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Foi novamente como se a Vida, com todos os seus segredos, estivesse próxima de

mim, como se eu a pudesse tocar... E ali sentia-me imensamente segura e pro- Etty Hillesum
tegida. E pensei: «Como isto é estranho. E guerra. Há campos de concentra-
ção. Pequenas crueldades amontoam-se por cima de pequenas crueldades.
Quando caminho pelas ruas, sei que, em muitas das casas por onde passo, há ali
um filho preso, e ali um pai refém, e ali têm de suportar a condenação à morte
O
O)
DIÁRIO
de um rapaz de dezoito anos.» E estas ruas e casas ficam perto da minha própria
casa. 5 1941-1943
Sei do grande sofrimento humano que se vai acumulando, sei das perseguições e
da opressão... Sei de tudo isso e continuo a enfrentar cada pedaço de realidade
C
•—
que se me impõe. E num momento inesperado, abandonada a mim própria —
encontro-me de repente encostada ao peito nu da Vida e os braços dela são
muito macios e envolvem-me, e nem sequer consigo descrever o bater do seu •—•

coração: tão fiel como se nunca mais findasse... O


Etty Hillesum, Diário
M
1

UJ

prefácio de
José Toíentino M e n d o n ç a

tradução do neerlandês de
Maria Leonor Raven-Gornes

9 ' 789723*712742 A S S Í R I O & ALVIM


Etty Hillesum

DIÁRIO
1941-1943

prefácio de
José Tolentino Mendonça

tradução do neerlandês de
Maria L e o n o r Raven-Gomes

ASSÍRIO & ALVIM


apoio à tradução
Nova certeza: que querem, o nosso extermínio. Também isso eu
FUNDAÇÃO PARA A PRODUÇÃO E aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus me-
TRADUÇÃO DE LITERATURA NEERLANDESA
ãos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem
do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser cor-
roída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma
convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido ape-
sar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas
em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas
nos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal* as perseguições,
as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim. é como
se fosse urnajvrte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade
e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para
mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as
coisas são. Gostava de viver longamente para no fim, mais tarde,
TITULO ORIGINAL: conseguir explicar, e se isso não me for dado, pois bem, nesse caso
HETVERSTOORDELEVEX DAGSOEKVAN ETtVHlLLESUM. 1941-1943
uma outra pessoa iráfazê-lo e então um outro continiíaráa vi-
ver a minha vida, ali onde a minha foi interrompida, e por isso
tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convin-
© 1936 BY ETTY HILLESUM / UITGEVERIj BALANS centemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para
© ASSÍRIO & ALVIM
que o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo
RUA PASSOS M A N U E L . 67B. t l i U - 2 5 8 LISBOA
nem tenha as mesmas dificuldades.
EDIÇÃO 1193
l.« EDIÇÃO: ABRIL 2008 / 3.' EDIÇÃO: OUTUBRO 2009
ISBN 978-972-37-1274-2
A RAPARIGA DE AMESTERDÃO

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

«Eu fiz-me ouvir junto de quem não perguncou por mim.


Deixei-me achar por quem não me buscou.»
do Livro do Profeta ísaías (65,1)
A 9 de Março de 1941, quando Esmer (Etty) Hillesum come-
çou a escrever, no primeiro dos oito cadernos de papel quadricula-
do, o texto que viria a ser o seu Diário, estava-se longe de pensar
que começava aí uma das aventuras literárias e espirituais mais sig-
nificativas do século. Ela tinha vinte e sete anos de idade e morre-
ria sem ter feito trinta.

Era a mais velha dos três filhos de um casal judeu, urbano, sem
especial vinculação religiosa: Louis Hillesum, professor de línguas
clássicas, e Rebecca Hillesum-Bernstein, emigrante russa (na ver-
dade, foragida a um pogrom}. Dos irmãos, Jaap destacou-se como
investigador no campo das ciências mé.dkas, e Mischa, o mais novo,
embora atormentado por crises psicológicas devastantes, vem a
afirmar-se como um dos pianistas de referência, na Holanda desse
tempo. Etty dir-se-ia de outra espécierEla cunhou uma expressão
para descrever o seu estado: «bloqueio espiritual». A sua vida es-
condia-se por detrás de um enigma contra o qual ela lutava, mas de
forma errática e imprecisa. Durante anos, a sua principal ocupação
foi uma licenciatura em Direito., que a bem dizer lhe era indife-
rente. Atraída pelo estudo das línguas eslavas e da literatura russa
(com graça, conta que, ainda em jejum, começava muitos dos seus
dias lendo Dostoíévski), frequentou, esporadicamente, os círculos
socialistas e libertários de Amesterdão. Projectava sem grande em- ambas judias, debatendo-se por salvaguardar o sol interior num sé-
penho um percurso literário... Mas a verdade é que os seus inte- culo de horas sombrias, ambas escritoras, ambas consumando até
resses intelectuais e estéticos demoravam a encontrar fluidez: «é ao fim (ou mais para lá do fim) um destino de aniquilamento
como se lá bem no fundo houvesse... algo a prender-me». E era as- como se de uma incrível aventura espiritual se tratasse. A própria
sim com tudo o resto. O próprio amor se configurava, nesses anos, morte as aproxima, ocorrida no mesmo ano: 1943. Simone morre
a «um jogo» que a rodeava intensamente, sem conseguir tocar esse num hospício inglês, corno se expirasse entre as vítimas, na frente
fundo secreto e encarcerado que era a sua vida. mais exposta de um combate, e E§ty num campo de concentração,
para o qual_partiu cantando.
Mas há uma diferença na iconografia. Simone de Beauvoir
Nesse domingo de Março, em que principia a sua narrativa, conta que Weil se vestia como quem traja uma farda, cancelando,
ela vive no número 6 da Rua Gabriel Metsu, já independente dos numa opção moral implacável, os sinais que a pudessem distin-
pais, mas no mesmo fervilhar hesitante entre possibilidades: é guir a ela, filha de urna Paris burguesa, da mais humilde operária
governanta da casa de Han Wegerif («pai Han», no Diário}, um fabril (coisa que, aliás, ela não sossegou enquanto não foi). As
contabilista aposentado, viúvo, com quem manteve uma relação imagens de Etty são as de uma mulher bem diferente: elegante, fe^
sentimental. Aí vivem o filho de Wegerif, Hans, de pouco mais de minina, com um toque de mundaneidade, e uma inteligência
vinte anos, a cozinheira Káthe, e dois hóspedes, Bernard Meylink, também física. ^.Tsso íTummãrcreio, as duas trajectórias. Simone
estudante de bioquímica, e Maria Tuinzing, uma enfermeira que se era, desde o princípio, ascética, disciplinada, rigorista: tinha a pre-
tornará sua confidente e amiga. A Rua Gabriel Metsu contorna a cisão de um diamante, mas quasèTnão tinha corpo. Etty era im-
esplanada verde do Rijksmuseum, onde estão as pinturas de Ver- precisa, sensual, dispersa: e é isso que ela vai trabalhar, a altíssimas
meer, de Pieter de Hooch, de Rembrandt..., e tem alguma coisa temperaturas, até tudo se tornar corpo, para depois se tornar cha-
da atmosfera delicada e impávida que nessas imagens nos sur- ma. A conversão de Etty Hiílesum, ou melhor, a sua «mudança de
preende: «a copa das árvores, achei-as ao acordar... Os botões de razão» (como o grego do Novo Testamento, com o termo metá-
tulipas, o vermelho e o branco, inclinados um para o outro... os noia, nos ensina a dizer), vai desenvolver-se em três encontros de-
ramos negros contrastando com o ar luminoso e, mais longe, o cisivos: o primeiro tem o nome de uma pessoa; o segundo tem o
Rijksmuseum». nome de um lugar; o terceiro não tem nome: é o encontro com o
próprio Inominável.

E impossível não aproximar o percurso que faz Etty Hillesum


daquele vivido também por_Simone Weil. São contemporâneas,

Prefá Prefát
muitas vezes esbatiam-se, e Etty não foi certamente a única a es-
O despertar espiritual
crever: «sou abafada por essa personalidade e não consigo líbertar-
O projecto de um diário pessoal surge a Etty Hillesum como -me». Mas tudo somado, Spier representou indiscutivelmente para
Etty Hillesum um verdadeiro iniciador na vida espiritual, o «obs-
proposta terapêutica Feita por Julius Spier (nomeado pela inicial do
tetra da minha alma», para utilizar palavras suas. Spier chamava-
apelido, S.)- A influência deste personagem, de «olhos cinzentos e
-Ihe carinhosamente «a minha secretária russa». Ele ensinou-lhe «a
gastos, espertos, incrivelmente espertos», é tão grande que os pri-
pronunciar com naturalidade o nome de Deus». Iniciou-a na prá-
meiros cadernos1 estão-lhe praticamente dedicados: ou com consi-
tica da oração. E ele quem lhe aconselha a leitura do Antigo e do
derações a seu respeito, ou avaliando a reverberação fulgurante que
Novo Testamento, ou de autores como Santo Agostinho e Tomás
provoca, ou, simplesmente, com transcrições minuciosas do seu
de Kempis. E, por outro lado, Etty conseguiu progressivamente
pensamento. Julius Spier é um judeu de Frankfurt, refugiado no
trabalHar a'sua autonomia, revisitar de forma distanciada e original
bairro judeu de Amesterdão, onde tem o seu pequeno consultório
o que recebia dele, defender o seu próprio espaço de deliberação (a
(a três ruas, um canal e uma ponte da casa dela). Chegou a ser
dada altura, por exemplo, decide prosseguir o trabalho psicológico
director de um banco, foi depois editor, estudou canto até que
com Spier, mas recusa já a abordagem psicoquírológica. que não a
chegou, passados vinte e cinco anos, à «psicoquirologia», uma
convence). E, de facto, a pensar nele que Etty escreverá: «eu sei que
diagnose psicológica que parte da leituta darnorfôlpgia da mão
os mais importantes pioneiros do futuro serão esses homens que
(que ele considera «o segundo_rpsto»). Fez análise com Cari Jung,
têm uma ampla dose de feminilidade —- e que não deixam de ser
em Zurique, que lhe escreveu um texto elogioso a recomendar o
homens yerdadeirçs.» " " ~~~~~-
seu método. A «psicoquirologia» tornou-se, desde aí, a sua princi-
Ao longo do Diário encontramos disseminados muitos ensi-
pal ocupação. Etty conheceu-o por finais de Janeiro, um mês antes
namentos de Julius Spier: o mais importante de todos, impresso
de começar o seu Diário, num sarau musical, onde o seu irmão
não na letra mas na imensa transformação que Etty realiza, foi a fé
Mischa tocava gjano e Spier cantava.
Etty conta que chegou a ele com um grande sentimento de so- inequívoca na possibilidade de vivermos uma vida plena e inteira.
Tudo o resto é matéria convergente, são cintilâncias dessa verdade
lidão e insegurança: «quem me dera que houvesse alguém que me
maior, como os exemplos que aqui se dão.
pegasse pela mão e se ocupasse de mim». Spier reptesentou, na des-
1. A expressão «Palavra de Deus» não se restringe unicamen-
coberta, na sabedoria e mesmo na desordem, a concretização des-
te à Bíblia. E antes uma espécie de conhecimento originalcuja
se desejo. Ele constituía uma mistura, perigosa e deslumbrante
como podem essas misturas, de mestre espiritual, psicanalista, qui- expansão continua, uma inspiração, em sentido amplo, através
da qual o Espírito Santo continua a sua revelação no interior dos
tomante e xama. No heterodoxo tratamento que propunha, que
corações.
incluía sessões de luta física entre ele e os pacientes, as fronteiras

Prefácio
Prefácio
2. «Ajuda-te que o céu te ajudará.» E quando nos ajudamos a Descobrindo a sua pátria
nós mesmos, cultivando uma sincera confiança em nós, que con-
No tempo em que o Diário avança, a Holanda surge cada vez
fiar em Deus se torna possível.
mais na mira expansionista do nazismo. Desde há um ano que os
3- E necessário trazer os outros dentro de si, espiritualmente:
judeus holandeses vinham sendo discretamente isolados. Mas em
esta pode ser uma «memória orante», uma verdadeira oração. Para
Fevereiro de 1941, realiza-se na cidade de Amesterdão uma inédi-
rezar é-nos requerida a entrega a um profundo recolhimento.
ta greve geral contra opogrom, e a repressão ale^nã torna-se então
4. No final de cada dia, é impõrtante~recolh^rmo-nos, uns
declarada: os judeus foram despedidos dos seus empregos, não
dez minutos, a recordar o modo como o vivemos, e o que ele nos
podiam frequentar os lugares de comércio e lazer, eram empurra-
trouxe de bem e de mal.
dos para guetos e campos ditos «de trabalho»., A 14 de Junho des-
se ano, Etty escreve: «Mais prisões outra vez, terror, campos de
Um dia, e Etty conta~o a 25 de Setembro de 1941, ele ter-lhe- concentração, o levar indiscriminadamente pais, irmãs, irmãos.
Uma pessoa procura o sentido da vida e pergunta-se se ela na rea-
-á dito: «Tenho a impressão de ser um "estado preparatório" para
lidade ainda tem sentido. Mas este é um assunto que cada um
um^grande amor teu.» Spier morre em Setembro do ano seguinte,
deve decidir consigo e com Deus.» E a terceira vez que este nome
em Amesterdão. Ela reentra no campo de Westerbork pouco de-
surge no seu escrito.
pois de assistir à rápida cerimónia fúnebre.
Na zona oriental da Holanda, não muito longe da fronteira,
começa a ser construído um campo de concentração intermédio,
O despertar espiritual de Etty liga-se ainda a outra amizade, a donde os judeus eram posteriormente encaminhados para o exter-
de HennyTideman, uma cristã que ela conhece precisamente nos mínio.
A 29 de Abriljie_L5)42, os judeus foram obrigados a usar a es-
encontros com Spier. Etty lembra-se do comentário que este fazia
trejajÍ£_Qavid. Quase dois meses depois, Etty escreve (à meia-noi-
a seu respeito: «tem a inteligência da alma». Com Tide, perceberá
te e meia): «Esta manhã passei de bicicleta pelo Stadionkade e
o alcance da oração, aprenderá da «sua voz radiosa e afirmativa» a
desfrutei do vasto céu ali nos limites da cidade e inspirei o ar fres-
dirigir-se também a Deus por palavras suas, numa abertura miste-
co e não racionado. E tabuletas por toda a parte, que impediam aos
riosa e total, onde passa a caber, com a rnaior naturalidade, a alusão
judeus o livte acesso aos caminhos e ao campo aberto. Mas sobre
ao sofrimento, à beleza dos gerânios ou a umjfercojdeILilke—----
aquele pedaço de caminho, que permanece nosso, também existe o
céu total. Não nos podem fazer nada, não nos podem fazer real-
mente nada.» E curioso que, nesse mesmo dia, o sábado de 20 de Ju-

Prefá
l6 . Prefácio
nho de 1942, há em Amesterdão outra rapariga, bem mais nova do eles não a entendiam. «Muita gente me acusa de indiferença e pas-
que ela, também a escrever um diário: chama-se Anne Frank. sividade e diz que me rendo de mão beijada. E dizem: "Cada pes-
Graças ao cuidado de alguns amigos, Etty passa, então, a tra- soa que consiga escapar às garras deles deve tentar fazê-lo e é uma
balhar como dactilógrafa numa das secções do Conselho Judaico. obrigação. E eu tenho de fazer alguma coisa por mim mesma."
Um pouco como nos restantes territórios ocupados, este organis- Esta é uma frase que não bate certo. Neste momento toda a gente
mo surge como mediação entre o povo judeu e as autoridades, tor- anda, com efeito, ocupada a tratar da_vidinha, a fim de se safar, e
nando-se facilmente objecto dointeresse e manipulação nazis. Era no entanto é preciso que um certo número, um grande número
dirigido por judeus de condição social elevada e mantinha na sua até, vá. E o esquisito é o seguinte: eu não tenho a sensação de estar
órbita centenas de funcionários, que supostamente auxiliavam o presa nas garras deles... Não sinto que esteja nas garras de nin-
destino dos deslocados e prisioneiros. Etty tem o que ela chama a euém,
t>_ ___ só sinto
-— ~ estar nos braços
—*— de Deus.» Mas é Lpreciso entender
-———-_^__
primeira experiência de descida ao «inferno». Dá-se conta, brutal- até que ponto crucificante, até que despojamento espiritual Etty
mente, de que a imensa maioria dos judeus que primeiro estavam viveu este seu «estar nos braços de Deus». Nada é evitado. E na
destinados à deportação etam os pobres.. Decide então pedir para atordoante infelicidade que abraça é que se encontra.
acompanhá-los como voluntária no Campo de Concentração de
Westerbork. Começava a compreender que aquela hora extrema
do seu povo tinha um significado tal, que ela não podia subtrair-se. Um dos aspectos mais comoventes é perceber o lugar da Lite-
De Agosto de 1942 até Setembro de 1943 vive aí, trabalhando no ratura na viagem imensa que Etty realiza. Ela começa por chamar-
mais que improvisado hospital. Uma das vantagens do seu estatu- ^IKe «a minha segunda pátria»* E é, a princípio, uma espécie de
to de voluntária era poder vir algumas vezes a Amesterdão, até outra vida que a ocupa, uma terra prometida para a qual se inclina.
potque a sua própria saúde rapidamente se arruinava. Mas aconte- O Diário está cheio de referências a essas horas de leitura compul-
ce o inaudito. No seu quarto «belo e tranquilo», diante da esplana- siva, mesmo antes do pequeno-almoço, horas de explicitado prazer:
da que dá para o Rijksmuseum, ela sente urna saudade irrecusável 'He Santo Agostinho a Hegel, aos seus amados russos (Dostoiévski,
de Westerbork. «Apaixonei-me tanto por esse Westerbork e tenho Tolstói, Lermontov, Púchkin...), que ela anota com profundida-
saudades de lá. Estes meses entre o arame farpado foram os meus de, em quem está sempre a pensar e que sonha traduzir. Mas de-
meses mais intensos e ricos.» pois, quando parte para o Campo de Concentração, tem apenas
Uma vez, os seus amigos comunistas e trotskistas que haviam uma pequena mochila. Faz então as escolhas decisivas. Escreve:
passado à resistência quiseram que ela entrasse na clandestinidade, «Quero memorizar uma coisa para os meus momentos mais difí-
tendo-lhe já preparado um refugio. Expuseram-lhe todos os peri- ceis e também a quero ter sempre à mão: que Dostoiévski passou
gos que corria, tiveram quase de forçá-la, mas ela respondeu que quatro anos em destetro na Sibéria tendo a BTbliã poT únícãtèiru-

18 Prcricio
rã.» E leva consigo a Bíblia. Além desta, dois livros mais a acom- — Pode contar isto?
panharão sempre, ambos de Rainer Maria Rilke: O Livro das Horas Respondi:
e Cartas a um Jovem Poeta; — Posso.
Então, uma espécie de sorriso deslizou por aquilo que ou-
«Trago sempre o Rilke à baila. E tão estranho, ele era um ho- trora fora o rosto da mulher.»
mem frágil e escreveu muito da sua obra dentro dos muros de cas-
telos hospitaleiros e talvez tivesse ficado compíetamente destroçado Etty Hillesum rambém escreve: «Não existe um poeta dentro
em circunstâncias como aquelas em que vivemos actualmente. de mim, há sim um pedaço de Deus_em mim que poderia desen-
Mas não demonstrará boa economia que, em épocas tranquilas e volver-se até se tornar um poeta. Num campo assim tem de haver
em circunstâncias favoráveis, artistas sensíveis possam procurar li- contudo um poeta que experimenta a vida lá, e lá também a pode-
vremente as formas mais belas e adequadas para as suas convic- rá cantar», Eoi este o modo de atravessar a vida que ela escolheu.
ções mais profundas, que dão às pessoas em épocas mais agitadas Mas aí a Literatura já não era a segunda pátria: coincidia com
e extenuantes um apoio e um abrigo para confusões e perguntas aquela, única, que ela em plena escuridão encontrou.
que ainda não tomaram uma forma e uma solução próprias, por-
que as energias diárias são reclamadas pelas aflições diárias?»
A eleita de Deus
Em Westerbork, Etry irrompe finalmente como escritora. Ela
que há muito buscava a sua voz vem encontrá-la aqui, neste lugar Aqueles que disseram que a poesia e a possibilidade de Deus
de tamanho silenciamento, munida apenas de um caderno qua- cessaram com Auschwitz, levantavam questões muito sérias, que
driculado e de um lápis. Há um texto de Anna Akhmátova que marcaram intensamente o debate filosófico e teológico da segunda
pode ser um paralelo iluminador para o caso de Etry: metade do século XX. E, de facto, dentro de um determinado qua-
dro de compreensão foi o colapso. O que Etty intui fulgurante-
«À laia de prefácio mente é que a experiência daquele inferno histórico exige a
Nos terríveis anos de ejovismo passei dezassete meses nas necessidade de uma nova gramática. «Vou ter de achar uma lin-
bichas da cadeia de Leninegrado. Uma vez, até alguém me "re- guagem nova», escreveu ela. E achou.
conheceu". Por essa altura, uma mulher de lábios azuláceos que Olhamos para ela em Westerbork e vemos a eleita do Senhor,
estava atrás de mim, e que de certeza nunca ouvira sequer pro- passeando-se_na_solidão e na lama, escrevendo algumas das orações
nunciar o meu nome, despertou da letargia própria de todas mais extraordinárias que um ser humano pode proferir, mas não
nós e perguntou-me ao ouvido (ali toda a gente sussurrava): na amplidão majestosajie um templo, antes no espaço putrescen-

zo P c e fi c i o Prcfá 2.1
te da.latrina comum, onde se refugiava de madrugada em busca de lá acima ao quarto da Dícky e me ajoelhei quase nua, no meio do
um instante de silêncio e de concentração. Vemos a enamorada de quarto, totalmente deprimida, eu disse de repente: "Hoje, vendo
Deus esgotar-se em atenções aos deportados, curando, interceden- bem, vivi coisas grandiosas e esta noite também, meu Deus, agra-
do, ela própria ferida por dores violentas, sempre à procura de uma deço-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coisas que
janela donde se alcance um fragmento de céu, ou de uma tábua não ponhas no meu caminho."»
onde, por fim, possa sentar-se a ler umas frases de Rilke. Seguimo-la
na leitura que faz do Evangelista Mateus, *«o meu bom Mateus»,
nos comentários aos textos de-Paulo e de Santo'Agostinho como se A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a
de uma mestra experimentada nos caminhos do espírito se tratas- sua morte em Auschwitz.
se. Lemos «Gostaria muito de viver como os lírios do campo. Se as
pessoas entendessem esta.éppca, seriam capazes de aprender com
ela a viver como os lírios .do^campo», e é difícil recordar que quem
nos faia é aquela rapariga de Amesterdão que ali chegou há poucos
meses.
No meio da tortura absoluta, é ela quem se preocupa com
Deus. «Vou ajudar-te, Deus, anão me^abandonares», escreve. Ou
então: «Se eu estivesse encarcerada numa cela acanhada e uma nu-
vem passasse ao longo da minha janela gradeada, então eu iria tra-
zer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos tivesse forças para
isso.» A sua oração é de agradecimento e de mil pequenas atenções:
o perfume de uma flor, a musicalidade de uma palavra, a beleza in-
dizível de um encontro: «Gostaria de falar sobre o que temos em
comifrn, hum^Qm _àeL_YOZ baixo e suave, mas ininterrupto e con-
vincente. Dá-me palayias-e a^brça.»
Claro que é também uma prece nocturna, povoada de dilace-
rantes interrogações: «Às vezes pergunto-me, num momento difícil
como esta noite, quais são os planos que tens para mim, tu Deus.»
Mas o traço mais forte é o de uma impressionante e inexplicável
confiança: «Quando ontem, às duas da manhã, finalmente cheguei

2.2 Prefácio
Eccy com a mãe A família Hillesitm em 1931. Da esquerda para a direita:
Etcy, Rebecca Hilíesum-Bernstem, Mischa, Jaap e o Dr. Louis Hillesum
-

Em cima.: Em Devencet, 1929; Etty está em cima, à direita


Em baixo: Nas aulas, em 1932; Etty está na fila de cima, segunda a patttt da direita

Etty. cerca de 1930


A casa de Ecty, na Gabriel Metsustraat, 6, cerca de 1938
Pode ver-se a janela do seu quarto logo abaixo do candeeiro

Etry em Amesterdão, 1934 No solário; Etty está à direica


Etr>' no seu quarto, 1937 (Foto de Berna rd Meylink] Han Wegerif, cerca de 1939
-
Recrato de Etty desenhado por Han Wegerlf, 193/ Osias Kormann em Wes:erbork
O edifício do Clube de Gelo, cerca de 1941 (Foto de Han Wegerif] Jullus Spier
Adri Holm Hennv Tideman

O "Spier Club" em casa de Julius Spier. Da esquerda para a direita: Dícky de Jonge Gera Bongers
Henny Tideman. Adri Holm, Etty, Julius Spier (Foto de Man Wegerif)
Pieter Starreveld

Ecry (à esquerda} e Leoni Snatager

Liesl Levie Werner Levie O;> cadernos em que Ecty


escrevia os diários
Etry em 1941, ano em que começou a escrever os diários

Uma página do caderno de Etcy


Julius Spier fazendo vocalizos,
acompanhado por Avaristos Giassner, cerca de 1941

A «rapariga marroquina»: fotografia de um jornal que Etry tinha na parede


Nos seus diários menciona-a várias vezes. Tinha um grande significado para ela
Mischa Hillesum, 1941 O Café de Paris na Btechovenscraac
Joharma Srnelík Klaas Smelik

Ecty (Foto de Han Wegerif) Swíep van Wermeskerken


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As barracas de Westerbork

Julius Spier Desenho do campo de Westerbork de Isidore Spier


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Philip Mechanícus Convocacóría para Wescerbork


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A.K. Gemmeker, comandante
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Aviso de alteração de residência

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Mapa de Wescerbork O comboio para Auschwítz


Nota de t r a d u ç ã o
DIÁRIO
Hoje em dia, sabe-se mais acerca de Etty Hillesum do que anos atrás. Existe mesmo um
centro documental com o seu nome, em Deventer, onde residiu e onde o pai foi reitor no Liceu
Municipal, um centro que preserva a sua memória e a sua herança literária.
1941-1943
O que o leitor tem perante si é uma selecção feita potJ.G. Gaarlandt de oito cadernos em que
Etty anotou a sua vida e as suas reflexões sobre os mais diversos assuntos. A Èluidez da escrita e
própria de quem escreve um diário, registando, questionando e desabafando, num estilo muito
próprio, por vezes de carácter lírico^Um diário de escrita e leitura intimistas, em que reflexões,
dúvidas e análises passam directamente do pensamento para o papel, com uma grande lucidez e
sinceridade, por vezes até dolorosas.
Nesta tradução foram utilizados dois tipos de notas; as assinaladas com asterisco são as que
Gaarlandt introduziu na primeira edição; as numeradas — que aparecem como Notas da Tradutora
— surgiram do conhecimento da história e realidade holandesas, ou, as cie carácter mais geral, foram
obtidas em obras de consulta ou no livro De nagelaten geschrifien van Etíy Hitlesum 1941-1943 (edi-
tora Balans, I9SÓ), aos cuidados de Klaas A.D. Smelikfo mesmo que fez chegar os diários de Etry às
mãos de Gaarlandt). Esta é uma edição especial, destinada aos estudiosos de Etty, que oferece uma
visão de conjunto do seu pensamento e se revelou de enorme utilidade para este trabalho.
Algumas palavras e frases inteiras aparecem em itálico. Trata-se de palavras e ftases em ale-
mão no rexto original. São quase sempre a reprodução de diálogos travados com Spier (não esque-
çamos que era um judeu emigrado de Berlim que não falava neerlandês). A personagem de Spier
é deveras intrigante. Discípulo de Cari Jung, após urna existência como abastado director bancá-
rio, divorciado e com'uma namorada em Londres, tem urna relação corn Etty que vai muito além
da relação entre mentor e discípula. Presume-se que tenha escrito vários ensaios, mas só um nos
é conhecido, puBFicado em Lò~ndres após a guerra, por intervenção da sua namorada, que aí ha-
bitava. Algumas citações provém, pois, dum trabalho de Spier, mas não se sabe de qual. Outra
fonte de citações é a literatura alemã. Etty tem uma admiração enorme por Raíner Maria Rilke e
cita-o ou menciona-o inúmeras vezes. No caso de obras de Rilke traduzidas para português, as
citações foram retiradas dessas edições.
Resta-me agradecer ao Dr. Fernando Venàncio pela cuidada revisão da tradução, a Cris-
tiano Zwiesele do Amarai pelo esclarecimento de dúvidas em alemão, e ao Centro Etry Hillesum
pela informação disponibilizada.
Domingo, 9 de Março [1941].

Ora vamos a isto! Vai ser um momento doloroso e difícil de ultra-


passar para mim: confiar o meu ânimo reprimido a um insignificante
pedaço de papel quadriculado. Os pensamentos são por vezes muito
nítidos e claros na minha mente, os sentimentos extremamente pro-
fundos, é p'orém difícil conseguir escrevê-los. Essencialmente, acho,
tem a ver com um sentimento de vergonha. Uma grande inibição,
uma falta de coragem para fazer revelações, deixar que as coisas saiam
cá para fora livremente e, no entanto, assim terá de ser, se é que quero
com o decorrer do tempo que a vida tenha um fim razoável e satisfa-
tório. É exactamente como ___lquando

nas relações
•«—'—" ——*—.—ta
sexuais o último c*
gri-
to libertador Ea^tirnidamente contido no peito. Eroticamente sou
refmada;~é'quase diria suficientemente experiente para figurar entre o
número das boas amantes, e realmente o amor parece ser perfeito,
permanece contudo um jogo1 girando à volta do essencial, há algo
que^continua pl-õtundãmente encarcerado dentro de mim. E o mes-
mo se passa em relação ao resto. Intelectualmente sou tão versada que
consigo sondar tudo, formular as coisas nitidamente, pareço ter gran-
de entendimento de vários problemas da vida, no entanto, é corno se lá
bem no fundo houvesse uma maranha, algo a prender-me e, às vezes,
não passo de uma pobre coitada amedrontada, apesar da clareza do
meu raciocínio.

Todas as palavras em itáiico eticoncram-se escritas em alemão no cexco original. (;'V. da ~T)

Diirío 1941-19+3
Quero agora reter aquele momento do princípio desta manhã por momento de repulsa, senti-me um pouco humilhada, embora talvez
um instante, embora ele de novo já quase me tenha escapado. Através fosse apenas o meu sentido estético a ficar ofendido, em todo o caso na-
do meu raciocínio claro, levei a melhor sobre S." por um momento. quela altura achei-o bastante asqueroso. Mas mais tarde surgiram de
Os seus olhos translúcidos e límpidos, a sua grande boca sensual, o seu novo os tais olhos estupendamente humanos que me perscrutavam a
aspecto taurino e os movimentos leves e desembaraçados. A luta entre partir de profundezas sombrias, olhos que eu gostaria de ter tocado.
matéria e espírito que este homem de 54 anos continua ajravar. Agora que penso nisso, houve um outro momento nessa mesma se-
E, aparentemente, o peso dessa luta esmaga-me. Sou abafada por essa gunda-feira de manhã, aqui há umas semanas, em que ele me provocou
personalidade e não consigo libertar-me; os meus problemas, que sus- desagrado. Uma aluna dele, a senhora Holm", apareceu-lhe faz um ano,
peito terem a mesma raiz, lá ficam a espernear. Naturalmente, é bem coberta de eczema dos pés à cabeça. Tornou-se sua paciente. Agora está
diferente, não sei como precisar as palavras, a sinceridade é capaz de curada. De certo modo ela adora-o, embora eu não saiba ainda precisar
ainda não ser suficientemente impiedosa no meu caso, mas é sempre como. A dada altura falou-se na minha ambição, com isso se pretenden-
difícil chegar ao âmago das coisas através de palavras. do dizer que eu própria quero resolver os meus problemas. E a senhora
Holm disse significativamente: «Ninguém está sozinho no mundo.»
A primeira impressão ao fim de alguns minutos: uma cara não Disse isto de modo simpático e convincente. Foi então que contou o
sensual, um tipo não holandês mas que de certo modo me pareceu fa- que se tinha passado com o eczema que tivera espalhado por todo o cor-
miliar, fez-me lembrar p^Abrascha", não totalmente simpático. po, incluindo o rosto. S. voltou-se para ela e disse com um gesto que já
A segunda impressão: olhos cinzentos e gastos, espertos, incrivel- não sei descrever precisamente, mas que achei muito desagradável: «E
mente espertos, que por alguns instantes conseguiram desviar a atenção como é a sua tez agora, hein?» Parecia que estava a faiar de uma vaca à
da boca enorme, mas não totalmente. Fiquei muito impressionada com venda na feira. Não sei explicar, mas naquele momento achei-o repe-
o trabalho dele: a analise dos meus conflitos mais profundos através da lente, sensual, ligeiramente cínico, e contudo havia algo mais neíe.
leitura do meu segundo rosto — as mãos. Houve um breve momento E então, no final da sessão: «Devemos agora perguntar-nos como po-
desagradável quando me distraí e pensei que ele se estava a referir aos demos ajudar esta pessoa», também é possível que tenha dito: «Estapessoa
meus pais: «Não, tudo isso é você: filosófica, dotada de intuição» e outras precisa de ajuda.» Por essa altura já ele me tinha conquistado com a de-
maravilhas que tais, « VoçLéJudo-issQ*^y\ss£.-Q do mesmo modo que se monstração das suas capacidades e eu sentia-me carente de ajuda.
mete uma bolacha nas mãos de um miúdo. «Não fica contente com isto?
Pois, todas estas qualidades são suas, não fica contente?-» Tive um breve E depois a palestra. Fui lá somente para apreciar este indivíduo à
distância, para o avaliar antes de me entregar totalmente nas suas
" 5. é o psicoquirologiita Julkis Spier.
Rapaz judeu, com quem Etty manteve relações de amizade antes da guerra. * Adri Holm. Fazia parce do «clube de 5pier».

D i á r i o 1941-1941 61
mãos. Causou-me boa impressão, foi uma palestra de alto nível. Ho- Lá estava eu então, com o meu «bloqueio espiritual». E ele iria
mem com charme. Tem um sorriso charmoso apesar dos dentes falsos. pôr o meu caos interior em ordem, dominar as forças contraditórias
Fiquei então impressionada com uma espécie de liberdade interior que habitam o meu íntimo. Foí como se me tivesse pegado pela mão
que dele parecia emanar, com a agilidade, o à-vontade e graciosidade e me dissesse, vê, é assim que deves viver. Toda a vida tive esta sensa-
muito próprios daquele corpo volumoso. A sua cara tinha de novo uma ção: quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão e
expressão totalmente diferente, aliás, a expressão dele muda a cada se ocupasse de mim; eu pareço forte e faço tudo sozinha, mas gos-
instante; assim sozinha em casa, não consigo lembrar-me. Com as pe- tava tanto de me entregar completamente. E agora surge este estra-
ças que conheço, tento construir um puzzle que todavia nunca fica nho total, o senhor S. com a sua fisionomia complicada e, apesar de
completo, fica sempre turvado pelas contradições. Às vezes, por urn tudo, numa só semana já tinha operado milagres. Ginástica, exercí-
momento, vejo a cara dele nitidamente, mas em seguida desfaz-se em cios respiratórios, p_ajavras esclarecedoras e Hbertadõrài acerca~dàs
mil pedaços contraditórios. E mortificante. minhas depfessões, relações com os outros, etc. E de repente passei a
Havia muitas raparigas e mulheres bonitas na palestra. Fiquei viver de modo dÍfefê~rTtêTmãís"ITvre, descontraída, a sensação de blo-
emocionada com o que eu sentia ser um amor quase palpável de umas queio desapareceu, surgiu alguma ordem e sossego no meu íntimo,
raparigas «arianas» em relação a este emigrante judeu de Berlim, que por enquanto tudo isto somente sob a influência da sua personali-
teve de vir oTa Alemanha para as ajudar a resolver os problemas e pôr dade mágica, mas ainda há-de vir a ser justificado psiquicamente e
alguma ordem no espírito. consciencializado.
No corredor estava uma rapariga novinha", magra, frágil, bastante
elegante, interessante, com uma cara que não aparentava grande saúde. Mas pronto. «Corpo e alma são uma só coisa.-» Tendo isto por
S. trocou umas breves palavras com ela, estávamos no intervalo, e ela base, foi certamente esse o motivo pelo qual se pôs a medir forças co-
fez-lhe um sorriso tão dedicado, tão do fundo do coração, tão intenso, migo numa espécie de luta livre. As minhas forças revelaram-se bas-
que quase me magoou. Surgiu-me um vago sentimento de descontenta- tante grandes. E foi então que algo imprevisto aconteceu: atirei com
mento, perguntei-me se isto estava completamente certo, uma sensação este homenzarrão ao chão. Toda a minha tensão interior, a minha
de: este homem rouba o sorriso de uma jovem, todos os sentimentos força concentrada, se libertou, e lá estava ele, física e também psico-
que ela lhe dedicou são roubados a outro, a um homem que mais tarde logicamente, como mais tarde me contou, de rastos. Nunca nin-
será dela. Na realidade é ruim e não é justo, e ele é um homem perigoso. guém alcançara isso antes. Ele não entendia como tinha eu sido
A visita seguinte: «Posso pagar^lhe 20 florim.» «Óptimo, pode vir capaz. O lábio dele estava a sangrar. Deixou-mo limpar com água-
durante dois meses e mais tarde não a deixarei desamparada.-» -de-colónia.
Uma tarefa íntima e embaraçosa. Porém ele estava tão «livre»,
" Líesl Levie; sobreviveu á guerra e vive em Israel. tão descontraído, tão aberto, tão espontâneo nos seus movimentos,

Em H i l k i u m Diário 1941-1943
até mesmo quando rolámos juntos no chão, e também quando final- «Como uma melodia, o mundo rola da mão de Deus», estas pala-
mente me rendi estreitamente apertada nos seus braços, debaixo do vras de Verwey- não me saíram da cabeça durante todo o dia. Quem
seu corpo, ele permaneceu «formal», puro, apesar de eu me ter ren- me dera ser melodicamente eu a rolar da mão de Deus.
dido por um momento à sedução física que para mim dele emanava. E agora boas-noites.
Vias essa luta foi boa e pura, algo totalmente novo, inesperado e tam-
bém libertador, embora mais tarde tomasse conta da minha fantasia.
Segunda-feira de manhã [10 de Março de 1941], 09.00H.

Domingo à noite, na casa de banho. Ora bem, minha cara, agora lanças-te ao trabalho ou levas um bom
par de estalos. E é melhor não pensar na dorzinha de cabeça aqui, no
Agora estou imaculadamente limpa por dentro. Esta noite, a voz enjoozinho ali, e que não me sinto lá muito bem. Isso é absolutamente
dele ao telefone, por um momento, causou total alvoroço no meu incorrecto. Deves lançar-te ao trabalho e ponto final. E nada de fanta-
corpo. Mas praguejei que nem um carroceiro contra mim mesma e sias, nem de «grandiosos» pensamentos ou intuições admiráveis, é mui-
capacitei-me de que já não sou uma adolescente histérica. E de re- to mais importante escolher um tema e procurar palavras. Isso é algo
pente entendi perfeitamente os monges que se autoflagelam a fim de que tenho de aprender, e para tal terei de lutar até ao fim: i.e. expulsar à
dominar a pecadora carne. E por um momento lutei contra mim força do meu cérebro todas as fantasias e divagações, e purificar-me por
mesma, à minha fúria inicial sucedeu-se uma grande clareza e calma. dentro, para criar espaço para as grandes e pequenas coisas do estudo.
E agora sinto-me óptima, imaculadamente limpa por dentro. De Sinceramente nunca trabalhei como deve ser. Passa-se com isto exacta-
novo S. foi vencido pela enésima vez. Será que isto vai durar muito mente o mesmo que com a sexualidade. Quando alguém me impres-
tempo? Não estou apaixonada por ele e também não o amo, mas de siona, consigo passar dias e noites de seguida atolada em fantasias
certo modo sinto a sua personalidade, «incompleta» e contraditória, eróticas, creio que até agora não me apercebi bem da quantidade de
sufocar-me. Neste momento já não. Agora vejo-o à distância: um in- energia que isso me custa; e no caso de chegar a haver contacto a sério,
divíduo cheio de vida, um lutador com forças primitivas dentro de si, a desilusão é enorme. A realidade não se ajusta à minha fantasia porque
porém interessado no espírito, de olhos translúcidos e boca sensual. ela é demasiado desvairada. Foi isso que aconteceu precisamente da-
O dia começou tão bem, nítido e claro na minha cabeça, devo escre- quela vez com o S. Eu tinha formado na minha cabeça uma certa ideia da
ver sobre isso mais tarde, e depois uma grande depressão; uma pressão visita e fui lá numa espécie de euforia, com um fato de ginástica vestido
no crânio da qual não me conseguia livrar, e pensamentos deprimen- por baixo do vestido de lã. Mas correu tudo de maneira diferente.
tes, demasiado deprimentes para o meu gosto, e por detrás deles o vá-
cuo e o porquê, mas contra isso também hei-de lutar. ; De uma canção escrita por Albert Verwey, poeta holandês. (A1", da 7T)

64 HiíU Diário 1341-1945


Ele tinha outra vez uma atitude impessoal e muito distante, de modo no a que tens de roubar pequenos pedaços de tetra que poderão vir a
que fiquei imediatamente petrificada. E a ginástica também não pres- ser inundados. Um oceano assim é enorme e elementar, mas o que in-
tou para nada. Assim que eu fiquei em fato de ginástica, ficámos os dois teressa são as pequenas parcelas de terra que lhe consegues conquistar.
tão envergonhados como Adão e Eva depois de comerem a maçã. Ele O tema em que vais trabalhar agora é mais importante que os admirá-
correu os cortinados e fechou a porta à chave e a sua habitual liberdade veis pensamentos sobre Tolstói e Napoleão que tiveste ultimamente a
de movimentos desaparecera. A mim só me apetecia rugir depressa e meio da madrugada, e a lição que vais dar na sexta-feira à noite àquela
chorar, tão horrível foi aquilo que senti. E depois, quando rebolávamos mocinha aplicada é mais importante do que toda aquela filosofia com
os dois no chão, agarrei-me a ele com toda a força, com sensualidade e que te ocupas vagamente. Não percas isso de vista, caramba. Não so-
repúdio ao mesmo tempo em relação a tudo isto, e os movimentos dele brestimes a tua força interior, ao fazê-lo sentes-te por vezes destinada
a certa altura também não eram exactamente decentes, e eu achei tudo a algo de grandioso e superior às chamadas pessoas «comuns», de cuja
sórdido. Se eu não tivesse tido fantasias anteriormente, de certeza que vida interio'r na realidade desconheces tudo, mas tu és fraca e uma nu-
tudo teria sido diferente. De repente deu-se um confronto enorme en- lidade se continuas a banhar-te na tempestade intetior que grassa dentro
tre as minhas desvairadas fantasias e a realidade nua e crua reduzida a de ti, e a deliciar-te com isso. Mantém os olhos postos em terra firme e
um homem envergonhado que no final enfiou as fraldas da camisa den- deixa de andar a espernear impotente no Oceano. E agora vamos ao tema!
tro das calças, a transpirar. E o mesmo se passa com o meu trabalho. As
vezes consigo entender de repente, de modo claro e sucinto, ou re-
flectir sobre uma determinada matéria; grandes e vagos pensamentos, Quarta-feira [12 de Março de 1941], 9 horas da noite.
praticamente inalcançáveis, que fazem com que de súbito me sinta in-
tensamente importante. Porém, se os tentasse passar para o papel, fica- As minhas dores de cabeça prolongadas: masoquismo. A minha
riam reduzidos a pó, e é por isso que não tenho coragem de os escrever, intensa compaixão: volúpia. A compaixão pode ser criativa, mas tam-
porque provavelmente iria ficar desapontada com a redacção fútil que bém pode consumir alguém. A neutralidade é preferível a atolar-se nos
seria o resultado final. Quero contudo deixar uma coisa bem assente, grandes sentimentos. Exigências aos pais. Devemos olhar para eles como
miúda: não percas tempo com a concretização desses grandes e vagos indivíduos com o seu próprio destino formado.
pensamentos. Por mais pequena e insignificante que seja a redacção es- O desejo de prolongar os momentos de êxtase é errado. Certa-
crita por ti, sempre é mais importante que a torrente das grandiosas mente bastante compreensível: durante uma hora, uma pessoa teve
ideias em que te revolves. Naturalmente manténs os teus pressentimen- uma intensa experiência espiritual ou anímica, à qual se segue logica-
tos, a tua intuição; são uma fonte de onde bebes, mas tem o cuidado de mente uma depressão. Antigamente costumava ficar irritada com essas
não te afogares nela. Organiza um pouco as coisas, pratica alguma higiene depressões, sentia-me cansada e desejosa de regressar a esse momento
mental. A tua fantasia, as tuas emoções íntimas, etc., são o imenso Ocea- culminante, em vez de me entregar às ocupações diárias.

66 Eity Hillesum D l i r i o 1941-19 + 3 • t)/


T
Escreve ambição. Aquilo que me sai para o papel deve ser imedia- houvesse uma pessoa digna de se chamar "Afftisck"3 para se acreditar nas
tamente perfeito, não me contento com banalidades. Também não es- pessoas e na Humanidade», então abraceí-o num impulso espontâneo.
tou convencida dos meus dotes, essa sensação ainda não se me tornou Este é um problema dos tempos que correm. O grande ódio contra os
orgânica. Em momentos extáticos acho-me capaz de operar milagres, alemães, que me envenena a alma. «Eles que se afoguem, essa ralé,
para depois bater no fundo do poço da incerteza. Isso advém de eu não deveriam ser todos fumigados.» Estas observações fazem parte da
fazer diariamente aquilo que acho ser o meu talento: a escrita. Teorica- conversa do dia-a-dia e às vezes provocam-nos a sensação de que é im-
mente há muito que o sei; há uns anos, escrevi num pedaço de papel: possível viver nesta época. Até que de repente, há umas semanas, me
nas raras vezes em que aparece, a mercê deve ser acolhida por uma téc- surgiu a ideia libertadora, hesitante e frágil como um rebento de relva
nica bem cultivada. Mas esta foí uma frase saída do cérebro, que ainda que começa a nascer num terreno bravio rodeado de ervas daninhas:
não tomou corpo. Será que realmente vai começar uma nova fase na mesmo que só houvesse um alemão digno de ser protegido contra essa
minha vida? Este ponto de interrogação já está errado. Inicia-se uma chusma bárbara, por causa desse alemão decente não se devia derra-
nova fase! A luta já está a ser travada. Luta não é exactamente a palavra mar o ódio sobre um povo inteiro.
certa para o momento actual, presentemente sinto-me tão bem e em Isto não significa que uma pessoa deva ter uma atitude indecisa em
harmonia por dentro, tão completamente saudável, melhor é dizer relação a determinadas correntes, uma pessoa toma posição, indigna-se
pois: a consciencialização está em pleno progresso e tudo o que até regularmente com determinadas coisas, tenta informar-se, mas o ódio
agora tem estado irrepreensivelmente ordenado em fórmulas teoréticas indiferenciado é a pior coisa que existe. É uma doença da própria alma.
há-de instalar-se no coração e ser concretizado. E em seguida a minha O ódio não faz parte do meu feitio. Se chegasse a esse ponto na época
considerável autoconsciência deve ser banida — de momento ainda actual, então a minha alma ficaria ferida e teria de tentar encontrar um
gosto demasiado da fase de transição. Tudo se deve tornar mais óbvio e remédio para isso o mais rapidamente possível. Costumava achar que
mais simples, e assim talvez me torne finalmente adulta, capaz de aju- os meus conflitos interiores se passavam da seguinte maneira, mas era
dar outros seres humanos ern dificuldades que partilham neste mundo, uma explicação demasiado superficial: achava, quando se dava aquela
alcançando a claridade através do trabalho com os outros, porque afinal luta voraz dentro de mím entre o ódio e os meus outros sentimentos,
de contas é disso que se trata. que essa luta era entre os meus instintos viscerais de judia ameaçada de
aniquilação e as minhas ideias socialistas racionais e aculturadas que me
ensinaram a não contemplar um povo na sua totalidade mas como
[Sábado], 15 de Março [de 1941], de manhã às nove e meia. uma parte boa enganada por uma minoria má. Portanto um instinto
primitivo em oposição a uma deturpação racional.
Ontem à tarde lemos juntos os apontamentos que ele me tinha - «Mensch- é uma palavra que em hebraico descreve uma pessoa compassiva e misericordiosa, que
dado. E quando chegámos a estas palavras: «Porém deveria bastar que ama e respeita o próximo. (Ar. da. T.}

Ettv Hillesum D i J r i o 1941-1943 69


Mas vai mais fundo do que isso. O socialismo permite que entre por sintonia nesse ódio aos meus semelhantes. E isso sabendo eu que ela
uma porta traseira o ódio contra tudo o que não faz parte do socialismo. detesta a nova mentalidade tanto quanto eu, e fica igualmente acabru-
Dito assim, é um bocado rude, mas eu sei o que quero dizer com isto. nhada com os excessos do seu povo. Porém, no íntimo, continua ligada
Nos últimos tempos tenho visto como uma tarefa conservar a àquele povo, e eu sinto-o, mas nesses momentos não consigo aguentar,
harmonia nesta família", que contém tantos elementos contraditórios: esse povo inteiro deve ser exterminado pela raiz, e de vez em quando
uma alemã crista, de origens rurais, que para mim é como se fosse uma digo, malévola: «Escumalha, é o que são», enquanto fico envergonhada
querida segunda mãe; uma estudante judia de Amesterdão; o velho e ao mesmo tempo. E mais tarde fico muito triste e não tenho sossego,
equilibrado só ciai-democrata, Q pequeno-burguês Bernard, um homem porque sinto que tudo isto não está certo.
de sentimentos puros e bastante inteligente, contudo limitado pelos E então é verdadeiramente tocante o modo como de vez em quan-
conceitos da pequena burguesia onde nasceu; e o jovem estudante de do dizemos muito amigavelmente a Kãthe, para a animar: «Claro que
Economia, íntegro e bom cristão, cheio de delicadeza e compreensão, sim, ainda existem alemães decentes, ao fim e ao cabo os soldados tam-
mas também com toda a combatividade e decência dos cristãos de hoje bém nem sempre podem fazer alguma coisa, há alguns que são simpá-
em dia. Isto era e é um mundo em turbilhão, ameaçado pela política ticos.» Mas isso é só em teoria, dizemos isto só para mostrar um pouco
exterior de desintegração interna. Mas considero uma tarefa manter de humanidade em meia dúzia de palavras inócuas. Porque se fossem
esta pequena comunidade junta, como prova contra todas essas teorias verdadeiras, se sentíssemos realmente aquilo que afirmamos, não preci-
artificiais e forçadas sobre raça, povo, etc. Como prova de que a vida sávamos de as enfatizar como o fazemos, nesse caso seria um senti-
não se deixa prender num determinado esquema. Causa no entanto mento partilhado tanto pela saloia alemã como pelas estudantes judias,
muita luta íntima e tristeza, e também excitação, remorso etc., e de vez e então poderíamos falar sobre o bom estado do tempo e sobre a sopa
em quando magoamo-nos uns aos outros. As vezes encho-me repenti- de legumes, em vez de nos atormentarmos com conversas sobre polí-
namente de ódio, depois de ler o jornal ou de ouvir uma qualquer no- tica que nos servem apenas para dar vazão ao ódio. Porque o pensa-
tícia do exterior, nesses momentos sou por vezes capaz de me exceder mento político, o tentar ver algo das linhas gerais e descortinar um
em palavrões contra os alemães. E tenho consciência de que o faço de pouco do que está por detrás delas, é coisa que praticamente desapare-
propósito para magoar a Kãthe, para dar vazão ao ódio, apesar de ser ceu das nossas discussões; nada é aprofundado e, por esse motivo, hoje
contra uma querida amiga que eu sei que ama o seu país natal, o que é em dia não é interessante conversar sobre esses assuntos com outra pes-
perfeitamente natural e compreensível, mas nesses momentos não con- soa. E por isso que S. se apresenta como um oásis no meio do deserto e
sigo suportar que ela não os odeie tanto como eu — procuro, digamos, que o abracei tão subitamente.
Ainda há muito para dizer a este respeito, mas agora tenho de
* Etty morava na rua Gabriel Mecsu, no número 6; os outros moradores eram: Kathe (Fransín). Ma- pensar outra vez no trabalho, primeiro vou tomar uma lufada de ar
ia (Tuinzing), Bernard (Meylink). Han Wegerif e Hans (filho de Han WegeriO- fresco e depois atiro-me ao eslavo litúrgico. Até já.

Diário
Domingo de manha, [16 de Março de 1941], 11.00. Tudo o que achasse bonito, desejava-o de forma exageradamente física,
queria possuí-lo. Daí sempre aquela dolorosa sensação de desejo que
As minhas prioridades na vida mudaram um pouco: «Antigamente» nunca poderia ser satisfeita, a nostalgia de algo que eu achava ser inal-
começava por ler de preferência Dostoiévski ou Hegel em jejum, e nos cançável e a que chamava «o impulso criativo». Creio que foram estes
momentos em que estava mais nervosa e sem mais nada que fazer, re- sentimentos que me levaram a pensar que tinha sido posta neste mun-
mendava uma meia de vez em quando, se não tinha alternativa. Ago- do para criar obras-primas. De repente tudo mudou, não sei por que
ra começo, no sentido mais literal da palavra, com*a meia e continuo processo interior, o facto é que as coisas mudaram.
com as outras ocupações necessárias ao longo do dia, até atingir o topo, Isso tornou-se-me claro, hoje mesmo, de manha, quando recor-
onde reencontro os poetas e os pensadores. dei o passeio que dei à volta do Clube de Gelo há algumas noites
Vou ter forçosamente de me deixar de exprimir de modo patético, atrás. Caminhava por lá ao cair da noite: tons delicados no céu, silhue-
se é que quero que me saia alguma coisa de jeito, mas francamente é tas misteriosas de casas, árvores de ramagem rendada, em suma,
sobretudo uma questão de preguiça para procurar as palavras certas. encantador. E recordei-me exactamente do que me acontecia «anti-
gamente». Antigamente achava isso tão bonito que se me apertava o
coração. Sofria com tanta beleza e não sabia o que fazer com esse so-
Meio-dia e meia, depois do passeio frimento. Então dava-me vontade de escrever prosa, de escrever poe-
que já se tornou uma boa tradição. sia, contudo as palavras nunca me surgiam. Consequentemente
sentia-me muitíssimo infeliz. Na realidade deixava-me absorver por
Terça-feira de manhã, ao estudar Lermontov, anotei que a cara de uma paisagem e ficava exausta. Custava-me imensa energia. Agora
S. me espreitava constantemente por trás de Lermontov e que eu que- chamaria a isso onanismo.
ria dizer alguma coisa àquela cara amada e acariciá-la, e por ísso não Mas nessa noite, ainda bastante recente, reagi diferentemente. Ve-
conseguia trabalhar. Isso aconteceu já há bastante tempo, agora é um rifiquei com alegria que o mundo que Deus criou continua belo apesar
pouco diferente. A cara dele ainda me aparece quando estou a traba- de tudo. Como sempre, apreciei intensamente esta paisagem silenciosa,
lhar, mas já não me distrai; tornou-se uma paisagem familiar e querida, misteriosa ao lusco-fusco, mas desta vez apreciei-a com distância, diga-
em segundo plano, os traços esbateram-se, deixei de ver a cara nitida- mos assim. Já não a queria «ter». E regressei fortalecida a casa e ao tra-
mente, esfumou-se em ambiente, espírito ou aquilo que lhe quiserem balho. E a paisagem permaneceu presente em segundo plano, como
chamar. E assim apreendi algo essencial. Quando achava uma flor bo- um invólucro à volta da minha alma, para me exprimir com formo-
nita, o que eu mais desejava era apertá-la de encontro ao peito ou sura, porém não me incomodava mais, i.e. não havia «onanismo».
comê-la. Coisa mais difícil com uma bela paisagem, mas o sentimento E o mesmo acontece com S., aliás, com toda a gente actualmente.
era o mesmo. Era demasiado arrebatada, diria até mesmo «possessiva». Na tarde em que tive a crise, quando me quedei petrificada a olhar

Etcir Hillesum Diário 1941-1943


para ele e não conseguia dizer palavra, o que se passou provavelmente E esta possessibilidade, é assim que melhor a consigo descrever para
foi também um caso de «ganância». Nessa carde ele tinha-me contado mim mesma, desapareceu repentinamente. Milhares de cadeias aper-
várias coisas da sua vida privada. Sobre a mulher de quem está divor- tadas foram soltas, e eu respiro liberta e sinto-me revigorada, olho para
ciado, mas com quem ainda se corresponde; sobre a namorada dele o que me rodeia com um brilho nos olhos. E agora que não quero pos-
em Londres, com quem ele se quer casar, mas que agora está em Lon- suir mais nada e estou livre, agora possuo tudo, agora a minha riqueza
dres sozinha e a sofrer; sobre uma antiga amiga dele, uma cantora lin- interior é infinita. S. é totalmente meu, nem que fosse para a China
díssima, com quem continua a corresponder-se. De seguida lutámos amanha, sinto-o à minha volta e vivo na sua esfera, se o*vir na quarta-
outra vez, e eu fiquei fortemente impressionada com o seu corpo gran- -feira acho óptimo, mas não conto os dias tão tensa como na semana
de e atraente. passada.
E quando voltei a sentar-me em frente a ele, emudeci. Talvez me E deixei de perguntar ao Han" cem vezes ao dia: «Ainda gostas de
tenha acontecido exactamente a mesma coisa que me acontece quando mim?», «Ainda me achas muuuito amorosa?» e «Sou sem dúvida a mais
caminho pela natureza e vejo algo que me impressiona. Queria «tê-lo». querida de todas, não sou?». Era a mesma espécie de fixação, um apego
Queria que ele também fosse meu. E isso enquanto nem sequer o de- físico a coisas que o não são. E agora vivo e respiro pela «alma», diga-
sejo como homem, nunca me atraiu sexualmente embora a tensão es- mos, se é que posso usar essa palavra caída em descrédito.
teja continuamente presente no fundo, mas ele atingiu-me no âmago Agora entendo as palavras de S. na primeira visita que lhe fiz. «O que
e isso é mais importante. está aqui dentro (e apontou para a cabeça) tem de passar para aqui (e
Queria pois possuí-lo de algum modo, e detestei ou senti mesmo apontou pata o coração).» Não compreendi na altura como esse pro-
ciúmes de todas as mulheres de que me tinha falado, e talvez eu tenha cesso aconteceu, mas o que é certo é que aconteceu, como, não sei. Ele
pensado, embora não conscientemente: «O que é que sobra para mim?» soube ordenar todas as coisas que estavam presentes no meu ser.
e senti que ele se me escapava. Para dizer a verdade eram sentimentos É como num puzzle, as peças estavam misturadas e ele soube formar
mesquinhos, nada de sentimentos sublimes. Porém, só agora é que me um todo inteligível. Como o conseguiu não sei, mas isso é com ele, é
apercebo disso. Naquele momento sentia-me extremamente infeliz e o ofício dele, por assim dizer, e não é por acaso que as pessoas dizem
só, um sentimento que agora compreendo muito bem, e fiquei com que ele tem uma «personalidade mágica».
vontade de me ir embora e de me pôr a escrever.
Esse «escreven> entendo-o agora também, creio. E «possuir», é reter
as coisas por palavras e por imagens e assim possuí-las. E isto, penso,
* Han Wegerif, o dono da casa onde Etcy vivia. [Han Wegerif era contabilista e ficara viúvo. Em Mar-
foi até agora o móbil da minha escrita: afastar-me de toda a gente em co de 1937 Etty foi contratada como governança. Tinha aquilo a que se chama «cama. rnesa e roupa lavada-"
e recebia ainda uma mesada regular menre. Han Wegerit, a quem Erry também chamava "Pai Han», devido a
silêncio, com todos os tesouros que eu reunira, e depois escrever e
ele ser muito mais velho do que ela, cedo se envolveu numa relação amorosa com Etty. que continuou apesar
guardar tudo só para mim e desse modo desfrutá-los. da atracção de Erry- por Spiet. (N. da T}}

74 E et v H i l l e s u m Diário 1941-194} 75
Quarta-feira de manhã [19 de Março de 1941], 12.00. fundo é tudo um jogo e também se consegue conhecer intuitivamente
uma pessoa sem se ter um caso com ela. Mas, meu Deus, está a tor-
Surpreendo-me a sentir a necessidade de música. Não pareço ter nar-se muito difícil resistir. A boca dele era tão familiar, meiga e estava
falta de sensibilidade para a música, fico sempre emocionada quando tão próxima esta tarde, que tive de a aflorar com os lábios. E a luta neu-
ouço música, mas nunca tive paciência para me sentar especialmente tra acabou com os dois a descansar nos braços um do outro. Ele não
só para a ouvir. A minha atenção foi sempre para a literatura e para o me beijou, mas mordeu-me com força na bochecha, porém, o mais
teatro, portanto as áreas em que continuo a poder pensar, e agora a inesquecível para mim foi quando ele se recompôs e, muito tímido,
música começa, nesta fase da minha vida, a exigir os seus direitos, sou embaraçosamente tímido e hesitante, me perguntou quase a medo:
pois novamente capaz de me submeter a algo e de me suprimir, E são «E a boca? Não achou a boca desagradável» Portanto esse é o seu pon-
sobretudo os clássicos serenos e claros que desejo ouvir, e não os mo- to fraco. A luta contra a sua sensualidade, localizada na boca grande e
dernos atormentados. estranhamente expressiva. E com medo que a boca possa assustar os
outros. 'Que homem comovente. Mas o meu sossego foi-se. E depois
ainda disse: «No entanto a boca deveria ser ainda mais pequena-» e apon-
Às 9 da noite. tou para o canto direito do lábio inferior, que faz uma saliência muito
estranha e pronunciada no canto da boca, uma curva acentuada, um pe-
Meu Deus, apoia-me e dá-me força. Porque a luta vai ser difícil. daço de lábio que sai fora da composição: «Já alguma vez viu uma coi-
A boca e o corpo dele estiveram tão próximos esta tarde, que não os sa tão estranha? E raríssimo encontrar», não me recordo das palavras
consigo esquecer. E eu não quero ter um caso com ele, mas estamos a exactas. Então rocei-lhe novamente ao de leve com os lábios, exacta-
caminhar a passos largos para isso. E eu não quero. A futura mulher mente naquele sítio estranho que ele tem na boca. Beijá-lo a sério
dele está em Londres, sozinha e à espera dele. E estes laços que me ainda não o fiz. Ainda não sinto uma verdadeira paixão, ele é-me infini-
prendem também me são queridos. Agora que começo a ficar «inteira», tamente querido e não quero que um caso estrague os sentimentos
sinto que sou na verdade uma pessoa muito séria, que não acha graça bons e humanos que tenho por ele.
a brincadeiras na área do amor. O que eu quero é um homem para a
vida inteira e juntos construirmos alguma coisa. E todas as aventuras
e casos fizeram-me basicamente sentir infeliz e dilacerada. Porém, a Sexta-feira, 21 de Março [de 1941], de manhã às 08.30.
força necessária para me opor nunca era consciente ou grande, a curio-
sidade era sempre maior. Mas agora que as minhas forças estão organi- Sinceramente não quero escrever nada agora, porque me sinto tão
zadas, começam a lutar contra o meu desejo de aventuras e a minha leve e radiante e feliz por dentro, que cada palavra que eu escreva me
curiosidade erótica, que abrangem um grande número de pessoas. No parece chumbo se comparada ao que sinto. No entanto, fui obrigada

7° • Etty Hitlesum D i á r i o 1941-1:943 77


a conquistar esta alegria interior a um coração desassossegado e acele- Frans' numa noite de verão, na esplanada do Reynders. Mas no que dis-
rado. Mas depois de me ter lavado com água gelada, fiquei deitada no se estava presente mais cansaço, do tipo: «Ah, sabes, se amanhã tudo
chão da casa de banho até me acalmar. Tornei-me aquilo a que se pode acabasse não me preocupava porque afinal de contas sabemos como as
chamar «combativa» e podem crer que tenho um certo prazer despor- coisas são. Conhecemos ávida, já experimentámos tudo, mesmo que
tivo na nafta». só em pensamento, e já não nos agarramos à vida com tanta força.»
Considero que venci esta sensação vaga e assustadora que tinha Creio que foi mais ou menos nesse tom. Na realidade éramos pessoas
dentro de mim. A vida é realmente difícil, uma luta de minuto a mi- muito velhas, sábias e cansadas. Mas agora é diferente. E agora são ho-
nuto (ó querida, agora não exageres!), mas a luta é sedutora. Antiga- ras de trabalhar.
mente via um futuro caótico pela frente, porque eu não queria viver o
momento que estava à frente do meu nariz. Queria que tudo me fos-
se oferecido, como uma criança muito mimada. As vezes tinha a cer- Sábado, 22 de Março [de 1941], à noite às 8 horas.
teza, embora fosse uma sensação vaga, de que no futuro «poderia vir a
ser alguém», de que poderia vir a fazer algo de «espantoso»; e outras Tenho de esforçar-me por manter o contacto com este caderno,
vezes aparecia-me novamente o medo caótico de que «no fim estaria isto é, comigo mesma, senão as coisas vão mal; a cada momento con-
perdida». Começo a entender por que é que isso acontecia. Recusava- tinuo ainda em perigo de me desorientar e me petder, é o que sinto
-me a cumprir as obrigações óbvias que tinha pela frente, recusava-me um pouco neste momento, mas pode ser também devido ao cansaço.
a subir ao encontro do futuro, degrau a degrau. E agora, agora que cada
minuto é pleno, cheio de vida e experiência e luta e vitória e depressão,
seguido de imediato por mais luta e por vezes sossego, agora deixei de Domingo, 23 de Março [de 1941], 4 horas.
pensar no futuro, quer dizer, é-me indiferente se mais tarde vou reali-
zar algo de espantoso ou não, porque algures no meu íntimo estou Está outra vez tudo a dar para o torto. «Parecia e queria algo e
certa de que alguma coisa há-de sair. Antigamente vivia continua- não sabia o quê.» Por dentro é novamente uma procura, um desassos-
mente num estado preparatório, tinha a impressão de que tudo o que sego e uma agitação totais. E a cabeça outra vez extremamente tensa.
fazia não era a «sério», mas sim a preparação para algo diferente, algo Lembro-me com uma certa inveja dos dois últimos domingos: os
«grande», a sério. Mas agora deixei-me totalmente disso. Agora, hoje, dias encontravam-se à minha frente como planícies abertas e vastas,
neste minuto, vivo e vivo plenamente, e a vida é digna de ser vivida. E, eu podia caminhar nessas planícies, e os dias eram largos e sem obstá-
se eu amanhã soubesse que ia morrer, nesse caso diria: «Tenho muita culos à vista. E agora encontro-me novamente no meio do matagal.
pena, mas está bem assim, que a vida tenha decorrido como decor-
reu.» Também já anunciei isto em teoria, lembro-me bem, disse-o ao * Frans vá n Steenhoven.

ECEV Hiilesum Di»J n o 1941-1943 79


Começou logo ontem à noite; foi nessa altura que o desassossego tivo, na realidade um pouco inesperado para mim, mas atingi imedia-
começou a trepar por mim acima como os vapores que se elevam de um tamente o que se pretendia e pensei: «Oh, provavelmente faz parte do
pântano. Nesse momento queria ir fazer qualquer coisa corn filosofia, tratamento.» E realmente fazia, pois no fim ele constatou muito formal:
ou não, talvez fosse melhor aquele ensaio sobre Guerra e Paz, ou não, o «Corpo e alma são uma só coisa.» Claro que nessa altura eu tinha sido
Alfred Adler coaduna-se mais com a minha disposição. E depois acabei atingida eroticamente, mas ele foi tão neutro, que depressa recuperei.
por ir parar à História de Amores Indianos. Porém, era afinal uma luta E quando de novo estávamos sentados frente a frente depois de ter ter-
contra um cansaço natural, a que por fim me rendi, num acto de sapiên- minado, ele pergunçou-me: «Ouça lá, isto não a excita, pois não? Porque
cia. E esta manhã parecia estar tudo em ordem. Mas quando ia na ao fim e ao cabo vou ter de lhe tocar em toda a parte», e para o ilustrar, as
bicicleta na Apollolaan, surgiu outra vez aquela procura, aquele descon- mãos dele tocaram-me rapidamente no peito, nos braços e nos ombros.
tentamento, aquele sentir o vazio por trás das coisas, aquele não estar re- Naquele momento pensei algo do género: «Pois sim, meu caro, deves
pleto de vida, mas o nela magicar sem direcção ou sentido. E neste até saber à brava como sou eroticamente excitável, tu mesmo mo dis-
momento estou no pântano. E igualmente a consideração de: «Enfim, seste, mas pronto, és decente em discutir abertamente isso comigo des-
isto também há-de passan>, desta vez não oferece tranquilidade. se jeito, e eu heÍ-de recompor-me.» Ele acrescentou ainda que eu não
me devia apaixonar por ele e que ele dizia sempre isso no início, enfim
foi consciente, embora me fizesse sentir um pouco desconfortável.
Segunda-feira de manhã [24 de Março de 1941], Porém, da segunda vez que lutámos, foi totalmente diferente. Nes-
nove e meia. se momento ele também se excitou. E a certa altura, quando ele estava
deitado em cima de mim a gemer, muito brevemente, e se contorcia
Um pouco mais tarde, uma observação assim com os espasmos mais velhos do mundo, então vieram-me à cabeça
ao acaso entre duas frases temáticas. pensamentos extremamente ruins, quais gases venenosos saídos de um
pântano, tipo: «Mas que linda maneira de tratares os teus pacientes,
E esquisito, apesar de tudo ele permanece, de certo modo, um es- também tens prazer e és pago ainda por cima, embora a quantia não seja
tranho para mim. Quando às vezes, por um instante, me faz uma festa grande.» Contudo, o modo como as suas mãos me agarraram durante a
na cara com a quentura daquela mão enorme ou, quando por vezes, na- luta, a maneira como ele me mordeu na orelha e cingiu o meu rosto
quele gesto inimitável, me toca muito ao de leve nas pestanas com as com a mão enorme durante o confronto, tudo isso me enlouqueceu
pontas dos dedos, tenho ocasionalmente uma reacção posterior de re- completamente; pressenti um pouco do amante experiente e excitante
beldia: «Quem te diz que tens licença para isso, quem te dá o direito de que se escondia por detrás de todos estes gestos. Mas entrementes tam-
tocares no meu corpo sem mais nem menos?» Creio igualmente saber a bém achei aquilo intensamente ctuel, ele abusar da situação. Contudo,
causa disto. Quando lutámos pela primeira vez, foi agradável, despor- essa sensação de repugnância dissipou-se e no final houve uma con-

8o Eicy H i l l e s u m Diicio [941-194} 81


T
fiança entre nós e um contacto a nível pessoal, como depois nunca mais Visto a posteriori, até entendo. Ele tinha-se recomposto e conscien-
houve. Mas quando ainda estávamos deitados juntos no chão, ele disse- temente adoptado uma atitude neutra, também ele estivera envolvido
-me: «-Não quero ter nenhum caso consigo.» E disse igualmente:«Tenho de numa pequena batalha. Perguntou-me também: «Pensou em mim esta
confessar-lhe honestamente, você agrada-me imenso.» E em seguida disse- semana?» e então proferi uma banalidade qualquer e curvei a cabeça e
-me qualquer coisa sobre temperamentos semelhantes. ele disse muito honestamente: «Para ser sincero, nos primeiros dias da
E também disse, um pouco depois: «E agora dê-me um beijinho de semana pensei muito em sL» Enfim, e depois mais uma luta, mas sobre
amizade»^, mas para isso eu não estava ainda completamente preparada ela já escrevi muito, foi repugnante e surgiu-me a crise. Ainda hoje ele
e desviei a cabeça timidamente. E então, no fim da sessão, ele voltou continua sem saber por que é que eu fiquei paralisada e me comportei
de repente a ser a mesma pessoa de sempre e disse, como se estivesse a de modo tão estranho, e pensa que foi por eu estar tão eroticamente
reflectir para consigo: «Mz realidade é tudo bastante lógico, sabe, eu era subjugada por ele. Porém, ele revelou também a sua própria luta. Disse-
um jovem muito sonhador» e seguiu-se uma parte da sua vida. Ele con- -me ele: « Você para mim também é um desafio» e contou-me que, apesar
tava-me e eu ouvia cheia de devoção, e de vez em quando ele passava do seu temperamento, há dois anos que ainda continua fiel à namo-
a mão muito ternamente pela minha cara. rada. Mas achei muito neutro e seco isso de eu ser um «desafio» para
E foi assim que voltei para casa com os sentimentos mais contra- ele, queria ser um «eu» para ele, eu era a criança mimada que queria
ditórios: de rebeldia em relação a ele porque o achei mau e grosseiro, «ten> esse homem, embora também me causasse aversão, já tinha con-
e de ternura, cheia de um bom sentimento humano de amizade e ao tudo estabelecido na minha fantasia que ele seria o meu homem, que o
mesmo tempo com uma fantasia erótica muito estimulada, causada queria conhecer como amante e daí ponto final. Não que naquele mo-
pelos seus gestos refinados. E durante uns dias não soube fazer mais mento eu estivesse a um nível muito alto, mas tudo isso já foi escrito.
nada senão pensar nele, propriamente nem se pode chamar a isso pensar, E agora sinto como «estou à altura» dele, que a rninha luta iguala
foi mais um senti-lo fisicamente. O seu corpo grande e flexível amea- a dele, que também em mim se trava uma batalha feroz entre os senti-
çava-me de todos os lados, estava em cima de mim, debaixo de mim, mentos impuros e os mais nobres.
em toda a parte, ameaçava esmagar-me, não conseguia continuar a Mas como naquela altura tão inesperadamente se revelou um ho-
trabalhar e pensava horrorizada: «Meu Deus, onde é que me fui meter? mem, e deixou cair a máscara de «psicólogo» espontaneamente e se
Fui lá para me tratar psicologicamente a fim de pôr ordem no que se tornou humano, perdeu um pouco de autoridade, enriqueceu-me, mas
passa dentro de mim, e agora isto, pior do que aquilo por que alguma algures provocou-me um pequeno choque, uma ferida que ainda não
vez passei.» E vivia ansiosa pela próxima vez em que o iria rever e tinha sarou totalmente e que faz com que eu continue a ter a sensação de
fantasias eróticas muito especiais a esse respeito, e essa foi a famosa vez que ele é um estranho: «Quem és na realidade e quem te diz que tens
do fato de ginástica por baixo do vestido de lã e do embate estrondoso autorização paia te meteres na minha vida?» O Rilke escreveu um poe-
entre as minhas delirantes fantasias e a neutra realidade dele. ma lindo sobre este estado de alma, espero voltar a encontrá-lo ainda.

Ertv Hillesum Diário


Após umas buscas, encontrei o poema do Rilke que me andava na O Bonger é igualmente inesquecível para mim. (Estranho, por
mente. Há uns anos atrás, o Abrascha leu-mo em voz alta, numa noi- causa da morte de v. Wijk10 tudo isto vem ao de cima.) Umas horas an-
te de verão no Zuidelijke Wandelweg, e naquela ocasião, de uma ou tes da capitulação. E de repente, a figura pesada, lenta, francamente re-
de outra maneira inexplicável, achou que o poema se aplicava a mim, conhecível, de Bonger, arrastando-se pelo Clube de Gelo, de óculos
e isso com certeza porque, apesar da intimidade, continuava a senti-lo azuis, e aquela cabeça grande e peculiar inclinada na direcção das nu-
como um estranho. E essa minha ambivalência começa a tornar-se-me vens de fumo, que à distância dominavam a cidade, e que vinham do
clara, mais uma vez graças ao meu conflito com S. e ao meu entendi, porto do petróleo, que fora incendiado. E essa imagem, o vulto lento
mento da situação. Trata-se das duas últimas linhas: de cabeça inclinada olhando para o ar, para as nuvens de rumo à distân-
cia, nunca a hei-de esquecer. E num impulso espontâneo, saí de casa a
E estranhamente ouvi um estranho dizer: correr, sem casaco, na sua peugada, alcancei-o e disse: «Boa tarde, pro-
Estou contigo —4 fessor Bonger, tenho pensado muito em si nestes últimos dias, eu acom-
panho-o um bocadinho.» E ele olhou para mim de lado, através dos
óculos azuis, e não fazia a menor ideia de quem eu era, apesar dos dois
Terça-feira, 25 de Março [de 1941], às nove da noite. exames e do ano de aulas, mas nesses dias as pessoas eram tão familia-
res entre si que continuei a caminhar ao lado dele cheia de amizade. Da
Como eu mesma ainda sou tão jovem e cheia de vontade indes- conversa, já não me recordo exactamente. Essa foi a tarde precisa em
trutível de não me deixar arrasar e ter a sensação de poder ajudar a que se deu a vaga de fugas para a Inglaterra, e eu perguntei-lhe: «Acha
preencher vazios surgidos e para isso sentir forças, dificilmente me que fugir adianta alguma coisa?» E ele então respondeu: «A juventude
apercebo de quão empobrecidos, nós jovens, nos encontramos, e quão deve ficar cá.» E cá eu: «Acredita que a democracia acabe por ganhar?»
solitários ficamos. Ou será também uma espécie de anestesia? Bonger* E ele: «Acredito absolutamente que sim, mas irá ser à custa de várias ge-
morto, Ter Braak5, du Perron6, Marsman7, Pôs8 e v.d. Bergh9 e muitos rações.» E ele, o enérgico Bonger, estava tão indefeso como uma crian-
outros num campo de concentração, etc. ça, brando quase, e de repente senti a necessidade irresistível de pôr o
meu braço à sua volta e guiá-lo como se fosse uma criança, e assim,
com o meu braço à volta dele, caminhámos pelo Clube de Gelo. Em
* De R.M. Rilke, Der neuen Gedichten anderer Teil. (/V da 7} certo sentido ele parecia quebrado, e extremamente bondoso. Toda a
" Dr. 'OCIHem Adriaan Bonger, famoso criminologista e sociólogo.
' Menno Ter Braak, escritor e ensaísta. (jY da T) paixão e veemência estavam extintas. Fico extremamente emocionada,
13 Eduard du Perron, escritor, poeta e ensaísca. (N. da 77)
quando penso como ele era, o mal-encarado da faculdade. E despedi-
' Hendrik Marsman, escritor, ensaísta e poeta. (/Y du T)
9 Hendrik Joseph Pôs, filosofo e professor cie linguistica, f A' da T}

•' George v.d. Bergh, professor catedrático de Direito Estacai e Administrativo e deputado. (N. da 19 Nicolaas van Wijk, o primeiro professor catedrático de Escudos Eslavos. (iV da T}

Etty H i l l e s u m
Díirio
-me dele na praça Jan Willem Brouwer, repentinamente voltei-me de Sexta-feira, 8 de Maio [de 1941], 3 da tarde, na cama.
frente para ele, tomei uma das suas mãos nas minhas, e ele baixou um
pouco a enorme cabeça com bons modos e olhou-me pelas lentes Tenho mas é de me ocupar outra vez comigo, não há nada a fazer.
azuis, através das quais eu não conseguia descortinar os seus olhos, e Durante alguns meses não precisei deste caderno, a vida era-me
soou quase pomposamente cómico: «Foi com muito prazer.» E quan- tão clara e nítida e intensa; contacto com o mundo exterior e interior;
do na noite seguinte entrei em casa do Becker*, a primeira coisa que enriquecimento da vida; aumento da personalidade; o contacto em
ouvi foi: «O Bonger morreu!» Digo: «Não é possível, ainda ontem fa- Leiden com os estudantes': Wils, Aimé, Jan; o estudo, a Bíblia, Jung e
lei com ele às sete horas.» A que me responde o Becker: «Então você depois novamente S., sempre e sempre o S.
foi uma das últimas pessoas a falar com ele. As oito horas, já ele tinha Porém, agora há novamente uma estagnação, um certo desassos-
enfiado uma bala na cabeça.» sego confuso; na realidade não é bem um desassossego, estou demasiado
E umas das suas últimas palavras foram portanto dirigidas a uma em baixo para isso. Talvez seja somente cansaço físico, do quai toda a
estudante desconhecida, para quem olhou bondosamente através de gente tem sofrido nesta primavera fria, que motiva esta falta de reper-
uns óculos azuis: «Foi com muito prazer.» cussão em mim das coisas que me rodeiam.
E Bonger não é o único. Há um mundo em transe de ser destruído. Mas bem sei que é essa tácita, estranha, relação com S. que me pro-
Mas o mundo há-de continuar e por enquanto eu acompanho-o, cheia voca isto. E vou mas é observar-me muito bem, a cada passo que dou.
de coragem e de boa vontade. Porém, ficamos um pouco espoliados,
mas sinto-me tão rica por dentro que a espoliação ainda não me pene-
trou totalmente. No entanto deve manter-se bom contacto com o 8 horas da noite.
efectivo mundo actual, e tentar estabelecer o nosso lugar nele, não nos
devemos reger somente pelos valores seculares, porque isso também Uma pessoa busca sempre uma fórmula redentora, um pensa-
poderia resultar na política da avestruz. Viver plenamente, externa e mento ordenador. Quando agora mesmo estava a andar de bicicleta ao
interiormente, nada de sacrificar a realidade exterior a favor da inte- frio, pensei de repente: talvez eu complique realmente demasiado as
rior, e vice-versa de igual modo, eis uma bela tarefa. E agora ainda vou coisas e as faça interessantes, talvez não queira ver os factos objectivos.
ler uma historieta fútil da Libelie e depois vou-me deitar. E amanhã é Na realidade é assim: não estou nada apaixonada por ele e também
preciso trabalhar novamente, nas ciências, na lida da casa e trabalhar- não o amo. Ele mexe comigo e às vezes fascina-me como pessoa, e
-me a mim mesma, nada deve ser negligenciado, e uma pessoa também aprendo enormemente com ele. Desde que o conheço, estou a passar
não se deve achar demasiado importante. E agora boa-noite. por um processo de amadurecimento com o qual nunca teria sonhado

* Dr, Bruno Bo riso vi K j Becker. professo! catedrácico de Escudos Eslavos. * Wils Huisman, Aimé van Sancen e Jan Bool, colegas de escudo cie E[ty.

86 Ertv Hillcsum D i á r i o 1941-1943


nesta idade. Mais do que isso não existe na realidade. Mas agora vem o pequenina e sôfrega criaturazinha. De vez em quando quero voltar a es-
malvado do erotismo, de que ele está a abarrotar e eu também. Isso faz car nos seus braços, e saio deles novamente infeliz. É provável que tam-
com que nos sintamos fisicamente atraídos de modo inevitável, apesar bém haja uma certa vaidade infantil. Do tipo: «Todas as raparigas e
de ambos não o desejarmos, como já antes o dissemos uma vez explici- mulheres em seu redor são doidas por ele, mas sou eu, a que ele conhece
tamente um ao outro. há menos tempo, a única a ser tão íntima com ele.» Se é realmente esse
Mas agora, houve por exemplo o domingo à noite, creio que foi no o sentimento que eu tenho, então é bastante nojento. Na realidade cor-
dia 21 de Abril, pela primeira vez passei upi serão inteiro com ele. Falá- ro o grande risco de estragar a amizade por causa do erotismo.
mos, isto é, ele falou acerca da Bíblia, mais tarde ele leu algo de Tomás
Kempis em voz alta, enquanto eu estava sentada ao colo dele, aí ainda
estava tudo em ordem, praticamente não havia erotismo nenhum, mas 8 de Junho [de 1941], domingo de manhã. Nove e meia.
sim uma grande quantidade de calor humano e de amizade. Então,
mais tarde, o corpo dele repentinamente cobriu o meu e eu estendi-me Acfedito que é isto que vou fazer: de manhã, antes de começar o
nos seus braços, e foi apenas nesse momento que me senti triste e soli- trabalho, passar meia hora «para dentro», a escutar o que está dentro
tária, ele ia beijando as minhas coxas brancas e eu sentia-me cada vez de mim. «Submergir-me». Também se pode chamar a isso meditar- Mas
mais só. Ele disse: «Foi bonito» e eu voltei para casa com um sentimento essa palavra ainda me atemoriza um pouco. Mas sinceramente por
muito pesado de tristeza e solidão. E em consequência disso, comecei a que não? Uma meia hora de silêncio dentro de si. Não chega somente
imaginar grandes teorias interessantes acerca da minha solidão, mas mover os braços e as pernas e todos os outros músculos, de manhã na
não será simplesmente por isso que eu no fundo do meu ser não con- casa de banho. O ser humano é corpo e alma. E assim, uma meia hora
sigo entregar-me ao nosso contacto corporal? Eu não o amo, em todo o de ginástica e uma meia hora de «meditação» podem formar em con-
caso. E sei que o ideal dele é ser fiel a uma só mulher, essa mulher está junto uma larga base de calma e concentração para o dia inteiro.
por acaso em Londres, mas é a ideia que conta. Se eu fosse realmente Porém, não é tão simples como isso: uma «hora silenciosa» assim,
uma grande e importante mulher, punha termo a todo o contacto físico isso requer aprendizagem. Toda a pequena tralha humana e todas as su-
com ele, que na verdade, no fundo do meu ser, só me faz é sentir infeliz. perficialidades teriam de ser eliminadas lá dentro. No final de contas há
Mas ainda não consigo tomar a decisão de desistir de todas as possibilida- sempre um monte de desassossego em vão, numa cabecinha destas.
des que ele tem, que assim se perderiam. E creio que tenho medo de o Sentimentos e pensamentos de abertura e libertação também existem,
magoar no seu sentimento de honra masculina, que afinal também algu- mas a tralha está sempre à mistura. E é precisamente esse o objectivo
res terá. Contudo, a amizade atingiria provavelmente um nível bas- dessa meditação: que, por dentro, uma pessoa se torne uma planície
tante mais alto e em última instância ele ficar-me-ia grato se o ajudasse grande e ampla, sem o matagal manhoso, que esconde a vista. Que
a concretizar a sua fidelidade àquela mulher. Porém, sou somente uma portanto alguma coisa de «Deus» penetre em ti, tal como existe algo

Etiv HiT.esum Diário 1941-1343 89


de «Deus» na Nona de Beethoven. Que alguma coisa de «Amor» pene- Uma ou outra vez, acho-me por vezes bonita, mas isso é devido à
tre em ti, não um amor de luxo de meia hora, onde te delicias a flutuar fraca iluminação da casa de banho. Porém, nesses momentos em que me
orgulhosa dos teus próprios elevados sentimentos, mas amor, com o acho bonita, não consigo descolar-me da minha própria imagem, e então
qual podes fazer algo no banal dia-a-dia. ponho-me a fazer caretas ao espelho, inclino a cabeça em todas as posi-
Naturalmente eu poderia ler a Bíblia todas as manhãs, mas não ções, para gáudio do meu próprio olhar deliciado, e a minha fantasia fa-
creio estar ainda amadurecida para isso, que a minha calma interior es- vorita nesse instante é que estou sentada numa sala, a uma mesa, com a
teja já suficientemente grande para tal e, no meu cérebro, continuo a cara voltada para a audiência, e que todos rue olham e me acham bonita.
rebuscar demasiado as intenções desse Livro, e deste modo não há um Estás sempre a dizer que queres apagar-te cornpletamente, mas
ap ro fu ndame n to. enquanto estiveres cheia dessa vaidade e dessas fantasias não deixaste
Penso que irei ler um bocadinho de As Mansões da Filosofia todas ainda de te importar contigo.
as manhãs. Claro que também me podia limitar a algumas palavras Também quando estou a trabalhar, sinto às vezes a necessidade
nestas linhas azuis. Ter alguma paciência para elaborar um determi- súbita de ver a minha própria cara, então tiro os óculos e vejo-me nas
nado pensamento com mais detalhe, embora não se trate propria- lentes. Às vezes, isso é uma verdadeira compulsão. E eu mesma fico
mente daqueles pensamentos importantes. Antigamente nunca muito infeliz com isso, porque sinto o quanto eu mesma me atrapa-
conseguias anotar nada, devido à ambição. Tinha de ser imediata- lho. E não adianta eu obrigar-me por fora a não me encantar com a
mente algo fantástico, algo perfeito, e não te atrevias a permitir-te es- minha própria imagem ao espelho. É necessário que de dentro surja
crever uma coisa qualquer, apesar de as vezes quase explodires de uma certa indiferença pela minha aparência, não me deve importar o
vontade de fazer isso mesmo. aspecto exterior, preciso de viver ainda muito mais «interiormente».
Queria pedir-te para não passares tanto tempo a ver-te ao espelho, E às vezes, também ainda reparas demasiado na aparência dos outros,
minha palerma. Deve ser terrível ser-se muito bonita, assim uma pes- se alguém é «jeitoso» ou não é. No final de contas, o que importa é a
soa nunca chega ao seu íntimo, porque está demasiado ocupada com alma, ou o ser, ou o que lhe quiseres chamar, que a pessoa irradia.
o deslumbrante aspecto exterior. Os outros reagem também somente
a esse belo exterior, o que faz com que, por dentro, uma pessoa comece
talvez a ficar cornpletamente atrofiada. Sábado, 14 de Junho [de 1941], 7 horas da noite.
O tempo que passo em frente ao espelho — porque por vezes sou
repentinamente atingida por uma expressão engraçada ou fascinante Mais prisões outra vez, terror, campos de concentração, o levar in-
ou interessante neste meu rosto não tão bonito como isso —esse tem- discriminadamente país, irmãs, irmãos. Uma pessoa procura o sentido
po, podia eu aplicá-lo melhor. Irrita-me mesmo muiro, esse mirar-me da vida e pergunta-se se ela na realidade ainda tem sentido. Mas este é
a mim mesma. um assunto que cada um deve decidir consigo e com Deus. E talvez

90 Etty Hillesum Diário


cada vida tenha o seu próprio sentido e dure uma vida inteira para o de estar liberta; todo o meu amor e compreensão e interesse e alegria se
encontrar. Pelo menos de momento perdi toda a relação com as coisas dirigiam a ele, mas não lhe fiz exigências, não queria nada da parte dele,
e a vida, e tenho a sensação de que tudo é casual e que interiormente aceitei-o como ele era e desfrutei da companhia dele.
uma pessoa se deve desligar dos outros e de tudo. Parece tudo tão amea- Só queria saber como consegui eu fazer isso, essa libertação. E um
çador e sinistro, e depois a grande impotência. processo que ainda não se me tornou claro. Por isso mesmo deve tornar-
-se-me nítido, para que mais tarde eu consiga talvez ajudar outras pessoas
com as mesmas dificuldades. Se calhar, realmente o melhor é com-
Domingo de manhã [15 de Junho de 1941], meio-dia. pará-lo a alguém atado a outra pessoa por uma corda que vai puxando
e esticando até se libertar. Mais tarde, esse alguém também não saberá
Somos apenas barris ocos pelos quais flui a História Mundial. dizer como é que se desembaraçou, só sabe que tinha vontade de se li-
bertar e que reuniu todas as forças para o conseguir. Deve ter sido isso
Tudo é coincidência ou nada é coincidência. Se eu acreditasse na que aconteceu comigo psiquicamente.
primeira hipótese, não conseguia viver, mas ainda não estou conven- Aprendi isto igualmente: de nada serve raciocinar, fazer por tor-
cida da última. nar nítido a si mesmo o modo como as coisas se combinam e procurar
a causa, uma pessoa tem pura e simplesmente de fazer algo ao nível da
Tornei-me outra vez um bocadinho mais forte. Consigo lidar psique, usar energia a fim de obter um resultado.
com as coisas dentro de mim. Primeiro existe realmente a tendência
para pedir ajuda a outros, para pensar — não me consigo desembara- Ontem pensei por um instante apenas que não conseguia viver mais,
çar —, mas de repente uma pessoa nota que levou mais uma luta até que precisava de ajuda. Tinha perdido o sentido da vida e o sentido do
ao fim e que conseguiu resolver o assunto sozinha e isso torna-a mais sofrimento, tinha a sensação de «sucumbir» sob um enorme peso, mas
forte. No domingo passado (só faz uma semana de diferença), tinha a também aqui resisti a algo, pelo que de repente se me tornou possível
sensação desesperada de estar ligada a ele e que isso daria início a um continuar, mais forte do que antes. Tentei encarar o «Sofrimento» da
período de grande infelicidade para mim. Porém, eu desliguei-me, só Humanidade de perto e tentei explicá-lo honestamente a mim mesma,
que não entendo como. Não foi por raciocinar comigo mesma. Mas ou melhor: algo em mim explicou-mo, apareceram respostas a muitas
puxei com todas as forças psíquicas uma corda imaginária, eníiireci- perguntas desesperadas, o grande absurdo deu lugar a um pouco mais de
-me e resisti, e, de repente, senti que estava livre de novo. E houve en- ordem e coerência e eu consegui continuar. Foi novamente uma luta bre-
tão alguns encontros breves (à noite no banco junto ao Cais do Está- ve, mas intensa, donde saí um bocadinho mais madura.
dio, às compras no centro) que foram de uma intensidade tal, para Digo que tentei analisar o «Sofrimento da Humanidade» (continuo
mim em todo o caso mais forte do que nunca. Isso devido à tal sensação a arrepiar-me com as grandes palavras). No entanto não é bern isso. Sin-

92 D i á r i o 1941-194} 93
to-me antes um pequeno campo de batalha onde as questões, ou uma só do seu mal; de preferência esse alguém deve dedicar a atenção à sua
questão dos tempos actuais, combatem. A única coisa que urna pessoa própria falta de autodomínio.
pode fazer é pôr-se humildemente à disposição e deixar-se tornar urn Essa é a sabedoria que arquitectei hoje e com a qual estou bastante
campo de batalha. As questões têm de se albergar nalgum lado, precisam satisfeita. A tristeza contínua, que nos últimos dias me consumia por
de encontrar um lugar onde possam lutar e descansar, e nós, míseros hu- dentro, começa também a desaparecer.
manos, devemos abrir o nosso espaço interior a elas e não fugirmos. Tal-
vez eu seja, em relação a isto, exageradarnente hospitaleira, às vezes,
dentro de mim, há um campo de batalha muitíssimo sangrento, e, de vez Quarta-feira de manhã, 18 de Junho [de 1941], nove e meia.
em quando, um cansaço desmedido e uma enorme dor de cabeça são o
preço a pagar por tal. Mas agora sou só eu outra vez, Etty Hillesum, uma Preciso de reavivar uma velha sabedoria:
estudante aplicada, num quarto simpático cheio de livros e uma jarra — À pessoa que descansa em si não lhe interessa o tempo; a evo-
com malmequeres. O rio corre de novo no seu próprio e apertado leito e lução não deve levar o tempo em conta.11
o contacto com «a Humanidade», «a História Mundial» e «o Sofrimento»
quebrou-se de novo. Tal também é preciso, senão uma pessoa endoidece- A vida em si deve permanecer a fonte primitiva, nunca um outro
ria completamente. Uma pessoa não deve perder-se continuamente nas ser. Muitas pessoas, especialmente mulheres, vão aí buscar a sua força,
grandes questões, uma pessoa não pode ser constantemente um campo em vez de a irem buscar directamente à vida, é esse outro ser a sua fon-
de batalha, é preciso sentir regularmente os pequenos limites próprios te e não a vida. Isto é tão distorcido e tão antinatural quanto é possível.
que a rodeiam, dentro dos quais a pessoa continua então a viver metódica
e conscientemente a sua vida, cada vez mais madura e aprofundada pelas
experiências que tem nos momentos quase «impessoais» de contacto com [Sexta-feira] 4 de Juiho [de 1941].
a humanidade inteira. Mais tarde talvez consiga formular isto melhor, ou
então ponho uma personagem num conto ou num romance a dizer estas Há um desassossego em mim, um desassossego bizarro, diabólico,
coisas, mas isso será muito mais tarde. que poderia ser produtivo se eu o soubesse utilizar. Um desassossego
criador. Não se trata do desassossego do corpo. Nem mesmo uma dú-
zia de excitantes noites de amor lhe conseguiriam pôr fim. E um de-
Terça-feira de manhã, 17 de Junho [de 1941], nove e meia. sassossego quase «sagrado». O Deus, toma-me na tua grande mão e
torna-me o teu instrumento, faz-me escrever.
Se alguém deu cabo do estômago, deve seguir uma dieta sensata
em vez de dirigir a sua ira infantil às iguarias que crê terem sido causa "Spier. IA'. Já T]

94 • E;cy H i l l c s u t Diírio 1941-1-143 95


Isto deve-se à ruiva Leonie* e ao filosófico Joop". E verdade que S. Sou obrigada a pensar no comentário de S. há uns dias:«Você não
lhes entrou de rompante em cheio no coração durante as suas análises, é assim tão caótica como isso, a única coisa que você tem é aquela memó-
no entanto senti que o ser humano não se deixa prender por nenhuma ria antiga em que achava que era muito mais genial ser caótica do que
fórmula psicológica, só o artista sabe dar aquele último traço irracional disciplinada. Eu acho-a sempre muito concentrada.»
da pessoa. Não sei o que fazer com este meu «escrever». É tudo tão
caótico ainda, e também não existe autoconfiança, ou melhor, a neces-
sidade imperiosa de ter de dizer alguma coisa. Espero ainda um pouqui- Segunda-feira, 4 de Agosto de 1941,
nho, até tudo sair para fora por si próprio e tomar forma. Mas primeiro, às duas e meia da tarde.
preciso eu mesma de achar a forma, a minha própria forma.
Ele diz que o amor a todos é mais belo que o amor a uma só pessoa.
Em Deventer"" os dias eram grandes planícies soalheiras, cada Porque o amor a uma só pessoa é, na realidade, somente amor a si mesmo.
dia era um grande todo intacto, havia contacto com Deus e com toda Ele é um homem maduro de 55 anos e encontra-se no estádio do
a humanidade, provavelmente porque quase não via uma única pes- amor a todos, depois de inicialmente ter amado uma vida inteira muitos
soa. Havia searas, de que nunca me hei-de esquecer e junto às quais alguns. Eu sou uma mulherzinha de 27 anos e também carrego inten-
quase me ajoelhava, havia o rio íjssel com o guarda-sol colorido e com samente comigo o amor a toda a humanidade, mas ainda assim per-
o telhado de colmo e os cavalos pacientes. E depois o sol, que eu dei- gunto-me se não irei andar sempte à procura de um determinado
xava entrar por todos os poros. homem. E pergunto-me até que ponto isso será uma restrição, um li-
E aqui o dia consiste em mil fragmentos, a grande planície desapa- mite à mulher. Até onde isso é uma tradição secular, da qual ela se deve-
receu novamente e também Deus se perdeu; se as coisas continuam as- ria libertar, ou talvez esteja tão arreigada ao ser da mulher que ela própria
sim por muito tempo, começo novamente a interrogar-me sobre o se violentaria se desse o seu amor a toda a humanidade em vez de o dar
sentido de tudo isto e isso não é filosofia profunda, mas um sinal de que a um só homem. (Ainda não estou pronta para a síntese.) Talvez seja por
não vou indo bem. E depois ainda, o bizarro desassossego que não sei esse motivo que há tão poucas mulheres nas ciências e nas artes, porque
classificar bem. Mas posso imaginar que este é o desassossego a partir do a mulher está sempre à procura do tal homem ao qual pode transmitir
qual mais tarde, se o souber canalizar, vai sair provavelmente bom traba- todo o seu conhecimento e calor e amor e poder criador. Ela procura
lho. Ainda te falta muito para lá chegares, miúda, é preciso ainda arreba- o homem e não a humanidade.
tar muita terra firme as ondas tumultuosas, pôr muita ordem no caos. Não é lá muito simples, essa questão feminina. Às vezes, quando
vou na rua e vejo uma mulhet bonita, cuidada, completamente femi-
* Leonie Snacager.
"* Jan Bool.
nina, um pouco pateta, fico vacilante. Então sinto o meu cérebro, as
**" Os pais de Eity moravam em Deventer. minhas lutas, o meu sofrimento, como coisas que me oprimem, algo de

Env Hillísum D i á r i o 1941-194; 97


feio, pouco feminino, e nesses momentos queria somente ser bonita e problemas; também não rujo deles, fujo da dificuldade de os escrever.
tola, um brinquedo desejado por um homem. Coisa curiosa, querer Sai tudo tão desajeitado. Mas tu não andas só à procura de tornar as
ser-se sempre desejada por um homem, ser isso para nós o mais alto coisas claras para ti neste papel? Não andas a produzir obras-primas,
padrão de afirmação de que somos mulheres, embora isso seja, vendo pois não? Continuas a envergonhar-te de ti mesma. Não te atreves a ex-
bem, muito primitivo. Sentimentos de amizade, respeito pela nossa por-te, ainda não te atreves a pôr as coisas cá para fora, continuas a ser
personalidade, amor por nós enquanto seres, tudo isso é muito bo- terrivelmente coibida, e isso porque não te aceitas como és.
nito, mas em última instância não queremos que o homem nos deseje i
como mulher? E ainda quase impossível para mim escrever tudo aqui- É difícil estar simultaneamente de bons termos com Deus e com o
lo que aqui quero dizer, é extremamente complicado, mas é algo de es- baixo-ventre. Este pensamento assaltou-me de maneira algo exaspe-
sencial e é importante que o consiga. rante, há uns tempos atrás, durante um serão musical em que S. e Bach
Talvez a genuína, interior emancipação feminina ainda tenha de estiveram igualmente representados. E uma coisa complicada com o S.
começar. Ainda não somos verdadeiramente indivíduos, somos fêmeas. Ele está ali sentado e há muito calor e afecto humanos, nos quais uma
Continuamos atadas e agrilhoadas por tradições seculares, ainda preci- pessoa se acolhe sem segundas intenções. Porém, ao mesmo tempo, ali
samos de nascer como indivíduos, eis aqui uma tarefa importante para está um tipo com um rosto expressivo, com grandes mãos sensíveis que
a mulher. de vez em quando estende na tua direcção, e com olhos efectivamente
capazes de te acariciar de modo pungente. Mas acariciar Impessoal-
E como é que se passam as coisas entre S. e mim? Se eu quiser cla- mente, deixemos bem claro. Ele acaricia a pessoa, mas não a mulher.
rificar esta relação a longo prazo, então é preciso que eu veja com niti- A garra estende-se à pessoa, mas não à mulher. E a mulher quer ser aca-
dez as minhas relações com todos os homens e com a humanidade, para riciada como mulher e não como pessoa. Pelo menos é o que acontece
dizer isto por palavras caras. Deixa-me ser patética à vontade, raios, es- comigo de vez em quando. Ele, porém, propõe-te uma grande tarefa,
crever tudo exactamente como sinto por dentro, se puser cá fora todo para a qual será preciso batalhar violentamente. Para ele, sou um desa-
tssepathes e exagero, pode ser que descubra o meu eu. fio, disse-mo numa das primeiras vezes, mas também ele o é para mim.
Amo S.? Sim, imenso. Vou mas é parar, sinto-me cada vez pior enquanto escrevo isto, um si-
Como homem? Não, não como homem, mas como pessoa. Ou tal- nal de que não o estou a formular da maneira que o sinto.
vez sejam mais o calor e o amor e a sua aspiração à bondade, o que eu Não há nada a fazer, tenho de resolver os meus problemas e con-
amo. Não, não consigo chegar a uma conclusão, palavra de honra que tinuo a ter a sensação de que, quando os resolver para mim própria, os
não. Isto é uma espécie de sebenta, hei-de experimentar algo de vez em resolvo também para milhares de outras mulheres. E por isso devo «ex-
quando, pôr cá para fora, pode ser que deste modo as peças se tornem plicar-me» tudo. Mas a vida é bastante difícil, e sobretudo quando não
um todo, mas não devo esconder-me de mim, ou da dificuldade dos se consegue achar as palavras.

Hillesurn Diário 1941-194; 99


Todo esse devorar de livros, desde pequena, é simplesmente pre- mais a sério. Tenho a impressão de que vou mas é primeiro comprar o
guiça da minha parte. Deixo que os outros formulem aquilo que eu melão, para oferecer aos Nethes'. Isto também faz parte da vida.
mesma devia fazer. Procuro a confirmação por toda a parte do que em Às vezes sinto-me como se fosse um caixote do lixo, tenho tanta
mim vive e se revolve, mas para obter o esclarecimento vou ter de uti- turbação, vaidade, meio-termo e inferioridade em mim! Mas, também
lizar as minhas próprias palavras. Vou ter de deitar borda fora muita existe uma verdadeira honestidade, e uma paixão quase elementar, para
preguiça, e sobretudo inibição e insegurança, antes de me descobrir. E induzir pureza e encontrar harmonia entre o exterior e o interior.
por minha via, aos outros. Tenho de atingir o esclarecimento e tenho Às vezes desejava estar numa cela conventual, com a sabedoria su-
de me aceitar. E agora vou comprar um melão ao mercado. E tudo um blimada de séculos nas prateleiras de livros ao longo das paredes, e com
peso enorme dentro de mim. E eu gostaria tanto de ser leve. vista para as searas — têm mesmo de ser searas e também de ondular
Absorvo tudo, há anos e anos, vai tudo para dentro, para um — e aí eu quereria aprofundar-me nos séculos e em mim mesma, e,
com o correr do tempo, viriam então o sossego e a clareza. Mas assim nlo
grande reservatório, mas um dia terá de sair tudo cá para fora, senão
custar ia-nada. Aqui, neste lugar, neste mundo e agora, tenho de alcan-
fico com a sensação de ter vívido para nada, de só ter espoliado a hu-
çar o entendimento, o sossego e o equilíbrio. Tenho de me lançar na
manidade e não ter dado nada em troca. As vezes tenho a sensação de
realidade repetidamente, tenho de me explicar tudo o que surge no
que parasito, daí às vezes a grande depressão e a interrogação de se na
meu caminho, o mundo exterior precisa de receber sustento do meu
realidade levo uma vida útil. Se calhar é minha tarefa explicar-me
mundo interior e vice-versa, mas é tudo tão extremamente difícil, e
toda, explicar-me realmente toda, tudo o que me atinge e tortura e o
porque é que tenho esta sensação de sufoco por dentro?
que em mim brada por uma solução e formulação. Porque porventura
Aquela tarde no urzal. Ele com o bondoso rosto comovido olhan-
não serão problemas só meus, mas também os problemas de muitos
do para a distância, e eu: «Em que pensa neste momento^.» E ele: «Nos
outros. E quando eu, ao fim de uma longa vida, conseguir encontrar demónios que torturam a humanidade.» (Isto foi depois de eu lhe ter
uma forma para as coisas que agora são um caos dentro de mim, talvez contado como o Kiaas quase tinha morto a filha à pancada, por ela
tenha então concluído a minha pequena tarefa com êxito. Enquanto não lhe ter trazido o veneno que pedira.) Ele estava sentado debaixo
escrevo Isto, creio que algures no meu subconsciente estou a ficar ago- da árvore de ramos descaídos e a minha cabeça estava deitada no seu
niada. Por causa das palavras «tarefa de vida», «humanidade» e «solu- colo, e de repente eu disse, isto é, não disse, mas saiu-me de rompante:
ção de problemas». Acho essas palavras pretensiosas, acho-me a mim «Agoragostava imenso de um beijo não diabólico.» E ele respondeu-me:
mesma uma ingénua «donzela recatada», mas isso deve-se ao facto de «Então tem de vir cá buscá-lo.» E nesse momento levantei-me num
ainda não ter coragem de me revelar. repente e queria fingir que não tinha dito nada, mas subitamente lá
Não, minha linda, ainda te falta muito. Na realidade devia proibir-
-te de tocar num só filósofo profundo que seja, até tu própria te levares ' Spier morava em casa da família Nethe, na rua Courbec, 27.

IOO Etei- H i l l e s u r Diário 1941-194; IOI


estávamos nós deitados no meio da urze, boca a boca, eu a meter-lhe Não tenho ainda uma melodia básica. Não há ainda uma cor-
a língua na boca, nem sei bem por quanto tempo. Um beijo desses rente subterrânea constante, a fonte espiritual que me alimenta fica re-
não é simplesmente físico, para além da boca desajeitada de alguém, petidamente assoreada, e além disso penso de mais. As minhas ideias
tenta-se absorver-lhe toda a alma. E depois ele comentou: «E você cha- continuam a parecer-se com roupas demasiado largas penduradas à
ma não diabólico a isto?» volta do meu corpo, que ainda deve crescer, mas as roupas permane-
Mas que significado tem esse beijo na nossa relação? Ele flutua ins- cem demasiado largas. O meu espírito corre atrás da minha intuição,
tantaneamente no ar. Faz com que deseje o homem inteiro, e no en- e naturalmente ainda bem que assim é. Mas por isso mesmo, o meu
tanto eu não quero o homem inteiro. Não o amo absolutamente nada espírito ou senso, ou como lhe queiram chamar, é obrigado a fazer um
como homem, é isso que é estranho, ou será a maldita vontade de afir- esforço terrível para poder agarrar as minhas variadas percepções pelo
mação em querer possuir alguém? Querer possuir fisicamente, embora toutiço. Toda a espécie de ideias vagas bradam de vez em quando por
o possua espiritualmente, o que é muitíssimo mais importante? Será a uma formulação concreta, mas talvez ainda não estejam suficiente-
malvada tradição doentia que faz com que duas pessoas de sexos dife- mente amadurecidas para tal. Preciso de continuar a ouvir-me a mim
rentes quando contactam intimamente uma com a outra sejam levadas mesma, «pôr-me à escuta interiormente» e comer e dormir bem para
a pensar, a dado momento, que também devem ser íntimas fisicamen- manter o equilíbrio, senão torna-se tudo à Ia Dostoiévski, só que nos
te? Isso existe de uma maneira muito forte em mim. Procuro sempre de tempos que correm a ênfase situa-se noutro ponto.
imediato num homem as probabilidades sexuais em relação a mim.
Creio que é um mau hábito que é necessário erradicar. Talvez ele já te-
nha ultrapassado esse estádio, se bem que ainda assim ele precise de lu- Sexta-feira de manhã [8 de Agosto de 1941],
tar contra os seus impulsos eróticos em relação a mim. Somos um às dez e um quarto.
desafio mútuo, as vezes parece tão idiota, como se nos tornássemos a
vida propositadamente difícil, quando tudo poderia ser tão simples. Ainda não há nenhuma carta do S., o bandido. Gostava de o ver lá em
Daqui a nada, ainda acabam os melões. Sinto-me mal por dentro; Wageningen naquela casa desorganizada com as muitas filhas devotas".
tenho uma mordaça cá dentro, fisicamente neste momento sinto-me Quando desci as escadas, as primeiras palavras da mãe foram:
igualmente horrível. Mas não te deixes enganar minha linda, não é o teu «Sinto-me tão mal.» E tão esquisito: se o pai solta o menor suspiro, o
corpo, é a tua alma, a tua pequena alma atormentada que deambula meu coração quase se quebra, por assim dizer, e se a mãe diz com mui-
desta maneira. topaíhos: «Sinto-me tão mal, não preguei olho esta noite, etc.», isso não
Mais tarde hei-de voltar a escrever: «Como a vida é bela e como me atinge intimamente.
estou feliz», agora porém não consigo mesmo nada imaginar como irei
sentir-me nesse momento. " A família Bongers tinha seis filhas, entre as quais Gera, que tinha laços de amizade tom Spier.

102 Ettv Hillesum Diário IO3


Quando me levantava tarde antigamente, ficava completamente Aqui, uma pessoa tropeça nos problemas irresolvidos de mudanças sú-
desanimada e pensava: «Ora bem, o dia já está perdido, não vou mas é bitas de disposição, é uma situação caótica e triste que se reflecte no caos
fazer nada.» Agora dá-me também uma sensação incómoda, é como se exterior da lida da casa. E a mãe que ainda por cima acha que é uma
houvesse algo que não é possível recuperar. Psicologicamente era capaz dona de casa perfeita. Mas ela dá cabo de toda a gente com a eterna
de escrever uma dissertação inteira sobre isto, mas tenciono não voltar lida da casa. Aqui, a cabeça torna-se-me cada vez mais pesada. Enfim,
a escrever sobre coisas «difíceis», só o farei quando se tiverem tornado paciência. A vida aqui em casa é destruída por ninharias. Dão cabo de
fáceis. Não tenho a mínima ideia do que irei fazer hoje. Não consigo uma pessoa por ninharias e não se ohega a resolver as coisas mais im-
trabalhar nesta casa, não tenho o meu próprio cantinho e não me portantes. Acabei de escrever à Gera" que eu degeneraria numa melan-
consigo adaptar. Enfim, vou deixar as coisas correr e tentar encontrar cólica profissional se passasse cá muito tempo. E também impossível
o máximo de descanso possível. fazer aqui alguma coisa, ajudar ou intervir. E tudo tão desequilibrado.
Na outra noite, quando fiz o relatório completo sobre S. e o seu traba-
«Gralha, estafermo, deixa de te lamentar dessa maneira, pois, pois, lho, eles reagiram muito bem, entusiasmados, cheios de fantasia e de
paira praí à vontade.» Estas são as minhas reacções interiores quando humor. Depois fui para a cama com uma sensação agradável e pensei:
a minha mãe fala comigo. A mãe é uma pessoa que sabe exasperar os «Que pessoas simpáticas, na realidade.» Mas na manhã seguinte era
outros até à medula. Tento vê-la objectivamente e também amá-la um tudo cepticismo e piadas sem graça, é como se não tivessem confiança
pouco, mas de súbito digo para mim mesma do fundo do coração: no próprio entusiasmo da noite anterior. E assim uma pessoa continua
«Que pessoa mais ridícula e doida que tu és.» E tão errado da minha aos tropeções. Bem, Etty, faz um esforço para te endireitares, isto é:
parte, eu aqui não vivo, deixo-me viver. Adio a vida até me pôr de apruma-te. Naturalmente que a dor de barriga também não me torna
novo a milhas daqui. Antigamente ficava sempre derreada nesta casa mais encantadora. Acho que esta tarde vou dormir um bocadinho, e
de doidos, hoje em dia mantenho as coisas à distância cá por dentro e depois estudar mais do Dr. Pfister na biblioteca. Devo mas é estar
tento safar-me sem muitos danos. Mas aqui sinto falta da energia para grata pelo tempo que tenho para mim, e nesse caso devo utilizá-lo,
trabalhar com desembaraço, é como se te aspirassem toda a energia. raios, minha grande lorpa.
Neste momento são onze horas, e a única coisa que fiz foi matar o E agora acabou-se este garatujar insignificante.
tempo neste parapeito frio em frente à mesa desarrumada do pe-
queno-almoço e ouvit as queixas patéticas da mãe acerca dos talões de
racionamento da manteiga e da saúde dela, etc. E no entanto ela não é
uma mulher sem importância. E sempre esta a tragédia aqui em casa.
Existe aqui um capital em talentos e valores humanos, tanto no pai
como na mãe, mas desperdiçados, ou pelo menos não bem utilizados. Gera Bongers.

Etty Hillísurn Diário 1941-1943 105


As onze da noite.
rogações as despertadas pela carra dele, que se me afigurou muito
fecunda.
Começo a acreditar que esta se está a tornar verdadeiramente uma
Estar aberta a outras pessoas. A amizade também deve ser cultivada.
amizade significativa. A palavra amizade em toda a acepção do seu sig-
nificado. Sinto-me muito séria por dentro. E não é uma seriedade pai-
Aqui em casa, uma mistura extraordinária de barbarismo e alta
rando acima da realidade e que mais tarde me irá parecer novamente cultura.
artificial e exagerada. Pelo menos creio que não. Quando a carta dele
O capital espiritual existe aqui à mão de semear, mas está sem
chegou esta tarde as 6 horas — tinha acabado de chegar de Gorssel en-
dono e sem guarda, deixado em desleixo ao desbarato, E deprimente.
sopada até aos ossos — não tive qualquer contacto interior com ela.
E tragicómico, não sei que tipo de casa é esta, mas aqui uma pessoa
Estava exausta, tanto física como psiquicamente, e na realidade não não progride.
sabia lá muito bem o que fazer com a carta. E em seguida rebolei em
Estas coisas do dia-a-dia, sou incapaz de as anotar Não é absolu-
cima da cama e estudei de perto outra vez a caligrafia conhecida, e nes- tamente nada isso que me interessa.
sa altura experimentei um intenso sentimento e um vínculo grande
em relação a esta pessoa. E senti então como ele irá ser importante
para o resto do meu desenvolvimento espiritual, desde que continue a Quarta-feira à tarde [13 de Agosto de 1941].
«interrogar-me» de modo sério e honesto sobre o que a ele e a mim res-
peita e sobre os muitos problemas que me hão-de surgir constante-
Uma objectividade insensível e fria é algo que naturalmente nunca
mente, desta ligação.
atingirei com a minha predisposição. Para isso existe demasiada força in-
Carregada de significado.
terior. Mas também já não me deixo abater como antigamente, devido
Tenho igualmente de me atrever a viver a vida com «opeso dos signi-
a toda essa força interior. O Daan* saltou de um avião para a morte e há
ficado?» com que ela pede para ser vivida, e isto sem que eu surja, a meus
tantos desses jovens, cheios de vida e de promessas, a morrer a cada mo-
próprios olhos, como estando a ser importante, sentimental ou artificial.
mento do dia e da noite. Não sei como lidar com isto. Por causa de todo
E não o devo ver como objectivo, mas como meio de me desen-
este sofrimento à minha volta, uma pessoa começa a envergonhar-se de
volver e amadurecer. Não devo querer possuí-lo. E verdade que a mu-
se levar, a si e a todos os seus estados de alma, tão a sério. Porém, uma
lher procura a concretização do corpo e não a abstracção do espírito.
pessoa tem de continuar a levar-se a sério, tem de permanecer ela pró-
O centro de gravidade da mulher reside no tal homem, o centro da
pria o centro e aprender a conviver com tudo o que se passa neste mun-
gravidade do homem reside no mundo. Será que a mulher consegue
do, não deve fechar os olhos a coisa alguma, deve «entender-se» com esta
deslocar o seu centro de gravidade, sem se violentar, sem exercer vio-
lência sobre o seu ser, digamos assim? Foram esta e muiras outras inter- * Daan Sajet.

106 Etty H i i l e s u m
Dia no 1941-1943 I07
í
época terrível e tentar encontrar resposta à quantidade de questões de abater pelo que a rodeia devido a um sentimento de culpa. As coisas
vída e de rnorte que ela nos coloca. E talvez então encontre uma resposta devem tornar-se inteligíveis interiormente, a pessoa não deve deixar-se
a algumas destas questões, não apenas para si própria, rnas também para absorver por elas.
os outros. A realidade é que vivo agora. Tenho de encarar tudo. E tam- E um poema do Rilke é tão real e importante como um jovem que
bém não devo fugir de mim mesma. Às vezes sinto-me como se fosse se atira de um avião, quero deixar-te isso bem assente. Tudo isto existe
uma estaca no mar enfurecido, fustigada por ondas de todos os lados. por sua vez neste mundo e não devemos negar uma coisa em detri-
Mantenho-ms contudo firme e, em consequência, fico desgastada pelos mento da outra. E agora vai dormir.
anos. Quero continuar a viver em pleno. Devem aceitar-se as muitas incoerências. Bem querias fundir
Quero tornar-me a cronista de muitas coisas destes tempos actuais tudo e formar uma unidade para de um ou outro modo simplificar as
(lá em baixo é um pandemónio, o pai berra: «então vai» e bate com as coisas no céu espírito, porque assim a vida tornar-se-ia mais fácil para
ti, mas a realidade é que a vida consiste em incoerências e estas preci-
portas; também isso deve ser ultrapassado, e agora eu choro — berro de
sam de s,er aceites como fazendo parte dela, e uma pessoa não deve evi-
repente, portanto ainda não sou tão objectiva como isso, na realidade não
denciar um aspecto em detrimento do outro. Deixa que as coisas se
se consegue viver nesra casa, enfim, deixa andar outra vez). Ah, pois, a
componham por si, pode ser que apesar de tudo venham a formar
cronista, tinha ficado aí. Eu observo em mim mesma que, a par de todo
uma unidade. Já te tinha dito para ires dormir, em vez de estares a es-
esse sofrimento subjectivo, desenvolvo sempre, por assim dizer, uma cu-
crever coisas que ainda não sabes formular totalmente.
riosidade objectiva, um intenso interesse por tudo o que tem a ver com
este mundo e os seres que o povoam e tudo o que me toca interior-
mente. Às vezes acredito ter uma tarefa. Tudo aquilo que me rodeia deve
Sexta-feira [15 de Agosto de 1941], às onze horas da noite.
ser pensado até atingir o entendimento e ser mais tarde escrito por mim.
Pobre cabeça, pobre coração, como vocês ainda hão-de ter muito a supe- Ora bem, e agora temos um momento de sossego, de acalmía.
rar! Rica cabeça, rico coração, mesmo assim vocês têm uma bela vida. Neste momento escuso de pensar ou fazer alguma coisa. Claro que
Deixei de chorar. Mas a minha cabeça encontra-se de novo extrema- também pode ser devido às quatro aspirinas.
mente tensa. Isto aqui é um inferno. Para o descrever, teria de ser muito Tirado de um diálogo entre mim e o pai num passeio ao longo do
apta a passar as coisas para o papel. Em todo o caso, sou originária deste canal Singel:
caos e tenho como tarefa elevar-me a um nível um pouco mais alto. O S. Eu: «Tenho pena de cada mulher que tenha uma ligação com o
chama a isso «trabalhar um metal precioso», o querido. Mischa".»
Às vezes, uma pessoa é tão distraída pelos acontecimentos em seu Pai: «O rapaz tem uma grande rodagem, que é que queres?»
redor que mais tarde é com dificuldade que reencontra o caminho
para si. E tal é necessário, apesar de tudo. Uma pessoa não deve deixar-se " Mischa é um irmão de Etty.

108 Ecty Hillcsum Diirio 19.11-1943


23 de Agosto de 1941. Sábado à noite, à escrivaninha. na mitologia: um deus que se movimenta envolto numa nu-
vem. Essa era uma nuvem constituída pelos meus próprios pensamentos
Vou ter de registar os meus estados de alma com maior exactidão, e sentimentos, que me envolvia e acompanhava, e eu sentia-me imensa-
isto está outra vez a dar para o torto. E que uma insignificante constipa- mente quente e isolada e protegida nessa nuvem. E agora estou com
ção de repente volte a tingir de negro a minha filosofia de vida, tam- uma cara de constipada e não há senão sentimentos de descontenta-
bém é exagero a mais. Como é que realmente se passou? Quinta-feira mento e mal-estar e rejeição em mim. O que é incompreensível é a re-
à noite, no comboio de Arnhem para cá, estava tão bem. Do outro jeição que sinto pelas pessoas que normalmente amo muito. Uma
lado das janelas do compartimento, a noite crescia silenciosa, ampla e atitude negativa contra tudo, destruição, crítica, etc. Mesmo muito es-
majestosa. E no interior do comboio apertado, havia os muitos traba- tranho, que tudo isso possa ser provocado por um nariz entupido.
lhadores, irrequietos, mexidos, cheios de vida. Eu, sentada no meu Nem parece meu, essa rejeição dos outros. Quando me sinto mal des-
cantinho sombrio, olhava com o olho direito para a natureza grande e ta maneira, devia efectivamente parar a máquina dos pensamentos,
silenciosa, e, com o olho esquerdo, via os rostos expressivos e os gestos mas geralmente, pelo contrário, ela começa a fazer horas extra e deita
coloridos das pessoas. E achei tudo bom, a vida e as pessoas. Em se- abaixo tudo aquilo que há para deitar. Em todo o caso, é mais inteli-
guida, a longa caminhada a partir da estação do Amstel pela cidade gente ir agora para a cama, sinto-me realmente um pouco doente.
quase às escuras, como num feitiço. E foi durante essa caminhada que Se os teus actos forem diferentes dos teus pensamentos, então tal-
subitamente me acometeu a sensação de que não estava sozinha, mas vez entre tudo na ordem. O Hans" devia regressar esta noite e essa ideia
que «éramos duas». Sentia-me como se fosse duas, duas pessoas inti- estava a complicar-me o sistema nervoso. Assim que começo a sentir
mamente encostadas uma à outra, que por essa razão escavam quentes rejeição pelas pessoas, ele é um dos directamente atingidos, sobretudo
e bem-dispostas. Um contacto muíto intenso comigo mesma, e daí o por fazer parte do meu círculo íntimo. Portanto, estava apreensiva
grande ardor dentro de mim. Um completo bastar-me a mim própria. com a sua vinda, imaginei que o consideraria um rapaz chatíssimo,
Também tive uma conversa enorme comigo mesma, e assim alegre- lento, que leva as coisas demasiado a peito. E foi então que ele regres-
mente caminhei em passos miudinhos por todas as avenidas do Amstel, sou, fresco e robusto, daquele campo de vela, e eu noto de repente que
completamente imergida em mim. Constatei pois, com um certo pra- estou animada e a conversar amenamente com ele, que tenho prazer e
zer, que faço boa companhia a mim mesma e que me dou muito bern interesse pela cara queimada de fiéis olhos azuis, ainda ligeiramente
comigo. E no dia seguinte permaneceu essa sensação de existir de duas vagos, que me levanto de um pulo, vou fazer sopa para ele, converso
pessoas, tão intimamente juntas, pelo que têm essa agradável sensação com ele animadamente, e que realmente gosto dele, assim como real-
de calor. E quando ontem à tarde fui à procura do queijo para o S. e ca- mente gosto de cada criatura de Deus. Não acredito que houvesse algo
minhava por aquela linda parte sul de Amesterdão, sentia-me como se
fosse uma velha deusa envolta numa nuvem. Pelo menos assim estará " HÍHS Wegerit!

no Ettv HiUesum Diário 1941-194} m


forçado no meu comportamento, antes penso que a minha Irritação sim. Bem, rui então sentar-me no chão, no canto mais afastado do
interior é forçada. Francamente não faz parte da minha personali- meu quarto, entalada entre duas paredes, a um canto, a cabeça pro-
dade. Tenho portanto de a conter mais. O que quer dizer que se não fundamente curvada. Pois, e assim fiquei, sentada. Muito silenciosa.
consigo mais trabalhar ou ler, mais vale ir dormir. Como se estivesse a fixar o umbigo, em religiosa espera de que novas
forças quisessem brotar dentro de mim. O meu coração estava outra
vez comprimido, nada fluía lá dentro, todos os canais de irrigação es-
26 de Agosto [de 1941], tçrça-feira à tarde. tavam assoreados e o cérebro apertado por um pesado parafuso. E
quando estou assim encolhida, fico à espera até que algo se derreta e
Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. corra em mim.
Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver Na realidade, sobrecarreguei-me emocional mente por ter lido todas
pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso as cartas da «namorada». Tinha-me sempre defendido dela enterrando
desenterrá-lo. a cabeça na areia, não obstante ela agora tornou-se presente. E por cau-
Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao sa das cartas, toda uma outra crise, e, assim, vamos continuando nisto.
céu. Esses procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam Queria ser muito simples como a lua esta noite, por exemplo, ou como
profundamente a cabeça e a escondem nas mãos, penso que essas pro- um relvado. Claro que mesmo assim me atribuo importância a mais.
curam Deus dentro de si. Fantasio que, num dia como o de hoje, ninguém sofre tanto como eu.
Tal corno quando uma pessoa sente dores no corpo inteiro e não aguen-
ta que lhe toquem com um só dedo, o mesmo se passa com a minha
4 de Setembro [de 1941] dez e meia de quinta-feiia à noite. alma ou como lhe queiram chamar. A mais pequena impressão causa
dor. «Alma sem epiderme», ou algo nesse sentido, escreveu uma vez a se-
A vida consiste em histórias que querem ser contadas por mim. nhora Romein acerca de Carry van Bruggen, creio. Gostava de viajar
Ah, que parvoíce! Francamente, não sei. Sinto-me outra vez infeliz. para muito longe. E todos os dias ver outras pessoas que nesse caso
Consigo imaginar muito bem que haja pessoas que se metem na be- não deviam ter nomes. As vezes é como se as pessoas, com as quais te-
bida, ou vão para a cama com o primeiro que encontram. Mas esse nho laços muito fortes me tapassem a vista. A vista de quê, sincera-
não é realmente o caminho que devo seguir. Preciso de o percorrer só- mente? Etty, és uma pequena malandra e muito falha de consciência.
bria e com a cabeça clara. E sozinha. Foi bom que aquele bandido não Provavelmente és bem capaz de fazer uma pós-anáíise a ti mesma, des-
estivesse em casa esta noite. Senão tinha mais uma vez ido ter com ele cobrir de onde vem a disposição pesada e infeliz, acompanhada de for-
a correr. Socorro, estou tão infeliz. Rebento. E exijo eu aos outros que tes dores de cabeça. Mas, oh, francamente não tenho vontade, sou
resolvam sozinhos os seus problemas. Quero ouvir-me por dentro. Sim, demasiado preguiçosa para isso. Senhor, torna-me mais submissa.

112 Ettv Hiílesui Diário I94I-C94} 113


Ajo com demasiada intensidade? Quero conhecer este século por muito, e, ao mesmo tempo, tento escondê-lo. Será que isso também
dentro e por fora. Tacteío este século, cada dia de novo; tacteio com as tem a ver com a oposição que eu tantas vezes sinto contra ele?
pontas dos dedos os contornos desta época. Ou é só uma ficção?
E de resto arremesso-me continuamente para a realidade. Con-
fronto-me com tudo o que me aparece pela frente. As vezes, isso dá-me Sexta-feira de manhã [5 de Setembro de 1941], 9 horas.
uma sensação tão sangrenta. E como se eu fosse de encontro a tudo com
violência, e isso causa mossas e arranhões. Porém, imagino que é assim Sinto-me tal e qual como alguém recuperando de uma doença
que tem de ser. Tenho por vezes a sensação de que estou num caldeirão. grave. Ainda com a cabeça leve e mal se tendo nas pernas. Ontem foi
Ou num qualquer purgatório e que me forjam noutra coisa. Que coi- realmente péssimo. Creio que não vivo de modo suficientemente sim-
sa? Outra vez algo passivo, que tenho de deixar que me aconteça. Mas ples por denrro. Que me excedo em «digressões», em bacanais do espí-
há sempre a sensação contínua de que todas as questões deste tempo rito. Também pode ser que me identifique demasiado com tudo aquilo
em particular, e as da humanidade em geral, devem ser solucionadas que leio e estudo. Alguém como Dostoiévski arrasa-me sem eu saber
precisamente na minha cabecinha. Isso é activo. Enfim, o pior já pas- corno. Preciso mesmo de me tornar mais simples. Deixar-me tornar um
sou. Vagueei à volta do Clube de Gelo, como se fosse um bêbedo ator- pouco mais viva. Não querer ver imediatamente resultados na minha
doado. E disse coisas muito idiotas à lua eterna. A lua é bem mais vida. O remédio sei-o agora. E preciso que me encolha a um canto no
velha que o dia de hoje. Este tipo de gente como eu, já ela viu muitas chão, e assim, encolhida, escute o que se passa dentro de mim. A pen-
vezes. Assim como assim, já ela presenciou muitas coisas. Pois bem. Te- sar nunca resolvo o assunto. Pensar é uma bonita e orgulhosa ocupação
nho uma vida difícil pela frente. As vezes nem tenho vontade ne- quando se estuda, mas não é a pensar que uma pessoa consegue «sair»
nhuma nela. Nesses momentos, já sei tudo com avanço, como irá ser, de estados de alma difíceis. Nesse caso, outra coisa tem de acontecer.
e depois fico tão cansada, é que assim já não é preciso que eu viva tudo Então deve ser-se passivo e escutar. Estabelecer outra vez contacto
na realidade. Porém, a vida é sempre mais forte em mim. E então com um bocadinho de eternidade.
acho tudo novamente «interessante» e tal, e excitante, e torno-me ou- Seres realmente mais simples e menos exagerada, no teu trabalho
tra vez combativa e cheia de ideias. Uma pessoa deve «fazer intervalos também. Quando estou a fazer uma tradução simples do russo, toda
onde quiser». Mas eu estou mesmo em cheio no meio dos «intervalos»•, a Rússia está presenre em pano de fundo no meu espírito, e penso
assim me parece. E agora boa noite. igualmente que eu devia pelo menos escrever um livro como Os irmãos
Karamazov. Por um lado, creio, exijo muito a mim própria, e em mo-
Isto ocorre-me de repente. Pode ser que «me dê demasiada impor- mentos de verdadeira inspiração acho-me capaz de grandes coisas; mas
tância», mas também que eu queira que os outros me dêem muita «im- a inspiração não dura eternamente e nos momentos mais triviais surge-
portância». O S., por exemplo. Eu quero que ele saiba que sofro -me então o medo repentino de que nunca conseguirei executar algo

H4 • Euy Hiikium Diário l94[-içi4f * )


daquilo que sinto em mim, nos meus momentos de «grandeza». Mas Terça-feira de manhã, 9 de Setembro [de 19411.
porque tenho eu de executar alguma coisa? Só tenho de «ser» e viver e
tentar ser uma pessoa. Não se pode controlar tudo com a inteligência, Para muitas mulheres ele é o motor. A Hennie* chama-lhe numa das
é preciso deixar as fontes do sentimento e da intuição brotarem um cartas: «O meu Mercedes, o meu grande, bom, querido Mercedes.» Por
pouco. O conhecimento é poder, bem sei, e talvez seja também por isso cima dele mora «apequena»". Ele diz que, quando ela luta com ele, é
que colecciono conhecimento, motivada por uma espécie de necessi- como se fosse uma gata grande e cuidadosa, com medo de magoar al-
dade de afirmação. Francamente não sei. Mas, Senhor, dá-me antes sa- guém. Na sexta-feira à noite ele telefonou à Riet*", a voz dele simples-
bedoria em vez de conhecimento. Ou melhor, só o conhecimento que mente cantava através do telefone ao falar com aquela miúda de 15 anos:
conduz à sabedoria faz a pessoa, pelo menos no que me diz respeito, «Sim, Riiiiet.» E entretanto ele fazia-me festas na cara com a mão direita,
feliz; e não o conhecimento que é poder. Algum sossego, muita bran- e em cima da mesinha encontrava-se a carta da rapariga com quem ele
dura e alguma sabedoria, se sinto isso, então a vida corre-me bem. Por quer casar mais tarde, e as palavras«Tu meu querido Jul» estavam voltadas
isso achei tão estranho que a distinta escultora Fri Heil tenha dito ao S. para cima, eu era obrigada a olhar para elas constantemente.
que me achava mesmo uma tártara e que só me faltava um cavalo sel-
vagem com que cavalgasse pela estepe para tornar a imagem com- Ando tão triste, tão extremamente triste nos últimos dias. Porquê
pleta. Uma pessoa não sabe muito acerca de si mesma. na realidade? Não triste durante um período inteiro, consigo vir sem-
A Hertha" escreveu numa das cartas ao S.: «Ontempousaste a mão pre ao de cima de cada vez, mas volto a cair continuamente numa
em cima de mim.» A realidade para mim não é verdadeiramente real e grande tristeza.
por isso não consigo passar às acções, uma vez que não entendo o peso Nunca conheci ninguém que possua tanto amor, força e inabalá-
e o alcance delas. Uma só linha de Rilke é para mim algo mais real do vel autoconfiança como S. Ele disse mais ou menos isto na tal sexta-
que uma mudança de casa, por exemplo, ou algo assim. Devo mas é con- -feira à noite: «Se eu dirigisse todo o meu amor e energia a uma única
tinuar o resto da vida sentada à secretária. Porém, também não quero pessoa, então eu arruinava-a (verderben).» E por vezes é essa a sensação
crer que eu seja uma idiota sonhadora. A realidade interessa-me mesmo que eu tenho, de que ele me soterra. Não sei. As vezes tenho a sensação
muitíssimo, mas do outro lado da minha secretária, não para nela vi- de que devia ir para o outro extremo do mundo a fim de me livrar dele,
ver e actuar. A fim de compreender pessoas e ideias é igualmente ne- porém, ao mesmo tempo, apercebo-me de que é com ele que eu tenho
cessário conhecer o mundo real e as razões de fundo, nas quais tudo de lidar, e aqui. E há vezes em que ele não me causa problema nenhum,
vive e rnedra. então corre tudo bem, e há outras, como agora, que tenho a impressão

' Hennie Tídeman, geralmente apelidada de Tide por Etty.


" Dicky de Jonge, membro do «Clube Spier».
Hertha é a namorada de Spier. com quem ele mais tarde se quer casar. '" Riet Bongers, irmã de Gera.

Etty Hillesutn D i á r i o 1941-194; 117


de que ele me põe doente. Mas afinal o que é isto? Um enigma, po- A dor de estômago, a tensão, aquela sensação de aperto por den-
rém, ele não é, e complicado também não. Será que é a enorme quan- tro e aquela impressão de ser esmagada por um grande peso, são certa-
tidade de amor que ele possui e distribui por um infinito número de mente o preço que tenho de pagar de vez em quando pela minha
pessoas e que eu queria ter só para num? Existem realmente alguns voracidade em querer tudo da vida e tudo querer entender. As vezes
momentos em que eu queria que fosse assim. Que eu queria que todo o isso é de mais. No teste de personalidade que Taco Kuiper me fez, vinha
seu amor se contraísse e concentrasse em mim. Mas não seria um pen- que eu era alguém que exige tudo da vida, mas também que tudo su-
samento demasiado físico? E demasiado pessoal? Não sei realmente o pera. E realmente também irei superar isto, os engarrafamentos ínti-
que fazer com este fulano. mos são provavelmente necessários, mas devem ser limitados a um
Deixa-me tentar reter alguma coisa da noite de sexta-feira. Nessa mínimo, senão não consigo continuar a viver bem.
ocasião tive a sensação de que me encontrava no meio do enigma ho- Quando ontem depois do curso voltava de bicicleta para casa, tão
mem, ou melhor dito, no desenigma homem. Nessa noite foi como se indiziveimente triste e carregada por dentro, e ouvi os aviões por cima
ele me tivesse dado a chave para o segredo da sua personalidade. E du- de mim, a percepção repentina de que uma bomba poderia pôr termo
rante uns dias, foi como se eu andasse com ele fechado no meio do à minha vida deu-me uma sensação de liberdade. Isso tem-me aconte-
meu coração e nunca mais o pudesse perder. Porque estou agora tão cido muito nos últimos tempos, parecer-me mais fácil deixar de viver
indiziveimente triste? E não será verdade que não tenho absolutamente do que continuar a fazê-lo.
mais contacto nenhum com ele e que desejava tê-lo perdido? Neste
momento é como se ele fosse demasiado para mim. Como é que foi
mesmo naquela sexta-feira à noite? Quinta-feira [25 de Setembro de 1941], 9 horas.
Quando ele está assim sentado naquela cadeirinha à minha fren-
te, volumoso, meigo, com uma espécie de sensualidade opulenta a Sim, nós mulheres, nós tontas, idiotas mulheres sem lógica, pro-
curamos o Paraíso e o Absoluto. E no entanto o meu cérebro diz-me,
cobri-lo, contudo exalando simultaneamente uma enorme bondade
o meu excelente, funcional cérebro, que não existe nada absoluto, que
humana, sou por vezes obrigada a pensar num imperador romano, na
tudo é relativo e infinitamente cheio de nuances e em eterno movimento
sua intimidade. Porquê, não sei. Há então algo voluptuoso sobre a in-
e, exactamente por isso, tão interessante e encantador, mas também tão
teira figura, mas ao mesmo tempo há também um calor e uma bon-
doloroso. Nós mulheres queremos eternizar-nos no homem. Acontece
dade infinitas que são de mais para uma só pessoa, e se estendem por
do seguinte modo: quero que ele me diga: «Querida, és a única de to-
um espaço enorme. Porque sou levada então a pensar num romano do
das e amar-te-ei eternamente.» Isto é ficção. E enquanto ele não disser
período da decadência? Palavra de honra que não sei.
estas palavras, tudo o resto não importa, o resto escapa à minha atenção.
E é isso que é esquisito: não o quero de maneira alguma, nunca haveria

118 Etiy D i á r i o 1541-1943 119


de ser o único e de eu o querer eternamente, contudo exijo isso ao ou- braços um do outro, primeiro conversámos intensamente acerca da-
tro. Será pois por isso que eu, exactamente por não ser capaz de amar quele terrivelmente interessante e dividido assunto da parte da tarde.
em absoluto, faço essa exigência a um outro? E que consequente mente £ nesses momentos bebo-lhe as palavras, de cada vez acho edificante a
desejo sempre uma mesma intensidade da parte do outro, sabendo eu sua maneira neutra e clara de formular as coisas, tenho a sensação de
porém, sabendo por mim mesma, que tal não existe? Mas assim que aprender imenso com isso, e sinceramente esse contacto espiritual sa-
noto no outro uma diminuição temporária, ponho-me em fuga, natu- tisfaz-me muito mais do que o físico. Talvez eu tenha inclinação para
ralmente que isso surge acompanhado por um sentimento de inferio- sobrevalorizar a parte física, em parte também devido a uma ou outra
ridade, do género: já que não o consigo fazer interessar-se por mim, já ficção de que isso é tão feminino.
que ele não me deseja com um ardor constante, então népia. E é tão Pois, verdadeiramente esquisito. Agora mesmo a sensação que tenho
estupidamente ilógico, tenho de extirpar isso de dentro de mim. A ver- é de que gostaria de me aninhar nos seus braços e ser só uma mulher,
dade é que eu não saberia o que fazer se alguém incessantemente me ou menos do que isso ainda, somente um pedaço de carne acarinhado.
desejasse com todo o ardor. Isso ser-me-ia penoso e aborrecer-me-ia, e Sobrevalorizo demasiado o sensual. Sobretudo porque de cada vez é
iria fazer-me sentir privada de liberdade. O Etty, Etty. somente uma questão de dias, esse aparecimento da sensualidade. Po-
Ontem à noite, disse ele, entre outras coisas: «Tenho a impressão rém, é meu desejo projectar então esse pouco de sensualidade numa vida
de ser um "estado preparatório" para um grande amor teu. E muito es- inteira, dominando assim o resto. E quero que ela seja consagrada por
tranho, já fui um "estado preparatório" para muita gente.» E embora máximas deste género: «Es a única, eternajnente.» Estou em crer que
seja verdade, provoca-me por um lado uma dor intensa e não rne con- escrevo isto de modo pouco claro, mas o ponto principal é eu libertar-me
formo com essas palavras. Acho que compreendo porquê. Para ser de várias coisas. E exactamente por isso que eu sobrevalorizo a sensua-
franca, acho que ele devia ficar louco de ciúme só de pensar que um lidade: porque quero que o pouco de calor humano que duas pessoas
dia há-de haver um grande amor na minha vida. Aí está mais uma vez procuram de vez em quando seja elevado bem acima do seu signifi-
a exigência do absoluto. Ele tem de me amar única e eternamente. O cado comum expresso através de fórmulas poderosas, do tipo «Amo-te
conceito «estadopreparatório» relativiza tudo. E contudo esses «única» para todo o sempre.» Não há outra coisa a fazer senão deixar as coisas
e «eternamente» são uma espécie de ideia fixa. Nos últimos dias, ando ser como elas são, e não querer elevá-las a níveis impossíveis, e quando
muito lasciva. Anteontem à noite tive outra vez uma obsessão com a deixamos que elas sejam o que realmente são, é então que elas revelam
boca e as mãos dele, e tudo o resto deixou de ter importância. E ontem o seu valor intrínseco. Quando se toma como ponto de partida algo
à noite, isso voltou outra vez em força. E quando ontem à noite ele me absoluto, que realmente não existe e uma pessoa não deseja, não se
telefonou às nove horas: «Ainda lhe apetece vir cá?», fui pois, com ale- consegue viver a vida nas suas proporções reais.
gria e sensualidade e entrega. Mas, estás tu a querer convencer-te, mi-
nha linda, que é só sensualidade? Não caímos propriamente logo nos

Ettv Hillesum Diário Í941-I94) 121


Às 11 horas da noite. russo, e preciso mesmo de telefonar uma vez à Aleida Schot". E antes
de tudo, acordar bem dormida. Boa noite. A vida vale tanto a pena ser
Na realidade um dia assim é muito longo, acontecem muitas coisas. vivida. Deus, meu Deus, afinal sempre andas um bocadinho perto de
Estou tão incrivelmente contente neste momento, sentada a esta secre- mim.
tária. A minha cabeça apoia-se com todo o peso na mão esquerda, há uma
calma muito salutar em mim, sinto-me tão concentrada. A quirologia no
quarto daTide foi muito engraçada. Antigamente acharia isso horrível, Sábado [4 de Outubro de 1941], à noite.
um desses grupos de mulheres. E afinal foi extremamente agradável,
enérgico, refrescante, com pêras da Wiep" e bolos da Gera, e psicologia Suares12 sobre Stendhal: «Ele tem fortes ataques de tristeza, mos-
profunda da minha parte. E, depois da sessão terminar, aTide, incansá- tra-os aos amigos, esconde-os nos seus livros. O espírito é nele a más-
vel, a pé desde as cinco da manhã, ainda falou acerca do trabalho dela. cara das paixões. Ele escreve bon-mots, para que com isso o deixem em
Não consigo escrever nada de substancial neste instante, há con- paz com os seus grandes sentimentos.»
versas a mais nesta sala, o Hans, o Bernard e o pai Hans estão a resol-
ver um puzzle. Antigamente não conseguia estar assim sentada, sem É esse o teu mal: queres capturar a vida em fórmulas criadas por ti.
mais nem menos, num cantinho a escrever ou a ler ou a fazer outra Queres apreender todos os fenómenos desta vida com o espírito, em
coisa qualquer, se houvesse mais pessoas na sala, isso irritar-me-ia de vez de te deixares, tu mesma, apreender pela vida. Como é que era? «Pôr
mais; e agora estou tão concentrada em mim que os outros quase não a cabeça no ar é possível, mas pôr o ar na cabeça já não é.» Vez após vez
me incomodam, acho que seria assim até mesmo se eu estivesse num queres criar o mundo de novo, em lugar de o desfrutares como ele é.
comício de massas. Se eu fosse uma «linda menina», ia directamente Há qualquer coisa de prepotente nesta atitude.
para a cama, a cama imaculada no quarto pequeno, mas a vontade de
convívio e também um hábito, um hábito simpático, fazem com que eu
permaneça neste leito, o «largo refúgio do amor», como uma vez pate- 6 de Outubro [de 1941], às 9 horas da manhã
ticamente lhe chamei. Pois é. Além do mais tomei três aspirinas, talvez de segunda-feira.
por isso esteja tão agradavelmente mole. Amanhã tenho outra vez um
programa cheio pela frente. O infeliz esquizofrénico em evolução, Uma frase foi enunciada a meio do dia e ficou o dia inteiro sus-
com a «fantástica Imagem ao Pai», há-de ocupar-me e bem, mais uma pensa no ar. Eu perguntei à Henny: «Tide, nunca quiseste mesmo ca-
vez; em seguida, acabar o resto da carta para o S.; depois, preparar o
' Aieida Schot era uma eminente esiavisia.
* Wiep Poelscra, amiga de Han Wegerif. '- André Suares. Escritor ["rances de origem judaica. Escreveu várias biografias. (A. da T]

122 Hillesuin Diário 1941-194}


sar?» e ela em seguida respondeu: «Deus nunca me enviou um ho- lidade, esse amar uma só pessoa. Também não irei conseguir ser fiel a
mem.» Se eu trasladasse esta frase aplicando-a a mim própria, deveria um só homem. Não por causa de outros homens, mas porque eu própria
soar então: Enquanto eu viver de acordo com as minhas próprias fon- consisto em muitas pessoas. Tenho agora 27 anos e para mim é como
tes originais, provavelmente o melhor a fazer será não casar. Em todo se já tivesse amado ou sido amada suficientemente. Sinto-me já mui-
o caso, não me preocupar com isso. Se escutar com seriedade a minha to velha. Não há-de ser por acaso que o homem com quem vivo ma-
voz interior, a dado momento fico a saber se um homem me foi «en- ritalmente há cinco anos tenha uma tal idade que torna qualquer
viacjp por Deus» ou não. Mas não devo andar a cismar nisso. Ou transi- futuro em comum impossível, e que o meu melhor amigo queira casar
gir, ou casar-me devido a toda a espécie de teorias deturpadas. E ter mais tarde com uma jovem moça em Londres. Não acredito que vá ser
um pouco mais de confiança, saber que devo seguir um determinado esse o meu caminho: um só homem, um só amor. Mas tenho real-
caminho, e por enquanto não pensar «será que então mais tarde não mente uma forte tendência erótica e muita necessidade de carícias e
ficarei demasiado solitária se não arranjar marido agora? Serei capaz de meiguice. E elas sempre me rodearam. Noto que contudo não o con-
ganhar o meu próprio sustento? Não irei ser uma velha solteirona? O que siso
O
escrever tão claramente como o sentia esta noite e esta manhã.
irão dizer os outros? Irão ter pena de mim por ainda não ter marido?» «Deus nunca me enviou um homem.» A minha intuição íntima
nunca me deixou dizer sim a um homem para toda a vida, e essa voz
Ontem à noite na cama, perguntei ao Han: «Achas que alguém interior deve ser o meu único fio condutor, em tudo, especialmente
como eu devia casar? Sou uma mulher a sério?» A sexualidade não é real- nestes casos. O que quero dizer é que deve aparecer uma espécie de sos-
mente assim tão importante para mim, embora por vezes cause aos sego em mim, uma segurança, e o estar segura de seguir um caminho
outros a impressão que sim. Não será uma burla dar por fora a impres- próprio, baseado numa voz interior.
são aos homens de me poderem abordar, e depois, não lhes dar, afinal, E não fugir ao casamento por esta razão: vêem-se tão poucos casa-
o que querem? Não sou visceralmente feminina para dizer a verdade, mentos felizes à tua volta. Isso é igualmente motivado por um tipo de
pelo menos não a nível sexual. Não sou mais um animal fêmea, e por oposição, de medo e de falta de confiança; mas não casar por saberes
vezes isso dá-me um sentimento de inferioridade. A parte física origi- que não é esse o teu caminho. E em seguida não te consolares com a
nal, no que me diz respeito, tem vindo a ser quebrada de várias manei- observação sarcástica que se ouve muitas vezes da boca de meninas sol-
ras e atenuada por um processo de espiritualizaçáo. E é como se às vezes teironas: «Mas que lindas coisas que a gente vê à nossa volta, em maté-
me envergonhasse desse processo. O que em mini continua original são ria de casamentos.»
os sentimentos humanos, existe em mim uma espécie de amor e com- Eu cá acredito em casamentos felizes e talvez eu mesma seja capaz
paixão originais pelas pessoas, por todas as pessoas. Não acredito que eu de um, mas deka crescer como cresce, não tenhas teorias acerca disso,
seja adequada para um só homem, e nem mais também para o amor de não te interrogues sobre o que realmente será melhor para ti, não racio-
um só homem. E como se às vezes eu achasse um pouco infantil, na rea- cines estas coisas, se «Deus te enviar um homem» está bem assim e, se

12-4 ' Etry Hilkiur D i á r i o I94I-IJ143


não, pelos vistos o teu caminho será um outro. Porém, não fiques pos- de já ter realizado uma porção de coisas. Contudo, isso é o mais impor-
teriormente amargurada e mais tarde não digas nunca: estraguei a mi- tante para mim: a disciplina exterior, enquanto a interior ainda não
nha vida, devia ter feito assim e assado. Nunca deves dizer isto mais está em ordem. Se de manhã durmo por mais uma hora, tal não signi-
tarde, e por isso tens agora de escutar bem a tua fonte primitiva, e ter fica para mim recuperar o sono, significa sim não conseguir aguentar
confiança em ti, e não te deixares confundir sempre por aquilo que as a vida e fazer greve.
pessoas em teu redor dizem e afiançam e gostariam de ver em ti.
E agora ao trabalho. uma melodia única dentro de mim, que às vezes deseja imen-
so ser transposta em palavras próprias. Mas devido à inibição, falta de
confiança, preguiça e sei lá o que mais ainda, permanece abafada em
Segunda-feira de manha, 20 de Outubro [de 1941], às 9 horas. mim e assola-me. As vezes vaza-me completamente, e outras vezes en-
che-me de música suave e nostálgica.
Eles alimentavam-se devagar até se fartarem e aderiam cada vez
com mais firmeza a esta terra firme. Isto em consequência de uma fa- Há alturas em que gostaria de refugiar-me, com tudo o que exis-
tia de pão com tomate e outra com geleia de maçã, e três chávenas de te em mim, em meia dúzia de palavras, procurar um abrigo para aqui-
chá com açúcar verdadeiro. Existe em mim uma tendência para o asce- lo que há em mim, em algumas palavras. Mas ainda não há palavras
tismo, para lutar contra a fome e a sede, contra o frio e o calor. Não sei que me queiram abrigar. Sim, é isso na realidade. Ando à procura de
que tipo de romantismo é esse. Assim que arrefece um pouco, o que abrigo para mim mesma, e a casa onde me acolherei terei de ser eu
eu queria mesmo era enfiar-me na cama e não voltar a sair de ia. mesma a construí-la, terei de ser eu mesma, sangrando, a construí-la
pedra por pedra. E assim toda a gente procura uma casa, um refúgio
Ontem à noite disse ao S. que todos esses livros são perigosíssimos para si. E eu estou sempre à procura de meia dúzia de palavras.
para mim, pelo menos às vezes. Que me punham tão preguiçosa e pas-
siva, e só queria era ler. Das coisas que ele me respondeu, só me lem- Às vezes tenho a sensação de que cada palavra pronunciada e cada
bro de uma palavra: «degenerativo». gesto que é feito aumentam o grande equívoco. Nesses momentos
gostaria de me submeter ao silêncio e também de impô-lo a todos os ou-
As vezes custa-me tanto esforço para estabelecer a fasquia de tra- tros. Sim, sim, cada palavra torna por vezes maior o equívoco neste
balho para o dia: levantar-me, lavar-me, fazer ginástica, calçar meias sem mundo demasiado agitado.
buracos, pôr a mesa, em suma, «orientar-me» no dia-a-dia, que poucas
forças me restam para outras coisas. Então fico, após me ter levantado Faz aquilo que a tua mão acha que deve fazer e não penses dema-
a horas como outro cidadão qualquer, com o sentimento de orgulho siado antecipadamente. Portanto, agora fazemos a cama e levamos as

116 . Ecty Hiliesum Diário 127


chávenas para a cozinha, e depois íogo vemos. A Tide recebe ainda O meu coração é muito bravio, mas nunca para uma só pessoa.
hoje os heliantos, vou ter de ensinar alguns rudimentos de pronúncia Para todas as pessoas. Este coração é também, creio, muito rico. E an-
do russo à adolescente, e quanto ao esquizóide, que ultrapassa alta- tigamente pensava sempre como é que o iria dar a uma só pessoa. Mas
mente o meu nível psicológico, vou ter de resolver o problema. Faz o isto não tem sentido. E quando uma pessoa aos 27 anos atinge estas
que a tua mão e o teu espírito acham que deves fazer, mergulha na hora pesadas «verdades», se isso provoca, por um lado, um sentimento de
que passa e não te ponhas a remexer as próximas horas com o teu pen- desespero e solidão e medo, por outro, também provoca uma sensação
samento, os teus medos e as tuas preocupações. h de independência e de orgulho. Estou confiada a mim mesma e terei de
Tenho de pôr-me a educar-te novamente. me desembaraçar sozinha. O único padrão que tens és tu própria.
Repito-te mais uma vez. E a única responsabilidade com que poderás
arcar na tua vida, é para contigo própria. Mas nesse caso também te-
[Terça-feiral 21 de Outubro [de 1941], depois da refeição. rás de o fazer totalmente. E agora telefonar ao S.

É um processo lento e doloroso, o despertar para a verdadeira au-


tonomia interior. O saber, com certeza, que junto aos outros não há Quarta-feira de manhã [22 de Outubro de 1941],
nunca ajuda, nem apoio, nem refugio para ti. Que os outros são igual- às 8 horas.
mente tão incertos, fracos e impotentes como tu. Que terás sempre de
ser a mais forte. Não creio que faça parte do teu carácter achar isso O Deus, dá-me de manhãzinha menos pensamentos e mais água
numa outra pessoa. Es constantemente remetida a ti mesma. É assim fria e ginástica!
e mais nada. O resto é ficção. Mas ter de reconhecer isto de cada vez!
Sobretudo enquanto mulher. Há sempre o impulso de te perderes num A vida não se deixa apanhar em meia dúzia de fórmulas. No final
outro, no chamado outro. Mas também isso é ficção, embora seja uma de contas é com isso que te ocupas constantemente e que te obriga a
ficção bonita. Não existe a fusão de duas vidas. Pelo menos para rmm pensar de mais. Tentas capturar a vida em algumas fórmulas, mas tal
não. Às vezes, por alguns momentos, sim. Mas será que esses momen- não é possível, a vida tem infinitas nuances e não se deixa apanhar nem
tos justificam a união para uma vida inteira? Será que essa meia dúzia simplificar. Mas por isso mesmo, tu podes ser simples.
de momentos consegue cimentar uma vida em comum? Porém, tam-
bém há um sentimento forte. E por vezes feliz. Só. Deus. Mas custa.
Porque o mundo permanece inóspito. Quinta-feira de manhã [23 de Outubro de 1941]

Es uma tontinha! Deixa os miolos em paz!

I2õ . D i á r i o 1941-1943
Estenderes-te por inteiro numa palavra, em coloridas, largas «Estou tão agarrada a esta vida.» O que queres dizer com «esta
palavras. vida»? A vida fácil que tens agora? Se realmente estás agarrada à vida
Porém as palavras nunca te poderão conter inteiramente. O mun- crua, nua e crua, qualquer que seja a sua forma, isso ainda terá de se
do e o céu que Deus criou são tão vastos. Afinal é suficientemente ver com o passar dos anos. Tens forças suficientes em ú. Também tens
vasro: isto: «Se uma pessoa leva a vida a rir ou a chorar, é somente uma vida.»
Porém isto não está só. Está misturado com dinâmica ocidental, de
Querer regressar à escuridão, ao ventre materno, ao colectivo. vez em quando sinto-o de modo muito intenso. Nestes dias mais só-,
O tornar-se independente, o achar a própria forma, conquistar o brios de verdadeira autodisciplina, sinto isso muito intensamente: es-
caos. tás mesmo saudável, estás a avançar para ti própria, a chegar à tua
Ser atraída entre uma coisa e outra. própria base.
E agora ao trabalho.

[Sexta-feiraJ 24 de Outubro [de 1941]. Depois de uma conversa com o Jaap*.


De vez em quando lançamos fragmentos de nós um ao outro,
Esta manhã, aula à Levie'. As pessoas não se devem contaminar mas não creio que nos entendamos.
mutuamente com as suas más disposições.
Esta noite, mais decretos contra os judeus. Consenti a mim mesma
ficar deprimida e desassossegada com isso durante meia hora. Antiga-
Quinta-feira de manhã [30 de Outubro de 1941].
mente ter-me-ia consolado a ler um romance e deixar o trabalho por fa-
zer. Agora, aperfeiçoar a análise do Mischa. E muitíssimo importante ele
Medo da vida a todo o comprimento.
ter reagido tão bem ao telefone. Uma pessoa não deve ser demasiado op-
Depressão total. Falta de autoconfiança. Repugnância. Medo.
timista, mas ele merece ser ajudado. Enquanto o conseguirmos alcançar
através da menor abertura, devemos aproveitar. Pode ser que isso o con-
siga ajudar na vida mais tarde. Uma pessoa não deve querer atingir sem-
[Terça-feira] 11 de Novembro [de 1941], de manhã.
pre grandes resultados. Mas devemos acreditar nos pequenos.
Há dois dias que só trabalho e não me aprofundo nos estados de
Parece que já se passaram muitas semanas e que experienciei mui-
espírito.
tíssimas coisas. E no entanto, a um determinado momento uma pes-
Linda menina, ora!

" Liesl Levie. Provavelmente |aap, irmão de Etty.

130 Etcv Hi!!; SU( Diírio 1941-1943 • J


soa reencontra-se às voltas com a mesma questão: a compulsão que [Sexta-feira] 21 de Novembro [de 1941].
tens em ti ou essa ficção ou fantasia, como lhe queiras chamar, de que-
rer possuir uma só pessoa por uma vida inteira, tens de a estilhaçar em É interessante que, enquanto nos últimos tempos ando cheia de
mil pedaços. Esse absoluto tem de ser pulverizado dentro de ti. E em impulso criador e desejaria escrever uma novela: A rapariga que não
seguida não ficar com a ideia de que a pessoa fica mais pobre com isso, conseguia ajoelhar-se, ou algo assim do género, e de que maneira Levie,
mas justamente mais rica. Bastante mais difícil, mas com mais nuan- aquela boa mulherzinha, me intriga, eu escreva assim de repente:
ces. Aceitar os pontos altos e baixos nas relações, e encarar isso como «Como se,tivesse sido mordida por uma serpente, levanto-me repentina-
positivo e não como entristecedor. O não querer possuir um outro, o mente do sofá forrado a azul, com o estômago a fazer ruídos. Pois é, o
que não significa renunciar ao outro. Deixar o outro em total liber- estômago.» Ao mesmo tempo que estou cheia de problemas de ética e
dade, interiormente também, sem que contudo tal signifique resignação. verdade e de Deus mesmo, aparece-me de repente «um problema de ali-
Começo agora a identificar a natureza da minha paixão no meu rela- mentação». Algo para análise, se calhar. Circunstancialmente, não com
cionamento com o Max". Era a dúvida, porque sentias que o outro era tanta frequência como no passado, dou cabo do estômago simples-
inalcançável em última instância e isso atiçava-te ainda mais. Mas isso mente por comer de mais. Devido à falta de domínio, portanto. Eu sei
aconteceu provavelmente porque querias alcançar o outro de modo er- que devo ter cuidado, mas de repente surge uma espécie de sofregui-
rado. De modo demasiado absoluto. E o absoluto não existe. Que a dão contra a qual não há raciocínio que ganhe. Nessas alturas, sei que
vida e as relações humanas são infinitamente matizadas, que não há em esse bocadinho de prazer, ou lá o que é que esse naco me dá, vou ter de
parte alguma algo absoluto ou objectivamente válido, isso também eu o pagar caro, e, no entanto, não tenho vergonha. E de repente, creio
sei, mas este conhecimento deve estar também no sangue, em ti mes- que há um problema de alimentação, que deve vir à superfície. No fi-
ma, não só na cabeça, mas deve também ser vivido. E aqui volto sem- nal de contas é simplesmente simbólico. A sofreguidão deve existir
pre a bater na mesma tecla e uma pessoa tem de se exercitar nisto igualmente na minha vida espiritual. O querer ingerir exagerada-
durante toda a vida: que, tal como uma pessoa aceita viver segun- mente, o que de vez em quando culmina em pesadas indigestões.
do uma visão do mundo, de idêntico modo deve viver o seu senti- Isto tem origens algures. E talvez esteja associado à minha querida
mento. Provavelmente é essa a única possibilidade de adquirir um mãe. A mãe está sempre a falar em comida, para ela não existe outra
sentimento de harmonia. coisa. «Come mais um bocadinho, anda. Ainda não comeste o sufi-
ciente. Que magra que estás.» Lembro-me de como vi a minha mãe a
comer, há uns anos atrás, numa festa para donas de casa. Estava sentada
no balcão daquele teatrinho em Deventer. A mãe estava sentada a
uma mesa comprida, no meio das muitas donas de casa. Vestia um
Provavelmente Max Knaap. vestido de renda azul. E estava a comer. Estava completamente con-

Hillesiu D i i r i o 1941-154} 133


centrada naquilo. Comia com gula e devoção. No modo como ela ali Porém, acho interessante que eu, enquanto a mais forte poesia va-
estava, tal como eu de súbito a consegui ver do balcão, havia algo nela aueia dentro de mim continuando sem saber como sair cá para fora,
que me emocionou terrivelmente. Repugnou-me, por um lado, o tenha sentido de repente a necessidade de dedicar algumas palavras ao
comportamento dela, mas ao mesmo tempo senti por ela uma enorme meu estômago e ao que possa estar por trás. Claro que isso também é
compaixão. Não consigo explicar. motivado pelas conversas dos últimos tempos com S. sobre os prós e os
Na sofreguidão dela havia algo como se ela tivesse medo que o contras da análise. E também devido àquela conversa com Múnster-
mundo acabasse. Havia nela algo terrivelmente patético e simultanea- berger'. Aquilo que S. recrimina aos analistas é a sua falta de amor para
mente animalesco e repugnante. Foi assim que eu a vi. Na realidade com as pessoas. O interesse neutro deles. «Não se pode curar uma pessoa
ela era uma dona de casa num vestido de renda azul comendo sopa. destroçada sem amor.» E no entanto consigo imaginar que um estô-
Mas se eu conseguisse entender tudo aquilo que eu sentia que ela era, mago pudesse ser abordado de maneira puramente neutra. Que uma
quando a observei desse jeito, então havia de entender muito acerca da análise custe uma hora por dia, por vezes anos a fio, é mais uma coisa
minha mãe. Aquele medo de que lhe viesse a faltar algo na vida, e, de- que S. acha horrível. Ele é de opinião que isso faz com que uma pessoa,
vido ao medo, tudo acaba mesmo por faltar. Não consegue acompa- na realidade, acabe por se tornar inapta para a sociedade. Muito forte
nhar a realidade. e indiferenciado, claro, o que agora escrevo. Neste momento não tenho
Psicologicamente, talvez pudesse elaborar esta fórmula — ouçam a mais tempo nem vontade para me alargar neste assunto. E um terreno
muito difícil e eu sou uma simples leiga. Contudo estas coisas não me
leiga ingénua a falar: sinto uma oposição em relação à minha mãe, que
largam e eu ainda hei-de achar o meu caminho. Ai, ai, ai, que grande
ainda não foi demolida, e por isso faço exactamente as mesmas coisas
quantidade de carreiros cheios de silvas por entre os quais vou ter de
que me causam relutância nela. No final de contas, não sou o tipo de
caminhar! E tenho de atravessar tudo. E só sirvo de padrão a mim
pessoa muito orientada para a comida ou algo desse género, embora tenha
mesma e tenho de descobrir tudo e terei de encontrar as minhas for-
o seu lado agradável e de camaradagem. Mas não se trata disto. Neste
mulações e as minhas pequenas verdades próprias. Às vezes amaldiçoo
estragar regularmente o estômago de propósito, melhor ainda, sabendo
o facto de haver forças criadoras em mim que me incitam a fazer nem
eu a asneira que estou a fazer, alguma coisa há por trás. Claro que isto
sei o quê, mas vezes há que me preenchem com grande gratidão e qua-
está igualmente relacionado com o forte desejo de ascese em mim, de
se êxtase. E estes picos de gratidão por poder estar tão cheia de vida e
uma vida conventual de pão de centeio, água cristalina e fruta. também por eu ter a capacidade de compreender as coisas, embora à
minha maneira, fazem com que de cada vez a vida valha a pena, são os
Uma pessoa pode ter fome de viver. Mas com a sofreguidão pela pilares em que assenta a minha vida.
vida, o objectivo é ultrapassado. Bem, coisas realmente profundas po-
dem ser sempre contadas. ' Dr, Werner Miinsterberger, psicanalista alemão e historiador da arte.

134 Eirv Hilltsutn Diário 1941-1943 135


Porém agora as coisas estão a dar novamente para o torto. Talvez Um revelar súbito daquilo que terá de ser a minha verdade própria.
tenha algo a ver com o facto de o Mischa estar outra vez na cidade. Amor pelas pessoas, pelo qual será preciso lutar. Não na política ou
Francamente não sei. num partido, mas dentro de ti. Contudo, há ainda falsa vergonha em o
Ah, querido Deus, tanta coisa que há. manifestar. E em seguida Deus, A rapariga que não conseguia ajoelhar-
-se e que afinal aprendeu afazê-lo no tapete áspero de fibra de coco de uma
casa de banho desarrumada. Mas estas coisas são quase mais íntimas do
Sábado de manhã [22 de Novembro de 1941]. que as de teor sexual. Este pjjocesso em mim, da rapariga que aprendeu
a ajoelhar, gostaria de o ilustrar em todos os seus cambiantes.
Eu espero, e ao mesmo tempo receio, que chegue a altura na minha É tolice. Naturalmente que tenho tempo para escrever. Provavel-
vida em que estarei completamente a sós e com um pedaço de papel. mente mais do que qualquer outra pessoa. Mas lá está, a insegurança
Que não faça outra coisa senão escrever. Ainda não me atrevo a isso.
interior. Porquê, sinceramente? Porque pensas que és obrigada a dizer
Não sei por que motivo. Quando estive naquele concerto com S., na
coisas geniais? Porque afinal não consegues dizer aquilo que verdadei-
quarta-feira, na verdade quando vejo muitas pessoas juntas, quero escre-
ramente conta? Mas isso há-de vir gradualmente. O ter confiança em ti.
ver um romance. No intervalo senti a falta de um papel para escrever
Na realidade o S. tem sempre razão. Amo-o imenso e ao mesmo tem-
qualquer coisa. Eu mesma nem sabia ainda o quê. Desenrolar os pró-
po estou repleta de oposição a ele. E essa oposição está relacionada
prios pensamentos. Em vez disso, S. ditou-me algo sobre um paciente.
com as coisas mais profundas, a que eu mesma não consigo chegar.
Em si, suficientemente interessante. E também bizarro. Mas tive de me
apagar mais uma vez. O prestar contas a si próprio. Ter constantemente
a necessidade de escrever e ainda não ter coragem para tal. Eu relego,
creio, assim como assim, muitas coisas de mim. Por vezes, creio ter uma Domingo de manhã [23 de Novembro de 1941], às 10 horas.
personalidade bastante mais forte, mas para o exterior mostro continua-
mente uma face de eterna simpatia, interesse e bondade, muitas vezes à Interessante esta relação entre certas disposições e a menstruação.
custa da minha própria pessoa. A teoria é a seguinte: uma pessoa deve Ontem à noite, uma disposição «exacerbada» sem dúvida. E a noite pas-
ser tão social que uma outra não seja incomodada pelos seus estados de sada, de súbito, como se toda a circulação sanguínea mudasse. Uma sen-
espírito. Porém, isto não tem nada a ver com estados de espírito. Como sação de vida completamente diferente. Não sabes o que se passa e então
me reprimo muito, por outro lado, torno-me igualmente associai, visto de repente lá reconheces: a menstruação que está para vir. Vezes houve
que, por isso, passo dias inteiros sem dizer palavra a ninguém. em que pensei: «Mas eu não quero ter filhos, porque continuam então
Existe algures uma nostalgia e uma suavidade, e também uma cer- estas sessões mensais inúteis que só causam aborrecimento?» E, num
ta sabedoria em mim, em busca de uma forma. ÀS vezes ocorrem diá- momento irreflectido e comodista, pensei se o útero não podia ser re-
logos inteiros dentro de mim. Imagens e figuras. Estados de espírito. tirado. Porém, uma pessoa tem de aceitar que foi assim criada e não

Diário 1941-1945 137


pode dizer que isso só traz incómodos. E tão misteriosa essa interacção sem tensão, sem pressa. Gratidão, grande, súbita, consciente gratidão
entre corpo e alma. Aquela disposição estranha e sonâmbula, e ao mesmo por este quarto com muita luz e espaço, com o divã largo, a secretária
tempo clarificante, da noite passada e de hoje de manhã, têm origem com os livros, o velho silencioso e no entanto muito jovem apesar de
nas mudanças do meu corpo. tudo. E ao fundo, o amigo com a grande boca bondosa, que deixou de
A esse recentemente surgido «complexo da comida» respondi a ter segredos para mim e que às vezes consegue ser outra vez repentina-
noite passada com um sonho. Houve um fragmento muito nítido, mente tão secreto. Porém, acima de tudo, a claridade, a calma e tam-
pelo menos.é isso que pensas, quando o queres anotar, escapa-te. Vá- bém aquela confiança em mim. Como se numa floresta cerrada,
rias pessoas a uma mesa, entre as quais eu, e S. à cabeça da mesa. Ele tivesse ido subitamente parar a uma clareira onde me deito de costas
então disse algo do género: «Por que é que nunca visitas outras pes- para olhar o vasto céu. Daqui a uma hora já pode ser diferente, sei isso.
soas?» Eu: «Ora, isso é muito complicado com a comida.» E de re- Especialmente neste estado precário com o corpo em fermentação.
pente ele olhou para mim com aquela sua famosa cara, que me
exigiria uma vida inteira para lhe descrever a expressão, uma expres-
são que ele tem quando está irritado e que lhe dá à cara o aspecto Terça-feira de manhã [25 de Novembro de 1941],
mais forte que ela pode ter a meus olhos. Li no seu rosto algo corno: às nove e meia.
és assim, com que então és assim, tão importante é a comida para ti.
E de repente tive uma sensação de: agora é que ele me topa, agora é Alão está a acontecer comigo e não sei se é só um estado de espí-
O C? *

que ele sabe exactamente o quão materialista eu sou. Não reproduzi rito ou outra coisa mais fundamental. É como se tivesse regressado à
bem este sonho, não se deixa agarrar. O que em mim surgiu de súbito base, de repelão. Um bocadinho mais independente e autónoma.
foi a percepção: agora é que ele me topa, agora é que vê como eu sou Ontem à noite, de bicicleta pela fria e escura rua Laíresse, desejava
na realidade. E isso assustou-me. poder repetir o que então murmurei em voz baixa: «Deus, pega-me
pela mão, acompanhar-te-ei bem-comportadamente, sem muita resis-
Da ampla «transfiguração» desta noite, alguma coisa ainda conti- tência. Não me desviarei de nada do que nesta vida vier de encontro a
nua a fazer efeito. Sossego e outra vez espaço para tudo. Mais paixão e mim, tentarei integrar tudo em mim com as minhas melhores forças.
ainda mais carinho por Han. E não mais oposição a S. Também não Mas dá-me de vez em quando um momento de sossego. Também não
mais àquele trabalho. Ao fim e ao cabo, hei-de seguir o meu próprio pensarei mais, na minha ingenuidade, que essa paz, se ela vier, será
caminho. Um pequeno desvio como esse não tem importância. Para eterna; hei-de aceitar igualmente o desassossego e a luta que hão-de vir
quê apressares-te? «A vida dela amadurecia lentamente rumo à pleni- outra vez. Gosto de me sentir abrigada e segura, mas não irei revoltar-
tude.» Um sentimento assim, por vezes. Era bom, era. Este dia inteito, -me se for exposta ao relento, desde que seja pela Tua mão. Hei-de acom-
espaçoso e amplo é para mim. Vou continuar a deslizar por este dia, panhar-te sempre guiada pela tua mão e tentarei não ter medo. Hei-de

138 . )- Hillesum Diário 1941-1943 139


tentar irradiar algo do amor, do verdadeiro amor ao próximo, que ce- É como se de repente também tivesse mudado de atitude em re-
nho dentro de mim, onde quer que eu esteja.» Contudo também não lação a S. Como se me tivesse soltado dele de repelão, embora seja só
deves andar a exibír-te com esse «amor ao próximo». Não sabes se o imaginação eu pensar que me libertei dele. Como se, de súbito, tivesse
tens. Não quero ser especial, somente quero tentar ser aquela que em penetrado muito fundo em mim a ideia de que a minha vida seguirá
mim ainda procura o desenvolvimento total. Às vezes penso que de- um caminho totalmente diferente do dele. Lembro-me de que há umas
sejo a reclusão de um convento. Porém, é com as pessoas e o mundo semanas, quando se ouviu falar que todos os judeus teriam de ir para
que terei de lidar. E heí-de fazê-lo, apesar da aversão e do cansaço, por um campo de concentração na Polónia, ele rrje ter dito: «Então nesse
vezes. Mas prometo que hei-de viver a vida em pleno e are ao fim. As caso casamos, assim podemos ficar juntos e fazer ao menos um pouco de
vezes penso que a minha vida só agora é que começa. Que as dificul- bem.» E embora eu soubesse como interpretar essas palavras, elas en-
dades ainda terão de vir, embora por vezes creia já ter combatido mui- cheram-me, durante alguns dias, de alegria e de afecto, e ainda assim
tas. Hei-de estudar e tentar entender, penso que sou obrigada a isso, de um sentimento de união a ele. Mas esse sentimento já passou. Não
hei-de deixar-me confundir por tudo o que me surgir pela frente e sei o que é, uma espécie de sentimento repentino, de me ter libertado
aparentemente me desvia do caminho para a minha pequena própria totalmente dele e de seguir o meu próprio caminho. E provável que
verdade, mas hei-de deixar-me confundir de cada vez, para chegar tal- ainda restassem todo o tipo de forças investidas nele. Ontem à noite, em
vez a uma certeza maior. Até não poder mais ser confundida e ter che- cima da bicicleta, revi numa retrospectiva súbita como, em meio ano,
gado a um grande equilíbrio, no qual continua porém a ser possível com enorme intensidade, com completa dedicação pessoal, me assi-
sentir todas as vibrações. milei ao trabalho e vida deste homem. E agora passou-se isto. Ele tor-
Não sei se consigo ser uma boa amiga para outros. E se, devido ao nou-se uma partícula do meu ser. E com essa partícula dentro de mim,
meu feitio, não o conseguir ser, devo encará-lo. Em todo o caso nun- eu continuo, mas sozinha. Exteriormente não muda nada, claro. Per-
ca te deves iludir. E deves saber ter moderação. E só podes ser um pa- maneço sua secretária e continuo interessada no seu trabalho, porém,
drão para ti mesma. intimamente, estou mais livre.
E como se eu, todos os dias, fosse lançada de novo num grande
caldeirão, e no entanto consigo sempre sair dele cá para fora. Ou será tudo isto apenas um estado de espírito? Isto, causado,
Às vezes, há momentos em que penso: «A minha vida está total- creio, pelo gesto muitíssimo independente para a minha pessoa de
mente errada, há um erro nela», mas tal só acontece quando se tem na pegar no telefone por iniciativa própria, sem ele saber, de marcar o nú-
imaginação um certo tipo de vida que faz parecer aquela que uma pes- mero da tal senhora e de pelo telefone lhe dizer: «Nem pensar! Não é
soa realmente leva, por vezes, errada. esse o meu caminho.» Quando de repente há algo em ti, que é rnais for-
te do que tu própria e te leva a praticar «acções» (nebbisj] e a tomar me-
didas a que te sentiste obrigada, que sentiste ser chamada a fazer, então

140 E r r v Hillesum Diário 141


T
também te sentes mais segura. E o mesmo se passa quando dizes ines- mole.» Subitamente, à esquina da avenida Apoio, no cruzamento com a
peradamente: este não é o meu caminho. rua Miguei Angelo, senti a necessidade incontrolável de anotar algo no
meu bloco de notas. E íá estava eu a escrevinhar ao frio. Sobre o facto de
A relação entre a literatura e a vida.. Achar o meu próprio caminho existirem por aí tantos cadáveres espalhados pela literatura, e como isso
nesse terreno. é curioso. Tantos mortos fúteis, aliás. Enfim, só disparates, como tantas
vezes, quando pensas que Deus está ao corrente do grandioso pensa-
mento que te surgiu no cérebro e, de seguida, saem uns rabiscos incoe-
rentes em meia dúzia de linhas azuis, à esquina de duas ruas que se
Sexta-feira de manhã [28 de Novembro de 1941], às nove
cruxam, ao frio. Entrei em casa do S., na pequena sala familiar, para a
menos um quarto.
qual ele é quase demasiado colossal. A Gera estava lá, cochichámos as
duas, sem que ele nos entendesse com aquele ouvido surdo, e de novo a
Ontem à noite tive uma sensação, como se tivesse de lhe pedir per-
sensação de bem-estar a cobrir-me. Comecei então, apesar de me sentir
dão por todos os pensamentos feios e revoltosos que tive em relação a
tão «mole», a atirar o casaco, o chapéu, as luvas, a mala, o bloco de no-
ele nos últimos dias. Pouco a pouco vou sabendo que, nos dias em que
tas, tudo a esmo pela sala, para divertimento perplexo do S. e da Gera,
uma pessoa sente aversão por aqueles que lhe são próximos, ela pode que perguntaram o que se passava desta vez. Ao que eu respondi: «Não
ser atribuída à aversão por si mesma. «.Ama o próximo como a ti mesmo.» me apetece trabalhar, estou a fazer sabotagem e é um milagre os vasos
Sei também que a culpa é sempre minha e nunca é dele. A verdade é das flores não voarem dos parapeitos, em mil cacos.» A minha explosão
que ambos temos ritmos de vida bastante diferentes e que se deve dei- fez nitidamente bem à Gera. Porque eu explodi de uma maneira, como
xar o outro ser como é. Quando desejamos moldar as coisas conforme ela provavelmente desejava há muito fazer, sem no entanto se atrever à
a imaginação, vamos sempre de encontro a um muro e ficamos desilu- frente dele. «Boa!», disse ela, e na minha explosão de rebeldia, talvez a te-
didos, não com o outro, mas com as exigências que lhe fazemos. Isto é nha levado a uma expressão de insurreição, que ela de certeza há-de ter
parvoíce e francamente muito antidemocrático, mas humano. Pode contra ele de vez em quando, do mesmo modo que toda a gente, prova-
ser que o caminho para a verdadeira liberdade passe pela psicologia, velmente de tempos a tempos, contra personalidades mais fortes.
uma pessoa nunca deve deixar de reflectir suficientemente sobre isso; Uma pessoa nunca deve pensar antecipadamente, nem mesmo cin-
no íntimo, uma pessoa deve libertar-se de um outro, mas deve igual- co minutos antes: «E agora, daqui a bocado vou comportar-me assim e
mente deixar o outro livre ao não criar dele uma imagem na sua fanta- assado, e dizer aquilo e aqueloutro.» Tinha estado a preparar-me para
sia. Ainda restam grandes áreas e em quantidade suficiente para a tudo o que lhe queria dizer. «Princípios fundamentais» e acabar de vez
fantasia, sem que seja necessário aplicá-la às pessoas que amamos. com a quirologia, etc. Tão intenso e tão pomposo. E pouco antes de ir a
Ontem à tarde fui de bicicleta ao seu encontro, com um senti- casa dele, a minha disposição era tal que eu não queria dizer absoluta-
mento do tipo: «Não me apetece, não estou a exagerar, sinto-me tão mente nada.

142 Ecty Hillesum


Diário 1 9 4 I - E 9 4 )
E assim que a Gera se foi embora, envolvi-me subitamente numa uma sensação de bem-estar e sentimentos nobres, mas para praticar o
luta rapidíssima com ele, ao fim de uns breves momentos atirei-o com menor acto de amor, recuas amedrontada. Não, este não é um pe-
força para cima do divã, quase que o matava lá, e, em seguida, era para queno acto de amor. É algo muito fundamental e importante e difícil.
trabalharmos muito. Mas em vez disso, ele sentou-se de repente no ca- Amar os teus pais do fundo do coração. Isto é, perdoar-lhes por todas
deirão lindamente forrado pela Adri, que está a um canto da sala, e lá as dificuldades que te causaram só pelo facto de existirem: relações,
estava outra vez eu sentada, como de costume, a seus pés, participando aversões, o peso das suas próprias vidas complicadas, acrescentado à
num inesperado debate apaixonante acerca da questão judaica. E atra- tua própria vida já tão difícil. Tejiho a impressão de que estou a escre-
vés das muitas palavras dele, era como se eu estivesse bebendo duma ver os maiores disparates. Enfim, não faz mal. E agora devo mas é ir fazer
enérgica fonte. E num repente, a vida dele foi-me novamente clara, a cama do pai Han e preparar a pequena lição para a discípula Levie,
como ela se desenrola produtivamente de dia para dia, sem ser defor- etc. Mas em todo o caso este é um assunto para este fim-de-semana:
mada agora pela minha própria irritabilidade. Nos últimos tempos te- amar verdadeiramente o meu pai do fundo do coração e perdoar-lhe
nho chamado ao espírito de vez em quando uma frase da Bíblia, por ele vir perturbar o meu cómodo sossego. No final de contas, eu
lendo-a com um novo, nítido, conteúdo enriquecido e um intenso gosto muito dele, mas este é, ou melhor, era um amor complicado: exa-
significado. Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança — gerado, forçado e tão misturado com compaixão que o meu coração
Amai o próximo como a vós mesmos, etc. quase se partia. Mas uma compaixão que se tornou masoquista. Um
amor que conduziu a excessos de compaixão e tristeza, mas não a um
Vou finalmente descrever a minha relação com o meu pai, com simples acto de amor. Sim, conduziu a cordialidade e fadiga, tudo tão
energia e com amor. intenso que, cada dia que ele aqui passou, me custou uma embala-
O Mischa anunciou-me que ele chegaria no sábado à noite. Pri- gem cheiinha de aspirinas. Porém, tudo isto já foi há muito. Nos últi-
meira reacção: «Que horror. Ameaçada na minha liberdade. Que ma- mos tempos já as coisas se passaram mais normalmente. No entanto,
çada. Que é que eu hei-de fazer com ele?» Em vez de: «Que bom que sempre um sentimento de nervosismo. E relacionado com isto, uma
o bom homem saia daquele buraco de província e venha passar uns sensação de que, para ser sincera, eu levava a mal ele aparecer por cá. E
dias sem a nervosa da mulher.» De que modo posso tentar, com as for- isso eu tenho de perdoar-lhe no meu íntimo. E pensar com convicção:
ças e os meios limitados que possuo, tornar-lhe a estadia tão agradável «Que bom ele mudar de ares durante uns dias.» Ora bem, esta foi uma
quanto possível? Canalha e sacana e filha da mãe comodista que eu boa oração matinal.
sou! Ui, toma lá para aprenderes! Pensas sempre em ti em primeiro lu-
gar. No teu precioso tempo. Que afinal só usas para enfiar mais sabe-
doria livresca nessa cabeça que de si já é tonta. «E que benefícios é que
isso me traz, sem o Amor?» Uma adorável teoria a fim de te induzir

144 Etry Hillesum D i á r i o 1941-1943


Domingo de manhã [30 de Novembro de 1941]. noite antecedente, senti rejeição por ele. E o amor não fez diferença.
Aliás> tinha desaparecido. Totalmente paralisada, muito estranho. Nova-
Ainda não existe espaço suficiente dentro de mim para reservar mente caos e confusão dentro de mim. Umas horas de crise e «recaidã*
um local para as muitas contradições interiores e as desta vida. No como nos piores períodos. Aí, tive oportunidade de experimentar de
momento em que aceito uma coisa, sou infiel a outra. novo como alguns desses períodos tinham sido terríveis. Enfiada na
cama durante a tarde. Ter achado a vida da maioria das pessoas um
Sexta-feira à noite, diálogo entre S. e L. — Cristo e os judeus. calvário, etc. Demasiado extenso para escrever sobre isso.
Duas filosofias de vida, ambas delineadas nitidamente, maravilhosa- Nessa altura houve uma correlação que se me tornou clara. O meu
mente documentadas, completas, defendidas com paixão e agressivi- pai que numa idade avançada superou todas as suas incertezas, dúvidas,
dade. No entanto, tenho sempre a impressão de que em cada crença o provável complexo de inferioridade a nível puramente físico, as dificul-
conscientemente defendida há sempre algum engano pelo meio. Que dades matrimoniais que ele não conseguiu solucionar, etc., etc., etc.,
é sempre violentada à custa de «a verdade». E contudo preciso e quero com uma grandeza filosófica totalmente genuína, adorável e cheio de
eu mesma atingi-la, ter um terreno próprio delimitado, inicialmente humor e muito perspicaz, porém bastante vago, apesar de toda a perspi-
conquistado com sangue, em seguida defendido com paixão. E depois, cácia. Debaixo da alçada da sua filosofia, que tudo justifica, que ob-
afinal, a sensação de que não faço justiça à vida. Mas, por outro lado, serva somente o anedótico sem aprofundar os assuntos, embora ele
medo de mergulhar na ambiguidade, na indefinição e no caos. saiba que há profundezas, talvez exactamente por ele o saber, por saber
De qualquer modo, depois desse debate voltei com um sentimento o quão imensamente profundas as coisas são, por isso mesmo ele te-
de vivacidade e ânimo para casa. Porém, há sempre em mim aquela nha desistido antecipadamente de as entender. — Sob a superfície des-
reacção de: «Afinal de contas não é tudo um disparate? Por que é que sa filosofia de vida resignada que diz: «Ah, pois, e aqueles que sabem
as pessoas se excitam de uma maneira tão ridícula? Não se estão a con- estão à beira do caos.» E é esse mesmo caos que me ameaça, do qual
vencer a si mesmas?» No fundo, estas dúvidas não deixam de me re- tenho de sair, do qual tenho de extrair a finalidade da minha vida a
moer a cabeça. fim de me libertar dele e em que recaio constantemente.
E efectivamente a menor expressão do meu pai, as expressões de
Depois o meu pai veio. Esperado com muito amor, estudado amor. resignação, de humor, de dúvida, apelam a algo dentro de mim que te-
No dia anterior, após aquela intensa oração, senti-me livre e feliz e nho em comum com ele, mas a partir das quais necessito de me desen-
leve. Quando ele chegou, o meu papá, com o guarda-chuva errado e o volver mais.
novo cachecol aos quadrados e muitas embalagens de sandes, quase Portanto, aquele debate com contornos bem definidos da noite
desamparado, a vergonha surgiu de novo, o diminuir das forças, a ini- passada tem naturalmente como pano de fundo as minhas reacções de
bição e o sentir-me completamente infeliz. Ainda à luz do debate da sempre: «Será que tudo isto não passa de um disparate?» E este quase

Et t v H i L l e s u i Diirio 1941-1943
inaudível ruído subterrâneo é subitamente ampliado pela intromissão atravessarem-me todos os medos que todas as jovens têm quando des-
do meu pai no meu mundo. E por esse motivo, naturalmente mais uma cobrem repentinamente, para seu susto, que esperam uma criança que
vez a oposição ao meu pai, o aparecimento da paralisia e da fraqueza. não desejaram.
Na realidade não tem pois nada a ver com o meu pai, isto é, não tem O instinto maternal, creio, falta-me completamente. Para mim
nada a ver com a sua pessoa, a sua muito querida, comoventemente ado- mesma justifico isso da seguinte maneira: basicamente acho a vida
rável pessoa, mas com um processo dentro de mim. A correlação das um calvário e todos os seres humanos uns infelizes, e eu mesma não
gerações. E a partir do caos deías, da não tomada de posições, por par- quero ser responsável por acrescentar à humanidade mais uma cria-
te delas em relação às coisas, que me vejo agora obrigada a formar-me tura infeliz.
tomando posição, querendo «explicar-me» as coisas, apesar de ser con-
tinuamente acometida por um: «Não será tudo um disparate, pois Mais tarde — fiz alguns benefícios imortais à humanidade:
sim, minha gente, assim é a vida, etc., etc.» Nunca escrevi um mau livro e não me pesa na consciência haver
Após a correlação se ter tornado clara, as minhas forças reaparece- mais um infeliz neste mundo.
ram e o amor também, e umas horas de terror foram superadas nova- Ajoelho-me outra vez no tapete de coco áspero, tapando a cara
mente. com as mãos e peço: «O Deus, deixa-me ser assimilada por um gran-
de sentimento uno. Permite-me que eu faça as milhentas pequenas
coisas quotidianas com amot, mas faz com que cada pequeno acto
Quarta-feira de manhã [3 de Dezembro de 1941], nasça de um grande sentimento central de disponibilidade e de amor.»
às 8 horas, na casa de banho. E nesse caso sinceramente não importa o que se faz e o que se é. Mas
por enquanto ainda me falta muito para lá chegar.
Acordei a meio da noite. E de repente recordei-me de que tinha Hoje vou mas é tomar vinte comprimidos de quinino, sinto-me
sonhado muito e com significado. Alguns minutos de esforço intenso, um bocadinho esquisita ali a sul do diafragma.
a fim de me lembrar do sonho. Ávida. Tive a sensação de que esse so-
nho era igualmente parte da minha personalidade, que fazia parte de
rnim, que tinha direito a ele, que não o devia deixar escapar, que me Sexta-feira de manhã [5 de Dezembro de 1941],
devia recordar dele para me poder sentir um todo delimitado, como às 9 horas.
personalidade.
Ontem à noite, caminhando pelo nevoeiro, outra vez aquela bre-
Às 5 horas acordei novamente. Maldisposta e um pouco tonta. ve sensação de: «Alcancei os limites, para ser franca,/rf vi tudo o que ti-
Ou seria só imaginação minha? Então, durante cinco minutos, senti nha a ver, já vivi de tudo na vida, porque é que continuo a viver,

E t t v Hillesu Diár 149


sinceramente? Já conheço tudo, não posso ir mais longe do que já fui, em quando e fazer estranhas ablações, igualmente, a sensação de ser o
os limites tornam-se demasiado apertados e para além deles a única teatro de um segredo que ninguém conhece. Ao fim e ao cabo, é tam-
coisa que resta, para falar verdade, é o asilo de loucos.» Ou a morte? bém tomar parte num acontecimento elementar.
Mas tão longe não cheguei a pensar. O melhor remédio para isto: es- E então, nesta sempre penosa situação, que o é sem dúvida,
tudar um enfadonho pedaço de gramática ou ir dormir. constato um sentimento intenso do tipo: não me deixar ir abaixo.
A única realização para mim nesta vida: perder-me num pedaço Eu trato de que as coisas voltem a estar em ordern. E hão-de ficar.
de prosa, num poema, que devo conquistar a mim mesma à custa de • Continua a trabalhar descansada, não desperdices as tuas energias
sangue, palavra a palavra. Para mim um homem não é o essencial. Será com isto.
porque sempre houve uma porção de homens à minha volta? Às vezes Esse foi um bom passeiozinho com S. às duas horas. Ele tinha outra
é como se estivesse saciada de amor, mas de um modo bom. Para ser vez algo de resplandecente e de juvenil. E irradia realmente amor ao
sincera, a vida sempre foi boa para mim; sempre e ainda é. Às vezes é próximo por todos os lados, também um pouco para mim, e eu resplan-
como se eu tivesse ultrapassado o estádio «Eu» e «7w». É fácil dizer uma deço por minha vez. Crisântemos brancos.«Tão nupciais.» Eu sou-lhe
coisa destas após uma noite assim. E agora os meus ricos pés em água realmente fiel no meu íntimo. E ao Han também sou fiel. Sou fiel a toda
quente. Até mesmo essa trapalhada com uma criança por nascer é a gente. Caminho na rua ao lado de um homem, com flores brancas
algo irreal para mim. Não há-de ser nada. que parecem um ramo de noiva, e olho radiosa para ele, e há doze
horas atrás estava eu nos braços de outro homem e amava-o e amo-o.
É uma falta de gosto? E decadente?
As cinco menos um quarto da tarde. Para mim está completamente certo. Talvez por a parte física não
ser para mim tão essencial, ela signifique mais. E um outro amor, mais
O que interessa agora é não me deixar dominar por aquilo que amplo. Ou estou a tentar convencer-me a mim própria? Sou demasiado
neste momento está a acontecer dentro de mim. Deve passar para vaga? Nas minhas relações também? Não creio que assim seja. Como
segundo plano, de uma maneira ou de outra. O que quero dizer é o se- é que de repente cheguei a esta conversa de chacha, em que não bate
guinte: na realidade, uma pessoa nunca deve deixar-se paralisar com- coisa com coisar
pletamente por uma só coisa, por pior que ela seja, a grande corrente
da vida deve continuar a fluir.
Controlo-me de cada vez e digo: «Agora tens de preparar a lição para Sábado de manha [6 de Dezembro de 1941], às nove e meia.
amanhã e esta noite tens de começar com O Idiota de Dostoiévski,
não por capricho, mas por teres de trabalhar nele com continuidade. Primeiro que tudo, animar-me mais uma vez para ganhar algu-
Como um jornaleiro.» E, nos intervalos, hei-de pular da escada de vez mas forças para este dia. De manhãzinha, ao acordar, senti por um

150 Ecrv H i l l e s u r n Diário 1941-1943


momento aquela opressão forte, um desassossego sombrio, sem luz intensa em todo esse cinzento e silêncio, o meu candeeirozinho
qualquer sensacionalismo. No final de contas não é brincadeira brilhante que ilumina a grande superfície negra da minha secretária.
nenhuma. Para ser sincera, essa foi a minha melhor hora na semana passada. Eu
Tenho a sensação de que estou a salvar a vida a uma pessoa. Não, estava concentrada n10 Idiota, traduzi com imponência umas linhas
isso é ridículo: salvar a vida a uma pessoa afastando-a violentamente para um caderno, fiz um comentário breve e independente e, de re-
desta vida. Quero poupar este vale de lágrimas a alguém. Vou deixar-te pente, já eram dez horas. Então tive uma sensação de: sim, é assim que
ficar na segurança de não vires a este mundo, pequena criatura desen- deves estudar, assim concentrada dessa maneira, assim está bçm.
volvendo-se dentro de mim, e agradece-me por isso. Quase sinto ter- Esta manha, uma enorme calma sobre mim. Tal como uma tempes-
nura por ti. Combato-te corn água quente e instrumentos terríveis, tade depois de passar. Noto que isso regressa sempre. Após dias de uma
hei-de dar-te luta com paciência e perseverança até te dissolveres no enormemente intensiva vida íntima, de luta pelo entendimento e de
nada. E nessa altura terei a impressão de ter praticado uma boa acção contracções de parto, de palavras e pensamentos que ainda não querem
e de me ter comportado responsavelmente. Ao fim e ao cabo não pos- nascer e de grandes exigências a mim mesma, de achar o mais importante
so dar-te suficiente energia e há por aí demasiada carga heredirária peri- e necessário na minha pequena forma própria, etc., etc., de repente, tudo
gosa a circular na minha família. Da última vez, quando o Mischa, isso sai de cima de mim e surge um cansaço benéfico no meu cérebro,
completamente desvairado, foi levado à força para um manicómio e nesse momento há calmaria outra vez, há quase uma espécie de brandura
eu assisti, com os meus próprios olhos, ao tumulto provocado, pro- que me cobre, mesmo em relação a mim mesma, cai um véu sobre mim
meti a mim mesma que nunca na vida havia de deixar que saísse do que torna a vida mais suave e faz com que, frequentemente, me pareça
meu ventre uma pessoa tão infeliz. mais simpática. E reconcilio-me com a vida. E também: não que eu
Oxalá que isto não dure muito. Se assim for fico muitíssimo ame- queira ou precise de algo em especial, a vida é grandiosa e boa e interes-
drontada. Ainda se passou só uma semana e já estou cansada e sem sante e eterna, e quando uma pessoa coloca a tónica sobre si própria e se
forças devido a todas as medidas. Mas hei-de barrar-te o acesso a esta debate e se enfurece, nesse caso, a pessoa ignora a grande e poderosa e
vida e garanto-te que disso não hás-de queixar-te. eterna corrente que é a vida. Estes são realmente os momentos — e eu es-
tou muitíssimo grata por eles — em que toda a luta pessoal me aban-
dona, em que a minha compulsão por conhecimento e sabedoria, por
Sexta-feira de manhã [12 de Dezembro de 1941], às 9 horas. exemplo, se acalmam. Então aparece de repente, batendo as asas com
grande envergadura, um pedaço de eternidade sobre mim.
As pessoas queixam-se muito da escuridão de manhã. Mas, às vezes, E eu sei e sei, a sério que sei, que esse estado de alma não perma-
para mim essa é a melhor hora do dia: quando o início do dia surge nece. Daqui a meia hora é capaz de já ter desaparecido, mas de mo-
cinzento e silencioso às minhas janelas pálidas. Há então um foco de mento, pelo menos, já me retemperou as forças. E se a brandura ou

152 Ecty H i l l e s u t Diária 153


vastidão sobre mim são devidas ao facto de ontem ter tomado seis as- Domingo de manha [14 de Dezembro de 1941],
pirinas por causa de uma enorme dor de cabeça, ou se tal se deve à in- às nove horas.
terpretação «tétrica» do Mischa ontem à noite e à canção de embalar do
Brahrns, ou se é devido ao rosto querido e cinzento de S., que de repente Ontem à noite, pouco antes de me ír deitar, dei por mim de re-
se avivou ao ouvir a interpretação do iMischa, ou ao corpo quente do pente ajoelhada na alcatifa, no meio desta sala grande, por entre as ca-
Han esta noite, no qual me enterrei, vá-se lá saber, e que importa? deiras de metal. Assim sem mais nem menos. Puxada para o chão por
Estes cinco minutos ainda rne pertencem. O relógio vai fazendo algo mais forte do que eu. Há algum tempo atrás, tinha dito para
tiquetaque nas minhas costas. Os ruídos em casa e na rua são como mim mesma: «Vou exercitar-me a ajoelhar.» Ainda tinha demasiada ver-
uma rebentação distante. Um candeeiro branco e redondo, em casa dos CTonha desse gesto que é tão íntimo como os gestos amorosos, acerca
vizinhos da frente, rompe a palidez desta manhã chuvosa. Sinto-me dos quais ninguém consegue falar a não ser que seja um poeta.
aqui, junto a esta grande superfície negra da minha secretária, como se Por vezes tenho a sensação de ter Deus dentro de mim, disse uma
estivesse numa ilha solitária. A pretinha marroquina olha para fora, para vez um paciente a S., por exemplo quando ouço Á Paixão segundo São
a manhã cinzenta, com o olhar sério e escuro, animalesco e sereno ao Mateus. E S. respondeu mais ou menos o seguinte: «Nesses momentos
mesmo tempo. E que é que isso interessa, se eu estudo uma página mais havia uma ligação absoluta com as forças criadoras e cósmicas existentes
ou uma página menos de um livro? O que importa é escutar o próprio em cada pessoa. E essa forca criadora é afinal de contas uma parte de Deus,
ritmo dentro de ti e tentar viver segundo esse ritmo. Escutar o que o que uma pessoa precisa é de ter também a coragem de o dizer.-»
emana de ti. Muito daquilo que fazes é simplesmente imitação ou de- Estas palavras acompanham-me há semanas a fio: é preciso tam-
ver imaginário ou falsas ideias acerca do que uma pessoa deve ser. bém ter a coragem de o dizer. A coragem de pronunciar o nome de
A única certeza de como viver e o que fazer só pode provir das fontes Deus. S. contou-me uma vez que tinha demorado muito tempo até se
que brotam lá no fundo de ti. E agora eu digo muito humilde e grata, e atrever a pronunciar o nome de Deus. Como se sempre tivesse achado
é a sério, embora eu saiba que mais uma vez hei-de rebelar-me e tornar- nisso uma coisa ridícula, apesar de acreditar nele. «E à noite também
-me irritável: «Meu Deus, agradeço-te por me teres criado como eu rezo, rezo por pessoas.» E eu perguntei, descarada e insensível como de
sou. Agradeço-te por às vezes poder estar cheia de vastidão, essa vastidão costume, sempre com a curiosidade de tudo querer saber: «O que é que
não é senão o estar repleta de ti. Prometo-te que toda a minha vida você reza?» E em seguida houve um embaraço neste homem, que tem
há-de ser uma luta para atingir a bela harmonia e também humildade sempre uma resposta nítida e clara às minhas mais subtis e íntimas
e amor verdadeiro de que me sinto ser capaz nos meus melhores perguntas, e ele disse-me timidamente: «Isso não lhe conto. Por enquanto
momentos.» ainda não. Mais tarde.»
E agora vou levantar a mesa do pequeno-almoço e ainda preparar Pergunto-me por que razão é que esta guerra, e tudo o relacionado
a Levie e pintar um bocadinho a ruça. com ela, me atinge tão pouco? Talvez por ser a minha segunda guerra?

Ecty H i l l e s u m Diário 1941-1943


A primeira vivi-a veemente e intensamente, através da literatura do Quarta-feira à noite [17 de Dezembro de 1941].
pós-guerra. Toda a revolta, aversão, paixão, debates, justiça social, luta
de classes, etc., etc., passámos por tudo isso uma vez. Recomeçar uma A Ruth" recebe presentes de amantes de teatro numa pequena ci-
segunda vez, não dá. Torna-se um cliché. Cada país reza novamente dade de província alemã, e a Hertha recebe-os de prostitutas num quios-
para a sua justa vitória, mais uma vez as palavras de ordem, mas agora que de livros num parque de Londres. A loura estrela da opereta tem
que passamos por tudo isso uma segunda vez, é demasiado ridículo e 22 anos e a melancólica rapariga morena tem 25. A segunda é a futura
insípido para nos excitarmos ou inflamarmos com isso. Ontem à noi- mãe da primeira. E a mãe verdadeira está «noiva» de um homem de 25
te disse ao jovem Hans, de vinte e um anos, a meio de uma conversa: anos e ela mesma também pretende ter essa idade. E o ex-marido, o pai,
«Isso é porque a política não é verdadeiramente o mais importante na e o futuro esposo, reside em dois quartos pequenos de Amesterdao, lê
tua vida.» E ele: «Não é necessário passar o dia inteiro a falar nisso, a Bíblia e tem de fazer a barba todas as manhãs, e os muitos seios de
mas é realmente o mais importante.» Entre os vinte e um anos dele e mulheres à sua volta são tão numerosos como os frutos num pomar
os meus vinte e sete, existe afinal uma geração inteira. bem carregado, só tendo de estender a garra rapace para os colher. E a
Neste momento são nove e meia da manhã, o Han está ali a resso- «secretária russa» tenta formar uma imagem de tudo isto. Cresce uma
nar baixinho e familiarmente, atrás de mim, naquele quarto impre- amizade, que vai ramificando as raízes no seu irrequieto coração, ela
ciso. A manhã de domingo cinzenta e silenciosa está a desenvolver-se ainda o trata por «você», mas talvez isso crie precisamente a distância
num dia de luz e o dia há-de desenvolver-se em noite e eu desenvolvo-me certa a cada momento para ver o todo. O sentimento louco e apaixo-
simultaneamente. Nestes três últimos dias é como se eu atravessasse nado de se querer «dissolven> nele há muito que desapareceu, tornou-se
um processo contínuo de desenvolvimento. «sensata». «Dissolver-se» numa pessoa desapareceu da minha vida, tal-
E agora volto outra vez, bem-comportada e disciplinada, à tradu- vez tenha ficado um querer «dissolver-se» em Deus ou num poema.
ção e à gramática do russo.
O grande crânio da humanidade. O poderoso cérebro da humani-
dade e o grande coração da humanidade. Todos os pensamentos, por
As 2 horas da tarde. mais contraditórios que sejam, acabam por nascer daquele grande cére-
bro: o cérebro da humanidade, de toda a humanidade. Eu sinto-o como
De repente, ao catalogar a biblioteca de S., encontro O Livro das um grande todo e, talvez por isso, de vez em quando aquele grande sen-
Horas do Rilke! timento de harmonia e paz, apesar das muitas contradições. Uma pessoa
deve conhecer todos os pensamentos e experimentar todas as emoções

• AfilhadeSpier.

156 Etiv H i l l c i u m io 1941-1943 157


no seu próprio corpo, a fim de saber tudo o que foi incubado nesse crâ- estou com problemas, ajoelho-me no meio do meu quarto e pergunto
nio incomensurável e o que atravessou esse enorme coração. a Deus o que fazer.» Ela beija como uma adolescente acriançada, S.

E assim é a vida: um caminhar de um momento de redenção para demonstrou-mo uma vez, mas os gestos dela para com Deus são ma-
o outro. E talvez eu tenha de procurar muitas vezes a minha redenção duros e seguros.
num mau pedaço de prosa, tal como por vezes um homem em grande Muitas pessoas estão demasiado presas, demasiado fixadas nas
necessidade procura aquilo a que se chama, de modo plástico, uma suas concepções e por isso, na educação que dão, prendem igualmente
-<puta», porque às vezes uma pessoa brada pela redenção, sem gue in- as crianças. Isso causa liberdade de movimentos a menos. Em nossa
teresse a forma. casa era exactamente o contrário. Tenho a impressão de que os meus
pais foram dominados, e ainda são, pela infinita complexidade desta
vida e nunca conseguiram fazer uma escolha. Deram uma liberdade de
Segunda-feira à tarde [22 de Dezembro de 1941], movimentos demasiado grande aos filhos, nunca conseguiram dar um
às 5 horas. ponto de apoio porque eles mesmos não o encontraram, e também
nunca ajudaram à nossa formação, porque eles igualmente nunca a
Os seus gestos íntimos para com as mulheres conheço eu, agora encontraram. E é repetidamente e de forma cada vez mais nítida que
interessava-me conhecer os seus gestos para com Deus. Ele reza todas vejo a nossa tarefa: a de os seus pobres, dispersos talentos, que não en-
as noites. Ajoelha-se no meio daquele quarto pequeno? E esconde a contraram forma nem sossego, nos darem a nós a oportunidade de nos
grande cabeça com as enormes mãos bondosas? E o que é que ele diz desenvolvermos, amadurecer e encontrar a nossa forma.
então? E ele ajoelha-se antes de tirar a dentadura ou depois? Naquela Como reacção à sua falta de forma onde não há amplidão, mas
altura em Arnhem: «Eu um dia mostro-lhe como é que fico sem os dentes, sim desordem e incerteza — má «gestão», por assim dizer — talvez se
Sem eles pareço muitíssimo velho e "sábio".» encontre às vezes, embora menos nos últimos tempos, a forma forçada
«Da rapariga que não conseguia ajoelhar-se.» Esta manhã, na pe- de lutar por unidade, delimitação, sistema. Mas a única unidade boa é
numbra cinzenta, lutando contra a insatisfação, encontrei-me repenti- aquela que reúne em si todos os opostos e momentos de irracionali-
namente no chão, ajoelhada entre a cama desfeita do Han e a minha dade, porque senão é novamente constrangimento e prisão, que não
máquina de escrever, encolhida, a cabeça tocando o chão. Porventura fazem justiça à vida.
um gesto de querer forçar a paz. E quando o Han entrou e olhou um
pouco admirado para essa cena, eu disse-lhe que andava à procura de
um botão. Mas esta última parte não era verdade.
ETideman, a ruiva forte de 35 anos que nessa tal noite disse numa
voz límpida e clara: «Pois, estás a ver, nisso sou como uma criança. Se

Etty Hiíleium D i á r i o 1941-1943 1)9


Terça-feira de manhã [30 de Dezembro de 1941], em que eu esteja contigo uma temporada e te explique então tudo o
às 10 horas. que há dentro de ti e com isso elimine o desassossego que tens con-
tigo, porque aos poucos e poucos vou começando a entender como é
Assim era a sensação que eu rinha ao acordar em Deventer: eu a tua personalidade.
crescia rígida e pré-detetmínada na manhã fria. A mãe, que a uma determinada altura disse: «Pois é, na verdade,
Umas breves palavras, mais pela ideia de ser a minha própria con- sou religiosa.» A «tia Piet»" disse há uns dias quase o mesmo, aqui em
vidada por uns instantes, junto a este candeeiro fiei. Alguns assuntos frente à lareira: «Na verdade, sou religiosa.» O cerne da questão está nes-
terrenos. Noto que me faz muito bem levantar-me cedo. E ainda aque- se «na verdade». As pessoas aprendem a deixar de lado esse «na ver-
la água fria, acho isso quase heróico. Na realidade sou uma pessoa dade» e também a coragem de dizer sim aos seus sentimentos mais
muito saudável, o principal no meu caso é o equilíbrio mental, o res- profundos. O que querem elas dizer com esse «•na verdade»*
to funciona então por si. Estou grata, ainda não consigo achar as palavras para dizer- o
O pequeno-almoço foi abrilhantado com uma perna de frango. quanto' estou grata, por o acompanhar no melhor estádio da vida dele.
Querida mamãzocas, que traduz todo o seu amor em pernas de fran- «Grata» não serve como palavra.
go e ovos cozidos.

O comboio para Deventer. Quando vejo uma grande quantidade Quarta-feira [31 de Dezembro de 1941],
de caras em redor, quero escrever um romance — Abelardo e Heloísa. às 8 horas da noite.
A vasta paisagem pacífica e também um pouco triste. Olhei pela janela
e foi como se atravessasse a paisagem da minha alma. A paisagem das O médico dos bofes, debruçado sobre o seu largo tórax, a modos
almas. Tenho isso muitas vezes, como se a paisagem exterior fosse um que se riu dele. A todas as suas perguntas, se ele tinha problemas de
reflexo da interior. Quinta-feira à tarde por um breve período ao lon- tosse ou de expectoração, S. respondeu sempre com: «.Infelizmente não
go do rio Ijssel. Uma paisagem radiosa, vasta e límpida, igualmente a lhe posso ser útil.» A primeira coisa que ele disse quando regressou à sala
sensação de caminhar pela própria alma. Que maneira de dizer asque- de espera foi: «Tenho de ir para Davos imediatamente.-» Eu insisti que,
rosa. Cala-te, mas é. nesse caso, o harém inteiro o acompanhasse.
«Poissim, a Suíça hã-deficar-lhe muito agradecida.» Na rua, tive de
Mãe. Repentinamente a onda de amor e compaixão, que dissipava me rir dele o tempo todo. E ele ameaçador: «Pois espera até sexta-feira,
com ela todas as pequenas irritações. Cinco minutos depois, outra vez até às radiografias.» Numa carroça de legumes e frutos foi com dificui-
irritação, claro. Mas depois, a uma hora mais tardia, novamente uma
sensação de: talvez chegue um tempo, quando fores muito velhinha, * Petronella Smelik.

léo Ettv H i l l f s u m D i á r i o 194Í-194} 161


dade que conseguimos arranjar três limões, pagando-os a dez cernimos Sinro-me tão «normal", tão muitíssimo normal e satisfeita, assim
cada um em vez dos sete esrabetecidos. E estávamos com uma vontade sem aqueles pensamentos terrivelmente profundos e torrurantes e pesa-
imensa de comer bolos com natas. E assim íamos nós vagueando no- dos, mas tão normalíssima, tão cheia de vida e muito profunda, porém
vamente pelas ruas. Eu ía pendurada no braço dele de um jeito com- uma profundidade que pode igualmente ser encarada como «normal».
plicado, com o gorro cossaco todo torto na minha cabeça, e ele, com Além disso, a salada de salmão que nos espera esta noite merece ser
aquela boina basca esquisita, sobressaindo na velha paisagem sombria mencionada. E agora faço chá, e a Tia Hes está a fazer um casaquinho
como se fôssemos um «casal^ de amantes-» tontinhos. E agora já são em croché, e o Pai Han está às voltas com uma máquina fotográfica,
quase oito e meia. A última noite de um ano que foi para mim o mais oh, e porque não? Dentro destas quatro paredes ou de outras quatro,
rico e frutuoso e, sim, também o mais feliz de todos os anos que pas- que importa? Afinal o essencial está noutro ponto. E em Jung: espero
saram. E se eu tivesse de dizer, numa frase, por que razão este ano —- ainda ter um bocadinho de tempo para ele esta noite.
a partir de 3 de Fevereiro, quando timidamente toquei à campainha
do n.° 27 na rua Courbet e um sujeito assustador, com uma antena na
cabeça, olhou para as minhas mãos —, essa frase teria de ser: através 7 de Janeiro de 1942, quarta-feira, às 8 horas da noite.
da grande tomada de consciência. Tomada de consciência e por isso o
poder dispor das forças mais profundas dentro de mim. Antigamente Hoje à tarde ao longo do canal coberto de neve, após a inesquecí-
também pertencia ao número de pessoas que tinham de vez em vel sessão no Conselho Judaico, ele disse-me: «.Estou menos convencido
quando a sensação de: «Pois é, na verdade sou realmente religiosa.» da excelência dos meus conhecimentos do que das minhas qualidades hu-
Ou algo assim positivo. Agora, preciso de me ajoelhar, às vezes de re- manas no seu conjunto.»
pente, até mesmo numa noite fria de inverno, em frente à minha E mais tarde, cada um de nós agarrado a uma correia de cabedal
cama. E o «escutar-se». O deixar-me guiar, não mais por aquilo que na linha do eléctrico 24:
me atinge exteriormente, mas por aquilo que emana de dentro de «Foi bom você estar presente, você anima-rne sempre porque sente uma
mini. Ainda é só um começo. Eu sei. Mas não um começo desequili- enorme empatiapor tudo e eu sou na realidade uma "figura de palco'', por
brado, já tem alicerces. assim dizer.»
São agora oito e meia, um aquecedor a gás, tulipas amarelas e ver- Tenho algures em mim a pretensão de ter de formular algo mui-
melhas, e de repente, do pé para a mão, uma pastilha de chocolate da to engraçado e certeiro e especial ou então de calar-me totalmente. E
marca Droste, da tia Hes" e as três pinhas do urzal de Laren que ainda por isso nunca chego a escrever todo o tipo de pequenos acontecimen-
estão espalhadas junto à rapariga marroquina e ao Púchkin. tos cómicos inesperados porque, até mesmo para mim, não me quero
arriscar a ser «sensaborona». Mas vou obrigar-me agora a mirn própria
Hes Wegerif. irmã de Han. a anotar o que se passou esta tarde sem floreados, só os factos comedi-

IÓ2 Eirv Diário 163


dos. Embora factos comedidos não existam realmente, quando S. está tro diz «isso é uma mesa», então trata-se de duas mesas totalmente di-
implicado neles, porque a influência que ele exerce tem sempre um ferences. As coisas que ele diz, incluindo as mais simples, soam mais
grande papel. imponentes, importantes, eu diria quase «com mais carga» do que se
Portanto: às quatro e meia, no Conselho Judaico. Não havia mui- um outro as dissesse. E isso não é por ele tomar uma pose importante,
to entusiasmo por este empreendimento. Interrogatórios, questões mas porque nele as coisas brotam de fontes mais profundas e fortes -—
patrimoniais, «certificado de emigrante», Gestapo, e outras coisas exci- e também mais profundamente humanas — do que na maioria das
tantes desse género. Um jovem sentado a uma mesa. Rosto flácido, sen- pessoas. E no seu trabalho ele busca sempre o lado humano e nunca o
sível, inteligente. A «secretária russa» saltita atrevidamente com S. para sensacional, embora crie sensacionalismos, exactamente por sondar as
todo o lado, como se lhe competisse estar ali, como se isso se devesse à pessoas tão profundamente.
sua surdez, mas na verdade para não perder pitada. E desta vez, foi de Portanto aquele escritório despido, no Conselho Judaico. O jo-
novo largamente recompensada. Após uma amena cavaqueira entre S. vem sensível que tinha as mãos levantadas, o Mefistófeles interessado
e o jovem afável e realmente muito simpático, aparece de repente um e S., que depois de meia dúzia de observações estabeleceu um contacto
homenzinho cheio de entusiasmo, direito a S.: «Boa tarde, senhor S.» humano muito intenso com o jovem. E nós tínhamos lá ido para ser
S. olha para o homem, na posse de uma deliciosa cabeça sarcástica de interrogados acerca do nosso património, é bom não esquecer. O que
Mefistófeles para o corpo pequeno, não o reconhecendo e diz-lhe à sor- S. disse exactamente, já não me recordo com precisão, mas ele disse,
te: vAh, sim. Você esteve uma vez num dos meus cursos.» entre outras coisas: «Esse trabalho que você aqui faz, você fá-lo bem, mas
Isso acontece assim por toda a Europa, imagino eu. Quando ca- é contra a sua verdadeira natuteza.» E, como quem não quer a coisa:
minho ao lado dele na rua, de tantos em tantos metros surge alguém «Ébastante introvertido, este homem.» Não, isto afinal sempre me é de-
com a mão estendida em direcção a ele, e S. diz então imediatamente: masiado difícil de reproduzir. Eu estava a participar nisto corajosa-
«Oh, você de certeza que foi um dos meus pacientes.» Este homem, com mente como «aluna» bem comportada e disse entre outras coisas: «Ele
uma cara dura, sarcástica e diabólica, contrastando de modo tão vivo também tem algo de feminino e de sensível.» E viu-se que havia talentos
com a cara sensível e afável do jovem, revelou não ter estado em ne- no jovem, que não se conseguiam revelar devido à falta de confiança
nhurn curso de S., mas conhecê-lo por intermédio dos Nethes. No en- em si. E também: «Se for colocado perante um assunto, há-de fazê-lo
tanto gostaria imenso de aparecer um dia para uma consulta. E o duro correctamente, mas se tiver de escolher entre várias coisas, então fica in-
disse ao afável: «Põe-te a pau com o senhor S., ele sabe tudo sobre ti. deciso, etc., etc.» Resumindo e concluindo, em poucos minutos o jo-
Basta-lhe olhar as tuas mãos.» E o afável abre imediatamente a pata di- vem foi deitado abaixo, por assim dizer, e ficou completamente
reita em cima da mesa. S. tinha algum tempo e condescendeu. E na perplexo e disse: «.Mas senhor S., aquilo que o senhor me diz aqui em dois
realidade é muito difícil descrever o que se passou em seguida. Tam- minutos é exactamente o mesmo que está num teste que eu fiz.» Marcou
bém porque acontece o seguinte: se S. diz «isso é uma mesa», e o ou- imediatamente uma consulta e saiu-se repentinamente com milhemos

164 Etty H i l l e s u m Diário 1941-1945


conselhos sobre a maneira de preencher os formulários. Noto que não entendimento de que não consigo expressar em abraços o que sinto
tenho jeito para reproduzir a sessão inesperada e cómica. Mais tarde, por alguém. E a sensação de que alguém nos meus braços, precisa-
parecíamos uns miúdos eufóricos, sacudidos de riso no canal coberto mente nos meus braços, me foge. Creio que prefiro ver a boca dele ao
de neve, por causa do estranho desenlace daquele caso burocrático: longe e desejá-la do que possuMa sobre a minha. Em momentos mui-
uma marcação para uma consulta e um funcionário que, motivado to raros isso traz-me uma espécie de felicidade, para usar uma vez esta
por uma simpatia repentina, estaria disposto a violar a lei se pudesse. grande palavra. E agora durmo esta noite ao lado do Han, por pura
tristeza. Tudo isto é muito caótico.
Ora bem, agora sei-o, ele reza depois de ter tirado a dentadura.
Domingo à noite, 11 de Janeiro [de 1942], às onze e meia. Bastante lógico, na realidade. Uma pessoa deve primeiro cumprir to-
das as acções terrenas.
Estou contente pela enorme pilha de louca por lavar que me es- Aparentemente encontro-me num período de florescimento, irradio
pera amanhã de manhã, na pequena cozinha desordenada. E uma es- por todos os lados, diz ele, e desfruta disso. Há um ano atrás eu estava
pécie de penitência. Consigo entender alguma coisa dos monges que, realmente moribunda com as minhas sestas de duas horas seguidas, o
em ásperos hábitos, se ajoelham nas pedras frias. Também preciso de meu meio quilo de aspirina por mês, era mesmo de meter medo,
reflectir seriamente sobre estas coisas. Afinal, sempre estou um bocadi- quando penso nisso. Esta noite folheámos algumas páginas destes ca-
nho triste esta noite. Mas fui eu própria a querer essas carícias. O que- dernos. Para mim tornou-se verdadeiramente «literatura clássica», pa-
rido, e ele que tinha tido a intenção de levar uma vida casta durante recem-me tão distantes todos os problemas que eu tinha nesse rempo.
muitas semanas. E isso por causa da Gestapo, que o espera daqui a al- Foi uma caminhada difícil até reencontrar este gesto íntimo para Deus,
gumas semanas. Para, dizendo-o de modo infantil, não exalar nada a estar à noite à janela e dizer: «Agradeço-te Senhor.» Nro meu reino in-
não ser bondade e pureza e, dessa maneira, fazer com que os bons es- terior reinam a paz e o sossego. Foi na verdade um caminho difícil. Ago-
píritos que flutuam no cosmos se concentrem neíe. Por que motivo ra tudo parece tão simples e óbvio. Esta frase perseguiu-me durante
uma pessoa não poderia crer numa coisa dessas? E foi então que apa- semanas a fio: «Uma pessoa também deve ter a coragem de dizer que
receu uma bravia «-rapariga ãa Quirzígia» que lhe confundiu os sonhos crê.» Pronunciar Deus. Neste momento presente, algo enfraquecida,
de castidade. E perguntei-lhe se ele agora, esta noite na cama, ao rever cansada, triste e não completamente satisfeita comigo própria, não o
o dia sentiria arrependimento. «Não», disse ele, «nunca me arrependo sinto dessa maneira, mas continua muito próximo de mim. Esta noi-
de nada e no fim foi bonito, e para mim foi uma lição de que ainda há te de certeza que não vou dizer mesmo nada a Deus, embora haja um
"um resíduo terreno"em mim.» Mas essa aproximação física repentina desejo pelas pedras frias de uma reflexão sobre as coisas e de levar as coi-
parte de mim através de uma «proximidade espiritual-» e por isso mesmo sas a sério. Levar a sério as coisas do corpo. Todavia o meu temperamento
sempre é correcta. E o que retiro disto? Mais uma vez, tristeza. E um ainda faz demasiadas vezes o que quer, ainda não está em harmonia com

166 Etrv Hillesum Diário [941-1943


o espírito. Porventura creio que existe em mim a necessidade de har- 19 de Fevereiro de 1942. Quinta-f eira às 2 horas da tarde.
monia, igualmente aqui. E contudo acredito cada vez menos num só
homem para o meu corpo e para a minha alma. Se eu tivesse de dizer o que me causou mais impressão esta tarde?
Mas a minha tristeza não é mais a de antigamente. Não me vou As grandes mãos roxas, devido ao inverno, de Jan Bool. Houve outra
abaixo tão profundamente. Na tristeza, o levantar-se já vem incluído. vez alguém torturado até à morte. Aquele rapaz afável da Cultura'.
Antigamente pensava que iria continuar triste para o resto da vida. E Ainda me recordo de ele tocar bandolim. Nessa altura andava com
agora sei que esses momentos fazem parte do ritmo da vida e que está uma rapariga simpática que estava no curso de russo comigo. Entre-
bem assim. E novamente aquela confiança, aquela grande confiança, tanto tinham-se casado e já tinham uma criança. «As bestas», disse Jan
também em mim. Confio igualmente na minha seriedade e entre- Bool no apertado corredor da universidade, «deram cabo dele.»
tanto eu própria sei que hei-de conduzir bem a minha vida. E Jan Romein e Tielrooy e mais alguns dos frágeis professores, nes-
Há momentos, e então estou quase sempre sozinha, em que exis- sa mesma Veluwe13 onde, em tempos idos, costumavam passar as fé-
te um sentimento muito profundo de amor e gratidão por ele, um rias numa pensão simpática, estão agora presos numa barraca cheia de
sentimento de: « Tu és-me tão próximo que eu gostaria ãe partilhar as correntes de ar. Nem sequer têm autorização para vestir os seus próprios
noites contigo.» E estes são, pois, para mim, os pontos altos da nossa re- pijamas, não podem ter nada que lhes pertença, contou-me Aleida
lação. E é bem possível que uma noite dessas acabasse realmente numa Schot na sala do café. A intenção é torná-los selvagens a fim de lhes in-
catástrofe. Há aqui ou não uma estranha disparidade? duzir um complexo de inferioridade. Moralmente, os sujeitos são sufi-
E agora boa noite, porque sinto que estou completamente a dizer cientemente fortes, mas a saúde da maioria sempre é bastante frágil. Pôs
disparates devido ao sono. Ab, a lavagem da loiça amanha de manhã. conseguiu. Está agora num convento em Haaren e escreve um livro.
E no entanto: não quero o corpo dele absolutamente para nada, É isso que consta, etc. Foi um desconsolo nas aulas esta manhã.
embora às vezes me sinta de repente apaixonadíssima. Será porque o No entanto não foi um desconsolo total, houve um ponto lumi-
amo tão profundamente e quase «cosmicamente», que nem sequer é noso. Uma breve conversa inesperada com Jan Bool pelo beco frio e
possível a aproximação através do corpo? estreito de Langebrug e na paragem do eléctrico. «Mas o que é que as pes-
Eu e a Tide somos as duas mais chegadas e dois contrastes enor- soas têm, que querem destruir os outros?», perguntou Jan amargurado.
mes. Devemos também gostar muito uma da outra. Esta tarde, quan- Digo eu: «As pessoas, pois, as pessoas, mas lembra-te que tu tam-
do a Tide nos acompanhou à porta e nos beijou aos dois, foi um bém fazes parte delas.» E isso quis ele admitir inopinadamente, o cas-
momento de intimidade tão estranho enrre nós três. E agora, vais fi-
nalmente deitar-te?
* Provavelmente Samuel Lobo, fuzilado em Janeiro de 1942, Escava à Frente da Livraria Cultura f mais
carde Pegasus).
- Veluwe: região um pouco acidentada e coberta de bosques no centro da Holanda. (N. da T)

Eccy Hillesurn Diário I94Í-I94J


murro, mal-encarado Jan. «E a maldade dos outros também esrá den- fatia de pão com meí junto à lareira. Tudo isto com aquilo a que se
tro de nós», continuei eu a pregar. E não vejo outra solução, não vejo chama entrega. Abri a Bíblia numa página ao acaso, mas ela não deu
mesmo outra solução que não seja retornar ao teu próprio centro e daí resposta a esta manhã.
erradicar toda a maldade. Já não acredito que possamos melhorar al- Também não faz mal, sinceramente. Não havia perguntas, a única
guma coisa no mundo exterior sem nos melhorarmos primeiro a nós coisa que há é uma grande confiança e gratidão por a vida ser tão bela.
mesmos. E essa parece-me ser a única lição desta guerra, termos apren- £ por isso, este é um momento histórico: não por ter de ir já daqui a
dido a procurar somente dentro de nós e em mais nenhuma parte. pouco com S. à Gestapo, mas porque apesar de eu saber que a vida é
E Jan, que estava de acordo comigo assim por acaso, acessível e ques- tão bela e cheia de possibilidades para o futuro, saber igualmente o
tionador, e sem aquelas teorias sociais rígidas como antigamente. E ele que vai acontecer. Oxalá que eu também possa entrar com ele.
disse: «Também são rão reles, esses sentimentos de vingança em rela-
ção ao exterior. Viver somente na mira desse momento de vingança.
Também não devemos querer isso.» Estávamos à espera do eléctrico ao 27 de Fevereiro [de 1942]. Sexta-feíra de manhã, às 10 horas.
frio, Jan com as suas grandes mãos roxas do inverno e com dor de dentes.
E contudo não eram reorias que nós anunciávamos. Os nossos profes- Uma pessoa constrói o seu próprio destino a partir de dentro. Es-
sores estão presos, mais uma vez deram cabo de um amigo do Jan e
crevi isto cedinho na quarta-feira de manhã e, de imediato, senti-me
ainda restam demasiadas coisas para mencionar, e nós dissemos um ao
um pouco inquieta por causa desta afirmação irreflectida, pelo que pro-
outro: «São tão reles esses sentimentos de vingança.»
curei prová-la a mim mesma. E de repente tornou-se-me clara como
Esse foi um ponto deveras luminoso, hoje.
cristal. Claro que cada pessoa constrói o seu próprio «-destino» a partir
E agora dormir um bocadinho e depois ir conhecer a amiga* do
de dentro. As situações em que uma pessoa pode estar neste mundo
Rilke. Tudo continua, e porque não?
não são muitas: é-se esposo, é-se pai, é-se mulher, é-se mãe, é-se prisio-
Eu devia escrever com mais regularidade nestas linhas azuis.
neiro ou guarda numa prisão, não faz tanta diferença como isso, os
Mas muita falta de tempo.
mesmos muros a todos rodeiam. Etc., mais tarde aprofundar isto. Mas
o modo como a pessoa lida interiormente com os acontecimentos da
Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 1942. vida é o que determina o seu destino. Essa é a tua vida. Uma pessoa
não conhece a vida de outra conhecendo só os factos exteriores. Os
São neste momento sete e meia da manhã. Cortei as unhas dos factos exteriores, oh, não são muito diferentes nas vidas de cada um.
pés, bebi uma chávena de verdadeiro cacau da Houten e comi uma Para conhecer a vida de alguém é preciso conhecer os seus sonhos, os
seus estados de espírito, saber que tipo de relação há entre ele e a mu-
* IlseBíumeruhai, conhecedora de Rilke. lher e a morte e as suas desilusões e as suas doenças.

Hillcsum Diício 171


Éramos um grupo grande naquelas instalações da Gestapo, na portante da manhã parece-me ter sido o facto de eu ter tido uma com-
quarta-feira de manhã bem cedinho, e os factos de todas as vidas eram paixão sincera peio rapaz, que o que eu mais desejava era perguntar-lhe:
os mesmos naquele momento: estávamos todos no mesmo espaço, «Tiveste uma juventude assim tão infeliz ou a tua namorada enganou-
tanto os homens sentados às escrivaninhas como os interrogados. O que -te?» Ele tinha um aspecto atormentado e agitado, de resto também
determinava a vida de cada um era o modo como cada qual no seu muito desagradável e frouxo. O que mais me apeteceu foi começar logo
íntimo encarava a situação. ali com um tratamento psicológico. Estando eu muito consciente de
Logo um jovem andando para trás e para a frente deu nas vistas, que estes jovens são,dignos de pena enquanto não puderem fazer mal,
uma cara insatisfeita, não escondendo a insatisfação de maneira ne- mas sendo um perigo de morte e devendo ser erradicados, se soltos à
nhuma, agitado e atormentado. Extremamente interessante de observar. caça da humanidade. Porém, criminoso é somente o sistema que usa
Ele procurava pretextos para gritar aos infelizes judeus: «Aí mãos fora estes tipos.
das algibeiras se fazem favor», etc. Acheí-o mais digno de pena do que Mais uma coisa acerca dessa manhã. A muito forte percepção de
aqueles a quem gritava e, aqueles a quem gritava, dignos de pena en- que eu não sou capaz de odiar as pessoas, apesar de todo o sofrimento
quanto amedrontados. e injustiça que acontecem. E que todo esse horror e atrocidades que
Quando apareci com S. em frente à escrivaninha dele, gritou-me: ocorrem não são algo secretamente ameaçador e original, exterior a
«O que é que você aqui acha de ridículo?» Apeteceu-me responder-lhe: nós pessoas, mas algo que nos é próximo, inerente e causado por nós,
«Para além de si, nada», mas por considerações diplomáticas achei me- humanos. E que por isso sinto mais confiança e menos terror. O ater-
lhor não o dizer. «Pois, você está a sorrir constaníemente», continuou ele rorizante é os sistemas crescerem para lá das pessoas e manterem-nas
a berrar. E eu muito inocente: «Estou absolutamente inconsciente disso, numa garra satânica, tanto os criadores como as vítimas desse sistema,
esta é a minha cara normal.» E ele: «Deixe-se de parvoíces, se faz favor. do mesmo modo que os grandes edifícios e torres construídos pelas
Saia daqui para fooora» com uma cara tipo: «Espera lá que eu já falo con- nossas próprias mãos a um dado momento nos ultrapassam, nos do-
tigo», e esse devia ter sido provavelmente o momento psicológico em minam e podem desmoronar, soterrando-nos.
que eu me devia ter assustado valentemente, mas apercebi-me do tru-
que demasiado depressa.
Na realidade não estou com medo. Não por um sentimento de 12 de Março de 1942. Quinta-feira,
fanfarronice, mas porque no fim sempre estou a lidar com seres huma- às onze e meia da noite.
nos e hei-de tentar entender toda e qualquer expressão de quem quer
que seja, na medida do possível. E isso foi o que ficou para a história esta Isto foi indescritivelmente bonito, Max, a nossa chávena de café,
manhã, não o facto de um jovem infeliz da Gestapo ter gritado comigo. o mau cigarro e o nosso passeio pela cidade na escuridão, de braço dado,
Talvez devesse ter ficado indignada ou amedrontada, mas o mais im- e o facto de caminharmos os dois juntos por ela. Dissemos um para o

172 Ectv H i l l c s u m D i á r i o 1941-1543 173


outro: «E preciso ser-se russo para isto, para viver isto com tanta am- mano. E, de certo modo, foi igualmente isto o que me alegrou: que no
plidão.» Alguém que conhecesse a nossa história havia de achar extre- fim ainda restava isto, este bem-estar e a familiaridade com que nós
mamente bizarro e surpreendente este encontro espontâneo, a meio dois trocámos ideias, este breve estar na proximidade um do outro, o
do ano, na realidade sem motivo nenhum — excepto o facto de o avivar de memórias que não mais nos torturavam, apesar de no pas-
Max tencionar casar e querer o meu conselho, dá vontade de rír, pre- sado termos literalmente dado cabo da vida um do outro.
cisamente o meu conselho. E também, por um momento, constatar muito calmamente:
, E isto foi tão bonito — a pessoa rever o namorado da juventude e «Sim, ficámos totalmente com os nervos em franja, no final.»
poder ver-se reflectida na luz da sua própria maior maturidade. Ele dis- Todavia, foi o mesmo Max que perguntou de repente: «Tiveste
se ao princípio da noite: «Não sei o que mudou, mas houve algo que nesse tempo alguma relação com outro?» E eu pus dois dedos no ar. E
mudou. Acho que te tornaste uma mulher a sério.» E no final da noite: mais tarde, quando mencionei brevemente que eventualmente pode-
«Não, não mudaste para pior, não era isso que queria dizer, os teus tra- ria casar com um emigrante, a fim de o poder apoiar, em caso de ele ir
ços, a tua mímica, tudo isso ainda é tão vivo e expressivo como era anti- para um campo de concentração, o rosto toldou-se-lhe por um ins-
gamente, mas agora há uma grande ponderação por detrás, é agradável tante. E ao despedir-se, disse-me: «Prometes que não fazes tolices? Te-
estar na tua companhia.» Ou algo desse género. E ele iluminou por um nho imenso medo de que um dia quebres.» E eu: «Nada na vida me
instante a minha cara directamente com uma pequena lanterna, de- fará quebrar», e eu ainda ia para dizer, mas nessa altura já estávamos de-
baixo do telheiro daquele café na alameda Ceintuur, e em seguida riu-se, masiado afastados: «Quando uma pessoa leva uma vida interior, talvez
confitmou com a cabeça e disse decidido: «Sim, és tu.» E nesse mo- nem haja assim tanta diferença entre estar fora ou dentro dos muros
mento as nossas faces roçaram-se meio desajeitadas, meio familiares, e de um campo.» Será que irei conseguir justificar estas palavras a mim
caminhámos em direcções opostas. Foi realmente indescritivelmente mesma, mais tarde? Será que as conseguirei pôr em prática? Não deve-
bonito. E embora possa soar paradoxal: é capaz de ter sido este o nosso mos ter muitas ilusões. A vida vai ser muito dura. Havemos de ser se-
primeiro encontro verdadeiramente bom. E ao caminharmos disse ele parados, todos os que nos são queridos. Creio que esse tempo já nem
de repente: «Penso que, daqui a uns anos, a gente talvez possa ser amigos se encontra muito distante. No íntimo, uma pessoa deve ir-se prepa-
a sério.» E assim nada se perde. As pessoas voltam para ti e, no íntimo, rando cada vez mais.
podes continuar a viver com elas até voltarem anos mais tarde. Gostava de reler as cartas que lhe escrevi quando eu tinha deza-
Dia 8 de Março escrevi ao S.: «A minha paixão antigamente não nove anos.
era senão um fixar-me incerta, a quê na realidade? A algo a que uma pes- Ele disse entre outras coisas: «Sempre fui muito ambicioso por ti,
soa não conseguia de modo algum fixar-se com o corpo.» estava à espera que escrevesses calhamaços.» Eu disse: «Max, ainda
E foi ao corpo do homem que esta noite caminhou a meu lado, hão-de vir. Estás com pressa? Sei escrever e sei também que tenho algo
tão fraternalmente, que naquela altura me fixei com desespero hu- a dizer. Mas porque não havemos de ter paciência?» «Eu sei que tu sa-

174 Ecty H i i í e i u m Diírio 1941-1943 175


bes escrever. De vez em quando, ponho-me a ler novamente as cartas Terça-feira de manhã [17 de Março de 1942],
que me escreveste, tu sabes escrever.» às nove e meia.
Foi indescritivelmente bonito. Que, neste mundo dilacerado e
ameaçado, estas coisas ainda sejam possíveis. Isso é muito consolador. Ontem à noite, quando eu ia ter com ele de bicicleta, havia um
E talvez ainda sejam possíveis mais coisas do que aquelas que nós pró- grande e aprazível desejo de primavera em mim. E enquanto eu peda-
prios queremos admitir. Que um amor da juventude se reencontre lava em cima do asfalto da rua Lairesse, desejando-o e com sonhos na
repentinamente, olhando para o seu passado com um sorriso. E recon- cabeça, senti-me de repente acariciada por um ar tépido de primavera.
ciliado com esse passado. Foi isso que aconteceu comigo. Eu dei o E subitamente pensei: «Assim também está bem. Porque é que uma
mote esta noite, e o Max acompanho u-me. Isso já foi muito. Como pessoa não havia de experimentar uma grande e terna euforia pela pri-
ele vai interiorizar esta noite, isso não sei. Porém, que também para ele mavera e, também, por todas as pessoas?» Uma pessoa pode igualmente
esta foi uma bela aventura, disso tenho eu a certeza. E assim, nem tudo encetar amizade com um inverno, ou uma cidade ou um país. Lem-
bro-me da faia cor de vinho, dos meus anos de adolescência. Tinha
é uma coincidência, uma pequena «brincadeira», de vez em quando
com ela uma espécie de relação especial. À noite, podia de repente an-
uma aventura excitante. Uma pessoa fica com a sensação de que tem
siar por ela, e, então, ia visitá-la. Fazia meia hora de bicicleta e depois
um «/destino», onde facto após facto se conjuga, com um significado.
andava à volta dela, cativada e enfeitiçada pela sua cor carmim. Sim,
E, quando penso na maneira como caminhámos juntos pela cidade es-
por que razão é que uma pessoa não poderia sentir amor por uma
cura— amadurecidos e enternecidos com o nosso próprio passado, e
primavera? E as carícias do ar primaveril eram tão delicadas e tão en-
com um sentimento de que ainda tínhamos muito mais para contar,
volventes, que mãos masculinas, mesmo que fossem as dele, em com-
deixando contudo no ar quando nos voltaríamos a ver, talvez ainda de-
paração com elas me haveriam de parecer rudes.
more alguns anos —, então dá-me uma sensação de gratidão por tal
E foi assim que cheguei a casa dele. O pequeno quarto de dormir
ser possível numa vida. Já é quase meia-noite e vou para a cama, a sé- apanhava um pouco de luz vinda do quarto de trabalho e, quando en-
rio, vou para a cama. Sim, foi muito bonito. E no final de cada dia, trei, reparei que a cama dele estava aberta e que, dobrado por cima dela,
sinto a necessidade de dizer: «A vida é muito bela, apesar de tudo é havia um pesado ramo de orquídeas aromatizando o quarto. E na me-
muito bela.» Sim, sim, eu desenvolvo uma opinião própria sobre esta sinha ao lado da almofada havia narcisos, muito amarelos, tão extrema-
vida, uma opinião que até defendo contra outros e isso significa mui- mente amarelos e frescos. A cama aberta e as orquídeas e os narcisos —
to, tendo eu sido sempre uma criança tímida. E ainda há aquelas con- uma pessoa nem precisa de se deitar acompanhada naquela cama. En-
versas, como esta noite com Jan Polak", em que a conversa se torna um quanto ali estive, por um instante, naquele quarto meio iluminado,
dar testemunho. foi como se tivesse tido uma noite inteira de amor. E ele estava sentado
à pequena escrivaninha e de novo me saltou à vista como o rosto dele
" RJ. Polak, advogado. se assemelhava a uma paisagem antiga, cinzenta e gasta.

Etty Hilifium Diário 1941-1943 177


Pois, estás a ver, uma pessoa necessita de ter paciência. O teu de- O pequeno botão vermelho e o pequenino botão branco, tão fe-
sejo deve ser como um navio lento e majestoso, navegando no oceano chados, tão inatingíveis, porém tão indiziveímente amorosos, fui obri-
infinito e não à procura de um local onde largar a âncora. E de súbiro, gada a olhar para eles todo o tempo, esta tarde, ouvindo Hugo WolP4.
inesperadamente, dás de caras com um local onde ancorar por um mo- O Riiksmuseum também lá estava através das janelas, tão provocante-
mento. Ontem à noite, encontrou o seu ancoradouro por um breve mente fresco e novo nos seus contornos e, contudo, tão extremamente
instante. Foi só há quinze dias que eu fui tão bravia e indomável e o familiar. Já não podemos mais passear no Passeio e qualquer grupinho
puxei para mim, de tal forma que ele caiu por cima de mim e eu me infeliz de duas ou três árvores foi declarado bosque e tem lá uma tabu-
senti mais tarde tão infeliz que pensei que dificilmente conseguiria leta pregada: «Proibido a judeus.» Essas tabuletas surgem cada vez mais,
continuar a viver? E passou-se só uma semana desde que eu me enfiei por toda a parte. E isso, apesar de ainda haver tanto espaço onde as
nos seus braços e, de um modo ou outro, permaneci infeliz porque ha- pessoas podem estar e viver e ser alegres e tocar música e amar-se. O
via ainda qualquer coisa de forçado nisso? Glassner''trouxe um saquinho de carvão, aTide alguma lenha, o S. açú-
E todavia, estes estádios terão sido necessários para chegar a este car e bolachas, eu tinha chá e a nossa pequena artista suíça apareceu de
deslizar ao encontro um do outro, a esta familiaridade, a este ser que-
repente com um grande bolo. E o S. leu primeiro em voz alta umas
rido ao outro e ser bom para ele. E uma noite destas fica para sempre,
coisas sobre Hugo Wolf. E, nalgumas frases relatando a sua vida trágica,
em tamanho enorme, na memória. E se calhar, uma pessoa nem pre-
algo lhe tremelícava em volta da boca. É igualmente por isso que eu
cisa de muitas destas noites para ter a sensação de levar uma vida amo-
gosto muito dele. É tão genuíno. E cada palavra que ele diz ou canta ou
rosa plena e rica.
lê, vive-a. Portanto se ele lê coisas tristes, nesse momento ele está ver-
dadeiramente triste. E eu acho tocante quando ele está assim tão emo-
cionado que parece que vai chorar. Nesse caso, é com prazer que o
Domingo [22 de Março de 1942], às nove horas da noite.
acompanho na chorosa cantilena.
A minha circunspecta marroquina preta olha novamente para um E o Glassner, que está cada vez melhor ao piano. Esta tarde eu
jardim em flor, ou melhor dizendo, ela olha por cima como sempre, disse-lhe em silêncio: «Acompanhamos os teus progressos, silencioso
com aquele olhar escuro, ao mesmo tempo sereno e animalesco. Os Glassner.»
pequenos crocos amarelos e roxos e brancos pendurados sobre a bor- Existem momentos em que eu de repente entendo fisicamente,
da da caixa de grãos de chocolate estão cansados e exaustos da vida que por assim dizer, por que os artistas criadores se metem na bebida, co-
levaram desde ontem. E depois ainda as pequenas campânulas amare- metem toda a espécie de excessos, se destroem, etc. Como artista é pre-
las no verde cristal transparente. Afinal como é que vocês se chamam?
S. comprou-as, num arroubo de primavera. E ontem à noite, já ele tinha ' Compositor austríaco. (iV. da TJ
aparecido com um ramo de tulipas. Evaristos Glassner, amigo de Mischa. Após a guerra, foi organisca e professor de piano em Amsterdão.

178 . E se v H i l l e s u m Diário • *- 1 J
ciso ter realmente um carácter muito sólido para, moralmente, perma- atrás da minha janela. E os troncos, achei-os esta tarde, um andar abako,
necer nos eixos, não cair numa perda de referências. Eu ainda não se- atrás das largas janelas. Os botões de tulipas, o vermelho e o branco,
ria capaz de descrever isto totalmente. Há momentos em que o sinto inclinados um para o outro, o nobre piano de cauda, preto e secreto e
muito fortemente. Toda a minha ternura, todas as minhas intensas complicado, um ser em si e, para lá das janelas, os ramos negros con-
emoções, todo o ondulado mar espiritual, lago espiritual, oceano espi- trastando com o ar luminoso e, mais longe, o Rijksmuseum. E S., ora
ritual ou lá como o queiram chamar, desejaria vertê-lo, deixá-lo fluir estranho, ora novamente familiar, simultaneamente longínquo e mui-
num só pequeno poema, mas também sinto que, se o tivesse conse- to próximo, ora um gnomo velho e feio, ora um bondoso tio fbçte co-
guido, me atiraria para um abismo sem reflectir, que beberia como mendo bolachas, voltando depois a ser o sedutor de voz cálida, sempre
uma esponja. Após um acto criativo, uma pessoa devia ser amparada diferente, meu amigo e, no entanto, constantemente distante.
por um seu próprio carácter muito forte, pot uma moral consistente,
eu-sei-lá-o-qtiê, para não resvalar, só Deus sabe até que fundo. E isso
saído de que sinistro desejo? Sinto-o em mim, como nos meus momen- 26 de Abril [de 1942], às dez horas da manhã de domingo.
tos íntimos mais frutuosos e criativos se erguem demónios ao mesmo
tempo, como existem forças destrutivas e autodestrutívas, à espreita. Por enquanto é só uma pequena anémona vermelha em má for-
Também não é o desejo vulgar de um outro, do homem, é algo de mais ma, mas, daqui a uma série de anos, dou com ela entre estas páginas.
cósmico, abrangente e imparável. Contudo, eu sinto que conseguirei Nessa altura ter-me-ei transformado numa matrona e, então, tomarei
controlar-me, nesses momentos também. E então, de repente, fico com esta flor seca nas mãos e direi um pouco saudosa: vejam, esta ané-
necessidade de me ajoelhar algures num canto sossegado e me domi- mona vermelha usei-a eu no cabelo no dia em que o homem que foi
nar e de me repor e de tomar cuidado para que as minhas forças não o meu maior amigo e o mais inesquecível da minha juventude fez 55
rebentem em mil pedaços, no incomensurável. anos. Foi no terceiro ano da Segunda Guerra Mundial, comemos
Ao fim da tarde, fui brevemente captada e rejeitada pela barreira macarrão clandestinamente e bebemos genuíno «café de grão», o que
do olhar translúcido e cinzento-claro de S., que por um momento rne fez a Liesl ficar alegre. Estávamos todos muito animados e pergun-
envolveu toda, e pela querida boca grande. Num instante, fui simul- támo-nos onde estaria a guerra no próximo aniversário, se já teria
taneamente acolhida e repelida. Mas eu tinha estado a tarde inteira a acabado. E eu estava com a anémona vermelha no cabelo e alguém
vaguear algures pelo espaço que nunca mais acabava, onde nenhum li- disse: «Agora pareces mesmo uma mistura de russa com espanhola.»
mite me detinha e, de repente, sempre dás de caras com ele — o limite E um homem qualquer, o suíço louro de sobrancelhas carregadas dis-
onde já não consegues suportar o incomensurável e, motivada pelo de- se: «Uma Carmen russa.» E eu perguntei-lhe então se ele não queria
sespero, poderias dar-te a excessos. E aquela ramagem escura no ar leve recitar-nos um poema do Guilherme Tell, com aquele seu engraçado
e cristalino da primavera, As copas das árvores, achei-as ao acordar, rrr suíço.

180 Eiry Hillesur Diário 1941-134; 181


E no final, caminhámos outra vez por aquelas ruas conhecidas do E eu apoio-me ainda mais sobre ele e afago o seu bondoso rosto
sul de Amesterdão e subimos até ao jardim dele. A Liesl foi andando à expressivo e digo à Liesl: «Sim, estás a ver? É esse sempre o grande lan-
nossa frente para casa e vestiu um vestido de seda preta brilhante, que ce com o S. Está sempre atento e tem sempre uma resposta para te dar,
ficava justo ao corpo magro, com mangas largas de um azul celeste isso por haver nele uma grande calma e prontidão, sempre, sempre
transparente, com esse mesmo azul celeste transparente por cima dos presentes, e é igualmente por esse motivo que cada hora passada com
pequenos seios brancos. E ela é mãe de dois filhos. E tão magra e frá- ele tem uma profundidade tão grande e uma pessoa nunca desbarata o
gil. E no entanto: esconde algures uma força primordial. seu tempo com ele.» E o S. olhou com uma espécie de surpresa infantil,
E o Han estava com um ar tão «elegante» e activo, e, na realidade, com uma expressão que eu ainda continuo a não ser capaz de descre-
no carrão com o nome dele em cima da mesa estava escrito: eterno ver, para a qual busco continuamente palavras há mais de um ano, e
amante jovem, pai de uma heroína, título que ele aceitou sob protesto. disse: «Então, mas isso acontece com todas as pessoas, não éò> Beijou a pe-
A Liesl disse-me mais tarde: «Em capaz de me apaixonar por este ho- quena Liesl nas faces e na testa e puxou-me ainda mais de encontro ao
mem. » seu joelho, e eu de repente tive de pensar no desejo que a Liesl me contou
Porém, o que repentinamente contribuiu para o relevo da noite, há umas semanas atrás, no terraço soalheiro: «Gostava de passar uns
pelo menos para mim, foi isto: eram quase onze e meia, a Liesl estava dias contigo e com o S., num sítio qualquer lá fora, num urzal.»
sentada ao piano na outra sala, o S. estava sentado numa cadeira em E pelo modo como nós os três, por um bocadinho, estivemos on-
frente dela e eu estava apoiada nele, a Liesl perguntou uma coisa qual- tem à noite, achei de repente que poderia ser agradável. Em seguida os
quer, e de repente estávamos metidos no meio da psicologia. Os traços outros entraram afastando as cortinas e por um momento colocou-se
do S. recuperaram aquela intensidade de expressão e, com a mesma vi- a questão de se deveríamos ficar até às quatro da manhã, mas o S. dis-
vacidade e prontidão que nunca o largam, começou a dar-lhe explica- se: «Nunca se deve querer atingir o limite, deve restar alguma coisa
ções por palavras nítidas e animadas. Ele tinha tido um dia longo, com para a fantasia.»
flores e cartas, pessoas e movimento, com a organização de um jantar
e estar à cabeça da mesa, e, mais tarde, vinho e mais vinho, que ele
nem sequer aguenta bem, e também havia de estar cansado, mas de re- [Segunda-feira, 18 de Maio de 1942.]
pente há alguém com uma pergunta acidental sobre as coisas sérias
desta vida, e, num piscar de olhos, os seus traços retesam-se, e ele está As ameaças exteriores aumentam cada vez mais, o terror cresce
totalmente imerso no assunto; podia igualmente estar numa cátedra com o passar dos dias. Eu uso a oração como um escuro muro protec-
perante uma sala atenta. E a Liesl fica repentinamente com uma cara tor, na oração retiro-me como se estivesse na cela de um convento e,
impressionada e gagueja daquela sua maneira enternecedora: «Acho depois, saio cá para fora, mais «una» e fortalecida e mais completa. Re-
tão comovente que você seja assim.» colher-me na cela fechada da oração torna-se para mim uma realidade

182 Diírio 183


cada vez maior e também uma necessidade. Esta concentração interior Evangelistas. Ando mesmo muitíssimo bem acompanhada. E deixou
ergue muros altos em meu redor, dentro dos quais novamente me re- de ter a ver com o «esteticismo» de outtora. Qualquer um deles tem ver-
encontto, formo um todo, fora do alcance de todas as dispersões. dadeiramente algo a dizer-me, e que me toca. Houve algumas coisas
E consigo imaginar que pode vir uma época em que me encontrarei de Miguel Angelo que, inesperadamente, me fizeram ficar com um nó
ajoelhada dias a fio, até finalmente sentir que surgiram muros pro- na ^arganta e me provocaram uma sincera e violenta emoção.
tectores à minha volta, dentro dos quais não me posso dispersar, nem «As pessoas renderam-se desmedidamente às suas aflições, até se des-
perder-me, nem arrasar-me. truírem.»1^— Esta tornou-se realmente uma frase lendária. Destas já
não há mais. Nos meus dias mais cansativos e mais tristes, já não me
deixo ir tão abaixo. A vida é uma corrente contínua e inalterável, talvez
26 de Maio [de 1942]. Terça-feira, às nove e meia. um pouco mais lenta nestes dias e encontrando mais resistência, po-
rém ela continua a correr. Não posso igualmente dizer de mim própria
Caminhei ao longo do cais, numa brisa ao mesmo tempo morna como antigamente: «Sou tão infeliz, não sei mais o que fazer.» Isto tor-
e refrescante. Passámos por lilases e roseirinhas e soldados alemães de nou-se-me completamente alheio. Antigamente, tinha realmente a
sentinela. Falámos acerca do nosso futuro e concluímos que gostaría- pretensão de me considerar o ser mais infeliz deste mundo.
mos de ficar juntos.
Não consigo mesmo descrever como foi tudo ontem. Quando, à Por vezes é quase impossível aceitar e entender, Deus, o que as
noite, regressei a casa através do ar morno, ao mesrno tempo bastante tuas imagens e semelhanças, neste mundo> andam a fazer umas às ou-
leve e mole por causa do Chianti branco, descobri de repente a certeza tras nestes tempos de excessos. Contudo, não é por causa disso que me
de que, agora, com uma caneta nas mãos, desapareceu de novo comple- fecho no meu quarto, Deus, eu enfrento tudo e não quero fugir de
tamente: mais tarde hei-de escrever. As noites longas, em que me irei nada e, quanto aos maiores crimes, tento entendê-los e analisá-los um
sentar e escrever, hão-de ser as minhas noites mais bonitas. Então, pouco. E tento rastrear continuamente o nu e pequeno indivíduo que
tudo aquilo que acumulo agora em mim há-de brotar cá para fora, frequentemente não é fácil de reconhecer pelo meio das ruínas mons-
fluir de modo suave e contínuo, num fluxo interminável. truosas dos seus actos sem sentido. Eu não estou para aqui instalada
num quarto sossegado com flores, mergulhada em poetas e pensadotes
e louvando a Deus, isso seria bastante fácil; e também não creio ser tão
Sexta-feira, 29 de Maio [de 1942], à noite depois do jantar. «ingénua» como os meus bons amigos dizem de mim, enternecidos.
Cada pessoa tem a sua realidade própria, eu sei, porém não sou ne-
Hoje ainda: Miguel Angelo e Leonardo. Também eles estão na
minha vida, povoam-na. Dostoiévski e Rilke e Santo Agostinho. E os 15 Citação de origem desconhecida. (.V. tia J7)

HLlIcsum Diári
nhuma fantasista sonhadora, Deus, nem uma «alma bela», ainda um forca vital irrita-me e mete-me medo subitamente, mas essa há-de ser
tanto adolescente (do meu «romance», disse Werner': De uma Alma a reacção frequente de um doente em relação a alguém extremamente
Bela para uma Grande Alma}. Eu encaro o teu mundo olhos nos olhos saudável, a partir de um sentimento de carência.
Deus, e não me refugio da realidade em sonhos belos — estou con-
vencida de que há espaço para sonhos formosos, em paralelo à reali-
dade mais cruel — e, apesar de tudo, continuo a louvar a tua criação, Sábado de manhã [30 de Maio de 1942], às sete e meia.
Deus!
Quando ele me telefonar daqui a bocado e me perguntar naquele Os troncos nus que trepam ao longo da minha janela estão agora
tom inquisitivo: «Então, como é que vai?», posso novamente respon- cobertos por verdes folhinhas tenras: uma pele encaracolada estende-se-
der-lhe de consciência tranquila: «Cá em cima muito bem, lá em baixo -Ihes pelo corpo nu e rijo de ascetas.
muito mal!» Pois, como foi aquilo ontem no meu pequeno quarto? Tinha ido
A maioria das questões foi em grande parte resolvida só por ter cedo para a cama e, da minha cama, olhava lá para fora pela grande
sido mencionada. Pelo menos é isso que acontece na psicologia, na janela aberta. E foi novamente como se a Vida, com todos os seus se-
«vida» é capaz de ser muito diferente. Ao ter-me apercebido repentina- gredos, estivesse próxima de mim, como se eu a pudesse tocar. Tive a
mente de que, sentindo-me doente, faço demasiadas coisas em sintonia sensação de estar a repousar no seio desnudado da vida e de lhe ouvir
com ele e, ao anotá-lo numa frase meio desajeitada, libertei-me um o suave bater regular do coração. Jazia nos braços nus da Vida e ali me
pouco mais dele com um pequenino puxão, e daqui a pouco voltarei a sentia imensamente segura e protegida. E pensei: «Como isto é estranho.
enfrentá-lo a partir deste novo pedacinho de liberdade adquirida. Há a guerra. Há campos de concentração. Pequenas crueldades amon-
E, deste modo, desenrolam-se paralelamente os processos de-crescer-e- toam-se em cima de pequenas crueldades. Quando caminho pelas
-aproximar-se-um-do-outro e de afastarmo-nos-cada-vez-mais. ruas, sei que, em muitas das casas por onde passo, há ali um filho que
E nestes dias em que me sinto muito frouxa e cansada, agarro-me está preso, e ali o pai está refém, e ali têm de suportar a condenação à
porventura involuntariamente com mais intensidade à minha força, morte de um filho de dezoito anos.» E estas ruas e casas ficam perto da
como se daí esperasse salvação. E, ao mesmo tempo, essa força transbor- minha própria casa. Sei da tensão das pessoas, sei do grande sofrimento
dante baralha-me, porque não lhe consigo oferecer resistência e temo humano que se vai acumulando, sei das perseguições e da opressão e
não a conseguir acompanhar. E nem uma nem outra são a reacção cor- da arbitrariedade e do ódio impotente e imenso sadismo. Sei de tudo
recta. A cura e a regeneração devem ressurgir das minhas próprias forças, isso e continuo a enfrentar cada pedaço de realidade que se me impõe.
não das dele. E em tempos assim como estes, às vezes, essa indomável E no entanto — num momento inesperado, abandonada a mim própria
— encontro-me de repente encostada ao peito nu da Vida e os braços
" Werner Levie, marido de Liesl Levie; director do teatro HoHandsche Schouwburg. dela são muito macios e envolvem-me de modo muito protector, e

186 Etcy Diário 1941-1945 l87


nem sequer consigo descrever o bater do coração: tão lento e regular e ou melhor, já está ligada à dele. E não são só as nossas vidas, mas as nos-
tão suave, quase abafado, mas tão fiel, como se nunca mais findasse, e sas almas -— admito que acho a formulação bastante empolada assim de
também tão bondoso e compassivo. m anhãzinha, mas isso deve-se provavelmente a não dares totalmente o

Este é pois o meu sentimento da vida, e creio que não há ne- aval à palavra «alma». E é tão ordinário e mesquinho e francamente
nhuma guerra ou crueldade humana gratuita que o possam modificar. abaixo de nível pensar, daquela vez, que a cara dele te agrada particu-
larmente: «Sim, gostava de casar com ele e ficarmos juntos para sem-
pre» e, nos momentos em que ele mostra ser velho, muito, muito
Quinta-feira de manhã [4 de Junho de 1942], velho, especialmente quando se vê uma cara jovem e fresca uns tem-
às nove e m e i a , pos junto à dele, pensar: «Não, é melhor não.» Estes são os padrões a
erradicar da tua vida. Esta é uma maneira de reagir que eu sinto —
Num dia de verão como este, a tua oração repousa em mil braços sim, nem sequer o consigo expressar — como uma perturbação e im-
macios. Faz-te muito lenta e preguiçosa, mas dentro de ti está um pedimento dos verdadeiros grandes sentimentos de união que ultra-
mundo fermentando em direcção a um destino desconhecido. passam todas as fronteiras das convenções e do casamento. E aqui nem
E o que eu ainda queria dizer: da última vez que ele cantou a «Lm- se trata de convenção nem de matrimónio, mas da noção que as pes-
denbaum» (achei tão bonito que lhe pedi para cantar um bosque inteiro soas têm de uma e de outro.
de tílias), os vincos e os traços da cara dele pareciam carreiros antigos, Francamente não devia ser possível uma pessoa pensar num dado
muito antigos, numa paisagem tão velha como a criação do mundo. momento, motivada por uma ou outra expressão facial ou pelo que
Há uns tempos, na pequena mesa do canto da Geiger', a cara jovem quer que seja: «Realmente gostava de casar com ele», para no mo-
e de linhas bem definidas de Múnsterberg intrometeu-se entre a mi- mento seguinte reagir exactamente ao contrário. Isto não devia mesmo
nha cara e a dele e, num relâmpago, fiquei quase chocada ao reparar acontecer, porque não tem absolutamente nada a ver com as coisas
quão velha é a cara dele na realidade; como se por ela tivessem passado essenciais, com o que interessa. Mais uma coisa que eu não consigo ex-
muitas vidas em vez de só a dele. E nesse momento tive uma pequena primir nem de longe. Porém, uma pessoa deve arrancar e exterminar
reacção, um instantâneo: «Não quereria nunca unir a minha vida à muita coisa dentro de si, a fim de criar um espaço amplo e contínuo
dele para todo o sempre, tal coisa é impossível», mas na realidade essa para os grandes sentimentos e ligações na sua totalidade, sem que eles
reacção é bastante reles e abaixo de nível. Ela parte de uma noção con- sejam cruzados por pequenas reacções de um nível mais baixo.
vencional: o matrimónio. A minha vida já está relacionada com a dele,

* O casa] suíço Geiger tinha uma casa de pasto vegetariana na tua Nicolaas Mães, onde Spier comia re-
gularmente.

lõõ . E [t) , H i l l e s u r Diário 19+1-194) . 189


Sexta-feira de manhã [5 de Junho de 1942], Passa-se algo bastante cómico comigo: poderia escrever capítulos
às sete e meia, na casa de banho. inteiros sobre como gostaria de escrever na realidade, e é bem possível
que para além de receitas nunca consiga pôr uma letra no papel. Mas,
Esta tarde vi gravuras japonesas com o Glassner. E de repente fi- de repente, observei nas gravuras japonesas de modo bastante ilustra-
quei a saber: é assim que eu quero escrever. Com um espaço imenso à tivo como eu realmente gostaria de escrever. E um dia gostava de ca-
volta das palavras. Detesto muitas palavras. Quereria escrever somente minhar pelas paisagens japonesas para ainda saber melhor. Tal como
palavras organicamente inseridas num grande silêncio, daquelas cuja acredito que mais tarde hei-de partir em direcção a leste para viver lá
única utilidade é dominar o silêncio e rasgá-lo. Na realidade as pala- diariamente aquilo que aqui se crê ser uma incoerência.
vras devem acentuar o silêncio, tal como naquela gravura japonesa com
o ramo florido para baixo, para o canto. Umas ténues pinceladas —
9 de Junho [de 1942]. Terça-feira, às dez e meia da noite.
mas com que olho para reproduzir o mais pequeno pormenor — e, à
volta delas, o grande espaço, mas não um espaço representando um
Esta manha, ao p e que no-ai moço, notícias mais ou menos deta-
vazio, mas sim, digamos, um espaço com alma. Detesto uma acumu-
lhadas sobre a situação no bairro judeu. Oito pessoas num quarto mi-
lação de palavras. Na realidade pode usar-se poucas palavras para no-
núsculo, com toda a comodidade que daí advém, etc. Ainda difícil de
mear as grandes coisas que importam na vida. Se algum dia chegar a
alcançar e compreender, quanto mais imaginar que tudo isto se passe
escrever — o quê, sinceramente? —- gostaria enrão de pincelar algu-
a umas ruas de distância daqui, e que todas estas coisas sejam o teu
mas palavras sobre um fundo mudo. E há-de ser mais difícil de repro-
próprio futuro. E esta noite, durante aquele pequeno passeio desde o
duzir e animar esse silêncio e essa mudez do que achar as palavras. vegetariano suíço até ao gerânio dele, que cresce cada vez mais bravio,
O importante será a relação justa entre palavras e silêncio, um silêncio no perguntei-lhe subitamente: «Diga-me só, o que é que eu devo fazer
qual acontece mais do que em todas as palavras que uma pessoa con- com os sentimentos de culpa que me atingem, quando ouço que há
siga reunir. E em cada novela — ou seja íá aquilo que for — o fundo pessoas que são obrigadas a viver, todas as oito, num espaço pequeno,
em silêncio terá de ter um matiz e um conteúdo diferentes, exactamente enquanto eu tenho aquele quarto enorme e soalheiro exclusivamente
como acontece nas gravuras japonesas. Não se trata de um silêncio para mim.» Ele olhou-me de lado com um ar verdadeiramente diabó-
vago e inatingível, esse silêncio terá também de ter os seus próprios lico e disse: «Há duas possibilidades: ou largas o quarto (e olhou para
contornos definidos e a sua própria forma. E, por conseguinte, as pa- mim de lado com um ar irónico-inquiridor-bonacheirão, e uma ex-
lavras deveriam servir somente para dar forma e delineação ao silêncio. pressão tipo «estou mesmo a ver-te ires-te embora») ou tens de procurar
E cada palavra é como um pequeno marco ou um pequeno relevo ao saber o que está realmente por detrás desses sentimentos de culpa. Tal-
longo de infindáveis caminhos planos e extensos, e vastas planícies. vez uma sensação de achares que não trabalhas o suficiente?» E de sú-

190 E11 y H i II e; um D i i c l o 1941-194}


bito tornou-se-me tudo claro e eu disse; «Pois, estás a ver, no meu tra- Quarta-feira de manhã [10 de Junho de 1942],
balho estou sempre nas regiões mais altas do espírito, e quando ouço sete e meia.
coisas acerca destas situações dramáticas, interrogo-me, provavel-
mente sem consciência disso, e aliás, agora muito conscientemente: É tão arrebatador e entusiasmante, o meu Santo Agostinho-em-
será que eu conseguiria trabalhar do mesmo jeito, com a mesma con- -jejum.
vicção e dedicação, se permanecesse com oito pessoas esfomeadas no Uma constipação já não me faz perder completamente o equilí-
mesmo quarto imundo?» Porque este trabalho do espírito, esta in- brio, mas não tem graça nenhuma.
tensa vida interior, na minha opinião só tem valor se puder ter conti- Bom dia, minha secretária desarrumada. O pano do pó dança em
nuidade sob qualquer circunstância externa; e se não puder ter curvas negligentes à volta dos meus tenros botões de rosa, e o Sobre
continuidade na prática, pelo menos em pensamenro. Senão, tudo Deus do Rilke está meio esmagado pelo peso do Russo para Comer-
aquilo que eu faço agora é somente «estetismo». E talvez esta conclusão ciantes. O anarquista Kropotkin está encarquilhado a um canto, o lu-
seja igualmente inibidora (antigamente uma coisa desse género era ca- gar dele já não é bem aqui. Tirei-o da prateleira cheia de pó da minha
paz de me paralisar no meu trabalho durante semanas, mas provavel- estante, para ler mais uma vez a primeira reacção dele à cela da prisão
mente naquela altura eu não acreditava na necessidade desse trabalho), onde iria ter de passar alguns anos. E a descrição da primeira impres-
o medo de saber se seria a mesma nessas circunstâncias. A incerteza de são da sua cela pode ser usada — traduzida e aplicada num plano in-
ser ou não capaz de passar nessa prova. A validade do meu Ser, ainda tenor como exemplo do que devem ser as nossas reacções às
terei de a provar. Afinal, terei sempre de viver como vivo, não sirvo medidas que limitam cada vez mais a nossa liberdade de movimentos.
nem para assistente social nem para revoltosa política, bem posso tirar Partindo do espaço deixado a alguém, considerar nesse espaço, por
isso da cabeça, embora os teus sentimentos de culpa fossem capazes de menor que seja, as possibilidades que oferece, e tornar as possibilidades
te fazer seguir esse caminho. em pequena realidade.
Claro que não lhe disse tudo isto naquele pequenino passeio. A Disse para comigo: «Aquilo a que devo prestar mais atenção é
única coisa que eu disse foi: «Talvez seja o medo de eu não conseguir manter o meu organismo saudável, não quero adoecer neste lugar.»
aguentar a prova.» Deixa-me fazer de conta que, estando numa expedição ao pólo norte,
E ele, muito sério e «sereno»: «Essa prova há-de vir para todos sou obrigada a passar vários anos no norte longínquo. Hei-de aprovei-
nós.» E em seguida comprou cinco pequenas rosas vermelhas em bo- tar para me movimentar o mais possível e fazer exercícios de ginástica,
tão e enfiou-mas nas mãos, dizendo-me: «Você nunca espera nada do e não me deixar arrasar pelo ambiente que me cerca. Dez passos duma
mundo exterior, não é? E por isso recebe sempre alguma coisa.» ponta da cela à outra já é alguma coisa, vezes 150, já é uma verstá'0.

111 Verstá: Medida itinerária da Rússia equivalente a 1067 metros. (A. da T]

Etcv H i l l e s u m 193
Propus a mim mesma caminhar sete verstás por dia, à volta de cinco constante me n te fortes torrentes que a vão furando. Uma gruta de gra-
milhas17: duas verstás de manhã, duas antes do almoço, duas a seguir nito que vai sendo cada vez mais escavada e onde são cinzelados con-
a ele, e uma antes de ir dormir. tornos e formas. E pode ser que um certo dia as formas fiquem
prontas para uso, com contornos nítidos em mim, e que eu só pre-
Esta hora antes do pequeno-almoço é uma espécie de átrio, uma cise de reproduzir o que encontro cá dentro. Não estou a imaginar as
plataforma do dia. Está tudo tão em silencio à minha volta, embora os coisas de um modo demasiado simplista? Será que não confio dema-
vizinhos tenham o rádio ligado e o Han esteja a ressonar, mesmo que siado num trabalho que está^ ser executado para mim? E quero dedi-
pianíssimo. Deste modo não há nada de apressado à tua volta. car-lhes toda a minha seriedade e atenção, e, em meu nome, pô-las a
marcar presença neste «trabalho», estão lá na oficina como minhas
As vezes, quando vou de bicicleta pelas ruas, muito devagarinho e representantes, porém o que fazem é só estar presentes e não dão real-
extremamente absorta em algo que acontece em mim, sinto então a mente uma única ajudinha.
potencialidade de uma força expressiva dentro de mim, tão imperativa
e tão segura, que francamente me espanta que cada frase que escrevo
seja assim tão desajeitada e frouxa. Dentro de mim, as palavras e as fra- Sexta-feira de manhã [12 de Junho de 1942J.
ses às vezes têm uma fluidez tão segura e convincente, que até parece
que elas seriam capazes de brotar cá para fora e continuar o seu cami- E parece que é agora que os judeus deixam de poder ir aos lugares
nho do mesmo modo inabalável, num qualquer pedaço de papel. de hortaliças; e que têm de entregar as bicicletas; e não podem mais
Mas pelos vistos ainda não é assim. Só que às vezes pergunto-me andar de eléctrico; e que têm de recolher a partir das oito da noite.
se não dou asas demasiado largas à minha fantasia cá por dentro, e, ex- Se me acho deprimida por causa destas medidas, tal como suce-
teriormente, não a encaro o suficiente, para a obrigar a confinar-se a deu esta manhã, quando por um momento me sufocaram como se
uma forma. Contudo não se trata somente duma fantasia bravia e er- fossem uma ameaça pesada como chumbo, não é bem pelas medidas.
rante. Há realmente coisas que, em mim, encontram a sua forma. Dentro de mim, o que resta é uma grande tristeza procurando matéria
Uma forma cada vez mais delineada, concentrada e tangível — e no à sua volta para se justificar. E uma aula desagradável, que eu devia
entanto ainda não há nada para alcançar, como é isso possível? As ve- dar, inspira-me então tanto medo e tensão como a pior medida das
zes, é como se dentro de mim existisse uma grande oficina onde se tra- forças de ocupação. Nunca são as coisas externas, é sempre esta sensa-
balha no duro, se martela, e sei mais lá o quê. E, às vezes, parece-me ção cá por dentro, depressão, incerteza ou o que quer que seja, que dá
que sou feita de granito, um pedaço de rocha, e nessa rocha batem às coisas exteriores uma aparência triste ou ameaçadora. Em mim, as
coisas funcionam sempre de dentro para fora. Geralmente as medidas
r Milha terrestre: Medida itinerária dos países de língua inglesa equivalente a 1609 metros. (,Y da T] mais ameaçadoras — e hoje em dia são uma fiada delas — resvalam de

194 Eti;/ H i í l e s u m Diirio 1941-194! 195


encontro à minha firmeza e confiança interiores; e, uma vez interiori- caso também não devias ficar a ler na casa de banho até à uma da ma-
zadas, perdem muito da sua ameaça. tina, quando já quase não consegues manter abertos os olhos de sono.
Quanto ao frio e ao desconforto, também preciso de com eles JVÍas claro que não é isso. Uma perturbação e cansaço crescentes. Talvez
acertar contas, porque vão roendo a minha energia e a minha vontade só físicos, afinal? Tantos pedacinhos pequenos do próprio eu, que im-
de trabalhar. Ainda tenho de perder inteiramente a ideia de que, lá por pedem o caminho para áreas mais amplas. Aquele eu restrito, com os
eu ter problemas com o frio e com a constipação e ter o nariz entupido, seus desejos, somente orientados para a satisfação do altamente limi-
tenho direito a fazer um bocadinho de ronha e a trabalhar menos bem. tado eu, há que eliminá-lo e apagá-lo. Quanto mais cansada e sem forças
Antes pelo contrário, diria eu, embora aqui uma pessoa também não me sinto, mais confusa fico acerca das forças dele e do seu amor, sem-
deva forçar. Devido ao agravamento da situação alimentar, havemos de pre presente e disponível para todos. Então fico simplesmente cho-
ter também cada vez menos resistência ao frio, pelo menos já é esse o cada por ainda lhe sobrarem tantas forças, nos dias que correm.
meu caso. E ainda está um inverno para vir. E as pessoas continuam a E uma pessoa pode ser enviada a qualquer momento para uma
ter de ir em frente e manter-se produtivas. E eu acho que devo começar barraca em Drenthe, e nos lugares de hortaliça estão tabuletas pendu-
a adaptar-me mentalmente já, a assumir a insuficiência física, que é radas dizendo Proibido a Judeus. Para uma pessoa comum, isto já é o
para ela não surgir de cada vez como um obstáculo inesperado vindo suficiente, nos dias que correm. E ele ainda recebe seis pacientes e pas-
do exterior, que me imobiliza por mais ou menos tempo. Mas devo, sa horas de actividade intensa com cada um deles, abre-os e tira o pus
por assim dizer, aclimatar-me à minha situação diária, a toda a minha cá para fora e fura as nascentes, onde Deus se mantém escondido para
pessoa, a fim de a dominar e não me apoquentar mais; e não se tornar muitos, sem que eles próprios o saibam, ele trabalha assim com eles, até
portanto um factor paralisante que retorna regularmente, com o qual que por fim a água volta a fluir nas suas almas áridas; as confissões bio-
perco de cada vez muito tempo e energia a lidar, e sim um factor que gráficas amontoam-se na sua pequena mesa e quase todos acabam com
em mim já foi superado, para não ter de lhe prestar atenção vez após um: «Oh, ajude-me por favor.» E ele está ao dispor de todos e ajuda-os.
vez e poder seguir o meu caminho sem preocupações. Isto deve ter Ontem à noite li no meu «romance de casa de banho» o seguinte sobre
sido outra vez ininteligivelmente formulado às três pancadas, mas eu um padre: «Ele era um intermediário entre Deus e as pessoas. Nada do
sei perfeitamente o que quero dizer com isto. dia-a-dia seria capaz de o afectar. E exactamente por isso, ele entendia tão
bem a aflição de todos os que se estavam transformando espiritualmente.»
Há dias em que não consigo entendê-lo, seja por cansaço ou ou-
Sábado de manha [13 de Junho de 1942]. tra coisa. E então queria que toda a sua atenção e amor fossem só para
mim. Então sou somente aquele eu limitado e os espaços cósmicos
Tão cansada, desanimada e gasta como uma velha solteirona. E dentro de mim estão encerrados a mim mesma. E claro que então
tão tristonha como a morrinha fria lá fora. E tão sem energia. Nesse perco o contacto com ele. Nessa altura gostaria que ele uambém fosse

196 Hillesum Diário [941-1943 197


só um «eu», limitado, e só para mim. Um desejo feminino muito com- muito neutro e resignado e sério: «Isso existe em todas as relações, uma
preensível. Contudo já me afastei bastante desse próprio eu e hei-de quebra de vez em quando, deve-se deixar passar tranquilamente, as
perseverar nesse caminho. E as recaídas fazem parte desse caminho. coisas hão-de se compor outra vez.»
Antigamente escrevia às vezes espontaneamente: «Amo-o tanto, amo- Momentos como estes, vivo-os, é verdade também, de modo
-o tão infinitamente.» E esse sentimento agora desapareceu. Talvez seja demasiado absoluto. E também é tão terrivelmente palerma da tua
isso que me dá uma sensação tão pesada e triste e gasta. E nos últimos parte, nestes tempos que correm que consomem todas as forças, sen-
dias também não consigo rezar. E não me amo a mim mes/na. Estas tires-te infeliz, porque a tensão entre ti e um homem abrandou um
três coisas hão-de estar relacionadas. Então de repente fico tão assusta- pouco. Tu que não precisas de estar horas e horas à espera nas bichas.
diça como um burro que, num carreiro rochoso, não deseja dar mais E a comida está todos os dias na mesa, a Kathe trata disso. E a secretária
um passo em frente. E quando, nessas alturas, tenho por ele um senti- com os livros em cima espera-te codas as manhãs e é novamente aco-
mento assim morto —- sem espaço e sem força para o experimentar lhedora para mim. E o homem, que é o mais importante na tua vida,
em mim e me experimentar a mim nele —, pergunto-me de repente: mora a algumas ruas daqut e ainda o podes contactar e não foi levado.
«Será que ele também me largou? Será que as suas forças são assim tão Fica mas é por uma vez a dormir até às tantas. E tem muita vergonha
gastas pelos muitos que precisam dele diariamente, que ele foi obri- nessa cara. E põe a tua mente em ordem e não aborreças os outros
gado a distanciar-se de mim por um momento?" Etty, tu repugnas-me. com as tuas susceptibilidades. iVíesmo que não as demonstres, existem
Tão egocêntrica e mesquinha. Em vez de o apoiares com o teu amor e todavia dentro de ti, deves começar é a fazer novamente uma limpeza.
a tua atenção, perguntas-te, como uma criança birrenta, se ele, caramba, E não vivas assim consoante uma disposição e um momento, um mo-
te dá atenção suficiente. E a mulher mesquinha, que exige toda a aten- mento sonolento ainda para mais, mas continua a ver as grandes li-
ção e amor para si. nhas e o grande caminho. E pronto, está bem, fica triste, triste de uma
Há momentos, tive uma conversa breve e neutra e insípida com maneira normal e sincera, mas não construas esses dramas à tua volta.
ele ao telefone. E creio que também isto está presente em mirn: um Também no entristecimento uma pessoa deve permanecer simples, de
ingressar
O
num chamado sentimento trágico.O
E não só sentir-se cada vez outro modo não se trata senão de histeria.
mais infeliz, mas também um contínuo querer sentir-se mais infeliz. Devias encarcerar-te numa cela despojada e obrigar-te a ficar tan-
O levar as situações dramáticas ao ponto extremo e depois deliciar-me to tempo sozinha contigo própria quanto o necessário para saberes ou-
a sofrer com gosto. Um resto do meu masoquismo? E não faz diferença tra vez como são as coisas, e todos esses histerismos acalmarem.
se na «camada superior» uma pessoa raciocina sensata e maturarnente,
se lá na «camada inferior» proliferam plantas venenosas que não são
arrancadas pela raiz. Ele haveria de se rir a bom rir se conhecesse todas
as minhas fantasias e «sentimentos mortos» por ele, etc. Haveria de dizer

198 . F.tty Hillesum Diário (941-194) 199


19 de Junho [1942]. Sexta-feira de manha, às nove e meia. fragmentação e por vezes também uma temeridade em mim, que pro-
vém daquele processo mensal, no meu caso infelizmente trissemanal,
Sabes o que me exaspera em ti, miúda? A tua meia sinceridade e a sul do meu diafragma. E esse mesmo processo determinou ontem à
meia pomposidade. Ontem à noite queria escrever ainda meia dúzia noite várias reacções minhas.
de palavras, mas na realidade eram palermices vagas. Às vezes tenho
medo de chamar as coisas pelos nomes. Talvez porque depois não so- «Daqui a pouco estamos para aqui sentados com nódoas de gor-
bra nada? As coisas deviam aguentar ser nomeadas. Não aguentam, dura nos teus livros e mata-borrões nas fatias de pão», diz o pai Han,
então não têm direito a existir. As pessoas tentam salvar muitas coisas «capaz disso és tu.» A família ainda está a almoçar, eu pus o meu pra-
na vida usando uma espécie de misticismo vago. A mística deve ba- to de lado e estou a copiar o Rilke por entre os morangos excepcionais
sear-se numa sinceridade cristalina. Após ter investigado as coisas até à e a estranha espécie de comida para coelhos que comemos... E agora
sua última realidade. a sala foi abandonada e fiquei só eu, juntamente com umas migalhitas
E então chego a casa e tenho a certeza de que vivi coisas extrema- em cima da toalha e um rabanete solitário e alguns guardanapos sujos.
mente fantásticas, e quero ainda rapidamente enunciar algo imortal so- A Kathe já está a lavar a loiça na cozinha. E agora uma e meia.
bre elas. Não anotar por palavras simples e se for o caso desajeitadas, Vou dormir agora uma hora até a pior parte da dor de barriga ter
aquilo que vivi, porque na realidade um diário é para isso, mas a partir passado. As cinco horas vem cá um sujeito qualquer, enviado pelo
das experiências mais simples quero sobretudo escrever logo aforismos Becker, que provavelmente quer ter aulas de russo. Esta noite mais uma
e extrair sapiências imortais. Realmente menos que isso não pode ser, horita para ler Púchkin. Não preciso de estar nas bichas e praticamente
estou certa. Neste ponto começam já toda a indefinição e a generaliza- não faço nada na lida da casa. Não creio que haja uma única pessoa na
ção. Acho absolutamente abaixo da minha alta dignidade intelectual Holanda que viva nas mesmas boas condições que eu, pelo menos as-
escrever sobre a minha barriga (mas que nome invulgarmente rude e gros- sim me parece. E sinto a responsabilidade pesada de que todo este
seiro na realidade para esta extremamente importante parte do corpo). tempo ao meu dispor, sem ser minado nem consumido por preocupa-
Se quisesse escrever alguma coisa sobre as minhas disposições de on- ções das coisas diárias, seja bem utilizado de minuto a minuto. Em
tem à noite, então teria de escrever o seguinte de modo muito sincero e cada dia volto a achar que não trabalho ou que não me ocupo de
neutro: foi um dia antes de me aparecer a menstruação e nestas ocasiões modo suficientemente concentrado e intenso. Tenho realmente obri-
sou só parcialmente imputável. Se o Han não calha a mandar-me para gações, obrigações morais.
a cama à meia-noite e meia, a estas horas ainda estava sentada à secre-
tária. E não creio que neste caso eu tenha realmente momentos criati-
vos, mas sim momentos aparentemente criativos. Tudo em mim está
então em perturbação e movimento. E então surge um desassossego e

Diário 1 9 4 1 - 5 9 4 ) 2OI
2.OO Env H i l l e s u m
Sábado à noite [20 de Junho de 1942], meia-noite e meia. cada indivíduo criar paz dentro de si e banir o ódio contra o seu seme-
lhante, seja ele de que raça ou povo for, e o vença e o mude em algo que
A fim de humilhar são necessários dois. Aquele que humilha, e deixe de ser ódio, talvez até em amor ao fim de um tempo, ou será isto
aquele que se quer humilhar e sobretudo: que se deixa humilhar. Fal- pedir demasiado? Contudo é a única solução.
tando a última condição: a parte passiva é imune a qualquer humilha- E assim podia eu continuar, páginas e páginas seguidas. Também
ção, então as humilhações evaporam-se no ar. O que resta são apenas posso parar. Aquele pedacinho de eternidade que uma pessoa trans-
medidas complicadas que intervêm na vida diária, mas nada de humi- porta consigo tanto pode ser tratado conclusivamenre numa palavra, ou
lhações ou repressões que oprimem a alma. Deve educar-se os judeus em dez tomos grossos de um tratado. Sou uma pessoa feliz e louvo esta
para isso. Esta manha passei de bicicleta pelo Stadionkade e desfrutei do vida, sim, sim, no ano da Graça de Nosso Senhor, continua a ser de
vasto céu ali nos limites da cidade e inspirei o ar fresco e não racionado. Nosso Senhor, de 1942, que ano da guerra?
E tabuletas por toda a parte, que impediam aos judeus o livre acesso aos
caminhos e ao campo aberto. Mas sobre aquele pedaço de caminho,
que permanece nosso, também existe o céu total. Não nos podem fazer Domingo de manhã [21 de Junho de 1942], 8 horas.
nada, não nos podem fazer realmente nada. Podem tornar-nos as coisas
algo complicadas, podem roubar-nos alguns bens materiais, alguma O meu pequeno-almoço encontra-se ao meu lado: um copo de
aparente liberdade de movimentos, mas somos nós que cometemos o leitelho, duas fatias de pão cinzento com pepino e tomate. Pus conscien-
maior roubo a nós próprios, roubamo-nos as nossas melhores forças temente de parte a caneca de cacau com que costumo mimar-me se-
através da nossa mentalidade errada. Através de nos sentirmos persegui- cretamente aos domingos de manhã, e quero educar-me a tomar este
dos, humilhados e oprimidos. Através do nosso ódio. Através de fanfar- pequeno-almoço monástico porque me cai melhor. E assim que des-
ronice que esconde o medo. Bem podemos às vezes sentir-nos tristes e cubro os meus «desejos» escondidos nos sítios mais recônditos e des-
abatidos por causa daquilo que nos fazem, isso é humano e compreen- percebidos, e os extermino. É melhor. Temos de aprender a tornar-nos
sível. Porém: o maior roubo que nos é feito somos nós mesmos que o muito independentes, cada vez mais independentes, das necessidades
fazemos. Eu acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus dentro de mim do corpo que ultrapassem o estritamente necessário. Temos de educar
são tão vastos como os que estão por cima de mim. Creio em Deus e o nosso corpo a tal, a não pedir mais do que o estritamente necessário,
creio na humanidade, e aos poucos vou-me atrevendo a dizê-lo sem fal- sobretudo ao nível da alimentação, porque parece que os tempos que
sa vergonha. A vida é difícil, mas isso não faz mal. Uma pessoa deve co- estão para vir hão-de ser maus a este respeito. Não hão-de ser, já o são.
meçar a levar-se a sério e o resto segue por si mesmo. E «trabalhar a E no entanto acho que as coisas continuam surpreendentemente a
própria personalidade» não é certamente um individualismo doentio. correr-nos bem. Mas é melhor as pessoas aprenderem em tempos de far-
E uma paz só pode ser verdadeiramente uma paz mais tarde, depois de tura relativa a praticar voluntariamente uma certa abstinência, do que

202 Etry Hillesum Oiírio I94S-I9-13 2O3


à força, em tempos de escassez. Aquilo que uma pessoa conseguiu de Santo Agostinho e a Bíblia e várias gramáticas de russo e dicionários e
livre vontade tem bases mais sólidas e é mais duradouro do que aqui- Rjlke e incontáveis pequenos biocos de notas, vá-se lá saber com que
lo que se foi obrigado a cumprir. (Lembra-te: o professor Becker e as anotações importantes, e lápis e uma garrafa de imitação de laranjada
suas beatazinhas patéticas.) Devemos tornar-nos tão independentes de e papel para escrever à máquina e papel químico e Rilke, em colecção
materialidades e de aparências, que, em qualquer circunstância, o es- e tudo e Jung. E tudo isto ainda é só aquilo que anda por ali ao acaso.
pírito possa continuar o seu caminho e prolongar o seu trabalho. E por
isso: nada de chocolate, mas leitelho. Pois! •
Como há ainda tanto para fazer em cima da minha secretária! Terça-feira de manhã [23 de Junho de 1942],
O gerânio que a Tide me deu na semana passada (foi realmente só há às oito e meia.
um domingo), depois daquela torrente de lágrimas repentina, ainda lá
está. E a minha pretinha marroquina está escondida atrás de uma nu- Há umas noites atrás, pensava nisso ainda, quase vingativa e injus-
vem cor-de-rosa> toda ela de minúsculas florzinhas delicadas, como se tiçadá; esta manhã desatei a rir-me de repente na cama, com tanta tolice
chamam não sei. E pelo meio ainda vagueiam as pinhas, ainda me infantil. Estava em frente à fotografia da Hertha iâ , uma cara com um
lembro de quando as apanhei. Foi no urzal, perto das traseiras da pe- olhar fixo e sorriso prolongado em cima da cómoda, e a cama dele já es-
quena casa de campo da senhora Rumke". Creio que foi a primeira vez tava aberta para dormir, com aquele cobertor leve às flores que um dia
que estive um dia inteiro na natureza com ele, ao ar livre. Tivemos ainda há-de vir a desempenhar o papei principal no meu romance mais
uma conversa sobre demoníaco e não-demoníaco. Agora de certeza que famoso. Despedi-me e já estava à porta, e olhei com um olho para
não iremos ver um urzal por muito tempo, uma rara vez, num mo- aquele sorriso prolongado que já conheço há dezasseis meses, e, com o
mento difícil, senti isso como algo opressivo e empobrecedor, mas na outro olho, para a cama aberta com o cobertor de cretone, e com outro
maior parte das vezes sei: mesmo que só nos reste uma rua estreita, por olho ainda para o nosso terreiro de liça onde as nossas volúpias, as nos-
onde teremos de caminhar, por cima da rua exisre todavia o céu inteiro. sas cansadas volúpias, num derradeiro chamejar se tinham defrontado.
E as três pinhas hão-de acompanhar-me, se preciso for, até à Polónia. E eu pensei, furiosa e triste e solitária: «Pois é, essa cama colorida é para
Meu Deus, esta secretária! Até parece o mundo no primeiro dia da a chata dessa menina com o sorriso sem vida em cima da cómoda, e esse
criação. Um caos tão grande e tanta coisa à mistura. Para além de exó- pedaço de chão duro é para mim.» De certeza que o riso dele havia de
ticos lírios japoneses, gerânios, rosas-chá defuntas, pinhas, que se tor- ressoar por todas as paredes, se ele lesse este desabafo-de-mulher-magoa-
naram relíquias sagradas, uma rapariga marroquina com um olhar da. Pobre Hertha, como sou injusta para contigo. E tão sem amor.
que continua animalesco e sereno ao mesmo tempo, ainda vagueiam Como se para mím fosses a última barricada a assaltar, a fim de ter o ho-

" Jet Riimke-Everts. IS Hertha Levi é a noiva de Spier em Londres.

Eccy Hillcsum D i á r i o 1941-194; 205


mem inteiro para mim. Pobre Hertha. As vezes, num súbito relâm- orada no cosmos, e, no fim, hei-de permanecer sempre uma pequena
pago, pergunto-me como é a tua vida aí em Londres. Pergunto-me isso mulher. E tu provavelmente terás de seguir um caminho parecido com
às vezes, quando entro de bicicleta na rua dele e vejo ao longe a sua fi- o meu, porque este homem está tão impregnado e repassado de eterni-
gura debruçada à janela e o acenar impaciente do seu braço. Ele de- dade por todos os lados que não há-de mudar muito mais nesta vida.
bruça-se então sobre o gerânio cheio de ramificações que ali está a E eu penso que tu e eu temos muitas coisas em comum, senão esta ami-
sangrar atrás da janela. Depois subo os degraus de pedra até à porta de zade entre ele e mim teria alguma vez sido possível? Hás-de ser mais tí-
casa, que ele entretanto já abriu para mim, e ainda tenho de subir uns mida e solitária do que eu sou agora. Hás-de ser mais ponderada,
lances de escada, e então, sem respiração, deixo-me cair nos seus dois enquanto que em mim há mais bizarria. Mas ambas temos a grande
pequenos quartos. Por vezes, ele está lá no meio, parecendo muito po- seriedade em comum. Es obrigada a sentir agora a falta daquilo que
deroso e imponente, tal como se tivesse sido talhado da pedra cinzenta para mim corre abundantemente todos os dias. E as minhas carências
de uma rocha que já existia ao terceiro dia da Criação. E outras vezes hão-de ter início com a tua entrada em pessoa na nossa vida. Ele há-de
não é nada imponente, mas bonacheirão e bruto como um urso desajei- achar isto palavras tolas porque tem muito para dar a mais do que uma,
tado, e, sim, amoroso, tão amoroso como nunca pensei que homem al- e com ele ninguém tem privações. Mas nós mulheres somos assim fei-
gum pudesse ser, sem nunca se tornar aborrecido ou efeminado. Às tas de uma estranha matéria. A minha vida cruza-se frequentemente
vezes, um pensamento molda repentinamente os seus traços, que se re- com a tua, sabes, como será mais tarde na vida real? Se algum dia nos
tesam como por vezes o vento faz com as velas de um barco, e ele diz: encontrarmos em pessoa, devemos já combinar sermos amistosas uma
«Ouça lã...» e em seguida sai qualquer coisa com a qual geralmente para a outra, seja de que maneira for. Porque isso significaria que a His-
aprendo. E há sempre as suas grandes e bondosas mãos, os contínuos tória teria retomado o percurso que nos torna possível respirar outra vez
condutores térmicos de uma ternura que nem sequer vem do corpo, e viver livremente. E, na vivência comum desse grande bem, todas as
mas da alma. Pobre Hertha, lá em Londres. Da parte comum que exis- contradições entre os sujeitos deviam desaparecer. Não estás as vezes de-
te nas nossas vidas, tenho eu o maior quinhão. Era capaz de mais tarde sesperada do outro lado do Canal? Claro que estás, não conheço eu as
te ensinar muita coisa sobre ele. Aprendo através do sofrimento, e tuas cartas? E não tens tu de aguentar tudo sozinha, como se fosses uma
aprendo também a aceitar que uma pessoa deve dividir o amor com a menininha, nessa grande cidade bombardeada? Como é que fazes isso?
Criação inteira, com todo o cosmos. Porém, em troca, tem-se acesso ao Admiro-te, para ser sincera, e se eu um dia começasse a ter pena de ti,
cosmos. Mas o preço desse ingresso é custoso e alto, e uma pessoa tem nunca mais conseguiria pôr-lhe fim.
de poupá-lo longamente com sangue e lágrimas. Mas não há um único Há uma mulher em Amesterdão que reza por ti todas as noites; isso
sofrimento ou lágrima que ele não valha. E terás de viver tudo isto des- é verdadeiramente nobre dessa mulher porque ela o ama, juntamente
de o princípio. Nessa altura hei-de viajar como uma louca por esse com Deus, com um amor que é o primeiro e o último da vida dela.
mundo fora, porque de qualquer maneira ainda não hei-de estar inte- Estou contente por haver alguém que reze por ti, a tua vida torna-se

206 Etcv Hiltesur


mais protegida com isso e eu ainda não o conseguiria fazer por ti. Eu não de concentração. Embora quase não consiga imaginar tal coisa, há tan-
sou verdadeiramente nobre, excepto talvez num só momento ilumi- ta vida nele e aquilo que ele ainda tem a dar a muitos, a muitos mes-
nado, mas de resto estou recheada com todos os defeitos que pesam na mo, eles precisam tanto disso como do pão-nosso de cada dia. Não
caminhada do ser humano a caminho do céu. Ciúme e mísera falta de creio num fim sem sentido para ele, para isso, a vida dele, tal como ele
vontade e mais aquilo que tu quiseres. Porém, não é assim tão mau avive de minuto a minuto, tem demasiado sentido e conteúdo. Mas
como eu escrevo aqui, há muita mesquinhez que largo diariamente; e eu aqui a nossa vida encontra-se cada vez mais ameaçada de dia para dia
sei algumas coisas importantes, das que importam na vida, e talvez haja e ainda não sabemos que fim tudo isto vai levar.
ainda uma noite em que eu reze por ti, liberta de mesquinhos segundos
pensamentos e de ciúmes. E nessa mesma noite, hás-de sentir-te subita-
mente melhor e mais reconciliada com a vida do que era o caso há mui- Quinta-feira à tarde [25 de Junho de 1942].
to tempo, e não hás-de entender donde vem esse sentimento. Mas eu •i
ainda não cheguei a esse ponto. E agora preciso de trabalhar. Que estás 'Excerto de uma carta do meu pai com o seu humor sem paralelo:
tu a fazer neste momento? São dez da manhã, A tua luta pela existência «Hoje iniciou-se a era sem bicicletas. Entreguei a bicicleta do Mis-
diária é de tal modo mais complicada e árdua que a minha, que eu era chá pessoalmente. Em Amesterdão, é o que leio nos jornais, os judios
capaz de ficar com sentimentos de culpa em relação a ti, se não utilizasse ainda podem andar de bicicleta. Que privilégio! Agora escusamos de
cada minuto do meu dia. Eu colecciono riquezas espitiruais no período estar com medo que as nossas bicicletas sejam roubadas. Para os nos-
que outros gastam em longas bichas para os lugares de hortaliça, mas sos nervos, não há dúvida de que é uma vantagem. Naquele tempo, no
vivo na consciência contínua de que não o faço só para mim. deserto, tivemos de passar também quarenta anos sem bicicletas.»
Uma das minhas ocupações principais é o estudo da língua russa
e desse grande e amado país onde essa língua é falada. No dia em que
puseres aqui pé em terra, vou direitinha à estação e compro um bilhete 27 de Junho [de 1942], sábado de manhã, às oito e meia.
para me levar directamente ao centro desse país. Que tens a dizer acerca
de tanto romantismo infantil de manhãzinha cedo? Numa época Com mais pessoas numa cela abafada. E não é nossa obrigação,
como esta? Claro que sim, que me envergonho, mas a verdade é que é neste caso, manter os nossos corpos e as nossas almas perfumadas no
isso que por vezes se passa na minha fantasia. Ou talvez eu não cami- meio de tanto cheiro a podre?
nhe até à estação e fique... ? Ah, Hertha, se soubesses como a nossa vida O Mischa e o «Eucalipto»" com os seus desajeitados perfis de ócu-
aqui é ameaçada. Nesta manhã soalheira, eu escrevo muito despreocupa- los e a maestria das suas mãos. Depois de Schubert a quatro mãos e,
damente sobre «pôr o pé em terra» e «encontrarmo-nos», mas é bem
possível que antes disso já tenhamos definhado num inóspito campo * Eucalipto é a alcunha de Evaristos Glassner.

2Oõ . Ecrv H i l l e s u m Diário 1941-194;


em seguida, de Mozart, disse S.: «Com Schubertfui obrigado a pensar Segunda-feira de manha [29 de Junho de 1942],
nas limitações do piano, com Mozart nas vantagens.» às 10 horas.
E o iMischa, hesitante e procurando as palavras, mas acutilante no
efeito: «Pois é, nesta peça Schubert abusa do piano para produzir música.» Não é Deus que nos deve explicações, mas nós a ele. Sei o que
«E estranho», disse eu para S. na nossa breve caminhada ao longo ainda nos pode esperar. Actualmente estou separada dos meus pais e
do cais em direcção a casa dele ontem à noite, «todos nós os três termos não posso ir ter com eles, embora estejam somente a duas horas de
arranjado companheiros com os quais não ternos a mínima hipótese de viagem daqui, onde eu moro. Mas ainda sei exactamente qual é a casa
futuro.» E ele: «E bem possível, se considerares a noção de futuro assim onde eles vivem e que não passam fome e que estão rodeados de mui-
tão materialmente.» ra gente bem-intencionada. E eles sabem também onde eu me encon-
tro. Porém, sei que ainda é capaz de chegar uma altura em que eu não
«Pode viver-se sem café nem cigarros», disse a Liesl, revoltada, saiba onde estão, em que foram deportados, sabe Deus para onde, e
«mas sem a natureza, isso não, não se deve tirar isso a ninguém.» Eu morram em desgraça como acontece a tantos neste momento. Eu sei
disse: «Vê isto como uma pena de prisão que nos foi imposta, durante que isso ainda pode estar para vir. A última notícia é que todos os ju-
uns anos se preciso for, e faz de conta que as árvores em frente à tua deus vão ser deportados da Holanda, através da província de Drenthe
casa são uma floresta. E para prisão, ainda temos uma relativa liber- para a Polónia. E a emissora inglesa disse que, desde Abril do ano pas-
dade de movimentos.» sado, já morreram 700 000 judeus na Alemanha e nos territórios ocu-
A Liesl, que é às vezes um pequeno eífo, uma banhista tomando pados. E se nós continuarmos vivos, serão outras tantas feridas com
banhos de luar em noites quentes de verão. Mas também limpa espi- que teremos de conviver por toda a vida.
nafres durante três horas por dia e fica na bicha para as batatas até quase E no entanto, Deus, não acho a vida desprovida de significado,
desmaiar. E, às vezes, solta pequenos suspiros que começam completa- quanto a isso não posso fazer nada. E Deus também não nos deve ex-
mente na parte inferior e vão subindo numa agitação convulsa por plicações pelas cçisas sem_sentido que nós próprios fazemos; somos
aquele corpo magro acima. Há uma grande timidez e pudor nela, em- nós quem tem de dar explicações. Já morri rriíl morrerem mil campos
bora os factos da vida dela não soem tão pudicos como isso; ao mesmo de concentração, sei de tudo e também já não fico apoquentada com
tempo, ela tem algo de forte, uma força da natureza visceral. Aquela novas notícias. De uma ou de outra forma, já sei tudí^JL todavia,
sua pequena demonstração de fraqueza foi muito breve. E ela havia de acho esta vida bela e cheia de sentido. De minuto a minuto.
ficar muito surpreendida se soubesse disto que escrevo aqui: para dizer
a verdade, é a minha única amiga.

210 Etty Hillesum Diátio ZII


[Quarta-feira] l de Julho [1942], de manha. ajudar um não-judeu nos seus problemas dá um estranho sentimento
de força.
A minha mente já interiorizou tudo dos últimos dias — os boatos
são até agora mais destruidores do que os factos, pelo menos os factos
para nós, na Polónia parece que o extermínio está em pleno andamento À tarde, às quatro e um quarto.
— só o meu corpo pelos vistos é que não. Tudo se fragmentou em mil
pedaços e cada pedaço tem uma outra dor. Tem piada como o meu Sol nesta varanda envidraçada e uma leve brisa através do jasmim
corpo precisa de interiorizar as coisas ao retardador. branco. Estás a ver, agora começou novamente um novo dia para mim,
o número quantos desde as sete horas da manha? Fico mais dez minu-
Quantas vezes não rezei, ainda nem há um ano: «Ó Senhor, tor- tos com o jasmim e depois, na bicicleta permitida, vou ter com o meu
na-me mais simples.» E se este ano me trouxe alguma coisa, então foi amigo que já faz parte da minha vida há dezasseis meses, e que às vezes
esta grande simplicidade interior. E creio que mais tarde também serei parece que conheço há mil anos, e que outras vezes, subitamente, me
capaz de expressar as coisas difíceis desta vida por palavras muito sim- parece tão recente que deixo de respirar com o espanto. Ah, sim, o jas-
ples. Mais tarde? mim. Como é possível, meu Deus, ele está ali entalado entre o muro
sem cor dos vizinhos das traseiras e a garagem. Ele olha por cima do
E agora não consigo mexer mais nenhum membro do meu corpo, escuro telhado raso e lamacento da garagem. Entre aquela escuridão
nem ter mais um pensamento no cérebro, tão abatida estou fisica- parda e lamacenta, ele é tão radioso, tão puro, tão exuberante e tão frágil,
mente. Falta agora um quarto para a uma. Vou tentar dormir um pou- uma jovem noiva audaciosa perdida numa má vizinhança. Não en-
co a seguir ao café e estar em casa de S. às cinco menos um quarto. tendo nada desse jasmim. Também não é necessário entender. Ainda é
Agora estou arrasada. Esta manhã por volta das sete horas, tive dentro possível acreditar em milagres neste século XX. Isto é um milagre.
de mim um breve inferno de nervosismo e agitação por causa de todos E eu creio em Deus, mesmo quando daqui a pouco os piolhos me de-
esses novos decretos, e isso é bom, assim consigo sentir um pouco o vorarem na Polónia.
medo dos outros, porque esse medo é-me cada vez mais estranho.
E, às oito horas, eu era novamente a «devoção» e a calma em pessoa.
E quase me orgulhei de, nesse estado físico de fadiga, afinal ainda ter 2 de Julho [1942]. Quinta-feira de manhã, às sete e meia.
tido aquela hora e meia de conversação em russo. Antigamente, em
vista da situação, teria telefonado a anular a aula. O sofrimento não está abaixo da dignidade humana. Quero di-
E esta noite é outra vez um novo dia, vem cá um ser em dificulda- zer: uma pessoa pode sofrer de maneira digna e pouco digna. Isto é: a
des, para variar, uma rapariga católica. Poder um judeu, actualmente, maior parte dos ocidentais não entende a arte do sofrimento, e em

212, Eicv Diário 1941-194} 213


vez disso, ficam completamente aterrorizados. Aquilo que a maioria cante. E em última instância, é assim tão importante que num século
faz deixa de ser vida: medo, resignação, amargura, ódio, desespero. seja a inquisição e num outro guerras e progroms a causar sofrimento às
Meu Deus, tudo isto é muito fácil de entender. Contudo, quando pessoas? Sem sentido, como elas próprias dizem? O sofrimento exigiu
esta vida lhes é tirada, não lhes tiram grande coisa, não é? E per- sempre o seu lugar e os seus direitos, e tem sinceramente alguma im-
gunto-me se há assim uma diferença tão grande entre ser devorado portância a forma que ele toma? O que interessa é o modo como as
aqui pelo terror ou morrer de piolhos e de fome na Polónia. Uma pessoas o carregam e se uma pessoa lhe sabe dar espaço, continuando
pessoa tem de aceitar# morte como fazendo parte da vida, mesmo porém a aceitar a vida. Estou a estabelecer teorias à minha secretária,
sendo a morte mais terrível. onde cada livro me rodeia com uma familiaridade própria e com o jas-
E não vivemos nós uma vida inteira cada dia, e tem lá grande im- mim lá fora, que não se deixa aquietar, o temerário e delicado jasmim?
portância vivermos uns dias mais ou uns dias menos? Estou na Polónia É tudo só teoria ainda não comprovada por nenhuma prática? Deixei
todos os dias, nos campos de batalha, é assim que se lhes pode chamar, de acreditar. Tenho dores no corpo e daqui a pouco vou a pé com o S.
e, às vezes, impõe-se-me uma visão de verdes campos de batalha, estou para o outro extremo da cidade, e havemos de ver bom número de eléc-
com os esfaimados, os maltratados e os moribundos, todos os dias, tricos passar e que nos levariam lá mais depressa do que as nossas per-
mas também estou com o jasmim e com aquele pedaço de céu para lá nas. Parece que iremos mesmo ser registados em breve, agora os
da minha janela; para tudo existe lugar numa vida. Para uma fé em holandeses e também as raparigas («Você agora não deve ir-se embora»,
Deus e para um fim miserável. disse o S. decidido ontem à noite; e a Kàthe apontou para as conservas
Uma pessoa também deve ter a coragem de sofrer sozinha e não de morango que fizera, dizendo: «Espero que ainda os proves», pois é,
sobrecarregar os outros com os seus medos e incómodos. Isto é algo este tipo de elementos introduz-se nas conversas diárias). O Mischa
que ainda precisamos de aprender e as pessoas deviam educar-se umas teve de ir ontem a pé para a estação, e lá em casa, depois das oito, de-
às outras neste aspecto, se não for gentilmente, então vai à bruta. Se eu vem matar-se uns aos outros nas longas noites de verão, e as duas cari-
disser: «De um modo ou doutro, já fiz contas com esta vida», isso não nhas pálidas das garotas Mirjam e Renate, e as preocupações em relação
é resignação. « Tudo éprecisamente um mal-entendido.» Se eu às vezes digo a muitos. E eu sei tudo, tudo, a cada momento, e também sei do medo
isso, as pessoas entendem-no duma maneira diferente do que eu quis das pessoas, e às vezes, de repente, sou obrigada a dobrar a cabeça de-
dizer. Não é resignação, nunca é. Que quero eu então dizer exactamente? vido a um grande peso pendurado ao meu pescoço, e enquanto dobro
Talvez: «Como já vivi esta vida mil vezes e também já morri mil vezes, a cabeça sei tudo o que se passa, e sei como esta época é, tenho então ao
que poderá acontecer-me que seja novidade?» mesmo tempo a necessidade de, num gesto quase automático, juntar as
E isso uma espécie de fleuma? Não. E um viver a vida mil vezes de mãos; e assim poderia ficar horas e horas, e sei tudo e posso igualmente
minuto a minuto e, por conseguinte, dar um lugar ao sofrimento. E suportar tudo e torno-me cada vez mais forte nesse suportar, e ao mes-
hoje em dia, o lugar que o sofrimento exige não tem nada de insignifi- mo tempo tenho uma certeza: acho que a vida é muito bela e que vale

214 Ettv Hillesism Diário 2-15


a pena ser vivida, e que tem sentido apesar de tudo. E isso não significa somente grotesco e praticamente irrealizável: que S. não pode mais vir
que uma pessoa esteja constantemente na mais elevada ou crente dispo^ a esta casa, não pode ter o piano de cauda nem os livros, que eu não
sição. Uma pessoa pode ficar morta de cansaço devido a uma longa ca- posso visitar a Tide, etc.
minhada ou à espera numa bicha, mas isso também faz parte da vida e
algures há algo dentro de ti que nunca vai abandonar-te. Isto ainda conta: saber intimamente que o meu desejo se há-de rea-
lizar, que um dia hei-de ir à Rússia, que um dia irei ser um dos muito
pequenos elos entre a Europa e a Rússia. Essa é§uma certeza que tenho
3 de Julho de 1942. Sexta-feira às oito e meia. dentro de mim, que não é perturbada pela nova certeza: que querem o
nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou inco-
É verdade, ainda estou sentada à mesma secretária, mas é como se modar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras
tivesse de pôr um ponto final em tudo aquilo que escrevi anteriormente pessoas não entendetem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza
não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a
e tenha de continuar num novo tom. Uma pessoa tem de albergar uma
mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido
nova certeza na vida, tem de achar rapidamente um lugar para ela: é
apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em
sobre a nossa ruína e o nosso extermínio, acerca disso ninguém deve
grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus
ter mais ilusões. Eles querem a nossa destruição total, também é pre-
pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis
ciso aceitarmos isto na vida e depois as coisas lá se encaminharão.
violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte
Hoje, pela primeira vez, fui assaltada por um grande desalento e ago-
unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada
ra preciso de lhe pôr termo. E talvez, ou melhor: claro que também é
vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga ex-
devido às quatro aspirinas de ontem. E se batermos a bota, então que plicar a alguém, como é que as coisas são. Gostava de viver longamente
seja com a maior graciosidade possível. Mas eu nem sequer queria ex- para, no fim, mais tarde, conseguir explicar, e se isso não me for dado,
pressar-me de modo tão grosseiro. Porquê só agora este sentimento? pois bem, nesse caso uma outra pessoa irá fazê-lo e então um outro
Será porque fiquei com uma bolha no pé devido à enorme caminhada continuará a viver a minha vida, ali onde a minha foi interrompida, e
pela cidade quente, porque muita gente tem os pés num farelo desde por isso tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convin-
que não lhes é permitido viajar de eléctrico, por causa da carinha pá- centemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para que o
lida da Renate, porque ela tem de caminhar com as suas petninhas que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as
curtas para a escola, com o calor, uma hora de ida e outra hora de volta? mesmas dificuldades. Não é isso também fazer alguma coisa pela pos-
Porque a Liesl está horas na bicha e mesmo assim não arranja legumes? teridade? O amigo judeu do Bernard mandou perguntar, aquando do
Por tanta coisa imensa, tudo ninharias em si, mas tudo fazendo parte último decreto, se ainda não era desta que eu achava que eles deviam
da grande luta de extermínio contra nós. E tudo o resto é por enquanto ser todos abatidos, de preferência cortados às postas, um por um.

2-IO . Et:v Hillcsum Diário 1941-1943


[Sexta-feira, 3 de Julho de 1942.] comigo já nada mais pode acontecer e no final de contas não tem
nada a ver comigo pessoalmente, não faz diferença se sou eu a ser ani-
Ah, ao fim e ao cabo temos tudo em nós: Deus e céu e inferno e quilada ou um outro, que vamos ser aniquilados, isso é que conta.
terra e vida e morte e séculos, muitos séculos. Um cenário que muda É isso que digo por vezes aos outros, mas não faz grande diterença e
e acções de acordo com as circunstâncias exteriores. Mas transporta- não torna claro o que quero dizer e também não tem importância.
mos tudo connosco e as circunstâncias não são o factor decisivo, nun- Com «ter feito as contas com a vida» quero eu dizer: a possibilidade da
ca o serão porque há-defciaversempre circunstâncias, boas e más, e é morte é um dado tão absoluto na minha vida, corno se a morte, por
preciso aceitar o facto de haver circunstâncias: as boas e as más. O que assim dizer, a tivesse ampliado tanto que o enftentar e aceitar a morte,
não significa que uma pessoa não dedique a sua vida a tentar melhorar a destruição, qualquer espécie de destruição, passou a fazer parte des-
as más. Mas uma pessoa deve saber quais são os motivos que estão na ta vida. Portanto, digamos não ao sacrifício já de uma parte desta vida
origem da sua luta e deve começar por ela própria, cada dia de novo, à morte por via do medo que temos dela e da sua não-aceitação. De-
por si mesma. vido à rejeição e a todos os receios, à maioria das pessoas resta somente
um pedaço de vida miserável e mutilado a que dificilmente se pode
Antigamente era de opinião que devia produzir muitos pensamen- chamar vida. Soa quase paradoxal: por causa de excluírem a morte da
tos geniais por dia, e agora sou por vezes um terreno baldio onde nada vida, as pessoas não vivem uma vida completa, e ao acolher a morte
cresce, mas coberto por um céu baixo e silencioso. E é melhor assim. dentro da vida, ela fica mais rica e mais ampla.
Actualmente fico desconfiada quando brota uma grande quantidade Este é o meu primeiro confronto com a morte. Nunca soube bem
de pensamentos em mim, as vezes prefiro jazer inculta e expectante. como lidar com ela. Ainda sou muito virgem neste assunto. Nunca vi
Passou-se muita coisa dentro de mim nos últimos dias, mas final- um morto ainda. Imagine-se: neste mundo semeado de milhares de ca-
C?

mente algo ficou cristalizado. A nossa destruição, a nossa provável dáveres, aos vinte e oito anos de idade nunca vi ainda nenhum morto.
desgraçada destruição, que já principiou com as muitas pequenas coi- E já houve ocasiões em que me interroguei: qual é a minha verdadeira
sas do dia-a-dia, olhei-a a direito sem rodeios, e a probabilidade de ela posição perante a morte? Mas nunca me embrenhei no assunto, ainda
acontecer adquiriu um lugar na minha vida emocional sem por isso não era tempo para isso. E agora ali está a morte, por inteiro e pela pri-
diminuir a intensidade do meu sentimento pela vida. Não estou amar- meira vez. Contudo é como se fosse uma velha conhecida que faz parte
gurada nem revoltada, também deixei de estar desanimada, e resignada da vida e que é preciso aceitar. E tudo tão simples. Não é necessário fa-
então, não estou mesmo nada. O meu desenvolvimento continua a zer observações profundas sobre ela. De repente, a morte entrou na mi-
crescer desimpedido, dia após dia, mesmo enfrentando a possibili- nha vida, grande, simples e óbvia e quase em silêncio. Presentemente,
dade de extermínio. Vou deixar de namoriscar com as palavras que ela tem um lugar e agora sei que ela faz parte da vida. Ora bem, agora
somente causam maí-entendidos: já tenho as contas feitas com a vida, posso dormir sossegada, são dez horas da noite, hoje não fiz grande coi-

zi8 Dii, 219


sã, estive com o pensamento em todos os pés cheios de bolhas nesta ci- tos uniformes ganhou agora um rosto. Há-de haver por aí mais com
dade quente e em mais alguns pequenos vexames com os quais eu devia uma cara própria na qual conseguiremos ler algo que a gente com-
sofrer em uníssono, interiorizando-os. Depois vieram o grande desâ- preenda. E ele também sofre. Não existem fronteiras entre as pessoas
nimo e a incerteza. Então fui ter com ele por um bocadinho. Ele tinha que sofrem, em ambos os lados da fronteira há sofrimento e é necessá-
dores no crânio e estava preocupado com isso; funciona sempre tudo rio rezar por todos. Boa noite.
tão bem no seu corpo vigoroso. Estive por uns breves momentos nos
seus braços e ele foi imensamente gentil e meigo, quase nostálgico. Desde ontem envelheci um pouco mais, de uma penada envelheci
Parece-me que a nossa vida vai entrar agora numa nova era. É pre- muitos mais anos e tornei-me mais séria. E o desânimo íargou-me e
ciso concentrar-me nas coisas fundamentais ainda mais séria e intensa- uma força maior ocupou o seu lugar.
mente. Cada día uma pessoa vai-se desfazendo de muita mesquinhice. E também isto: através da aprendizagem e aceitação das suas pró-
« Trata-se do nosso extermínio, isso é bastante óbvio, sobre isso não precisamos prias fraquezas e imperfeições, uma pessoa aumenta a sua força.
de ter ilusões.» Amanhã à noite durmo na cama da Dicky e, um andar É tudo muito simples e cada vez mais claro para mim, e gostaria de
mais abaixo, dorme ele e há-de acordar-me de manhã. Tudo isso ainda viver muito tempo para também o tornar nítido aos outros. E agora
existe. E como conseguiremos dar apoio um ao outro nestes tempos, boa noite, a sério.
isso há-de crescer.

Sábado de manhã [4 de Julho de 1942], às 9 horas.


Um pouco mais tarde.
É como se ocorressem grandes transformações em mim e eu acho
E se este dia não me tivesse trazido nada, a boa e total confronta- que se trata de algo mais do que estados de espírito.
ção com a morte e a destruição no último momento, então não me O que aconteceu ontem à noite foi um grande avanço na compreen-
devia esquecer do decente soldado alemão junto ao quiosque, com o são de algo novo, se é que se pode chamar compreensão a isso. E hoje
seu saco de cenouras e a couve-flor. Primeiro, meteu aquele bilhetinho de manhã, havia novamente uma calma em mim e também uma boa
na mão da rapariga no eléctrico, depois, veio a carta que eu ainda vou disposição e uma segurança como há muito tempo não sentia. Deve-
ter de ler e reler: ela fez-lhe lembrar muito a defunta filha do rabino -se tudo isso à pequena bolha na sola do meu pé esquerdo?
que ele, em Inglaterra, ainda pudera tratar no leito de morte, durante O meu corpo é o depósito de muitas pequenas dores, elas estão
dias e noites seguidos. E esta noite ele vem cá de visita. guardadas em todos os cantos, e uma vez surge esta e depois uma outra.
E quando a Liesl me contou tudo isto apercebi-me de repente: Já me reconciliei igualmente com isto. E espanta-me como é que eu
esta noite também vou ter de rezar pelo soldado alemão. Um dos mui- consigo trabalhar e concentrar-me com tudo isto. Mas também devo

220 Etiy Hiliesum Diário 1941-194) 221


ver que a força do espírito será suficiente quando as coisas começarem os sapatos, ele foi acolhido generosamente e uns amigos tinham en-
a correr mesmo mal para nós. Aquela pequena caminhada para lá e viado um cabaz com cerejas da Betuwe19. Antigamente um bom almoço
para cá, às Finanças, ensinou-me isso. era para nós a]go evidente, actualmente tornou-se um presente inespe-
Primeiro caminhámos como se fôssemos alegres turistas por uma rado, e embora a vida por um lado seja mais dura e esteja sob ameaça,
cidade bonita e cheia de sol. A mão dele achava constantemente a por outro tornou-se mais rica, porque uma pessoa deixou de ter exigên-
minha enquanto íamos andando, e elas sentiam-se tão bem juntas! cias e tudo o que é bom tornou-se uma prenda inesperada que se aceita
E quando a certa altura eu fiquei muito cansada, por um momento com gratidão. Pelo menos assim acontece comigo e com ele também, às
tornou-se realmente estranho reparar que não me podia sentar em ne- vezes dizemos um ao outro que é tão estranho não sentirmos ódio ou in-
nhum dos eléctricos que cruzam a grande cidade, com as suas longas dienação ou amargura, já não se pode dizer isto abertamente em grupo
ruas, nem sentar-me por um bocadinho numa esplanada (tinha mui- e nós havemos de ficar perturbantemente sós na nossa opinião.
to a contar-lhe sobre certas esplanadas: «Olhe, ali estive eu sentada Enquanto caminhávamos, eu sabia que no fim do nosso percurso
com muitos amigos há dois anos, a seguir ao meu exame da licencia- uma casa segura nos esperava e ao mesmo tempo sabia que há-de vir
tura, etc.»), então pensei, na realidade não pensei, mas vivia algures uma época em que uma casa dessas não existe mais, e que uma pessoa
dentro de mim: «Através dos séculos as pessoas cansaram-se e deram vai por caminhos ao acaso e há-de haver uma barraca onde pereceremos
cabo dos pés no mundo que Deus criou, ao frio e ao calor, e também em grande quantidade. Eu sabia tudo isso enquanto ia andando, não
isto faz parte da vida.» Nos últimos tempos isto tem aumentado em só por mim, mas também por todos os outros, e aceitei.
mim: até no mais ínfimo acto do quotidiano ou nas minhas percep- E isto aprendi igualmente com o passeio e tenho de encarar a rea-
ções introduz-se um cheirinho a eternidade. Não estou só cansada ou lidade: as duas horas que andei a pé causaram-me uma dor de cabeça
triste ou receosa, mas estou-o com milhões de outros de muitos sécu- tão grande que o crânio parecia estalar por todos os lados, ameaçando
los e faz parte da vida, e ainda assim a vida é bela e também recheada rebentar com a moleirinha, E os meus pés estavam num tal estado que
de sentido. Até na sua absurdeza é rica em sentido, desde que uma pensei: «Como é que vou conseguir voltar a caminhar nos próximos
pessoa reserve lugar para tudo na sua vida e a traga dentro de si como dias?» E as muitas aspirinas que tomei (achei que precisava delas por-
uma unidade, porque assim, de algum modo, forma uma unidade que teria de ir para a cama imediatamente, mas não é tempo de uma
completa. E assim que uma pessoa deseja retirar partes e não mostra pessoa aprender a suportar as dores sem produtos artificiais?) no dia
aceitação, e quer por si própria e arbitrariamente aceitar isto da vida e seguinte mantiveram o meu corpo preso numa sensação de anestesia e
aquilo não, então sim, perde realmente o sentido porque deixa de ser intoxicação. E isso a mim não me fez diferença, nem por um mo-
uma unidade e tudo se torna arbitrário. mento a minha vida se tornou menos intensa ou bela por causa disso,
E no final da nossa longa caminhada esperava-nos um quarto se-
guro com um diva para onde nos podíamos atirar depois de descalçar ''' Região da Holanda conhecida petos seus pomares. GY da T.)

222 Eny Hiliesum. Diário 1941-1943 223


mas fui obrigada a constatar neutramente para mim própria: «Não desligar-me cada vez mais deste tipo de coisas. Uma pessoa deve reco-
prestas mesmo, moça. O teu corpo está completamente destreinado e nhecer as suas incapacidades, incluindo as incapacidades físicas, e deve
sem resistência e num campo de trabalho finavas-te em três dias. Toda a igualmente conseguir aceitar se uma pessoa não pode ser para a outra
força mental deste mundo não te conseguirá salvar, se ao fim de um aquilo que desejaria ser. Reconhecer as fraquezas não significa de ma-
passeio agradável que não chegou a duas horas, rodeada de conforto, neira nenhuma queixar-se delas, porque senão então aí é que começa-
reages com dores de cabeça destas e um cansaço deste tamanho.» E para vam os aborrecimentos, para o outro também. E eu acho que essa foi a
mim tudo isto não faz mal. Estendo-me no chão, rendo-me e acabou, e razão principal pela qual ontem à noite, pouco antes das oito horas,
ainda hei-de louvar a vida e a Deus, pelo menos de momento é esta a fui ter com ele e, contra os meus hábitos, até telefonei a um aluno a des-
minha convicção. marcar uma aula, só para estar mais um bocadinho com ele. E então
Mas lá estava outra vez presente o medo e a tristeza de poder im- eu, deitada no divã ao lado dele, disse-lhe de repente que estava mui-
portunar os outros e de ser um peso para eles, tornando-lhes assim o to triste por ter ficado tão cansada por causa do passeio, não por mim,
seu caminho ainda mais difícil. Antigamente, quando me esforçava fi- mas por o passeio me ter feito constatar que devo ter poucas ilusões
sicamente acima das minhas possibilidades, ocultava isso aos outros, quanto ao meu estado físico. E ele disse logo, como se fosse a coisa
não queria causar incómodo, acompanhava-os nos passeios, nas pân- mais natural do mundo: «Então nesse caso, com certeza que é melhor
degas, também me deitava tarde, fazia o mesmo que os outros faziam. não darmos esse esticão no domingo de manhã.» E nessa altura eu su-
E não havia aqui também um bocadinho de orgulho? Teres receio de que geri levar a minha bicicleta pela mão, para assim no caminho de volta
os outros não te achassem tão simpática e ficassem irritados e te largas- poder sentar-me em cima dela. Parece uma grande ninharia, mas para
sem da mão se o peso do teu corpo cansado lhes refreasse a diversão? mim é uma proeza. De outra maneira, era capaz de ter dado cabo dos
Aqui está também a raiz de um dos meus complexos de inferioridade. pés a andar só para lhe dar um prazer, e para não correr o menor risco
E depois do passeio também isto: ele tinha combinado ir comigo ama- de ele ficar muitíssimo aborrecido comigo por assim lhe estragar o
nhã ao bairro judeu dar uma vista de olhos por várias moradas onde passeio. Tudo coisas que naturalmente só existem na minha fantasia,
talvez pudéssemos oferecer alguma ajuda, e isso fica muito mais longe E agora digo, muito simples e naturalmente: «Olha, as minhas forças
do que as Finanças da quinta-feira de manhã. E até ontem à noite não não dão mais do que isto, para além disto não aguento. Quanto a isto
tinha tido ainda coragem de lhe dizer que não podia dar esse esticão. não há nada que eu possa fazer, tens de me aceitar como eu sou.» Para
Porque eu sei que um passeio desses é uma distracção para ele. E devo mim, este é um passo em frente para a maturidade e a independência,
ter pensado mais ou menos isto: «Com aTide ele consegue caminhar que, tudo indica, cada dia estou mais próxima de alcançar.
horas a fio, então eu não hei-de conseguir também?»
E sempre aquele medo infantil de desbaratar um pouco de amor Muita gente que actualmente fica indignada com as injustiças,
se uma pessoa não se adapta totalmente à outra. Contudo começo a só se indigna na tealidade porque as injustiças lhes acontecem. Con-

224 EIIV Hilksum Diário I 9 4 C - 1 9 + J 225


sequentemente não se trata de indignação genuína, com raízes pro- tada que as pessoas consigam lidar umas com as outras, assim sem mais
fundas. nem menos, mas uma boa resposta na ponta da língua ou defender-me
Eu sei que num campo de trabalho, em três dias morreria; havia de dentro dos limites permitidos é coisa que nem me ocorre. De certeza
me deitar e morrer e, apesar de tudo, não achar a vida injusta. que o homem não tinha autoridade para me interrogar. Um desses idea-
listas que há-de dar uma rnãozinha à sociedade para se expurgar de ele-
mentos judeus. A cada um o seu gosto nesta vida. Mas este pequeno
Ao fim da manha. , contacto com o mundo exterior vai ter de ser trabalhado.
Não tenho o menor interesse íntimo em fazer figura de forte pe-
Cada camisa lavada que vestes é ainda uma espécie de festa. E cada rante um ou outro perseguidor no mundo exterior, e também nunca me
vez que te lavas com um sabonete bem cheiroso numa casa de banho, heí-de forçar a tal. E podem ver a minha tristeza à vontade e que me
que é só para ti durante meia hora, também. E como se eu estivesse encontro completamente indefesa, também. Não sinto a mínima ne-
continuamente ocupada a despedir-me de todas estas excelências da cessidade de me armar em forte exteriormente, tenho a minha força
civilização. E se mais tarde deixar de participar nelas, continuarei a interior e isso chega-me, o resto não tem importância.
saber contudo que elas existem e que podem tornar a vida mais agra-
dável, e eu hei-de louvá-las como uma das coisas boas da vida, mesmo
que náo estejam ao meu dispor. Porque estarem por acaso, agora, ao [Domingo, 5 de Julho de 1942], às oito e meia da manha.
meu dispor, não é isso que importa, pois não?
Ele rinha um pijama azul-clarinho e uma expressão tímida no ros-
Uma pessoa deve lidar com tudo o que lhe aparece pela frente, to quando entrou. Dava-lhe um ar tão querido. E sentou-se a conversar
mesmo que seja sob a forma de um outro ser humano que vem ter con- um pouco à beira da cama. Agora foi-se embora e demora uma hora
tigo ao sair da farmácia onde acabaste de comprar uma pasta de dentes até estar pronto: lavar-se, fazer ginástica, «ler». Essa «leitura», posso
e te toque com um indicador e te pergunte com uma cara de inquisidor: fazê-la com ele. Quando ele me disse: «Agora ainda preciso de uma
«Você tem autorização para comprar aí?» E eu disse tímida, mas deci- hora», fiquei tão triste como se tivesse de despedir-me dele para sempre;
dida e com a normal amabilidade de sempre: «Sim, senhor, porque isto uma onda de tristeza passou-me então pela cabeça. Ah, deixar comple-
é uma farmácia.» «Ora, ora», disse ele então muito seco e desconfiado e tamente livre alguém que se ama, deixá-lo viver a sua vida completa-
continuou a andar. Eu não sirvo para respostas prontas. Sou capaz de fa- mente à vontade, essa é a coisa mais difícil que existe. Eu aprendo,
zer observações certeiras num diálogo de mente para mente. Fico com- aprendo com ele.
pletamente indefesa perante essa escumalha que anda pela rua, para usar Uma verdadeira orgia de sons de pássaros lá fora, e um reinado
um termo forte. Em resultado fico envergonhada e entristecida e espan- plano com seixos e um pombo atrás da minha janela aberta de par em

2.26 Eitv- H i l l í s u m
par. E o sol íogo cedinho. Ele tossiu esta manhã e ainda tem aquele nho do meu silêncio, agachada como um Buda e também com esse
ponto doloroso na cabeça e disse: «Um estado de esgotamento.» Não fo- sorriso, no meu íntimo, claro está.
mos realmente comer à Adri, ele teve um sonho tão esquisito que lhe
chamou «Um sonho de aviso». As cinco e meia acordei. As sete e meia
lavei-me toda nua e fiz um pouco da minha ginástica, em seguida en- Às dez menos um quarto.
fiei-me outra vez debaixo dos cobertores e foi quando ele entrou hesi-
tante, com timidez, vestindo o pijama azul-clarinho, tossiu e disse: « Um Esse fqi um bom alimento para o estômago em jejum, o par de
estado de esgotamento.» Esta manhã vamos ao médico em vez de fazer saímos que agora sabemos associar à vida diária. Passámos agora pela
aquela caminhada. Hoje hei-de me recolher e descansar no meu pró- experiência de principiar juntos um dia, e isso foi muito bonito. E tra-
prio silêncio interior. No espaço interior de silêncio onde agora peço tou-se de um alimento muito fortificante. E novamente aquela pontada
hospitalidade por um dia inteiro. Talvez consiga então descansar. O cor- estúpida no meu coração quando ele disse: «Agora vou fazer ginástica
po e a cabeça estão muito cansados e em má condição. Mas hoje não e vestir-me.» E eu senti: «Agora tenho de subir outra vez para o meu
preciso de trabalhar e as coisas hão-de se compor. Há sol no telhado quarto», como se eu de repente ficasse outra vez só e abandonada no
plano e uma orgia de chilreios, e este quarto circunda-me de tal modo mundo. Uma vez escrevi: «Gostava de partilhar a minha escova de den-
que eu poderia rezar. tes com ele.» A necessidade de estar com alguém até nos pequenos ges-
Nós dois temos uma vida tempestuosa pelas costas, ele com mu- tos do dia-a-dia. E no entanto este distanciamento é bom e frutuoso.
lheres, eu com homens, e ele estava sentado à beira da cama num pi- As pessoas reencontram-se constantemente, daqui a pouco ele vem-me
jama azul-clarinho e deixou a cabeça descansar por um instante no buscar para o pequeno-almoço àquela mesinha redonda, ao pé do ge-
meu braço nu, e conversámos um bocadinho e depois ele fot-se em- rânio que continua diariamente a florir. Oh, os pássaros e o sol a bater
bora novamente. Isso é muito comovente, sinceramente. Nenhum de naquele telhado coberto de seixos! E há em mim uma enorme doçura
nós tem a falta de gosto de se aproveitar de uma situação fácil. Levá- e conformação. E um contentamento, a quietação com Deus. Algo tão
mos uma vida movimentada e sem compromissos em muitas camas primariamente forte emana do Antigo Testamento e algo tão «popular»
estranhas, e no entanto conseguimos ser acanhados em cada vez. Eu existe nele. Habitado por tipos fabulosos. Poetas e severos. Na reali-
acho isto muito bonito e alegro-me com isto. Agora visto o meu robe dade é um livro extremamente interessante, a Bíblia, violento e terno,
colorido e desço para ler a Bíblia juntamente com ele. Vou pois sentar- ingénuo e sábio. Não só interessante pelo que lá vem dito, mas tam-
-me todo o dia num cantinho do recinto de silêncio que há em mim. bém para conhecer aqueles que o dizem.
Ainda levo uma vida muito privilegiada. Hoje não preciso de trabalhar
nem na lida da casa nem a dar aulas. O meu pequeno-almoço está em-
brulhado e a Adri traz-nos comida quente. Vou só ficar naquele canti-

228 Etcv Hillesum 229


As dez horas da noite. Segunda-feira [6 de Julho de 1942], às 11 horas.

Agora só o seguinte: cada minuto deste dia tornou-se obsoleto Pode ser que desta vez eu consiga escrever durante urna hora se-
num piscar de olhos, por assim dizer. O dia como um todo permanece ouida sobre as coisas essenciais. Rilke escreve algures acerca do seu
em mim como uma unidade perfeita e consoladora, uma recordação ami^o paralítico Ewald: «Mas também tem dias em que envelhece: os
que será necessária mais tarde e que há-de ser levada comigo corno minutos passam por ele como anos,»2(> Foi assim que as muitas horas do
uma realidade constantemente presente. Porém, cada fase deste dia foi dia se passaram ontem.
seguida por uma nova, que num instante fez desvanecer e tornar obso- Ao despedir-me, encostei-me a ele por um momento e disse:
leta a anterior. Uma pessoa não se deve focar no Milagre da sobrevivên- «Gostava tanto de estar o maior tempo possível contigo.» E a sua boca es-
cia e também não se deve focar na Destruição. Ambos estão presentes tava tão macia e indefesa e nostálgica no seu rosto, e ele disse quase so-
como possibilidades extremas, mas uma pessoa não deve preparar-se nhador: «Sim, é verdade, qualquer um tem o seu sonho privado, não é?»
para nenhum deles. Trata-se de milhentas coisas cada dia. Ontem à E eu agora interrogo-me: «Não devíamos nós despedir-nos desde já
noite falámos acerca de campos de trabalho. Eu disse: «Não preciso de destes sonhos? Quando é que uma pessoa começa a aceitar? Não deve-
ter ilusões sobre isso, sei que morro em três dias, porque o meu corpo mos aceitar tudo então?» Ele estava encostado à parede do quarto da
não presta para nada.» O Werner era da mesma opinião, no que lhe di- Dicky e eu apoiei-me terna e levemente nele; dir-se-ia não haver dife-
zia respeito, mas a Liesl disse: «Não sei, tenho uma sensação de que rença entre este e os incontáveis momentos do género na nossa vida,
apesar de tudo havia de resistir.» Consigo compreender muito bem a mas subitamente eu tive a sensação de que sobre nós se estendia um
sensação dela, antigamente eu também a tinha. Uma sensação de for- céu como numa tragédia grega. Por um instante tudo se tornou vago
ma primitiva indestrutível. E essa sensação ainda a tenho, o cerne está aos meus sentidos, e eu estava juntamente com ele no meio de um es-
cá dentro. Mas isto também não deve ser levado de modo demasiado paço infindável, pejado de ameaças, mas também de eternidades. Talvez
materialista. Não se trata de saber se o corpo destreinado aguenta, tenha sido ontem o momento em que se efectuou para sempre a gran-
esse aspecto é relativamente secundário, a força primitiva consiste em de mudança dentro de nós. Ele ainda ficou uns momentos encostado
que, mesmo que uma pessoa tenha um fim miserável, saiba até ao úl- à parede e disse, com uma voz quase de lamento:«Tenho de escrever esta
timo momento que a vida é cheia de sentido e bela, e que uma pessoa noite à minha namorada* que está quase afazer anos. Mas o que é que lhe
concretizou tudo dentro de si e que a vida foi boa da maneira que foi. hei-de escrever? Falta-me a vontade e a inspiração.» E eu disse-lhe: «Deves
Não posso dizer isto assim, uso outra vez as mesmas palavras. começar já a reconciliá-la com a ideia de que ela nunca mais vai voltar
a ver-te, deves dar-lhe algo a que ela se possa apoiar para o resto da vida.

- U R . M . Rilke. História do Som Deus.

230 ECTV H i l l c s u m Diário 1941-1941 231


Deves explicar-lhe que todos estes anos, não obstante a separação fí- seio de querer ficar com ele até ao último momento eu hei-de largar.
sica, apesar de tudo partilharam as vossas vidas, e que ela tem a obri»a- O meu ser está a transformar-se numa grande oração por ele. E por-
ção de continuar a viver segundo os teus valores espirituais e desse quê só para ele? Porque não também para todos os outros?
modo preservar algo do teu espírito para este mundo, é isso que real- Há também moças de dezasseis anos a irem para campos de traba-
mente importa.» Pois é, actualmente as pessoas falam assim umas com lho. Nós, os mais velhos, devemos protegê-las, quando mais tarde che-
as outras e nem sequer soa irreal, entrámos numa nova realidade e oar a altura das raparigas holandesas.
tudo ficou com outras cores e outros tons. Ontem à noitç ainda quis dizer ao Han de repente: «Sabes que
E entre os nossos olhos, mãos e bocas, flui hoje mutuamente uma também há rapariguinhas de dezasseis anos a serem convocadas?»
corrente ininterrupta de suavidade e de ternura, de onde, assim pa- E ainda me refreei e pensei: «Porque não hei-de eu também ser boa
rece, se apagou o mais pequeno desejo. O que importa agora é sermos para ele? Para quê preocupá-lo ainda mais do que aquilo que ele já
bons um para o outro, com toda a bondade existente em nós. E cada anda? Afinal eu consigo interiorizar as coisas sozinha, não é?» Toda a
encontro é igualmente uma despedida. Esta manhã ele telefonou e dis- gente deve saber o que se passa, isso é verdade. Mas uma pessoa também
se quase sonhador: «Foi bonito ontem» e «.Durante o dia devemos mas é deve ser boa para os outros e não os sobrecarregar continuamente com
passar o máximo de tempo possível juntos.» E ontem à tarde, quando nós um peso que podemos carregar muito bem sozinhos, não é assim?
dois, dois «celibatários» mimados como continuamos a ser, estávamos Há uns dias atrás ainda pensei: «O pior para mim vai ser quando
a comer um almoço copioso sentados à pequena mesa redonda dele, não me autorizarem mais a ter lápis e papel para me explicar a mim
um almoço em que qualquer relação com o tempo actual estava au- própria.» Isso para mim é o que há de mais essencial, porque senão
sente, eu disse então que não queria separar-me dele, ele tornou-se de chega uma altura em que algo em mim rebenta e me destrói a partir de
repente muito rígido e impressionante e disse: «Não se esqueça então de dentro. E agora sei: se uma pessoa começa uma vez a desistir das suas
nada, o que quer que seja que diz, não se deve esquecer disso.» E eu nem se- exigências e dos seus desejos, então consegue igualmente desistir de
quer tinha mais a impressão de, como rapariguinha, estar a desempe- tudo. Aprendi isto em poucos dias.
nhar um papel numa peça de teatro escrita para além da minha Talvez ainda consiga ficar aqui um mês e depois hão-de certamente
capacidade de compreensão (como tantas vezes era o caso antigamente), descobrir essa entorse ao decreto. Hei-de pôr os meus papéis em ordem
mas tratava-se aqui da minha vida e do meu destino e eu conseguia ar- e despedir-me a cada dia. E a verdadeira despedida será então somente
car com isso, e o meu destino, com todas as ameaças, incertezas, fé e uma confirmação exterior daquilo que, dia a dia, já se cumpriu no
amor, fechou-se sobre mim e serviu-me como uma peça de roupa fei- meu íntimo.
ta expressamente para o meu tamanho. Amo-o com toda a forma de Estou verdadeiramente numa estranha disposição. Sou realmente
altruísmo que ensinei a mim mesma, e não hei-de pendurar nele o me- eu que estou para aqui sentada a escrever com uma tão grande calma
nor peso dos meus receios e nem dos meus desejos. Até mesmo o de- e maturidade dentro de mim? E será que alguém me conseguiria en-

D i á r i o 1941-194; 2,33
Ettv Hillcsum
tender se eu lhe dissesse que me sinto tão estranhamente feliz, sem es- pela colina íngreme e viesses embater num vale húmido e frio. Da úl-
tar a exagerar ou algo parecido, mas muito simples e feliz porque há tima vez que passei a noite com o Han, o tempo também estava nesse
uma suavidade e confiança crescendo dia a dia dentro de mim? Porque limite afiado entre o calor e o frio. Quando ontem à noite, junto à janela
toda essa confusão e ameaça e opressão que vêm ao meu encontro não aberta, tive aquela conversa sobre as últimas e mais penosas coisas,
me perturbam mentalmente nem por um instante? Porque continuo a aquelas que agora contam, e olhei para a sua cara contraída, nessa altura
ver e a viver a vida de forma bem clara e nítida nos seus contornos. Por- rive a sensação: «Esta noite havemos de estar nos braços um do outro
yue nada fica turvo no meu pensar e no meu sentir. Porque consigo e chorar.» Estivemos realmente nos braços um do outro, mas não cho-
arrostar e interiorizar tudo, e a consciência de que todo o bem que há rámos. Só que quando o corpo dele estava sobre o meu, no êxtase final,
na vida e o que foi bom na minha vida não é repelido pelo resto, mas subiu uma vaga de tristeza por mim acima, de tristeza humana normal,
vai crescendo mais vigorosamente comigo. Quase não me atrevo a es- e inundou-me por um instante; e senti uma compaixão enorme por
crever mais, não sei o que é, é como se eu fosse longe de mais na minha mim e por todos, e, com isso, que as coisas tinham de ser como foram.
libertação de tudo aquilo que, nos outros, quase conduz ao transtorno Porém, no escuro, consegui esconder a minha cara entre os ombros
mental. Quando eu souber, com toda a certeza, que irei morrer na nus dele, e saboreei as minhas lágrimas sozinha. E então de repente fui
próxima semana, ainda conseguirei estar sentada à minha secretária e obrigada a pensar no bolo desta tarde da Sra. Witkowski", de como de
estudar, em toda a paz de espírito, sem que isso seja um escape, e ago- repente apareceu coberto de morangos e tive de me rir por dentro com
ra sei que a vida e a morte estão ligadas uma à outra com sentido pro- um quase radiante sentido de humor. E agora tenho de ir tratar do al-
fundo, que será um deslizar, mesmo que o fim, aã sua forma exterior, moço e às duas horas vou ter com ele. Podia escrever ainda que o meu
seja triste ou horrível. estômago não está em ordem e que no meu corpo há muito mais que
Ainda temos de passar por muito. Havemos de ficar paupérrimos, também não está, mas tomei o propósito de não escrever mais nada
e se este processo continuar, arruinados, e diariamente dá-se um de- acerca da minha saúde, custa demasiado papel e depressa fico pronta;
créscimo de energias, não só devido aos medos e incertezas, mas também antigamente tinha de escrever muito porque nem sempre sabia lidar
a coisinhas mesquinhas como o ficar cada vez mais excluído de comprar corn isso, mas agora já está ultrapassado. Pelo menos é o que eu acho.
em lojas e percorrer distâncias a pé, o que para muitos que eu conheço é Sou afinal leviana e imodesta? Não sei.
já um sacrifício enorme. A nossa aniquilação aproxima-se furtivamente
por todos os lados, e dentro em breve o círculo cerrar-se-á à nossa vol-
ta, o que fará com que a ajuda de genre bem-intencionada deixe de ser
possível. Ainda existem muitos buracos, mas hão-de ser tapados.
Passam-se coisas engraçadas com as pessoas: o tempo está agora chu-
voso e frio. E como se, daquele planalto da noite quente, rebolasses A Sra. Wickowski. mulher do médico de Spier.

234 Eity Hillesum Diário 1941-1943 235


7 de Julho [1942]. Terça-feira de manhã, às nove e meia. pessoa deve ser consequente até ao fim. Uma pessoa pode dizer: «Até
aqui ainda aguento tudo, mas se lhe acontece alguma coisa ou se eu
A Mien" acabou de telefonar a dizer que o Mischa ontem foi à ins- for obrigada a separar-me dele, então já não aguento mais.» Também
pecção médica que deve decidir o seu envio para Drenthe 21 . Ainda nesse caso é preciso continuar. Hoje em dia> é uma coisa ou outra:
não se sabe o resultado. A mãe está num farrapo, disse-me ela, e o pai uma pessoa pode pensar «cruelmente» só em si mesma e em salvar a
lê muito, esse consegue concentrar-se muito. pele, ou deve distanciar-se de todos os seus desejos pessoais e render-
As ruas por onde andamos de bicicleta já não são bem as mesmas: -se. E para mim a rendição não impljca resignação, uma extinção, mas
a atmosfera que paira por cima de nós é baixa e carregada, e até parece sim, lá onde Deus me puser por acaso, ser um amparo ainda naquilo
ar de trovoada, mesmo se o sol brilha. Agora convivemos com o Des- que é possível, e não estar simplesmente repleta do próprio desgosto e
tino, ou como lhe queiram chamar, nele achamos também novos ges- privação. Continuo com uma disposição muito estranha. Poderia di-
tos de convivência e tudo é muito diferente daquilo que líamos nos zer que pairo em vez de andar, se não estivesse tão no meio da reali-
livros, antigamente. dade e não soubesse exactamente do que se trata.
Sei agora de mim para mim: temos de largar as preocupações com Há uns dias atrás ainda escrevi: «Quero continuar horas seguidas
os que nos são queridos. Com isto quero eu dizer que toda a energia e sentada à secretária e estudar para mim mesma.» Isso já não é assrm.
amor e confiança em Deus que uma pessoa possui, e que nos últimos Quer dizer, há-de acontecer uma vez por outra, mas tenho de desistir
tempos tem aumentado tão miraculosamente dentro de mim, deve es- da exigência. Deve-se renunciar a tudo e fazer aos outros as mil peque-
tar disponível para qualquer outra pessoa que se cruze connosco e que nas coisas que há para fazer num dia, sem com isso se perder nelas.
precise. «Habituei-me gravemente a si», disse ele ontem. E só Deus O Werner disse ontem: «Afinal já não mudamos de casa,/(í não com-
sabe como eu gravemente me «habituei» a ele. E no entanto tenho de o pensa.» E olhou para mim e disse: «Se ao menos conseguirmos partir
largar também. Quero dizer: do meu amor por ele preciso de retirar juntos.» O pequeno Weyl olhou para as pernas magras com tristeza e
energia e amor para cada um que o necessite, mas o meu amor e cui- disse: «Preciso de arranjar dois pares de calcas ainda esta semana. Onde é
dados com ele não me devem consumir de tal maneira que me rou- que as vou desencantar?» e para os outros: «Se ao menos calhasse ir no
bem todas as forças. Porque até isso é «prisão-do-eu». E até mesmo do mesmo compartimento que vocês!»
sofrimento se consegue tirar energia. E com o amor que sinto por ele, A partida é na próxima semana à uma e meia da manhã, e a via-
sou capaz de me alimentar uma vida inteira, e outros comigo. Uma gem de comboio é de graça, a sério, é de graça, e não podem levar
animais. Tudo isso estava escrito na convocatória. Também vinha es-
" Mien Kuyper dava aulas de piano ç organizava concertos em casa. crito que deviam levar sapatos de trabalho, dois pares de meias e uma
11 Drernhe é uma das províncias da Holanda. Durante a guerra era lá que se situava o conhecido cam-

po de trânsito de \C'esrerbork, um local para onde os judeus eram enviados e obrigados a trabalhar e a viver em
colher, mas nada de ouro, de prata ou de platina, isso não, podem
barracas antes de serem enviados para os campos de concentração e de extermínio. (A' da T) levar as alianças de casados, isso é comovente, ainda podem conserva-

236 Erty Hillesum D i i r i o 1941-194, 237


-Ias. «E não hei-de levar chapéu», disse a Fein, «mas um gorro, há-de À tarde.
ficar-nos bem.>>
Pois, assim estamos nós à nossa «hora do aperitivo». Quando on- Um amigo do Bernard encontrou na rua um soldado alemão que
tem à noite cheguei a casa depois do tradicional «aperitivo», ainda lhe pediu um cigarro. Desenvolveu-se uma conversa, a qual veio a re-
pensei de caminho: «Como é que raios ainda vou conseguir dar aula du- velar que o soldado era austríaco e tinha sido professor em Paris. Uma
rante uma hora», a respeito da hora e meia com a Wermeskerken", de frase da conversa relatada pelo Bernard quero decorar, ele disse: «Há
cabelinho curto ^ rapaz e grandes olhos azuis desafiadores, era igual- mais soldados a morrer na Alemanha devido à caserna do que às mãos
mente capaz de escrever um livro inteiro. Espero conseguir reter tudo do inimigo.»
desta época na memória e poder contar mais tarde algo sobre ela. É
tudo muito diferente do que está nos livros, muito mesmo. Ainda não Domingo de manha, o corretor da Bolsa na esplanada do Leo Krijn:
sou capaz de escrever sobre os mil pormenores com que lido diaria- «Temos de rezar com todo o coração para que venha uma coisa me-
mente, gostava muito de os memorizar. Eu própria noto: o meu dom lhor, enquanto temos mente para desejar uma coisa melhor. Porque, se
de reparar nas coisas regista tudo com grande exactidão e com um es- por causa do nosso ódio, nos transformamos em cães selvagens como
tranho contentamento por isso. Juntamente com todo o viver as coi- eles, então já não faz diferença nenhuma.»
sas, com todo o meu cansaço, sofrimento e o resto, isto ainda fica: a
minha alegria, a alegria do artista em observar as coisas e, no seu espí- O que mais preocupação me causa ainda são os meus pés inutilizá-
rito, transformá-las numa imagem própria. Dos moribundos, ainda veis. E espero que quando chegar a altura a minha bexiga esteja restau-
hei-de ver com interesse a última expressão do rosto e conservá-la. So- rada, porque senão serei de cerreza um empecilho para a comunidade
fro em conjunto com aqueles com quem falo todas as noites e que na amontoada do futuro. E, finalmente, tenho ainda de ir uma última
próxima semana hão-de trabalhar num lugar ameaçado deste mundo, vez ao dentista; todas as coisas necessárias que uma pessoa foi adiando
numa fábrica de munições ou sei lá onde — se é que ainda podem tra- uma vida inteira têm de ser por fim feitas urgentemente, creio. E de-
balhar — mas registo em mim cada pequeno gesto, cada pequena de- sisto também de escarafunchar na gramática russa, sei o suficiente para
claração, cada expressão do rosto e faço-o com uma quase fria e ensinar aos meus alunos nos próximos meses, mais vale acabar de ler
distante neutralidade. Tenho a atitude do artista, e creio que mais tar- O Idiota. Resumos de livros também não faço rnais, já que isso exige
de, quando sentir que é necessário contar tudo, também hei-de ter ta- muito tempo e eu decerto não hei-de poder levir toda essa papelada
lento suficiente. comigo. A partir de agora vou extrair o essencial de tudo com o meu
espírito e guardá-lo para tempos de vacas magras. E também é melhor
acostumar-me à ideia de que vou ter de sair daqui, tomando cada vez
Swiep van Wermeskerken tinha aulaí de russo com Ecty. mais consciência dessa despedida através de pequenos actos, para que

238 Diário 1941-1943 239


Ecty HilUsum
«o fim definitivo» não me atinja ainda assim como um golpe dema- o Livro de Horas e Canas a um Jovem Poeta do Rilke. E gostava imen-
siado violento: o desfazer-me de cartas e papéis e de muita tralha na so de íevar os meus dois pequenos dicionários de russo e O Idiota para
minha secretária. Penso porém que o Mischa vai ser reprovado. exercitar a língua. Claro que posso tornar-me um caso muito estranho
Preciso também de ir mais cedo para a cama, de contrário ando de- quando, ao registar-me, declare como profissão: professora de russo.
masiado sonolenta durante o dia e isso não pode acontecer. Ainda pre- Provavelmente há-de ser um «caso isolado» e as consequências disso são
ciso de ver se consigo deitar mão à carta do nosso decente soldado ainda difíceis de calcular. Só Deus sabe através de que desvios tortuo-
alemão antes de a Lizzy" ir para Drenthe, para a guardar como «docu- sos eu sempre irei parar um dia à Rússia, se eles, com conhecimento de
mento humano». Após o primeiro e esmagador avanço, a História deu línguas e tudo, me deitarem a garra.
muitas voltas estranhas. A vida é muito engraçada e surpreendente e tão
infinitamente matizada, e a cada curva do caminho surge repentina-
mente uma nova paisagem completamente diferente. A maior parte das 8 horas.
pessoas tem na cabeça ideias feitas acerca desta vida, uma pessoa precisa
de se libertar interiormente de tudo, de cada ideia fossilizada, de divisas, Ora bem, agora ponho uma tampa com força a tapar todos os ru-
de cada vínculo, uma pessoa precisa de possuir a coragem de largar mores deste dia, e esta noite, com todo o sossego e concentração que
tudo, cada norma e cada ponto de segurança, uma pessoa deve ousar dar há em mim, pertence-me. Uma rosa-chá amarela está em cima da mi-
o grande salto no cosmos e em seguida, em seguida a vida torna-se infi- nha secretária entre duas jarrinhas pequenas com amo rés-perfeitos ro-
nitamente rica e abundante, até mesmo no mais profundo sofrimento. xos. A «hora do aperitivo» já passou. S. perguntou, completamente
Gostava muito de ler tudo de Rilke antes que chegue o tempo em esgotado: «Como é que os Levies aguentam isto todas as noites? Já não
que talvez não possa mais pegar num livro. Identifico-me muitíssimo aguento mais, estou completamente moído.» E agora deito todos os boa-
com o grupinho de pessoas que conheci por acaso através do Werner tos e realidades para trás das costas e a noite vai ser toda passada a tra-
e da Liesl, e que na próxima semana vai ser deportado para trabalhar balhar e a estudar. O que é que se passa realmente comigo? Nenhuma
na Alemanha sob vigilância policial. Esta noite sonhei que tinha de ter das preocupações e ameaças deste dia ficou agarrada a mim, estou
a mala pronta. Foi uma noite enervante, sobretudo o calçado fez-me aqui sentada à secretária tão «inalterada» e recém-nascida, tão inteira-
desesperar, toda a espécie de sapatos me aleijava os pés. E o que fazer com mente disposta a estudar, como se nada se passasse neste mundo. Des-
a roupa interior e com tudo, e com a comida para três dias e coberto- prendeu-se tanta coisa de mim e nada deixou rastro e sinto-me mais
res, tudo numa mala ou numa mochila? Mas com certeza que sempre «inteligente» que nunca. Para a semana que vem, todos os holandeses
há-de sobrar algum lugar num cantinho para a Bíblia. E já agora para vão ser provavelmente chamados à inspecção. De minuto a minuto,
vão-se despegando de mim mais desejos, anseios e vínculos a outros,
* Lilzvé Liesi. estou pronta para tudo, para cada local deste mundo para onde Deus

240 Errv Diitío 1941-19+5 241


me enviar, e estou pronta a testemunhar sob qualquer circunstância e ma coisa pelos outros, o que pudermos», ainda soa a alguma resignação
até à morte que esta vida é bela e prenhe de sentido, e que não é culpa a mais. Ainda há qualquer coisa que soa nessa frase que não é bem
de Deus as coisas serem actualmente como são, mas culpa nossa. Fo- aquilo que eu quero dizer. Continuo a não conseguir encontrar o tom
ram-nos dadas todas as possibilidades para aceder a iodos os paraísos, certo para aquele sentimento de firmeza e felicidade que há em mim,
ainda vamos ter de aprender a lidar com as nossas possibilidades. É onde também se incluem todo o sofrimento e tristeza. Ainda uso um
como se a cada momento se soltassem mais pesos de cima de mim; tom de filosofia livresca, exactamente como se tivesse inventado uma
como se todas as fronteiras entre pessoas e povos tombassem perante teoria consoladora para tornar a minha vida um pouco mais agradável.
os meus olhos. Em dados momentos é como se a vida se me tivesse Por enquanto, é melhor aprender a calar-me e a ser.
tornado transparente e o coração humano também, e eu vejo e vejo, e
compreendo cada vez mais e tenho mais e mais paz dentro de mim, e
interiormente tenho uma confiança em Deus que ao princípio me Sexta-feira de manhã [10 de Julho de 1942].
inspirava medo devido ao seu rápido crescimento, mas que cada vez
mais vai fazendo parte de mim. E agora ao trabalho. Penso e repenso e cismo, e tento interiorizar as ameaçadoras preo-
cupações diárias no mais curto espaço de tempo possível. E há um bo-
tão dentro de ti que torna a respiração dolorosa e tu fazes contas e
Quinta-feira de manhã [9 de Julho de 1942], nove e meia. buscas, e é preciso deixar o estudo durante parte da manhã, andas no
quarto de um lado para o outro, dói-te também a barriga, etc., e de re-
E palavras como Deus e Morte e Sofrimento e Eternidade devem pente, dentro de ti, assoma novamente a certeza: mais tarde, se sobre-
ser de novo esquecidas. E devemos ser outra vez tão simples e sem pa- viver a tudo isto, hei-de escrever pequenas histórias sobre este período
lavras como o grão que cresce ou a chuva que cai. Devemos só ser. que serão escritas como leves pinceladas sobre um grande fundo de si-
lêncio de Deus, Vida, Morte, Sofrimento e Eternidade. As muitas ra-
Será que já cheguei realmente ao ponto em que é honesto dizer: lações assaltam-te de vez em quando como se fossem parasitas. Pois bem,
espero poder ir para o campo de trabalho a fim de poder fazer algo pe- temos de nos coçar um bocadinho e o nosso corpo fica mais feio, mas
las raparigas de dezasseis anos que também vão? A fim de poder dizer acabamos por conseguir livrar-nos deles.
com antecedência aos pais que ficam: «Não se preocupem, eu tomo Vou considerar o pouco tempo que posso ficar aqui ainda um pre-
conta das vossas filhas.» sente excepcional, como se fossem umas férias. Nos últimos dias vivo
a vida como se houvesse uma chapa fotográfica dentro de mim que
Se eu disser aos outros: «Fugir ou esconder-se não adianta mesmo regista tudo de modo infalível, até nos mais pequenos pormenores.
nada, não há maneira de escapar, o melhor é irmos e tentar fazer algu- Disso estou muito consciente, tudo vai para o meu «interior» com con-

242 • Etty Hillísum DiiiJo 243


tornos nítidos. Mais tarde, muito mais tarde talvez, hei-de fazer a reve- 11 de Julho de 1942. Sábado às 1 1 horas da manka.
lação e a impressão.
A fim de achar o novo tom a condizer com o novo sentimento de Sobre as coisas derradeiras e sérias desta vida só se deve falar real-
vida. Uma pessoa devia ficar calada até encontrar esse tom. Contudo, mente quando as palavras brotam de ti tão simples e naturais como se
uma pessoa deve tentar encontrá-lo enquanto fala, ficar calado tam- fossem água de uma fonte.
bém não serve, isso é igualmente uma fuga. A transição do tom velho
para o novo deve ser feita seguindo todas as fases. E se Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar a Deus.
Pouco a pouco, a superfície da Terra vai sendo coberta por um
Um dia difícil, muito difícil. Um «destino colectivo» com o qual uma grande campo de trabalho e quase ninguém conseguirá ficar de fora.
pessoa deve aprender a conviver, suprimindo todas as puerilidades Esta é uma fase que temos de atravessar. Os judeus aqui contam uns
pessoais. E qualquer um, que ainda se queira salvar, tem obrigação de aos outros coisas muito agradáveis: que na Alemanha são emparedados
saber que se não for ele é um outro em seu lugar. E será que é muito ou exterminados com gases tóxicos. Não é lá grande esperteza contar
importante se sou eu ou um outro, aquele ou aquetoutro? Tornou-se este tipo de histórias mutuamente, e além disso: se de uma maneira ou
entretanto um «destino colectivo» e as pessoas devem sabê-lo. Um dia de outra tudo isso acontece, pois bem, então não é sob a nossa respon-
muito difícil. Mas, de cada vez, reencontro-me sempre na oração. E isso sabilidade?
sempre hei-de poder continuar a fazer, ate mesmo no recinto mais pe- Desde ontem à noite, uma chuvada demoníaca. Já arrumei uma
queno: rezar. E essa coisa do «destino colectivo» posso eu com ela, ato-a das gavetas da minha secretária. Encontrei a tal fotografia dele que já
como se de um embrulho se tratasse, cada vez mais apertado e fitme andava perdida há quase um ano, mas eu sempre soube: hei-de reen-
sobre as minhas costas, confundindo-se com elas, e já vou caminhando contrá-la. E de repente lá estava ela no fundo duma gaveta desarru-
assim pelas ruas. mada. E isso é uma característica minha: acerca de certas coisas —
E devia acenar com esta caneta fina de tinta permanente como se grandes ou pequenas — sei que as coisas hão-de compor-se. Sobre-
ela fosse um martelo, e as palavras deviam ser o mesmo número de mar- tudo no que diz respeito a coisas de teor material, também sinto isso
teladas para contar um destino e um pedaço de História como nunca com grande intensidade. Nunca me preocupo com o dia seguinte, sei
antes existiu. Não desta forma totalitária e organizada, em massa, por exemplo que dentro em breve vou ter de sair daqui e não faço a
abrangendo toda a Europa. Mas vão ter de sobrar pessoas para no fu- menor ideia onde irei parar, e o ganha-pão vai extremamente mal,
turo serem os cronistas desta época. Eu gostava imenso de mais tarde mas nunca me preocupo comigo mesma, sei que alguma coisa há-de
ser uma dessas pequenas cronistas. acontecer. Se uma pessoa sobrecarrega antecipadamente as coisas que
A boca dele tremendo ao dizer: «Nesse casoaAdri ou a Dicky tam- hão-de vir, elas não vão poder desenvolver-se organicamente. Há uma
bém já não se hão-de atrever a trazer-me comida.» confiança enorme em mim. Não uma confiança em que as coisas me

244 Eciy H d l í s u m Diário 1941-194) 245


hão-de correr sempre bem exteriormente, mas sim uma confiança em semana as Cartas de Rilke. Havia de mandar fazer umas calças e um
que, também nos períodos em que as coisas me correm menos bem casaco curto do tecido grosso para sobretudos, que ainda tenho por aí.
eu aceito e gosto desta vida. Naturalmente que ainda havia de querer visitar os meus pais e contar-
Apercebo-me de quanto eu estou a ficar preparada para um cam- -Ihes muitas coisas sobre mim que lhes dessem muito consolo. E a cada
po de trabalho, através de ninharias. Ia com ele ontem à noite ao lon- minuto que me restasse havia de lhe querer escrever, ao homem do
go do cais com umas sandálias confortáveis nos pés, e pensei de qual sei que hei-de morrer de saudades. Assim como às vezes, em dados
repente: «Também hei-de levar estas sandálias que é para poder trocá- momentos, creio morrer quando penso que vou ter de me apartar dele
-las de vez em quando com os sapatos mais fortes.» e nunca mais saberei o que irá acontecer-lhe. Daqui a uns dias vou ao
Mas o que é que se está a passar comigo neste momento? Uma alegria dentista para me chumbar os muitos buracos nos dentes escavados,
tão ligeira e quase brincalhona? Ontem foi um dia difícil, muito difícil, porque isso é que seria verdadeiramente grotesco: sofrer de dor de den-
no qual houve muito sofrimento interior a ter de interiorizar. E mais tes. Vou ver se consigo arranjar uma «mochila» e levar as coisas mais es-
uma vez superei tudo o que veio ao meu encontro, e consigo aguentar senciais, mas tem de ser tudo de boa qualidade. Vou levar uma Bíblia, e
novamente mais do que ontem. E foi isso que provavelmente me deu a para os dois livros fininhos Cartas a um jovem Poeta e o Livro de Horas
satisfação interior e a calma: como eu noto, de cada vez que consigo li- com certeza que hei-de conseguir arranjar um cantinho qualquer na
dar com as coisas compíetamente sozinha, como o meu coração não mochila. Não levo retratos de entes queridos, mas ao longo das pare-
mirra de amargura nesse processo, e também como os momentos de des extensas do meu íntimo penduro os muitos rostos e os gestos que
desgosto mais profundos e de desespero deixam em mim as suas semen- coleccionei, e eles hão-de ficar para sempre comigo. E levo estas duas
tes férteis e me fortalecem. Não tenho grandes ilusões acerca da verda- mãos, com os dedos expressivos como rijos rebentos novos. E estas mãos
deira situação e até mesmo à pretensão de ajudar os outros eu renuncio. hão-de frequentemente pousar, protectoras, sobre mim numa oração,
Hei-de partir sempre do princípio de ajudar Deus tanto quanto possí- e não me irão abandonar até ao fim. E estes olhos escuros hão-de ir co-
vel e se conseguir, pois bem, nesse caso também estou disponível para migo, com o seu olhar bondoso e suave e inquisitivo. E se os meus tra-
outros. Mas ilusões heróicas sobre isso, é melhor também não as ter. ços do rosto ficarem feios e estragados por causa de muito sofrimento e
E o que faria eu realmente, pergunto-me, se andasse com o cartão demasiado trabalho, nesse caso toda a vida existente na minha alma
de chamada para a Alemanha na algibeira e tivesse de partir dentro de Ká-de poder recolher-se nos meus olhos e todo o restante lá se poderá
uma semana? Imagina que o cartão chega amanhã, o que é que fazias? reunir. Etc., etc., etc.
De início não contava a ninguém, retirava-me para o canto mais sos- Este é um estado de espírito, claro; um dos muitos que uma pes-
segado da casa e recolhia-me em mim mesma e reunia no corpo e na soa aprende a conhecer em si nas novas circunstâncias. Mas também
alma energias vindas de todos os quadrantes. Havia de cortar o cabelo à são uma parte e uma possibilidade de mim. Urna parte de mim que co-
rapaz e deitar fora o batom. Havia de tentar acabar de ler ainda nessa meça cada vez mais a sobrepor-se. De resto: uma pessoa é somente uma

246 . Ectv H i l i e s u m Diário 247


pessoa. Comecei já a habituar o meu coração a continuar a ir em fren- pessoas. Afinal uma pessoa é somente uma pessoa. Nesta nova situa-
te, quando for apartada daquele sem o qual creio não conseguir viver. ção, uma pessoa terá de voltar a conhecer-se de novo a si própria.
Cada momento que passa, torno-me mais livre no plano exterior, ao Muita gente me acusa de indiferença e passividade e diz que me
concentrar-me cada vez mais ern que, apesar da distância que nos vier rendo de mão beijada. E dizem: «Cada pessoa que consiga escapar às
a separar, continuaremos unidos e a levar uma vida em comum inte- Barras deles deve tentar fazê-lo e é uma obrigação. E eu tenho de fazer
riormente. Mas, por outro lado, ao caminhar assim de mãos dadas alguma coisa por mim mesmo.» Esta é uma frase que não bate certo.
com ele ao longo do canal, que ontem à noite apresentava um ar ou- Neste momento toda a gente anda, com efeito, ocupada a tratar da vi-
tonal e tempestuoso, ou, quando no pequeno quarto dele, me aqueço dinha a fim de se safar, e no entanto é preciso que um certo número,
nos seus gestos generosos e bons, insinua-se em mim novamente a es- um número grande até, vá. E o esquisito é o seguinte: eu não tenho a
perança muito humana e o desejo: por que é que não podemos fi- sensação de estar presa nas garras deles. Não se eu ficar, e também não
car juntos? Tudo o resto não importa desde que assim possamos ficar. se me mandarem em transporte. Acho tudo tão banal e tão primitivo,
Não quero separar-me dele. Porém, às vezes penso com os meus bo- já não consigo seguir esse tipo de raciocínio, não sinto que esteja nas
tões: «E capaz de ser ainda mais fácil rezar por alguém à distância do garras de ninguém, só sinto estar nos braços de Deus — para dizer isto
que vê-lo sofrer ao teu lado.» de um modo muito bonito -— e, seja aqui à beira desta secretária que
Carreiros conduzindo directamente de pessoa a pessoa, neste mun- me é muitíssimo querida e familiar ou daqui a um mês num quarto
do em total confusão, só são possíveis através da via interior. Por fora, despojado no bairro judeu, ou talvez num campo à guarda das SS, acho
somos lançados violentamente uns contra os outros, e os caminhos que que irei sentir-me sempre nos braços de Deus. E pode ser que consigam
nos ligam estão tão cobertos de escombros que, em muitos casos, nun- arrasar-me fisicamente, mas mais do que isso não. E talvez caia em de-
ca mais conseguiremos achar o caminho que nos conduz ao encontro sespero e sofra privações que nem nas minhas fantasias mais delirantes
dos outros. Um contacto contínuo e a continuação da vida em co- eu conseguia imaginar. E contudo tudo isto é muito relativo compa-
mum só são possíveis interiormente e não há sempre a esperança de rado com a vastidão incomensurável da confiança em Deus e da capa-
um dia nos voltarmos a encontrar neste mundo? cidade de vivência interior. E possível que eu subestime tudo. Convivo
Claro que não sei como vou ficar quando for verdadeiramente diariamente com todas as duras probabilidades que a cada momento
confrontada com o facto de ter de me separar dele. Ainda tenho a voz se podem tornar concretas para a minha pessoa, e que para muitos,
dele esta manhã no meu ouvido, e esta noite vou jantar com ele à mes- para demasiados, já se concretizaram. Dou-me conta de tudo até aos
ma mesa, e amanhã de manhã vamos passear e em seguida almoçar mais ínfimos pormenores, estou em crer que nas minhas «explicações»
com a Liesl e o Werner, e à tarde vamos tocar música. Ele ainda conti- íntimas fico com os pés bem assentes na dura terra da realidade mais
nua presente. E, no mais fundo de mim, sou capaz de ainda nem se- cruel. E a minha aceitação não é resignação ou apatia. Continua a haver
quer acreditar que vou ter de me despedir dele e também de outras lugar para a indignação moral mais elementar em relação a um regime

248 Ettv Hilleium 249


que lida assim com as pessoas. Mas as coisas assomam-nos em formato vou arranjar um atestado se puder. Aconselham-me também a arranjar
um emprego de fachada no Conselho Judaico22. Eles tiveram licença
demasiado grande e demoníaco para que possamos ainda reagir pessoal-
mente com ódio e ressentimento. Isso parece-me muito infantil e ina- para admitir 180 pessoas na última semana e agora os desesperados
dequado a este acontecimento «fatal». acotovelam-se aos magotes. E como se fosse um pedaço de madeira a
As pessoas irritam-se frequentemente quando digo: «Não é fun- boiar no vasto oceano após um naufrágio, ao qual a maior quantidade
damental ser eu ou outro a ir, não é? O principal é, sim, haver tantos possível de gente tenta agarrar-se. Mas acho que não adianta nada e é
milhares obrigados a ir.» E não é que eu queira lançar-tne nos braços ilóaico intentar algo. E também não faz parte do meu carácter usar os
da minha ruína com um sorriso conformado, também não é isso. É o meus bons conhecimentos para meter cunhas. Parece, aliás, que há
sentimento de inevitabilidade e a aceitação dela, e ao mesmo tempo montes de intrigas por lá e o rancor por esse estranho órgão mediador
saber que, em última instância, nada nos poderá ser tirado. Não é cer- aumenta de hora para hora. E além disso: mais tarde ou mais cedo há-de
tamente por uma espécie de masoquismo que eu quero forçosamente chegar a vez deles. Mas pronto, pode ser que por essa altura já os in-
ir e ser arrancada à minha base de existência dos últimos anos, mas gleses tenham desembarcado. E isso o que dizem os que ainda possuem
nem sei se me sentiria bem se ficasse dispensada daquilo a que muitos alguma esperança política. Creio que é melhor desistir de qualquer es-
outros são obrigados a sujeitar-se. Dizem-me: «Alguém como tu tem perança vinda do mundo exterior e deixar de fazer contas de cabeça
o dever de se pôr em segurança. Ainda tens tanto a fazer mais tarde na sobre a duração do tempo, etc.
vida, ainda tens tanto a oferecer.» O que eu tenho ou não a oferecer
hei-de conseguir dá-lo onde quer que esteja, seja aqui num círculo de
amigos ou algures num campo de concentração. E é de uma rara so- Oração de domingo de manha [12 de Julho de 1942].
brestimação pessoal achar-se demasiado precioso para compartilhar
um «destino colectivo». E se Deus achar que ainda tenho muito a fazer, São tempos temerosos, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez,
então ainda o heí-de fazer depois de ter passado por tudo o que os ourros passei-a deitada no escuro de olhos abertos e a arder, e muitas imagens
também passam. E se sou uma pessoa com valor, isso só poderá ser do sofrimento humano desfilavam perante mim. Vou prometer-te uma
confirmado através do comportamento que irei mostrar nas circunstân- coisa, Deus, só uma ninharia: não irei sobrecarregar o dia de hoje com
cias alteradas. E mesmo que não sobreviva, então o modo como hei-de igual número de preocupações em relação ao futuro, mas isso custa um
morrer será determinante para saber quem eu sou. Já não se trata de certo exercício. Cada dia já tem a sua conta. Vou ajudar-te, Deus, a não
escapar a uma certa situação custe o que custar, mas, sim, de como
uma pessoa se comporta e continua a sua vida em qualquer situação. -- O Conselho judaico foi criado pelos ocupances alemães em 194 í a fim de dirigir a comunidade
judaica, divulgar e implementar ai medidas alemãs, e a sua existência controversa. O Conselho Judaico
As coisas que são razoáveis eu fazer, faço-as. Os meus rins ainda an- deixou de exiscir ern 1943 quando chegou a vez dos seus líderes serem enviados pira o campo
dam abananados e a minha bexiga ainda não está em ordem, e por isso bork. (N. da J.)

250 Etty
Diário
me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedên- de uma casa hospitaleira ainda envolvem os teus ombros como uma
cia. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos familiar peça de roupa muito usada, a comida chega para hoje e a tua
podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar, e, ajudando-te, aju- cama, de lençóis brancos e cobertores quentes, espera-te de novo esta
damo-nos a nós próprios. E esta é a única coisa que podemos preservar noite. Portanto não deves desperdiçar um pequenino átomo que seja
nestes tempos, e também a única que importa: uma parte de ti em nós, da tua energia com as tuas pequenas preocupações materiais. Usa e
Deus. E talvez possamos ajudar a pôf-te a descoberto nos corações utiliza cada minuto deste dia e transforma-o num dia frutuoso; mais
atormentados de outros. Sim, meu Deus, quanto às circunstâncias pa- uma pedra sólida no fundamento em que os nossos próximos pobres
reces não ter lá grande influência sobre elas, «é evidente que fazem par- e temerosos dias se possam apoiar um pouco.
te indissolúvel desta vida.» Também não te chamo à responsabilidade O jasmim nas traseiras da minha casa encontra-se agora comple-
por isso; tu é que podes mais tarde chamar-nos à responsabilidade. tamente destruído pelas chuvadas e temporais dos últimos dias. As suas
E, quase a cada batida do coração, torna-se-me isto mais nítido: que tu florzínhas brancas bóiam dispersas nas lamacentas poças negras do te-
não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te e que a morada em lhado raso da garagem. Mas, algures em mim, esse jasmim continua a
nós onde tu resides tem de ser defendida até às últimas. Existem pes- florir sem impedimentos, tão exuberante e delicado como sempre flo-
soas, a sério que é verdade, que no último momento põem aspiradores riu. E espalha os odores pela casa onde habitas, meu Deus. Como vês,
a salvo e garfos e coiheres de prata em vez de ti, meu Deus. E há gente trato bem de ti. Não te trago somente as minhas lágrimas e pressenti-
que quer salvar o corpinho no qual se acolhem somente mil medos e mentos temerosos, até te trago, nesta tempestuosa e parda manhã de
rancores. E dizem: «A mim não me lançam eles a garra.» E esquecem- domingo, jasmim perfumado. E hei-de trazer-te todas as flores que en-
-se de que ninguém fica nas garras de ninguém, se estiverem nos teus contre pelo caminho, meu Deus, e a sério que são muitas. Hás-de ficar
braços. Recomeço a ficar um bocadinho mais calma, Deus, por causa sinceramente tão bem instalado em minha casa quanto é possível. E já
desta conversa contigo. Hei-de ter mais conversas contigo no futuro agora para te dar um exemplo ao acaso: se eu estivesse encerrada numa
próximo e, deste modo, impedir que me fujas. Também hás-de viver cela acanhada e uma nuvem passasse ao longo da minha janela gradeada,
tempos de maior privação em mim, meu Deus, não serás alimentado então eu iria trazer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos ainda ti-
tão fortemente pela minha confiança, mas acredita que continuarei a vesse forças para isso. Não posso prometer nada antecipadamente,
trabalhar para ti e a ser-te fiel e não te expulsarei do meu território. mas as intenções são óptimas, hás-de notar.
Para o grande sofrimento heróico tenho forças suficientes, meu E agora vou entregar-me a este dia. Hoje vou encontrar-me com
Deus, mas são as mais de mil pequenas ralações diárias que às vezes, de muitas pessoas, e os boatos maldosos e as ameaças irão assaltar-me como
repente, saltam para cirna de ti como se fossem parasitas que te atacam. igual número de soldados ao assalto de uma fortaleza inexpugnável.
Enfim, por enquanto coço-me um bocadinho e digo todos os dias
para mim mesma: do dia de hoje ainda se cuidou, as paredes protectoras

Hillesum Diário I94Í-Í943


14 de Julho [1942], terça-feira à noite. caem séculos de enfiada no abismo, e então tudo se fragmenta perante
o meu olhar, e o meu coração começa a desligar-se de tudo. São mo-
Cada um deve levar a sua vida conforme a maneira que melhor se mentos breves, mais tarde recupero tudo de novo e a minha cabeça
lhe adapte. Não consigo agir activamente para, por assim dizer, me torna-se novamente muito límpida e consigo aguentar com todo este
salvar: parece-me muitíssimo inútil e torna-me desassossegada e infe- pedaço de História sem ficar prostrada.
liz. A carta com o pedido de emprego ao Conselho Judaico a conselho E, tendo uma vez começado a caminhar com Deus, então, sim,
insistente do Jaap tirou-me por um momento do meu equilíbrio actual, «tens de continuar a caminhada. A vida inteira é então um caminhar
alegre e contudo extremamente sério. Tal e qual como se fosse uma es- constante; um sentimento muito estranho.
pécie de acto indigno. Esse acotovelar-se à volta daquele pequeno pe- Compreendo um pouco da História e das pessoas.
daço de madeira à deriva no oceano infinito, a seguir ao naufrágio. E, Não escrevo agora com grande vontade, é como se cada palavra
consequentemente, o «salve-se quem puder» e empurrar os outros para empalidecesse imediatamente e envelhecesse nas mãos e por isso peça
uma morte por afogamento. E tudo tão sem dignidade, e essa confusão uma palavra seguinte, que por enquanto ainda não nasceu.
também não me agrada nada. Provavelmente faço parte dessas pessoas Se conseguisse escrever muito daquilo que penso e sinto, e que às
que preferem ficar um bocadinho a boiar de costas no oceano, de vezes se me torna nítido num relâmpago, sobre esta vida e sobre as pes-
olhos dirigidos ao céu, e que depois submergem com um gesto con- soas e Deus, então sairia uma coisa muito bonita, tenho a certeza. Te-
formado e devoto. Francamente não consigo agir de outro modo. E o rei de ter paciência continuamente e deixar que as coisas amadureçam
certo é que as minhas batalhas se travam num nível interior com os dentro de mim.
meus próprios demónios, mas lutar no meio de milhares de pessoas As pessoas exageram nos seus medos por esse corpo infeliz. E o es-
apavoradas, contra fanáticos ferozes e extremamente frios, ao mesmo pírito, o espírito olvidado, definha algures a um canto. As pessoas vivem
tempo que desejam a nossa destruição, não, isso não se coaduna co- de modo errado, comportam-se sem dignidade. Têm muito pouca cons-
migo. Também não tenho medo, não sei o que é, estou muito calma, ciência histórica, aguentar também pode ser feito com consciência his-
por vezes é como se estivesse no torreão do Palácio da História e avis- tórica. Não odeio ninguém. Não estou amargurada. E, uma vez que esse
tasse territórios longínquos. Este pedaço de História, tal como o vivemos amor geral pela humanidade desabrocha em ti, ele cresce até ao infinito.
agora, consigo igualmente suportá-lo sem me ir abaixo. Sei perfeita- Uma doida sem total percepção da realidade é o que muitos me cha-
mente tudo o que se passa e a minha mente permanece extremamente mariam se soubessem o que sinto e penso. E, no entanto, convivo com
lúcida. E por vezes é como se uma camada de cinza fosse lançada sobre todas as realidades que um dia me traz. O ocidental não aceita o «sofri-
o meu coração. E outras, também, é como se o meu rosto murchasse e mento» como parte integrante desta vida e por isso nunca consegue ex-
se desfizesse perante os meus olhos e através dos seus traços cinzentos trair forças positivas do sofrimento. Vou procurar outra vez a meia dúzia

2-54 Hillcsum Diário 1941-194; 255


de frases da cana de Rathenau23 que já copiei há uns tempos. Ora aqui es- lalvez soe estranho, mas esta meia dúzia de descoloridos gatafu-
tão elas. Vou sentir falta disto mais tarde: agora basta-me estender a rnão nhos desleixados a lápis representa para mim a primeira carta de amor
e acho as palavras, os fragmentos, com que o meu espírito se quer ali- a sério. Tenho malas a abarrotar com elas, as chamadas cartas de amor,
mentar neste momento. Mas preciso de ter tudo dentro de mim. Uma e homens já me escreveram tantas palavras apaixonadas, e ternas, e de
pessoa também deve conseguir passar sem livros e sem nada. Há-de juras, e de desejo. Muitas palavras com as quais se tentavam acalentar
haver sempre uma nesga de céu visível em alguma parte e tanto espaço a eles e a mim, e às vezes eram um fogo-fátuo.
em meu redor, que as minhas mãos sempre se poderão juntar em oração. Porém, estas palavras dele ontem, «Sabes, tenho um peso no coração.»,
e esta manhã, «Querida, quero continuar a rezar!», são as prendas mais
São agora onze e meia da noite. O Weyl aperta agora as correias preciosas que alguma vez foram oferecidas ao meu mimado coração.
da mochila demasiado pesada para as suas costas fracas e vai a pé até à
Estação Central. Acompanho-o. Na realidade, ninguém devia pregar
olho esta noite e só se devia era rezar. A noite.

Não, não creio que me vá abaixo. Esta tarde, um breve período de


Quarta-feira de manhã [15 de Julho de 1942]. imenso desespero e desgosto, não devido a tudo o que está a acontecer,
mas simplesmente por mim. A ideia de ter de o deixar sozinho, nem se-
Penso que afinal ontem à noite não rezei suficientemente bem. quer é tristeza devido às saudades que vou sentir dele, mas sim tristeza pe-
Foi depois de ter lido a carta dele esta manhã, que rebentou algo den-
las saudades que ele vai sentir de mim. E há uns dias atrás pensei que
tro de mim e me inundou. Eu estava ocupada com a mesa do pe-
nada mais iria acontecer-me quando a minha convocatória viesse, e que
queno-almoço e de repente, no meio da sala, tive de parar e juntar as
eu já tinha sofrido e vivido tudo com antecedência, mas esta tarde aper-
mãos e curvar a cabeça profundamente, e lágrimas que tinham estado
cebi-me subitamente que tudo isto ainda pode oprimir-me muito mais
muito tempo retidas cá dentro inundaram o meu coração e havia tan-
do que já oprimiu. Foi dificílimo. Fui-te infiel por um instante, Deus,
to amor e compaixão e brandura e também tanta energia em mim que
mas não totalmente. Faz bem passar temporariamente por este tipo de
deve servir para alguma coisa. Depois de ler a carta dele, houve por um
momentos de desespero e de quebra, a calma contínua seria quase sobre-
instante em mim a minha derradeira e mais séria seriedade em mim.
-humana. Porém, agora sei novamente que hei-de superar qualquer de-
sespero. Esta tarde nunca teria pensado que esta noite já conseguiria estar
~ Walcher Rathenau. industrial, escritor e político de origem judaica. Foi ministro na República de
sentada tão calma e concentrada à minha secretária. A desesperança tinha
Weitnar. Assassinado pela extrema-dircka alemã em 1922. (j'V. da T) extinguido temporariamente tudo em mim, apagado qualquer coerência,

2-56 . Etty Híliesui Diário 1941-1943 257


e eu senda uma enorme tristeza. E novamente as mil pequenas ralações: de menos hei-de saber nalgum cantinko de mim que hei-de erguer-me de
pés que doem ao fim de meia hora a andar, de dores de cabeça que podem novo, caso contrário estaria perdida.
aumentar tanto de intensidade que até parece que se é esmagada por den- Sigo um caminho e sou guiada nesse caminho. Volto sempre a reen-
tro, etc. Já passou tudo finalmente. Sei que ainda hei-de jazer contundida contrar a calma e a saber melhor que nunca como devo actuar. Não, não
e triturada neste mundo de Deus, com alguma frequência. Creio igual- como devo actuar, mas a saber como actuar segundo as circunstâncias.
mente que sou bastante rija e que hei-de conseguir levantar-me sempre, — «.Querida, quero continuar a rezar» —
apesar de esta tarde ter sido atingida por um processo de endurecimento e Amo-o tanto.
insensibilização e ter experimentado o que circunstâncias extremas podem E mais uma vez pergunto-me hoje a mim própria: não será ainda
mais fácil rezar por alguém à distância do que vê-lo sofrer a teu lado?
fazer a uma pessoa ao longo dos anos.
O que vier, virá. O único perigo que corro é de que um dia o
Porém, agora a minha mente está mais lúcida do que nunca. Esta
meu coração se vá abaixo por amor a ele. Agora ainda quero ler um
noite vou cedo para a cama e amanha hei-de estar muito repousada.
Preciso de conversar detalhadamente com ele, amanhã, sobre o nosso bocadinho.
Quando rezo, nunca rezo por mim, rezo sempre por outros ou
destino e a nossa atitude. Sim, senhor!
mantenho um diálogo idiota, infantil ou extremamente sério com o
E trouxeram-me as canas de Rilke, as de 1907a 1914 e as de 1914
que há de mais profundo em mim, a que chamo Deus para facilitar.
a 1921, espero ainda conseguir acabar de lê-las. E Schubart-4 também.
Não sei, acho extremamente infantil uma pessoa rezar por si mesma.
A Jopie' trouxe-as. E a camisola dela de pura lã virgem, que oferece
Amanha hei-de perguntar-lhe se ele reza por ele mesmo. Mas, sim,
protecção contra a chuva e o frio, despiu-a do corpo de repelão como
quando eu rezo por ele, estou na realidade a rezar por mim. Rezar por
se fora um segundo São Martinho. Essa peça de roupa já fica para a via-
um outro, para que a vida lhe corra bem, também acho infantil.
gem. Será que sempre conseguirei levar entre os lençóis os dois volumes
A única coisa por que se pode rezar é para a outra pessoa ter força su-
de O Idiota e os meus pequenos dicionários Langenscheidt? Prefiro le-
ficiente para também carregar com as suas dificuldades. E quando se
var menos comida se os livros couberem. Menos cobertores não dá,
reza por alguém, envia-se-lhe um pouco da nossa força.
porque assim como assim já morro de frio. A mochila do Han estava
E é este o maior sofrimento para muitos: a total falta de prepara-
no corredor esta tarde, experimentei-a às escondidas, não tinha muita
ção interior, que faz com que eles pereçam desde já, mesmo antes de
coisa lá dentro, mas, para dizer a verdade, já a achei demasiado pesada.
ter visto um campo de trabalho. Depois desta atitude, a nossa catás-
Enfim, em todo o caso, estou nas mãos de Deus. O meu corpo
com todas as suas maleitas, também. Se ficar esmagada e confusa, pelo trofe é completa. Verdade, verdadinha, O Inferno de Dante é uma
opereta ligeira em comparação. «Isto é o inferno», disse-me ele há pou-
co tempo, muito simples e neutro. Há momentos em que brame e
:- Christian Friedrich Daniel Schubart, pianista, organista e compositor alemão. GV da T]
' jopie é johanna Smelik, hiha de Kiaas Smeiik. uiva e assobia à volta do meu cérebro. E os céus estão tão ameaçadora-

258 Etc v Hi I lês um Diário


mente baixos. E no entanto, de vez em quando surge em mim o hu- [Quinta-feiraj 16 de Julho [1942],
mor leve e bailarino, que apesar de tudo nunca me abandona, e toda- às nove e meia da noite.
via não é um humor negro, pelo menos eu acho que não é. Ao longo
do tempo fui crescendo tão suavemente para estes momentos que já Afinal tens outros planos para mim, Deus? Devo aceitar isto? Mas
não me espantam, e consigo viver com um olhar lúcido sobre as coi- continuo pronta. Amanhã desço ao inferno, preciso de descansar mui-
sas. Não foi s-ó com «literatura» e «estetismo» que estive ocupada nos to para aguentar o trabalho lá. Acerca deste dia de hoje sou capaz de
últimos anos à minha secretária. levar um ano inteiro a contá-lo, mais tarde. O Jaap e o Loopuit, o ve-
E este último ano e meio poderia compensar uma vida inteira de lho amigo, esse disse: «Mas com certeza que não deixo que arrastem a
sofrimento e ruína. Fundiu-se comigo, eu própria sou este ano e meio, Etry H. para a Alemanha.» Eu disse ao Jaap, depois do Leo de Wolff"
e ele forneceu-me uma reserva com a qual posso viver uma vida inteira nos ter novamente poupado horas de espera: «Mais tarde vou ter de fazer
sem passar muitas necessidades. muito boas acções para outras pessoas, a fim de compensar tudo isto.»
Não é correcto para com a nossa sociedade, não é justo. A Liesl disse
com muita piada: «Então és momentaneamente a vítima dá protecção.-»
Mais tarde. E, apesar de tudo, consegui ler algumas cartas do Rilke ali na estrei-
teza do corredor, no meio dos apertos e dos empurrões; continuo porém
Quero memorizar uma coisa para os meus momentos mais difíceis a ir em frente à minha maneira. E o pavor estampado naquelas caras.
e também a quero ter sempre à mão: que Dostoiévski passou quatro Todas essas caras, meus Deus, essas caras! Agora vou para a cama. Espero
anos em desterro na Sibéria, tendo a Bíblia por única leitura. Também
ser um núcieo de serenidade naquele manicómio. Vou levantar-me cedo
nunca teve permissão para estar sozinho e a higiene não era igualmente
para me concentrar de antemão. Deus, que planeias fazer comigo? Nem
famosa.
tive tempo de me aperceber bem de que tinha recebido uma oferta de
trabalho no Conselho Judaico, ao fim de umas horas até já o tinha es-
A 15 de Julho, Etty consegue um emprego no Conselho Judaico
quecido. Como é que tudo aconteceu tão depressa? Ele disse: «Li o teu
[J.G.G.^J
diário esta tarde e depois de o ler soube que nada irá acontecer-te.»
Tenho de fazer alguma coisa pela Liesl e pelo Werner, é necessário.
Nada de precipitações. Bem pensado e com concentração, mas devo
enfiar rapidamente uma carta na algibeira do Loopuit.

M J.G. Gaarlandc, editor responsável pela publicação A'QtDúbí«d£ Ecry Híllesum. (N. da T] * Leo de Woift escava à cabeça da '<Expositur", intermediária entre o Consdho Judaico e os alemães.

'.KV Hillesum Diário


T
Deu-se um milagre e também isso eu tenho de aceitar, de assumir. 20 de Julho [1942]. Segunda-feira à noite,
São muito insondáveis os teus caminhos, meu Deus. às nove e meia.

Cruel, cruel! Mas mais compassivos devemos ser por dentro, é, se


19 de Julho [1942], domingo à noite, às 10 menos 10. virmos bem, a única coisa a fazer.
O que acabou por ser a minha oração de manhãzinha cedo:
l iiiha muita coisa a dizer-te, meu Deus, mas preciso de ir deitar-me. Meu Deus, esta época é demasiado dura para gente frágil como
Neste momento é como se estivesse sob efeito de narcóticos, e se não eu. Sei igualmente que, a seguir a esta, outra era virá que será huma-
estiver na cama às dez, amanhã não aguento um dia destes. nista. Gostava tanto de continuar a viver para transmitir na nova era
E além disso: primeiro vou ter de achar uma linguagem nova para toda a humanidade que guardo dentro de mim, apesar de tudo aqui-
falar sobre tudo o que move o meu coração nestes últimos dias. Ainda lo com que convivo diariamente. Essa é também a única coisa que po-
não acertei contas contigo, meu Deus, nem com este mundo. Ainda que- demos fazer para preparar a nova era: prepará-la já dentro de nós. E
ro viver por muito tempo e hei-de passar por tudo aquilo a que nos num certo sentido, estou muito ligeira por dentro, absolutamente sem
obrigam. Estes últimos dias, meu Deus, estes últimos dias! nenhuma amargura e sinto enormes forças e amor em mim. Gostava
E esta noite. Ele respira do mesmo modo que caminha. E eu disse- tanto de continuar a viver para ajudar a preparar o novo tempo que
-Ihe debaixo do cobertor: «Vamos rezar juntos.» Não, não consigo falar há-de vir de certeza — não o sinto eu já crescer em mim todos os dias?
sobre isso, sobre tudo o que se passou nos últimos dias e ontem à noi- Foi mais ou menos esta, creio, a oração esta manhã. Ajoelhei-me
te. rnuito espontânea no tapete rijo de fibras de coco na casa de banho e
Todavia sou uma tua eleita, meu Deus, que me deixas participar as lágrimas corriam-me pelo rosto. E creio que essa oração me deu for-
em tanta coisa desta vida e me deste tanta força para conseguir arcar ça para o dia inteiro.
com tudo. E que o meu coração também consegue suportar tantos E agora ainda vou ler uma pequena novela. Continuo a levar o
sentimentos grandes e fortes. Quando ontem, às duas da manhã, final- meu próprio estilo de vida, através de todos os acontecimentos, apesar
mente cheguei lá acima ao quarto da Dicky e me ajoelhei quase nua, dos milhares de cartas que escrevo à máquina diariamente das dez da
no meio do quarto, totalmente «desoprimida», eu disse de repente: manhã às sete da tarde, e de chegar às oito horas a casa para ainda ir
«Hoje, vendo bem, vivi coisas grandiosas e esta noite também, meu jantar, com os pés magoados de andar. Hei-de encontrar sempre uma
Deus, agradeço-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coi- hora só para mim. Mantenho-me fiel a mini mesma e não hei-de re-
sas que não ponhas no meu caminho.» signar-me ou ficar apática.
E agora preciso de ir para a cama. Como poderia eu aguentar este trabalho se não me abastecesse to-
dos os dias de grande calma e ponderação dentro de mim?

162 Et:y D i á r i o 1941-1945 . 203


Sim, meu Deus, sou-te muito fiel, para o que der e vier, e não vou cada vez surge esse sentimento de responsabilidade para manter essa
deixar-me ir abaixo e continuo a acreditar no sentido profundo desta vida, que há dentro de mim, verdadeiramente viva. Agora ainda vou ler
vida e sei como devo continuar a viver e há tantas certezas dentro de umas cartas do Rilke e depois vou cedinho para a cama. Até hoje, a mi-
mim e... E, isto vai parecer-te incompreensível, mas acho a vida tão nha vida pessoal, apesar de tudo, tem sido infinitamente boa.
bela e sinto-me tão feliz. Não é isso estranho? Também nunca me
atreveria a dizer isto a alguém por estas palavras. E, por entre os milhares de requerimentos que hoje bati à má-
* quina nesse ambiente a meio termo entre o inferno e um manicómio,
ainda consegui ler isto do Rilke e provocou-me exactamente a mesma
21 de Julho [1942]. Terça-feira à noite, às 9 horas. reacção que se o tivesse lido no isolamento deste quarto silencioso:
— « . . . Porém, descobri em mim os gestos com os quais o grande se
Esta tarde, na grande caminhada de volta para casa, quando as ra- torna grandeza, não para me desembaraçar do peso, grande em toda a
lações queriam tomar-me de surpresa e pareciam não ter fim, disse su- sua grandeza e infindável em tudo o que tem de inconcebível, mas sim
bitamente para com os meus botões: «Se realmente acreditas em Deus para o reencontrar, sempre no mesmo lugar sublime no qual a sua vida
como afirmas, então deves ser consequente e entregar-te completamente continua, ausente aos nossos confusos cuidados sobre os quais vinga
e ter confiança. Como resultado, não deves preocupar-te também com desmesuradamente, cobrindo-os.»26
o dia de amanhã.» E em seguida queria dizer mais uma coisa: creio que a pouco e
E quando caminhei um bocadinho com ele ao longo do cais — pouco atingi a simplicidade por que sempre esperei.
agradeço-te, meu Deus, isto ainda ser possível; mesmo que eu só pu-
desse estar cinco minutos por dia com ele, já valeria a pena eu traba-
[Quarta-feira] 22 de Julho [1942], às 8 horas da manhã.
lhar o dia inteiro para isso — e ele então disse: «Ah, as preocupações que
toda. â gente tem», eu disse-lhe também: «Precisamos de ser consequen-
Deus, dá-me força, não só espiritual, mas também física. Quero
tes, se temos essa confiança, é caso para a ter totalmente.»
confessar-te bem honestamente num momento de fraqueza: se tenho
de me ir embora desta casa, não sei o que fazer. Mas não quero preo-
Sinto-me como o tabernáculo de um pedaço de vida preciosa, com
cupar-me com isso nem com um dia de antecedência. Tira-me portanto
toda a responsabilidade por ela. Sinto-me responsável pelo belo e gran-
esta preocupação, porque se tiver de andar com ela juntamente com
de sentimento por esta vida que tenho dentro de mim e que devo tentar
todo o resto, então não consigo mesmo viver, não é? Hoje estou real-
encaminhar intacto através desta época, rumo a um tempo melhor. Essa mente muito cansada, sinto cansaço no corpo todo e não estou com
é a única coisa que importa. Estou constantemente consciente disso. Há
momentos em que penso que devo resignar-me ou sucumbir, mas de -& R.M. Rilke. Briefe, 1907-1914.

264 . Ett)f HLllesum Diário 1941-194; . 265


T
grande coragem para o trabalho do dia. Não acredito muito nesse tra- Ontem à noite, já no fim de caminhar aquele bom bocado à chu-
balho, se durasse muito tempo, ficaria, creio, completamente apática e va com a bolha na sola do pé, ainda fiz um desvio por uma rua à pro-
resignada. No entanto, estou grata por não me teres deixado ficar sos- cura de uma venda de flores, e cheguei a casa com um grande ramo de
segada a esta secretária, mas teres-me colocado no meio do sofrimento rosas. E ali estão elas. São precisamente tão reais como a miséria a que
e das ralações desta época. Não seria nada difícil tet um idílio contigo assisto num dia. Numa vida há muito espaço para muitas coisas. E eu
num quarto de estudo abrigado, mas agora o que interessa é eu trazer- tenho tanto espaço, meu Deus.
-te comigo sem o mais pequeno defeito e permanecer-te fiel apesar de Quando hoje caminhava pelos corredores a abarrotar, senti de re-
tudo, tal como te prometi. Quando vou assim pelas ruas, tenho mui-
pente uma enorme necessidade de me ajoelhar ali, no chão de pedra,
to para pensar acerca do teu mundo, na realidade não pode chamar-se
no meio de toda a gente. O único gesto de dignidade humana que
bem a isso pensar, é mais um tentar descortinar graças a um sentido
ainda nos resta neste tempo: ajoelhar perante Deus.
novo. Frequentemente é como se eu visse este tempo como uma fase
na História, da qual consigo ver já o princípio e o fim, e que também Cada dia aprendo mais sobre as pessoas e também vejo que as pes-
sei «ordenar» num todo. E estou grata pelo seguinte: por não sentir a soas não podem contar com a ajuda doutras, e como uma pessoa está
menor amargura ou o menor ódio, mas por sentir uma grande impas- dependente das suas próprias forças interiores.
sibilidade, que não é resignação, em mim, e também uma espécie de «O sentido da vida não é só a vida», disse ele ao longo do canal,
entendimento destes tempos, por mais estranho que isso possa parecer. quando falámos que o que interessava era não perder o sentido da vida.
Uma pessoa tem de compreender obrigatoriamente este período, se Lá, é uma ribaldaria enorme, deixo escapar repetidamente. Mas
compreende as pessoas; ele saiu de nós. E ele cá está, e portanto tam- hoje, de súbito, pensei: porque é que eu havia de usar tão frequente-
bém tem de ser entendido, mesmo que de vez em quando fiquemos mente essa palavra, «ribaldaria»? Propaga-se pelo ambiente e não o
confusos em relação a ele. torna mais agradável.
De certa forma vou seguindo o meu caminho interior, que se está É isso o que mais me deprime: notar que o sofrimento destes
tornando cada vez mais simples e menos complexo, mas que no en-
tempos não alargou o horizonte íntimo de quase nenhum daqueles
tanto está pavimentado com doçura e confiança.
com quem trabalho. Eles não sofrem realmente. Eles odeiam e estão
cegamente optimistas quanto à sua pequena pessoa; eles intrigam, ain-
da estão cheios de ambição nos seus empregozmhos, é uma bodega
23 de Julho [1942]. Quinta-feira à noite, às 9 horas.
que mete nojo, e há momentos em que, completamente desanimada,
gostaria de deixar descair a cabeça em cima da máquina de escrever e
As minhas rosas vermelhas e amarelas abriram-se completamente.
Enquanto eu estava lá, no inferno, elas foram florindo lentamente. Mui- dizer: «Deste modo não consigo continuar.» No entanto vou conti-
tos dizem: «Como é que numa altura destas consegues pensar em flores?» nuando e aprendendo cada vez mais sobre as pessoas.

206 Hillc Diário 1941-194;


São agora dez horas. Para dizer a verdade, preciso de ir para a cama. estou demasiado cansada, amanhã ievanto-me cedo e sento-me um
Mas ainda gostava tanto de ler alguma coisinha. Ainda corre tudo tão bocadinho à secretária.
fantasticamente bem comigo. A Liesl, a corajosa pequena Liesl, fica a Hoje pensei novamente, quando falávamos sobre o querermos ficar
pé até às três da manhã e faz bolsas para uma fábrica. O Werner não juntos: «Se já agora estás com tão mau aspecto e tão estragado, amo-te
trocou de roupa durante sessenta horas e aconteceram coisas real- muito, mas o pior vai ser ver-te sofrer e passar privações ao meu lado,
mente muito estranhas nas nossas vidas, Deus, dá-nos força a todos. prefiro rezar por ti à distância.» Hei-de aceitar tudo conforme vier,
E sobretudo faz com que ele tenha novamente saúde e não mo leves. meu Deus. Não acredito muito na ajuda exterior, também não conto
Hoje tive de súbito o medo de que ele fosse levado repentinamente de com os ingleses ou os americanos ou com revoluções ou sabe-se lá o
mim. Meu Deus, prometi confiar em ti e já afugentei o medo e o de- quê. Não podemos pôr as nossas esperanças nisso.
sassossego que sinto por ele. Sábado à noite vou estar com ele. Que O que vier está bem. Boa noite.
isso ainda seja possível, não há gratidão que chegue para agradecer.
Este dia foi outra vez muito difícil e no entanto consegui arcar com
ele; gostaria agora de dizer algo de muito bonito, não sei porquê, algo 24 de Julho [1942]. Sexta-feira de manhã, às sete e meia.
sobre as rosas ou sobre o meu amor por ele. Ainda vou ler algumas car-
tas do Rilke e depois deito-me. Gostava de estudar intensivamente por mais uma hora antes de
Sábado tiro folga. começar este dia, tenho muita necessidade e estou com a concentração
O mais curioso é que fisicamente tudo funciona bern comigo: nada para isso.
de dores de cabeça, de estômago, etc. Às vezes uma ameaçazita nesse Quando as preocupações me assaltaram de novo esta manhã cedi-
sentido, mas então embrenho-me intensamente na minha calma inte- nho, resolvi mas foi levantar-me. Deus, afasta-as de mim. Não sei o
rior, até sentir o sangue correr de novo regularmente pelas veias. As que fazer se ele receber uma convocação, que passos eu terei de dar
minhas maleitas afinal eram provavelmente «psicologicamente condicio- para ele. Uma coisa é certa: uma pessoa deve aceitar e estar preparada
nadas». Não se trata igualmente de um descanso forçado, como muitos para tudo com antecedência, e saber que a última coisa que possuímos,
pensam de mim, ou de caminhar na direcção do esgotamento. Se há o nosso íntimo, não nos pode ser tirado. E, através da tranquilidade
um ano atrás me acontecesse o que agora está a acontecer, então de que isso motiva interiormente, podemos então tomar as medidas prá-
certeza que ao fim de três dias me tinha ido abaixo ou me tinha suici- ticas necessárias que devem ser tomadas. Nada de cismar ou de ter
dado ou feito de conta que estava alegre à força. Agora existe urn gran- medo, mas sim pensar calmamente e com lucidez.
de equilíbrio e uma capacidade de suportar e uma visão abrangente
das coisas e uma suspeita de conjugação entre elas, não sei o que é, mas Ali estão ainda as minhas rosas.
apesar de tudo: vou muito bem, meu Deus. Já não vou conseguir ler, Hei-de levar ao Jaap aquela quarta de manteiga.

268 Ertv Diário 1941-134} . 269


Estou muito cansada. gente dava ordens e contra-ordens, envolvendo mesmo a mais mísera
Posso arcar com estes tempos, até os compreendo um pouco. cadeira, mas a Etty estava sentada no chão imundo, a um caminho,
Se eu sobreviver a esta era e ainda disser: «A vida é bela e cheia de entre a máquina de escrever e um embrulho de sanduíches, a ler Rilke.
sentido», as pessoas vão ter de me acreditar. Eu lá me encarrego de promulgar a minha própria legislação social, e
Se este sofrimento não levar a um alargamento de horizontes, a vou e venho quando me parece bem. Por entre todo esse caos e miséria,
uma maior humanidade pela derrocada de todas as rnesquinhices e su- vivo intensamente segundo o meu ritmo e consigo assim a cada ins-
perfluidades desta vida, nesse caso foi em vão. tante, jx>r entre o bater de centenas de cartas à máquina, concentrar-me
Esta noite janto com ele no «Café de Paris» — é quase grotesca nas coisas que são importantes para mini. Não é um fechar os olhos a
uma saída destas — a Liesl, essa disse: «E, vendo bem, um grande pri- todo o sofrimento à minha volta nem é insensibilidade. Acarreto e
vilégio, que nos seja dado suportar tudo isto.» conservo tudo dentro de mim, mas sigo o meu próprio caminho im-
A Liesl é uma grande mulher, verdadeiramente uma grande mu- perturbável. Ontem foi um dia louco. Um dia em que o meu humor
lher, gostava de a descrever mais tarde. Havemos de sobreviver. quase satânico veio de novo à superfície e em que de repente me senti
outra vez uma criança travessa. Deus me livre de uma coisa: nunca me
deixes ir parar a um campo com as pessoas com quem trabalho agora
25 de Julho [1942]. Sábado de manhã, às 9 horas. diariamente! Uma centena de sátiras hei-de eu escrever mais tarde so-
bre elas.
Comecei o dia estupidamente. Falando acerca da «situação», E depois há ainda as muitas possibilidades de aventura nesta vida:
como se se conseguissem achar realmente palavras para ela. Este pre- ontem, comi patruça assada com ele. Inesquecível, tanto no que se re-
sente precioso, este dia livre, devo aproveitá-lo bem. Não a falar e a ra- fere ao preço como à qualidade. E esta tarde às cinco horas vou ter a
lar as pessoas à tua volta. Esta manhã hei-de alimentar um pouco o casa dele e fico lá até amanhã de manhã. Havemos de ler e de escrever
meu espírito, noto que tenho cada vez mais necessidade de dar maté- um pouco e estar juntos, um serão e uma noite e um pequeno-almoço.
ria de estudo difícil de assimilar ao meu espírito. Sim, tal ainda existe. Sinto-me outra vez tão forte e contente desde on-
Esta última semana é realmente uma grande afirmação de mim tem. Assim sem medos, sem medos sobre ele também. Completamente
mesma. Na verdade, sigo o meu próprio caminho interior naquele livre de todas as preocupações.
manicómio. Há uma centena de pessoas a conferenciar a monte numa Estou a ficar com músculos bastante rijos nas pernas, por causa de
divisão pequena, as máquinas de escrever fazem barulho, e eu estou todo esse andar. Afinal, talvez viaje um dia pot toda a Rússia, não é?
sentada num caminho qualquer e leio Rilke. Ontem, a meio da ma- Ele diz: «Esta é uma época para pôr em prática — ama os teus ini-
nhã, fizemos uma mudança de repente, mesas e cadeiras foram retira- migos.» E se o dizemos, então devemos acreditar que isso é possível,
das debaixo do meu rabo, pessoas à espera invadiram o espaço, toda a não será?

270 E t c y HiiLesu.-n 271


Ainda quero copiar uma coisa de Rilke, que ontem me impressio- to possível. Estou tão descontente e triste e cheia de incertezas a esta
nou porque também se pode aplicar a mim, como tanras outras coisas hora precoce da manhã como não estava há muito tempo, e não se tra-
que ele escreve. ta aqui do grande «sofrimento», mas de pequenos descontentamentos
e inadaptação. E isto põe-me tão triste que as muitas coisas boas e pre-
Há um silêncio desmedido a crescer dentro de mim. E à volta ciosas do fim-de-semana ficaram soterradas e extintas sob o peso de
dele fluem tantas palavras que te cansam, porque não há nada para ex- uma ninharia. Que uma dactiiografazinha algo ordinária, a querer ar-
primir com elas. Deve cada vez mais poupar-se palavras banais a fim mar-se em patroa, me diga quando às cinco horas estou pronta para
de achar aquelas de que uma pessoa precisa. E através do silêncio deve me pôr a andar discretamente: «Não senhor, não pode ser, ainda é pre-
crescer a nova possibilidade de expressão. ciso acabar de bater a directriz à máquina, isso é falta de colegialidade,
São agora nove e meia. Quero ficar sentada aqui a esta secretária quereres ir-te já embora.» E porque só cabem cinco folhas de papel
até ao meio-dia; as pétalas das rosas estão espalhadas por entre os meus químico na minha máquina e nós precisávamos de dez exemplares da
livros. Uma rosa amarela floriu até aos limites e olha-me agora enorme directiva, tive eu portanto de escrever tudo duas vezes à máquina. E
e aberta. Estas duas horas e meia que tenho para mim parecem-me um desejas tanto ir ter com o teu amigo e tens dores nas costas e todas as
ano de isolamento. Estou muito grata por estas horas e também pela células do teu corpo estão revoltadas. Tens uma atitude errada. Deves
crescente concentração em mim. pensar que, por teres sido contratada para este trabalho, ainda podes
ficar em Amesterdão perto daqueles que te são queridos. E a verdade
é que já sabes safar-te o suficiente.
27 de Julho de 1942. Segunda-fé i rã de manhã, 8 horas. Ontem à tarde notei de repente como este empreendimento é
sombrio, lúgubre, desconsolador e indigno e sem qualquer tipo de
Uma pessoa deve estar preparada a cada momento para rever a perspectiva. «Requeira humildemente dispensa do serviço de trabalho na
sua vida inteira e para começar a partir do zero num outro lugar. Sou Alemanha, porque eu já trabalho aqui bem no duro para o exército
mimada e indisciplinada. A despeito de tudo, talvez ainda esteja de- alemão e sou insubstituível para vocês.» E totalmente desconsolador.
masiado interessada em gozar a vida. Do modo como me sinto desde E ao mesmo tempo também soube: se não contrabalançarmos isto com
ontem à noite, não posso senão dizer para comigo mesma: «Realmente algo radioso e possante, que pode ser iniciado de novo num outro lugar
és muito ingrata.» Aconteceu tanta coisa boa neste fim-de-semana. totalmente diferente, então estamos perdidos, perdidos para todo o
Tantas com as quais podia viver durante semanas, mesmo que essas se- sempre. Hei-de achar o caminho para esse algo radioso e novo, por ago-
manas não trouxessem senão desgraça. Confraternizo realmente pou- ra ele está entulhado. Estou cansada e aflita. Ainda tenho meia hora e
co com as outras meninas dactilógrafas que lá estão. A verdade é que gostaria de escrever por dias e dias, até ter arredado tudo o que agora
acho o trabalho estúpido e sem sentido, e tento fugir a ele tanto quan- me apoquenta. Vou ter de caminhar por muitos corredores subterrâ-

272 Eu v H i D i á r i o 1941-1543 273


neos estreitos e escuros até me encontrar de novo, subitamente, numa Creio que a vida me coloca grandes exigências e que também cem pla-
clareira cheia de luz. nos para mim, mas eu devo continuar aberta à minha voz interior e se-
Ontem à tarde estive hora e meia à espera do Werner, num corre- gui-la, e continuar aberta e sincera, e a não querer sacudir a carga.
dor estreito a abarrotar de gente. Estava encostada à parede, sentada
num banquinho, e as numerosas pessoas passavam em cima de mim,
sobre mim e ao meu lado. E eu estava para ali sentada com o Rilke ao 28 de Julho [1942]. Terça-feira de manhã, às sete e meia.
colo e ia lendo. E lia mesmo, concentrada e aplicada. E achei nele uma •
coisa que me podia servir para muitos dias. Copiei-a imediatamente. Vou deixar que a corrente deste dia seja construída elo a elo, não
E mais tarde encontrei ao sol uma lata do lixo no patiozinho atrás do vou interferir, mas confiar. Vou deixar que as decisões sejam todas
nosso novo emprego, sentei-me lá e li: Rilke. E sábado à noite: o cír- tuas, meu Deus. Hoje de manhã achei um impresso na caixa do correio,
culo da nossa relação fechou-se tão simples e naturalmente. Como se reparei que lá dentro estava um papel branco. Eu estava muito calma e
nunca nada me tivesse tapado durante a noite senão um cobertor às pensei: «A minha convocatória branca, é pena, agora nem sequer pos-
flores. E sempre os canais de novo, caminho ao longo deles, e vou-os so arrumar a mochila.» Mais tarde notei que os meus joelhos tremiam.
gravando, cada vez mais profundamente, no interior do meu ser para Era um formulário a preencher para os empregados do Conselho Ju-
nunca mais ficar sem eles. E poderia só uma horinha de trabalho extra, daico. Ainda nem tenho um número de identificação. Vou dar os pas-
mesmo sendo trabalho estúpido contra o qual te revoltas, roubar-te sos que penso que têm de ser dados. Pode ser que ainda tenha de estar
tudo isto? Colocares-te a ti mesma numa situação dessas como se tudo muíto tempo à espera, o Jung e o Rilke vão comigo, espero ainda con-
o resto nunca tivesse existido? Os medos estão bem no fundo, e eu até seguir trabalhar bastante hoje.
os conseguiria descobrir, mas agora não tenho tempo. E quando mais tarde o meu espírito não conseguir reter muitas
imagens, serão contudo estes últimos dois anos que estarão brilhando no
Vou andar outra vez ao longo dos numerosos canais e tentar ficar horizonte da minha memória como se fossem um país maravilhoso
muito silenciosa por dentro e escutar o que aconteceu realmente co- onde um dia me senti em casa e que continua a ser o meu.
migo. Ainda vou ter de «caminhar» muito hoje. O dia de ontem encheu-me novamente de coragem, porque
E mais uma coisa ainda: acredito a sério que há um regulador em aprendi corn ele como Deus renova continuamente as minhas forças.
mim. Recebo sempre aviso através de um acesso de mau humor, de cada Sinto como estou ligada por milhares de fibras a tudo isto aqui.
vez que sigo o caminho errado, e se eu continuar a mostrar honesti- Vou ter de as arrancar uma a uma e puxá-las para bordo a fim de que
dade e abertura, e a manter a boa vontade em me tornar realmente ao partir não deixe ficar nada, mas leve tudo dentro de mim.
quem eu quero e devo ser, e a fazer aquilo que a minha consciência me Há momentos em que me sinto um passarinho escondido numa
diz para fazer nestes tempos, então as coisas hão-de recompor-se. grande mão protectora.

274 E r t y Hiliesurn z/5


Ontem, o meu coração era urn pássaro apanhado numa armadi- Há toda uma série de coisas que começam a ser evidentes para
lha. Agora é outra vez um pássaro em liberdade voando por entre tudo mim, por exemplo isto: que não quereria ser a mulher dele. Quero
sem impedimentos. Hoje está sol. E agora vou arranjar a merenda e constatar agora muito explícita e neutralmente: a diferença de idades
pôr-me a caminho. entre nós é demasiado grande. Já vi um homem envelhecer perante os
meus olhos durante alguns anos. Agora também o vejo envelhecer a ele.
É um homem idoso, que eu amo, infinitamente amo e a quem estarei
Muitíssimo mais tarde. para sempre unida interiormente. Porém, «casar», aquilo a que o cida-
dão decoroso chama casar, deixa-me finalmente dizer isto com muita
Serei mais tarde a cronista das nossas vicissitudes. Forjarei uma lucidez e honestidade, não, não quero. E isso dá-me precisamente um
nova linguagem em mim e guardá-la-ei se não tiver a oportunidade de sentimento de força, de que terei de seguir o meu próprio caminho.
escrever alguma coisa. Tornar-me-ei sensível e ressuscitarei e cairei mor- Alimentada de hora a hora pelo amor que há dentro de mim por ele e
ta; e ressuscitarei novamente. Pode ser que então mais tarde tenha um por outros. Há um número incontável de casais que se juntam no úl-
espaço tranquilo em meu redor e, nesse caso, hei-de ficar tanto tempo timo momento, à pressa e em desespero. Prefiro contudo ficar sozinha
lá sentada, mesmo que por um ano, até a vida brotar de novo em e estar disponível para todos.
mim e as palavras que darão testemunho daquilo que terá de ser teste- Claro que nunca poderá ser desculpado que uma parte dos judeus
munhado me surgirem. ajude a transportar a outra grande maioria. A História terá ainda um
dia de dar o seu parecer sobre isto.

As oito e meia da noite. E no entanto, sempre a mesma coisa, constantemente: a vida é tão
«interessante» através de tudo. Sempre presente em mim está uma coisa
Tirando o aspecto histórico, para falar muito cruamente, este foi que constan temente vem ao de cima: uma examinaçao quase demoníaca
um dia de aventura, de esquecimento das obrigações e de sol. Fiz ga- de tudo o que acontece. Um querer ver e ouvir e estar presente, um que-
zeta caminhando pelos canais e estive agachada num canto do quarto rer sacar todos os segredos à vida, um observar friamente as expressões nos
dele, em frente à cama. E agora estão outra vez cinco rosas-chá num rostos das pessoas em estertor. E de repente, encontrar-me face a face co-
vasinho de estanho. migo mesma e aprender muito do espectáculo que a própria alma oferece
Há uma diferença entre temperado e endurecido. Actuaimente os nestes tempos que correm, e mais tarde encontrar as palavras para tal.
termos são trocados entre si. Creio que cada dia vou ganhando têm- Agora vou continuar a ler os meus velhos diários. Afinal não os
pera, com excepção da bexiga indisciplinada, mas dura, nunca serei. vou rasgar. Pode ser que mais tarde me ajudem a restabelecer o con-
Nem sinto necessidade de o ser. tacto comigo mesma.

2.76 . Ettv
Diário [94Í-I943 277
Tivemos tempo suficiente para nos prepararmos para os aconteci- minhas ainda pouco treinadas perninhas estão hoje muito cansadas
mentos catastróficos actuais, dois anos inteirinhos. E não é que agora após as extensas caminhadas de ontem. E agora tenho absolutamente
este último ano foi o mais decisivo da minha vida, o rnais bonito? E te- de deitar mão ao documento de identificação do Werner. Vou tomar
nho a certeza de que vai haver continuidade entre esta minha vida e a com simpatia a mesma atitude firme que tomei ontem para mím, na-
vida que se irá agora seguir. Porque é uma vida que se passa nas cama- quele quarto pequeno lá em cima. E será que hoje há muito trabalho?
das interiores e o cenário interessa cada vez menos. Vou pôr-me a caminho agora. Nunca se sabe o que é que o dia traz,
Temperada: bem diferente de endurecida. também não importa, uma pessoa não está dependente disso, do que
traz o dia de hoje, nem mesmo nos tempos actuais. Não estarei a exa-
gerar? E se amanhã vier a convocatória branca? Parece que por enquanto
29 de Julho [1942]. Quarta-feira de manha, às oito horas. os transportes de Amesterdao foram suspensos. Começam agora por
Roterdão. Ajuda-os, meu Deus, os judeus de Roterdao, ajuda-os.
Domingo de manhã estive sentada no chão, a um cantinho do
meu quarto, a coser meias, vestida no meu roupão às riscas berrantes. Entre 29 de Julho e 5 de Setembro, Etty provavelmente não manteve
Existe às vezes água tão transparente que é possível distinguir o que um diário. Houve uma precipitação dramática na sua biografia. Nesse
está no fundo. Diz-me: será que não és capaz de formular esta questão período ela pede voluntariamente uma convocatória para Westerbork e
de modo ainda mais torpe? Queria dizer o seguinte: era como se a parte para o campo. Porém, acontecimentos decisivos na vida dela foram
vida, com os seus mil pormenores, voltas e movimentos, se tivesse certamente a doença e a morte súbita de S. No começo de Setembro de
tornado muito nítida e transparente para mim. Como se estivesse pe- 1942, Etty obteve licença para regressar durante uns dias a Amesterdao.
rante um oceano e lhe pudesse ver o fundo através da água cristalina. Chega doente. Neste último caderno conservado de Etty, ela descreve a
Será que um dia ainda conseguirei escrever —- começo a desesperar morte de Spier, as saudades que sente de Westerbork e pedaços de recorda-
bastante — ou nãor Talvez demore muito tempo ainda até eu conse- ções de pessoas e situações que havia deixado. []. G. G.]
guir descrever um momento da minha vida, um momento culmi-
nante. Uma pessoa está sentada no chão, a um cantinho do quarto do
homem amado, a coser meias e simultaneamente está à beira de uma 15 de Setembro de 1942. Terça-feira de manhã,
extensão grande e poderosa de água, tão cristalina e transparente que as dez e meia.
se pode ver o fundo. E esse é então o teu sentimento perante a vida a
um determinado momento, e é inesquecível. E agora creio sincera- Tudo junto afinal é capaz de ter sido um pouco de mais, meu
mente que ainda por cima, está para me vir gripe ou qualquer coisa Deus. Agora sou lembrada que uma pessoa também tem um corpo.
desse género. Não pode ser, estou fundamentalmente contra isso. E as Pensei que o meu espírito e o meu coração seriam capazes de aguentar

278 . Ettv Diário 1941-194.3 279


tudo, mas agora o meu corpo apresenta-se e diz: «Basta». E neste mo- Enquanto estou a escrever isto, sinto que é bom eu ter de ficar
mento sinto a grande quantidade de coisas que me deste a suportar. aqui. Vivi tão intensamente nos últimos meses que de repente me pa-
Tanta coisa bonita e tanta coisa difícil. E assim que me mostrei pron- rece, vendo as coisas agora: nuns meses gastei as provisões para uma
ta a suportar, o que era difícil transformou-se a cada volta em algo bo- vida inteira. Talvez tenha sido demasiado temerária na minha vivência
nito. E o que era belo e grande era por vezes ainda mais difícil de tolerar interior, de maneira que esta aiagou todas as margens, ou não? Não fui
que o sofrimento, de tão dominante que era. Como um só pequeno demasiado temerária, se escuto este aviso teu.
coração humano consegue passar por tantas experiências, meu DQUS;
como consegue sofrer e amar tanto. Estou-te muito agradecida, meu
Deus, por teres escolhido especialmente o meu coração, nestes tempos Às 3 horas da tarde.
que correm, por lhe ter sido dada a oportunidade de passar por tudo o
que passou. Talvez seja bom eu ter adoecido, ainda não me conformei Ali está a árvore outra vez, a árvore que seria capaz de escrever a
com este facto, ainda estou um bocado atordoada, à procura e desam- minha'biografia. No entanto não é a mesma árvore, ou será que sou eu
parada, mas ao mesmo tempo tento reunir alguma paciência retirada que não sou a mesma? E a estante dele está a um metro da minha
aos poucos de todos os cantos do meu ser. Deverá ser um tipo comple- cama. Preciso unicamente de esticar o braço esquerdo e fico então
tamente novo de paciência para uma situação completamente nova, com Dostoiévski nas mãos ou Shakespeare ou Kierkegaard. Mas não
assim o sinto. E hei-de seguir novamente o velho método conhecido e estendo a mão. Estou muito tonta. Colocas-me os últimos enigmas, meu
de vez em quando falar comigo mesma nestas linhas azuis. Conversar Deus, estou-te grata que mós coloques, tenho igualmente a força para
contigo, meu Deus. Isto está certo? Postas as pessoas de lado, só sinto ser colocada perante eles e saber que não têm resposta. Uma pessoa deve
necessidade de conversar comigo. Gosto imenso das pessoas, potque arcar com os teus enigmas.
em cada uma amo um pedaço de ti, meu Deus. E procuro-te por toda Acho que devo dormir dias a fio e largar tudo com o meu espírito.
a parte nas pessoas e, muitas vezes, acho um bocadinho de ti. E tento O médico disse ontem que tenho uma vida interior demasiado intensa,
desenterrar-te nos corações dos outros, meu Deus. Porém agora pre- que vivo mais nas nuvens do que na terra e que já estou quase às por-
ciso de muita paciência, muita paciência e reflexão, vai ser muito difí- tas do céu, e que o meu físico não consegue aguentar isso tudo. Talvez
cil. E agora sou obrigada a fazer tudo sozinha. A melhor e mais nobre ele tenha razão. Este último ano e meio, meu Deus! E os últimos dois
parte do meu amigo, do homem que te despertou em mim, já está meses, que em si já foram uma vida inteira!
contigo. O que restou foi um velho senil e mirrado, nos dois quarti- E não tive eu horas em que disse: «Esta hora só por si foi uma vida
nhos onde eu vivi as minhas maiores e mais profundas alegrias. Estive inteira e se morrer daqui a pouco, então esta hora valeu por uma vida to-
à beira do leito e vi-me perante um dos teus últimos enigmas, meu da»? E eu tive frequentemente esse tipo de horas. Porque não posso eu
Deus. Dá-me mais uma vida inteira para entender tudo. também viver no céu? Se o céu existe por que é que uma pessoa não

2õO . Ettv Hilksum D i á r i o 19 + 1-194} 281


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há-de poder viver nele? Mas na realidade é mais isto o que se passa: o Aí jazes, pois, nos teus dois pequenos quartos, tu meu querido
céu vive dentro de num. Tudo vive dentro de mím. Faz-me pensar nu- grande e bom. Um dia escrevi-te: «O meu coração voará sempre para ti
mas palavras de um poema do Rilke: «Mundo interno». E agora pre- como um pássaro livre; parta ele de que lugar deste mundo partir, ele
ciso de deixar tudo e ir dormir. Estou tão tonta. Há alguma coisa que há-de encontrar-te sempre.» E isto também, escrevi no diário da Tíde:
não está em ordem no meu corpo. Quero melhorar depressa. Mas «Durante a minha vida tornaste-te de tal maneira um pedaço de céu
aceito tudo das tuas mãos, meu Deus, seja o que for. Sei que é sempre cobrindo-rne numa abóbada, que me basta levantar os olhos ao céu para
bom. Sei por experiência que uma pessoa, ao carregar com o peso das estar contigo. E mesmo que eu estivesse numa masmorra, esse pedaço
coisas, as pode transformar em coisas boas. de céu estaria distendido dentro de mim e o meu coração haveria de
Estás a ver, continuo a sofrer do mesmo, não consigo decidír-me voar como um pássaro livre para esse céu e por isso é tudo tão simples,
a parar de escrever: gostaria ainda de encontrar no último momento a sabes, tudo é extremamente simples e belo e pleno de sentido.»
fórmula redentora para tudo. Para tudo o que há em mim. Para tudo Ainda tinha mil coisas para te perguntar e para aprender contigo,
o que há cá dentro, para aquele sentimento de vida transbordante e ri- agora vou ter de fazer tudo isso sozinha. Sinto-me muito forte, sabes,
quíssimo, queria eu achar aquela palavra com a qual expresso tudo. sei que a minha vida se vai compor. Estas forças à minha disposição
Porque é que não fizeste de mim uma poetisa, meu Deus? Fizeste-me foste tu que as libertaste. Ensinaste-me a pronunciar o nome de Deus
contudo uma poetisa e hei-de esperar pacientemente até crescerem as sem reservas. Foste o intermediário entre Deus e mim, e agora, tu, o
palavras em mim que poderão dar testemunho de tudo aquilo que eu intermediário, partiste e o meu caminho conduz em linha recta a Deus.
acho que devo testemunhar, meu Deus: que é bom e belo viver no teu Está bem assim, sinto-o. E, por minha vez, serei eu a intermediária para
mundo, apesar de tudo o que nós humanos fazemos uns aos outros. todos os outros que conseguir alcançar.
Estou agora sentada à minha secretária, junto ao pequeno can-
O coração pensante da barraca. deeiro. Escrevi-te frequentemente deste lugar e sobre ti também. Pre-
ciso ainda de te contar algo estranho. Nunca vi um morto. Neste
mundo, onde milhares morrem todos os dias, eu nunca vi um morto.
Terça-feira à noite, à l hora. ATide diz: «E só um "casacão".» Isso sei eu. Mas seres tu o primeiro
morto que eu vou ver é para mim, vendo bem, algo de grande sentido
Uma vez escrevi que queria ler a tua vida até à última página, in- e grandiosidade.
clusive. Agora li a tua vida até ao fim. Há uma alegria estranha em mim Hoje em dia há tanta trapalhice e leviandade em relação às derra-
por tudo se ter passado como se passou e por ter sido certamente essa deiras coisas da vida. Uma quantidade grande de pessoas faz por adoe-
a maneira correcta, porque de outro modo não existiriam esta forca, cer, ou mantém-se doente, com medo de serem levadas. Muitos também
alegria e certeza dentro de mim. se matam devido ao mesmo medo. Estou grata por a tua vida ter tido

282 Etr;.- H i l l í S u m D i á r i o 1941-1943 283


um fim natural. A Tide diz: «Este sofrimento foi-lhe imposto por Mas a tua fidelidade venceu tudo o resto. E fui eu quem às vezes te tor-
Deus e agora ele foi poupado ao sofrimento que lhe seria imposto pelas nou isso ainda mais difícil, eu sei, mas a ti também te ensinei o que ser
pessoas.» Tu, querido homem mimado, com certeza que não irias con- fiel significa, o que lutar significa, e o que é ser fraco.
seguir suportar isso, não é? Eu consigo suportar e, suportando, hei-de Tudo o que de mau e de bom pode existir numa pessoa estava
continuar a transmitir a tua vida e a transmitir-te. dentro de ti. Todos os demónios, todas as paixões, toda a bondade, todo
Uma vez que uma pessoa chegou ao ponto de comportar esta o amor ao próximo, tu, grande entendedor, procurando e achando
vida como algo pleno de sentido e de beleza, mesmo nesta época, pre- Deus. Procuraste Deus por toda a parte, em cada coração humano que
cisamente nestes tempos que correm, então é como se tudo o que acon- para ti se abriu — e muitos foram — e em toda a parte achaste um pe-
tece assim tivesse de acontecer e não de outra maneira. É incrível, eu dacinho de Deus. Nunca desistias, eras capaz de ser muitíssimo impa-
estar novamente sentada à minha secretária! E amanha não posso vol- ciente em relação a pequenas coisas, mas em relação às grandes eras
tar para Westerbork, desta vez vou estar com os meus amigos todos num extremamente paciente, tão infinitamente paciente.
dia em que em conjunto levaremos a enterrar esses teus restinhos mortais. E que tenha sido precisamente a Tide que me tenha vindo contar
Ah, sabes, são coisas que têm de acontecer, é um hábito higiénico isso esta noite, aTide com a sua cara amorosa e radiante. Estávamos as
dos seres humanos. Mas havemos de estar todos juntos e o teu espírito duas juntas na cozinha, por um bocadinho. E na sala estava o meu com-
há-de estar entre nós e a Tide há-de cantar para ti, se soubesses como panheiro de armas. Um pouco mais tarde, o pai Han estava ao fundo
estou feliz em poder estar presente. Voltei justamente a tempo, ainda da sala. E a Tide tocou nas teclas do teu piano de cauda e cantou por
beijei a tua seca boca moribunda, ainda pegaste a minha mão por urna momentos uma breve canção; «Auf, aufmein Herz in Freuden».
vez e levaste-a aos teus lábios. Uma vez disseste-me, quando entrava São agora duas da manhã. Está tudo muito em silêncio na casa.
no teu quarto: «A rapariga viajante.» E uma vez também disseste: «Te- Preciso de te contar uma coisa estranha, mas penso que hás-de com-
nho uns sonhos muito esquisitos. Sonhei que Cristo me tinha baptizado.» preender. Está ali um retrato teu na parede. Eu gostava de o rasgar e de
Estive juntamente com a Tide à beira da tua cama, por um momento o deitar fora, e ficaria com a sensação de assim estar mais perto de ti.
pensámos que estavas morto e que os teus olhos estavam rendidos. A Nunca nos tratámos um ao outro pelo nome. Durante muito tempo
Tide apertou-me nos braços e eu dei um beijo naquela querida boca tratámo-nos por você e mais tarde disseste, bastante mais tarde: «íw».
pura e ela disse muito baixinho: «Encontrámo-nos.» Estávamos em E esse teu tu foi para mim uma das palavras mais ternas que um ho-
frente da tua cama, como ficarias feliz se nos tivesses visto, precisa- mem me disse alguma vez, E a sério que eu estava habituada a muita
mente a nós as duas. Se calhar até nos viste, mesmo que por um mo- coisa, tu bem sabes. Assinavas sempre as tuas cartas com um ponto de
mento também tivéssemos pensado que tinhas morrido, não foi? interrogação, e eu fazia o mesmo às minhas. Começavas as tuas cartas
E que as tuas últimas palavras tenham sido: «.Hertha, espero», tam- com um: «Ouça lá.../», o teu típico ouça lá, e no cabeçalho da rua úl-
bém estou grata por isso. O que tiveste de lutar para te manteres fiel! tima carta estava escrito: «Querida». Mas para mim não tens nome, és

284 . Ettv H i l l e s u m D i á r i o 1941-1943 285


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tão sem nome como o céu também o é. E gostaria de deitar todos os algo de extraordinário» e ajoelhei-me no velho tapete de fibra de coco
teus retratos fora e nunca mais olhar para eles, tudo isso ainda é dema- na pequena casa de banho. E depois pensei: «Isto é convencional.» A
siada matéria. Quero continuar a trazer-te comigo sem nome e hei-de maneira como uma pessoa no hnal de contas está cheia de convencio-
transmitir-te num único gesto novo e delicado, que anteriormente eu nalismos, cheia de ideias sobre actuações que pensa que têm de acon-
ainda não conhecia. tecer numa determinada situação!
Às vezes, num momento inesperado, alguém se ajoelha subita-
mente num cantinho do meu ser. Às vezes, quando vou pela rua ou a
Quarta-feira de manhã [16 de Setembro de 1942], meio de uma conversa com uma pessoa. E esse alguém que ali está ajoe-
às 9 horas (no consultório do médico). lhado sou eu mesma.
E agora jaz ali um invólucro mortal na cama que eu conheço de
Muitas vezes quando eu andava por Westerbork, no meio dos mem- ginjeira. Oh, o cobertor de cretone! Para ser sincera não sinto a menor
bros barulhentos, zaragateiros e activos, demasiado activos, do Conse- necessidade de lá ir mais uma vez. Tudo se passa algures dentro de
lho Judaico, pensava eu: «Bom, deixai-me ser um bocadinho da vossa mim, tudo, lá dentro existem grandes planaltos amplos sem tempo e
alma. Deixai-me ser a barraca de acolhimento do que de melhor há sem limites, e é lá que tudo se passa. E agora percorro estas poucas
em vós, que com certeza há-de existir. Não preciso de fazer muita coi- ruas novamente. As vezes que as percorri, também com ele, sempre
sa, quero só estar presente. Deixai-me ser simplesmente a alma deste envolvidos num diálogo interessante e frutuoso! E as vezes que ainda
corpo. E em cada uma das pessoas achei por vezes um gesto ou um hei-de caminhar por elas, seja em que lugar do mundo eu estiver, nos
olhar, que os transcendia em muito, e do qual provavelmente quase planaltos dentro de mim onde decorre a minha vida verdadeira. Estão
não se tinham apercebido.» E eu sentia-me a sua guardiã. realmente à espera que eu faça uma cara solene ou triste? Mas eu não
estou triste. Gostaria de juntar as mãos e dizer: «Meninos, estou tão fe-
liz e grata e acho a vida muitíssimo bela e cheia de sentido.» Sim, sim,
16 de Setembro, às 3 horas da tarde, quarta-feira. bela e cheia de sentido, enquanto estou aqui à beira da cama do meu
amigo morto, que morreu demasiado jovem, e eu posso ser deportada
Hoje vou mais uma vez àquela rua. Estive sempre separada dele a qualquer instante para um local desconhecido. Meu Deus, estou-te
por três ruas, um canal e uma pequena ponte. Ele morreu ontem, às tão agradecida por tudo.
sete e um quarto, exactamente no dia em que o meu passe caducava. Com o que resta dos mortos, que vive eternamente, continuarei a
Agora vou mais uma vez até ele. Estive agora mesmo na casa de banho. viver a minha vida, e hei-de despertar para a vida aquilo que está mor-
Pensei: «Vou de imediato ao meu primeiro morto.» Francamente não to dentro dos vivos; e desse modo não haverá senão vida, uma grande
me causou nenhuma emoção. Pensei: «Tenho de fazer algo solene, vida, meu Deus.

Hillesum D i á r i o 1941-1943
ATide vai cantar para ele mais uma vez e é com satisfação que es- timento de eternidade, e a menor acção e a mínima frase tivessem uma
pero pelo momento em que vou ouvir a voz dela, radiosa e afirmativa. essência enorme e um significado mais profundo.
Joop", companheiro de armas, acompanho-te agora. Ah, não, na Numa das suas primeiras cartas a mim, ele escreveu: «Ese eu con-
realidade não te acompanho, é verdade que de vez em quando te digo seguir comunicar um pouco de todas estas forcas trambordantes, fico mui-
alguma coisa e me ocupo bastante contigo em pensamento, e estou to contente.»
muito grata por poder dar-te tudo aquilo que não posso senão conti- E realmente bom teres deixado o meu corpo dizer «basta!», meu
nuar a dar. Deus. Preciso de me tornar completamente saudável a fim de conse-
Faz tanto sentido teres entrado na minha vida, nem podia ser de guir fazer tudo aquilo que devo fazer. Ou talvez essa também seja uma
outra maneira. ideia convencional. Mesmo que uma pessoa tenha uma doença no
Adeus... corpo, o espírito pode continuar a trabalhar e a ser produtivo, não é?
E amar e «escutar interiormente» a si mesmo, a outros, as conexões
desta vida e a ti. «Escutar interiormente, bem que eu gostaria de encon-
17 de Setembro [1942]. Quínta-feira de manhã, trar uma boa expressão em holandês para isso. Na realidade a minha
às 8 horas. vida é um «-escutar interiormente contínuo, a mim, a outros, a Deus. E
quando digo: «escuto interiormente», é efectivamente Deus em mim que
O sentimento de vida é tão grande e forte e tranquilo e grato em «escuta interiormente». O que há de mais essencial e profundo em mim
mim que não vou mais tentar expressá-lo numa palavra. Há uma feli- escuta o que há de mais essencial e profundo no outro. Deus a Deus.
cidade perfeita e completa dentro de mim, meu Deus. Exprime-se Que grande é a necessidade íntima das tuas criaturas neste mundo,
realmente melhor pelas palavras dele, «descansar dentro de si». E talvez meu Deus! Agradeço-te por deixares tanta gente vir ter comigo com os
sejam estas as palavras que melhor exprimem o meu sentimento de seus apertos. Estão sentados a falar comigo, sossegados e desprevenidos,
vida: descanso dentro de mim. E esse mim própria, esse mais pro- e de repente a sua necessidade irrompe nua cá para fora. E subitamente
fundo e mais precioso em mim no qual descanso, a isso eu chamo está ali uni pedaço da humanidade, em desespero, e sem saber como viver.
«Deus». Encontrei várias vezes no diário da Tide: «Toma-o suave- E agora é que começam realmente as dificuldades para mim. Não
mente nos teus braços, Pai.» E é assim que me sinto, sempre e ininter- chega só pregar sobre ti, meu Deus, dar-te a conhecer aos outros, de-
ruptamente: como se estivesse nos teus braços, meu Deus, tão senterrar-te dos corações dos outros. E preciso abrir nos outros o cami-
protegida e abrigada e tão imbuída de sentimento de eternidade. E é nho que conduz a ti, meu Deus, e para isso é necessário ser um grande
como se a minha mais pequena respiração estivesse repassada de sen- conhecedor da índole humana. Uma pessoa precisa de ser um psicó-
logo diplomado. As relações entre os pais, memórias da juventude, so-
* Joop é Jopie Vleeschhouwer, um bom amigo de Erry em Westerbork. nhos, sentimentos de culpa, complexos de inferioridade, pois bem,

288 Diário 1941-194} . 289


T

toda essa tralha. Com todos aqueles que vêrn ter comigo começo uma tical entre os ???? olhos. Esse adjectivo ainda não o consegui achar. Ao
busca cautelosa. As ferramentas para abrir nos outros o caminho para escurecer ouço à distância os primeiros acordes da 5- a Sinfonia de
ti são ainda muito limitadas. No entanto existem algumas ferramentas Beethoven.
e eu hei-de melhorá-las devagarinho e com paciência. E agradeço-te Gostaria de poder dominar tudo através de palavras. Estes dois
por me teres dado o dom de conseguir decifrar e de achar o caminho meses entre arame farpado, que foram os meus meses mais intensos e
nos outros. Para mim, as pessoas são muitas vezes como casas com as ricos, que foram uma confirmação enorme dos derradeiros e mais al-
portas abertas. E eu entro e vou deambulando pelos corredores e pelos tos valores da minha vida. Apaixonei-me tanto por esse Westerbork e
quartos, e cada casa tem por sua vez uma decoração um pouco diferente tenho saudades de lá. E quando adormecia no catre estreitinho tinha
e no entanto todas elas são parecidas. E cada casa deveria transformar-se saudades da secretária onde agora estou sentada a escrever. Estou-te
numa morada sagrada para ti, meu Deus. E ptometo-te, prometo-te grata, meu Deus, por tornares a minha vida tão bonita onde quer que
procurar no maior número de casas possível morada e acolhimento eu esteja, que sinto saudades desse local quando não estou lá. No en-
para ti, meu Deus. E realmente uma imagem engraçada. Meto-me a tanto, isso faz com que às vezes a vida seja pesada e difícil. Vês, já pas-
caminho e vou à procura de abrigo para ti. Há tantas casas vazias por sa das dez e meia, as luzes apagam-se na barraca e eu acho que tenho
aí, vou trazê-las até ti, o hóspede de honra. Perdoa-me esta imagem de me deitar agora. «A doente deve levar uma vida calma», está escrito
um pouco indelicada. nesse atestado médico impressionante. E que devo comer arroz e mel
e mais fantasias maravilhosas desse género. De repente sou obrigada a
pensar naquela mulher de cabelos brancos como a neve a emoldurar-
Por volta das dez e meia da noite. -Ihe o rosto, que tinha uma pequena embalagem de tostas na sacola do
pão. Essa era a única coisa que levava consigo para a sua viagem para
Deus, acaima-me e deixa-me «dominar» tudo. Há tanta coisa. Te- a Polónia; ela estava a seguir uma dieta rigorosa. Era extremamente
nho finalmente de me pôr a escrever a sério. Mas preciso de começar amável e sossegada e tinha um corpo esguio como uma rapariga nova.
por viver disciplinadamente. Neste momento apagam-se as luzes na Uma tarde, estive sentada com ela na relva ao sol, em frente das bar-
barraca dos homens. Mas eles nem sequer têm luz, ou têm? Onde é racas de trânsito. Ainda cheguei a dar-lhe um livro pequeno que ri-
que estiveste então esta noite, pequeno companheiro de armas? Por nha trazido da biblioteca do Spier, Die Liebe, de Johannes Múller,
vezes, sou capaz de ter de repente um momento de tristeza indomável: com o qual ela tinha ficado muiro satisfeita. Ela disse a umas rapari-
tristeza por não poder sair da barraca e encontrar-me imediatamente gas novinhas que tinham vindo sentar-se depois, ao pé de nós: «Lem-
no extenso urzal. Em seguida caminho um pouco pelo terreno e não brem-se de que amanhã cedinho quando partirmos, cada uma de nós
tarda muito que o meu companheiro de armas — saído sei lá de onde só pode chorar três vezes.» Ao que uma mocinha respondeu: «Ainda
— venha ter comigo, com a sua cara tisnada e a inquiridora ruga ver- não recebi a minha senha de racionamento para o choro.»

290 Etty H l l i e s u m Diiíio I 9 4 L - I 9 4 3 191


São quase onze horas. Como o dia passou depressa, vou mas é para porta e, consequentemente, terei de entrar numa luta simultaneamente
a cama. Amanhã aTide veste o saia-casaco cinzento-claro e vai cantar sangrenta e deleitosa contra uma matéria que me parece praticamente
«Auf, anfmein Herz mit Frende», no auditório do cemitério. Eu hei-de invencível. Vou ter pois de me afastar de uma pequena comunidade a
ir numa carruagem com cortinas pretas, pela primeira vez na vida. fim de poder voltar-me para outra maior. Talvez nem se trate disso, o
Ainda tenho tanto para escrever dias e noites a fio. Dá-me paciência, voltar-me para uma comunidade maior: é o puro impulso poético de
meu Deus, uni género de paciência completamente novo. Esta secre- querer materializar alguma da riqueza de imagens interior; é, é sim tão
tária tornou-se-me outra vez familiar e a árvore atrás da janela deixou elementar, que nem sequer é necessário explicar o que é.
de andar à roda. Teres feito com que eu esteja sentada a esta secretária Pergunto-me por vezes se não vivo a vida demasiadamente até ao
é porque tens planos, de certeza. Hei-de esforçar-me o mais possível. fundo, se não vivo e gozo e a assimilo tanto até ao fundo que nada res-
E agora boa noite a sério. ta. E se calhar, a fim de criar, é preciso haver um resto que não tenha
Estou cheia de receio que estejas num período difícil por lá, Jopie, sido consumido até à última, e que através dele surja a tensão, que é o
e gostaria tanto de realmente poder ajudar-te. E hei-de ajudar-te. Adeus! que estimula o trabalho criativo, ou não?
Falo muito com as pessoas, muitíssimo nos últimos tempos. Por
enquanto falo de modo bastante mais expressivo e claro do que conse-
Domingo à noite [20 de Setembro de 1942]. guiria escrever. Às vezes penso que não devia desperdiçar-me tanto em
palavras ditas, penso que devia afastar-me e seguir no papel o meu pró-
Expressar por palavras, por sons, por imagens. prio caminho de silenciosa busca. E isso o que uma parte de mim quer
fazer. Urna outra parte ainda não consegue tomar uma decisão e perde-
Muitas pessoas são ainda hieróglifos para mim, mas vou apren- -se em palavras no meio da multidão.
dendo devagarinho a decifrá-las. É a coisa mais íinda que conheço: ler
a vida das pessoas. Max', viste aquilo? Aquela mulher surda-muda grávida de oito
Em Westerbork era como se às vezes eu estivesse perante a carcaça meses com o marido epiléptico? Max: neste momento, na Rússia,
da vida. O esqueleto interior da vida, despojado de qualquer exterior. quantas mulheres no nono mês não foram expulsas de suas casas e pe-
Agradeço-te, meu Deus, por me ensinares a ler cada vez melhor. gam no entanto numa espingarda?
O meu coração é uma eclusa pela qual uma nova corrente contí-
Eu sei que um dia vou ter de escolher. Vai ser muito difícil. Se nua de sofrimento é enviada.
quiser escrever, se quiser tentar escrever tudo o que em mim continua-
mente insiste em ser expresso, vou ter nesse caso de me afastar muito
mais das pessoas do que agora faço. Então vou ter de encerrar mesmo a Max Osias Kormann, um judeu polaco que se tornou amigo de Eccy em ^Xesterbork.

292 Ectv H i M c s u m D i á r i o 1941-1941 293


O Jopie sentado no urzal sob o grande céu estrelado numa con- bate certo. Pois sim, a realidade. A realidade é que em muitos lugares
versa sobre a saudade: «Não tenho saudades, afinal de contas estou em deste mundo homens e mulheres não podem estar juntos. Os homens
casa.» Aprendi muita coisa nessa ocasião. Está-se «em casa». Sob o céu, estão nas frentes de batalha. A vida dos campos. As prisões. O estar se-
uma pessoa está em casa. Em cada lugar deste mundo está-se «em casa», parados um do outro. Essa é a realidade. E uma pessoa tem de se esfor-
quando uma pessoa traz tudo consigo. çar por a aceitar. E não é preciso uma pessoa desejar em vão e cometer
Muitas vezes senti-me, e ainda me sinto, como um navio que re- o pecado de Onan, pois não? Não seria possível uma pessoa conseguir
colheu uma carga preciosa a bordo. Os cabos foram cortados e agora o transformar o amor que não pode dar àquele ser único, ao outro sexo,
navio navega plenamente livre e por todos os países levando consigo a numa força para benefício da comunidade e a que talvez se pudesse
carga preciosa. também chamar novamente amor? E quando uma pessoa se esforça
por isso, não se encontra ela precisamente no fundo da realidade?
Uma pessoa deve ser a sua própria pátria. Uma realidade que não é tão tangível como uma cama com um ho-
mem e uma mulher. Mas não existem ainda assim outras realidades?
Demorei noites seguidas
o
até conseguir
o
contar-lhe o mais íntimo Há algo de muito infantil e tacanho também, quando um homem en-
dos íntimos. E no entanto eu queria ardentemente contar-lho, como tradote, nestes tempos, meu Deus, nestes tempos faia em «gozar a
se lhe oferecesse um presente. Sim, sabes, daquela vez que saí da bar- vida». Gostava imenso que me tivesse contado de forma plástica o
raca. Foi tão bonito, sabes. E então eu, então eu, oh, foi tão bonito! que é que ele queria dizer com isso.
E somente uma noite depois é que consegui dizer: «Nessa altura ajoe-
lhei-me ali em frente ao grande urzal.» Ele perdeu a respiração e ficou «Após esta guerra, para além de uma corrente de humanismo irá
calado, olhou-me e disse: «Que linda que tu és!» haver também uma corrente de ódio pelo mundo.» E então dei-me de
novo conta: hei-de avançar para a luta contra esse ódio.
Claro que o médico não tinha razão. Antigamente era possível que
uma coisa destas me fizesse ficar insegura, mas já aprendi a ver através
das pessoas e a interpretar palavras com uma visão própria. «Você vive [Terça-feira] 22 de Setembro [1942],
demasiado ocupada com o espírito, não se solta o suficiente, não vive as
coisas elementares desta vida.» Quase lhe perguntei: «Por acaso quer Uma pessoa deve viver consigo própria como se vivesse com uma
que eu me deite aqui no divã consigo?» Não teria soado particu- multidão inteira. E, interiormente, uma pessoa aprende então a co-
larmente cortês, mas sinceramente este monólogo estava a caminhar nhecer todas as boas e as más características da humanidade. E uma
nesse sentido. E depois: «Você não vive suficientemente na realidade.» pessoa deve aprender a perdoar os seus próprios defeitos, se é que quer
E mais tarde pensei: no final de contas o que um homem destes diz não perdoar aos outros.

294 Etcy Hillesum Diário 295


Provavelmente para uma pessoa isto é o mais difícil de aprender, e poetas e flores amei a vida de forma muito intensa, à beira desta se-
verifico Isto frequentemente com outras pessoas (antigamente também cretária. E foi lá, entre as barracas, repletas de gente agitada e perse-
comigo, agora já não): perdoar a si próprio os erros e deslizes cometi- guida, que achei a confirmação para o rneu amor por esta vida. A vida
dos. Para tal é preciso em primeiro lugar aceitar, aceitar prodigamente, nas barracas cheias de correntes de ar não tinha o menor contraste
que uma pessoa comete erros e deslizes. com a vida neste quarto abrigado e sossegado. Não senti o mais pe-
queno corte com uma vida supostamente acabada. Havia uma grande
Gostava muito de viver como os lírios do campo. Se as pessoas en- continuidade, plena cie sentido. Como é que alguma vez vou conse-
tendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver guir descrever tudo isto? Descrever de modo que outros também con-
como os lírios do campo. sigam sentir como na realidade a vida é bela, digna de ser vivida e justa,
sim, justa. Talvez Deus me dê um dia as tais palavras simples! Palavras
Uma vez escrevi num dos meus diários: «Gostava de tactear com as coloridas e apaixonadas e igualmente sérias, mas sobretudo simples.
pontas dos dedos os contornos desta época.» Nessa altura estava sen- Como' traçar em meia dúzia de pinceladas leves, frágeis e no entanto
tada à minha secretária sem saber bem como atingir a vida. Isso era enérgicas, aquele pequeno aldeamento de barracas entre o urzal e o
por eu ainda não ter chegado à vida dentro de mim. Soube alcançar a céu? E como vou eu fazer com que os outros consigam ler as muitas
vida dentro de mim enquanto ainda estava sentada a esta secretária. E pessoas que precisam de ser decifradas como se fossem hieróglifos,
então, de repente, íiii lançada num foco de sofrimento humano numa traço a traço, até por fim comporem um todo legível e compreensível
das múltiplas frentes espalhadas por toda a Europa. E foi aí que eu ex- engastado entte o urzal e o céu?
perimentei isto abruptamente: a partir dos rostos das pessoas, de mi-
lhares de gestos, de pequenas manifestações, de biografias, comecei a Uma coisa já eu sei de certeza: nunca hei-de conseguir escrever do
interpretar estes tempos, e muito mais do que isto. Por ter aprendido mesmo modo que a própria vida, com todas as suas letras animadas,
a ler-me a mim própria, percebi que podia fazer igualmente a leitura escreveu para mim. Li tudo com os meus próprios olhos e com muitos
dos outros. E como se realmente, lá, as pontas sensíveis dos meus de- sentidos. Nunca serei capaz de reproduzir exactamente. Isto poderia
dos tivessem seguido ao longo dos contornos desta época e da vida. desesperar-me se não tivesse aprendido que devemos trabalhar com as
Como é que é possível que essa extensão de urzal cercada por arame forças embora insuficientes que possuímos, mas com as quais devemos
farpado — onde tanto destino e sofrimento humanos chegam e par- trabalhar.
tem— permaneça uma recordação quase carinhosa na minha memó-
ria? Por que motivo o meu espírito não obscureceu lá, mas, pelo Passo pelas pessoas como se fossem plantio e verifico que altura a
contrário, ficou mais claro e lúcido? Nesse lugar li algo destes tempos vegetação humana atingiu.
que não me parece destituído de sentido. Por entre os meus escritores

296 Ettv HilIt Diário 1941-19 + } 297


Esta casa, sinto-o, começa a deslizar devagarinho dos meus ombros. mas simples. Temos por exemplo um funcionário. Vejo-o muitas vezes
Está certo que aconteça assim, o desprendimento total irá completar-se por partes. O que nele mais sobressai é o pescoço direito e inflexível,
agora. Com grande cuidado, com grande nostalgia, mas também tendo Ele odeia os nossos perseguidores com um ódio para o qual eu penso
a certeza de que é assim que deve ser, e nem poderia ser doutra maneira, que ele terá boas razões. Mas ele mesmo é um carrasco. Poderia ser um
deixo-a deslizar dia a dia. líder exemplar de um campo de concentração. Observei-o frequente-
E com uma camisa no corpo e outra na mochila — como é que mente quando ele estava à entrada do campo a acolher os seus agitados
era aquele conto do Kormann sobre o homem sem camisa? O rei que companheiros de raça; nunca foi muito reconfortante. Ainda me lem-
andou à procura por todo o remo da camisa do seu súbdito mais feliz, bro como uma vez atirou para cima da mesa uns rebuçados nojentos a
e quando finalmente encontrou o felizardo, descobriu que o homem uma criança chorosa de três anos, acrescentando o extremoso comen-
não possuía uma camisa — e, juntamente com aquela Bíblia muito tário paternal: «Tem cuidado, não sujes o focinho.» Depois, achei que
pequenina, talvez eu possa levar também os meus dicionários de rus- foi mais falta de jeito e timidez do que falta de vontade, que não sou-
so e os contos populares doTolstói e talvez, mas só talvez, ainda haja lu- be achar o tom certo. Mas diga-se de passagem que ele era um dos me-
gar para um dos volumes de cartas do Rilke. E ainda a camisola de lhores juristas da Holanda e que os seus artigos perspicazes eram
pura lã virgem tricotada pelas mãos de uma amiga. A quantidade sempre muito bem formulados. (O homem que se enforcou no hospi-
enorme de coisas que ainda possuo, meu Deus! E uma pessoa assim tal: «Lembra-te de o tirarmos do ficheiro do "Bóra".»2) Da maneira
ainda quer ser um lírio do campo? Portanto, com a tal camisa na mo- que eu o via a andar entre as pessoas, com o seu pescoço direito, aque-
chila vou para um «destino desconhecido», como lhe chamam. No en- le olhar dominadot e o eterno cachimbo pequeno, pensava sempre: o
tanto a terra é toda a mesma debaixo dos meus pés errantes, ou não? E que lhe falta é um chicote nas mãos, ajustava-se-lhe lindamente.
o céu é o mesmo, ora uma vez com a lua ora outra vez com o sol, para Contudo, eu não o detestava; ele despertava-me demasiado inte-
não nos esquecermos das estrelas sobre a minha cabeça entusiasmada, resse para que isso acontecesse. Na verdade, de vez em quando eu ti-
não é? Porquê então falar em destino desconhecido? nha uma enorme pena dele. Na sua boca denotava imensa insatisfação,
uma boca muitíssimo infeliz se fôssemos a ver. A mesma boca de uma
criança de três anos a quem a mãe não deixou levar a sua avante. En-
[Quarta-feira] 23 de Setembro [19421. tretanto ele já tinha passado os trinta anos, um homem jeitoso de se
ver, um jurista conhecido e pai de dois filhos. Porém, a boca insatis-
E não adiantamos nada com esse ódio, Klaas', as coisas na reali-
dade são bem diferentes daquilo que queremos ver nos nossos esque- :" «Bóra- dç hmbora. Refere-se às deportações no último momento. As segundas-feiras, antes da par-

tida dos comboios para a Alemanha, muitas pessoas eram .arregimentadas à última da hora a hm de perfazer
o número necessário para preencher os vagões. Nesse processo fazia-se uso de um ficheiro com todos os dados
" Klaas Smelik sénior. dos mrernados no campo. \N. da J.)

2-9° • Env H i l l e s u i 199


feita e birrenta de uma criança de três anos fora-lhe estampada no ros- Eu gostava de abordar esse homem nos seus medos. Gostava de
to, só que mais grosseira e maior devido ao passar dos anos, claro. Bem encontrar a fonte desse medo, de o acossar e empurrar para os seus ter-
olhado, sinceramente não se podia dizer que fosse um homem atraente. ritórios interiores. Essa é a única coisa que podemos fazer, Klaas, nos
Vês, Klaas, o que se passava na realidade era que ele tinha um tempos que correm.
ódio enorme àqueles a quem poderíamos chamar os nossos carrascos, E o Klaas fez um gesto de cansaço e de desânimo e disse: «Mas aqui-
mas ele mesmo teria sido um excelente carrasco e perseguidor de gen- lo que queres demora imenso tempo, nós não temos assim tanto tem-
te indefesa. E no entanto eu sentia uma grande compaixão por ele. po como isso, pois não?» E eu respondi:,«Mas, com o que tu queres, já
Compreendes alguma coisa disto? Nunca houve o menor contacto a humanidade anda ocupada há dois mil anos, desde o princípio da
amigável entre ele e os que trabalhavam com ele, e ele tinha um olhar
era crista, e mesmo, para além disso, desde o início da humanidade, há
furtivo e faminto para os outros, quando eles lidavam de forma amis-
milhares de anos. E que achas do resultado, se não te importas que eu
tosa entre si. (Eu conseguia sempre vê-lo e observá-lo, já que lá não
pergunte?»
havia paredes.) Mais tarde ouvi algumas coisas acerca dele ditas por
E'repeti com a mesma paixão do costume, embora eu própria co-
um colega que já o conhecia há largos anos. Aquando da invasão, ele
meçasse a achar-me aborrecida por ir dar sempre ao mesmo: é a única
saltou dum terceiro andar para a rua, mas não teve sucesso e não mor-
e a única coisa, Klaas, não vejo outro caminho senão a gente voltar-se
reu, o que pelos vistos era o seu objectivo. Mais tarde, tentou ainda
para dentro de si e, dentro de si mesma, arrancar e destruir tudo aqui-
lancar-se para debaixo de um carro, mas também falhou. Passou então
uns meses num manicómio. Era medo, era tudo medo. Ele era um ju- lo que ache ser a razão para destruir outros. E compreendamos bem
rista extremamente brilhante e perspicaz e, em debates com professo- que cada átomo de ódio que acrescentamos a este mundo o faz ainda
res e outros intelectuais, tinha sempre a decisiva e última palavra. Mas, pior do que ele já é.
no momento decisivo saltou da janela devido ao medo. Também ouvi E o Klaas, o velho e fervoroso adepto da luta de classes, disse si-
dizer que a mulher tinha de andar sempre nas pontas dos pés quando multaneamente consternado e surpreendido: «Pois, mas isso... Isso se-
ele estava em casa porque ele não suportava ruídos, e, também, como ria outra vez o cristianismo!»
ele ralhava sempre com os filhos e o medo que estes tinham dele. Eu E eu, divertida com tanta confusão súbita, disse muito secamente:
tinha muita, muita pena dele, porque que vida é essa na realidade? «Sim, e porque não o cristianismo?»
Klaas, o que eu queria dizer-te realmente era o seguinte: temos tan-
to que fazer em relação a nós, que nem devíamos ter tempo para odiar Faz com que eu continue saudável e forte!
os nossos chamados inimigos. Entre nós ainda somos inimigos que
baste. E eu ainda não disse tudo quando afirmo que entre a nossa pró- O modo como a barraca por vezes estava sob a lua, feita de prata
pria gente também há carrascos e maus elementos. Para dizer a ver- e de eternidade: como se fosse urn brinquedo caído da mão distraída
dade, não creio mesmo nada naquilo a que se chama «más pessoas». de Deus.

300 Em v Hillesum Diário 1941-194} • 301


[Quinta-feira] 24 de Setembro [1942]. Esta noite estive muito tempo ocupada a pensar em S. De repente co-
mecei a sentir um princípio de tristeza; isso também faz parte da vida.
«Temos pelo menos um consolo», disse o Max com aquele sorriso E no entanto, estou-te grata, meu Deus, estou até quase orgulhosa por
rude e desajeitado, «lá, no inverno, a neve amontoa-se em tal quanti- não me privares dos últimos e maiores enigmas. Ainda posso reflectir
dade que tapa as janelinhas das barracas, bom, isso quer dizer que du- sobre eles urna vida inteira. Mas, esta noite, inesperadamente, tinha
rante o dia também está tudo às escuras.» Ele estava a achar-se tantas coisas para lhe perguntar, sobre ele também, de repente uma
bastante divertido. «Mas,'pelo menos, ficamos quentinhos porque as- enorme quantidade de coisas não me era compreensível. Agora vou ter
sim a temperatura nunca desce abaixo dos zero graus.» «E nas barracas de ser eu mesma a encontrar as respostas. Que tarefa cheia de respon-
de trabalho deram-nos dois aquecedores pequeninos», continuou ele sabilidade! Mas devo dizer: acho-me à altura. Como é estranho, quan-
encantado, «os sujeitos que os trouxeram contaram-nos que os aque- do o telefone toca, nunca mais ser a voz dele que, do outro lado da
cedores aquecem tanto que racham logo ao fim do primeiro uso.» linha, meio mandona meio terna, diz: «Ouça lá?» Ainda vai ser muito
difícil. Há que tempos que já não vejo a Tide!
Havemos de ter muito para compartilhar e suportar juntos, no O meu enriquecimento dos últimos dias — as aves do céu e os lí-
inverno. O que é preciso é conseguirmos aguentar e ajudar-nos mu- rios do campo e Mateus, 6,33:
ruamente a suportar o frio, a escuridão e a fome. E é bom que ao mes- «Procurai primeiro o Seu reino e a Sua justiça, e tudo o mais se
mo tempo saibamos que este inverno vamos ter de suportar isto com vos dará por acréscimo.»
a humanidade inteira, assim como os nossos chamados inimigos; o E amanhã um encontro com o Ru Cohen no «Café de Paris». E
que importa é sentirmo-nos parte de um grande todo e sabermos que estavam cinco pessoas na praça Adama van Scheltema apenas em ca-
somos uma das muitas frentes que estarão espalhadas pelo mundo. misa de noite e pantufas — já começa a fazer muito frio — e agora
Seremos alojados numa barraca de madeira em campo aberto, também já levaram uma pessoa que se encontrava na última fase de
com beliches vindos da Linha Maginot28, em filas de três sobrepostos, cancro, e ontem à noite abateram um judeu a tiro na rua Van Baerle,
e sem electricidade, porque não há maneira de o cabo encomendado a aqui quase ao virar da esquina portanto, porque ele queria fugir. Neste
Paris chegar. E mesmo que houvesse electricidade, não há papel para momento, há muita gente a morrer abatida a tiro pelo mundo inteiro,
tapar os vidros das janelas. enquanto eu escrevo isto junto ao meu cíclame cor-de-rosa forte, de-
Interrompo tudo a meio e agora já anoiteceu outra vez. O meu baixo do meu candeeiro de secretária em aço. Enquanto vou escre-
corpo está hoje com um comportamento muito desagradável. Há um vendo, a minha mão esquerda está pousada em cima da pequena
pequeno cíclame cor-de-rosa fone debaixo do meu candeeiro de aço. Bíblia aberta. Tenho dor de cabeça e de barriga e no fundo do meu co-
ração repousam os dias soalheiros do verão no urzal e aquele campo de
-s Zona defensiva ao longo da fronteira oriental francesa. (;V da 73 tremoceiros-amarelos que se estendia até à barraca de desparasitação.

3O2 .„ E- * H i l l e s u m D i á r i o 1941-194} 303

.
Não se passou ainda nem um rnês, 27 de Agosto à meia-noite, que uma pequena vaga que me acalenta, constantemente, mesmo a seguir
o Joop me escreveu: «Lá estou eu agora do lado de fora, balançando as aos momentos mais difíceis: como ávida é bela! E um sentimento in-
pernas, a ouvir o silêncio maravilhoso. O campo de t remocei ros-am are- descritível. E um sentimento que também não tem base na realidade
los que agora não se banha com cores jubilantes num sol forte e conso- em que vivemos. Mas ainda existem outras realidades para além da-
lador. Neste instante tudo tem uma solenidade e serenidade que me quelas que se encontram nos jornais ou nas conversas abstractas e
acalmam e incutem gravidade. Salto da janela e dou uns passos na areia acaloradas das pessoas aterrorizadas, não é? Ainda há a realidade do
solta e olho para a lua.» E depois termina a carta nocturna, na sua escrita pequeno cíclame cor-de-rosa forte e do extenso horizonte que conti-
compacta, naquele papel ruim: «Entendo como alguém pode dizer que nua a ser possível descobrir para lá dos rumores e das confusões des-
aqui só há um gesto a fazer: ajoelhar. Não, não me ajoelhei, não acho ne- ta época.
cessário. Ajoelhei-me sentado na janela e em seguida fui dormir.» Dá-me um pequeno verso por dia, meu Deus. E se eu nem sempre
E realmente espantoso como esse homem de repente surgiu qua- o puder copiar por não haver papel ou luz, então hei-de declamá-lo
se sorrateiramente, com vivacidade e inspiração na minha vida, en- baixinho para o teu grande céu, à noite, mas dá-me um pequeno ver-
quanto o grande amigo, o «parteiro» da minha alma, estava na cama so de vez em quando.
cheio de dores e a ficar senil.
Às vezes pergunto-me, num momento difícil como o desta noite,
quais são os planos que tens para mim, tu Deus. E se calhar dependem [Sexta-feiral 25 de Setembro [1942],
das minhas intenções para contigo, não? às onze horas da noite.

Todas as angústias e solidões nocturnas duma humanidade em so- A Tide contou como uma amiga disse uma vez a seguir à morte
frimento desfilam agora com uma repentina dor aflitiva neste meu pe- do marido: «Deus colocou-me numa turma mais avançada, os bancos
queno coração. Com que fardo tenciono afinal arcar este inverno? ainda são um bocadinho grandes de mais.»
Mais tarde quero ir viajar pelos vários países deste teu mundo ; E quando uma vez conversávamos acerca de ele não existir mais e
meu Deus. Sinto em mim o apelo da viagem que ultrapassa todas as de como era tão estranho ambas não sentirmos nenhum vazio, mas
fronteiras e que descobre algo comum em todas as tuas criaturas dife- uma plenitude, por um instante a Tíde escondeu a cabeça entre os
rentes e em luta pelo mundo inteiro. E gostaria de falar sobre o que ombros e disse com um sorrisinho corajoso: «Pois, os bancos ainda são
temos em comum, num tom de voz baixo e suave, mas ininterrupto um bocadinho grandes, de vez em quando isso é difícil.»
e convincente. Dá-me as palavras e a forca. Mas, primeiro, quero es-
tar no centro das frentes e entre as pessoas em sofrimento. Nesse caso Mateus 5,23: «Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o
hei-de ter direito a falar, não é? Vez após vez, cresce dentro de mim altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa, contra ti,»

304 Etrv 305


5,24: «deixa a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar- culpa de que não há nada que eu possa fazer por eles. E como esta há mui-
-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta.» tas coisas em que falhei. Afinal andei demasiado ocupada em partir à con-
quista da minha própria felicidade. Gostava tanto de fitar um par de
De vez em quando naufragava uma frota carregada de prata no olhos à noite no urzal. Era muito bonito e no entanto falhei em todas as
oceano. A humanidade tentou desde sempre recuperar os tesouros frentes. Falhei também em relação às moças da minha camarata. De vez
afundados. No meu coração já se afundaram tantas frotas e toda a vida em quando atirava-lhes um naco de mim e em seguida fugia a correr. Não
hei-de tentar trazer à superfície uma parte dps muitos tesouros que ja- estava certo. E contudo estou muito agradecida por tet sido assim, foi tão
zem lá no fundo. Ainda não tenho as ferramentas necessárias para bonito, tão maravilhosamente bonito, e estou tão grata por isso que hei-
isso. Vou ter de as fabricar a partir do zero. -de compensar tudo. Creio que irei voltar mais séria e concentrada e me-
nos ern busca dos meus prazeres. Se uma pessoa quer influenciar os outros
Eu ia a saltitar ao lado do Ru e, após uma longa conversa em que moralmente, deve principiar por levar a sério a sua própria moral. Todos
«as questões últimas» vieram de novo à baila, calei-me repentinamente os dias ando para aí a saltitar com Deus, como se isso fosse uma ninharia,
ao lado dele, a meio da estreita e enfadonha rua Govert Ffinck e disse: e assim sendo devo viver em conformidade. Ainda não cheguei lá, oh não,
«Sim, e sabes, Ru, além do mais ainda tenho uma característica infan- de maneira nenhuma, e às vezes faço de conta que sim. Sou brincalhona
til que faz com que eu ache constantemente a vida bela e que talvez e comodista, e frequentemente vivo as coisas mais como uma artista do
seja a razão por que consigo suportar tudo tão bem.» O Ru olhou para que como uma pessoa séria; também tenho um bocadinho de excentrici-
mim muito esperançado e eu disse — como se fosse a coisa mais nor- dade, de aventura e de capricho dentro de mim. Mas enquanto aqui estou
mal do mundo, e porque não? —- «Pois, estás a ver, eu acredito em sentada a esta secretária, a altas horas da noite, sinto outra vez de que ma-
Deus.» E eu acho que ele ficou confuso por um momento e olhou-me neira há uma força imperativa, orientadora, em mim que, com uma gran-
como se houvesse alguma coisa misteriosa na minha cara e depois no de e crescente seriedade, por vezes numa voz silenciosa, me diz aquilo que
fundo achasse que realmente até era bom para mim. Terá sido por isso devo fazer e por fim também me obriga a escrever com toda a honesti-
que eu passei o resto do dia tão radiante e cheia de energia? Talvez por dade: falhei em todas as frentes, o verdadeiro trabalho ainda está por co-
ter revelado de modo tão firme e tão simples no meio daquele soturno meçar. Até agora foi sobretudo uma brincadeira.
bairro popular: «Pois, estás a ver, eu acredito em Deus.»

E bom eu ter ficado aqui por umas semanas. Volto rejuvenescida e (Sábado] 26 de Setembro [1942], às dez e meia.
revigorada. No final de contas não preenchi bem as minhas obrigações
para com a comunidade, fui demasiado comodista. Bem podia ter ido vi- Agradeço-te, meu Deus, por ter travado um conhecimento tão
sitar os velhotes, os Bodenheimers. Não devia ter-me livrado com a des- profundo de corpo e alma com uma das tuas criaturas.

306 . Etcv H i l l e s u m Diário 1941-1943


Tenho de deixar ainda muito mais nas tuas mãos, meu Deus. De nearnente com esta. E um mundo no qual os eternos murmúrios do
não te colocar também condições nenhumas: no caso de eu continuar misticismo se tornam realidade viva, e no qual objectos e dizeres nor-
saudável então... Se eu não estiver com saúde, com certeza que a vida mais, que fazem parte do quotidiano, adquirem um significado mais
continua, e também o melhor possível, não é? No fim de contas não elevado. E bem possível que depois da guerra as pessoas se mostrem
posso colocar exigências, pois não? E não as hei-de colocar. E no mo- mais abertas a isto do que até agora; que se apercebam de uma ordem
mento em que eu «me entreguei», a dor de estômago melhorou mui- mundial mais elevada.»
to de repente. «E ainda que distribuísse toda a^ninha fortuna para sustento dos
pobres (...) se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.»- 9 Agora
Estive a folhear um pouco os meus diários, de manhãzinha. Mil já não precisas mais de sofrer, mimalho. Eu aguento bem esse bocadi-
recordações pularam ao meu encontro. Que ano extraordinariamente nho de frio e de arame farpado, e vou-te vivendo. Essa parte tua que
rico! E também: como cada dia traz novas riquezas! E: agradeço-te por era imortal, continuo a vivê-la.
me teres dado tanto espaço para assim eu poder guardar todas essas ri- As voltas que uma pessoa dá para chegar novamente a algo mate-
quezas cá dentro. rial: a Tide deu-me o pequeno pente partido cor-de-rosa dele. Foto-
grafias dele não as quero, para ser sincera, talvez nem sequer volte a
Noto cada vez mais como Rilke foi um dos meus grandes educa- pronunciar o seu nome, o pequeno pente sujo cor-de-rosa, com o qual
dores do último ano. o vi durante ano e meio a pentear os poucos cabelos que tinha, está
agora enfiado na minha carteira por entre os papéis mais importantes
e fico louca de desgosto se alguma vez o perder. No fim de contas, uma
pessoa é um bicho estranho.
[Domingo] 27 de Setembro [1942].
-
Como uma pessoa pode ser um fogo crepitante! Todas as palavras
[Segunda-feira] 28 de Setembro [1942]
e expressões usadas para o descrever me parecem neste momento cin-
zentas, pálidas e incolores em comparação com esta intensa alegria de
Audi et alteram partem.^
viver, o amor e a energia que se expandem dentro de mim.

O meu mano pianista de 21 anos escreve isto de um asilo de doi-


dos, não sei em que ano da guerra:
«Henny, também creio, sei, que depois desta há outra vida. Acre- "^ Parte de uma passagem de iCoríntios, 13,3- (A' da
dito mesmo que haja pessoas que a enxergam e experienciam simulta- -v' Ouve cambem a oucra pane. (Ar. da T)

D i á r i o 1941-1945 309
3Oõ . c ct v Hilltsum
O bandido dos gases tóxicos31 que se escondia sob pseudónimo, Não acredito em constatações objectivas. Conjugação infinita de
interacções humanas.
os lírios-do-vale e a enfermeira seduzida.

Até fiquei impressionada por um momento quando o galantea- Dizem: «Morreste demasiado cedo.» Claro que não, há-de haver
dor médico interno de olhos melancólicos me disse: «Você tem uma um livro de psicologia a menos e que não foi escrito, mas houve um
vida interior demasiado intensa. Isso é mau para a sua saúde, o seu fí- pouco mais de amor no mundo.
sico não aguenta.» Quando contei isto ao Jopie, ele disse com ponde-
ração e anuência: «Provavelmente ele tem razão.»
Meditei bastante nisto e cada vez tenho mais a certeza de que ele [Terça-feira] 29 de Setembro [1942].
não tem razão. E verdade, vivo com intensidade, por vezes parece-me
uma intensidade demoníaca e extática, mas renovo-me diariamente na Disseste muitas vezes: «Isso peca contra o espírito, vai vingar-se
fonte primitiva — a própria vida —, e descanso de tempos a tempos contra ele. Todo o pecado contra o espírito é vingado.» Acredito igual-
numa oração. E aqueles que dizem «vives com demasiada intensidade» mente nisto: todo o «pecado» contra o amor humano volta-se contra
não sabem que uma pessoa se pode recolher numa oração como se fos- a própria pessoa e o mundo exterior.
se a cela de um convento, e que em seguida continua em frente com a Deixa-me escrever mais uma vez para mim mesma, Mateus 6,34:
«Não vos inquieteis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia
energia renovada e a tranquilidade recuperada.
Creio que é justamente o medo que as pessoas têm de se esforçarem de amanha já terá as suas preocupações (...)»
demais que lhes retira as suas melhores forças. Quando uma pessoa, ao E preciso lutar diariamente contra elas como se fossem pulgas, as
fim de um processo longo e difícil que prossegue diariamente, atingiu muitas pequenas ralações dos dias que se seguem e que vão triturando
as fontes primárias dentro de si, a que eu agora desejo chamar Deus, e as melhores forças criadoras no ser humano. Em pensamento uma pes-
quando uma pessoa trata de manter esse caminho até Deus aberto e li- soa trata de ajustar coisas para os dias seguintes, e as coisas passam-se
vre de obstáculos — o que acontece «trabalhando-se a si própria» —, de modo diferente, totalmente diferente. O dia de amanhã já terá as
essa pessoa renova-se na fonte e então não necessita de ter medo de suas preocupações. As coisas que têm de ser feiras devem fazer-se e de
resto uma pessoa não deve deixar-se infectar pelos muitos medinhos e
oferecer forças a mais.
preocupaçõezinhas que são outras tantas moções de desconfiança con-
tra Deus. Há-de resolver-se a licença de permanência e as senhas de
racionamento também, neste momento não adianta estar a ralar-me
com isso, mais vale fazer um trabalho de tradução do russo. Na reali-
?" Refere-se ao Prof. Dr. Ernst Laqueur. que coruribuíra para a criação de gases tóxicos usados ni
I Guerra Mundial. A enfermeira é \lariaTuinzig. (jV (Li T)
dade, esta é a nossa única obrigação moral: desbravar dentro de nós

Diário 1941-1945 311


3IO Hillesur
grandes planícies de tranquilidade, cada vez mais tranquilidade, para pela paisagem vasta e desimpedida do próprio coração. Mas por en-
a poder irradiar sobre os outros. E quanto mais tranquilidade hou- quanto ainda não cheguei a esse ponto. Primeiro vou mas é ao den-
ver nas pessoas, mais tranquilidade haverá também neste mundo tista, e depois esta tarde ao Canal do Keizer.
agitado.
Acerca daquela conversa telefónica com a Toos". A Jopie escreve
para não mandar mais encomendas. Lá passa-se de tudo e mais al- [Quarta-feira] 30 de Setembro [1942].
guma coisa. O Haanen escreveu uma carta à mulher: palavras a menos i
para compreender alguma coisa e a mais para que uma pessoa não fi- Ser fiel a tudo o que uma pessoa iniciou num momento espontâ-
que inquieta, etc. E em seguida também começa a passar-se algo co- neo, demasiado espontâneo por vezes.
migo que não está bem. Tem de se lutar contra isso. Uma pessoa deve Ser fiel a cada sentimento, cada pensamento que começou a ger-
desviar-se de todos esses boatos inúteis que se espalham como se fos- minar.
sem uma doença contagiosa. Posso então sentir um pouco por aproxi- Fiel no sentido mais lato da palavra.
mação o que vai dentro dessa gente toda. Pobre e estéril vida. Pois, e Fiel a si mesmo, a Deus, fiel aos seus próprios melhores momentos.
depois chegam a dizer, como já ouvi a muitos: «Já não consigo ler um E onde uma pessoa está, ser totalmente, cem por cento ser.
livro, já não tenho concentração para isso», «Antigamente tinha a casa O meu «fazer» consistirá em «ser». Este é um ponto onde a minha
sempre cheia de flores, mas agora não, já não me apetece ter.» Pobre fidelidade ainda necessita de aumentar e onde eu mais falho: é a isso
vida empobrecida. Já sei novamente contra o que é que devo tomar po- que deveria chamar o meu «talento criador», por menor que seja. De
sição. Será que uma pessoa consegue ensinar a outras que se pode «tra- qualquer modo: existem muitas coisas que eu disse e que gostariam de
balhar» para conquistar a calma dentro de si mesma? Continuar a ser escritas por mim. Algo que eu entretanto também deveria fazer. Es-
viver com produtividade interior e confiança para lá dos medos e dos capo-me a fazê-lo de todas as maneiras, nisto eu estou em falta. Eu
boatos? Ensinar que uma pessoa pode obrigar-se a si mesma a ajoelhar bem seí que por outro lado também preciso de ter a paciência para que
no canto mais afastado e tranquilo do seu próprio íntimo, e lá ficar ajoe- aquilo que terei a dizer cresça dentro de mim. Mas também vou ter de
lhada o tempo necessário até haver um céu purificado sobre si, e para ajudar e ir ao seu encontro. E sempre o mesmo: uma pessoa gostava de
além disso mais nada? Desde ontem à noite que vivo novamente na escrever imediatamente algo especial e «extraordinário», uma pessoa
pele aquilo que as pessoas são obrigadas a sofrer hoje em dia; é bom fica embaraçada com as suas próprias ninharias. Porém, se tenho um
que eu volte a saber como é, e a aprender comigo mesma, de cada vez, dever a sério nesta vida, nestes tempos que correm, nesta fase da minha
como lutar contra isso. E depois caminhar mais uma vez livremente vida, então ele é o seguinte: escrever, anotar, reter. A interiorizacão eu
vou fazendo igualmente ao mesmo tempo. Leio a vida em conjunto e
* Tooã é Cato Vleeschhouwer-Cahen. sei: consigo lê-la e agora acho, na minha temeridade juvenil e no meu

312. . Ecty Hillciuc D i á r i o [941-194! 313


comodismo, que hei-de memorizar toda a leitura feita desta maneira e vesse de tornar claro este mundo.» As vezes ainda o penso, numa espé-
que mais tarde a conseguirei contar. Contudo, irei ter de criar alguns cie de ousadia quase satânica. Também sei o que me leva a isso: todas as
pequenos pontos de referência para mim mesma. Vívo a vida até ao minhas forças criadoras — agradeço-te, meu Deus, por me teres dado
fundo, mas tenho a sensação cada vez mais intensa de que entretanto tantas — continuam intactas e virgens dentro de mim. Consigo sempre
começo a ter obrigações em relação àquilo que eu gostaria de apelidar arrancá-las das garras das preocupações diárias e dos temores, consigo
de meus talentos. Mas por onde começar? Meu Deus, há tanta coisa. sempre fazer com que elas se tornem menos prisioneiras das necessidades
Não deve também cometer-se o erro de querer chapar directamente materiais, dos conceitos de fome e de frio e de perigo. No fim trata-se
no papel tudo, com a mesma intensidade com que se viveu. Também sempre do conceito e não da realidade. A realidade é algo que uma pes-
não é isso que interessa. Como hei-de um dia «dominar» tudo isso, não soa precisa de assumir; todo o sofrimento que a acompanha, todas as
sei. E mesmo muito. O que sei é que vou ter de fazer rudo isso sozinha. dificuldades que uma pessoa tem de assumir e arcar, ao arcar já au-
O que eu também sei é que tenho força e energia suficientes para o menta a capacidade de resistência. Mas o conceito de sofrimento (que
conseguir sozinha. Preciso igualmente de ser fiel, não posso dispersar- não é realmente «sofrimento», pois sofrer é em si frutuoso e pode tor-
-me tanto como a areia ao sabor do vento. Eu disperso-me e divido-me nar a vida em algo precioso) deve ser desfeito. E se uma pessoa desfaz
nos muitos envolvimentos e impressões e pessoas e emoções que vêm os conceitos, nos quais a vida está como que aprisionada entre grades,
ao meu encontro. Preciso de ser fiel a todos. Mas vai ter de surgir uma então a pessoa liberta a verdadeira vida dentro de si, mais as forças que
nova fidelidade, a fidelidade ao meu talento. Já não basta só viver lá tem dentro e, consequentemente, uma pessoa terá também as forças
tudo, é preciso que algo mais apareça. para arcar com o verdadeiro sofrimento presente na sua própria vida e
E como se eu visse cada vez mais nitidamente em que abismos na do resto da humanidade.
profundos as forças criadoras do ser humano e a sua alegria de viver
desaparecem. São cavidades que tragam tudo, e as cavidades sítuam-se
no próprio ânimo. Pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. E: Sexta-feira de manhã [2 de Outubro de 1942], na cama.
o maior sofrimento do ser humano é o sofrimento que ele teme. E a
matéria, sempre e continuamente a matéria, que atrai tudo o que é es- Irei correr eu mesma os riscos, a verdade é que não estou a ser in-
pírito em vez de vice-versa. «Vives demasiado com o espírito.» Porquê teiramente sincera comigo mesma. Vou igualmente ter de aprender
Osias? Por não ter entregado logo o meu corpo às tuas mãos desejosas? ainda esta lição e vai ser a mais difícil, meu Deus: suportar o sofri-
No fim de contas uma pessoa é espantosa. Como eu gostaria de escrever mento que me impões e não aquele que eu própria procurei.
muito! Algures no meu fundo: uma oficina onde titãs forjam novamente
o mundo. Uma vez escrevi desesperada: «E como se precisamente na Ultimamente uso imensas palavras para me convencer a mim e a
minha cabecinha, no meu crânio estreito, através do pensamento, ti- outros de que tenho de regressar novamente e de que o estômago não

Ecty H i l l o u n i D i á r i o 1941-11)43
tem a menor importância — talvez realmente não tenha — mas, quan- então não estiver bem, hei-de ficar aqui e pôr-me boa. Entras em tran-
do uma pessoa precisa de argumentos tão fortes, alguma coisa há que sacções destas? Para dizer a verdade acho que não. Mas no entanto
não bate certo. E é verdade que não bate. E agora também posso dizer queria muito ir na quarta-feira. E todos os motivos pelos quais quero ir
em voz alta para mim mesma: «Mas isso hoje em dia toda a gente tem. têm realmente razão de existir. Primeiro vou mas é dormir, ainda te-
Sente-se tonto e fraco durante uns dias e, quando passar passou, e em nho muito para conversar contigo. Mas enfim, isto já eu sei: a minha
seguida continua em frente como se nada tivesse acontecido.» paciência mais profunda, mais verdadeira, abandonou-me. Porém, eu
sei que há-de estar a postos quando for precisa. E a minha sinceridade
É como se só precisasse de abrir os dedos das mãos para ter toda a há-de estar sempre comigo. Mas por agora é mesmo muito difícil.
Europa, mais a Rússia, no meu punho. Tão pequena, organizada, fa- Dou-me a mim mesma um prazo até domingo, inclusive. Se então
miliar e abrangível com uma mão é como se me tornou. Tudo me pa- notar que não foi assim uma dessas tonturas passageiras, vou ter real-
rece extremamente próximo. Também nesta cama. Retém isso: também mente de ser sensata e não ir. Dou três dias a mim própria, mas é ne-
nesta cama. Mesmo que precise de ficar semanas inteiras deitada em cessárioTnanter a calma.
silêncio e sem me mover. Ainda me é demasiado difícil. Não consigo Não faças tolices, rapariga. Não vivas num par de semanas uma
reconciliar- me ainda com a ideia de ter de ficar de cama. vida inteira. As pessoas que tens de abordar hão-de sê-lo na mesma.
Prometo-te: hei-de viver segundo as minhas melhores forças cria- Não são essas duas semanas que fazem diferença, não te ponhas mas é
doras em cada local onde tu achares que deves manter-me, mas eu que- a brincar com a tua rica vida. Não desafies agora propositadamente os
ria tanto ir na quarta-feira, mesmo que seja só por essas duas semanas. deuses, eles puseram tudo em ordem para ti, com toda a energia. Não
Pois, eu bem sei, há riscos: há cada vez mais SS no campo e mais arame destruas agora o trabalho deles. Dou-me mais três dias.
farpado à volta, há cada vez mais controle, talvez nem possamos ir em-
bora daqui a duas semanas, tudo isso é possível. Será que podes correr
esse risco? Mais tarde.
No fim de contas o meu médico não me disse para ficar de cama.
Ficou surpreendido por eu ainda não ter partido para Westerbork. Tenho a sensação de que a minha vida lá ainda não terminou, de
Mas eu não tenho nada a ver com o médico, é ou não é? Mesmo que que não é um todo acabado. Um livro, e que livro, no qual fiquei a
neste mundo haja cem médicos a declarar-me sã como um pêro, se meio. Quero tanto continuar a ler. Nalguns momentos lá pareceu-me
uma voz interior me diz que não devo partir, pois bem, nesse caso não que era como se a minha vida tivesse sido uma grande preparação
parto. Vou esperar para ver se me dás um sinal, meu Deus, agora tenho para a vida naquela comunidade, ainda que a minha vida na realidade
intenções de ir. Vou negociar contigo: queres fazer um acordo comigo? tenha sido uma vida em isolamento, não é?
Dás-me licença para eu regressar na próxima quarta-feira ao urzaí e, se

E t t v H LUes u m Diário 1941-1943 317


Mais tarde. portanto. Utilizam os outros para se convencerem a si próprias de algo
em que não acreditam no fundo do coração. Uma pessoa procura en-
Os frutos e as flores crescem em qualquer pedaço de terra onde tão nos outros um instrumento para abafar a própria voz interior. Es-
sejam plantados. Não será essa a inrenção connosco? E não devemos cutasse cada um a sua voz interior um pouco mais, tentasse cada um
nós ajudar a concretizar essa intenção? deixar ressoar a voz dentro de si, e haveria muito menos caos.
Penso que ainda hei-de aprender a arcar com a minha parte, qual-
Acho que hei-de aprender. , quer que ela seja. A quantidade de coisas que já aprendi numa só ma-
Uma pessoa devia distanciar-se de todos os nomes científicos, isso nhã em que estou doente e de cama!
é suficientemente bom para os profissionais. Se disserem: hemorragia
gástrica ou úlcera ou anemia, que importa, não é necessário uma pes- Na realidade sinto sempre uma espécie de contentamento quando
soa saber como se charna para saber o que é. Provavelmente vou estar constato que cada plano engenhosamente pensado de repente se re-
muito tempo deitada, ainda não quero aceitá-lo, ainda invento os so- vela vaidade, nada senão vaidade. Devíamos ter casado, a aflição dos
fismas mais bonitos para me convencer a mim mesma de que não es- tempos correntes devia ter sido suportada conjuntamente. Agora jaz
tou mal e que posso muito bem ir na quarta-feira. Continuo na um corpo descarnado sob uma laje —- afinal como é que é a laje? —
minha: dou três dias a mim mesma. E se então ainda me sentir com- no recanto mais afastado de todos daquele cemitério grande e florido
pletamente apertada na couraça envolvente da fraqueza, como agora de Zorgvlied e eu estou encerrada numa couraça de fraqueza neste quar-
me sinto, nesse caso desisto por uns tempos, isto é, desisto do meu tinho, que já é meu há quase seis anos. Vaidade das vaidades — mas o
plano obstinado. E se me sentir novamente em condições na segunda- que não foi vaidade foi a descoberta em mim da minha capacidade de
-feira? Nesse caso vou ter com o Neuberg" e digo-lhe no meu jeito en- me submeter totalmente a alguém, ligar-me a ele e partilhar as aflições
cantador — sim, sim, já estou a ver a cena, faço um sorriso com o meu com ele — isso não foi vaidade nenhuma. E de resto? Ele abriu-me o
novo dente de porcelana com uma pequena cercadura de ouro —- caminho que conduz directamente a Deus, depois de primeiro o ter
«Doutor, venho cá para uma conversa entre amigos, olhe, as coisas es- desbravado com as suas imperfeitas mãos humanas.
tão neste pé e eu gostaria tanto de ir, acha que é sensato?» E já sei de Não, minha cara, a maneira como o teu corpo se sente aí debaixo
antemão que ele vai dizer «sim», porque eu vou fazer com que ele diga dos cobertores não me agrada nada.
sim, tão sugestivamente lhe vou fazer a pergunta. Vou fazer com que E muito desagradável uma pessoa não poder mover-se. E como
ele dê a resposta que deveras quero ouvir. E assim que as pessoas vivem, eu me movia, meu Deus, como me movia. Eu mesma estava surpreen-
dida e encantada pela maneira como caminhava ao longo dos teus
caminhos desconhecidos com uma mochila às minhas costas inexpe-
De. Julius Neuberg, médico interno em Arnesrerdâo. rientes. Era um prodígio tão grande para mim. De repente tinham

E:cy Hiilesum Diário [ 9 4 1 - 1 9 4 1 319


surgido poternas no «mundo» a que eu tinha pensado não ter acesso, todos aqueles que eu consiga alcançar — e sei que posso alcançar mui-
E tive acesso e de que maneira. tos, dá-me saúde, ó Deus — conseguissem compreender os aconteci-
mentos mundiais à minha maneira.
Mas agora estou bem doente, sinto-o muito francamente. Dou-te
ainda dois dias e meio.
Sábado de manhã [3 de Outubro de 1942] às seis e meia,
Mais tarde quero visitá-los a todos, um a um, os milhares que pas- na casa de banho.
saram pelas nossas mãos naquele pedaço de urzal. E se não os encon-
trar, então heí-de encontrar as campas deles. Não vou conseguir ficar Começo a ter problemas de insónia, não devia ter. Saltei para fora
aqui sentada em sossego à minha secretária. Quero andar pelo mundo da cama muito cedinho e ajoelhei-me ao pé da janela. A árvore estava
fora e ver com os meus próprios olhos e ouvir com os meus ouvidos o completamente imóvel nessa cinzenta manhã parada. E eu rezei:
que aconteceu àqueles que deixámos partir. «Meu Deus dá-me a mesma calma grande e poderosa que também
existe na tua natureza. E se queres que eu sofra, nesse caso dá-me o so-
frimento imenso e absorvente, mas não me dês os milhares de peque-
Ao fim da tarde. nas ralações que consomem uma pessoa e a destroem completamente.
Dá-me calma e confiança. Deixa-me ser algo mais, deixa que cada dia
Andei um bocadinho pela casa. Ah, quem sabe, talvez não seja as- para mim seja mais do que as mil pequenas ralações da sobrevivência
sim tão mau como isso, talvez seja só uma anemia geral que eu com diária. E todas as ralações que temos acerca da comida, da roupa, do
uns xaropes talvez consiga resolver. Mas de resto não se deve ser de vis- frio, da nossa saúde, não são outras tantas pequenas moções de des-
tas curtas e viver a curto prazo. confiança em ti, meu Deus. E tu castigas-nos imediatamente por isso,
E agora parece que vou ser «dispensada». «Agora com certeza que não castigas? Com insónias e uma vida a que na realidade não pode
estão à espera que eu dê pulos de alegria, não é?», perguntei ao notário chamar-se vida, não é?»
com aquela perna curta. Não quero absolutamente nada ficar na pos- Quero ficar uns dias deitada em sossego, mas nesse caso quero ser
se desses papéis pelos quais os judeus travam lutas de morte uns com uma grande oração. Uma grande calma. Tenho de recomeçar a levar a
os outros. Porque é que eles me vêm parar espontaneamente às mãos? minha calma dentro de mim. «A paciente deve levar uma vida tran-
Gostaria de estar em todos os campos da Europa, estar em todas as quila.» Trata tu do meu sossego, meu Deus, esteja eu onde estiver.
frentes, eu não quero «estar a salvo», por assim dizer. Quero estar pre- Pode ser que eu já não tenha a calma, porque talvez vá fazer coisas er-
sente, quero confraternizar em cada local onde estou, entre os chamados radas. Talvez, não sei. Sou mesmo o tipo de pessoa que é parte de uma
inimigos. Quero compreender o que está a acontecer, gostava que comunidade, meu Deus, eu nem sabia que era assim tanto. Quero es-

32-O • EICJ- Hillesum 321


Diátio 1941-1943
tar entre as pessoas, entre os medos, quero observar tudo com os meus Um pouco mais tarde.
próprios olhos e contar mais tarde. Mas gostava tanto de ser saudável.
Matuto demasiado sobre a minha saúde e é claro que isso não é bom. Claro, é o extermínio total, mas suportemo-lo sobretudo com gra-
Faz com que haja a mesma grande impassibilidade dentro de rnim que ciosidade.
havia hoje na tua manhã cinzenta. Deixa que o meu dia seja algo mais Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus
do que somente a preocupação com o meu corpo. em mim que poderia desenvolver-se até se tornar poeta. Num campo
Este é sempre o meu último remédio, saltar para fora da cama e assim tem de haver contudo um poeta que experiencie a vida lá, lá
ajoelhar-me num lugar oculto do quarto. também, e que como poeta a possa cantar.
Também não quero obrigar-te, meu Deus: faz com que eu me po- À noite, lá deitada no meu catre, por entre mulheres e raparigas
nha boa em dois dias. Eu sei que tudo precisa de crescer, que tudo é ressonando baixinho, sonhando em voz alta, chorando silenciosamente
um processo demorado. Agora são quase sete horas. Vou lavar-me ou dando voltas na cama sem conseguir dormir, essas mesmo que du-
com água fria dos pés à cabeça e em seguida vou-me deitar sossegada rante o dia frequentemente diziam: «Não queremos pensar», «Não
na cama, cornpletamente imóvel, não vou escrever outra vez neste ca- queremos sentir porque senão enlouquecemos», eu sentia então uma
derno. Vou tentar ficar só deitada e ser uma oração. Tive isto tantas ve- ternura imensa e ficava acordada e passava em revista os acontecimen-
zes, sentir-me tão miserável durante dias que pensava não conseguir tos que me causavam impressões a mais num dia demasiado longo, e
arribar durante semanas a fio, e ao fim de uns dias já estava novamente pensava: «Faz então com que eu possa ser o coração pensante da bar-
fresca. Mas agora não vivo bem, quero forcar algo. Se houver alguma raca.» Quero sê-lo novamente. Queria ser o coração pensante de todo
possibilidade, desejo ir realmente na quarta-feira. Bem sei que da ma- um campo de concentração. Estou agora aqui deitada sentindo-me
neira como estou agora não sou de grande serventia numa comuni- com mais paciência e mais calma, sinto-me também bastante melhor,
dade. Quero tanto estar um bocadinho saudável na quarta-feira. A não forçadamente, mas melhor a sério. Estou a ler as cartas do Rilke
sério, só preciso de um bocadinho, isso chega-me. Mas quando eu Sobre Deus, cada palavra tem um significado forte para mim, podia ter
quero alguma coisa à força, já há uma quebra no ritmo. Eu não devo escrito isso eu própria, se eu as tivesse escrito tê-las-ia escrito assim e
querer as coisas, devo deixar que as coisas aconteçam comigo. E não é não de outra fornia.
com isso que estou ocupada neste momento. Sinto agora novamente a força em mim para ir, deixei também de
Não eu quero, mas sim: seja feita a Tua vontade. pensar em planos e riscos. As coisas sucedem como têm de suceder,
está bem assim como sucederem.

322

í
Diário 1941-194} 323
Ecty H i l i e s u m
Sábado à tarde, às 4 horas. Neste momento, este falar constante com os meus amigos não é
bom para mim. Fico gasta até à medula. Ainda não tenho a força sufi-
Agora entrego-me totalmente a sério. Já estou a ver-me a ir na ciente para me isolar. Achar o equilíbrio correcto entre o meu lado in-
quarta-feira com estas perninhas bambas. E muito triste. E estou tão trovertido e o extrovertido é a minha grande tarefa. Ambos os lados são
grata por poder estar aqui doente em sossego e por ter alguém que me igualmente fortes em mim. Gosto muito de contactar com pessoas. É
quer tratar. Em primeiro lugar preciso de ficar de novo completa- como se eu, através da minha intensa atenção, lhes conseguisse extrair
mente saudável, de contrário sou principalmente uma sobrecarga para o que há de melhor e mais profundo nelas; elas abrem-se comigo,
uma comunidade. Creio que afinal estou um pouco doente dos pés à cada pessoa é uma história para mim contada pela própria vida. E os
cabeça, enjaulada numa couraça de fraqueza e tonturas. meus olhos vão lendo deliciados. A vida confia-me tantas histórias, eu
devia transmiti-las e torná-las claras a pessoas que não as conseguem
ler directamente da vida. Deus, deste-me o dom de as poder ler, eras
3 de Outubro, sábado à noite, 9 horas. capaz de me dar também o dom de as conseguir escrever?

Se queres ficar mesmo saudável de novo, precisas de levar uma vida


diferente daquela que até agora tens levado. Devias ficar calada dias a fio Uma vez a meio da noite,
e fechar-te no teu quarto e não deixares entrar ninguém, é essa a única
maneira. Não está certo o que agora fazes. Talvez ainda ganhes juízo. Agora, só restamos eu e Deus. Não há mais ninguém que me
Uma pessoa devia rezar dia e noite por esses milhares. Não devia possa ajudar. Tenho responsabilidades, mas ainda não meti completa-
estar sequer um minuto sem rezar. mente ambos os ombros debaixo delas. Ainda brinco muito e sou in-
disciplinada.
Sei que um dia ainda hei-de ter poder de expressão. Não me dá nada a sensação de empobrecimento, antes uma sensa-
ção de riqueza e tranquilidade: agora só restamos eu e Deus. Boa noite.

4 de Outubro [1942], domingo à noite.


8 de Outubro [1942], quinta-feira à tarde.
Hoje de manhã primeiro a Tide. À tarde o professor Becker. Mais
tarde a Jopie Smelik. Comi com o Han. Tonta e fraca. Agora estou doente, não há nada a fazer. Mais tarde hei-de lá reu-
Deus, dás-me tantas coisas preciosas a guardar, faz com que eu nir todas as lágrimas e terrores. Na realidade é o que já vou fazendo
tome bem conta delas e as administre bem. aqui na cama. Se calhar é por isso que estou tão tonta e febril, não é?

32-4 • Eity Hilicsum DiirLo 1941-1943

.
Não quero ser a cronista dos horrores. Há-de haver outros em número E este sentimento estava constantemente presente no final de
suficiente. E dos sensacionalismos também não. Ainda esta manhã eu cada dia: amo muito os seres humanos. Nunca senti azedume pelo que
disse à Jopie: «Apesar de tudo, chego sempre à mesma conclusão: a vida lhes era infligido, mas sempre amor pela maneira como as pessoas sa-
é bela», e «Creio em Deus.» E quero estar lá no meio daquilo a que as biam suportar, no fim de contas sabiam suportar, por muito pouco
pessoas chamam «terrores» e ainda dizer: a vida é bela. E agora estou preparadas que estivessem interiormente para suportar alguma coisa.
para aqui deitada a um canto com tonturas e febre, e sem poder fazer O louro Max com a sua cabeça rapada na qual começavam a despontar
nada. Acabei de acordar completamente sedenta, estendi a mão para alguns cabelinhçs e os seus suaves olhos azuis de sonhador. Tinham-no
agarrar o meu copo de água e fiquei muito grata por esse gole de água maltratado de tal modo em Amersfoort que não podia ser «transpor-
fresca e pensei: Era bom que andasse por lá só para dar um gole de tado» e deixaram-no para trás no nosso hospital. Uma noite ele descre-
água àqueles que mais precisam dela, por entre aqueles milhares veu-nos os maus-tratos que sofrera, minuciosamente.
amontoados. Os particulares hão-de ser postos mais tarde em livro por outros.
E outra vez aquele sentimento que não me larga: oh, no fim de Provavelmente isso há-de ser também necessário para passar a história
contas não é assim tão mau, sossega, não é tão mau como isso. Quan- completa desta época às gerações posteriores. Eu não tenho a menor
do mais uma vez uma mulher chorava em frente à secretária onde estava necessidade dos múltiplos detalhes.
a ser registada ou havia uma criança com fome, eu então levantava-me
e ia ter com ela, punha-me por detrás dela protectoramente com os
meus braços cruzados por cima do peito, e fazia um pequeno sorriso e No dia seguinte [sexta-feíra, 9 de Outubro de 19421.
dizia para mim intimamente perante esse pedaço de gente curvada e
desnorteada: «Não é assim tão mau, a sério que não é tão mau como Então o pai apareceu de repente e houve uma grande excitação.
isso.» E ali ficava eu parada e estava presente, outra coisa não havia a «Freirinha lamecha» e «quixotismo» e «Senhor, não me faças tão ávida
fazer, não é? Às vezes, sentava-me ao lado de alguém e passava-lhe um que queira ser compreendida, mas faz com que eu compreenda.»
braço por cima do ombro, e dizia pouca coisa e olhava para as caras. São onze da manhã. A Jopie deve ter acabado agora de chegar a
Nunca havia nada que eu estranhasse, nenhuma expressão de desgosto Westerbork. Agora é como se uma parte de rmm estivesse lá. Esta ma-
humano me era estranha. Tudo me parecia conhecido como se eu já nhã já travei uma nova luta com a muita impaciência e o muito desâ-
soubesse tudo e tivesse passado por isso alguma vez. Algumas pessoas di- nimo por causa das dores nas costas e aquela sensação de peso nas
ziam-me: «Para aguentares isso é porque tens nervos de aço.» Não pernas que tanto gostariam de caminhar por este mundo, mas ainda
creio ter nervos de ferro, antes nervos muito sensíveis, mas «aguentar» eu não o podem fazer. As coisas hão-de recompor-se. Uma pessoa não
consigo. Sou capaz de olhar de frente toda a espécie de sofrimento, deve ser tão materialista. E enquanto aqui estou deitada, não viajo eu
não tenho medo disso. pelo mundo?

326 Ettv- Hiilesuír Diário 1941-194; 327


Através de mim correm os íamosO
rios e situam-se altas montanhas. Junto as mãos num gesto que se me tornou querido, e digo-te coi-
E por detrás dos matagais do meu desassossego e confusão estendem-se sas tontas e sérias na escuridão e peço uma bênção sobre a tua honesta
as largas planícies rasas do meu sossego e entrega. Todas as paisagens es- e agradável cabeça. Tudo junto, poderia chamar-se a isto uma «ora-
tão dentro de mim. Há igualmente lugar para tudo. Em mim há a Ter- ção». Boa noite, querido.
ra e também o céu. E que as pessoas tivessem de inventar algo corno
um inferno é completamente claro para mim. Deixei de viver o meu
inferno'— esse vivi-o no passado para uma vida inteira — mas sou ca- Sábado à noite [10 de Outubro de 1942].
paz de viver o inferno dos outros com grande intensidade. E preciso
que assim seja, senão uma pessoa tornar-se-ia talvez presunçosa. Creio poder suportar e interiorizar tudo desta vida e desta época.
E se a exaltação for demasiado grande, e se eu não souber mais encon-
E por mais paradoxal que isto soe: quando uma pessoa está obsti- trar solução para ela, nesse caso ainda me restam duas mãos juntas e
nadamente determinada a juntar-se fisicamente com um outro ser um joelho dobrado. E um gesto que não nos foi transmitido a nós ju-
amado, quando uma pessoa gasta todas as suas energias desejando deus, de geração em geração. Aprendi-o com dificuldade. E o legado
esse ser amado, está na realidade em falta para com o outro, porque mais precioso do homem cujo nome já quase esqueci, mas em cuja
então não restam forças a uma pessoa para estar verdadeiramente com melhor parte eu continuo a viver.
a outra. Como essa foi na realidade uma história estranha da minha parte:
Vou voltar a ler o Santo Agostinho. É tão severo e inflamado. E tão essa da rapariga que não conseguia ajoelhar-se. Ou, com uma variante:
apaixonado e cheio de pura entrega nas suas cartas de adoração a Deus. a da rapariga que aprendeu a rezar. É o meu gesto rnais íntimo, mais
Francamente, essas são as únicas cartas de amor que deviam escrever-se: íntimo do que os que tenho ao estar junta com um homem. No fim de
as dirigidas a Deus. contas, uma pessoa não pode derramai todo o seu arnor sobre uma
Será demasiado petulante da minha parte quando digo que tenho única pessoa, pois não?
demasiado amor dentro de mim para dá-lo a uma só pessoa? Acho
algo infantil a ideia de uma pessoa só poder amar uma única outra
durante a sua vida inteira e mais ninguém. Há algo de muito empo- Domingo à tarde, 11 de Outubro [1942],
brecedor e estéril nessa ideia. Será que, daqui a uns tempos, as pessoas entre duas sestas.
aprenderão que o amor à humanidade traz muito mais felicidade e
muito mais proveito do que o amor ao sexo, que rouba os fluidos à Que há uma substância — não interessa o nome que eu lhe dê —
comunidade? dentro de uma pessoa, que leva uma vida própria e a partir da qual
uma pessoa pode fazer coisas, disso estou cada vez mais consciente.

328 . É.H/ Diário 1941-194) 329


A partir dessa substância posso criar uma grande quantidade de vidas, O S. dizia sempre sobre aTide: «Ela tem uma "inteligência aní-
todas elas alimentadas por mim. Ainda não domino essa substância mica".»
suficientemente. Talvez ainda tenha confiança a menos na sua própria
vida, nas suas próprias vidas. Não tenho mais nada a oferecer a não ser Quando eu e o S. por vezes falávamos da nossa grande diferença
o espaço no qual as vidas podem desenvolver-se, e eu mesma não te- de idade, ele dizia sempre: «Quem é que me garante que a sua alma não
nho mais nada para dar senão a mão que há-de segurar a caneta para é mais velha do que a minha'»
registar essas vidas com as suas opiniões e experiências próprias. i
As vezes, de repente, surgidas de todos os lados, deflagram chamas
intensas dentro de mim, se, como agora, assoma uma gratidão enorme
[Segunda-feira], 12-10-42. e subjugante pela amizade e pelo homem e por esse ano passado.

Como pedras faiscando no veludo escuro da minha memória, ali E agora sou aquilo a que chamam doente e anémica e mais ou
jazem as muitas impressões. menos acamada, e no entanto cada minuto é frutuoso até mais não
poder. Como será quando eu estiver novamente com saúde? Sou obri-
A idade da alma, que tem uma idade diferente daquela anotada gada a acíamar-te continuamente, meu Deus: estou-te muitíssimo
no registo civil. Penso que, ao nascer, a alma já tem uma certa idade grata por teres querido dar-me esta vida.
que nunca mais muda. Uma pessoa pode nascer com uma alma que
tem doze anos, e quando uma pessoa chega aos oitenta essa alma ain- Uma alma é algo feito de fogo e cristal de rocha. E algo muito se-
da tem doze anos e não mais que isso. Acredito que a alma é aquela vero e com a dureza do Antigo Testamento, mas também tão suave
parte intrínseca do ser humano que é a mais inconsciente, sobretudo como o gesto com que as suas cautelosas pontas dos dedos afagavam as
nos europeus ocidentais. Penso que os orientais «vivem» muito mais minhas pestanas.
com a sua alma, os ocidentais não sabem bem o que fazer com ela e
envergonham-se dela como se fosse algo indecente. A alma é uma coi-
sa totalmente diferente daquilo a que chamamos «ânimo». No en- À noite.
tanto há pessoas que têm muito «ânimo», mas pouca alma.
E então surgem novamente aqueles momentos em que a vida é
Ontem perguntei à Maria acerca de alguém: «Ela é inteligente?» tão desanimadoramente difícil. Nessas ocasiões sinto-me impetuosa e
«Sim, sim», respondeu a Maria, «mas só no cérebro.» desassossegada e cansada ao mesmo tempo. Esta tarde vivi momentos

330 Eny H i l i c s u m Diário 194I-194Í 331


de intensa criatividade e agora estou numa situação de prostração ter êxito de uma só vez. Hoje vai ser um dia difícil para mim. Fico para
como a seguir a uma ejaculação. aqui deitada e vou «tomando» algo «antecipadamente» de todos os dias
E agora não tenho mais nada a fazer senão isto; ficar deitada sem difíceis que ainda estão para vir.
me mexer debaixo dos cobertores e esperar com paciência até que o
desânimo e a dispersão por muitas partes tombem de mim. Antiga- Se sofro pelos indefesos, não sofro então pelo que há de indefeso
mente fazia sempre doidices num estado desses: ir para os copos com em mim?
amigos ou pensar em suicídio ou ler noites e noites seguidas cem livros
ao mesmo tempo. Parti o meu corpo em pão e reparti-o pelos homens. Porque não?
Uma pessoa deve igualmente aceitar que tem os seus momentos Não estavam eles extremamente famintos e carentes há tanto tempo?
«não criadores». Quanto mais honestamente se aceita isso, mais de-
pressa um momento desses passa. Uma pessoa deve ter a coragem de Trago sempre o Rilke à baila. E tão estranho, ele era um homem
fazer um intervalo. Deve ousar estar vazia e sentir desânimo — Boa frágil ê escreveu muita da sua obra dentro dos muros de castelos
noite, querido espinheiro. hospitaleiros e talvez tivesse ficado completamente destroçado em cir-
cunstâncias como aquelas em que vivemos actualmente. Mas não
demonstrará boa economia que, em épocas tranquilas e em circuns-
Na manhã seguinte, cedo tâncias favoráveis, artistas sensíveis possam procurar livremente as for-
[terça-feira, 13 de Outubro de 1942]. mas mais belas e adequadas para as suas convicções mais profundas,
que dão às pessoas em épocas mais agitadas e extenuantes um apoio e
Agito violentamente um pequeno lápis à minha volta como se um abrigo para confusões e perguntas que ainda não tomaram uma
fosse uma gadanha, mas não consigo segar as muitas intumescências forma e uma solução próprias, porque as energias diárias são reclama-
do meu espírito. das pelas aflições diárias? Em tempos difíceis, por vezes as pessoas têm
Algumas pessoas eu trago dentro de mim como se fossem botões o costume de, com um gesto desprezível, deitar fora as conquistas
de flores e deixo-as florir. Outras trago dentro de mim como se fossem espirituais de artistas das chamadas épocas fáceis (ser artista em si mes-
chagas até rebentarem e deitarem pus. (Frans Bierenhack). mo já é bastante difícil, não é?), com o acrescento: «Para que é que isso
«Antecipar». Não conheço nenhuma palavra holandesa boa para nos serve?»
isto. Tal como estou aqui deitada desde a noite de ontem, vou já inte- Talvez seja compreensível, mas é tacanho. E infinitamente empo-
riorizando um bocadinho do grande sofrimento que, disseminado brecedor.
pelo mundo inteiro, espera as almas para as acometer. Vou já dando
guarida a um pouco de sofrimento para o inverno que vem. Não vou Gostaria de ser um bálsamo para muitas feridas.

332- • Ettv Hillesum Diário [94C-I941 333


6/7-9-43

Senhor Wegerif, Hans, Ma*ia,Tide e todos aqueles que provavel-


mente não conheço tão bem:

Não me vai ser fácil contar-vos isto tudo. Foi tudo tão repentino,
tão inesperado. É estranho, por ora ainda inesperado, ainda repentino,
embora desde há muito tempo estivéssemos preparados e prontos. E
assim foi realmente, ela estava preparada e pronta. E, infelizmente, tam-
bém acabou por partir.
Chegou realmente na segunda-feira, pelo fim do dia, a notícia,
vinda da Haia, de que a dispensa do Mischa tinha caducado e que ele e
os membros da família teriam de fazer parte do transporte de 7 de Se-
tembro. Porquê? Pois, essa é uma pergunta que geralmente fica sem res-
posta. No início, nós esperávamos e acreditávamos que as coisas não
iriam tomar esse rumo. E, no caso dela, certamente que tudo seria revo-
gado, sobretudo agora que, precisamente hoje, acordaram que os anti-
gos funcionários do Conselho Judaico, sessenta no total, por enquanto
não precisariam de partir. Rapidamente ficou claro que não havia mui-
to a fazer pelo Mischa nem pelos velhotes, e que as opções para a Etty
ainda estavam todas em aberto,
Portanto a nossa atenção concentrou-se em preparar a bagagem
rapidamente para crês pessoas. Oh, eles aceitaram tudo bem, já sa-
biam há muito tempo que isto um dia iria acontecer, e que na semana
seguinte, os pais, todos os pais daqueles que tinham um carimbo ver-

de Jopií V l e e s c K n o u w e r 335
melho32, teriam de partir sem excepção. E o Mischa já tinha decidido acabada de chegar com novo abastecimento) enche agora uma mala a
ir voluntariamente com os pais. Com os pais, por quem ele estava pre- ser reenviada, na primeira ocasião que se apresente, para Amesterdão.
parado e decidido a desistir de todos os privilégios pessoais. E, agora, A mãe H., como sempre muito activa, tratou excelentemente de
isto tinha vindo só com uma semana de antecedência. Um pouco tudo o que era preciso, e demonstrou uma calma digna de admiração.
abrupro, realmente, mas no finai de contas fazia pouca diferença. Po- Em anteriores noites de transporte, acontecera por vezes a família in-
rém para a Etty este foi um acontecimento muito inesperado, visto teira ter ficado toda a noite acordada devido ao barulho e à excitação que
que ela não queria viajar com os pais e preferia entregar-se a estas no- os preparativos para um transporte desses causam numa barraca grande.
vas experiências sem a pressão dos laços familiares. Para ela, isto foi Desta vez dormiam todos tranquilamente quando eu e a Etty às três ho-
como uma cacetada na cabeça que literalmente a deitou abaixo por ras voltámos a dar uma vista de olhos, para saber se podíamos continuar
uns instantes. Porém, em menos de uma hora tinha recuperado e a fazer as malas. Por isso mesmo fomos primeiro ver se havia alguma hi-
adaptou-se à nova situação com uma rapidez admirável. Fomos juntos pótese de a própria Etty poder ser dispensada. Para nosso espanto cons-
para a barraca 62 e durante horas estivemos ocupados a procurar, em- tatámos pela primeira vez que as possibilidades eram muito más.
brulhar, arranjar coisas com dificuldade e a escolher todas as peças de As amigas da Etty na barraca, durante o espaço de tempo que ela
roupa e víveres possíveis e impossíveis. esteve a tratar dos pais e do irmão, embalaram impecavelmente tudo o
O pai da Etry expressava o nervosismo através de observações que era dela, puseram tudo em ordem até ao mais ínfimo pormenor.
com humor que exasperavam continuamente o Mischa, porque acha- Depois de a direcção do Conselho Judaico ter declarado que nada
va que ele não levava a situação suficientemente a sério. O Mischa não podia fazer por ela, escrevemos como último recurso uma carta ao pri-
conseguia realmente compreender porque é que a dispensa quase cer- meiro oficial de serviço a pedir-lhe que interviesse.
ta de repente tinha caducado, e queria continuamente enviar-me a um Sentimos que talvez ainda se conseguisse resolver alguma coisa
qualquer «contacto*» de menor ou maior influência. Não compreendia junto ao comboio, mas então deveria estar tudo pronto e, por conse-
que uma ordem vinda da Haia não pode ser alterada aqui, e que qual- guinte, os pais e o Mischa foram à frente, em direcção ao comboio.
quer interferência nestes casos é infrutífera. No entanto estava sosse- E no fim carreguei uma mochila bem cheia, um cesto de viagem onde
gado e levou as coisas com sensatez. Ter de deixar ficar para trás a sua estava pendurada uma sacola com o farnel e urna caneca, e fui andando
muita música, isso sim, custava-lhe realmente muito. Enfiei-lhe a cus- para o comboio. E ela então apareceu na alameda de transporte, por
to quatro peças na mochila e o resto (incluindo a nova encomenda ela descrita, naquele seu modo incomparável há apenas quinze dias.
A falar alegremente, a rir, com uma palavra amigável para todos aque-
les que encontrava pelo caminho, cheia de humor fulgurante, talvez
3: Havia carimbos verdes e vermelhos. Etty tinha um vermelho. Os carimbos foram invalidados a 7 de um humor um pouco melancólico, rnas verdadeiramente a nossa Etty,
Setembro de 1943. As pessoas com esse carimbo, que até então tinham sido isentadas de transporte, podiam
a partir dessa data ser igualmente enviadas para os campos. (N. da T) tal como vocês todos a conhecem. «Levo os meus diários comigo, e as

Js'-* • C a r t a de Jopie Vlccschhouwer


Cana de J o p i e V l c f s c h h o u w ; r 337
minhas pequenas Bíblias, e a minha gramática de russo, e o Tolstoi, e lidade ela até estava um pouco satisfeita por ir agora viver esta expe-
ignoro completamente o resto que levo na bagagem.» Um dos nossos riência, por ir viver agora tudo e compartilhar esta vivência que nos foi
líderes veio despedir-se brevemente e declarar que tinha utilizado to- preparada. E havemos de voltar a vê-la, sobre isso estamos nós (os
dos os argumentos, mas em vão. A Etty agradeceu-lhe «em todo o amigos especiais aqui) de acordo. Depois da partida falei com a pe-
caso, pela utilização dos argumentos», e pediu que então nos contasse quena russa e várias das suas outras protegidas. E só o modo como rea-
como tudo tinha cortido e que ela e a família tinham partido bem. giram à partida dela ilustra bem o amor e a confiança que deu a estas
E cá estou eu agora, um pouco triste, mas não por causa de alço pessoas.
perdido, porque uma amizade como a dela na verdade nunca se perde, Desculpem-me pela maneira imperfeita como faço este relato.
é e fica uma amizade. Vocês, que estão acostumados a muito melhores descrições por me-
Foi isso que também escrevi num pedacinho de papel que lhe pas- lhores palavras. Sei que hão-de ficar muitas perguntas em aberto, e so-
sei para as mãos no último momento. bretudo a pergunta se tudo isto não poderia ter sido evitado. Quanto
Perco-a de vista e ando um pouquinho às voltas. Ainda tento en- a isso posso responder positivamente: NÃO! Pelos vistos tinha de ser
contrar alguém que possa fazer alguma coisa para mudar a situação, assim.
mas é tudo um fracasso. Vejo a mãe, o pai H. e o Mischa a subirem para Vou tentar mandar-vos alguns livros da Etty, quando tiver uma
o vagão número 1. A Etty vai parar ao vagão número 12, depois de ter oportunidade. Gostava de mandar a máquina de escrever à Maria, ela
ido ver ao vagão 14 um amigo que foi retirado no último momento. disse-me precisamente isso esta semana, que queria que assim fosse.
Lá parte o comboio: um apito agudo e os mil «transportáveis» entram Mas não sei se vai ser possível.
em movimento. Ainda uma visão rápida do Mischa, que agita os braços De vez em quando, hei-de dar notícias. Aqui mando juntamente
em despedida através de uma fenda do vagão de mercadorias número l umas cartas abertas pela censura que ainda chegaram para a Etty.
e depois, do numero 12, um «adeus» sorridente da Etty, e lá vão eles. Façam o favor de as enviar de novo aos remetentes.
Ela foi embora. Aqui estamos devastados, mas não de mãos a aba- Desejo coragem a vocês todos. Havemos de regressar todos, e pes-
nar. Havemos de nos encontrar de novo rapidamente. soas como a Etty mantêm-se de pé através das coisas mais difíceis.
Foi um dia pesado para muitos. Para o Kormann, para o Mech, e Os meus pensamentos vão muito para vocês.
para todos aqueles que tiveram um contacto prolongado e constante
com ela. Não é a mesma coisa ter alguém tangível na nossa proximidade Jopie Vleeschhouwer
ou ter o seu espírito à nossa volta. A primeira sensação é sempre de vazio.
Mas nós continuamos, enquanto eu escrevo isto vai tudo conti-
nuando e ela mesma vai continuando mais e mais longe em direcção a
leste, para onde realmente queria fervorosamente ir. Acho que na rea-

338 C a t e i de j o p i t C i r t a <ie Jopit V l e e s c h h o u w ç c • jjJ


Indii ce

A Rapariga de Amesterdão, de José Tolentino Mendonça . . . . 9

Fotografias 25
Nota de tradução 56
•-.
DIÁRIO 1941-1943 57

Carta de 617-9-43, de Jopie Vleeschhouwer 335

índice 341
REVI5ÁO. MANOEL M A R I A BARREIROS / M A R I A N A SIM-5IM DAVI D

DEPÓSITO LEGAL: 2?5130.-08


TIRAGEM: 1500 EXEMPLARES

IMPRESSO NA CUIDE-ARTES GRÁFICAS, LDA.


RUA HERÓIS DECHAIMITE. 14
2675-374 ODIVELAS

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