usuários da língua, mas de
bebês e de outros primatas também.
2. Os significados das palavras não podem ser caracterizados como cole-
ções de condições necessárias e suficientes, como os lógicos e filósofos
da linguagem têm pressuposto. Ao invés disso, como sugeri na resposta
anterior, efeitos prototípicos e efeitos escorregadios são encontrados em
todo lugar, e nosso formalismo deveria reconhecer esse fato.
3. A noção filosófica tradicional de língua se referindo diretamente ao
mundo real deve ser abandonada em favor da referência ao mundo como
conceituado pelos usuários da língua. Podemos referir as coisas apenas
enquanto podemos conceituá-las. Além do mais, muitas das coisas que
percebemos “no mundo”, como números, valores, relações sociais, re-
gras de jogos — e palavras! — estão lá apenas em virtude da conceitua-
ção humana.
4. Um dos maiores departamentos do significado é nosso entendimento do
mundo físico: objetos, suas partes, suas configurações em respeito uma
à outra, seus movimentos e a força que exercem uns sobre os outros. O
estudo da riquíssima linguagem que expressa entendimento físico/espa-
cial e das suas variações interlinguísticas se tornou uma pequena ocupa-
ção entre os semânticos, especialmente na linguística cognitiva. Como o
entendimento espacial chega a nós através da visão e do toque, isso nos
leva à importante questão de como nós falamos sobre o que vemos. Em
contrapartida, a riqueza da linguagem espacial nos leva a questões de
como nós vemos todas as coisas sobre as quais falamos: os eixos espaciais
dos objetos, suas trajetórias quando se movem, sua forma de se mover,
suas forças dinâmicas e os frames de referência nos quais os vemos ou
imaginamos. Desejei por muitos anos que as pessoas que estudam o sis-

320 Ray Jackendoff


tema visual aceitassem o desafio proposto pela riqueza da linguagem
espacial; na maior parte elas ainda estão fixadas no simples reconheci-
mento de objetos.
5. Outro grande departamento de significado são conceitos sociais como
teorias da mente, relacionamento, pertencimento a grupo, dominância,
reciprocidade, imparcialidade, direitos e obrigações. Enquanto concei-
tos espaciais estão focados no comportamento de objetos, conceitos
sociais são centrados no comportamento de pessoas. Muitos conceitos
sociais têm análogos em sociedades primatas, mas outros não, e explorar
as diferenças nos fornece evidências importantes quanto ao que torna os
humanos especiais.
6. Um dos primeiros resultados importantes na semântica lexical, de Je-
ffrey Gruber, é que muitos campos semânticos são lexical e logicamente
“parasíticos” na linguagem espacial, de forma que muitas das mesmas
palavras e dos mesmos marcadores gramaticais são usados e muitos dos
mesmos padrões inferenciais se aplicam. Por exemplo, ir para pode ser
usado não apenas para mudança de lugar (João foi para o Brasil), mas
também para mudança de posse (o dinheiro do aluguel foi para o proprie-
tário) e mudança de propriedades (João foi de feliz para deprimido). As
pessoas, em linguística cognitiva e cognição corporificada, têm tomado
esses paralelos como evidências de sistemas estendidos de metáfora em
cognição. Tenho preferido a posição de Gruber: os paralelos são devidos
ao sistema abstrato de organização cognitiva aplicável a muitos campos
semânticos diferentes. O espaço é o mais rico desses domínios e, prova-
velmente, o primeiro em termos de desenvolvimento e de evolução. Mas,
além disso, cada campo semântico traz suas próprias peculiaridades ao
sistema, e por isso divergem em outros aspectos.

Na história da linguística, o léxico foi frequentemente visto como um lugar


de exceções ao invés de regularidades. Como o senhor descreveria a impor-
tância do seu próprio trabalho em relação ao léxico?
Jackendoff — Existe esta ideia tradicional de que deveríamos extrair todas as
regularidades do léxico na forma de regras. Se você realmente tentar fazer
isso rigorosamente, vai descobrir que não é possível. Por exemplo, as pala-
vras filmagem e falante são largamente redundantes, dado filmar, -gem, falar
e -nte. Mas o léxico ainda tem de estipular que essas palavras existem, e que
outras formas como *filmante e *falagem não. Similarmente, uma expressão

Semântica lexical
321
fixa como ao cair da noite é feita de palavras preexistentes e tem um signi-
ficado quase previsível, mas ainda assim é listada no léxico como parte do
conhecimento de um falante de português. Ainda não há maneira de listar
estas expressões sem mencionar suas partes e suas combinações; ou seja, a
redundância não pode ser inteiramente evitada. Mais ainda, pesquisas psico-
linguísticas mostraram que falantes inclusive armazenam algumas palavras
completamente redundantes em seus léxicos, por exemplo, plurais altamente
frequentes, como olhos.
Cheguei a ver o léxico como compreendendo um continuum de estrutu-
ras armazenadas, desde palavras individuais idiossincráticas até esquemas
muito gerais que funcionam como regras de gramática. Compartilho esta vi-
são com as pessoas do hpsg, da gramática cognitiva e da gramática de cons-
trução. Nessa visão, não há uma distinção definida entre palavras e regras,
apenas uma escala de generalidades.
A questão então é qual papel a redundância tem no léxico. Todas essas
abordagens (e muitas outras) tratam o léxico como estruturado em uma hie-
rarquia de herança, de forma que falante é completamente listado, mas herda
(a maior parte de) a estrutura das entradas lexicais de falar e do afixo -nte.
Uma palavra como semblante também herda seu afixo de -nte, mas não há
uma palavra independente *semblar da qual ele possa herdar sua raiz, assim
esta palavra “custa” mais. Uma palavra sem estrutura morfológica interna,
como orquestra, não herda de ninguém, então ela tem de “pagar todo o frete”
da sua entrada.
Embora a noção de herança seja intuitivamente clara, não é tão óbvio
como esclarecê-la em termos de uma teoria formal de estrutura lexical. Em
particular, o que é a noção de “custar”? Tentei resolver isso em um artigo em
1975, em termo de “conteúdo informacional independente” do léxico. Mais
recentemente, várias pessoas têm proposto lidar com isso em termos de in-
formação teórica, ou propondo uma forma de medir a “entropia” do léxico.
Estou imaginando que quando resolvermos isso, saberemos algo importante
sobre como a memória funciona no cérebro.

Apenas como um exercício, como o senhor vê o futuro do gerativismo e da


linguística cognitiva nos próximos vinte anos, considerando alguns estu-
dos recentes em linguística experimental e em neurociência?
Jackendoff — Realmente não gosto de prever o futuro de um campo. Acho
incrível estarmos vendo crescimento no uso de métodos experimentais da

322 Ray Jackendoff


psicologia e da neurociência para explorar a linguagem. Mas me preocupa
que assuntos teóricos e empíricos que têm sido enfatizados pela gramática
gerativa possam ser perdidos no processo. Uma das noções centrais da gra-
mática gerativa, a ideia de que possa haver algo especial sobre a faculdade
da linguagem, tem sido negada por uma forma de associacionismo depois
da outra: conexionismo, aprendizado baysiano, teoria da gramaticalização,
aprendizado baseado no uso e cognição corporificada. Ainda poucos dos pra-
ticantes dessas abordagens tentam lidar com qualquer coisa além dos fatos
mais elementares da descrição linguística, muito menos com a riqueza de
análise que tem sempre sido a força da tradição gerativa. Para dizer a verda-
de, a tradição gerativa teve seus excessos, e sempre houve muitos frameworks
gerativos variantes no mercado. Mas todos eles têm em suas raízes o desejo
de dar conta dos fatos linguísticos de grande sofisticação, como estrutura ar-
gumental, complementação, orações relativas, elipses, dependências de longa
distância, quantificação, anáfora e a relação da sintaxe com a semântica, a
morfologia e a fonologia. Eu odiaria ver tudo isto reduzido enquanto as pes-
soas mudam cada vez mais na direção de paradigmas experimentais que tor-
nam as descrições linguísticas mais difíceis de lidar. Entender a localização
e o tempo dos processos linguísticos não nos diz quais estruturas linguísticas
estão sendo processadas, nem como essas estruturas são codificadas no cé-
rebro. Pelo menos ainda não.

Semântica lexical
323
Sintaxe em teoria da otimidade1
Jane Grimshaw

A teoria da otimidade (ot) é bastante atraente para os trabalhos em fono-


logia. Mas a ot também pode ser utilizada para o estudo de outras áreas
da gramática, como a sintaxe. Quais foram as primeiras investigações em
sintaxe em ot?
Grimshaw — O primeiro grande estudo foi feito por Legendre e colegas, so-
bre caso e sistemas de voz (cf. os BLS Proceedings 1994). Eles apresentaram
restrições extremamente simples relacionando tipos de argumento a caso e
puderam prever uma interessante tipologia para os padrões de caso e voz. O
artigo era bem técnico, mas abriu os olhos de muita gente para novas possibi-
lidades. Meu próprio trabalho a respeito de estrutura sintagmática (Li, 1997)
desenvolveu um sistema de restrição sintático que elucidou algumas proprie-
dades da estrutura frasal do inglês, estendendo assim o escopo da sintaxe em
ot a um domínio diferente. Obviamente essa resposta não faz justiça a todos
os trabalhos, muitos feitos por alunos de pós-graduação, que contribuíram
com o entusiasmo e com os resultados.

Como a sintaxe em ot se relaciona com outras teorias e modelos sintáticos,


como a “Lexical Functional Grammar” (LFG), a teoria de princípios e pa-
râmetros (p&p) ou o Programa Minimalista?
Grimshaw — Esta é uma pergunta complicada. Existem duas propriedades da
ot que a relacionam com outras teorias de uma maneira interessante de ser
explorada. A primeira é que ela é convidativa a teorias não derivacionais, em
que cada restrição avalia alternativas em um único nível de representação.
Já que se provou difícil estabelecer argumentos claros que sejam contra ou a
favor do papel da derivação na teoria sintática, a importância dessa proprie-