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MITOS E REALIDADE DA DINÂMICA POPULACIONAL

José Eustáquio Diniz Alves


Professor da Universidade Federal de Ouro Preto
Referência:
ALVES, J. E. D. Mitos e realidade da dinâmica populacional. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS
POPULACIONAIS, 12, Caxambu, MG, 2000

1. INTRODUÇÃO

A história da humanidade tem sido a história da luta pela sobrevivência da espécie. O


ser humano sempre lutou para se manter vivo diante dos inúmeros obstáculos do dia-a-dia e
pela continuidade de sua descendência, constantemente ameaçada pelas altas taxas de
mortalidade. Para fazer frente ao desafio da mortalidade, a sociedade se organizava para
manter altas taxas de fecundidade, de modo a possibilitar o crescimento populacional. No
século XIX, alguns poucos países começaram a vencer a batalha pela vida. Vários fatores
contribuíram para a transição da mortalidade: a melhoria do padrão de vida da população,
fruto dos ganhos de produtividade ocorridos especialmente a partir da segunda metade do
século passado, decorrentes da chamada Segunda Revolução Industrial; as conquistas da
medicina, resultado da inovação médica, dos programas de saúde pública, do avanço do
saneamento básico, da higiene pessoal; e, também, do avanço educacional, que permitiu aos
pais uma melhor atenção aos cuidados das crianças. Assim, alguns países mais
industrializados conseguiram uma redução em suas taxas de mortalidade. Nestes países, este
processo ocorreu de forma lenta e foi acompanhada, logo em seguida, pela redução das taxas
de fecundidade. Em muitos países do chamado Terceiro Mundo, entretanto, a queda da
mortalidade caiu muito rapidamente após a Segunda Guerra Mundial e não foi seguida,
imediatamente, pela queda da fecundidade. Isto provocou um rápido crescimento
populacional, que propiciou a difusão do mito da "explosão populacional".

Em decorrência deste mito, metas de limitação demográfica foram traçadas e formas


coercitivas de controle populacional foram aplicadas. Programas de restrição do número de
filhos ou de "planejamento familiar" foram recomendados e implementados sem muito

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respeito aos direitos individuais. As mulheres foram as principais vítimas das propostas
autoritárias de regulação da fecundidade. A maioria dos programas implantados de cima para
baixo não apresentaram os resultados esperados. Todavia, independentemente da vontade
das autoridades controlistas, a queda da fecundidade se generalizou em quase todo o mundo,
fruto da menor demanda por filhos.

Hoje em dia, com a redução generalizada das taxas de fecundidade, está surgindo um
novo mito: o mito da "implosão populacional". Muitas vozes, principalmente dos setores
religiosos, estão interpretando a transição de altos a baixos níveis das taxas de fecundidade
como um indício de "suicídio demográfico". Este é outro mito, pois existe uma distância
muito grande entre as baixas taxas de fecundidade e o desaparecimento de uma população. É
importante destacar que este novo mito não tem servido para impor novos meios
contraceptivos, mas sim para restringir seus usos e para atacar os direitos sexuais e
reprodutivos dos indivíduos, especialmente das mulheres. Saem de cena os controlistas e
entram os populacionistas ou natalistas. O mito da explosão populacional levou a formas
coercitivas de restrição da fecundidade, enquanto o mito da implosão populacional pode levar
a formas coercitivas para a elevação da fecundidade. Ambos contribuem para restringir o
direito à livre decisão reprodutiva e tendem a jogar sobre o gênero feminino os custos de
regular o ritmo da dinâmica populacional.

2. O MITO DA EXPLOSÃO POPULACIONAL

Em 1798, quando a população mundial se encontrava na faixa de 0,8 bilhão de


habitantes, Thomas Malthus publicou a primeira versão do Ensaio sobre população,
lançando as bases da construção do mito da "explosão populacional". O princípio de
população de Malthus dizia: "O poder de crescimento da população é indefinidamente maior
do que o poder que tem a terra de produzir meios de subsistência para o homem . A população,
quando não controlada, cresce numa progressão geométrica. Os meios de subsistência
crescem apenas numa progressão aritmética" (Malthus, 1983, p. 282).

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Malthus considerava a fecundidade marital como uma variável independente e que
tenderia sempre para a "fecundidade natural" (ausência de qualquer controle deliberado).
Para ele, existe uma eterna "paixão entre os sexos", paixão esta considerada imutável e
moralmente correta, desde que heterossexual, monogâmica e legitimada pelo casamento.
Pregava, como norma de comportamento virtuoso, a continência total antes do matrimônio,
e concordava unicamente, enquanto "freio preventivo", com o adiamento do casamento até
que o casal tivesse os meios suficientes para criar uma família. Em seu modelo, sexo e
reprodução estão umbilicalmente ligados. Os determinantes da taxa total de fecundidade
seriam, então, as taxas de nupcialidade e a idade ao casar. Quando as condições econômicas
fossem favoráveis, os jovens se casariam cedo, provocando um "baby boom". Existiria,
portanto, uma relação direta entre crescimento econômico e fecundidade. Todavia, com o
tempo, o elevado crescimento demográfico ultrapassaria a capacidade de produção dos meios
necessários à subsistência, o que provocaria uma elevação das taxas de mortalidade,
entendida como uma variável dependente. O controle da população se daria através da fome,
doenças, epidemias, guerras e miséria, ou seja, dos "freios positivos", como se referia
Malthus a toda sorte de eventos externos que limitavam o crescimento populacional. Para
ele, negativo seria a eliminação destes "freios".

Pelo princípio malthusiano, a população tenderia sempre a crescer mais que os meios
de subsistência, tornando a fome e a miséria uma realidade inexorável. Uma alternativa lógica
para se evitar o desastre populacional seria o controle da natalidade através do uso de métodos
contraceptivos, aborto, abstinência sexual no casamento etc. Mas isto ia contra outros
princípios malthusianos, uma vez que Malthus era um sacerdote da Igreja Anglicana, que
condenava a regulação da fecundidade entre casais e o aborto. Concordava, apenas, com a
abstinência sexual fora do casamento. Ele pregava o princípio bíblico "crescei e multiplicai-
vos". Neste sentido, mesmo indo contra o senso comum, podemos d izer que Malthus nunca
foi um controlista. Como escreveu Poursin e Dupuy (1975): "Malthus é resolutamente
populacionista".

A base deste populacionismo pode ser explicada por seu posicionamento ideológico
conservador, para não dizer reacionário. Malthus era um porta-voz declarado dos ricos

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latifundiários e defendia seus interesses (renda da terra) contra os interesses da burguesia
industrial nascente (lucro) e dos estratos populares (salário). Um dos objetivos do "Ensaio de
população" foi, declaradamente, combater os ideais da Revolução Francesa de 1789 e,
particularmente, as idéias progressistas de Condorcet e William Godwin. Estes autores
pregavam reformas sociais e consideravam o vício e a miséria resultado s da forma de
organização das instituições humanas. Para eles, uma vez suprimidos os privilégios de classe
e feitas as devidas reformas sociais, adviria um progresso ilimitado da humanidade, em meio
à abundância e à prosperidade de todos os habitantes do planeta. Malthus se opôs a este
otimismo revolucionário contrapondo o seu princípio pessimista, baseado na
imperfectibilidade do ser humano.

Para Malthus, todo meio artificial e "fora da lei da natureza" para conter a população
suprimiria aquilo que dá alma ao trabalho e à indústria, pois "a necessida de é a mãe da
invenção". Na visão malthusiana, o sofrimento e as vicissitudes do povo trabalhador são as
condições necessárias para sua evolução moral. Utilizando princípios religiosos, ele
considerava que o ser humano, maculado pelo Pecado Original, estaria marcado para sempre
pelo mal, e sua vida seria "um estado de privação e uma escola de virtude". Por conseguinte,
Malthus considerava que o princípio de população seria um designo divino, uma forma de
punição contra a aversão humana ao trabalho e à indolência e que a humanidade não teria
saído do estado selvagem se não fosse a luta pela sobrevivência, provocada pelo excesso
populacional. Contra o ideário utópico da Revolução Francesa, ele expôs o seu sombrio
"princípio da realidade":

"Foi ordenado que a população crescesse mais rapidamente que o alimento para
fornecer os mais permanentes estímulos desse tipo e para levar o homem a apoiar os
designos favoráveis da Providência por meio do pleno cultivo da terra (...) se
retornarmos ao princípio da população e considerarmos o homem como ele é
realmente - inativo, apático e avesso ao trabalho - a não ser que impelido pela
necessidade, podemos proclamar com certeza que o mundo não teria sido povoado
senão por causa da superioridade do poder da população em rela ção aos meios de
subsistência (...). Se a população e o alimento tivessem crescido na mesma

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proporção, seria provável que o homem nunca tivesse saído do estado selvagem"
(Malthus, 1983, p.376).

Qual a função de tanto negativismo? Na verdade, só podemos entender o pensamento


demográfico de Malthus se entendermos seu pensamento econômico e político. Ele foi o
primeiro professor da disciplina de economia política e, segundo Keynes, lançou as bases
para se compreender o problema da "demanda efetiva". Como já foi dito, ele defendia a renda
da terra em detrimento da renda dos trabalhadores. Malthus defendia a chamada lei de bronze
dos rendimentos dos trabalhadores, vale dizer, um salário de subsistência, que seria o valor
natural capaz de garantir a reposição sem falta e sem excesso da força de trabalho. Retirando-
se a massa salarial e os demais custos de produção, o excedente agrícola seria apropriado
pelos latifundiários em forma de renda da terra. Quanto menores os salários, maior seria a
renda da terra e vice-versa. Mas os salários não poderiam cair a zero, pois os trabalhadores
não sobreviriam. O mínimo do salário seria aquele capaz de sustentar o trabalhador e sua
família. Mas não uma família numerosa e sim um número suficiente de filhos para repor
demograficamente os seus pais. Neste sentido, Malthus considerava que o salário de
subsistência seria aquele capaz de garantir o equilíbrio homeostático entre população e meios
de subsistência.

A diferença entre o "salário de mercado" e o "valor natural do salário" provocaria a


oscilação demográfica. Se o primeiro estivesse acima do segundo, a população cresceria mais
rapidamente que a produção de bens de subsistência devido à relação direta entre a renda e a
fecundidade e à relação inversa entre a renda e a mortalidade. No longo prazo, entretanto, o
crescimento excessivo da população seria eliminado pela escassez de recursos. Ao contrário,
se uma crise de mortalidade reduzisse excessivamente a população, a maior disponibilidade
de recursos naturais forçaria a elevação do salário de mercado, induzindo casamentos mais
precoces e, em conseqüência, a elevação dos níveis de fecundidade, até o ponto em que um
novo equilíbrio fosse alcançado. O crescimento populacional tenderia a oscilar de acordo
com as condições econômicas, pois segundo Malthus: "a humanidade prolífera e a terra avara
são os dados permanentes de nosso destino".

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Como podemos perceber, o modelo econômico/demográfico de Malthus visava antes
de tudo defender a inflexibilidade do salário de subsistência em benefício da renda da terra,
apropriada pelos latifundiários. Nesta perspectiva ele foi contra a liberação da importação de
cereais, como reivindicavam os setores urbanos da Inglaterra de seu tempo. Esta liberação
teria a função de reduzir o custo de reprodução da força de trabalho, o que beneficiaria, em
primeiro lugar, a burguesia industrial e, em segundo lugar, os próprios trabalhadores. Malthus
se opôs, também, às "leis dos pobres" que, segundo ele, só serviam para incentivar a
ociosidade e o vício. Desta forma, ele antecipou em quase dois séculos os ideólogos
neoliberais que, atualmente, combatem as conquistas do estado de bem-estar social (welfare
state). Por fim, é desnecessário dizer que, na concepção de Malthus, nunca haveria espaço
para se discutir as modernas questões relativas aos direitos sexuais e reprodutivos.

Apesar da repercussão alcançada pelo Ensaio sobre população, a história se


encarregou de jogar por terra o modelo malthusiano, uma vez que o desenvolvimento
tecnológico propiciou, nos últimos dois séculos, um grande crescimento dos meios de
subsistência e um enorme crescimento da produção per capita. Segundo Maddison (citado
por McNicoll, 1998, p. 314), entre 1820 e 1992 as populações da Europa Ocidental e do
mundo cresceram, respectivamente, 3 e 5 vezes, enquanto, no mesmo período, a economia
mundial cresceu 40 vezes. Neste período, foi a produção que teve um crescimento geométrico
e não a população. Assim, além de contrariar a visão tecnológica de Malhus, a história
mostrou que não existe uma relação direta entre as variáveis renda e fecundidade, mas sim
uma relação inversa, pois quanto maior a renda do casal menor é o número provável de filhos.
Neste sentido, podemos dizer que o princípio malthusiano era apenas uma ideologia
conservadora capaz de justificar a ordem estabelecida na sociedade feudal e pré-capitalista.
Neste sentido, o mito da "explosão populacional" foi utilizado como um recurso para
justificar a necessidade de manter o atraso e a superexploração das classes trabalhadoras,
justificando salários miseráveis.

Cabe ainda destacar a diferença entre as concepções de Malthus e o


neomalthusianismo. Malthus é o ideólogo do período anterior à queda generalizada das taxas
de mortalidade. O fenômeno da transição demográfica, típico do século XX, veio trazer novas

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questões. O crescimento do padrão de vida da população, os avanços da medicina, as medidas
de avanço da higiene pública, as campanhas de prevenção de doenças e os cuidados especiais
com os recém-nascidos possibilitaram uma forte redução da taxa bruta de mortalidade em
todo o mundo. Nos países industrializados, este processo ocorreu de forma relativamente
lenta e foi acompanhado, após pequeno lapso de tempo, pela queda das taxas de fecundidade.
Nos países do Terceiro Mundo, entretanto, a queda das taxas de mortalidade ocorreu, de
modo geral, de forma muito rápida após o fim da Segunda Guerra Mundial e não foi
acompanhada imediatamente pela redução dos altos níveis de fecundidade prevalecentes
nestes países. Houve, em conseqüência, uma forte elevação das taxas de crescimento
populacional. Foi nesta época que se popularizou o termo "explosão populacional" que,
naquele momento, parecia ser um perigo real. Em 1958, Coale e Hoover, em um trabalho
clássico, sugeriram que a manutenção de altas taxas de fecundidade nos países
subdesenvolvidos poderia retardar ou mesmo impedir o crescimento econômico em países
mais pobres que estavam abaixo do limiar necessário à decolagem (take off) do
desenvolvimento. É importante destacar que estes autores não partilhavam a ideologia
conservadora de Malthus, apesar de alertarem para os possíveis efeitos negativos da
permanência de altas taxas de crescimento demográfico em países de baixa renda per capita.
Mas, a partir do clima de medo criado neste período, várias previsões pessimistas foram
feitas, traçando um cenário apocalíptico para a humanidade: os relatórios do "Clube de
Roma" apontavam para os limites do crescimento econômico e para o esgotamento dos
recursos naturais e, em 1968, Paul Ehrlich lançou o livro A bomba populacional, cujo título
fala por si só.

Diante de tudo isto, a solução apontada seria estabelecer metas de crescimento zero
e, para tanto, os neomalthusinistas, livres dos princípios religiosos de Malthus, passaram a
receitar o controle da fecundidade como forma de desarmar a "bomba populacional". Além
de métodos modernos de contracepção criados pela ciência, como a pílula anticoncepcional,
DIU etc., alguns chegaram a pregar a esterilização em massa, outros pregavam até mesmo o
aborto. Ao contrário de Malthus, os teóricos neomalthusianos acreditam que é possível
acabar com a miséria e a pobreza, mas tendem a culpar os próprios pobres pela sua situação
desprivilegiada, uma vez que estes são naturalmente prolíferos. Nesta perspectiva, p olíticas

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populacionais restritivas foram traçadas recorrendo a métodos de controle que atentavam
contra os direitos reprodutivos. Até a China comunista, pós-Mao Tse Tung, adotou um
sistema bastante forte para incentivar apenas um filho por casal. Tudo isto porque os
neomalthusianos consideram que a pobreza é decorrente do excesso de população e contribui
para atrasar ou frear o desenvolvimento econômico. É como se a fecundidade fosse uma
variável independente que precisasse ser controlada. Desta forma, o mito da "explosão
populacional" contribuiu, muitas vezes, para impor decisões reprodutivas alheias à vontade
dos casais. Destacamos, então, que, enquanto o malthusianimo é uma ideologia
essencialmente natalista, o neomalthusianismo é, ao contrário, essencialmente controlista.

Já na década de 1970, o mesmo Coale (1979), revendo a teoria da transição


demográfica, percebeu que a difusão do controle da fecundidade nos países de baixa renda
estava, de modo geral, ocorrendo independentemente dos níveis de desenvolvimento. A ânsia
controlista foi, então, amainada. Assim, o problema da "explosão populacional" deixou de
assustar as agências internacionais e os governos dos países centrais. Foi ficando claro para
todos que a transição demográfica é um fenômeno que tem se espraiado por todas as regiões
do mundo e que o rápido crescimento populacional corresponde apenas a uma fase
temporária da história de cada país, que prevalece entre o período de queda da mortalidade e
da queda da fecundidade. A dinâmica deste crescimento depende, obviamente, de situações
concretas e não elimina problemas que possam ocorrer com alguns países que econômica e
culturalmente resistem à transição da fecundidade. Mas, enquanto um desafio mundial, a
questão da "explosão populacional", em poucas décadas, deixou de ser o grande fantasma
que assustava os responsáveis pelo planejamento econômico e colocava nuvens negras no
horizonte da sociedade humana.

O medo da explosão populacional ocorreu devido ao fato do crescimento


populacional do século XX ter sido o maior de toda a história da humanidade. Enquanto, no
século anterior, a população mundial dobrou de tamanho, no século XX ela quase
quadruplicou, passando de 1,6 bilhão em 1900 para 6,1 bilhões no ano 2000. À primeira
vista, este salto demográfico pode parecer um sinal de descontrole das taxas de fecundidade,
pois, caso este crescimento viesse a se manter nos séculos seguintes, teríamos uma verdadeira

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avalanche humana sobre a Terra. Contudo, este alto crescimento populacional foi o resultado
da expressiva queda das taxas de mortalidade ocorrida na maioria dos países do mundo. Pela
primeira vez em sua longa jornada, o ser humano logrou sucesso na redução definitiva dos
altos níveis de mortalidade e na conquista de altos patamares de expectativa de vida. O alto
crescimento demográfico do século XX foi, portanto, fruto de uma conquista: foi o resultado
da vitoriosa prevenção de epidemias e doenças, do desenvolvimento da medicina e da
melhoria do padrão de vida de amplas parcelas da população mundial. Portanto, a aceleração
das taxas de crescimento demográfico ocorreu, simplesmente, durante um pequeno lapso de
tempo, até que as taxas de fecundidade começassem a cair, correspondendo a uma
determinada fase da transição demográfica.

3. O MITO DA IMPLOSÃO POPULACIONAL

Um certo tempo após o início da queda da mortalidade, as taxas de fecundidade


também começaram a cair, desacelerando o ritmo de crescimento da população mundial.
Houve uma difusão de novas práticas conceptivas. Este processo começou primeiro nos
países desenvolvidos, de maior renda per capita, países do Norte, para depois cair também
nos países subdesenvolvidos, de baixa renda, países do Sul. Nestes últimos, ao contrário dos
primeiros, a transição demográfica ainda não se completou. Para efeito prático, consideramos
que o fim da primeira transição demográfica ocorre quando a taxa de natalidade se iguala à
taxa de mortalidade. Nos países do Norte este processo já ocorreu ou está em vias de
acontecer. Na verdade, em vários destes países as taxas de natalidade só não estão abaixo das
taxas de mortalidade - o que provocaria o decréscimo populacional - devido ao efeito da
estrutura etária (alta proporção de mulheres em idade fértil) e à migração internacional. Ou
seja, na maioria absoluta dos países do Norte as taxas de fecundidade estão abaixo do nível
de reposição (aproximadamente 2,1 filhos por mulher). A continuar esta tendência, o
conjunto destes países deverá assistir à diminuição de suas populações. Contudo, nos países
do Sul, salvo raras exceções, as taxas de fecundidade, mesmo estando em declínio, ainda
encontram-se acima do nível de reposição.

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Muitas abordagens teóricas buscam explicar a transição da fecundidade. Segundo a
abordagem da modernização, a redução do tamanho da família é decorrente da passagem da
sociedade agrária para a sociedade urbano-industrial. Maiores níveis de educação,
participação feminina no mercado de trabalho, industrialização, urbanização e secularização
podem explicar a queda da fecundidade. Caldwell (1982), numa abordagem inovadora,
afirma que só existem dois regimes de fecundidade (exceto o período de transição): alto e
baixo. No primeiro, o fluxo intergeracional de riqueza (moeda, bens, serviços, proteção
contra riscos etc.) vai dos filhos para os pais, ou das novas para as velhas gerações. O outro
regime - de baixa fecundidade - acontece após a reversão do fluxo intergeracional de riqueza,
que passa a ir dos pais para os filhos, ou das velhas para as novas gerações. A elevação dos
custos (monetários, sociais, psicológicos) e a redução dos benefícios dos filhos tornam a
baixa fecundidade uma realidade que veio para ficar. Uma série de abordagens de gênero
mostra que os maiores custos da alta fecundidade recaem sobre as mulheres, o que reforça,
mutuamente, as desigualdades econômicas, sociais e de prestígio entre os sexos e a
segregação feminina na sociedade. Neste sentido, a baixa fecundidade está relacionada,
dentre outros fatores, com a mudança nas relações de gênero e a recusa das mulheres em
arcar, desproporcionalmente, com a maior responsabilidade da geração e criação dos filhos
(Alves, 1994).

A continuidade de taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição, após o fim da


primeira transição demográfica, deu origem ao fenômeno conhecido na lite ratura
demográfica como "segunda transição demográfica" (Van de Kaa, 1987). O que caracteriza
esta segunda transição é o baixo número médio de filhos num momento de redução das taxas
de nupcialidade, da elevação da idade média ao casar, da elevação da idad e média da mulher
à primeira gravidez, da elevação dos índices de separações e divórcios, do maior número de
filhos fora do casamento, de uma maior pluralidade nos arranjos familiares (inclusive com a
união homossexual), do crescimento da coabitação, de casais vivendo em casas separadas,
da utilização generalizada de métodos eficientes de contracepção, por níveis cada vez mais
elevados de escolaridade, da cada vez maior participação feminina no mercado de trabalho e
de um crescente individualismo. Neste sentido a segunda transição demográfica tem a ver

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com mudanças nas relações de gênero, com o empoderamento da mulher na sociedade e com
uma redefinição do papel da família na sociedade.

A menor demanda por filhos tem tornado o controlismo e a explosão popula cional
questões anacrônicas ou restritas a poucas regiões do mundo. Todavia, ainda existem muitos
controlistas que alardeiam o perigo da explosão demográfica e tomam como exemplo a
situação existente no continente africano. Também existem aqueles que justificam o atraso e
o subdesenvolvimento dos países do Sul pelo elevado ritmo de crescimento populacional,
tentando jogar sobre os próprios pobres a culpa da pobreza e buscando ocultar as iniquidades
da ordem econômica internacional. Para muitos ideólogos do Norte, é mais fácil discutir as
altas taxas de crescimento populacional do que discutir as altas taxas dos juros internacionais
e o receituário restritivo do FMI. Desta forma, enquanto cresce a preocupação com a
possibilidade de decréscimo populacional nos países ricos do Norte, mantém-se o receituário
controlista para os países do Sul. Como escreveu Dom Eugênio Sales, Cardeal-arcebispo do
Rio de Janeiro:

“O egoísmo dominante nos indivíduos e países impede uma justa distribuição


dos recursos naturais. Cada um pensa em si e em sua nação, sem atender ao bem
comum. Aqui se coloca o empobrecimento do Terceiro Mundo, em benefício dos mais
ricos. E, no Brasil, a concentração de riquezas é crescente. Busca -se, em vez de
justiça social, a diminuição dos que deveriam igualmente participar desses dons que
Deus criou para todos os seus filhos” (Jornal do Brasil, 13/08/1994).

Toda esta diversidade de opiniões se fez representar na Conferência Mundial sobre


População e Desenvolvimento, realizada na cidade do Cairo, de 5 a 13 de setembro de 1994.
Estiveram, também, várias ONGs, grupos de mulheres e grupos em defesa da livre orientação
sexual. Portanto, estava presente na Conferência do Cairo toda a pluralidade de idéias e
ideologias, conflitantes ou não. Um dos assuntos mais polêmicos foi aquele relativo ao tema
dos direitos sexuais e reprodutivos. O Vaticano e setores fundamentalistas de outras religiões
se opuseram radicalmente a estes temas. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil) se manifestou publicamente através de seus maiores representantes. Como já vimos

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acima, vários bispos denunciaram, corretamente, as injustas relações econômicas
internacionais que são as causas das desigualdades entre os países, sendo a questão
populacional mais um resultado da desigual distribuição dos recursos. Isto foi reforçado nas
palavras de Dom Rafael Llano Cifuentes, então Bispo auxiliar do Rio de Janeiro:
“Alega-se um desmedido crescimento populacional e agiganta-se o perigo de
uma explosão demográfica. Para quê? Para se auto-protegerem. Não há perigo de
explosão demográfica nos países ricos. Não. O perigo neles é o terrível inverso
demográfico que está congelando o seu crescimento. O problema do crescimento
demográfico afeta os países do Terceiro Mundo que eles querem dominar com um
novo gênero de colonialismo: o colonialismo demográfico” (Jornal do Brasil,
29/08/1994).

Mas, apesar da crítica correta ao mito da explosão populacional, diversos bispos


passaram a cultivar o mito contrário: o do “inverso demográfico”. Dom Boaven tura
Kloppenburg, então Bispo de Novo Hamburgo, disse claramente: “A taxa de fecundidade
está baixando nos países ricos. Querem que a Igreja aprove ou ao menos não se oponha às
técnicas anticoncepcionais para evitar a explosão demográfica. Mas o perigo rea l, dia a dia
mais evidente, tem agora outro nome: implosão demográfica” (Jornal do Brasil, 17/07/1994).
Assim, definido o novo inimigo, os bispos da CNBB passam a defender o “direito de viver”
e a atacar a “cultura da morte”, a “desnatalização”, o “terrorismo demográfico” etc. Muito
próximos das concepções originais de Malthus, os bispos passam a combater os métodos
contraceptivos, a esterilização e principalmente o aborto. Nas palavras de Dom Lucas
Moreira Neves, Cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil: “A terceira observação
crítica – a mais severa – contra o ‘esboço de documento final’, é que, nele, o afã controlista,
se não propugna pela esterilização em massa de mulheres férteis e até pelo aborto, pelo menos
admitem estas práticas como métodos válidos para a desnatalização. É visível que conceitos
e expressões como ‘direitos sexuais e reprodutivos’ (usados mais de cem vezes no ‘Draft’),
‘sexo seguro’, ‘maternidade segura’, ‘saúde reprodutiva’, cobrem, na verdade, a intenção de
legalizar e legitimar o ‘aborto seguro’. Isso eqüivale a colocar a Conferência sob signo
sinistro de uma genuína ‘cultura da morte’” (Jornal do Brasil, 31/08/1994). Dom Boaventura
Kloppenburg, combatendo os métodos contraceptivos e toda e qualquer forma de aborto, diz:

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“Nesta situação a Igreja deve colocar-se decididamente ao lado da vida. Cremos firmemente
que a vida humana, mesmo que débil e com sofrimento, é sempre um esplêndido dom do
Deus da Bondade” (Jornal do Brasil, 17/07/1994). Ou combatendo os ambientalistas, como
Dom Rafael Cifuentes: “Mata-se um mico-leão e vira um caso de polícia. Matam-se milhões
de seres indefesos – pelo aborto – e o fato não merece uma simples manchete” (Jornal do
Brasil, 29/08/1994). Podemos perceber, então, que, em nome do combate ao controlismo dos
neomalthusianos, os bispos passaram a defender o princípio bíblico “crescei e multiplicai-
vos”, tão ao gosto de Malthus.

Além de combater a contracepção e o aborto, os bispos se manifestaram contra os


direitos sexuais e reprodutivos em função da defesa intransigente da família monogâmica,
heterossexual e submetida à “finalidade generativa do sexo”. No mesmo artigo já citado de
Dom Boaventura, fica claro que a Igreja se opõe aos novos arranjos familiares e à livre
orientação sexual. Diz o Bispo: “Uma família sem filhos é como um círculo quadrado.
Devemos eventualmente redescobrir que, como nos dizia o Concílio Vativano II e repete o
novo Catecismo nº 1652, ‘os filhos são o Dom mais excelente do Matrimônio e constituem
um benefício máximo para os próprios pais’”. É neste mesmo sentido que podemos
compreender a oposição atual da Igreja ao projeto de “parceria civil entre pessoas do mesmo
sexo”, da ex-deputada Marta Suplicy. Podemos compreender ainda porque o Vaticano
também se opõe ao uso da camisinha como forma de “sexo seguro” no combate à epidemia
da AIDS. Para a Igreja, sexo seguro é aquele feito dentro do casamento e sem adultérios.
Outras formas de relacionamentos sexuais devem ser combatidos pois não passam de “uma
vida sexual desordenada”. Segundo nota recente da CNBB: “A Igreja entende que a melhor
prevenção contra a AIDS é educar os jovens para uma sexualidade vivida com
responsabilidade e reservando sua expressão mais íntima na união conjugal” (Folha de São
Paulo, 16/06/2000, p. A11). Em nome da doutrina católica, desconsidera-se todos os outros
arranjos familiares existentes, tentando impor um modelo único de relacionamento que não
condiz com a liberdade individual e a pluralidade.

Vê-se, desta forma, que o mito da "implosão populacional" pode servir para a defesa
de posturas sociais conservadoras e para uma reedição das idéias de Malthus. Abandona-se

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o controlismo reinante durante a primeira transição demográfica e, em seu lugar, surge um
novo populacionismo, agora adaptado para as condições da segunda transição demográfica.
Enquanto Malthus falava da necessidade do "salário de subsistência", agora fala-se na falta
de mão-de-obra provocada pela redução das taxas de fecundidade, e que esta escassez de
trabalhadores poderia elevar o "salário de mercado", colocando em perigo a acumulação
capitalista. Fala-se, também, na redução do mercado interno de consumo e nas deseconomias
de escala provocadas por uma menor população. Revive-se o medo do despovoamento e da
"desinflação" populacional. Fala-se nos impactos causados sobre a previdência social
decorrentes da mudança da estrutura etária e da alta proporção de idosos no conjunto da
população. Até demógrafos pouco citados, como Julian Simon, autor de The Ultimate
Resource (1981), que sempre se opôs ao controlismo e ao "catastrofismo" de alguns
ambientalistas, são relembrados para reforçar os argumentos a favor dos benefícios do
crescimento populacional.

4. PERSPECTIVAS DEMOGRÁFICAS PARA O SÉCULO XXI

Evidentemente, quando pensamos no muito longo prazo, taxas altas de fecundidade


podem levar à "explosão populacional" e taxas muito baixas podem levar à "implosão
populacional". O erro, nestes casos, é tentar extrapolar tendências do curto prazo como se
fossem tendências permanentes e imutáveis ao longo do tempo. A história já mostrou o erro
daqueles que previam um crescimento ilimitado da população. Agora, no sentido inverso,
estão extrapolando tendências de crescimento negativo, baseados em taxas de fecundidade
abaixo do nível de reposição que são f ruto de condições históricas concretas. Não dá para
dizer que as taxas de fecundidade vão continuar caindo ou que não venham a subir mais à
frente.

Além disto, existe um problema adicional, pois a possibilidade de redução da


população ocorre nos países do Norte, enquanto os países do Sul continuam apresentando
crescimento positivo. Segundo projeções de Bongaarts e Bulatao (1999), a população dos
países do Norte (representados por Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova
Zelândia e Japão) deverá apresentar uma pequena diminuição durante o século XXI,

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passando de 1,18 bilhão de habitantes no ano 2000, para 1,11 bilhão de habitantes no ano
2100. No mesmo período, a população dos países do Sul deverá passar de 4,89 bilhões para
8,86 bilhões. A população mundial deverá caminhar para a estabilidade, atingindo um teto
na casa de 10 bilhões de habitantes. Portanto, o maior crescimento se dará nos países mais
pobres e o peso relativo da população dos países do Norte cairá de 19,4% em 2000 para
11,1% em 2100. Estimativas feitas por McNicoll (1999), apresentadas na tabela 1, mostram
que nos próximos 50 anos a única região que deve aumentar o seu peso relativo na população
mundial é a África. A Europa é a região que deverá apresentar a maior perda, com sua
participação na população mundial caindo de 21,7% em 1950 para cerca de 7% em 2050.
Tabela 1
Distribuição da população mundial por regiões (%)
Estimativas e projeções 1950-2050
Regiões 1950 2000 2050
Europa 21,7 12,0 7
USA, Canadá, Austrália, NZ 7,2 5,5 5
América Latina 6,6 8,6 9
Ásia 55,7 60,9 59
África 8,8 13,0 20
População mundial (bilhões) 2,52 6,05 8,90
Fonte: Geoffrey McNicoll, 1999

Tomando como bastante prováveis os dados das projeções acima, podemos perceber,
em primeiro lugar, que a diminuição da população do Norte para os próximos 50 ou 100 anos
não é tão dramática que dê crédito à hipótese de implosão populacional. Além disto, no
espaço de um século, muita coisa pode acontecer, inclusive a elevação da fecundidade, pelo
menos ao nível de reposição. Em segundo lugar, mostra que não existe o perigo de uma
explosão populacional nos demais países, pois a população mundial deve cresce r algo em
torno de 60% no século XXI, muito abaixo dos 280% de crescimento do século XX. Se é
assim, então de onde vem o medo do perigo demográfico que existe em alguns países do
Norte? A escassez de mão-de-obra poderia ser solucionada, por um lado pela imigração e, de
outro, pela exportação e transposição de plantas industriais para o Terceiro Mundo. A tese

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de diminuição do mercado interno não se sustenta diante do crescimento da renda per capita.
A perda de influência geopolítica dos países do Norte é apenas relativa, pois não é o tamanho
da população o único critério de avaliação. Caso isto fosse verdade a Indonésia teria um peso
geopolítico muito maior que o Japão, que já foi o 5 º país em tamanho de população e deve
cair para 19 º lugar em 2100.

Um grande “problema” demográfico, por exemplo, encontra-se na Europa. Alguns


países do Velho Continente assistem ao crescimento dos partidos de direita e de ideologia
racista. As lideranças destes partidos tendem a colocar todo o mal do desemprego e da
exclusão social existente em seus países sobre os imigrantes dos países do Sul. No auge do
crescimento europeu nas décadas de 60 e 70 os imigrantes foram bem vindos. Com a perda
de dinamismo da economia européia, estes imigrantes passam a ser os responsáveis e não as
vítimas das crises econômicas. A Revista Isto É reporta a morte de 58 migrantes chineses na
cidade de Dover e comenta: “Ao mesmo tempo, acirra-se o discurso xenófobo da direita e
dos conservadores contra os imigrantes. O bufão francês Jean-Marie Le Pen já não fala mais
sozinho. Tem ao seu lado figuras como o neonazista austríaco Jörg Haider – cuja coalizão
chegou ao poder na Áustria – e o líder dos conservadores britânicos, William Hague, que fez
da repressão aos imigrantes sua principal bandeira política. E esse discurso belicoso encontra
eco nos setores mais empobrecidos da população européia” (28/06/00, p. 117). Nota-se, desta
forma, uma tentativa de alguns partidos em defender os interesses de naçõ es ricas em
detrimento de nações pobres, de classes sociais privilegiadas em detrimento das classes
trabalhadoras e de interesses étnicos e raciais europeus contra imigrantes africanos, asiáticos
e latino-americanos.

5. ALGUNS ASPECTOS DA DINÂMICA POPULACIONAL NO BRASIL

A população brasileira era de 3,3 milhões de habitantes, em 1800, passando para 17,9
milhões em 1900, segundo Merrick e Graham (1981). No ano 2000 deve atingir a casa de
170 milhões. A população brasileira quintuplicou no século XIX e decuplicou no século XX.
Em 200 anos, o número de brasileiros aumentou 50 vezes. Foi um dos maiores crescimentos

16
populacionais do mundo, mas um crescimento que partiu de uma base muito pequena numa
situação em que o país possuía uma imensa disponibilidade de terras e uma baixíssima
densidade demográfica. A imigração internacional teve um peso decisivo no incremento
populacional no século passado e na primeira metade do século XX, quando a população
chegou a 52 milhões de habitantes em 1950. Na segunda metade de ste último século do
milênio, entretanto, o determinante principal foi o crescimento vegetativo, resultado da
rápida queda das taxas de mortalidade. As décadas de 50 e 60 apresentaram taxas de
crescimento demográfico da ordem de 3% ao ano, as maiores de toda a história brasileira. O
que os pessimistas viam como um problema de excesso de nascimentos era, na verdade,
resultado dos ganhos da batalha pela redução das taxas de mortalidade, principalmente entre
as crianças com menos de um ano de vida.

Tão logo se consolidou a queda da mortalidade, as taxas de fecundidade também


começaram a cair, reduzindo o ritmo de crescimento populacional. A taxa geométrica de
crescimento anual caiu para 2,4% na década de 70, para 1,9% na década seguinte e deve ficar
em torno de 1,5% na década de 90. No final da década de 70 o IBGE projetou dois cenários
para o ano 2000: no cenário baixo foi calculada uma população de 201 milhões e no cenário
alto, de 222 milhões de habitantes. A diferença entre a projeção baixa e o que deve ser
observado pelo censo 2000 ficará acima de 30 milhões de habitantes (equivalente à população
da Argentina). Em apenas duas décadas a brusca desaceleração populacional derrubou o mito
da explosão demográfica brasileira. O principal componente da desaceleração populacional
foi a redução das taxas de fecundidade, apresentadas na tabela 2, abaixo:

Tabela 2
Taxas de fecundidade total (TFT)
Brasil 1940-1996
1940 1950 1960 1970 1980 1991 1996
6,2 6,2 6,2 5,8 4,3 2,8 2,5
Fonte: Anuário estatístico do IBGE (1992) e Carvalho (1998)

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Esta expressiva queda da fecundidade ocorreu sem que o país tivesse qualquer política
populacional explícita. Existia uma disputa implícita entre controlistas e populacionistas.
Amplos setores das forças armadas, setores da esquerda e setores da Igreja Católica eram
claramente a favor do crescimento populacional e de uma política de ocupação das terras e
dos espaços vazios do interior do país. Outros setores chamavam a atenção para os aspectos
negativos do rápido crescimento populacional, na linha do trabalho de Coale e Hoover de
1958. Controlistas e natalistas disputavam espaço dentro do governo, mas nunca houve uma
clara hegemonia de qualquer uma das duas tendências. A posição oficial brasileira foi sempre
a de deixar as coisas acontecerem, uma espécie de não-política, ou uma política populacional
de laissez-faire. Contudo, Fonseca Sobrinho (1991) mostra que a legislação trabalhista
brasileira estava marcada desde seu início por uma preocupação em não prejudicar as
concepções pró-natalistas, criando mecanismos que protegiam o trabalho da mulher, vista
enquanto “mulher reprodutora”.

Todavia, independentemente do debate ideológico entre esquerda e direita ou entre


populacionistas e neomalthusianos, as taxas de fecundidade começaram a cair em todas as
regiões do país e em todos os estratos sociais. Carvalho (1998) mostra que a queda da
fecundidade no Brasil é um processo irreversível devido à alta prevalência de métodos
contraceptivos entre as mulheres casadas (unidas), especialmen te a alta prevalência da
esterilização. Para a construção de hipóteses, num exercício de projeção populacional, o autor
chega a trabalhar com uma taxa de fecundidade total de 1,81 filhos por mulher no ano 2020,
portanto, abaixo do nível de reposição que já deve ser alcançado no ano 2000. A população
esperada para o ano de 2020 foi estimada em 200,4 milh ões de habitantes. Dados do IPEA
projetam uma população de 248,7 milhões em 2050. A partir daí a população brasileira
caminharia para uma estabilidade ou uma ligeira redução. Projeções de longo prazo estão,
obviamente, sujeitas a muitos erros. Mas uma coisa está mais ou menos clara, não deve haver
nem explosão nem implosão populacional no Brasil nos próximos 100 anos. Com certeza o
ritmo de crescimento vai continuar se desacelerando e uma inversão de tendência não deve
ser nada dramático que justifique qualquer cassação de direitos individuais.

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O maior impacto de longo prazo da queda da fecundidade será sobre a estrutura etária
e o envelhecimento da população. Carvalho (1998) mostra que o percentual da pessoas com
idade igual ou superior a 65 anos em relação ao conjunto da população deverá passar de
4,80% em 1991 para 8,80% em 2020. Certamente haverá um forte impacto sobre a
previdência social. Contudo, este impacto demográfico é, mais cedo ou mais tarde, inevitável.
A solução não seria elevar a fecundidade, mas sim alterar os mecanismos de financiamento
da previdência social, por exemplo, saindo do “regime de repartição” para o “regime de
capitalização”. Mas, se nos próximos 20 anos vamos ter um aumento da proporção de idosos
na distribuição etária brasileira, teremos, paralelamente, uma redução da população abaixo
de 15 anos que deverá passar de 35,0% em 1991 para 21,50% em 2020. Portanto, num
primeiro estágio, a redução da fecundidade vai possibilitar o crescimento da população em
idade economicamente ativa. Segundo o mesmo autor, o grupo etário de 15 -64 anos vai
elevar sua participação de 60,30% em 1991 para 70,00% em 2020. Portanto, o efeito mais
imediato da rápida queda da fecundidade é a mudança da estrutura etária, alterando a agenda
das políticas sociais. Neste sentido é preciso reafirmar que são as políticas sociais que devem
se adaptar à nova realidade demográfica e não a dinâmica demográfica às velhas políticas
públicas consolidadas no passado.

6. CONCLUSÃO

O espectro do apocalipse demográfico ronda o mundo. Primeiro foi o espectro da


explosão demográfica. Segundo Malthus, a população cresceria em progressão geométrica
enquanto os meios de subsistência cresceriam em progressão aritmética. A partir daí, teorias
escatológicas pregavam a incapacidade do planeta de sustentar uma população cada vez
maior e com maior nível de consumo. O rápido crescimento populacional dos países do
Terceiro Mundo logo após o término da Segunda Guerra Mundial reforçou o medo da
“bomba populacional”, que seria mais perigosa que a bomba de Hiroshima. Mas, diante da
desaceleração geral do crescimento populacional do mundo, o espectro do apocalipse mudou

19
de lado. No final do século XX e início do terceiro milênio, as teorias escatológicas já falam
no deserto populacional fruto da implosão demográfica provocado pelas baixas taxas de
fecundidade. Mas explosões e implosões demográficas são mitos que devem ser rechaçados
porque fazem parte de uma ideologia que traz, implícita, formas coercitivas para se
estabelecer metas demográficas, ferindo os direitos individuais.

Além disto, por trás destes mitos existem posturas ideológicas e políticas que
defendem interesses de classe, interesses nacionais dos países do Norte e práticas racistas
contra os imigrantes pobres do Terceiro Mundo. Enquanto o modelo econômico do
neoliberalismo defende a abertura comercial e financeira, a quebra das barreiras comerciais
e o livre fluxo do capital rentista, sua prática social restringe a livre circulação dos cidadãos
e constrói muros, reais ou legais, entre os países do Norte e do Sul. Além das questões
nacionais, de classe e de raça, existe ainda a questão de gênero. As soluções apontadas tanto
pelos controlistas como pelos populacionistas acabam atingindo principalmente o gênero
feminino. A imposição ou a restrição de meios contraceptivos, a esterilização em massa de
mulheres ou a proibição de esterilizações, a criminalização do aborto e a falta de estrutura
para a realização da interrupção da gravidez prevista em lei, o combate ao uso de camisinhas,
a proibição da pílula do dia seguinte sob o argumento de que ela é abortiva, tudo isto recai
especialmente sobre as mulheres, que são obrigadas a arcar com os maiores custos da geração
e da criação dos filhos. Por trás do mito da implosão demográfica está uma perspectiva que
quer valorizar o papel tradicional da mulher, criando incentivos para sua menor participação
no mercado de trabalho e sua volta ao lar. Por trás das campanhas de reforço da família,
muitas vezes, se esconde o combate à pluralidade dos arranjos familiares, à coabitação e à
união civil de homossexuais. Em nome do combate à “cultura da morte” , ataca-se a livre
realização dos desejos dos indivíduos e reforça-se os mecanismos de controle da sexualidade
humana.

Mas, apesar de todos estes mitos e espectros, a Conferência do Cairo, em 1994,


representou um avanço em relação às Conferências anteriores, particularmente às de
Bucareste (1974) e México (1984), pois superou as limitações do neomalthusianismo,
colocando a questão da regulação da fecundidade como uma questão de saúde reprodutiva –

20
entendida como um estado de completo bem-estar físico, mental e social – e não como um
meio para se chegar a metas controlistas. Como disse Berquó (1998): “O documento do Cairo
reflete com bastante clareza a agenda de prioridades que as mulheres de todo o mundo,
através de suas redes de lideranças, foram construindo durante os anos de preparação da
Conferência. São elas que reorientaram o eixo da questão populacional, ao colocarem a
regulação da fecundidade no plano dos direitos individuais. Como conseqüência, o
planejamento familiar, stritu sensu, perde status, e surge no Cairo a consagração dos direitos
reprodutivos” (p. 26). Desta forma, é preciso compreender que esta vitória do movimento de
mulheres e das forças progressistas só foi possível na medida em que houve, mesmo que de
forma circunstancial, uma aliança entre o feminismo e o neomalthusianismo. Segundo
Hodgson e Watkins (1997): "Os neomalthusianos e aqueles que procuram influenciar as
tendências populacionais, geralmente, não são aliados naturais das feministas nem tampouco
inimigos naturais: muito depende das circunstâncias momentâneas (…). Nos anos 80,
entretanto, feministas americanas se depararam com um movimento americano
neomalthusianista diminuído em poder e influência, e modelado por uma agenda unilateral
de 'conhecimento geral' que produziu uma aliança de questionável benefício mútuo" (p . 510).
As autoras chamam a atenção para a fragilidade desta aliança na medida que o
neomalthusianismo objetiva apenas reduzir a fecundidade enquanto o movimento de
mulheres entende a saúde sexual e reprodutiva como um direito que as pessoas têm “a uma
vida sexual segura e satisfatória e que tenham a capacidade de reproduzir e a liberdade de
decidir sobre quando e quantas vezes devem fazê-lo” (Plano de ação do Cairo, 1994).

Todavia, a maior ameaça aos avanços conseguidos no Programa de Ação do Cairo


advém do lobby das tendências populacionistas. A perspectiva é que este lobby fique mais
forte nas próximas conferências, à medida em que a queda da fecundidade for se
generalizando. É importante notar que o malthusianismo é tão ou mais coercitivo que o
neomalthusianismo. Historicamente, o natalismo sempre buscou reforçar o papel tradicional
da mulher. Como afirma Prado (1982): “Stalin fez retroceder nos anos 30, com o decreto de
1940, o caminho de uma estrutura familiar liberal que germinava nos ideais da revo lução
soviética. Hitler preconizava a teoria dos três Ks – “Kinder, Küche, Kirche” (crianças,
cozinha e igreja) – como único destino das mulheres patriotas, na Alemanha nazista. O

21
integralismo e o fascismo fundamentam na constituição da família sua força, assim como
assistimos às lutas de um islamismo obscurantista, no Irã, que pune hoje com a morte uma
infidelidade conjugal, que retirou as mulheres das universidades etc.” (p. 33). É neste sentido
que podemos compreender a pressão das forças natalistas contra os direitos sexuais e
reprodutivos. Portanto, é de se esperar que as questões colocadas na Conferência do Cairo
voltem com mais força na próxima Conferência Internacional sobre População e
Desenvolvimento. A compreensão dos interesses em jogo e a partic ipação organizada dos
setores da sociedade civil que defendem o livre exercício dos direitos sexuais e reprodutivos
é a única garantia contra possíveis retrocessos.

Hammel (1982) mostrou que a transição da fecundidade é um fato novo na história


da humanidade e representa uma das maiores mudanças de comportamento de massas de
todos os tempos. Esta mudança não foi fruto de uma imposição fatalista ou irracional, nem
foi fruto de forças naturais ou sobrenaturais. A limitação voluntária da fecundidade foi fruto
da decisão consciente e racional de homens e mulheres. Passados duzentos anos da polêmica
Malthus versus Condorcet, período em que houve uma clara hegemonia do malthusianismo
e do neomalthusianismo, está na hora de relembrar o autor do Esboço de um quadro histórico
dos progressos do espírito humano. Herdeiro intelectual dos enciclopedistas e iluministas do
século XVIII, Condorcet condenava a ignorância e o obscurantismo e considerava que o
progresso é a realização dos ideais da razão. Ele defendia a idéia de que “o ser humano é um
ser indefinidamente perfectível” e que a história é o campo do seu aperfeiçoamento e
progresso. A Revolução Francesa foi um momento de triunfo da liberdade contra o
despotismo. A revolução contraceptiva do século XX foi uma vitória contra o fatalismo. A
revolução sexual dos anos 60 foi a revolta contra o obscurantismo comportamental. Assim,
as conquistas tecnológicas, científicas e culturais dos últimos 200 anos dão mais razão ao
otimismo de Condorcet que ao pessimismo de Malthus. Por tudo isto, é importante resgatar
a esperança contida no Esboço de um quadro histórico... utilizando-a como matéria-prima de
uma nova Utopia.

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