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AO LADO DA CRÍTICA

Presidente da República
LUIZ I NÁCIO L ULA DA S ILVA

Ministro da Cultura
JUCA FERREIRA

Fundação Nacional de Artes – Funarte


SÉRGIO MAMBERTI
Presidente

Diretoria Executiva
MYRIAM LEWIN
Diretora

Centro de Programas Integrados


TADEU DI PIETRO
Diretor

Gerência de Edições
MARISTELA RANGEL
Gerente

Centro de Artes Cênicas


MARCELO BONES
Diretor

Coordenação de Dança
LEONEL BRUM
Coordenador

Coordenação Geral de
Planejamento e Administração
ANAGILSA NÓBREGA
Coordenadora Geral
Roberto Pereira
Organização

AO LADO DA CRÍTICA
A história recente da dança
carioca através da
crítica jornalística – 1999-2009

VOLUME 1
1999-2004

Rio de Janeiro – 2009


Ao lado da crítica
10 anos de crítica de dança – 1999-2009
Volume 1

© 2009 Roberto Pereira

Todos os direitos reservados


Fundação Nacional de Artes – Funarte
Rua da Imprensa, 16 – Centro – 20030-120 – Rio de Janeiro – RJ
Tels.: (21) 2279-8053 – (21) 2262-8070
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Produção editorial e projeto gráfico


JOSÉ CARLOS MARTINS

Produção gráfica
JOÃO CARLOS GUIMARÃES

Assistentes editoriais
SIMONE MUNIZ
SUELEN BARBOZA TEIXEIRA

Revisão
ANALUIZA MAGALHÃES

Capa
PAULA NOGUEIRA
(recortes do Jornal do Brasil)

Arte-final digital
CARLOS ALBERTO RIOS

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Funarte / Coordenação de Documentação e Informação
Ao lado da crítica : 10 anos de crítica de dança : 1999-
2009 / Organização de Roberto Pereira. – Rio de Janeiro, Funarte,
2009.
2 v.
216 p.; 26cm

ISBN 978-85-7507-123-6
978-85-7507-125-0

1. Dança – Brasil – História e crítica. I. Pereira Roberto.

CDD 792.80981
Agradeço a todos que me
ajudaram nesse percurso da crítica.
Nayse López, por ter me convidado
a escrever a primeira crítica.
A todos os editores e colegas
do Jornal do Brasil com quem
tive o prazer de trabalhar nesses
dez anos. Silvia Soter, colega
de ofício, amiga querida.
Sonja Gradel, por tudo, disso tudo.
...e que o mesmo signo que eu
tento ler e ser é apenas um possível
ou impossível em mim em mim
em mil em mil em mil...

C AETANO VELOSO
Sumário

Apresentação / 13 20
20000
JUCA FERREIRA A hora de sair do corpo / 41
Ministro da Cultura
Encontro de épocas ilustrado pelo
Ao lado da crítica / 15 contraste entre força e romantismo / 42
SÉRGIO MAMBERTI
Presidente da Funarte Acertos e ruídos em
dois diálogos com o teatro / 43
O ofício da crítica em dose dupla / 117
7
(para nossa sorte e deleite) A afinação de várias influências / 44
AIRTON TOMAZZONI
Crescimento evidente / 45
Introdução / 19
ROBERTO PEREIRA Ator descobre a geometria do espaço / 46

Emoção do flamenco
1999 em atmosfera clean / 47
O palco como lugar de
ação vigorosa e incessante / 27 Genialidades
coreográficas a serviço do amor / 48
Domínio raro do
tempo e do espaço em cena / 28 Recursos evidenciam
fragilidade da dança / 49
Duelo entre música, palavra falada
e dança na apresentação da Quasar / 29 Danças que coabitam
mas não se misturam / 51
Novos significados
para o corpo e para a dança / 31 Dança feita de ideias,
corpos e indignação / 52
Palco de discussão da dança de hoje / 32
Trilha de Arnaldo Antunes inaugura
Criadores aprofundam novos caminhos físicos e urbanos / 53
pesquisas em cena / 34
A experiência da
O mito de Antígona dança como vertigem / 54
olhado pela metade / 36
Plischke sacode
Um bom presente de Natal / 37 a percepção do espectador / 55
Distintas artes e culturas O encontro do gesto e
ganham novo território / 56 do movimento no palco / 91

Panorama se firma como Passos, música e interatividade


palco do debate sobre dança / 57 embalam celebração coreográfica / 93

Novos balés de Béjart provocam Rostropovich rouba


saudades das criações dos anos 70 / 59 a cena e faz a sua festa / 95

Ana Botafogo domina


20
20001 a cena no Municipal / 97
Uma dança em busca
da emoção imediata / 63 Corpo de baile
brilha pela musicalidade / 98
Tecnologia feita de erros e acertos / 64
Corpo de baile rouba a cena / 10
1000
Ana Botafogo é destaque num raro
equilíbrio de técnica e interpretação / 66 Ilustração de ritmos / 102

Entre o formalismo e a renovação / 67 Monólogo de movimentos / 104

Graham dá brilho à noite americana / 69 Dança que opera no universo pop / 106

Kirov aposta na renovação em Um balé marcado pelo


romper com a tradição do balé / 70 excesso de elementos / 108

Um kirov renovado / 72 Cinderela para virar cult / 110

Virtuosismo e sofisticação numa Sempre um passo adiante / 111


experiência espetacular do balé / 774
4
Sensualidade debochada
Quando a dignidade dança / 75 que serve para iluminar
o passado do Corpo / 113
Em boa forma / 76
Ações pedagógicas que somam, sem
Construção coreográfica é se sobrepor à qualidade do produto / 115
ponto frágil na encenação / 78
Panorama fez a festa
Festival confirma da nova plateia carioca / 117
17
vocação de fazer pensar / 79
Movimentação a passos largos / 120
O balé que antecipa o Natal / 82
20 03
2003
Dramas cotidianos em Parcerias inéditas rendem noite
movimentos coreográficos / 83 de experiências no palco do SESC / 125

A simplicidade engole a medusa / 127


20 02
2002
Uma companhia sem a cara do Rio / 87 Talentos em versão mal construída / 129

Um projeto ainda frágil / 89 Movimentos plurais / 131


O olhar contemporâneo Uma ponte entre o Rio e Sttutgart / 1173
73
de um coreógrafo genial / 134
O espaço que (nos) estimula / 1175
75
Béjart imprime didatismo
religioso à coreografia / 136 Dançando por esporte / 1177
77

Sobre o espetáculo Madre Teresa Depois de 50 anos, ainda novas


e as crianças do mundo / 138 78
maneiras de ver e criar dança / 1178

Tradição e história / 139 Passos simultâneos à vida / 1180


80

O padrão de qualidade de sempre, Lembranças pensadas no presente


mas carente de novas referências / 140 que orientam projetos futuros / 181

Diálogo entre arte e ciências / 142 Lição de Antonio Gades / 1183


83

Em busca do movimento do corpo / 143 Paixão pelo movimento / 1184


84

Experiências de Carlota Portella / 1144


44 Competência que rende
espetáculo de beleza hipnotizante / 186
Sucessão de passos / 146
Com prazer e sedução / 188
Quadros que se perdem em leituras
ufanistas, ingênuas e superficiais / 1148
48 Um balé de paixão / 190

O surpreendente salto da DeAnima / 150 A Tropicália, segundo


sete criadores / 191
DeAnima dança William Forsythe
utilizando coragem e competência / 152 Mais liberdade para o som dos pés / 193

Ana Botafogo é diva / 154 O Brasil em Lyon / 1194


94

Balé do Municipal encerra Shakespeare condensado / 197


temporada em grande estilo / 156
É tropicalismo, mas sem
Os corpos são o lugar da dança / 158 irreverência ou transgressão / 199

Balança e dança / 159 Desafio ainda é


politizar o corpo que dança / 20
2011

20 04
2004 Passos tecidos com sabedoria / 203
Dança e reflexão no
palco do Espaço SESC / 165 Gestos de beleza e
suavidade em Márcia Milhazes / 205
Permanências mutantes / 1167
67
Qualidade técnica à prova / 207
Palco para a reflexão / 1169
69
Driblando obstáculos / 209
Saltos com riscos / 1171
71
Bibliografia / 213
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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Apresentação

JUCA FERREIRA
Ministro da Cultura

D urante o processo de criação artística, o momento de reflexão e


pesquisa se faz indispensável para o desenvolvimento da obra. A
partir da produção teórica e crítica, a prática é repensada, aperfeiçoa-
da e adequada a novos contextos. Ao editar o livro A o lado da crítica:
10 anos de crítica de dança – 1999-20 09, o Ministério da Cultura e a
Funarte apresentam a artistas, curadores, produtores, pesquisadores e crí-
ticos um poderoso instrumento de trabalho e oferecem ao espectador de
dança a oportunidade de ampliar seu conhecimento sobre o tema.
O livro reúne críticas, publicadas originalmente em jornais de grande
circulação. Juntas, elas revelam um panorama das ideias, práticas e ex-
periências que marcaram a dança brasileira nos últimos dez anos. Os
autores analisam em detalhes espetáculos que exploram linguagens di-
versas do corpo em movimento. Dessa forma, é possível acompanhar as
trajetórias de renomadas companhias, coreógrafos e bailarinos, nacio-
nais e internacionais, em busca de inovações técnicas e estéticas que
dessem fôlego às suas obras e às suas marcas autorais.
Além disso, são traçados os percursos de alguns dos principais festi-
vais brasileiros, que se destacaram por servir de palco a grandes nomes
da dança, a novos talentos e coreógrafos de vanguarda, por terem se
tornado espaços privilegiados de debate de idéias e por ajudarem a for-
mar novas plateias para a dança no Brasil. Esta coletânea traz ainda
textos teóricos que ajudam a inserir o trabalho do crítico no contexto
maior da história da dança.
Com esta publicação, o Ministério da Cultura e a Funarte reafirmam
os compromissos de preservar a memória das artes e promover a refle-
xão sobre as manifestações da cultura brasileira, investindo assim na
formação de consciências críticas e no desenvolvimento do país.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Ao lado da crítica

SÉRGIO MAMBERTI
Presidente da Funarte

A o lado da crítica oferece ao leitor registros minuciosos dos principais


espetáculos de dança apresentados nos palcos cariocas nos últimos
dez anos. A obra, que vem preencher uma lacuna da produção intelectual
brasileira, tão carente de títulos que promovam uma reflexão sobre a dança
no país, servirá como ferramenta de pesquisa e referência histórica para
todos aqueles que desejem ampliar seu conhecimento sobre o tema.
A edição deste livro faz parte de um conjunto extenso de ações da
Fundação Nacional de Artes – Funarte voltadas para o incentivo à dan-
ça. Desde 2005, quando o Ministério da Cultura criou o Colegiado Seto-
rial de Dança – espaço de debate entre Estado e sociedade civil –, a área
recebeu impulso inédito. Para atender a reivindicações da categoria,
foram desenvolvidos programas específicos de estímulo à produção, cir-
culação, formação, pesquisa e preservação da memória, contemplando
sempre a diversidade criativa dessa linguagem.
Diretores, bailarinos, coreógrafos, produtores, técnicos e outros pro-
fissionais ligados à cadeia produtiva da dança encontram, por meio das
políticas da Funarte, formas de se capacitar, viabilizar projetos, levar seus
espetáculos a outros estados e realizar pesquisas.
Com a publicação de livros como A o lado da crítica, que estimulam o
pensamento sobre a cultura brasileira, a Funarte beneficia artistas, es-
tudiosos e espectadores, a um só tempo. Além disso, ratifica a importân-
cia de sua atuação como órgão fomentador das artes no país.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O ofício da crítica em dose dupla
(para nossa sorte e deleite)

A IRTON T OMAZZONI
Coreógrafo, jornalista e diretor do
Centro Municipal de Dança de Porto Alegre

A palavra crítica vem do grego krimein, que significa “quebrar”, sentido que
também influenciou a formação da palavra “crise.” E, provavelmente, es-
tabelecer uma crise seja o papel decisivo de um crítico. Uma crise pode gerar,
por sua vez, vários estados: percepção, transformação, e até mesmo choque e
reação. Por isso, uma crise, mesmo que em primeira instância possa parecer
algo negativo, tem um papel determinante e fundamental, ainda mais quando
se fala em arte, ainda mais quando se fala em dança, num País de pouca memó-
ria e tão carente de informação qualificada sobre esta arte.
Por isso, é tão importante e significativa a publicação desta obra, reunindo
dez anos de produção sistemática dos críticos de dança Roberto Pereira (Jornal
do Brasil) e Silvia Soter (O Globo). Seus textos foram decisivos tanto para fazer
um retrato da dança na cidade do Rio de Janeiro, no período de 1999 a 2009,
quanto para um refinado exercício de reconhecimento e provocação do que e
como se produzia, do que se assistia, do que se fazia e se deixava de fazer nos
palcos e nos bastidores, na arte e na política do Brasil. Sim, porque o espaço
aberto por estes dois críticos não foi apenas para dar opinião a respeito de es-
petáculos e eventos. Ambos estiveram sempre atentos e dispostos a alertar, co-
brar, revelar ações e omissões que reverberavam diretamente na dança.
Talvez, por esses motivos, eu fale com certa inveja. Com a inveja de quem atua
em um cenário cultural (de Porto Alegre) que não possui, como outros tantos es-
tados desse País, um crítico atuando sistematicamente e com o mínimo conheci-
mento e vocação para tal ofício. Talvez por isso eu perceba com maior ênfase a
falta que faz o acesso a textos de uma escrita clara e precisa, que analisem a produ-
ção de dança, textos com posições devidamente argumentadas, textos que, quando
necessário, se permitem vibrar, amar, odiar, pois são textos de quem vive a dança,
conhece a dança e torce pela dança. Esses atributos fazem a diferença em um
cenário que, muitas vezes, é o de pseudocríticas de dança redigidas por alguém
sem o mínimo conhecimento da história da dança (sim, não apenas temos uma como
várias), de suas referências, de sua realidade local e global e que acha que emitir
impressões com uma escrita “bacaninha” dá conta do recado.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
As críticas de Silvia e Roberto são a constatação da diferença que uma
postura consistente faz e traz. Para tal, não precisamos concordar sempre com
suas opiniões, que não estão ali em busca de uma unanimidade, mas sim de
uma pequena (pois breve) e necessária porção de alteridade. Alteridade no
sentido de também compreender o mundo a partir do olhar outro, sensibiliza-
do pela experiência do contato com a(s) obra(s). E aqui não falo apenas dos
criadores, “alvo” das críticas, mas de todos os leitores que fazem do exercício
da crítica jornalística uma possibilidade de troca de experiência em dança, e
não só o público carioca. Quantas vezes me interessei por coreógrafos sobre
os quais li nos textos de Roberto e Silvia, quantas vezes descobri que os des-
conhecia, quantas vezes levei seus textos para sala de aula, quantas vezes
acolhi apontamentos que serviam como uma luva para o meu trabalho, quan-
tas vezes discordei e estabeleci argumentos para “no dia em que eu falar com
eles”. Enfim, que coisa mais saudável esta que uma boa crítica produz.
Também por isso a importância desta publicação. Por valorizar um ofício cada
vez mais raro. Pela oportunidade de ler esses textos tão fugidios no jornal que
no outro dia pode estar enrolando peixe. Pela chance de lê-los em conjunto. De
poder relê-los. De poder lê-los complementarmente a partir de duas perspecti-
vas tão singulares e capacitadas. Essa coletânea de críticas é um legado, num
cenário ainda árido da produção bibliográfica sobre dança no Brasil e pratica-
mente nulo no que se refere à crítica fora dos jornais e sites. Mas, independente
de tudo isso, o leitor poderá se deleitar com um generoso exercício de análise e
com o olhar apurado de Roberto e Silvia.
Esta obra também pode ser uma forma de talvez começar a perceber a im-
prensa como um dos vértices fundamentais para que uma produção consistente
de dança se firme. Esta publicação, enfim, é um retrato de dois profundos co-
nhecedores, de dois sensíveis cronistas do seu tempo, donos de um texto perspi-
caz e inteligente, de dois apaixonados que fizeram, nesse período, um bocado
daquilo que precisa ser feito, mas poucos se arvoram, pois o ofício da crítica não
é só feito de louros e exige coragem e rigor. Coragem e rigor que sempre pri-
maram tanto Roberto, que nos deixou tão prematuramente e que tanta falta já
faz, quanto Silvia, que espero que prossiga compartilhando com a gente por mais
um bom tempo seus textos.
E que bom que o Roberto teve a ideia desta publicação, bem como a paciên-
cia de organizar seu material e o da Silvia, além de digitar todas as críticas.
Se ele não tivesse pensado e trabalhado por isso, estas continuariam nos arqui-
vos pessoais e não à nossa disposição. E crédito especial à Sonja Gradel, incan-
sável até descobrir uma forma de não ver engavetado todo o trabalho já feito
pelo Roberto.
Parabéns à Funarte, por assumir essa iniciativa e torná-la possível, com sen-
sibilidade e agilidade. Tenho a certeza de que a dança brasileira agradece.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Introdução

R OBERTO PEREIRA

D ez anos de crítica de dança na cidade do Rio de Janeiro. Oferecer ao pú-


blico a possibilidade de ter reunidas todas as críticas escritas por mim nesse
período, publicadas ou não, é também traçar um diagrama histórico possível,
cujos personagens compartilham com o narrador o mesmo espaço e o mesmo
tempo. Compartilham a contemporaneidade. Tal fato concede, sem dúvida, um
tom peculiar à leitura dos textos que seguem. E corrobora a ideia de que esse
diagrama não está pronto, e nunca estará, felizmente. Aqui, ele aparece recor-
tado, assumindo, de imediato, todas as falibilidades desse recorte.
Reunir críticas jornalísticas em um mesmo volume, em formato de livro, não é
uma novidade. Mesmo em dança, trata-se de uma prática que vem sendo disse-
minada sobretudo a partir do século passado. A importantíssima produção do
século XIX, por exemplo, que encontra no nome do poeta Théophile Gautier uma
de suas maiores expressões, ganhou versão em livro, inclusive em outros idiomas
que não apenas o original francês. Sua organização vem facilitando e muito o acesso
de pesquisadores ao ainda tão presente balé romântico, numa leitura que garan-
te, através dos arroubos poéticos de Gautier, uma reconstrução possível de ima-
gens do que foi aquele período tão caro à dança cênica ocidental.
Se no caso do poeta mais de 150 anos separam suas primeiras críticas jor-
nalísticas de sua organização e posterior publicação, neste livro que ora se
apresenta ao público, esse hiato simplesmente não existe. Tingindo a história
recente da dança carioca com a tinta própria de um olhar crítico que se disse-
mina através de um dos mais importantes jornais da cidade, aqui se promove
um diagrama.
Um diagrama que, ao mesmo tempo, resulta numa leitura plenamente si-
multânea dessa história, mesmo tendo sido organizado com base em um per-
curso absolutamente cronológico, critério assumidamente sintagmático que

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
tenta conceder a essa mesma leitura quase um caráter narrativo. E disso, cer-
tamente, um sabor especial advém.
Esse sabor, que muitas vezes deve ter causado dissabores também aos per-
sonagens que habitam essas páginas, está latente em cada uma de suas linhas,
em cada parágrafo. Apenas não se deve esquecer de que, ao retirar essas críti-
cas do seu hábitat original e reagrupá-las em outro lugar, estamos falando mesmo
quase que de uma aventura romântica de preservação. Jornalismo cultural, que
carrega consigo a noção de cotidiano, do aqui e agora, ganha feições de uma
extensão no tempo e no espaço que não fazem parte de sua especificidade.
Implicados aí estão ganhos e perdas. O leitor não deve perder isso de vista, jamais.

***
A crítica de dança que se apresenta aqui é o exercício diário que permitiu mi-
nha formação profissional na área. Na verdade, trata-se de um exercício com-
partilhado principalmente com minha colega, e antes de tudo, amiga, Silvia So-
ter. Escrevemos há dez anos para os dois principais jornais da cidade do Rio de
Janeiro, ela para O Globo e eu para o Jornal do Brasil.
No início, o desafio era novo para ela e para mim: o de se fazer entender por
um público anônimo, de cuja amplitude não tínhamos qualquer dimensão. O al-
cance de cada palavra escrita por nós era algo pouco traçável, nos dois senti-
dos: tanto em direção ao artista criticado, quanto em direção ao público.
Nessa tarefa, a aprendizagem do código se tornou quase um enigma a ser
decifrado dia a dia, texto a texto. O “como se fazer entender por esse público
amplo” teria de vir aliado a outras tantas determinações, muitas vezes alheias
à nossa vontade, ou ao que ainda ingenuamente chamávamos de “estilo”. Dei-
xar claro de que espetáculo está se falando, quem é o artista, onde e até quan-
do ele se apresenta fazia pesar a prática do lead jornalístico quase como uma
bomba num texto que se queria algumas vezes puramente poético. Negocia-
ções começaram a ser feitas. Aqui e ali.
Ou mesmo o tamanho destinado para cada texto determinava a eficácia de
seu conteúdo. Dimensionar isso, exatamente, talvez tenha sido a aprendizagem
mais demorada para mim. Se o espaço é pequeno, cada palavra começava a valer
imediatamente mais. Quase ouro puro. E nada, nada mesmo a tornava substi-
tuível por qualquer outra palavra. A saída era ir sempre testando. Até hoje se
testa. E não há um resultado, um diagnóstico. Há a prática de quem realiza um
ofício cuja formação é um amontoado de aptidões: a facilidade em escrever, o
olhar aguçado, o incessante pesquisar sobre dança, e mais tantos etcs. pertinen-
tes que possam porventura caber aqui.
Outra informação que poucos leitores, e artistas, sabem: não somos nós que
escolhemos os títulos e as legendas que acompanham nossos textos. E também
não escolhemos as fotos que os ilustram. Algumas vezes, o título é pinçado de

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
alguma passagem de nossa autoria. Outras, ganha um colorido estranho, pró-
prio de um título que jamais seria dado por nós. Isso tudo fazia parte do modo
de acontecer de uma redação de jornal. Tudo. Algo muito simples de se enten-
der, mas que fincava de uma só vez uma bandeira que demarcava especificida-
des jornalísticas em minha escrita, área em que não sou formado.
Aliás, qual poderia ser minha formação como crítico? Tinha feito muitas e
muitas aulas de dança, começando meus estudos numa academia de minha ci-
dade natal, São José dos Campos, interior de São Paulo. Como acontecia com
todo rapaz em plena década de 1980, ganhei uma bolsa de estudos de minha
primeira professora, Damares Antelmo, e me lancei ao balé, ao jazz e ao sapa-
teado, mesmo que este último eu tenha abandonado logo de início. Em 1982,
lembro ter ficado impressionado ao assistir na televisão a uma jornalista falan-
do sobre dança de um modo inteiramente novo para mim. Helena Katz, na T V
Cultura, comentava o impacto da movimentação de Michael Jackson nos vide-
oclipes que acompanhavam o lançamento de seu álbum Thriller. E esse modo
reverberou em mim, e o faz até hoje, a certeza de que ali residia uma outra
possibilidade, absolutamente legítima, de se fazer dança também. Fui para a
capital paulista, onde me formei em Letras pela PUC/SP, e parei definitivamente
de fazer aulas de dança. Comecei, então, a participar do grupo de estudos or-
ganizado por Helena. Algumas coisas começaram a se encaixar.
Saí do País, fiz meu mestrado na Universidade de Viena, Áustria, cuja disser-
tação tinha como tema uma antiga paixão: o balé Giselle. Voltei ao Brasil, mais
especificamente ao Rio de Janeiro, em 1997, como convidado de minha irmã que
já era quase uma carioca. Nesse mesmo ano, conheci Silvia. Em dezembro, numa
reunião realizada na sala de ensaio de Lia Rodrigues, localizada no Teatro Villa-
Lobos, combinamos a primeira reunião daquele que viria a ser conhecido como
Grupo de Estudos em Dança do Rio de Janeiro. Começaríamos a nos reunir logo
no dia 19 de janeiro do ano seguinte, no estúdio da Silvia, no Jardim Botânico.
A existência desse grupo foi absolutamente fundamental para meu futuro
exercício da crítica. E logo nas primeiras reuniões, realizadas sempre às
segundas-feiras, às 19 horas, começou-se a delinear um núcleo que seguiria
adiante por mais seis anos: além de mim e da Silvia estavam Beatriz Cerbino,
Dani Lima e Lia Rodrigues.
As leituras, sempre combinadas de antemão, faziam um percurso sugerido no
início por Helena Katz. Depois, nossos desejos foram sendo naturalmente des-
pertos pela própria dinâmica das discussões que se davam nos encontros. Auto-
res como Antonio Damasio, Daniel Dennett e Richard Dawkins apresentavam
um novo universo a todos nós, que ficávamos incumbidos em traçar paralelos entre
toda aquela teoria e a dança. Fazíamos isso, claro, ao nosso modo. E fomos cons-
truindo ali uma ética da pesquisa, mas, sobretudo, uma estética do estar junto.
Lá no finzinho de 1999, em outubro, sai a primeira crítica da Silvia no Segun-
do Caderno do jornal O Globo. Sua incursão naquele universo complementaria

21
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
de forma exemplar o espaço dado por esse jornal à dança, sobretudo pelo em-
penho da jornalista Adriana Pavlova, responsável pela área até o ano de 2005.
Uma parceria e tanto foi construída ali, dia a dia, ano a ano. E o jornal passou
a desempenhar um papel fundamental nas questões sobretudo políticas que cir-
cundavam a dança carioca. E essa dança ganhou um outro status, diferente
daquele provindo de visitas esporádicas da crítica teatral Bárbara Heliodora a
apresentações de dança, geralmente restritas ao Theatro Municipal. A dança
virou uma prática jornalística também.
Logo em seguida, ainda no mês de outubro, Silvia começou a escrever sobre
o Panorama RioArte de Dança, um dos mais importantes festivais brasileiros
que, naquele momento, era dirigido por sua idealizadora, a coreógrafa Lia Ro-
drigues. Eu, desde o ano anterior, desempenhava ao lado dela o ofício de sua
curadoria. Pouco mais tarde, fui entendendo que curadoria e crítica eram ape-
nas interfaces de uma mesma mediação entre artista, obra e público. Mas como
não havia também nenhuma formação própria para “curador de dança”, tudo o
que eu fazia era ao mesmo tempo testado. E as maiores aulas que tive nesse
sentido vinham da experiência da própria Lia, que também aprendeu fazendo
aquele festival, mesmo que a duras penas, desde 1992.
Era uma experiência nova para mim e para Silvia: meu trabalho estava sen-
do, de alguma forma, criticado por ela. Curioso. Muito curioso.
Para o bem do Panorama e de toda a classe artística da dança carioca, críti-
cas sobre o festival passaram a ser constantes até o ano anterior ao que este
livro contempla. Escritas por Silvia, por Beatriz Cerbino, e mais tarde por mim,
quando deixei a curadoria do festival em 2004, todas as edições dos anos pos-
teriores, excetuando 2005, foram contempladas com críticas nos dois jornais. E
sua leitura, hoje, traça curiosos percursos de um festival que promovia, a cada
ano, estranhamentos poderosos num público que vinha lentamente se formando.
Por outro lado, infelizmente, nenhum dos importantes festivais e mostras que
existiram ou ainda existem na cidade do Rio de Janeiro foram contemplados
com críticas nossas desde seu início ou sem interrupções. O saudoso festival
D ança Brasil, por exemplo, teve sua primeira edição em 1997, com curadoria
de Leonel Brum, e foi a principal e muitas vezes a única investida em dança do
Centro Cultural do Banco do Brasil carioca. Sua última edição foi em 2004,
dando fim a um processo interessante de observação de imbricações entre dança
e outras linguagens artísticas, recorte eleito para balizar sua curadoria. De suas
oito edições, apenas as dos anos de 2000, 2001, 2003 e 2004 ganharam crítica
minha ou da Silvia. E uma inversão outra vez curiosa se deu aí: a partir de sua
sexta edição, Leonel convidou Silvia para dividir com ele a curadoria do festi-
val. E eu, como crítico, passei a criticar o trabalho dela, exatamente o inverso
de como havia acontecido há alguns anos.
E também os Solos de Dança no SESC, mostra de formato inédito entre nós,
e um dos principais eventos de dança do primeiro semestre carioca, que havia

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
se iniciado em 2000, pelas mãos de Beatriz Radunsky, só ganharam aprecia-
ções críticas nossas a partir do ano de 2002. Desde então, até o ano passado,
esta passou a ser uma ação ininterrupta, felizmente.
Mas o Rio de Janeiro contava, sim, com crítica de dança antes de começar-
mos, eu e Silvia, em 1999. Nayse López, então editora do Caderno B do Jornal
do Brasil, acumulava também a função de escrever críticas para sua editoria. E
foi justamente Nayse quem me convidou para escrever minha primeira crítica
(e única daquele ano), que saiu em dezembro de 1999. A partir de então, passei
a, timidamente ainda, dividir com ela esse espaço no Jornal do Brasil, até que,
depois de sua saída do jornal em abril de 2001, assumi sozinho o ofício.
Bem, não totalmente sozinho. Nessas trocas incessantes de posição, algumas
vezes crítico, algumas vezes curador, surgiu a oportunidade de convidar a pes-
quisadora Beatriz Cerbino para que me substituísse no Caderno B, em escritas
sobre o Panorama ou sobre algum espetáculo a que eu não poderia assistir por
uma razão ou outra. Beatriz havia sido minha aluna no Curso de Dança da
UniverCidade, e na época em que começou a escrever, me substituindo, em 2001,
cursava o mestrado em Comunicação e Semiótica da PUC/SP.
Em nosso segundo ano como críticos de dança, Silvia escreveu 15 textos,
e eu, o dobro do que havia escrito no ano anterior, ou seja, apenas dois textos.
E no ano seguinte, foram dez da Silvia e eu continuava dobrando minha quan-
tidade: quatro textos. Esse número passou lentamente a aumentar, para nós dois.
E nossa prática passou a ser uma dinâmica.
Começamos a perceber o que representava o fato corriqueiro, por exemplo,
de sentarmos lado a lado em uma estreia. Ou como nossos gestos eram lidos
durante ou após os espetáculos. Cada pequeno gesto. E como nossos textos fo-
ram demarcando dois estilos tão diferentes de leituras. E ainda, o que significa-
va fazer parte de um rol tão restrito no País de críticos de dança atuantes, que
encerrou o ano passado contando apenas com Helena Katz, em São Paulo (O
Estado de S.Paulo) e Marcelo Castilho Avellar, em Belo Horizonte (O Estado
de Minas).
Formação? Ela se dá ainda em continuidade. Silvia concluiu o mestrado
em Artes Cênicas pela UniRio em 2005 e eu, o doutorado em Comunicação
e Semiótica pela PUC/SP em 2003. Ambos sobre dança. E ambos os resulta-
dos foram publicados. Organizamos livros, participamos de festivais, comis-
sões, produzimos eventos e continuamos a dar aulas no mesmo curso supe-
rior de dança na UniverCidade. Um repertório que se alarga desde que
começou a existir. No caso da Silvia, quando ela tinha 13 anos e, no meu, quando
tinha 17. Muita dança de lá pra cá. Muita. E num desses mistérios que nos
cercam, essa quantidade toda, pelo menos quando se enfrenta a tela vazia
do computador ao iniciar a escrita de uma nova crítica, se transforma mila-
grosamente em qualidade.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
Esse livro reúne críticas escritas por mim em dez anos. Curiosamente, nes-
te ano comemorativo de 2009, uma bailarina rasgou em cena a folha de jor-
nal que estampava uma crítica minha sobre seu espetáculo. Todas as leituras
de atos que se desdobram: algumas mais elegantes, outras mais emergenciais.
Todas legítimas.
Entre tantos erros e acertos, os textos aqui apresentados contam um pouco
da história e da percepção dessa história da dança entre nós, moradores da ci-
dade do Rio de Janeiro, ou apenas brasileiros. Para tanto, resolvi manter mi-
nhas versões originais dos textos. Assim, algumas vezes, temos uma mistura
interessante de títulos e legendas tal como figuram nos jornais e textos em ver-
sões que muito diferem daqueles publicados. Ou mesmo textos que seriam mes-
clados com outros textos de autoria de jornalistas, especialmente em balanços
de fim de ano, e que aparecem aqui apenas nas versões escritas por mim. Esta
era, finalmente, a (única?) chance de eles serem lidos como foram concebidos
originalmente. Resolvi também trazer aqui críticas que, por uma razão ou ou-
tra, não foram publicadas.
Ao leitor, resta meu pedido de lembrar, sempre, que se trata aqui não mais
apenas da crítica de dança, que tem tantas qualidades quando estampada no
suporte do jornal. Mas, antes, trata-se de um registro de um registro e, como tal,
só poderia existir admitindo seu recorte e as falibilidades decorrentes dele, assim
como assumindo as especificidades deste outro suporte, um livro.
Bom diagrama a todos. Um outro jeito absolutamente legítimo de se fazer
dança se inicia na página seguinte.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
1999 CRÍTICAS

O GLOBO – 9 DE OUTUBRO DE 1999


O palco como lugar de ação vigorosa e incessante
SILVIA S OTER

O GLOBO – 22 DE OUTUBRO DE1999


Domínio raro do tempo e do espaço em cena
SILVIA SOTER

O GLOBO – 25 DE OUTUBRO DE1999


Duelo entre música, palavra falada e dança na apresentação da Quasar
SILVIA SOTER

O GLOBO – 29 DE OUTUBRO DE 1999


Novos significados para o corpo e para a dança
SILVIA SOTER

O GLOBO – 1 DE NOVEMBRO DE 1999


Palco de discussão da dança de hoje
SILVIA SOTER

O GLOBO – 2 DE NOVEMBRO DE 1999


Criadores aprofundam pesquisas em cena
SILVIA SOTER

O GLOBO – 10 DE NOVEMBRO DE 1999


O mito de Antígona olhado pela metade
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 3 DE DEZEMBRO DE 1999


Um bom presente de Natal
ROBERTO PEREIRA

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 9 DE OUTUBRO • 1999

O palco como lugar


de ação vigorosa e incessante
Coreógrafa é muito literal em alguns momentos,
mas realiza seu espetáculo mais completo

S ILVIA S OTER

C asa, da Cia. Deborah Colker, não é um


“lar, doce, lar”, íntimo espaço de tran-
quilidade. A casa de Deborah Colker é lu-
ocupam. A ênfase se dá no fazer. No entan-
to, o mergulho da coreógrafa nos gestos ba-
nais do cotidiano de uma casa resulta, em
gar de ação mágica, vigorosa e incessante. alguns momentos, numa certa literalidade.
Se em seus espetáculos anteriores o olhar Ao fazer e ao mostrar o que está sendo fei-
do espectador era desviado, como que para to, Deborah restringe-se, mantendo-se exa-
amenizar o impacto criado pela arquitetu- geradamente fiel à sua proposta inicial. O
ra, em Casa, a coreógrafa assume a força do mesmo acontece com o uso que a coreógra-
espaço arquitetônico de sua proposta, sem fa faz da técnica clássica que surge não como
esvaziá-lo com situações periféricas. É nes- ferramenta de construção de uma corporei-
ta casa-estrutura – excelente realização de dade própria e sim como elemento que se
Gringo Cardia, iluminada com primor por infiltra para legitimar, desnecessariamen-
Jorginho de Carvalho – que os bailarinos te, a evidente capacidade técnica de sua
constroem sua dança, enquanto a casa se companhia. Um dos momentos mais fortes
movimenta, recriando planos, desvendando do espetáculo se revela, sem ser exposto:
entranhas, se reinventando. através da janela, vislumbra-se o belíssimo
Para a coreógrafa, estar em casa é agir, duo de Deborah e Jacqueline Mota.
ação que segue os traços do homem moder- Casa é, sem dúvida, o espetáculo mais com-
no de Baudelaire. No corpo de seus bailari- pleto desta companhia que confirma que a dan-
nos, os gestos do cotidiano de uma casa se ça se faz espetáculo a espetáculo, com compe-
desenrolam, descrevendo os espaços que tência, meios de realização e muito trabalho.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 22 DE OUTUBRO • 1999

PANORAMA/RUI HORTA

Domínio raro do tempo


e do espaço em cena

S ILVIA S OTER

Z eitraum – The space of time, de Rui


Horta, espetáculo baseado nos traba-
lhos do arquiteto holandês Rem Koolhaas e
individuais. As relações entre os bailarinos
se dão a partir de provocações físicas, e as
órbitas se chocam para, em seguida, inte-
em Seis propostas para o próximo milênio, ragirem. Por instantes, os bailarinos aban-
de Italo Calvino, fala de experiências do donam suas órbitas e, sem perderem seus
homem com o tempo. Se as dimensões tem- caracteres múltiplos, realizam a experiên-
po e espaço são raramente dissociáveis em cia da simultaneidade. A movimentação
Rui Horta, uma se transforma na outra e o dos corpos é contínua, como o rio do fundo,
tempo se materializa no espaço da cena. no limiar de um eterno desequilíbrio. Atra-
É o próprio coreógrafo quem assina a ceno- vés dos corpos dos bailarinos, aos pares
grafia e a iluminação do espetáculo. tempo-espaço, natureza-tecnologia, se
A cenografia se oferece como partner para associam desequilíbrio-suspensão.
os seis bailarinos e se impõe, hipnoticamente, Italo Calvino propôs elementos que acre-
aos olhos do espectador. Correndo veloz no ditava merecem lugar de destaque no mi-
fundo da cena, um rio caudaloso constrói um lênio que se anuncia. Leveza, rapidez, exa-
eixo horizontal durante todo o espetáculo: o tidão, visibilidade e multiplicidade se apre-
tempo contínuo. Colunas de alumínio, símbolo sentam como características a serem perse-
de leveza e tecnologia, são fixadas, pelos baila- guidas. Rui Horta traz esses elementos para
rinos, verticalmente no cenário: o marco do ins- a dança. Nesta obra, as propostas de Calvi-
tante. Em cena, um cubo transparente cheio de no emergem, visivelmente, nas dimensões
água: desejo humano de aprisionar o tempo, tempo e espaço. Talvez menos visíveis, flu-
tentativa de interromper o fluxo deste rio de xo e peso se colocam como dimensões cen-
continuidade. É em torno dos objetos de cena trais. Merece destaque o domínio que esta
que se tecem os laços entre os bailarinos. companhia faz do fluxo e do peso. Domínio
Os seis bailarinos constroem trajetó- raro e absoluto: base da dança contemporâ-
rias próprias, deslocando-se em órbitas nea e talvez sua tarefa mais difícil.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 25 DE OUTUBRO • 1999

Duelo entre música, palavra falada e


dança na apresentação da Quasar
Panorama/Brasileiros: Primeira semana é marcada
por boas ideias nem sempre bem executadas

S ILVIA SOTER

C oreografia para ouvir, da Quasar Cia.


de Dança, foi o espetáculo mais mar-
cante, dentre os brasileiros, nesta primeira
movimentação imposta pela coreografia, e
Paulo Mantuano, bailarino vigoroso, aprovei-
ta pouco suas qualidades em cena.
semana do 8° Panorama RioArte de Dança. Criaturas, de Michel Groisman, abriu a
Na criação de Henrique Rodovalho, mú- noite sexta-feira. Fronteira entre o Body-
sica e dança se provocam, como um desa- Art, a instalação e a dança, a perfomance
fio dos repentistas nas feiras nordestinas, sai da galeria e ocupa o palco. Os dois
com execução preciosa de seus quatro performers-bailarinos mostram um con-
bailarinos. No confronto música, palavra trole eficiente de seus corpos no difícil
falada e dança, desfilam as tensões entre deslocamento imposto pelo aparato de
cidade e interior, entre popular e erudito. fios, rodas, metais e lâmpadas. O contato
O coreógrafo ousou e acertou ao limpar a entre os dois se dá de modo pontual, cri-
cena, livrando-se da ambientação pesada, ando formas circulares que, ao fecharem
que, em geral, acompanha o trabalho de o circuito elétrico, acendem pequenas lâm-
Rodovalho, e fez uma obra delicada, pre- padas. Apesar do forte impacto plástico da
cisa e competente. performance, alguns ajustes são necessá-
A noite de quinta-feira foi aberta por rios para transportar este trabalho da ga-
Recorrência: Quasi instante, da Paulo Man- leria para o palco.
tuano Cia. de Dança. O coreógrafo busca des- Neste final de século marcado pelo olhar
pertar no espectador a sensação do déjàvu, feminino na dança, é um prazer assistir a
se utilizando de imagens gigantescas proje- Adoniran, da Cia. Três de Paus, de São Pau-
tadas no fundo do palco que se repetem e se lo. Composto de uma sucessão de esquetes
fundem à presença dos bailarinos em cena. em torno de Adoniran Barbosa, em que o
Essa ideia, no entanto, vai se dissolvendo e aspecto cômico é enfatizado, estes três artis-
perde a sua força inicial. Os bailarinos ainda tas polivalentes combinam com simplicida-
não parecem se adequar à qualidade de de a dança, a percussão e o teatro, resultando

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
num espetáculo não muito regular, porém rências explícitas a estilos e a momentos
despretensioso, agradável e impregnado de históricos.
humor masculino. Encerrando a noite de sábado, Lara
Os excelentes bailarinos Priscilla Tei- Pinheiro e Marcos Gallon visitam a dança-
xeira e André Vidal se convertem em co- teatro. O teatro do absurdo, de Ionesco, ser-
reógrafos e apresentam Um passo a dois. ve de pano de fundo para Alice. Uma cena
Uma barra, objeto emblemático das au- construída dentro da cena e a iluminação
las de balé clássico,vai sendo construí- sugerem um certo distanciamento. No en-
da no meio da cena enquanto o espelho tanto, nesta criação, dança e teatro conta-
é sugerido pela movimentação simétri- minam-se pouco e os bailarinos se
ca dos bailarinos. Numa tentativa visível limitam a alternar situações teatrais, sem-
de mergulhar no universo da dança, eles pre ligadas ao texto e aos objetos de cena,
acabam ficando presos às suas trajetóri- com boas sequências de dança como, por
as pessoais como bailarinos, com refe- exemplo, o duo final.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 29 DE OUTUBRO • 1999

Novos significados para


o corpo e para a dança
Panorama/Jérôme Bel: Objetos são centro da ação

S ILVIA S OTER

N ão é fácil assistir a Nom donné par


l’auteur de Jérôme Bel, apresentado
quarta-feira no Teatro Carlos Gomes. Em
acaso, há um forte sentido de composição no
agenciamento espacial e na relação dos ob-
jetos entre si. Escolhidos criteriosamente, mais
cena, não se encontram as referências habi- do que simples partners, os objetos estão no
tuais das situações de representação. Se, centro da obra. Mesmo quando em total imo-
neste século, a dança foi se desligando, pou- bilidade, estão impregnados de movimento.
co a pouco, de seus pares históricos como a No vazio da cena, eles ganham posições cam-
música, a ambientação cenográfica ou ainda biantes e evocam ações potenciais que se as-
a narrativa, o corpo que dança preservou sociam. Quando a bola de futebol se relacio-
uma tonicidade particular, um compromisso na com os patins de gelo, por exemplo, rolar e
específico com o espaço e com o movimento. deslizar se combinam e percebemos que pode
Em Nom donné par l’auteur, esta última refe- haver dança nesta confrontação imóvel e or-
rência é, aparentemente, abandonada. O es- ganizada. Um bailarino se põe em equilíbrio
pectador desavisado pode ainda se pergun- instável sobre a bola de futebol, sobre a sua
tar se o que vemos é dança, ou simplesmen- cabeça pesa, literalmente, um dicionário Le
te tentar resolver seu incômodo, classifican- petit Robert, ícone da língua francesa: movi-
do o espetáculo como não dança. No entanto, mento e significado. A dança toma corpo nos
é na atitude contrária, na busca daquilo que objetos, enquanto os objetos tomam empres-
pertence à dança dentro da obra, que é possí- tado do corpo a intimidade com a dança.
vel se aproximar do trabalho de Jérôme Bel. Bel é exigente com seu espectador. Para
Com gestos simples, precisos e sem afeta- descobrir a riqueza que há em sua obra é
ção, os dois bailarinos manipulam diversos preciso deixar que o pensamento se organi-
objetos de uso cotidiano. Nada é deixado ao ze em dança.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 1 DE NOVEMBRO • 1999

Palco de discussão
da dança de hoje
Panorama/Brasileiros: Diferentes investigações
femininas marcam a segunda semana do festival

S ILVIA S OTER

A participação brasileira na segunda se-


mana do 8° Panorama RioArte de
Dança começou com a apresentação de
D(K) IN MC, de Gícia Amorim, são dois
solos em um. No primeiro, Gícia explora o
lugar do acaso na organização, e no segun-
Formless,de Martha Soares.Com uma forte do, mais interessante, ela incorpora a influên-
marca do butô,esta obrainvestiga o corpo cia da gestual cotidiana à primeira lingua-
desarticulado.As bailarinas lembram bone- gem. Na forma de composição e na quali-
cas eróticas,marionetes abandonadas pelo dade de movimentação, se reconhece a pre-
marionetista, tentando desenvolver suas sença do universo de Merce Cunningham,
ações e deslocamentos por conta própria, referência forte demais que dificulta a
enquanto do alto caem fios de seda. É em transformação deste material em algo
cima da segmentação que os movimentos se mais pessoal.
constroem, na impossibilidade de se atingir Cristina Moura, presença marcante no
o equilíbrio vertical para, enfim, ganhar Panorama do ano passado, no Les Ballets C.
autonomia. Martha Soares mantém sua pro- de la B., volta este ano como coreógrafa com
posta até o fim, num espetáculo bem acaba- Pourquoi c’est toujours moi. Dividindo o
do e com densidade dramática. palco com a engraçada Tamayo Okano, Cris-
O exílio está no centro de Terras,de Esther tina faz um exercício coreográfico aos mol-
W eitzman. A coreógrafa apoia sua obra em des do C. de la B., com passagens delicadas
um forte sentido de conjunto e respiração.Os e divertidas.
deslocamentos do grupo ganham sentido de Em Alaska, de Andréa Maciel, pela pri-
território itinerante enquanto elementos in- meira vez nesta semana, homens e mulhe-
dividuais se afastam e se aproximam. Esther res se encontram no palco do Panorama.
tem no aproveitamento do espaço o ponto for- Espetáculo desenvolvido a partir do exer-
te deste trabalho,mesmo quando a proposta cício apresentado no ano passado, Alaska
exige uma capacidade dinâmica que o grupo discute em cena o efeito do frio. Ao explo-
não é sempre capaz de garantir. rar gestos contidos do corpo congelado,

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Andréa Maciel circula por terreno desco- Nesta oitava versão, o Panorama se afir-
nhecido já que sua dança se baseia, em ma como fórum de discussão sobre a dança
geral, na sua grande capacidade explosi- que se faz hoje, suas diversas superfícies de
va. Com momentos interessantes, em que contato e possibilidades de definição. Este
o derreter e o descongelar criam uma bela ano, a dança não só esteve presente no pal-
qualidade tônica nos bailarinos, o fio con- co, mas também nos produtivos encontros
dutor de Alaska se encontra mais na am- teóricos e workshops. O festival vai encerran-
bientação cenográfica do que na coreo- do o seu oitavo ano, confirmando seu lugar
grafia em si. de destaque no cenário carioca da dança.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 2 DE NOVEMBRO • 1999

Criadores aprofundam
pesquisas em cena
Panorama/Noite carioca: Conjunto não decepciona

S ILVIA S OTER

A esperada Noite carioca não decep-


cionou o público que lotou o Teatro
Carlos Gomes, anteontem, na última noi-
ta clara e o coreógrafo faz um trabalho des-
costurado e gratuito, que desperdiça a bela
presença de Renata Versiani.
te do 8° Panorama RioArte de Dança. Em O Atelier de Coreografia, companhia
Nato, da Cia. Dani Lima, a coreógrafa se dirigida por João Saldanha, fechou com
desliga de referências circenses e mergu- competência a última noite do Panorama.
lha fundo em outras possibilidades de sua Primeiro foi a vez de Um só trio, coreo-
dança nas alturas. Neste trabalho, o tecido grafia assinada por Frederico Paredes. Três
é utilizado como suporte vertical, lugar de bailarinas (Laura Sämi, Olívia Secchin e
retorno e repouso, cordão umbilical. Os Isabel Stewart) partilham o espaço da cena
oito bailarinos, inicialmente presos ao numa partitura coreográfica bem constru-
alto, ao tocarem o chão, buscam no outro a ída e muito bem dançada. É interessante
ilusão da completude, se encontram em perceber que o coreógrafo, cocriador da
pares, para, em seguida, se recolherem na Cia. Ikswalsinats, já possui elementos pró-
solidão do tecido. A música ao vivo, de prios à sua linguagem gestual, reconhecí-
Felipe Rocha, aumenta o clima envolvente. veis nesta obra.
Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria Três meninas e um garoto, de João Sal-
amada, Brazil, de João Wlamir, começa danha, é um relato delicado e íntimo. Em off,
como uma provocação em torno do hino e a presença do jornalista João Saldanha, pai
da bandeira nacional. A pedido de um apre- do coreógrafo, aumenta o clima pessoal do
sentador, a plateia se levanta para cantar o solo dançado por Marcelo Braga.
hino, enquanto, em cena, a truculência é re- A cenografia e a iluminação fecham o
presentada pelas contorções de um haltero- espaço, criando uma mancha vermelha que
filista. Pelo nível da provocação inicial, se delimita as possibilidades de deslocamen-
espera um espetáculo à altura deste primei- to do bailarino. Marcelo Braga realiza com
ro impacto. No entanto, não há uma propos- sutileza e inspiração sua dança solitária,

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
numa coreografia que se apoia na simplici- palco do Teatro Carlos Gomes, além das
dade e na clareza da movimentação. mesas redondas, workshops e master clas-
A Noite carioca mostrou que a criação ses. Apesar do orçamento reduzido deste
coreográfica exige um compromisso sério ano, o Panorama manteve o compromis-
erigoroso,que passa pelo aprofundamento so com a qualidade dentro da variedade
das questões colocadas em cena e pela com- e trouxe para cena olhares múltiplos e
preensão de que a dança é algo mais do que manifestações diversas. Num ano marca-
uma simples sucessão de passos. do por poucas estreias cariocas, o Pano-
Durante duas semanas de intenso tra- rama concentrou o que há de novo na
balho,18 companhias desfilaram pelo dança do Rio de Janeiro.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 10 DE NOVEMBRO • 1999

O mito de Antígona
olhado pela metade
Passion: Obadia só mostra a visão de Creonte

S ILVIA S OTER

A pós 20 anos de parceria na criação


coreográfica, Joëlle Bouvier e Régis
Obadia, pela primeira vez, assinam obras in-
personagens femininas. A ambientação e os
figurinos sugerem o caráter atemporal do
mito, buscando o que pode haver de atuali-
dependentes. Em estúdios separados, com dade em Antígona. O coro de anciãos con-
equipes diferentes, os dois criadores do firma em eco os gestos de Creonte. As dife-
L’Esquisse se debruçaram sobre o mito de rentes personificações de Antígona surgem
Antígona, fechando, assim, um ciclo de pes- como fantasmas da mente deste Creonte
quisa sobre a tragédia de Sófocles. Esta contemporâneo, mulheres-objeto sem o po-
produção paralela resultou em Fureurs der da palavra ou do grito, mesmo quando o
e Passion, dois espetáculos aparentemente microfone lhes é oferecido. A voz do meni-
autônomos, realizados por Bouvier e Obadia, no Pierre-Jean Camillo serve de contrapon-
respectivamente. Apesar da separação no to à atmosfera de opressão e é responsável
processo de criação, os dois espetáculos têm por belos momentos do espetáculo.
sido apresentados ao público, em sequência, Com exceção da forte presença de Régis
numa mesma noite. Infelizmente, o público Obadia como Creonte, o elenco masculino
carioca não foi contemplado com as duas não sustenta sua participação com o vigor
criações, assistindo somente a Passion, ante- necessário. As três bailarinas imprimem be-
ontem à noite, no Teatro Odylo Costa Filho, leza e sensualidade aos diferentes momentos
na Uerj, dentro do Festival de Dança do Rio. desta Antígona provocante, porém submissa.
Nesse espetáculo, Obadia discute, atra- O caráter trágico se encontra na impos-
vés de Antígona, a questão do poder e de sibilidade de conciliar duas verdades, duas
suas diferentes formas de abuso. Na concep- visões, dois projetos antagônicos. Ao se co-
ção do coreógrafo, os homens estão no cen- lar à voz de Creonte, Passion traz apenas
tro de Antígona. O palco se transforma em metade da obra. Cabe ao público carioca
arena onde Obadia, na pele de Creonte, con- imaginar o olhar que oferece Fureurs, a co-
trola a cena e manipula, literalmente, as reografia assinada por Joëlle Bouvier.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 3 DE DEZEMBRO • 1999

Um bom
presente de Natal

R OBERTO P EREIRA

A volta do balé O quebra-nozes (em


cartaz mais duas semanas) ao palco
do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
rio e sua dança deixa que se observe a ple-
na potencialidade em vir a ser um grande
primeiro bailarino.
garante a possibilidade de contar com um Renata Versiani e Thiago Soares, na
dos símbolos mais representativos do espí- Dança Espanhola do segundo ato, encabe-
rito natalino em quase todo o mundo. Tal çam a lista de ótimos solistas da casa e pro-
como a já popular árvore de Natal, este balé vam que novas gerações de primeiros bai-
já faz parte de um ritual de comemorações larinos estão sendo muito bem preparadas
há mais de um século e passa agora também dentro da companhia. Vale ainda citar o
como uma luva à louvável proposta de Da- desempenho do corpo de baile e das ótimas
lal Achcar, diretora do teatro e sua coreó- participações dos alunos da Escola Maria
grafa, de formação de um público para este Olenewa, principalmente no primeiro ato
tipo de espetáculo. como os ratinhos. Esta sim é uma formação
Sua estreia, na última sexta-feira, foi es- sólida de bailarinos que desde cedo têm
pecial. Os primeiros bailarinos proporcio- oportunidade de pisar no palco e conviver
naram à plateia momentos de perfeição téc- com bailarinos já formados.
nica e exata medida de um estilo nobre que Entretanto, tal como a árvore de natal, O
o balé requer. Cecília Kerche e Marcelo quebra-nozes sempre corre o risco de esva-
Gomes formaram um par coeso, elegante. ziar-se como símbolo e se tornar mero en-
Ela mostra um amadurecimento ímpar e feite. Causa disso é o excesso. É neste limiar
sua carreira e faz uso de apurada técnica e de figurino e cenário que viram “fantasia”,
de suas belas facilidades físicas para com- para usar um termo empregando indistin-
por uma Fada Açucarada perfeita. Já Mar- tamente por pequenas escolas de dança em
celo Gomes, ainda muito jovem, prova que seus espetáculos de fim de ano, que trafegam
é dono de um porte nobre imprescindível as criações de Jose Varona. Se acerta no pri-
aos príncipes dos grandes balés de repertó- meiro ato, compondo uma bela sala onde a

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
festa de natal acontece, e lançando mão de porcionar ao público momentos tão mági-
ótimos efeitos especiais, erra a mão no cos, seduzindo-o com cores e formas den-
segundo ato, tanto no cenário quanto na tro deste imaginário que o Natal recria to-
maior parte dos figurinos. Principalmente dos os anos.
na tão popular Valsa das flores, o quase Formação de plateia precisa destes
excesso de cores e detalhes chega a compro- recursos, claro. Mas, tratando-se de esva-
meter a coreografia acertada de Dalal ziamento de símbolos, tal como a árvore
A chcar.A qui, a exuberância natalina já está de Natal que vira enfeite, espera-se que
na música e na dança e qualquer outro elemento este balé possa servir como um convite
cênico deve apenas contribuir para esta coe- para que os olhos do público se tornem
são coreográfica, sem roubar-lhe a atenção. cada vez mais aguçados para os espetácu-
Sem dúvida este foi um grande presen- los de seu Theatro Municipal. E isto, mais
te de Natal para os cariocas. E até mesmo do que qualquer outra coisa, é uma obri-
esses pequenos excessos permitem que se gação que pode também virar um presen-
pergunte se não vale mesmo a pena pro- te de Natal.

38
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
2000 CRÍTICAS

JORNAL DO BRASIL – 25 DE MARÇO DE 2000


A hora de sair do corpo
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 8 DE ABRIL DE 2000


Encontro de épocas ilustrado pelo contraste entre força e romantismo
SILVIA SOTER

O GLOBO – 8 DE ABRIL DE 2000


Acertos e ruídos em dois diálogos com o teatro
SILVIA SOTER

O GLOBO – 22 DE ABRIL DE 2000


A afinação de várias influências
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 1 DE MAIO DE 2000


Crescimento evidente
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 6 DE MAIO DE 2000


Ator descobre a geometria do espaço
SILVIA SOTER

O GLOBO – 26 DE MAIO DE 2000


Emoção do flamenco em atmosfera clean
SILVIA SOTER

O GLOBO – 7 DE JUNHO DE 2000


Genialidades coreográficas a serviço do amor
SILVIA SOTER

O GLOBO – 10 DE JUNHO DE 2000


Recursos evidenciam fragilidade da dança
SILVIA SOTER

39
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO – 4 DE JULHO DE 2000
Danças que coabitam mas não se misturam
SILVIA SOTER

O GLOBO – 14 DE JULHO DE 2000


Dança feita de ideias, corpos e indignação
SILVIA SOTER

O GLOBO – 17 DE AGOSTO 2000


Trilha de Arnaldo Antunes inaugura novos caminhos físicos e urbanos
SILVIA SOTER

O GLOBO – 22 DE SETEMBRO 2000


A experiência da dança como vertigem
SILVIA SOTER

O GLOBO – 19 DE OUTUBRO DE 2000


Plischke sacode a percepção do espectador
SILVIA SOTER

O GLOBO – 27 DE OUTUBRO 2000


Distintas artes e culturas ganham novo território
SILVIA SOTER

O GLOBO – 31 DE OUTUBRO DE 2000


Panorama se firma como palco do debate sobre dança
SILVIA SOTER

O GLOBO – 27 DE NOVEMBRO DE 2000


Novos balés de Béjart provocam saudades das criações dos anos 70
SILVIA SOTER

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 25 DE MARÇO • 2000

A hora de sair
do corpo
Assinatura impressa no outro

R OBERTO PEREIRA

T alvez a questão mais pertinente para


quem acompanha a trajetória da bai-
larina e coreógrafa Ana Vitória, colocada
já mostrou saber dominar este recurso, que faz
sua dança ser reconhecida como sua. Talvez
agora seja justamente o momento de ela no-
em seu mais novo espetáculo 1, segundo..., vamente experimentar o desafio de um não
estreado na quinta-feira, seja a questão da saber, apenas para ampliar seu vocabulário.
assinatura. Essa é a pergunta que hoje se faz Por isso mesmo um dos pontos altos do
quando a construção de um vocabulário em espetáculo seja o solo da bailarina Andréa
dança esbarra naquilo que facilmente seria Bergallo. Única integrante da formação ini-
chamado de repetição. cial da companhia, Bergallo movimenta-se
A pesquisa que Ana V itóriatraz em sua segura pelas minúcias anavitorianas, conse-
dança é uma pesquisa assinada em seu cor- guindo agora ter a vantagem de ter como
po. Desde que decidiu não mais trabalhar seu o movimento. Os outros dois bailarinos,
em solos e construir sua linguagem de mo- Mariana Lobato e Cláudio Ribeiro, excelen-
vimentos em outros corpos, a coreógrafa tes, carecem justamente deste equilíbrio e
experimentou o desafio da tradução: como isto, com certeza, é mera questão de tempo.
aquele outro entende o que antes estava E este equilíbrio talvez deva se alcança-
apenas em mim? Passado o susto,o que se do também através de outros elementos
vê agora é um quase domínio conquistado importantes do trabalho desta coreografia,
de ver o outro dançando sua assinatura. E é como a trilha sonora (que um dia deveria
justamente aí que nasce um outro perigo. ser especialmente composta para ela) e os
A dança, basicamente frontal, mas, mesmo figurinos, cujo grande volume contrasta com
assim, coreograficamente bem resolvida de a fineza do movimento.
Ana V itória, traz como marca uma constru- Hoje, na dança contemporânea, poder
ção de espaço alojada em seu próprio corpo. ler no corpo do bailarino a ideia do coreó-
Não é um espaço-fora, é um espaço na exati- grafo é tarefa que deve levar em conta a
dão muscular,cineticamente preciso,que faz pluralidade coevolutiva deste corpo. E des-
do corpo que dança o lugar de gestos peque- ta ideia, Ana Vitória, neste seu novo espetá-
nos,milimetricamente eficazes.A coreógrafa culo, prova que aprendeu esta lição.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 8 DE ABRIL • 2000

Encontro de épocas ilustrado pelo


contraste entre força e romantismo
Balé de Hamburgo: Em Sylvia, Neumeier
busca expandir seu vocabulário

S ILVIA S OTER

S em sombra de dúvida, o Balé de Ham-


burgo, sob a direção de John Neumeier,
é sinônimo de qualidade. A companhia alia
ação da peça e o instante da cena. Este tal-
vez seja o ponto mais delicado e o mais inte-
ressante do espetáculo de Neumeier. É evi-
domínio técnico irretocável com uma bela dente que o coreógrafo investe seriamente
presença cênica. A temporada no Municipal na busca da expansão de seu vocabulário
se encerra hoje, com a apresentação de três coreográfico. No primeiro ato, a movimenta-
coreografias. ção das caçadoras e de seus arcos imprime
Sylvia, primeiro programa da turnê brasi- uma tonicidade especial no trabalho de bra-
leira, apresentado na quinta-feira, é uma re- ço das bailarinas. O contraste entre a força
leitura do balé homônimo do coreógrafo fran- do gesto concreto dos arcos e os ports-de-bras
cês Louis Mérante, com música de Delibes, românticos do solo de Diana ilustra este en-
que estreou na Ópera de Paris em 1876. No contro de épocas na própria técnica clássica.
original, Sylvia, ninfa de Diana, a caçadora, se No entanto, os cenários despojados não
divide entre a fidelidade à castidade guerrei- alcançam a quase abstração pretendida.
ra de Diana e o amor por Aminta. Neumeier, Apesar de um belo uso das cores na ilumi-
como já havia realizado em A bela adormeci- nação, a presença das árvores e a lua proje-
da, traz referências contemporâneas para a tada no telão servem, paradoxalmente,
cena e, sem a preocupação de manter-se fiel à como excesso de referências. Os figurinos,
narrativa, transforma a ninfa em atleta que se principalmente nos segundo e terceiro atos,
divide entre a força e o abandono ao amor. Os buscam situar de modo redundante a ação.
cenários e figurinos de Yannis Kokkos refor- Sylvia, de John Neumeier nos mostra, em
çam a localização da ação nos dias de hoje. vários momentos, que o distanciamento das
Em dança, cada vez que uma peça de re- referências do balé original é apenas apa-
pertório é remontada, pode-se considerar que rente. Ainda existe a busca de traduzir a
há uma releitura. Por mais fiel que a remon- história para se fazer compreender. Se, mui-
tagem se pretenda, são corpos de outros bai- tas vezes, importantes peças do repertório
larinos que serão atravessados pela coreo- clássico tiveram suas entranhas revisitadas
grafia e que traduzirão para o público o en- por coreógrafos contemporâneos, em Sylvia
contro entre dois tempos: o momento da cri- é, sobretudo, na superfície que o novo habita.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 8 DE ABRIL • 2000

Acertos e ruídos em dois


diálogos com o teatro

S ILVIA S OTER

O Dança Brasil investiga neste ano o en-


contro entre a dança e o teatro. Neste
sentido, o programa de estreia é exemplar:
apropria com segurança, já que é através de
seu corpo que a cena fala. Com humor e pre-
cisão, ela realiza um espetáculo simples e
Slices, de Renata Mello, e A solidão procla- competente. A tentativa de enquadrar seu
mada, de Sandro Borelli, já apontam para trabalho em dança, teatro ou na fusão de
importantes e arriscados aspectos dessa re- ambos interessa pouco. O ótimo resultado não
lação delicada. exige explicações.
Renata Mello abre a noite se dirigindo ao Já em A solidão proclamada, de Borelli,
público e colocando os alicerces da questão em vez de libertador, o diálogo entre dança
conceitual que se apresenta: quando e como e teatro revela seus limites. Um pequeno
dança e teatro se articulam. Em Slices, fusão aquário em cena, onde dois peixes doura-
de dois solos da coreógrafa e intérprete, Re- dos nadam em círculo, serve como metáfo-
nata mergulha mais uma vez na banalidade ra da própria obra. A fragilidade do texto e
das prosaicas situações cotidianas. A utiliza- o compromisso com uma linha narrativa
ção frontal do espaço da cena cria uma apro- funcionam como prisão. As intérpretes se
ximação entre palco e plateia e, aos poucos, apoiam numa carga dramática que não se
os diferentes solos vão sendo transformados sustenta, e a dança – ou melhor, sequências
pela presença de um outro, ora o público cúm- coreográficas que se encaixam desajeitada-
plice, ora desdobramentos do corpo da intér- mente nos intervalos do texto – se perde.
prete. Aqui a palavra falada é tratada ape- Aqui, dança e teatro se revezam em cena,
nas como mais um recurso de que a artista se permanecendo universos estanques.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 22 DE ABRIL • 2000

A afinação de várias influências


Fulyô/Dos à Deux: Dupla mostra amadurecimento
na relação entre teatro, dança, música e mímica

S ILVIA S OTER

D iversos resultados são produzidos a


partir do encontro do teatro com as
outras artes da cena. Na terceira semana do
música e mímica tecem interfaces porosas.
Depois que Fulyô termina, deixando claro
que é apenas um work in progress, fica a sen-
Dança Brasil, que este ano investiga as fron- sação de que ainda há muito por vir.
teiras entre a dança e o teatro, Dos à Deux é Em seguida, é a vez de Dos à Deux, es-
um exemplo competente de uma possível in- petáculo completo, que deu nome à compa-
terface: o Teatro Gestual. O espetáculo tem nhia, já tendo sido apresentado em vários
apresentações hoje e amanhã no Centro países. O fato de assistir aos dois trabalhos
Cultural do Banco do Brasil. em seguida levanta, inevitavelmente, algu-
Fulyô, embrião de um espetáculo com mas questões.
estreia marcada para outubro de 2001,re- Com referências explícitas a Esperando
sultado da pesquisa de André Curti e de Ar- Godot, de Beckett, dois vagabundos se pro-
tur Ribeiro em hospitais psiquiátricos,abrea vocam enquanto esperam. Em Dos à Deux,
noite abordando o universo da loucura. Da há a preocupação de delinear as personagens
caracterização dos intérpretes à ambienta- e suas relações. O espetáculo se apoia na
ção cenográfica, tudo em Fulyô é cuidado exploração exaustiva dos gestos realizados
com requinte.Como intérpretes,André Cur- pelas personagens na espera. Nada é gra-
tie Artur Ribeiro exploram seus inúmeros tuito, e nada se desvia desta rigorosa pes-
recursos corporais com domínio absoluto.Por quisa. No entanto, em Dos à Deux, uma certa
seus corpos desfilam a mímica, a música, o regularidade se instala, sobretudo no uso da
sapateado; e a dança surge apenas como mais música, que sempre intervém nos momentos
um dos elementos investigados. de maior liberdade de movimentação, redu-
Mas em Fulyô,o maior impacto se deve zindo o impacto que a dupla de criadores e
ao perfeito uso da musicalidade dos gestos, intérpretes imprime na plateia. No promis-
em que cada movimento,silêncio ou ruído sor Fulyô, o perfeito trânsito entre teatro,
contribui para a construção de uma bela e dança, música e mímica mostra que, feliz-
sofisticada partitura gestual. Teatro,dança, mente, esta questão já pôde ser resolvida.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 1 DE MAIO • 2000

Crescimento evidente

ROBERTO P EREIRA

Q uem assistiu ao espetáculo Truveja pra


nóis chorá da Verve Cia. de Dança nes-
te fim de semana, dentro do evento Dança
lo como este é, sem dúvida, uma surpresa.
Aí, a importância do talento.
Truveja pra nóis chorá aposta nesse
Brasil, no Centro Cultural do Banco do Bra- espaço fronteiriço entre teatro e dança,
sil, teve a oportunidade de presenciar um dos mas descobrindo como isso deve ser acima
bons momentos em que informação e talen- de tudo uma discussão que acontece no
to funcionam como dança. Para quem ainda corpo. Desse modo, Fernando Nunes, que
acompanha a jovem carreira da companhia, assina a concepção e a direção, é tanto mais
desde a última vez que esteve na cidade feliz quanto mais economiza nos movimen-
com o frágil Terral, em 1998, percebe-se tos, deixando que aconteça ali, explosiva-
como saltos evolutivos resultam desta mis- mente, a dramaturgia. Justamente por isso,
tura de informação e talento. deveria se livrar aos poucos de um resquí-
Se o Dança Brasil deste ano aposta na cio de coreografia “moderninha” de con-
discussão sobre as fronteiras borradas de tato-improvisação que assolou a produção
teatro e dança, encontra neste espetáculo um das companhias brasileiras nos últimos
campo bastante profícuo de análise. Ali es- tempos. É no gesto que serve como materi-
tão mesmo o teatro, o circo e, sobretudo, o al de dança que o teatro respira livre, sem
cinema mudo, mas costurados com uma cer- servir de legenda.
ta dramaturgia ainda ingênua, que denota Assim, neste espetáculo, com seus ótimos
um processo de experimentação. Daí a im- bailarinos, com cenário e luz certeiros, a cul-
portância da informação. tura popular do interior do Brasil, tema de pes-
Falar de informação numa cidade como quisa, é tratada com a ingenuidade da qual ela
Campo Mourão, interior do Paraná, é levar mesma é feita. Qualquer material estranho a
em conta todas as intempéries que permeiam isso torna-se desnecessário. Mas reparar nis-
a distância do famoso eixo Rio-São Paulo so, aprimorando materialidades de dança e te-
do resto do Brasil. Isto, em dança, deve ser atro no próprio corpo, como já se pode consta-
ainda lamentavelmente elevado ao cubo. tar numa companhia como a Verve, é pura-
Por isso mesmo que assistir a um espetácu- mente questão de tempo. Felizmente.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 6 DE MAIO • 2000

Ator descobre a
geometria do espaço
Pra ver do céu: Luiz Carlos Vasconcelos foi
visivelmente seduzido pelos encantos da dança

S ILVIA S OTER

O Dança Brasil este ano vem mostran-


do ao público carioca a pluralidade de
manifestações produzidas no momento em que
marcas pessoais, ressaltando suas qualida-
des tônicas particulares. A partir do materi-
al dos bailarinos surge, então, um largo vo-
a dança e o teatro abrem mão de suas especi- cabulário de pequenos e grandes gestos que
ficidades e se contaminam em cena. Dentro ora se destacam e se afastam, ora se esbar-
da diversidade desses resultados, alguns pon- ram em simultaneidade. Breves momentos
tos de convergência podem ser identificados: de tensão dramática resultam de duos e tri-
a dança se autoriza a explorar o texto e a pa- os. A presença de Gera Dias e Verusya Cor-
lavra falada, a narrativa se permite contar reia contribui com eficiência para o espetá-
com a expressão do corpo enquanto suporte culo. Yaelle Penkhoss, menos madura e ex-
ou ainda dança e teatro se revezam em diálo- periente que seus pares, não chega a com-
gos isolados. Neste sentido, em Pra ver do céu, prometer a boa qualidade da interpretação.
Luiz Carlos Vasconcelos trafega na contramão Tendo conseguido escapar do risco da
das propostas até agora vistas nesta edição do redundância entre teatro e dança, Pra ver
D ança Brasil, que acontece no CCBB.Constru- do céu esbarra na difícil – embora aparen-
ído por encomenda do festival, Pra ver do céu temente óbvia – relação entre a dança e a
mostra o namoro de um homem de teatro com música. Ponto mais frágil do espetáculo, a
a dança. O diretor,aqui coreógrafo,aceitou se- trilha sonora de Raul Teixeira, a partir da
riamente a ousada proposta da curadoria do música original de Vânia Dantas Leite, ser-
Dança Brasil e mergulhou no universo da dan- ve como referência forte demais.
ça como um novo campo de possibilidades. Luiz Carlos Vasconcelos, ator, palhaço e
Na base de Pra ver do céu está a geome- diretor, se deixou, visivelmente, seduzir pe-
tria do espaço.Partindo de uma rigorosa es- los encantos da dança. O encontro entre
trutura diagramática, os bailarinos Gera dança e teatro se faz aqui, inevitavelmente,
Dias,V erusya Correia e Y aelle Penkhoss na trajetória deste agora coreógrafo. Discus-
constroem suas danças.A o diretor coube a sões estéreis à parte, Pra ver do céu é um
tarefa de extrair de cada bailarino suas espetáculo de dança, de boa dança.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 26 DE MAIO • 2000

Emoção do flamenco
em atmosfera clean
Sensaciones: Espetáculo enfatiza sensualidade

S ILVIA S OTER

Q uando as bailarinas do Sara Baras Bal-


let Flamenco entram em cena, a at-
mosfera já está criada pela forte e envolven-
e tensão logo nas primeiras danças. Nos seus
corpos, masculino e feminino, juventude e
maturidade, tradicional e atual, criam um
te música que abre Sensaciones.No fundo do contraste interessante.
palco,a presença dos músicos reserva para O uso de tecidos e cores é um dos pontos
as bailarinas uma faixa frontal de palco centrais de Sensaciones. No preto dos figuri-
onde a dança vai se desenvolver. Guitarras nos e na luz branca iniciais, os tecidos e as sai-
flamencas, percussão, um violino e vozes as de cor – verdadeiros partners do flamenco
dialogam todo o tempo com a música dos – são progressivamente introduzidos, numa
sapatos das bailarinas. São oito músicos e espiral colorida que explode na última cena.
oito bailarinas,ilustrando a igualdade de Sara Baras procura extrair toda plasticidade
importância entre a música e a dança. possível de cada elemento, numa composição
Sara Baras acredita no diálogo entre a minuciosa. Os figurinos, embora eficientes na
tradição e o contemporâneo. Na primeira primeira parte do espetáculo, ganham cores
parte do espetáculo,o maior impacto se dá mas perdem a delicadeza inicial.
pela beleza despojada da cena. Na busca Enquanto intérprete, Sara Baras mostra
de incorporação de referências contempo- ter domínio absoluto de seu carisma e de seu
râneas na dança de Sara Baras,não há lu- poder de sedução. O público responde à sua
gar para excessos.A coreógrafa parece res- presença em cena, como a orquestra respon-
saltar no flamenco apenas o que considera de ao maestro. Sensaciones funciona e seduz
essencial:ritmo,dramaticidade,improvisa- exatamente pela capacidade de conciliar a
ção e,acima de tudo,sensualidade.Vestidas intensidade e a emoção do flamenco com
de calças negras,as bailarinas revelam força uma estética clean e atual.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUARTA-FEIRA • 7 DE JUNHO • 2000

Genialidades coreográficas a
serviço do amor

S ILVIA SOTER

Y orgos Loukos, diretor artístico do Bal-


let da Ópera de Lyon, acertou em
cheio na combinação das duas obras apre-
companhia demorou a atingir a precisão
imposta pela coreografia de Jirí Kylián.
Já em Carmen, o Ballet da Ópera de
sentadas, no fim de semana, no Theatro Lyon pôde aproveitar suas inúmeras quali-
Municipal. Petite mort, de Jirí Kylián, e Car- dades e não decepcionou. Apoiado na evi-
men, de Mats Ek, fazem um belíssimo par, dência de que a versão de Bizet já faz parte
abordando, com a genialidade destes dois do imaginário coletivo, Mats Ek se liberta
coreógrafos contemporâneos, os inevitáveis de qualquer compromisso com a construção
encontros entre Eros e Thanatos. narrativa formal, usando as personagens de
Petite mort, metáfora de orgasmo na lín- Carmen como verdadeiros arquétipos. Car-
gua francesa, já foi vista pelo público cario- men, como sempre, simboliza sedução, inde-
ca dançada pelo NDT, companhia dirigida pendência e liberdade. Porém aqui, o com-
pelo coreógrafo. Em cena, seis homens, seis petente Mats Ek transforma estas ideias em
mulheres, um enorme tecido e seis espadas pura dança e as imprime em cada corpo e
desfilam os encontros entre os sexos opos- em cada gesto dos bailarinos. Se Petite mort
tos. Construída com precisão milimétrica e se apoia na precisão dos gestos do amor,
sujeita à riqueza da música de Mozart, Peti- Carmen investe no amor em fluxo livre de
te mort é uma obra sensual e exigente, em movimento. A obra de Mats Ek prima pela
que cada movimento deve ser realizado belíssima ocupação da cena, em que cada
com o domínio e o risco de uma estocada gesto lançado deixa uma marca que se pro-
fatal. Infelizmente, na noite de sábado, a paga e se prolonga no espaço.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 10 DE JUNHO • 2000

Recursos evidenciam
fragilidade da dança
Ghazal: Estudo coreográfico em segundo plano

S ILVIA S OTER

G hazal, que está sendo apresentado até


amanhã no Teatro Carlos Gomes, che-
ga como merecida celebração dos 20 anos
sos utilizados em cena. E, em vez de contri-
buir para a festa, tantos aparatos só tornam
mais evidente a fragilidade da coreografia
da Companhia Regina Miranda e Atores de Regina.
Bailarinos. Se hoje ela consta no hall das A presença simultânea dos bailarinos e
companhias apoiadas pela Prefeitura do Rio, das imagens de Gorewitz é uma proposta
Regina Miranda e seus Atores Bailarinos arriscada. A desproporcionalidade entre a
resistiram, com coragem e qualidade, a tela de fundo e os corpos exigiria que a for-
momentos mais sombrios. Inspirada na ça dos intérpretes e da coreografia pudesse
poesia do persa Jelalludin Rumi (século ultrapassar o diferencial de escala. O que
XIII) e com o apoio da vídeo-instalação de não acontece. Nem Marina Salomon, uma
Shalom Gorewitz, Ghazal joga com a ideia das melhores intérpretes da dança carioca,
da permanência através do tempo. consegue vencer esta barreira. Em muitos
No início do espetáculo, uma cortina momentos, a vídeo-instalação provoca ruí-
transparente vai, delicadamente, revelando do em cena, e em outros, o vídeo se impõe e
rostos conhecidos do cenário da dança dispensa a presença dos bailarinos.
carioca. Para este espetáculo-comemoração, A ideia interessante de receber baila-
Regina Miranda convidou antigos colabo- rinos convidados se esvazia logo de parti-
radores para partilhar a cena com seus Ato- da. Os figurinos marcam, com exagero, a se-
res Bailarinos. A princípio, toda contribuição paração das funções entre a companhia,
se justificaria pela importância da data: as que dança, e os convidados, que se tornam,
imagens de Gorewitz, a presença de convi- literalmente, figuras de fundo. Com exce-
dados ou, ainda, a elegância dos figurinos ção da cena em que Regina Miranda, José
com inspiração oriental, assinados pela pró- Paulo Corrêa e Marina Salomon dançam
pria coreógrafa. No entanto, infelizmente, a juntos, ao som do piano de Maria Guilher-
dança não acompanha a riqueza dos recur- mina, mãe da coreógrafa, a presença de

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
tantos convidados não se justifica. Este trio rios da companhia, parece ter colocado em
de bailarinos, ícones da companhia, é res- segundo plano o mais importante: aprovei-
ponsável pelo único quadro em que a emo- tar a maturidade de 20 anos de trabalho
ção se tece em cena. para investir em pesquisa rigorosa com o
A coreógrafa, que usou a internet para objetivo de enriquecer seu vocabulário
acompanhar, a distância, os trabalhos diá- coreográfico.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 4 DE JULHO • 2000

Danças que coabitam


mas não se misturam
O jardim io io ito ito: Comunicação com o público

S ILVIA S OTER

A companhia Montalvo/Hervieu se
ocupa, há três anos, do único centro
coreográfico nacional da região parisiense.
insistem nas cores primárias e servem
como paradigma da própria criação. No
O jardim de io io ito ito não há verde. Não
A convivência de várias raças e culturas – há cor secundária. Na dança de Montalvo/
nem sempre pacífica nos subúrbios de Paris Hervieu, não há, de fato, mistura ou mes-
– se transforma na questão central do espe- tiçagem. A coabitação de diferentes cul-
táculo apresentado no Theatro Municipal. O turas se dá no palco, mas não se dá na
jardim de io io ito ito é uma festa, como os dança inscrita nos corpos. Enquanto no
bailes que a companhia anima, periodica- palco, a impossibilidade da mestiçagem
mente, em Crèteil, quando os participantes se afirma, o suporte tecnológico cria, no
mostram a sua dança. telão, maravilhosos seres híbridos, ima-
O espetáculo se desenvolve em dois gem onírica da fusão das diferenças in-
planos: no fundo, um telão vertical no qual transponíveis.
a realidade é deformada pelo jogo de Apesar da repetição um pouco cansati-
sombras, pela ampliação de corpos que de- va da estrutura que alterna imagens proje-
safiam a gravidade, pela projeção de se- tadas e bailarinos se desafiando no palco,
res fantásticos. No palco, coabitam lingua- O jardim de io io ito ito agrada. A facilidade
gens cênicas variadas e bailarinos de ori- de comunicação do espetáculo com o pú-
gens diversas, afirmando sua identidade, blico em geral parece fazer parte de um
fazendo, com virtuosismo, apenas aquilo projeto maior: despertar num grande núme-
que sabem fazer. ro de espectadores o prazer de conviver
Se é fascinante reconhecer tantos es- com aquilo que não é igual. Em uma França
tilos e qualidades físicas diferentes é, no onde o racismo assume proporções assus-
entanto, curioso perceber que estas dan- tadoras, O jardim de io io ito ito insiste em
ças não se contaminam. Os figurinos reafirmar Vive la Différence!

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 14 DE JULHO • 2000

Dança feita de ideias,


corpos e indignação
Aquilo de que somos feitos: Lia Rodrigues acerta
S ILVIA S OTER

S ão intensas as emoções despertadas nos


espectadores de Aquilo de que somos fei-
tos, espetáculo da Cia. Lia Rodrigues, em car-
o corpo, a morte. Numa época de relações
virtuais, o corpo a corpo com estas questões
é inusitado e muito necessário.
taz no Espaço Cultural Sérgio Porto, até o Depois do silêncio fértil deste início, na
próximo dia 30. No cruzamento entre a per- segunda parte do espetáculo, a dança e os
formance dos anos 60, as artes plásticas e a bailarinos se vestem de música, de palavras
dança, Lia Rodrigues constrói um espetácu- de ordem datadas e de slogans. Aqui, o es-
lo inesquecível. pectador se vê bombardeado por frases co-
A nudez dos bailarinos, na primeira par- nhecidas, imagens que se associam a outras
te do espetáculo, confirma a transparência imagens, numa colagem de sentidos que ex-
da proposta. Do programa, no qual é apre- põe, com coragem e humor, o mundo contem-
sentado o balanço financeiro desta compa- porâneo. Aqui, Lia Rodrigues explora peque-
nhia apoiada pela prefeitura, à cumplicida- nas frases coreográficas e textos que invadem
de com o público, estabelecida pelos baila- e constituem, sem pedir permissão, o imagi-
rinos que orientam a plateia a achar um nário do homem neste final de século.
ponto de vista, tudo é claro e pertinente. Os sete bailarinos, que assinam a criação
Se num primeiro momento, a orientação coreográfica ao lado de Lia Rodrigues e de
do público pelos bailarinos parece excesso Denise Stutz sabem explorar suas variadas
de controle em relação à plateia, em segui- competências. Circulando com segurança
da, torna-se evidente que a escolha de um entre frases de movimento, palavra falada
bom ângulo ajuda o espectador a usufruir das e canto, eles sustentam a intensidade neces-
imagens com mais liberdade. Verdadeiras sária à proposta e imprimem suas marcas
esculturas vivas, as formas construídas pelos pessoais a cada momento em cena.
bailarinos nus provocam sensações contra- A música de Zeca Assumpção, utilizada
ditórias, de intimidade e estranhamento. de forma econômica e eficiente, tem efeito
Como diante de um espelho facetado, cabe impregnante e constrói um elo entre este
ao espectador construir a integridade dos trabalho e as criações anteriores da compa-
corpos que ele vê e vesti-los de significado. nhia: Ma e Folia.
Aos poucos, a quase abstração dos corpos de Resgatando a arte como espaço de inqui-
Aquilo de que somos feitos vai perdendo lu- etude, Aquilo de que somos feitos é mais um
gar para associações inevitáveis: a não fami- investimento sério desta excelente compa-
liaridade com um corpo descaracterizado de nhia que lança, sobre o mundo, um olhar car-
erotismo, a banalização da violência contra regado de poesia e indignação.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 17 DE AGOSTO • 2000

Trilha de Arnaldo Antunes inaugura


novos caminhos físicos e urbanos
O corpo: Sem perder a identidade, companhia mineira
explora outras possibilidades coreográficas
S ILVIA S OTER

I maginar o Grupo Corpo como um corpo


humano talvez ajude a entender o fun-
cionamento desta companhia, em seu pro-
que este corpo/organismo descanse e suspi-
re. Num pulsar tribal e eletrônico, a música
transforma a brasileirice da movimentação
cesso de criação. Como no corpo humano, di- dos quadris – marca registrada desta compa-
ferentes sistemas trabalham, contribuindo, nhia – em ondulações, às vezes, violentas dos
cada qual com sua especialidade, para o mo- troncos dos bailarinos, propondo novos cami-
vimento e a manutenção da vida. Associan- nhos físicos a serem explorados. Algumas ve-
do fazeres, sem uma hierarquia que privile- zes autômatos, outras vezes palavras pulsan-
gie funções, o todo é muito mais do que uma do, a coreografia destes corpos se deixa pe-
simples soma das partes. A cada nova cria- netrar pelo imaginário urbano.
ção, este corpo, composto de Rodrigo Peder- A relação de forte dependência entre
neiras, Paulo Pederneiras, Freuza Zechmeis- a música e a dança é uma característica
ter, Fernando Velloso, pelos 19 bailarinos e constitutiva do Grupo Corpo. No progra-
outros colaboradores desta companhia mi- ma desta temporada, 21 precede O corpo
neira, se deixainvadir por um novo afeto: a e deixa claro, de modo quase didático, esta
música. Como toda paixão, a música modifi- intensa parceria. Cada encontro desta
ca a velocidade dos fluxos e subverte o bati- companhia com um nova composição
mento cardíaco e a respiração deste corpo. musical resulta numa experiência coreo-
O corpo, a mais recente criação desta gráfica que é, simultaneamente, única e
companhia, em cartaz em São Paulo e com semelhante, já que guarda, dentro da di-
estreia marcada para dia 30 de agosto no Rio, ferença, traços de clara identidade.
é produto do encontro entre o grupo mineiro Assim, O corpo, como já aconteceu com
e a música de Arnaldo Antunes.Esta conta- criações anteriores do grupo, inaugura um
minação mútua resultou numa coreografia novo campo de exploração, sem deixar de
de contrastes,como o preto dos figurinos so- afirmar, felizmente, sua bela assinatura.
bre o vermelho da ambientação.A música e Essa assinatura não aprisiona a criação, mas
a poesia de Antunes colocam o corpo como garante qualidade e coerência a cada nova
tema central da trilha, cruzando suas inúme- experiência. Este corpo, arrebatado pela pai-
ras possibilidades de articulação. O eletrô- xão, se deixa transformar, mas não abre mão
nico e o acústico se combinam, permitindo de ser o que é.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 22 DE SETEMBRO • 2000

A experiência da
dança como vertigem
Salt: O coreógrafo Édouard Lock cria um jogo
de manipulação consentida, lírico e violento

S ILVIA S OTER

A historiadora Sally Banes associou di-


ferentes estéticas da dança à relação
que estas estabelecem com o chão, expres-
é recente na pesquisa de Lock, a repetição
à exaustão e a experiência da vertigem,
presentes neste trabalho, são marcas cons-
sa na escolha dos sapatos. O balé, na sua tantes na obra do coreógrafo.
busca da verticalidade, reduz o contato do Salt se organiza, basicamente, em uma
pé da bailarina com o chão ao limite, femi- sucessão de duos, em que homens e mulhe-
nino e acetinado, da sapatilha de ponta. Já a res se encontram para um jogo de manipu-
dança moderna despe os pés, ampliando o lação consentida, ao mesmo tempo eróti-
contato com a terra, enquanto a dança pós- co, lírico e violento. Sobre as pontas, cada
moderna garante, pelo uso do tênis, agilida- bailarina responde aos impulsos das mãos
de e força a seus impactos e deslocamentos. intrometidas de seus partners. Por frações
Louise Lecavalier, bailarina emblemática de segundo, elas experimentam o eixo
da companhia canadense La La La Human para perdê-lo em seguida. A ponta se tor-
Steps, hoje afastada (impossível esquecê-la), na um recurso de eficiência absoluta para
foi a grande responsável pela difusão de seus a irreversibilidade dos giros e dos desequi-
vertiginosos saltos/giros em trajetória hori- líbrios. Com um naipe de bailarinos de pri-
zontal combinados ao duo botinha/joelheira meiríssima linha, é no corpo a corpo que
que invadiu a cena brasileira da dança con- tudo se joga.
temporânea no final dos anos 80. A repetição da estrutura coreográfica
Mas Salt, último trabalho de Édouard Lock, ganha nuances e variações pelas diferentes
é uma prova contundente de que, neste final intervenções da música, das imagens proje-
de século,ainvestigação contemporânea em tadas, da excelente iluminação e do cená-
dança se encontra muito além das classifica- rio que, em composição primorosa, tecem
ções feitas a partir de leituras simples. quadros de oposição e casamento entre o
Aqui, Lock desbrava o universo de pos- acústico e o elétrico, entre luz e sombra,
sibilidades da ponta, espinha dorsal da téc- entre o corpo longilíneo do clássico e a ver-
nica do balé clássico.Se a técnica da ponta tigem contemporânea.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 19 DE OUTUBRO • 2000

Plischke sacode a
percepção do espectador

S ILVIA S OTER

A ffects, criação do alemão Tom Plis-


chke, inaugurou os trabalhos da nona
edição do Panorama RioArte de Dança, an-
humanas como a honra, a vaidade, o medo
e o ódio. Em Affects, Plishke mergulha na
experiência física de ideias que afetam o
teontem à noite, no Teatro Carlos Gomes, corpo contemporâneo, nesse final de sécu-
trazendo a vanguarda para o centro da cena. lo. Em cena, as palavras da dança expres-
Affects é um rigoroso e metódico experi- sionista e aquelas da investigação contem-
mento laboratorial, organizado a partir de porânea criam corporeidades distintas.
regras que se tornam previsíveis para o es- Mesmo antes de chegar à plateia, o es-
pectador logo de partida. Não há truque ou pectador é retirado da condição passiva de
sedução. receptor. A simultaneidade das imagens da
Em Affects, Plischke traz para o corpo que vídeo-instalação no foyer do teatro torna o
dança a tarefa de experimentar diferentes ato de escolher inevitável. Apresentando
palavras. Como ponto de partida, o coreó- fragmentos que, na memória, reconstituem
grafo vasculhou a memória da dança alemã, o todo, utilizando a repetição de gestos à
buscando em Afectos humanos, obra da ex- saturação, explorando a participação dos
pressionista Dore Hoyer, não uma simples diferentes sentidos na reconstituição da me-
referência histórica, mas um modus operan- mória, Plischke sacode a percepção do es-
di. Nesse conjunto de solos, Hoyer investi- pectador, provocando um misto de incômo-
gou a expressão física de diversas emoções do e encantamento.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 27 DE OUTUBRO • 2000

Distintas artes e culturas


ganham novo território

S ILVIA SOTER

P ara a criadora francesa Maguy Marin,


não há mais separação possível entre
o fazer artístico e as ações sociais que ela e
rias até aquele momento, se encontram e se
revezam no relato falado, na música e nas
sequências coreografadas de movimento. O
sua companhia realizam junto à comunida- caráter íntimo e pessoal dos depoimentos
de. Há três anos instalada em Rillieux-La- deixa o primeiro plano, para dar lugar a uma
Pape, subúrbio pobre de Lyon, para a Com- espécie de identidade compartilhada. As
panhia Maguy Marin criar e partilhar sua diferentes vozes, com seus sotaques e lem-
dança com aqueles que têm raro acesso à branças particulares, tecem um texto único.
experiência artística apresenta igual impor- Nesse texto, no corpo e na dança, memória
tância. A tal ponto que no último ano, Ma- e cultura deixam suas inevitáveis marcas
guy Marin decidiu criar diferentes peças, como assinaturas.
cada uma com apenas alguns membros de Já May B., criação que projetou no mun-
sua equipe, garantindo, assim, que as ativi- do o nome de Maguy Marin, é um mergulho
dades junto à comunidade não cessem nos fundo no universo banal de Beckett. Hesi-
períodos de turnê. Quoi qu’il en soit, um quin- tações, silêncios, gestos secretos e desloca-
teto de homens criado em 1999 e apresen- mentos inúteis produzem um espetáculo
tado no Panorama RioArte de Dança, é impactante pela riqueza de detalhes. Aqui,
produto direto dessa forma de pensar arte é a falta de esperança que mantém as per-
e sociedade. Construído a partir de relatos sonagens num exílio sem fim.
autobiográficos, escritos por cada um dos Nas criações de Maguy, teatro, dança,
intérpretes, a peça trata do exílio, da expe- música e literatura borram fronteiras, pro-
riência de ser (ou de se sentir) estrangeiro. duzindo um território no qual conviver com
No palco, os cinco intérpretes de nacio- as diferenças não é só uma possibilidade,
nalidades diferentes falam de suas trajetó- mas a única maneira de dar vida à arte.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 31 DE OUTUBRO • 2000

Panorama se firma
como palco do debate sobre dança
Entre pontos altos, ingresso barato
e programação rica

S ILVIA S OTER

D epois de duas semanas intensas e pro-


dutivas, terminou o Panorama RioAr-
te de Dança. Nessa nona versão do festival,
gramação com importantes festivais de dan-
ça contemporânea internacionais. Tom Plis-
chke, Xavier Le Roy, Vera Mantero são al-
o Panorama investiu seriamente na constru- guns nomes hoje onipresentes nos espaços
ção de uma relação nova entre os espetácu- de discussão da dança europeia. Diversas
los de dança e o público. Atividades gratui- parcerias permitiram que o público carioca
tas e ingressos a R$ 5 (R$ 2,50 para estu- tivesse acesso à vanguarda das danças fran-
dantes) permitiram que o Teatro Carlos Go- cesa, alemã e portuguesa, trazendo alguns
mes recebesse todas as noites um número exemplos da diversidade da pesquisa de
expressivo de frequentadores. Todos saíram ponta da dança internacional. O Panorama,
ganhando. junto com o festival Danças na Cidade,
O exercício de pensar a dança hoje vazou evento que já faz parte do calendário ofi-
o espaço do palco e invadiu a plateia. Apos- cial da dança portuguesa, trouxe pela pri-
tando que a troca de informações e de im- meira vez ao Rio criadores de países de lín-
pressões entre artista e espectador é uma gua portuguesa. Antes tarde do que nunca.
etapa importante para elaboração e assimi- Não menos importante, a vinda da Cia.
lação diferenciadas da obra artística, o Pa- Maguy Marin brindou os cariocas com duas
norama organizou as “plateias-foyer”, oca- obras de qualidade incontestável, deixando
sião em que público e criadores se encon- a plateia extasiada.
traram para conversar. A iniciativa, quan- Como nos anos anteriores, o Panorama
do o desejo do público superou o cansaço foi também ocasião para a estreia de novas
causado por uma programação às vezes lon- criações de coreógrafos cariocas. Este ano,
ga demais, provocou discussões interessantes. as peças das companhias independentes e
A participação internacional este ano foi daquelas apoiadas pela Secretaria Munici-
maior do que nas versões anteriores. Hoje, pal de Cultura dividiram a cena com cria-
o Panorama partilha boa parte de sua pro- dores de outros estados.

57
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
Os novíssimos, tarde dedicada à apresen- dades carentes. Aqui, o caráter espetacular
tação de trabalhos de jovens criadores, lo- da dança passou a segundo plano e o inte-
tou o Teatro Cacilda Becker, lembrando os resse se voltou para a função da dança no
tempos em que o Panorama servia como contexto da favela.
“celeiro” da dança carioca. A boa qualida- O Panorama tem aperfeiçoado, a cada
de da maioria dos trabalhos demonstrou que ano, o seu papel de palco de discussão da
criar chances para que novos coreógrafos criação contemporânea, provocando o pú-
possam apresentar-se em palcos profissio- blico com espetáculos polêmicos, estimulan-
nais é oportuno e necessário. Na tarde do do o debate e trazendo importantes exem-
último domingo, foi a vez de lançar um olhar plos da diversidade da pesquisa de ponta da
sobre a dança feita com jovens de comuni- dança nacional e internacional.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 27 DE NOVEMBRO • 2000

Novos balés de Béjart provocam


saudades das criações dos anos 70
Béjart Ballet Lausanne: Programa não foi
expressivo da obra do coreógrafo francês

S ILVIA S OTER

N o final dos anos 70, o Theatro Mu-


nicipal do Rio de Janeiro acolheu o
Ballet du XXème Siécle por temporadas su-
cia de seus bailarinos, jovens de diferentes
nacionalidades de quem é exigido o rigoro-
so domínio da técnica clássica. Mas o impac-
cessivas. Naquela época, todos aguardavam to criado pela sua dança não chega nem de
ansiosos os próximos passos de Maurice longe à força do Béjart dos anos 70.
Béjart, através dos corpos de seus bailari- Nostalgia assumida, Béjart também não
nos ícones: Jorge Donn, Shonah Mirk, Ber- consegue abrir mão de seus sucessos passa-
trand Pie ou Yan Le Gac. Sua experiência dos. Em A rota da seda, criação de 1999, o
de teatro total, expressão que utiliza para coreógrafo passeia pela Ásia. Nessa viagem,
definir uma dança que integra as várias lin- algumas de suas criações anteriores ressur-
guagens das artes do espetáculo, influenciou gem, se infiltram, como as referências nada
de maneira decisiva toda uma geração de sutis ao inesquecível Bolero ou ao viril Go-
coreógrafos e bailarinos e trouxe para o lestan. Em cena, um jovem, misto de Marco
teatro uma multidão de novos espectadores, Polo e Tintin (sim, o jornalista belga impe-
seduzidos pelas criações de forte apelo po- rialista das histórias em quadrinho), atraves-
pular do coreógrafo francês. Maurice Béjart sa as duas horas de espetáculo, maravilha-
tem o mérito de ter formado fiéis plateias do pela sensualidade e pela beleza de cada
pelo mundo. país do Oriente. Imagens projetadas e pla-
Béjart está de volta, através do Béjart cas de sinalização garantem didaticamen-
Ballet Lausanne, companhia criada em te que cada país visitado possa ser reconhe-
1987, que apresentou neste fim de semana cido pelo espectador. Atrás da seda e do
dois programas no Theatro Municipal. No amor, o jovem realiza sua viagem iniciáti-
primeiro, A rota da seda e no segundo, Frag- ca, partindo de Veneza sob a música de Vi-
ments, Le Manteau e Sept Danses Grecques. valdi, viajando pelo mar e depois de moto
Assim como o Ballet du XXème Siècle, o através da Ásia para, obviamente, à Vene-
Béjart Ballet Lausanne prima pela excelên- za retornar numa síntese de sedas coloridas.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O Oriente sempre interessou ao coreógrafo, Akaky Akakievich, personagem de Gogol
como berço das danças sagradas e da união que remenda seu casaco com sacrifício até
entre dança e experiência teatral. No en- conseguir um novo casaco que lhe garante o
tanto, em A rota da seda,a viagem de Béjart sucesso. Le Manteau se apoia no talento
não vai além da superfície. clownesco de Roman, bailarino-ator que re-
Abrindo o segundo programa, Frag- sume as qualidades do teatro total de Béjart.
mentsreúne extratos de criações anteriores. Finalmente, Sept Danses Grecques fecha
Nessa seleção,apenas Dois estudos para uma a noite resgatando o vigor do Béjart de ou-
Dama das Camélias se destaca em meio a trora. Apoiada numa bela e simples ilumi-
peças que não compõem um conjunto nação, essa criação de 1983 desenvolve a
expressivo da obra de Béjart. geometria e a musicalidade das danças fol-
Gil Roman, diretor adjunto do Béjart clóricas gregas e utiliza o conjunto dos bai-
Ballet Lausanne e colaborador de Béjart larinos em construções que, em alguns mo-
desde 1979, é o ator central de Le Manteau, mentos, recriam as mandalas e a movimen-
outra obra de 1999. A qui o coreógrafo cons- tação de Bolero. De novo o passado, mas
trói, em narrativa linear, a trajetória de agora sentimentos menos nostálgicos.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
2001 CRÍTICAS

O GLOBO – 26 DE MARÇO DE 2001


Uma dança em busca da emoção imediata
SILVIA SOTER

O GLOBO – 4 DE MAIO DE 2001


Tecnologia feita de erros e acertos
SILVIA SOTER

O GLOBO – 25 DE MAIO DE 2001


Ana Botafogo é destaque em um raro equilíbrio de técnica e interpretação
SILVIA SOTER

O GLOBO – 22 DE JUNHO DE 2001


Entre o formalismo e a renovação
SILVIA SOTER

O GLOBO – 20 DE JULHO DE 2001


Graham dá brilho à noite americana
SILVIA SOTER

O GLOBO – 3 DE AGOSTO DE 2001


Kirov aposta na renovação em romper com a tradição do balé
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 3 DE AGOSTO DE 2001


Um Kirov renovado
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 6 DE AGOSTO DE 2001


Virtuosismo e sofisticação em uma experiência espetacular do balé
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 6 DE SETEMBRO DE 2001


Quando a dignidade dança
ROBERTO PEREIRA

61
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL – 30 DE SETEMBRO DE 2001
Em boa forma
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 3 DE OUTUBRO DE 2001


Construção coreográfica é ponto frágil na encenação
SILVIA SOTER

O GLOBO – 14 DE NOVEMBRO DE 2001


Festival confirma vocação de fazer pensar
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 27 DE NOVEMBRO DE 2001


O balé que antecipa o Natal
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 22 DE DEZEMBRO DE 2001


Dramas cotidianos em movimentos coreográficos
SILVIA SOTER

62
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 26 DE MARÇO • 2001

Uma dança em busca


da emoção imediata
Compañia Antonio Márquez: Jogo de sedução

S ILVIA S OTER

C riada em 1995, a Compañia Antonio


Márquez, em cartaz no Theatro Munici-
pal no último fim de semana, inaugurando a
ria do toureiro desesperado. Uma espécie
de Giselle espanhola, sensual porém doce e
conciliadora, que volta para libertá-lo de seu
temporada da série O Globo em Movimen- amor. A narrativa linear, a estrutura da com-
to, se apoia na larga experiência de seu cria- posição que alterna momentos de zapatea-
dor. Antonio Márquez trabalhou em impor- do com outros legendáveis, a ambientação
tantes companhias espanholas e acumula inú- cenográfica e o uso dos conjuntos remetem
meros prêmios e credenciais, com destaque às históricas influências recíprocas entre a
para o título de melhor bailarino espanhol dança espanhola e o balé clássico.
em 2000. O coreógrafo se orienta na busca Em seguida, Zapateado de Sarasate
das raízes da dança espanhola, pretendendo permite que Márquez explore todo seu
circular na contramão da tendência atual de virtuosismo e escape do lugar-comum.
alguns criadores cujas releituras do flamen- Esta obra exigente, criada por Felipe Sán-
co se espalham pelo mundo. O largo sorriso chez para o legendário Antonio Ruiz Soler,
de Antonio Márquez marca, logo de saída, seu atende às qualidades do intérprete Már-
campo de diferenças em relação a Antonio quez, que traz domínio técnico, precisão
Gades, por exemplo, um dos mestres que Már- e intensidade no momento mais sóbrio e
quez acredita superar. O sentimento, presen- interessante da noite.
te na dança contida e intensa de Gades, na Como não poderia deixar de ser, canto,
dança de Márquez dá lugar à emoção rasga- ritmo e dança se desafiam em cena em Mo-
da num jogo que seduz grandes plateias. vimiento Flamenco, passeio por diversos
Em Después de Carmen…, única peça da estilos do flamenco, peça que fecha a noite.
turnê brasileira coreografada por Antonio Mais uma oportunidade para que a compa-
Márquez, o criador começa sua história nhia confirme sua qualidade e garanta que
onde termina a ópera de Bizet, com a morte Antonio Márquez brilhe como grande astro
de Carmen. O protagonista é Escamillo, in- pop colocando na mão o público animado
terpretado por Márquez, enquanto Carmen que, no fim da noite de sexta-feira, vibrava
surge apenas como um espectro na memó- em palmas ousando tímidos olés.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 4 DE MAIO • 2001

Tecnologia feita
de erros e acertos
Paulo Mantuano/Dani Lima: Pesquisas em cena

S ILVIA S OTER

N o ambiente diverso da dança contem-


porânea, a interação entre a dança e
as novas tecnologias constitui uma impor-
aceitaram a proposta do evento de deixar
que suas pesquisas fossem atravessadas
pela tecnologia digital.
tante vertente de pesquisa e o interesse por Em Hoje, amanhã de ontem,Paulo Man-
essa área é compartilhado por criadores es- tuano provoca modificações na percepção
palhados pelo mundo. A arte tem circulado do espectador dentro da linha de investiga-
no campo da ciência, e o corpo se apresenta ção desenvolvida pelo coreógrafo,nos últi-
como laboratório privilegiado para este mos anos.O criador lança mão de diversos
encontro. Se hoje parece impossível disso- dispositivos como imagens projetadas no
ciar vida e tecnologia, é preciso lembrar que telão com edição prévia, imagens do espe-
há muito as artes vêm incorporando os re- táculo captadas em cena, música ao vivo
cursos tecnológicos a serviço da cena. Mis- amplificada pelo sistema surround, para
turados à técnica, discretamente infiltrados criar um ambiente sonoro e visual capaz de
ou visíveis, os meios tecnológicos de cada trazer o espectador para o centro da obra,
época dialogaram com a dança para ampliar tornando-o coautor. O trabalho corporal se
as possibilidades do corpo. Ou a bailarina apoia na repetição de quedas e saltos,opon-
romântica que sobrevoava o palco amarra- do o peso dos corpos reais às imagens do
da pela cintura não fazia uso de tecnologia? telão.Hoje, amanhã de ontem mostra como
Em sua quinta edição, o Dança Brasil o coreógrafo vem amadurecendo sua pes-
traz para a cena artistas brasileiros cujas quisa ainda que alguns ajustes sejam neces-
pesquisas incluem o uso da tecnologia. Ou sários para melhor dimensionar o papel da
melhor, obras em que a relação da dança tecnologia, tornando-a, talvez, mais trans-
com a tecnologia se faz visível. Nesta sema- parente e eficiente.
na de estreia, a Paulo Mantuano Cia. de Já a coreógrafa Dani Lima associa o di-
Dança e a Cia. de Dança Dani Lima divi- gital à impressão digital e incorpora a tec-
dem o palco. Duas companhias cariocas que nologia para investigar diferentes aspectos

64
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
da identidade. É evidente que Digital a presença do bebê. As telas construídas
Brazuca se divide em dois momentos dis- pelas caixas de papelão “esquentam” as
tintos, em duas peças autônomas que me- imagens digitais e imprimem intimidade
recem um tratamento diferenciado. No pri- aos relatos. Na contramão deste primeiro
meiro momento, a identidade é tratada momento, a tecnologia vira o centro das
como construção, mostrando de maneira atenções na segunda parte do espetáculo.
delicada, poética e divertida como o olhar Aqui, a interatividade, símbolo das possi-
do outro se integra às impressões individu- bilidades abertas pelas novas tecnologias,
ais e deixa marcas. Os dispositivos tecno- é explorada na relação entre os dois baila-
lógicos são empregados apenas para atra- rinos e entre bailarinos e espectadores,
vessar as diferentes camadas dessa identi- entre música e dança. Como uma brinca-
dade construída, trazendo para a cena fo- deira, este último duo denuncia a precarie-
tos de infância, depoimentos da rua e mer- dade de alguns recursos ditos de ponta e im-
gulhando no ventre da coreógrafa, grávi- provisa a partir do erro. Felizmente, espe-
da de oito meses, para extrair e amplificar cialidade incorporada pela dança brasileira.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 25 DE MAIO • 2001

Ana Botafogo é destaque em um raro


equilíbrio de técnica e interpretação
A megera domada: Cenários e figurinos
imprimem tom caricato ao balé
S ILVIA S OTER

O diálogo entre o teatro e a dança pro-


duz resultados diversos. Nos balés de
enredo a história a ser contada através da
Theatro Municipal dão conta da tarefa. Nor-
ma Pinna e Thiago Soares são intépretes
seguros nos papéis de Bianca e Lucêncio,
dança é garantida pela linearidade da es- garantindo aos pas-de-deux, beleza e preci-
trutura da narrativa. Momentos de pantomi- são. No fim de semana, o bailarino polonês
ma se alternam a outros de movimentação Flip Barankiewiecz teve atuação vigorosa
mais abstrata. Algumas criações primam e competente no papel de Petrúquio.
exatamente pelo equilíbrio perfeito entre Alguns bailarinos destacam-se pelo vir-
estes momentos. Em A megera domada, re- tuosismo na execução técnica; outros são ce-
montagem feita pelo Ballet do Theatro Mu- lébres por suas competências teatrais. Ra-
nicipal da coreografia de John Cranko a par- ros aqueles que conseguem aliar ambos os
tir de Shakespeare, o balé se aproxima tanto atributos. É o caso de Ana Botafogo. Para o
do teatro que, por pouco, a dança faria falta. público habituado a vê-la como Giselle ou
Para Cranko, o intérprete ideal deveria Coppélia, sua Katharina é um espetáculo à
conjugar eficiência técnica com personalida- parte. Seu requinte de interpretação é tal
de forte. Não é à toa que A megera domada que, por vezes, ela não é apenas uma Katha-
foi criada, em 1969, para Marcia Haydée, sua rina voluntariosa, explosiva e divertida, mas
bailarina ícone durante os 15 anos em que o parece citar Márcia Haydée. No pas-de-deux
coreógrafo inglês esteve à frente do Ballet final, uma sensual Ana brilha ao lado de Flip
de Stuttgart. A montagem carioca é assinada Barankiewiecz, despida da agressividade da
por Marcia, seu ex-parceiro de Stuttgard Ri- personagem.
chard Cragun e Jane Bourne. Os cenários e os figurinos contrastam
A megera domada é uma obra visivel- com a qualidade dos intérpretes, não permi-
mente exigente, impondo aos bailarinos tirem a agilidade necessária às rápidas tro-
inusitadas finalizações de passos e obrigan- cas de cena, e imprimem um tom demasia-
do-os a dosar comicidade e exatidão. Mais damente caricato à ambientação cênica.
do que em um brilhante desenho coreográ- O Ballet do Municipal acerta ao recorrer a
fico, é nas qualidades teatrais e na presença Shakespeare e a Cranko para uma fácil comu-
cênica de seus intérpretes, que essa peça de nicação entre obra e grande público, confirman-
Cranko se apoia. Os solistas do Ballet do do sua política de formação de plateias.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 22 DE JUNHO • 2001

Entre o formalismo
e a renovação
Balé do Teatro Guaíra /Contemporâneos
Brasileiros: Aposta na diversidade
S ILVIA S OTER

R esponsável por ter lotado o Maraca-


nãzinho há aproximadamente duas
décadas, a montagem de O grande circo mís-
quilíbrios no limite da irreversibilidade O
corpo que dança é explorado em sua capa-
cidade de desarticulação, e as coordenações
tico, do Balé do Teatro Guaíra, deixou mar- mais óbvias dos gestos são desmontadas
cas positivas em terras cariocas. A mistura para, em seguida, serem recompostas num
eficaz da música de Chico Buarque e Edu inteligente quebra-cabeça de peças inter-
Lobo com uma linguagem apoiada no balé cambiáveis. Logo nesta primeira obra fica
clássico seduziu plateias e conquistou para visível que hoje a competência do Guaíra
a dança, pelo menos temporariamente, um vai além da técnica clássica.
público pouco habituado a assisti-la. Em Trânsito, a música de Claudio
O Balé do Teatro Guaíra volta, sob di- D auesberg e a dança de Ana V itória se
reção de Suzana Braga, e traz ao Teatro fundem numa viagem pela world music.
João Caetano, até domingo, obras dos co- Numa coreografia com forte inspiração tri-
reógrafos Ana Vitória, Tíndaro Silvano, bal, a criadora imprime sua “marca regis-
Roseli Rodrigues e da dupla Chameki & trada” na movimentação precisa e demonstra
Lerner, no programa Contemporâneos que sua pesquisa começa a se flexibilizar e
Brasileiros. Mais do que uma simples re- ganha novas fronteiras.É interessante no-
novação de repertório, a escolha destes tar que, apesar de vir investindo em experi-
artistas é uma aposta na capacidade des- ências fora do formato solo,território conhe-
ta companhia experiente em circular por cido e dominado por Ana V itória, em Trân-
linguagens diversas. sito,otratamento dos conjuntos ainda não
Quatro paredes reduzem os limites do possui a sofisticação e a sutileza de seus so-
palco e aproximam os bailarinos em Nem los.Sendo quase injusto destacar atuações
tudo o que se tem se usa, da dupla Chameki numa companhia tão rica de bailarinos ca-
& Lerner. Aqui o peso de cada segmento pazes,a presença de Mariana Rosário se
corporal é abandonado, provocando dese- impõe no belo solo de Trânsito.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
Fechando a noite,O segundo sopro,de dança moderna. Embora pareça inovar
R oseli Rodrigues,resgata elementos de trazendo poeira e água para a cena, o for-
um Guaíra de outrora e oferece ao públi- malismo marca o uso desses elementos,
co algo que ele já viu, reconfortando-o amarrando-os a um vocabulário restrito e
com a familiaridade. Na contramão das ineficiente. Apesar disso, nesta turnê, o
outras obras da noite, O segundo sopro Balé Guaíra se reafirma, maduro e reno-
caminha, sem criatividade, nos trilhos da vado, no cenário da dança brasileira.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 20 DE JULHO • 2001

Graham dá brilho
à noite americana
3 x América: Ballet do Municipal mostra
versatilidade e competência em programa desigual

S ILVIA S OTER

A lgumas noites se destacam pela qua-


lidade excepcional das peças apre-
sentadas, enquanto outras funcionam pela efi-
com carinho e generosidade, sobre sua obra.
No meio da cena, um longo banco flexí-
vel serve de pouso temporário e de impulso
ciência do conjunto das obras. O espetáculo para novos movimentos. Bruno Cezário se
3 x América, em cartaz no Theatro Munici- destaca, plenamente à vontade na técnica
pal com a companhia da casa, até 22 de ju- moderna e na densidade de Graham.
lho, encontra-se, certamente, no segundo caso. Os recém-premiados Roberta Marques
A América está aqui representada por três e Thiago Soares, intrusos e muito bem-
obras distintas em estilo e em brilho. Uma vindos, dançam Capricho, de Tíndaro Silva-
quarta coreografia, um pas-de-deux de Tín- no. Despretensioso e divertido, esse pas-de-
daro Silvano, foi acrescida ao programa inicial. deux brinca com a cumplicidade e a rivali-
Milontango, de Gustavo Molajolli, atual dade de jovens bailarinos.
diretor da companhia, abre a noite trazendo Com música de Milton Nascimento, Nas-
para a cena os competentes primeiros cimento, de David Parsons, traz o que há de
bailarinos do Theatro Municipal, numa cria- leve e de não muito consistente na dança
ção que prioriza os conjuntos. Molajolli cria americana. Há muito admirado pelo públi-
um ambiente estilizado do mundo do tango ar- co carioca, Parsons se inspira na movimen-
gentino, no qual não podem faltar sedução, tação brasileira através de um olhar bastan-
conquista, disputa e humor. Numa composição te superficial. No entanto, na inexpressiva
sóbria, porém previsível, o coreógrafo busca as Nascimento, a boa qualidade de execução e
cores de uma latinidade dançada nas pontas. o prazer estampado no rosto dos bailarinos
A dança moderna está representada por acaba por contagiar e seduzir.
um de seus maiores símbolos: Martha Mas, com certeza, o grande presente que
Graham. Maple Leaf Rag, última criação da 3 x América oferece ao público é poder ver
coreógrafa é, sem dúvida, o ponto alto da a companhia do Ballet do Theatro Munici-
noite. Nesta peça, a morte convive com o pal aproveitada integralmente, com versa-
vigor da juventude e Graham se debruça, tilidade e competência.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 3 DE AGOSTO • 2001

Kirov aposta na renovação


em romper com a tradição do balé
Manon: Obra de MacMillan flexibiliza a
linguagem clássica e expõe novos ventos no grupo russo

S ILVIA S OTER

P ela terceira vez em cinco anos, o Rio


de Janeiro recebe o Ballet Kirov, um
dos símbolos de excelência no cenário do
O inglês Keneth MacMillan pertence a
uma geração de coreógrafos que foi profun-
damente influenciada pelas primeiras tur-
balé clássico mundial. Iniciando sua turnê nês das grandes companhias soviéticas pela
brasileira no palco do Theatro Municipal do Europa. Vale lembrar que o Kirov faz sua
Rio, onde se apresenta até domingo, o Ki- primeira turnê importante no Ocidente em
rov abriu a temporada com Manon, coreo- 1961. Sem que haja, obviamente, qualquer
grafia criada em 1973 pelo inglês Keneth herança direta, é possível, no entanto, detec-
MacMillan. Um coreógrafo inglês, uma obra tar laços quase familiares entre o Kirov e a
de 1973. Sinal dos tempos. obra de MacMillan. Manon se integra ao
Para garantir sua permanência no time momento em que coreógrafos revisitam o
das mais importantes companhias de balé balé, trazendo novos temas – que nem sem-
do mundo, a tradição abriu espaço para a pre desfilam sentimentos nobres – e flexi-
renovação. Makhar Vaziev, diretor da com- bilizando a linguagem clássica sem, no en-
panhia desde 1995, vem investindo com se- tanto, colocar em risco os alicerces e os fun-
riedade no sentido de trazer obras que ex- damentos do balé narrativo.
pandam o território de ação do Kirov. Ou- Manon, balé em três atos baseado no li-
tros coreógrafos, outros pensamentos orga- vro do abbé Prévost, século XIII, se constrói,
nizados em dança, sem que isso signifique em termos coreográficos e dramatúrgicos,
uma ruptura com a qualidade e com o re- sobre os contrastes. A jovem e ambiciosa
pertório tradicional. Vaziev percebeu tam- Manon é uma heroína contraditória e corrup-
bém que, para acompanhar essa mudança tível. A França pré-revolução serve como
estética, era necessário que os bailarinos cenário ideal para opor a opulência dos sa-
recebessem uma formação artística mais lões aristocráticos à pobreza e à ambição de
ampla e flexível. A temporada 2001 de- ascensão social. Coreograficamente, MacMi-
monstra que o Kirov está em bom caminho. llan alterna o lirismo e a nobreza do gestual

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
de Manon e de Des Grieux, com a picardia e ou expressões e presença viril. Na noite de
a comicidade de Lescault e sua amante. Nos estreia, Irma Nioradze imprimiu dramati-
dois casos, os pas-de-deux são eficientes e cidade levemente exagerada à Manon de
criativos.Marca do talento de MacMillan. MacMillan. Natalya Sologub se destaca, ilu-
Precisão e vigor são qualidades comuns minando a cena com a sua presença, no pa-
a toda a companhia. No papel do apaixona- pel de amante de Lescault.
do Des Grieux, Igor Zelensky prova que é Bons ventos trazem o Kirov de volta ao
um bailarino raro. Sem qualquer traço de Rio. Bons ventos o renovam para que per-
afetação ou maneirismo,Zelensky alia ex- maneça encantando suas fiéis plateias e
celência técnica, total economia de gestos conquistando outras.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA • 3 DE AGOSTO • 2001

Um Kirov renovado
Com Manon, balé russo começa a se desengessar

R OBERTO P EREIRA

O Ballet Kirov não é mais o mesmo. Na


noite de quarta-feira, em sua estreia
no Rio, no Theatro Municipal, a mais famo-
grafias que passeiam entre gesto e dança
sem, contudo, demarcar onde termina um
e começa o outro. Os quatro pas-de-deux dos
sa companhia de balé do mundo pôde mos- personagens principais, divididos nos três
trar que está passando por uma fase de tran- atos, são uma aula de como resolver coreo-
sição. Seu novo diretor, Makhar Vaziev, ex- graficamente situações dramáticas, sem
bailarino da companhia, parece estar inje- necessariamente apelar para a obviedade
tando novas possibilidades cênicas no gru- com a qual contavam muitos dos balés de
po, o que parecia, até então, algo impossível repertório.
naquele modelo engessado do balé russo. O Ballet Kirov estreou Manon há pouco
Quem assistiu às suas apresentações há três mais de um ano, o que significa ainda pouco
anos e tiver a oportunidade de rever agora, tempo para uma companhia acostumada a
vai notar que, finalmente, o Kirov percebeu dançar obras que integram seu repertório
que os tempos, e também o balé, são outros. há mais de um século. Nesse sentido, pode-
A escolha de uma obra como Manon se observar na atuação dos dois primeiros
para integrar seu vasto repertório, apresen- bailarinos que essa nova forma de interpre-
tada em sua estreia na cidade, indicia essa tação exigida por MacMillan ainda carece
importante fase de transição. Coreografia de ajustes no estilo russo tão marcante. En-
que teve sua estreia em 1974, com o Royal quanto o inteligente Igor Zelensky, na noi-
Ballet, assinada pelo inglês Kenneth Mac- te de estreia, teve desempenho impecável,
Millan, Manon é um exemplo de como o mesclando com rigor seu estilo nobre com
balé pode se utilizar da narrativa sem se uma economia dramática, Irma Nioradze
prender meramente à tarefa de contar his- parecia ainda guardar resquícios daquele
tória. A dramaturgia que ali se constrói velho entendimento do que é ser expressi-
parece trafegar na definição exata do perfil vo, o que, para uma personagem como Ma-
de cada personagem dissolvida nas coreo- non, sempre resvala no perigo de se tornar

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
caricato. Frivolidade e sedução devem dados, desafio se transformou em compe-
aparecer em pinceladas sutis nessa dama tência, numa noite memorável.
do século XVIII sem, contudo, ser manei- Nesse sentido, aliar tradição, escola e
rista. Nessa nova fase, então, balés como dinheiro parece ser mesmo a receita para
Manon funcionam como um belo exercício uma companhia de balé de repertório.
de interpretação. Acrescentando aí uma direção inteligente
Entretanto,a companhia como um todo e instigante, o Ballet Kirov vem mostrando
mostra ter aceitado bem o desafio.Com seu que a coragem para a mudança é talvez a
corpo de baile renovado,grandes solistas chave para a continuação de uma história
(merece destaque Natalya Sologub, na noi- que não deve ficar presa ao passado, mas sim
te de estreia), cenários e figurinos bem cui- se lançar com qualidade para o futuro.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 6 DE AGOSTO • 2001

Virtuosismo e sofisticação em uma


experiência espetacular do balé
O corsário: Balé Kirov se despediu do Rio com
uma produção de altíssima qualidade

S ILVIA S OTER

O Ballet Kirov despediu-se do Rio on-


tem em direção a outras capitais bra-
sileiras oferecendo ao público carioca no fim
Dentro dessa estrutura, ao corsário de
Conrad e à bela Medora, protagonistas da
trama, juntam-se outros papéis de destaque
de semana a versão integral de O corsário, como Lankedem, o mercador de escravas
de Marius Petipa. Mesmo aqueles que não e o escravo Ali. Com algumas variações
são grandes conhecedores de balé, certa- exigentes, o papel de Conrad se apoia, so-
mente reconhecerão alguns extratos de O bretudo, na intensidade teatral e Ilya Kuz-
corsário, como o pas-de-trois de Medora, netsov dá conta da tarefa com brilho. O
Conrad e o escravo Ali, no segundo ato, próprio Petipa, intérprete conhecido como
transformado por Tchaboukiani, nos anos 30, excelente mímico, destacou-se como Con-
em pas-de-deux e eternizado, nos anos 70, rad. A longilínea Svetlana Zakharova ga-
por Rudolf Nureiev. rante segurança e brilho às suas variações.
Mas em sua versão integral, com direito No papel de Lankedem, Andrian Fadeev
a duas cenas deslumbrantes de prólogo e imprime agilidade e precisão. Farukh Ru-
epílogo – que remetem aos quadros de De- zimatov alia, com perfeição, execução téc-
lacroix –, O corsário se veste de luxo, exo- nica e devoção à Medora. A relação do tri-
tismo e bravura, bem ao gosto dos balés lon- ângulo Conrad, Medora e Ali mantém-se
gos do século XIX. intensa até no momento do agradecimen-
Marius Petipa, bailarino e coreógrafo fran- to, um detalhe que revela a sofisticação da
cês, migrou para a Rússia em 1847, onde ficou montagem.
até sua morte. Criador de mais de 60 balés, Pe- Levando em conta que mesmo uma ver-
tipa foi mestre em associar o ballet d’action fran- são original é trabalhada pelo tempo e atuali-
cês ao virtuosismo da escola italiana. O fio nar- zada, inevitavelmente, pelos corpos dos bai-
rativo é desenvolvido aliando doses equili- larinos de hoje, assistir a O corsário de Petipa
bradas de seqüên-cias de inspiração folcló- dançado pelo Kirov é, com certeza, o que há
rica, pantomima e variações virtuosas. Ain- de mais próximo de experimentar uma via-
da hoje, as variações femininas e masculi- gem no tempo. O virtuosismo dos intérpretes
nas de Petipa servem de termômetro de com- aliado à grandiosidade da música, dos cenári-
petência de bailarinos étoiles (literalmente os, dos figurinos e das danças de conjunto faz
estrelas) de todo o Ocidente. de O corsário exemplo do balé espetacular.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 6 DE SETEMBRO • 2001

Quando a dignidade dança

Espetáculo com adolescentes da Maré compensa


frágil dramaturgia com coreografia exuberante

R OBERTO PEREIRA

O espetáculo Folias guanabaras, que


teve sua estreia terça-feira no SESC
Tijuca, representa uma continuação da pes-
Nesse sentido, se há um descompasso
entre uma teatralidade mais exagerada
da atriz Rosi Campos ao lado de um con-
quisa que o coreógrafo e professor Ivaldo tido Seu Jorge, se há a presença de uma
Bertazzo vem desenvolvendo há 25 anos: diva como Elza Soares acompanhada por
a construção de uma dança em corpos de músicos competentes, conduzidos de modo
pessoas que não a exercem profissional- preciso por Ana Fridman, há também o
mente. Essas pessoas, Bertazzo chama de modo exuberante como as danças do es-
cidadãos-dançantes. Neste espetáculo, con- petáculo costuram uma dramaturgia que,
tudo, o fato de que se trata de um grupo de por vezes, deixa revelar sua fragilidade,
66 crianças de uma comunidade da fave- sobretudo no texto.
la da Maré, do Rio, faz com que a conexão A competência de Ivaldo Bertazzo re-
cidadão e dançante ganhe dimensões bas- dimensiona naqueles corpos uma dignida-
tante peculiares, pois localiza e recupera de capturada no ato de dançar. Apenas o
no corpo que dança a dignidade de expres- modo que isso é feito, através basicamente
são que aqueles corpos comportam. de danças orientais, parece sufocar uma
Este é o segundo espetáculo de Bertazzo movimentação que por vezes escapa em
com a mesma comunidade. No ano passado, alguns momentos reveladores, como os tre-
através de Mãe gentil, a primeira convivên- chos de dança de rua. Talvez buscar uma
cia do coreógrafo com aquelas crianças in- combinação do que se encontra ainda em
diciava uma continuidade inevitável e bas- estado latente naqueles corpos com habi-
tante profícua. Isso pode ser visto agora, lidades próprias do seu meio e o rico ensi-
quando competência e uma produção colos- namento que o coreógrafo ali disponibili-
sal garantem um resultado de um profissio- za parece ser o desafio que se impõe. En-
nalismo que já é marca do coreógrafo. No- quanto isso, Folias guanabaras emociona
vamente, a dança aparece dialogando com justamente quando o cidadão-dançante re-
outras linguagens cênicas, o que o próprio afirma uma lição antiga, que tanto a ver-
coreógrafo justifica como uma recuperação dadeira democracia quanto a dança nas-
do Teatro Musical Brasileiro. cem no corpo.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • DOMINGO • 30 DE SETEMBRO • 2001

Em boa forma
Balé do Municipal supera desafios
de O lago dos cisnes

R OBERTO P EREIRA

A estreia, na última quinta-feira, de


O lago dos cisnes, pelo Ballet do
Theatro Municipal, mostrou, mais uma
No pas-de-deux do segundo ato, por
exemplo, a moldura fundamental que o
conjunto de cisnes forma ao lado do casal
vez, que a principal companhia clássica do principal é simplesmente transformada
País continua em forma para obras de tal em uma coreografia em filas, não permi-
envergadura. Para essa montagem, foi tindo, desse modo, que os claros princípios
convidada uma das principais bailarinas acadêmicos de construção coreográfica
do século XX, a russa Natalia Makarova, apareçam. No todo, a montagem de Maka-
que assina nada menos que a direção,a rova parece pouco dançante, de certo
concepção e a coreografia. modo truncada e, muitas vezes, mal resol-
Parece ser,no entanto,exatamente por vida nos conjuntos, flagrante nas danças
essa assinatura por demais carregada de nacionais do terceiro ato.
Makarova que um hiato entre a ideia de Enquanto o bailarino convidado, o argen-
remontagem de uma obra de repertório e tino Iñaki Urlezaga, primeiro bailarino do
a de sua recriação emperre o bom desem- Royal Ballet em Londres, cumpriu apenas
penho dos bailarinos.As linhas perspectí- corretamente sua tarefa como o príncipe
vicas construídas com o corpo de baile, Siegfried, nossa primeira bailarina Cecília
com as quais estamos acostumados a ver Kerche brindou o público com uma perfor-
nas obras de Petipa, e que tão bem ensi- mance brilhante. A qualidade de sua dança
nou ao seu discípulo Ivanov,diluem-se em encontra em sua conformação física o lugar
Makarova. O resultado é uma certa ina- exato para o desempenho do papel. Madu-
bilidade na construção coreográfica dos ra, Cecília provou ser uma bailarina acadê-
desenhos que deveriam estar ali para con- mica por excelência, o que a faz construir
duzir o olhar do espectador à história de uma ótima Odille, o cisne negro, enquanto
amor entre o príncipe e a princesa enfei- sua romântica Odette, o cisne branco, ainda
tiçada em cisne. carece de ajustes.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Marcelo Misailidis acertou no tom se impõe. Tal qualificação apenas espe-
dramático de seu bruxo Rothbart, papel ra uma oportunidade melhor para se dar
que exige maturidade, e André Valadão a ver. É o que o público carioca também
foi, sem dúvida, a grande estrela do pri- espera. Nessa recriação assinada por
meiro ato, no papel de Benno. Isso prova Makarova, sente-se saudade da pena co-
como a companhia está cada vez mais reográfica dos grandes mestres Petipa e
qualificada para os desafios aos quais ela Ivanov.

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O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUARTA-FEIRA • 3 DE OUTUBRO • 2001

Construção coreográfica é
ponto frágil na encenação
O lago dos cisnes: Makarova faz montagem
eficiente de peça mítica do balé

S ILVIA S OTER

N a última quinta-feira, o público cario-


ca lotou o Theatro Municipal para a
esperada estreia de O lago dos cisnes, gran-
de intérprete perfeita de Odette/Odile, para
a criação coreográfica. Ao tentar se desviar
da herança de Petipa e Ivanov, a coreogra-
de aposta da programação da companhia da fia de Makarova faz com que os conjuntos
casa, no ano de 2001. percam parte da força e do sentido.
Da criação da música por Tchaikovsky, Na noite de estreia, Cecília Kerche e o
no final do século XIX, até hoje, O lago dos bailarino argentino Iñaki Urlezaga estive-
cisnes recebeu diferentes tratamentos com ram nos papéis principais. Ele, primeiro bai-
variações do libreto, mas foi a versão de larino do Royal Ballet, cumpriu seu
Petipa e Ivanov que serviu de estrutura para Siegfried com segurança, porém sem bri-
as leituras que se popularizaram pelo Oci- lho. Já Cecília Kerche, sobretudo no tercei-
dente. O virtuosismo e a pompa dos primei- ro e no quarto atos, explora ao máximo
ro e terceiro atos assinados por Petipa con- suas qualidades físicas numa performan-
trastam, sem que no entanto se perca a uni- ce de técnica irretocável. André Valadão
dade, com o lirismo e a geometria das ce- destaca-se como Benno e Marcelo Misaili-
nas à beira do lago, desenhadas por Ivanov. dis constrói um Rothbart com doses preci-
Em inúmeras versões posteriores, a coreo- sas de sedução e maldade. O corpo de bai-
grafia do segundo ato é mantida, pela efi- le imprime homogeneidade e harmonia,
ciência da construção de Ivanov. imprescindíveis aos desenhos de conjunto.
A russa Natalia Makarova, uma das A maturidade da companhia garante
grandes estrelas do balé do século XX, assi- que montagem carioca guarde a magia que
na, na versão do Municipal, direção, concep- faz com que, há mais de um século, a figura
cão e coreografia. Se a direção de Makaro- da bailarina-cisne – cujos tronco e braços
va imprime eficiência e profissionalismo à ondulam negando a anatomia ao inventar
montagem, é na construção coreográfica articulações – resista no tempo. Se o amor
que O lago possui seu ponto mais frágil. de Siegfried pode transformar Odette no-
O visível desequilíbrio entre as variações vamente em uma jovem, no imaginário oci-
masculinas e femininas sugere que a coreó- dental, a bailarina clássica resistirá sem-
grafa apoia-se demasiado na sua trajetória pre a se separar da figura mítica do cisne.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUARTA-FEIRA • 14 DE NOVEMBRO • 2001

Festival confirma
vocação de fazer pensar
Panorama RioArte de Dança:
Vanguarda da cena internacional
e diversidade da dança carioca
destacaram-se na décima edição do evento

S ILVIA S OTER

N o último domingo, o Rio despediu-se


do mais importante e intenso even-
to da dança contemporânea carioca. O dé-
formação de plateia que se confirma pela
absoluta eficiência.
Consolidando-se, definitivamente, na
cimo Panorama RioArte de Dança, nessa rota dos festivais da vanguarda da dança es-
edição comemorativa, espalhou-se pela trangeira, ao partilhar sua programação
cidade lotando as plateias do Teatro Car- com importantes festivais como o holandês
los Gomes, do Espaço Sérgio Porto e va- Springdance ou o canadense Nouvelles
zando para outros locais com programa- Danses, o Panorama trouxe para o Rio cri-
ções de vídeo e de vídeo-instalação de adores que, ao lado de artistas como Jérô-
Maurício Dias e Walter Riedweg, nos Ar- me Bel e Xavier Le Roy, convidados dos
cos da Lapa. Em quase todas as 12 noites anos anteriores, fazem parte de uma gera-
de festival, a programação foi dobrada, ção inquieta e ativa que vem desenhando
aumentando a oferta e a possibilidade de os novos contornos da dança contemporâ-
escolha do público e fazendo com que al- nea. Este ano foi a vez de o público carioca
guns espectadores zarpassem de um tea- entrar em contato com os trabalhos do aus-
tro ao outro, numa maratona cansativa, tríaco Willi Dorner, do alemão Thomas
mas certamente compensadora. Feliz- Lehmen, do francês Boris Charmatz (que
mente, a partir desse ano, a Secretaria das fez um duo com Dimitri Chamblas e ain-
Culturas garante o Panorama RioArte de da um trio), do iraniano Hooman Sharifi e
Dança no calendário oficial da cidade. do suíço Gilles Jobin. Mas o que essa ge-
Aposta acertada, já que é visível que a ração tem de tão relevante? Quem são
estrutura do festival amadureceu nos últi- esses coreógrafos que o Panorama tem
mos anos, assim como, paralelamente e de escolhido nos últimos anos?
modo inextrincável, o público cresceu em Os anos 90 viram surgir na Europa um
número e em interesse, numa política de grupo de criadores que, para grande parte

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
da crítica internacional, equivale, em cria- vem e a movimentação do intérprete, em
tividade e importância, à geração da Judson simultaneidade. O agora trio Ikswalsinats
Church, berço da dança pós-moderna continua ressaltando a persona de seus in-
americana. Ainda que sem uma herança térpretes, tocando o teatro e as artes plásti-
direta, esses criadores resgatam a ideia da cas num jogo de cena milimetricamente
democracia no corpo e na cena, conceito de construído.
partida que permite que cada elemento que No inesquecível The Moebius Strip, a
compõe a representação possua valor equi- movimentação dos bailarinos serve de con-
valente, podendo ser explorado sem uma torno para o espaço, a grande estrela da peça
hierarquia definida. E permite, igualmente, de Gilles Jobin. O espectador é hipnotica-
que o movimento circule pelo corpo sem mente transportado pela repetição dos des-
respeitar uma ordem estabelecida pela cons- locamentos e pelo ambiente visual ambíguo
trução de uma técnica instalada no corpo nos modos da Op-Art, numa subversão de
que dança. O movimento pode ser apenas planos e direções.
funcional; a identidade do artista, sua bio- As parcerias internacionais com o Bri-
grafia, suas características físicas e cinéti- tish Council, a Alliance Française, a AFAA,
cas são sublinhadas e contrabandeadas a Consulado Geral da França e o Goethe
ponto de borrar o corpo real e o construído. Institut permitiram ainda que o Rio assis-
A dança, enquanto linguagem, expõe seus tisse entre os convidados de fora, pela pri-
limites em cena, e outros modos de relação meira vez, à Compagnie à Fleur de Peau,
entre obra e público são convocados para, de Michael Bugdham e da brasileira De-
finalmente, colocar em xeque a própria nise Namura, residente na França. A re-
ideia de representação. trospectiva de cenas dessa dupla confir-
Parte dessas questões surge, também, em mou a maturidade e a seriedade da pes-
algumas obras dos criadores cariocas este quisa realizada por eles no diálogo entre
ano. É o caso de A paisagem daqui é outra, dança e teatro. Enquanto a inglesa Rose-
de Márcia Rubin. Nesta peça simples e pre- mary Butcher presenteou a plateia do Es-
cisa, criadora e criatura se confundem, num paço Sérgio Porto, por duas noites conse-
jogo de identidades que se revela junto com cutivas, com uma demonstração do pro-
a exposição dos descaminhos de um proces- cesso de criação e composição de sua pró-
so de criação.De forma diferente,já que a xima peça, logo depois de um interessan-
dança ainda guarda muitos de seus traços te e bem dançado Scan.
de identidade, mesmo se borrando com ou- A presença das companhias cariocas
tras artes,Vaidade,da Cia. Dani Lima, mer- nessa edição deixa claro que cada criador
gulha de forma poética, bem-humorada e caminha em trilhas de investigação bem
quase melancólica, no olhar do outro como delineadas, produzindo uma saudável e ne-
construção da identidade do sujeito.Eu e meu cessária diversidade. Joaquim Maria, de
coreógrafo no 63, do jovem e competente Márcia Milhazes, preciso e delicado como
Bruno Beltrão,cria para o espectador uma uma renda, traz a atmosfera de Machado
experiência quase telepática de comunica- de Assis numa movimentação incessante
ção entre as construções mentais de um jo- e prolixa que, aliada à pesquisa musical,

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
sonoriza e colore a relação do casal em Além do Cena 11, os coreógrafos-intér-
cena. A Esther Weitzman Cia. de Dança pretes Martha Soares e Marcelo Gabriel
promoveu em cena o encontro entre três trouxeram para o Rio os ares da pesquisa
intérpretes de uma mesma geração, parti- de outros estados. O homem de jasmim, da
lhando referências e o prazer da dança. criadora paulista, discute de modo obsessivo
Palimpsesto, de Paulo Caldas, mergulha o corpo que cria apesar do encarceramento
ainda mais fundo no fluxo contínuo de e do desmantelamento da doença mental. Já
impulsos que entrelaçam e suspendem no o Útero cromosserial, de Marcelo Gabriel,
tempo o encontro amoroso. A Ana Vitória circula em terreno perigoso, preso num ema-
Cia. de Dança dividiu com o público o ranhado de referências autocentradas.
evidentemente ainda embrionário Asè, Os novíssimos, tarde que reúne experi-
investida da coreógrafa nas qualidades de mentações de coreógrafos emergentes, teve
movimentação dos orixás. Agora em ru- sua segunda versão, confirmando sua rele-
mos tão claros, resta aos criadores, como vância ainda que necessite encontrar um
próximo desafio, a busca de um ritmo mais ritmo mais ágil para o concentrado de pe-
enxuto para os espetáculos que, muitas quenas peças.
vezes, diluem o conteúdo numa duração A democratização do acesso aos espetá-
extensa demais. culos através de ingressos mais baratos, a
As discussões da plateia-foyer, oportu- continuidade da política municipal de apoio
nidade de troca de impressões entre cria- à dança, a ampliação do raio de ação do fes-
dores e público iniciadas na edição do ano tival na multiplicação das atividades e dos
passado, consolidaram-se, ampliando seu espaços de apresentação, associadas às as-
espectro de ação. Os espetáculos Suddenly, sinaturas de curadoria de Lia Rodrigues e
Anyway, Why all this ? While I…, da Impu- Roberto Pereira, contribuíram de modo de-
re Company de Hooman Sharifi, e Nina, do finitivo para o sucesso do evento.
Cena 11 de Florinanópolis, anteciparam as Nesses anos de existência e resistência,
discussões do seminário Corpo em risco, o Panorama se construiu mais de acertos do
encontro de pesquisadores de áreas dife- que de erros. Definiu uma linha curatorial
rentes, obra e público, que agregou pontos coerente sem que isso representasse ausên-
de vistas diversos às noites de segunda e cia de diversidade, o que demonstra que
terça-feira. As peças assistidas e os criado- continuar é preciso. O décimo ano do Pano-
res também colaboraram com seus pontos rama confirma que a permanência é condi-
de vista. ção fundamental para a transformação.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 27 DE NOVEMBRO • 2001

O balé que
antecipa o Natal
Atuação do corpo de baile do Municipal em
O quebra-nozes renova, com qualidade, a antiga tradição

R OBERTO P EREIRA

A montagem de O quebra-nozes na
época do Natal faz parte de uma tra-
dição seguida por várias capitais do mun-
ela vem atravessando em sua carreira. Jun-
tos, os dois viveram respectivamente, a rai-
nha e o príncipe das neves. A produção, que
do, com as mais importantes companhias de envolve inúmeros figurinos e cenários, além
dança, em diferentes montagens. Esse balé de iluminação, também funciona muito bem
de 1892 traz consigo todo o peso de nomes dentro do espírito do balé. Mas é o desem-
como Lev Ivanov, seu primeiro coreógrafo, penho brilhante do corpo de baile que cha-
e Tchaikovski, um dos primeiros composito- ma mais atenção, este ano.
res a emprestar maior dignidade à música A atuação do grupo esteve tão coesa e
feita especialmente para a dança, até então. segura, que coloca a companhia num nível
Aqui no Brasil, podemos contar com a de qualidade internacional. Isso pôde ser ob-
versão de Dalal Achcar, que confere à obra servado, por exemplo, na dança dos flocos de
uma assinatura coreográfica bastante pró- neve e na valsa das flores, momentos emble-
pria, sem, contudo, fugir da essência da ideia máticos do balé. Mas é, sobretudo, em algu-
original. Na nova montagem, que teve sua mas performances individuais que se pode
estreia no último sábado pelo Ballet do vislumbrar futuros solistas e primeiros bai-
Theatro Municipal, a cidade do Rio de Ja- larinos, como Wellington Gomes, interpretan-
neiro teve a oportunidade de contar, mais do o boneco, Ronaldo Martins, na dança rus-
uma vez, com um dos símbolos natalinos sa, e o trio Regina Ribeiro, Rodrigo Negri e
mais fortes e, o que é mais importante, com René Salazar, na dança dos mirlitons.
a qualidade que ele exige. A montagem desse balé pela nossa prin-
Mencionar como a primeira bailarina cipal e mais antiga companhia brasileira já
Cecília Kerche esteve absolutamente impe- é, sem dúvida, uma tradição. Mas é a quali-
cável ao lado do bailarino convidado Mar- dade de seus bailarinos que faz com que essa
celo Gomes, estrela do American Ballet tradição se transforme também num dos
Theater, parece ser dispensável, quando se melhores presentes de Natal para a cidade
acompanha o momento especial pelo qual do Rio de Janeiro.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 22 DE DEZEMBRO • 2001

Dramas cotidianos
em movimentos coreográficos
Rua Alice 75 – Quartos de aluguel:
Híbrido de dança, artes visuais e teatro

S ILVIA S OTER

U ma porta estreita separa a calçada da


Rua Alice do passeio que a Cia. de
Dança Regina Miranda preparou para os es-
choca ou agride. Nos quartos/quadros habitam
várias épocas e seus personagens. O passeio
pela casa se transporta no tempo.
pectadores de Rua Alice 75 – Quartos de Há um roteiro proposto pelos corredores;
aluguel. Durante meses,Regina Miranda e no entanto, cabe ao espectador escolher o
seus colaboradores colecionaram histórias tempo de estar em cada cena, indo e vindo,
e impressões sobre os casarões dessa rua no demorando-se ou atravessando rapidamen-
bairro de Laranjeiras.A partir das histórias te as diversas situações separadas pelas pa-
e de seus personagens,recriaram, na sede redes frágeis. Assim, não há possibilidade de
da companhia, o ambiente arquitetônico,so- linearidade na construção dramatúrgica.
noro e afetivo das casas de cômodos.Junto À medida que o passeio avança, alguns
com a Cia. Regina Miranda, alguns mora- gestos ganham repetições, inversões, dila-
dores da Rua Alice integram o espetáculo, tações no tempo. Destacam-se e começam
borrando a linha entre ficção e realidade.A a desenhar um tecido coreográfico que
aparente simplicidade da estrutura desse será transformado em sequências de dan-
passeio/espetáculo revela, progressivamen- ça nas duas últimas cenas. Aos poucos, os
te, sua riqueza e complexidade. gestos cotidianos tornam-se movimento e
A partir da antessala, 30 visitantes seguem coreografia.
otrajeto que se impõe através dos corredores. Rua Alice 75 – Quartos de aluguel se
Em cada cômodo,uma cena. Pequenos dramas constrói na zona de trânsito entre dança,
cotidianos são revelados em quartos/quadros, artes visuais e teatro. Se logo de início essas
expondo intimidades,tornando público o pri - linguagens se misturam, no fim aparecem
vado.Cada ambiente é assinado por um artis- destacadas, coabitando a cena, mas com con-
ta, o que reforça o caráter singular das insta- tornos bem definidos. A dança passa a exis-
lações.A Cia. Regina Miranda joga eficiente- tir, nítida e reconhecível. Com certeza, nos
mente com a atração e a curiosidade desper- momentos mais bonitos de Rua Alice 75 –
tadas pela possibilidade de observar a intimi- Quartos de aluguel, não existem paredes
dade alheia. Mas a intimidade revelada não separando linguagens.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
84
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
2002 CRÍTICAS

O GLOBO – 6 DE MARÇO DE 2002


Uma companhia sem a cara do Rio
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 9 DE MARÇO DE 2002


Um projeto ainda frágil
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 14 DE MARÇO DE 2002


O encontro do gesto e do movimento no palco
SILVIA SOTER

O GLOBO – 19 DE MARÇO DE 2002


Passos, música e interatividade embalam celebração coreográfica
SILVIA SOTER

O GLOBO – 25 DE MAIO DE 2002


Rostropovich rouba a cena e faz a sua festa
SILVIA SOTER

O GLOBO – 27 DE MAIO DE 2002


Ana Botafogo domina a cena no Municipal
SILVIA SOTER

O GLOBO – 17 DE JUNHO DE 2002


Corpo de baile brilha pela musicalidade
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 17 DE JUNHO DE 2002


Corpo de baile rouba a cena
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL – 29 DE JUNHO DE 2002


Ilustração de ritmos
ROBERTO PEREIRA

85
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL – 6 DE JULHO DE 2002
Monólogo de movimentos
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 8 DE JULHO DE 2002


Dança que opera no universo pop
SILVIA SOTER

O GLOBO – 18 DE JULHO DE 2002


Um balé marcado pelo excesso de elementos
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 20 DE JULHO DE 2002


Cinderela para virar cult
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL – 7 DE SETEMBRO DE 2002


Sempre um passo adiante
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 9 DE SETEMBRO DE 2002


Sensualidade debochada que serve para iluminar o passado do Corpo
SILVIA SOTER

O GLOBO – 11 DE SETEMBRO DE 2002


Ações pedagógicas que somam, sem se sobreporem à qualidade do produto
SILVIA SOTER

O GLOBO – 13 DE NOVEMBRO DE 2002


Panorama fez a festa da nova plateia carioca
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 30 DE DEZEMBRO DE 2002


Movimentação a passos largos
ROBERTO PEREIRA E ANA CECÍLIA MARTINS

86
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUARTA-FEIRA • 6 DE MARÇO • 2002

Uma companhia
sem a cara do Rio
O despertar: Grupo oficial da cidade mostra
trabalho eficiente, mas que não traduz a
transformação da dança carioca

S ILVIA S OTER

O surgimento de uma nova companhia


de dança é sempre motivo de come-
moração. Ainda mais quando essa compa-
americano Richard Cragun, partner antoló-
gio da brasileira Marcia Haydée no Ballet
de Sttugart, agradeceu à Prefeitura do Rio
nhia é encabeçada por nomes como Richard de Janeiro a criação da DeAnima. Aprovei-
Cragun e Roberto Oliveira. No entanto, a tou também para dedicar o espetáculo da
estreia da Cia. DeAnima como a companhia noite a todos os bailarinos do Rio, citando o
oficial da cidade do Rio de Janeiro, na últi- Theatro Municipal, a Cia. de Dança Debo-
ma quinta-feira (a temporada continua esta rah Colker e as companhias apoiadas. Nes-
semana, de amanhã a domingo, no Teatro Car- se gesto gentil, Cragun parecia assumir e
los Gomes), merece algumas considerações. tentar responder a surpresa misturada ao
Na última década, o Rio afirmou-se nos sentimento de constrangimento que boa
cenários da dança nacional e internacional parte da classe de dança experimentava
como um polo gerador de produções e pes- naquela noite. Surpresa e constrangimento
quisa em dança de alta qualidade. À tradi- causados pela pergunta que pairava no ar:
ção sempre renovada do nosso Ballet do Seria aquela a cara do Rio? Associados a
Theatro Municipal se associaram diferen- isso, estavam o desconforto provocado pelo
tes companhias de dança que, juntas, dese- disparate dos recursos financeiros (somas
nharam para a cidade um perfil reconheci- bastante altas, tratando-se da dança cario-
do pela diversidade, pela competência e ca) que dão sustento a esse projeto e a des-
pela multiplicidade. Hoje, no Rio, além de proporção desse orçamento em relação ao
várias companhias independentes, são 13 as apoio anual oferecido às outras 13 compa-
companhias de dança contemporânea apoi- nhias. Tudo isso aumenta a expectativa quan-
adas pela mesma Prefeitura que oferece to ao espetáculo assistido. Sem dúvida, é
agora à cidade uma Companhia Oficial. muita responsabilidade.
Na noite de estreia para convidados do O trabalho eficiente realizado nos pou-
espetáculo O despertar,odiretor artístico,o cos meses de ensaio da DeAnima se faz vi-

87
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
sível. Limpeza, clareza e precisão se asso- zação das linhas do balé permitindo, por
ciam ao vigor dos jovens bailarinos. Suas exemplo, a quebra da narrativa e o uso de
atuações não deixam nada a desejar, por elementos externos ao vocabulário clás-
exemplo, a do convidado especial Pedro sico, tem sido explorada há muitas déca-
Goucha Gomes, da companhia do espanhol das, com mais ou menos eficiência, no Bra-
Nacho Duato. Bem preparados, eles ame- sil e no mundo. Na trajetória de Oliveira,
nizam até certo ponto as diferenças de suas reconhece-se uma boa experiência em
formações de origem, mesmo que ainda companhias que desenvolvem essa lingua-
haja um longo caminho pela frente para gem como, por exemplo, o Béjart Ballet
que um maior entrosamento se faça pre- Lausanne sob direção de Maurice Béjart.
sente. É natural. As coreografias de Roberto Oliveira apre-
Tehillin,a primeira coreografia da noi- sentadas nessa noite não parecem, no en-
te funciona como hors-d’oeuvre para tanto, somar algo autoral às propostas de
O despertar. Com música de Steve Reich, trabalhos em linhas semelhantes.
essa peça mais curta apresenta as quali- Ao final do espetáculo, mais pergun-
dades dinâmicas da companhia e introduz, tas: Será pertinente a existência de uma
de modo um pouco forçado, personagens companhia oficial? Será coerente com a
que serão centrais em O despertar. Esta política cultural do município do Rio de
última discorre pela solidão no ambiente Janeiro, que há anos investe no reforço do
urbano,inspirada no filme Asas do desejo, caráter plural das criações, a existência
de W im W enders. O personagem centralé de sua companhia oficial? Ao final do es-
salvo por anjos da opressão e da indife- petáculo, uma constatação: a dança do
rença misturadas ao caos urbano.O cená- Rio tem uma cara. E essa cara não se re-
rio funciona como um personagem tam- duz, em absoluto, à apresentada naquela
bém, colaborando para fechar o espaço do noite. A cara da dança do Rio permane-
palco e jogando os bailarinos em confron- ce porque se transforma. Uma identida-
to permanente. de que se vem construindo, há anos, pela
Roberto Oliveira define sua lingua- parceria de diversos criadores e bailari-
gem como balé contemporâneo. Nas pa- nos, aliando a tradição do balé à pesqui-
lavras do coreógrafo, um misto de balé sa de vanguarda. As cenas nacional e in-
com a dança contemporânea. A flexibili- ternacional já sabem disso.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 9 DE MARÇO • 2002

Um projeto ainda frágil


Estreia do DeAnima mostra os pontos
fracos da companhia oficial do Rio

ROBERTO P EREIRA

A ssistir a O despertar, espetáculo de es-


treia da mais nova companhia de dan-
ça da cidade, DeAnima – Ballet da cidade
ocupa-se em construir o que seu coreógrafo,
Roberto de Oliveira, chama de “balé con-
temporâneo”.
do Rio de Janeiro, é tarefa que não dispensa Mas o que pode significar o termo “ofi-
um certo conhecimento do contexto no qual cial” para um grupo inserido numa cidade
esse empreendimento da Secretaria Muni- que conta com tantas outras companhias de
cipal de Cultura se deu. Questões que tan- dança, que transformam juntas, cada uma a
genciam sua existência aparecem também seu modo, a diversidade da cena coreográ-
no palco, em forma de dança. fica carioca? Uma segunda questão refere-
A primeira questão sobre a DeAnima, se ao termo utilizado por Roberto de Oli-
com relação ao seu estatuto, é que ela apa- veira para definir seu estilo: balé contem-
receu aos olhos do cidadão carioca como a porâneo. Na verdade, poucos foram os que
primeira companhia oficial da cidade, con- conseguiram construir uma identidade co-
tando com a direção artística de Richard reográfica, driblando as amarras que a téc-
Cragun, bailarino que deixou sua marca nica do balé impõe.
definitiva no balé de Stuttgart, ao lado da Fazer respirar o que há de novo enquan-
brasileira Márcia Haydée. to estética no que há de tão codificado en-
De antemão, vale mencionar que a pri- quanto técnica tem sido ainda um desafio –
meira companhia oficial da cidade foi o e nomes essenciais da atualidade, como Jirí
corpo de baile do Theatro Municipal que, Kylián, William Forsythe, Van Manem e
mais tarde, passou a pertencer ao Estado. Em mesmo o nosso Rodrigo Pederneiras são
comum, esses dois conjuntos têm a utiliza- exemplos que logo vêm à lembrança. Não
ção da técnica clássica de balé como forma- é a simples adjetivação do balé com o ter-
ção de seus bailarinos. Enquanto a compa- mo “contemporâneo” que legitima uma
nhia mais antiga se utiliza disso para mon- ideia coreográfica. Ideia, em dança, precisa
tagens de obras de repertório, a segunda pre- estar no corpo, cenicamente. Roberto de

89
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
Oliveira, no entanto, parece ter faltado à “balé”.E o que falta enquanto projeto se re-
aula onde se ensinou essa lição. flete na estrutura da montagem do espetá-
Por fim, uma última questão, que pai- culo: os ótimos bailarinos, que apenas pre-
rava no ar no Teatro Carlos Gomes, no úl- cisam de mais tempo de convívio para me-
timo dia 28, data da estreia da DeAnima: lhor afinação, nada ficam a dever ao baila-
Qual é o projeto de uma política de dança rino convidado, fazendo de sua participa-
que concede uma quantia vultuosa a ape- ção mais uma questão no meio de tantas
nas um grupo, se a cidade conta com tan- outras. Desse modo, o espetáculo de estreia
tos outros, alguns com preocupações esté- espelha a fragilidade de concepção tanto
ticas semelhantes, e que estão na estrada da peça O despertar, quanto do próprio pro-
há anos e ainda não contam com nenhum jeto da companhia.
apoio financeiro? A seriedade com a qual deve ser enca-
Essas questões aparecem, de alguma for- rada essa nova empreitada não concerne
ma, na obra O despertar, escolhida para lan- apenas a todos os bailarinos, coreógrafos,
çar a companhia. Coreograficamente, o que professores e pesquisadores, que há anos
é“oficial” não é a cara do Rio.O que é con- vêm escrevendo a história da dança no Rio
temporâneo apenas remete a clichês de mo- de Janeiro. Ela é tarefa de cada cidadão, em
vimentos, sem ideia, sem pesquisa, justa- seu intuito de entender como seus impostos
mente as condições que marcam essa nova podem ser, eticamente, transformados em
dança de hoje, mesmo que sob a alcunha de dança de qualidade.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 14 DE MARÇO • 2002

O encontro do gesto e
do movimento no palco
Solos de Dança: Projeto do SESC se firma
na agenda carioca como um espaço plural de dança

S ILVIA S OTER

C omo acontece há três anos, O SESC


abre espaço em março para dança.
Em especial, para a produção de solos e
mundo. Já o movimento possuiria sentido
mais amplo, mais próximo da abstração.
Estaria na natureza como na cultura, li-
duos, nicho que, apesar de interessante, gado às noções da física como aceleração,
tem, tradicionalmente, pouca oportunida- deslocamento ou ainda na alteração de
de de chegar aos palcos. Este ano, a primei- um sistema.
ra programação incluiu quatro solos, três Na dança, alguns criadores se debruçam
inéditos e outro pouco visto pelo público sobre as possibilidades do gesto como ma-
carioca. Um segundo programa, com solos téria-prima para a construção de um voca-
criados por Carlota Portella, Paulo Man- bulário próprio. O gesto cotidiano é investi-
tuano, Bruno Beltrão e Paula Águas, pode- gado, sofre repetições, subtrações, deforma-
rá ser visto de hoje a domingo, no mesmo ções, chegando a níveis diferentes de efi-
palco do SESC de Copacabana. ciência e abstração. Do gesto podem (ou
A curadora Bia Radunsky entregou a não) chegar ao movimento.
Gilberto Gawronski a organização da noi- Corpo provisório, solo de Ana Vitória
te. O diretor montou uma sequência de pe- que abriu a programação da semana pas-
ças que permite localizar uma linha con- sada, é um belo exemplo dessa alquimia.
dutora que costura as diferentes propos- Dos pequenos gestos, que em cena surgem
tas. Como resultado, o conjunto de obras apenas para lembrar que ainda são possí-
do primeiro programa conduz à reflexão veis, Ana Vitória chega à ideia de um
sobre as relações entre o gesto e o movi- corpo-máquina, movimento dotado de
mento na dança. Se essas ideias muitas clareza, agilidade e admirável precisão. A
vezes se confundem, algumas caracterís- proximidade entre palco e plateia afasta
ticas permitem distingui-las. O gesto seria qualquer frieza. A cena circular do SESC
o movimento humano com carga simbólica de Copacabana trouxe ganhos para a peça
ou de comunicação, dirigido ao outro e ao como a possibilidade de reconhecer no te-

91
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
cido coreográfico gestos de comunica- tecer uma partitura gestual limpa e intensa,
ção direta com os espectadores. a qual se junta um texto de Clarice Lispec-
Em Memória concreta, solo de Sylvio tor. A peça de Diaz, ao mesmo tempo sim-
D ufrayer dançado pela bonita Alessandra ples e sofisticada, serve como uma aula de
Lofiego,um lençol branco estendido no cen- composição fundamentada no gesto.
tro do palco desenha uma cama como cená- Crianças, de Márcia Milhazes, encerrou
rio.Em off,a voz da própria intérprete desfi- a noite. O bailarino, sempre em percurso
la lembranças íntimas de sua infância e ado- circular, segue um tocador de acordeom e
lescência enquanto encena seu corpo rea- sua música. Aqui, gesto e música criam am-
ge à voz, resgatando a memória nele im- bientes afetivos diversos. Mesmo ainda bas-
pregnada. A qui, está no texto e menos na tante embrionária, a peça aponta os novos
movimentação a necessidade de maior e interessantes rumos de investigação da
elaboração para que o sentido transcenda o coreógrafa.
de mero relato pessoal. Em sua terceira edição, o projeto So-
O encenador Enrique Diaz foi desafia- los e Duos no SESC se afirma na agenda
do pela curadoria da mostra a criar uma cultural da cidade como um espaço de
peça. O trabalho,defendido com competên- dança no plural. Há espaço tanto para
cia por Mariana Lima, trata da construção estreias como para peças não inéditas,
de uma cena, e por que não de uma sequên- para criadores que raramente são vistos
cia de dança, a partir do gesto cotidiano.A em circuitos oficiais e ainda para a promo-
atriz parte de gestos como designar, afastar ção de encontros férteis como, por exem-
e negar, associados a sons abstratos,para plo, o de Enrique Diaz com a dança.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 19 DE MARÇO • 2002

Passos, música e interatividade


embalam celebração coreográfica
Solos no SESC: Peças eficientes de Mantuano,
Beltrão, Carlota e Paula Águas fecham projeto

S ILVIA S OTER

A segunda semana dos Solos no SESC –


projeto que levou ao teatro do SESC,
em Copacabana, por duas semanas consecu-
dança sem arestas na qual, como nos dese-
nhos de Escher, o espaço de dentro e o es-
paço de fora se confundem.
tivas, oito solos criados por coreógrafos cari- Em Uni, du ni…, Carlota Portella joga
ocas – terminou no domingo em clima de com a ideia de um solo dançado por dois
festa, depois da apresentação de um eficien- intérpretes que se alternam no palco. Um
te conjunto de pequenas peças que trouxe- casal, cada um em separado, sofre em cena
ram a interatividade e a música para o cen- a ausência do outro. Mas será que um solo é
tro do palco. apenas uma dança feita por um? A repeti-
Paulo Mantuano apresentou uma nova ção das entradas e saídas dos intérpretes, o
versão de Quasi-infinito transformada pela ambiente afetivo da peça e a carga emocio-
presença da música ao vivo de Rafael Ro- nal do próprio gestual incluem o ausente na
cha. Neste solo, inspirado nas construções cena e transformam a peça em um duo. Nas
espaciais de Escher, Paulo investiga as re- quatro noites do evento, quatros diferentes
lações corpo e espaço em dois níveis com- casais se revezaram, guardando a mesma
plementares: a trajetória que seu corpo de- estrutura, mas trazendo marcas próprias a
senha no espaço, indo da vertical, ao chão cada relação a dois.
e do chão à vertical e o caminho do movi- Fones de ouvidos ligam os espectado-
mento circunscrito em seu próprio corpo. res à frequência da mente de um jovem,
Movimento que o espectador vê nascer, a no impactante Eu e meu coreógrafo no 63,
partir do estímulo sonoro, e que vê percor- de Bruno Beltrão. O texto, uma conversa
rer cada parte do corpo do criador-intér- de fim de noite gravada num quarto de
prete para se transformar em breves sus- hotel, expõe a intimidade e os descami-
pensões que antecipam um novo início. nhos das reflexões de um rapaz, provocan-
Paulo Mantuano, com domínio absoluto do reações que vão do riso a uma certa
dos caminhos de seu corpo, constrói uma angústia. A dissociação das ideias do

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
jovem ganha equivalência precisa na mo- remoto musical. O espectador torna-se, ao
vimentação derivada da linguagem da mesmo tempo, DJ e voyer. O resultado é
dança de rua. Aquilo que se ouve e aquilo bastante interessante. A bailarina não se
que se vê em cena são pensamentos e mo- deixa cair na relação fácil de ilustrar a
vimentos partidos, gestos reversíveis e in- música escolhida, e a ansiedade dos es-
terrompidos, produzindo pequenas constru- pectadores em contribuir resulta num tex-
ções não lineares. to coreográfico picado por cortes prema-
Encerrando a noite, a coreógrafa e turos produzindo no espectador um misto
bailarina Paula Águas propõe uma brin- de frustração e “gosto de quero mais”.
cadeira divertida com a plateia. Munida Embalados pelo jogo de Paula Águas,
de vários CDS, Paula convida os especta- ao final da noite, todos os intérpretes vol-
dores a escolherem as músicas a partir das tam ao palco numa festa improvisada, ce-
quais ela irá improvisar. Em Qual é a lebrando a confirmação dos Solos no
música?, cada espectador pode interagir SESC como início da temporada carioca
com a intérprete através desse controle da dança contemporânea.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 25 DE MAIO • 2002

Rostropovich rouba a
cena e faz a sua festa
Romeu e Julieta: Montagem do clássico de Shakespeare
no Municipal mostra desequilíbrio entre a qualidade da
direção musical e a coreografia

S ILVIA S OTER

Q uando a cortina sobe, o único foco ilu-


mina a cabeça de Mstislav Rostro-
povich, no centro do palco. A imagem im-
do espectador possa se desligar do fascínio
exercido pela figura de Rostropovich à
frente da orquestra, a cena é invadida pe-
pactante que inaugura o espetáculo Romeu los bailarinos em figurinos estilizados, apre-
e Julieta sintetiza a singularidade da con- sentando uma Verona dividida por cores e
cepção do russo Vassiliev para o mito de fidelidades. Neste e em outros momentos
Shakespeare: a música não é apenas uma da noite, a dança parece ser prejudicada
peça importante, e sim o elemento central pela quantidade excessiva de estímulos vi-
dessa versão. E a dança está lá para conferir suais e pela exiguidade do espaço destina-
maior visibilidade à música. “Veja a música do aos conjuntos.
e escute a dança”, sugeria Balanchine. O elenco da noite de estreia, encabeça-
A presença da orquestra no centro do do por Roberta Márquez e Thiago Soares,
palco é apenas uma das formas de dar ma- confirma a competência e o amadurecimen-
terialidade à ideia. Os tradicionais telões de to artístico da nova geração do Theatro Mu-
fundo do cenário foram substituídos por pro- nicipal. É preciso ressaltar a predominân-
jeções criadas pelo argentino Tito Egurza, cia dos papéis masculinos, defendidos com
que ora criam ambientações e localizam a brilho e segurança pelos solistas.
ação dramática, ora imprimem texturas, de- Destacam-se as atuações de André Va-
talhes e cores, comentando a ação. A movi- ladão como o brincalhão Mercucio, de Mar-
mentação dos bailarinos restringe-se a ape- celo Misailidis, como o viril Teobaldo e, ain-
nas duas faixas de palco, uma no proscênio da, as participações de Rodrigo Negri, Vi-
que avança sobre o fosso da orquestra e a tor Luiz e René Salazar como Benvólio,
outra ao fundo e acima do plano dos músicos. Paris e Gregório, respectivamente. Cláu-
Ainda no prólogo, torna-se evidente que dia Mota imprime severidade e firmeza à
buscar um outro equilíbrio entre música e sra. Capuleto, e Lourdja Mesquita realiza
dança não é tarefa fácil. Antes que o olhar uma ama amorosa e maternal.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O desejo de isolamento e intimidade preciso, ainda que contido, enquanto as inú-
experimentado pelo casal protagonista é meras qualidades da jovem Roberta a
partilhado pelo espectador. Quando a cena transformam numa impecável Julieta.
está vazia, restando apenas (apenas?) Ros- Ainda que não dê conta de equilibrar a
tropovich, sua orquestra e Roberta e Thia- obra de Prokofiev, sob a batuta de Rostro-
go, o espetáculo Romeu e Julieta conhece povich, e a dança, na coreografia de Vassi-
seus pontos mais altos.A sobriedade e a liev, o espetáculo guarda surpresas e alguns
nobreza de Thiago fazem dele um Romeu momentos que ficam na memória.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 27 DE MAIO • 2002

Ana Botafogo domina


a cena no Municipal
Romeu e Julieta: Sabedoria de estrela

S ILVIA S OTER

A na Botafogo e André Valadão estrea-


ram no sábado nos papéis principais
de Romeu e Julieta, espetáculo dirigido e co-
to, a ferramenta multimídia, dotada de pos-
sibilidades quase infinitas, restringe-se, na
prática, a criar digitalmente em telões a ar-
reografado pelo russo Vladimir Vassiliev, e quitetura renascentista. Assim, sem dar con-
com Mistilav Rostropovich comandando ta de optar por um caminho definido, tradi-
com rigor e brilho a orquestra, subvertendo ção e ousadia saem perdendo.
os moldes habituais de relação entre músi- A distribuição dos papéis masculinos na
cos e corpo de baile. No Romeu e Julieta de noite de sábado enfraqueceu o trio consti-
Vassiliev – que encerra temporada na sex- tuído por Romeu e seus companheiros. Vi-
ta-feira no Theatro Municipal –, para garan- tor Luis ainda parece buscar sua interpre-
tir seu lugar em cena, a dança precisa ser tação de Mercúcio e só encontra o tom em
defendida sem direito a deslizes ou erros, o sua cena final. André Valadão tem atuação
que faz necessário maior afinação nas ce- bastante correta como Romeu, mas sem o
nas de conjunto do corpo de baile. brilho de seu Mercúcio.
Apesar da originalidade da proposta de Sem ter como suporte um desenho
levar a orquestra para o palco e tirar a dan- coreográfico especialmente interessante,
ça de sua posição privilegiada, a versão de Ana Botafogo usa enorme sabedoria e
Vassiliev parece a meio caminho entre uma constrói sua Julieta na interpretação dra-
leitura mais ousada e a tradição. Sinais des- mática da personagem. Acerta. Com segu-
sa indecisão manifestam-se no figurino, que rança e tranquilidade de quem se sente à
não se define entre a limpeza e a estiliza- vontade no palco, a primeira bailarina do
ção de linhas e cores e trajes de época, e na Municipal domina absoluta a cena. Seu ros-
concepção cenográfica, que substitui os te- to e gestos desenham com nuances a traje-
lões de fundo por recursos multimídia. A tória trágica de Julieta. Sua interpretação
ideia de criar uma cenografia virtual respon- narra cada detalhe da história. Ao longo das
de à necessidade de rapidez das trocas de três horas de espetáculo, há alegria inocen-
cenas, já que a presença da orquestra no te, obediência, rebeldia, amor e desespero,
palco impede que haja pausas e respirações sem maneirismos ou desperdício. É nela que
entre os movimentos da música. No entan- o mito de Shakespeare respira.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 17 DE JUNHO • 2002

Corpo de baile brilha


pela musicalidade
Giselle/Balé da Ópera de Paris: Agnès
não convence em papel-título, enquanto Bart mostra
competência em suas variações

S ILVIA S OTER

U mas das obras mais expressivas do


balé romântico chegou ao Theatro
Municipal do Rio, no último sábado, defendi-
rão para o público o encontro entre dois
tempos: o momento da criação da peça e o
instante da cena. Algumas adaptações, mais
da pela companhia que a viu nascer. O Balé ou menos evidentes, buscam ainda atualizar
da Ópera de Paris elegeu Giselle,na versão a obra, produzindo resultados marcados por
coreográfica de CoralliePerrot enriquecida singularidades.
pelas importantes contribuições de Petipa, Em Giselle da Ópera de Paris, há um
como representante da tradição,para essa cuidado em não ser excessivo na interpre-
turnê brasileira. Na terça e quarta-feira, o Rio tação dramática. As cenas de pantomima,
assistirá a Jewels, de George Balanchine, responsáveis pelo fio narrativo, são traba-
peça que entrou recentemente no repertório lhadas de forma econômica, garantindo as
sempre renovado da companhia. nuances de cada mudança de situação sem
Inspirada na lenda eslava das wilis,jo- jamais cair no exagero. Já que não será na
vens que morrem antes das núpcias e são ênfase de interpretação que os personagens
condenadas a vagar à noite, obrigando os irão se desenhar aos olhos do público, a dis-
rapazes que capturam a dançar até a morte, tribuição dos papéis requer enorme preci-
Giselle tornou-se um arquétipo do balé ro- são para que as características centrais de
mântico,referência paracriação coreográ- cada personagem se façam visíveis.
fica e, ao longo de quase dois séculos de Na noite de estreia, a estrela Agnès
existência, inspirou inúmeras remontagens Letestu, bailarina precisa e segura, mas que
ereleituras. não possui o physique du rôle da personagem,
Sempre que uma obra de repertório é não convenceu no papel de Giselle. Houve
remontada há, inevitavelmente, uma relei- fragilidade de menos e loucura de menos na
tura. Por mais fiel que a remontagem se pre- sua composição da jovem camponesa apaixo-
tenda, a coreografia é desenhada por corpos nada por Loys e pela dança, criando, ainda
de outros bailarinos e são eles que traduzi- no primeiro ato, uma distância excessiva

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
entre público e obra. Estreando como Albre- Sublinhados por uma bela iluminação,
cht, Jean-Guillaume Bart, mesmo parecen- os cenários e os figurinos, reconstituídos
do ainda buscar o equilíbrio entre a nobre- a partir dos croquis originais e de outros
za inerente ao personagem e o seu disfarce documentos de época, são um espetáculo
de camponês, mostrou grande competência à parte. Ponto sempre delicado nas obras
em suas variações, sobretudo no segundo ato. de repertório, a ambientação da monta-
O corpo de baile, depois de alguns ajus- gem francesa alia grandiosidade e limpeza
tes no início do primeiro ato, brilhou por de linhas.
sua homogeneidade e musicalidade. No Ao final do primeiro ato, uma surpre-
segundo ato, apesar de momentos de im- sa: por momentos, a movimentação é sus-
precisão, as cenas de voo das wilis foram pensa, criando bonitos tableaux vivants,
garantidas pela leveza e pela ausência quando o tempo é esgarçado para dar
absoluta de ruído do contato das bailari- visibilidade à hesitação de Giselle em
nas com o chão. acreditar no seu trágico destino.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 17 DE JUNHO • 2002

Corpo de baile
rouba a cena
Balé da Ópera de Paris surpreende ao fazer
do primeiro ato o destaque de Giselle

R OBERTO P EREIRA

A mais antiga companhia de balé do


mundo, a da Ópera de Paris, iniciou sua
turnê pelo Brasil mostrando ao público ca-
ato, com certeza o melhor dos dois (algo iné-
dito, na medida em que o segundo ato é sem-
pre o mais famoso pela poeticidade do bal-
rioca no Theatro Municipal, neste último sá- let blanc), pois conta com uma pantomima
bado, sua versão para a obra-prima român- minuciosa, resultando numa narrativa pre-
tica dos balés de repertório: Giselle.Trata- cisa, tal como deve mesmo ser. O corpo de
se de um momento especial, já que esse baile aparece aí seguro, coeso, mesmo que
mesmo balé, desde sua estreia em 1841, pela Mélanie Hurel e Jérémie Bélingard, baila-
mesma companhia, vem sofrendo transfor- rinos responsáveis pelo pas-de-deux dos
mações: algumas que tentam se aproximar camponeses, tenham se mostrado um tanto
de um original já distante, outras que radi- afoitos, o que se podia ver claramente nas
calizam em novas leituras,como a do sueco finalizações de seus passos.
Mats Ek. O que há de especial na versão Ao retornar ao palco para segundo ato,
apresentada aqui é a tentativa de recupe- entretanto, esse mesmo corpo de baile não
rar a montagem que o francês Marius Peti- corresponde à exatidão exigida pela core-
pa produziu na Rússia, em 1887,e que trou- ografia, principalmente na sequência dos
xe de volta o balé à sua primeira casa, atra- arabesques na famosa cena do baile das
vés da histórica companhia dos Ballets Rus- wilis. Isso sem contar no incidente do véu
sos de Diaghilev,que contava com os mitos de uma delas, que, caído no palco, manchou
Nijinsky e Karsavna, em 1910. essa cena tão emblemática. Stéphanie
Assim, enquanto cenários e figurinos são Romberg, como a rainha Mirtha, estava tão
reconstruídos a partir dos croquis originais segura da crueldade de sua personagem,
do artista russo Alexandre Benois,a coreo- que parece ter esquecido a sutileza do sor-
grafia prima por trazer de volta à cena as riso enigmático que a caracteriza, o que
qualidades românticas do balé.Tal cuidado traz à tona os atritos da dualidade român-
pode ser conferido,sobretudo,no primeiro tica de sedução e horror.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Mesmo com essas desigualdades entre mundos tão distintos parece não ter sido
os dois atos, o corpo de baile parece mes- vencido nessa noite.
mo ter sido a étoile da noite, roubando a Assim, pôde-se comprovar que o intui-
cena de Jean-Guilhaume Bart e Agnès to da companhia era o de uma remonta-
Letestu, nos papéis principais. Enquanto o gem cuidadosa, mesmo que se note a au-
bailarino,em sua estreia como Albrecht, é sência de alguns detalhes importantes,
impecável em seu desempenho técnico, em como a cena da aparição de Giselle vin-
especial nos saltos e baterias,carece ainda da do túmulo e, sobretudo, a cena em que
de maturidade dramática, tão importante, ela leva seu amado para perto da cruz, a
por exemplo, no segundo ato.Já Letestu, fim de protegê-lo dos poderes satânicos de
bailarina que surpreende pela sua alta es- sua rainha, ambas no segundo ato, e tão im-
tatura, não acomoda bem em seu corpo a portantes para a compreensão do balé.
dualidade da frágil menina do primeiro ato Mas, nesse zigue-zague entre novas e ve-
e sua transformação em um ser etéreo no lhas versões, há de se considerar perdas e
segundo.Se é neste último ato em que me- ganhos. Para o público brasileiro, num ba-
lhor atua, o desafio confiado às primeiras lanço final, com certeza ganhou-se mais do
bailarinas de transitar entre esses dois que se perdeu.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 29 DE JUNHO • 2002

Ilustração de ritmos
Coreografia de O grande circo
místico se rende à música

ROBERTO P EREIRA

A ideia era comemorar os 20 anos de


uma obra que, se não permaneceu na
memória do grande público no que se refere
desta última, a coreografia fica relegada à
mera ilustração de ritmos e, ainda pior, à
legenda das letras. Na dança, a dramaturgia
à dança, replicou em sucessos no que se refe- deve investigar no corpo sua possibilidade
re às canções, assinadas por dois grandes mi- de tradução, e não apenas cair na fácil arma-
tos da MPB: Chico Buarque e Edu Lobo. O dilha de tentar referendar o que está sendo
grande circo místico, balé que estreou no dito por uma outra linguagem, no caso, a
Teatro Odylo Costa Filho, anteontem, pela canção. O resultado, infelizmente, é a previ-
companhia do Teatro Guaíra, de Curitiba, sibilidade, qualidade que impede qualquer
volta à cena comprometido com essa come- frescor de novas versões, e de comemorações,
moração, correndo todos os riscos que uma portanto. Isso pode ser comprovado, sobre-
empreitada desse tipo sempre oferece. tudo, no duo da canção Beatriz, onde Arrieta
Outra ideia era a de uma nova versão, faz uso apenas do que ele provou saber fazer
já que a coreografia original, de Carlos Trin- há 20 anos também: um pas-de-deux cheio de
cheira, parecia datada. Para tanto, reuniu-se clichês coreográficos, de onde escorre um
um time de artistas que deveria recuperar açucarado entendimento de uma melodia tão
o frescor da história mítica de uma família familiar ao público. Basta fechar os olhos por
circense, que havia ficado marcada defini- uns instantes para adivinhar, sem erro, os mo-
tivamente pelo poder que as canções popu- vimentos que ali se atualizam. A coreografia,
lares adquirem ao longo do tempo, quando mesmo à revelia, ainda continua datada.
se trata de belas composições, como é o caso. Nem mesmo a contribuição de outros
Um grande desafio, sem dúvida. artistas parece poder respirar sob as réde-
O primeiro problema, entretanto, está na as onipotentes de Arrieta, que também as-
opção do coreógrafo que assina a nova ver- sina a direção do espetáculo. Dani Lima,
são, Luis Arrieta, por percorrer de forma li- jovem coreógrafa carioca, responsável pe-
near o que a música sugere. Sob o poder las coreografias aéreas, cumpriu burocra-

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
ticamente o que lhe foi reservado, mesmo um de dentro do outro como aquelas bo-
que seja ainda evidente a pouca familia- nequinhas russas. A semelhança com as re-
ridade dos bailarinos com sua linguagem. centes comissões de frente das escolas de
Já Rosa Magalhães, responsável pelos ce- samba é evidente.
nários e figurinos, ao optar também pela Uma produção cara, ótimos baila-
ilustração óbvia da música, esqueceu-se rinos (parabéns ao trabalho de Elaine de
de que se tratava de dança, e investiu numa Markondes) e uma tarefa ingrata de co-
encenação carnavalesca, especialidade memoração. Ouvir as canções ainda é o
sua, que pode ser conferida sobretudo na modo mais gratificante de recuperar os
cena dos animais que vão sendo retirados 20 anos dessa obra tão especial.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 6 DE JULHO • 2002

Monólogo de movimentos
Diálogo de Deborah Colker com
as artes plásticas não se conclui

R OBERTO P EREIRA

O novo espetáculo de Deborah Colker


e sua companhia, que estreou no Rio
de Janeiro anteontem, no Theatro Munici-
Como resultado, o que antes poderia ser in-
vestigado em seu caráter de canto, de esqui-
na, transforma-se quase numa parede em
pal, busca um diálogo entre a dança e as artes que, ao contrário do jogo de esconder e re-
plásticas. Para tanto, a coreógrafa partiu de velar, oferece o explícito e dança desenvol-
quatro trabalhos desenvolvidos por diferen- vida pelos bailarinos. Esta, aliás, auxiliada
tes artistas, resultando em momentos distin- pelo figurino assinado por Yamê Reis, apro-
tos que compõem sua obra intitulada 4 por xima-se muito mais da linguagem da publi-
4. Na verdade, essa aproximação é algo que cidade, ao optar pela representação de uma
existe na dança há muito tempo, já que as sensualidade videoclipada, rápida, quase
artes plásticas sempre funcionaram não que de instantes fotográficos.
apenas como cenários e figurinos, mas tam- Os quatro artistas integrantes do Chel-
bém interferindo coreograficamente no cor- pa Ferro foram os responsáveis por um dos
po e em seus movimentos. Deborah Colker, quadros mais interessantes do espetáculo:
contudo, parece ficar ainda indecisa entre as Mesa. Objeto metamorfoseado em obra de
tantas possibilidades existentes em tal rela- arte, essa mesa elaborada por eles ofereceu
ção, o que se reflete em sua coreografia. à coreógrafa recursos diversos de explora-
Em Cantos, primeiro momento da noite, ção de espaços, deslocamentos e intensida-
o artista plástico Cildo Meireles compare- des de movimentos. Entretanto, a dança pa-
ce com seis grandes estruturas desenvolvi- receu não compartilhar com o objeto uma
das no final da década de 1960. A ideia se- de suas qualidades mais explícitas, que era
ria a de explorar as qualidades existentes o fato de aparecer revelando proposital-
numa situação espacial bastante específica, mente suas engrenagens. Era a chance de
mas Deborah, ao optar por uma excessiva mecânicas diversas, da mesa e do corpo,
frontalidade, acabou por achatar o que lá dialogarem, mesclarem-se, o que efetiva-
existia antes como recurso coreográfico. mente não ocorre. Já Povinho, desenvol-

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
vido a partir de dois grandes painéis assi- quebra de uma sonoridade excessivamen-
nados por Victor Arruda, foi, com certeza, o te homogênea desenvolvida por Berna
quadro mais problemático da noite. O ges- Ceppas e Kassin, o segundo trabalha com
to que se quer infantilizado se perde em uma o perigo de um espaço habitado matemati-
movimentação enfraquecida em termos de camente por vasos, idealizado por Gringo
vocabulário coreográfico, parecendo, antes, Cardia. O desafio é o movimento dos bai-
uma homenagem ao jazz, linguagem carac- larinos entre eles, sem danos para ne-
terística de uma época da Broadway. O ges- nhum dos lados. Novamente, a coreó-
to, portanto, aparece por demais datado, e grafa parece deixar escorrer pelos dedos
seu diálogo com a pintura não se efetua. a possibilidade de, no corpo e, portanto,
Por fim, em Vasos, Deborah revisita na dança, traduzir tal desafio.
dois momentos emblemáticos de sua car- Deborah Colker, em 4 por 4, confirma
reira. O primeiro deles é sua atuação sua habilidade impecável de construir
como pianista, enquanto duas bailarinas, obras que se sustentam sob o registro do
excelentes, dançam sobre as pontas. E o espetacular. Transformar tal habilidade
segundo é sua volta, sempre ansiosamen- em uma chance de se fazer pensar é tare-
te aguardada pelo público,ao risco.Se o fa que ela, visivelmente, parece ainda
primeiro oferece um feliz momento de querer vencer.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 8 DE JULHO • 2002

Dança que opera


no universo pop
4 x 4: O que o grande público conhece, deseja
ver e, quem sabe, deseja possuir e ser

S ILVIA S OTER

N a última quinta-feira, o público vibrou


com a coreógrafa mais pop do Rio de
Janeiro. A Companhia de Dança Deborah
e novas possibilidades de investigação. Se há
interação direta entre os bailarinos e as
obras não é no corpo que a mistura se dá, e
Colker estreou 4 x 4 para um Theatro Mu- sim na coabitação entre a dança marcada por
nicipal lotado como há muito não se via. uma tonicidade ainda pouco cambiante e
Nesta última criação, a coreógrafa trouxe cada objeto/ambientação/partner
as artes plásticas como matéria para sua A primeira peça da noite, Cantos, traz
dança, através das obras de Cildo Meirel- seis esquinas de Cildo Meirelles para o pal-
les, de Vítor Arruda, do grupo Chelpa co. A sensualidade da luz, da música e dos
Ferro e de Gringo Cardia. belos figurinos é confirmada pela movi-
Desde Velox, Deborah vem explorando mentação dos bailarinos. Os três planos
diferentes suportes para a dança. A quarta servem, aos moldes de Casa, como suporte
parede materializada em Velox, a roda gi- para investigar novos apoios para a dança
gante emblemática do passeio descompro- e ambientam encontros de uma sedução
missado que a obra de Deborah se propõe elegante. Logo nesse primeiro quadro, tor-
em Rota e os planos basculantes de Casa na-se visível a beleza e a competência dos
servem de norte para a construção coreográ- bailarinos da companhia.
fica. O espaço para Deborah é concreto e Para Mesa, o sábio grupo Chelpa Ferro
arquitetural. Sua dança responde de forma criou um misto de mesa e esteira rolante
precisa e, às vezes, excessivamente rigoro- sobre a qual os bailarinos se equilibram. A
sa ao que cada espaço sugere e autoriza. continuidade do deslocamento da mesa ser-
É nesse registro que se estabelece, quase ve de base para um jogo lento entre o avan-
o tempo todo, o encontro entre a dança e as çar e o recuar, passeios na linha do tempo.
artes plásticas em 4 x 4. Na maior parte dos É exatamente quando Deborah experi-
quadros, a obra serve de lugar de ação mais menta uma relação diferente das anterio-
do que de estímulo ou alimento para desvios res entre obra e dança, deixando de usá-la

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
como lugar para explorá-la como universo entranhas que a dança de Deborah rara-
imaginário, que a coreógrafa se coloca em mente utiliza como matéria de criação.
posição mais frágil. Em Povinho,dois telões Gringo Cardia é a grande estrela em
gigantes de V itor Arruda são esvaziados por Vasos, última peça da noite. A precisão
uma leitura bastante rasa em que as cores e milimétrica da disposição dos 90 vasos de
imagens representadas ganham citações nos cerâmica construída diante dos olhos do
gestos infantis.Apesar da busca de amplia- público já é um espetáculo à parte. Dan-
ção do vocabulário de movimentos, uma çar entre eles, uma experiência circense
maior elaboração ainda parece necessária. que requer a segurança e a agilidade de
Abrindo a segunda parte do espetáculo, um atirador de facas. Mais uma vez aqui
As meninas aponta, finalmente, uma nova o espaço arquitetural retorna, diagrama-
trilha a ser percorrida por Deborah. A o pia- do pelos vasos.
no,a coreógrafa traz Mozart para ambien- Quem acompanha a trajetória da co-
tar a dança nas pontas de duas bonitas bai- reógrafa desde Vulcão, percebe que a dan-
larinas.Talvez o que faz As meninas tão in- ça de Deborah opera no universo pop. O
teressante em 4 x 4 seja exatamente o fato glamour, o mundo fashion, a música ele-
de trazer visível aos olhos do público a dan- trônica, a juventude dourada e sedutora
ça em seu momento de elaboração,de ex- estão tão aderidas na dança de Deborah
ploração de caminhos e possibilidades.Esse quanto, por exemplo, na publicidade. Sua
algo que ainda não está fechado e pronto é dança corresponde ao que o grande públi-
borrado de forma feliz pela distribuição dos co conhece, deseja ver e, quem sabe, de-
vasos no palco,mais uma vez revelando as seja possuir e ser.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 18 DE JULHO • 2002

Um balé marcado pelo


excesso de elementos
Cinderela, ser ou...(a)parecer?: Sem nuances

S ILVIA S OTER

A história de Cinderela inspirou diversos


coreógrafos com resultados bastante
distintos. Nas últimas décadas, a fábula de Per-
oposição do que é belo e fashion e do que
não o é. Bailarinas-modelos desfilam seus
corpos musculosos em lingeries sedutoras,
rault ganhou leituras variadas como a trans- enquanto figurantes obesas, também em
posição da história da gata borralheira para roupas de baixo, explicitam esse contrapon-
uma loja de brinquedos assinada por Maguy to sentadas na plateia na cena do desfile. Na
Marin ou a versão que Rudolf Nureiev criou Cinderela de Roberto de Oliveira não há
em 1986 para a Ópera de Paris em que a fá- espaço para nuances.
bula se passa em Hollywood. Nesta, Cinde- Em termos coreográficos, Roberto bus-
rela é uma atriz iniciante por quem o ator prin- ca flexibilizar a técnica clássica. Quedas e
cipal se apaixona. No Rio, no final dos anos rolamentos associam-se a variações sobre
70, Dalal Achcar assinou uma versão de Cin- as pontas. Logo no início do espetáculo, duas
derela com música de Donna Summer, em- bailarinas imitam passos de danças presen-
balada pela era da discoteca e protagoniza- tes nos programas de televisão. É de se es-
da por Ana Botafogo. Na última quinta-feira, tranhar, no entanto, que a liberdade a que o
o DeAnima Ballet da cidade do Rio de Ja- criador se autoriza restringe-se ao vocabu-
neiro estreou Cinderela…ser ou (a)parecer?, lário da técnica clássica, mas não à ideia
espetáculo que fica em cartaz até o dia 28 de mesma de balé.
julho, no Teatro Carlos Gomes. Sobre a partitura de Prokofiev, o co-
A versão de Cinderela assinada por Ro- reógrafo constrói o que chama de um
berto Oliveira é transportada para o mun- balé-história, isto é, uma peça em que o
do da moda. Mas não é na elegância e na compromisso com a narrativa linear e com-
sofisticação que o coreógrafo se apoia e sim preensível está selado, assim como estava
no que há de excessivo, fútil e afetado num nos grandes balés românticos. Recursos
ambiente de competições e vaidades. Sua como o libreto e, sobretudo, a pantomima
leitura é marcada pelo estereótipo e pela são centrais na peça. Historicamente, a

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
pantomima substitui sequüências dançadas Botkay garante delicadeza ao papel de
para avançar o fio narrativo, já que a pala- Cinderela. Apesar de sua bela figura, falta
vra, solução mais imediata, não cabia na tra- a Fernando Bersot mais maturidade para
dição do ballet. O curioso é que em Cinde- tornar-se um partner à altura de Nina Botkay.
rela ser ou (a)parecer palavras e exclama- Fran Mello constrói Tio Fairy com seguran-
ções sonoras têm lugar,e a pantomima per- ça e bom timing de cena. Ainda que absolu-
de função e torna-se alegoria. tamente submersos no excesso de elemen-
Os bailarinos da atual formação da tos visuais, figurantes e participações especi-
companhia dão conta de suas tarefas com ais, os jovens intérpretes do DeAnima são,
eficiência. A jovem e talentosa Nina sem dúvida, o melhor do espetáculo.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 20 DE JULHO • 2002

Cinderela para virar cult


DeAnima surpreende com versão
trash do conto de fadas e ótimos bailarinos

R OBERTO P EREIRA

Q uem for assistir ao mais novo espetá-


culo da companhia DeAnima Ballet
Contemporâneo, até dia 28 de julho no Tea-
do erudito, o balé, agora é transformado em
popular, sem concessões. Nesse processo, o ca-
nal pós-moderno é explícito.
tro Carlos Gomes, vai ter a chance de se de- Para tanto, os ótimos bailarinos da com-
parar com uma qualidade de dança bastan- panhia parecem ter assumido com compe-
te interessante. Cinderela – Ser ou a/pare- tência o que lhes foi proposto. A jovem
cer? não é apenas mais uma versão coreo- Nina Botkay, responsável pelo papel-títu-
gráfica do clássico conto de fadas, agora lo, apresenta-se como uma bela e promis-
ambientado no mundo da moda atual, mas sora bailarina, mas que ainda carece de
trabalha com elementos essenciais de uma maturidade, enquanto a excelente Lara
estética pós-moderna. Kacowicz investe sem pudor em algo que
Ao investir no exagero e no caricato, o se assemelha a um show de transformista,
coreógrafo Roberto de Oliveira deixa cla- qualidade, aliás, presente em todo o espe-
ro que o que lá aparece como balé deve ser táculo. Apenas Fernando Bersot, como o
antes entendido como uma possibilidade na estilista Prince (até nos nomes as relações
dança daquilo que no cinema e nas artes são óbvias), erra no tom de seu persona-
plásticas já existe: seu aspecto trash (lixo, em gem ao compô-lo lírico demais, tal como
inglês), ou seja, algo propositalmente feito nos balés românticos, destoando da cari-
para borrar julgamentos estabelecidos do catura espalhada por todo o elenco.
que é belo, harmonioso e benfeito. O resul- Mesmo avesso a conceitos, Roberto de
tado como balé se configura assumidamen- Oliveira parece trabalhar deliberadamen-
te numa dimensão de puro entretenimento, te com alguns deles em seu balé. Popular ou
e a relação com o público é imediata. erudito, trash ou cult, Cinderela – Ser ou a/
O design do programa, os cenários extra- parecer? trafega com desenvoltura entre ex-
vagantes, os figurinos óbvios e de cores estri- tremos da pós-modernidade. Assistir a esse
dentes (vale até sapatilha de pontas revesti- balé é como estar diante de um filme de John
da de oncinha ou brocado e bobs na cabeça), Waters, ou até mesmo de uma novela mexi-
uma luz sem nuance que oscila entre o pink cana (Betty, a feia, em exibição na Rede TV,
e o azul claro e uma pantomima exagerada, é aqui um ótimo exemplo). Se o trash vira
todos ao lado da música de Prokofiev, deixam cult, é apenas uma questão de tempo, e essa
claro como o que antes operava no registro Cinderela, com certeza, tem tudo para isso.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 7 DE SETEMBRO • 2002

Sempre um passo adiante


Santagustin marca um avanço
na trajetória do Grupo Corpo

ROBERTO P EREIRA

P ara os olhos desavisados, o mais novo


trabalho do Grupo Corpo, Santagustin,
que teve sua estreia na cidade, na última
do filósofo Santo Agostinho e suas relações
entre os prazeres da carne e a sua conver-
são ao cristianismo. Em dança, esses jogos
quinta-feira no Theatro Municipal, traria, à aparecem em instigantes duos, que se al-
primeira vista, apenas os movimentos carac- ternam entre homens e mulheres, homens
terísticos que Rodrigo Pederneiras,seu co- e homens, mulheres e mulheres. Coreogra-
reógrafo, vem desenvolvendo há um bom ficamente, Pederneiras não só experimen-
tempo,com outro figurino,outro cenárioe ta novos movimentos, o que para ele se
outra música. Ultrapassando as armadilhas pode chamar de verdadeiros neologismos,
de uma primeira leitura, mais fácil e impres- como também recupera outros, mais pró-
sionista, há de se acurar os olhos para per- ximos do balé, que funcionam aqui quase
ceber ali avanços fundamentais na trajetó- como “licenças poéticas”, numa inversão
ria ímpar dessa companhia de dança con- absolutamente nova.
temporânea brasileira. Dentro desse espírito licencioso, tanto
Para quem constrói um vocabulário core- do filósofo quanto do coreógrafo, vale um
ográfico,coisarara entre os criadores de dan- coração despudoradamente rosa, de pelú-
ça, cada nova obra surge como um desafio de cia, como cenário, sendo texturizado pela
extrair sentidos novos desse vocabulário ou, invenção fresca dos figurinos assinados por
mais ainda, de alargá-lo.Para quem assiste, Ronaldo Fraga, em sua estreia na equipe
resta a tarefa minuciosa de perceber onde o tão coesa do Grupo Corpo. Valem também
movimento se inaugura como novo a partir versos como “chorar é coisa do amor, amor
de sua relação com o já conhecido sem, con- coisa do coração”, na voz cortante de Tetê
tudo,perder a assinatura de quem os cria. Em Espíndola, numa música que transita o tem-
Santagustin,Pederneiras consegue mais uma po todo entre os atritos do humor e do amor,
vez tal façanha, proporcionando ao público sabiamente inventada por Tom Zé e Gil-
a oportunidade desse exercício,sobretudo por berto Assis. São esses avanços que fazem
ser apresentada após Parabelo,outra obra da de Santagustin um convite ao olhar cuida-
companhia, de 1997. doso, mas nem por isso menos bem humo-
A temática, que circula entre jogos pos- rado. Aí, mais um jogo de alternâncias, que
síveis de amor e humor, parte da história se espalha para o público.

111
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O Grupo Corpo é, hoje, nossa maior e dade tem uma explicação, talvez a primei-
melhor companhia de dança contemporâ- ra, e ao mesmo tempo a mais simples e com-
nea. Tem reconhecimento aqui no Brasil e plexa: o pensamento de dança que se cons-
também no exterior, e a crítica, nacional e trói ali é bom. É muito bom. Basta apenas
estrangeira, não o “esnoba”. Essa unanimi- que se perceba.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 9 DE SETEMBRO • 2002

Sensualidade debochada que serve


para iluminar o passado do Corpo
Santagustin: Em seu novo trabalho,
grupo avança no desenvolvimento
de uma linguagem de dança

S ILVIA S OTER

A corruptela que batiza a mais nova cria-


ção do Grupo Corpo afirma um modo
de fazer. Corromper, modificar, alterar o
A música tem servido de bússola para
Rodrigo Pederneiras. Cada parceria musi-
cal determina as trilhas por onde a criação
sentido deixando o que é essencial presen- coreográfica avançará. O encontro de Ro-
te e transformado é o jeito de criar dessa drigo com Tom Zé rendeu as duas peças
companhia mineira. Santagustin, jeitinho apresentadas: o belíssimo Parabelo, parce-
mineiro de evocar o filósofo do século V que ria de Tom Zé com José Miguel Wisnik, de
se dividiu entre o amor carnal e a religião 1997, e o novo Santagustin, de Tom Zé e
cristã, trouxe o competente Grupo Corpo Gilberto Assis.
de sempre, sempre em vias de transforma- Santagustin explora a face risível do
ção. A temporada carioca que estreou na amor e a atração entre os corpos. Música,
quinta-feira passada, termina esta noite, no cenário – a projeção de um imenso cora-
Theatro Municipal. ção de pelúcia cor-de-rosa –, coreografia
As peças são, em geral, apresentadas e figurino conspiram para que não haja
aos pares. A noite é aberta por uma obra adesão ao que poderia existir de românti-
mais antiga e fechada pela peça de es- co na cena. O figurinista Ronaldo Fraga
treia. A escolha da peça que antecede a acentua o aspecto bufão dos intérpretes.
nova obra jamais é aleatória. Ela ofere- Cabelos grisalhos, rostos pintados e figu-
ce pistas e prepara o olhar do espectador rinos verde e rosa sublinhando as “partes
para a nova criação. Aqueles que acom- íntimas” provocam o distanciamento e a
panham os mais de 20 anos de estrada da impessoalidade procurados. Na voz das
companhia têm o raro privilégio de se- cantoras, o amor é, simultaneamente, der-
rem testemunhas do desenvolvimento de ramado e criticado.
uma linguagem de dança. Linguagem Em Santagustin, os duos são exercícios
com uma identidade própria que não se de análise combinatória. Para amar é pre-
deixa engessar. ciso apenas ter um outro. Seja ele homem

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
ou mulher. Mas sempre que o outro apare- lência já havia sido explorada. Nuances de
ce, os corpos se unem, em geral pelos qua- um vocabulário de movimento que está sem-
dris. Uma atração veloz e ritmada, como que pre em processo.
provocada por um ímã. A ondulação do tron- Se as peças mais antigas apontam cami-
co que em Parabelo aparece em um fluxo nhos para leitura das mais recentes, cada
contínuo, sempre do chão para o alto,está nova criação do Grupo Corpo ilumina as
presente em Santagustin. Ela é a mesma e é peças anteriores. A sensualidade debocha-
outra, já que uma espécie de violência se da de Santagustin mostra como, de forma
instala e interrompe bruscamente o fluxo de menos explícita, a sensualidade sempre es-
movimento. Em O corpo,criação de 2000 teve presente e produtiva naqueles corpos
com música de Arnaldo Antunes,essa vio- que dançam. E como dançam!

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUART A-FEIRA • 1
QUARTA-FEIRA 1 DE SETEMBRO • 200
11 20022

Ações pedagógicas que somam, sem


se sobreporem à qualidade do produto
Dança das marés: Trabalho confirma o
amadurecimento do grupo formado
no Complexo da Maré

S ILVIA S OTER

O encontro do educador do movimento


e coreógrafo paulista Ivaldo Bertazzo
com os jovens e as crianças do Centro de
plexo da Maré, uma quase cidade den-
tro da cidade, como alegoria para a ação.
Corpo-cidade. A presença de Elza Soa-
Estudos e Ações Solidárias da Maré ren- res, Rosy Campos e Seu Jorge apoiava e
deu seu terceiro fruto. Dança das marés, protegia o corpo de dança num espetá-
em cartaz no Ginásio do SESC Tijuca até culo grandioso.
o fim de setembro, é resultado do amadu- Nesse terceiro passo, o zoom de Ival-
recimento evidente do Corpo de Dança da do trouxe para o centro da cena cada jo-
Maré, um grupo com mais de 60 jovens vem do corpo de dança. Corpo-casa. His-
habitantes do Complexo da Maré, capi- tórias íntimas desses cidadãos são costu-
taneado por uma equipe multidisciplinar, radas por Drauzio Varella, resultando
tenaz e competente. No cruzamento entre num texto que relata o que há de univer-
projeto social e criação artística, o espetá- sal e de particular na experiência da in-
culo torna-se eixo norteador para as ações fância e da adolescência daqueles que
pedagógicas que somam, sem se sobrepo- vivem hoje na Maré. Com o passar
rem, à qualidade do produto que chega ao do tempo, momentos leves e cômicos
palco. Um palco que o SESC criou em res- cedem espaço à densidade e à consciên-
peito à especificidade do produto. cia quase trágica do impacto da violên-
Em Mãe gentil, primeiro espetáculo de cia no curso da vida de cada um. Mesmo
Bertazzo com “cidadãos dançantes” oriun- que bastante apropriados, não é sempre
dos de setores populares, a visão de um Bra- que os textos recebem, por parte dos in-
sil contraditório servia de tema e de pano térpretes, um tratamento natural.
de fundo para os jovens dançarinos cerca- Em Dança das marés não há convi-
dos de convidados especiais. Corpo-país. dados especiais. Há, no entanto, uma
O foco foi se fechando do Brasil para parceria fértil com o grupo mineiro
o Rio, e Folias guanabaras trouxe o Com- Uakti. Sua presença discreta garante

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
brilho e criatividade à música. Um espe- culos anteriores, são acompanhadas por
táculo à parte. momentos de solos e duos. O coro de dan-
Na primeira cena da peça, um pêndu- ça é, muitas vezes, desmembrado, dei-
lo inaugura o ritmo, elemento central na xando emergir a singularidade de cada
dança de Ivaldo. A dança indiana, devi- dançarino. Corpos diferentes num ritmo
damente incorporada pelos jovens a pon- comum.
to de ganhar nuances bastante pessoais, Ao deixar a tarefa da cena apenas
exige complexas divisões rítmicas que para o corpo de dança, Bertazzo arrisca e
são defendidas com segurança pelo cor- acerta. A continuidade e a qualidade da
po de dança. informação recebidas pelos jovens garan-
Em Dança das marés,as bonitas dan- tem um espetáculo delicado, preciso e
ças de conjunto, marca dos dois espetá- cheio de esperança.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUARTA-FEIRA • 13 DE NOVEMBRO • 2002

Panorama fez a festa


da nova plateia carioca
Ingressos a R$1 democratizaram 11ª edição
do festival de dança, marcada pela
participação do público

S ILVIA S OTER

A décima primeira edição do Panorama


RioArte de Dança foi marcada por uma
nova relação entre o festival e seu público.
dência com Lehmen ganhou o palco do
Teatro do Jockey.
A busca de uma atitude mais ativa por
Nesses 11 anos de atividades, o Panorama parte do público estendeu-se à escolha das
amadureceu e realizou movimentos bem obras estrangeiras. As peças The show must
determinados nessa direção. Esses movi- go on, de Jérôme Bel, Deluxe Joy Pillow, do
mentos não representaram, da parte da di- alemão Félix Ruckert, e Distanzlos, de Tho-
reção e da curadoria, concessões na progra- mas Lehmen, solicitaram, cada uma de sua
mação no sentido de facilitar a digestão da maneira, uma postura ativa do espectador.
informação que ele faz circular, mas desper- Humor, generosidade e crítica estão em
taram a curiosidade pelo novo, fazendo com perfeita harmonia em The show must go on,
que o desconforto diante de algumas obras que explora a imersão no universo pop e a
não mais significasse algo negativo, e sim a relação entre música e imagem. Uma se-
convocação a outros modos de relação en- leção de músicas que habitam o imaginá-
tre espectador e obra. rio ocidental serve de estímulo para as
Uma parcela especial e estruturante do experiências realizadas pelos atores.
Panorama, artistas e estudantes de dança, A identificação entre espectadores e ato-
foi beneficiada com a realização de resi- res se dá de maneira imediata. Não há
dências com artistas estrangeiros. O ale- figurino especial, não há cenário, não há
mão Thomas Lehmen, o inglês Gary Ste- virtuosismo. A literalidade dos refrões é le-
vens e o francês Jérôme Bel partilharam vada à risca, e espectadores e atores cons-
experiências e provocaram a criatividade tatam partilhar de imagens comuns, mui-
dos brasileiros em oficinas. AND,resulta- tas vezes de uma obviedade desconcertan-
do da residência de Gary Stevens,foi apre- te. Em alguns momentos, o palco comple-
sentado como uma instalação no Centro de tamente vazio permite a cada espectador
Artes Hélio Oiticica, e o resultado da resi- projetar a imagem que faz daquela música

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
e da cena, desenhando o espetáculo a seu viu de fio condutor para muitas obras. An-
modo, já que o show deve continuar. gel Vianna e Maria Alice Poppe, mestra e
Os espectadores de Deluxe Joy Pillow pupila, encontraram-se em Impromptus, de
recebem coordenadas antes do espetáculo. Alexandre Franco, outro colaborador de
Dependendo de onde o espectador se colo- Angel. Impossível dissociar as intérpretes
car, a relação que estabelecerá com a peça de suas histórias, o que carrega de densida-
será diferente.A queles que se instalam nas de e delicadeza a peça. Cenas que recortei e
camas pequenas espalhadas pelo espaço guardei no bolso da memória ou lembran-
podem ser integrados de forma ativa na ças que chegaram com o Baile Perfumado,
peça, os que ficam nas camas de casal po- de Rubens Barbot, traz memórias da infân-
dem ser manipulados pelos bailarinos e os cia do coreógrafo. A bailarina Cristina Mou-
que quiserem apenas assistir (caretas,tími- ra fala de si e de outras possíveis identida-
dos,cansados e voyeurs) devem sentar-se nas des em Like an idiot. Dando ainda mais vi-
poltronas azuis ou na arquibancada. Os bai- sibilidade à questão da identidade, o festi-
larinos improvisam a partir do contato en- val convidou cinco criadores cariocas a dan-
tre eles e entre eles e espectadores. O que çarem seus autorretratos. Patrícia Nieder-
se inicia como uma aparente estrutura aber- meyer misturou texto, bom humor e dança
ta e um jogo de provocação sensorial ganha, em Não se fala com os muros; Giselda Fer-
aos poucos,um único e cansativo ritmo.Pa- nandes construiu o bonito Castelo d’água,
radoxalmente, o espectador que está inte- dialogando com uma peça de Suzanne
ragindo fisicamente não parece de fato ati- Linke; Alexandre Franco, intérprete compe-
vo,mas submetido a um jogo de cartas mar- tente, mostrou A casa dos ossos; e Henrique
cadas em que apenas um tipo de estímulo e Schuller evocou Nijinsky, ao criar uma at-
resposta tem lugar, o do jogo sexual. mosfera delirante que mistura presente e a
Em Distanzlos, Lehmem, sozinho em memória da dança. Fechando a noite, Paula
cena, fala de si e discorre sobre uma peça Águas brincou com seu nome e a solidão.
que poderiarealizar.Descreve cenas,con- Ainda no sentido de investir na forma-
ta histórias,faz perguntas e responde,reve- ção e no estímulo a novos criadores, Os no-
lando inquietações.A distância entre o que víssimos, espaço da programação do Pano-
ocorre em cena e o que é construído pelo rama que apresenta novos coreógrafos, ga-
discurso do artista dependerá apenas da nhou um formato diferente e mais eficien-
imaginação do espectador.As ideias de re- te este ano. Em diálogo direto com as
presentação e de espetáculo são colocadas faculdades de dança, o festival convidou
em xeque nessa obra. três estudantes para fazerem a curadoria
A inda dialogando com a plateia, Andréa das obras. Os jovens curadores elegeram 12
Jabor provocou o público com bom humor e peças curtas, construindo uma noite diver-
improvisou com o cotidiano em I-eu, solo sa. Vale lembrar que Os novíssimos resga-
armado, um pré-texto para a improvisação. ta o frescor de origem do festival, que nos
A identidade foi outra ideia nuclear do seus primeiros anos serviu de celeiro para
Panorama 2002. Uma identidade traficada, a criação carioca. Hoje, uma nova geração
revelada entre autobiografia e ficção,ser- cheia de integrantes ou ex-integrantes de

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
companhias cariocas que lançaram suas promovendo encaixes mesmo a distância
pesquisas no próprio Panorama experimen- em Duo, enquanto Middle high tones, do
ta-se criador e deixa clara a influência de paulista radicado na Bélgica Christian
seus caminhos de origem. Duarte com Shani Granot, investigou a
Minas Gerais, Santa Catarina, Brasília autonomia do corpo e a busca de novos
e São Paulo também estiveram presentes modos de articulação.
nos palcos do Panorama. Thembi Rosa Fechando o Panorama 2002, a companhia
experimentou a marca dos criadores minei- de Marcia Rubin, em sua nova formação,
ros Rodrigo Pederneiras e Dudude Herr- brindou o público com Um estudo. A literatu-
mann em seu corpo em movimento, em ra, antes presença garantida na obra da cria-
Ajuntamento. Que nome daremos a nossos dora, retira-se e cede espaço para a prazero-
pares apresentou o competente Wagner sa exploração entre música e movimento.
Schwartz ao público carioca. Renata Fer- O compromisso selado pelo Panorama
reira trouxe Estudo sobre o tempo para a e seus parceiros com a difusão da criação
noite composta pelos criadores (agora cu- contemporânea da dança nacional e
radores) Frederico Paredes e Gustavo internacional no ambiente carioca acon-
Ciríaco. A noite, que contou ainda com a teceu em mão dupla. A programação ofi-
participação de Imagens, de Marcela Levy, cial, as performances da noite de abertu-
e Dressed dance, da alemã Katjia Watcher, ra e os resultados das oficinas foram
teve como foco a nudez que pode ser tra- acompanhados de perto por inúmeros e
vestida no corpo que dança. incansáveis programadores de festivais
Em Oito trigramas, o Kaiowas Grupo de internacionais, o que faz com que o Pano-
Dança, formado por jovens ex-integrantes rama sirva de vitrine da criação brasileira
do Cena 11, avançou na estrada aberta pela aos olhos do mundo.
companhia catarinense. O Basirah Grupo A imagem do pastel, logomarca do even-
de Dança mostrou em Uroboros que, nesse to, serve de emblema para postura do festi-
momento, a investigação de Giselle Rodri- val: deseja tornar-se cada vez mais popular,
gues apresenta-se menos teatral e mais democratizando o acesso através do ingres-
apoiada na exploração das circulações do so de R$ 1 e não garante que, necessaria-
movimento no corpo. mente, o recheio agradará o freguês. Esco-
Centrados nas possibilidades e nas im- lha acertada, já que o importante é a irriga-
possibilidades do movimento, o carioca ção de informações em via dupla que, a
Paulo Mantuano e a australiana Kylie- cada ano, o Panorama RioArte de Dança
Jane Wilson exploraram suas diferenças garante ao solo da dança carioca.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 30 DE DEZEMBRO • 2002

Movimentação
a passos largos
Com festivais, atrações isoladas e experiências
criativas, Rio se firma como polo de dança no País

R OBERTO P EREIRA E A NA C ECÍLIA M ARTINS

O s famigerados balanços de final de


ano são sempre ávidos por catalo-
gar novidades. Para a dança, que movi-
Rodrigues, que, curiosamente, mesclou as
ideias do escritor cubano com a estética
de Oskar Schlemmer, da Bauhaus. E mos-
mentou a cidade do Rio de Janeiro em trou ainda a bailarina e coreógrafa Ana
2002, o que aconteceu de mais expressivo, Vitória apontando novidades em sua ma-
entretanto, foi justamente a sedimentação triz coreográfica em Leveza, uma das qua-
de estruturas. E, claro, dentro dessas estru- tro qualidades de Calvino desenvolvidas
turas, a possibilidade do novo e da quali- por ela. O Panorama RioArte de Dança, o
dade emergirem. mais antigo dos três festivais, conseguiu
Nesse sentido, os três mais importantes em duas intensas semanas promover re-
festivais da cidade parecem exemplares: os flexões e estranhamentos no público. Sem
Solos de Dança do SESC, em sua terceira dúvida, o francês Jérôme Bel, com seu The
edição; o Dança Brasil, em sua sexta edi- show must go on, foi a grande atração, ar-
ção, no Centro Cultural do Banco do Brasil, rebatando um Teatro Carlos Gomes lota-
e o Panorama RioArte de Dança, em sua do, que sucumbiu às discussões sutis do co-
edição. O primeiro deu oportunidade ao reógrafo sobre a cultura pop, a autoria e a
público carioca de conhecer melhor a dan- própria dança. Há de se mencionar ainda
ça da excelente bailarina Paula Águas, com o bem-vindo retorno de Marcia Rubin,
seu sábio improviso em Qual é a música?, com sua nova e competentíssima compa-
e também de rever Eu e meu coreógrafo no nhia, num trabalho de alta sofisticação co-
63, diálogo entre as danças contemporânea reográfica, batizado Um estudo, a beleza
e a de rua experimentado pelo jovem do solo de Giselda Fernandes e suas cita-
talento Bruno Beltrão. Já o Dança Brasil, ções de Suzanne Linke, Castelo d’água, e
inspirado nas propostas do escritor Italo a terceira edição da mostra Os novíssimos,
Calvino, fez brotar um dos mais instigantes pequeno panorama do que vem ainda por
espetáculos do ano: Formas breves, de Lia aí de novos talentos cariocas.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Já fora dos festivais, as companhias cari- E como dança não é apenas espetáculo
ocas também compareceram. A injustificá- que se vê no palco, há de se registrar dois
vel DeAnima mostrou sua injustificável grandes acontecimentos: o Encontro Laban,
versão para Cinderela, numa injustificável promovido por Regina Miranda, movimen-
produção caríssima. Deborah Colker es- tando uma série de bailarinos e pesquisado-
treou seu 4x, reafirmando sua tendência ao res de todo o mundo em torno de seu tema, e
universo pop através do espetacular. E o o lançamento da bem cuidada revista Gesto,
B allet do Theatro Municipal abriu o ano pelo RioArte. Em ambos, a preocupação de
com sua superprodução de Romeu e Julie- que dança se faz com reflexão, sempre.
ta, convidando até Rostropovich para a di- Fechando o ano, um dos maiores pre-
reção musical, e acabou amargando uma sentes de natal para o público de dança
Gala Tchaikovsky, com uma imperdoável carioca: Danças de porão, dos bailarinos
e borrada Serenade, de Balanchine, além e coreógrafos Paula Nestorov e João Sal-
de requentados trechos de balés de Petipa. danha. Trânsito livre entre estruturas de
Sem dúvida, aqui, a falta de uma política aula, ensaio e espetáculo, os dois desve-
efetiva foi a responsável, num ano de tran- laram o ato de coreografar numa sabe-
sição eleitoral. doria tão sofisticada e ao mesmo tempo
Constrastando com esse painel das tão simples, que o resultado impressiona.
grandes companhias,as investidas de no- Ali, história se vê no corpo. Não qualquer
vos coreógrafos foram mais saborosas: história, mas aquela que sedimenta estru-
Esther W eitzman, em passos seguros de turas de onde emergem o novo e a quali-
pesquisa coreográfica e de estruturação dade. Isso faz da dança do Rio de Janei-
de sua companhia, o novo grupo de Paulo ro, hoje, ímpar. E faz do balanço do fim
Mantuano e as aventuras de improvisa- de 2002 uma constatação de que vivemos
ção propostas por Andréa Jabor foram im- um momento especial para a dança atra-
portantes para traçar novos contextos de vés de uma de suas mais importantes
dança na cidade. características: sua diversidade.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
122
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
2003 CRÍTICAS

O GLOBO - 16 DE MARÇO DE 2003


Parcerias inéditas rendem noite de experiências no palco do SESC
SILVIA SOTER

O GLOBO – 23 DE MARÇO DE 2003


A simplicidade engole a medusa
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL – 21 DE ABRIL DE 2003


Talentos em versão mal construída
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL – 29 DE ABRIL DE 2003


Movimentos plurais
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO – 15 DE JUNHO DE 2003


O olhar contemporâneo de um coreógrafo genial
SILVIA SOTER

O GLOBO – 30 DE JUNHO DE 2003


Béjart imprime didatismo religioso à coreografia
SILVIA SOTER

CRÍTICA NÃO PUBLICADA


Sobre o espetáculo Madre Teresa e as crianças do mundo
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 8 DE JULHO DE 2003


Tradição e história
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 24 DE AGOSTO DE 2003


O padrão de qualidade de sempre, mas carente de novas referências
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 28 DE AGOSTO DE 2003


Diálogo entre arte e ciências
ROBERTO PEREIRA

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO - 30 DE AGOSTO DE 2003
Em busca do movimento do corpo
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 9 DE SETEMBRO DE 2003


Experiências de Carlota Portella
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 7 DE OUTUBRO DE 2003


Sucessão de passos
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 08 DE OUTUBRO DE 2003


Quadros que se perdem em leituras ufanistas, ingênuas e superficiais
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 22 DE NOVEMBRO DE 2003


O surpreendente salto da DeAnima
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 27 DE NOVEMBRO DE 2003


DeAnima dança William Forsythe utilizando coragem e competência
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 9 DE DEZEMBRO DE 2003


Ana Botafogo é diva
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 11 DE DEZEMBRO DE 2003


Balé do Municipal encerra temporada em grande estilo
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 15 DE DEZEMBRO DE 2003


Os corpos são o lugar da dança
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 25 DE DEZEMBRO DE 2003


Balança e dança
ROBERTO PEREIRA E ANA CECÍLIA MARTINS

124
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • DOMINGO • 16 DE MARÇO • 2003

Parcerias inéditas rendem noite de


experiências no palco do SESC
Solos de Dança no SESC: Surpresas
e excessos na primeira série do evento

S ILVIA S OTER

H á quem diga que não é o bailarino que


escolhe a dança que faz, mas a dança
que escolhe o bailarino. Por afinidade, o es-
o material “original”. É essa a questão tra-
zida ao centro do palco, na quarta edição
dos Solos de Dança no SESC.
tilo do bailarino, entendendo estilo como um Na primeira semana do evento que, nos
colorido especial, um jeito particular de li- últimos anos, tem inaugurado a temporada
dar com um vocabulário coreográfico, viria anual da dança carioca, quatro intérpretes
ao encontro ao estilo de um criador ou de convidaram quatro coreógrafos ou direto-
uma linguagem. Essa adequação de estilos res com quem nunca haviam trabalhado
pode ser sentida dentro, por exemplo, de uma anteriormente para criarem as peças que
companhia de dança permanente. O conví- compõem a noite.
vio, a impregnação de uma forma particu- O bailarino André Vidal chamou
lar de abordar os parâmetros de movimen- Matheus Nachtergaele para essa ousada
to e a experiência partilhada ajudam a cons- empreitada. A performance Gema, resul-
truir a identidade da companhia e permitem tado dessa frutífera parceria, abre a noite.
que o espectador reconheça a “cara” da No centro do palco, um corpo aguarda, iner-
dança desse coreógrafo, ou da companhia te, entre centenas de ovos. A morte é tra-
em questão. tada pela sua outra ponta, o nascimento.
Muitas vezes, nas experiências de dança Na tentativa, nem sempre bem-sucedida,
em solo, o bailarino é, ao mesmo tempo, de erguer-se, André destrói as cascas e é
criador e intérprete de sua criação. Nesses coberto pelo conteúdo dos ovos. Na difi-
casos, não há, evidentemente, distância culdade e na repetição de achar uma bi-
entre material e estilo. Mas nem sempre é pedia humana, os ovos se travestem de ou-
assim. Ao experimentar no seu corpo a pro- tros fluidos corporais como lágrimas, suor
posta do outro, do coreógrafo, cada bailari- ou o verniz do nascimento. Gema parece
no irá filtrar, decantar e transformar à sua inaugurar novas e interessantes possibili-
maneira o que poderíamos imaginar como dades para o experiente André Vidal.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
Guardadas em você, coreografia de Alex grande, de gestos amplos e líricos, mergu-
Neoral para Nina Botkay, é marcada por lhou com rigor no universo de movimentos
uma energia de juventude. Nina é precisa, da coreógrafa para construir Silêncio. O bo-
veloz, vigorosa e dá conta, perfeitamente, nito resultado revela a transformação e o en-
das exigências da coreografia do promissor riquecimento do material da coreógrafa, no
Alex. No entanto, essa juventude também se corpo da intérprete.
manifesta num desejo de fazer muito. Há Frederico Paredes, da dupla Ikswalsinats,
um certo excesso, tanto nas músicas que coreografou Se eu estivesse aqui agora, para
compõem a trilha, quanto na própria escri- Andréa Maciel. A teatralidade com toques
ta coreográfica. Não há silêncio ou pausa surrealistas da Ikswalsinats não é matéria
que dê tempo para que as ideias apontadas de fácil incorporação. Apoiada no jogo en-
se desenvolvam. Ajustes que certamente tre intérprete e público, Andréa apresenta
acontecerão com o tempo. ainda um certo desconforto, natural eviden-
Talvez o encontro mais inusitado da noi- temente, nas situações mais teatrais, com-
te, justamente pela diferença dos estilos das pensado por momentos de domínio absolu-
duas, é o de a Soraya Bastos com a coreó- to nas variações espaciais.
grafa Ana Vitória. Ana Vitória é, reconhe- Semana que vem, os coreógrafos Regi-
cidamente, uma criadora-intérprete de so- na Miranda, Paulo Caldas, Esther Weitzman
los. Seu corpo pequeno, ágil e preciso, é pon- e Henrique Schuller convidam quatro intér-
to partida e destino de seu vocabulário co- pretes e propõem outras misturas no palco
reográfico. Mas Soraya Bastos, bailarina do mesmo teatro.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • DOMINGO • 23 DE MARÇO • 2003

A simplicidade
engole a medusa
Solos de Dança no Sesc: Série é marcada
pela irregularidade; coreografias
simples saíram-se melhor

S ILVIA S OTER

A segunda semana dos Solos de Dança


no SESC foi marcada por acertos e de-
sacertos. Este ano, a curadoria propôs encon-
No caminho oposto da primeira peça,
Fragmento para coreografismos, de Paulo
Caldas para Alexandre Franco, é marcada
tros inéditos entre intérpretes e criadores. pela eficiência e pela simplicidade. Aqui é
Dessa vez, diretores e coreógrafos convida- possível reconhecer as sutilezas necessá-
ram artistas com quem nunca haviam traba- rias para a costura entre o estilo do coreó-
lhado anteriormente para novas investidas. grafo e o do intérprete. Paulo Caldas tra-
A primeira imagem de Hologênese, per- balha sobre elementos identificadores de
formance dirigida por Henrique Schuller sua linguagem como o investimento do tor-
para a atriz Marilena Bibas, é promissora. so a partir da movimentação circular dos
No centro do palco, uma grande medusa de braços e a contração e a expansão do espa-
plástico transparente pulsa, mudando de cor ço operadas pela iluminação. A coreogra-
a partir da iluminação. O diretor pretende, fia opõe os diversos círculos desenhados
com o trabalho, refletir sobre a interface pela parte alta do corpo ao quadrado re-
entre mundo orgânico e mundo digital. No cortado pela luz que serve de diagrama
entanto, a evolução da proposta desperdi- para o deslocamento do bailarino. No cor-
ça a beleza da imagem inicial. O diretor po de Alexandre Franco, a dança de Paulo
usa e abusa de recursos como projeções de Caldas ganha novas nuances.
vídeo, digitalização da voz da atriz, gritos, Aproximações, peça dirigida e coreogra-
sussurros, esgarçando o tempo no limite do fada por Regina Miranda para Rafaela
suportável e nem assim consegue dar con- Amado, é construída como uma cena de pla-
sistência à ideia que aponta. A construção teia. Com a luz acesa, Rafaela se dirige aos
gestual da atriz cai, imediatamente, no espectadores, confessando suas dificuldades
exagero e na ilustração rasa do texto com- diante da tarefa de dançar e de ser o centro
posto de extratos descosturados de autoria das atenções. Ainda que a ideia seja interes-
de Friedrich Nietzsche. sante, para que uma proposta como essa fun-

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
cione bem, é preciso que haja uma certa Num projeto como Solos de Dança no
ambiguidade entre o interpretar e o estar dis- SESC, a duração de cada peça se impõe
ponível para apenas reagir aos estímulos, a como questão fundamental. Cada noite é
de fato improvisar. O que pouco acontece. composta pelo conjunto dos trabalhos, e
Salvo em alguns momentos, como naquele cada peça, criada de maneira independen-
em que a atriz brinca com sua identidade e te por autores diferentes, está, aos olhos do
seus atributos físicos, um certo excesso na te- público, inevitavelmente comprometida
atralidade e a preocupação de mostrar o que com a que a precede ou a seguinte. Assim,
se está fazendo de simplesmente fazer, com- o bom timing de cada parte é fator impor-
prometem o equilíbrio entre o improvisar e tantíssimo para o sucesso da noite.
o interpretar, enfraquecendo a proposta. Os Solos de Dança no SESC termina
Em Alguma coisa de novo,o jovem Ro- hoje seu quarto ano consecutivo, consoli-
drigo Gondim é coreografado por Esther dando seu importante lugar na temporada
W eitzman. A qui, a forma circular e a ilumi- da dança carioca. A irregularidade dos
nação também são elementos centrais.Es- resultados não compromete em nada a
ther explora, com o apoio da luz, a circulari- relevância da proposta de promover encon-
dade do espaço e do tempo, jogando com o tros inéditos e inusitados entre criadores e
silêncio,a suspensão e os movimentos de re- intérpretes. Ela faz parte do risco inerente
cuar e avançar.Alguma coisa de novo,ainda à ideia. Com certeza, o amadurecimento
que um esboço,revisita elementos explora- das parcerias oferecerá, em breve, novos
dos pela coreógrafa em suas peças anterio- e interessantes desdobramentos ao públi-
res e apresenta o promissor Rodrigo Gondim. co carioca.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 21 DE ABRIL • 2003

Talentos em versão
mal construída

R OBERTO P EREIRA

O Ballet do Theatro Municipal do Rio


de Janeiro escolheu, para a abertu-
ra de sua temporada do ano 2003, uma das
orgulhar com a da mestra Tatiana Leskova,
prata da casa.
Mas não é para a personagem Giselle
obras mais importantes do repertório in- que as atenções se voltam nessa montagem
ternacional: Giselle, símbolo do romantis- e sim para quem a representa e, nesse senti-
mo na dança. Entretanto, mais do que a do, Ana Botafogo confirma mais uma vez
escolha desse balé, o que marca esse iní- porque é uma de nossas mais importantes
cio de atividades da companhia no ano é bailarinas. A sabedoria e a maturidade de
a qualidade de seus integrantes que se sua dança emprestam ao papel-título uma
revezam nos papéis principais e a promis- fidelidade ao modo romântico de se dançar
sora gestão do novo diretor artístico, e um colorido todo próprio de quem domi-
Richard Cragun. na com precisão cada elemento cênico do
A versão assinada pelo inglês Peter balé. Já a qualidade da interpretação de
W right, que já pertence ao teatro desde Roberta Márquez vem do frescor de uma
1982, não é, certamente, a melhor.Perso- bailarina tão jovem, mas que responde bri-
nagens mal construídos,assim como equí- lhantemente às exigências técnicas (que
vocos cênicos e coreográficos (algumas não são poucas) da obra, conferindo uma
informações contidas no programa se in- interpretação toda sua, digna de uma pri-
cluem aí também, infelizmente) fazem meira bailarina. Cláudia Mota, tendo ven-
com que o balé perca muito de sua coe- cido dignamente o desafio a ela proposto,
rência. Uma pena, principalmente por se mostrou-se, por hora, mais afinada com o
tratar de uma obra que possui tantos re- papel de Myrtha, do que propriamente com
gistros e uma bibliografia tão vasta. Mas o de Giselle. No naipe masculino, Vítor Luiz
isso não é,claro,culpa da companhia, mas desempenha o primeiro papel seguro e ele-
de seus diretores que simplesmente tei- gante, enquanto Marcelo Misailidis e Fran-
mam em escolher essa versão e não se cisco Timbó, com a maturidade de ambos,

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
contribuem mais no papel de Hilarion. ca de formação de primeiros bailarinos
Quem, contudo, se destaca pela qualidade e solistas, sem dispensar atenção devida
de sua dança é Rodrigo Negri, excelente ao corpo de baile.
bailarino que atrai toda a atenção do públi- A recém-inaugurada iluminação do te-
co ao participar do pas-de-six do primeiro atro, orçada em US$1 milhão, que deveria
ato,assim como a competente solista Már- ser também uma das estrelas da tempora-
cia Jaqueline. O corpo de baile,muito afi- da, aparenta ser, entretanto, bastante inade-
nado,sobretudo na cena das wilis do segun- quada. Desajustes como um palco pouco ilu-
do ato, fez esquecer a péssima impressão minado e cheio de sombras no primeiro ato
deixada no final do ano passado com a Gala e uma lua distante quase dois metros do foco
Tchaikovsky. de luz no segundo ato são imperdoáveis nes-
A direção de Cragun aparenta ser se contexto.
promissora. Enfim, dentro de uma compa- A mais antiga companhia de dança do
nhia com a qual possui uma identificação País começa muito bem seu ano. Mas já que
de estilo, o bailarino americano já se valoriza seus bailarinos, deveria também
mostrou empenhado em revelar talentos, valorizar as versões e o repertório que fa-
dando oportunidades a jovens bailarinos, zem sua história. Este poderia ser um novo
em récitas vespertinas,voltadas às esco- desafio que Cragun, com certeza, saberia
las públicas.Muito bem-vinda sua políti- vencer com toda a sua competência.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 2 9 DE ABRIL • 2003

Movimentos plurais
Dança Brasil recebe trabalhos diversos
e afirma sua vocação investigativa

ROBERTO P EREIRA

C omo faz em todas as suas edições,


quando discute a relação da dança
com diferentes linguagens artísticas, o
coreográfica de Márcia, revelando-se
como outra estreia importante: deixando
de lado sua habitual preocupação com o
Dança Brasil, mostra promovida pelo texto literário, dessa vez a investida se dá
Centro Cultural do Banco do Brasil, ele- na construção de uma dança apenas (e so-
geu, neste ano, a música. Trata-se de uma bretudo) vinculada às questões do próprio
escolha nada fácil, pois sua relação (qua- movimento. Essa pesquisa, que apareceu
se) óbvia com a dança permite, muitas ainda como forma de Um estudo, no últi-
vezes, conceituações equivocadas sobre mo Panorama RioArte de Dança, resulta
como esse diálogo vem sendo travado ao em Tempo de valsa, moderado com elegân-
longo da história dessas duas linguagens. cia. Há de se dizer que elegância, aqui, não
E é encarar esse desafio, justamente, que aparece apenas no título, mas em toda a
a madura curadoria de Leonel Brum e cena. Se suas influências são claras, e a
Silvia Soter se impôs como tarefa para se coreógrafa Anne Teresa de Keersmaecker
conceituar todo um evento, também ma- deve ser citada (as rosas que aparecem
duro. Em sua sétima edição, o Dança Bra- projetadas ao fundo também podem ser
sil recebeu durante o mês de abril seis lidas como citações do próprio nome da
companhias. companhia belga, Rosas), isso não é, de
Na primeira semana, a estreia do even- algum, um problema, mas apenas alarga,
to se fez junto a mais duas outras, todas ainda mais, a discussão sobre autoria em
muito importantes para a dança carioca. dança contemporânea. Mas, como todo
A coreógrafa e bailarina Márcia Rubin, novo projeto, Márcia tem pela frente a ta-
acostumada a trabalhar com atores em refa de burilar suas ideias e transformá-
cena, mostrou sua nova companhia, agora las em vocabulário mais rico de movimen-
composta apenas de bailarinos. Essa esco- to, quase que construindo ali neologismos.
lha indicia uma nova direção na pesquisa Nesse sentido, a bailarina Renata Rei-

131
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
nheimer parece representar o lugar ade- rôme Bel e Lia Rodrigues dividem a cena,
quado onde Márcia tem a chance de visu- por exemplo, com televisão, cinema, video
alizar seus intentos. game, Revista Caras, ficção científica, ain-
A Cia. Vatá, da cearense Valéria Pinhei- da que tudo isso aparece com a referência
ro, e o Grupo de Rua de Niterói, dirigido estética à qual o coreógrafo se propõe: a
pelo jovem Bruno Beltrão, compuseram um dança de rua. A discussão sobre a ideia de
belo programa na segunda semana da mos- legenda e o que ela representa em termos
tra, embora com propostas estéticas tão di- de significação para o mundo, hoje, resolve-
versas. Bagaceira, cana e engenho pode ser se com exatidão no uso de recursos tecnoló-
visto como resultado ainda embrionário de gicos, o que faz rever de forma determinan-
uma fusão bastante difícil a que Valéria tem te o uso quase óbvio que a dança contempo-
se proposto em sua pesquisa coreográfica: o rânea vem fazendo da tecnologia, sobretu-
sapateado, técnica e estética de origem do no Brasil. Vale ainda ressaltar, dentro do
americana, e as danças populares nordesti- excelente grupo de bailarinos da compa-
nas devem passar pelo filtro generoso da nhia, a atuação de Eduardo Hermanson, cuja
dança contemporânea. Nesse desafio,há inteligência e timing podem ser vistos em
ainda ajustes a serem feitos nos corpos que seu corpo e em sua narração durante o es-
carregam informações por vezes apenas petáculo.
justapostas. Mas o espetáculo consegue É possível dizer que a terceira semana
apontar para o ineditismo dessa hibridiza- do Dança Brasil foi a que mais se adequou
ção de técnicas e estéticas de maneira ho- à proposta dos curadores de se investigar a
nesta e a cena é carregada de uma força relação entre música e dança. E, curiosa-
impactante.A música, executada pelos pró- mente, essa relação apareceu de forma di-
prios bailarinos em cena, com instrumen- versa nos dois trabalhos que compunham a
tos,além, é claro,do próprio sapateado,é noite. O primeiro deles, D.A.M., assinado
um dos elementos vitais,e faz com que esse pelo paulista Roberto Ramos, vem a ser o
espetáculo seja um dos que melhor respon- resultado, segundo o programa, de uma téc-
dem à proposta da mostra como um todo. nica própria desenvolvida pelo coreógrafo:
Se o mesmo não acontece com o Grupo “desenvolvimento anímico do movimento”.
de Rua de Niterói, isso não parece ser, aqui, Sua demasiada pretensão, entretanto, que se
um problema. Telesquat,criação do coreó- auto intitula autodidata, resulta numa pes-
grafo-revelação Bruno Beltrão,é,com cer- quisa escolar, cujo parco vocabulário de mo-
teza, o espetáculo mais instigante de todo o vimentos, sempre muito óbvios, encontra
D ança Brasil. A ideia era discutir o impac- pouco espaço para a exploração de sonori-
to da televisão na contemporaneidade, mas dades. Felizmente, para borrar a excessiva
oresultado vai muito além disso.Referên- simetria e a previsibilidade desse trabalho,
cias as mais diversas do mundo pop estão Maria Clara Villa-Lobos, brasileira residen-
lá, numa convivência nem sempre pacífica. te na Bélgica há mais de dez anos, apresen-
Mas são os atritos provocados pela mistura ta, em seguida, seu Trio. Nele, a bailarina di-
proposta por Bruno o que mais interessa: vide a cena com Peter Jacquemyn e seu con-
citações de obras de coreógrafos como Jé- trabaixo. Na verdade, pode-se dizer que essa

132
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
obra faz lembrar as investigações de músi- bloco espesso de referências que carece
ca erudita experimental de décadas atrás. ainda de ser trabalhado. Fica a vontade de
Mas a novidade está na interferência da ver essa grande bailarina e irrequieta co-
bailarina, que usa a improvisação para cos- reógrafa traduzir suas ideias mais em seu
turar, ou antes, descosturar, relações possí- próprio corpo e menos nos recursos cêni-
veis entre a fisicalidade dos três elementos cos demasiadamente utilizados por ela,
em cena e a música que disso resulta. que resultam em truques fáceis e conhe-
Cristina Moura fecha a mostra na quarta cidos de dança contemporânea.
semana, dando oportunidade ao público O Dança Brasil, ao mapear criadores
carioca de rever seu solo Like an idiot, brasileiros, sabiamente percebeu que esse
apresentado no ano passado. Nele, a bai- “brasileiro” deve ser encarado como uma
larina revisita questões sociais e políticas, via de mão dupla entre o que se faz aqui e
dissolvidas em suas reminiscências. A pes- o que se faz no resto do mundo. E a dança
soalidade com que essas questões são tra- pode ser um lugar privilegiado para se
tadas parece ser o filtro para que sua dan- observar esse trânsito tão eloquente de
ça explore, com precisão e força, as quali- referências mútuas. Assim, sendo mesmo o
dades físicas da bailarina e sua relação único evento de dança do CCBB, o Dança
com os objetos de cena. Já em IM-Pulso, Brasil faz com que sua maturidade e sua
seu segundo trabalho da noite, essa mes- aceitação sejam o aval mais que suficien-
ma relação parece não estar bem resolvi- te para que ele ganhe um teatro maior e
da. Se a ideia era investigar como a dança mais digno de sua importância na história
e a voz podem interagir, o que se vê é um da dança brasileira.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • DOMINGO • 15 DE JUNHO • 2003

O olhar contemporâneo de
um coreógrafo genial
Ballet Frankfurt: Peças de William Forsythe mostram
caminhos de um inventor de espaços

S ILVIA SOTER

A ntes tarde do que nunca. Na quinta e


na sexta-feira, o Rio de Janeiro teve o
prazer de conhecer a dança de William For-
funda o espaço e, paradoxalmente, muitas
vezes, os corpos parecem movidos de fora.
É justamente nessa tensão que a dança de
sythe à frente do Ballet Frankfurt. A estreia Forsythe se materializa.
carioca faz parte da última turnê confirma- Nessa turnê brasileira, três peças apre-
da de Forsythe com a companhia. Ameaças sentam diferentes momentos do criador.
de corte de verba associadas à nostalgia de Abrindo a noite, (N.N.N.N.), a mais recente
uma dança mais amena e tradicional pare- (2002), apresenta os códigos da dança de
cem também pairar sobre as terras alemãs. Forsythe, oferecendo pistas para que o es-
Tendo o balé como ponto de partida, pectador possa desfrutar do que virá a se-
a dança de Forsythe sintetiza ideias fun- guir. Do presente, Forsythe nos orienta para
dadoras de uma perspectiva contemporâ- olhar o passado. Quatro bailarinos (e que
nea da dança. A difusão de centros moto- bailarinos!) dão visibilidade às etapas de
res pelas diferentes partes do corpo, instauração do movimento em seus corpos
fazendo com que o movimento se inicie e no espaço, instalam pontos fixos e pontos
a partir de pontos diferentes, produz uma móveis e fazem legível o que o coreógrafo
polissemia estonteante. O espaço, gran- americano conceituou como ghosting: o bai-
de estrela da dança de Forsythe, inexiste larino deve conectar-se ao espaço como se
antes de ser investido pelo movimento perseguisse seu próprio fantasma, o rastro
dos bailarinos. Ele não está lá, desenha- que sua dança deixa e que ele revisita sem
do pelas linhas imaginárias da perspec- cessar. A conectividade dos corpos se dá
tiva euclidiana. A cada novo arranjo de através de um fluxo contínuo de movimen-
corpos, o espaço se produz. Uma vez fun- to que atravessa, desorganiza e propõe no-
dado, torna-se partner, atraindo e repelin- vos arranjos de corpos.
do cada corpo e, assim, provocando o mo- Em Enemy in the figure (1989), uma
vimento. É o corpo em movimento que parede sinuosa divide o palco que é, ao

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
mesmo tempo, atravessado por uma cor- Quintett (1993), talvez a mais poética
da. Esses dois elementos, associados à ilu- das três obras, fechou a noite. Para alívio
minação, parceira poderosa do criador, re- daqueles que esperavam formas do balé,
cortam na cena diferentes campos de ação. em Quintett, ele está mais presente. Nessa
É impossível para o espectador acompa- peça, criada por Forsythe às vésperas da
nhar tudo o que acontece. A dança se insi- morte de sua mulher, cinco bailarinos são
nua, emerge e desaparece, veloz e simul- mais uma vez atravessados por um fluxo de
tânea, criando um ambiente caótico que movimento que não pára, mesmo quando
aumenta de tensão até a vertigem. O es- cada um se ausenta. Em solos, duos e trios,
paço parece tecido por redes elétricas, e fluxo contínuo, encontros e desencontros
os bailarinos são sugados por verdadeiros constroem uma emocionante, ainda que
turbilhões. Sem referência aos códigos evidente, metáfora da vida.
mais banais da relação da dança com o Sem dúvida alguma, a contribuição ma-
teatro, como a narrativa ou o gestual dura e competente do Ballet Frankfurt im-
expressivo, Enemy in the figure é de uma prime ainda mais brilho à dança desse co-
teatralidade impressionante. reógrafo genial.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 30 DE JUNHO • 2003

Béjart imprime didatismo


religioso à coreografia
Madre Teresa e as crianças do mundo:
Balé carregado de uma ingenuidade desconcertante

S ILVIA S OTER

O coreógrafo Maurice Béjart percebeu


muito cedo que, para dar conta de suas
ambições como criador, seria preciso, para-
o mérito de lotar os teatros de um largo pú-
blico. Ao longo de sua carreira, Béjart vem
perseguindo um teatro total, incorporando
lelamente, investir em jovens talentos que às suas coreografias diferentes linguagens
pudessem desenvolver as qualidades neces- artísticas, como o teatro, a música e a lite-
sárias para serem intérpretes de sua dança. ratura. Místico e fascinado pela filosofia
A multidisciplinar Mudra, escola criada por oriental, Béjart se inspirou em Madre
Béjart nos anos 70, agregando diferentes Teresa para falar do amor como meio de
linguagens artísticas, foi um importante cen- aplacar o sofrimento dos excluídos. A pre-
tro de referência para a dança europeia. sença de Marcia Haydée na pele de Madre
Desde 1992, em Lausanne, é o atelier-esco- Teresa reforça a analogia proposta por
la Rudra que continua essa tarefa. Foi de lá Béjart entre o amor e a dedicação a Deus
que saíram os jovens componentes da Com- e o amor e a dedicação à dança. A dança
pagnie M, que esteve em cartaz no Theatro para Béjart é próxima do sacerdócio.
Municipal neste fim de semana, trazendo No entanto, cheia de bons sentimentos, a
Madre Teresa e as crianças do mundo. Nessa peça Madre Teresa e as crianças do mundo é
peça, a juventude é acompanhada pela ex- carregada de uma ingenuidade desconcer-
periência, já que é Márcia Haydée quem tante. Impossível dissociar o criador Béjart
interpreta Madre Teresa de Calcutá. do pensador Béjart. A forma como as pala-
A obra de Maurice Béjart é vasta e va- vras de Madre Teresa de Calcutá ganham a
riada, tanto nas escolhas temáticas quan- cena imprime à peça um didatismo próxi-
to na qualidade. A música, a literatura, o mo ao de um culto religioso sem nenhuma
Oriente, temas da atualidade como a AIDS, sutileza. Aqui, a preocupação com a fácil co-
por exemplo, serviram ao longo desses anos municação impede que esse amor ao outro
como fonte de inspiração para o criador. ganhe alguma transcendência. Sobretudo
Suas peças são de fácil comunicação e têm num país como o Brasil de 2003, onde a

136
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
consciência da complexidade que cerca a plateia com sua presença sorridente e tea-
exclusão se faz, a cada dia, mais aguda, a tral. A brasileira Márcia Haydée, com do-
simplicidade da abordagem impressiona. mínio absoluto de cena, dá credibilidade, ge-
Coreograficamente, Béjart se apoia na nerosidade e delicadeza à sua personagem.
agilidade e na flexibilidade de seus jovens Com Madre Teresa e as crianças do mun-
intérpretes. Pernas altas, saltos, movimentos do, a Compagnie M cumpre seu papel, ofe-
acrobáticos e uma fartura de grand-écarts recendo a seus jovens integrantes a oportu-
apresentam as qualidades dos egressos de nidade (rara nos dias hoje) de partilhar a
Rudra. Infelizmente, a agilidade e o vigor cena com uma personalidade como Márcia
juvenis ainda não são acompanhados de Haydée. O experiente educador Maurice
grande precisão, o que fica evidente, por Béjart sabe que um bailarino só irá de fato
exemplo, na cena dos bastões. Uma grata se formar com a prática do palco mediante
surpresa: W illiam Pedro,o jovem e compe- convívio saudável e necessário com outras
tente brasileiro da Compagnie M, seduz a gerações e outras experiências.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
CRÍTICAS NÃO PUBLICADAS
RIO DE JANEIRO • 200
20033

Sobre o espetáculo Madre Teresa


e as crianças do mundo

R OBERTO P EREIRA

E m dança, o tema escolhido para uma


obra pode se inscrever na estrutura
coreográfica, descobrindo nela novas mo-
vel. Quando se vê Márcia ajoelhada, esfre-
gando o chão, dá saudades de atuações suas
como em Romeu e Julieta, de John Cranko.
dulações que esse canal oferece ao criador. A palavra para ela não era necessária.
Sem dúvida, um grande desafio para gran- Já a dança, nos momentos que lhe é de-
des coreógrafos. Mas existe também a pos- terminado aparecer, mostra estruturas co-
sibilidade de tratar desse tema a partir de reográficas de uma elementariedade cons-
sua literariedade, numa espécie de conti- trangedora, transbordando em clichês. A
nuação do balé que se fazia há mais de dois frontalidade exibicionista com que cada
séculos. É a essa última linhagem que pa- bailarino mostra seus dotes resvala num
rece pertencer o coreógrafo francês Mau- show de egos que parece ter pouco a ver
rice Béjart e que comprova isso com seu es- com as doutrinas de Madre Teresa. É desse
petáculo Madre Teresa e as crianças do mal que sofre o grande talento brasileiro
mundo, apresentado nesse último fim de William Pedro, infelizmente, como, aliás,
semana no Theatro Municipal do Rio de Ja- toda a excelente M Compagnie, composta
neiro. Aqui, o tema é tão imponente que de jovens bailarinos tão capazes.
acaba circundando a dança, em justaposi- Maurice Béjart parece ter sucumbindo
ções mal alinhavadas de citações da per- diante da grandiosidade de seu tema. As-
sonagem principal, no caso Madre Teresa, sim, optou por uma aparente simplicidade
e a dança, propriamente. O resultado é es- em cenários e figurinos, mas que não está
colar, didático, beirando a ingenuidade. traduzida no gesto, no corpo do bailarino e
As citações são basicamente feitas pela na coreografia. Se a literariedade é o re-
bailarina convidada, a brasileira Márcia curso escolhido para se tratar de um tema
Haydée. Sua conhecida dramaticidade, no em dança, há de se levar em conta os riscos
entanto, é comprometida pela mera repro- que essa dança impõe enquanto mídia.
dução de frases e posturas da personagem Nesse sentido, o mestre Béjart parece ter
central, que, hora nenhuma, encontra em seu esquecido mesmo o significado da palavra
corpo e em sua dança uma tradução possí- “metáfora”.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 8 DE JULHO • 2003

Tradição e história
O lago dos cisnes resgata
história do Ballet do Municipal

R OBERTO PEREIRA

A transmissão de um balé de uma gera-


ção a outra, mesmo em um mundo
marcado por evoluções tecnológicas, ainda
pel, sobretudo no segundo ato, quando pouco
interage com seu partner e com o corpo de
baile. O jovem Vítor Luiz, responsável pelo
se faz principalmente pela tradição oral. No papel do príncipe, deixou clara sua imaturi-
caso de O lago dos cisnes,que teve sua estreia dade ao dançar ao lado de tão experiente
no último dia 4, com o Ballet do Theatro Mu- bailarina, o que provocou um descompasso
nicipal do Rio de Janeiro,essa tradição tem ainda maior em todo o espetáculo. Resulta-
um nome: Eugenia Feodorova. Responsável do: a noite foi de André Valadão, excelente
pela primeira montagem dessa obra-prima num papel secundário, “o bobo da corte”,rou-
do balé pós-romântico nas três Américas,ain- bando para si todas as atenções.
da em 1959, nesta mesma cidade, com esta Na récita seguinte, o mesmo Valadão
mesma companhia, Feodorova imprime a dividiu a cena com Roberta Márquez, bai-
marca da história numa arte onde é difícil larina ímpar na história dessa companhia.
falar em original, mas apenas em versões. Ainda jovem, Roberta empresta à dualida-
Nesse sentido,essa recente montagem de dos cisnes branco e negro um colorido
muito difere,felizmente,daquela de 2001, próprio, acomodado em uma técnica perfei-
assinada pela conterrânea de Feodorova, ta. E ambos souberam compartilhar com
a russa Natalia Makarova. Mais simples,e todo o corpo de baile a sintonia exigida nes-
mais bem acabada, há nessa versão uma se estilo coreográfico.
aproximação evidente com a estética Mais que meramente contar a história
coreográfica original, assinada pela dupla da princesa metamorfoseada em cisne,
Petipa/Ivanov e que encontra eco muito sa- essa montagem de O lago dos cisnes assi-
tisfatório no desempenho da companhia. nada por Feodorova resgata a própria his-
Na noite da estreia, Cecília Kerche teve tória de uma companhia de dança, neste
grande oportunidade em mostrar porque po- caso, a primeira do Brasil. E ao fazer isso,
deria ser uma perfeita Odile/Odete, mas recupera sua tradição, ideia fundamental
optou por cumprir burocraticamente seu pa- quando se fala de balé.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • DOMINGO • 24 DE AGOSTO • 2003

O padrão de qualidade de sempre,


mas carente de novas referências
Divíduo: Tema e coreografia no
novo trabalho da Quasar

S ILVIA S OTER

A sobrevivência de uma companhia de


dança por 15 anos, numa cidade dis-
tante do eixo Rio-São Paulo, é um aconteci-
ênfase nos solos ou em duos e trios cuja
coincidência da movimentação se faz
com aquele que está distante ou apenas
mento raro no panorama da dança brasilei- virtualmente presente, como na cena em
ra e merece comemoração. Quando essa que uma das bailarinas dança com um
companhia consegue atingir um padrão de partner que aparece numa projeção de
excelência como é o caso da Quasar Cia. de vídeo, em outro cômodo.
Dança, dirigida por Henrique Rodovalho, as É assim ao longo de toda a peça que
razões para comemorar multiplicam-se. Rodovalho reforça o tratamento que dá ao
Hoje, sem dúvida, a Quasar é referência de seu tema: desfilando ícones da solidão e do
seriedade, de produção impecável e de óti- individualismo urbanos, como o assistir à
mos bailarinos para o público e os profissio- televisão como ato solitário, o telessexo, a
nais de dança do País. Divíduo,em cartaz até câmera polaroide que fotografa os móveis
hoje no Teatro Odylo Costa Filho,chega ao da casa, o comer para preencher o vazio da
Rio como parte das comemorações dos 15 solidão etc. Referências explícitas e de rá-
anos da companhia. pida identificação com o público. A cena do
A solidão urbana é o tema central do entregador de pizza, por exemplo, cria uma
espetáculo.A cena é dividida em quatro ponte interessante e divertida entre o tea-
áreas,quatro cômodos recortados pela luz tro e a cidade, reforçando a cumplicidade
no palco que abriga cada um, um bailari- entre a cena e a plateia.
no. Os dois espaços do fundo da cena es- Mas à medida que o espetáculo avan-
tão separados por uma parede e insinu- ça, Divíduo acaba, infelizmente, sucum-
am ambientes de uma casa. A inda que os bindo ao mesmo mal que tanto esmiúça:
bailarinos não fiquem isolados em cada isola o tratamento temático e o material
um dos ambientes,a tônica dos desloca- coreográfico em dois planos distantes, sem
mentos se dá pelo não encontro, com ao menos provocar tensão ou diálogo

140
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
entre os dois. O afinco com que Rodova- Nesses 15 anos, a Quasar construiu um
lho busca deixar claro para o espectador trabalho sólido através de uma linguagem
sua ideia de solidão e os resultados de sua coreográfica interessante e vigorosa que
pesquisa sobre o tema não é acompanha- identifica a companhia como uma assinatu-
do pela forma como a ideia se materia- ra. Talvez agora, o próximo passo desse ca-
liza no corpo. O tema serve apenas como minho seja flexibilizar essa marca, deixan-
um lugar onde, nesse momento, a mesma do-a ser permeada por novas referências
dança do Quasar acontece. Em momento para que não se engesse. Tarefa de que Ro-
algum, o tema chega a contaminar, de fato, dovalho dará conta, com tranquilidade,
o tecido coreográfico. como a sua trajetória confirma.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 28 D E AGOSTO • 2003

Diálogo entre arte e ciências


Dani Lima cria método com nova coreografia

R OBERTO P EREIRA

P ara a ciência, tão importante quanto


o resultado de uma descoberta, é o seu
processo de investigação: um bom método de
ção sinuosa entre espaço e tempo ali sugeri-
da trafega na subversão de perspectivas, im-
plodidas em sons advindos de diversas par-
pesquisa pode ser sempre usado novamente, tes do teatro, em potências também diversas.
para outras possíveis descobertas. A coreó- Impossível falar em trilha sonora e cenário:
grafa e bailarina carioca Dani Lima, em seu existem apenas (e sobretudo) continuações
novo trabalho Falam as partes do todo?, que dos corpos que ali dançam. Uma dança acon-
teve sua estreia na sexta-feira no Espaço tece entre o público e não para ele, apenas.
Cultural Sérgio Porto, parece transportar essa Um possível mapa da investigação que
ideia para um outro lugar que não apenas o aqui aparece em forma de espetáculo pode
da descoberta, mas também o da criação. O ser traçado, para quem acompanha os tra-
processo de investigação ao qual Dani e seus balhos da coreógrafa: a residência do coreó-
bailarinos se dedicaram nesses últimos tem- grafo alemão Thomas Lehmen, no último
pos aparece em forma de espetáculo, forma Panorama RioArte de Dança, a obra de Lia
que é apenas uma entre tantas possíveis para Rodrigues, que Dani se dedica a estudar em
um pensamento de dança em plena ativida- sua pesquisa de mestrado, a curiosidade so-
de. A generosidade com que o processo é des- bre a dança pós-moderna americana, entre
velado aos olhos do público, além de mostrar tantas outras informações. Mas levando em
sem receios suas fontes, mostra-se corajosa- conta a falibilidade de todo mapa, mais ins-
mente como um método que pode, muitas tigante parece ser prestar atenção em como
vezes, ser reutilizado-por ela mesma ou por essa investigação é partilhada por seus bai-
outros criadores. larinos, tão jovens e vigorosos. As ideias in-
Pensando na relação entre o todo e as quietas de Dani parecem encontrar abri-
partes, Dani Lima elege alguns procedimen- go, sobretudo na qualidade e no frescor da
tos cênicos que ajudam a pensar que, nas dança de Monica Burity, que desfila filigra-
partes de qualquer organismo, estão as nas de pensamentos em seus movimentos.
informações do todo. Para a tradução dessa Para Dani Lima, “viver sem certezas é
ideia em dança, o diálogo com as esculturas/ viver em movimento constante de reaprendi-
instalações da artista plástica Tatiana Grin- zagem”. Sua generosidade e coragem em
berg parece ter sido a chave para outros tan- mostrar isso fazem de seu processo sua cria-
tos diálogos que aparecem em cena. A rela- ção. E faz dialogar sem clichês arte e ciência.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 30 DE AGOSTO • 2003

Em busca do movimento do corpo


Falam as partes do todo?: Dani Lima mostra
amadurecimento da linguagem coreográfica

S ILVIA S OTER

N ão é por acaso que o título do último


trabalho da Cia. de Dança Dani Lima,
em cartaz até amanhã no Espaço Sérgio
que acontece em Falam as partes do todo?
é de outra ordem.
O espectador não é de fato voyeur ou
Porto, organiza-se como uma pergunta. Fa- intruso. É a ele que a pergunta se destina já
lam as partes do todo? tem o cuidado de não que se trata de investigar a dança a partir
ser uma afirmação para poder abrir a cada da recepção, daquilo que cada espectador
espectador uma possibilidade de reflexão, pode (ou não) captar. Sem o espectador,
uma experiência interessante e delicada, Falam as partes do todo? não existiria.
alimentada pela dança, pelas obras da ar- O encontro entre os trabalhos e as inquie-
tista plástica Tatiana Grinberg e pela am- tações de Dani Lima e Tatiana Grinberg
bientação sonora de Felipe Rocha. resultou num produto envolvente. A contri-
Falam as partes do todo? não é exata- buição de Felipe Rocha é também funda-
mente um espetáculo.O que talvez seja ines- mental para criar o espaço sonoro, visual e,
perado para o público que tem acompanha- às vezes, tátil, em que o espectador é mer-
do a trajetória de Dani Lima, ex-integrante gulhado, sendo obrigado a se deslocar para
da Intrépida Trupe.Até então, o nome da escolher o que acompanhar, ainda assim
coreógrafa esteve associado à dança aérea sem dar conta de apreender o todo.
com cores do pop e ao universo feminino, Os objetos construídos por Tatiana Grin-
suas marcas mais fortes. berg serviram, visivelmente, como o ele-
Se não é um espetáculo, também não é mento detonador de toda a reflexão da peça,
um work in progress no sentido de apresen- ganhando correspondência na dança que só
tar ao público o processo no lugar do resul- é vista parcialmente e na música que se es-
tado.O olhar do público é central nesse tra- palha, aos pedaços, pelo espaço. No entanto,
balho de Dani Lima. Na maioria das vezes, o trabalho da artista plástica está tão pre-
quando é dada ao espectador a possibilida- sente que, em alguns momentos, o ressurgi-
de de acompanhar o processo de criação de mento das peças se faz redundante.
uma obra, esse espectador tem a certeza de Em Falam as partes do todo?, Dani Lima
que é generosamente recebido num espaço se afasta de suas referências anteriores para
do qual não faz parte. Ele é voyeur da inti- se aproximar de uma dança que se faz no
midade do artista. Parte do interesse de co- corpo, buscando no movimento os caminhos
nhecer as entranhas da criação se dá exata- para suas ideias, o que revela o amadureci-
mente pelo fato de que aquele momento é mento da linguagem coreográfica dessa
único,íntimo e fechado a estranhos. Mas o competente companhia.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 9 DE SETEMBRO • 2003

Experiências de
Carlota Portella
Espetáculo ressalta o carisma da mestra

R OBERTO P EREIRA

U m dos maiores méritos da coreógrafa


e professora Carlota Portella ao lon-
go de sua carreira na dança brasileira é a
pre em conta todos os riscos que tal emprei-
tada traz consigo. A responsabilidade de-
signada ao excelente bailarino Clébio re-
qualidade que imprime em seus bailarinos. sulta em Tia Robenize, trabalho que pro-
E é justamente essa qualidade que salta aos cura resgatar reminiscências infantis do
olhos de quem assiste ao mais novo espetá- coreógrafo. O grande problema está no
culo de sua Cia. Carlota Portella Vacilou excesso de referências usadas para tanto,
Dançou, que teve sua estreia no último dia típicas de uma imaturidade que se lança
4, no Espaço Cultural Sérgio Porto, sob o com muita sede ao pote. Todos os recursos
vago título de Memórias.A qui, novamente, cênicos parecem borrar uma pesquisa qua-
o grupo formado por três rapazes e duas se artesanal de movimentos que, por si só,
moças mostra habilidade ímpar em sua re- poderiam traduzir muito bem as intenções
lação com o espaço, com a técnica e com de Clébio. Talvez o momento mais repre-
uma coesão, onde as particularidades de sentativo disso seja o duo dançado pelo
cada bailarino funcionam apenas como in- próprio com a bailarina Dani Rodrigues,
terfaces de um todo vigoroso,disponível a em que se pode observar que o movimento
cada desafio.Para este espetáculo,portanto, e sua dramaturgia ganham lugar e tempo
Carlota elaborou esse desafio entregando apropriados nos dois bailarinos, em seus
a tarefa da coreografia para o experiente corpos, e nada mais. Sendo Clébio Oliveira
Mário Nascimento e para o jovem Clébio um inquieto pesquisador, que alia sua prá-
Oliveira, um de seus bailarinos. tica artística ao exercício de pensar a dan-
A iniciativa de possibilitar que jovens ça também em sua carreira universitária,
pesquisadores comecem a exercitar sua essa oportunidade concedida a ele gene-
prática coreográfica em uma companhia rosamente por Carlota Portella significa,
de dança profissional é digna de ser men- com certeza, apenas o início promissor de
cionada. Entretanto,há que se levar sem- um futuro coreógrafo.

144
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
A segunda obra da noite é assinada pelo A cena final, quando tijolos são arremes-
onipresente Mário Nascimento, que vem sados pelos bailarinos, funciona como
trabalhando com diversas companhias por exemplo, quando remete a Weight of a hand,
todo o Brasil. Dono de uma movimentação do belga Win Wandekeybus. E a teatrali-
vigorosa, fruto da mistura de sua herança dade que se busca nesse trabalho parece
do jazz com sua atual pesquisa de dança estar ainda perdida entre os excessos de
contemporânea, Mário parece ainda tatear movimentos e de recursos, como se essa
o que poderia ser uma assinatura coreográ- teatralidade tivesse a obrigatoriedade de
fica. Isso fica por demais evidenciado em existir para legitimar uma ideia.
Jogo do olho,onde clarasreferências apa- Em Memórias, de Carlota Portella, a
recem não em forma de citação, mas são qualidade de seus bailarinos faz dos dois tra-
simplesmente tragadas, colocadas lado a balhos apresentados apenas lugares para
lado,sem que tenham oportunidade de se- que ela apareça, absoluta. E é essa qualida-
rem tingidas pelo ofício do coreógrafo. de, sem dúvida, a grande estrela da noite.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 7 DE OUTUBRO • 2003

Sucessão de passos
Clichês prejudicam a coreografia de Terra Brasilis

R OBERTO P EREIRA

O espetáculo Terra Brasilis, de Fernan-


do Bicudo, que teve sua estreia sexta-
feira no Teatro João Caetano, coloca para si
gresso, infelizmente. E tudo vira um arrazoa-
do de pastiches de quem pouco se importou
em se debruçar minimamente sobre tudo o
uma tarefa das mais difíceis: a de fazer um que já se estudou tanto sobre evolução, quan-
grande mapeamento histórico das danças to sobre as próprias danças populares, um
populares brasileiras. Tarefa que se transfor- universo tão rico e tão particular. O resulta-
ma rapidamente em armadilha, já que o que do beira o leviano, como se esse universo
se consegue nesse espetáculo é uma mera pudesse ser resumido a mero entretenimen-
sucessão de cartões-postais que oferecem ao to, o que faz esse espetáculo ganhar antes um
espectador apenas recortes de um rico uni- caráter de show para estrangeiros de um ho-
verso que ficou longe de ser ali abordado. tel cinco estrelas, do que propriamente de um
Como qualquer cartão-postal, o convite é espetáculo de dança.
para que se tenha um olhar de turista e não A coreografia, isto é, a sucessão de pas-
de pertencimento, e é nesse lugar de turista sos assinada por Antonio Gaspar reduz-se ao
que se produz e que se assiste ao que se pas- excesso de frontalidade e simetria costura-
sa no palco. das por um excesso de clichês de movimen-
Tudo se complica a partir do entendimen- tos. O resultado é uma pasteurização das di-
to envelhecido que se tem de história: crono- ferenças que achata justamente a diversida-
lógico, causal, como se a vida fosse apenas de que se anseia retratar: a pluralidade de
uma sucessão de fatos. Como, por exemplo, se corpos e danças brasileiros. A música e a ce-
dá a rápida passagem do tempo dos dinos- nografia, assinadas pelos experientes Silvio
sauros que, literalmente (e inacreditavel- Barbato e Hélio Eichbauer, respectivamen-
mente), invadem a cena, para o tempo se- te, funcionam como legendas óbvias, que ape-
guinte, em que se dançava um lundu ou um nas carregam no tom de previsibilidade, qua-
maculelê, é uma questão que parece pouco lidade, aliás, que perpassa todo o espetáculo.
importar. Evolução ali é entendida como pro- E os elementos que surgem na cena, como os

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
animais pré-históricos, a motocicleta e o he- do o País vivia um processo de aceitação de
licóptero, sugerem um arremedo canhestro sua mestiçagem, em pleno projeto estado-
de musicais da Broadway, que faz assinalar novista, as mesmas preocupações de se re-
ainda mais uma tendência para cópia que se tratar o Brasil pelo filtro do balé estavam
arrasta desde os idos anos de 1940, com nos- lá. Hoje, ao se assistir a Terra Brasilis e ao
sas chanchadas e nossos musicais de cassinos. se ler o texto ufanista de Fernando Bicudo
O grupo de bailarinos, bastante hetero- em seu programa, uma questão se impõe: ao
gêneo ao misturar profissionais e iniciantes, propor, hoje, o entendimento do brasileiro
parece ainda estar pouco familiarizado com como resultado de uma “síntese do melhor
a proposta, e mesmo as sequências mais sim- de todas as raças”, esse espetáculo parece
ples são mal executadas, necessitando visi- mesmo acreditar nas duas palavrinhas que
velmente de ensaios. estampam a bandeira brasileira. A mesma
Há uns sessenta anos, quando a dança crença de décadas atrás.Isso,em estudos de
cênica ainda intentava ser brasileira, quan- evolução,tem outro nome.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUARTA-FEIRA• 8 DE OUTUBRO • 2003

Quadros que se perdem em leituras


ufanistas, ingênuas e superficiais
Terra Brasilis: Criação de Fernando Bicudo
se limita ao folclore mais previsível

S ILVIA S OTER

N a última sexta-feira, estreou com ares


de superprodução o espetáculo Terra
Brasilis,de Fernando Bicudo.Nas palavras
trazendo para a cena o que se encontra nos
terreiros ou nas rodas de capoeira.
Mas o caminho pelo qual Bicudo se en-
do diretor,essa peça “luta por um resgate vereda parece estar mais próximo do movi-
de nossas raízes culturais – as mais valiosas mento folclorista. Historicamente, o interes-
do planeta”.Projeto ambicioso que pretende se desse movimento pelas culturas ditas tra-
apresentar em uma hora uma possível essên- dicionais está ligado a uma postura românti-
cia do povo brasileiro através de sua dança, ca de recusa à urbanização e à industrializa-
do norte ao sul, do bigbang às festas raves. ção. No século XIX, as ideias folcloristas fo-
O fascínio exercido em diversos criado- ram incorporadas pelos regimes totalitários,
res pela diversidade e pela riqueza das ma- exatamente na busca das raízes populares da
nifestações populares regionais tem produ- alma de um povo, caracterizando-o para des-
zido resultados diferentes.Um dos exemplos tacá-lo diante de uma cultura internacional
de inspiração e pesquisa séria em torno de e das elites. É sabido que, durante o Estado
ritmos e danças do nordeste culminou na Novo, o balé, no Brasil, realizou incursões
peça Chegança, de 1998, jóia rara assinada nesse sentido. O curioso é que, em diferentes
pela coreógrafa Paula Nestorov. Em Che- países, esse movimento parte dos meios ur-
gança, os ritmos nordestinos são a tela de banos e intelectuais que projetam nos seus
fundo onde a dança da coreógrafa é tecida. objetos de estudo seus pontos de vista, pela
Eles estão diluídos,foram retrabalhados e incapacidade de compreendê-los de dentro.
transformados pela mão da artista. De fora, sem se misturar ou se deixar afetar,
Outro exemplo que parte em direção de fato, por seu objeto de interesse, a leitura
diametralmente oposta à anterior, mas com de Bicudo é ufanista, ingênua e superficial.
igual seriedade, é o Ballet Folclórico da Terra Brasilis estrutura-se rigorosa e pre-
Bahia, que transforma assumidamente ma- visivelmente, numa sucessão de quadros que
nifestações regionais em show para turistas, vão, literalmente, dos dinossauros aos dias

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
de hoje. A virtualidade do cenário de Hélio Infelizmente,Terra Brasilis desperdiça
Eichbauer dá apenas velocidade às trocas igualmente o que ainda poderia trazer qua-
de cada quadro, sem, no entanto, propor nada lidade ao espetáculo: o conjunto de 54 bai-
que vá além do telão pintado dos tradicio- larinos,alguns ótimos e experientes.Na noite
nais cenários de balé. Cada quadro corres- de estreia, no TeatroJoão Caetano,eravisí-
ponde a um ritmo que é superficialmente vel a falta de ensaio e de entrosamento en-
explorado pela coreografia limitada, assi- tre o conjunto.
nada por Antonio Gaspar, que busca tradu- Para terminar, não poderia deixar de
zir e, sobretudo mostrar, através de uma co- citar mais uma vez as palavras do diretor:
lagem de passos, citações e referências, a “Apesar de nosso passado de injustiças so-
dança em questão. ciais, somos o povo mais feliz do mundo,o
Assim seguem os 29 quadros do espetá- que melhor sabe viver, o que mais cultua seu
culo. Para cada um, uma ambientação espa- amor à vida. Somos o povo do perdão e da
cial, um grupo de bailarinos e um desfile de esperança. Somos o país do belo.” Resta sa-
figurinos. A coreografia de Antonio Gaspar ber de que lugar Fernando Bicudo olha o
passa uma régua nas diferenças e deixa para Brasil, de que país,de que povo ele está fa-
o telão e para os figurinos a tarefa de carac- lando e como brasileiro perguntar: “Nós
terizar o que no corpo não está presente. quem, cara pálida?”.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 22 DE NOVEMBRO • 2003

O surpreendente
salto da DeAnima
Parceria entre a companhia e Forsythe dá frutos

R OBERTO P EREIRA

O que existe de William Forsythe, um


dos mais importantes coreógrafos da
atualidade, no espetáculo forsythe@deanima,
reográfica aparece nítida nos corpos da ex-
celente bailarina Paula Maracajá e do bai-
larino, e também coreógrafo da companhia,
que o DeAnima Ballet Contemporâneo Roberto de Oliveira, em ótima forma, brin-
estreou anteontem no Teatro V illa-Lobos, dando o público carioca com a precisão e o
resume-se a apenas dois pas-de-deux. O vigor de sua dança.
apenas se refere apenas à quantidade de Já os dois trabalhos que abrem e fecham
obras e não à sua qualidade. Slingerland e o espetáculo apresentam ainda fragilidades
Herman Schmerman são dois ótimos nesta empreitada de se dedicar uma noite
exemplos da sabedoria deste coreógrafo ao coreógrafo americano. 9.All Stars carre-
americano, que há quase 20 anos está à ga consigo os problemas que persistem na
frente do Frankfurt Ballet. relação entre trabalho social e criação artís-
Nas duas obras,Forsythe parece levar os tica. Criada para a companhia e também para
ensinamentos de Balanchine, outro grande os Jovens do Programa Social DeAnima, essa
nome da história da dança cênica, às últimas obra denuncia que falta ainda a Forsythe
consequências.O resultado são intrincadas entender as tramas (e talvez armadilhas) que
relações entre dança e música, num tecido esse tipo de produção apresenta. Talvez, um
coreográfico que aponta no corpo dos bai- tempo de convivência maior que apenas uma
larinos noções de tempo e espaço sempre semana poderia ajudá-lo a, contextualmen-
outras, sempre novas.E, talvez, o que mais te, perceber o que significa sua atuação nes-
nos interessa aqui é sua execução,perfeita, se lugar tão complexo entre projeto social,
pela companhia carioca. Trata-se de um criação artística e, por que não, educação.
grande mérito,já que o desafio a que se pro- Encerrando a noite, Uma semana com
põe não é o dos mais fáceis. Bill(y), assinada por Roberto de Oliveira,
Herman Schmerman é, com certeza, o é, segundo o coreógrafo, fruto da experiên-
melhor momento da noite.A qualidade co- cia desse convívio de uma semana entre a

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
companhia e Forsythe. Se a vontade era a O espetáculo forsythe@deanima parece
de traduzir esse encontro tão promissor, revelar novos ares na companhia dirigida
parece que a escolha do coreógrafo foi, no- por Richard Cragun. A escolha de um nome
vamente, a utilização da narrativa, quase como Forsythe pode ser um ótimo índice de
balé, o que se torna pouco forsytheano nes- que existe a vontade de transformá-la em
se sentido. Oliveira padece ainda da lite- uma companhia de repertório contemporâ-
rariedade, usando-a como único recurso neo. Que essa parceria continue e que ou-
para construir suas obras, deixando de lado tras se estabeleçam.
a oportunidade de se lançar aos desafios da A qualidade dos bailarinos permite tal
pura construção coreográfica, marca do co- avanço, e o público carioca só teria o que
reógrafo americano. agradecer.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA• 27 DE NOVEMBRO • 2003

DeAnima dança William Forsythe


utilizando coragem e competência
forsythe@deanima: Referência para o diálogo entre
a técnica clássica e a criação contemporânea

S ILVIA S OTER

A lguns criadores sacudiram as ideias


sobre o balé clássico, investigando
novos caminhos técnicos e consequente-
instabilidade dos apoios, sempre no limite
do desequilíbrio e da desarticulação, em
busca de novas e inesperadas linhas. A assi-
mente estéticos. No último século, o balé não natura de Forsythe ganha contornos diferen-
foi o mesmo depois de Balanchine. E a téc- tes em cada uma das quatro peças que com-
nica clássica ganhou certamente novo fôle- põem a noite.
go a partir de coreógrafos como, por exem- Em 9. All Stars, foi especialmente criado
plo, William Forsythe, cujo trabalho à fren- por Forsythe para o grupo de jovens do Pro-
te do Ballet de Frankfurt foi apresentado ao grama Social. A coreografia se inicia com
público carioca em junho passado. Forsythe uma partitura de gestos de braços, sob a mú-
é hoje referência quando a técnica clássica sica de Bach, e, em seguida, explora a dança
dialoga com a criação contemporânea. de rua, ao som do grupo americano N.O.R.E.
Em junho deste ano, depois da tempora- Aqui, a sabedoria e a generosidade de For-
da do Ballet de Frankfurt no Rio, o coreógra- sythe estão a serviço de possibilitar a orga-
fo americano esteve em residência no De nização eficiente do material trazido pelos
Anima Ballet Contemporâneo, companhia jovens participantes do projeto. A coreogra-
dirigida por Richard Cragun e Roberto de fia se adapta às possibilidades (ainda restri-
Oliveira. Durante uma semana, Forsythe tra- tas, o que é natural) dos jovens iniciantes, mes-
balhou com os dois grupos que dão conta das mo que não vá muito além disso.
ações do DeAnima: a companhia profissio- Mas é nos dois pas-de-deux que se se-
nal e os jovens do Programa Social DeAni- guem que a assinatura de Forsythe ganha,
ma. O espetáculo forsythe@deanima que es- de fato, visibilidade. Slingerland, um extra-
treou no último dia 21 no Teatro V illa-Lobos to da peça em quatro atos de mesmo nome
apresenta o resultado dessa parceria. criada em 1989 para o Ballet de Frankfurt,
A dança de Forsythe tem as marcas da é retomado aqui, com precisão e seguran-
técnica do balé clássico revigorada pela ça, por Alessandra Salamonde e Fernando

152
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Bersot. A desarticulação dos corpos cria uma diálogo cênico com o criador e a citação do
dança angulosa que joga entre as linhas do que antes foi mostrado, e Oliveira, ao se
clássico e a movimentação de aranhas. apegar demais à ideia de narrar o que acon-
Herman Schmerman, criada para New teceu nesse encontro, acaba por criar uma
York City Ballet, é o ponto alto da noite.Os camisa de força para sua dança. Balanchi-
ótimos Roberto de Oliveira e Paula Mara- ne já havia dito que, quando fosse importan-
cajá, com entrosamento perfeito,trazem o te contar algo, mandar uma carta seria mais
jogo para a cena, com o humor e a criativi- eficiente do que criar uma coreografia. Tal-
dade de Forsythe. vez a lição desse mestre não se aplique a
Fechando a noite, é a vez de Roberto de todos os casos, mas no caso de Forsythe, vale
Oliveira, agora como coreógrafo,dialogar ser lembrada.
com a dança do coreógrafo americano.Uma Vale também lembrar que dançar Forsythe
semana com Bill(y) é produto do convívio não é tarefa fácil. Tarefa que o DeAni-
com Forsythe durante a semana da residên- ma Ballet Contemporâneo enfrenta com
cia. No entanto,há um tênue limite entre o coragem e competência.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA• 9 DE DEZEMBRO • 2003

Ana Botafogo é diva


Bailarina brilha no Onegin do Ballet do Municipal

R OBERTO P EREIRA

S em dúvida nenhuma, Onegin, balé de


John Cranko, inspirado em obra homô-
nima do poeta russo Alexander Pushkin, re-
era o privilégio de ver dividindo a cena as
bailarinas Ana Botafogo e Roberta Márquez,
como Tatiana e Olga, respectivamente, que
presenta um marco importante para a his- se transformou em um dos grandes momen-
tória do Ballet do Theatro Municipal do Rio tos da noite. Duas gerações de primeiras bai-
de Janeiro. Onegin, que estreou no último larinas, cada uma a seu modo, teciam cenica-
dia 5, ganhou aqui uma versão absoluta- mente um diálogo eloquente de dança, uma
mente condizente com as necessidades im- soma de competências. A personagem Olga
postas por esse tipo de encenação. Embora parece ter sido construída especialmente
seja um balé tipicamente de ação, que exi- para Roberta, tal era a afinação que se podia
ge dos intérpretes uma construção dramáti- observar em sua performance.
ca refinada e por isso mesmo muito difícil, Já na segunda récita, esse mesmo entro-
existem nele passagens coreográficas alta- samento não foi alcançado. Cecília Kerche,
mente técnicas, sobretudo nos intricados talvez abalada pelos últimos acontecimen-
pas-de-deux, presentes em todos os três atos. tos que envolveram seu nome nos bastido-
Assim, o duplo desafio de atender a tais res do teatro, não conseguiu imprimir à sua
exigências representa a possibilidade de Tatiana as sutilezas dramáticas que carac-
crescimento e maturidade que deve ser ex- terizam a personagem. E ainda não pôde
perienciada por toda grande companhia de interagir bem com o bailarino Francisco
balé, e a nossa teve êxito nessa empreitada. Timbó, bastante frágil tecnicamente como
O elenco escalado para a estreia corres- Onegin. Resultado, a grande estrela foi a
pondeu muito bem a tais exigências. Marce- novata Cristiane Quintan, como Olga. Já o
lo Misailidis conseguiu dar um tom preciso corpo de baile, assim como toda a produção
de dramaticidade ao seu Onegin, enquanto de cenários e figurinos, correspondiam com
Vítor Luiz construiu um Lenski de acordo perfeição à estrutura cênica imposta pela
com o perfil de poeta do personagem. Mas obra de Cranko.

154
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Se Onegin representa uma prova de pode ganhar o estatuto de papel consagra-
fogo para a companhia, que foi aprovada dor em sua carreira. Sua interpretação é
em muitos de seus quesitos,representa tam- perfeita, madura, sutil. Consegue modular
bém (e, talvez, sobretudo) um grande mo- com minúcia as diferenças de sua persona-
mento na carreira da bailarina Ana Bota- gem entre os atos, partindo de uma Tatiana
fogo. Maturidade,sabedoria, técnica e dra- jovem e ingênua para chegar a uma outra
maticidade são elementos dissolvidos em mais velha, dramática, no último ato. Sua
sua dança que se espalha por toda a cena, cena final impressiona. E faz o público sair
por todo o teatro.Tatiana, assim como Gi- do teatro com uma certeza: Ana Botafogo
selle, embora personagens tão distintos,já é uma diva.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUINT A-FEIRA• 1
QUINTA-FEIRA• 1 DE DEZEMBRO • 2003
11

Balé do Municipal
encerra temporada
em grande estilo
Onegin: Ana Botafogo se destaca,
demonstrando mais uma vez a técnica
e a interpretação repleta de
nuances que caracterizam uma estrela

S ILVIA S OTER

O Ballet do Theatro Municipal encerra


sua temporada de 2003 presenteando
o público carioca com a ótima montagem de
dança dos casais durante o baile de aniver-
sário de Tatiana. Não há, nesse caso, como
separar a dança da narrativa.
Onegin, coreografia de John Cranko, a par- Em uma peça como Onegin, os persona-
tir do romance em versos de Alexander gens possuem tons reais, humanos, em que
Pushkin. Depois de um longo período de as contradições, as dúvidas, as ambivalên-
“vacas magras”, a companhia volta em gran- cias e os arrependimentos não podem ser
de estilo. Coreografia, música, cenários, fi- garantidos por exageros da pantomima.
gurinos ajudam a fazer de Onegin um gran- Não são emoções em estado bruto. A neces-
de momento do Theatro. sidade de revelar, sem palavras, a comple-
Em três atos, a história do desencontro xidade do mundo interior dos personagens
amoroso do distante e blasé Onegin e da ro- torna-se, então, tarefa árdua para os intér-
mântica Tatiana é contada dentro da estru- pretes. E os bailarinos do Theatro Munici-
tura do balé de ação, em que o fio narrativo pal se saem muito bem.
é garantido, ainda que intercalado por mo- Na noite da estreia, Marcelo Misaili-
mentos de dança mais abstrata. dis compôs, com técnica e precisão, seu
A coreografia de Cranko é exemplar da Onegin, equilibrando doses de sedução
possibilidade de imbricar narração e dan- e de frieza de emoções nos dois primei-
ça. A primeira cena do segundo ato é ma- ros atos, e sensualidade e desespero no
gistralmente construída nesse sentido: os ato final. Vítor Luiz emprestou sua ju-
acontecimentos e os conflitos entre os diver- ventude e sua bonita presença a Lenski,
sos personagens que desencadearão a ação confirmando o seu lugar de destaque na
acontecem, literalmente, entrelaçados na companhia. A jovem primeira bailarina

156
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
Roberta Marquez, como Olga, brindou o tro de Tatiana e Onegin é uma dessas
público com mais uma atuação impecá- imagens que ficam impregnadas na me-
vel. O bom entrosamento do corpo de mória do espectador. Ana Botafogo car-
baile garantiu brilho às cenas de conjun- rega o público com ela. Coloca-o na pele
to, especialmente criativas no desenho de Tatiana.
coreográfico. Onegin é mais uma oportunidade de
Ana Botafogo, perfeita no papel de confirmar a rara capacidade da bailari-
Tatiana, destila diante dos olhos do pú- na em tornar legível em seu corpo,em seu
blico suas qualidades dramáticas. Sua in- rosto,o texto dramático.A dança de Ana,
terpretação é repleta de surpresas, nuan- mais uma vez, faz vibrarem as palavras
ces e hesitações. A cena do último encon- dos poetas.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA• 1
155 DE DEZEMBRO • 2003

Os corpos são o
lugar da dança
Lia Rodrigues faz dos bailarinos sua cena

R OBERTO P EREIRA

A dança talvez seja um dos lugares mais


privilegiados para se observar as con-
taminações mútuas entre natureza e cultu-
chão e se amontoam contra uma parede: a
carne que havia ganhado significações tor-
na-se simplesmente carne. O espetáculo de
ra. Nesse zigue-zague frenético de troca de Lia Rodrigues é um manifesto.
informações, o corpo que dança promove A construção da cena no corpo, e somen-
pactos renovados entre sua materialidade te nele, torna-se ainda mais radical em For-
e o lugar em que está inserido. Os dois espe- mas breves. A brevidade sugerida no título
táculos apresentados pela Lia Rodrigues vem das ideias de Italo Calvino. Assim, a
Companhia de Danças, no Teatro Villa-Lo- obra é composta de fragmentos quase ro-
bos, fazem dessa via de mão dupla seu sen- mânticos: cada um com a inteireza de um
tido: o ambiente da dança, a cena, é desve- porco-espinho, diria Schlegel, ou onde “tudo
lado no corpo e apenas nele, por ele. é apenas semente”,diria Novalis. Nessa apro-
Em Aquilo de que somos feitos,a ideia é priação pós-moderna de formatos, a propos-
revelar como as informações do ambiente se ta era reler Schlemmer, coreógrafo e um
incrustam num corpo-suporte, quase um ou- dos fundadores do movimento Bauhaus. A
tdoor, que,desnudo,deixa-se etiquetar pelos tarefa é cumprida a ferro e fogo, fazendo do
slogans do dia. Assim, o espetáculo recupera movimento um bisturi que modifica o cor-
a imprevisibilidade da performance, instau- po, que opera nele a ideia. Um figurino do
rando nela o engajamento político-social. O Balé triádico do coreógrafo alemão, por
espetáculo é uma constatação: o corpo,qual- exemplo, é traduzido em um corpo nu. O que
quer corpo – inclusive de quem assiste ao há de germânico explode num duo de for-
espetáculo – contaminado pela informação mas altivas, apolíneas, assépticas.
é mídia de ideias. Os corpos dos bailarinos Lia Rodrigues faz dos corpos de seus
não permanecem mais nus.Cabe ao público, excelentes bailarinos sua cena. Ao público
lançado sobre o palco sem cadeiras,dissolvi- cabe o desafio de afinar os olhos e transfor-
do numa relação quase epidérmica com a má-los em lente quase cirúrgica de decupa-
cena,revesti-los de outros figurinos. Em um ção. E perceber que aquela dança é apenas
determinado momento,esses mesmos corpos sintoma dos novos entendimentos possíveis
nus avançam pela plateia em espasmos pelo de natureza e cultura.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 25 DE DEZEMBRO • 2003

Balança e dança
Dança carioca encontra em festivais e mostras
terreno sólido para a sua produção em 2003

R OBERTO P EREIRA E A NA C ECÍLIA M ARTINS

P ara a dança, olhar para o ano de 2003


representa reconhecer que, embora
persistam grandes problemas, como a evi-
abriu o ano confirmando seu lugar ímpar na
cena carioca. Assinado por Beatriz Ra-
dunsky, e consultoria da coreógrafa Márcia
dente falta de política voltada para a área, Rubin, o encontro vem experimentando,
sua produção compensou esse caráter nega- desde sua primeira edição, novas configu-
tivo com uma qualidade que brota como rações. Nesse ano, como a ideia era promo-
força de resistência, quase que “tirando lei- ver encontros inéditos entre bailarinos e co-
te de pedra”. No Rio de Janeiro, cidade que reógrafos, alguns solos foram particularmen-
já se quis nomear “capital brasileira da dan- te instigantes pela originalidade desses en-
ça”, não foi diferente. contros, como as parcerias estabelecidas
Embora todas as faltas, todas as promes- entre o excelente bailarino André Vidal e o
sas vazias, embora os apoios da Prefeitura às ator/diretor Matheus Nachtergaele, e a da
companhias de dança contemporânea não bailarina Soraya Bastos com a coreógrafa
tenham saído como deveriam, que o Centro Ana Vitória. Nesta mesma ideia de solos, o
Coreográfico só tenha acumulado datas evento ainda brindou o público com uma ex-
possíveis de inauguração, embora não haja posição de raras litografias de Isadora Dun-
pauta para a dança nos teatros, que vivem can, com curadoria de Silvia Soter e Rober-
sob ameaça de se tornarem arremedo de to Pereira.
Broadway e de só exibirem uma versão O Dança Brasil comemorou seus sete
tupiniquim de musicais, a dança carioca anos provando que, embora seja, inacredi-
foi criando seus anticorpos e fez deles tavelmente, o único evento de dança do
sua marca. Centro Cultural do Banco do Brasil, e mes-
O primeiro anticorpo, talvez o mais for- mo assim ainda não conte com o teatro
te e resistente, é o dos festivais. O Rio agre- maior, é um dos mais importantes festivais
ga alguns dos mais importantes festivais do de dança brasileiros. Com curadoria de Leo-
Brasil, e talvez por isso a cidade tenha hoje nel Brum e Silvia Soter, esse evento promo-
um perfil tão peculiar que a distingue de ve, ao optar por linhas temáticas, olhares
qualquer outra capital brasileira. Os Solos sempre renovados sobre a dança contem-
de Dança no SESC, em sua quarta edição, porânea que se faz por aqui. Neste ano, a

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
relação música/dança foi eleita. Este senti- Outras mostras se agregam a este cená-
do, dois trabalhos aparecem como funda- rio de resistência: o Projeto Dança em Foco,
mentais: o de Márcia Rubin, que estreou uma das atividades do superprodutivo Es-
uma nova possibilidade coreográfica em paço SESC (outro anticorpo a ser mencio-
sua carreira em Tempo de valsa moderado nado), que investiga aproximações entre ví-
com elegância, e o furacão jovem chamado deo e dança, assinado por Paulo Caldas e
Bruno Beltrão,com os atritos que provoca Leonel Brum; o Dança em trânsito, da Se-
ao fazer dialogarem a dança de rua e a con- cretaria das Culturas, que investiga a rela-
temporânea. Beltrão,com seu inteligente Te- ção entre dança e paisagens urbanas; o Pro-
lesquat, foi, com certeza, um dos grandes mo- jeto raio X, da UniverCidade, que revelou
mentos da dança em 2003. o processo criativo de oito importantes com-
O terceiro importante festival de dança panhias cariocas, em ensaios abertos, sob a
carioca é o veterano Panorama RioArte de curadoria de Roberto Pereira; e o 4º Circui-
Dança, que alcançou algo bastante signifi- to Carioca que, embora tenha a boa inten-
cativo no cenário brasileiro hoje: sua déci- ção de ser uma palheta da vasta produção
ma segunda edição.Com a direção artística de dança da cidade, em seus mais diversos
de Lia Rodrigues, esse evento funciona estilos, ainda sofre por não contar com uma
como uma espécie de mapa da dança con- curadoria mais cuidadosa, que se preocupe
temporânea carioca ou, até mesmo,sua ár- também com a formação de plateias. Enten-
vore genealógica. Em 2003, sua marca foi der esses festivais e mostras como anticor-
mostrar como seus projetos ganharam cor- pos é talvez o modo mais interessante de se
pos e tiveram prolongamentos tão frutífe- notar, antes de tudo, o caráter formativo
ros.Trabalhos desenvolvidos em residên- deles, num ambiente que se nutre se infor-
cias em 2002 foram apresentados nesse ano, mações, muitas vezes tão escassas. Informa-
mostrando o papel fundamental desse fes- ção, aqui, também é formação.
tival como fomentador de pesquisa de dan- As companhias cariocas, muitas delas
ça na cidade.Nesse sentido,ostrabalhos de vivendo atualmente os percalços de falta de
Frederico Paredes e Denise Stutz são ótimos organização dos poderes públicos em rela-
exemplos de processos cuja ignição foi o ção à subvenção disponibilizada, também
próprio festival. Contando com outros pro- são fortes anticorpos que lutam pela saúde
jetos,como a quarta edição de Os novíssi- da dança que se faz nesta cidade. Dani Lima
mos,mostra de pesquisa de jovens coreógra- apresentou um dos trabalhos mais maduros
fos,curadorese,agora também, críticos,oPa- de sua carreira, Falam as partes do todo?,
norama continua como talvez a única pos- investigando identidade numa cena e em
sibilidade de apresentar importantes com- corpos bastante diferentes do que até então
panhias estrangeiras a preços realmente era conhecida como sua marca; Carlota
acessíveis.Nesse ano,tão parco de atrações Portella mostrou seus excelentes bailarinos
internacionais,poder ver a mais recente cri - em novos trabalhos assinados por coreó-
ação da coreógrafa francesa Maguy Marin, grafos convidados e estreantes; a DeAni-
Les applaudissements ne se mangent pas,foi ma Ballet Contemporâneo abriu o ano,
um presente. logo em janeiro, com um mal estruturado

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
projeto de residência coreográfica, mas ta de verba agregada a uma direção polê-
mostrou, no segundo semestre, alguns frutos mica de Richard Cragun tornou o ano da-
de uma parceria com o genial coreógrafo quela companhia pouco produtivo. Após
americano William Forsythe, revelando ao requentadas remontagens de Giselle e O
público carioca que Roberto de Oliveira, lago dos cisnes, e uma constrangedora
sem dúvida alguma, tem na sua prática Gala, apresentada em novembro, Onegin,
como bailarino sua melhor faceta; e Lia de John Cranko, foi seu grande momento.
Rodrigues, encerrando o ano, que pôde Ana Botafogo, Marcelo Misailidis, André
revelar aqui porque sua pesquisa interessa Valadão e o jovem talento Roberta
tanto aos importantes festivais internacio- Márquez formam, sem dúvida, um elenco
nais, sempre com grande sucesso, como no de primeira linha na mais importante com-
Nouvelle Danse, FIND, do Canadá, onde panhia de balé brasileira.
ganhou o prêmio de melhor espetáculo O ano de 2003, para a dança, embora
dado pelo público, deixando em segundo abalado pela falta evidente de estrutura,
lugar ninguém menos que Forsythe. Aliás, o criou mecanismos de produção que tor-
mesmo Forsythe foi, para nós, a única visi- nam o Rio de Janeiro, com certeza, uma
ta estrangeira, fora do âmbito dos festivais, cidade com um perfil bastante peculiar
de relevância. Num ano em que as empre- quando se observa os grandes centros cul-
sas se viram fadadas a cancelar temporadas, turais brasileiros. Aqui, arregaçar as man-
como infelizmente aconteceu com a de gas é a palavra de ordem. E aprender com
Merce Cunningham, da série Antares, assis- o próprio corpo como resistir, como com-
tir ao Ballet de Frankfurt foi uma experiên- bater, criando anticorpos vivos, ativos, in-
cia ímpar, por sua qualidade, por sua inteli- teligentes, concede à sua dança um cará-
gência, pela marca atualíssima forsytheana. ter que ultrapassa a dimensão estética. É,
O Ballet do Theatro Municipal também antes de tudo, um procedimento ético, de
enfrentou dificuldades de toda sorte: a fal- sobrevivência.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
162
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
2004 CRÍTICAS

O GLOBO - 15 DE JANEIRO DE 2004


Dança e reflexão no palco do Espaço SESC
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 18 DE JANEIRO DE 2004


Permanências mutantes
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 7 DE MARÇO DE 2004


Palco para a reflexão
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 13 DE MARÇO DE 2004


Saltos com riscos
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 21 DE MAIO DE 2004


Uma ponte entre o Rio e Sttutgart
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 2 DE MAIO DE 2004


O espaço que (nos) estimula
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 5 DE JULHO DE 2004


Dançando por esporte
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 12 DE JULHO DE 2004


Depois de 50 anos, ainda novas maneiras de ver e criar dança
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 12 DE JULHO DE 2004


Passos simultâneos à vida
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 16 DE JULHO DE 2004


Lembranças pensadas no presente que orientam projetos futuros
SILVIA SOTER

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL - 24 DE JULHO DE 2004
Lição de Antonio Gades
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 10 DE AGOSTO DE 2004


Paixão pelo movimento
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 13 DE AGOSTO DE 2004


Competência que rende espetáculo de beleza hipnotizante
SILVIA SOTER

O GLOBO - 3 DE SETEMBRO DE 2004


Com prazer e sedução
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 4 DE SETEMBRO DE 2004


Um balé de paixão
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 17 DE SETEMBRO DE 2004


A Tropicália, segundo sete criadores
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 24 DE SETEMBRO DE 2004


Mais liberdade para o som dos pés
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 2 DE OUTUBRO DE 2004


O Brasil em Lyon
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 3 DE OUTUBRO DE 2004


Shakespeare condensado
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 8 DE OUTUBRO DE 2004


É tropicalismo, mas sem irreverência ou transgressão
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 9 DE NOVEMBRO DE 2004


Desafio ainda é politizar o corpo que dança
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 22 DE NOVEMBRO DE 2004


Passos tecidos com sabedoria
ROBERTO PEREIRA

O GLOBO - 27 DE NOVEMBRO DE 2004


Gestos de beleza e suavidade em Márcia Milhazes
SILVIA SOTER

JORNAL DO BRASIL - 6 DE DEZEMBRO DE 2004


Qualidade técnica à prova
ROBERTO PEREIRA

JORNAL DO BRASIL - 30 DE DEZEMBRO DE 2004


Driblando obstáculos
ROBERTO PEREIRA

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 15 DE JANEIRO • 2004

Dança e reflexão no
palco do Espaço SESC
Afirmações intencionais – Acidentes:
Em seu novo espetáculo, João Saldanha divide mais
uma vez com o público as entranhas do ato de criar

S ILVIA S OTER

A temporada de dança contemporânea


chegou mais cedo em 2004. O Espa-
ço SESC, que há quatro anos inaugurava
Assim como acontecia em Danças de
porão, trabalho de João Saldanha e de Pau-
la Nestorov, que esteve em cartaz em 2002,
em março a temporada carioca com seus as entranhas e a intimidade do ato de dan-
solos e duos, abriu, neste ano, as portas em çar e de criar sequências com a dança que
janeiro para o coreógrafo João Saldanha surge em cena são reveladas ao público.
dividir com o público seu Afirmações inten- Por exemplo, uma mesma movimenta-
cionais – Acidentes. ção é iniciada por um dos bailarinos e ex-
Como o coreógrafo explica no programa, perimentada pelos outros, gerando sequên-
esse trabalho vem em consequência de cias. A cada encontro de movimento e bai-
mudanças provocadas em sua companhia, o larino, a partir dos corpos que atravessam,
Atelier Coreográfico, pela não renovação essas frases ganham diferentes qualidades.
em 2003 do apoio da Secretaria Municipal Desse modo, nascem células coreográficas
das Culturas que mantinha há anos suas ati- que são combinadas e compostas diante dos
vidades.O coreógrafo decidiu, então,traba- olhos do público. A seleção e a ordem das
lhar com bailarinos de outras companhias frases a serem trabalhadas são diferentes a
com as quais já colaborava como dramatur- cada noite. O acidente é esperado e bem-
go ou professor. Estão em cena, além do pró- vindo. O espetacular cede espaço ao proces-
prioJoão,um dream-team que reúne Laura so, como vem acontecendo numa vertente
Samy e Marcelo Braga, dois parceiros de importante da dança contemporânea.
João de longa data, Micheline Torrese Thi- O ponto mais delicado de propostas
ago Granato,da Lia Rodrigues Companhia como esta está na criação de um autêntico
de Danças, e Danielle Rodrigues e Alex ambiente de experimentação diante dos
Senna, da Cia. Carlota Portella. Ótimos bai- olhos do público. Ainda que, ao abrir a
larinos que colaboram com suas bagagens noite, João Saldanha tente quebrar com a re-
diversas para a peça. lação formal entre cena e plateia, pedindo,

165
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
por exemplo, que algumas pessoas do pú- um momento de pausa da dança é o que tem
blico troquem de lugar e avisando que de mais interessante nesse trabalho de João
aquilo não é um espetáculo, na noite de es- e que já estava apontado em Danças de
treia ficou evidente que a presença do porão: a possibilidade de confrontar o que o
público é um fator de influência para o público experimenta, ainda que sem neces-
rendimento dos intérpretes/criadores, para sariamente formular, com as impressões dos
o bem e para o mal, e não pode ser des- bailarinos e do coreógrafo.A peça é tecida
considerado. a partir de idas e voltas entre a dança e a
Em alguns momentos da noite, os baila- reflexão. Em Afirmações intencionais –
rinos descansam, comentam o que percebe- Acidentes,as palavras do dramaturgo fran-
ram de suas experiências, dividem frustra- cês Bernard Dort são confirmadas diante
ções, ouvem as opiniões e sugestões do co- dos olhos do público: a dramaturgia é uma
reógrafo. Aquilo que poderia parecer como consciência e uma prática.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • DOMINGO • 18 DE JANEIRO • 2004

Permanências mutantes
Espetáculo de João Saldanha analisa o paradoxo da dança

R OBERTO PEREIRA

O título do novo trabalho do coreógrafo


e bailarino João Saldanha, Afirmações
intencionais – Acidentes, em temporada
cias de movimentos, quem as executa e em
que ordem, além da própria trilha sonora,
são escolhidos pouco antes ou mesmo du-
até hoje no Espaço SESC, talvez indicie rante a apresentação. O frescor do momen-
uma senha possível para seu entendimen- to quase improvisado contrasta com o vigor
to: enquanto a expressão “afirmações in- do construído, do ensaiado, convidando o
tencionais”resguarda a qualidade de per- espectador a travar ali uma relação quase
manência, do que é, o termo “acidentes” de voyeur com o que se tece entre os baila-
redimensiona esse estado,instaurando a rinos. Não à toa, antes de começar o espetá-
ideia de acaso, de movimento, do que culo, o público é convidado a se levantar
muda. Antiga questão filosófica, arelação para que os bailarinos possam observá-lo, e
entre permanência e mudança parece de- não apenas o contrário.
senhar um mapa, dinâmico e sempre novo, Aliás, a escolha dos seis excelentes bai-
sobre o qual a dança ali construída é for- larinos (Micheline Torres e Thiago Grana-
çada a se desconstruir a cada dia, ou seja, to, da Lia Rodrigues Companhia de Dan-
é forçada a mostrar-se sempre como pro- ças, Danielle Rodrigues e Alex Senna, da
cesso e não como produto acabado. O que Cia. Carlota Portella, e ainda outros dois que
é vocabulário de movimentos do coreó- já trabalham há tempos com João, Laura
grafo encontra abrigo incerto,e por isso Sämy e Marcelo Braga) parece obedecer
mesmo tão rico,em corpos que se inaugu- à mesma lógica de permanência e mudan-
ram como um grupo,compartilhando a in- ça. O que cada um traz, das diferenças pes-
constância da cena. soais e da linguagem de cada companhia
Assim, a tradução dessa relação propos- às quais pertencem, permanece, ao mesmo
ta por João Saldanha faz submergir a quali- tempo em que se mescla, num novo conjun-
dade da dança e de suas especificidades nos to, numa nova linguagem. O que se deixa
acasos que a envolvem: a cada dia, sequên- ver é a dança de João em diálogo com a de

167
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
seus colegas coreógrafos, num jogo intri- méstica de “jardineiro-jardinando”.Na cren-
gante de vice-versas. ça popular, aquele que possui a habilidade
O grande mestre de todos, o coreógrafo de fazer vingar uma planta em seu jardim
russo George Balanchine, comparava seu ao plantá-la tem o que chamam de “mão
ofício de coreógrafo e professor ao de um boa”. Essa mesma mão, dissolvida na sabe-
jardineiro, também um de seus hobbies fa- doria de um corpo inteiro, faz de João mais
voritos: a atenção ao crescimento de suas do que um mero “orientador”: ele é mesmo
plantas e a consciência do ambiente em que aquele que sabe fazer florescer seu canteiro
cresciam davam-lhe a certeza da constru- de dança, colocando a mão em sua terra, cul-
ção de um processo.No texto do programa, tivando-a. E faz torcer para que a estação da
João Saldanha comenta sua atividade do- dança carioca seja sempre primavera.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • DOMINGO • 7 DE MARÇO • 2004

Palco para a reflexão


Denise Stutz arrebata o público na série
Solos de Dança, em cartaz no SESC

R OBERTO PEREIRA

C onfirmando-se como um dos mais im-


portantes eventos do calendário da
dança carioca, a série Solos de Dança no
bailarina Denise Stutz apresenta seu DeCor,
lugar que ela inaugura em sua carreira
para deixar aflorar a memória de dança
SESC, em sua quinta edição, dá continuida- abrigada em seu corpo. A sabedoria e a
de à proposta de instigar novos olhares a maturidade com que essa questão é ali tra-
partir de novas misturas. Com curadoria as- tada deixam vazar a qualidade de uma his-
sinada por Beatriz Radunsky e consultoria tória que se tece em movimentos, que se
do coreógrafo João Saldanha, a mostra ini- imprime na carne, contando suas experiên-
ciou sua primeira parte na quinta-feira, co- cias com coreógrafos diversos, mostrando
locando no mesmo palco qualidades muito um corpo que é um corpo de bailarina, no
distintas de dança, que, juntas, refletem tan- sentido mais puro desta palavra. Denise
to a rica pluralidade de pesquisas em dança deixa o palco e o público arrebatados por
contemporânea na cidade, como também a sua história, por sua identidade construída
generosa possibilidade de convívio dessas de modo tão íntegro em sua dança. Em se-
linguagens num mesmo ambiente. Resulta- guida, o solo O dia em que ela vai me ver
do: a série Solos de Dança no SESC traça dançar, da jovem Milene Pimentel, impac-
um diagrama de potencialidades que se efe- ta à primeira vista justamente pelo frescor
tivam entre nossos artistas. e a fragilidade de alguém que ainda come-
Como curadoria traduz um modo de ça tenuamente a construir sua história em
olhar o objeto artístico, interferindo inclu- dança. O contraste evidente entre as duas
sive a partir da sequência em que os traba- bailarinas, entre os dois trabalhos, exige do
lhos são apresentados, um dos momentos público que afie seu olhar para o que é con-
mais especiais da noite é justamente a pas- tado ali, confirmando que a ordem dos fato-
sagem entre os dois primeiros solos, que pro- res, nesse caso, altera sempre o produto. Mi-
voca um estranhamento mais que legítimo lene faz sua dança do seu tamanho, sem a
no público. Abrindo a noite, a experiente ansiedade característica de jovens coreó-

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
grafos, mostrando que o que ela aprendeu rino em se aproximar do coreógrafo e não
em seu curso universitário de dança pode um jogo entre vice-versas que poderia ser
ser transformado em investigação própria instigante.
de movimento. Duas trajetórias, Denise e Por fim, no último solo da noite, Marcelo
Milene são dois vetores que nos fazem lem- Braga e Paula Nestorov transformam o pú-
brar que história não se conta de forma li- blico em um voyeur que perscruta a fina
near, – da esquerda para a direita, – princi- relação entre artistas amigos ou, antes, en-
palmente quando a linguagem escolhida tre amigos artistas. Jacaré, peixe e cachorro
para contá-la é a dança. é uma fresta que se abre para que se obser-
O terceiro solo da noite marca um encon- ve o que se tece, em seu próprio exercício
tro inédito entre o bailarino Marcellus Fer- de tecer. A belíssima voz de Paula, que can-
reira e o coreógrafo Paulo Caldas.A elegân- ta ao vivo uma trilha composta especialmen-
cia com que tudo se constrói, já a partir do te por Antonio Saraiva, se refaz na movi-
título do trabalho,Basse danse,uma referên- mentação de Marcelo. O convívio e a cum-
cia a um modo de se fazer dança antes que plicidade que se desvelam no palco são
ela se tornasse cênica no Ocidente, carece transformados em dança e em música e no
ainda de ajustes típicos de encontros como que há de mais belo entre essas duas artes.
estes.Dono de uma pesquisa de movimento É nos atritos entre misturas que a série
bastante apurada, que vem sendo burilada Solos de Dança no SESC promove reflexão.
há muito tempo,Paulo parece não investir Essa é uma das principais tarefas que se
nas novas possibilidades que a excelência impõe a um evento como esse. A julgar por
da dança de Marcellus sugere. O resultado essa primeira parte, a tarefa parece ter sido
que se vê é muito mais um esforço do baila- plenamente cumprida.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 13 DE MARÇO • 2004

Saltos com riscos


Apesar de positivo, Solos de Dança revela fragilidades

R OBERTO PEREIRA

A segunda e última semana dos Solos


de Dança no SESC deixa aparente,
ao promover encontros inéditos entre core-
construção cênica está por ser feita e é isso
que salta aos olhos.
Já em Oculto, essa relação entre “dire-
ógrafos e bailarinos, tanto as riquezas quan- ção dramatúrgica”, assinada por Gilberto
to as fragilidades quase inevitáveis em um Gawronsky, e “direção coreográfica”,assina-
projeto como este. O que resulta cenicamen- da por Alex Neoral, para o bailarino Rober-
te das relações ali inauguradas deve ser to de Oliveira, parece estar melhor acomo-
antes observado como um ponto pinçado de dada, embora sofra pelo excesso de referên-
um processo, e deve, portanto, ser lido como cias. A ideia submerge em texto, luz, figuri-
tal. Nesse exercício, cabe a generosidade do no, deixando pouco espaço para a interes-
olhar em busca de novas tramas, pelo fres- sante construção coreográfica que apenas
cor que a própria (nova) relação inspira. se esboça. A rica disponibilidade do corpo
O primeiro trabalho da noite clama por do bailarino poderia ter sido melhor explo-
essa leitura de modo flagrante. Priscilla rada, podendo ter sido transformada, na
Teixeira convidou a atriz Mariana Lima própria cena, no lugar de diálogo entre o
para assinar a “direção” e a “concepção” de coreógrafo e o dramaturgo.
Mare lunae, e não sua “coreografia”. Os ter- O terceiro trabalho da noite se oferece
mos indicam, nesse caso, que a dramaturgia como bom exemplo de como esses novos
assinada por Mariana trafega rente a estru- encontros entre bailarino e coreógrafo po-
turas teatrais, deixando que a dança, em pura dem ser extremamente frágeis. Em Dobra,
potencialidade no corpo da excelente bai- ao voltar-se para a própria tessitura coreo-
larina, permaneça em segundo plano. Assim, gráfica, Thiago Granato não consegue im-
a narrativa buscada ali, com o auxílio de primir à cena ou ao corpo da bailarina Lau-
elementos cênicos, parece esquecer as es- ra Sämy a coesão necessária para se ler o
pecificidades da narrativa própria do corpo texto que ali se delineia. O processo de
que dança. A equação desses dois modos de metalinguagem, ao ser tratado como tema

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
em dança, traz consigo armadilhas que tal- ço na investigação coreográfica. Mesmo
vez apenas a maturidade na lida coreográ- com o terreno já preparado e bastante fér-
fica possa desarmar, desafio que o jovem til, o que nasce são frases feitas na movi-
Thiago ainda tem pela frente. mentação, na música e, sobretudo, na ilu-
Por fim, um reencontro entre os expe- minação e no figurino. Nessa conversa que
rientes Carolina Wiehoff e Renato Vieira se retoma, Renato e Carolina, com a sa-
parece trafegar justamente na mão con- bedoria dos dois, poderiam ter se lançado
trária do trabalho anterior. Em Mulher so- a criar neologismos.
zinha no palco, pode-se observar como es- Os Solos de Dança no SESC funcionam
truturas coreográficas são familiares à como provocações: nos atritos de novas re-
bailarina e ao coreógrafo,como se os dois lações, desviam os olhos do público dos au-
falassem um dialeto que é trazido à tona tomatismos, redirecionando-os para estru-
depois de algum tempo sem ser praticado. turas não conhecidas. E essa parece mes-
Mas esse conforto,próprio do que já é co- mo ser a função primordial de uma mos-
nhecido,não incita, infelizmente,um avan- tra como esta.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA• 21 DE MAIO • 2004

Uma ponte entre


o Rio e Sttutgart
Tríptico – Ballet do Theatro Municipal:
Vertente contemporânea alarga o leque estético

S ILVIA S OTER

I naugurando a temporada de 2004 do Bal-


let do Theatro Municipal, Tríptico es-
treou na última sexta-feira e prossegue até
Scholz incorpora elementos modernos à téc-
nica acadêmica e tem a qualidade de jogar
com silêncios da movimentação para dei-
amanhã. O programa é composto de peças xar respirar a música de Beethoven. A peça,
do alemão Uwe Scholz, do americano Glen defendida com correção pelos bailarinos
Tetley e do brasileiro Roberto de Oliveira. da casa, necessita ainda de pequenos ajus-
Uma perspectiva bastante particular tes para garantir a precisão que certamen-
costura e justifica a seleção das obras que te trará mais brilho à interpretação. A pre-
compõem a noite: as três peças revelam a sença da própria Beatriz de Almeida na
escolha afetiva do diretor do Ballet, Richard noite de estreia reforçou o caráter de ho-
Cragun, personagem importante da rela- menagem da noite.
ção histórica do Ballet de Sttutgart com o Criada pelo americano Glen Tetley,
Brasil. Cragun foi primeiro bailarino nes- no Ballet de Stuttgart, em homenagem a
sa companhia alemã e partner da estrela John Cranko, Voluntaries estreou em 1973 e
brasileira Márcia Haydée. Todas as três seguiu carreira com Márcia Haydée e Ri-
peças estão relacionadas, de um modo ou chard Cragun nos papéis principais. Trans-
de outro, com a passagem de Cragun e de cendência e espiritualidade estão no centro
brasileiros por Sttutgart. dessa obra de interpretação difícil, com
Sétima sinfonia, de Uwe Scholz, coreó- música de Francis Poulenc. Infelizmente, o
grafo e também ex-bailarino de Sttutgart, impacto e a beleza de Voluntaries não atin-
criada para outra brasileira, a bailarina gem seu auge. Talvez a obra requeira intér-
Beatriz de Almeida, abre a noite. A aborda- pretes mais maduros para dar conta da for-
gem de Scholz em relação ao espaço e à ça que Tetley propõe.
música remete aos balés sinfônicos de Mas- De inspiração nitidamente forsytheana,
sine, no que se refere à busca de uma trans- M.E.T.A.F.Í.S.I.C.A, de Roberto de Oliveira,
posição plástica da música. A coreografia de colaborador de Cragun e também ex-baila-

173
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
rino do Ballet de Sttutgart, fecha a noite. A ciente as qualidades físicas e técnicas de
iluminação de Milton Giglio cria efeitos em todo o elenco, com destaque para Bettina do
linhas que cruzam o palco e se dirigem para Dalcanale.
o foco de energia ao fundo da cena, de onde Esta não é a primeira vez (e espera-se que
e para onde a movimentação caótica dos não seja a última) que o Ballet do Theatro
bailarinos se orienta. Gestos angulares, Municipal explora uma vertente mais con-
desarticulados e repetitivos se estruturam de temporânea. É sempre interessante para
forma análoga à música, recriando as elipses uma companhia alargar seu leque de possi-
propostas por Philip Glass. Como uma citação, bilidades estéticas, investindo em outras
a luz recria imagens de nuvens que se acele- corporeidades, o que faz com que iniciati-
ram no céu, como no filme Koyaanisqatsi, vas como o Tríptico sejam bem-vindas. Mas
de Godfrey Reggio, com música de Glass. a composição do programa deveria ser nor-
Roberto de Oliveira consegue, em alguns teada pelas qualidades intrínsecas das
momentos,tocar a vertigem e o caos a que obras, aliada à certeza de adequação ao
se propõe, ainda que pareça não confiar ple- perfil dos intérpretes da casa. Não é o que
namente nas possibilidades de sua própria acontece em Tríptico. É uma pena que o
dança, insistindo em se apoiar em diferen- programa da noite não faça da estreia da
tes elementos cênicos para explicitar suas temporada de 2004 um momento inesque-
intenções.Oliveira aproveita de forma efi- cível. Saudades de Oneguin.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • DOMINGO• 2 DE MAIO • 2004

O espaço que (nos) estimula


Dança Brasil encerra temporada firmando-se
como palco das tendências contemporâneas

R OBERTO PEREIRA

O Dança Brasil, realizado durante todo


o mês de abril no Centro Cultural do
Banco do Brasil, e reunindo sete diferentes
intimidade. Avançando na pesquisa de
movimentos dentro do histórico dessa com-
panhia, esse espetáculo, entretanto, ainda
trabalhos, é hoje, ao lado dos Solos de Dan- necessita da coragem e da meticulosidade
ça no SESC e do Panorama RioArte de esgarçar no próprio corpo esse tempo,
de Dança, um dos mais importantes even- despindo-se da necessidade de elementos
tos de dança da cidade do Rio de Janeiro. cênicos, como cenário e música, para alcan-
Com direção artística de Leonel Brum, que çar a singularidade do espaço íntimo. Já a
divide a curadoria com a pesquisadora e segunda companhia da noite, o Kaiowas
crítica Silvia Soter, o Dança Brasil, a cada Grupo de Dança, de Florianópolis, em
ano, elege um elemento sobre o qual tra- Pausa, pretendeu explorar a espacialida-
tam todos os trabalhos ali reunidos ou que se de pictórica de Mondrian. Utilizando-se
transforma num viés possível de leitura des- de uma técnica de quedas desenvolvida por
ses mesmos trabalhos pelo público. Neste ano, Alejandro Ahmed em seu grupo Cena 11,
sob o título O espaço que (nos) inspira, trans- do qual a coreógrafa faz parte, Kaiowas
formou a relação espaço-tempo, vital para parece ter investido pouco na especificida-
a dança, em matéria-prima para o foco do de do tema que pretendia abordar, pecan-
olhar da curadoria, tendo como desafio ele- do pelo excesso de frontalidade e deixan-
ger coreografias que apresentassem, de al- do que a riqueza de elementos a serem
guma forma, essa preocupação. explorados no espaço representado por
Dividido em quatro encontros, sendo Mondrian se transformasse apenas em ce-
que três deles reuniam dois trabalhos numa nário e em adereço.
mesma noite, o Dança Brasil apresentou A segunda semana foi um dos acertos de
um mapa muito interessante de como esse curadoria do festival. Reunindo dois traba-
espaço é tecido pelas diferentes tendênci- lhos de Minas Gerais, mostrou um progra-
as da dança contemporânea. No primeiro ma coeso e que muito dialoga com a ques-
programa, Basirah, companhia de Brasília, tão do espaço proposto pelo evento. Lucia-
apresentou Eu só existo quando ninguém na Gontijo e Margô Assis apresentaram, em
me olha, utilizando-se de um tempo esgar- In situ, uma tradução poética da relação que
çado para tentar representar o espaço da se estabelece entre o ambiente e o corpo,

175
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
mostrando em planos e suportes diferentes mostra que suas idealizadoras não aprende-
como esse corpo reage e interfere nessas ram ainda o sentido da palavra metáfora.
novas texturas de espaço. A beleza com a Escolar, frontal, óbvio, perpassado por um
qual essa questão é tratada com carinho humor pasteurizado e de gosto americanoi-
pelas duas bailarinas-coreógrafas é, de cer- de, não se habilita a explorar o que o sapate-
ta forma, continuada na noite através do tra- ado e tantas pesquisas ali apenas iniciadas
balho de Thembi Rosa, em seu Ajuntamen- (mas nunca acabadas) podem render como
to.Nele,três diferentes coreógrafos inscre- diversas criações diferentes. O problema,
vem no corpo da bailarina sua noção de es- entretanto, mais do que a escolha “estética”
paço que se acomoda como podem, ao lon- de suas jovens coreógrafas, é entender sua
go do tempo,em sua qualidade de dança. O presença neste festival, cujo perfil investiga-
interessante é justamente observar como se tivo de dança contemporânea parece não
inaugura um outro amálgama entre compo- condizer com a proposta apresentada.
sição de três assinaturas diferentes no espa- Por fim, única companhia a ter toda uma
ço de um único corpo,entendido aqui como noite para si, o Zikzira Physical Theatre, que
mídia dessas assinaturas.Entre o espaço-cor- trabalha entre Brasil e Inglaterra, mostrou
po de Luciana e Margô e o corpo-espaço de Verissimilitude. Este não é o primeiro conta-
Thembi, esse programa possibilitou a decu- to do Rio de Janeiro com essa companhia. No
pagem das novas relações que a dança con- ano passado, por exemplo, foi possível ver na
temporânea promove ao (re)criar, a cada programação do Panorama o longa-metra-
atualização,sua própria noção de espaço. gem Cinzas de Deus, realizado por ela. Em
A Cia. Carlota Portella – Vacilou Dançou comum, os dois trabalhos constroem um cor-
e Celina Portella & Flavia Costa compuse- po foucaultiano para falar de sentidos e rea-
ram o terceiro programa, todo carioca. A lidade. O tom sépia que reveste a cena cos-
mestra Carlota mostrou um trabalho que in- tura em sinestesias o corpo que dança e aque-
triga se entendido dentro de uma dimensão le que o assiste, em trocas sensoriais que re-
histórica. Em Espaço de luz, a pesquisa esté- metem a um corpo comum, aquele tratado
tica da coreógrafa aponta duas setas: uma que pelo filósofo como lugar de discurso de po-
avança e outra que retrocede em busca do der. A competência com que tal relação é
resgate de um vocabulário que lhe é famili- tecida se espalha desse corpo que dança, à
ar.A o deixar de lado a tarefa de tratar a dan- cena, para, então, invadir a plateia, impreg-
ça como suporte de narrativas,elarecupera nando o lugar de uma mesma atmosfera.
com propriedade a movimentação de jazz Assim, a edição deste ano do Dança
que lhe ocupou tantos anos de sua carreira Brasil fala, de algum modo de si mesma,
pararedimensioná-la em um outro contexto. na medida em que o festival agrega, em
A chave para seu entendimento é observar, seu próprio nome, duas noções de espa-
sem pré-conceitos,como essa dimensão his- ço: tanto a dança quanto o nosso País são
tórica faz do trabalho,a um só tempo,resgate mapas culturais de entendimentos diver-
e avanço,citação e criação, metalinguagem sos de tempos e de espaços que, a todo
e descoberta.Já o segundo trabalho da noite, instante e em qualquer lugar, transfor-
Volume,de Celina Portella & Flavia Costa, mam o corpo em movimento em seu abri-
tem a competência do entretenimento,mas go de reflexão.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 5 DE JULHO • 2004

Dançando por esporte


Katakló: Movimentos óbvios na mistura
de balé com tênis, futebol e ginástica

R OBERTO PEREIRA

A Katakló Athletic Dance, companhia


que se apresentou nesse último
fim de semana no Theatro Municipal e
paço para qualquer resquício de metáfo-
ra: se se fala de futebol, por exemplo, tem
bola e trave em cena.
que continua sua turnê pelo Brasil, ao O que se esboça de “coreográfico” ali é
propor uma “união artística” entre es- primário, numa relação puramente causal
porte e dança, convida o espectador a com o tema, com a música e com o figurino.
pensar de que lugar é feita essa propos- E de onde se parte, do esporte, muitas ve-
ta como pressuposto para se entender zes fica o sabor de que nem mesmo os ex-
todo o espetáculo. ginastas se levam muito a sério, apresen-
Os corpos que ali se movimentam, to- tando caricaturas de si mesmos e que se
dos de ex-ginastas, carregam consigo a pretendem engraçadas.
informação de treinamento que é da com- Assim, o show da Katakló é nada mais
petência do esporte, mas não conseguem que puro entretenimento, e mesmo como
dar o passo adiante de entender a si mes- tal deixa a desejar pela inabilidade cêni-
mos como corpos que dançam. A dança, ca e, muitas vezes, pela falta de originali-
propriamente, fica apenas como um ob- dade. Os números com efeitos visuais já
jetivo, sem jamais ser atingido. Ou como foram testados há décadas e com melho-
pretexto para que aqueles corpos possam res resultados por nomes como Alwin Ni-
ocupar um outro lugar, como os palcos, kolais e Momix, por exemplo, e até mes-
por exemplo. mo a cena do boxe já foi feita, tal e qual,
O próprio modo como a cena se confi- na década de 1980 pelo extinto grupo pau-
gura a partir desse corpo atlético confir- listano Marzipan.
ma que a questão ali nem de longe se pre- Num país como o Brasil, onde ainda se
tende uma questão estética. O primeiro indaga se a Educação Física pode mes-
número da noite (sim, um número!), que mo supervisionar o ensino da dança, as-
trata do “torcedor”, tem até arquibancada. sistir ao Katakló Athletic Dance Theatre
O segundo, sobre tênis, tem raquete, o de apenas reforça a resposta que parece
ciclismo, tem bicicleta, e assim sucessiva- muito simples e óbvia: não, não pode.
mente até o fim dos intermináveis deze- O corpo do esporte não é o mesmo corpo
nove quadros. A obviedade não deixa es- que dança.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA• 12 DE JULHO • 2003

Depois de 50 anos, ainda novas


maneiras de ver e criar dança
Merce Cunningham Dance Company:
Coreógrafo confirma sua revolução no Municipal

S ILVIA S OTER

A Merce Cunningham Dance Company,


conduzida há 50 anos por uma das len-
das da dança contemporânea americana,
suas pesquisas com simuladores de movi-
mento humano, no computador. Linhas si-
nuosas, retas e pontos, que atravessam a
ofereceu momentos inesquecíveis ao pú- cena sem fluxo ou sentido regulares, con-
blico carioca no fim de semana. Em meio tribuem para a leitura dos corpos que
século de atividade criativa, Cunningham estão em cena, reais e virtuais, a partir de
segue inaugurando novos modos de com- suas geometrias. O espaço, estrela da peça,
preender, ver e criar dança. No programa pulsa em todas as suas dimensões.
dessa turnê brasileira, duas obras apontam Com o desenvolvimento de Biped, tor-
características desse americano que fize- na-se estranho o fato de que os bailarinos
ram com que a dança não fosse a mesma sejam prisioneiros do chão. A submissão à
depois de sua passagem. força da gravidade é o último traço que dis-
Como declarou, cabe à psicanálise tra- tingue os bailarinos de todos os outros cor-
tar de afetos e da expressão individual. pos que dançam, aproximando-se e repe-
Cunningham não se preocupa com gestos lindo-se no espaço. A música envolvente de
e expressividade, mas com o movimento. Gavin Bryars, os magníficos figurinos e a
Biped, peça de 1999 que abriu a noite no iluminação precisa são decisivos para sua
Theatro Municipal,revela um criador que, beleza hipnotizante.
com o avançar dos anos,depurou, ao limite Numa viagem ao passado, 24 anos se-
da sofisticação,sua capacidade de aproxi- param Sounddance, a segunda peça da noi-
mar a cena e o movimento humano daque- te, de Biped. Criada em 1974, a peça que,
le impresso na organização caótica dos em suas outras montagens contava com a
eventos naturais. presença do próprio Cunningham, já insi-
A ambientação de Biped é composta nuava alguns aspectos que depois as novas
de projeções de imagens de corpos dan- tecnologias ajudariam o coreógrafo a en-
çantes que Cunningham desenvolve nas fatizar. No fundo do palco, de uma cortina

178
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
mostarda, destacam-se os bailarinos. Os fi- Tudo que é sólido desmancha no ar, cabe
gurinos, da mesma cor do tecido do fundo, lembrar aqui.
ajudam a caracterizá-los como partículas A impermanência de suas figuras só
desse ambiente sonoro e espacial. Mais pode, no entanto, ser garantida pela regu-
uma vez e agora de forma nervosa, acele- laridade com que esse artista insistiu em
rada e até bem humorada, os corpos transi- não se acomodar com os passos que deu.
tam de maneira aparentemente errática, Assisti-lo é confirmar que mais cinquenta
sem se fixarem em figuras, esboçando de- anos continuariam a trazer para dança be-
senhos que imediatamente se desmancham. leza, frescor e risco.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA• 12 DE JULHO • 2004

Passos simultâneos à vida


Companhia de Merce Cunningham sintetiza
em dois balés as pesquisas do genial coreógrafo

R OBERTO P EREIRA

A sutileza que separa e une, ao mesmo


tempo, técnica e tecnologia torna-se
matéria-prima nas mãos de artesão do co-
movimento. Um gesto às avessas dialoga
com a cena não de modo causal, mas inun-
dado por uma questão de ordem: o corpo,
reógrafo americano Merce Cunningham. O a cena, o figurino e a música, tudo se re-
que era ação fabricadora regida de acordo laciona de modo desierarquizado. O re-
com regras específicas é transformado em sultado é um convite para que se afie a
forma de conhecimento: técnica e tecnolo- percepção, ao longo da peça, para filigra-
gia, portanto. No corpo e na cena. nas cada vez mais sutis das conexões te-
Quem esteve no Theatro Municipal na cidas entre os bailarinos.
sexta-feira e no domingo últimos teve a Já Sounddance, obra de 1975 e estrate-
oportunidade de observar como a dança gicamente apresentada depois de Biped, nos
construída pelo mestre inaugura nessas mostra que tudo estava lá, há quase 30 anos.
duas instâncias, no corpo e na cena, o que a Como um arco e uma flecha tesos aponta-
própria vida e sua complexidade já nos dos para o futuro, é ali que se observa como
mostram desde sempre. Simultaneidades o tempo para Cunningham não pode ser
fazem explodir a herança renascentista de compreendido como estrutura linear. Se é
um mundo construído em perspectiva para no neologismo tempo-espaço que ele cons-
realocar o olho de quem assiste num outro trói sua dança, o que se apresenta na primeira
paradigma: não há hierarquia no corpo que obra está potencializado na segunda.
dança, nem na cena. Para tanto, Cunnin- Assistir a Merce Cunningham Dance
gham teve antes que enfrentar a difícil ta- Company hoje, no Brasil, é ainda, infeliz-
refa de burilar uma técnica. E depois (ou mente, um privilégio para poucos. Funci-
ao mesmo tempo) construir sua cena, com onando quase como uma cartilha básica
auxílio, sempre, da tecnologia. para todos aqueles que um dia aventaram
As duas peças apresentadas nessa tur- a possibilidade de coreografar, assisti-la
nê pelo Brasil mostram esse trajeto de deveria ser tarefa obrigatória. E, para o
modo flagrante. Biped, de 1999, que abre público em geral, é a oportunidade de con-
a noite, revela um Cunningham atento firmar que dança não é uma sucessão de
com o presente e seu revestimento tec- passos, mas ideia. Para o genial coreógra-
nológico. O corpo construído por ele está fo, artesão de técnica e tecnologia, essa
lá, despido do que comumente se chama ideia é o tempoespaço. Simultaneidades
de emoção, para ser apenas, e sobretudo, em dança. Simultaneidades da vida.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
R I O D E J A N E I R O • S E X T A - F E I R A • 16 DE JULHO • 2004

Lembranças pensadas
no presente que
orientam projetos futuros
Memórias do corpo: Renato Vieira
explora o corpo como receptáculo
de experiência de vida

S ILVIA S OTER

M esmo quando a memória não é o


tema central de uma criação, é inevi-
tavelmente sobre ela que a dança se apoia.
corpo de seus bailarinos e a das lembran-
ças de momentos marcantes que são tra-
zidos para o palco. A primeira se explicita,
A memória é sempre o suporte e, por que por exemplo, pela citação dos movimen-
não dizer, o ponto de partida do corpo que tos do balé do tango, instalados no corpo
dança, mesmo quando aspectos autobiográ- daqueles que dançam. A segunda, pela
ficos não são privilegiados. Vale lembrar recorrência de algumas imagens e per-
que o próprio processo de instalação de uma sonagens. É exatamente na articulação
técnica no corpo, qualquer que ela seja, se entre esses dois níveis, o do vocabulário
estrutura nos mecanismos da memória. É da técnico e o das imagens evocadas, que
possibilidade do corpo como receptáculo Memória do corpo encontra sua maior
das experiências da vida que trata Memóri- dificuldade.
as do corpo, o novo espetáculo da Renato Seria esperado que a investigação sobre
Vieira Companhia de Dança, em cartaz no algo tão íntimo e pessoal, como a memória
Teatro Carlos Gomes,até domingo. do corpo, afetasse de fato o corpo em sua
Renato consegue escapar de uma visão materialidade, deixando, por exemplo, emer-
da memória como narrativa linear de gir a tonicidade particular de cada bailari-
eventos e lembranças.No fundo do palco, no, a cada imagem. No entanto, o tratamen-
em planos diferentes,os bailarinos surgem to dado à dança, na opção por um vocabulá-
e desaparecem, como flashes.Nessa peça, rio coreográfico codificado em excesso, aca-
não cabe descrever, resgatar ou recons- ba por criar homogeneidade onde a diferen-
truirepisódios marcantes,mas sim evocar ça seria bem-vinda. A trilha musical com-
imagens sonoras, visuais e sinestésicas. posta, em cena, pelo DJ Nino Carlo ajuda a
Para o coreógrafo, a memória parece se reforçar essa unidade, pela base eletrônica
desenhar em duas camadas: a das técnicas que atravessa o espetáculo de ponta a pon-
e referências estéticas que constroem o ta. Essa regularidade se acentua igualmen-

181
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
te na ausência de silêncio na movimenta- Não parece por acaso que esse expe-
ção e na música, dificultando o trânsito en- riente coreógrafo tenha escolhido tratar da
tre as imagens construídas em cena e as memória do corpo nesse momento de sua
memórias que aquelas imagens poderiam carreira. Pensada a partir do presente, a
despertar no espectador. Ainda assim, em memória pode orientar os projetos futuros.
alguns instantes, uma gestual menor conse- Nesse espetáculo fica visível que Renato, ao
gue se insinuar num desenho de cena que, se voltar para trás, começa a tocar em pro-
escapando da narrativa, aponta para novas missores caminhos a serem trilhados com
possibilidades de construção dramatúrgica. sua competente companhia.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 24 DE JULHO • 2004

Lição de Antonio Gades


O bailarino que contou histórias da Espanha no palco

R OBERTO PEREIRA

A dança perdeu, na terça-feira, um de


seus mitos: Antonio Gades, bailarino
espanhol que ofereceu ao mundo um novo
Gades ficou ainda mais conhecido, sem
dúvida, pelas memoráveis participações na
trilogia de filmes concebida pelo cineasta
modo de observar como a cultura se inscre- Carlos Saura: Bodas de sangue (1981), Car-
ve no corpo e como isso é transformado em men (1983) e El amor brujo (1986). Na cena
cena, através da ação do bailarino. tecida a quatro mãos pelo cineasta e pelo
Nascido numa província de Alicante, em coreógrafo, oferecia-se um duplo desafio: fa-
Elda, em 1936, decidiu que a dança seria seu zer da dança flamenca um texto dramatúrgi-
ofício de vida quando assistiu a uma apresen- co capaz de funcionar como um roteiro e, ao
tação de um dos grandes nomes do flamen- mesmo tempo, executar essa própria dança
co: Pilar Lopes. Buscou rapidamente apren- como algo inteiramente novo, sem as arma-
der aquilo que o encantou e, em 1960, já via- dilhas do exótico que transformam danças
java com a companhia da mestra ao Japão populares em entretenimento para turistas.
como primeiro bailarino. Foi ela, inclusive, Gades conseguiu essa façanha. Sua visão
que o batizou artisticamente com o nome de dança era a de um corpo político que ti-
pelo qual ficou conhecido mundialmente: ao nha consciência de sua tarefa no mundo. E
se tornar Antonio Gades, Antonio Esteve provou que, com sabedoria e responsabilida-
Ródenas ainda não intuía que também tor- de, a dança de seu país poderia ser uma dan-
naria a dança de seu país uma outra dança. ça que narra histórias, que propõe ideias e,
Fundou, em 1964, sua própria compa- também por isso, encanta por sua beleza.
nhia, foi primeiro bailarino e maître de balé Esta é uma lição fundamental para nós,
do Scala de Milão e, mais tarde, chegou a quando ainda perguntamos sobre uma possí-
ser diretor do Ballet Nacional da Espanha. vel “dança brasileira”. Esta é uma lição para
Em sua dança, balé e flamenco se mistura- o mundo que, globalizado, ainda deve olhar
vam para se tornarem apenas matéria-pri- para o quintal de seus corpos, e aprender como
ma de sua invenção. De sua criação. ali se planta, no mesmo jardim, ética e estética.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA • 1 0 D E AGOSTO • 2 0 0 4

Paixão pelo movimento


Novo espetáculo de
Paulo Caldas revela
resultados de sua obsessiva
busca de precisão

ROBERTO P EREIRA

U ma página em branco recebe as inscri-


ções de um habilidoso calígrafo: essa é
a imagem que salta aos olhos do público
com o que se transforma. Paulo Caldas pro-
move o novo. Ele cria.
O antigo duo agora se espraia na cena
ao assistir ao novo espetáculo assinado em cinco bailarinos. Tem-se a oportunidade
pelo coreógrafo Paulo Caldas, para sua de observar como a qualidade de movimen-
companhia Staccato Dança Contemporâ- to promovida pelo coreógrafo se instaura
nea, que estreou na sexta-feira no Teatro em outros corpos, que deixam transparecer
Carlos Gomes e que continua em tempo- generosamente a ideia do criador. Nesse
rada neste fim de semana. Em Coreogra- trânsito entre coreógrafo e bailarino, torna-
fismos, é a habilidade da grafia que se se um privilégio perseguir com os olhos a
transforma em dramaturgia do movimen- movimentação precisa de Natasha Mesqui-
to. Uma grafia elaborada por aquele que ta, por exemplo.
se dedica às suas especificidades,por aque- O espaço delimitado pelo quadrado bran-
le que escreve e reescreve até chegar ao co de quatro metros e reafirmado pela eco-
termo exato, em processo quase obsessi- nômica e precisa iluminação de José Geral-
vo de precisão. do Furtado é apenas desafio para a criação.
Coreografismos representa um momen- Tal espaço é redimensionado por dois ele-
to especial na obra de Caldas.A qui, otraba- mentos fundamentais na obra de Paulo Cal-
lho que começou a ser desenvolvido com das: primeiro, pelo próprio movimento, teci-
sua mais antiga parceira, a bailarina Maria do a partir de um vocabulário conciso e tam-
Alice Poppe,apresentado na edição passa- bém delimitado, ao mesmo tempo em que vai
da do Panorama RioArte de Dança, e que inaugurando ao longo da obra, em simulta-
já apontava novos caminhos na pesquisa neidades, uma espacialidade entre- corpos; e,
coreográfica desse artista, se consolida. O segundo, no atrito que se estabelece com o
que permanece como sua assinatura dialo- tempo, propositadamente dilatado para dar
ga com perfeição e impecabilidade ímpar chance de se captar a complexidade que ali

184
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
se desvela. Um tempo colorido pela música seu espaço, seu tempo, sua qualidade de
executada ao vivo por Chris Lancaster, que movimento e, sobretudo, sua ideia traduzi-
respeita o silêncio, e que se move junto e não da na cena. Idéia aqui funcionando como
justaposta aos bailarinos. puro ato da grafia, como processo. Página
Em Coreografismos,pode-se observar em branco tingida pela vontade do apuro
menos uma ação dramática, a que per- técnico. Não a destreza, mas a paixão por
meava as obras anteriores de Caldas e mais encontrar a palavra exata. Ou, nesse caso,
a excelência do que é específico da dança: o movimento exato.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA• 13 DE AGOS TO • 2004
AGOSTO

Competência que rende


espetáculo de beleza hipnotizante
Coreografismos: Staccato Companhia de Dança
segue sua investigação com coragem, sem abandonar
sua trajetória, mas sem deixar acomodar

S ILVIA S OTER

U ma das características mais raras na


dança contemporânea é encontrar
criadores que possuam uma certa esta-
Assim como aconteceu em Fragmento
para coreografismos 1 e 2, suas peças ante-
riores, um campo dentro do palco é criado
bilidade nas questões que os movem e na por um quadrado branco. O espaço demar-
forma de abordá-las. Esse é o caso de Paulo cado se contrapõe a uma dança sem arestas
Caldas. O trabalho do coreógrafo, à frente da ou ângulos. O movimento que se inicia len-
Staccato Dança Contemporânea, vem se to e sinuoso no corpo de Natasha Mesquita
construindo sobre ideias perseguidas com deixa de pertencer ao corpo da bailarina e
afinco e até obsessão, de obra em obra. No ganha o espaço, contaminando os outros cor-
corpo, a escrita de Paulo se apoia na constru- pos que se deixam atravessar por espirais,
ção de linhas circulares e espirais, em fluxo em intensidades e velocidades diferentes.
contínuo, fazendo com que o movimento Entre o corpo que dança e o espaço, um jogo
jamais se congele ou se interrompa abrupta- de alternância se faz, provocando aproxima-
mente. A iluminação, central nas peças da ções e simultaneidades que dispensam,
Staccato, funciona como um diafragma que muitas vezes, o contato entre os corpos. A
deixa que essa dança contínua chegue aos música, composta e executada em cena por
olhos do espectador com maior ou menor Chris Lancaster reforça a circularidade e a
nitidez, recortando a cena, num jogo de trans- sensação de perpetuação do movimento.
parência e sombra, fazendo o espaço pulsar. Desde o início de sua criação, a Staccato
Na escrita, em que todos esses elementos se teve com núcleo estável o coreógrafo e sua
articulam, Paulo desenvolve suas ideias de bela partner Maria Alice Poppe. Os duos fo-
cabo a rabo, com o rigor de um cientista, sem ram a tônica de grande parte dos trabalhos
fazer concessões. Essa competência se mate- da companhia. O entrosamento entre os dois
rializa na beleza hipnotizante de Coreogra- intérpretes é tamanho que parecia difícil
fismos, em cartaz até domingo no Teatro imaginar que a dança da Staccato pudesse ser
Carlos Gomes. experimentada em outros corpos. Dessa vez,

186
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
o coreógrafo se lançou ao desafio de trabalhar fismos ganha qualidades plásticas próximas
com um grupo maior. Além de Paulo e Maria das artes visuais. O grafismo do título mere-
Alice, estão em cena Carolina Wiehoff, ce ser destacado. Paulo Caldas investe tão
Natasha Mesquita e Toni Rodrigues. Esses radicalmente no jogo entre as linhas do qua-
experientes bailarinos e novos integrantes da drado e a circularidade dos corpos, brincan-
companhia colaboram de maneira diversa do com as inúmeras combinações entre os
para a corporeidade da Staccato. Natasha se cinco bailarinos, que a escrita da dança se
integra à fluidez dos gestos de Maria Alice e faz desenho e pintura. Como o próprio coreó-
Paulo, enquanto Carolina e Toni agregam ao grafo lembra no programa, a cena toca de
trabalho qualidades menos fluídas e mais perto o expressionismo abstrato.
densas. No corpo de cada um, a dança da Stac- Coreografismos mostra que a Staccato se-
cato só tem a ganhar. gue sua investigação com coragem, sem aban-
Se algumas criações anteriores do coreó- donar sua trajetória, mas também sem se dei-
grafo dialogaram com o cinema, Coreogra- xar acomodar. Ponto para a dança carioca.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA
SEXTA-FEIRA•• 3 DE SETEMBRO • 2004

Com prazer e sedução


Lecuona: Rodrigo Pederneiras criou coreografia de
exceção na trajetória do Grupo Corpo, provocando
envolvimento dos bailarinos e do público

S ILVIA S OTER

L ecuona, a mais recente criação de Ro-


drigo Pederneiras e do Grupo Corpo,
em cartaz até segunda-feira no Theatro
contemporâneo de Lecuona, brinca no fi-
gurino com o marfim e o ébano das teclas
do piano, transformando os bailarinos em
Municipal, é uma peça de exceção. Ela notas musicais que se associam, justa-
representa um desvio, salutar e descom- põem-se e se desencontram, recriando em
prometido, na história do Grupo Corpo. seus corpos os tangos e os chorinhos apon-
Apaixonado pela música do cubano Er- tados por Nazareth. Dois pianos que pro-
nesto Lecuona, Pederneiras convenceu duzem, no corpo, gestos bem diversos.
a companhia a trabalhar a partir de uma Lecuona é composta de 12 duos e um
trilha musical não inédita e de um músi- grandfinale. Cada duo funciona como um
co estrangeiro, o que não acontecia há quadro, destacado dos demais. O piano
muitos anos. Rodrigo inova também ao de Ernesto Lecuona alimenta as danças
flertar com uma dança menos brejeira e dos pares: sempre um homem e uma
mais latina. Inevitavelmente, novas mulher. Eles de preto e elas de salto alto,
marcas se imprimem na movimentação com vestidos decotados, esvoaçantes e
da companhia. coloridos. Entre o bolero, o tango ou a valsa,
Mas nem tudo é novidade. Ainda man- Pederneiras desliza, sutilmente, das dan-
tendo a tradição, uma peça do repertório ças de salão para as danças de alcova.
anterior da companhia abre a noite, ser- A sensualidade dos encontros ganha qua-
vindo de entrada apetitosa à coreografia lidades e cores diferentes, a cada quadro,
que estreia. A escolha dessa peça jamais a cada música.
é aleatória. Nela, Pederneiras oferece pis- O amor e a atração entre os corpos, ma-
tas para que a outra obra possa ser desven- nifestados em duos, foram também a tônica
dada em todos os seus detalhes. Nazareth, de Santagustin, criação anterior do Grupo
com música de José Miguel Wisnik, a par- Corpo. No entanto, em Santagustin, o amor
tir da obra de outro Ernesto, o Nazareth, era visto com distanciamento e humor. Era

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
um amor risível.Já em Lecuona,tudo é se- uma citação rasgada à peça de Twyla Tharp,
dução e envolvimento.Pederneiras usa e Nine Sinatra songs, no último quadro.
abusa de sua competência para ganhar a Os bailarinos do Corpo, que vemos aqui
plateia com seu amor rasgado,sensual, viril destacados em suas singularidades, parecem
e glamouroso.A não originalidade da trilha experimentar um momento prazeroso, car-
musical parece ter autorizado Pederneiras regando com teatralidade as canções de
a também se apropriar de outras referên- Lecuona. Prazer esse que transborda para
cias e influências,trazendo, por exemplo, o público que, entregue e seduzido, deixa-
para a cena, os musicais de Hollywood e até se levar pela dança.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO • 4 DE SETEMBRO • 2004

Um balé de paixão
Grupo Corpo tira o fôlego da plateia com o
arrebatamento e a permissividade de Lecuona

R OBERTO P EREIRA

H á cerca de 20 anos, o coreógrafo resi-


dente do Grupo Corpo, Rodrigo Pe-
derneiras, apaixonou-se perdidamente pe-
trafegar entre a própria dança de salão, além
de deixar vazar, inevitavelmente, aqui e ali,
a assinatura do coreógrafo. Apenas no final
las passionais canções do cubano Ernesto todos os casais dançam juntos uma valsa,
Lecuona (1895-1963) e, desde então, sem- assim como apenas ali um cenário é utiliza-
pre sonhou em coreografá-las. O resultado do, trazido num momento em que toda a pla-
dessa paixão avassaladora pode ser visto teia, já quase sem fôlego, é ainda surpreen-
neste fim de semana, no espetáculo de sua dida por espelhos e bailarinas trajando ves-
companhia que estreia hoje, no Theatro tidos brancos esvoaçantes. Tudo é um suspi-
Municipal, cujo título traz simplesmente o ro, um rodopio, uma vertigem.
nome do compositor. Não há como não se lembrar da hoje já
Como não poderia deixar de ser, a qua- clássica obra de Twyla Tharp, Nine Sinatra
lidade que permeia Lecuona é a da paixão. songs, de 1982. Utilizando-se de oito canções
E, como toda paixão nunca pede licença de Frank Sinatra, a coreógrafa americana
para chegar, esse espetáculo traz consigo a também justapõe casais que representam si-
impetuosidade do arrebatamento e da per- tuações amorosas muito parecidas (inclusi-
missividade, a começar pelo fato de romper ve com figurinos semelhantes). Ao final, tam-
com uma tradição do Corpo que, há 12 anos, bém todos os casais entram em cena juntos
apenas se utiliza apenas de trilhas sonoras ao som de My way e globos de espelhos des-
especialmente compostas para o grupo. É cem do teto. Se não há como não se lembrar,
claro que esse fato chama a atenção para não há também como não dar de ombros e
quem acompanha sua carreira, porque há dizer consigo, baixinho: “ah, tudo bem...”
que se permitir ouvir um outro som e, ainda Lecuona é permissivo. Permite quebrar
mais intrigante, ver um outro movimento uma tradição da companhia, permite
que não aquele que tem sido construído (re)experimentar movimentos, permite
como vocabulário de Pederneiras. lembrar de Twyla Tharp. Um pacto é esta-
Doze pas-de-deux em doze canções se belecido logo no primeiro momento, no pri-
justapõem numa cena delimitada apenas meiro pas-de-deux. À plateia nada resta,
pela luz: um quadrado no chão sugere uma senão aceitar esse pacto. E, sucumbida,
pista de dança. Sim, uma pista de dança na entender que é na qualidade da paixão, e
qual casais recuperam situações amorosas de sua permissividade, que se deve assistir
através de coreografias que se permitem a esse novo espetáculo.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA• 17 DE SETEMBRO • 2004

A Tropicália, segundo sete criadores


Estreia da El Paso se desenvolve em
torno dos conceitos do balé e do show

R OBERTO PEREIRA

O espetáculo de estreia da Companhia


Jovem El Paso de Dança, Superbaca-
na – Dançando a Tropicália,que estreia hoje
sob a alcunha do passo de dança, herança
direta do balé clássico. Excetuando Carli-
nhos de Jesus, que contribui com seus co-
e fica um mês em temporada no Teatro V i - nhecimentos de dança de salão, todos os
lla-Lobos,traz à tona uma antiga questão es- outros coreógrafos compartilham dessa
tética que continua ainda bastante pertinen- ideia coreográfica de passo, o que os tor-
te: como a dança consegue pode tratar de nam não tão diferentes assim entre si e o
um tema específico. que confere ao espetáculo uma homoge-
Essa companhia, que reúne 22 jovens e neidade mínima. Justapõem-se as canções,
excelentes bailarinos,já vinha desenvolven- alternam-se os coreógrafos. Dalal, que
do trabalhos há um certo tempo e agora assina também sua direção, bastante sábia,
passa a trazer em seu nome a marca do seu soube escolher aqueles que falam uma
patrocinador.Assinando esse padrão de mesma língua de dança. E os bailarinos
qualidade,estão os nomes de Dalal A chcar parecem ter aprendido essa língua de for-
e Mariza Estrella, tradições de ensino e de ma competente, sem qualquer sotaque.
um pensamento de dança no Rio de Janeiro. A questão do show aparece com a eti-
O que de imediato salta aos olhos no es- queta da dupla Charles Moeller e Cláudio
petáculo dessa então “nova companhia” éo Botelho, que vem se destacando no cenário
modo pelo qual se convida o espectador a carioca por suas produções mais voltadas
assisti-lo: balé e show tornam-se duas pala- para o formato do musical. Em Superbaca-
vras-chave para seu entendimento.A o mes- na – Dançando a Tropicália, essa qualidade
mo tempo,o tema eleito,o movimento cultu- de show não fica de fora. Por exemplo, há o
ral conhecido como a Tropicália, absoluta- excesso de frontalidade e um anseio sobre-
mente desafiador, parece indagar o tempo humano em conceder a toda estrutura um
todo sobre a adequação dessas duas palavras- caráter narrativo. Esses dois elementos apa-
chave no diálogo com sua questão estética. recem de forma tão evidente, que às vezes
R eunindo sete diferentes coreógrafos, impedem que estruturas coreográficas inter-
a própria Dalal A chcar, Renato V ieira, nas possam ser melhor desenvolvidas. O
Tíndaro Silvano, Luís Arrieta, Ivonice cenário, que pouco dialoga com o tema, che-
Satie,Janice Botelho e Carlinhos de Jesus, gando a poluir visualmente a cena, e o figu-
esse espetáculo é claramente construído rino, que muitas vezes sublinha os textos das

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
canções, funcionando quase como legendas, mente, parecem apontar para essa questão
ambos assinados por Moeller, são resquíci- central, construindo no corpo que dança qua-
os desse modo narrativo, próprio do musi- se uma ideia tropicalista. Sem dúvida, dois
cal, de conceber um espetáculo. momentos especiais em todo o espetáculo.
Como balé e show se juntam para falar Colocar 22 jovens bailarinos em cena,
de Tropicália, momento muito especial não numa estrutura de peso e qualidade inegá-
apenas da música, mas da cultura brasilei- vel é tarefa que só poderia ser plenamente
ra, fica como questão. Momentos de virtuo- cumprida através da competência de Dalal
sismo técnico irrompem sem qualquer com- Achcar, espécie de versão brasileira de
promisso com a ideia que ali se pretende Diaghilev, mitológico empresário e ideali-
desenvolver, por exemplo. Altamente dis- zador dos Ballets Russos. A experiência que
pensáveis, uma vez que a qualidade dos esses jovens adquirem a cada contato com
bailarinos é evidente, esses momentos tiram um diferente criador e com o esmero da
do foco o que se deveria ter tomado como qualidade técnica imprime neles algo que,
tarefa, ou seja, como tratar do tema escolhi- por si só, já merece todo nosso apreço: o res-
do: fala-se a partir da Tropicália ou sobre a peito pelo ofício da dança. É nesse lugar que
Tropicália? Nesse sentido,as canções Baby a Companhia Jovem El Paso de Dança tra-
e Divino maravilhoso,coreografadas por balha. E é desse respeito que a dança no
Ivonice Satie e Renato V ieira, respectiva- Brasil parece ainda necessitar.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA• 24 DE SETEMBRO • 2004

Mais liberdade
para o som dos pés
Sensorial: Um diálogo entre
o sapateado e a dança contemporânea

S ILVIA S OTER

O sapateador e coreógrafo Steven Har-


per avança em suas investigações so-
bre as possibilidades de flexibilizar a estru-
se trabalho: o diálogo rítmico entre o tap e os
instrumentos de percussão. Uma ressalva, no
entanto: em geral, a mixagem privilegia os
tura do sapateado. Sensorial, em cartaz no instrumentos musicais em detrimento do som
Teatro Carlos Gomes até este domingo, re- produzido pelos ótimos dançarinos que ain-
pete a parceria da companhia com o coreó- da não dominam os instrumentos com a se-
grafo Mário Nascimento, na busca de fazer gurança com que sapateiam!
dialogar o sapateado com a dança contem- Num segundo momento do espetáculo, sur-
porânea. Sincopizante, sua última criação, já preendentemente, Harper abandona o rigor de
caminhava nesse sentido. sua investigação inicial e dispersa o foco da
A música produzida pelo corpo que peça ao fazer com que o sapateado tenha que
dança, base fundamental do sapateado de competir com uma profusão de efeitos sonoros
qualquer tempo e em diferentes culturas, e visuais que, apesar de sedutores, saturam a
ganha, em Sensorial, o apoio de outros ins- cena. Nessa disputa, quem perde é a dança.
trumentos de percussão tocados pelos pró- Na tentativa de dialogar com a dança con-
prios dançarinos. Os cinco integrantes da temporânea, além de adotar a investigação
companhia se alternam entre os instrumen- para trafegar pelo sapateado, Harper busca
tos, o som dos pés e, algumas vezes, jogam assimilar um vocabulário de passos identifi-
com os dois. Diversos suportes são explo- cados como dança contemporânea. Nem sem-
rados, fazendo com que o metal dos sapa- pre a tentativa de integrar esse vocabulário
tos produza sonoridades diferentes. agrega, de fato, novas possibilidades ao traba-
Na primeira parte do espetáculo, Harper, lho. Na maior parte das vezes, parece atrapa-
fiel à ideia, segue à risca sua proposta, dei- lhar, servindo como um apêndice e restringin-
xando a música nascer em cena entre o rit- do a exuberância do próprio sapateado.
mo dos sapatos, os ruídos e a percussão, Sensorial demonstra que Harper e sua
garantindo bons momentos em que a afini- competente companhia já dominam os ca-
dade do grupo atinge um groove. A ilumina- minhos da investigação para ir fundo nas
ção, os figurinos e o despojamento da cena possibilidades intrínsecas do sapateado.
carregam a atenção e os sentidos do espec- Confiando em seus próprios passos, em seus
tador para aquilo que parece essencial nes- próprios pés. Literalmente.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SÁBADO• 2 DE OUTUBRO • 2004

O Brasil em Lyon
Se a Bienal de Dança na cidade
francesa impulsionou a arte no Rio, sua 11ª edição
mostra que a mão inversa também se deu

R OBERTO P EREIRA

H á exatamente oito anos, a Bienal de


Dança de Lyon deixou de ser, para a
dança brasileira e, sobretudo, para a dan-
Se a Bienal conseguiu imprimir na dan-
ça carioca um impulso fundamental em seu
desenvolvimento, a mão inversa deste per-
ça carioca, apenas um evento internacio- curso também se deu. Encantado com os
nal que reúne os mais significativos gru- desfiles das escolas de samba durante o car-
pos e tendências na pequena cidade fran- naval, Darmet resolveu experimentar, num
cesa, durante três semanas. Em 1996, sem- formato adequado à realidade europeia, um
pre temática, a bienal se dedicou exclusi- desfile que percorresse as margens do rio
vamente à dança brasileira. Para a dança Rhône, em Lyon, durante a tarde de um do-
contemporânea do Rio de Janeiro em par- mingo cravado no meio de sua bienal. O
ticular, isso representou um divisor de primeiro desfile se deu, como era de se es-
águas num movimento que se iniciava e perar, durante a edição dedicada à dança
que logo se tornou histórico na cidade, es- brasileira, sob o título Aquarela do Brasil.
pecialmente a partir da segunda metade Desde então,novos desfiles vêm acontecen-
dos anos 90. Explicitamente inspirada no do,sempre inspirados nos temas que balizam
festival criado e dirigido por Lia Rodri- cada edição do evento: Mediterrâneo – um
gues, o Panorama RioArte de Dança, uma círculo aberto sobre o mundo,de 1998, As
noite da bienal foi batizada de “Panora- rotas da seda – Rotas do sonho, rotas de di-
ma Carioca”, revelando a importância vi- álogo, de 20 00 e Terra latina – Do Rio
tal desse evento como um fomentador do Grande à terra do fogo, sobre os caminhos
que se produz por aqui e que passou a ser- da liberdade,de 2002.
vir de vitrine para programadores inter- Neste ano de 2004, em sua 11ª edição,
nacionais. Responsável pelo conceito que que se encerra amanhã, o tema da Bienal é
permeava a bienal, estava um apaixona- a Europa. O olhar do europeu Guy Darmet
do pelo Brasil e por sua cultura, o curador se volta para seu ambiente, para sua origem.
francês Guy Darmet. Ou, como ele próprio explica, essa Bienal é

194
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
“uma declaração de fé nos homens e sobre- ser uma das tarefas de um festival: fazer
tudo nos artistas” que pertencem a um con- saborear a singularidade a partir do plural
tinente que ele chama de “puzzle de lingua- que o envolve.
gens e de culturas”. Nesse sentido, o desfile, que aconteceu
Os números que fazem desse evento um no dia 19 de setembro, levando o título A
dos mais importantes festivais de dança do Europa das grandes narrativas, faz um retra-
mundo remetem mesmo à ideia de puzzle: to desse continente. Reunindo 4.500 parti-
700 artistas envolvidos,40 companhias con- cipantes em 22 grupos de regiões circunvi-
vidadas,21 países europeus participantes,13 zinhas a Lyon, além de 2 grupos convidados
criações para o ano de 2004, e 7 coprodu- da Romênia, o Défilé narra grandes históri-
ções da própria Bienal. as em coreografias para grandes massas: o
Dentro deste rico universo de tantos mito do Fausto, Romeu e Julieta, o Danúbio,
países e culturas,a curadoria de Guy Dar- Cassandra e o cavalo de Tróia são alguns
met vem marcada pela generosidade do dos temas abordados.
olhar sobre a diversidade de estilos de dan- Para nós brasileiros, esse desfile se tor-
ças.Assim, dança de rua (que,sintomatica- na, sem dúvida, algo bastante curioso, já que
mente,abriu o festival) e danças populares, saiu daqui a ideia de sua concepção. Entre-
por exemplo,dividem a cena em pé de igual- tanto, o olhar brasileiro, ao observá-lo, deve
dade com grandes companhias europeias, levar consigo a informação de que ali se
como o próprio Ballet da Ópera Nacional inicia uma possibilidade de dança que ain-
de Lyon, o Nederlands Dance Theatre e o da carece de tempo para se transformar
B allet du Grand Théâtre de Genève,e com numa tradição, ao contrário do que aconte-
artistas mais experimentais,como a portu- ce por aqui.
guesa Sónia Baptista, o belga Jan Fabre,ou Subvencionados pelas prefeituras locais,
ainda umas das melhores surpresas do fes- os integrantes de cada “bloco” não pagam
tival, ogrego Andonis Foniadakis e sua com- nada por seus figurinos e a Bienal fica res-
panhia francesa Apotosoma. ponsável pelos cachês dos coreógrafos e dos
Toda essa diversidade apenas traça um artistas plásticos envolvidos. Num processo
mapa possível do que se produz de dança na de ensaio que pode durar de 6 meses a 1 ano,
Europa hoje, sem deixar de arranhar um esses cidadãos dançantes são pessoas co-
pouco as expectativas de quem busca na muns, de idades e classes sociais as mais di-
Bienal apenas dança contemporânea. Guy versas. Embutida nessa ideia, a carnavali-
D armet se arrisca nos atritos de linguagens. zação da cultura e da sociedade é evidente.
E o público,que lota todos os 24 teatros en- Mas uma carnavalização europeia, que tal-
volvidos,em todos os espetáculos,percebe vez possa aprender (conosco?) como preen-
que neste caldeirão o que se cozinha é um cher uma rua inteira de espetáculo, de en-
tempero europeu de um corpo que dança: redo, de coesão e de ritmo, para dar conta
um corpo que traz consigo sua cultura, ao de uma narrativa. Não à toa, o segundo gru-
mesmo tempo que dialoga com a de seu vi- po a desfilar neste ano, e que mereceu aplau-
zinho.A cada apresentação,uma pitada faz sos mais entusiasmados pela sua performan-
modificar o gosto do conjunto.E essa deve ce, foi o coreografado por um brasileiro, o

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
bailarino mineiro Rui Moreira, que perten- outra para o fim do ano, para apresentar seu
ceu ao Grupo Corpo. O Brasil está em Lyon, mais novo trabalho, com coprodução de vá-
mesmo quando a Bienal é sobre a Europa. rias instituições como o Centre National de
E, no ano que vem, ano do Brasil na Fran- la Danse, o Festival d’Autonne de Paris, La
ça, essa pequena cidade ainda será palco de Ferme de Buisson e o próprio Maison de La
mais dança brasileira. Graças ao mesmo Danse.
Guy Darmet, que dirige um belo teatro es- Inclusive, na frente deste teatro pode-se
pecialmente dedicado à dança, o Maison de ver um enorme cartaz exibindo os próximos
la Danse, várias companhias daqui se apre- espetáculos a serem ali exibidos. Nomes
sentarão por lá, uma a cada mês do ano. Bru- como Merce Cunningham, Carolyn Carlson,
no Beltrão, Quasar e Grupo Corpo serão Maguy Marin, Maurice Béjart e Sankai
algumas delas. Lia Rodrigues estará na ci- Juku aparecem na lista. Entre eles, figura
dade por duas vezes: uma em março, no também o da carioca Márcia Milhazes. Para
Centro Cultural Le Toboggan, convidada um brasileiro que se sente um flaneur em
para desenvolver um trabalho a partir das plena Lyon, neste momento, fica praticamen-
fábulas de La Fontaine, ao lado de mais dois te impossível não sentir o coração se encher
coreógrafos, uma francesa e um africano, e de orgulho. O Brasil dança em Lyon.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • DOMINGO• 3 DE OUTUBRO • 2004

Shakespeare condensado
Ballet do Scala de Milão faz bela homenagem
ao centenário do coreógrafo Balanchine

R OBERTO PEREIRA

U ma das mais tradicionais e importan-


tes companhias de balé do mundo, o
Ballet do Teatro Scala de Milão, concedeu
Assim, se o público de início é convi-
dado a perseguir os intrincados jogos amo-
rosos de diversos personagens nesse pri-
ao público carioca a oportunidade de conhe- meiro ato, pode se deleitar no estilo balan-
cer uma obra bastante curiosa do grande co- chiniano que o consagrou como um cria-
reógrafo russo George Balanchine (1904- dores de uma “dança abstrata”, no segun-
1983): Sonho de uma noite de verão, basea- do. Esse estilo pode ser observado sobre-
da na peça de Shakespeare. Em temporada tudo no pas-de-deux de Titânia, primoro-
no Brasil, a companhia italiana se apresen- so em seus encadeamentos coreográficos
ta até hoje no Theatro Municipal, trazendo e belamente executado por Marta Romag-
mais de 70 bailarinos e provando sua exce- na, sem dúvida a bailarina de toda a com-
lência no cenário internacional do balé. panhia que mais se adequa às exigências
A curiosidade em torno dessa obra de estilísticas do coreógrafo.
Balanchine fica por conta da dificuldade Toda a companhia parece correspon-
em se reconhecer a famosa assinatura der com competência ao desafio que é
desse coreógrafo, sobretudo no primeiro montar uma peça de Balanchine, criada
ato. Estreado em 1962, e criado para sua basicamente para sua própria companhia
companhia, o New York City Ballet, Sonho em Nova York, formada, estética e tecni-
de uma noite de verão mostra um Balan- camente, de acordo com seu estilo. Venci-
chine pouco habilidoso com a narrativa, do o desafio, o Ballet do Scala de Milão
um dos princípios mais básicos de um balé. deixa a lição de que remontagem é sem-
Talvez seja por esse motivo que ele tenha pre promover um novo olhar sobre uma
optado por contar toda a história shakes- obra histórica, rara oportunidade ao públi-
peariana de forma condensada no primei- co carioca, que não teve chances de come-
ro ato, para poder deixar seu estilo correr morar ainda o centenário de nascimento
solto no segundo. de Balanchine.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
Vale ainda mencionar a perfeita parti- No ano que Balanchine completaria seu
cipação das 24 crianças da Escola do Tea- centenário, assistir ao Ballet do Scala de
tro Bolshoi, da pequena cidade de Joinville, Milão dá-nos a sensação de que a tempora-
Santa Catarina. Motivo de orgulho para nós da de balé finalmente se iniciou nos palcos
brasileiros, essas crianças desempenharam cariocas, mesmo que um tanto atrasada.
com apuro técnico e sobretudo musical o Belo início e uma justa homenagem que nós
que lhes foi proposto. ainda não fomos capazes de prestar.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SEXTA-FEIRA• 8 DE OUTUBRO • 2004

É tropicalismo, mas sem


irreverência ou transgressão
Superbacana:
Nova companhia de dança no Villa-Lobos

S ILVIA S OTER

C om produção caprichada, jovens e ta-


lentosos bailarinos, financiamento de
companhia de primeira linha e o know-how
Renato Vieira, Tíndaro Silvano e Carlinhos
de Jesus. Esse time de criadores já aponta
para a aposta da companhia no eclético.
de nomes como Dalal Achcar e Mariza Es- Nessa linha, o tropicalismo, tema escolhi-
trella como diretoras, está completando do para esse espetáculo de estreia, atende
temporada de um mês no Teatro Villa-Lo- ao desejo das diretoras de misturar lingua-
bos, Superbacana com a Cia. Jovem El Paso gens e aliar o popular e o erudito. No caso
de Dança. As duas diretoras, conhecidas pelo da companhia, permite articular o balé, que
olho de lince para identificar talentos em surge não só pela técnica, mas também pelo
dança e neles investir, conseguiram dar ares jeito em que muitos desses coreógrafos tra-
cada vez mais profissionais ao projeto de balham com as ferramentas da dança, e a
uma companhia composta apenas por jo- música popular brasileira. É curioso, no en-
vens promissores. Não há dúvida de que tanto, que do tropicalismo estão em cena
criar oportunidades para a formação de jo- somente essa possibilidade de mistura e ain-
vens já justifica o título do espetáculo. Mas da um certo tom de brincadeira. Irreverên-
todos esses elementos combinados não fo- cia e uma certa liberdade transgressora fi-
ram suficientes para fazer dessa estreia o cam de fora de Superbacana.
acontecimento esperado. Fica evidente que duas estratégias se
Superbacana carrega ainda a assinatu- combinam no modo como a música e a co-
ra da dupla onipresente nos palcos cariocas, reografia dialogam no espetáculo, a primei-
Cláudio Botelho e Charles Moeller, na di- ra abafando a outra. Como linha mestra, a
reção cênica e nos cenários e figurinos, res- direção-geral de Dalal Achcar parece ori-
pectivamente. As 20 músicas que compõem entar para uma abordagem quase narrati-
o espetáculo foram coreografadas por sete va, em que a coreografia se limita a descre-
diferentes artistas: a própria Dalal, Luis ver as letras das músicas. Os figurinos de
Arrieta, Ivonice Satie, Janice Botelho, Charles Moeller desferem o golpe mortal na

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
coreografia, levando essa literalidade a zer com que a dança proponha sua pró-
momentos de redundância absoluta como pria poesia.
no caso das músicas Três caravelas,na voz Talvez o maior desafio dessa compa-
de Caetano Veloso e Gilberto Gil e Super- nhia seja encontrar uma dança feita por jo-
bacana,de Caetano. vens e para jovens, que não caia numa abor-
A poesia das letras,ponto forte e ino- dagem superficial e infantil. Como a Cia.
vador do movimento tropicalista, perde, Jovem El Paso de Dança está apenas nas-
assim, todo seu impacto.Felizmente,es- cendo, espera-se que a juventude no nome
capando em outra direção,os coreógra- possa contaminar a ideia de dança que está
fos Renato V ieira em Divino maravilho- por trás de suas criações. Se ainda não foi
so,Tíndaro Silvano em Parque industrial dessa vez, com esse time de primeira será,
e Ivonice Satie em Baby conseguem fa- com certeza, da próxima.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • TERÇA-FEIRA• 9 DE NOVEMBRO • 2004

Desafio ainda é
politizar o corpo que dança
Boas ideias e pouco aprofundamento marcam a 13ª edição
do festival Panorama com seu excesso de performances

R OBERTO PEREIRA

A 13ª edição do festival Panorama Rio-


Arte de Dança, que se encerrou no do-
mingo, após nove dias em cartaz em vários
outro, fazendo com que os sentidos se agu-
cem para dar conta de uma relação ao mes-
mo tempo tão física e tão invasora. Essa dis-
pontos da cidade, pode ser vista quase como tância íntima, (re)inaugurada entre perfor-
um tratado político sobre a proxêmica, a mer e público, tornou-se o palco de grande
área da antropologia que estuda o uso hu- parte da programação do festival. E acabou
mano do espaço para fins de comunicação. se sobrepondo, de forma ainda incipiente, ao
Como a relação desse espaço com o homem desafio de se construir no corpo uma ideia,
é marcada pela cultura, dança e política po- uma questão, e de marcar um território para
dem, a uma só vez, ser vistas como interfa- que esse público tivesse espaço para lê-la.
ces dessa relação. E é aí, neste lugar, que Na verdade, toda essa corrente, por ve-
trafega a curadoria deste ano do festival. zes tão maneirista, que lança mão da per-
O corpo político que dança tem como formance e investe sobretudo na cena (e na
desafio colocar uma questão para o mundo, preferência pelo uso de espaços não tradi-
sendo ao mesmo tempo mídia dessa ques- cionais) e nos objetos cênicos (sempre em
tão. Quanto mais se modula essa condição excesso, quase que denunciando a incapa-
de mídia, em cena, esse corpo se aproxima cidade de traduzi-los no corpo) pode ser vis-
mais da dança ou de outras linguagens que ta, no caso específico do Rio de Janeiro,
dela se avizinham. No caso do Panorama como um sintoma do que o próprio Panora-
RioArte de Dança, deixou-se claro que a ma RioArte de Dança vem disseminando
escolha, que ainda reina como possibilida- ao longo principalmente dos últimos quatro
de, foi antes a performance, deixando a dan- anos. Nesse sentido, devem ser citados artis-
ça como um mero lugar que a acolhe, ou, tas e teóricos como Jérôme Bel, Thomas
quase, que a legitima. Lehmen, Xavier Le Roy e Christophe Wa-
Para a proxêmica, o termo distância ín- velet, entre outros, que aqui estiveram. E
tima designa a proximidade da presença do esse sintoma não deve ser visto como resul-

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
tado, mas antes como processo. Assim como que funciona quase como um bisturi afia-
se deve torcer para que esse processo, se se do que nos revela onde está a questão, per-
for lembrar de dança, leve suas questões de seguindo-a, perscrutando-a. O novo, todos
volta ao corpo, num outro momento. sabemos, pode estar também no lugar do
Como um festival é uma lupa que reve- tradicional, corrompendo-o pelas beiradas,
la o que se produz e como essa produção traz sutil e sabiamente.
consigo marcas de seu ambiente, identida- O Panorama RioArte de Dança, em seu
de e memória foram matéria-prima também 13º ano, mostra, sem medo, aquilo que aju-
de grande parte do que foi apresentado. Os dou a construir. Uma construção que não
olhos atentos de Nayse López e Eduardo tem um fim, mas funciona como índice de
Bonito, que assinam agora a curadoria do rotas, como estruturas de investigação, como
Panorama, organizaram para o público ca- mapas de ideias. Assim como na ciência,
rioca o que cabia nessa lupa tão temática. métodos que ajudam a revelar podem ser
Como tudo o que é aumentado, qualidades mais úteis do que aquilo que foi revelado.
e fragilidades ficaram evidentes: havia A cidade do Rio de Janeiro e sua dança
muitas ideias, mas muito pouco aprofunda- vêm construindo, a seu modo, esses méto-
mento. Ou seja, havia algumas boas ideias dos e isso muito se deve ao Panorama. E
que não pareciam ter surgido como neces- muito também se deve à sua idealizadora
sidade, ficando, desse modo, abafadas umas e diretora artística, Lia Rodrigues, que
pelas outras. numa determinação quase insuportável
Curiosamente, as três únicas obras de (como diria a coreógrafa Paula Nestorov),
todo o festival que levaram a cabo sua ques- persegue essa tarefa como parte de sua
tão, corajosamente, dignamente, sem fazer existência no mundo.
concessão alguma ao que impera como vi- Numa atitude míope, a Secretaria das
gente, foram aquelas que, talvez não por Culturas inacreditavelmente diminuiu em
coincidência, aconteceram no palco, na ve- 50% a verba destinada a esse festival. Que
lha estrutura que separa artista do público. bom que outros parceiros e apoiadores con-
Samba do crioulo doido,de Luiz de Abreu, tinuaram a entender e a reconhecer o que o
Elemento bruto e raio X, da Membros Com- Panorama promove. Formaram, assim, um
panhia de Dança, e Les morts pudiques,de corpo. Um corpo político, tal como aquele
Rachid Ouramdane têm em comum o em- da performance e da dança. E num festival
bate político no corpo que dança, desafio entendido como lupa que tudo aumenta, fica
nada fácil e que não se maquia de perfor- claro o que, nesse corpo, ainda padece de
mance para chegar ao ponto. Uma dança alguma doença.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 22 DE NOVEMBRO • 2004

Passos tecidos com sabedoria


Em Tempo de verão, a coreógrafa Márcia Milhazes
intensifica sua pesquisa de movimentos

R OBERTO PEREIRA

A qualidade que distingue o trabalho de


um artesão do de um artista parece ser
a matéria-prima com que a coreógrafa Már-
o mundo. Neste sentido, não existe mais se-
paração entre corpo e cena: o corpo é a cena
onde se passa a ação. E no caso de Márcia,
cia Milhazes trabalha suas obras. Em Tem- artesã paciente e artista inquieta, esse corpo
po de verão, que finalmente estreou no Rio desmancha-se em minúcias, em detalhes, tal
de Janeiro, na última sexta, no Teatro Nel- qual mesmo uma renda.
son Rodrigues, e que fica em temporada até Em Tempo de verão, essa construção
o dia 28, a habilidade do tecer artesanal re- pode ser vista de forma exemplar. Há que
veste-se com a sabedoria do fazer artístico. se afiar os olhos para apreender ali o que se
Assim, pensamento transforma-se em algo intensifica como pesquisa. Neste movimen-
como rendas: rendas de passos, de músicas, to de leitura que decupa, há também o pra-
de imagens. zer de perseguir as descobertas coreográfi-
Dando continuidade a sua pesquisa de cas que ali residem. Os três excelentes bai-
movimentos, a carioca Márcia Milhazes pos- larinos em cena desvelam, a cada fraseio, a
sui a determinação e a coragem de uma in- qualidade que degusta o espírito sugerido a
vestigadora quase obsessiva por encontrar o cada valsa tocada, produzindo diferentes
gesto exato na singularidade de cada frase climas que se encadeiam harmoniosamen-
coreográfica. Essa determinação, que nunca te ao longo do espetáculo.
se rende a modismos, deve ser vista como Ana Amélia Vianna e Al Crisppinn,
aprofundamento de vocabulário e pode ser que já trabalham há mais tempo com a co-
acompanhada, sobretudo, a partir de sua obra reógrafa, dominam a facilidade do gesto
anterior, Joaquim Maria. Em dança, criado- assinado por ela, ao mesmo tempo que
res que constróem um vocabulário de movi- possuem a sabedoria em conservar o que
mentos é coisa rara: pressupõe-se, antes de é próprio de cada um em suas danças. Já a
mais nada, o desejo de se resolver no corpo bailarina Pim Boonprakob, que mais recen-
que dança suas questões, o seu problema para temente se juntou ao grupo, compõe com

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
eles uma relação triádica coesa, como se ela fos contemporâneos. Desta vez, valsas foram
já estivesse, potencialmente, desde sempre, escolhidas para compor com o figurino e
em outras obras de Márcia. Sua dança, des- com o lustre assinado por sua irmã, a artista
lumbrante, faz com que a cena se preencha plástica Beatriz Milhazes, um todo cuja ele-
com singularidades gestuais que dialogam gância também se dá a partir do que ali se
com os outros bailarinos. Isso pode ser visto, constrói como pensamento de dança.
sobretudo, no duo com Al Crisppinn, que im- A última cena, ao som de uma das
pressiona pelo que ali carrega de técnica e Valsas de esquina,de Francisco Migno-
de densidade dramática. ne, arremata (e arrebata) o que vem sendo
Nas criações de Márcia Milhazes, músi- destilado por todo o espetáculo.Depois des-
ca se transforma em trilha sonora, processo te momento,o que erarenda de artesão vira
nem sempre entendido por muitos coreógra- questão de sobrevivência do artista.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
O GLOBO
RIO DE JANEIRO • SÁBADO• 27 DE NOVEMBRO • 2004

Gestos de beleza e suavidade


em Márcia Milhazes

S ILVIA S OTER

A coreógrafa Márcia Milhazes cultiva


suas criações com tempo e rigor. As-
sim, quando uma de suas peças chega à cena,
de três, como os três tempos do compasso.
O êxtase e o transe provocados pelos
rodopios infinitos das valsas não estão nos
traz sempre as marcas de um trabalho de- deslocamentos espaciais, mas nos cor-
purado e perseguido com afinco. Três anos pos dos intérpretes que são atravessados
depois de Joaquim Maria, sua última cria- por fluxos incessantes de movimento em cír-
ção à frente da Márcia Milhazes Compa- culos e espirais. A corporeidade construída
nhia de Dança, Tempo de verão estreou para pela dança de Márcia Milhazes é prolixa e
ficar em cartaz no Teatro do Conjunto Cul- verborrágica. A dança não se congela em
tural da Caixa, até domingo. formas. Ela jorra como a água, escorre e se
Em Joaquim Maria, a literatura de Ma- exaure nos corpos dos bailarinos. Nessa valsa
chado de Assis era acompanhada da músi- a três, há espaço para encontros em pares.
ca como fonte e alicerce de criação. Já em O terceiro elemento cria o contraponto para
Tempo de verão, as referências sonoras, as que o foco não se restrinja aos duos. Em
valsas brasileiras e o som das águas que jor- ciclos, cada encontro é passageiro.
ram, funcionam como princípios sobre os Os três bailarinos traduzem, cada um de
quais o tecer coreográfico se estrutura. seu jeito, a dança de Márcia Milhazes. Ana
As valsas que atravessam a peça, não Amélia Vianna parece ser movida de fora,
se restringem a uma dança de casal. Elas sua familiaridade com a dança de Márcia
se desdobram em suas facetas musicais e faz com que seu corpo seja veículo transpa-
dinâmicas. Em cena, em Tempo de verão es- rente para a escrita da coreógrafa. Pim
tão três intérpretes, ao invés de dois, como Boomprakob, outra excelente intérprete e
acontecia em Joaquim Maria. O número de nova integrante da companhia, contrapõe
intérpretes parece se referir ao ternário com mais peso a leveza de Ana Amélia.
simples da valsa. Um tempo de verão que Vendo-as juntas é possível confirmar que
se constitui, como na valsa, pela presença não há acaso no aparente descontrole da

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
movimentação incessante dos corpos. Em a cena. As sombras desenhadas pela ilumi-
Tempo de verão parece existir apenas uma nação de Glauce Milhazes mereceriam, no
mulher desdobrada nas duas. entanto, um contraponto solar. Terminada a
Al Crisppinn, a única presença masculi- peça, quando as luzes invadem o palco, per-
na na peça, serve como esteio para os cor- cebe-se que, infelizmente, a escultura de
pos das bailarinas.Ele é o pivot para a cir- Beatriz Milhazes não é bem aproveitada
cularidade da movimentação.Ele é a ânco- como fonte irradiadora do verão.
ra para que as duas não partam nos ares por No quase apagar das luzes da tempora-
seus movimentos centrífugos. da 2004 de dança, Tempo de verão é bem-
Sobre as cabeças dos três,um lustre-es- vindo. A peça brinda o público carioca com
cultura de Beatriz Milhazes,feito de brilhos, beleza e suavidade, frutos da competência
flores e rosáceas, compõe magnificamente e da tenacidade dessa coreógrafa carioca.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • SEGUNDA-FEIRA • 6 DE DEZEMBRO • 2004

Qualidade técnica à prova


Remontagem de La fille mal gardée exige o
máximo do corpo de baile do Municipal

R OBERTO PEREIRA

E ncerrando um ano muito pobre em


sua programação, o Ballet do Theatro
Municipal finalmente apresenta uma obra
de dançar, pois reside em La fille mal gar-
dée a sutileza da expressão, que demanda
um apuro técnico impecável. Portanto, nada
à sua altura: La fille mal gardée, na versão melhor para aprender essa lição do que a
do inglês Frederick Ashton, que estreou sex- chance de executá-lo.
ta-feira e permanece em temporada até o Se na estreia os primeiros papéis foram
dia 19. Trata-se de uma boa oportunidade entregues a Ana Botafogo e Vitor Luiz, na
de se averiguar como está a qualidade da segunda récita, anteontem, Teresa Augusta
única e mais antiga companhia brasileira e Bruno Rocha formaram um interessante
dedicada ao balé clássico de repertório. casal que mescla a experiência da bailari-
Essa oportunidade se dá justamente por na com o vigor de estreante do jovem ra-
ser essa obra uma combinação perfeita en- paz. Ainda que insegura como Lise, Teresa
tre pantomima e dança, desafio que deve ser soube cumpri-lo com honestidade, embora
enfrentado por todo bailarino clássico que faltasse em sua dança a graciosidade pró-
se preze. Único balé do século XVIII ainda pria que o papel demanda. Já Bruno Rocha,
vivo, sua permanência se deve muito pela promissor investimento da companhia, tal-
competência que nele se criou de contar vez precisasse se preocupar mais com a
uma história, talvez a maior preocupação da construção pantomímica de seu personagem
dança cênica ocidental naqueles tempos. e, sobretudo, com o acabamento dos passos,
Quanto mais banal fosse essa história, mais que ainda são executados com uma força
a dificuldade da narrativa se instaurava, pouco comedida. Para os dois, nada como o
pois era na química de gestos codificados exercício de estar em cena para sanar esses
com a qualidade na execução dos passos pequenos problemas.
que estava o segredo do sucesso. Mas a noite ficou entregue à qualidade
Sendo assim, nossa companhia carioca de dois artistas em papéis não menos im-
ainda precisa se acostumar com esse modo portantes: o primeiro foi César Lima, per-

207
AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
feito como a mãe Simone, mostrando que acertar os tons sutis que o balé requisita em
sua carreira dentro daquela companhia ba- sua tarefa de contar uma história.
lizou-o para esse grande desafio; e o segun- Talvez o maior mérito na remontagem
do foi Rodrigo Negri, bailarino que vem se de La fille mal gardée esteja no fato de que
destacando pela qualidade que imprime foi assinada pela excelência de conhecimen-
em sua dança, agora experimentando um tos de um brasileiro,Emilio Martins,um dos
outro modo de estar em cena, como o cari- únicos autorizados neste ofício para a ver-
cato Alain. são de Ashton. Curioso é que o Brasilassis-
O corpo de baile precisa de ajustes eviden- tiu a este balé, pela primeira vez, no mesmo
tes. As cenas de conjunto ainda precisam de teatro, em 1928, quando foi dançado pela
burilamento, e isso fica claro logo no início, na russa Anna Pavlova e sua companhia. Emi-
dança do galo e das galinhas. O cenário, além lio,em uma de suas remontagens pelo mun-
de carregado pelas fortes cores que mais lem- do, foi consagrado ao ser convidado pelo
bram ilustrações de livros infantis, o que lhe B allet Bolshoi há dois anos.Isso prova que,
confere um caráter pouco verossímil, deveria no fluxo da história, Rússia e Brasil, por
ser melhor construído para não parecer que exemplo, podem aprender sempre um com
pode desabar a qualquer momento, como acon- o outro.E prova também que,para nós,ter
tece especialmente no primeiro ato. A ilumi- um profissional desse quilate é motivo de
nação também merece maior atenção, para grande orgulho.

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2009
JORNAL DO BRASIL
RIO DE JANEIRO • QUINTA-FEIRA • 30 DE DEZEMBRO • 2004

Driblando obstáculos
Diante da ausência de políticas públicas para a área,
dança do Rio depende de festivais para aparecer

R OBERTO PEREIRA

A
dança carioca, neste ano de 2004, po- senvolvendo junto não apenas à dança mas
deria ser tomada como uma amostra às artes cênicas como um todo. Dirigido por
perfeita da situação da dança no Brasil hoje: Beatriz Radunsky e com consultoria de João
a sua rica pluralidade e a qualidade de seus Saldanha, o evento vem provocando atritos
artistas ainda se debatem com um de seus sempre instigantes ao promover encontros
maiores problemas, ou seja, a falta de uma inéditos entre coreógrafos e bailarinos.
política pública eficiente e que entenda as es- Neste ano, vale citar Basse danse, que re-
pecificidades da área. Tanto aqui no Rio de sultou da parceria entre o excelente baila-
Janeiro quanto no resto do País, a saída tem rino Marcellus Ferreira e o coreógrafo Pau-
sido criar estratégias de sobrevivência para lo Caldas, além do solo autoral de Denise
que se possa continuar a ousar fazer da dan- Stutz, DeCor, que emocionou o público ao
ça um ofício possível, como qualquer outro. visitar a memória física do percurso profissi-
Uma dessas estratégias, e talvez a mais onal desta intérprete/criadora.
eficaz ainda no momento, são os festivais de O segundo importante festival, que acon-
dança, que permitem a circulação de com- teceu logo no mês seguinte, foi o Dança Bra-
panhias, além de dar visibilidade aos nossos sil, único importante evento de dança desen-
artistas para programadores nacionais e in- volvido no Centro Cultural do Banco do
ternacionais. Nesse sentido, o Rio continua Brasil, e que conta com a preciosa curado-
sendo uma cidade privilegiada, pois possui ria de Leonel Brum e Silvia Soter. Propon-
três importantes festivais que, neste ano, pro- do, nesta sua oitava edição, a ideia de espa-
varam sua eficiência dentro desse parco ço como fio condutor, reuniu trabalhos de
ambiente de infraestrutura para dança. O vários estados brasileiros que apresentavam
primeiro deles a acontecer na agenda anual, diferentes abordagens sobre o tema. Se a
logo no mês de março, é o Solos de Dança no dupla mineira formada por Luciana Gonti-
SESC que, em sua quinta edição, comprovou jo e Margô Assis, em In situ, foi a que mais
a ação singular que o Espaço SESC vem de- se ateve ao uso do espaço como questão

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AO LADO DA CRÍTICA: 10 ANOS DE CRÍTICA DE DANÇA – 1999-2 009
estética, vale, entretanto, chamar a atenção estreias mais expressivas do que se produz
para Espaço de luz, trabalho assinado pela na área no Rio: Afirmações intencionais, de
veterana Carlota Portella, que revisitou com João Saldanha, Coreografismos, de Paulo
propriedade aquilo do qual é uma das mais Caldas, e Tempo de verão, de Márcia Milha-
sérias representantes no País, o jazz, numa zes. Em comum entre os três, observa-se uma
feliz fusão com a dança contemporânea. pesquisa acurada que constrói no corpo, co-
Fechando o ano, o Panorama RioArte reograficamente, a ideia que cada um des-
de Dança, festival criado pela coreógrafa ses importantes coreógrafos quer trabalhar.
Lia Rodrigues, foi um grande provocador de Outras estreias merecem também ser
discussões, ao colocar em ambientes comuns citadas, como Memória do corpo, de Renato
dança e performance. Suscitar novas ques- Vieira, Sensorial, de Steven Harper, Mais
tões, tanto nos artistas como no público, já simples, de Ana Vitória, além do novato
faz parte de sua tradição, e a questão da vez Carlos Laerte, com seu Caminhos. Já Dalal
foi como essas duas linguagens podem en- Achcar apresentou sua Companhia Jovem
contrar espaços comuns num corpo transfor- Elpaso de Dança em Superbacana, priman-
mado em mídia. Neste ano, revigorado pela do, como sempre, e sobretudo, pela qualida-
curadoria de Nayse López e Eduardo Boni- de técnica de seus bailarinos.
to, o Panorama apresentou trabalhos impor- A mesma qualidade de produção da dan-
tantes como O samba do crioulo doido, de ça contemporânea, entretanto, não pôde ser
Luiz de Abreu, e Les morts pudiques, de vista na área do balé clássico, representado
Rachid Ouramdane, além de diversas per- aqui pela única companhia brasileira dedi-
formances em locais pouco usuais, como o cada a esse estilo: o Balé do Theatro Muni-
antigo hospital da Beneficência Portugue- cipal. Contando com uma direção artística
sa, na Glória. O descaso da Secretaria das capenga, abriu seu ano com um programa
Culturas, junto com o Instituto RioArte, cor- reunindo obras de três coreógrafos (Uwe
tando pela metade o orçamento desse festi- Scholz, Glen Tetley e Roberto de Oliveira),
val, tornou-se, portanto, inexplicável, permi- intitulado Tríptico, que, além de absurda-
tindo que as parcerias conquistadas com ou- mente caro, nada acrescentou ao repertório
tras entidades, nacionais e internacionais, dessa companhia, devido à sua fragilidade
fossem as grandes promotoras desse even- estética, sobretudo nos trabalhos de Tetley
to histórico, que já está em sua 13ª edição. e Oliveira. Depois desse desastroso come-
A cidade ainda contou com outros fes- ço de ano, a companhia reapresentou mon-
tivais e mostras, como o Projeto Dança em tagens da temporada passada, como o óti-
Foco, que discute as imbricações entre as mo Onegin, de Cranko, além de um apressa-
linguagens de dança e vídeo, além de Cor- do Les sylphides, feito de última hora. O que
reios em Movimento e Dança em Trânsi- salvou o ano foi, sem dúvida, o balé La fille
to, dois festivais que buscam uma linha de mal gardée, com remontagem primorosa
curadoria mais precisa. assinada por Emílio Martins.
Ainda falando sobre dança contemporâ- Das poucas companhias estrangeiras
nea, três espetáculos, distribuídos ao logo do que visitaram a cidade, apenas duas foram
ano, formaram, sem dúvida, o conjunto de destaque: a de Merce Cunningham, que

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apresentou dois marcos de sua histórica tra- um papel na cidade que não deveria ser
jetória, Biped, de 1999, e Sounddance, de apenas seu. Um dos lugares que poderiam
1975; e o Ballet du Grand Théâtre de exercer essa função, o Centro Coreográfi-
Genève, que apresentou para um teatro da co da Cidade do Rio de Janeiro, finalmen-
Uerj semivazio obras impecáveis como te inaugurado em agosto, na Tijuca, ainda
Selon désir, do grego Andonis Foniadakis. tateia uma linha de ação que possa conju-
Motivo de orgulho para nós, Bruno Cezá- minar arte e política com eficiência, e que
rio, um dos integrantes brasileiros da com- possa também reverberar para além dos
panhia, mostrou porque é um dos melho- limites do bairro em que foi implantado.
res bailarinos da atualidade. A dança carioca, no ano de 2004, deixou
Das ações políticas na cidade, vale ci- claro que muito ainda deve ser feito para
tar a importante contribuição do projeto que se forme um pensamento político vol-
Cahiers de la Danse, dirigido por Lia tado para a área, e que seja realmente efi-
Rodrigues e Silvia Soter, em parceria com caz não apenas na cidade do Rio de Janeiro,
o Serviço Cultural do Consulado-Geral da mas em todo o País. Apenas assim, a dança
França. Além de ter promovido encontros não fará mais uso de estratégias de sobre-
para discutir políticas para a dança, entre vivência, mas será, além de uma arte, uma
os meses de outubro e novembro, reunindo profissão tão digna e respeitada como as
movimentos como o Dança Niterói e o outras. Tomando a qualidade da dança ca-
Contágio Coletivo, foi sede de residências rioca como amostra, esse é, sem dúvida, um
coreográficas de artistas como Márcia desafio que a dança brasileira pode, em
Milhazes e Ana Vitória, cumprindo com breve, vencer.

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Este livro foi produzido
na cidade do Rio de Janeiro
pela Fundação Nacional de Artes – Funarte
e impresso na Imo’s Gráfica e Editora, Rio de Janeiro – RJ
no quarto trimestre de dois mil e nove
com fotolitos fornecidos pela Funarte

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