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Q uem A lmoçou

com

a b r m o ?
Um estudo das aparições de Deus na forma de um
Homem nas Escrituras Hebraicas
A 5 H L R INTRATELE

Q uem A lmoçou
com

a b r a a o ?
Um estudo das aparições de Deus na forma de um
Homem nas Escrituras Hebraicas

I a edição

Americana - SP / Brasil
Impacto Publicações
2015
Título do original em inglês: Who Ate Lunch with Abraham
Copyright ©2011 por Asher Intrater
Publicado em inglês por: Intermedia Publishing Group, Inc
PO. Box 2825, Peoria, Arizona, EUA, 85380
www.intermediapub.com

Copyright em português © 2015 Impacto Publicações


Tradução: Fernando Sanches
Revisão: Christopher Walker e Renata Balarini Coelho
Capa: Revive Israel
Diagramação: Sueli Buzinaro

Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP) do Departamento


Nacional do Livro

1619q Intrater, Asher


Quem almoçou com Abraão: Um estudo das aparições de Deus na
forma de um homem nas Escrituras Hebraicas; traduzido por Fernando
Sanches. _ Americana, São Paulo: Impacto, 2015
200 p.
Tradução: Who Ate Lunch with Abraham
ISBN 978-85-65419-093‫־‬
1. Antigo Testamento 2. Novo Testamento 3. Judaismo
Messiânico I. Título
CDD 27-242

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados na


língua portuguesa por:

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quer meios — eletrônicos, mecânicos, fotocópia digital, gravação ou qualquer outro sem
autorização prévia do autor.
Todas as traduções de citações neste livro são do autor. Para os textos bíblicos, foi usa-
da a versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida, exceto em alguns casos
em que foi usada a versão Almeida Século 21. Nesses casos, a nota AL21 aparece
depois da referência bíblica. Quando a versão em português não confere com a tradução
das Escrituras Hebraicas no original, foi inserida a palavra ou expressão correta entre
colchetes [ ]. Os textos da Nova Aliança (Novo Testamento) foram comparados a uma
reconstrução adaptada da Moderna Tradução Hebraica (da Sociedade Bíblica de Israel).
Algumas traduções do texto hebraico também foram comparadas à da Nova Versão King
James (em inglês), da Nelson Publishers.
iNDICf
Prefácio: É Possível Ver Deus?..................................................... 7

Parte Um: Os Patriarcas


Capítulo 1: Quem Almoçou com Abraão?.......................... 13
Capítulo 2: Quem Chutou a Perna de Jacó?........................ 23
Capítulo 3: Por que Yeshua Foi Circuncidado?.................... 31

Parte Dois: O Êxodo


Capítulo 4: O Anjo de Yehovah............................................ 43
Capítulo 5: Quem Escreveu os Dez Mandamentos?........... 31
Capítulo 6: Yeshua e a Lei M o ral.......................................... 61

Parte Três: A Conquista


Capítulo 7: O Comandante em C hefe................................. 73
Capítulo 8: Quem Lutou na Batalha de Jerico?.................... 83
Capítulo 9: Possuindo a Terra................................................ 91

Parte Quatro: Os Profetas


Capítulo 10: Quem Está Assentado na Cadeira?.................. 105
Capítulo 11: Meus Olhos Viram o R ei................................. 115
Capítulo 12: O Filho do Homem.......................................... 125

Parte Cinco: O Apocalipse


Capítulo 13: Quem é o Homem em Cham as?.................... 137
Capítulo 14: A Divina Revelação de João............................. 143

Sumário: O Homem-Mistério 151


Apêndices

1. Lista de Referências de Aparições Divinas nas Escri-


turas Hebraicas.................................................................. 163
2. O Anjo Divino, por Solomon In trater.......................... 166
3. Yehovah e Yahw eh........................................................... 169
4. Yehovah e Yeshua............................................................. 173
5. A Guarda do Shabat......................................................... 173
6. Escada entre o Evangelho e a L e i................................... 178
7. Restauração de Todas as Coisas....................................... 181
8. Céu e Terra........................................................................ 184
9. Antes da Fundação........................................................... 187
10. Aparições Humanas e Glorificadas................................. 189
11. Divino e D avídico........................................................... 191
12. Respaldo Acadêmico, por Dan Juster............................. 193

Sobre o Autor 196


Ppffficio
r __
E POSSÍVEL VER DEUS?

Há uma figura que aparece em toda a Lei e nos Profetas. Às ve-


zes, ele é descrito como o Anjo do Senhor, às vezes como o próprio
Deus, às vezes como alguém 4‘semelhante ao Filho do Homem”
e, muitas outras, sem nome algum. Entender quem é essa figura
representa um desafio aos nossos conceitos mais básicos acerca de
Deus e do Messias.
Enxergar a conexão entre o Anjo do Senhor no Tanakh (Velho
Testamento) e a figura de Yeshua (Jesus) na Nova Aliança (Novo
Testamento) é desafiador tanto para a visão de mundo judaica
como para a cristã. Este livro tem o propósito de desafiar os dois
lados com a mesma intensidade, fazendo uma ponte entre os enten-
dimentos judaico e cristão.
O propósito principal deste livro é descrever as aparições de
Deus e a natureza do Messias de acordo com as Escrituras. Deseja-
mos essa verdade acima de todas as outras.
Este livro também tem três propósitos secundários:
1. aprofundar as raízes judaicas da fé cristã;
2. descrever quem é Yeshua com base nas Escrituras
hebraicas;
3. demonstrar a coerência da Bíblia do início ao fim.
Raízes judaicas
Fui criado num lar judeu liberal e, em minha juventude,
8

frequentei uma sinagoga conservadora. Durante meus anos de uni-


versidade, fui tomado por uma intensa sede de verdade espiritual.
Entretanto, minha busca pessoal e meus estudos de psicologia, fi-
losofia e literaturas antigas em Harvard não me levaram a nada que
satisfizesse a alma.
Tentei todo tipo de experiência e prática espiritual. A única
coisa que não estava disposto a considerar era Jesus. Contudo, num
esforço para ser coerente em minha busca pela verdade, percebí
que deveria ler os evangelhos pelo menos uma vez (embora esti-
vesse convencido de antemão de que não encontraria nada de bom
neles).
A primeira vez que li os evangelhos, no inverno de 1977/1978,
fiquei surpreso com sua atratividade. A pessoa de Yeshua, sua vida
e seus ensinamentos inspiravam amor e admiração. Era difícil não
“se apaixonar” por aquela figura inspiradora.
A segunda vez que os li, no verão de 1978, tive uma según-
da surpresa. Percebí que os escritos eram muito “judaicos”. Todos
eram judeus, incluindo o próprio Yeshua e todos os seus discípulos.
Além disso, toda a visão de mundo apresentada ali acerca do reino
de Deus foi extraída dos Profetas hebreus.
Por conta da primeira surpresa, dediquei minha vida para ser
um seguidor de Yeshua em 1978. A segunda surpresa me levou a
fazer parte do que é popularmente conhecido como Judaísmo Mes-
siânico. A partir daí, resolví continuar meus estudos, não apenas da
Bíblia, mas também de literatura cristã e escritos rabínicos. (Como
parte desses estudos, concluí dois mestrados, um em Estudos Ju-
daicos pela Universidade Hebraica de Baltimore, e outro em Teo-
logia pelo Instituto Bíblico Messiah.)
Há muitas questões acerca das raízes judaicas do cristianismo.
Uma das mais complexas é a figura do Anjo do Senhor na Torá
(Lei) e nos Profetas. Neste livro, espero tratar dessas questões.
Yeshua no Tanakh (VT)
Um elemento fascinante da Nova Aliança (NT) é seu amor
por toda a humanidade e, particularmente, pelo povo judeu.
Não há lugar para qualquer tipo de racismo, embora 0 papel
permanente de Israel como nação escolhida seja confirmado
9

repetidas vezes (por exemplo, Rm 9 1 1 ‫)־‬. Yeshua chorou por Jeru-


salém (Le 19.4144‫)־‬, e o apóstolo Paulo (Saulo) disse que estaria
disposto a morrer pelos judeus (Rm 9 .1 4 ‫)־‬.
Em minha nova fé em Yeshua, descobri também um novo
amor por meu próprio povo. Senti-me impelido a falar com minha
família sobre a graça de Deus e a vida eterna. Como muitos judeus
aceitam a autoridade do Tanakh, mas não a da Nova Aliança, em
geral é necessário explicar 0 plano de salvação usando somente o
primeiro.1
Há muitas profecias maravilhosas sobre o Messias no Tanakh.
Em geral, os apóstolos começavam seus discursos por essas pro-
fecias. Em Atos 8, por exemplo, Filipe compartilha o evangelho
com o eunuco etíope usando Isaías 53. O plano específico de Deus
para minha vida levou-me a compartilhar as boas-novas de salva-
ção em hebraico, aqui em Israel, quase sempre com judeus ortodo-
xos. Descobri que falar apenas sobre os escritos proféticos não era
suficiente. O problema é que, apesar de as profecias serem abso-
lutamente claras, uma pessoa que não tenha o coração aberto pode
dizer simplesmente que não concorda com nossa interpretação.
Por meio de muito estudo e oração (e também de muitos de-
bates, conflitos e experiência pessoal), comecei a enxergar outro
caminho: eu podería testemunhar a eles usando não apenas pro-
fecias acerca do Messias, mas aparições reais dele na forma de
Anjo do Senhor. A ligação entre o Anjo do Senhor e Yeshua, o
Messias, traz de fato uma nova luz. E essa revelação dinâmica que
espero transmitir neste livro.
Coerência das Escrituras
Muitos anos atrás, meu amigo Dan Juster compartilhou
comigo o princípio filosófico de que a verdade precisa ser coerente
consigo mesma. Se um ensinamento contradiz a si próprio, não
pode ser verdadeiro. Este princípio se aplica à filosofia, à teologia,
à interpretação bíblica e a todo pensamento lógico.
Yeshua confirmou isso quando disse que não veio anular
ou contradizer qualquer coisa escrita na Lei e nos Profetas, mas

1 Os primeiros apóstolos falavam de Yeshua com base apenas no Tanakh, visto que ainda
estavam escrevendo a Nova Aliança.
10

cumprir todas as coisas (Mt 5.17,18). O apóstolo Saulo (Paulo)


repetiu esse princípio várias vezes (At 24.14, 26.22, 28.23).
Acredito que a Bíblia é verdadeira e fidedigna. Como tal, ela
deve ser coerente consigo mesma desde 0 Gênesis até 0 Apocalip-
se. Gênesis começa com a criação dos céus e da terra; o Apocalipse
termina com a criação de novos céus e da nova terra. O que Deus
planejou no princípio é levado a cabo no final.2
O reino de Deus passa por vários estágios, começando com
uma pequenina semente até uma árvore frondosa que enche toda
a Terra (Mt 13.31,32; Mc 4.26-28). Há diferentes estágios, mas o
processo de desenvolvimento é constante do início ao fim.
Infelizmente, por causa da história de divisão entre o cristia-
nismo e o judaísmo, tanto rabinos quanto sacerdotes construíram
espessas paredes teológicas entre o primeiro estágio do plano de
Deus conforme revelado a Israel e o segundo estágio conforme
revelado à Igreja. Dois mil anos de discordância entre Israel e a
Igreja criaram uma barreira para o entendimento da coerência das
Escrituras. Uma das chaves para derrubar essa barreira é a conexão
entre o Anjo do Senhor e Yeshua, o Messias.
As Escrituras são coerentes porque a natureza de Deus é coe-
rente. Isso também é verdadeiro no tocante à natureza do Messias.
Yeshua é o mesmo no passado, no presente e no futuro (Hb 13.8).
Yeshua é o elo comum que une todas as Escrituras. A natureza eter-
na do Messias demonstra a harmonia das Escrituras. Ao mostrar 0
papel central do Anjo do Senhor na Lei e nos Profetas, espero que
este livro ajude a reforçar a coerência das Escrituras desde a Lei de
Moisés até o Apocalipse de João.
Espero que você tire bastante proveito da leitura e que as idéias
lhe sejam tão esclarecedoras quanto o foram para mim.
A sher Intrater

2 Os rabinos dizem 0" - ‫ סוף מעשה במחשבה תחילה‬fim da ação vem primeiro no
pensamento‫( ״‬Hino do Shabbat ‫ לכה דודי‬por R. Shlomo Halevy Alkabets, Século 16).
PflPTf Um
O S PATR IAR C AS

N esta seção, examinaremos as aparições de


Deus a Abraão e aos patriarcas no Civro de
(gênesis.
D urante esse período, descobrímos um
Mensageiro Divino que aparece na fo rm a de
um bomem, um Deus-3-fomem. Compararemos
as aparições desse Deus-Tfomem à fig u ra de
yesbua (Jesus) na N o va Afiança (NT).
Também consideraremos como essas aparições
afetam nosso entendim ento do chamado
judaico e das afianças de Deus com Israef.
C apítulo Um

Q uem a l m o ç o u c o m A b r a ã o ?

Uma das crenças populares do judaísmo é que não é possí-


vel ver Deus. Nos treze princípios fundamentais de fé do rabino
Moshe Ben Maimón (1135-1204), no hino de oração “Yigdal”
e no credo “Ani Maamin”, encontramos as palavras:
‫אין לו דמות הגוף ואין לו גוף‬
“Deus não tem corpo nem forma corpórea.”
Esse entendimento vem de Deuteronômio 4.12:
O Senhor vos falou do meto do fogo; a voz das palavras ou-
vistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma.
‫וידבר להרה אליכם מתוך האש קול ךברים אתם‬
‫ם ריאים זולתי קול‬3)‫ ותמונה אי‬,‫שסעים‬
Contudo, este verso não diz que Deus não tem forma. Diz
que o povo no Monte Sinai não viu forma alguma. Em seu con-
texto, 0 verso não está fazendo uma declaração acerca da visibi-
lidade de Deus. Trata-se de uma advertência contra a fabricação
de imagens de escultura e a adoração a ídolos (vv. 15-24).
A convicção de que é impossível ver Deus é apenas par-
cialmente verdadeira. A invisibilidade de Deus também é
reiterada na Nova Aliança (NT):
14 6Zu 6 m a l m o ç o u com A braão?

João 1.18 Ninguém jamais viu a Deus


João 5.37 Jamais... vistes a sua forma
João 6.46 Não que alguém tenha visto 0 Pai
Colossenses 1.15 Ele é a imagem do Deus invisível
1 Timóteo 1.17 Ao Rei eterno, imortal, invisível
1 Timóteo 6.16 A quem homem algum jamais viu,
nem é capaz de ver
1 João 4.12 Ninguém jamais viu a Deus
1 João 4.20 ... não pode amar a Deus, a quem
não vê
Com todos esses versos, é fácil entender por que as pessoas
acreditam que seja impossível ver Deus. Entretanto, quando
analisados em contexto, um quadro diferente aparece. O fato de
que as pessoas normalmente não veem Deus não significa que
seja impossível vê-lo. Antes, por causa de nossa condição caída,
não nos é permitido vê-lo. Se víssemos Deus na plenitude de seu
poder, morreriamos (Ex 33.20). Trataremos dessa distinção em
detalhes na Parte Dois.
Por um lado, é impossível ver Deus. Por outro, nossos pa-
triarcas e profetas de fato viam “Alguém” de tempos em tem-
pos. Abraão viu esse “Alguém” em diversas ocasiões:
Gênesis 12.7 - Apareceu YHVH a Abrão...
‫וירא יהוה אל־אלרם‬
Gênesis 15.1 - Veio a palavra-YHVH a Abrão, numa visão...
‫ה ךבר־יהוה אל־אברם במסזה‬:‫ה‬
Gênesis 17.1 - Apareceu-lhe [a Abrão] YHVH...
‫וירא יהוה אל־אברם‬
Gênesis 18.1 - Apareceu YHVH a Abraão nos carvalhais de
Manre...
‫וירא אליו יהוה לא לני מלו־א‬
6Ζ1Λ6Μ A LM O Ç O U . COM A B R A Ã O ? 15

Nos versos acima, a palavra apareceu em hebraico é a for-


ma passiva do verbo ver. Ela indica claramente que Abraão viu
algo e também podería ser traduzida por “foi visto por Abraão”.
Nas três primeiras ocasiões, não temos uma descrição de
quem ou do que Abraão viu. No entanto, no capítulo 18, a des-
crição é detalhada e específica. Estudiosos e comentaristas rabí-
nicos se esforçam para explicar que esse capítulo não pode ser
entendido como tendo um significado literal ou direto (‫)פשט‬.
Não obstante, o texto é explícito e dá detalhes muito “físicos”
em suas descrições.
A verdade espantosa e inevitável é que o próprio YHVH
visitou Abraão na forma de um ser humano. Eles almoçaram
juntos e conversaram sobre várias questões importantes, desde
a iminente gravidez de Sara até a iminente destruição de Sodo-
ma. (Por favor, separe alguns momentos para ler todo o capítulo
18 de Gênesis e, depois, acompanhe em sua Bíblia enquanto o
analisamos.)
Apareceu Yehovah1 a Abraão nos carvalhais de Manre,
quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior
calor do dia. Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens
de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao
seu encontro, prostrou-se em terra...
Gênesis 18.1,2
‫ ניאליני מן!ךא והוא ישב פתח־האיסל‬,‫וירא אליו)הרה‬
‫ והנה שלישה אנשים‬,‫ וישיא עיניו וין־א‬:‫?חם היום‬
‫ וישוחחו‬,‫ _רךץ לקו־אתם מ?תח האיהל‬,‫יךא‬1 ‫נצבים עליו‬
‫אן־צה‬

1 Nota: deste ponto em diante, usaremos a palavra "Yehovah" (ou Yahweh) para traduzir
0 nome YHVH. Neste estudo, é imperativo saber quando esse nome está sendo usado
no texto original. Por isso, não podemos traduzi-lo pela palavra genérica Senhor ou
SE N H0 R. 0 Apêndice 3 "Yehovah ou Yahweh" apresenta uma discussão sobre a decisão
e a preferência quanto ao uso do nome Yehovah. Escrever Yehovah no lugar de YHVH
também torna 0 texto um pouco mais compreensível, embora não haja realmente sinais
vocálicos no original hebraico.
16 íS k e m a l m o ç o u c o m A braão?

Abraão viu “três homens” vindo visitá-lo. Quem são


esses três homens? Um dos três foi chamado de Yehovah; os
outros dois eram anjos.
Ao anoitecer, vieram os dois anjos a Sodoma...
Gênesis 19.1
‫ויביאו שני המלאכים סדימה‬

Esses não são dois anjos quaisquer, mas os dois anjos. Eles
eram os mesmos dois anjos que estiveram ali com Yehovah e
Abraão. Os três visitantes que Abraão viu foram: 1) Yehovah na
forma corpórea de um homem, e 2) dois anjos. Todos os três são
chamados de “homens”.
Dois anjos e 0 Yehovah-Homem visitaram Abraão na hora
mais quente do dia. Com requintada hospitalidade beduína,
Abraão se colocou de pé e correu para dar-lhes as boas-vindas.
Mas isso não foi simples hospitalidade. Uma razão que levou
Abraão a ir correndo ao seu encontro foi ter reconhecido o
Yehovah-Homem. Ele já o tinha visto várias vezes.
Abraão correu em direção a ele, prostrou-se e chamou-o de
Senhor. A palavra aqui para prostrar-se é ‫וישתחו‬, gue pode ser
traduzida tanto como prostrar-se quanto adorar. E a principal
palavra hebraica para adoração. A palavra para Senhor aqui é
‫אדוניי‬, Adonai, que é a forma plural de Senhor, mais frequente-
mente usada para fazer referência ao nome Yehovah.
Em todo o capítulo 18 de Gênesis, não há nenhuma indi-
cação sequer de que Abraão não tenha reconhecido ou percebí-
do com quem estava falando. Ele o trata como Yehovah, como
“Alguém” que já conhece. Os três visitantes são chamados
de“homens” por três vezes: nos versos 2, 16 e 22. A pessoa es-
pecial ou diferente no grupo é chamada de Yehovah quatro ve-
zes: versos 1 (acima), 17, 22 e 33.
Tendo-se levantado dali aqueles homens, olharam para
Sodoma; e Abraão ia com eles, para os encaminhar
[mostrar-lhes 0 caminhoj. Disse Yehovah; Ocultarei a
6¿ueμ a lm o ç o u , com A bra á o ? 17

Abraão 0 que estou para fazer...


Gênesis 18.16,17
‫דקמו משם האנשים וישקפו על־מני סדים ואברהם‬
‫ ויהוה אמר המכסה אני מאברהם‬:‫הלך עמם לשלחם‬
:‫אשר אני עשה‬

Depois de almoçar e falar sobre o nascimento de Isaque, os


três “homens” se levantaram para partir. Os dois anjos segui-
ram adiante para cumprir sua missão em Sodoma. O Yehovah-
-Homem permaneceu ali para conversar um pouco mais com
Abraão.
Então, partiram dali aqueles homens e foram para Sodoma;
porém Abraão permaneceu ainda na presença de Yehovah.
Gênesis 18.22

‫וימנו משם האנשים!ולכו סדימה ואברהם עוונו עימד‬


:‫למני ידעה‬
Abraão e Yehovah discutiam questões de juízo e graça com
respeito a Sodoma. Quando terminaram de conversar, os dois
anjos estavam quase chegando a Sodoma. O Yehovah-Homem
foi embora, provavelmente para voltar ao céu.
Tendo cessado de falar a Abraão, retirou-se Yehovah; e
Abraão voltou para 0 seu lugar. Ao anoitecer, vieram os dois
anjos a Sodoma.
Gênesis 18.3319.1‫ ־‬a

‫וילך יהרה כאשר כלה לדבר אל־אברהם ואברהם שב‬


‫ ויבאו שני המלאכים סדימה‬:‫למקמו‬
Os dois anjos tinham a missão de resgatar Ló e destruir So-
doma. Todo o encontro de Abraão com Yehovah em Gênesis
18 é descrito em detalhes realísticos. O tempo estava quente.
Eles fizeram uma refeição completa, incluindo carne e leite. A
destruição de Sodoma é tangível. Isso não é retratado como um
sonho ou visão, mas como um evento histórico real.
18 6Ζ1ΛΕΜ AL-MOÇ-ΟΙΛ COM A ‫־‬B>RAÁO?

Podemos acreditar ou não que a Bíblia seja verdadeira.


Contudo, é inquestionável que o texto bíblico considera que
esse evento aconteceu literalmente. Nessa descrição, temos uma
assombrosa afirmação bíblica: Yehovah é visto, ouvido e toca-
do. Yehovah veio visitar 0 homem em forma humana.
O maior obstáculo para um judeu religioso acreditar em
Yeshua não é a afirmação de que ele é 0 Messias, mas de que
ele é divino. Nos últimos anos, o movimento judeu ortodoxo
Chabad tem feito alegações de que seu falecido rabino-chefe,
Rebbe Schneerson, possuía atributos divinos. Entretanto, a vi-
são deles é consideravelmente inferior ao nível da declaração
que a Nova Aliança (NT) faz acerca da divindade de Yeshua.
Em última análise, a questão fundamental é o nosso enten-
dimento da natureza de Deus. A ideia de que Deus pudesse as-
sumir a forma de um homem, uma forma corpórea, e visitar a
humanidade não parece monoteísta, muito menos judaica. A raiz
do problema não é a interpretação das profecias messiânicas,
mas a essência de quem é o Messias. Pensar em “Deus encarna-
do” parece detestável, quase blasfemo.
Contudo, é isso que vemos aqui. Nosso pai Abraão se en-
contra com Deus manifestado na forma de um corpo humano.
Se Deus apareceu a Abraão em forma humana, então a principal
objeção à divindade de Yeshua desaparece. Gênesis 18 é uma
passagem que revela Deus encarnado de maneira mais radical
do que qualquer outro capítulo em toda a Nova Aliança (NT).
Seria perfeitamente válido alguém dizer que não consegue
ver 0 visitante celestial de Gênesis 18 como Yeshua. No entan-
to, ninguém pode argumentar de maneira razoável que 0 texto
de Gênesis 18 não descreve a aparição de Yehovah na forma
corpórea. Aquela aparição de Yehovah a Abraão em forma hu-
mana afasta o argumento mais fundamental do pensamento ju-
daico para não crer em Yeshua.
Na Nova Aliança, o capítulo 8 de João afirma especifica-
mente que quem visitou Abraão foi Yeshua. Numa discussão
acalorada com alguns líderes religiosos, a questão de Abraão
6Zu 6 m a lm o ç o u com A braão? 19

veio à tona. Yeshua respondeu:


Abraão, vosso pai, alegrou-se por ver 0 meu dia, viu-0 [e de
fato viu] e regozijou-se. Perguntaram-lhe, pois, os judeus:
Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão? Respondeu-
-lhes Yeshua: Em verdade, em verdade eu vos digo: antes
que Abraão existisse, EU SOU. Então, pegaram em pedras
para atirarem nele.
João 8.56-59

Yeshua fez várias declarações estarrecedoras aqui. Pode-


mos entender por que os líderes religiosos ficaram ofendidos
e tentados a apedrejá-lo. Yeshua disse que estava vivo antes do
tempo de Abraão. Disse, também, que Abraão se regozijou por
ver seu dia. Yeshua não estava querendo dizer que Abraão se
alegrou numa visão ou por ver uma data no calendário. Ele se
regozijou ao ver Yeshua no dia em que foi visitado por ele em
Gênesis 18. Muitas traduções inserem incorretamente no verso
56 o pronome oblíquo “o” (“e de fato viu-o”), referindo-se ao
dia. Abraão não se alegrou por ver “o dia”. Ele se alegrou por
ver Yeshua.
Isso pode ser constatado facilmente pela resposta dos lide-
res religiosos quando exclamaram atônitos: “Viste Abraão?”.
Evidentemente, entenderam que, de acordo com Yeshua, Abraão
encontrou-se com ele e que viram um ao outro.
Outra declaração de Yeshua foi que ele existia antes de
Abraão. “Antes que Abraão existisse, eu sou.” Essa frase é uma
referência ao nome Yehovah. O homem em Gênesis 18 é des-
crito quatro vezes como Yehovah. Yehovah e “EU SOU O QUE
SOU” são o mesmo nome (Êx 3.14,15). Que outra conclusão
se pode tirar senão que Yeshua está afirmando abertamente que
ele é o Elomem Yehovah-EU SOU que almoçou com Abraão em
Gênesis 18?
Talvez, Yeshua estivesse mentalmente desequilibrado.
Mas foi isso que ele disse. E foi assim que os líderes religio-
sos entenderam suas palavras. Foi por esse motivo que ficaram
enfurecidos a ponto de querer matá-lo. Claramente, Yeshua não
20 6Ζ1Λ5Μ A L M O Ç O U . COM A B R A Ã O ?

estava muito preocupado com a opinião de seus ouvintes. Ele os


deixou com apenas três opções: pensar que ele era insano, matá-
-10 por ser um blasfemo ou crer que ele era 0 Yehovah-Homem
que visitara Abraão.
Para os líderes religiosos do primeiro século, decidir entre
a insanidade de Yeshua ou sua divindade não era uma escolha
muito fácil. Espera-se que nós, judeus, tenhamos o desejo de
seguir as mesmas pisadas de Abraão. Deveriamos crer no mes-
mo Deus em quem ele cria. Se cremos que Deus apareceu a
Abraão como homem, nessa mesma medida devemos crer que
Deus pôde tomar-se homem outra vez; não devemos crer nem
mais nem menos do que isso. Nossa fé deve ser coerente com a
de nossos pais.
De acordo com a Torá e a Nova Aliança (NT), há um aspee-
to de Deus que não podemos ver. E há outro aspecto em que ele
aparece na forma corpórea de um ser humano. Essa dualidade,
de não ser possível ver Deus e de ver Deus manifestado em for-
ma humana, é descrita por João da seguinte maneira:
Ninguém jamais viu a Deus; o Deus [Filho] unigénito, que
está no seio do Pai, é quem o revelou.
João 1.18
O Deus que não podemos ver é aquele a quem Jesus chamou
de “nosso Pai celestial”. Aquele que assumiu forma corpórea e que
podemos ver e tocar é identificado por vários nomes: Palavra de
Deus, Anjo de Yehovah, Filho do Homem e Filho de Deus, dentre
outros. (Trataremos dessas referências em detalhes nos próximos
capítulos.) A Nova Aliança declara que essa pessoa é Yeshua.
Podemos ver um paralelo entre Abraão almoçar com 0
Yehovah-Homem em Gênesis 18 e Jesus comer com seus dis-
cípulos na última ceia e nas praias da Galileia. Pense na dinâ-
mica de cada encontro: íntimo, porém assombroso; místico,
porém material; divino, porém humano - Deus e o homem em
comunhão numa refeição de aliança. Imagine o aroma e 0
sabor da comida, a transpiração ao sol quente do Oriente Médio.
Imagine as conversas que mantinham sobre justiça, família e o
621Λ6Μ ALM OÇ-OW . C O M A B R A Ã O ? 21

reino messiânico vindouro. Eles puderam experimentar revela-


ção eterna num contexto totalmente temporal.
Você e eu somos convidados a essa mesma amizade de
aliança que Abraão desfrutou - e com o mesmo Yehovah-Ho-
mem que ele conheceu.
C apítulo D o is

Q uem c h u to u a p e r n a de J a c ó ?

Os encontros de Abraão com esse Yehovah-Homem foram


as experiências mais importantes da vida dele. Sem dúvida, ele
as contava para todos à sua volta. Isso deve ter incluído sua es-
posa, seus filhos, suas servas, seus servos e vizinhos.
Hagar, serva de sua esposa, também teve um encontro com
essa pessoa especial. No caso dela, ele foi descrito como o Anjo
de Yehovah. O Anjo de Yehovah a encontrou quando ela fugia
de Sara. Ele prometeu abençoar tanto a ela quanto a seus filhos
por meio de Ismael.
Tendo-a achado 0 Anjo de Yehovah junto a uma fonte de
água no deserto...
Gênesis 16.7
‫וימצאה מלאך יהוה על־עין המים במךבר‬

Esse não era um anjo comum. Ele é chamado de Anjo de


Yehovah também nos versos 9, 10 e 11. Contudo, no verso 13,
esse anjo é identificado simplesmente pelo nome Yehovah.
Então, ela invocou o nome de Yehovah que lhe falava: Tu és
Deus que [me] vê.
Gênesis 16.13
‫ךאי‬:‫ אתה אל‬,‫רת?ןךא שם־יהוה הדיבר אליה‬

Existem muitos anjos, e eles aparecem muitas vezes aos


24 62h 6 m a l m o ç o h com A braão?

filhos dos homens. Porém, há outra figura, chamada Anjo de


Yehovah. Ele é diferente: fala como Deus na primeira pessoa e é
chamado de Yehovah. Nessa passagem, o Anjo de Yehovah tam-
bém fala com ela como Deus e é chamado pelo nome Yehovah.1
Esse mesmo anjo apareceu a Abraão por ocasião do sacri-
fício de Isaque. Não era um anjo comum. Assim que Abraão
levanta o cutelo, lemos:
Mas do céu lhe bradou 0 Anjo de Yehovah...
Gênesis 22.11
‫ויקו־־א אליו מלאך יהוה מן־השמים‬

Então, ‫ ס‬anjo começa a falar com ele como Deus, na pri-


meira pessoa.
Pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste
0 filho, o teu único filho.
Gênesis 22.12

‫כי עתה;דעתי כי־ירא אלהים אתה ןל'א חשכת‬


:‫את־בנך את־יחין־ך ממני‬

E disse: Jurei, por mim mesmo, diz Yehovah...


Gênesis 22.16
‫ויאמר בי נשבעתי נאם־יהוה‬

Que deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua


descendência...
Gênesis 22.17
‫ ה את־זךעך‬3‫רבה אך‬:‫כי־ברך אברכך ןה‬

Não seria razoável que um anjo comum falasse desse jeito,


na primeira pessoa, referindo-se a si mesmo como Deus.
De fato, os patriarcas chamaram aquele lugar de Monte

1 Trataremos exaustivamente da figura do Anjo do Senhor na Parte Dois.


6 2 u e M CH-ΙΛΤΟΙΛ A P 6 R .N A V>€J A C Ó ? 25

Moriá, que significa literalmente: “Monte onde Yehovah


Aparece”.
No monte Yehovah aparecerá [tradução literal].
Gênesis 22.14
‫ בהר יהוה יראה‬,‫אמר היום‬:

Eles consideraram a aparição desse Anjo como uma apari-


ção de Yehovah. Nesse caso, 0 Anjo estava presente no momen-
to em que Abraão ofereceu Isaque. Isaque “amarrado” é uma
figura que serviría de base para todos os futuros sacrifícios do
Templo, e esses sacrifícios eram vistos à luz do “sacrifício” de
Isaque. Isaque sobre o altar e os sacrifícios no Templo simbo-
lizavam o futuro sacrifício do Messias. Isaque é uma figura do
Messias. O Anjo estava presente naquele sacrifício simbólico.
De fato, o Anjo testemunhou o retrato simbólico de seu próprio
sacrifício, que ocorrería quase 2 mil anos depois.
A Bíblia também relata que Yehovah apareceu a Isaque uma
segunda e uma terceira vez.
Apareceu-lhe Yehovah...
Gênesis 26.2
‫וירא אליו להרה‬
Na mesma noite, lhe apareceu Yehovah...
Gênesis 26.24
‫וירא אליו להרה בלילה ההוא‬

Nas três ocasiões, a raiz do verbo e a forma em hebraico são


as mesmas usadas nas aparições de Yehovah a Abraão.
O conhecimento desse visitante divino foi transmitido de
Abraão para Isaque e deste para Jacó, neto de Abraão. Jacó teve
várias visitações desse “Deus em forma de Homem”. No pri-
meiro encontro, Jacó estava fugindo de seu irmão Esaú. Naque-
la noite, ele teve um sonho no qual viu uma escada colocada
entre o céu e a terra, com anjos subindo e descendo.
26 6¿¡a.bm a l m o ç o u com A b■r a a o ?

Todos eram anjos comuns. Mas, no topo da escada, ele viu


outra figura.
E acima dela [da escada] estava Yehovah que disse: Eu sou
Yehovah, o Deus de teu pai Abraão e 0 Deus de Isaque.
Gênesis 28.13 (AL21)
‫והנה יהוה נצב עליו ויאמר אני יהוה אלהי אברהם‬
τ τ : - " V í T 1 · ‫־י‬: - - τ τ T · τ : ·· · :

‫ ואליהי יצחק‬,‫אביך‬

Depois que Jacó teve essa visão, ele ergueu uma coluna de
pedras, derramou azeite sobre ela e fez um voto ao Senhor. En-
tão, chamou o lugar de Betel, a casa de Deus.
Nesse capítulo, não está escrito explícitamente que Yeho-
vah apareceu a ele na forma de um homem. Entretanto, só preci-
samos nos perguntar 0 que Jacó viu ali, de pé, no topo da escada.
Isso sugere a forma corpórea de um homem, já que a escada é
um utensílio fabricado para seres humanos.
Quando Yehovah apareceu a Jacó pela segunda vez, a Bi-
blia esclarece quem estava no sonho da escada. A segunda vez
aconteceu quando Jacó estava sendo maltratado por seu tio La-
bão. Foi quando ele recebeu o sonho dos machos malhados fe-
cundando as ovelhas. Nessa ocasião, 0 visitante divino voltou
com 0 nome de “Anjo de Yehovah”. Jacó recontou 0 sonho às
suas esposas:
E o Anjo de Deus me disse em sonho: Jacó! Eu respondí: Eis
me aqui!
Gênesis 31.11
:‫עקיב ואמר הנני‬: ‫וייאמר אלי מלאך האליהים בסלום‬

Podemos imaginar que, na primeira aparição a Jacó na


escada, Deus não apareceu em forma humana. Também pode-
mos pensar que, nessa segunda aparição, Jacó viu apenas um
anjo comum. Contudo, esse “anjo” lhe disse algo muito fora do
comum:
62k 6m ch-ιλτοιλ a p 6r .n a J aco? 27

Eu sou o Deus de Betel, onde ungiste uma coluna, onde me


fizeste um voto.
Génesis 31.13

‫אנכי האל בית־אל אשר משסה שם מצבה אשר נדרת‬


‫;לי שם מ־ר‬
As implicações dessa declaração são estarrecedoras. O Anjo
de Yehovah apareceu a Jacó. E evidente que ele era um mensa-
geiro, um “enviado” . Então, esse Anjo falou: “Eu sou Deus. Eu
sou o Deus de Abraão e Isaque. Eu sou aquele que você viu na
primeira visão”. Ali estava um anjo que declarava ser Deus.
Vamos resumir: na primeira aparição (Gn 28), Deus Yeho-
vah se revela. Na segunda (Gn 31), um anjo aparece. Este anjo
declara abertamente ser 0 Deus Yehovah que aparecera a Jacó
na primeira vez. Ele não é um anjo, mas o Anjo. Deus Yehovah
se revela como o Anjo; e o Anjo se revela como Deus Yehovah.
Eles são a mesma pessoa.
Esse personagem, esse Deus-Anjo-Homem, é aquele que
Abraão, Isaque e Jacó chamavam de “meu Deus” . A crítica tex-
tual moderna pode referir-se a essa descrição como um anacro-
nismo ou antropomorfismo. No entanto, esse tipo de terminólo-
gia acadêmica não existia nos dias de Abraão, Isaque e Jacó. O
que está escrito na Bíblia reflete 0 que eles conheciam de Deus,
0 que eles experimentavam de Deus e o que criam acerca dele.
Isso pode soar primitivo para alguns hoje, mas para eles era real.
A terceira visitação divina a Jacó foi ainda mais desafiadora.
Jacó estava voltando do exílio, assustado diante da possibilida-
de de reencontrar-se com seu irmão Esaú, de quem fugira uns
20 anos antes. Jacó enviou a esposa e os filhos à frente e ficou
sozinho à noite perto do rio Jaboque.
... ficando ele [Jacó] só; e lutava com ele um homem, até ao
romper do dia.
Gênesis 32.24
:‫עקיב לבדו ויאבק איש עמו עד עלות השחר‬:‫ויותר‬
28 6¿iabm a l m o ç o u com A braão?

Dessa vez, a aparição não se deu num sonho. Alguém apa-


receu no meio da noite e começou a lutar com Jacó. Como ne-
nhum dos dois parecia estar ganhando, o homem misterioso lhe
deu um golpe na parte de trás da coxa (resultando no que cha-
manarnos hoje de “tendões ou ligamentos rompidos”). Jacó se
recusou a deixá-lo ir a despeito da dor e exigiu que 0 homem o
abençoasse.
Se Jacó estava pedindo que 0 homem misterioso o aben-
çoasse era porque provavelmente já havia descoberto quem ele
era. O homem então mudou o nome de Jacó para Israel de “su-
plantador” (“agarrado ao calcanhar”) para “príncipe de Deus”.
Jacó perguntou pelo nome do homem, mas seu pedido não foi
atendido. Jacó, agora Israel, chamou o lugar de Peniel, a face
de Deus.
Aquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: Vi a Deus face
a face, e a minha vida foi salva.
Gênesis 32.30
‫עקיב שם המקום פניאל כי־ראיתי אלהים‬: ‫ויקו־א‬
:‫פנים אל־פנים ותנצל נפשי‬

No verso 25, nosso personagem misterioso é chamado de


homem; no verso 30, ele é chamado de Deus. Então, ele é ho-
mem ou Deus? Ou ele é um Deus-Homem? Na manhã seguinte,
Jacó descobriu que ainda estava mancando. Por que Deus o gol-
peara na perna? A resposta é: para garantir a Jacó que aquilo não
fora um sonho, mas uma experiência real.
Jacó era acostumado a ter sonhos espirituais. Sempre que
fosse tentado a pensar que aquele encontro tinha sido apenas um
sonho ou uma experiência mística, irreal, havería uma fisgada
na parte de trás de sua coxa - apenas para lembrá-lo de como
havia sido real.
Ele tivera um encontro com um homem que também era
Deus. Deus foi até ele na forma de homem. Jacó teve uma expe-
riência no seu corpo físico. (Se você não crê nisso, “cuidado com
seu tendão” !) Jacó e toda a sua família ficaram tão assombrados
62k 6 m ch -h to u . a p b r l n a p >b J a c o ? 29

com a experiência que nunca mais comeram carne da parte de


trás da coxa por muitas gerações.
Alguns anos mais tarde, Deus mandou Jacó retomar a Be-
tel. Ali, Deus lhe apareceu pela quarta vez (Gn 3 5 .9 1 3 ‫)־‬. Ele
recapitulou com Jacó as promessas da aliança feitas anterior-
mente naquele lugar. (É possível que esta não tenha sido outra
visitação, mas uma revisão do que acontecera antes. Porém, há
novos detalhes e vislumbres que indicam que pode ter sido uma
nova aparição. Qualquer que seja o caso, a ideia é a mesma.)
Talvez, você ainda duvide de que o homem em Peniel fosse
Deus. Contudo, veja o que está escrito nessa revisão do encontro
em Peniel. O visitante divino reitera as promessas da aliança;
ele o faz lembrar-se da bênção e de como mudou seu nome para
Israel. Claramente, é a mesma pessoa do encontro anterior que
está falando.
Outra vez lhe [a Jacó] apareceu Deus e o abençoou... Disse-
-lhe mais: Eu sou o Deus Todo-Poderoso (El Shaddai).
Gênesis 35.9,11
‫ וייאסר לו אלהים אני אל‬...‫וירא אלהים אל־יעקב עוד‬
‫שדי‬

O Deus El Shaddai diz: “Eu sou o Homem que lutou com


você em Peniel”. E, invertendo a ordem, o Homem que lutou
com Jacó em Peniel diz: “Eu sou El Shaddai”. El Shaddai, o
grande Deus provedor que faz alianças e abençoa famílias e fi-
nanças, apareceu muitas vezes aos nossos pais na forma de um
homem. Esse El Shaddai é o mesmo Homem que lutou com
Jacó aquela noite em Peniel. Ele afirmou que era Homem e Deus
ao mesmo tempo.
Nossos antepassados conheceram El Shaddai na forma de
um Deus-Anjo-Homem. Entretanto, sua identidade exata ainda
era, de certa maneira, um mistério para eles. Anos mais tarde,
ele se revelou como Messias. Assim como nossos pais fizeram
aliança com El Shaddai, igualmente fazemos a nova aliança
com Yeshua. Ele era o Deus-Homem em quem nossos pais cre-
ram. Ele é o Messias.
C apítulo Tp £s

P o r q u e Y e s h u a F oi
C ir c u n c id a d o ?

El Shaddai era o Deus de Abraão, Isaque e Jaco. Ele apa-


receu aos nossos antepassados na forma de um Homem e de
um Anjo. Embora este Deus-Anjo-Homem fosse identificado
muitas vezes como Yehovah, ele não revelava seu nome pessoal
(Gn 32.30), porque seu nome não seria revelado até um tempo
futuro. Esse tempo viria quando o Deus-Anjo-Homem nascesse
no mundo como Messias.
A revelação de que o Deus-Anjo-Homem do Tanakh (Velho
Testamento) nasceria nesta terra como homem é impressionan-
te. É uma epifanía, uma manifestação de Deus à humanidade.
Isso é o que João afirmou quando disse: “E 0 Verbo [a Palavra]
se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). É também o que
Saulo (Paulo) quis dizer quando escreveu: “Grande é o misté-
rio da piedade: Aquele [Deus] que foi manifestado na carne”
(1 Tm 3.16).
A importância do nascimento de Yeshua é notória nos cír-
culos cristãos e é conhecida como “encarnação”. Neste capítulo,
eu gostaria de tratar de um aspecto específico do nascimento de
Yeshua que provavelmente é negligenciado pela maioria tan-
to dos cristãos quanto dos judeus - a circuncisão. Yeshua não
apenas nasceu, mas foi circuncidado. Ele não apenas veio a este
mundo, mas também foi circuncidado quando chegou aqui.
32 62k e m a l m o ç o u com A braão?

O procedimento cirúrgico da circuncisão é pouco relevante.


No entanto, 0 compromisso de aliança implícito no procedimcn-
to é imenso. Para 0 povo judeu, a circuncisão tem o mesmo
significado que as alianças numa cerimônia de casamento. E um
sinal de que uma aliança foi “cortada”.'
O Deus-Anjo-Homem fez uma aliança com os patriarcas.
Pela aliança, ele nos escolheu como nação e nos deu a terra de
Israel. Foi como se tivesse dito aos patriarcas: “Eu não posso
lhes dizer meu nome agora. Meu nome está associado à aliança.
Um dia, vou nascer nesta terra e cortar uma aliança por meio da
minha própria circuncisão. Então, meu nome misterioso será re-
velado”. Quando Yeshua foi circuncidado na carne, ele fez uma
aliança com o povo judeu; quando foi crucificado na carne, ele
fez uma aliança com toda a humanidade.
O Cristo-Messias e o Deus-Anjo-Homem são a mesma pes-
soa. Ele não tinha um nome específico no tempo de nossos pais
porque seu nome só seria proclamado pouco tempo depois de
seu nascimento, por ocasião de sua circuncisão.12
Completados oito dias para ser circuncidado 0 menino, de-
ram-lhe o nome de Yeshua, como lhe chamara 0 anjo, antes
de ser concebido.
Lucas 2.21
O nome dele é Yeshua. Ele recebeu esse nome quando foi
circuncidado. Yeshua é o Deus-Anjo-Homem que nasceu neste
mundo como Messias para salvar-nos de nossos pecados. Foi
ele quem apareceu aos nossos antepassados e fez aliança com
eles pela circuncisão (Gn 17.1-14). Quando foi concebido, seu
caráter divino uniu-se à natureza de Miriã (Maria). Ele existia
anteriomente como o Anjo (mensageiro) divino, mas a união
divino-humana em Yeshua era uma nova realidade que veio à
existência somente em seu nascimento. O Anjo de Yehovah que

1 NT: No hebraico, "fazer uma aliança‫( ״‬como em Gênesis 15.18) é literalmente "cor-
tar uma aliança‫ ״‬. Esse termo veio da prática usada de cortar os animais do sacrifício e
passar no meio deles, como Abraão fez nesse mesmo capítulo.
2 Para uma discussão sobre 0 poder que há nos nomes Yehovah e Yeshua, veja 0 Apêndice
4: "Yehovah e Yeshua‫ ״‬.
P0R 6¿UB Y S S H -ΙΛΑ FO I CIRCUNCIDADO? 33

exigiu de Abraão a circuncisão seria circuncidado, ele próprio,


mais tarde quando nascesse nesta terra como homem.
Por que isso é importante para nós hoje? Por que esse Deus-
-Anjo-Homem não recebeu um nome até nascer no mundo dos
homens? Por que o nome de Yeshua foi proclamado especifi-
camente no momento de sua circuncisão? As respostas a essas
perguntas são bastante desafiadoras tanto para judeus quanto
para cristãos.
Vamos tratar primeiro do desafio para a visão de mundo ju-
daica. Deus apareceu aos nossos pais na forma de um Deus-An-
jo-Homem. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó não é uma divin-
dade desligada e distante, que não podemos sentir e conhecer.
Ele está mais próximo do que 0 Monte Sinai; ele faz mais do que
escrever leis e estabelecer regras; ele não é uma coluna de fogo
e nuvem. Ele é pessoal e íntimo, e envolve-se com nossa vida.
Ele apareceu aos nossos pais na forma de Homem e de Anjo e
fez uma aliança com eles (Gn 15.18; 17.2; Êx 2.24).
A segunda parte do desafio para a visão de mundo judai-
ca é que esse El Shaddai, Deus-Anjo-Homem, não é outro se-
não Yeshua. Sim, aquele que, nós, judeus, temos rejeitado há
2 mil anos. A figura dele tem sobressaído entre nosso povo
por toda a nossa história, quer gostemos disso, quer não. Não
é coincidência que nosso exílio de 2 mil anos tenha começa-
do imediatamente depois que rejeitamos sua mensagem. Crer
em Yeshua é a continuação correta e lógica de ter fé no mesmo
Deus em quem Abraão, Isaque e Jacó criam.
A terceira parte do desafio para o mundo judeu tem a ver
com a nossa visão das alianças firmadas com nossos pais. Por
meio daquelas alianças, nos tornamos o povo escolhido. Foi por
elas que recebemos a terra de Israel. Pelas alianças, recebemos
bênçãos terrenas e celestiais.
Porém, quem fez as alianças com Abraão, Isaque e Jacó?
Foi esse Deus-Anjo-Homem que estamos estudando neste livro.
As alianças originais que definem nosso povo foram feitas com
Deus em sua forma de Anjo-Homem. Aquele personagem era
34 GÒA.BΜ A L M O Ç -ΟΙΛ COM A ‫־‬B>RAÁO?

Yeshua antes de seu nascimento nesta terra. Foi ele quem fez
aliança com nossos pais.
Somos o povo escolhido. Nossa eleição foi definida pe-
las alianças dos patriarcas. Aquelas alianças foram feitas com
Yeshua. Nossa eleição não tem sentido sem um relacionamento
de fé com 0 Deus-Anjo-Homem que cortou uma aliança com
nossos antepassados. Nossa vocação como povo é determinada
a partir de nosso relacionamento com Yeshua. Sem Yeshua, nos-
sa própria identidade como judeus, como israelitas, como povo
escolhido perde o propósito.
Vamos comparar essa questão ao exemplo do casamento.
Minha esposa assumiu meu sobrenome quando nos casamos.
Ela se chamava Betty Kirshbaum. Agora, é Betty Intraten Sem
0 nosso relacionamento, seu novo nome, sua identidade e seu
papel como esposa e mãe perderíam o significado. Se ela se di-
vorciasse de mim, não havería propósito em continuar a cha-
mar-se Betty Intraten O mesmo é verdadeiro para mim. Meu
papel como pai e marido não teria significado fora de minha
aliança matrimonial com Betty.
De modo semelhante, é impossível que Israel cumpra seu
propósito na aliança sem Yeshua. Nossa eleição não é baseada
em superioridade racial. Fomos escolhidos porque temos uma
aliança com El Shaddai. A identidade judaica, sem 0 Deus-Ho-
mem que cortou uma aliança conosco, não tem propósito. Sem
Yeshua, estamos proclamando que somos “filhos da aliança”
sem 0 participante que a estabeleceu no princípio.
A quarta parte do desafio para a visão de mundo judaica é a
conexão entre a terra de Israel e a pessoa de Yeshua.3A proprie-
dade da terra de Israel foi dada a Abraão, Isaque e Jaco por alian-
ça. As alianças da terra foram feitas com 0 Deus-Anjo-Homem,
em quem nossos pais criam. Aquele personagem era Yeshua.
O direito de aliança do povo judeu sobre a terra de Israel tem
origem na aliança com Yeshua.
O retomo do povo judeu à terra de Israel desde 0 final do

3 Falaremos mais sobre esse assunto na Parte Três.


P o r 62ΧΛ.Β Y & S H ‫־‬K A FO I C IR C U N C ID A D O ? 35

século 19 não é uma questão meramente política ou histórica. É


uma questão de aliança e profecia. A visão atualmente conside-
rada “politicamente correta” não enxerga o mandato divino para
que o nosso povo volte a viver em sua antiga terra natal. Esse
mandato vem da Bíblia. Nosso “direito” de estar nessa terra é
baseado em nossas antigas alianças, e estas alianças foram feitas
com Yeshua.
A medida que nós, judeus, nos voltamos com fé para 0
nosso próprio Messias, nossa identidade de povo escolhido
chega à plenitude (Rm 11.15). Por intermédio de Yeshua, nossa
restauração à terra de Israel também chegará ao seu propósito
completo (Lc 13.34,35; 19.41-44; 21.23,24).
Nossa identidade e nossa terra nos foram dadas por alian-
ça. Quem firmou essa aliança foi o Deus-Anjo-Homem, cujo
nome é Yeshua desde o nascimento. A circuncisão é o sinal da
aliança. A circuncisão está ligada à aliança, e a aliança está liga-
da a Yeshua. À semelhança de Abraão, Yeshua entrou na Alian-
ça “Abraâmica” por meio da circuncisão. Por isso o nome de
Yeshua foi anunciado por ocasião de sua circuncisão.
Quando um pai realiza os preparativos para que o filho seja
circuncidado, ele recita a bênção que faz com que seu filho entre
na Aliança Abraâmica. Quando Yeshua foi circuncidado, ele se
comprometeu com a Aliança Abraâmica. Ele já havia-se com-
prometido com essa aliança como Deus (quando passou por en-
tre as partes dos animais em Gênesis 15.17). Na circuncisão, ele
se comprometeu com a Aliança Abraâmica como homem.
A circuncisão de Yeshua demonstra seu compromisso com
as alianças feitas com o povo judeu. O fato de ter seu nome pro-
clamado no momento da circuncisão demonstra que a identida-
de de Yeshua como ser humano está ligada a um compromisso
de aliança com 0 povo judeu.
Em vista disso, a ideia de que Yeshua é o Deus-Anjo-Ho-
mem que fez uma aliança com Abraão, Isaque e Jacó é igual-
mente desafiadora para a visão de mundo cristã. Esse desafio
afeta a atitude do cristão em relação ao povo judeu, à terra de
36 621Λ6Μ A L M O Ç O U . C O M A B R A Ã O ?

Israel e às alianças firmadas com nossos pais.


Um cristão verdadeiramente nascido de novo tem uma
aliança com Deus por meio de Yeshua. Essa aliança proveu per-
dão de pecados e vida eterna. Contudo, mais de mil anos antes
da cruz, o mesmo Yeshua cortou uma aliança com Abraão, Isa-
que e Jacó. Foi ele que fez com que os judeus se tomassem o
povo escolhido. Foi ele que declarou Israel como a Terra Santa
que seria a herança do povo hebreu.
O cristão tem salvação pela fé em Yeshua por meio da Nova
Aliança. No entanto, Yeshua estabeleceu uma aliança anterior
com o povo judeu. Yeshua prometeu dar vida eterna a todos os
que cressem. Apesar disso, muito tempo antes, ele também pro-
meteu dar a terra de Israel ao povo judeu. O que isso significa
para 0 mundo cristão hoje?
Vamos usar o exemplo de um contrato comercial. Uma pes-
soa se dispõe a fazer um contrato para comprar seu negócio.
Contudo, você tem um sócio mais antigo na empresa. Quando
chega a hora de assinar o contrato, você deve levar em conta os
compromissos anteriormente firmados com seu sócio. Se o novo
contrato violar o contrato anterior, ele não terá validade.
Quando uma empresa compra outra, ela precisa reconhecer
os contratos que a antiga tinha com seus empregados e clientes
anteriores. De modo semelhante, para que a Nova Aliança man-
tenha sua integridade, ela deve permanecer fiel aos compromis-
sos anteriores firmados na Velha Aliança. As promessas da Nova
Aliança para a Igreja exigem a fidelidade de Deus às promessas
da Velha Aliança feitas ao povo de Israel.
O mesmo princípio também se aplica a governos. Um novo
governo pode tomar posse num determinado país; porém, deve
reconhecer obrigações assumidas em tratados pelo governo an-
terior em nome do país. As alianças de um “novo” governo de-
vem reconhecer as “velhas” alianças do governo anterior.
Todos os cristãos verdadeiros entram numa relação de
aliança com Yeshua. E Yeshua tem uma aliança anterior com
o povo de Israel. O cristão pode dizer que as alianças de Deus
P o r 62ue Y& s h u a foi c ir c u n c id a d o ? 37

com Israel já não têm validade porque nosso povo o rejeitou.


Isso não é correto. As promessas de Deus são condicionais, e o
nosso povo, de fato, quebrou as alianças com ele. Mas a pala-
vra de Deus ainda é eternamente válida. Mesmo que tenhamos
sido infiéis às nossas alianças, Deus é fiel às suas promessas. A
questão não é a nossa falta de justiça. A questão é a fidelidade de
Deus às suas alianças.
Afirmo, pois, que 0 Messias se tornou servo (ministro! da
circuncisão, por causa da fidelidade de Deus, para confirmar
as promessas feitas aos patriarcas; e para que os gentios glo-
rifiquem a Deus pela sua misericórdia...
Romanos 15.8,9
Yeshua foi circuncidado e viveu como um judeu observador
da Torá para demonstrar a fidelidade de Deus ao nosso povo.
Yeshua é um marido fiel, embora tenhamos sido uma esposa
infiel (um tema central no livro de Oseias). Se ele não for fiel a
Israel, como será fiel à Igreja?
Em Jeremias 31, Deus promete uma Nova Aliança a fim de
prover perdão de pecados e escrever a Torá em nosso coração.
Nesse mesmo capítulo, ele também promete preservar o povo
judeu. As promessas da Nova Aliança se encontram nos versos
31 a 34. As promessas de preservação para a nação de Israel são
encontradas nos versos 35 a 37.
Assim diz Yehovah, que dá o sol para a luz do dia e as leis
fixas à lua e às estrelas para a luz da noite...
Se falharem estas leis fixas diante de mim, diz Yehovah, dei-
xará também a descendência de Israel de ser uma nação
diante de mim para sempre.
Assim diz Yehovah: Se puderem ser medidos os céus lá em
cima e sondados os fundamentos da terra cá embaixo, tam-
bém eu rejeitarei toda a descendência de Israel, por tudo
quanto fizeram.
Jeremias 31.35-37
38 62h l m a lm o ç o u , com A braão?

‫כיה אמר יהרה נתן שמש לאור יומם ד!ק'ת ירדו‬


...‫וכוכבים לאור לילה‬
τ s τ : · τ ·

‫אם־למשו הדןקןים האלה מלפני נאם־להוה גם זרע‬


‫ אם־ימדו‬:‫ישראל ישכתו מהיות גוי לפני כל־הלמים‬
‫■שמלם מלמעלה ולחקרו מוסדי־אן־ץ למטה גם־אני‬
‫אמאס ניכל־זךע לקזראל על־כל־אשר עשו‬

Há uma aliança triangular aqui. A Nova Aliança associa o


perdão dos pecados à preservação da nação de Israel, a qual,
por sua vez, está associada à preservação da criação natural. A
criação do mundo foi feita por aliança; a eleição da nação de
Israel se deu por aliança; e a salvação eterna de todos os crentes
foi estabelecida por aliança. Esses três fatos estão interligados
por aliança.
A aliança exige que os três fatos sejam verdadeiros, ou que
nenhum deles o seja. Esse segredo espiritual explica por que a
Jihad islâmica, assim como os nazistas no século passado, tem
como alvo o extermínio do povo judeu. Se conseguissem des-
truir nosso povo, a Nova Aliança e a ordem da criação estariam
seriamente ameaçadas.
Um dia, meu amigo Lou Engle me pediu para explicar a
importância de Israel no plano de Deus. Eu lhe perguntei: “Você
vê questões como aborto e homossexualidade como questões
de aliança?”. Ele disse: “Claro que sim”. Respondí: “Bem, as
questões relativas a Israel também têm a ver com aliança”. A
questão não é tanto Israel em si, mas a fidelidade de Deus para
com Israel. Não se trata de superioridade racial, mas da fidelida-
de de Deus às alianças.
A salvação do cristão depende da fidelidade de Deus a suas
alianças. Deus tem uma aliança anterior com o povo de Israel.
Assim como a identidade e o destino de Israel perdem a valida-
de sem a fé em Yeshua, a fé do cristão em Yeshua também perde
validade sem o reconhecimento da fidelidade de Deus em suas
alianças ao povo judeu.
P o r 6ZM.E YesH-utA foi circ -u n c id a ‫שי‬o ? 39

Não estou dizendo que, para ser salvo, alguém precise se


comprometer com o povo judeu. Estou dizendo que a salva-
ção dos cristãos é baseada numa aliança com o mesmo Deus
El Shaddai que fez aliança com Abraão, Isaque e Jacó muitos
anos antes. Se Deus é fiel em uma, será fiel na outra.
Para um cristão, ouvir que a salvação é baseada numa
aliança que pressupõe um compromisso com Israel causa tanto
espanto quanto para um judeu que ouve que a preservação da
nação de Israel é baseada numa aliança que Yeshua cortou com
nosso povo no Antigo Testamento. A aliança é válida nos dois
sentidos.
Você sabia que, um dia, Yeshua (Yehovah em sua forma
humana) tentou matar Moisés? Embora possa parecer absurdo,
aqui está a passagem:
Estando Moisés no caminho, numa estalagem, encontrou-o
Yehovah e o quis matar. Então Zípora tomou uma pedra
aguda, cortou 0 prepúcio de seu filho, lançou-o aos pés de
Moisés e lhe disse: Sem dúvida, tu és para mim esposo san-
guinário. Assim Yehovah o deixou.
Êxodo 4.24-26
:‫ולהי בןן־ך במלון ויב שהו יהוה ויבקןש סמיתו‬
‫ותקןח צפירה ציר והכרת את־ען־לת בנה ותגע לרגליו‬
:‫ותאמר כי סתן־זימים אתה לי‬
‫ךף ממנו‬.‫וי‬
Moisés era o grande libertador do povo de Israel. Ele rece-
beu profecias específicas para sua vida, autoridade espiritual e
uma missão ordenada por Deus. Só havia um problema: Moisés
esqueceu que sua grande missão espiritual se devia à fidelidade
de Deus à sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó (Ex 2.24).
Circuncidar seu filho era 0 sinal da aliança. Sem aquela aliança,
Moisés era um “homem morto”. Grande espiritualidade não eli-
mina a necessidade de ser fiel às alianças.
40 6 Z m.^ M A L M O Ç -ΟΙΛ C O M A B R A Ã O ?

Yeshua foi circuncidado para mostrar a fidelidade de Deus


a suas alianças.4
Yeshua recebeu seu nome na circuncisão. Ele foi circun-
cidado para cumprir a fidelidade de Deus à aliança feita com
o povo de Israel. Yeshua tinha de ser fiel à aliança com Abraão
porque foi ele mesmo que a propusera. Yeshua foi circuncida-
do como um filho da aliança de Abraão. Yeshua tomou-se parte
da Aliança Abraâmica. Pela circuncisão, ele cortou uma aliança
com 0 povo judeu. Yeshua foi e ainda é fiel àquela aliança.
Yeshua fez as alianças com Abraão, Isaque e Jacó. O mes-
mo Yeshua fez a Nova Aliança de salvação para todos os que
creem. As promessas da Aliança Abraâmica fazem parte dos
fundamentos da Nova Aliança. As promessas da Nova Aliança
para o cristão estão integralmente ligadas à fidelidade de Yeshua
ao povo judeu na Velha Aliança.
Em conclusão, Yeshua foi circuncidado para mostrar a fi-
delidade de Deus às suas próprias alianças. Tanto judeus quan-
to cristãos podem alegrar-se nesse fato. Fidelidade às alianças
é um atributo essencial da fé bíblica. Visto que Yeshua fez a
aliança original com Abraão, o povo judeu só encontrará 0 ple-
no significado de sua própria identidade e de seu destino quan-
do descobrir a fé em Yeshua. Como Yeshua foi fiel à Aliança
Abraâmica, assim também os cristãos devem demonstrar fideli-
dade de aliança ao povo judeu.

4 Isso significa que 0 cristão precisa ser circuncidado? Não (GI 6.15). Contudo, 0 cristão
precisa ter 0 coração circuncidado (Rm 2.29).
Parte Dois
O ÊXODO

N esta seção, examinaremos as aparições de


T)eus a Moisés e ao p o vo de IsraeCpor ocasião
do ,Êxodo.
Naque Ceperíodo, as aparições do Mensageiro
Divino ocorreram príncípaCmente na fo rm a de
um anjo - o A njo de ]Jehovah. XxpCoraremos
a Cígação entre esse SAnjo e o Messias da N ova
DCíança.
damhém consideraremos como essas aparições
afetam nosso entendim ento dos Dez
M andam entos e da Lei M o ra i em geraC.
C apítulo Q uatpo

O A n jo de Y eho vah

Chegamos agora ao período do Êxodo do Egito. Moisés


teve vários encontros com o Deus-Anjo-Homem que aparecera
aos patriarcas. Moisés o viu pela primeira vez na sarça ardente.
Moisés fora criado no Egito como príncipe, escondendo um
pouco sua identidade étnica e suas origens. Quando completou
40 anos de idade, fugiu para Midiã depois de uma tentativa frus-
trada de ser o salvador do seu povo. Aos 80 anos, teve um en-
contro na sarça ardente, ocasião em que foi chamado por Deus
para voltar ao Egito e libertar seu povo.
Apareceu-lhe 0 Anjo de Yehovah numa chama de fogo, no
meio de uma sarça.
Êxodo 3.2
‫וירא מלאך יהוה אליו גילבת־אש מתוך הסנה‬

Moisés não teve um encontro com uma sarça ardente, mas


com o Anjo de Yehovah que lhe apareceu no meio da chama
da sarça. O leitor do hebraico vai notar que a expressão “lhe
apareceu” é exatamente a mesma usada em todas as aparições
a Abraão.
Nesse período da história das alianças, a aparição desse
Anjo em forma de fogo ou glória é uma nova revelação. Isso
não aconteceu anteriormente com nenhum dos patriarcas na ter-
ra de Canaã.
44 6Ò A.BM A L M O Ç O U C O M A b >RAÂO?

No verso 2, o mensageiro divino é identificado como o Anjo


de Yehovah. Contudo, ¡mediatamente depois, esse mesmo men-
sageiro é chamado simplesmente de Yehovah ou Deus (Elohim).
Vendo Yehovah que ele se voltava para ver, Deus, do meio
da sarça, 0 chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu:
Eis‫־‬me aqui!
Êxodo 3.4
‫ויך־א יהוה כי סר לראות ויקןרא אליו אלהים מתוך‬
:‫ ויאמר משה משה ויאמר העי‬,‫המנה‬
Observe a expressão paralela: “do meio da sarça”. Como
podemos entender isso? Havia duas formas corpóreas no meio
da sarça? Provavelmente não. Deus e 0 Anjo trocaram de lugar
entre os versos 2 e 4? Provavelmente não. O Anjo estava sim-
plesmente parado ali, sem dizer nada e, então, a voz de Deus
veio isoladamente do meio da sarça? Provavelmente não.
E evidente que quem está falando é o Anjo. Uma resposta
aceitável podería ser que o Anjo falou EM NOME de Deus. Isso
é mais próximo da verdade, mas não é exatamente o que está
escrito. O texto diz que Elohim falou do meio da sarça; Deus
falou. A única maneira imparcial de interpretar essa passagem é
que a mesma pessoa que falou com Moisés é chamada de Anjo
de Yehovah no verso 2 e Elohim (Deus) no verso 4,'
Isso ainda nos deixa com duas possibilidades. A primeira é
que 0 Anjo de Yehovah não é divino, mas que lhe foi permitido
ser confundido com Deus apenas por causa de sua missão. A
segunda é que essa pessoa é uma personalidade especial; ele é,
ao mesmo tempo, um mensageiro de Deus e também divino em
si mesmo - divino suficiente para ser chamado tanto de Elohim
quanto de Yehovah.
A primeira possibilidade é parcialmente correta e abran-
ge evidência suficiente para ser aceitável até certo ponto.1

1 Os rabinos tentaram entender esse paradoxo no Seder, ou ceia, da Páscoa, na seção


intitulada "Eu Mesmo e não um anjo".
OA njo oe γ ehovah■ 45

Entretanto, não explica a total intercambialidade entre os nomes


Anjo, Elohim e Yehovah. Tampouco justifica a plenitude de au-
toridade da qual o mensageiro é investido para falar e ordenar
usando a primeira pessoa como 0 próprio Deus.
Lembre que essa aparição na sarça ardente inclui grandio-
sas declarações de divindade, como “Eu sou o que sou” (v.14)
e “Dize-lhes: Yehovah, 0 Deus de vossos pais, me apareceu”
(v-16). Em outras palavras, esse Anjo não apenas fala em nome
de Deus como um mensageiro. Ele age, reage e interage como
o próprio Deus.
Fomos desafiados pela figura que apareceu a Abraão em
Gênesis 18. A figura divina naquele episódio tinha uma forma
corpórea totalmente humana e, ao mesmo tempo, qualidades
totalmente características de Deus-Elohim-Yehovah em tudo
o que disse e fez. Aqui, também, temos a combinação aparen-
temente impossível de uma figura que é claramente um Anjo-
-Mensageiro de Deus, mas, ao mesmo tempo, totalmente Deus-
-Elohim-Yehovah. Em Gênesis 18, a combinação era de Deus e
homem. Aqui em Êxodo 3, a combinação é de Deus e anjo.
Vejamos outra situação em que esse Anjo, conhecido como
Yehovah, aparece a Moisés. Desta vez, olharemos para a tra-
vessia do Mar Vermelho. Aqui, em vez de uma sarça ardente,
temos uma coluna de fogo e fumaça. Novamente, o Anjo-Yeho-
vah aparece numa forma de glória e fogo que não fora revelada
aos patriarcas em Canaã.
E Yehovah ia adiante deles, durante 0 dia, numa coluna de
nuvem...
Êxodo 13.21
‫יעמוד ענן‬1‫ויהוה הילך ל?ניקם יומם‬

Então, 0 Anjo de Deus, que ia adiante do exército [acampa-


mentoj de Israel, se retirou e passou para trás deles; também
a coluna de nuvem se retirou de diante deles, e se pôs atrás
deles.
Êxodo 14.19
46 6ò a e m a lm o ç o u com A braão?

‫ ני מסנה יקזראל וילך‬5‫ויסע מלאך האליהים ההלך ל‬


:‫מאסריסם ויסע עמוד הענן מ?ניסם ויעמיד מאסריסם‬

Yehovah, na coluna de fogo e de nuvem, viu o acampamento


dos egipcios.
Exodo 14.24
‫יעמוד אש וענן‬1‫רלקזקף להרה אל־מסנה מצרים‬

Esses três versos da mesma passagem descrevem uma pes-


soa que está se movimentando a fim de guiar e proteger o povo
de Israel. Essa pessoa está sempre por perto, viajando no interior
da coluna de fogo e nuvem.
No verso 13.21, ele é chamado Yehovah.
No verso 14.19, ele é chamado Anjo de Deus.
No verso 14.24, ele é chamado Yehovah.
Poderiamos tentar interpretar esse fenômeno de várias ma-
neiras para fazer malabarismos com a nuvem, 0 fogo, 0 Anjo,
Yehovah, Deus, e o Anjo de Deus - tudo numa tentativa de
evitar o significado óbvio do contexto da passagem: há um
personagem especial que tirou os filhos de Israel do Egito. Ele
agia de dentro de uma coluna de fogo e nuvem. Ele era, ao mes-
mo tempo, Anjo e Deus.
A razão por que as passagens de Gênesis 0 chamam de “ho-
mem” e as de Êxodo o chamam de “anjo” é que, em Gênesis, ele
é visto abertamente em forma humana. Nas passagens de Êxo-
do, ele não é visto abertamente, porque está ocultado na nuvem.
Para os patriarcas, ele apareceu sem fogo ou glória, ao passo
que, nos textos de Êxodo, assumiu uma forma que tinha tanto
fogo quanto glória.
Há um padrão geral nas Escrituras sobre essas aparições:
dentro da terra de Israel, esse personagem normalmente aparece
como homem numa forma não glorificada, enquanto, para as
outras nações, ele aparece como anjo em forma glorificada. Va-
mos tratar dessa diferença mais adiante na Parte Cinco.
O A njo t>6 Y et-tovAH- 47

A questão é que ele não pode ser chamado de homem nas


passagens de Êxodo por não ter sido visto em forma humana. As
pessoas não puderam vê-lo - não porque isso seria impossível,
mas porque ele estava imbuído de elevado grau de poder para
fazer 0 trabalho sobrenatural necessário para libertar, proteger e
prover. Se tivessem olhado diretamente para ele, esse nível de
poder lhes teria causado danos.2
Tanto no hebraico bíblico quanto no contemporâneo, há
uma forma gramatical chamada “s’michuf ’ — ‫סמיכות‬. A palavra
“s’michut” significa aproximar duas coisas de modo que urna
fique em contato com a outra. Essa forma gramatical consiste na
união de duas palavras. S ’michut une dois substantivos de forma
que um defina o outro e ambos se tomem uma única unidade.
Para dar um exemplo em portugués, podemos encontrar
algo semelhante em nomes compostos como: copa de futebol,
cão de guarda e sala de jantar. Em portugués, como em hebrai-
co, o segundo substantivo descreve o primeiro. Copa de futebol
não é uma competição qualquer; é um torneio de um esporte
específico. Chamamos esse tipo de composição de substantivo
composto por justaposição.
Nos substantivos compostos em hebraico, os significa-
dos dos dois nomes se fundem. Tomam-se, na prática, uma
palavra, às vezes aglutinando os dois termos originais ou
utilizando os dois em justaposição como se houvesse um hífen

2 Nota sobre 0 texto original hebraico: a maioria das traduções da Bíblia é excelente. Os
vislumbres que podemos receber das línguas originais em geral são pequenos detalhes
que ajudam a dar alguma perspectiva, mas que não mudam 0 entendimento geral do
texto. Em Israel, usamos 0 texto original doTanakh (VT) e uma versão hebraica recons-
truída da Nova Aliança (NT). Fazemos isso porque nossos ensinamentos são voltados
para israelitas nativos.
Nem sempre é fácil trabalhar com 0 texto bíblico. Os tradutores prestaram um imenso
serviço ao tornar 0 texto compreensível. Mesmo uma pessoa com um sólido conhecimen-
to de hebraico bíblico às vezes precisa examinar as traduções a fim de poder lidar com
certas palavras e frases. (Minha versão favorita em inglês é a Nova King James com
referências cruzadas no centro.)
Neste momento, queremos apresentar e analisar um detalhe da língua hebraica que de
fato é muito relevante. Por favor, seja paciente, já que se trata de um assunto bastante
técnico.
48 62 j ã LM A L M O Ç O U . C O M A B R A Ã O ?

entre eles (como editor-chefe ou porta-retrato em português).


A fusão dos dois nomes também é destacada em hebraico
porque as vogais do primeiro nome são contraídas, de modo
que as duas palavras são pronunciadas em conjunto num único
padrão rítmico. E 0 que acontece nas palavras compostas por
aglutinação em português; como, por exemplo, planalto (plano
+ alto, suprimiu a vogal “o” em plano) ou aguardente (água +
ardente, suprimiu a última vogal “a” em água).
Nomes justapostos podem ser usados em sentido genérico
ou para identificar um nome próprio. Copa de futebol pode ser
qualquer tipo de competição com futebol, ou pode se referir a
uma copa específica como Copa do Brasil ou Copa Sul-Ame-
ricana. Para fazer com que nomes justapostos em hebraico se
tomem um nome específico no lugar de um nome comum, é
preciso inserir a sílaba “ha” (que corresponde ao artigo defi-
nido: o, a, os, as) antes do segundo nome ou, então, fazer do
segundo nome um nome próprio. E exatamente como se faz em
português: Copa do Brasil ou Copa do Mundo.
Por que esse detalhe técnico é tão importante? Porque,
na expressão “o anjo do Senhor”, a forma “s’michut” sempre
é usada. Em hebraico, não dizemos “o anjo do Senhor”, mas
“anjo-Yehovah” — ‫ מלאך יהוה‬. As duas palavras são unidas. A
preposição “do” NÃO existe no original. Além disso, no nome
anjo-Yehovah, 0 segundo nome, Yehovah, é um nome próprio.
A partir dessa constmção gramatical, chegamos a duas con-
clusões:3
1. as palavras anjo e Yehovah se tomam uma unidade; e
2. Anjo Yehovah é um nome próprio, não genérico.
Vamos aprofundar um pouco mais estes dois pontos.

3Uma análise semelhante da forma s'michut do nome "anjo-Yehovah" foi publicada


no ano longínquo de 1881 por Alexander McCaul em seu livro Angel of the Covenant
("Anjo da Aliança‫) ״‬/ reimpresso em Jerusalém no ano de 2004 por Keren Ahavah.
O A n jo γ 5 h ‫־‬o v a h 49

1. É impossível separar o significado da palavra A n jo do


significado da palavra Yehovah e vice-versa. Elas são
uma única palavra. O Anjo é Yehovah, e Yehovah é o
Anjo.
2. Essa categoria não pode ser aplicada a qualquer dos
outros anjos enviados por Yehovah; antes, é o nome
próprio de um Anjo específico que se chama Yehovah.
A palavra A n jo se funde com o nome próprio Yehovah. Ela
pode ser traduzida melhor por Anjo-YHVH, Anjo-Yahweh, ou
Anjo-Yehovah. Todas essas opções seriam aceitáveis. Deste
ponto em diante em nosso estudo, vamos usar o nome A n jo -
-Y eh o va h 4.
Para simplificar o assunto: a forma gramatical de nomes
justapostos faz com que a expressão “Anjo do Senhor” seja: 1)
própria e 2) aglutinada.
1) Própria - Embora alguém possa argumentar que Anjo-
-Yehovah seja qualquer um entre milhares de anjos en-
viados por Deus, a forma gramatical indica que se trata
de um nome próprio. E O Anjo-Yehovah, não QUAL-
QUER anjo enviado por Yehovah. Em toda a Bíblia
Hebraica, não me lembro de um único exemplo em que
0 termo Anjo-Yehovah esteja na forma “s’michut”, e
que o contexto exija que seja entendido como um anjo
comum ou como um grupo de anjos.
2) Aglutinada - Os dois nomes, A n jo e Y ehovah, modifi-
cam um ao outro. No exemplo que vimos, não estamos
falando de uma co p a e um m u n d o , mas de uma C o p a
d o M u n d o . E um tipo de c o p a específico - do mundo.
Esse não é apenas um anjo, mas um anjo específico - o
A n jo -Y e h o v a h . Os dois termos não podem ser separa-
dos um do outro. A natureza desse anjo é determina-
da pelo nome Yehovah. Anjo e Yehovah formam uma

4Novamente, para uma discussão sobre 0 uso de Yahweh versus Yehovah,


consulte 0 Apêndice 3.
50 6Zk 6 m a lm o ç o u , com A braão?

nova entidade pela aglutinação dos dois substantivos


separados.
Essa estrutura gramatical acomoda-se perfeitamente à des-
crição da figura que apareceu aos nossos profetas e patriarcas.
A “s’michut” é tão peculiar, tão apropriada e perfeita, que não
consigo afastar a impressão de que essa forma gramatical foi
soberanamente planejada e predestinada por Deus para a finali-
dade primária de descrever essa Pessoa na Bíblia Hebraica.
É uma forma gramatical singular para definir um indivíduo
único. Não há outro como ele. Era preciso uma construção gra-
matical especial para definir o nome dele. Nenhum homem se
encaixa nessa categoria; nenhum anjo se encaixa nessa catego-
ria; nem mesmo Deus, nosso Pai celestial, se encaixa nela.
O plano de salvação e 0 destino da raça humana exigem que
o Messias seja uma combinação de Deus e homem. A “s’mi-
chut” tem uma forma dupla porque o Anjo-Yehovah tem uma
dupla natureza. A forma dupla corresponde perfeitamente à du-
pia natureza dele.
A forma s ’michut é uma estrutura gramatical hebraica. Por-
tanto, o que estamos dizendo acerca do Anjo-Yehovah não se
aplica aos textos do Novo Testamento que foram escritos em
grego. Visto que Anjo-Yehovah é um termo hebraico específico,
não é possível representá-lo no texto grego.
Além disso, houve apenas um Anjo-Yehovah, que foi
Yeshua. Uma vez que ele nasceu na terra, ninguém jamais pode
ocupar esse papel. A categoria de Anjo-Yehovah não se encaixa
em nenhuma aparição na Nova Aliança. Do ponto de vista teo-
lógico, essa categoria não existe mais. Todos os anjos na Nova
Aliança são anjos de Deus; eles não são divinos, mas são envia-
dos para missões específicas.
O Anjo-Yehovah nasceu num corpo humano e nele perma-
necerá para sempre. Ele não pode mais voltar à condição ante-
rior ao seu nascimento. Aquele que era o Anjo-Yehovah mis-
terioso e sem nome da antiga nação de Israel tomou-se agora
Yeshua, o Messias, Filho de Deus e Filho de Davi (Rm 1.3, 4),
para que todos o conheçam abertamente pela fé.
C apítulo C in c o

Q u e m E s c r e v e u o s D ez
M andam entos?

Foi o Anjo-Yehovah que apareceu a Moisés na sarça arden-


te. Foi o Anjo-Yehovah que abriu o Mar Vermelho e tirou o povo
de Israel do Egito. Foi também o Anjo-Yehovah que se encon-
trou com Moisés no Monte Sinai.
Começamos nosso estudo perguntando se um ser humano
pode ver Deus. Há muitas advertências bíblicas sobre a impos-
sibilidade de ver Deus em sua forma glorificada. No entanto,
temos, no livro de Êxodo, outro exemplo em que seres humanos
de fato viram o Deus de Israel. Nesse caso, havia setenta e qua-
tro líderes de Israel (74!) que subiram o Monte Sinai e viram
Deus.
E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos
anciãos de Israel. E viram 0 Deus de Israel, sob cujos pés
havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se
parecia com 0 céu na sua claridade. Ele não estendeu a mão
sobre os escolhidos dos filhos de Israel; porém eles viram a
Deus, e comeram, e beberam.
Êxodo 24.9-11
‫ויעל משה ואסרן נדב ואביהוא ושקעים מזקני‬
‫ וין־או את אלהי ישראל ןתחת רגליו קמעשה‬:‫לקזר־אל‬
‫ ואל־אצילי קני‬:‫לקנת הספיר וקעעם השמןם לטהר‬
‫ ווסזו את־האליהים ויאקלו‬1η ‫ישראל ליא שלח‬
:‫וישתו‬
52 Q j U L M A L M O Ç O U . C-O M A b .R A ÁO?

Esse evento foi sem precedentes. Os anciãos viram a Deus


numa forma corpórea e humana, mas também em poder glorifi-
cado. Tal proximidade ao poder divino era perigosa. Está claro
que eles estavam cientes do perigo porque observaram de modo
especial que Deus não “estendeu a mão sobre eles”.
Nesta passagem, o Anjo-Yehovah aparece outra vez em for-
ma humana. Suas pernas e seus pés são mencionados (em he-
braico, a palavra para pés e pernas é a mesma). O texto declara
duas vezes de maneira inequívoca que eles viram a Deus. O
fato de mencionar as pernas, não a face, indica que não viram
seu rosto. Pelo contexto, é provável que a coluna de nuvem que
normalmente escondia todo o seu corpo estivesse escondendo,
neste caso, apenas a parte superior ou a região do rosto.
Quando 0 Anjo-Yehovah não está em sua forma glorifica-
da, seu rosto pode ser visto. Mas quando aparece com o poder
glorioso “ligado”, sua face é a parte mais perigosa. O poder de
sua glória irradia de sua face e de seus olhos. O que nenhum ser
humano pode ver é a face glorificada de Deus (Ex 33.20). Da
face de Deus, vêm 0 brilho e a irradiação da bênção sacerdotal
(Nm 6.25). Depois de passar quarenta dias em sua presença, o
rosto de Moisés também começou a brilhar (Ex 34.29).
Há um paralelo na Nova Aliança em que o rosto de Yeshua
brilha como 0 sol (Ap 1.16), e seus olhos são como chama de
fogo1(Ap 1.14; 2.18; 19.12).
No Monte Sinai, 0 Anjo-Yehovah instruiu os setenta e qua-
tro líderes a comer e beber; imagino que, naquele momento, eles
não estavam com muita vontade de fazer isso. Ele pediu que
comessem e bebessem por duas razões. Primeiro, como no caso
de Abraão, Deus estava oferecendo-lhes uma refeição para selar
uma aliança de amizade. Em meio àquela esplendorosa aparição
no Monte Sinai, o Anjo-Yehovah queria que eles soubessem que
seu principal objetivo não era assustá-los, mas convidá-los à ín-
tima comunhão com ele. Ele estava estabelecendo uma aliança,
não apenas mandamentos; ele queria lealdade, não apenas leis.

1 Falaremos mais sobre isso na Parte Cinco.


62h 6 m escR E vew . os> V>b z , M and am entos? 53

A segunda razão era assegurar-lhes que a experiência era


real. Como no caso de Jacó em Peniel, Deus não queria que
pensassem que aquela visão era imaterial ou uma alucinação
coletiva. Ele estava ali. Ele de fato estava presente ali. Eles 0 vi-
ram, estiveram fisicamente na presença dele e escaparam ilesos.
Essa passagem em Êxodo 24 é semelhante àquela da visita
a Abraão em Gênesis 18. Ela estabelece o fato de que o Deus
de Israel possui uma forma corpórea semelhante à de um ser
humano. O Deus de Êxodo 24 é o mesmo Deus de Gênesis 18.
O Deus de Israel, que apareceu a Abraão numa forma amigá-
vel e não glorificada, apareceu a Moisés numa forma aterradora
que fez 0 monte tremer. É a mesma Pessoa, quer apareça em
íntima comunhão como a que existe entre seres humanos, quer
se manifeste em gloriosas demonstrações de majestade. Essa
Pessoa é 0 Deus de Israel. Ele é 0 Deus que nossos patriarcas e
profetas conheciam e em quem acreditavam. Eles entenderam
que Deus podia aparecer em forma humana. Ele podia vir com
ou sem poder e fogo. Foi ele que esteve no Monte Sinai. Foi ele
quem fez aliança com nossos pais e tirou nosso povo do Egito.
Se ele esteve ali no Monte Sinai, então deve ter sido ele quem
escreveu os Dez Mandamentos - com o “dedo de Deus” (Ex
31.18; Dt 9.10).
Moisés sabia das aparições do Deus-Homem a Abraão, Isa-
que e Jacó. Afinal, ele mesmo escrevera sobre suas experiências
no livro de Gênesis. Ele deve ter suspeitado de que aquele que
os conduzira para fora do Egito era o mesmo que aparecera aos
patriarcas. Entretanto, até aquele momento, descrito no capítulo
24, ele não o tinha visto.
Moisés passou quarenta dias e quarenta noites no Monte
Sinai. O Anjo-Yehovah escreveu os Dez Mandamentos e expli-
cou-lhe todas as outras leis. Embora Moisés ainda não tivesse
experimentado intimidade e glória com seu Criador, ele o dese-
java. Moisés desceu do Sinai com a Torá e descobriu que o povo
havia-se desenfreado em camalidade e idolatria. Ele ficou irrita-
do e frustrado. Quebrou as duas tábuas dosΛ Dez Mandamentos
que 0 Anjo-Yehovah acabara de escrever (Ex 32.19)!
54 Gòubm alm o ç o u , com A braão?

Uma guerra civil quase irrompeu entre os israelitas. Os levi-


tas mataram 3 mil pecadores (Ex 32.28). Depois de restabelecer
a ordem, Moisés voltou ao monte para um segundo jejum de
quarenta dias (!). A atitude dele nesse momento foi: “Olha Deus,
eu não aguento mais liderar; não aguento mais leis. Até mesmo
ver todos os teus milagres não é o bastante. Eu quero a ti. Quero
ver o teu rosto. Quero te conhecer. Quero tua intimidade e tua
glória. Se não vais me dar nem uma nem outra, então encontre
outra pessoa”.
Moisés passou mais tempo com o Anjo-Yehovah do que
qualquer outro ser humano. Eles conversaram por horas. O
Anjo não apenas lhe deu todas as leis, mas também lhe expli-
cou alguns detalhes sobre a história da criação que mais adiante
seriam usados para escrever o livro de Gênesis. Mas, em todas
as conversas até esse momento, o Anjo-Yehovah estava coberto
por uma nuvem. A Bíblia diz que Moisés falou com Deus face
a face, mas isso não significa que ele pôde ver sua face direta-
mente. E óbvio que é por isso que Moisés ainda pediu para ver
sua face.
Nos encontros anteriores, como na sarça ardente e no Mar
Vermelho, o Anjo-Yehovah sempre estivera coberto por fogo ou
por uma nuvem. Agora Moisés queria mais. Ele queria ver a
face de Yehovah, não apenas seu fogo.
Falava Yehovah a Moisés face a face2, como qualquer fala a
seu amigo...
Êxodo 33.11
‫ כאשר ידבר איש‬,‫ר לדעה אל־מ״שה פנים אל־פנים‬3‫ ד‬1
‫אל־רעהו‬

2 Aqui, muitos cometem o erro de pensar que a locução "face a face" significa que Moi-
sés viu o rosto de Deus. 0 que está sendo descrito aqui é a comunicação verbal entre
eles. Eles "falavam " face a face. 0 texto não está se referindo a uma capacidade de ver
diretamente. Isso pode ser comprovado comparando a frase "falava face a face" em
Deuteronómio 5.4 que se refere a todo o povo no Monte Sinai, sendo que ninguém viu a
face de Deus diretamente. Al¡, a expressão também indica que puderam ouvir a voz de
Deus diretamente, mas não viram sua face. Nesse ponto, Moisés havia falado direta e
abertamente com Deus na nuvem, mas ainda não vira sua face.
6 2 k E M E S C R E V E M . 0 5 t> B 2 L M A N D A M E N T O S ? 55

Um homem poderia ver a face de Deus somente se ele lhe


aparecesse sem a sua glória. Ele poderia até ver Deus em seu
poder e glória desde que sua face estivesse coberta pela nuvem.
Moisés não ficou satisfeito com nenhuma dessas duas opções
parciais, e pediu para ver a face de Deus diretamente, com a
manifestação do poder de glória também. “Remove a nuvem.
‘Liga’ o poder no máximo. Deixa-me ver teu rosto”. Moisés foi
muito ousado!
Agora, pois, se achei graça aos teus olhos, rogo-te que me
faças saber neste momento 0 teu caminho, para que eu te
conheça...
Êxodo 33.13
‫אם־נא מצאתי חן ?עיניך הון־עני נא את־־דךכך ןאד־עך‬

Em linguagem espiritual, Moisés estava pedindo para ver


a face glorificada de Deus. Isso é evidente porque, no verso se-
guinte, o Anjo-Yehovah responde:
Respondeu-lhe: A minha presença [face] irá contigo [adiante
de ti], e eu te darei descanso.
Êxodo 33.14
.‫ והנחתי לך‬,‫ פני ילכו‬:‫וייאמר‬

Moisés se recusou a aceitar essa resposta evasiva. Então,


insistiu mais.
Se a tua presença3 [face] não vai comigo, não nos faças subir
deste lugar... Rogo-te que me mostres a tua glória.
Êxodo 33.15,18
‫ הךאני נא‬. . . :‫ה‬-‫אם־אין פניך הילכיס אל־תעלנו מן‬
:‫את־ניבןך‬

3 Infelizmente, quase todas as versões traduzem a palavra "face" aqui de forma incor-
reta por "presença" e perdem 0 que Moisés estava dizendo. 0 original diz claramente
"face". Moisés queria ver a face de Deus em sua forma glorificada.
56 6 2 H E M A L M O Ç O U C O M A b .1A.A 4 0 ?

Então o Anjo-Yehovah esclareceu a questão: “Você pode


falar comigo como a um amigo e ver a minha face quando mi-
nha glória não estiver manifesta. Ou você pode falar comigo de
perto (como se estivessem face a face) quando minha glória esti-
ver ‘ligada’. Porém, nesse caso, minha face terá de ficar coberta
pela nuvem. Por quê? Porque ninguém pode ver minha face em
toda a sua glória e suportar tamanho poder. Isso o mataria”.
Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá
a minha face e viverá.
Êxodo 33.20
:‫לא תוכל לראית את־פני כי לא־ין־אני האץ־ם וחי‬

Então 0 Anjo-Yehovah ofereceu uma solução a Moisés. Ver


a face dele diretamente com todo o seu poder simplesmente não
era possível. Assim, ele o colocou na fenda de uma grande rocha
e se virou para que Moisés pudesse ver ao menos sua forma por
detrás.
Disse mais Yehovah: Eis aqui está um lugar junto a mim; e
tu estarás sobre a penha. Quando passar a minha glória, eu
te porei numa fenda da penha e com a mão te cobrirei, até
que eu tenha passado. Depois, em tirando eu a mão, tu me
verás pelas costas; mas a minha face não se verá.
Êxodo 33.21-23
‫ ןדדה בעבר ןב'ךי‬:‫הנה מקום אתי ונצכת על־הצור‬
:‫ושמתיך כנקרת הצור ושכותי כפי עליך עד־עכרי‬
:‫והסרתי את־כפי!;ראית את־אחירי ופני לא יראו‬

Todos os profetas e patriarcas, por mais espirituais que fos-


sem, só podiam ver o Anjo-Yehovah de duas maneiras. Uma era
vê-lo na forma humana sem seu poder manifesto, como no caso
de Abraão nos carvalhais de Manre. A outra era ver 0 Anjo glo-
rificado. Neste caso, ele tinha de estar coberto por uma nuvem
ou permanecer a uma grande distância.
A opção mais excelente de vê-lo diretamente e em todo 0
seu poder ainda existe. Essa opção foi alcançada por apenas dois
62h e m esc r ev eu a s I> ε ζ . M a n d a m e n t o s ? 57

homens. Um deles foi Estêvão, 0 primeiro mártir (At 6-7). No


momento de sua morte, ele viu os céus abertos e Yeshua de pé, à
direita da glória (At 7.55). Neste caso, Estevão estava prestes a
deixar seu corpo físico de qualquer modo. Então, ver Yeshua em
plenitude de glória não lhe causou muito dano.
A segunda pessoa que alcançou essa revelação foi João na
ilha de Patmos. No último livro da Bíblia, a revelação total final-
mente chegou. João obteve 0 que tanto Abraão quanto Moisés
ansiaram por ver. Ele viu Yeshua em plena glória, face a face.
João já era nascido de novo. Ele estava cheio do Espírito Santo.
Ele fora o melhor amigo de Yeshua sobre a terra. Assim mesmo,
ele quase caiu morto com a experiência.
Ele viu Yeshua com seu rosto brilhando como o sol, os olhos
como chamas de fogo, a voz como muitos rios correndo (Ap
1.12-16). João viu o rosto glorificado do Anjo-Yehovah e quase
morreu na hora. Aqui está 0 que João relatou naquele momento:
Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre
mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou 0 primeiro
e 0 último.
Apocalipse 1.17
Veremos essa revelação de forma mais detalhada na Parte
Cinco. Aqui queremos apenas fazer a ligação entre o pedido de
Moisés e a revelação de João. Em Apocalipse 1, João viu o que
Moisés havia pedido para ver em Êxodo 33. Moisés viu o mes-
mo Deus-Homem glorificado da visão de João; só que teve de
vê-lo pelas costas. O tempo para que Yeshua fosse revelado em
toda a sua glória ainda não se cumprira.
Os outros discípulos de Yeshua também não chegaram a
esse nível de revelação. No Monte da Transfiguração, Yeshua
tentou se revelar, mas eles adormeceram. Eles não estavam
preparados para lidar com tamanha glória. Deus teve de co-
bri-los rapidamente com a nuvem de modo que não fossem
feridos pelo poder ali presente. Na ocasião, os discípulos
ficaram apavorados e quase morreram (Mt 17.6).
58 6Z u B Μ A L M O Ç -ΟΙΛ C O M A B R A Ã O ?

A experiência no Monte da Transfiguração ocorreu aproxi-


madamente 1.400 anos depois da experiência do Monte Sinai.
Nessa ocasião, Moisés já havia morrido e ido para o céu. Lá,
Moisés podia ver Yeshua, o Anjo-Yehovah, sempre que quises-
se. Foi registrado que Moisés apareceu no Monte da Transfigu-
ração com Yeshua e os discípulos. Portanto, não há mais neces-
sidade de preocupar-se com Moisés. No fim, ele recebeu tudo o
que desejava e muito mais.
Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui se encon-
tram, que de maneira nenhuma passarão pela morte até que
vejam vir o Filho do Homem no seu reino.
Seis dias depois, tomou Yeshua consigo a Pedro e aos irmãos
Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E
foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como
o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis
que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Então,
disse Pedro a Yeshua: Senhor, bom é estarmos aqui; se que-
res, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés,
outra para Elias.
Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu;
e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho
amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. Ouvindo-a os dis-
cípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. Apro-
ximando-se deles, tocou-lhes Yeshua, dizendo: Erguei-vos
e não temais! Então, eles, levantando os olhos, a ninguém
viram, senão Yeshua.
E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Yeshua: A ninguém
conteis a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre
os mortos.
Mateus 16.28-17.9

Pedro, Tiago e João quase conseguiram ver 0 que todos os


profetas e patriarcas ansiaram por alcançar. Entretanto, não es-
tavam prontos. Em todo o restante do relato dos evangelhos,
Yeshua aparece em forma não glorificada, um pouco semelhante
à visita dos três varões a Abraão. Ele fez isso de propósito. Ele
deixou sua glória para poder aproximar-se da humanidade.
621αθμ e s c r e v e u o s t>ez, M a n &a m b n t o s ? 59

Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como


usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de
homens; e, reconhecido em figura humana...
Filipenses 2.6,7
Yeshua podería ter vindo à terra como fizera anteriormente
no Monte Sinai, cheio de glória e poder. Se tivesse feito assim,
todos teriam fugido dele, assim como fizeram naquele tempo
(Ex 20.18-21). O Anjo-Yehovah “se despiu” de sua glória e po-
der e veio para aproximar-se da humanidade. Ele não apenas se
aproximou, mas também morreu como um sacrifício para ofere-
cer-nos perdão e reconciliação.
Observe o paralelo entre 0 pedido de Moisés no Monte Si-
nai e o desejo de Yeshua de revelar sua glória aos discípulos
no Monte da Transfiguração. Moisés esteve presente em ambas
as ocasiões! A nuvem e a glória também estiveram. Todos os
elementos estavam em seus devidos lugares. Contudo, os disci-
pulos não estavam prontos. Deus ainda deseja mostrar-nos sua
glória e transformar-nos à sua semelhança. No entanto, nós tam-
bém ainda não estamos prontos.
Yeshua também apareceu a Saulo (Paulo) antes de ele se
tomar um discípulo. Saulo ficou cego na hora. Não é que o po-
der queimou os seus olhos; na verdade, foi bem ao contrário.
Além de queimar seus olhos, a glória também o teria matado;
mas Yeshua lhe fez um grande favor e criou 0 primeiro par de
lentes de contato. Só que eram lentes opacas, que caíram de seus
olhos três dias depois quando Ananias orou por ele.
Subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo
por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que
me persegues?
Ele perguntou: Quem és tu, Senhor?
E a resposta foi: Eu sou Yeshua, a quem tu persegues.
Atos 9.3-5
60 62k 6 m a lm o ço u , com A braão?

Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos,


ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém. Então, se
levantou Saulo da terra, abrindo os olhos, nada podia ver.
Atos 9.7,8

Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as


mãos, dizendo: Saulo, meu irmão, o Senhor me enviou, a sa-
ber, o próprio Yeshua que te apareceu no caminho por onde
vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito
Santo. Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas
escamas, e tornou a ver.
Atos 9.17,18

Yeshua escureceu a córnea de Saulo para proteger seus


olhos. Quando Ananias orou, a camada escurecida caiu, e uma
nova lente foi criada. Yeshua apareceu a Saulo numa forma glo-
rificada, cheia de luz, como fez com João. Mas Saulo não esta-
va pronto. Yeshua o protegeu para que ele não morresse.
De modo semelhante, quando Moisés viu a glória no Monte
Sinai, Yeshua o cobriu com a mão para que não sofresse dano.
No livro de Êxodo, Yeshua veio numa missão como Anjo-Yeho-
vah. Essa missão requeria que continuasse irradiando seu poder
e sua glória em todo o tempo. Atuando naquele poder, Yeshua
libertou o povo do Egito e entregou-lhe a Torá. No entanto, por
causa do mesmo poder, foi necessário manter as pessoas a uma
grande distância (Êx 19.12).
Quando Yeshua nasceu neste mundo, ele veio com uma
missão diferente. O evangelho exigia exatamente o oposto. Ele
veio sem seu poder manifesto a fim de atrair as pessoas para
perto de si. Quando voltar da próxima vez, ele estará munido de
todo o seu poder e glória novamente, muito mais do que mani-
festou no Monte Sinai ou nas praias da Galileia.
C apítulo S eis

Y e s h u a e a L ei M o r a l

Se o Anjo-Yehovah escreveu os Dez Mandamentos, e se


esse Anjo-Yehovah é Yeshua, então quem escreveu os Dez Man-
damentos foi ele. Esse fato tem implicações muito abrangentes
tanto para 0 cristianismo quanto para o judaísmo (Êx 19.18; Mt
27.51). Vamos analisar os dois lados.
Existe um lindo equilíbrio nas Escrituras entre lei e graça.
0 livro de orações judaicas diz que o amor de Deus e o temor de
Deus são idênticos: são a mesma coisa.1
Na Nova Aliança, vemos um exemplo do equilíbrio de
Yeshua ao lidar com a mulher apanhada em adultério. Ele per-
cebe pelas circunstâncias que os líderes religiosos estavam ali
para condená-la injustamente. Afinal, haviam levado apenas a
mulher, não 0 homem. Além disso, ela estava visivelmente arre-
pendida do que fizera.
Yeshua repreende os acusadores, dizendo-lhes que quem
estivesse sem pecado deveria atirar a primeira pedra. Quando
foram embora, ele se voltou para a mulher e disse:
Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.
João 8.11
Com sua maestria habitual, Yeshua resume o equilíbrio bí-
blico de graça e justiça em poucas palavras: “Não condene. Não
1 Veja "Unifica os nossos corações em amor e tem or" - ‫ ויחד לבבנו לאהבה וליראה‬- (Ora-
ção Matinal, "Amor Eterno" - ‫)אהבת עולם‬..
62 Gò a b m a lm o ç o u com A braão?

peque”. Se adotarmos o evangelho do perdão, removendo os pa-


drões morais absolutos, nossa posição será: “Não condenamos
você, peque 0 quanto quiser”. Se adotarmos os padrões morais
sem o perdão, ficaremos apenas com: “Você pecou; está conde-
nado”.
Perdão sem lei moral leva ao humanismo e ao crime. Lei
moral sem perdão leva à religiosidade e à condenação. O cris-
tianismo que não vê Yeshua como o Legislador está sujeito ao
relativismo humanista, tomando-se praticamente uma justifica-
tiva pela decadência moral no Ocidente. Judaísmo sem a graça
de Yeshua como Perdoador está sujeito ao extremismo legalista
e pode tomar-se uma versão judaica da Sharia - a lei islâmica.
Na história da mulher adúltera, Jesus se inclina e escreve no
chão com o dedo. E difícil não fazer uma associação imediata
desse gesto (Jo 8.8) com oΛ ato de escrever com 0 dedo os Dez
Mandamentos nas tábuas (Ex 31.18). O mesmo dedo que escre-
veu “Não adulterarás” estava escrevendo como aplicar essa lei
com graça e justiça.2
Talvez, Yeshua
/V
tenha escrito na terra o mandamento contra
0 adultério (Ex 20.14). Ou, quem sabe, o verso que diz que tanto
o homem quanto a mulher deveríam ser igualmente punidos (Lv
20 . 10), o que havia sido violado naquele caso. Talvez, ele tenha
escrito os versos que afirmam que, antes de a testemunha atirar
a primeira pedra (Dt 13.10), o caso deveria ser amplamente in-
vestigado com justiça (Dt 13.15).
A menção que João fez de Yeshua escrevendo com 0 dedo
é uma referência à sua autoria dos Dez Mandamentos. Embora
nesse caso Yeshua tenha dado graça àquela mulher, ele foi “mais
severo” em outro sentido quando tratou do assunto no Sermão
da Montanha. Na ocasião, ele disse que o adultério não era ape-
nas uma questão física, mas sim de concupiscência dos olhos, e
que podería ser cometido até mesmo em pensamento (Mt 5.28),

2 Compare também com 0 dedo divino que escreveu 0 julgamento da Babilônia na pa-
rede (Dn 5.5).
ye sH u tA ε A L ei M oral 63

Todo o Sermão da Montanha deve ser visto como a apli-


cação que Yeshua fez dos Dez Mandamentos. Aquele que es-
creveu a Lei no Monte Sinai está dando sua interpretação de-
finitiva da Lei no Monte das Bem-aventuranças. O Sermão da
Montanha faz muito mais sentido quando vemos que aquele que
está interpretando os mandamentos possui a mesma autorida-
de de quem os escreveu. Por exemplo, posso fazer alterações
editoriais no texto deste livro porque sou o autor dele. O Poder
Legislativo que promulga uma lei tem autoridade, também, para
fazer emendas. Yeshua tinha autoridade porque ele mesmo era
o autor. O que ele escreveu no Monte Sinai foi interpretado por
ele mesmo no Sermão da Montanha.
Yeshua também ensinou sobre assassinato. Ele igualou o
assassinato à maledicência e ao ódio. Ele fez com que questões
como calúnia (destruir a reputação de alguém) e abusos emo-
cionais passassem a fazer parte da Lei (Mt 5.22). Ele também
determinou que os motivos do coração fossem fatores-chave na
verificação da culpa. Motivos do coração já haviam sido intro-
duzidos em relação ao assassinato nas leis sobre o vingador do
sangue (Nm 35.19-21). O que Yeshua ensinou era perfeitamente
coerente com o que veio antes. Fazia parte do plano de Deus
para desenvolver nas pessoas os conceitos de graça e justiça.
Um pai ou uma mãe pode dar regras ao filho numa idade
em que ele não seja capaz de entender as razões de terem sido
feitas. À medida que a criança crescer, porém, eles explicarão ao
filho 0 propósito e as razões por trás das regras. Da mesma for-
ma, Yeshua deu a Lei no Monte Sinai e, mais tarde, explicou o
propósito central por trás dela no Monte das Bem-aventuranças.
Yeshua também falou sobre o Shabat (sábado). No judaís-
mo, temos criado montanhas de regras (halachá) sobre 0 que
fazer e 0 que não fazer. Yeshua entendia que esse compêndio
de leis rituais que foram acrescentadas à lei original diminuía a
capacidade de observar o Shabat conforme havia sido planejado
originalmente. Ele resumiu sua abordagem das leis sabáticas em
três declarações simples:3

3 Para uma discussão mais ampla, veja 0 Apêndice 5: "A Guarda do Shabat".
64 6Ζ1Λ6Μ A L M O Ç O U . C O M A ‫&־‬RAÂO?

1. o Shabat foi feito para 0 homem — Marcos 2.27;


2. 0 Filho do Homem é senhor do Shabat —
Marcos 2.28;
3. é lícito fazer bem no Shabat — Marcos 3.4.
Seu ensino sobre esse assunto foi miraculoso e revolucio-
nário em sua simplicidade e pureza. Além disso, era muito mais
que um mero comentário acerca do Shabat. No mundo judaico,
há uma posição chamada “Posek Ha Dor” - ‫ פוסק הדור‬, que per-
tence ao rabino-chefe e que lhe dá direito de julgar e determinar
0 que se toma lei em sua geração. Yeshua estava falando como
um “Posek Ha Dor”. Ele não estava apenas sugerindo, mas es-
tabelecendo a Lei. Ele não estava fazendo comentários sobre os
mandamentos; estava decretando a Lei.
Alguns países possuem um Presidente do Legislativo que
faz as leis e um Presidente do Supremo Tribunal de Justiça que
determina o que a lei significa. No Monte Sinai, Yeshua foi o
Presidente do Legislativo; no Monte das Bem-aventuranças, ele
foi 0 Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Ele escreveu a
Lei e determinou como aplicá-la.
Um erro fundamental no cristianismo é dissociar a men-
sagem do evangelho dos padrões morais básicos encontrados
na Torá. Um erro fundamental no judaísmo é separar a Torá do
evangelho da graça encontrado em Yeshua. A Torá leva à cruz; e
a cruz completa, à Torá.
A Torá não foi dada num vácuo. Era apenas um de quatro
elementos. A Torá definiu o padrão dos valores morais absolu-
tos. Os mandamentos da Torá foram dados em conjunto com
os sacrifícios que proporcionavam expiação e perdão àqueles
que se arrependiam. Além dos sacrifícios, havia a presença do
Espírito Santo. Todos estes três - os mandamentos morais (Ex
20-23), os sacrifícios expiatórios (Lv 1-17) e 0 Espírito Santo
(Nm 9.15-23; 11.24-30) - foram dados a Israel pela autoridade
do Anjo-Yehovah.
y e s H -κΑ e a Lei M oral 65

Quando a Torá é separada do perdão dos sacrifícios, da li-


derança do Espírito Santo e da autoridade do Anjo-Yehovah, ela
fica distorcida em algo que não era 0 propósito original. Para
resumir, 0 contexto correto da Torá é:
1. Anjo-Yehovah;
2. mandamentos morais;
3. sacrifícios expiatórios;
4. inspiração do Espírito Santo.
Sem a liderança do Espírito Santo, os rabinos precisam es-
crever volumes com mandamentos adicionais para orientar as
pessoas. Sem 0 sacrifício expiatório da cruz, símbolos rituais
- tais como coberturas para a cabeça, beijar a Mezuzá4, lavar as
mãos e acender velas - assumem um nível supersticioso de im-
portância espiritual. Sem nos submeter à autoridade do Messias
que entregou a Torá, os rabinos assumem um nível exagerado de
autoridade religiosa5.
Na Nova Aliança, a Torá é escrita em nosso coração (Jr
31.31-34). Embora seja uma simplificação, podemos afirmar:
0 judaísmo rabínico guardou a Torá em suas aplicações exte-
riores, enquanto 0 cristianismo ocidental rejeitou a Torá quase
totalmente. O modo bíblico de cumprir a justiça da Torá corre-
tamente é:
1. meditar sobre 0 significado da Lei e sua aplicação ao
coração do homem;
2. agir de acordo com 0 mais alto nível de integridade
moral;
3. receber perdão por meio do sacrifício expiatório de
Yeshua;
4. obedecer à direção do Espírito Santo.

4 NT: Em hebraico, "um bral". Rolo de pergaminho que contém duas passagens bíblicas
manuscritas: 0 Shemá (Dt 6.4-9) e 0 Vehaiá (Dt 11.13-21), que ordenam que a Torá
seja afixada nos umbrais das portas.
5 A autoridade rabínica é muito semelhante à autoridade papal nesse aspecto.
66 62u 6 m a lm o ç o u , com A braão?

Judeus religiosos dizem que precisamos de todas as leis


rabínicas porque não conseguimos obedecer aos mandamentos
somente do modo como estão escritos na Torá. Concordo com
eles quanto à premissa, mas discordo de sua conclusão. Concor-
do que é impossível simplesmente guardar a Torá. Contudo, a
solução não é acrescentar incontáveis leis adicionais para cada
tipo de particularidade. A solução é inserir a Torá no contex-
to da Nova Aliança, por meio da qual recebemos o perdão dos
pecados, o Espírito Santo para habitar em nós e a presença do
Messias para nos guiar em todas as coisas.
Porque a lei [Torá] foi dada por intermédio de Moisés; a gra-
ça e a verdade vieram por meio de Yeshua 0 Messias.
João 1.17
Yeshua cumpriu a Lei de uma forma que todos nós fracas-
samos em fazer. Ele foi o único que nunca pecou. Por meio da
fé nele e do poder do Espírito Santo em nossa vida, as justas
exigências da Lei e o objetivo de pureza moral no coração são
cumpridos em nós.
Portanto, agora já não há condenação alguma para os que
estão no Messias Yeshua. Porque a lei do Espírito da vida, no
Messias Yeshua, te livrou da lei do pecado e da morte. Pois o
que para a lei era impossível, visto que se achava fraca por
causa da carne, Deus o fez na carne, condenando 0 pecado
e enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do
pecado e como sacrifício pelo pecado, para que a justa exi-
gência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo
a carne, mas segundo o Espírito.
Romanos 8.1-4 (AL21)
Não rejeitamos a Lei que o Anjo-Yehovah entregou a Moi-
sés. Por meio da fé em Yeshua, cumprimos o propósito interior
da Lei e alcançamos seus perfeitos padrões morais pela direção
do Espírito Santo.6

6 Para um entendimento maior, veja 0 Apêndice 6: "Escada entre 0 Evangelho e a Lei‫ ״‬.
YesHiAA ε a L ei M dtaal 67

Os padrões morais absolutos conforme definidos nos Dez


Mandamentos são a base para a compreensão do significado da
salvação. Certa vez, um jovem rico foi até Jesus e perguntou-lhe
o que tinha de fazer para ser salvo. Yeshua respondeu:
Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.
Mateus 19.17
Para muitos cristãos hoje, a resposta de Yeshua seria total-
mente incompreensível. No entanto, do ponto de vista bíblico,
foi perfeitamente lógico. Mas alguém podería alegar: “Eu acha-
va que éramos salvos por crer em Yeshua”. Concordo totalmen-
te, mas não há necessidade de separar a fé em Yeshua dos man-
damentos morais.
Quem escreveu os Dez Mandamentos foi Yeshua na forma
do Anjo-Yehovah. Crer nele é obedecer a ele (Mt 6.24; 7.22; Lc
6.46; Rm 1.5). Crer nele começa pela obediência aos padrões
morais básicos. Obediência simples e integridade moral são os
primeiros passos da fé.
O jovem, então, perguntou a Yeshua a quais mandamentos
ele se referia. Yeshua respondeu:
Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso
testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu pró-
ximo como a ti mesmo.
Mateus 19.18,19
Foi Yeshua quem escreveu esses mandamentos no prin-
cípio. Ele está dizendo ao jovem: “Se você quiser me seguir,
comece pela obediência aos mandamentos morais mais básicos
que já lhe dei”.
Não há contradição entre padrões morais e o Evangelho
- muito pelo contrário. Se não entendermos a ligação entre
Yeshua e os Dez Mandamentos, continuaremos com a situação
vergonhosa em que pastores e evangelistas cometem adultério
e roubam dinheiro; nossas crianças não respeitam autoridade, e
perdemos 0 direito moral de chamar as nações e os governos ao
arrependimento.
68 62κ 6 μ a l m o ç o h com A braão?

Todo aquele que pratica o pecado [peca] também transgride


a lei [Torá], porque 0 pecado é a transgressão da Torá... Todo
aquele que permanece nele não vive pecando [peca]; todo
aquele que vive pecando [peca] não 0 viu, nem o conheceu.
Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que
pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que
pratica o pecado procede do diabo, porque 0 diabo vive pe-
cando [peca] desde o princípio. Para isto se manifestou 0 Fi-
lho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele
que é nascido de Deus não vive na prática de pecado [não
peca]...
1 João 3.4,69‫־‬
A Torá definiu o que é pecado e o que é justiça. A cruz nos
ofereceu perdão de pecados. O Espírito Santo nos concedeu o
poder da justiça. Yeshua escreveu os Dez Mandamentos, mor-
reu na cruz e nos enviou o Espírito Santo. Tudo isso se encaixa
perfeitamente.7
Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em 0 nome de
seu Filho Yeshua 0 Messias, e nos amemos uns aos outros,
segundo o mandamento que nos ordenou.
1 João 3.23
Do ponto de vista da Nova Aliança, o primeiro mandamento
é crer em Yeshua. Como isso se encaixa nos Dez Mandamentos?
A introdução ao primeiro dos Dez Mandamentos trata justamen-
te da questão de fé no Anjo-Yehovah.
Eu sou Yehovah, teu Deus, que te tirei da terra do Egito.
Êxodo 20.2
‫אנכי יהוה אלהיך אשר הוצאתקד מאך־ץ מצרים מבית‬
:‫עבז־ים‬
O primeiro mandamento é: “Eu sou Yehovah”. O primeiro
mandamento é crer que certa pessoa é Yehovah. Quem é essa

7 Novamente, para aprofundar esse assunto, veja 0 Apêndice 6: "Escada entre 0 Evan-
gelho e a Lei".
y esH -u A e A L ei M oral 69

pessoa? É aquele que nos tirou do Egito na coluna de nuvem. É


aquele que apareceu a Moisés. Essa pessoa disse: “Eu sou Yeho-
vah”. Quem disse isso? Quem escreveu essas palavras? Quem
escreveu essas palavras foi o Anjo-Yehovah, aquele cujo dedo
escreveu os Dez Mandamentos. Ele é Yehovah Deus. A reve-
lação de que o Anjo-Yehovah é Deus é o princípio de todos os
mandamentos.
Em termos da Nova Aliança, crer em Yeshua e amar ao
próximo é a síntese de todos os mandamentos. Ver Yeshua
como 0 Anjo-Yehovah é a chave para entender a relação entre a
lei moral e a fé no Messias.
O primeiro dos Dez Mandamentos não está dizendo que é
preciso crer que Yehovah é Deus. O povo que saiu do Egito já
cria nisso. Crer que Yehovah é Deus foi o que Elias exigiu da
nação apóstata no Monte Carmelo. Eles gritaram: “Yehovah é
Deus, Yehovah é Deus” (1 Rs 18.39).
O primeiro dos Dez Mandamentos não é “Yehovah é Deus”,
mas “Eu sou Yehovah”. Há uma diferença significativa entre as
duas afirmações. Os Dez Mandamentos foram dados a pessoas
que já criam que Yehovah é Deus. A revelação de que Yehovah
é Deus era destinada àqueles que adoravam a Baal. Há uma di-
ferença entre a revelação do Monte Carmelo e a do Monte Sinai.
No Monte Carmelo, Elias falou com aqueles que pensavam
que Baal era Deus. Ele lhes disse que sua crença era falsa. Baal
não é Deus. Yehovah é Deus. No Monte Sinai, Moisés falou
para aqueles que já criam que Yehovah é Deus. Ele disse que
o Anjo-Yehovah que os tirou do Egito e escreveu os Dez Man-
damentos é aquele que chamamos de Yehovah. E ele é 0 nosso
Deus.
O Anjo Divino no Monte Sinai escreveu para o povo de
Israel: “Eu sou Yehovah. Eu sou o seu Deus. Eu sou aquele que
os tirou do Egito”. O Anjo que os tirou do Egito, que escreveu
os mandamentos e que os acompanhou na coluna de fogo e de
nuvem está revelando sua identidade e divindade ao povo de
Israel. “Eu sou aquele, eu sou o Deus Yehovah em quem seus
pais sempre creram.”
70 6Ò A.BM A L M O Ç O U . C O M A B R A Ã O ?

O Anjo do Monte chamou a si mesmo de Yehovah. Esta é a


introdução e o primeiro dos Dez Mandamentos. Os Dez Manda-
mentos foram escritos pelo Anjo-Yehovah. Cremos que o Anjo-
-Yehovah nasceu neste mundo como Yeshua na Nova Aliança.
A conclusão é que Yeshua, em sua forma pré-encamação de An-
jo-Yehovah, declara que ele é Deus-Yehovah. E uma declaração
de identidade e autoridade. Na Nova Aliança, o paralelo ao pri-
meiro mandamento é crer no senhorio e na divindade de Yeshua.
A lei moral vem de Yeshua. No Monte Sinai, seu dedo es-
creveu os Dez Mandamentos. No Monte das Bem-aventuranças,
ele explicou o significado interior da Torá, sua aplicação ao co-
ração do homem. No Monte Calvário, ele morreu para perdoar
nossas transgressões da Lei. No Monte das Oliveiras, ele voltará
para punir aqueles que recusam esse perdão e a obediência.
Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! [...]
Então, lhes direi explícitamente: nunca vos conheci. Apar-
tai-vos de mim, os que praticais a iniquidade
Mt 7.22,23
Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos
mando?
Lc 6.46
Visto que Yeshua escreveu a Lei, ele tinha autoridade para
perdoar as transgressões dessa Lei. Como ele assumiu o casti-
go que merecíamos por nossas transgressões, ele tem o direito
de punir os que continuam a transgredir sem arrependimento.
Somente aquele que perdoaria pela graça podería ser digno de
punir em juízo. O autor tornou-se o redentor. O redentor se tor-
nará o juiz.
O Anjo-Yehovah deu a Lei no Monte Sinai. O legislador do
Monte Sinai tornou-se o perdoador das transgressões da lei no
Monte Calvário. Ele voltará um dia para ser o juiz dos vivos e
dos mortos.
PflPTf Tp£s
A C O N Q U IS T A

N esta seção, examinaremos as aparições de


Deus a Josué e aos ju izes durante a conquista
cCe Canaã.

Neste período, descobrímos a aparição do


Mensageiro ,D ivino como Comandante dos
Txércítos de )Jehovah. Compararemos o
papeCdesse Comandante ã fig u ra de yesb.ua na
Segunda Mínda, partícuCarmente no Cívro do
ÇApocaCípse.

‫׳‬T ambém consideraremos como o papeC de


Comandante afeta nosso entendim ento da
im portância da terra de IsraeCe da redenção
da fe r r a no cum prim ento das profecías do J im
dos Dimpos.
C apítulo S fT f

O C o m a n d a n t e em C h e f e

Deus apareceu a Abraão, Isaque e Jaco na forma de um ho-


mem e fez aliança com eles. O Anjo-Yehovah tirou os filhos de
Israel do Egito e deu-lhes os Dez Mandamentos. Em seguida,
esse mesmo Deus-Anjo-Homem acompanhou Israel na con-
quista da terra de Canaã. Nesse período, eles também vieram a
conhecer ainda outro aspecto de seu caráter: o Comandante em
Chefe dos exércitos angelicais.
Na noite anterior à batalha de Jerico, Josué teve um impres-
sionante e vivido encontro com o Deus-Anjo-Homem.
Estando Josué ao pé de Jerico, levantou os olhos e olhou; eis
que se achava em pé diante dele um homem que trazia na
mão uma espada nua; chegou-se Josué a ele e disse-lhe: Es
tu dos nossos ou dos nossos adversários?
Respondeu ele: Não; sou príncipe [comandante] do exército
de Yehovah e acabo de chegar.
Então, Josué se prostrou com o rosto em terra, e 0 adorou, e
disse-lhe: Que diz meu senhor ao seu servo?
Respondeu o príncipe [comandante] do exército de Yehovah
a Josué: Descalça as sandálias dos pés, porque 0 lugar em
que estás é santo. E fez Josué assim.
Josué 5.1315‫־‬
74 62h.6m alm o ç o u , com A braão?

‫ע ביריחו וישא עיניו ו?ךא‬#‫ בהיות יהו‬,‫ולחי‬


‫ידו וילך‬3 ‫והנה־איש עמד לגנדו ןך!ךבו שלופה‬
‫ וייאסר‬:‫יהועןע אליו!ייאסר לו הלנו אתה אם־לצרינו‬
‫לא כי אני שר־צבא־להוה עתה באתי ויפיל יהו^ע‬
‫אל־פניו אךצה!ישתהו!ייאסר לו סה אדני סלבר‬.
‫!י'אסר שר־צבא להוה אל־יהו^ע של־נעלך‬:‫אל־עבדו‬
‫מעל רגלךכי המקום אשר אתה עימד עליו ק'ןש הוא‬
:‫!!עש יהועןע כן‬

Essa passagem me deixa sem fôlego. No hebraico, as pala-


vras “Comandante do Exército de Yehovah” têm um hífen entre
si; são apenas três palavras, sem preposições ou artigos. E uma
única palavra ou nome. Para entender melhor o sentido do he-
braico, poderiamos traduzir a frase por “Comandante-Exército-
-Yehovah”. Em termos atuais, nós o chamaríamos de “Coman-
dante em Chefe”.
Em Israel, o comandante de todas as IDF (Forças de De-
fesa de Israel) é chamado “Ramat-Kal”, ou “Chefe do Coman-
do Geral”, semelhante ao dos Estados Unidos: “Chefe do Es-
tado-Maior das Forças Armadas”. No capítulo anterior, vimos
Yeshua como o Presidente do Legislativo e Presidente do Su-
premo Tribunal de Justiça. Agora é hora de conhecê-lo como
Comandante em Chefe das Forças Armadas.
Quem é esse homem? Ele não pode ser Deus, nosso Pai
celestial, porque é descrito como um homem. Ele não pode ser
um anjo comum, porque Josué o chama de Senhor e o adora.
Esse “Homem” ordena que Josué tire as sandálias, porque o lu-
gar onde está é santo. Essa frase é uma citação exata do que o
Anjo-Yehovah disse a Moisés na sarça ardente (Êx 3.5). Inequi-
vocamente, ele está afirmando: “Eu sou o mesmo que apareceu
a Moisés na sarça”.
O que parece surpreendente são a rapidez e facilidade com
que Josué concorda em adorá-lo e obedecê-lo. Parece que Josué
o reconheceu de outras ocasiões. Josué estivera presente durante
boa parte dos encontros entre Moisés e o Anjo-Yehovah no de-
serto. Algumas vezes, ele até permanecera na tenda de reunião
O C om andante em C h6‫־‬f 6 75

Λ
depois de Moisés ter saído (Ex 33.11). Josué não o reconheceu
de imediato porque ele veio num papel um pouco diferente, mas,
assim que começou a falar, ele soube que era o Anjo-Yehovah.
Que momento inspirador e desafiador! Essa pessoa é:
1. um Homem: conforme indicado claramente no verso
13;
2. um Comandante de Exército: conforme definido no
verso 14;
3. um Anjo: membro dos exércitos angelicais;
4. Deus: igual ao EU SOU da sarça ardente;
5. Senhor: pois Josué o adora.
A combinação de todas essas qualidades é um conjunto ma-
temático que só admite um elemento. Essa mistura de atributos
é o que a Nova Aliança atribui exclusivamente a Yeshua. A úni-
ca conclusão lógica é que o Comandante com quem Josué se
encontrou só pode ser Yeshua.
O nome Josué em hebraico é Yehoshua que, essencialmente,
é o mesmo nome de Yeshua1. O nome Yeshua vem de Yehoshua,
ou vice-versa. Foi um encontro entre Josué e Jesus. Eu costumo
dizer que foi um encontro entre o “J” maiusculo e 0 “J” minús-
culo. Há um paralelo entre seus papéis. Yeshua é uma figura de
Yehoshua, e Yehoshua é uma figura de Yeshua.12
Se meditarmos nessa passagem, notaremos imediatamente
que está faltando algo. Ele é o comandante do exército, mas não
há exército. Onde está o exército do qual ele é o comandante?
1Yeshua é uma forma abreviada de Yehoshua.
2 Nota: nesta passagem, também há uma lição rápida e pungente sobre a soberania de
Deus. Como Josué, nós sempre queremos saber se Deus está do NOSSO lado ou não.
Nós 0 tratamos quase como um torcedor na Copa do Mundo."Você está torcendo para a
Espanha ou para a Holanda?" Mas 0 Anjo-Yehovah não diz se ele está do lado de Israel
ou do de seus inimigos. Ele simplesmente diz: "N ão". A questão não é se ele está do
nosso lado, mas se nós estamos do lado dele. Ele não fica "tomando partido". Quando
estamos do lado dele, ele está do nosso lado. Ele é 0 Senhor Soberano. Quando Israel
pecava, Deus os punia. Quando andavam em aliança, ele lutava em seu favor. Neste caso,
ele estava realmente lutando por eles.
76 62k 6 m a lm o ç o u , com A braão?

O profeta Eliseu experimentou exatamente o oposto. Ele


viu um exército sem comandante. O profeta foi cercado por todo
o exército da Siria, que viera para atacá10‫־‬. Era um exército in-
teiro contra uma pessoa. O servo de Eliseu começou a entrar em
pánico. Eliseu lhe disse que não se preocupasse porque havia
MAIS do lado deles do que contra eles. Em seguida, orou para
que seu servo pudesse ver o que ele já sabia.
Yehovah, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. Yeho-
vah abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava
cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu.
2 Reis 6.17
‫להרה ?קח־נא אה־עיניו ולך־אה וי?קח יהוה את־עיני‬
‫ךכב אש סביבת‬.‫הנער ררא והנה ההר מלא סוסים ן‬
:‫אלישע‬

Aqui vemos um exército sem comandante. Observe que os


soldados são anjos e que possuem cavalos e carros de fogo. Eles
estão no topo da montanha, o que parece indicar que haviam
aterrissado após ter descido do céu. Em Josué 5, temos um co-
mandante sem exército. Em 2 Reis 6, temos um exército sem
comandante. Existe alguma passagem em que vemos o exército
e o comandante juntos? Sim.
Vi 0 céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se
chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus
olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diade-
mas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele
mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu
nome se chama 0 Verbo [a Palavra] de Deus; e seguiam-no
os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com
vestiduras de linho finíssimo, branco e puro.
Apocalipse 19.11-14
Apocalipse 19 mostra o exército e o comandante juntos. É
o mesmo exército com cavalos e carros de fogo que veio do
céu. O comandante é o mesmo. A ligação entre Apocalipse 19 e
Josué 5 é extremamente significativa. Apocalipse 19 demonstra
O C o m a n d a n t e 8m C h e f e 77

que o Comandante de Josué 5 é de fato Yeshua. A união desses


dois quadros do Divino Comandante do Exército cria uma pro-
funda conexão entre as visões de mundo da Velha e da Nova
Aliança e entre as visões de mundo cristã e judaica. Quando
corretamente entendida, torna-se uma ponte que forma um tema
coerente do início ao fim das Escrituras.
Em Josué 5, vemos o Comandante; em 2 Reis 6, vemos o
exército; em Apocalipse 19, vemos o Comandante e o exército.
Existe algum texto na Bíblia que mostra onde está o exército
contra o qual eles vieram lutar? Onde está o inimigo? Onde está
a guerra? O profeta Zacarias nos dá a resposta.
Eis que vem 0 Dia de Yehovah, em que os teus despojos se
repartirão no meio de ti. Porque eu ajuntarei todas as nações
para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada...
Então, sairá Yehovah e pelejará contra essas nações, como
pelejou no dia da batalha. Naquele dia, estarão os seus pés
sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém
para 0 oriente...
Então, virá Yehovah, meu Deus, e todos os santos com ele.
Zacarias 14.1-5
‫ ואספתי‬:‫הנה יום־בא ליהוה ןד!לק שללך בקךבך‬
‫אודכל־הגוים אל־ורושלם למלחמה ןנלנ־ןה העיר‬
‫ והנשים תשגלנה ןלצא חצי העיר‬,‫ונשפו הבתים‬
‫ ולצא להרה‬:‫ ולסר העם לא יכרת מן־העיר‬,‫בגולה‬
‫ ועמדו‬:‫ונלחם בגוים ההם ביום הלסמו ביום קךב‬
‫רגליו ביום־ההוא על־הר הזתים אשר על־פני‬
‫ירושלם מקןם ונבקע הר הזיתים מחציו מזרחה ולמה‬
:‫גיא גדולה מאד ומש חצי ההר צפונה וחציו־גגבה‬
:‫ובא להרה אלהי כל־קדישים עמך‬

O ataque das nações a Jerusalém é descrito também em Za-


carias 12.3, 12.6, 12.9, 14.12 e 14.16. Nos círculos cristãos, o
Dia de Yehovah mencionado aqui é conhecido como a Segunda
Vinda. Os profetas de Israel se referiram a ele como “o grande
e terrível dia de Yehovah” (Joel 1.15; 2.1; 2.11; 2.31; 3.14). O
78 6¿ueM ALMOÇOU com A braão?

grande e terrível Dia de Yehovah no pensamento judaico e a


Segunda Vinda de Yeshua no pensamento cristão são o mesmo
evento, na mesma época, no mesmo dia.
Yehovah será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será
Yehovah, e um só será 0 seu nome.
Zacarias 14.9
‫והלה להרה למלך על־כל־האן־ץ ביום ההוא להלה להרה‬
:‫אחד ושמו אחד‬

Naquele dia, tudo será reunido em “um” só. O Anjo-Yeho-


vah não ficará artificialmente dividido entre os papéis de parcei-
ro de aliança com Abraão, legislador para Moisés e comandante
de exército para Josué. Ele cumprirá todas essas funções num
único papel.
Ele será Rei sobre toda a Terra. Ele governará sobre todas
as nações a partir de Jerusalém. Não haverá mais divisão entre
o remanescente de Israel e a Igreja internacional. O reino mes-
siânico trará paz e prosperidade sobre a terra durante mil anos.
Em Zacarias 14.4, observe que os pés dele estarão sobre
o Monte das Oliveiras. Serão os mesmos pés que estiveram no
Monte das Oliveiras em Atos 1.11, 12. Assim como seus pés
deixaram 0 Monte das Oliveiras em Atos 1, eles voltarão a tocá-
do outra vez conforme se pode ver em Zacarias 14. A palavra no
hebraico para pés (‫ )רגליו‬em Zacarias 14.4 é a mesma encontra­
da em Êxodo 24.10, passagem em que os anciãos de Israel veem
os pés e as pernas dele como se fossem humanos.
Os pés que viram no Monte Sinai serão vistos novamente
no Monte das Oliveiras. Esse mesmo Deus-Homem que vimos
em Gênesis, Êxodo, Josué, Zacarias, Atos e Apocalipse virá
para lutar nas batalhas do Fim dos Tempos e governar a Terra a
partir de Jerusalém.
Apocalipse 19 e Zacarias 14 são os dois quadros mais claros
da Segunda Vinda de Yeshua em toda a Bíblia. Apocalipse 19
mostra a perspectiva do céu; Zacarias 14, a da terra.
O C om andante em C hefe 79

Se colocarmos os dois quadros lado a lado, boa parte da


nossa dificuldade para entender o Fim dos Tempos desaparece-
rá.Ver Yeshua como o Comandante dos exércitos celestiais tanto
em Apocalipse 19 quanto em Josué 5 nos abre a cortina para
vislumbrar sua divindade e sua autoridade. Ver as batalhas de
Apocalipse 19 e Zacarias 14 como o mesmo evento nos dá urna
visão muito mais clara da Segunda Vinda e do Milênio.3
Neste capítulo, estamos procurando entender Yeshua como
um comandante de exército. Em Israel, todos os jovens servem
no Exército assim que saem do Ensino Médio. Nossos quatro
filhos já cumpriram seu tempo no serviço militar. Os exércitos
de Israel são mencionados muitas vezes nas Escrituras. Há um
paralelo entre os exércitos de Israel na terra e os exércitos ange-
licais do Deus de Israel no céu.
Meu filho mais velho, Heskel, é capitão no Exército Is-
raelense. Ele é um cristão dedicado e cheio do Espírito. E ca-
sado e tem uma filha ainda bebê. Ele é muito manso por dentro.
Ao mesmo tempo, por causa de sua experiência como mili-
tar, ele tem um profundo entendimento a respeito de autoridade,
de enfrentar oposição e de resistir firme diante de um inimigo.
Uma vez, ele me disse: “Se alguém está aproximando-se
para matá-lo, você não tem outra opção a não ser tirar-lhe os
meios de fazer isso”. Em Heskel, vejo um pouco do Yeshua que
é um cordeiro manso e, ao mesmo tempo, o comandante de um
exército. Cito esse exemplo a fim de dar um pequeno vislumbre
de como Yeshua pode ter qualidades gentis e militares ao mes-
mo tempo.
No antigo reino israelita, havia uma coordenação espiri-
tual entre os exércitos angelicais e terrenos. Davi sempre orava
antes de ir para uma batalha a fim de saber se o Senhor queria
que ele lutasse. A resposta poderia ser sim ou não. Depois, Davi

3 Para um estudo mais completo sobre essa ligação e sobre 0 Fim dos Tempos, leia 0
nosso livro Iraq to Arm ageddon ["D o Iraque ao Armagedom", ainda não traduzido
para 0 português], Destiny Image Press. 0 propósito deste livro não é explicar 0 Fim
dos Tempos, mas comparar 0 Yeshua da Nova Aliança com 0 Anjo-Yehovah da Velha.
80 ffiu E M A L M O Ç O U C O M A B R A Ã O ?

também orava para saber quando e como lutar. Davi não se via
como alguém que iniciava as batalhas. Ele se submetia à vonta-
de do Senhor. Ele deixava a decisão e a direção para 0 Senhor.
Uma vez, o Senhor ordenou que esperasse até ouvir o som
de um exército que marchava na altura das copas de amoreiras
logo acima dele (2 Sm 5.23-25). Os exércitos angelicais não
estavam simplesmente seguindo Davi; era ele que precisava se-
gui-los. O exército espiritual era mais responsável pela batalha
do que o exército terreno. Contudo, havia um vínculo de aliança
entre os dois.
Davi amava adorar ao Senhor com música e louvor. No en-
tanto, ele também conhecia o Senhor como um comandante de
exército. Muitos hoje pedem ao Senhor “um coração como o
de Davi”. Eu concordo com isso. Para ter um coração davídico,
devemos fazer do louvor e da adoração a prioridade em nossa
vida. Também, devemos ter um coração temo de obediência e
submissão. Além disso, precisamos conhecer o Senhor como
Comandante em Chefe. Não conhecer o lado militar de Yeshua
é não conhecê-lo.
O fato de Yeshua ter vindo à terra 2 mil anos atrás como
um cordeiro a ser sacrificado faz com que muitas pessoas hoje
tenham dificuldade de relacionar-se com ele no papel de coman-
dante de um exército. No entanto, a única maneira de resistir às
batalhas espirituais e permanecer firme nas tribulações do Fim
dos Tempos é ver Yeshua como esse comandante de exército.
Nos últimos anos, as Nações Unidas, a mídia internacional
e a Jihad Islâmica têm atacado Israel com grande veemência.
Ao mesmo tempo, há centenas de jovens (moços e moças) ju-
deus messiânicos servindo no Exército Israelense. Devido ao
curso dos eventos atuais e às profecias concernentes aos últimos
tempos, a revelação de Yeshua como Comandante dos Exércitos
O C om anda ντε em C h-e fe 81

do Deus de Israel é urgente e vital para os cristãos do mundo


inteiro.4
Em Josué 5.14, o Anjo-Yehovah disse que a questão não é
se ele está do nosso lado, mas se nós estamos do lado dele. Za-
carias 14.3 afirma que ele vem para guerrear com todos aqueles
que vierem atacar Jerusalém. Muitos judeus querem Jerusalém
sem Jesus. Muitos cristãos querem Jesus sem Jerusalém. Os hu-
manistas seculares e os jihadistas islâmicos se opõem aos dois
grupos. A questão não é o que nós queremos, mas o que ele quer.
Quando ele vier, estaremos lutando por ele, contra ele ou fugin-
do de qualquer confronto?

4 Nota: minha esperança é que a revelação de Yeshua como Comandante em Che-


fe ajude a preparar a Igreja internacional para 0 Fim dos Tempos. 0 Espírito San-
to tem trazido continuamente ao meu coração esta comissão urgente: “ Prepa-
re a Igreja para e sta r do lado de Israel nos eventos do Fim dos Tempos
que culm inarão na Segunda Vinda de Y e s h u a Se 0 seu coração confir-
ma essa palavra, por favor, ajude a compartilhar essa exortação com outros.
C apítulo O ito

Q uem L u to u n a B ata lh a
d e J e r ic ó ?

Quando o Comandante do exército divino apareceu a Josué,


observe que a espada dele estava desembainhada. Isso significa
que ele estava pronto para a batalha.
Levantou os olhos e olhou; eis que se achava em pé diante
dele um homem que trazia na mão uma espada nua.
Josué 5.13
‫ידו‬3 ‫והנה־איש עמד לנגדו ןחךבו שלופה‬
Vemos 0 Anjo-Yehovah em outros dois lugares com a es-
pada desembainhada. A ocasião seguinte foi com Balaão e seu
jumento.
Então, Yehovah abriu os olhos a Balaão, ele viu 0 Anjo-Yeho-
vah, que estava no caminho, com a sua espada desembainha-
da na mão; pelo que inclinou a cabeça e prostrou-se com o
rosto em terra.
Números 22.31
‫ ןיך־א את־מלאך להרה נצב‬,‫ולגל יהוה את־עיני בלעם‬
:‫לדו ויקיד ויקזתחו לאפיו‬3 ‫בורך ןחן־בו קזלפה‬
Balaão era um “profeta” independente que havia sido con-
tratado por Balaque, rei de Midiã, para amaldiçoar 0 povo judeu
no deserto. O Anjo-Yehovah 0 deteve no caminho e o advertiu
a abençoar Israel, em vez de amaldiçoá-lo. A primeira vista, o
84 6Zu 6m a l m o ç -οιλ c o m A braão?

modo como Deus tratou Balaão parece um pouco ríspido. Mas


Deus viu o mal oculto no coração de Balaque e no de Balaão.
Depois que suas tentativas de feitiçaria contra Israel falha-
ram, eles se voltaram para uma estratégia de tentação sexual,
decadência e ocultismo.
Habitando Israel em Sitim, começou 0 povo a prostituir-se
com as filhas dos moabitas. Estas convidaram o povo aos sa-
orificios dos seus deuses; e o povo comeu e inclinou-se aos
deuses delas.
Números 25.1,2
‫ולשב לשראל בשטים ולסל העם לזנות אל־כנות‬
‫ ותקרא] לעם לז?חי אלהיסן ויאכל העם‬:‫מואב‬
:‫וישתסוו לאלהיהן‬

O povo de Israel foi responsável por seu próprio pecado e


foi horrivelmente punido (25 mil israelitas morreram). A con-
fusão com Midiã resultou numa guerra em que dezenas de mi-
lhares de midianitas também foram mortos. Foi para alertar a
respeito dessa situação desastrosa que o Anjo-Yehovah sacou a
espada.1
A Bíblia esclarece depois que Balaão teve um papel ativo
no planejamento dessa campanha de imoralidade sexual (Nm
31.16). Ele é visto como um falso profeta na Nova Aliança (2
Pe 2.15; Ap 2.14). Ele foi morto na guerra entre Midiã e Israel,
pela qual foi parcialmente responsável (Nm 31.8).
Numa primeira leitura, podemos questionar se o anjo com a
espada apontada para Balaão era apenas um anjo comum envia-
do por Deus ou o divino Anjo-Yehovah. Há três evidências que
apontam para sua divindade:

1 Nota: esta é uma lição aprendida ao longo de toda a Bíblia. Às vezes, os castigos do
Senhor parecem duros para nós. No entanto, sempre são executados em justiça e graça.
Ele alerta sobre problemas presentes que nos levarão a tropeçar no futuro próximo. Sua
justiça leva em conta sua presciencia. Ele vê 0 que nós não vemos. 0 que sabemos é que
ele é justo e misericordioso e que sempre podemos confiar nele.
GbΛ.ΕΜ L U T O U N A ‫־‬B A T A L H A TB J 6 R . IC Ó ? 85

1. a estrutura de nomes justapostos (s’michut) com o nome


Yehovah (Nm 22.22, 24, 26, 27, 32, 34, 35).
2. A alternância entre os nomes Elohim e Yehovah (Nm
22.9, 12,13, 20, 22, 23, 28, 31, 35, 38).
3. Em toda a passagem, ele fala com Balaão na primeira
pessoa com autoridade de Deus (Nm 22.20,35,38,23.5).
Todos esses versos provam que quem confrontou Balaão
não foi um anjo comum, mas o divino Anjo-Yehovah.
A terceira vez que vemos o anjo com a espada desembai-
nhada é na eira de Araúna. Num ato de egoísmo, o rei Davi
ordenara um censo do povo. A nação foi punida com uma praga.
No ápice da tensão, Davi viu 0 Anjo-Yehovah pairando sobre
Jerusalém.
Levantando Davi os olhos, viu o Anjo-Yehovah, que estava
entre a terra e 0 céu, com a espada desembainhada na mão
estendida contra Jerusalém.
1 Crônicas 21.16
‫ _רלךא את־מלאןי להרה עמד בין‬,‫ולשיא דויד את־עיניו‬
‫הארץ ובין השמים וחרבו קזלופה גילדו נטולה‬
‫על־לרושלם‬

Aqui temos a mesma forma de nomes justapostos. Contudo,


no resto da passagem, não há outra evidência contextual que in-
dique se esse anjo é divino ou um anjo normal dentre as hostes
celestiais.
Há um paralelo entre essa aparição do Anjo-Yehovah a Davi
e aquela que se manifestou a Abraão por ocasião do sacrifício
de Isaque. Ambas ocorreram no mesmo local. No primeiro caso,
um carneiro substituiu Isaque para o sacrifício. No segundo, a
destruição de Jerusalém foi interrompida. A dinâmica tensão en-
tre expiação e julgamento é evidente nas duas situações.
Voltemos à batalha de Jericó. Josué foi um dos maiores ge-
nerais que já viveram. Seu encontro com o Deus-Homem-Co-
mandante aconteceu na véspera da batalha de Jericó. Antes da
86 62K6M ALMOÇOM. COM ABRAÃO?

batalha, uma importante questão tinha de ser resolvida. Josué e


Israel estavam lutando por conta própria ou estavam sujeitos ao
mensageiro divino?
Como líder das tribos de Israel, Josué se submeteu intei-
ramente ao Comandante angelical, assegurando, dessa forma,
a bênção de Deus. Como qualquer bom líder na noite anterior
à batalha, ele estava obviamente preocupado se vidas seriam
desnecessariamente perdidas. Se o Comandante tivesse lhe dito
para não lutar, ele teria concordado imediatamente em suspen-
der a batalha. Uma vez que se submeteu a um comandante su-
perior, suas preocupações foram resolvidas, e ele sabia que seu
povo teria graça e proteção divinas.
Embora Josué fosse um grande estrategista militar, a bata-
lha foi travada de uma forma estranha. Em vez de atacar, 0 povo
saiu e marchou em silêncio ao redor da cidade, com a Arca da
Aliança. Apenas os shofares foram tocados. Não foi uma guerra
psicológica. Foi uma guerra espiritual, um ato de fé, oração e
louvor. No sétimo dia, ao som de sete shofares e um grito de
vitória, os muros da cidade caíram.
A questão aqui é: quem de fato lutou nesta batalha? Os mu-
ros da cidade caíram sem que um único israelita o tocasse. Sim,
depois que os muros caíram, eles capturaram a cidade. No en-
tanto, não seria necessário ser um gênio militar para vencer a ba-
talha após o colapso dos muros em cima dos soldados inimigos.
Josué fica apenas com o crédito secundário. A batalha principal
foi travada pelo Comandante dos anjos e seu exército celestial.
Essa vitória lembra a “vitória” de Josafá sobre os amonitas
e moabitas (2 Cr 20). Ele recebeu uma profecia dizendo que não
precisaria lutar naquela batalha. O próprio Senhor lutaria em seu
favor (v. 15). Tudo o que tinham de fazer era ficar em posição e
crer (v. 17). O povo saiu com instrumentos musicais e começou
a louvar ao Senhor na frente de seus inimigos (v. 21). Assim
que começaram a louvar ao Senhor com cânticos, Deus lhes deu
uma vitória sobrenatural sobre os inimigos (v. 22).
As pessoas não participaram da parte essencial da bata-
lha. Quem lutou foi o Comandante do Exército de Yehovah,
6¿lΛ 6 Μ LU.TO W . N A B A T A L H A ΐ>ΒJ 6 ‫־‬FLICÓ? 87

juntamente com todos os seus anjos de guerra. Guerra espiritual


não acontece apenas no ámbito militar. Ao mesmo tempo, não
pode ser entendida como espiritualidade desvencilhada de con-
textos militares. Guerra espiritual é a conexão entre os exércitos
celestiais e os terrestres. Nossas orações, profecias e louvores
afetam os anjos, que, por sua vez, afetam a situação militar, eco-
nômica e política à nossa volta.2
Outro exemplo de intervenção divina numa guerra militar
foi durante 0 ataque do rei da Assíria, Senaqueribe, a Jerusalém.
O exército assírio era vastamente superior ao de Israel em nú-
mero. Ezequias e Isaías guiam o povo em jejum e oração. Aqui
está o resultado:
Então, saiu 0 Anjo-Yehovah e feriu no arraial dos assírios a
cento e oitenta e cinco mil; e, quando se levantaram os res-
tantes pela manhã, eis que todos estes eram cadáveres.
Isaías 37.36
‫ויצא מלאןד יהוה ו!?ה כמסנה אשור מאה ושמנים‬
:‫וממשה אלף וישכימו בבלר ןהנה כלם ?גרים מתים‬
Esse número é enorme - 185 mil pessoas numa noite! O
texto não dá mais detalhes. Havia mais anjos ou apenas um? Se
havia apenas um, era o divino Anjo-Yehovah ou não? Se era,
seria ele de fato o próprio Yeshua? Talvez seja difícil para nós
associar a imagem de Yeshua à morte de 185 mil soldados ini-
migos numa noite. No entanto, o livro do Apocalipse descreve
guerras com números de baixas muito maiores. Essas guerras
envolvem a intervenção direta do próprio Yeshua (Ap 9.15-18;
15.19,20; 19.11-16).3
Ao ler sobre números tão elevados, podemos achar impos-
sível 0 cumprimento das profecias. Entretanto, com o aumento

2 Por esta razão, nossa equipe dedica quase duas horas diárias durante a semana a "vi-
gílias" de oração, profecia e louvor. Acreditamos que 0 que fazemos na esfera espiritual
afeta 0 mundo ao nosso redor.
3 Nota: observar no livro do Apocalipse a relação entre louvor e adoração de um lado e
as batalhas daTribulação de outro é uma chave importante para a Igreja compreender
a guerra espiritual nos últimos tempos.
88 62m 6 m a lm o ço u . com A braão?

de milhões de pessoas nas fileiras da Jihad Islâmica, além da


bizarra defesa que a mídia e as Nações Unidas lhe prestam,
o advento de um holocausto mundial num futuro não mui-
to distante parece não só possível, mas também inevitável.
O Anjo-Yehovah e seus exércitos angelicais fizeram a maior
parte do trabalho para ajudar a geração de Josué a tomar posse
da terra de Canaã. Seu trabalho também continuou durante o
tempo dos juizes.
Subiu o Anjo-Yehovah de Gilgal a Boquim e disse: Do Egito
vos fiz subir e vos trouxe à terra que, sob juramento, havia
prometido a vossos pais. Eu disse: nunca invalidarei a minha
aliança convosco.
Juizes 2.1
‫ויעל מלאך־יהוה מן־הגלגל אל־הביכים פ ויאמר‬
‫אעלה אסכם ממעדים ואביא אמכם אל־האדץ אשר‬
‫נשבעסי לאבתיכם ואמר לא־אפר בריסי אסכם‬
:‫לעולם‬

Nesse único verso, ‫ ס‬Anjo fala como Deus na primeira pes-


soa cinco vezes. A palavra “anjo” ‫ — מלאך‬m a l’ach vem de uma
raiz árabe que significa “enviar”4. Aqui, o Anjo foi enviado por
Yehovah. Ao mesmo tempo, ele fala como Deus na primeira
pessoa. Como ele pode ser enviado de Deus e divino ao mesmo
tempo? Esse é 0 mistério desse mesmo personagem que vemos
em toda a Lei e nos Profetas.
Esta dupla natureza - enviado de Deus e, ao mesmo tempo,
Deus - é coerente com as descrições de Yeshua na Nova Alian-
ça. Deve haver coerência perfeita nessa questão entre os antigos
profetas israelitas e qualquer cristão atual.
Na passagem de Juizes 2, o Anjo afirma ser aquele que 1)
fez aliança com os patriarcas, 2) tirou Israel do Egito e 3) 0
guiou para a terra de Canaã. Para compreender as implicações
desse versículo, tente inserir Yeshua no quadro. Yeshua era
o Anjo divino que fez aliança com Abraão, dividiu 0 Mar

4 Não é muito diferente da ideia de um apóstolo como um "enviado‫ ״‬.


62h l m L-ktow . να b a t a l h a r>eJ e ‫־‬R .\c ó ? 89

Vermelho e lutou na batalha de Jericó. Esse quadro é bastante


surpreendente para a compreensão bíblica tanto de judeus como
de cristãos. O Anjo-Yehovah também apareceu a Gideão. Dessa
vez, em vez de vir com uma espada desembainhada, ele sim-
plesmente sentou-se à sombra de uma árvore em frente ao lugar
em que Gideão malhava o trigo.
Então, o Anjo-Yehovah lhe apareceu e lhe disse: Yehovah é
contigo, homem valente.
Juizes 6.12
‫וירא אליו מלאך להרה וייאמר אליו להרה עמך גבור‬
:‫ולחיל‬
Não foi um transeunte que o chamou de soldado poderoso,
mas o Comandante dos Exércitos de Yehovah. O Comandan-
te desafia Gideão a sair e lutar contra os midianitas e promete
acompanhá-lo nessa campanha militar (v. 16).
Então, se virou Yehovah para ele e disse: Vai nessa tua for-
ça e livra Israel da mão dos midianitas; porventura, não te
enviei eu?
Juizes 6.14
‫ן אליו להרה וייאמר לך ?כיסך !ה והושעת‬5‫וי‬
:‫את־ישראל מכף מ הן הלא שלהתיןז‬
Só neste capítulo, ‫ ס‬mensageiro divino é mencionado sete
vezes como “anjo” (vv. 11, 12, 20, 21, 21, 22, 22). É citado di-
retamente como Yehovah cinco vezes (vv. 12, 14, 16, 22, 23) e
como Adonai duas (vv. 15, 22). Ao longo de toda a passagem,
ele fala na primeira pessoa com autoridade divina. Mais uma
vez, chegamos à inevitável conclusão de que esse personagem é
enviado de Deus e, ao mesmo tempo, é o próprio Deus.
Nosso último exemplo nesta seção é a aparição a Manoá e
sua esposa, os pais de Sansão.
Apareceu 0 Anjo-Yehovah a esta mulher...
Juizes 13.3
...‫_ויךא מלאך־יהוה אל־האשה‬
90 6¿ueM ALMOÇOIA com A b>r a ã o ?

A passagem é uma variante do mesmo padrão, mais uma


na série de visitações angelicais. O mensageiro divino apare-
ceu primeiro à esposa de Manoá e, em seguida, uma segunda
vez para ambos. Ele previu o nascimento iminente de Sansão
(semelhante à profecia dada a Sara em Gênesis 18 pelo mesmo
visitante).
O visitante é citado como homem cinco vezes, dez vezes
como Anjo-Yehovah e uma vez como Deus (Elohim) (v. 22).
Ele nunca é mencionado somente como “anjo”. No verso 17,
Manoá procura conhecer seu nome, e ele se recusa a dizer (se-
melhante à sua recusa em responder a Jacó, quando este lhe fez
a mesma pergunta em Gênesis 32,29). Desta vez, respondeu
apenas que seu nome era maravilhoso (‫ — פלאי‬Peleh). Esta pa-
lavra maravilhoso é a mesma usada na profecia a respeito do
nome do Messias em Isaías 9.6.
Tal como no encontro com Gideão, 0 Anjo-Yehovah foi em-
bora sobrenaturalmente assim que a chama do sacrifício subiu
(Jz 6.21; 13.20). Quando ele desapareceu, Manoá começou a
gritar, dizendo que ele e a esposa poderíam morrer porque ti-
nham visto a Deus (v. 22). Isso indica que eles estavam familia-
rizados com a historia do encontro de Moisés com o Anjo-Yeho-
vah em Exodo 33. Eles estavam convencidos de que haviam
visto o próprio Deus.
Todas as aparições do Anjo-Yehovah para o povo de Israel
no tempo de Josué e dos Juizes foram perfeitamente coerentes
com as aparições ao longo da Torá. A nova revelação que essas
passagens nos trazem é o seu papel de Comandante dos exér-
citos e o fato de ter sido ele que liderou a conquista de Canaã.
Mesmo que não vejamos Yeshua nessa figura do Anjo, não
podemos negar que a figura central do Tanakh (Velho Testamen-
to) é esse mensageiro divino que, ao mesmo tempo, é Deus, um
anjo e um homem. Ele foi 0 centro da fé dos profetas e patriar-
cas israelitas.5

5 Para uma discussão acerca desse personagem entre os antigos israelitas na Crítica
Textual, veja 0 Apêndice 2: "0 Anjo Divino", por Solomon Intrater.
C apítulo Novf
P o s s u in d o a T e r r a

A posição de Yeshua nesta seção é a de Comandante dos


Exércitos de Yehovah. O propósito dele foi tomar posse da terra
de Canaã. Neste capítulo, queremos discutir brevemente o pro-
pósito da “conquista da térra”.
Um dos valores fundamentais do povo judeu é o amor pela
terra de Israel. Há uma revelação acerca da terra de Israel que
não é conhecida pela maior parte da Igreja. Contudo, essa reve-
lação tem enorme importância para cristãos de todos os lugares
e afeta profundamente a cosmovisão cristã do reino de Deus.
Quando Deus olha para a raça humana, ele vê uma família
de nações. Cada grupo étnico e linguístico forma uma família
separada (Ap 7.9; 17.15). Deus ama a todos igualmente. Israel é
considerada a nação primogênita entre todas, sobretudo porque
Abraão foi o primeiro crente a criar sua família sob a aliança
(Êx 4.22; Gn 18.19).
Como a primogênita, Israel se toma uma “nação-modelo”
para as nações do mundo. O que é verdade para ela é verdade
para as demais. O que acontece com Israel na Bíblia é uma his-
tória específica no tempo e no espaço. No entanto, sua história
se toma um princípio universal para todas as nações, cada qual
em sua própria localização geográfica e desenvolvimento histó-
rico.1

1 Há um princípio rabínico de interpretação bíblica chamado Klal v'prat, prat v'klal —


0 .‫ פרט וכלל‬,‫ כלל ופרט‬geral se torna o específico, e o específico se torna o geral.
92 6Zh e m a lm o ç o u , com A braão?

Cada uma das nações do mundo recebeu uma ordem para


tomar posse de sua própria terra em suas próprias fronteiras, de
acordo com o padrão estabelecido para os filhos de Israel.
Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quan-
do separava os filhos dos homens |filhos de Adão] uns dos
outros, fixou os limites dos povos, segundo 0 número dos fi-
Ihos de Israel.
Deuteronômio 32.8
‫?הנחל עליון גוים ?הפרידו ?ני אז־ם יצב ג?לת עמים‬
:‫למספר ?ני ישראל‬

O princípio de Deus de dar a cada nação um lugar para ha-


bitação é enunciado novamente no discurso de Saulo (Paulo) no
Areópago.
De um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a
face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabe-
lecidos e os limites da sua habitação.
Atos 17.26
Israel é o padrão para as nações. De acordo com o padrão,
cada nação recebeu sua própria herança, uma terra que deveria
ser apropriada para sua habitação e sustento. Tal como Israel foi
chamado para tomar posse da terra da promessa, assim a Igre-
ja internacional é chamada para tomar posse de todo o planeta
Terra.
A Bíblia fala de padrões de julgamento, exílio e restaura-
ção, semelhantes aos que sucederam a Israel, para outras nações
como Babilônia (Jr 12.15), Moabe (Jr 48.47), Amom (Jr 49.6),
Elão (Jr 49.39), Egito (Ez 29.12-14) e Etiópia (Am 9.7). O que
aconteceu com Israel é aplicável à Igreja também. Assim como
Israel teve um sacerdócio levítico, há também um sacerdócio de
todos os cristãos em suas próprias nações e culturas.
Uma grande parte das Escrituras Hebraicas diz respeito à
ordem de “tomar posse da terra”. A primeira palavra que Deus
disse a Abraão - o primeiro crente e o primeiro “israelita” - foi
Ρ 0 5 5 ι λ ιν ^ 0 A T e t a r a 93

uma ordem para ir à terra de Israel e conquistá-la pela fé (Gn


12.1). Vez após vez, Deus fez uma promessa de aliança eterna e
inquebrável aos nossos pais, de dar-lhes a terra de Israel como
herança (Gn 12.7; 13.15; 15.7; 24.7; 26.3; 28.4,13; 35.12;
48.4).2
Os israelitas viveram basicamente como “peregrinos” na
sua terra. O pleno cumprimento das promessas referentes à
possessão da terra nunca aconteceu no tempo bíblico - e não
aconteceu até hoje. Entretanto, a falta de cumprimento total não
afetou o propósito eterno de Deus. A propriedade da terra é uma
questão de aliança e fé. Parte das promessas será cumprida ago-
ra, e parte será cumprida no reino milenar.
Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para
um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber
aonde ia. Pela fé, peregrinou na terra da promessa como em
terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdei-
ros com ele da mesma promessa.
Hebreus 11.8,9
Quando os filhos de Jacó estavam exilados no Egito, eles
ansiavam por voltar à Terra Prometida. Jacó fez José prometer
que o enterraria lá. E José fez seus filhos prometerem que, quan-
do fossem libertos, levariam os ossos dele do Egito para Canaã.
Era óbvio para eles que seus descendentes voltariam um dia
para a terra, mais cedo ou mais tarde. Afinal, Deus fizera uma
aliança inquebrável com eles. O juramento para que os corpos
fossem enterrados lá mostrava que sabiam que 0 cumprimento
final das promessas relacionadas à terra aconteceria no momen-
to da ressurreição.
A questão do cumprimento do reino de Deus na Terra por
meio da possessão da terra de Israel é tão central nas Escrituras
que se toma quase uma obsessão para o povo de Deus. Moi-
sés tirou o povo de Israel do Egito a fim de levá-lo de volta à

2 Para um estudo mais detalhado sobre 0 tema, leia 0 nosso livro “ W hat Does The Bi-
ble R eally Say about the Land? 0) ‫ ״‬Que a Biblia Realmente Diz Acerca da Terra?).
94 6Zu 6 m a l m o ç -οιλ c o m A braão?

Terra Prometida. Moisés teve uma discussão acalorada com


Deus, suplicando-lhe desesperadamente que o deixasse entrar
na terra antes de morrer (Dt 4.23-27).
Todos os juizes e generais, reis e profetas, lutaram pelo di-
reito de permanecer na terra de Israel. Jeremias e Ezequiel, que
profetizaram o exílio, também previram a restauração da terra.
Ainda outra onda de tomar posse da terra ocorreu no final do
Antigo Testamento com Esdras e Neemias.3
Em Lucas 21.24, Yeshua profetiza a respeito do povo de
Israel: “Cairão a fio de espada e serão levados cativos para
todas as nações”. Yeshua fez essa profecia no ano 33 d.C., e no
ano 70 d.C. ela se cumpriu. Ele previu a destruição de Jerusalém
e o grande exílio. Entretanto, no mesmo verso, Yeshua afirmou:
“Até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém
será pisada por eles [pelos gentios]”. A destruição e o exílio
aconteceriam “até” um tempo específico no futuro.
Isso indica que virá um tempo em que a punição estará con-
cluída, permitindo, assim, uma nova restauração. Um dia, Je-
rusalém não será mais pisada pelos gentios, o que significa que
será reabitada pelos judeus. De fato, Jerusalém foi reconquista-
da pelos judeus em 1967. Essa reconquista foi uma fase inicial
do cumprimento desse verso e dos muitos outros que predizem
a restauração de Jerusalém.
Em Atos 1.6, os discípulos de Yeshua perguntaram se naque-
le tempo ele já pretendia “restaurar o reino a Israel”. Yeshua
não disse “não”; apenas respondeu que eles não poderíam saber
quando isso aconteceria. Ao dizer que a data era desconhecida,
ele estava afirmando claramente que um dia esse evento aeon-
tecería. A nação de Israel passa por um processo de destruição e
restauração paralelo à morte e à ressurreição de Yeshua.
Então, o que isso significa para a Igreja internacional? O
que é verdade para a família tribal de Abraão também é verdade

3 0 anseio do povo judeu pela Terra Prometida corresponde ao anseio cristão por ir ao
céu. Por fim, essas duas visões de mundo precisam fundir-se numa só, assim como corpo
e alma.
P 0 S S U U N D 0 A T 6 R .R A 95

para a grande família espiritual de Abraão. Em última análise, a


Igreja internacional e 0 remanescente fiel de Israel herdarão todo
o planeta Terra. Infelizmente, é neste ponto que muitos cristãos
encontram uma pedra de tropeço e um ponto cego em sua fé.
Abraão não foi chamado para herdar apenas uma pequena
propriedade de terra no Oriente Médio. Sua “semente” foi cha-
mada para herdar o planeta Terra, para reaver o que Adão havia
perdido para o diabo.
Não foi por intermédio da lei [Toráj que a Abraão ou a sua
descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e
sim mediante a justiça (que obtivera] da fé.
Romanos 4.13
Qual foi a promessa feita a Abraão? O que ele deveria her-
dar pela fé? Não era apenas morrer e ir para o céu. Nem era
apenas a minúscula terra de Canaã. Ele foi chamado para herdar
todo o mundo e todas as propriedades contidas nele. Como ele
obteria essa herança? Pela fé. E quem deveria herdar com ele?
Toda a sua “descendência”, todos aqueles que têm a mesma fé
de Abraão.
Os filhos espirituais de Abraão são aqueles que creem que
Yeshua é o Messias. Se tiverem fé como Abraão, serão herdeiros
assim como ele. Você tem fé para herdar este planeta juntamente
com Abraão? Ou as idéias da falsa teologia (“castelos nas nu-
vens”, “passagem garantida para o céu”, “seguro contra fogo”)
têm feito você receber apenas a parte espiritual de sua herança
e não a parte terrena?
Por favor, não me interprete mal. Eu acredito em todas as
promessas espirituais e celestiais da mesma forma que todos os
cristãos. Mas também acredito que há promessas terrenas. O rei-
no de Deus envolve uma harmonia entre o terreno e o espiritual.
Aceitar apenas a parte espiritual sem a parte natural não é cris-
tianismo bíblico; é uma forma cristianizada de hinduísmo.
Se todas as promessas de Deus fossem apenas celestiais,
por que você precisaria de um corpo ressurreto? Você pode ir
para o céu quando morrer e nunca ressuscitar. A promessa de
96 6Ζ κ£Μ A LM O Ç O U COM A B R A Ã O ?

um corpo ressurreto implica numa restauração do planeta Terra.


A ardente expectativa da criação aguarda (ansiosamente] a
revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está [ficou] su-
jeita à vaidade )inutilidade], não voluntariamente, mas por
causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a pró-
pria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para
a liberdade da glória [liberdade gloriosa] dos filhos de Deus.
Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e
suporta angústias [agoniza com dores de parto] até agora.
Romanos 8.1922‫־‬
Por favor, releia esses versos. Posso praticamente sentir a
criação gemendo à medida que você começa a entender essa
revelação. Parte do plano de salvação inclui o planeta Terra.
Em Yeshua, Deus restaurará tudo o que foi roubado. Cremos
na restauração total. Não apenas Israel será restaurado (64Será
este 0 tempo em que restaures 0 reino a Israel?” [At 1.6];
44O que será o seu restabelecimento [restauração]?” [Rm
11.15]), mas todas as coisas prometidas na Bíblia serão restaura-
das (“Elias virá [primeiro] e restaurará todas as coisas” [Mt
17.11]; “Até aos tempos da restauração de todas as coisas”
[At 3.21]).
Essa restauração total inclui tudo 0 que foi prometido pelos
antigos profetas israelitas desde 0 livro de Gênesis. Restauração
bíblica inclui a regeneração do planeta Terra.
Yeshua lhes respondeu: Em verdade vos digo vós, os que
me seguistes, quando na regeneração [quando a criação for
renovada], o Filho do Homem se assentar no trono da sua
glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar
as doze tribos de Israel.
Mateus 19.28
A renovação da criação é chamada de “regeneração”.
Yeshua voltará para governar e reinar. A criação será restaura-
da. Aqueles que forem justos e o servirem fielmente reinarão
em seu governo neste planeta. Esses justos não serão apenas
das doze tribos de Israel (Ap 7.4), mas também haverá uma
P o S S W JN ^O A T 6 R R A 97

multidão inumerável de todas as nações, tribos e línguas (Ap


7.9). Tenho certeza de que você gostaria de fazer parte disso.
No pensamento judaico, há um conceito chamado Tikkun
Olam - ‫תיקן־ו עולם‬, que significa reparar ou restaurar o mundo.
É um conceito bíblico repetido todos os dias no livro de ora-
ções judaicas, no hiño chamado “Aleinu” - ‫ עלינו‬- “É nossa in-
cumbência”. A oração pede o cumprimento da esperança de que
Deus “reparará o mundo no reino de El Shaddai”. As orações de
todos aqueles que realmente creem na Bíblia deveríam ser para
que o mundo seja reparado e restaurado de acordo com o plano
de Deus.4
O plano de Deus envolve tanto o céu quanto a terra, não
apenas o céu. No principio, ele criou o céu e a terra juntos (Gn
1.1), e tudo o que foi criado era “muito bom” (Gn 1.31). Deus
entregou a terra nas mãos do homem (SI 115.16). Evidentemen-
te, por causa do nosso pecado, acabamos estragando tudo o que
ele nos deu. A promessa de Deus de renovar e redimir o que
destruímos neste planeta faz parte do pacote que recebemos no
perdão dos nossos pecados. A terra será restaurada numa nova
criação (Is 65.17; 2 Pe 3.5-12; Ap 21-22).
Bem-aventurados os humildes de espírito Ipobres de espíri-
to|, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Mateus 5.3,5
A terra será herdada por santos, não por pecadores. Yeshua
voltará, Satanás será expulso, os justos serão ressuscitados, e os
mansos herdarão a terra. Quando Yeshua disse que os mansos
herdarão a terra, ele ampliou a promessa da Aliança Abraâmica,
tomando-a disponível a todos os que são filhos espirituais de
Abraão pela fé.
Não oramos no sentido de abandonar este planeta (Jo
17.15). Fomos ensinados a orar para que a vontade de Deus se

4Para uma explicação mais detalhada, consulte 0 Apêndice 7: "Restauração de Todas


as Coisas‫ ״‬.
98 62u e m a l m o ç o u com A braão?

cumpra na terra como no céu (Mt 6.10). A fase final do plano


de Deus é reunir todas as coisas em unidade e harmonia - o que
está no céu e o que está na terra por meio de Yeshua, 0 Messias
(Ef 1.10; Cl 1.16; Zc 14.9). A Yeshua foi dada toda a autorida-
de, não apenas no céu, mas também na terra (Mt 28.18). Nossa
fé deve ser focada em assumir o comando, não em fugir. Você
foi chamado para herdar a terra5.
Mencionei anteriormente que a construção gramatical mais
importante que aprendí no hebraico foi a forma “s’michut” de
nomes justapostos. Agora quero falar da palavra mais impor-
tante que já aprendí no vocabulário hebraico. A palavra é aretz
— ‫ארץ‬. Aretz tem DOIS significados. O primeiro é “terra de
Israel”; o segundo é “planeta Terra”. O duplo significado da
palavra aretz mostra um duplo cumprimento das promessas da
aliança que dizem respeito à “terra”.
As promessas dizem respeito apenas à terra de Israel ou a
toda a Terra? As promessas são apenas para o remanescente de
Israel ou se referem à verdadeira Igreja internacional? A res-
posta é que inclui os dois. O que é verdade para os patriarcas
e profetas na terra de Israel é verdade para a Igreja em todo o
planeta Terra.
Esta é uma revelação profunda. Você não é um espírito de-
sencamado. Você é uma morada terrena para Deus. Você foi
criado com três dimensões: espírito, alma e corpo. Deus criou
o universo com as duas partes: o céu e a terra. As promessas da
Aliança Abraâmica sobre a herança da terra são relevantes para
os verdadeiros crentes, indiferentemente da parte da terra em
que vivem. Isso vale para a vida presente e para o mundo por vir.
Na batalha em Ziclague, Deus disse a Davi que ele recu-
peraria tudo 0 que havia perdido (1 Sm 30.8, 18). Davi creu e
recebeu. Hoje, temos o coração de Davi para recuperar tudo o
que a raça humana perdeu para o pecado e Satanás. Isso inclui
todo o planeta Terra e a sua plenitude (SI 24.1). Acordem, que-
ridos santos!

5 Para uma explicação mais detalhada, consulte 0 Apêndice 8: "Céu e Terra‫ ״‬.
P o s s u a n i >o a T ^ r r a 99

A terra de Israel é para o povo de Israel. Da mesma for-


ma, cada nação recebeu um lugar para viver. Na ressurreição,
o mundo será herdado pelos mansos de todas as nações. A ver-
dadeira Igreja é a extensão do remanescente justo de Israel. O
que o remanescente messiânico de Israel tem como herança na
terra de Israel, o remanescente cristão de todos os outros países
também tem em sua própria terra.
Assim como o povo de Israel é apaixonado pela restauração
de sua terra, todo cristão deveria ser apaixonado pela restaura-
ção de sua própria nação, de Israel e do planeta Terra. Visto que
as promessas para a Igreja são uma extensão das promessas fei-
tas a Israel, e visto que Israel é o “filho primogênito” da família
das nações, as promessas precisam ser cumpridas em sequência,
começando por Israel. Se as promessas de herança e restauração
não são verdadeiras para Israel, então também não são válidas
para a Igreja.
Na conquista da terra de Canaã, havia dois tipos de heran-
ça. Uma era dentro da terra de Israel e outra, do lado de fora de
suas fronteiras. Algumas tribos escolheram sua herança do ou-
tro lado do Jordão. Isso era perfeitamente aceitável a Deus sob
uma condição: eles teriam de ajudar os que herdassem a terra de
Israel a conquistá-la primeiro. Em seguida, seriam autorizados
por aliança a tomar posse de suas próprias terras (leia o relato
completo em Números 32.20-30). Essa história é um modelo
para o entendimento da relação entre Israel e a Igreja e, também,
do mandato da aliança para tomar posse juntos do planeta Terra.
Vamos voltar ao assunto do Anjo-Yehovah no livro de
Josué. Será que conseguimos compreender que quem liderou a
conquista da terra de Israel há mais de 3 mil anos foi Yeshua?
Isso não é uma questão de cultura, racismo ou política. Yeshua
liderou essa conquista para estabelecer os fundamentos para a
futura vinda do reino de Deus. Por meio da conquista de Canaã,
Yeshua estava declarando que a Terra pertence a Deus, que a
vontade de Deus por fim será feita na terra como no céu e que
o planeta será dado por aliança aos seus fiéis seguidores como
herança.
100 62ueμ almoçou c o m A b r a ã o ?

A conquista da terra de Canaã era tão central para o reino de


Deus, naquela época, que o próprio Yeshua, como Anjo-Yeho-
vah, liderou a campanha militar que conquistou a terra. Ele
cumpriu a primeira etapa da promessa da aliança que fizera com
Abraão. O Anjo-Yehovah prometeu a terra de Canaã a Abraão
e a seus descendentes. Quase mil anos depois da promessa, ele
levou os filhos de Israel a conquistar a terra.
Esse ponto de vista amplia as visões de mundo dos dois la-
dos: tanto cristão quanto judeu. Como Anjo-Yehovah, o próprio
Yeshua foi o primeiro “sionista”. Aqui estou falando do sionis-
mo em seu sentido bíblico mais puro como a restauração do
povo judeu à terra de Canaã.6
O propósito de Deus vai além do sionismo. O objetivo final
é que os filhos de Deus participem na redenção deste planeta e
de tudo o que está nele, reivindicando-o para os propósitos ori-
ginais de Deus. Vale a pena lutar por esse objetivo.
Yeshua apareceu diante de Josué com a espada desembai-
nhada (Js 5.13). Do ponto de vista espiritual, Yeshua tem uma
espada de dois gumes que procede de sua boca (Ap 1.16; 2.12;
19.15). A batalha é travada parcialmente com poderio militar,
mas ainda mais com palavras (especialmente, à luz das teleco-
municações modernas). Na verdade, foi isso que aconteceu na-
quela época também. Mesmo no tempo de Josué, as armas eram
mais espirituais do que terrenas (2 Co 10.3-5; E f 6.10-19).
Em guerras recentes e confrontos defensivos, quer no Liba-
no contra 0 Hezbollah, quer na Faixa de Gaza contra o Hamas,
as ações militares que Israel tem tomado têm sido moralmente
justificadas (em minha opinião). No entanto, em cada situação,
a opinião pública mundial foi deturpada por distorções bizarras
da mídia e da propaganda jihadista. Apenas em parte, a batalha
tem a ver com armamento militar. Tanto no passado como hoje,
a batalha entre a verdade e a mentira é espiritual.

6 Não está dentro do escopo ou finalidade deste livro discutir a relação entre 0 atual
Estado político de Israel e as promessas proféticas de restauração.
P o s s u in d o a T 6 r .r a 101

Precisamos continuar a batalha espiritual que Josué come-


çou. A guerra espiritual tem prioridade em relação ao aspecto
militar. Como foi com Josué, assim é conosco: o Anjo-Yehovah
o guiou na batalha; tudo 0 que Josué tinha a fazer era subme-
ter-se ao Comandante. Hoje, a questão fundamental não é só
quem tem 0 direito à terra de Israel, mas se 0 Deus de Israel tem
direitos de propriedade sobre todo o planeta.
Não estou pedindo para você se juntar ao exército de Israel.
Estou pedindo para você orar sobre o que 0 significado espiri-
tual do livro de Josué representa para nós hoje. Quando enxer-
garmos Yeshua como o Anjo-Yehovah-Comandante que liderou
os exércitos na conquista de Canaã, veremos o reino de Deus e a
atual situação política sob uma ótica muito diferente.
Não é estranho que extremistas de esquerda sejam com fre-
quência tão favoráveis a regimes islâmicos opressivos? Como
pode ser isso? A resposta é que existe uma batalha espiritual nos
bastidores, uma batalha que inclui poderes e principados ange-
licais e demoníacos. Em última análise, a luta é contra a autori-
dade de Deus e do seu Messias de reinar sobre este planeta (SI
2.1-6). Yeshua é o Messias, o cabeça da Igreja e o rei de Israel.
No princípio, Deus deu este planeta a Adão. Adão o entre-
gou a Satanás. Yeshua veio para redimir a ambos - a nós e ao
planeta. Satanás está lutando para não perder o controle sobre os
sistemas mundiais da terra. Graças a Deus, Yeshua vence; Sata-
nás será expulso e punido eternamente. E tempo para os santos
ficarem firmes na fé.
Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida; como
fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te
desampararei. Sê forte e |mui] corajoso, porque tu farás este
povo herdar a terra que, sob juramento, prometí dar a seus
pais.
Josué 1.5, 6
‫צב איש לפניה כיל ימי ח;קד כאשר הייתי‬:‫ל'א־ית‬
‫ חזק ואמץ‬:‫ן‬1‫עם־מ״שה א מ ה עמך לא ארפה ולא אעץכ‬
‫ה את־הארץ‬-‫כי אתה תנחיל את־העם הן‬
:‫אשר־נשבעתי לאבותם לתת להם‬
102 62μ θμ a l m o ç o u com A braão?

Quero que esses versos sejam vivificados para você hoje.


Coloque-se nesta passagem. Ela não está se referindo apenas à
terra de Canaã de 3 mil anos (ou mais) atrás. Está falando conos-
co hoje. Está falando de todo o planeta Terra.
Ouço o Espírito Santo enfatizando em meu coração vez
após vez o que ele disse a Josué: “Você fará 0 meu povo her-
dar a terra”. Você também pode ouvir isso? Vamos receber o
mandato para que 0 “povo de Deus herde o planeta Terra”.
Precisamos ser fortes pela Palavra e pelo Espírito de Deus. To-
das as forças do mal estão em oposição à reivindicação de Deus
de que este planeta pertence a ele. Deus resgatará a Terra do mal
e a dará aos justos.
Yeshua é o Comandante de Deus encarregado de cumprir
essa missão. Você e eu somos seus servos e cooperadores. O
que Yeshua fez há mais de 3 mil anos para a geração de Josué
conquistar Canaã, ele fará por todos os seus santos a fim de que
conquistem o planeta Terra na Segunda Vinda.
Os nomes Yeshua e Josué têm a mesma raiz. Às vezes, acho
lamentável que o nome Yeshua (em vez de “Jesus”) não tenha
se tomado tão popular como o nome “Josué”. Yeshua recebeu
seu nome por DUAS razões. Primeiro, porque significa “Deus
salvará”. Yeshua veio, na primeira vez, para salvar-nos de nos-
sos pecados (Mt 1.21; 18.12; Lc 19.10). Entretanto, Yeshua re-
cebeu esse nome por outra razão. O nome deve provocar uma
associação mental entre Jesus (Yeshua) e Josué (Yehoshua).
Yeshua voltará em breve. Ele virá na semelhança de Josué.
O livro de Josué é um relato histórico verídico; contudo,
também serve como uma parábola profética para a geração do
Fim dos Tempos. Assim como o Anjo-Yehovah guiou Josué em
vitória na conquista da terra, Yeshua guiará os filhos de Deus de
todos os lugares a herdar a Terra e tomar posse de seus termos.
Assim como os israelitas tomaram posse de Canaã, os justos
possuirão a Terra. Yeshua recebeu o mesmo nome de Josué para
mostrar-nos que ele conquistará o planeta Terra em sua Segunda
Vinda.
P arte Q uatro

O S P R O FE TA S

N esta seção, examinaremos as aparições de


Deus aosprofetas em IsraeCe no exíCio.
Neste período, descobrímos apCenítude da
gCóría de Deus. Tncontramos o Deus-dComem
napCenítude dessa gCóría...
t
D2m bém vamos anaCísarpor que a
manifestação de Deus ã humanidade tinha de
acontecer p o r meío de aCguém que fosse um
homem. M ostraremos como a autoridade do
reino de Deus fo í transferida do nosso Tai
ceíestíaípara aqueCe que é o JíCho do Nomem.
C apítulo D ez

Q uem E stá A s s e n t a d o n a
C a d e ir a ?

Um dos exemplos mais impressionantes de aparições de


Deus na forma de um homem é encontrado no primeiro capítu-
10 de Ezequiel. Em círculos cristãos, este capítulo é conhecido
como a descrição da “Glória do Senhor”. Nos círculos judai-
cos, é conhecido como “A Carruagem”. As ramificações dessa
passagem são tão “perigosas” que, de fato, há uma advertência
rabínica para que não seja lida.1
Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês,
que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se
abriram os céus, e eu tive visões de Deus.
Ezequiel 1.1
‫ויהי בשלשים שנה בך־ביעי בחמשה לחיןש ואני‬
‫כתוך־־הגולה על־נהר־גיבר נ?תחו השמים ואךאה‬
:‫מךאות אליהים‬

Tal como aconteceu ao apóstolo João várias vezes no livro


do Apocalipse, os céus se abriram de repente. Ezequiel viu Deus
abertamente. Esse tipo de exposição a toda a glória de Deus

1 No Talmude Babilónico, 0 Tratado "Hagigah", folio 14, lado B, adverte até mesmo um
sábio a não ler este capítulo sozinho. 0 documento também conta a história de quatro
rabinos que 0 estudaram em profundidade. Um morreu, um ficou louco e outro se tornou
apóstata (cristão). Apenas 0 rabino Akiva sobreviveu ileso.
106 6Zk 6 m a l m o ç o k com A braão?

podería matar um homem, mas, por ter sido mais uma visão do
que uma visitação, a vida de Ezequiel foi preservada.
Ezequiel teve uma visão aberta. Isso significa que não foi
apenas uma imagem interior de algo proveniente do reino espi-
ritual. O texto diz que “os céus se abriram”. Naquele ponto da
história, esta foi a maior visão da glória de Deus que alguém
já tivera. Há muita coisa na criação que não conseguimos ver.
Ezequiel pôde ver o lado de dentro daquele mundo.
A criação é dividida em duas metades ou dimensões. Uma
delas é visível, e a outra não (Cl 1.15, 16). A parte que não po-
demos ver é a espiritual. A parte que vemos é a física. Contudo,
a dimensão espiritual e invisível é tão real e corpórea quanto a
física. O fato de não podermos vê-la não significa que não es-
teja lá. Ambas funcionam de acordo com leis, algumas físicas,
outras espirituais. A dimensão invisível foi criada primeiro; a
visível foi criada a partir da invisível e saiu dela (Hb 11.3).
O fato de não enxergarmos a parte invisível da criação não
significa que ela não possa ser vista. E invisível para nós, mas
não impossível de ser vista. Sob circunstâncias “normais” (da
criação original), deveríamos ser capazes de ver as duas dimen-
sões. Antes de Adão e Eva pecarem, eles eram capazes de ver
ambas. No momento em que pecaram, sua visão ficou restrita.
Era como se uma barreira fosse colocada entre o mundo visível
e o invisível a fim de impedi-los de ver o mundo espiritual.
A barreira entre 0 físico e o espiritual, o visível e 0 invisível,
é simbolizada no Templo pelo grande véu (parochet em hebrai-
co - ‫)פרוכת‬. Quando Yeshua foi crucificado, Deus rasgou esse
véu em dois (Mt 27.51). Isso simbolizava 0 fato de que um novo
caminho havia sido disponibilizado para que o mundo físico dos
homens tivesse acesso ao mundo espiritual de Deus e dos anjos.
Essa barreira é mais interna do que externa. É uma limi-
tação dos olhos humanos; não tanto uma limitação dos olhos
físicos, mas dos olhos espirituais, os olhos do nosso coração
(Ef 1.16). O véu do Templo correspondia a um véu espiritual
em nosso coração. Quando alguém se volta para Yeshua em fé,
G2h e m B s t á A s s e n t a d o na C a d e ir a ? 107

0 véu começa a ser removido (2 Co 3.16). Enquanto não nas-


cemos de novo, não podemos ver o mundo espiritual (reino de
Deus). No entanto, o novo nascimento traz o potencial de ver as
coisas espirituais (Jo 3.3).
Durante o período dos profetas hebreus, de tempos em tem-
pos a unção do Espírito Santo vinha sobre um deles e lhe permi-
tia ver 0 mundo espiritual. A experiência era chamada de visão
ou revelação. Foi isso que Ezequiel recebeu. A visão é a expert-
ência momentânea de alguém que, apesar de estar na dimensão
física, vê 0 que existe na esfera espiritual. A experiência seria
semelhante a alguém que recebe óculos especiais que lhe per-
mitam ver raios infravermelhos ou ultravioletas ou, então, ondas
de rádio e televisão. Esses elementos fora do alcance da nossa
percepção natural estavam lá o tempo todo; num momento de
“visualização” especial, fomos capacitados a percebê-los.
A visão mais extensa que alguém já experimentou foi re-
cebida por João (Yochanan), e a chamamos de “Livro do Apo-
calipse” (Ap 1.1). Sua revelação foi simplesmente uma visão
mais ampla e mais completa dos mesmos elementos do mundo
espiritual que os profetas antigos já haviam vislumbrado.
As leis de tempo e espaço operam de uma forma um pouco
diferente na esfera espiritual, mas realmente obedecem a regras
definidas. A física “quântica” opera com base em leis diferentes
das que uma pessoa normal consegue perceber. No entanto, es-
sas leis existem e funcionam de forma tão consistente quanto as
leis da gravidade. As leis da relatividade, descobertas por Ein-
stein, mostram que tempo, massa e volume sofrem mudanças
quando a matéria se aproxima da velocidade da luz.
De tempos em tempos, os homens puderam enxergar a di-
mensão espiritual da criação. Em outros momentos, seres da-
quele mundo vieram visitar o nosso. O primeiro é chamado de
visão‫׳‬, o segundo é uma visitação. Os anjos são seres que fazem
parte da dimensão invisível.
Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do Norte, e uma
grande nuvem com fogo [intenso, furioso] a revolver-se, e
resplendor ao redor dela [e irradiando do meio dela], e no
108 621Λ6Μ A L M O Ç O U . C O M A ‫־‬B>RAÃO?

meio disto, uma coisa como metal brilhante (como lampejos


de eletricidade], que saía do meio do fogo.
Ezequiel 1.4
‫וארא והנה רוח סערה באה מן־הצפון ענן גדול ןאש‬
‫ ןניגה לו סביב ומתוכה ?עין החשמל מתוך‬,‫מתלקחת‬
‫האש‬:
Este foi ‫ ס‬mesmo poder de glória que desceu no Monte Si-
nai e fez tremer toda a área ao redor. Ezequiel passa a descrever
quatro criaturas aterrorizantes com asas e faces de homem, leão,
boi e águia. Relâmpagos saíam do redemoinho. Ele descreve
rodas dentro de rodas. Tudo isso formava uma coluna gigante
que ia da terra ao céu.
O mais parecido com isso que poderiamos imaginar seria
uma nuvem de cogumelo provocada por uma explosão nuclear.
Ezequiel fez o melhor que pôde para descrever com palavras de
3 mil anos atrás uma coluna semelhante à da energia nuclear.
Sobre a cabeça dos seres viventes havia algo semelhante ao
firmamento, como cristal brilhante [assombroso] que metia
medo, estendido por sobre a sua cabeça.
Ezequiel 1.22
‫וץ־מות על־ךאשי הךוןה רקיע ?עין הקרח הנורא נטוי‬
:‫על־ראשיהם מלמ?לה‬

O livro de Gênesis diz que Deus criou um firmamento entre


0 céu e a terra. Até esse momento da visão de Ezequiel, nin-
guém 0 tinha visto. A raiz da palavra firmamento significa uma
superfície sobre a qual se pode ficar em pé. Segundo a descrição
de Ezequiel, há uma superfície espiritual, relativamente trans-
parente, que se estende sobre a nossa cabeça como se fosse o
teto de um apartamento do andar de baixo que se toma o piso
do apartamento do andar de cima. Obviamente, é feita de uma
substância material ou energética que não temos na terra.
Na visão de Ezequiel, a coluna “nuclear” da glória de Deus
estendia-se do chão até àquele teto-piso do firmamento. Tudo
6¿¡a b m B s t a A s s ^nta^ o na C a d e ir a ? 109

isso serve como preparação para aquilo que Ezequiel viu em se‫־‬
guida. Seus olhos começaram a mover-se para cima em espanto
enquanto contemplava a nuvem de glória. Primeiro, sua visão
alcançou o firmamento. Em seguida, pelo fato de o firmamento
ser transparente, seus olhos passaram a enxergar o que estava
acima dele, por sobre a cabeça das criaturas aterrorizantes.
Apesar de todos os elementos assustadores do que viu na
nuvem de glória, o que ele viu a seguir causou o maior choque
de todos.
Por cima do firmamento que estava sobre a sua cabeça, ha-
via algo semelhante a um trono, como uma safira; sobre esta
espécie de trono, estava sentada uma figura semelhante a um
homem.
Ezequiel 1.26
‫וממעל לרקיע אשר על־־ראשם ?מראה כסא ועל‬
:‫דמות הכסא דמות כמראה אז־ם עליו מלמעלה‬
Ele viu uma cadeira.2 Era um trono, uma cadeira, um lugar
para alguém se assentar. Não era um trono comum. Era um tro-
no reluzente, irradiante, como se fosse feito de pedras preciosas.
Mas o mais importante foi quem ele viu assentado ali.
Na cadeira, ele viu um homem. Havia um Homem ali. Ele
viu um ser sobrenatural semelhante a um homem.3
No centro dessa visão, assentado por cima da nuvem nucle-
ar, num trono reluzente, feito de joias, acima dos querubins e do
firmamento - estava um Homem ou, mais exatamente, alguém
com a aparência de um homem.
Vi-a como metal brilhante, como fogo [com lampejos de ele-
tricidade em seu interior e| ao redor dela, desde os seus lom-

2 A palavra em hebraico para trono é a mesma para cadeira - ‫כיסא‬.


3 A frase "semelhante a um homem" nos faz lembrar ¡mediatamente que 0 homem foi
criado à semelhança de Deus. Ezequiel disse que aquela figura sobrenatural era seme-
lhante a um homem. Talvez, pudéssemos dizer em retrospectiva que nós, homens, fomos
feitos à semelhança deste Homem.
110 a lm o ç o u , com A braão?

bos e daí para cima; e desde os seus lombos e daí para baixo,
vi-a como fogo e um resplendor ao redor déla.
Ezequiel 1.27
‫ואן־א ?עין חשמל נימראה־אש בית־לה סביב ממראה‬
‫מתניו ולמעלה וממראה מתניו ולמטה ראיתי‬
• · T T-S TST ·
· Í- · τ:τ: τ:τ

:‫?מראה־אש ונגה לו סביב‬

Esse homem tinha fogo e eletricidade disparando em todas


as direções, no seu interior e saindo dele. O versículo 28 conti-
nua dizendo que havia a imagem de um arco-íris em volta dele.
Esse homem é o centro e a fonte de todo o poder. Aqui está a
fonte de energia que, multiplicada pela velocidade da luz, trouxe
a matéria física à existência no big bang da criação.
A visão deste Homem de energia nuclear no trono sobre o
firmamento dá um vislumbre do que aconteceu em Gênesis 1.
Se juntarmos Ezequiel 1 a Gênesis 1, e acrescentarmos a física
quântica e a teoria da relatividade de Einstein, teremos uma pis-
ta de como a criação começou.
Com todas as explosões sobrenaturais e criaturas aterrori-
zantes, podemos entender por que alguns rabinos hesitavam em
estudar este capítulo. Mas a parte realmente problemática não é
a das criaturas estranhas nem a da nuvem nuclear. O problema é
o Homem. Ele é quem vai além da compreensão da mente; era
ele que os rabinos queriam encobrir.
Um Deus Todo-poderoso, na forma humana - esta é a
GRANDE revelação. A ideia de que Deus possa ser visto na
forma de um homem é a que nos choca. Se Deus apareceu na
forma de um homem a Abraão, a Moisés, a Ezequiel e a muitos
de nossos profetas e patriarcas, então não há contradição entre a
fé de nossos pais e a divindade do Messias.
Podemos ter uma opinião diferente sobre quem era esse
Deus-Homem em Ezequiel 1. No entanto, a realidade de sua
existência, do ponto de vista bíblico, é inegável. Se Deus To-
do-poderoso aparece na forma de um homem, então não há
nenhuma razão para rejeitar completamente a possibilidade de
Qm s m B s t á A s s e n t a c o na C a d e ir a ? Ill

que Yeshua possa ser divino. O conceito de um Deus-Homem é


perfeitamente legítimo dentro da visão de mundo da Lei e dos
Profetas.
Vamos simplificar 0 desafio moral e lógico. A Lei e os Pro-
fetas vieram antes da Nova Aliança. Se a Nova Aliança tem um
conceito totalmente diferente de Deus, então a Nova Aliança
está errada, não a Lei e os Profetas. A Nova Aliança apresenta
Yeshua como 0 Filho de Deus. O termo “Filho de Deus” signi-
fica a revelação de Deus à humanidade na forma de um homem.
Se a Lei e os Profetas declaram que Deus não pode aparecer
na forma humana, então a premissa da Nova Aliança é herética
em sua própria raiz.4
Por outro lado, se a Lei e os Profetas autorizam e confirmam
que Deus pode aparecer na forma de homem, então a revelação
de Yeshua na Nova Aliança é uma opção plausível. Do nosso
ponto de vista, esta é a conclusão óbvia e necessária para as
Escrituras Hebraicas. Neste estudo, descobrimos repetidamente
que um ser divino, na forma de um Homem, era o centro da fé
de nossos pais. Esta revelação, de modo lógico e razoável, leva
à fé em Yeshua.
A Bíblia usa linguagem poética e estética. Tenho descrito
essas aparições divinas como um “Deus-Anjo-Homem”. Que
nome poderiamos dar a alguém que é a imagem do Deus invisí-
vel na forma humana? A maneira mais simples e afável de dizer
isso é: Filho.
No judaísmo do Segundo Templo, a ideia de que o Messias
seria chamado 0 Filho de Deus foi aceita (SI 2.2,7). A divergên-
cia nos evangelhos não era se o Messias podería ser chamado
de “Filho de Deus”, mas se Yeshua era de fato essa pessoa (Mt
26.63; 27.40).
A Nova Aliança chama Yeshua de Filho de Deus. Isso não
se refere a um nascimento decorrente de relações conjugais. Isso
significa que Yeshua é o Deus-Anjo-Homem que apareceu aos
4 E é exatamente por isso que muitos rabinos sinceros ficam tão irritados com judeus
messiânicos. Eles acreditam que, quando falamos da divindade de Yeshua, estamos tra-
zendo uma visão de Deus totalmente herética.
112 6¿u.eM a lm o ç o u , com A braão?

nossos antepassados. Ele é a imagem humana e visível do Deus


invisível. Ele é “Ben Elohim”, o Filho que procedeu da parte do
Pai e o manifestou à humanidade.
Ninguém jamais viu a Deus; o Deus [o Filho] unigénito, que
está no seio do Pai, é quem 0 revelou.
João 1.18
A fim de que nosso cérebro limitado seja capaz de entender
algo sobre Deus, precisamos vê-lo de uma maneira que um ser
humano consiga compreender. Tudo o que é possível saber a
respeito de Deus se encontra em Yeshua. Ele faz com que Deus
seja compreensível. Não podemos ver Deus. Mas podemos co-
nhecê-lo por meio do Filho de Deus. Ele é a manifestação de
Deus em forma humana (Cl 1.15; 1 Tm 3.16; Hb 1.3).
Ezequiel descreveu os detalhes do que viu e de quem viu
no capítulo 1. Entretanto, essa não foi a única vez em que o viu.
O livro de Ezequiel registra que ele viu o Senhor em sua glória
cinco vezes! (Nos outros encontros, ele não dá detalhes do que
viu, pois já havia registrado isso no capítulo 1.) Segue uma bre-
ve citação de cada uma dessas cinco visões:
Sobre esta espécie de trono, estava sentada uma figura seme-
lhante a um homem.
Ezequiel 1.26
‫על דמות הכסא דמות ?מראה אז־ם‬

A glória de Yehovah estava ali, como a gloria que eu vira


junto ao rio Quebar; e caí com o rosto em terra.
Ezequiel 3.23
‫כבוד־להוה עימד ככבוד אשר ךאיתי על־נהר־כבר‬
:‫ואפל על־פני‬
Olhei, e eis uma figura como de fogo; desde (a aparência de|
seus lombos e daí para baixo, era fogo e, dos seus lombos
para cima, como o resplendor de metal brilhante [o brilho
62r e m E s t a A s s e n t a d o na C a d e ir a ? 113

como de eletricidade]. Estendeu ela dali uma semelhança de


mão...
Ezequiel 8.2,3
‫ואךאה והנה ךמות ?מךאה־אש ממראה מהניו ולמטה‬
‫אש וממתניו ולמעלה?מךאה־זהר ?עין החשמלה‬:
...τ ‫וישלח תכנית‬

Olhei, e eis que, no firmamento que estava por cima da ca-


beça dos querubins, apareceu sobre eles uma como pedra de
safira semelhando a forma de um trono. Então ele falou...
Ezequiel 10.1,2
‫ואראה והנה אל־הרקיע אשר על־ריאש הכרכים ?אכן‬
...‫ ויאמר‬:‫ספיר ?מראה דמות כסא נראה עליהם‬

E eis que... vinha a glória do Deus de Israel... O aspecto da


visão que tive era como o da visão que eu tivera... junto ao
rio Quebar; e me prostrei, rosto em terra... Então, ouvi uma
voz que me foi dirigida do interior do templo... e o Senhor me
disse: Filho do homem, este é 0 lugar do meu trono, e 0 lugar
das plantas dos meus pés...
Ezequiel 43.2,3,6,7
‫ במן־אה המראה אשר‬...‫ >יבוד אלהי ישראל בא‬,‫והנה‬
‫ראיתי כפןאה אשר־נאיתי ניכא ילשהת אה־תעיר‬
‫בכדואפל‬:‫אתי אל־נהר‬. ‫ומראות במראה אשר‬
‫ויאמר אלי בן־אדם‬...?‫ ואשמע מדבר אל‬:‫אל־פני‬
...‫את־מקום כסאי ואק־מקום כפות רגלי‬

Na maioria das ocasiões em que Ezequiel teve essas visões,


ele desmaiou. O Senhor precisou fortalecê-lo. Se o Senhor não
o tivesse protegido sobrenaturalmente, ele podería ter morrido.
Nessas visões, observe a menção da cadeira, o corpo em forma
humana e a mão estendida. Foram manifestações repetidas da
mesma Glória e do mesmo Deus-Homem que Ezequiel viu no
capítulo 1.
ψ
C apítulo Ο νζ€

M e u s O l h o s V ir a m o R ei

Isaías também teve a oportunidade de ver Deus na for-


ma de Homem assentado sobre uma cadeira ou trono.1

No ano da morte do rei Uzias, eu vi Adonai assentado sobre


um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam 0
templo.
Isaías 6.1
‫ ואן־אה את־אדיני ישב‬m y ‫בשנת־מות המלך‬
‫על־כסא רם ונשא ןשוליו מלאים את־ההיכל‬:
Isaías também viu criaturas angelicais e sobrenaturais com
asas, aqui chamadas de serafins em vez de querubins. Eles
estavam clamando: “Santo, Santo, Santo...”. Esse momento
de santa reverência tomou-se um modelo para adoração tanto
em comunidades judaicas quanto cristãs. No mundo judaico, é
chamado de Kedushah - ‫קדושה‬.
A resposta de Isaías em arrependimento, fé e humildade
sempre toca o coração de todos nós. Em contraste com a santi-
dade que vê naquele cenário todo, Isaías está consciente de sua
própria indignidade.

1 Ele 0 chamou de "Adonai", a forma plural de "Senhor", que normalmente é usada


para referir-se a Deus.
116 6 ¿ u e μ alm oçom . com A braão?

Ai de mim... pois os meus olhos viram o Rei, Yehovah dos


Exércitos.
Isaías 6.5
:‫ כי את־ה^לך יהוה צבאות ראו עיני‬...‫אוי־לי‬

É razoável perguntar se o Deus-Homem que Isaías viu foi


Deus “Pai” ou Deus “Filho”. Até certo ponto, qualquer uma das
respostas seria aceitável. Nosso propósito principal é mostrar
que, em toda a Lei e os Profetas, 0 Deus de Israel aparece em
forma humana.
No entanto, devemos examinar a questão com mais pro-
fundidade. Na Nova Aliança, João menciona a visão de Isaías
diversas vezes. Em seus escritos, há algumas referências que
poderíam indicar que Isaías viu o Pai celestial, mas a maioria
das referências indica que Isaías viu Yeshua, o rei messiânico.
Apocalipse 4 revela um momento de adoração celestial que
é uma composição tanto dos elementos de Ezequiel 1 quanto
os de Isaías 6. João descreve os quatro seres viventes, um fir-
mamento de cristal e a glória flamejante do mesmo modo que
Ezequiel havia visto (Ap 4.3-8). Ele descreve a adoração “San-
to, Santo, Santo” de modo semelhante a Isaías (Ap 4.8,9). E
descreve o trono e o que estava assentado sobre ele como vemos
em Ezequiel e Isaías (Ap 4.2,3). Isaías, Ezequiel e João tiveram
visões de uma mesma realidade divina.
Em Apocalipse 4, aquele que está sendo adorado é o Pai
celestial. Isso sugere fortemente que Isaías 6 e Ezequiel 1 foram
visões do Pai celestial também. Contudo, no livro de Apocalip-
se, Yeshua também é encontrado no trono, assentado ou de pé.
... assim como também eu vend e me sentei com meu Pai no
seu trono.
Apocalipse 3.21
Então vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre
os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto...
Apocalipse 5.6
M e i ^ s O l h o s v ir a m o "RLE! 117

Pois 0 Cordeiro que se encontra no meio do trono...

Apocalipse 7.17
... que sai do trono de Deus e do Cordeiro.
Apocalipse 22.1
Nela estará 0 trono de Deus e do Cordeiro.
Apocalipse 22.3
Nessas passagens, Yeshua está no centro ou no meio do tro-
no.2 Na sala do trono dos palácios reais, havia espaço suficiente
para mais de uma pessoa se assentar3. Portanto, com base nas
referências do livro de Apocalipse, a passagem de Isaías 6 pode-
ria se referir tanto ao Pai quanto ao Filho.4
Em João 12.3640‫־‬, também há uma referência muito im-
portante à visão de Isaías, na qual João discute um conflito entre
Yeshua e os líderes religiosos locais. Durante essa discussão,
João cita alguns trechos de Isaías 6. Depois, ele faz esta declara-
ção breve, porém incisiva:
Isto disse Isaías porque viu a glória dele e falou a seu res-
peito.
João 12.41
Este verso é estarrecedor. João afirma explícitamente que
Isaías viu Yeshua glorificado, não o Pai celestial. Ver Yeshua
como o rei glorificado em Isaías 6 muda radicalmente a nossa
perspectiva sobre a visão de Isaías quanto ao reino de Deus na
terra.

2 A palavra "meio‫ ״‬nesses versos é a palavra grega meso, como mezanino ou Mesopo-
tâmia.
3 Vemos isso, por exemplo, quando Bate-Seba sentou-se com Salomão em seu trono (1
Rs 2.19, veja também SI 45.9).
4 Nota: Ezequiel e Isaías viram um Deus-Homem assentado sobre um trono. A passa-
gem de 1 Reis 10.18-21 descreve a construção do trono de Salomão. Parece ser uma
réplica terrena do trono celestial, assim como o tabernáculo terreno era uma réplica
do celestial (Êx 25.9,40). Há um trono celestial e um trono terreno. A vontade de Deus
é que aquele que está assentado sobre 0 trono celestial governe também sobre 0 trono
terreno.
118 6Ζ1Λ(;M A L M O Ç O U . C O M A B R A Ã O ?

Uma terceira razão para interpretar a visão de Isaías como


uma descrição de Yeshua e não do Pai é o verso que já foi citado
anteriormente:
Ninguém jamais viu a Deus; o Deus [Filho] unigénito, que
está no seio do Pai, é quem 0 revelou.
João 1.18
Ninguém jamais viu a Deus. Quem foi, então, que os pa-
triarcas e profetas viram? Eles viram Yeshua, o Filho que mani-
festa Deus à humanidade. A declaração de João aqui oferece um
princípio geral de interpretação da Lei e dos Profetas. Nossos
antepassados não viram o Pai celestial; a pessoa que viram foi
Yeshua.
Quando Adão e Eva pecaram no Jardim do Éden, a Bíblia
diz que, de repente, “viram” que estavam nus. O fato de terem
visto a própria nudez não representou um ganho de capacida-
de visual, mas uma perda. Naquele momento, conseguiram ver
coisas carnais, mas, ao mesmo tempo, perderam a capacidade de
ver coisas espirituais. Não foi uma pequena perda de visão por
miopia; foi uma enorme queda para um estado de cegueira espi-
ritual. Daquele momento em diante, eles deixaram de enxergar
toda uma dimensão de realidade.
A partir do momento da Queda, não havia mais nenhum
propósito prático para que os seres humanos vissem 0 Pai. As
áreas de julgamento e relacionamento com os seres humanos fo-
ram delegadas inteiramente a Yeshua (Jo 5.22) até que o plano
de redenção estivesse concluído. Deus é o Pai, mas Yeshua é o
Salvador. Ninguém vai ao Pai a não ser por ele (Jo 14.6). A úni-
ca maneira de ver Deus é por intermédio de Yeshua (Jo 14.9).
Há ainda outro aspecto na declaração de Isaías: “Ai de
mim! Estou perdido... pois os meus olhos viram 0 Rei” (Is
6.5).
‫ את־המלןד יהרה צבאות‬,‫ כי‬...‫ואמר אוי־לי כי־נךמיתי‬
:‫ראו עיני‬
M eus O lh -o s v ir a m o Ríe i 119

A questão tem a ver com a palavra “Rei”. A ideia central em


todas as profecias do livro de Isaías é o papel do Rei divino para
governar esta Terra e o quadro do reino de Deus sobre a terra. A
revelação do Rei glorificado em Isaías 6 traz uma guinada em
nosso entendimento não só de Isaías, mas do próprio conceito
do reino de Deus.
Isaías teve uma visão de Deus no céu? Ou ele viu um Rei
glorificado que um dia reinaria sobre a terra no lugar de Davi?
Em última análise, a questão envolve saber se haverá um reino
messiânico terreno ou se a vida eterna consiste apenas em seres
espirituais no céu. Haverá um reino milenar literal ou isso é ape-
nas simbólico?
No hebraico, substantivos e verbos são semelhantes. Um
governante é aquele que governa. Um rei é aquele que “reina”,
isto é, que lidera um governo. Yeshua não foi designado por
Deus para ser apenas o Salvador da humanidade; ele recebeu a
incumbência de ser seu governante.
O mundo vindouro terá uma sociedade de paz e prosperi-
dade internacional (Is 2; Mq 4). Sobre essa sociedade, haverá
um governo; o Messias será o chefe desse governo. Aqueles que
andarem em integridade e justiça nesta vida reinarão juntamen-
te com 0 Messias no seu futuro governo (Ap 3.21; 5.10; 20.4;
20.6; Rm 8.17; Mt 19.28).
No atual Estado de Israel, há um presidente e um primeiro-
-ministro. Do ponto de vista legal, 0 presidente é maior do que
0 primeiro-ministro, mas é 0 primeiro-ministro que realmente
governa o país. O presidente recebe todas as honras diplomáti-
cas em nome da nação, mas não está autorizado a se envolver no
comando do governo.
Nosso Pai celestial é maior do que Yeshua. Yeshua é sub-
misso a ele. No entanto, embora trabalhem em unidade, eles
têm atribuições distintas em suas funções. Yeshua é semelhante
ao primeiro-ministro que dirige o governo do reino de Deus. O
reino pertence ao Pai (Mt 6.10), mas, quando se trata da Terra,
Yeshua é 0 Rei; ele é quem governa na prática. O Pai é mais
120 6Ζ1ΛΕΜ A L M O Ç O U . C O M A B R A Ã O ?

parecido com o presidente. Não é errado usar o termo “rei”


quando nos referimos a Deus Pai. Contudo, a maioria dos versí-
culos da Nova Aliança que citam o “rei” não está se referindo ao
Pai, mas a Yeshua. Isso é significativo.
Yeshua contou uma parábola sobre um banquete em Ma-
teus 22, no qual o Pai é o Rei. Paulo também se refere ao Pai
como o Rei que vive na luz eterna e invisível (1 Tm 1.17; 6.15).
Entretanto, praticamente todas as outras menções de rei divino
na Nova Aliança se referem explícitamente a Yeshua.
• Yeshua disse a Pilatos que ele havia nascido para ser
rei (Jo 18.37);
• Os sábios do Oriente procuraram aquele que nascera
para ser rei dos judeus (Mt 2.2);
• Yeshua é descendente do rei Davi (Mt 1.1);
• Jerusalém é a capital dele, a cidade do grande Rei
(Mt 5.35);
• Yeshua é o Rei que veio a Sião montado sobre um ju-
mento (Mt 21.5);
• Yeshua foi crucificado como Rei dos Judeus
(Mt 21.37);
• Natanael o reconheceu como o Rei de Israel (Jo 1.49);
• Yeshua foi recebido com gritos de Hosana, o Rei de
Israel (Jo 12.13);
• Yeshua é o Rei dos santos (Ap 15.3);
• Ele é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis (Ap
17.14;19.16).
O que Isaías quis dizer quando escreveu que viu o Rei?
Aqui o contexto é importante. Esse acontecimento está relacio‫־‬
nado, na passagem, à morte de Uzias, rei de Judá. Logo depois
de sua morte, Isaías teve uma visão em que vislumbrou outro rei
que um dia tomaria o lugar de Uzias. Esse rei seria maior, muito
mais glorioso. Ele precisa ser visto em comparação com Uzias.
M eu s O l h o s v ir a m o R.e1 121

Uzias era um dos descendentes diretos de Davi. Portanto,


Yeshua também é descendente de Uzias. Yeshua veio para tomar
0 lugar de Uzias eternamente. O reino de Yeshua é a extensão
espiritual dos reinos de Davi e Uzias. Os temas centrais das pro-
fecias de Isaías são o estabelecimento do reino de Deus na terra
e 0 Rei desse reino que estava para vir.
A visão de Yeshua exaltado em glória que vemos em Isaías
6 também contrasta com a descrição do servo sofredor que seria
exaltado, encontrada em Isaías 52-53.
Eis que 0 meu Servo procederá com prudência; será exalta-
do e elevado e será mui sublime [será muitíssimo elevado|.
Isaías 52.13
:‫הנה וקזכיל עבדי ע־ום ונשא וגבה ?¡איד‬

A exaltação de Yeshua em Isaías 6 deve ser entendida em


contraste com a exaltação em sofrimento do Rei Messias em
Isaías 52-53. Aquele que for exaltado em sofrimento será o mes-
mo a ser exaltado em gloria. O glorificado é o mesmo que sofre
(Is 57.15),
O Rei da gloria em Isaías 6 trará o reino de Deus á terra.
Yeshua é o Rei da gloria. Ele sofreu por nossos pecados. Ele nos
salvará e estabelecerá o reino de Deus. Ele nos revelará a natu-
reza de Deus. Ele governará e reinará sobre esta terra. Essa é a
esperança que acompanha a visão do Rei em Isaías 6.
A visão de Isaías do Rei exaltado no capítulo 6 faz parte da
série de profecias ao longo de todo o livro de Isaías que descre-
ve Yeshua e a vinda do seu reino messiânico. Se entendem os
Isaías 6 como uma visão do Pai, perderemos todo o propósito e
o contexto do livro de Isaías.
Isaías começa o capítulo 2 com uma visão sobre o reino de
Deus na terra. Mas, nessa visão, não há rei. Isaías 2 mostra um
reino sem rei. Isaías 6 mostra um rei sem reino. O rei de Isaías 6
está relacionado com o reino de Isaías 2.
Os capítulos 7 e 9 de Isaías falam sobre 0 nascimento de um
122 A L M O Ç -ΟΙΛ C O M A B R A Ã O ?

menino sobrenatural que será, ao mesmo tempo, rei e divino.


Mas, nessas profecias, não o vemos como um adulto. Em Isaías
6, Yeshua é o bebê crescido que vimos nas promessas de Isaías
7 e 9. Isaías 6 precisa ser visto ao lado de Isaías 7 e 9.
Isaías 40 (e muitos outros capítulos) faz referências às boas-
-novas da vinda do Messias e de seu reino.
O mensageiro de boas novas a Sião, sobe a um monte alto.
O mensageiro de boas novas a Jerusalém, levanta bem alto
a voz; levanta-a, não temas, e diz às cidades de Judá: Aqui
está o vosso Deus!
Isaías 40.9 (A121)
‫על הר־גביה עלי־לך ?וב^ךת צ*ון הרימי בכרו קולך‬
‫וךת ;תשלם הרימי'אל־תילאי אמךי'לעךי יהולה‬$>‫ןוב‬
.‫הנה אלהיכם‬

Isaías 6 é a visão do “rei que é Deus”, o qual Judá está


sendo convocado a contemplar com os próprios olhos. Esse é o
Rei que Isaías viu. Esse é o Rei divino acerca de quem estamos
escrevendo aqui. Isaías 6 precisa ser visto lado a lado com Isaías
40.5
Os capítulos 52 e 53 de Isaías, como mencionei antes, des-
crevem o sofrimento e a crucificação do Messias. A pessoa glo-
rificada em Isaías 6 é a mesma que aparece crucificada em Isaías
53. O personagem crucificado em Isaías 53 é o mesmo que é
visto glorificado em Isaías 6.
“Porventura, não convinha que o Cristo [Messias] pade-
cesse e entrasse na sua glória?” (Lc 24.26). O Messias precisa
sofrer e TAMBÉM entrar na sua glória. Isaías 53 deve ser visto
em conjunto com Isaías 6.
Os capítulos 65 e 66 de Isaías descrevem a restauração de

5 Nota: enquanto digito estas palavras, estou sentado numa colina em um subúrbio nos
arredores de Jerusalém. 0 nome desta vila é "Quem Compartilha as Boas-novas com
Sião‫ ״‬. É neste lugar que estou escrevendo sobre Isaías 6 e 40, dizendo a Judá: "Este rei
glorificado é 0 seu Deus; ele é Yeshua‫ ״‬.
M e u s O lhos v ir a m o Rs i 123

Sião na nova criação. A restauração de Isaías 65-66 acontece


no reino de Isaías 2, liderada pelo rei de Isaías 6, que foi cru-
cificado em Isaías 53. Se não virmos aquele que é exaltado em
Isaías 6 como Yeshua, perderemos a sequência de pensamento
nas profecías de Isaías.

Poderiamos resumir essa sequência de pensamento nas profe-


cias de Isaías acerca do reino assim:
Isaías 2: o reino na terra com capital em Jerusalém;
Isaías 6: o Rei messiânico desse reino glorificado;
Isaías 7, 9: a criança divina que se tomará o Rei mes-
siánico;
Isaías 35, 40: proclamação das boas-novas do reino
vindouro;
Isaías 42, 49: boas-novas proclamadas às nações do
mundo;
Isaías 52-53: o sofrimento do Rei messiânico para re-
mover o pecado;
Isaías 65-66: restauração da criação no novo mundo
desse reino.
Quando vemos Yeshua como o Rei de Isaías 6, há urna lógi-
ca coerente na visão do reino de Deus do inicio ao fim de Isaías.
Isaías viveu cerca de 200 anos depois de Davi. Suas pro fe-
cias tratam de um problema teológico. O reino de Davi e de seus
filhos deveria ser o reino de Deus. Contudo, o reino de Davi
foi contaminado por intriga política, imoralidade sexual e cri-
mes violentos. Este não poderia ser o verdadeiro reino de Deus.
Isaías começou a vislumbrar um reino davídico “aperfeiçoado”.
Ele viu um mundo vindouro que seria novo e muito melhor. Ele
viu o Rei divino que governaria esse reino.
As profecias de Isaías (e de todos os profetas de Israel) fa-
zem urna ponte entre o reino davídico histórico e o reino mes-
siánico espiritual. Elas formam um estágio intermediário: o
primeiro estágio aconteceu nos reinados de Davi e Salomão; o
124 62k 5 m a lm o ç o u . com A braão?

segundo é a visão dos profetas de Israel; o terceiro é o evan-


gelho de Yeshua e seus discípulos. A compreensão do reino de
Deus é progressiva, começando nos anos de Davi, passando por
Isaías, até chegar a Yeshua.
Metaforicamente, poderiamos ver o reino de Davi como
um corpo; as profecias de Isaías são a alma, e o evangelho de
Yeshua é o espírito. Se não enxergamos a ponte nas profecias de
Isaías, então o reino davídico continua a ser uma entidade polí-
tica na qual falta a dimensão espiritual mais ampla, e a visão que
a Igreja tem de um reino celestial continua a ser um misticismo
espiritual desprovido de corpo. As profecias de Isaías acerca do
reino trazem o elo que unifica os dois opostos em harmonia.
O Rei glorificado de Isaías 6 é o elo fundamental entre o reino
material e o espiritual. Quando vemos Isaías 6 como o Rei messiâ-
nico glorificado, então os aspectos celestiais e terrenos do reino
de Deus se encaixam em perfeita harmonia (Zc 14.9; E f 1.10). O
Rei glorificado de Isaías une 0 reino celestial ao terreno. Ele une a
visão cristã com a visão judaica do reino de Deus. Este éo Rei que
os olhos de Isaías viram. Um dia nossos olhos também o verão.6*1

6 Nota: Isaías tem 66 capítulos. 0 Tanakh (VT) tem 39 livros, e a Nova Aliança (NT),
27. Assim, os 66 capítulos de Isaías representam os 66 livros do Tanakh juntamente
com a Nova Aliança. No 40° capítulo de Isaías (equivalente ao primeiro capítulo da
Nova Aliança), notamos uma perceptível mudança de estilo na escrita apesar de ainda
continuar no mesmo tema. Isaías 40 contém profecias claras sobre a "pregação das
boas-novas" (evangelho) - versos 3-11. Isaías 40 é citado em todos os evangelhos como
a base do ensino de João Batista em sua apresentação de Yeshua como Messias para 0
povo de Israel.
A mudança no estilo é tão dramática que quase todas as universidades não religiosas
ensinam que houve dois profetas de nome Isaías que escreveram 0 livro; um, do capítulo
1 ao 39, e 0 outro, do capítulo 40 ao 66. (A crítica textual de Isaías é muito mais com-
plexa do que isso, mas quase todos concordam que houve mais de um autor.) Eu acredito
que houve apenas um autor, pois 0 tema do Reino de Deus é coerente do início ao fim. Ao
mesmo tempo, podemos ver como os próprios pensamentos de Isaías se desenvolveram
ao longo de sua vida à medida que ele amadurecia como profeta.
De modo semelhante, a Nova Aliança é um salto muito claro na revelação do Reino de
Deus, embora seja uma progressão coerente da mesma visão que foi proclamada pelos
profetas hebreus. As profecias de Isaías são um desenvolvimento maior do reino de
Davi; e a Nova Aliança é uma progressão que vai além das profecias de Isaías. Há uma
revelação progressiva e coerente que vai desde os reinados de Davi e Salomão, continua
com os profetas israelitas do exílio e chega à mensagem do evangelho de Yeshua e seus
discípulos.
C apítulo Dozf
O F il h o d o H o m e m

Urna vez que de fato Deus apareceu na forma de homem


por toda a Biblia Hebraica, não há nenhuma razão para rejei-
tar a premissa da Nova Aliança de que Yeshua pode ser aquele
“Deus-Homem”. Yeshua é o melhor candidato para satisfazer a
essa descrição. Na verdade, ele é o único candidato possível que
possa satisfazer a essa descrição. Em toda a história, nenhum
outro nome plausível já foi proposto como tal.
Yeshua é a revelação clara desse “homem-mistério” da Ve-
lha Aliança. Isso é parte da “novidade” da Nova Aliança. O que
já existia na Lei e nos Profetas de forma velada tomou-se aber-
tamente conhecido por todos.
A revelação de Deus ao homem na forma humana é chama-
da de “Filho” de Deus. O conceito de o Messias ser chamado
“Filho” de Deus também foi introduzido pelos profetas de Israel
antes da Nova Aliança (veja, por exemplo, SI 2.7; 2 Sm 7.14;
Pv 30.4; Is 7.14; 9.6; Dn 3.25). Se Yeshua é 0 Messias, então
ele é aquele Deus-Homem, aquele “Filho” .
A revelação de Deus ao homem vem por meio do Deus-Ho-
mem. Nosso Pai celestial delegou essa tarefa ao Filho. Quase
sem exceção, 0 Pai celestial não é visto. Quem foi visto pelas
pessoas foi o Filho, Yeshua. Esse princípio foi resumido de ma-
neira sucinta por João:
126 Ο μ ,β μ a l m o ç o u , c o m A b r a ã o ?

Ninguém jamais viu a Deus; 0 Deus [Filho] unigénito, que


está no seio do Pai, é quem 0 revelou.
João 1.18
Yeshua é a manifestação do Pai (Jo 14.6; 1 Tm 3.16). Nin-
guém jamais viu o Pai. Quem foi visto pela humanidade foi o
Filho. Conheço apenas duas exceções a essa regra: uma na Ve-
lha Aliança (Dn 7) e uma na Nova (Ap 5).
Neste capítulo, queremos fazer as perguntas: “Por que o Pai
normalmente não aparece? Por que as aparições de Deus são
realizadas pelo Filho? Por que o Pai aparece juntamente com
Yeshua nessas duas exceções?”.
A revelação de Deus à humanidade deve vir por meio de
alguém que seja ele próprio um filho de homem. Em termos
bíblicos, isso é afirmado de forma bem simples: “Porque ele é 0
Filho do Homem”.
Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vi-
nha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e
dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele.
Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos,
nações e homens de todas as línguas o servissem [adoras-
sem]; 0 seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o
seu reino jamais será destruído.
Daniel 7.13,14
‫מלא כבר אנש‬$ ‫]וי ליליא _וארוי עם־ענני‬0‫חזה סוית ם‬
:‫אתה להרה ועד־עתיק לומלא מסה וקז־מוהי הקךברהי‬
‫א‬,‫ולה להיב שלמלרקר ומלצר וכל עממיא אמי‬
‫ולהניא לה יטלחון שלטנה שלטן עלם זלי־לא לעלה‬
:‫ומלכותה די־לא תהחבל‬
Este é um dos quadros mais explícitos do Messias na Bíblia
Hebraica. Esta profecia estabelece 0 cenário para as expectati-
vas messiânicas que encontramos na nação de Israel durante 0
período do Segundo Templo nos evangelhos.
O F il h o d o Ho m em 127

O Ancião de Dias é Deus, nosso Pai celestial. O Filho do


Homem é o Messias. O Messias é levado diante de Deus. Gran-
de autoridade é delegada a ele. Na verdade, toda a autoridade é
delegada a ele (Mt 28.18; Fp 2.9). Todos os povos o adoram e
o servem.1
Para o nosso povo judeu, dizemos: Este é o nosso Messias.
Ele tem toda a autoridade na Terra. Todas as nações o adoram.
Ele é levado à presença de Deus sobre as nuvens do céu. Quem
mais podería ser este senão Yeshua? Alguém tem de cumprir
essa profecia. O Messias deve satisfazer a descrição nesta passa-
gem. Se não fosse Yeshua, teria de ser alguém exatamente como
ele. Se o Messias ainda não chegou, então, quando vier, ele será
exatamente como Yeshua.
Uma objeção do povo judeu quanto a Yeshua ser o Messias
é que muitos de nossos sábios 0 rejeitaram e muitos dos gentios
o aceitaram. Ironicamente, isso não é uma prova contra Yeshua,
mas sim a favor dele. O Messias tinha de ser rejeitado em sua
própria geração (SI 118.22a; Is 53.3) e receber autoridade so-
bre as nações dos gentios (SI 118.22b; Dn 7.14). Vemos esse
mesmo padrão em José (Yoseph) no livro de Gênesis: ele foi
rejeitado por seus irmãos, mas tomou-se governador do Egito.
Por essa razão, os judeus às vezes se referem ao Messias como
Ben Yoseph.
O texto de Daniel 7.13, citado acima, descreve o Messias
como aquele que veio “com as nuvens do céu”. Essa descrição
faz lembrar a ascensão de Elias ao céu num redemoinho (2 Rs
2.11). Yeshua subiu ao céu de forma parecida (At 1.10). Ele
voltará naquelas mesmas nuvens (At 1.11).
Por que o Ancião de Dias e o Messias Filho do Homem
aparecem juntos de maneira tão singular em Daniel 7? Um dos

1 Nota: a palavra aqui no aramaico vem da raiz, ‫ח‬-‫ל‬-‫פ‬, P-L-KH, que tem dois signifi-
cados: adorar em um culto religioso e servir como um trabalhador comum. Da mesma
maneira, no hebraico, a raiz ‫ד‬-‫ב‬-‫ע‬, U-B-D, significa tanto trabalho quanto adoração.
Trabalho e adoração são pensamentos paralelos. A questão é que a palavra em Daniel
para servir ou adorar sugere tanto adoração espiritual quanto submissão à autoridade.
128 C Z ueM a l m o ç o u , c o m A b r a ã o ?

propósitos consiste em demonstrar a transferência de autoridade.


Não seria suficiente mostrar o Filho sozinho ou o Pai sozi-
nho. A autoridade precisa ser delegada; a comissão precisa ser
atribuída; a unção precisa ser transmitida. Para mostrar tal dele-
gação de autoridade, ambos tinham de ser vistos juntos (assim
como Davi precisou demonstrar a delegação da autoridade do
reino a Salomão - 1 Rs 1).
O segundo lugar onde o Pai e o Filho aparecem juntos é em
Apocalipse 5. Aqui está um pequeno trecho:
Então vi, no meio do trono... de pé, um Cordeiro como tendo
sido morto... Veio, pois, e tomou 0 livro da mão direita da-
quele que estava sentado no trono.
Apocalipse 5.6,7
O propósito de mostrar o Pai e o Filho juntos nesta passa-
gem é um pouco diferente daquele de Daniel 7. Em Apocalipse
1, Yeshua é revelado em toda a sua glória.2 Depois de mostrar
essa glória, porém, as Escrituras devem esclarecer pelo menos
uma vez a diferença entre o Pai e Yeshua. Se esse esclarecimen-
to não fosse feito, alguns poderíam pensar que não existe um
Pai, como se só existisse o Filho; ou que Yeshua é tanto 0 Pai
quanto 0 Filho. Esse erro foi propagado por alguns pela teologia
“só Jesus” (Unitária). O fato de os dois aparecerem juntos, tanto
em Daniel 7 quanto em Apocalipse 5, esclarece esse mal-en-
tendido.
Deus se manifesta à humanidade por intermédio do Filho. O
Pai e o Filho tinham de ser vistos juntos em duas ocasiões, uma
nos Profetas e outra na Nova Aliança. Flavia dois propósitos: o
primeiro era mostrar a delegação de autoridade; o segundo era
esclarecer a diferença entre o Pai e 0 Filho. Quando lemos as
passagens de Daniel 7 e Apocalipse 5 em conjunto, não temos
dúvidas quanto aos seus papéis distintos.
Os escritos de João têm uma dimensão singular de reve-
lação espiritual. O evangelho de João foi escrito depois dos

2 Veja mais sobre isso na Parte Cinco.


O F il h o ‫ סצו‬Η ‫־‬ο μ 6μ 129

três primeiros. Os três primeiros evangelhos se concentram em


relatar o que aconteceu no ministério de Yeshua; João se con-
centra no porquê isso aconteceu. No capítulo 14, João trata da
questão de por que Yeshua, e não o Pai, recebeu a função de
trazer a revelação de Deus à humanidade.
Os discípulos de Yeshua percebem que ele é o Messias. Pe-
dem-lhe para mostrar-lhes a glória do Pai (semelhante ao pedido
de Moisés em Êxodo 33). Yeshua responde que não é necessário
que eles vejam 0 Pai. O que veem nele é o suficiente para saber
como 0 Pai é. Toda revelação que o Pai teria desejo de lhes dar
já é encontrada em Yeshua.
Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o
Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?
João 14.9,10
Toda revelação de Deus ao homem está contida no Deus-
-Homem. A razão para isso é que Deus tem um plano para a hu-
manidade. Parte do destino de Deus para 0 homem é comunicar-
-nos atributos divinos (2 Pe 1.3, 4). A transmissão de atributos
divinos ao homem é feita de modo mais efetivo por meio de um
homem que tenha em si mesmo os atributos divinos. O propósi-
to de Deus para a raça humana foi planejado antes da fundação
do mundo (Ef 1.4-11). Seu plano é para 0 nosso benefício.3
Como o plano inclui 0 homem, não é possível avançar mais
rápido do que este é capaz de recebê-lo. A revelação de Deus
aos homens é a revelação de Deus em fa vo r dos homens e, por-
tanto, deve vir por meio de um homem. A razão de 0 plano vir
por Yeshua é que ele é o Filho do Flomem. Um plano para seres
humanos precisa ser executado por meio de um ser humano. Se
o plano de Deus fosse apenas para os anjos, então ser Filho de
Deus bastaria para Yeshua. Mas como 0 plano de Deus é para a
humanidade, precisa ser expresso por alguém que seja um ho-
mem, o Filho do Homem.

3 Para uma lista de versículos sobre 0 plano preordenado de Deus, veja 0 Apêndice 9:
"Antes da Fundação‫ ״‬.
130 6Zk 6 m a l m o ç o u com A braão?

Deus Pai não pode abrir mão de sua glória, sair do trono e
assumir 0 papel de servo para a humanidade. Essa tarefa é do
Filho (Fp 2.6-8). Ele é a ponte entre Deus e a humanidade. Ele
veio de Deus para o homem, como um homem, para o benefício
do homem. Ele restaurará a humanidade de acordo com 0 desti-
no de Deus para ela.
Por essa razão, Jesus usa a palavra “maior” duas vezes em
João 14. Ele diz que 0 Pai é maior do que ele (Jo 14.28). Ele
também diz que os discípulos farão obras maiores que as dele
(Jo 14.12). Nessas declarações, Yeshua não só expressa amor e
humildade, mas também 0 foco de sua missão. Ele veio do Pai
(que é maior) para levantar a humanidade (a fim de que ela faça
coisas maiores). A missão de Yeshua foi-lhe delegada pelo Pai
para levar a humanidade ao seu destino.
Yeshua não veio buscar sua própria grandeza. Ele veio nos
mostrar a grandeza do Pai e levar-nos à grandeza que o Pai pia-
nejou para nós. (E claro que a disposição de sacrificar-se pelos
outros é o que faz com que Yeshua também seja tão grande.)
Yeshua veio como Deus à imagem do homem para ajudá-lo a
tomar-se homem à imagem de Deus (Gn 1.26).
A fim de cumprir 0 plano preordenado de Deus, precisa ha-
ver alguém que seja a imagem de Deus para o homem e, ao mes-
mo tempo, homem à imagem de Deus. Isso exige que tal pessoa
seja ao mesmo tempo Deus e homem. Essa é a genialidade do
plano de Deus que vem por intermédio de Yeshua. Não há razão
para Deus se revelar à humanidade neste estágio. O que é para o
homem deve acontecer por meio de um homem. O Pai é maior
que Yeshua. Contudo, a plenitude do plano de Deus está contida
em Yeshua, porque ele é Deus e homem em um só.
A primeira visitação do Deus-Homem à humanidade está
registrada em Gênesis 3.8, quando Adão e Eva “ouviram a voz
de Yehovah Deus que andava pelo jardim”. Se isso tivesse
acontecido com algumas horas de antecedência, antes da queda
no pecado, este podería ter sido Deus Pai. No entanto, uma vez
que já tinham caído, podemos supor que era Yeshua. Naquele
momento, ele deu início à sua missão de redenção.
O F ilh -o ‫ ספ‬H o m e m 131

Há muitas razões pelas quais o Pai deu a Yeshua toda a au-


toridade. Yeshua tem autoridade para salvar 0 homem (Jo 3.16),
julgar o homem (Jo 5.27) e governar o homem (Dn 7.13). Ele
pode ser 0 nosso intermediário (1 Tm 2.5), nosso advogado (1
Jo 2.1) e nosso Sumo Sacerdote (Hb 4.15). Yeshua pode cum-
prir todas essas funções porque ele é humano e divino. Ele tem
toda a autoridade porque Ele é o Filho do Homem.
E lhe deu [0 Pai] autoridade para julgar, porque é 0 Filho
do Homem.
João 5.27
Vamos resumir algumas das razões pelas quais a revelação
de Deus à humanidade vem por intermédio do Filho e não do
Pai.
1. Igualdade: para que seja feita justiça aos homens, estes
devem ser responsabilizados com base num padrão justo.
Esse julgamento deve ser realizado por alguém que seja
um “igual”, que possa entender o que os seres humanos
experimentam.
2. Habitação: Deus nos criou porque queria habitar no nos-
so interior. Por isso, o plano de Deus se concentra num
homem que é totalmente cheio de seu Espírito. Yeshua
é esse homem, no qual a plenitude de Deus habitou em
forma corpórea (Cl 2.9).
3. Potencial: Deus deseja nos levar a um destino divino
como participantes de sua natureza (2 Pe 1.4). Portanto, o
modelo para esse plano precisa ser um homem com atri-
butos totalmente divinos.
4. Expiação: para o perdão dos pecados, precisamos de um
sacrifício expiatório que seja substitutivo. Precisa servida
por vida, alma por alma (Lv 17.11). Um animal não é o
bastante; Deus Pai é muito. Só Yeshua satisfaz a necessi-
dade.
5. Proteção: visto que todos os seres humanos pecaram, a
exposição direta ao poder da glória de Deus nos mataria.
2 621ΛΕΜ A L M O Ç O U . C O M A B R A Ã O ?

Deus nos protege de si mesmo para nossa própria segu-


rança e envia Yeshua em seu lugar para nos redimir.
6. Relacionamento: não fomos criados para ser apenas ser-
vos, mas amigos (Jo 15.15). A única maneira de edifi-
car comunhão com os homens é por intermédio de um
Homem. Yeshua é o princípio da amizade entre Deus e o
homem.
7. Punição: parte do motivo de não podermos ver 0 Pai hoje
é o resultado do nosso pecado. Nossa punição é a separa-
ção (Is 59.2); vê-lo novamente será nosso privilégio no
final se formos fiéis.
8. Governo: se é para haver um verdadeiro reino de Deus na
terra, este deve incluir pessoas de verdade. Haverá uma
sociedade de pessoas vivendo juntas. Isso exigirá um go-
vemo justo para organizar 0 povo. Yeshua veio como um
rei humano e divino para estabelecer um governo justo
entre o povo de Deus.
9. Planeta Terra: Deus criou 0 universo com o céu e a terra
(Gn 1.1). Ele quer que ambos os elementos estejam em
harmonia. Hoje há uma ruptura entre os dois. Somente
alguém que seja membro dos dois pode unificá-los. A ple-
nitude do plano de Deus é unir 0 céu e a terra em Yeshua
(Ef 1.10).
10. Entendimento: como a parábola do elefante que se toma
uma formiga para explicar à formiga a natureza de um
elefante, assim Deus precisava vir na forma humana para
que o homem entendesse quem ele é.
11. Prazer: Deus projetou seu plano em tomo de um “Filho”
porque ele quis assim. É para seu próprio prazer (Ef 1.5).
Como qualquer pai, treinador ou pastor sabe, há mais pra-
zer em ver um filho ou discípulo fazer alguma coisa do
que você mesmo. Deus gosta de ver seus “filhos” serem
bem-sucedidos.
12. Intermediário: Quando a glória de Deus veio sobre 0
O F ! lh ‫־‬o ‫ סצן‬H‫־‬o m 5 m 133

Monte Sinai, o povo fugiu. Deus teve de mandar Moi-


sés subir e descer a montanha, porque as pessoas tinham
medo de aproximar-se de Deus (Dt 5.5). Da mesma for-
ma, Deus enviou Yeshua como o intermediário entre Deus
e a humanidade até que tudo seja reconciliado (1 Tm 2.5;
Dt 18.15),
A palavra para “homem” em hebraico é a mesma para
“Adão”. Assim, quando a Bíblia fala do Filho do Homem, isso
também podería ser escrito como “Filho de Adão”. Deus criou
Adão em Gênesis e lhe deu autoridade sobre este planeta (Gn
1.26; SI 115.16). Yeshua teve de vir como um filho de Adão a
fim de recuperar a autoridade que este perdera.
Por que a revelação de Deus à humanidade vem principal-
mente por meio de um Deus-Homem? Porque Deus ama a hu-
manidade e tem um plano para nós. Ele enviou Yeshua para nos
salvar do pecado e nos levar ao destino divino (Jo 3.16). Yeshua
pôde fazer isso porque ele não apenas é 0 Filho de Deus, mas
também é 0 Filho do Homem (Jo 5.27).
P arte C in c o

O A P O C A L IP S E

N esta seção, examinaremos as aparições do


Mensageiro Divino, como um 3-Comem de fogo
gCorifícado, ao p ro feta DaníeCna Ta6íCônía e ao
apóstolo João em Tatmos.
Descobriremos como a conexão entre essas duas
úCtímas aparições do 3-fomem gCorifícado reveCa
a compCeta divindade e identidade do Messias.
,D iscutiremos como o JkpocaCípse de João é a
reveCação fínaCde Deus à humanidade.
Tor fim , resumiremos nosso estudo sobre a
reveCação de Deus ã humanidade p o r meio de
u m 3-Comem.
C apítulo TpfZf

Q u e m é o H o m e m em C h a m a s ?

O Deus-Anjo-Homem apareceu aos profetas e patriarcas de


tantas maneiras e em tantas ocasiões que o assunto parece não
ter fim. Essa é exatamente a impressão que os primeiros disci-
pulos tiveram.
... para crer tudo o que os profetas disseram... E, começando
por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes
0 que a seu respeito constava em todas as Escrituras.
Lucas 24.25,27
Esta foi a metodologia que Yeshua usou para compartilhar
as boas-novas do Messias.
Importava se cumprisse tudo 0 que de mim está escrito na
Lei |Torá] de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes
abriu 0 entendimento para compreenderem as Escrituras.
Lucas 24.44,45
Há tantas referências a Yeshua no Tanakh (Lei, Profetas e
Escritos) que é praticamente impossível esgotar o tema.1
Dele todos os profetas dão testemunho...
Atos 10.43

1 Note que Yeshua usa a terminologia tradicional judaica que divide as Escrituras He-
braicas em três seções.
138 6 Z k 6 M A L M O Ç -ΟΙΛ C O M A B R A Ã O ?

Parece que todos os profetas escreveram sobre ele.


Eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as
coisas que estejam de acordo com a lei e nos escritos dos pro-
fetas.
Atos 24.14
Nossa posição quanto às Escrituras deve ser a mesma dos
apóstolos. O entendimento do reino messiânico na Lei e nos
Profetas tem‫־‬se perdido um pouco tanto no mundo judeu quanto
no cristão. Contudo, esse uso do Tanakh foi a base para a visão
de mundo dos apóstolos. Acredito que essa posição bíblica que
traz “todo o conselho” (At 20.27) do reino de Deus será restau-
rada em nossa geração.
Nada dizendo, senão o que os Profetas e Moisés disseram
haver de acontecer...
Atos 26.22
Quando os discípulos ouviram Yeshua ensinando as passa-
gens da Lei e dos Profetas que se referiam a ele mesmo, o co-
ração deles ardeu (Lc 24.32). Meu coração ainda arde quando
vejo todas essas passagens sobre o Messias e o Anjo-Yehovah
no Tanakh (VT). Espero que o seu arda também.
Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição
em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los
a respeito de Yeshua, tanto pela Lei [Torá| de Moisés como
pelos Profetas.
Atos 28.23
Há muitos textos em que Yeshua aparece, embora isso não
seja óbvio à primeira vista. Vejamos alguns exemplos:
Moisés: foi Yeshua que se colocou sobre a rocha de onde
saiu água para Moisés e os filhos de Israel (Ex 17.6).2
Samuel: Yeshua ficou ao lado da cama de Samuel e
o chamou (1 Sm 3.10). Aqui, como em outros lugares, ele é
2 Há uma referência velada a esta passagem em 1 Corintios 10.4. A rocha não era
apenas um símbolo de Yeshua; ele estava lá, em pé sobre a rocha. De outro modo, como
Moisés teria escrito isso?
6Zh EM E O H O M E M EM C H A M A S ? 139

conhecido como a Palavra-Yehovah. Este é um dos significados


da frase em João 1.1 e 14, que diz que Yeshua era a Palavra de
Deus que se fez carne.
Salomão: Yeshua apareceu duas vezes ao rei Salomão antes
que ele caísse em pecado. Ele deu a Salomão o espírito de sabe-
doria e revelação (1 Rs 3.5; 9.2). Saulo (Paulo) orou para que
nós, também, pudéssemos receber essa sabedoria por intermé-
dio de Yeshua (Ef 1.17-21); esta foi uma ampliação da oração de
Salomão na Nova Aliança.
Elias: o Anjo-Yehovah falou a Elias três vezes (1 Rs 19.7;
2 Rs 1.3,15). Ele enviou Elias em missão, deu-lhe palavras pro-
féticas e esteve com ele no perigo.
Amos: o profeta Amos viu o Deus-Homem duas vezes:
uma em forma humana ao lado de uma parede com um prumo
na mão (Am 7.7) e outra de pé ao lado do altar (Am 9.1).3
Há outro aspecto menos conhecido de Yeshua nos profetas
que tem grande importância. Esta será a nossa última referência
bíblica do Velho Testamento.
Levantei os olhos e olhei, e eis um homem vestido de linho,
cujos ombros estavam cingidos de ouro puro de Ufaz; 0 seu
corpo era como o berilo |uma joia de Társis], o seu rosto,
como um relâmpago, os seus olhos, como tochas de fogo, os
seus braços e os seus pés brilhavam como bronze polido; e a
voz das suas palavras era como o estrondo de muita gente.
Daniel 10.5,6
‫ואשא את־עיני' וארא והנה איש־אחד לבוש בדים‬
λ· - j τ Ιτ ν · ;··· i V ·· τ - ‫זד‬ » ‫ זד‬τ

‫ וגופתו ?תךשיש ופניו‬:‫ומת;יו ס^רים ?בתם אופז‬


‫?מךאה ברק ןעיניו'?לפידי אש וןךעתלומרגלהיו‬
:‫?»ין }חשת קלל וקול דבריו ?קול המון‬
O que faz esta alusão aparentemente obscura explodir de
significado é 0 fato de essa descrição ser citada por João no
3 Para uma lista mais completa de referências das aparições de Deus na forma de
homem nas Escrituras Hebraicas, consulte 0 Apêndice 1: "Aparições Divinas na Bíblia
Hebraica‫ ״‬.
140 6 2 k £ M A L M O Ç -ΟΙΛ C O M A b >RΛ Α Ο ?

Apocalipse, quase palavra por palavra, quando ele descreve


Yeshua. É tão semelhante que não temos escolha a não ser en-
tender que está se referindo à mesma pessoa.
Voltei-me para ver quem falava comigo...
... um semelhante ao Filho do Homem, com vestes talares e
cingido, à altura do peito, com um cinto de ouro.
A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como
neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes
ao bronze polido, como que retinado numa fornalha; a voz,
como voz de muitas águas.
... O seu rosto brilhava como o sol na sua força.
Apocalipse 1.12-16
João estava simplesmente citando Daniel? Ou as passagens
parecem idênticas porque 0 que os dois viram foi exatamente
a mesma pessoa? Vamos entender isso nos dois sentidos. 1) O
Homem glorificado no livro de Daniel não é um anjo comum; é
Yeshua. 2) O Yeshua do livro de Apocalipse aparece em Daniel
e em suas profecias.
Os últimos três capítulos do livro de Daniel são um resumo
do que esse Homem lhe disse. Essas profecias são precurso-
ras das profecias do Apocalipse. Daniel e João usaram a mesma
fonte.
Uma seção muito importante do livro de Daniel é uma pro-
fecia que ele recebeu de Yeshua sobre o futuro. Tanto Daniel
quanto João receberam uma revelação diretamente de Yeshua.
Suas experiências foram muito semelhantes.
Há também uma ligação com 0 homem misterioso da foma-
lha ardente. Quando os três amigos de Daniel, Hananias, Azarias
e Misael se recusaram a obedecer à ordem de Nabucodonosor de
adorar seu ídolo, foram jogados numa fornalha. Imediatamen-
te, Nabucodonosor ficou atônito ao notar que havia uma quarta
pessoa lá dentro. Você pode imaginar quem era? Sim, o Filho
de Deus.
Tornou ele e disse: Eu, porém, vejo quatro homens soltos,
que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e
6Ζ1Λ6Μ é O H O M E M E M C H A M A S ? 141

0 aspecto do quarto é semelhante a um filho de Deus.


Daniel 3.25
‫גכךין אךבעה שרץ מהילכןי‬,‫ ןאמר הא־אנה הוה‬,‫ענב‬
‫בגוא־נוךא והבל לא־איחי בהון ןןותןדי רכיעיא במה‬
:‫לכר־אלהין‬
Este não era apenas um filho de Deus qualquer, mas o Filho
de Deus. Esse é outro exemplo de que “Filho de Deus” era um
termo conhecido em todo o antigo Oriente Médio e não apenas
uma invenção dos escritores dos evangelhos.
O Filho de Deus em Daniel 3 é o mesmo Homem de Fogo de
Daniel 10. Aquele que tem fogo emanando de seu corpo inteiro,
da cabeça aos pés, não teria qualquer dificuldade para andar no
meio do fogo de uma fornalha. (Da mesma forma, quando temos
o fogo de Deus em nosso coração, nada de fora pode nos ferir.)
O aspecto mais importante da relação entre Daniel 10 e
Apocalipse 1 é 0 que isso significa para a nossa compreensão de
Yeshua e do Anjo-Yehovah. O livro de Apocalipse é a revelação
culminante de quem é Yeshua.
O Apocalipse começa com a descrição de Yeshua em sua
forma glorificada. O livro está nos dizendo: “Vocês não enten-
deram todos os aspectos de quem é Yeshua apenas por meio
da leitura dos evangelhos. Nos evangelhos, ele não aparece em
forma glorificada (exceto por um breve momento no Monte da
Transfiguração - Mateus 17; Lucas 9). Há outra dimensão de
Yeshua que ainda não lhes foi revelada”.
Yeshua na Nova Aliança e o Anjo-Yehovah do Tanakh apa-
rece às vezes em forma glorificada e outras, em forma não glo-
rificada.4
As profecias do final dos tempos no livro de Apocalipse
começam exatamente neste ponto: a revelação de Yeshua como
o Anjo-Yehovah da Antiga Aliança. Vemos o Anjo-Yehovah
nos Profetas. Vemos Yeshua nos evangelhos. O último livro da
Bíblia apresenta os dois juntos. O livro de Apocalipse é a liga-
ção entre 0 Anjo de Yehovah e o Yeshua da Galileia.

4 Para uma discussão mais aprofundada sobre a diferença entre essas duas formas, veja
0 Apêndice 10: "Aparições Humanas e Glorificadas".
142 6Zm.em a lm o ç o u , com A braão?

O principal objetivo de Apocalipse 1 é confirmar essa liga-


ção entre Yeshua e o Anjo-Yehovah. Comprova 0 entendimento
de que Yeshua e Anjo-Yehovah são uma única pessoa. O livro
de Apocalipse não trata apenas do Fim dos Tempos. É a revela-
ção final de quem é Yeshua. Este também é o nosso objetivo na
última seção deste livro. Queremos ver Yeshua como João o viu.
Queremos entender Yeshua como João o entendeu.
Por meio do livro do Apocalipse, Deus quer nos dar a com-
preensão final de que Yeshua é o mesmo Personagem central
que aparece em toda a Bíblia. Ele era o mesmo Homem glori-
ficado em Daniel, Ezequiel e em todas as outras passagens na
Torá e nos Profetas.
Yeshua o Messias é o mesmo ontem, hoje e para sempre.
Hebreus 13.8
Yeshua é o mesmo na eternidade passada e na eternidade
presente. Portanto, podemos vê-lo em todas as suas aparições,
não apenas nos evangelhos, mas do Gênesis até ao Apocalipse,
do começo ao fim.
Eu sou o Alfa e o Omega, 0 princípio e o fim...
Eu sou o primeiro e o último.
Apocalipse 1.8,17
No hebraico, “princípio” e “Gênesis” são a mesma palavra
- Bereshit - ‫בראשית‬. Yeshua é o mesmo do Gênesis ao Apoca-
lipse.
A tese central do livro de Apocalipse é que Yeshua é o An-
jo-Yehovah. Assim, 0 Apocalipse harmoniza as aparições do
Deus-Homem na Velha Aliança com a pessoa de Yeshua na
Nova Aliança.
Apocalipse 1 nos apresenta um duplo desafio. 1) Se quiser-
mos entender quem é Yeshua em sua forma glorificada, devere-
mos estudar todas as suas aparições como Anjo-Yehovah na Lei
e nos Profetas. 2) Se quisermos compreender a Lei e os Profetas,
precisaremos compreender que 0 Anjo-Yehovah é Yeshua em
seu estado de pré-encamação. Essa é a revelação dupla que es-
tamos estudando juntos ao longo deste livro.
C apítulo C atorz £

A D iv in a R e v e l a ç3 ã o d e J o ã o

A compreensão antiga de Israel acerca da natureza de Deus,


da identidade do Anjo de Yehovah e da vinda do Rei messiáni-
co aumentou de forma progressiva. Naquele tempo, unir todas
as “peças do quebra-cabeça” não estava dentro dos limites da
possibilidade. Na época do Segundo Templo, no inicio do relato
dos evangelhos, havia uma fervorosa expectativa quanto à vinda
do Messias.
Na Nova Aliança, também há o desenvolvimento progres-
sivo no entendimento da divindade de Yeshua na mente de seus
discípulos. Vemos que Pedro foi 0 primeiro a ter a revelação
de que Yeshua é o Messias (Mt 16.16). A revelação de Pedro
estabeleceu 0 primeiro nível, a rocha, sobre a qual a Igreja e a
compreensão mais ampla da identidade de Yeshua seriam cons-
truídas.
Depois, Paulo recebeu outro grande nível de revelação ce-
lestial que impulsionou a Igreja para uma dimensão mais ampla.
Ele viu Yeshua como 0 Cristo divino, cabeça da Igreja inter-
nacional (Ef 1.20-22; 2 Co 12.2-4; G1 1.12; 2.2,6). Até Pedro
admitiu que Paulo compreendera coisas que ele mesmo ainda
não entendia (2 Pe 3.16).
Mais tarde, tanto no livro de Apocalipse quanto em seu
evangelho, João sobe para um nível mais elevado. A revelação
de João foi 0 último estágio no desenvolvimento das Escrituras.
Pedro teve a revelação necessária para pregar o evangelho ao
144 6¿ lalm a lm o ço u , com A b>r a ã o ?

povo de Israel. Paulo teve a revelação que serviu de base para


estabelecer a Igreja internacional. João teve a revelação que pre-
pararía Israel e a Igreja para a Segunda Vinda de Yeshua.
A revelação de Pedro era para a nação de Israel, com uma
característica judia; a de Paulo era universal e internacional; a
de João era celestial e eterna. Nos evangelhos sinópticos e em
Atos, Jesus é o Messias, o Rei de Israel. Nas epístolas, Yeshua é
o Cristo, cabeça da Igreja. No evangelho de João e no Apocalip-
se, Yeshua é Yehovah, a manifestação de Deus.1
Aqui estão sete exemplos de ensinamentos de João que re-
lacionam Yeshua ao Yehovah da Lei e dos Profetas.
1. Eu Sou
Em todo o evangelho de João, Yeshua diz de si mesmo: “Eu
sou”. Há mais de 12 declarações proféticas em que Yeshua diz:
“Eu sou”. A primeira referência é quando ele diz: “Eu sou ele”
para a mulher samaritana no poço (Jo 4.26); a última é quando
ele diz: “Eu sou ele”, fazendo cair por terra os soldados que vie-
ram para prendê-lo (Jo 18.5). Essas referências foram a maneira
de João relacionar Yeshua com 0 “EU SOU O QUE SOU” de
Êxodo 3.14. João acreditava que era Yeshua quem aparecera a
Moisés na sarça, e que o nome Yehovah se referia a ele.
Esta também foi a forma de João identificar Yeshua com
as muitas declarações “Eu sou” contidas nos capítulos 41 ao 49
de Isaías. Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo
desde 0 princípio; desde 0 tempo em que isso vem acontecen-
do, tenho estado lá. Agora Yehovah Adonai e seu Espírito me
enviaram (Is 48.16).
‫קךבו אלי ש?זעו זאת לא מראש בסתר דבךתי מעת‬
.‫היותה שם אני ועתה אדני יהוה שלחני ורוחו‬
I · ·V.-T T !
/· : IT : T — : ·ήΤ JT V.T Ví

Aqui, novamente, temos uma pessoa que foi enviada por


Deus alegando divindade. Ele era Deus, mas também foi envia-
do por Deus.

1 Para entender mais sobre esse tópico, veja 0 Apêndice 11: "Divino e Davídico‫ ״‬.
A X^IVINA ■R-6V6LAÇ.ÂO J0Ã 0 145

2. A Palavra
Yeshua é chamado de a Palavra de Deus. Isso é uma refe-
rência a Deus ter criado o mundo por meio de suas palavras:
“Haja ...”
No princípio era 0 Verbo |a Palavra], e o Verbo [a Palavra]
estava com Deus, e 0 Verbo [a Palavra] era Deus.
João 1.1
Essa expressão também se refere às aparições da Palavra
de Deus como o mensageiro divino que veio visitar os profetas.
A “Palavra” é tanto a mensagem quanto o mensageiro. Os pro-
fetas, às vezes, viam e ouviam, às vezes sentiam a presença e
ouviam e outras vezes apenas ouviam.
O fato de Yeshua ser a Palavra significa que ele veio e fa-
lou pessoalmente com alguém. Temos dois exemplos claros: 1)
quando Abraão viu e ouviu a palavra (Gn 15.1) e 2) quando a
palavra veio e se colocou ao lado de Samuel (1 Sm 3.7,10).
Depois destes acontecimentos, veio a Palavra-Yehovah a
Abrão, numa visão...
Gênesis 15.1
‫אחר הדברים האלה היה ךבר־יהוה אל־אבלם במשה‬
...‫לאמיר‬

Porém Samuel ainda não conhecia Yehovah, e ainda não lhe


tinha sido manifestada a Palavra-Yehovah.
Então, veio Yehovah, e ali esteve, e chamou como das outras
vezes: Samuel, Samuel!
1 Samuel 3.7,10
‫זךם יגלה אליו‬1‫זךם ;דע את יהוה ן‬2 ‫ושמואל‬
:‫דבר־יהוה‬
‫תביא יהוה ויתי^ב ויבריא כפעם־בפעם שמואל‬,
‫שמואל ויאמר שמואל‬
146 6¿k 5m a lm o ç o u , com A braão?

É interessante observar nos dois versos que a expressão


“Palavra de Yehovah” está na forma gramatical de nomes jus-
tapostos do hebraico. “Palavra” e “Yehovah” estão ligadas por
um hífen. As Escrituras não dizem “Palavra do Senhor”, mas
“Palavra-Yehovah”. As passagens de Gênesis e de Samuel são
impressionantes e só fazem sentido à luz do entendimento de
João de que Yeshua era a Palavra de Yehovah.
A Palavra-Yehovah vem e visita Abraão e Samuel. Conhe-
cer Yehovah é conhecer essa “Palavra-Yehovah”. João entendeu
que Yeshua era aquela Palavra profética que veio visitar nossos
pais.
3. Autor dos Dez Mandamentos
Na Parte Dois, discutimos a passagem de João 8.6 em que
Yeshua escreve com o dedo no chão em resposta ao desafio de
religiosos quanto à pena de morte por adultério. Essa referência
o identificou como 0 Anjo-Yehovah que escreveu os Dez Man-
damentos com o “dedo de Deus”, de acordo com Êxodo 31.18.
João entendeu que foi Yeshua quem escreveu os Dez Manda-
mentos.
4. Visitante de Abraão
Na Parte Um, estudamos João 8.56 que mostra como
Yeshua já havia visto e conhecido Abraão, e que também existia
antes dele. Essa referência o identificou como 0 Yehovah visi-
tante que veio com dois anjos para almoçar com Abraão (Gn
18.1). João entendeu que aquele visitante era Yeshua.
5. Comandante de Josué
Na Parte Três, vimos a ligação entre o Comandante de Jo-
sué 5.13 que veio para lutar em Jerico e o Comandante de Apo-
calipse 19.11 que vem guerrear na Segunda Vinda. João acredi-
tava que o Comandante que apareceu a Josué era Yeshua.
6. Rei de Isaías
Na Parte Quatro, vimos que João 12.41 identifica dire-
tamente o Rei glorificado de Isaías 6.1 como Yeshua. João
A ,D ivina ‘R . b v b l a ç ã o J o ã o
147

acreditava que o Rei descrito em Isaías era Yeshua, o que tam-


bém é comprovado pelo contexto das profecias do reino por
todo o livro do profeta.
7. O Homem Glorificado nas Visões de Ezequiel e Daniel
Discutimos na Parte Quatro que, em Apocalipse 4, João
teve praticamente a mesma visão registrada em Ezequiel 1.
João acreditava que o Homem glorificado acima dos querubins
era Yeshua (Ap 3.21; 5.6; 7.17). Isso foi confirmado por João
ao associar o homem de fogo de Daniel 10.5 com sua visão de
Yeshua glorificado em Apocalipse 1.12.
Esses exemplos dão um breve esboço da visão geral que
João tinha de Yeshua como o eterno Deus-Homem que revela
Deus à humanidade desde o início dos tempos. João também
acreditava que Yeshua existia antes da fundação do mundo.
Glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive
junto de ti, antes que houvesse mundo |antes da fundação
do mundo].
João 17.5
... porque me amaste antes da fundação do mundo.
João 17.24
Se Yeshua existia antes da criação, certamente seria lógico
pensar que ele estivera disponível e ativo durante todos os anos
da história de Israel que antecederam os evangelhos. Se assim
foi, onde ele estivera? E o que estivera fazendo? A resposta de-
veria ser evidente agora.
O ponto de vista compartilhado neste livro sobre a identida-
de de Yeshua não é encontrado, com maior clareza, nos evange-
lhos, no livro de Atos ou nas epístolas. Essa revelação faz parte
da visão de mundo dos escritos de João, que representa o último
estágio no desenvolvimento da compreensão dos apóstolos
148 62h l m a lm o ç o u , com A braão?

sobre a divindade de Yeshua.2


João o conhecia tanto como homem quanto como Deus.
Nós, igualmente, acreditamos que Yeshua é homem e Deus ao
mesmo tempo.
... com respeito a seu Filho, 0 qual, segundo a carne, veio da
descendência de Davi e foi designado [declarado] Filho de
Deus com poder, segundo 0 espírito de santidade |0 Espírito
Santo] pela ressurreição dos mortos, a saber, Yeshua o Mes-
sias, nosso Senhor...
Romanos 1.3,4
Certa vez, eu estava meditando sobre essa passagem.
Yeshua é descrito como a semente de Davi (v. 3) e Filho de
Deus (v. 4). Senti em meu coração a vontade de saber qual dos
dois era mais importante. Pensei: “É claro que ser o Filho de
Deus é mais importante”. Então, percebí a direção do Espírito
Santo dizendo: “Não”. Fiquei surpreso e perguntei em meu co-
ração: “Ser filho de Davi é mais importante?!”. Então, senti o
Espírito testemunhar de novo, dizendo: “Não”. Fiquei perplexo.
Finalmente, a solução veio na suave voz interior: “É 0 fato de
ser as duas coisas simultaneamente”. A chave para compreender
o Messias é que ele é divino e humano ao mesmo tempo.
Nos últimos anos, os dois lados da questão foram debatidos
por líderes judeus messiânicos. Há um pequeno grupo de líderes
que nega a divindade de Yeshua; há outro pequeno grupo que
nega sua humanidade. Entretanto, a grande maioria dos pastores
e presbíteros defende com convicção sua dupla natureza.
O modo como vemos Yeshua afeta como vemos a nós mes-
mos. Fomos criados à imagem de Deus (Gn 1.27). Yeshua é essa

2 É interessante notar como Deus usa talentos humanos opostos para cumprir seus pro-
pósitos. Pedro era um ¡letrado pescador leigo da Galileia, e Deus 0 usou para pregar aos
líderes religiosos com alto nível de conhecimento em Jerusalém. Paulo era um estudante
yeshiva (nome dado às instituições para estudo da Torá e do Talmud dentro do judaísmo)
ultraortodoxo e cheio de justiça própria em Jerusalém, e Deus 0 enviou para estabelecer
a Igreja internacional entre os gentios. João era 0 amigo mais íntimo de Yeshua no âmbito
humano. Foi quem Deus usou para revelar 0 lado mais flamejante e celestial de Yeshua.
A !Divina "R ev ela ç ã o γ>εJ o A o 149

imagem de Deus para nós e em nós. Aqueles que se veem como


descendentes dos macacos terão necessariamente uma baixa es-
tima pela natureza humana. Nossas origens determinam nosso
alvo. Não nos vemos como resultado da evolução de macacos,
mas como pessoas que se arrependem de seus pecados e se tor-
nam filhos de Deus glorificados na imagem de Yeshua.
A maneira como o vemos é a maneira como vemos nosso
destino. A cada nova etapa da revelação de quem é Yeshua, há
uma progressão correspondente na revelação de nosso próprio
destino nele. Estamos nele, e ele está em nós. Cada nível de
identidade tem um novo nível correspondente de autoridade.
A revelação de Yeshua como Rei de Israel foi dada a Simão
(Pedro) em Mateus 16. Yeshua lhe disse que aquela revelação
não era humana ou natural, mas celestial e sobrenatural (v. 17).
Naquele momento, Pedro recebeu autoridade espiritual de for-
ma que tudo o que ele ligasse ou desligasse na terra seria reali-
zado no céu (vv. 18, 19). O mesmo é verdadeiro para qualquer
um hoje que recebe e crê na mesma revelação que Pedro teve.
A revelação de Yeshua como cabeça da Igreja foi dada a
Saulo (Paulo) em Efésios 1. Yeshua subiu ao céu acima de to-
dos os principados e potestades (w.20,21). Esse entendimento
foi dado a Paulo por revelação. Ele orou para que tivéssemos a
mesma iluminação (vv. 17,18). Essa iluminação nos transmitirá
o mesmo poder e autoridade que Yeshua tem tanto neste mundo
quanto no mundo vindouro. Estamos espiritualmente assenta-
dos com ele no céu (Ef 2.6,7).
A primeira etapa do nosso destino nos é revelada por meio
de Pedro nos evangelhos, e a segunda por Paulo, nas epístolas. A
etapa final vem por intermédio de João no livro do Apocalipse.
A medida que meditamos na visão de Yeshua no livro de
Apocalipse, acontece uma mudança em nós. Enquanto perce-
bemos quem ele realmente é, compreendemos também quem
realmente somos nele. Seus olhos são como chamas de fogo.
Ele usa muitas coroas. Está vestido de branco, com um cinto de
ouro no peito e uma espada que sai de sua boca. Seus cabelos
150 6Zu 6M A L-M O Ç -ΟΙΛ COM A b>RAÂO?

são como a lã, e o seu rosto brilha como o sol.


Quando essa imagem PENETRA em nós, ela nos transfor-
ma. Fogo sai dos nossos olhos. Flá um novo poder, paixão e
pureza. Santidade e zelo queimam a camalidade e a semelhança
com o mundo. Obtemos uma perspectiva celestial do reino. Fi-
camos preparados para a sua vinda e preparados para a guerra
espiritual que culminará em sua vinda. Graça é comunicada ao
nosso coração.
Que Deus nos conceda a compreensão de quem Yeshua é
tal como ele se revelou a Pedro, Paulo e João! E que sejamos
transformados à sua imagem.
SUMfiRIO

O H o m e m -M is té r io

'Esta seção adiciona[fo i concebida p a r a servir


a doíspropósitos. Trímetro, é um breve sumario
do que fo í ensinado neste Cívro. Cita as referen-
cías mais im portantes d efo rm a concisa.
Segundo, fo í escrita n um fo rm a to apropriado
p a r a ser presenteada a um a pessoa que aínda
não crê em y esbúa, seja aCguém deform ação
acadêmica secuCar, seja um a pessoa judaica re-
Cígíosa. Esteja ã vontade p a r a copíá-Ca e usã-Ca
separadamente como ferra m en ta p a r a gerar
díáCogo e debate.
152 6 2 m 5 M A L M O Ç .O H C O M A B R A Ã O ?

Aparições do Homem-Mistério...
Há um personagem fascinante que aparece por toda a Bíblia
Hebraica. Ele é, a um só tempo, um mensageiro de Deus e um
ser divino em si mesmo. Ele é um homem, um anjo, ou Deus?
Ele apareceu muitas vezes aos nossos antepassados. Vejamos
alguns exemplos-chave. (Vale a pena acompanhar na Bíblia a
fim de conferir os textos por si mesmo.)

...a Abraão
A maioria de nós cresceu com a impressão de que é im-
possível ver Deus e de que ele não possui uma forma visível.
Certamente, ele não aparecería na forma humana. Contudo, foi
exatamente isso 0 que aconteceu com nosso pai Abraão.
Está registrado que, enquanto Abraão estava nos carvalhais
de Manre, Deus veio visitá-lo pessoalmente na forma de ho-
mem.
Apareceu o Senhor a Abraão nos carvalhais de Manre,
quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior
calor do dia. Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens
de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao
seu encontro, prostrou-se em terra...
Gênesis 18.1,2
Abraão viu três homens. Dois deles eram os anjos que se-
guiram depois a Sodoma a fim de destruir a cidade (Gn 19.1).
O terceiro é identificado em todo 0 capítulo como YHVH, e
Abraão o trata como Deus em todos os momentos.
Ao mesmo tempo, essa pessoa age como homem em todos
os sentidos, até mesmo fazendo uma refeição que incluiu carne
e leite. Abraão e esse “homem” conversam sobre a gravidez de
Sara que estava por vir e, também, sobre a iminente destruição
de Sodoma. O “homem” até mesmo assume que é ele quem fará
com que Sara tenha um bebê após um período tão longo de este-
rilidade. Abraão argumenta com ele, tratando-o como quem tem
autoridade para decidir se destruirá a cidade de Sodoma ou não.
Presume-se, portanto, que esse “homem” tem o “poder de fogo”
«Sl/tM ÁR-IO 153

para executar essa decisão.


Quem seria essa pessoa? Ele não pode ser Deus porque apa-
rece como homem e age como homem. Por outro lado, não pode
ser homem porque Abraão se dirige a ele como Deus em toda
a sua autoridade e divindade. Essa pessoa parece possuir todos
os atributos tanto de Deus quanto de homem. Ele parece ser um
Deus-Homem, ou Deus na forma humana, que veio à terra para
visitar Abraão.

...a Jacó
Esse Deus ou homem aparece também a Jacó. Jacó estava
regressando à terra de Israel após um longo exílio, depois de ter
trabalhado para seu sogro Labão. Ele estava com medo de se
encontrar com 0 irmão Esaú, que ameaçara matá-lo da última
vez que 0 vira (20 anos antes). Durante a noite, enquanto se pre-
parava para atravessar o rio Jaboque, Jacó teve uma experiência
incomum com um homem misterioso.
... ficando ele |Jacó] só; e lutava com ele um homem, até ao
romper do dia.
Gênesis 32.24
Durante essa luta livre, o homem distendeu um músculo
na parte posterior da coxa de Jacó. Jacó pediu ao homem que o
abençoasse; em resposta, o homem mudou 0 nome de Jacó para
Israel. Quando ele partiu, Jacó chamou o lugar de Peniel (a face
de Deus), porque acreditou que o homem com quem lutara era
de fato Deus.
Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva.
Gênesis 32.30
Para o caso de Jacó ter pensado que aquele encontro não
passara de mera imaginação, ele passou a andar mancando por
algumas semanas, por causa da dor na coxa. Aquilo foi um en-
contro físico e real com alguém que Jacó alegava ser Deus.
Caso tivesse ficado qualquer dúvida, a Torá confirma nova-
mente que a pessoa que abençoou Jacó em Peniel foi realmente
154 620Λ 6Μ ALM O ÇO U . COM A B R A Ã O ?

“Elohim”, o próprio Deus, e ratifica também as promessas de


aliança que ele fez antes a Abraão (Gn 35.9-13).
Essa pessoa é chamada de Deus por Jacó e pela Torá. No en-
tanto, ele também é chamado de “homem”. Ele luta fisicamente
com Jacó uma noite toda, mas também assume a autoridade de
Deus na Aliança Abraâmica. Como isso é possível? Quem seria
ele? Deus ou homem?

...a Moisés
Moisés também teve diversos encontros com um ser miste-
rioso. No caso dele, a pessoa era um anjo, em alguns momentos,
e o próprio YHVH em outros. A primeira vez que ele 0 encon-
trou foi na sarça ardente. Em Êxodo 3.2, essa pessoa é chamada
de anjo do Senhor, mas, logo depois, no verso 4, é chamada de
Deus e YHVH.
Apareceu-lhe 0 Anjo de YHVH numa chama de fogo, no
meio de uma sarça.
Êxodo 3.2

Vendo YHVH que ele se voltava para ver, Deus, do meio da


sarça, 0 chamou.
Êxodo 3.4
Observe a frase “no meio da sarça”. No verso 2, é o anjo
que está no meio da sarça. No verso 4, é Deus. Ambos estavam
na sarça. O que aconteceu? Havia duas pessoas que trocavam de
lugar? Havia apenas um anjo que falava da parte de Deus, mas
que não podia ser o próprio Deus? Ou havia apenas uma figura,
considerada anjo e Deus ao mesmo tempo?
A palavra “anjo” significa mensageiro. Essa pessoa não
podería ser Deus porque era um mensageiro da parte de Deus.
Por outro lado, não poderia ser apenas um anjo porque falava
como Deus durante todo o encontro. Ele até se refere a si mesmo
como “EU SOU O QUE SOU” no verso 14. Não poderia haver
*S u m á r io 155

maior reivindicação à divindade do que esta. Moisés parece ter


acreditado nele, pois tirou as sandálias em reconhecimento à
santidade do lugar.
Exatamente a mesma dinâmica ocorreu na travessia do Mar
Vermelho. Dessa vez, o personagem misterioso não estava numa
sarça ardente, mas numa coluna de fogo e de nuvem. Em certos
momentos, ele é chamado de anjo e, em outros, de YHVH.
E YHVH ia adiante deles, durante o dia, numa coluna de
nuvem... e, durante a noite, numa coluna de fogo.
Êxodo 13.21
Então, o anjo de YHVH, que ia adiante do exército de Is-
rael, se retirou... também a coluna de nuvem se retirou...
Êxodo 14.19
YHVH, na coluna de fogo e de nuvem, viu o acampamento
dos egípcios.
Êxodo 14.24
Em Êxodo 13.21 e 14.24, a Torá declara que quem estava
na coluna era YHVH. Em 14.19, ela afirma que era o anjo de
YHVH. Então quem era? Como uma pessoa pode ser ao mesmo
tempo um anjo e YHVH?
Num dado momento, essa figura misteriosa de fato remove
parte da nuvem que a encobria e permite que os setenta e quatro
líderes de Israel o vejam diretamente.
E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos
anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, sob cujos pés
havia uma como pavimentação de pedra de safira... Ele não
estendeu a mão sobre os escolhidos [ou nobres] dos filhos de
Israel; porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam.
Êxodo 24.9-11
Isso é assombroso. Sempre nos disseram que é impossível
ver Deus, e que ele jamais podería ter a forma de um ser humano.
156 6 ¿ u eM ALM O ÇO U com A b>r a ã o ?

Mas neste episódio muitas pessoas o viram. O texto enfatiza


duas vezes, nos versos 10 e 11, que viram a Deus. A palavra para
Deus aqui é Elohim. Eles viram Elohim.
Esta passagem também afirma que eles viram os pés de
Deus. A palavra em hebraico, na verdade, é “pernas”. Eles viram
alguém que tinha uma forma semelhante à humana. E comeram
em sua presença para confirmar o fato de que o encontro foi real.
Não foi fruto de imaginação. Aquele encontro com Deus foi tão
real que a Torá registra que o simples fato de não terem sido
mortos foi extraordinário.
Na sarça ardente, no Mar Vermelho e no Monte Sinai houve
um personagem singular que foi descrito, ora como homem, ora
como anjo, ora como Deus (Yehovah), ora como Elohim.

...a Josué
Essa pessoa excepcional também apareceu a Josué, porém
de uma maneira ligeiramente diferente. Na passagem abaixo,
Josué estava sozinho no campo, na véspera da batalha de Jerico,
quando teve este encontro incomum.
Estando Josué ao pé de Jerico, levantou os olhos e olhou; eis
que se achava em pé diante dele um homem que trazia na
mão uma espada nua; chegou-se Josué a ele e disse-lhe: És
tu dos nossos ou dos nossos adversários?
Respondeu ele: Não; sou príncipe |Comandante| do exército
de YHVH e acabo de chegar. Então, Josué se prostrou com o
rosto em terra, e o adorou, e disse-lhe: Que diz meu senhor
ao seu servo?
Respondeu 0 príncipe [Comandante! do exército de YHVH a
Josué: Descalça as sandálias dos pés, porque o lugar em que
estás é santo. E fez Josué assim.
Josué 5.13-15
* S k M Á R -IO 157

Um “homem” veio a Josué (v. 13). Era um homem; no en-


tanto, era 0 Comandante do Exército de YHVH. Esse exército é
composto por anjos de guerra. Portanto, essa pessoa é um anjo
ou, pelo menos, um comandante de anjos. Só que Josué o cha-
mou de Senhor e se prostrou diante dele.
Esse Comandante dos exércitos angelicais também ordenou
que ele tirasse as sandálias, pois o lugar onde estava era san-
to. Essa declaração indica que a pessoa diante de Josué alegava
ser a mesma que se encontrara com Moisés na sarça ardente. E
quem apareceu na sarça ardente foi YHVH, 0 Deus de Israel.
Josué 0 viu claramente e falou abertamente com ele como
um homem e, em seguida, o adorou como Deus. Como foi pos-
sível? Quem seria ele? Independentemente de quem fosse, era
alguém que reunia em uma só pessoa os atributos de Deus e os
de homem, os de YHVH e os de um anjo. E foi exatamente este
personagem que liderou Josué e o povo de Israel na batalha de
Jericó.

...a Ezequiel
O enigma se toma ainda mais complexo quando chegamos
ao profeta Ezequiel. O encontro dele foi tão extraordinário que
alguns sábios rabínicos até advertem contra a leitura do texto
que relata sua experiência.1
Ezequiel viu a glória de Deus; viu, também, os quembins
e a carruagem. Viu fogo, relâmpagos e rodas girando dentro de
rodas. Foi a visão mais forte do Deus de Israel que algum ho-
mem tinha tido. O primeiro capítulo de Ezequiel a descreve em
detalhes.
Acima da nuvem de glória, estava o firmamento como um
mar de cristal que forma o divisor entre o céu e a terra na esfera
espiritual. Por cima do firmamento, acima da nuvem de glória e
dos quembins, havia uma cadeira, um trono.*

Talmud Bavli, Hagigah 14 B.


158 62u 6 m a lm o ç o u , com A braão?

Por cima do firmamento que estava sobre a sua cabeça, ha-


via algo semelhante a um trono [uma cadeira], como urna
safira; sobre esta espécie de trono, estava sentada urna figura
semelhante a um homem.
Vi‫־‬a como metal brilhante [cor de eletricidade], como fogo
ao redor déla, desde os seus lombos e daí para cima; e desde
os seus lombos e daí para baixo, vi-a como fogo e um resplen-
dor ao redor déla.
Ezequiel 1.26,27
Não é de se admirar que os rabinos tenham alertado contra
essa leitura. A visão é absolutamente explosiva. A gloria de Deus
se parece com a nuvem de cogumelo de urna bomba nuclear. Há
criaturas sobrenaturais, os céus se abrem, a carruagem mística
de Deus aparece e, bem no centro dessa gloria, há uma cadeira.
A palavra para cadeira no hebraico é a mesma para trono. Nesse
trono de gloria, havia um homem! Ou, pelo menos, alguém que
se parecia com um homem. Ele não era um homem comum, mas
uma pessoa dotada de poder nuclear, com fogo ao seu redor que
emanava do seu interior.
Ele é Deus? Ou é um homem? Ou é Deus na semelhança de
um homem? E o Deus Todo-Poderoso que aparece em glória na
forma de homem. E o Deus-Homem que os rabinos tentaram es-
conder do nosso povo. Se você compreender o que Ezequiel viu,
ou crerá nele ou enlouquecerá. Em ambos os casos, é impossível
ficar neutro.

...a Daniel
O profeta Daniel viu um homem misterioso que recebia po-
der e autoridade sobre as nações do mundo.
Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vi-
nha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e di-
rigiu‫־‬se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe
dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações
e homens de todas as línguas 0 servissem [adorassem]; o seu
domínio é domínio eterno, que não passará [não será tomado
« S u .M A R .IO 159

dele], e o seu reino jamais será destruído [terá fim].


Daniel 7.13,14
Na realidade, temos dois personagens aqui: um que está as-
sentado sobre um trono e outro que é levado diante do primeiro.
O que está assentado é chamado de Ancião de Dias. Só podemos
presumir que seja Deus, nosso Pai celestial, o eterno criador.
Mas quem é o outro?
Ele é descrito como “semelhante” a um homem. Em certos
aspectos, ele podería ser chamado de humano, mas em outros,
não. A ele é dada autoridade para govemar sobre todas as nações
do mundo. Todos os povos o servem e o adoram. Seu govemo
não é apenas uma entidade política, mas um reino eterno.
Seu reino não é estabelecido por meio de um confronto
político terreno. Antes, ele recebe a autoridade para govemar
diretamente de Deus, nos céus, e de maneira espiritual. E seu
reino não será temporário, mas permanecerá para sempre. E, ao
mesmo tempo, um govemo e um reino espiritual. Quem seria
este Reí especial?
É aquele que se tomou o centro tanto da fé judaica quanto
da cristã. Ele é o Messias. Resta-nos apenas definir sua identi-
dade.
O Homem-Mistério
O povo judeu tem uma aversão a Yeshua, conhecido no
mundo cristão como Jesus. Há muitos motivos para isso; em
parte por nossos pecados (dos judeus), em parte pelos pecados
dos cristãos e, em parte, por mentiras de pessoas que não são
nem cristãs nem judias. Contudo, uma das razões mais profun-
das é a própria ideia de que uma pessoa possa ser, ao mesmo
tempo, Deus e homem. Esse conceito parece difícil demais para
ser aceito; impossível, totalmente “não judaico”.
Entretanto, é a experiência de nossos patriarcas e profetas
que define a essência do que é judaico. Foram eles que escre-
veram a Bíblia e é dela que adquirimos nosso entendimento
de quem Deus é e 0 que ele quer de nós. Nessas Escrituras,
160 62u e m a l m o ç o u , com A braão?

encontramos um personagem que aparece como Deus na forma


de homem. Ele apareceu a muitos de nossos pais durante toda a
história antiga de Israel.
A Bíblia Hebraica, com efeito, descreve alguém cujos atri-
butos são uma combinação do divino e do humano. O fato de
ele ter sido rejeitado de maneira tão veemente por nossos líderes
religiosos serve apenas para mostrar a singularidade desse
personagem. Já existem pessoas de todas as tribos e nações que
creem nele.
No âmbito humano, ele era 0 filho de Davi, um judeu e
israelita sabra.2 No divino, ele tinha as mesmas qualidades que
acabamos de ler nos encontros com Abraão, Jacó, Moisés, Jo-
sué, Ezequiel e Daniel. E há muitos outros exemplos. Como
você chamaria alguém que tivesse os atributos de Deus e tam-
bém os de um homem? Alguém enviado da parte de Deus como
um anjo, mas que falasse com a autoridade do próprio Deus?
A Bíblia 0 chama de Messias, 0 Filho de Deus (SI 2.2-9).
Seu nome é Yeshua. E um nome hebraico que significa “Deus
Salva”. Ele não é nem menos nem mais Deus do que o homem
misterioso conhecido por nossos pais. Ele tem qualidades divi-
nas e humanas. E a mesma pessoa. E a mesma fé. Ele é Yeshua.
Ele é a solução do mistério.

2 NT: 0 termo "sabra" refere-se a um indivíduo natural de Israel e é usado a fim de se


fazer distinção dos que para lá emigraram.
flp£NDICfS
163

Apêndice Um
L is t a de R e f e r ê n c ia s de

A p a r iç õ e s D iv in a s nas E s c r it u r a s H e b r a ic a s

Gênesis 3.8 Yehovah Elohim caminhando no Jardim


Gênesis 7.16 Deus fecha a porta da arca de Noé
Gênesis 11.5 Deus desceu para ver a Torre de Babel
Gênesis 12.7 Yehovah é visto por Abraão
Gênesis 15.1 Abraão vê e ouve a Palavra-Yehovah em Pessoa
Gênesis 16.7 O Anjo-Yehovah encontra Hagar quando fugia
Gênesis 17.1 Yehovah é visto por Abraão
Gênesis 18.1 Yehovah, na forma humana e acompanhado por dois
anjos, visita Abraão em Manre e passa o dia com ele
Gênesis 22.15 O Anjo-Yehovah intervém no sacrifício de Isaque
Gênesis 26.2 Yehovah é visto por Isaque em Gerar
Gênesis 26.24 Yehovah é visto por Isaque à noite em Berseba
Gênesis 28.13 Yehovah está no alto da escada no sonho de Jacó
Gênesis 31.10 O Anjo de Elohim, 0 Deus de Beth El, aparece a Jacó
num sonho a respeito de ovelhas
Gênesis 32.25 Um homem luta com Jacó em Peniel durante toda a noite
Gênesis 35.9 Elohim, El Shaddai é visto por Jacó
Gênesis 48.3 Jacó conta a José sobre a aparição de El Shaddai em
Beth El
Êxodo 3.2 O Anjo-Yehovah é visto por Moisés na sarça ardente; é
chamado Yehovah no verso 4 e Elohim no verso 15
164 62h l m a lm o ç o u , com A braão?

Êxodo 4.24 Yehovah tenta matar Moisés por ainda não ter
circuncidado seu filho
Êxodo 13.21 Yehovah vai adiante do povo numa coluna de nuvem; é
chamado Anjo de Elohim em 14.19 e Yehovah, em 4.24
Êxodo 17.6 Yehovah se põe sobre a rocha para tirar água
Êxodo 24.10 Setenta e quatro líderes de Israel veem o Deus de Israel
no Monte; é chamado Elohim no verso 11
Êxodo 33.9 Yehovah desce para ficar à porta da tenda de encontro
Números 11.25 Yehovah desce para dar o Espírito Santo
Números 22.22 O Anjo-Yehovah encontra Balaão sobre a jumenta; é
chamado Elohim no verso 9 e Yehovah no verso 28
Deut 31.15 Yehovah aparece no tabernáculo numa coluna de nuvem
a Moisés e Josué
Josué 5.13 Um homem empunhando uma espada aparece a Josué na
véspera da batalha de Jerico; é chamado Comandante do
Exército de Yehovah no verso 14; afirma que estavam em
terra santa no verso 15
Juizes 2.1 O Anjo-Yehovah vem a Gilgal para visitar os israelitas
Juizes 6.12 O Anjo-Yehovah é visto por Gideão; chamado Yehovah
no verso 14
Juizes 13.3 O Anjo-Yehovah é visto pela mulher de Manoá; chamado
Elohim no verso 22
1 Samuel 3.10 Yehovah se põe ao lado da cama de Samuel; é chamado
Palavra de Yehovah no verso 7
1 Reis 3.5 Salomão vê Yehovah num sonho em Gibeom (2 Cr 1.7)
1 Reis 9.2 Salomão vê Yehovah pela segunda vez (2 Cr 7.12)
1 Reis 22.19 Micaías vê Yehovah assentado no trono
1 Reis 19.7 O Anjo-Yehovah provê alimento para Elias; é chamado
Anjo no verso 5
2 Reis 1.3 O Anjo-Yehovah fala a Elias
2 Reis 1.15 O Anjo-Yehovah fala a Elias novamente
1 Crônicas 21.16 O Anjo-Yehovah fica entre o céu e a terra com uma
espada na mão diante de Davi, na eira de Araúna
(2 Sm 24.16)
Jó 1.6 Filhos de Deus e Satanás se apresentam diante de
Yehovah
A p é n d ic e s 165

Jó 2.1 Filhos de Deus e Satanás se apresentam diante de


Yehovah
Jó 38.1 Yehovah aparece a Jó num redemoinho
Isaías 6.1 Isaías vê Adonai assentado no trono; é chamado Yehovah
dos Exércitos no verso 3 e Rei Yehovah dos Exércitos no
verso 5
Isaías 37.36 0 Anjo-Yehovah mata 180 mil assírios numa noite após
a oração de Ezequias (2 Rs 19.35)
Ezequiel 1.26 Ezequiel vê um ser semelhante a um homem assentado
sobre um trono acima da glória e dos querubins
Ezequiel 3.23 Ezequiel vê a glória pela segunda vez
Ezequiel 8.2 Ezequiel vê 0 homem de fogo e a glória pela terceira vez;
é chamado Yehovah Adonai no verso 1
Ezequiel 10.13‫־‬ Ezequiel vê 0 homem no trono de glória pela quarta vez
Ezequiel 43.27‫־‬ Ezequiel vê 0 homem no trono de glória pela quinta vez
Ezequiel 4446‫־‬ 0 Príncipe exaltado entra no Templo Milenar
Daniel 3.25 Nabucodonosor vê 0 quarto homem na fornalha como
Filho de Deus
Daniel 7.13 Alguém semelhante ao Filho do Homem é levado perante
0 Ancião de Dias
Daniel 10.5 Daniel vê um Homem com fogo
Amos 7.7 Amós vê Adonai ao lado do muro com um prumo na mão
Amos 9.1 Amós vê Adonai em pé junto ao altar
Zacarias 1.11,12 Anjo-Yehovah em pé entre murteiras
Zacarias 3.1 Zacarias vê 0 Anjo-Yehovah ao lado do Sumo Sacerdote
Josué; é chamado Yehovah no verso 2
Zacarias 14.4 Os pés de Yehovah estarão sobre 0 Monte das Oliveiras.
166

Apêndice Dois
0 A n jo D iv in o
C r ít ic a T extual e a L e n d a E s q u e c id a
roR S olomon Intratar

Recentemente, concluí um bacharelado na Universidade Hebraica. Gra-


duei‫־‬me em “Bíblia”, ou seja, nas Escrituras Hebraicas. Esta área seria mais bem
descrita como Crítica Textual das Escrituras Hebraicas. Meus professores eram
eruditos israelenses seculares ou judeus religiosos. A posição deles em relação
às Escrituras, naturalmente, é muito diferente da do cristianismo e do judaísmo
tradicionais. Alguns deles ainda acreditam em Deus e valorizam a herança israe-
lita, mas não reconhecem que a autoria das Escrituras seja por inspiração divina,
tendo-a, antes, como fruto de tradições humanas.
Crítica Textual é muito diferente de teologia. A teologia aceita as Escrituras
do jeito que nos foram dadas, presumindo que são completas e perfeitas, e depois
desenvolve teorias para descrever Deus de uma maneira coerente com base nas
Escrituras. Embora a Crítica Textual não seja definitivamente isenta de subjetivi-
dade (teologia, cultura, caráter e experiência pessoal), ela é mais técnica e focada
no texto propriamente dito. Nesse contexto, a teologia é irrelevante. O texto não
é considerado completo e perfeito. Os textos da Bíblia hebraica são analisados e
questionados.
Escolhí escrever a minha tese sobre o Anjo de YHVH, porque meu pai sem-
pre pregava sobre esse personagem e eu mesmo já havia estudado 0 assunto. Em
meu trabalho, comparei as ocorrências do termo malach yhvh (Anjo-YHVH) ou
malach h a ’elohim (Anjo de Deus). Nas versões da Bíblia em inglês, o termo ori-
ginal hebraico é traduzido de muitas maneiras diferentes.1Assim, a ligação textual
do original tende a perder-se na tradução, o que toma muito mais difícil encontrar
a correta interpretação. Comparei as várias ocorrências desse termo específico e
analisei várias formas de ligação textual, tais como funções semelhantes, traços,
terminologia e citações.

1 Por exemplo: 0 Anjo do SENHOR, 0 mensageiro divino, um anjo do SENHOR, um mensageiro de


Deus.
A p é n d ic e s 167

Na tese, sugeri que a maioria dessas ocorrências se referia a uma pessoa


específica. Uma abordagem diferente poderia sugerir que, em cada caso, era um
anjo diferente, diferentes tipos de anjos, anjos aleatórios. A dificuldade é que o
próprio texto em hebraico não faz uma diferença literal entre o definido e o in-
definido: o termo pode ser traduzido literalmente como um anjo do SENHOR ou
como o Anjo do SENHOR.
Outra dificuldade é que, em muitos desses casos, essa entidade é de caráter
divino, refere-se a Deus ou executa uma função divina. Existem diferentes expli-
cações textuais: as várias histórias foram extraídas da literatura antiga de religiões
circunvizinhas nas quais os deuses não eram amorfos, interagiam e eram vistos
pelos homens; as diferentes histórias da Bíblia se originaram de diferentes fontes
e tradições independentes; o texto original foi adulterado e editado, trocando Deus
por um anjo, a fim de distorcer a velha teologia de que Deus não era amorfo e foi
visto e, de fato, interagiu com o homem; o texto original foi adulterado e editado
de forma a distorcer os personagens angelicais e fazer deles o próprio Deus, por-
que a existência de outro ser divino era vista como heresia dentro do monoteísmo.
A tese começa a partir de uma impressão que tive ao ler a história da esposa
de Manoá e o anjo em Juizes 13. Ela é visitada no campo por uma pessoa. Ela
volta e conta a experiência a seu marido Manoá. Os dois ficam desconfiados do
visitante: “Um homem de Deus veio a mim; sua aparência era semelhante à de
malach ha ’elohim, assombrosa; não lhe perguntei donde era nem ele me disse o
seu nome” (v. 6).
Em outras palavras, esses israelitas encontram uma pessoa e se perguntam
se, de fato, trata-se da pessoa cuja lenda era bem familiar a eles e seu povo. Manoá
ora a Deus para que ele o envie uma segunda vez, e sua oração é atendida. Depois
que o anjo repete sua mensagem a Manoá, os acontecimentos tomam outro rumo
a partir do versículo 15: eles o questionam, 0 convidam a ficar e oferecem fazer
um sacrifício para ele. Parece que já estão confiantes de que essa é de fato aquela
pessoa. Em resposta à curiosidade deles a respeito de sua identidade, o anjo sobe
no meio da chama e desaparece. No final, de acordo com o verso 21: “Manoá ficou
sabendo que [o visitante] era malach-YHVH”. O casal se prostra com rosto em
terra, atemorizado por ter visto a Deus.
Minha impressão de Juizes 13 é que o povo de Israel, na terra de Israel,
depois da história do Êxodo e da conquista da terra, estava familiarizado com a
tradição do grande anjo divino. Quando encontrados pelo visitante, eles pensam
imediatamente na lenda com a qualjá estão familiarizados. Depois que o visitan-
te disse o que disse e fez o que fez, eles tiveram a certeza de que realmente era ele.
Hoje, na tradição religiosa, esse personagem está um pouco esquecido.
Ninguém fala dele, ninguém sabe dele. Mas, no texto, as pessoas estão fami-
liarizadas com ele. Quem é ele? O que é ele? Esse personagem é de fato uma
figura recorrente e reconhecida na tradição israelita da Bíblia? Continuei a ler
a abordagem crítica dos professores do departamento. Descobri que eles mes-
mos confessam que de fato houve algum tipo de tradição que está esquecida
embora incorporada ao texto. E a tradição de um mensageiro divino especial que
168 6Ζ1Λ6Μ A L M O Ç O U . C O M A B R A Ã O ?

desempenhou um papel em muitos dos eventos da Bíblia, como no Êxodo e na


conquista da terra. E essa entidade é, de alguma forma, um personagem divino.
A conclusão foi que, em muitos desses casos, é legítimo interpretar o tex-
to como se referindo a um personagem específico e definido; e que há também
muita ligação textual entre as várias ocorrências desse termo/personagem ma-
lach-YHVH. O texto sugere que, dentro da tradição israelita,2 houve um enten-
dimento e um reconhecimento desta entidade específica. Se presumirmos que
essas diferentes ocorrências tenham a ver com a mesma pessoa, poderemos ela-
borar seu caráter e sua função: Deus, embora não seja o próprio Deus (muitas
vezes, a distinção é obscura), aparece na forma humana, traz o nome e a au-
toridade de Deus, frequentemente funciona como um “salvador” ou “reden-
tor” - alguém que resgata, mas que também lidera, traz notícias, luta e pune.

2 Nota: referências sutis à tradição do Anjo de YHVH na poesia, oração, profecia e conversação
bíblicas: Gênesis 48.16; Juizes 5.23; 1 Samuel 29.9; 2 Samuel 14.17,20; 19.28; Salmo 34.8;
35.5; Zacarias 12.8.
169

Apêndice Três
Y eho vah e Y ahw eh

As palavras têm grande importância espiritual. Deus criou o mundo com


palavras e governa o mundo inteiro com palavras. O poder das palavras não está
tanto na pronúncia quanto no significado. Muitas vezes, me perguntam como 0
nome YHVH é pronunciado (Yahweh ou Yehovah). A própria pergunta mostra
que a pessoa está perdendo, pelo menos em parte, o ponto essencial. Não se en-
contra na Torá, nos Profetas ou na Nova Aliança uma instrução sobre como se
deve pronunciar o nome.
Um nome é uma palavra que descreve uma pessoa. Os nomes na Bíblia
tinham um significado profético. Descreviam o caráter de uma pessoa, seu desti-
no, seu propósito. Na mesma proporção em que olhamos para um nome como se
tivesse poder em seus fonemas, nós nos enredamos no engano da superstição. Por
outro lado, quando procuramos compreender 0 significado espiritual de um nome,
tocamos na raiz de seu poder.
Então, se me perguntassem como pronunciar o nome YHVH, eu gostaria de
responder:
Tendo YHVH descido na nuvem, ali esteve junto dele e proclamou o nome
YHVH. E, passando YHVH por diante dele, clamou: YHVH, Deus com-
passivo, clemente e longánimo e grande em misericórdia e fidelidade; que
guarda a misericórdia em mil gerações...
Êxodo 34.57‫־‬

Assim, o Anjo YHVH declarou a Moisés 0 nome e o significado do nome no


Monte Sinai. Esse é o seu nome completo, uma espécie de lista de suas qualidades
de caráter. Não foi uma lição sobre pronúncia; foi uma explicação dos atributos
de Deus e de sua “personalidade”. Esse mesmo Anjo havia dito anteriormente a
Moisés:
Aparecí a Abraão, a Isaque e a Jacó como Deus Todo-Poderoso; mas pelo
meu nome, YHVH, não lhes fui conhecido.

Êxodo 6.3
170 6¿ ía b m a l m o ç o u c o m A b r a ã o ?

Esta afirmação não significa que 0 povo de Israel não conhecia o nome
YHVH ou não sabia como pronunciá-lo. Significa que os israelitas não tinham
recebido o pleno significado do nome que só lhes foi revelado durante o Êxodo e
no Sinai. Novamente, a questão aqui não é de pronúncia, mas de revelação. Sabe-
mos disso porque as letras e 0 som do nome já eram conhecidos pela humanidade
muito antes disso, inclusive na época de Enos.
Foi nesse tempo que os homens começaram a invocar 0 nome YHVH.
Gênesis 4.26 (AL21)

Os primeiros patriarcas sabiam como invocar o nome YHVH, mas não co-
nheciam a plenitude do seu significado. A revelação que tinham era o significado
do nome El ou Elohim. A raiz da palavra hebraica para El significa “poder”. Os
patriarcas conheciam a Deus como El Shaddai, o Deus da natureza, da provisão,
do poder e da proteção.
No tempo de Moisés, 0 povo de Israel recebeu mais revelação de Deus a
respeito de seu juízo, redenção e santidade. Foi isso o que aprenderam no Êxodo
- não um modo diferente de pronunciar as letras.
A raiz do nome YHVH em hebraico significa “ser”. Em tempos antigos, a
letra V pode muito bem ter sido pronunciada mais com som de W (para quem fala
português, seria um som mais semelhante ao da vogal “u”). No entanto, entre a
pronúncia V ou W não há diferença de significado e, portanto, praticamente ne-
nhuma relevância, na minha opinião.
O hebraico bíblico era escrito apenas em consoantes, como vemos nas letras
YHVH. Portanto, a principal questão de pronúncia tem a ver com acrescentar ou
não (pontos de) vogais às consoantes. As vogais podem alterar o significado. Se
acrescentarmos as vogais “e” - “o” - “a” às consoantes, temos o nome YeHoVaH.
Neste formato, o “e” (sh ,va) indica tempo futuro, o “o” (holom), tempo pre-
sente, e o “a” (patach), tempo passado. Isso dá este sentido ao nome YeHoVaH:
“Ele será, Ele é, Ele era”. Em outras palavras, o Eterno. Este significado se encai-
xa na compreensão dos antigos partriarcas.
Muitos estudiosos preferem a pronúncia YaHWeH, representando a forma
“causativa” no hebraico, que significa “aquele que causou a existência”. Esta é
uma possibilidade. Entretanto, há outras razões gramaticais que tomam a pronún-
cia YeHoVaH preferível na minha opinião.
As vogais hebraicas mudam de forma dependendo do número de sílabas
e de onde as sílabas estão localizadas no nome. Quando há apenas uma sílaba,
como Yah, então uma vogal “a” está correta. Ou, quando as letras vêm no final da
palavra, como Eliyah (Elias), então “a” está igualmente correta. No entanto, isso
muda quando a vogal vem no início com múltiplas sílabas. Isso pode ser facilmen-
te comprovado consultando uma concordância bíblica.
Nomes como Yehoyachin (Jeoaquim) ou Yehoshua (Josué) ou Yehoyada
A p é n d ic e s 171

(Joiada) ou Yehoshaphat (Jeosafá) contêm as mesmas letras-raiz de YHVH no


mesmo arranjo silábico. Todos os nomes nesse padrão mostram as vogais na or-
dem “e” - “o” - “a‫ ״‬. Se esse mesmo padrão é colocado nas letras YHVH, temos
novamente o nome YeHoVaH. Não há um único exemplo nas Escrituras Hebrai-
cas de um nome de três sílabas contendo a raiz YHVH que não use o padrão de
vogais “e” - “o” - “a”.
Visto que TODOS os exemplos da raiz YHVH usada em nomes bíblicos
com esse padrão mostram as vogais “e” - “o” - “a”, teñamos de apresentar outra
evidência contundente, textual ou gramatical, para escolher uma pronúncia dife-
rente. Não existe tal documentação contundente com peso suficiente para refutar
a evidência bíblica e gramatical.
Em resumo: 1) o significado das vogais, 2) a forma gramatical e 3) a lista
de exemplos bíblicos apontam para Yehovah (ou Yehowah) como a pronúncia
preferida no lugar de Yahweh.
A pronúncia do nome, por mera questão de pronúncia, faz pouca diferença.
Se fosse importante, Yeshua ou um dos apóstolos a teria enfatizado. Determinados
cultos religiosos, tanto no mundo judeu quanto no cristão, têm colocado grande
ênfase, ao longo do tempo, em certas pronúncias, mas tais ênfases não podem ser
apoiadas pelas Escrituras.1
Essa polêmica sobre pronúncia estendeu-se também ao nome do próprio
Yeshua. O nome Yeshua é uma forma abreviada de Yehoshua (Josué). Yehoshua
também é uma contração das palavras Yehovah Yoshia (Yehovah Salva). Ou seja,
o nome YHVH está CONTIDO no nome Yeshua. Isso corresponde à profecia
bíblica:
Eis que eu envio um Anjo adiante de ti, para que te guarde pelo caminho...
Guarda-te diante dele, e ouve a sua voz... pois nele está 0 meu nome.
Êxodo 23.20,21

Que profecia impressionante: o nome YHVH estaria contido no nome do


Anjo que conduziría os filhos de Israel. Este Anjo YHVH teria o poder, o caráter
e a autoridade do nome YHVH. Além disso, o nome de YHVH estaria contido
no nome do Anjo. As duas dimensões dessa profecia foram cumpridas quando
Yeshua recebeu seu nome de nascimento.
Hoje, alguns cristãos e judeus messiânicos querem soletrar o nome do Mes-
sias como Y’shua ou Yahshua, enquanto muitos israelenses modernos se referem
a ele como Yeshu. Todas essas pronúncias são obviamente incorretas. O nome
Yeshua é encontrado 30 vezes no texto hebraico dos livros históricos pós-exílicos
da Bíblia (como Esdras e Neemias).

1 Por exemplo: hoje em Jerusalém, é popular entre alguns rabinos judeus ultraortodoxos referir-se a
YHVH como "D " [letra d a le th l Outra tradição rabínica afirma que Yeshua realizou milagres porque
"roubou‫ ״‬a pronúncia do nome YHVH do Santo dos Santos, escreveu-a num fragmento e colou-o em
sua coxa [Toldot Yeshu, capítulo 31
172 6¿ueM ALM OÇOU. COM A b r a ã o ?

Em cada uma das vezes, o nome escrito é Yeshua. O ponto de vogal é um


tsere, não um patach, kamats ou sh va; nem mesmo um segol. Existe sempre um
ay in no final do nome. Alguém poderia argumentar que o nome deveria ser trans-
literado como Yeishu’a, mas certamente não como Y’shua, Yahshua ou Yeshu.
Pessoalmente, não me importo com a maneira como alguém pronun-
cia o nome dele. Quero apenas ajudar meus amigos a não serem enganados
por pessoas com um espírito de seita, hipocrisia ou de falsa intelectualida-
de, dizendo que você está errado se não pronunciar o nome do jeito que eles
ensinam (mesmo quando o que estão propondo nem é a pronúncia correta).
Veja, por exemplo, o que aconteceu quando os sete filhos de Ceva, apesar de
pronunciarem perfeitamente o nome de Yeshua, foram afugentados por demônios
porque não compreenderam o sentido do nome dele e estavam sem a sua autori-
dade (At 19.14).
Há uma grande revelação no significado do nome Yeshua. O nome e a au-
toridade de YHVH são encontrados DENTRO desse nome. Você não precisa se
preocupar com a maneira de pronunciar YHVH, porque YHVH já está contido
em Yeshua. Ou, para reformular um velho slogan publicitário: “Quando você diz
Yeshua, você diz tudo”.
Eu resumiría a revelação dos nomes divinos desta forma: “El” significa o
poder de Deus, “Yehovah” significa sua santidade, e “Yeshua” significa seu amor.
Esses são os três atributos gerais de Deus: poder, santidade e amor. Deus revelou
seu nome (qualidades de seu caráter) à humanidade em três grandes revelações
progressivas. Primeiro, ele foi conhecido como Elohim. Depois, foi conhecido
melhor como Yehovah. Agora, ele pode ser conhecido em plenitude em Yeshua.
173

Apêndice Q uatro
Y eh o v a h e Y eshua

No Apêndice 3, discutimos a diferença entre as pronúncias do nome Yahweh


e Yehovah, bem como as razões para o uso do nome Yeshua. Aqui estão alguns
pontos acerca da ligação entre o nome Yehovah e Yeshua (Jesus).
1. Poder: havia grande poder e autoridade quando nossos pais declara-
vam o nome YHVH (Yehovah) nos dias da Lei e dos Profetas.
2. Específico: tal poder não estava associado a nomes genéricos como
Senhor, Deus, Adonai, Hashem, mas apenas ao nome próprio Yeho-
vah.
3. Desconhecido: hoje, não sabemos exatamente como pronunciar o
nome Yehovah; portanto, nem é permitido enunciá-lo na comunidade
judaica. Como não declaram mais o nome, faltam-lhes o poder e a
autoridade que o acompanham.
4. Soberania: esse “esquecimento” da pronúncia do nome YHVH na
comunidade judaica não pode ser apenas uma coincidência. É uma
intervenção soberana de Deus para trazer à tona uma nova situação.
5. Yehovah contido em Yeshua: o nome Yeshua é uma forma abreviada
de Yehoshua, que é uma forma abreviada de Yehovah Yoshiah - “O
Senhor salva”. Em outras palavras, o nome Yehovah é encontrado
DENTRO do nome Yeshua.
6. Dizer Yeshua é dizer Yehovah: dessa maneira, quando falamos
o nome Yeshua, já estamos falando o nome Yehovah e muito mais.
Quando você pronuncia Yeshua, está pronunciando também o assom-
broso nome de Yehovah.
7. N enhum outro nome: neste momento da história, não há outra ma-
neira de pronunciar 0 nome Yehovah com poder e autoridade a não ser
dizendo Yeshua. Isso nos dá um entendimento mais profundo de Atos
4.12: “ E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu
não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual
im porta que sejam os salvos” .
174 620ΛΕΜ A L M O Ç O U . COM A ‫־‬B>RAÃO?

8. Sem o nome, sem poder: se não dissermos Yeshua, não poderemos


ter o poder que estava presente originalmente no nome Yehovah.
9. M esmo poder: no entanto, quando dissermos o nome Yeshua (e o
fizermos com fé, compreensão e de acordo com a vontade de Deus),
estaremos liberando o mesmo poder e autoridade que eram liberados
quando nossos pais diziam Yehovah.
10. C ontinuidade: o nome Yeshua é a continuidade em nossos dias e épo-
ca daquilo que o nome Yehovah era nos dias e época de nossos pais.
11. M esm a atitude: portanto, nossa atitude, postura e respeito pelo nome
Yeshua devem ser os mesmos que nossos pais tiveram pelo nome
Yehovah.
12. D ádiva messiânica: nós, do movimento judaico messiânico, quere-
mos restaurar 0 nome de Yeshua a Israel e ao Corpo Internacional do
Messias - não apenas a pronúncia original do nome, mas o poder e
a autoridade originais. O nome Yeshua contém em si mesmo o nome
Yehovah, bem como todas as revelações e manifestações espirituais
inerentes a esse nome - e muito mais. O nome Yeshua tem autoridade
nas três dimensões: “céu, terra e debaixo da terra” (Fp 2.9).
175

Apêndice Cinco
A G uarda do S habat

Ao compartilhar o evangelho em Israel, temos de lidar com a pergunta se


guardamos ou não “os mandamentos”. Quando judeus religiosos dizem “manda-
mentos”, eles misturam os mandamentos bíblicos e os mandamentos rabínicos
que foram acrescentados. Se dizemos “não”, perdemos a autoridade das Escritu-
ras. Se dizemos “sim”, eles perguntam quais leis da halachá (leis rabínicas) nós
guardamos.
Nossa resposta a essa pergunta tem de ser um inequívoco “sim” e, logo em
seguida, uma explicação do método diferente que usamos para fazer isso. A pri-
meira diferença é que aceitamos os mandamentos bíblicos como obrigatórios, mas
não os mandamentos rabínicos. Quando expliquei isso na televisão israelense, o
entrevistador entendeu prontamente nossa posição. O debate então se abriu para
diversas questões mais profundas. (Ele pensou que éramos como os caraítas, uma
antiga seita do judaísmo que aceita a autoridade das Escrituras, não a da halachá.)

Contexto O riginal
Os mandamentos bíblicos, que foram dados milhares de anos atrás, não po-
dem ser cumpridos num vácuo. Os mandamentos foram dados como parte de um
conjunto de quatro facetas:
1. o Anjo de YHVH (que escreveu os Dez Mandamentos no Monte
Sinai).
2. Os próprios mandamentos (com diferentes níveis de importância;
Mt 23.23).
3. Os sacrifícios de sangue (que proviam o perdão quando as leis eram
transgredidas).
4. O Espírito Santo (para orientar e capacitar as pessoas a cumprir a Lei;
Nm 11.25-29; Rm 8.2-4).
176 6Zk 6 m a lm o ç o u , com A braão?

Como judeus messiânicos, temos entendido que o Anjo do Senhor frequen-


temente é o próprio Yeshua (Jesus), que os mandamentos sobre amor e morali-
dade suplantam os de simbolismo cerimonial, que a crucificação de Yeshua deu
o significado completo aos sacrifícios e que 0 Espírito Santo veio habitar dentro
de nós. Essa perspectiva dá equilíbrio para aplicar os mandamentos à nossa vida
cotidiana de fé.
Na Nova Aliança, a Lei foi escrita em nosso coração (Jr 31.31). Por isso,
nosso método de guardar os mandamentos é por motivação interna, com ênfase
na aplicação “interior” dos mandamentos e muita flexibilidade com relação a de-
talhes de rituais externos.
O judaísmo rabínico se esforça para guardar os mandamentos, mas acabou
tirando-os de seu contexto original. A Torá não mudou evidentemente. Contudo,
as leis haláchicas substituem a direção do Espírito Santo, os rabinos substituem o
Messias, e a expiação de sangue em geral fica faltando.
Recentemente, um dos meus filhos foi falar sobre sua fé com um judeu reli-
gioso e, quando perguntado se guardamos os mandamentos, ele disse: “Sim, mas
temos uma maneira diferente de aplicá-los”. Ele chegou em casa e relatou: “Pai,
essa abordagem realmente funcionou; abriu uma discussão séria sobre o verdadei-
ro significado da fé e do Messias”.

Leis Sabáticas

A base de todos os mandamentos morais são os Dez Mandamentos. Os Dez


Mandamentos são encontrados na Torá em três passagens: Êxodo 20, Levítico 19
e Deuteronômio 5 - cada vez de forma ligeiramente diferente. O mandamento que
causa a maior discussão é o do sábado ou Shabat. O judaísmo rabínico às vezes
chega a ser obcecado quanto às leis do Shabat. Por exemplo, há um desacordo
quanto à permissão de cortar papel higiênico em dia de sábado; por isso, alguns
grupos deixam o papel higiênico “pré-cortado” para o Shabat.
Uma vez, meu amigo Joe Shulam estava ensinando sobre o Talmude e depa-
rou-se com uma passagem que indicava que o pecado do bezerro de ouro aconte-
ceu no Shabat. Uma judia idosa que estava presente gritou: “Não, isso não pode
ser!”. Quando Joe perguntou-lhe por que, ela respondeu: “Eles eram judeus, não
eram?”. Ao recontar essa história, Joe e eu choramos de rir. Provavelmente, você
teria de ser judeu para “pegar” a piada, mas o que ela estava dizendo era: adulté-
rio, idolatria, ocultismo e rebelião - qualquer um desses seria compreensível; mas
quebrar o Shabat - impossível!
Leis Sabáticas de Yeshua

Existem milhares de páginas de literatura rabínica sobre as leis do Shabat.


Yeshua resumiu sua halachá em três regras simples:
A p ê n d ic e s 177

O S habat foi feito p a ra o homem.


M arcos 2.27
Yeshua volta ao propósito original do Shabat. Ele foi concebido para ser
uma libertação semanal da maldição do pecado de Adão. Seria urna amostra ante-
cipada do reino milenar vindouro. Seria um tempo para descansar das coisas deste
mundo e voltar nosso coração para o Senhor.
O Filho do Homem é Senhor do Shabat.
M arcos 2.28
Yeshua refere a si mesmo como a autoridade final de como se deve guardar
o Shabat. Ele mesmo, na forma de Anjo/YHVH, escreveu o mandamento do sába-
do. Os rabinos dizem que é impossível guardar os mandamentos sem supervisão.
Todo mundo precisa de um rabino para instruir como cumprir os detalhes. Se você
tiver a instrução de um rabino, não terá dúvidas se agiu corretamente. Yeshua é 0
nosso rabino, e nós cumprimos o Shabat de acordo com suas instruções.
É lícito fazer 0 bem no Shabat.
M arcos 3.4
Yeshua reitera que a lei moral se sobrepõe à lei ritual. Ele nos faz lembrar
que a correta interpretação da Lei exige moralidade simples, discernimento lógico
e uma postura saudável para com a vida humana.
Rejeito a posição de que os judeus tradicionais guardam os mandamentos e
os judeus messiânicos não. Nós de fato guardamos os mandamentos de Deus, mas
procuramos fazê-lo restaurando seu significado original à luz da Nova Aliança.
Grande parte da cristandade rejeitou os mandamentos de Deus usando desculpas
teológicas; grande parte do judaísmo tem distorcido os mandamentos de Deus
usando tradições rituais.
178

Apêndice Seis
E scada entre o E vangelho e a L ei

Em 2009, a Aliança Judaica Messiânica de Israel patrocinou uma assembléia


nacional de pastores e presbíteros em que foi debatido o papel da tradição judaica
em nossos ensinamentos e congregações. Alguns foram a favor; outros, contra.
Esforcei-me por compartilhar um ponto de vista de equilíbrio estabelecendo uma
escala de prioridades em nosso entendimento.
A relação entre a mensagem do Evangelho e a tradição judaica pode ser
descrita de uma forma simples, imaginando uma escada de quatro degraus ou
prioridades:
1. salvação pela graça
2. lei m oral

3. lei cerim onial


4. tradição religiosa

Salvação pela G raça


Yeshua (Jesus) levou nosso castigo na cruz e ressuscitou dos mortos para
nos dar vida eterna. Essa mensagem é mais importante do que qualquer outra
coisa. Somos seres criados por um Deus amoroso e santo. Nós pecamos. Toda a
justiça vem de Deus. Sem confiar na justiça dele, nenhum ser humano pode ter
esperança de alcançar a santidade por conta própria. Esse é um tema central no
livro de Romanos.

Lei M oral

Por essa razão, a salvação pela graça é mais importante do que a lei moral.
Contudo, padrões morais são essenciais. E quem pode estabelecer esses padrões?
Somente alguém que seja, ele mesmo, perfeitamente justo. Portanto, os padrões
morais podem vir somente de Deus. Os padrões morais de Deus são absolutos e
válidos para todos os seres humanos. Estão escritos na Bíblia. A lista mais sucinta
A p é n d ic e s 179

de seu código moral está nos Dez Mandamentos (leia M t 19.17).


Dentro da Lei, há mandamentos de maior e menor importância. Yeshua nos
exortou a não negligenciar “os preceitos mais im portantes da lei: a justiça, a
m isericórdia e a fé” (M t 23.23). A fim de obedecer aos mandamentos de Deus,
temos de compreender quais aspectos são mais importantes e quais têm menos
prioridade.

Lei C erim onial

A linha divisória básica entre 0 que é primário e secundário diante de Deus


pode ser traçada na distinção entre a lei moral (amor) e a lei cerimonial (símbo-
los). “E que am ar a Deus de todo o coração e de todo o entendim ento e de
toda a força, e am ar ao próxim o como a si mesmo excede a todos os holocaus-
tos e sacrifícios” (Mc 12.33).
Leis cerimoniais ou “sinais” de alianças não são mandamentos obrigatórios
no mesmo sentido em que os mandamentos morais o são. “ A circuncisão, em
si, não é nada; a incircuncisão tam bém nada é, mas o que vale é g u a rd a r as
ordenanças de Deus” (1 Co 7.19). A circuncisão não é um mandamento? Sim,
no sentido de que faz parte da lei cerimonial registrada na Bíblia. Não, no sentido
de que não faz parte da lei moral absoluta.
Leis sobre circuncisão, festas e alimentos não estão no mesmo nível em que
se encontram os mandamentos contra mentira, roubo, adultério e assassinato. Não
reconhecer a prioridade da lei moral sobre a lei cerimonial é uma falha crucial
no entendimento da própria Lei e pode resultar em hipocrisia religiosa. Yeshua
repreendeu os fariseus por interpretarem mal a Lei e, consequentemente, desobe-
decerem à Lei. 64G uias cegos, que coais 0 mosquito e engolis 0 cam elo!” (M t
23.24). (Infelizmente, grande parte do mundo cristão rejeitou a Lei por completo,
resultando muitas vezes em pecado e transgressão moral, até mesmo por parte
daqueles que pregam o evangelho.)

Tradição Religiosa

Os aspectos cerimoniais da lei judaica podem ser divididos, por sua vez, em
duas partes: os que são bíblicos e os que foram acrescentados pelos rabinos. Os
símbolos na Bíblia são específicamente ordenados por Deus com uma mensagem
espiritual sobre seu plano do reino. Os que foram adicionados pelos rabinos são
uma questão cultural e não possuem qualquer autoridade direta.
Elevar a tradição à condição de lei divina é extremamente perigoso. Yeshua
se referiu a isso como 66m andam entos ensinados p o r hom ens” (citando Is 29.13)
e perguntou: 66P or que transgredis vós tam bém 0 m andam ento de Deus, por
causa da vossa trad ição ?” (M t 15.3). Igualar tradição religiosa à Lei de Deus é
um mal encontrado em todas as religiões: sejam judaicas, cristãs ou pagãs.
180 6¿¡a b m a l m o ç o u , c o m A b r a ã o ?

Tradição religiosa nunca é obrigatória. No entanto, quando compartilhamos


as boas-novas de salvação, devemos abraçar em amor a cultura do grupo com
o qual estamos falando. Isso é particularmente verdadeiro em relação ao povo
judeu, que desenvolveu uma cultura religiosa baseada no Antigo Testamento (Te-
nach). 6‘P ara os judeus, tornei-m e ju deu , p ara g an h ar os judeus [para a sal-
vação]. P a ra os que estão debaixo da lei, como se eu estivesse debaixo da lei”
(1 Co 9.20, AL21).

Em resumo:
1. a mensagem de salvação por meio de Yeshua é nossa maior priori-
dade;
2. boas obras de origem humana não podem nos salvar;
3. a lei moral absoluta de Deus é obrigatória para todos os seres huma-
nos;
4. a lei moral é maior do que a lei cerimonial;
5. símbolos ou rituais bíblicos apontam para verdades espirituais do
reino;
6. a tradição religiosa nunca é obrigatória ou impositiva;
7. elevar tradição religiosa à condição de lei moral é um erro perigoso;
8. abraçar a cultura das pessoas em amor pode ser uma ponte importan-
te ao compartilhar com elas a vida eterna.

M açãs de O uro

Pense nesta parábola bíblica: “ Como maçãs de ouro em salvas de p rata ,


assim é a palavra dita a seu tem po” (Pv 25.11). Nossa mensagem é comparada
a maçãs de ouro. A maneira como a compartilhamos é comparada a salvas de
prata. Muitas vezes, nós, do movimento messiânico, nos preocupamos tanto com
a forma judaica do que temos a dizer que acabamos perdendo o mais importante
que é a própria essência da mensagem. Nossa cultura e identidade judaicas não
são a mensagem. As vezes, oferecemos uma salva de prata sem a maçã de ouro.
Por outro lado, a “embalagem” é importante. Se um francês quisesse dar
um peixe a um inglês, ele provavelmente escrevería na caixa “poisson” (pala-
vra francesa para “peixe”). No entanto, o inglês sem dúvida entendería a palavra
como “veneno” (“poison”, em inglês). Muitas vezes, cristãos bem-intencionados
tentam oferecer o “peixe” da vida eterna para o nosso povo, mas este o enxerga
como veneno.
Queremos ter a mensagem correta e, ao mesmo tempo, a embalagem certa
para transmiti-la; o conteúdo certo no contexto certo: o evangelho de Yeshua em
seu cenário histórico-judaico.
181

Apêndice Sete
R e st a u r a ç ã o de T odas as C o is a s

Acreditamos no princípio bíblico da restauração. Tudo o que Deus fez no


mundo era “muito bom” (G n 1.31). Contudo, o pecado de Adão e a rebelião de
Satanás causaram muita destruição. O plano de redenção de Deus não só nos salva
da condenação, mas também restaura os danos causados.
Essa restauração é primeiramente pessoal. Nosso espírito, nossa alma e nos-
so corpo são redimidos. No entanto, a restauração de Deus também é geral e inclui
todas as coisas no mundo. A restauração pessoal é mais bem conhecida no mundo
cristão, enquanto a restauração do mundo é muito mais enfatizada no mundo ju-
daico. A Nova Aliança inclui as duas.
Na tradicional oração judaica Aleinu (É nosso dever), que encerra cada culto
três vezes por dia, há uma petição — ‫ — לתקך עולם במלכו ת ש די‬para “reparar o
mundo no reino de El Shaddai”. A palavra aqui para “reparar” é - ‫ תיקון‬- Tikkun.1
A restauração mundial (Tikkun) é fundamental não só para o nosso minis-
tério, mas para a visão de mundo do reino de Deus. Há cinco passagens no Novo
Testamento que falam específicamente da restauração do mundo.
1. M ateus 17: a Igreja;
2. R om anos 11: o remanescente messiânico;
3. M ateus 19: a criação natural;
4. Atos 1 : o reino de Israel;
5. Atos 3: todas as coisas.
Elias virá prim eiro e re sta u ra rá todas as coisas.
M ateus 17.11 (ARC)

1 Este é o nome que usamos para o ministério que exercemos em parceria com Dan Juster, Don Finto,
Rudolph David, Eitan Shishkoff e Paul Wilbur.
182 62k 6 m a l m o ç o u com A braão?

Yeshua profetiza que alguém no espírito e poder de Elias virá “primeiro” -


ou seja, antes de Yeshua voltar. A restauração dos “dias de Elias” ocorrerá antes da
Segunda Vinda. A expressão “todas as coisas” não pode significar todas as coisas
do mundo, porque isso só acontecerá depois que Yeshua voltar. Essa restauração é
paralela à profecia de que “a sua noiva já se aprontou” (Ap 19.7).
Os elementos do reino de Deus serão restaurados dentro da comunidade de
fé antes da volta de Yeshua. Quando ele voltar, o que foi aperfeiçoado dentro do
povo de Deus será revelado e disponibilizado às nações. Um tema central do mi-
nistério profético em nossa geração é a restauração da Igreja verdadeira à medida
que nos aproximamos da Segunda Vinda.
O que será 0 seu restabelecim ento [restauração], senão vida dentre
os m ortos?

Rom anos 11.15


Haverá também uma restauração do remanescente messiânico de Israel.
Essa dupla restauração pode ser vista em Apocalipse 7.4 e 9. Os elementos a
serem restaurados são os que estavam presentes na comunidade de fé primitiva
do livro de Atos. Ali vemos amor sacrificial, doação extravagante, evangelismo
ousado, sinais sobrenaturais e a unidade dos santos.
O remanescente de Israel do final dos tempos será ainda mais forte do que a
comunidade apostólica do primeiro século (Rm 11.12). O avivamento do fim será
maior do que aquele que experimentaram no início (At 2.17). O remanescente
messiânico será um elemento-chave que levará à ressurreição dos mortos.
... vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do ho-
mem se assentar no trono da sua glória, tam bém vos assentareis em
doze tronos p ara ju lg a r as doze tribos de Israel.

M ateus 19.28
Quando os dois grupos, a Igreja internacional e o remanescente de Israel,
chegarem à sua plenitude (Rm 11.15 e 25), eles invocarão Yeshua juntos, pedindo
a sua volta (Mt 23.39; Ap 22.20). Nesse tempo, o reino de Deus será estabelecido
na terra por mil anos. Esse reino milenar incluirá dois elementos-chave.
O primeiro é a “regeneração”. A tradução em hebraico diz “renovação da
criação”. No original grego, a palavra é palingenesia‫׳‬, pali significa “de novo”, e
genesia significa “gênese”, como a criação no livro de Gênesis. A criação natural
será redimida (Rm 8.19-22). Os céus e a terra serão renovados como aconteceu
imediatamente após o dilúvio de Noé (2 Pe 3.3-5). As pessoas começarão a ter
uma vida mais longa (Is 65.17, 20).
O segundo elemento é um reino mundial com sua capital em Jerusalém.
Senhor, será este o tem po em que restaures o reino a Israel?

Atos 1.6
A p é n d ic e s 183

Os apóstolos esperavam que Yeshua restaurasse o reino de Davi imediata-


mente após sua ressurreição dos mortos. Entretanto, ele lhes disse que primeiro
teriam de receber o Espirito Santo e pregar o evangelho às nações. Seu reino seria
internacional (não só israelita) e espiritual, não apenas governamental; uma reno-
vação e expansão do reino de Davi (Is 2 .2 4 ‫)־‬. O antigo domínio será restaurado
(Mq 4.8).
Yeshua se assentará em seu trono em Jerusalém; os apóstolos se assentarão
em doze tronos para reger as tribos de Israel. Aqueles que o “seguiram” se assen-
tarão em tronos para reger o restante das nações - quando Yeshua voltar em glória
(Mt 16.27; 19.28; 24.30; 24.46,47; 25.21; 25.31; 26.64).
Ao qual é necessário que o céu receba até aos tem pos d a restau ra-
ção de todas as coisas, de que Deus falou po r boca dos seus santos
profetas desde a antiguidade.
Atos 3.21

No final, Deus restaurará todas as coisas. Nada deixará de ser restaurado.


Isso inclui tudo 0 que foi planejado na criação; tudo o que foi profetizado a Israel;
tudo o que foi prometido à Igreja. Inclui todas as coisas no céu e na terra (Ef 1.10).
O compromisso de Deus de restaurar todas as coisas é uma fonte de grande espe-
rança e encorajamento para todos nós.
184

Apêndice O ito
C éu e T erra

O reino de Deus tem alguns aspectos que são celestiais e outros que são ter-
renos. Para entender o reino, temos de entender o propósito de Deus para o céu e,
também, para a terra. Examinaremos aqui uma série de sete passagens que contêm
as palavras “céu e terra”. (Por favor, anote-os para consulta futura.)
No princípio, criou Deus os céus e a te rra .
Gênesis 1.1
Antes de Deus criar qualquer coisa, ele já havia planejado o reino, a cru-
cificação, a ressurreição, o céu e o inferno, dentre outras coisas. O que ele queria
no final já estava em seus pensamentos desde o início. Ele criou os céus e a terra,
porque tinha um propósito para ambos.
Tudo o que ele criou no céu e na terra era bom, muito bom mesmo. Os pro-
blemas começaram com a rebelião de Satanás e o pecado do homem. Por fim, as
coisas pecaminosas e satânicas serão removidas, e os céus e a terra serão redimi-
dos para o seu propósito final (Rm 8.19-22).
Os céus são os céus do Senhor, mas a te rra , deu-a ele aos filhos dos
homens.
Salmo 115.16
Este verso fala de delegação de autoridade. O Senhor deu à humanidade
um contrato de arrendamento (como um leasing de longo prazo) do planeta Terra.
Os rabinos chamam isso de “o prédio de dois andares”. Deus (e os anjos) vivem
no andar de cima, enquanto a humanidade permanece no andar de baixo. Deus já
veio muitas vezes nos visitar, como alguém que desce por uma escada (Gn 3.8;
18.1,21; 28.12; Ex 3.8). Contudo, as chaves do andar de baixo foram entregues
aos homens.
Os homens não são donos da Terra; Deus é o dono. Mas ele nos deu um con-
trato de arrendamento por aproximadamente 6 mil anos. Por exemplo, eu moro
num apartamento alugado. Se o proprietário quiser me visitar, ele precisará me
ligar e pedir permissão. As chaves estão em meu poder.
A p ê s if c lC & S 185

Pois eis que eu crio novos céus e nova te rra ; e não haverá lem bran-
ça das coisas passadas, jam ais haverá m em ória delas.
Isaías 65.17
Deus promete criar novos céus e nova terra. Isso não significa que o universo
atual vai deixar de existir, mas que Deus irá resta u rar, renovar e redim i-lo. No
contexto de Isaías 65, vemos que a terra será purificada, mas os processos naturais
continuarão a existir, ainda que sejam tremenda e sobrenaturalmente aperfeiçoa-
dos.
A diferença será comparável ao antes e o depois do dilúvio de Noé, mas
ainda maior (2 Pe 3.5-12). Quando 0 livro do Apocalipse (capítulos 21 e 22) fala
em novos céus e nova terra, está nos dando revelação adicional sobre a passagem
de Isaías 65. Como de costume, João dá uma percepção espiritual maior do que
está escrito nos outros profetas hebreus. Ele está acrescentando uma dimensão ao
que já foi proclamado, não o contradizendo.
Isaías dá a perspectiva terrena; João, a celestial. Só precisamos enxergá-la
dos dois ângulos.
Bem -aventurados os hum ildes de espírito, porque deles é o reino
dos céus. B em -aventurados os mansos, porque h erd a rã o a te rra .
M ateus 5.3,5
Hoje, há muitas injustiças no mundo. Uma vez que Deus é tanto poderoso
quanto m oral, ele removerá os injustos. Aqueles que são puros de coração assu-
mirão controle do que está aqui. As religiões que não compreendem a natureza do
Deus da Bíblia acreditam que as pessoas de coração puro simplesmente partirão
daqui para a eternidade. Elas não entendem como Deus pode trazer justiça, re-
mover os ímpios, recompensar os justos e restaurar a terra. Para elas, as pessoas
apenas deixarão a boa criação de Deus e irão embora para algum lugar místico,
não físico e não identificado.
E exatamente isso o que os hindus e os seguidores da Nova Era chamam de
“nirvana”. Infelizmente, por causa da separação entre a visão de mundo hebraica
e a do cristianismo, o modo como a maioria dos cristãos vê o fim dos tempos e o
reino de Deus está mais perto do misticismo pagão do que da descrição bíblica.
Misticismo é escapismo para um mundo que é somente espiritual, enquanto a
visão bíblica abrange tanto o mundo espiritual quanto o físico, ambos restaurados
por um Criador benevolente.
Venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na te rra como no
céu.
M ateus 6.10
O reino de Deus tem uma origem , uma direção e um destino. Ele começa
no céu e vem em nossa direção. No final, ele assume o controle da Terra. O reino
de Deus vem em estágios. Ele cresce de pequeno a grande e de dentro para fora
(Mt 13.31-33). O reino de Deus é uma invasão, não uma evacuação (embora seja
uma conquista feita com graça, não deixa de ser uma invasão).
Yeshua ausentou-se por um tempo para estabelecer a autoridade do seu rei-
no, mas está voltando para governar e reinar (Lc 19.12). A maioria dos cristãos
186 62h 5 m a lm o ço u , com A braão?

considera a salvação como uma espécie de seguro contra incêndio ou uma pas-
sagem de helicóptero (para voar embora). Eu vejo o reino como um certificado
de propriedade e uma constituição de Estado para governar. Embora o Pai Nosso
talvez seja a oração mais repetida no mundo, aparentemente a maioria das pessoas
não compreende o seu foco (sobre a vontade de Deus ser feita na terra e a vinda
de seu reino).
Vale a pena notar que o livro de oração judaico termina cada culto com a
oração Aleinu, que inclui as palavras “restaurar (ou reparar) o mundo no reino de
El Shaddai”.
Toda a auto ridade me foi dad a no céu e na te rra .
M ateus 28.18
Yeshua é, ao mesmo tempo, Deus e homem; por isso, ele tem autoridade
tanto no céu quanto na terra. Sua autoridade no céu provém de sua divindade; sua
autoridade na terra, de sua humanidade. O evangelho é eficaz por causa de sua
dupla n atu reza e dupla autoridade. Yeshua veio do céu e nasceu num corpo
físico na terra. Ele ressuscitou fisicamente dos mortos e subiu ao céu. Ele voltará
um dia do mesmo modo como subiu (At 1.11), e seus pés estarão outra vez sobre
o Monte das Oliveiras (Zc 14.4).
Não afirmar um retomo físico de Yeshua à terra e um reino milenar literal
é zombar da dor física que ele sofreu na cruz e negar o propósito da ressurreição
de seu corpo. Fico perplexo ao ver como é difícil para muitos cristãos enxergar o
cumprimento óbvio e literal de todas as promessas bíblicas sobre 0 reino milenar
do Messias. Descartar centenas de profecias porque não se encaixam em nossa
teologia denominacional é uma posição perigosa.
... de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos,
todas as coisas, tan to as do céu como as da te rra.
Efésios 1.10
Por favor, compare este verso com Colossenses 1.16, que declara que todas
as coisas no céu e na terra foram criadas para Yeshua e por meio dele.
Hoje, infelizmente, ainda há uma separação entre as coisas que estão no
céu e as que estão na terra. Mas não é essa a vontade de Deus. No final, todas
as coisas nos céus e na terra serão reunidas por Yeshua, o Messias. Essa foi sua
missão - u n ir 0 céu e a te rra. Há outra tradição rabínica que diz que quando um
ser humano ora na terra com a intenção espiritual certa, ele une as letras do nome
divino YeHoVaH, sendo que o YH representa o céu, e o VH, a terra.
Por meio de Yeshua (e dos seus verdadeiros discípulos cheios do Espírito
juntamente com ele), o mundo todo se tomará um só, tanto o que está no céu,
quanto o que está na terra. E até mesmo o nome de Deus será único (Zc 14.9). Não
se contente com apenas metade do reino. A tendência de Israel tem sido ver a parte
terrena, sem a celestial; a Igreja tem visto apenas a parte celestial, sem a terrena.
No entanto, Jesus é Rei de Israel e Cabeça da Igreja.
Graças a Deus, temos 0 “melhor dos dois mundos” - unindo o que está no
céu com o que está na terra.
187

Apêndice Nove
A n t e s da F und a çã o

Esta é uma lista de referências na Nova Aliança que citam o fato de Deus ter
traçado um plano “antes da fundação do mundo”.

Mateus 20.23 Nossos assentos no reino


Mateus 24.36 Data da Segunda Vinda
Mateus 25.34 Paraíso para os justos
Mateus 25.41 Punição de fogo para os ímpios
João 1.2 Yeshua, a Palavra que estava com Deus desde a criação
João 1.15 Yeshua existia “antes” de seu nascimento
João 8.58 Yeshua existia antes de Abraão
João 17.5 Yeshua e o Pai compartilhando glória
João 17.24 Yeshua e o Pai compartilhando amor
Atos 1.7 Data da Segunda Vinda
Atos 2.23 Morte e ressurreição de Yeshua
Atos 3.20 Yeshua designado a nós de antemão
Atos 4.28 Propósito de Deus determinado de antemão
Atos 17.26 Fronteiras das nações predeterminadas
Atos 17.31 Data do dia do juízo predeterminada
Romanos 1.2 Mensagem do evangelho prometida
Romanos 8.29 Conhecidos de antemão e destinados a ser como Yeshua
Romanos 9.23 Vasos de graça preparados de antemão
Romanos 11.2 Povo de Israel conhecido de antemão
Romanos 16.25 Revelação do mistério guardado em silêncio
1 Corintios 2.7 Mistério da nossa glorificação
Efésios 1.4 Escolhidos nele para ser irrepreensíveis
188 62k e m a l m o ç o u c o m A b r a ã o ?

Efésios 1.5 Predestinados para ser filhos de adoção


Efésios 1.9,10 Plano e propósito de fazer convergir tudo em Yeshua.
Efésios 1.11 Herança predestinada aos eleitos
Efésios 2.10 Boas obras para praticarmos
Colossenses 1.26 Mistério oculto desde os séculos
2 Timóteo 1.9 Plano de salvação pela graça em Yeshua
Tito 1.2 Promessa da vida eterna
Hebreus 4.3 Obras de Deus concluídas e 0 descanso divino
Hebreus 12.1 A carreira que nos é proposta
Hebreus 12.2 A alegria de Yeshua após suportar a cruz
1 Pedro 1.2 Eleitos segundo a presciência para santificação
1 Pedro 1.20 Sangue de Yeshua
2 Pedro 2.3 Julgamento de falsos profetas e mestres
Judas 4 Julgamento de falsos crentes
Apocalipse 9.15 Quatro anjos para destruir a terça parte do mundo
Apocalipse 13.8 Nomes escritos no livro da vida (e 0 sacrifício de Yeshua)
Apocalipse 17.8 Nomes não escritos no livro da vida

Já que Deus tinha um plano para a raça humana desde antes da fundação
da Terra, podemos saber que o que acontece à nossa volta não é por acaso, mas
com propósito. Deus nos deu livre-arbítrio e colocou diante de nós uma série de
testes espirituais e morais (Dt 30.15,19). Ele planejou o resultado desses testes de
acordo com as nossas respostas.
O que Deus criou no início do Gênesis já previa o que aconteceria no fim do
Apocalipse. O fim foi planejado desde o princípio. Isso pode ser comparado a um
empreiteiro de obras que não dá início à construção até que toda a planta tenha
sido desenhada pelo arquiteto. O propósito de Deus para a criação já havia sido
idealizado antes de ele iniciar o processo criativo. O produto final é determinado
pelo projeto original.
Há um ditado rabínico (em referência ao Shabat) que diz: “O fim da ação é
o que vem primeiro no pensamento”. Outro ditado rabínico (sobre livre-arbítrio e
predestinação) diz: “Tudo está previsto, mas o livre-arbítrio nos foi dado”. Deus
tem um propósito desde 0 início dos tempos. O que se passa no início da Bíblia é
um fundamento para o que acontecerá no final dela.
189

Apêndice Dez
A p a r iç õ e s H umanas e G l o r if ic a d a s

Yeshua é revelado por toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, como ho-


mem e como Deus (e como mediador entre Deus e o homem - 1 Tm 2.5). Algu-
mas vezes, Yeshua se manifesta em forma glorificada, enfatizando sua divindade.
Noutras, ele aparece em forma terrena, enfatizando sua humanidade. (Yeshua é a
Palavra de Deus que se fez carne - Jo 1.14. Então, também poderiamos chamar
aquele corpo terreno de corpo da carne ou seu corpo “mundano”.)
Nas Escrituras da Nova Aliança, o padrão comum é Yeshua se manifestar
em forma terrena nos evangelhos e em forma celestial no Apocalipse. O úniço
momento em que ele é transformado em seu corpo glorificado nos evangelhos
ocorre no Monte da Transfiguração (Lc 9; M t 17). Ele foi glorificado ali para nos
ensinar:
1. que ele possui uma forma glorificada e divina;
2. que essa será a aparência física que tanto nós como ele teremos no
mundo vindouro;
3. que estaremos livres para transitar entre essas duas formas sempre
que desejarmos.
Yeshua também se manifesta nas duas formas na Bíblia Hebraica (Velho
Testamento). Uma das aparições mais importantes em corpo terreno está em Gê-
nesis 18. Juntamente com dois anjos que foram a Sodoma a fim de destruí-la
(Gn 18.2 e 19.1), ele almoçou com Abraão e teve uma longa conversa com ele
sobre seu filho que haveria de nascer e o juízo iminente. Ele também se manifes-
tou na forma terrena em Peniel, onde lutou a noite toda com Jacó, enquanto este
se preparava para atravessar a fronteira e entrar novamente na Terra Prometida
(Gn. 32.2). Outra manifestação (como comandante de exército com uma espada
desembainhada) foi dada a Josué na noite anterior à batalha de Jerico (Js 5.13).
Alguns exemplos de manifestações de Yeshua em forma glorificada na Bi-
blia Hebraica são: na sarça ardente (Ex 3), na travessia do Mar Vermelho (Ex 14),
no Monte Sinai (Ex 24), exaltado sobre o trono do Rei (Is 6), assentado no trono
acima da nuvem de glória e dos querubins (Ez 1.26), diante do Ancião de Dias
190 62k e m a l m o ç o u , com A braão?

(Dn 7) e como o homem de fogo, mencionado também no Apocalipse (Dn 10.5).


Nesses exemplos da Velha Aliança, Yeshua se manifestou em forma terrena
ao povo na terra de Israel e em forma glorificada ao povo quando estava fora da
terra. O mesmo aconteceu na Nova Aliança: suas aparições aos discípulos ocor-
reram dentro de Israel, ao passo que as aparições a João ocorreram no exílio, na
Ilha de Patmos (Ap 1.9).
Embora seja uma simplificação dos fatos, podemos afirmar que o padrão
geral encontrado nas Escrituras é que o Filho de Deus se manifestou em forma
humana dentro de Israel e em forma glorificada fora da terra.1
Esse padrão (encontrado tanto na Nova Aliança quanto na Velha) de ter ma-
nifestações divinas do Messias em nações gentílicas e manifestações humanas na
terra de Israel está relacionado com o destino de Deus para a Igreja e para Israel.
A Igreja tem enfatizado a divindade de Yeshua e deixado de lado, muitas vezes, a
importância de sua humanidade. Em contraste, Israel tem olhado para a humani-
dade do Messias, perdendo, muitas vezes, sua divindade.
A Igreja se encarregou da natureza divina; Israel guardou a davídica. Nesta
geração, alguns israelenses estão crendo em Yeshua, e a Igreja está voltando a
suas raízes judaicas. A dupla natureza do Filho de Deus está sendo revelada em
sua plenitude. (A Noiva - constituída por Israel e a Igreja - está assumindo seu
papel na dança dos “dois exércitos” [Ct 6.13]; o Noivo em breve voltará para as
bodas [Ap. 19.7]. A medida que Jacó e Esaú se reconciliarem - judeus e árabes -
formando os “dois exércitos” [Gn. 32.2], a face de Deus, Peniel, será revelada.)
A reconciliação e a revelação caminham lado a lado. Juntamente com a re-
conciliação entre Israel e a Igreja, virá a completa revelação do Messias Yeshua.

1 Em hebraico, a palavra "e xílio ‫ ״‬é GALUT, e a palavra "revelação‫ ״‬é HIT-GALUT. As duas palavras
vêm de raízes semelhantes — G-L-H e G-L-L.
191

Apêndice Onze
D iv in o e D a v íd ic o

Ao longo da Bíblia Hebraica, há uma progressão na compreensão do reino


de Deus e da natureza de Deus. A medida que o povo crescia em número, seu
entendimento do relacionamento com Deus crescia também. Veja algumas das
etapas significativas dessa progressão histórica:
Para Noé Família
Para Abraão Tribo
Para Moisés Povo Escolhido
Para Davi Reino Israelita
Para Isaías Reino Messiânico (profetizado)
Esse desenvolvimento do povo de Deus continuou na Nova Aliança em mais
três fases:
Para Pedro Reino Messiânico (revelado)
Para Paulo Igreja Internacional
Para João Novos Céus e Nova Terra

Nas Escrituras da Nova Aliança, há uma progressão correspondente na com-


preensão de quem é Yeshua. Começa com a identidade davídica no evangelho de
Mateus e avança em direção à divina, no livro de Apocalipse. As três fases para-
leias podem ser resumidas assim:
1. Yeshua como Rei de Israel - Evangelhos Sinóticos
2. Yeshua como Cabeça da Igreja - Epístolas Paulinas
3. Yeshua como Anjo de YHVH - Escritos Joaninos
A Nova Aliança começa em Mateus com a genealogia de Yeshua. Este pri-
meiro capítulo é uma ponte que une os acontecimentos do evangelho com a histó-
ria bíblica do reino de Israel. A ênfase é que Yeshua é o filho de Davi.1

1 Nota: meu amigo, 0 Dr. Michael Brown, apontou a razão de a genealogia ser dividida em períodos
de 14 gerações (vv. 17,18). Em hebraico, por não haver vogais, 0 nome de Davi é soletrado: "DVD‫ ״‬.
Como cada letra tem um valor numérico (D = 4 e V = 6), 0 nome de Davi seria 4 + 6 + 4, ou seja, 14.
0 número 14 ressalta que Yeshua é filho de Davi.
192 6¿W .6M A L M O Ç -ΟΙΛ C O M A B R A Ã O ?

Deus entregou o governo do planeta Terra a Davi (2 Sm 7). Se não entende-


mos a natureza davídica de Yeshua, perdemos o nosso domínio sobre este planeta,
a transformação dos reinos do mundo (Ap 11.15), a restauração do reino de Israel
(At 1.6) e a natureza literal do reino milenar. E por isso que a ligação com Davi
é tão importante.
Se não entendemos a natureza divina de Yeshua, perdemos nosso próprio
destino de seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26).
Yeshua tem a plenitude de Deus habitando nele em forma corpórea (Cl 2.6).
Como povo de Deus, nosso destino é ter a plenitude de Deus habitando em nós
também (E f 3.1 9). A progressão das Escrituras da Nova Aliança revela Yeshua em
fases que vão desde a davídica até a divina.
193

Apêndice Doze
R espaldo A cadêmico
Teologia Messiânica e um Judaísmo Perdido
roR D aniel C J ü 5 te.r
DOUTOR EM TEOLOGIA

O livro de Asher é uma contribuição consistente e relevante ao diálogo entre


judeus e cristãos. Ele restaura um judaísmo perdido. Os judeus messiânicos são
comumente acusados de ter saído do aprisco por conta de sua teologia singular,
mas a verdade é que temos as mais profundas raízes históricas como base de nossa
teologia judaica! Nossa alegação é que o movimento messiânico é uma espécie
de ressurreição de princípios perdidos, e que nossa teologia é um retomo ao ju-
daísmo autêntico que foi injustamente coibido pelo desenvolvimento do judaísmo
rabínico ao longo dos séculos.
Em meados do século 19, na Alemanha, E. W. Hengstenberg escreveu o
clássico Cristology o f the Old Testament (Cristologia do Velho Testamento). Este
imenso volume examina exaustivamente todos os textos hebraicos nos quais o di-
vino Messias apareceu em sua forma pré-encamada. As vezes, temos a impressão
de que Hengstenberg forçou a interpretação para enxergar Yeshua em alguns tex-
tos, mas 0 livro permanece como uma fonte de consulta inestimável. O Dr. Walter
Kaiser, ex-professor da disciplina de Velho Testamento na Trinity Evangelical
University (Universidade Evangélica Trindade), em Deerfield, Illinois, EUA, e
recentemente presidente da Gordon Conwell Divinity School (Escola de Divin-
dade Gordon Cornwell), publicou um livro atualizando a obra de Hengstenberg.
Neste volume, é possível encontrar respaldo acadêmico muito valioso para a tese
de Asher.
A influência de Hengstenberg e Kaiser pode ser observada em meu livro
Jewish Roots (Raízes Judaicas). Na seção sobre a divindade de Yeshua, defendo
que o Anjo/YHVH é uma aparição ou manifestação do Messias pré-encamado.
Embora minha seção não tenha, nem de longe, a mesma abrangência do livro de
Asher, a ideia segue exatamente na mesma direção.
194 6Z u e m a l m o ç o u c o m A b r a ã o ?

Mais impressionantes ainda são as recentes obras de acadêmicos judeus a


respeito do assunto. Mencionarei apenas duas. Alan Seigel, em seu livro muito
citado por outros estudiosos Two Powers in Heaven (Dois Poderes no Céu), ex-
plora a ideia de uma pluralidade no Deus único e a percepção de um “deus menor‫״‬
que aparece na Biblia e que também pode ser encontrado na literatura judaica
intertestamentária. Podemos concluir, a partir da obra de Seigel, que a ideia de
um Deus excessivamente singular não era o único conceito judaico no primeiro
século.
Daniel Boyarín é um respeitado estudioso judeu ortodoxo e professor da
Universidade da California em Berkley. Em seu livro Border Lines (Limites),
Boyarín argumenta, a partir de um exame completo da Bíblia e da literatura inter-
testamentária, que a ideia da pluralidade do único Deus verdadeiro era o conceito
da maioria no judaísmo do primeiro século. O Anjo/YHWH, a Palavra (Logos/
Memra) e a Sabedoria são identificados como um só. Boyarín afirma que essa
figura é descrita como próxima ao credo cristão que mais tarde viria a descrever o
Filho como uma pessoa (ou Hipóstase) juntamente com o Pai. Devido à alegação
cristã que associa Yeshua ao Logos, à Sabedoria e ao Anjo, o judaísmo rabínico se
distanciou desse ponto de vista mais antigo.
Boyarín examina a literatura judaica escrita depois do primeiro século para
mostrar evidências de oposição ao cristianismo (e ao judaísmo messiânico). Esses
textos mostram como os rabinos buscavam expurgar do judaísmo essas idéias
mais antigas. Embora seja possível notar, também, evidências desse esforço no
Talmude, era difícil eliminar o ponto de vista antigo, o qual ainda era popular
entre pessoas comuns nas sinagogas. O livro de Boyarín deve ser lido a fim de
se verificar a força total de sua argumentação, a qual, a meu ver, é impossível de
ser refutada.
Vale a pena mencionar também dois conhecidos estudiosos cristãos que es-
creveram extensivamente sobre a divindade de Yeshua. Richard Bauckham da
Universidade de St. Andrews, na Escócia, em God Crucified (Deus Crucificado),
produziu uma obra poderosa demonstrando que a alegação da completa divindade
de Yeshua permeia as Escrituras da Nova Aliança. Ele é um grande conhecedor
das idéias referentes à natureza uni-plural de Deus no judaísmo do primeiro sé-
culo. Ele faz a importante afirmação de que a encarnação de Deus em Yeshua
não contradiz coisa alguma do judaísmo do primeiro século. Por que, então, foi
rejeitada pela maioria dos judeus? Na visão de Bauckham, a maioria dos líderes
religiosos judeus simplesmente não conseguiu abraçar a surpresa da Encarnação.
A questão não era a alegação de pluralidade em Deus, mas a própria Encarnação.
Além disso, e talvez um fator ainda mais importante, a ideia de um Messias
crucificado era um escândalo. A pluralidade era comum na visão do primeiro sé-
culo, mas a ideia de que o Deus/Logos pudesse ser totalmente encarnado em um
ser humano de carne e sangue, não. Embora a Encarnação não contradissesse
coisa alguma na comunidade judaica do primeiro século, foi uma surpresa; uma
surpresa grande demais para ela. Portanto, após 0 primeiro século, o judaísmo
A p ê N r> [c e s 195

rabínico buscou abraçar o tipo de monoteísmo singular que faria a teologia das
Escrituras da Nova Aliança parecer heresia.
Larry Hurtado, agora também da St. Andrews, em seus muitos escritos, tem
argumentado que a linguagem devocional das Escrituras da Nova Aliança é predo-
minantemente “binitariana” (dupla). A adoração é constantemente dirigida ao Pai
e ao Filho, ou ao Pai e a Yeshua. Esta é uma progressão espantosa. (Há também,
embora mais raramente, devoção trinitariana.) Esta mudança de devoção tem suas
raízes nas primeiras comunidades judaico-messiânicas e, também, nos textos bi-
nitarianos das Escrituras Hebraicas tão bem descritos por Asher. As passagens
hebraicas não produziram uma devoção claramente binitariana (embora houvesse
indícios de devoção à Sabedoria ou ao Logos). Contudo, após a Encarnação, nas
Escrituras da Nova Aliança, passagens como a de João 5 afirmam explícitamente
que devemos honrar o Filho da mesma maneira que honramos o Pai.
Embora conceitos alinhados com a teologia judaico-messiânica ainda não
tenham alcançado a posição de maior influência no mundo da Teologia, vivemos
num tempo em que há mais respaldo acadêmico para as perspectivas judaico-
-messiânicas do que em qualquer época anterior. Estudiosos judeus têm escrito
livros declarando que os conceitos judaicos do primeiro século incluíam um Deus
uni-plural, conforme mencionado acima. Também existem estudiosos judeus de-
fendendo a legitimidade do movimento judaico-messiânico (Rabino Cohn-Sher-
buck, Messianic Judaism [Judaísmo Messiânico]) e até mesmo defendendo a tese
de que Yeshua ressuscitou dos mortos (Rabino ortodoxo Pinchas Lapide em The
Ressurrection o f Jesus, a Jewish Perspective [A Ressurreição de Jesus, uma Pers-
pectiva Judaica]).
Há muita pesquisa acadêmica moderna que apoia os conceitos expressos no
livro de Asher. No entanto, Deus também pode revelar essas coisas a seus filhos,
até mesmo sem que precisem buscá-las em publicações e livros acadêmicos!
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S o b r e o A utor

JAsfier Jntrater

Asher Intrater é diretor do Ministério Revive Israel e fun-


dador da congregação Ahavat Yeshua em Jerusalém. Com diplo-
mas da Universidade de Harvard, Baltimore Hebrew College e
Messiah Bíblica Institute, ele é autor de vários livros e panfletos
em hebraico e inglês, incluindo Covenant Relationships (Re-
Iacionamentos de Aliança), What Does the Bible Really Say
about the Land (O Que a Biblia Realmente Diz Acerca da Ter-
ra) e From Iraq to Amargeddon (Do Iraque ao Armagedom).
Além disso, Asher e a equipe do Revive Israel publicam
semanalmente artigos na Internet, que são traduzidos para mais
de dez idiomas em todo o mundo. Esses informativos tratam de
eventos atuais no Oriente Médio, ensinamentos bíblicos acerca
das profecias dos últimos tempos e atualizações referentes a ju-
deus messiânicos e árabes cristãos em Israel. Asher e sua esposa
Betty têm quatro filhos e moram na região de Jerusalém.
Para obter mais informações, acesse www.reviveisrael.org
ou escreva para israel@revistaimpacto.com.br (para receber o
informativo em português).