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REIA- Revista de Estudos e Investigações Antropológicas, ano 3, volume 3(2):59-76, 2016

A relevância das cotas raciais como ferramenta de transformação da realidade


social da população negra brasileira

Gracielle da Costa Silva1

Resumo: Esse artigo traça um panorama geral da trajetória do Movimento Negro no


Brasil e das suas estratégias de luta contra o racismo na sociedade brasileira. Discute o
papel deste movimento nas políticas de inclusão social por parte da população negra. Ao
pensar sobre essas ações, parte-se do pressuposto que este movimento social, através de
sua luta e ações políticas, traz a tona a sua própria identidade, ao mesmo tempo em que
faz conhecer as desigualdades oriundas da exclusão social sofrida pela população negra
no país. Na luta por incluir-se no campo educacional, busca sua emancipação social. As
cotas raciais seriam de fundamental importância nesse processo de inclusão, já que
viabilizam o acesso a uma educação de nível superior, e consequentemente uma melhor
preparação para o mercado de trabalho. O conceito de raça, empregado aqui, baseia-se
na reflexão de estudos pós-coloniais, cuja centralidade tem sua origem em países
ocidentais. Discute-se como tais relações de poder vem sendo mantidas na modernidade
inclusive no campo educacional. Palavras-Chave: movimento negro; cotas raciais;
identidade; inclusão social; políticas afirmativas

Abstract: This article provides an overview of the history of the Black Movement in
Brazil and their strategies to combat racism in Brazilian society. Discusses the role of
this movement in social inclusion policies by the black population. When thinking about
these actions, we start from the assumption that this social movement, through their
struggle and political action, brings out its own identity while making know the
inequalities arising from the social exclusion experienced by the black population in the
country. In the struggle to include in the educational field, seeks their social
emancipation. Racial quotas would be of fundamental importance in this process of
inclusion, since they enable access to a higher education, and consequently a better
preparation for the labor market. The concept of race used here, is based on the
reflection of post colonial studies, whose centrality has its origin in western countries. It
discusses how such power relations have been kept in modernity even in the educational
field. Keywords: black movement; racial quotas; identity; social inclusion; affirmative
policies

O impacto causado pelos movimentos negros no Brasil serviu para denunciar o


racismo e forçar o reconhecimento de que ele é parte estruturante da sociedade
brasileira. Os movimentos coletivos que visam promover transformações na ordem
social vigente aglutinam indivíduos com ideias e pensamentos diferentes em prol de um
objetivo comum, dessa coletividade podem resultar em identidades coletivas
duradouras. Para compreender a práxis de um movimento social ou grupo étnico, faz-se
necessário compreender como esse coletivo é capaz de singularizar os pensamentos
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É graduada em Ciencias Sociais na Universidade Federal de Campina Grande. Mestranda em
Antropologia Social na Universidade Federal de Pernambuco. gracycostasilva@hotmail.com
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possibilitando a criação de novos códigos que se impõem sobre o coletivo, códigos estes
que rompem com a ordem vigente, ao mesmo tempo em que constituem outra ordem em
que as diferenças são suprimidas em prol da causa comum/maior. O movimento negro é
composto de elementos de assimilação coletiva, ao passo que consegue manter a
liberdade e a singularidade de todos os envolvidos. Deixo então de ser um ser sozinho e
individual para ser um comunitário e social.
Militar em coletividade é estabelecer inúmeras relações necessárias à
sobrevivência. A militância é mediada por signos de libertação. Assim, o que motiva a
luta afrodescendente é um processo de inclusão ao invés da exclusão, a solidariedade ao
invés do egocentrismo. A identidade dos envolvidos no processo é celebrada e é, ao
mesmo tempo, uma arma ideológica na disputa pelo poder, e uma disputa política pela
universalização dos seus direitos enquanto cidadãos. Como afirma Oliveira

“A identidade negra foi assim colorida e repintada nas cores da tradição afro-
brasileira. identidade que se firma como projeto político e como construção
cultural. Identidade que é, ao mesmo tempo, resgate e criação. Impiedade e
alteridade. A contínua construção da identidade afrodescendente é uma
necessidade da experiência da forma cultural afro-brasileira (Oliveira,
2006:136)”.
A identidade funciona então como uma representação social que denomina as
relações do homem com o meio na qual está inserido. O conjunto dessas representações
relacionadas à identidade de uma maneira geral influenciam no jogo das representações
políticas. A busca dessa identidade cultural estaria então atrelada à organização política
do movimento. Seria o reconhecimento do fato de ser negro e da aceitação da sua
história enquanto tal. Seria ter consciência de que sofre com o racismo neste país. É
assim que fica perceptível que a consciência negra é um fator determinante para o
engajamento da militância dentro do movimento. O movimento negro teria, portanto,
com uma de suas principais funções estimular o despertar dessa consciência negra.
Acredito que a identidade é capaz de assegurar a unidade de um grupo, o que
pode vir a funcionar como arma política, o que seria, a meu ver, uma das várias
reivindicações feitas pelo grupo, através dessa militância. A população negra no Brasil
levanta-se através de uma conquista política em meio a uma disputa por poder. Na busca
de se estabelecer nestes espaços, símbolos são reivindicados, ressaltados e mesmo
reproduzidos. Acredito que cada grupo se identifica com símbolos diferentes, é isso que
os leva a caminhos diferentes, mesmo que carreguem em sua essência um objetivo em
comum, que é a luta contra o racismo e a discriminação.

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Apoiando-me em Barth (1998), compreendo que a identidade dos grupos é


sempre uma construção, que passa por mudanças ao longo do tempo, o que implica
dizer que a identidade dos mesmos é construída a partir das relações sociais. Ou seja, a
cultura é um processo dinâmico que se constitui através das interações, por isso mesmo
é fundamental atentar para os processos de interação a constituição e manutenção das
fronteiras étnicas.

O papel dos movimentos sociais na luta pelas desigualdades sociais e econômicas


De acordo com Maria da Glória Gohn em Teoria dos Movimentos Sociais
(1997), os movimentos sociais são ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e
cultural que viabilizam formas distintas das quais a população se utiliza para se
organizar e expressar suas demandas. Do ponto de vista da ação, as estratégias variam
conforme a realidade na qual os atores sociais estão inseridos. Para ela, uma das
premissas básicas a respeito dos movimentos sociais é que os mesmos são fontes de
inovação e matrizes geradoras de saberes. Ela afirma que estes movimentos não são
fatos isolados, mas de caráter político-social. Por isso, devem ser analisados conforme
o contexto social e econômico no qual estão inseridos. Desta forma, os movimentos
representam forças sociais organizadas que tem a capacidade de aglutinar as pessoas
como campo de atividades e experimentação social.
Os movimentos apontam para a realidade social construindo propostas de
transformações, bem como ações coletivas que visam lutar pela inclusão social. Esses
movimentos têm construído representações simbólicas afirmativas por meio de
discursos e práticas e criam identidades para grupos outrora dispersos. Ao mesmo tempo
em que concretizam as ações, despertam em seus participantes sentimentos de
pertencimento social.
Gohn (1997) explica que, historicamente esses movimentos têm contribuído
sobremaneira para organizar e conscientizar a sociedade, já que apresentam conjuntos
de demandas através de pressões e mobilizações. Ela explica também que esses
movimentos não são só reativa, movidos apenas pelas necessidades, mas que podem
surgir e se desenvolverem pela reflexão sobre sua própria experiência. Lutam pela
sustentabilidade visando à construção de uma sociedade democrática, bem como por
novas culturas políticas de inclusão. Lutam também pelo reconhecimento da
diversidade cultural. Questões como a diferença e a multiculturalidade têm sido
incorporadas com a finalidade de construir a própria identidade dos movimentos. Há
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uma intensa busca pela justiça social e pela liberdade em forma de autonomia e da
constituição do sujeito coletivo. É desta forma que os movimentos sociais tem a
capacidade de redefinirem a esfera pública, têm grande poder de controle social e
constroem modelos de inovações sociais.
Gohn (1997) aponta que os movimentos sociais dos anos 1970/1980, no Brasil,
contribuíram decisivamente, através de demandas e pressões organizadas, para a
conquista de
umasériededireitossociaisquesetornaramleisnanovaConstituiçãoFederalde1988. A partir
de 1990, no Brasil, ocorreu o surgimento de outras formas de organização popular, mais
institucionalizadas, a exemplo dos Fóruns Nacionais de Luta pela Moradia, pela
Reforma Urbana, o Fórum Nacional de Participação Popular etc. Através da luta política
foram criados grupos de mulheres que buscavam a conscientização de seus direitos
formando frentes de lutas contra as discriminações. O movimento dos homossexuais
também foi para as ruas, organizando passeatas, atos de protestos marchas que
acontecem anualmente. Em uma sociedade machista e patriarcal isso é uma novidade
histórica.
Outro movimento que ganhou outros contornos foi o movimento negro, pois
deixou de ser apenas um movimento de manifestações culturais para ser, sobretudo,
movimento de construção de identidade e luta contra a discriminação racial. Os
movimentos sociais mobilizam seus membros de forma defensiva e ofensiva contra uma
injustiça entendida através de um sentido moral que lhes foi compartilhado. Os
movimentos sociais não somente lutam contra essas ditas injustiças, mas e ao mesmo
tempo, à medida que lutam, reafirmam a identidade das pessoas ativas no movimento.
Os movimentos sociais na atualidade têm muitas das vezes, o papel de denunciar essas
injustiças. Por isso mesmo tornam-se dependentes da opinião pública, considerando que
é necessário que a sociedade manifeste o conhecimento da ação. É preciso que se
discuta e debata o que se está reivindicando, reclamando ou denunciando, para que a
ação coletiva possa atingir reconhecimento desejado, ganhando assim a legitimidade
social. Franke Fuentes (1989) afirma que apesar de sua natureza defensiva, de suas
limitações e de suas relações com o Estado, os movimentos sociais são agentes
importantes de transformação social, pois os movimentos sociais preenchem espaços
nos quais o Estado e outras instituições sociais e culturais não são capazes ou não tem
interesse de fazê-lo. Entram em espaços onde não existem instituições, ou mesmo
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quando estas vão contra os interesses da população. Deste modo, os movimentos


sociais são inovadores no social, no cultural e em vários outros aspectos.
Ao argumentar sobre marxismo e movimentos sociais Andréia Galvão (2008)
afirma que os conflitos sociais manifestam-se de diferentes formas, em diferentes níveis
e abordam conteúdos distintos. Eles são a manifestação de contradições estruturais. É
possível pensar nas diferentes formas e objetivos de mobilização coletiva, dentre elas
estão à luta por reformas econômicas, tais como a distribuição de renda; a reforma das
instituições políticas, como mais participação, democratização; ampliação da cidadania
e preservação; ampliação de direitos sociais e mudanças das práticas e dos valores
sociais, a exemplo das novas relações de gênero, raciais, de preferência sexual, dentre
outros. Assim, os movimentos sociais são portadores de um desafio político, será então
definido por sua capacidade de modificar o sistema socioeconômico no qual surgiu.
Desta forma, segundo Galvão (2008), o motivo das lutas dos movimentos sociais não
pode mais ser definido apenas pela exploração, mas por estarem inseridos em uma
sociedade capitalista, sexista, patriarcal e racista. Podemos compreender que os
movimentos sociais não são apenas uma reação a diferentes formas de dominação e
opressão. A luta da mulher, do negro, do índio tem características específicas, mesmo
em uma sociedade capitalista.
Gonh (1997) afirma que no novo milênio inclusão social passa a fazer parte das
exigências dos movimentos sociais. As ações se traduzem em responsabilidade social,
compromisso social, empoderamento, protagonismo social, economia social, capital
social, dentre outros aspectos. Os movimentos sociais aparecem, então, como o novo
ator coletivo, portador de um projeto cultural em busca de democratização social
visando uma mudança cultural de longa duração no seio da sociedade civil. No Brasil,
uma significativa parte desses militantes tem chegado às universidades, aos cursos de
pós-graduação, ocupando posições como professores e pesquisadores nas universidades
na área de ciências humanas. Teses e dissertações vêm sendo produzidas por esses
militantes, que ao mesmo tempo são ativistas e pesquisadores. Muitas dessas teses e
dissertações foram inspiradas ou é parte das histórias que eles próprios vivenciaram.

Os movimentos negros no Brasil


Como diria Abdias do Nascimento, não existe o Brasil sem o africano, nem
existe o africano no Brasil sem o seu protagonismo de luta antiescravista e antirracista.
Amilcar Pereira (2013) cita Regina Pinto para explicar que a própria expressão
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“Movimento Negro” teria surgido em 1934, num texto publicado no jornal A Voz da
Raça, que era o órgão de divulgação da Frente Negra Brasileira. No entanto, a
expressão passou a ser utilizada de forma recorrente pelos militantes que se engajaram
na luta antirracista a partir da década de 1970. A tradição da luta antirracista, composta
por diferentes tipos de organizações políticas e culturais em vários setores da população
negra brasileira desde o final do Século XIX, foi importante para o surgimento do
movimento negro contemporâneo no Brasil, no início da década de 1970, mesmo em
plena ditadura militar. A oposição ao chamado “mito da democracia racial” e a
construção de identidades político-culturais negras foram à base para a articulação das
primeiras organizações desse movimento contemporâneo. Há aqui uma busca pela
reavaliação do papel do negro na história do Brasil.
Uma vez desperta a consciência de negritude, os ativistas redescobrem os
significados políticos das memórias da escravidão (Oliveira, 2006). Até agora vimos que
um movimento social pode ser descrito como um grupo minimamente organizado que
pode possuir ou não uma liderança, mas que possuem objetivos em comum tendo por
base uma mesma doutrina, valores e ideologia cuja finalidade principal é a mudança
social. O Movimento Negro se constrói à medida que luta para resolver questões na
sociedade em que se encontra. Problemas estes que são provenientes dos preconceitos e
das discriminações raciais que os marginalizam, quer seja no mercado de trabalho, na
educação escolar, e também no que se refere aos aspectos políticos, sociais e culturais. A
raça seria aqui um fator determinante para uma construção política e social. “É uma
categoria discursiva em torno da qual se organiza um sistema de poder socioeconômico,
de exploração e exclusão - ou seja, o racismo” (Hall apud Pereira, 2003, p. 69). O
movimento negro organizado seria um movimento social cuja atuação tem como
característica particular a questão racial. Não tem uma formação simples, mas
complexa, já que engloba um conjunto de entidades, organizações e indivíduos que
lutam, não só contra o racismo, mas a favor de melhores condições de vida para a
população negra, quer seja através de práticas culturais, estratégias políticas e mesmo
políticas educacionais.
É através de protestos, negociações e mobilizações que o movimento negro vem
dialogando com os poderes públicos e com a própria sociedade brasileira ao longo das
décadas. A trajetória desse movimento caracteriza-se pela elaboração e reelaboração de
estratégias de lutas que visam a integração do negro e desarraigamento do racismo na
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sociedade brasileira. A luta do movimento negro no combate a estas formas de


discriminação é parte da própria história e da construção da sociedade brasileira. A luta
contra o racismo e a busca pelo conhecimento em relação às histórias dos diferentes
grupos que formam a sociedade brasileira têm se tornado uma questão política
fundamental ao se pensar na construção de uma sociedade de fato democrática.

Movimento negro contemporâneo


Por mais de trezentos anos, o sistema econômico brasileiro foi sustentado pela
mão-de-obra escrava, através dos africanos que foram trazidos para o Brasil. Não se
pode negar que a mobilização dos escravos, em várias regiões do país, incitando
revoltas, fugas e formando quilombos, teve uma importante influência na adesão dos
próprios intelectuais e economistas da época à campanha pró-abolição. Após várias
pressões políticas e longas campanhas abolicionistas, em1888 a Lei Áurea fora assinada
pela Princesa Isabel, pondo fim oficial ao regime de escravidão. Um ano após a
abolição da escravatura, foi proclamada a República no Brasil, em 1889. O novo
sistema político, no entanto, não assegurou os direitos materiais e simbólicos da
população negra levando esta população à margem da sociedade no sentido cultural,
político-educacional e socioeconômico. As doutrinas pautadas no racismo científico
vigoravam na época. A fim de reverter esse quadro, os ex-escravizados e seus
descendentes criaram movimentos de mobilização racial negra no Brasil, o que resultou
na criação de dezenas de grupos por todo território brasileiro.
Esperava-se que com o fim da escravidão no Brasil, o negro agora seria
reconhecido socialmente. Mas muito pelo contrário, os mesmos passaram a ser acusados
de ser responsável pelo atraso social e econômico do Brasil. A vinda de imigrantes
europeus para o país teve muitos impactos na economia e no meio social como um todo,
tendo em vista que vendiam sua mão-de-obra, ao passo que visavam garantir a
composição étnica da população do país, a fim de “embranquecer” a população
brasileira, extinguindo assim, de uma vez por todas os negros do nosso país. Isso
evidencia como os afro-descendentes eram uma parcela indesejada da população.
Afastados do mercado de trabalho e privados da oportunidade de estudar, os negros são,
em consequência disso, colocados à margem da sociedade.
No decorrer dos anos, depois do processo de “exclusão” social, os negros
procuram, através de algumas entidades e imprensa própria, um caminho para alterar
sua imagem, e autoimagem e, além disso, lutar contra o alargamento dos lugares
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inferiorizantes a eles destinados pela estrutura social. Através da busca por ascensão e
reconhecimento, era como que se tacitamente afirmassem, “eu também construí essa
nação”. A partir dos primeiros indícios de “Movimentos Negros” que emergiram no
país, surge a reivindicação de uma identidade através dos eventos e mecanismos de
ação. Os traços físicos e culturais que antes eram rejeitados e reprimidos por não se
encaixarem nos padrões de beleza local e europeu, ganham ressignificação, passando a
ser assumidos como marcas da identidade afro. Tais elementos servem como ponto de
partida para um discurso de inserção do grupo na construção de uma identidade
nacional heterogênea. A auto-representação é fundamental na participação atuante do
afro brasileiro, já que as práticas econômicas e/ou culturais dependem das
representações utilizadas pelos indivíduos para que o seu próprio mundo ganhe sentido.
Até o início do século XX, em muitos países, predominavam teorias raciais que
afirmavam que a raça era determinada biologicamente, e que era a raça que determinava
as diferenças culturais e intelectuais, deste modo uma raça podia ser vista como superior
e a outra inferior, sendo a raça negra o principal alvo de discriminações. Como afirma
um dos fundadores do Jornal O Clarim d’Alvorada (1924), da FNB (1931) e do Clube
Negro de Cultura Social (1923), José Correia Leite: “Houve um tempo em que muita
gente dizia que a nossa luta não tinha razão de ser porque o negro ia desaparecer. Foi
uma ideia gerada por estudiosos”, (Leite, 1992, p. 21).
Em meados da década de 1950, Florestan Fernandes destaca-se como um
importante intelectual na área de ciências sociais no Brasil. Foi um dos primeiros
intelectuais a denunciar a existência das desigualdades raciais no Brasil, opondo-se a
ideia de que o país vivia em uma democracia racial, ao negar essa ideia acaba por
cunhar o termo “mito da democracia racial”. O combate à discriminação racial e a
denuncia ao mito da democracia racial buscam a afirmação de uma identidade racial
negra positivada, por isso mesmo são estas as principais características do movimento
negro contemporâneo na década de 1970. A assunção da negritude como ideologia pode
ser vista entre os negros como um modo de afirmação e legitimação que pode servir
como pondo de integração em uma sociedade que mantêm uma escala hierárquica que
está para além do social, mas que tem a ver também com a cor da pele. A denúncia do
“mito da democracia racial” como um elemento fundamental para a constituição do
movimento evoca uma valorização da cultura, política e identidade negras, provocando
assim uma revisão do papel do negro na formação da sociedade brasileira.
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O MNU - Movimento Negro Unificado traz uma nova perspectiva para a


questão racial pois, pela primeira vez, articula os temas raça e classe, trazendo assim um
nível de politização maior situando o movimento em uma perspectiva mais de esquerda.
A partir de 1980 são traçadas novas estratégias de atuação. Havia ativistas negros em
vários estados que buscavam espaços de interlocução com os poderes públicos. Os
setores mais radicais do movimento consideravam que o movimento deveria lutar contra
o racismo sem vinculação com partidos políticos e com o Estado. A criação do
Conselho de Participação e desenvolvimento da Comunidade Negra criado em 1983 é
um exemplo de uma articulação entre movimento negro e Estado. Porém articulação
entre movimento negro e Estado foi importante para que as diferentes instâncias do
movimento negro fossem contempladas. Em 1986 ocorreu a Convenção Nacional “O
negro e a constituinte”, organizada pelo MNU, considerado como um importante evento
para o movimento negro naquela época, pois foi nesse congresso que surgiram as
propostas de criminalização do racismo e da regulamentação das terras de quilombos.
Na Constituição de 1988, reconhece-se a propriedade definitiva das terras de quilombos.
Do mesmo modo, outra importante determinação da Constituição de 1988 foi a
criminalização do racismo como crime inafiançável, sujeito à pena de reclusão. Foram
importantes conquistas, por meios legislativos, conseguidas através da luta do
movimento negro.
A partir de então se entendia que a luta antirracista no Brasil deveria estar
inserida em uma articulação de gênero, classe e raça. Um importante marco ligado ao
início da luta pelas ações afirmativas no Brasil na década de 1990 foi a Marcha Zumbi
dos Palmares contra o Racismo, pela cidadania e a Vida, ocorrida em 20 de novembro
de 1995 em comemoração aos 300 anos da morte de Zumbi. Nesta marcha foi entregue
um documento ao então presidente Fernando Henrique Cardoso com proposições tais
como: desenvolvimento de ações afirmativas para o acesso dos negros a cursos
profissionalizantes à universidade e às áreas de tecnologias de ponta. Em 1996, durante
o seminário internacional “Multiculturalismo e Racismo: o papel da ação afirmativa dos
Estados democráticos contemporâneos”, o então presidente Fernando Henrique Cardoso
reconhece publicamente a existência de racismo no país. Refletiu sobre a necessidade de
se criar políticas de combate às discriminações. Em nove de janeiro de 2003 é assinada
pelo presidente Lula a lei que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-
brasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio,
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públicos e privados. A partir daí, o movimento negro passa a intervir no terreno


educacional propondo a revisão dos conteúdos considerados preconceituosos dos livros
didáticos. A capacitação de professores para que pudessem desenvolver uma pedagogia
interétnica, na reavaliação do papel do negro na história do Brasil que resultou na
inserção do ensino da história da África nos currículos escolares.

Cotas raciais e inclusão social


Em seu ensaio sobre a nova mercantilização da cultura negra , Lívio Sansone
(2000) explica que durante muito tempo a maioria dos negros não tinha acesso ao
consumo, pincipalmente os escravos. Proibições e restrições em relação ao consumo
tinham o objetivo de desumanizar e a marcar a exclusão social e econômica sofrida por
esses indivíduos. Nos dias atuais, vivemos em uma sociedade capitalista na qual o
acesso ao consumo produz status e reconhecimento social, já que os direitos e a
cidadania estão ainda relacionados com o acesso ao consumo. Sansone (2000) explica
ainda que o consumo poderia funcionar como um marcador étnico de ascensão social,
além de ser também uma forma de oposição à opressão. Esse processo nos permite
pensar quais as estratégias de que a população negra tem traçado na busca por alcançar
esse reconhecimento e como ocorre a inserção nessa sociedade capitalista, na qual o
consumo é um demarcador social.
Com o advento da modernidade, a inserção do negro no mercado de trabalho
trouxe diferentes expectativas para essa população socialmente excluída. A partir da
década de 1990, o acesso ao ensino de nível superior traz também novas perspectivas de
ascensão social para esta mesma população. A luta pelo acesso aos cursos de nível
superior em universidades públicas tornou-se palco de luta do movimento negro
contemporâneo brasileiro na busca de reconhecimento intelectual, acesso qualificado ao
mercado de trabalho, igualdade de direitos e acesso a educação. O acesso ao ensino
superior através das cotas raciais é alvo de discussão dentrodosvários movimentos
negros no país e também entre os intelectuais acadêmicos.
Em seu texto Intelectuais Negros e Produção do Conhecimento: Algumas
Reflexões Sobre a Realidade Brasileira, Nilma Lino Gomes (2009) argumenta que, a
partir da década de 1990, como resultado da pressão dos movimentos sociais de caráter
identitário e os seus sujeitos sobre o campo da produção acadêmica, tais como negros,
indígenas, mulheres, homossexuais etc. há uma mudança significativa no panorama
acadêmico. A inserção de negros e negras na academia agora se dá não mais como
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objetos de estudo, mas enquanto sujeitos que possuem e produzem conhecimento. São
indivíduos que fazem parte da história das lutas sociais em prol do direito à educação e
ao conhecimento, assim como da luta pela superação do racismo.
Pouco a pouco pesquisadores oriundos de diferentes grupos étnico-raciais,
comprometidos com esses setores sociais, passam a se inserir de maneira mais
significativa nas diferentes universidades públicas do país, gerando um tipo de produção
acadêmica voltada a dar visibilidade às essas desigualdades sociais. Esses intelectuais
visavam conscientizar o espaço da academia acerca não só das desigualdades sociais
fora dela, mas apontar as hierarquias que se reproduziam dentro do próprio âmbito da
academia. O intuito era evidenciar como o poder e a hierarquia se manifestava para
além da realidade socioeconômica, mas também para o campo da cultura, das
dimensões simbólicas, da discriminação, do preconceito, da desigualdade racial, de
gênero e de orientação sexual na vida desses sujeitos sociais. O desafio estaria no fato
de que, não havendo como hierarquizar desigualdades, todas as formas da mesma
deveriam ser superadas. Há uma alteração na produção acadêmica aqui no sentido de
que os intelectuais negros passam eles mesmos a atuar na produção do conhecimento,
ao invés do intelectual branco comprometido (ou não) com a luta anti-racista, temos
olhar crítico e analítico do próprio negro como pesquisador da temática racial.
Obviamente essa mudança traz tensões, ao passo que enriquece e problematiza as
análises que foram construídas sobre o negro e as relações raciais no Brasil. Temos aqui
também novos elementos de análise, bem como novas disputas nos espaços de poder
acadêmico. À medida que produzem conhecimento, se inserem politicamente na luta
contra o racismo, desafiando o Estado a implementarem políticas afirmativas.
É preciso destacar aqui a importância da mudança nesse quadro, tendo em vista
que foi no contexto cientifico do final do século XIX e início do século XX que os ditos
‘homens de ciência’ ajudaram a produzir as pseudo-teorias raciais que, naquele
momento, atestavam a existência de uma suposta inferioridade e superioridade racial. A
ciência serviu, naquele momento, como um instrumento de dominação, discriminação e
racismo e a universidade foi o principal espaço de divulgação dessas idéias e práticas,
ideias que transpuseram os muros da academia e se disseminaram na sociedade com um
todo. Ao longo dos anos essas teorias foram postas por terra, mas as suas consequências
se estendem até os dias atuais.

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Os estudos sobre as teorias raciais, na atualidade, são mais que meros temas de
pesquisa, mas se apresenta também como uma questão social e política que requer, por
parte da universidade, a produção de novos conhecimentos e por parte do Estado novas
formas de intervenção na luta contra o racismo. Essa produção tem como objetivo a
emancipação social e a contestação de análises científicas pautadas no mito da
democracia racial. É uma tentativa de romper com estruturas de opressão, construindo
assim novas categorias analíticas. Ainda assim é preciso compreender que se inserir
nesse o universo acadêmico é se deparar com formas de conhecimento hegemônicas e
não hegemônicas, legitimadas e não legitimadas, que têm a ver com poder, classe, raça,
gênero e racismo, já que o espaço acadêmico é marcado por relações de poder, e é
também um espaço de expressão da branquitude. Segundo o argumento de Nilma Lino
Gomes (2009), a academia pode ser definida como um espaço privilegiado de produção
do saber científico sob a égide da racionalidade ocidental moderna. Um grande desafio
para os intelectuais negros éque, além de pesquisar e realizar as ações concernentes de
quem atua no campo científico, tem que continuar tensionando a própria universidade e
ocupando espaços políticos na tentativa de conseguir algum nível de flexibilização.

A implícita relação entre racismo e capitalismo


Em tempos atuais o Capitalismo se baseia na competição social em busca de
privilégios, status, poder e ascensão social, o que acaba por reforçar e perpetuar as
diferenças sociais. É nesse sentido que o racismo ganha força no capitalismo. Talvez por
isso o racismo esteja ainda tão presente em nossa sociedade, mesmo após séculos de ter-
se findado o regime escravista no Brasil. Esse quadro tem suscitado diversas discussões
acerca da necessidade de mudança dessa realidade excludente, essas discussões ocorrem
principalmente no interior do movimento negro e se expande para a academia e, por
conseguinte, às instituições políticas. Uma das propostas mais discutidas por essas
instituições é a que visa o estabelecimento de políticas públicas de inclusão dos negros
nas várias instituições públicas e privadas, através da reserva do mecanismo de cotas
para essas populações, que sofrem com um processo histórico excludente, que os põe à
margem da sociedade.
Infelizmente ainda existe uma grande distância entre negros e brancos no que
tange à sua participação em diversos setores, tais como os setores trabalhista e
educacional. O acesso à alimentação, saúde, educação, moradia, segurança e lazer
também são bem limitados, de uma forma geral. O desconhecimento acerca dos motivos
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que explicam esses fatores contribui enormemente para a reprodução e conservação do


preconceito racial. As oportunidades de trabalho e estudos, e consequentemente, de
ascensão social não são as mesmas para negros e brancos. Estamos em uma sociedade
sócio e racialmente desigual, cujo padrão cultural hegemônico é pautado em valores que
são determinados por uma cultura branco-européia e tudo o que se afasta desse padrão é
vistos como inferior. Como já vimos, a abolição da escravidão no Brasil não gerou
políticas públicas de inclusão do negro nessa sociedade de mercado, ocasionando a total
marginalização da população negra. É na tentativa de minimamente sanar esses danos
que se levanta a discussão sobre as cotas para a população negra nas universidades
públicas. Essa proposta tem sido palco de discussão entre intelectuais de instituições de
ensino superior, que buscam compreender a realidade da população negra enquanto
classe social inserida dentro desse sistema capitalista. Para esses intelectuais, as pessoas,
de um modo geral, se identificam através de identidades particulares como é o caso dos
negros, das mulheres, dos gays, lésbicas, que não são definidas dentro de uma lógica
exclusivamente econômica.
Com base na crença que o sistema capitalista não é passível de ser superado,
entende-se que o máximo que se pode fazer é providenciar reformas estatais que
ocorram de forma gradativa, é aqui que entram as politicas de cotas. As cotas entram
como parte de um conjunto de ações afirmativas, cuja finalidade é promover, através
das novas oportunidades educacionais uma melhor inserção no mercado de trabalho,
tendo em vista que essas pessoas têm sido vítimas de desigualdades provenientes de um
processo histórico de exclusão de oportunidades. Com base nisso, o Brasil adotou o
sistema de cotas para os negros nas universidades públicas. A adoção de cotas raciais
nas universidades públicas seria então uma forma de tentar reverter esse quadro de
exclusão social em que se encontra a maior parcela da população negra brasileira,
criando assim condições que viabilizem o acesso à universidade, e como resultado
disso, a inclusão dos negros no mercado de trabalho, no mercado de consumo e
inclusive uma participação igualitária na cidadania.
Os defensores dessas políticas de ações afirmativas argumentam que as cotas
viabilizam uma verdadeira democracia no país, já que proporcionaria uma maior
participação social dessa população que se encontra à margem da sociedade. O
problema aqui está na simplificação do problema, já que toda a questão social estaria
reduzida à inclusão dessa parcela da população a um modelo de sociedade capitalista,
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excludente e binário. Esse sistema de políticas afirmativas não questiona de forma


profunda esse modo capitalista de sociedade, suprimindo assim os reais mecanismos e
relações de poder que reproduzem o racismo no mundo capitalista contemporâneo.
Ocultar esses mecanismos inviabiliza a luta contra as reais condições geradoras das
desigualdades raciais, a saber, o capitalismo.

A opção descolonial
Para Ramón Grosfoguel (2007), o racismo epistêmico, é um dos tipos de
racismos mais invisibilizados nesse sistema capitalista e eurocêntrico. O racismo
epistemológico privilegia políticas identitárias dos brancos ocidentais, deste modo, a
tradição de pensamento e pensadores dos homens ocidentais é considerada como a única
legítima para a produção de conhecimentos e como a única com capacidade de acesso à
universidade e à “verdade”. O racismo epistêmico considera os conhecimentos não-
ocidentais como inferiores aos conhecimentos ocidentais. Ele afirma que seria muito
diferente se os programas de estudos étnicos se abrissem à transmodernidade, ou seja, à
diversidade epistêmica do mundo, propondo-se pensar a partir “do outro” cuja
identidade foi subalternizada e inferiorizada pela modernidade eurocentrada,
possibilitando assim definir suas perguntas, seus problemas e seus dilemas intelectuais
com os próprios grupos discriminados. Haveria então uma metodologia descolonial,
bem diferente da metodologia das ciências sociais e das humanidades que vigoram na
atualidade. Os estudos étnicos “descoloniais transmodernos” em muito contribuiriam
para ao saber acadêmico, bem como com a descolonização dos grupos oprimidos e
explorados pelo racismo.
De acordo com Mignolo (2008), a opção descolonial é epistêmica, ou seja, ela se
desvincula dos fundamentos genuínos dos conceitos ocidentais e da acumulação de
conhecimento. Porém, isso não implica no abandono ou ignorância do que já foi
institucionalizado por todo o planeta. Ele explica que sua pretensão é substituir a geo
política de Estado de conhecimento de seu fundamento na história imperial do Ocidente
dos últimos cinco séculos, pela geo-política e a política de Estado de pessoas, línguas,
religiões, conceitos políticos e econômicos, subjetividades, etc., que foram racializadas
ou que tiveram sua humanidade negada.

As opções descoloniais e o pensamento descolonial têm então uma


genealogia de pensamento que não é fundamentada no grego e no latim, mas
noquechua e no aymara, nos nahuatls e tojolabal, nas línguas dos povos
africanos escraviza-dos que foram agrupadas na língua imperial da região

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(cfr. espanhol, português, francês, inglês, holandês), e que reemergiram no


pensamento e no fazer descolonial verdadeiro: Candomblés, Santería, Vudú,
Rastafarianismo, Capoeira, etc. Após o fim do século XVIII, as opções
descoloniais se estenderam para vários locais na Ásia (do Sul, do Leste e
Central) até a Inglaterra e a França, principalmente, e assumiram a liderança
da Espanha e de Portugal dos séculos XVI ao XVIII. (Mignolo, 2008, p.
292).
A matriz racial de poder considera como subdesenvolvido todas as religiões ou
matrizes de conhecimento que não seja ocidentalizada. As opções descoloniais mostram
que o caminho para o futuro não pode ser construído das ruínas e memórias da
civilização ocidental e de seus aliados internos.

Uma civilização que comemora e preza a vida ao invés de tornar certas vidas
dispensáveis para acumular riqueza e acumular morte, dificilmente pode ser
construída a partir das ruínas da civilização ocidental, mesmo com a opção
descolonial concede à concepção da reprodução da vida que vem de damnés,
na terminologia de Frantz Fanon, ou seja, da perspectiva da maioria das
pessoas do planeta cujas vidas foram declaradas dispensáveis, cuja dignidade
foi humilhada, cujos corpos foram usados como força de trabalho:
reprodução de vida aqui é um conceito que emerge dos afros escravizados e
dos indígenas na formação de uma economia capitalista, e que se estende à
reprodução da morte através da expansão imperial do ocidente e do
crescimento da economia capitalista. (Mignolo, 2008, p. 292).
Uma economia cujo objetivo é a reprodução da vida e o bem- estar de muitos.
Umapolítica de representação na qual o poder está na comunidade e não no Estado nem
em qualquer outra instituição administrativa de igual poder. O pensamento descolonial
seria então o meio para a pluriversalidade enquanto projeto universal. De acordo com
Mignolo, Descolonial implica pensar a partir das línguas e das categorias de
pensamento não incluídas nos fundamentos dos pensamentos ocidentais. Aqui, as
políticas de identidade consideram que as identidades essenciais entre as comunidades
marginalizadas (por razões raciais, de gênero e sexuais) são as que merecem
reconhecimento. Identidade em política, ao contrário, desliga-se das instituições e
partidos políticos, diferentemente de como funcionado pela lógica da teoria política
moderna/colonial e eurocentrada.
Descolonização, ou melhor, descolonialidade, significa desvelar a lógica da
colonialidade e da reprodução da matriz colonial do poder, como no caso do
capitalismo, bem como desconectar-se dos efeitos totalitários das subjetividades e
categorias de pensamento ocidentais. No modelo descolonial muitos mundos podem co-
existir, sem serem dominados em nome de uma simplicidade e de uma reprodução de
oposições binárias. No sistema comunitário, o poder não está localizado no Estado ou
no proprietário individual, mas sim na própria comunidade. Como aponta Mignolo, a

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opção descolonial requer ser epistemicamente desobediente. O sistema capitalista


baseia-se na competição e na meritocracia, os indivíduos buscam constantemente status,
poder e ascensão social. E é nesse sentido que o racismo ganha forças no capitalismo.
As ações afirmativas tentam construir uma sociedade igualitária através de concessões
realizadas pelo Estado, mantendo assim o domínio sobre as politicas direcionadas a
essas populações e reproduzindo o modelo capitalista no qual uma classe tem domínio
sobre a outra. O que não implica dizer que os objetivos dos movimentos sociais não
sejam de emancipação e que esses mesmos objetivos não alcancem resultados positivos,
mas tais objetivos deveriam estar muito mais voltados a um projeto socialista de
combate ao capitalismo - já que este é o principal responsável pelo surgimento e
manutenção do racismo - e não numa ótica de submissão, impossibilitando a superação
do mesmo.

Considerações Finais
Não podemos negar o quanto a política de cotas tem sido necessária dentro do
nosso processo histórico. Não há como reivindicar equidade com a população negra que
não esteja incluída no ensino superior e nos demais setores públicos, ou em qualquer
outra esfera da nossa sociedade. Mas é preciso ir além, questionar que tipo de
universidade nós estamos construindo. Se esse modelo educacional que aí está posto
realmente minimiza as desigualdades as quais estamos debatendo. A universidade
pública é constituída dentro desse sistema eurocêntrico e elitista, o focando estaria então
na ascensão do indivíduo e não na transformação da sociedade e ou desses grupos
sociais como um todo. Por trás de tudo isso existe um projeto político governamental,
que visa diminuir gastos. Criam-se cotas quando na verdade deveria se investir numa
educação pública de qualidade, ou até mesmo aumentar os números de vagas nas
universidades públicas.
O sistema de cotas não é suficiente para que a população negra consiga alcançar
uma verdadeira “igualdade de oportunidades”, já que tais medidas visam apenas se
inserir na lógica mercadológica e de consumo desse sistema capitalista, sem questionar
a forma pelas quais todos os trabalhadores são explorados por esse sistema.
Imagino que a emancipação da população negra só ocorrerá efetivamente
quando os seus interesses pelo fim da desigualdade racial gerada e perpetuada pelo
racismo, forem aliadas a outros interesses mais abrangentes como a luta contra a
opressão de uma classe sobre a outra, algo tão presente nesse sistema capitalista. O
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racismo surgiu no seio capitalismo, portanto é preciso superar o capitalismo para que
seja possível erradicar o racismo. O capitalismo sobrevive facilmente às lutas
fragmentadas e isoladas, como ocorre nos novos movimentos sociais, tendo em vista
que esses movimentos não lutam pela superação do capitalismo. O que nos permite
compreender que, de certo modo, estes movimentos renderam-se ao capitalismo, já que
se acredita que o mesmo não pode ser superado. Tais movimentos não enxergam muitas
formas de reparar esses danos, a não ser de forma gradativa, como no caso da adoção do
sistema de cotas. A política de cotas não possui nenhuma articulação com um projeto de
transformação social, já que esta medida acaba por reproduzir um modelo de sociedade
capitalista, racista, machista, eurocentrado. Tais medidas acabam por maquiar a
realidade gerando uma imagem benéfica do Estado enquanto instituição neutra, que não
visa o interesse de uma única classe social, já que representa e protege os setores mais
prejudicados da população. Assim se se faz acreditar que o Estado não é um
representante da burguesia, do capitalismo e de toda forma de exploração dos
trabalhadores.

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