Você está na página 1de 49

ANCESTRALIDADE

AGMAEL LIMA
Prefácio

Popularizando a ANCESTRALIDADE (versátil) de “Poeta Orgasmático”


A cultura popular, engloba um vasto número de “produções literárias”, algumas vezes de
autorias desconhecidas e datando de épocas antigas da nossa língua, o que permite considerar
a sua (tradição) ANCESTRALIDADE.
A distinção do que é popular, nem sempre é apresentado com clareza ao público. Que passa
a restringir seu significado apenas à CANTORIA ou ao CORDEL. No entanto trata-se de uma
literatura, de gêneros e formas diversas, feita pelo povo e para o povo, na linguagem que ele
conhece.
Contando-se os gêneros mais usados, com os de pouca utilização e com os que se
encontram completamente abandonados, a “POESIA POPULAR” possui 36 (trinta e seis)
modalidades, número realmente espantoso, que vem através dos tempos, demonstrar o
grande poder criativo dos nossos “POETAS MATUTOS”. Para se ter uma ideia a “sextilha”, uma
das modalidades mais utilizada na poesia popular, originou-se das “oitavas” de Ariosto”, estilo
que o poeta Sá de Miranda (irmão de Mem de Sá), introduziu em Portugal, no século XVI, e
que possibilitou (segundo historiadores) a Camões realizar sua imortal obra “OS LUSÍADAS”.
Eis um pequeno exemplo, de como a “construção poética” de nossos ancestrais
“LUSITANOS” assemelha-se com a nossa “poesia popular”:

... Ali, lembranças contentes


Na alma se representaram
E minhas coisas ausentes
Se fizeram tão presentes
Como se nunca passaram...
(Luiz de Camões)

“ANCESTRALIDADE” é uma manifestação artística/cultural que germina da sensibilidade


criativa e intelectual do poeta Agmael Lima. Que de posse desse excepcional fenômeno, o
poeta vem através dos seus versos e de sua “ANCESTRALIDADE”, manifestar-se passando a
narrar os fatos (verídicos ou não) de heroísmo, valentia, de amores, lendas...até religiosidade.
...Seu verso é uma mistura
Um tal de sarapaté
Que quem tem pouca leitura
Lê, mas não sabe o que é
Tem tanta coisa incantada
Tanta deusa, tanta fada
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impussive.
Eu canto as coisas visive
Do meu querido sertão.
(Patativa do Assaré) ao fazer uma comparação do poeta popular, com o poeta clássico.

O poeta Agmael Lima (como a maioria dos poetas) mesmo sabendo rezar, sempre irá cair em
tentação. Pois, basta dar ouvidos as inspirações de nossa “ANCESTRALIDADE”
...Tive sonhos, já perdi, voltei a tê-los
Aprendi sonhar, até tendo pesadelos
Sou um santo, sem negar ser pecador...

...Sou poeira dos meus eternos ancestrais


Sou passado sem presentes ou finais
Sei rezar, mas sempre caio em tentação...
(Agmael Lima)

Quando o poeta (d)escreve os “VERSOS À MINHA INFÂNCIA”, nos remete ao que temos de
mais puro. Dificilmente encontraremos alguém que escreva poesias, que não tenham os “pés-
sujos” com a poeira dos terreiros do interior. É onde surgem muitos motes, que vem dos ditos
populares, coisas que os “matutos” expressam naturalmente, sejam: Por espanto, para
afirmarem suas palavras de compromissos, para se pabular, para enaltecer o amor, para expor
suas gratidões, suas amizades, sua religiosidade...etc.

Como fui abençoado


Quando era pequenino...

...Tive uma infância roceira


Melhor vivência não há...

Relembro das brincadeiras


E das festas de São João...

Relembro cada momento


De saudade e fantasia...
...tempo bom, que jamais volta
Que fui feliz e não sabia!
(Agmael Lima)

Esse escrito final, fiz de improviso ainda extasiado pela poesia deste livro e saiu esta
singela homenagem ao meu querido poeta Agmael (de Ipixuna) Lima.

O poeta quando se veste de matuto


Traz toda a sua “ANCESTRALIDADE”
Buscando respostas na saudade
De um tempo quase impoluto
Criando verso arteiro, astuto
Falando das coisas lá do mato
Parece até que vejo o retrato
De uma velha puxando reza
E todo interior que se preza
Tem um lugar bom pra “tumar Cana”
Pode também ser uma “celveja”.
É melhor do lado da igreja
Ou no “CABARÉ DA DAMIANA”?
(Bertin Di Carmelita)

Desejo uma boa leitura a tod@s, pois me diverti muito com essas proezas do meu
amigo/confrade Agmael Lima.

Bertin Di Carmelita (ADALBERTO MARCOS DA SILVA), Nascido na cidade de Belo Jardim,


estado de Pernambuco, reside em Marabá-PA desde o ano de 1987. Além de poeta é
compositor e ativista cultural. É membro da AESSP – ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES DO SUL E
SUDESTE DO PARÁ (estando no momento, como presidente), Participante das antologias
literária dessa instituição, do I, II e III Anuário da Poesia Paraense e da antologia 100 poemas
pra Marabá, publicado pela SECULT. Também teve participação no projeto MANDALA,
organizado pelo poeta Airton Souza. Membro fundador da ALB-Academia de Letras do Brasil-
Seccional Sul e Sudeste do Pará. Membro fundador da ALERPRE_- Academia de Letras de
Rondon do Pará e Região. Membro perpétuo da ALMA- Academia de letras de Marabá. Foi um
dos ganhadores do prêmio Inglês de Sousa, realizado pela ACADEMIA DE LETRAS DO SUL E
SUDESTE PARANSE, na categoria poesia, no ano de 2015, com a poesia: RIO-MAR. Em 2016 foi
agraciado com o Primeiro lugar, na categoria poesia, com a poesia: SERRA DAS ANDORINHAS.
Tem como sua primeira obra literária, o seu livro SAUDADE PRESENTE.
Já errei muito mais do que devia
Hoje estou começando a errar bem menos
Meus deslizes começam a ser pequenos
Bem menores que a ânsia de chegar
Eu sai sem saber como voltar
Eu segui os atalhos do destino
Apanhei pra deixar de ser menino
Hoje apanho tentando não errar.

Maciel Melo

DEDICATÓRIA

Dedico esta obra à memória de todos os meus ancestrais, de um modo especial à memória do meu
avô materno José Braz Lima (Zeca Rapaz), o maior professor de vida que eu tive.

AGRADECIMENTO

A edição desta obra só foi possível graças ao apoio, a colaboração e a confiança de muitas
pessoas que ajudaram a torná-lo uma realidade.

Consideramos essencial agradecer, em primeiro lugar, a Deus, a Ele toda a honra e toda glória;

Em segundo lugar, agradeço à minha amada esposa Edinha Lima pela força e incentivo;

Ao romancista e poeta Silvio dos Anjos, meu mestre e padrinho literário, responsável pelo
comentário de orelha deste livro;

Ao meu amigo poeta Adalberto Marcos (Bertin de Carmelita), prefaciador desta obra.

Ao meu amigo poeta e cantador Luis Carlos Pinheiro, responsável pela contracapa deste livro;

A todos os meus confrades da ALERPRE (Academia de Letras de Rondon do Pará e Região),


além dos meus companheiros da AESSP (Associação dos Escritores do Sul e Sudeste Paraense);

A todos aqueles que inspiraram cada poesia contida neste livro;

Aos meus familiares, amigos, leitores e todos aqueles que direta ou indiretamente
contribuíram para que este projeto viesse a se concretizar.
A literatura brasileira, paraense e especialmente de Nova Ipixuna, recebe o poeta Agmael Lima de
braços e mente aberta.
Falar deste poeta é uma grande honra. É meu amigo e companheiro da Academia de Letras de
Rondon do Pará e Região (ALERPRE).
Ancestralidade nos leva a poesia matuta, tão decantada neste país na atualidade. Remontar as
origens é uma maneira de valorizar as pessoas, que deixaram no passado a sua cultura, e os seus feitos
marcados para sempre.
O poeta comenta as suas peraltices na infância e desenvolve os seus motes com maestria e alegria.
Também revela o seu ser “homem” apaixonado pela sua amada.
Apresenta na sua obra os seus devaneios, a sua poética brincalhona na poesia “Cabaré da Damiana”.
Viaja dentro da crítica religiosa e política; comenta poeticamente os revezes da vida, e, fala do óbvio
quando poetisa a velhice. O poeta pode fazer alquimia quando transforma mijo em perfume.
Ressalta a ancestralidade africana quando cita na sua obra as rezadeiras, benzedeiras e as mães de
santo do seu lugar.
Na sua poesia a seca é apresentada como uma preocupação da sua região.
A sua obra termina levando os adjetivos ofídicos para nomear seres humanos da pior espécie.
O poeta Agmael Lima viaja pelos caminhos da poesia matuta, fazendo um belo mingau poético,
regado com araruta.
Ao ler e comentar esta obra deixo este comentário: a sua poesia é boa, como as do nosso nordeste.
Falou cabra da peste.

Silvio dos Anjos


Romancista e poeta
Nova Ipixuna - Pará

Quando nasceu chorando, careca e sem dentes foi por Deus embrulhado com o manto
sagrado da poesia e acalentado nas palavras sertanejas dos pais, descendentes dos rincões
nordestinamente baianos onde quando faltam água e pão, sobram poemas. Na sua gaveta
de poemas se encontram o romântico com a sinceridade poética que regam a origem de
autêntico sobrevivente das tempestades. O autor mantém viva a poesia pura e de origem
que desde cedo viaja nas veias da sua construção que faz a poesia puramente nordestina,
despida dos modismos insanos que fazem proliferar a decadência poética. O Poeta Agmael
Lima é mais um abençoado tão quanto todos que fizeram da palavra em versos sua espada
e seu escudo nesse Brasil afora. Se esse Poeta morrer embriagado pelo próprio veneno e
esse veneno tenha sido destilado da sua poesia, com certeza morrerá poeticamente Feliz.

Luis Carlos Pinheiro

Poeta

Músico

Membro da AGLA (Academia Grajauense de Letras e Artes)


BIOGRAFIA AGMAELIMIANA POR ELE MESMO

Rua Capitariquara número 07, Nova Ipixuna, Pará, Amazônia, Brasil, sábado, 14 de julho de
1979, às 06 horas e 10 minutos da manhã, local, data e momento em que nasci chorando
calvamente desdentado em plena lua cheia de julho, no dia da “Liberdade de Pensamento”,
nos aniversários da “Queda da Bastilha” e do início da “Revolução Francesa”.

Costumo falar que nasci no limite entre a noite e o dia, um pouco depois do final da aurora,
um pouquinho antes do nascer do sol. Era para ser apenas o nascimento de mais um menino
chorão, mas quis a vida que o destino me fizesse nascer poeta.

Nascer poeta é vir ao mundo para moldar palavras com as próprias mãos. É não encontrar nos
versos dos outros, aquilo que expressa a sua verdade, a sua cólera ou a sua agonia. É desfazer
palavras e em seguida refazer-se com as mesmas palavras que outrora atirou ao lixo.

Nascer poeta é nascer para sorrir, amar, e de vez em quando dar murro em ponta de faca. É
nascer para psicografar o impossível e desejar o intocável. É nascer para embriagar do doce e
do amargo e decifrar gritos e silêncios.

Assim nasci, para isto nasci: poeta condenado a inventar o meu próprio pecado e algum dia
certamente morrer de saudade embriagado pelo meu próprio veneno.

Agmael Lima

Agmael Lima que é professor licenciado em Pedagogia pela Faculdade Latino-Americana de


Educação, é ainda compositor e teve várias músicas que foram destaques em vários festivais
da região como o “Festival da Canção Popular de Nova Ipixuna”, onde por quatros vezes teve
músicas suas como campeã; o “Festival Canta Marabá” premiado em segundo lugar no ano de
2016 e o “Festival Paraense de Música – Etapa Marabá”, ficando em terceiro lugar no ano de
2012. Como escritor já lançou três livros de poesias: “Overdose de Orgasmos”, “Borboleta
Noturna” e “Amores Que Não Tive”. Em 2015 foi o vencedor do “IV Prêmio Inglês de Souza de
Literatura” – Categoria Poesia, organizado pela Academia de Letras do Sul e Sudeste do Pará.
O autor é ainda membro da AESSP (Associação dos Escritores do Sul e Sudeste Paraense) e
imortal da ALERPRE (Academia de Letras de Rondon do Pará e Região).

ANCESTRALIDADE

Eu sou cria do avesso e do amor

Testemunha dos mais sórdidos enredos

Prisioneiro da teia dos meus medos

Um profeta, um poeta, um pensador

Confesso risos mesmo em estado de dor

Sei caminhar sobre brasas e espinhos

Embriago dos mais amargos vinhos

Tive sonhos, já perdi, voltei a tê-los

Aprendi sonhar até tendo pesadelos

Sou um santo sem negar ser pecador.

Sou o certo, o errado, a contramão

Sou pagão mas carrego a minha cruz

Meu destino é vagar em treva e luz

Escravizado pelo próprio coração

Me sacio no feromônio da sedução

Já caí nas minhas próprias armadilhas

Sou primogênito neto torto da família

Sou poeira dos meus eternos ancestrais

Sou passado sem presentes ou finais

Sei rezar mas sempre caio em tentação.

NASCI CHORANDO, CARECA E SEM DENTE


LOGO DEPOIS AS COISAS PIORARAM
O pecado é herança a toda gente
Desde que Adão e Eva tombaram
E de lá para cá se fez presente
Nas gerações que se passaram
Sou fruto gestado desta semente
Nasci chorando, careca e sem dente
Logo depois as coisas pioraram.

Tenho escapado diariamente


Das armadilhas que me encaram
O acaso é o meu escudo somente
Muitos projetos meus já falharam
Mas não desisto, sou insistente
Nasci chorando, careca e sem dente
Logo depois as coisas pioraram.

Vivemos num tempo indecente


Os bons costumes se escassearam
Já desapareceram praticamente
O respeito e o moralismo findaram
Sobrevivo a uma legião de dementes
Nasci chorando, careca e sem dente
Logo depois as coisas pioraram.

VERSOS À MINHA INFÂNCIA

Como fui abençoado

Quando eu era pequenino

Minha infância inesquecida

Que ganhei como destino

Ao ver vovó contando casos

Rodeada de meninos.
Tenho saudade dos contos

E das lendas de Trancoso

Dos mitos e dos fantasmas

Dos casos mais escabrosos

Das estórias do cangaço

Do Lampião tenebroso.

Tive uma infância roceira

Melhor vivência não há

Com bichos de estimação

Com “Pabeca”, com “Terrá”

“Tubarão” e “Diamante”

Quantos sonhos vivi lá.

Relembro das rezadeiras

Todas cheias de adereços

Dos festeiros animados

Dos “bêbos” dando tropeços

Das missas lá da capela

Das beatas rezando terço.

Relembro das brincadeiras

E das festas de São João

E do som do foguetório

E das bombas e rojão

Das cantorias de roda

Das quadrilhas, dos “leilão”.

Ouvi velhas orações

Recordo minha preguiça


De ouvir grandes sermões

Ditados pelas noviças

E dos benditos cantados

Por “velhas” no fim da missa.

Recordo as festas boas

As novenas e os reisados

Do pipoco dos foguetes

Logo após os batizados

Dos antigos moradores

Povo alegre e animado.

Relembro cada momento

De saudade e fantasia

Da antiga Nova Ipixuna

E do povo que ali vivia

Tempo bom que jamais volta

Que eu fui feliz e não sabia.

SOU CABRA “CHEI” DE NOVE HORA


SOU O BICHO DA GOIABA VERMELHA

Marimbondo não me espora


E nem me ferroa a abelha
Não tenho medo de Caipora
Eu sou uma negra ovelha
Quase nada me apavora
Sou cabra “chei” de nove hora
Sou o bicho da goiaba vermelha.

SE EU TE DISSER QUE A JEGA MORREU


PODE BOTAR FOGO NA CANGAIA
Nunca duvide do que eu falo
Não sou de apoiar maracutaia
Seu eu não souber eu me calo
Não convivo com qualquer laia
Um cabra de opinião sou eu
Que se te disser que a jega morreu
Pode botar fogo na cangaia.

Não gosto de falsas verdades


Mentiroso comigo leva vaia
Seja alguém de qualquer idade
Que ande de calça ou de saia
Não comungo ideia de fariseu
Mas se te disser que a jega morreu
Pode botar fogo na cangaia.

Ando de dia ou de madrugada


Já até bebi veneno de lacraia
Não sou de ter medo de nada
E mentir não é minha praia
Creio em Deus, não sou ateu
Mas se te disser que a jega morreu

Pode botar fogo na cangaia.

POIS TODA VEZ QUE TE VEJO DESPIDA

TU APRISIONAS ESTE MEU CORAÇÃO

(Para minha esposa Edinha Lima)

Tens a fascinação em ti esculpida

Teu corpo é meu antro de sedução


Minha alma a tua está absorvida

Em teus olhos há hipnose e tentação

Guardas em ti a malícia escondida

Pois toda vez que te vejo despida

Tu aprisionas este meu coração.

Minha vida em tua órbita está perdida

Teu beijo ardente é fogo em erupção

Tu destes sentido novo a minha vida

Tu és meu pecado e minha perdição

Dentre tantas és a minha escolhida

Pois toda vez que te vejo despida

Tu aprisionas este meu coração.

NOVA ERA

Qualquer dia o silêncio me devora

Sem demora na utopia derradeira

Seja sábado, domingo ou terça feira

Qualquer feira, qualquer dia, qualquer hora.

Não me culpe pelos tempos de agora

Muito menos me condene ao passado

Meu singelo sentimento de pecado

E luxúrias que embalaram meu outrora.

Tenho pena do futuro que me espera

Sem promessa, sem malícia e sem medo

Desvendando meus fatídicos segredos

Desenredos de uma nova atmosfera.

Tô dormindo na penumbra entre feras


Já mandei para a lua alguns torpedos

Meus disfarces, meus desejos e enredos

São prelúdios desta minha nova era.

Sei que a lua é uma menina baladeira

Namoradeira dos poetas mundo à fora

Tem o beijo apimentado da aurora

E o mistério de hipnótica feiticeira.

Qualquer dia trago a lua pro meu leito

Dou um jeito de torna-la minha amante

Nem que seja por um dia ou um instante

No eclipse derradeiro do meu peito.

O CABARÉ DA DAMIANA

Pense num lugar escroto

Pense num lugar bacana

Onde todos se encontram

Qualquer dia da semana

Para afogar suas mágoas

É o Cabaré da Damiana.

La vai pobre, lá vai rico

Gente de toda gana

Buscando se divertir

Tomando cerveja e cana

Em busca da boemia

No Cabaré da Damiana.

Lá vai velho lá vai moço

Tem empresário de fama


Homem de toda laia

Até vendedor de banana

Pra ficar com as raparigas

No Cabaré da Damiana.

Lá vai personalidade

Comprometido na trama

Carlão Pé de Macaxeira

Vindo da terra baiana

É um exímio usuário

Do Cabaré da Damiana.

Tem Paulão Pé de Macaco

Amante de Rogaciana

Encrenqueiro que só a porra

Brigou com a quenga Germana

Ficou bêbado e apanhou

No Cabaré da Damiana.

Tem quengueiro de peso

O velho Sansão Viana

Que mal amanhece o dia

Sai da sua choupana

E vai em busca de fole

No Cabaré da Damiana.

Tem o Genaro Polenta

Que é pior que ratazana

Que foge cedo da casa

Da sua velha Romana

Vai se esconder da esposa


No Cabaré da Damiana.

Tem Tonhão Aranca Couro

Feio que só uma iguana

Que o povo na rua diz

“Oh cabra ‘fêi’ da disgrama!”

Mas tem dinheiro e frequenta

O Cabaré da Damiana.

Tem Tonhão Bigode Russo

Matador de suçuarana

Valente que só a peste

Bruto de beber lama

Mas sabe se comportar

No Cabaré da Damiana.

Tem João Gogó de Fogo

Que é de família angolana

Fazedor de rapadura

E aguardente de cana

Tudo que ganha ele gasta

No Cabaré da Damiana.

Tem o Chico da Panelada

Que mora na Rua Cigana

Que todo dia toma pinga

No Boteco de Tirana

Mas antes vai ver as quengas

Do Cabaré da Damiana.

Tem quenga pra todo gosto


Tem plebeia e tem dama

Tem branca, negra e mulata

Todas boas de cama

Todas fazendo a festa

No Cabaré da Damiana.

Quem quiser se divertir

Sem precisar muita grana

Até dormir se quiser

Sem fuleragem nem drama

Venha conhecer o prazer

No Cabaré da Damiana.

Lugar de animação

Qualquer dia da semana

Com a Banda Remela de Gato

Pense numa banda bacana

É o seu prazer fora de casa

É o Cabaré da Damiana.

HÁ TANTA GENTE SE POUSANDO DE SANTO

SEM SAIR DA RODA DOS ESCARNECEDORES

Há falsos profetas em todo canto

Falsos líderes, falsos semeadores

Pregando promessas de acalanto

Em nome de Deus, infiéis pudores

Fazendo da bíblia venéreo manto

Há tanta gente se pousando de santo

Sem sair da roda dos escarnecedores.


Nos sacros púlpitos há ímpios tantos

Lobos anunciando falsos salvadores

A vender a fé sem nenhum espanto

Joio enraizado entre os pecadores

Nas igrejas e praças eu te garanto:

Há tanta gente se pousando de santo

Sem sair da roda dos escarnecedores.

QUANDO DEUS DÁ A FARINHA

O SATANÁS CARREGA O SACO

Como é dura essa vidinha

Tá tudo indo pro buraco

Só se vê gente mesquinha

O moralismo está um caco

A esperança se esvai sozinha

Pois quando Deus dá a farinha

O Satanás carrega o saco.

Joguei o dinheiro que tinha

Apostei no galo Tataco

Levei a grana todinha

Deixei falido o velhaco

Mas a polícia fechou a rinha

Pois quando Deus dá a farinha

O Satanás carrega o saco.

Paguei as contas todinhas

Pra cobrador não dá pitaco

Mas quando foi à tardinha


A alegria se foi pro buraco

Roubaram a grana que eu tinha

Pois quando Deus dá a farinha

O Satanás carrega o saco.

Já falava minha madrinha

Pra eu nunca ser um fraco

E me livrar de ervas daninhas

Sem ter que fazer barraco

Sem esquecer de uma linha

Que quando Deus dá a farinha

O Satanás carrega o saco.

FOGO NO ORATÓRIO

Uma das surras que levei

No meu tempo de menino

Taca “véa” de “rancá” “côro”

E de ficar falando fino

Foi por causa do Benedito

Do oratório erudito

Da vó Nazinha do Carolino.

Minha vó velha devota

Do preto São Benedito

Mantinha um oratório

Um altar sacro-bendito

Cheio de velas e flores

Com fitas de várias cores

Muito enfeitado e bonito.


Certa noite de dezembro

Vó Nazinha agradecida

Transbordava de alegria

Com a família reunida

Uns sorriam, outros “brincava”

E eu moleque “malinava”

Sem importar com a vida.

Enquanto o povo todo

Bem feliz se divertia

Aproveitei um momento

De descuido e calmaria

Abandonei o falatório

E fui na sala do oratório

Só pra fazer estripulia.

Ao chegar perto dos Santos

Que minha vó tanto zelava

Tanto incenso e tanta luz

Que meus olhos “faiscava”

Fui acender vela na cripta

Descuidei e pegou nas fitas

Pense na enrascada brava.

La de fora o povo todo

Ouvindo aquele bagaceiro

Da casa pegando fogo

E eu naquele zueiro

Pense em um desmantelo

Sapequei até o cabelo

No meio do fumaceiro.
E pra encurtar a estória

Depois do fogo apagado

Só via pedaço de santo

E Benedito sapecado

E eu peguei uma “pêia”

Das costas ficar “vermêia”

De deixar desmantelado.

E desse tempo pra cá

No oratório beneditino

Minha vó não mais permite

Que lá entre algum menino

Ainda me lembro dessa cena

Daquela coça de voar pena

Pra eu largar de ser malino.

“‘VÉI’ NÃO SE SENTA SEM ‘UI’

E NEM SE ALEVANTA SEM ‘AI’”

(Ao meu avô Zeca Rapaz)

Já falava o meu avô

“Tamém” dizia o meu pai

- “Oh ”veíce” pra ter ‘dô”

“pressão sobe, tesão cai”

Tanta “duença” se possui

“’Véi’ não se senta sem ui

e nem se alevanta sem ai”.

Já “tô” na “tercêra” idade

“Mulésta” entra outra sai


Me alembro com “sodade”

Do tempo que longe vai

“Jove” “saudáve” eu já fui

“’Véi’ não se senta sem ui

e nem se alevanta sem ai”.

Meu avô e minha avó

Da gemeção nunca sai

Um “lamentá” de dá dó

É ui, ui, ui, ai, ai, ai

O “rumatismo” não se exclui

“’Véi’ não se senta sem ui

e nem se alevanta sem ai”.

A “veíce” “nun” “perdôa”

“Arremaria”, “Crendeuspai”

Todo “véi” “desaconçoa”

Seja aqui ou em Xangai

E sua lembrança se atribui

De quando se sentava sem ui

Ou se alevantava sem ai.

QUANDO É MUITO O PIRÃO

A CAGANEIRA VEM NA CERTA

Na vida nada é de graça

Nela tudo tem seu preço

Tem coisa que até mereço

Mas conseguirei na raça

Já engoli muita fumaça

Comi pedra pra escapar


Caí e aprendi levantar

Derramei o suor da testa

Dormi no frio sem coberta

Não quero de graça um tostão

Pois quando é muito o pirão

A caganeira vem na certa.

Tudo tem uma consequência

E ninguém nasce por sorte

Já driblei a própria morte

Tenho a dor por experiência

Na religião e na ciência

Muitos deixam se enganar

Nas desgraças se explicar

A malandra vida esperta

A trapaceira vida indiscreta

A ladroagem e a corrupção

Mas quando é muito o pirão

A caganeira vem na certa.

Falta ética, tá um chafurdo

Nessa nossa sociedade

Parece que a humanidade

Mergulhou no absurdo

Tem um jeitinho pra tudo

Nas igrejas e na política

E a população paralítica

Com donos do poder acerta

É na surdina que se decreta

Promessas de compensação

Mas quando é muito o pirão


A caganeira vem na certa.

Lamento ver a sociedade

Estar órfã de seus direitos

Acabou-se todo o respeito

Nesse antro de leviandade

Até mesmo a boa verdade

Entrou na dura escassez

Tem gente grande no xadrez

E a propina que tudo acoberta

É oferecida a mão aberta

Vendida como algo ao cão

Mas quando é muito o pirão

A caganeira vem na certa.

EU ESTOU AQUI MUITO MAIS RODADO

DO QUE UMA JUMENTA DE CIGANO

Aqui está um trem desgovernado

Meu cachorro e o meu gato Cipriano

Tá num eterno arranca rabo danado

Igual Trump e o líder norte coreano

É uma briga de ficar arrepiado

E eu aqui estou muito mais rodado

Do que uma jumenta de cigano.

Meu periquito está muito calado

Parece até que está fazendo plano

Meu jegue já fugiu desembestado

Acho que não volta mais esse ano

Tem cobra de asas pra todo lado


E eu aqui estou muito mais rodado

Do que uma jumenta de cigano.

Tem raposa rondando o meu cercado

Amedrontando o meu galo Galeano

Já não posso dormir mais sossegado

No maior rolo desde o Império Romano

A fuleragem já está por todo lado

E eu aqui estou muito mais rodado

Do que uma jumenta de cigano.

SOBREVIVI HÁ TANTAS TEMPESTADES


QUE APRENDI A NÃO TEMER AS CHUVAS

Já presenciei muitas maldades


Colhi espinhos ao invés de uvas
Fui preso a teia das insanidades
Até em retas eu suportei curvas
Fui moldado nas insobriedades
Sobrevivi há tantas tempestades
Que aprendi a não temer as chuvas.

Provei do cálice das inverdades


Desviei de raios em noites turvas
Sorvi as amarguras das saudades
Dormi em formigueiro de saúvas
Poetizo em versos as impiedades
Sobrevivi há tantas tempestades
Que aprendi a não temer as chuvas.

VERSOS À DONA PRETA


Uma ilustre personagem

Trabalhada na mutreta

Que espanta até visagem

E esculhamba até o capeta

É a rainha da pavulagem

Faladeira de sacanagem

A abençoada Dona Preta.

De fofocagem e putaria

Entende muito a sujeita

Anda de noite e de dia

Do corpo ficar zambeta

Em busca de boataria

Pra destilar gaiataria

Não sossega Dona Preta.

Toda cheia de “nove hora”

Brigona e moldada na treita

Criança, homem e senhora

Que ande a pé ou de muleta

Padre, pastor qualquer hora

Não procedeu leva espora

Nas garras de Dona Preta.

Nova Ipixuna se diverte

Com essa senhora espoleta

“Fi do cão” pintor do sete

Encapetado da disgreta

Excomungado e pivete

Todo mundo é “fi da perte”


Na língua de Dona Preta.

TU ÉS O TIPO DA “MUIÉ”

QUE TODA MIJADA AINDA É CHEIROSA

(À minha esposa Edinha Lima)

Tu tens sorriso de Monalisa

Hipnótica Esfinge misteriosa

És Eva no Éden sob luar e brisa

Qual Maria Bonita és graciosa.

Nega tu és o tipo da “muié”

Que toda mijada ainda é

Perfumadamente cheirosa.

Na mitologia greco-romana

Tu foste Calíope a gloriosa

Tu és bem mais do que foi Diana

Do que foi Cleópatra “a poderosa”.

Nega tu és o tipo da “muié”

Que toda mijada ainda é

Perfumadamente cheirosa.

Talvez até alguém desacredite

Que tu és Artêmis esplendorosa

Tem a malícia que teve Afrodite

Tu és Helena em verso e prosa.

Nega tu és o tipo da “muié”

Que toda mijada ainda é

Perfumadamente cheirosa.

NASCI POETA PRA INVENTAR O MEU PRÓPRIO PECADO


E MORRER EMBRIAGADO COM O MEU PRÓPRIO VENENO

Nasci para poetizar a sentença muda das utopias

Predestinado a algum dia morrer de saudade

Sóbrio amante fiel da loucura e da insanidade

Um profetizador de promiscuidades e fantasias

Estou embriagado das mais sórdidas alquimias

Sou anjo alucinado pecadoramente obsceno

Desde cedo aprendi a não sonhar pequeno

Nas mãos do destino sou vidente enjaulado

Nasci poeta pra inventar o meu próprio pecado

E morrer embriagado com o meu próprio veneno.

O POETA E O OVINI

(Ao mestre poeta Silvio dos Anjos)

Um poeta de alma nua

Cheio de truque e cilada

Um velho lobo da rua

Amásio da madrugada

Um ébrio de sina crua

Galanteador da lua

Pra fazê-la namorada.

Certa noite enluarada

Esse poeta insuspeito

Com a alma embriagada

Levantou-se do seu leito

Viu no céu luz tatuada

Imóvel, não identificada

Ficou medroso o sujeito.


Talvez fosse a lua amante

Em meio à noite graúna

Quem sabe um vulto brilhante

Ou talvez coisa nenhuma

Misteriosamente radiante

- Eu vi! O poeta garante:

- Um OVINI em Nova Ipixuna.

Lobisomem, Saci-Pererê

Cachorra doida parida

Curiango e caxinguelê

Assombro e alma perdida

Pois pode acreditar você

Poeta com insônia vê

Coisa que o cão duvida.

VERSOS À MÃE ZILDINHA

(Com Jailson Silva - Van der Sar)

Quero aqui homenagear

Uma protetora minha

Mãe-de-santo e rezadeira

Benzedeira e adivinha

Mulher de sabedoria

Mui amada Mãe Zildinha.

Aprendeu rezas poderosas

No terreiro de Mãe Menininha

Foi consagrada na Bahia

Em Nazaré das Farinhas


E no Pará ninguém supera

O poder de Mãe Zildinha.

Pra quem tem algum problema

Quebranto ou picuinha

Quem perdeu a namorada

Ou sofreu praga de madrinha

A solução da sua causa

Está na mão de Mãe Zildinha.

Faz parto, desvenda sonhos

Seja manhã ou à tardinha

Arruma até namorado

Pra baranga que tá sozinha

Tem mil e uma utilidades

A matriarca Mãe Zildinha.

Se é quebranto ou mau olhado

Cafubira, íngua, espinha

Impotência ou frigidez

Ou pinxilinga de galinha

Cura furunco e erisipela

A consagrada Mãe Zildinha.

Para o banho com sal grosso

Tem tipi, guiné e favinha

Raspa do sovaco esquerdo

De calango donzelo e cebolinha

Pião roxo e amansa-corno

Na receita de Mãe Zildinha.


Reza em mordida de cobra

Amansa galo de rinha

Tira inveja e olho gordo

Também canta ladainha

E com ela ninguém pode

Ninguém pisa em Mãe Zildinha.

Levanta espinhela caída

Faz chá com erva daninha

Se tem alguém carregado

É já que ela põe na linha

Não tem mal que não resolva

Diante de Mãe Zildinha.

Vindo a Nova Ipixuna

Visite nossa madrinha

Respeitada em todo canto

Iluminada e adivinha

Não volte sem receber

Um saravá de Mãe Zildinha.

SE DEUS ME TIVESSE FEITO NASCER MULHER

CERTAMENTE HOJE EU ESTARIA MENSTRUADA

Hoje eu acordei com a febre do rato

Valente igual a um siri dentro da lata

Estressado falando igual uma maritaca

Hoje estou com uma pedra no sapato

Qualquer coisa pra mim é um desacato

Minha vida já está toda esculhambada

Falo muito mas não resolvo quase nada


Vou sair e embriagar num bar qualquer

Pois se Deus me tivesse feito nascer mulher

Certamente hoje eu estaria menstruada.

ESTOU AQUI ME FAZENDO DE LEITÃO

SÓ PARA EU PODER MAMAR DEITADO

Vi um urubu voando com uma asa só

Com a outra abanava o calor danado

Das minhas vacas to tirando leite em pó

Oh calor terrivelmente esconjurado

O mundo se acaba nesse sequidão

Enquanto estou me fazendo de leitão

Só para eu poder mamar deitado.

Aqui o sol sufocantemente brilha

A chuva não mais veio pra esse lado

Não curte, nem comenta ou compartilha

Uma gota sequer pro meu agrado

Não sei até quando vou ter a opção

De poder estar me fazendo de leitão

Só para eu poder mamar deitado.

Deus, estamos precisando de uma chuva

Uma daquelas de peixe morrer afogado

Não tá escapando nem formiga saúva

Nesse sudeste paraense ensolarado

Quero que chova por toda uma estação

Pra eu continuar me fazendo de leitão

Só para eu poder mamar deitado.


PORQUE EU SOU É MUMBACA

PAU RUIM DE MAMBIRA SUBIR

Nessa vida já vi de tudo

Botei sogra pra fugir

Já ouvi grito de mudo

Não tenho medo de cair

Falo mais que maritaca

Porque eu sou é mumbaca

Pau ruim de mambira subir.

Já briguei com lobisomem

Fiz besta-fera sumir

Dei porrada em homem

Já vi “catiroba” trair

Já fiquei “com a macaca”

Porque eu sou é mumbaca

Pau ruim de mambira subir.

Já namorei mulher feia

Fiz insistente desistir

Ouvi cantar de sereia

Fiz amantes discutir

Teimou comigo leva taca

Porque eu sou é mumbaca

Pau ruim de mambira subir.

MAIS NERVOSA QUE JARARACA COM FEBRE

MAIS VALENTE QUE CASCAVEL MENSTRUADA

Conheço gente briguenta por natureza


Fera antissocialmente mal-humorada

Que não destila um tom de gentileza

Levando a vida numa feracidade danada

Mais desassossegada do que uma lebre

Mais nervosa do que jararaca com febre

Mais valente do que cascavel menstruada.

Gente assim não sabe aproveitar a vida

Perdendo tempo numa história abortada

Tem por companhia uma existência falida

E por enredo a pobre biografia fracassada

Pessoa assim não aceito em meu casebre

Mais nervosa do que jararaca com febre

Mais valente do que cascavel menstruada.

NECRÓFILOS

(Ao meu irmão Emmanuel Lima abortado aos cinco meses de gestação)

Desde que era pequeno


Eu vivi na malinesa
Guri levado e obsceno
Teimoso por natureza
Eu já dormi no sereno
Só pra inventar proeza.

A vileza da vizinhança
No mundo fogo eu botava
Fui imperativa criança
Que “Véa Luza” castigava
- “Na peia comigo tu dança!”
Com ela a cobra fumava.
Mãe contava que ao casar
Engravidou na lua-de-mel
Mas não pode suportar
E em tamanha dor cruel
Amargamente viu abortar
O meu mano Emmanuel.

E no fel da dor sepultou


Lá no fundo do quintal
O anjo que tanto amou
E aos pés da cruz ao final
Pé de “maravilha” plantou
Sobre o seu leito final.

E no final de dois anos


Naquele lar eu nasci
E da sua perca os reclamos
Ouvindo mãe eu cresci
Via a cruz e fazia planos
De desenterrá-lo dali.

Daí nasceu meus irmãos


“Preto” também malino
“Nega a cheia de razão”
Odiava gente traquino
Tava armada a confusão
Alí a peia falava fino.

Malinos os dois infantes


Traçados na esperteza
Bolou um plano brilhante
Cavar a cova era a proeza
Se mãe saísse um instante
O escavava com certeza.

Com clareza certo dia


Mãe chamou minha irmã
Pois na missa ela queria
Levá-la naquela manhã
Já os outros nenhum ia
Por ter a alma pagã.

De manhã logo falei


É hoje que a vaca berra
E com “Preto” eu escavei
Fizemos quase uma serra
Mas Emmanuel não achei
Debaixo daquela terra.

Foi guerra quando chegou


Mãe da missa aquele dia
Foi taca que assoviou
Que minha costa tremia
E o buraco nós enterrou
Debaixo da peia que ardia.

Não devíamos ter cavado


Pra meu irmão libertar
E mãe disse que é errado
Com os mortos nós brincar
E nunca mais naquele lado
Eu e “Preto” quis passar.

Se malinar Deus detesta


Deixa a gente no sufoco
É coisa que nunca presta
E eu não apanhei pouco
Mais que pandeiro em festa
E galinha pra largar o chôco.

SÓ DEUS RESISTE ÀS MULHERES

Nem os bêbados em orgias


Nem os velhos em fantasias
Nem este meu peito que tu feres
Nem os loucos em agonia
Nem os sábios da alquimia
Só Deus resiste às mulheres.

Nem os brutos a arrogar


Nem os lúcidos a sonhar
Nem mesmo eu que a ti preferes
Nem os anjos a entoar
Nem os gênios a inventar
Só Deus resiste às mulheres.
ANCESTRALIDADE

2ª PARTE

CONTOS ASSUSTADORES
A PROMESSA QUE NÃO FOI PAGA

Minha avó Izaura conhecida como Vovó Rôxa me contou que no início do Século XX
no povoado de Campo Alegre localizado no município de Itamaraju no Estado da Bahia,
havia um fazendeiro muito rico conhecido como Amarante. Proprietário de muitas terras
e de muito gado e por isso foi considerado um dos homens mais ricos da região naquela
época. Era casado há quase quarenta anos com dona Fulô, uma senhora muito religiosa
e bondosa que o ajudava diariamente nos afazeres da fazenda onde morava. Iam à missa
todos os domingos, sozinhos já que o destino não permitiu que eles tivessem filhos.

Certo dia, acometido de grave doença e correndo risco de morte, Amarante fez uma
promessa ao Senhor Bom Jesus da Lapa, divindade de grande prestígio na Bahia e santo
de sua devoção, que se Este o curasse de sua enfermidade, ele iria da sua fazenda,
montado num boi, até a Lapa do Bom Jesus que ficava à uma distância aproximada de
oitocentos quilômetros, agradecer ao santo pela graça alcançada.

Algum tempo depois da promessa feita, Amarante ficou curado e desde então tratou de
escolher entre os seus bezerros recém-nascidos, um no qual ele pudesse domar para que
esse o levasse até a Lapa. Escolheu um bezerrinho completamente preto no qual deu o
nome de Romeiro. Em seguida começou a domá-lo para que em poucos anos, esse o
ajudasse a cumprir sua promessa.

Dois anos depois, o bezerro se tornou um boi escuro como carvão, totalmente crescido,
mansinho e pronto para levar o seu dono naquela distante viagem. Amarante havia
combinado que sua viagem só aconteceria durante a noite para que nem ele e nem o seu
boi Romeiro sofressem com os efeitos da insolação, ou seja, durante a noite eles
viajavam, mas quando amanhecesse, eles descansariam à espera da noite para que assim
prosseguissem com a viagem até chegar na Lapa. Tal propósito faria com que a viagem
durasse meses.

Quando tudo estava pronto para a viagem iniciar, o destino pregou uma peça: Amarante
sofreu um mal súbito e acabou falecendo. Morreu sem ter pago a sua promessa.

Minha vó me contou que logo após a morte de Amarante, não houve mais sossego
naquela fazenda, pois a alma do falecido aparecia todas as noites para Dona Fulô,
pedindo para que esta contratasse alguma pessoa e arcasse com todas as despesas
necessárias para que este montasse em seu boi e fosse até a Lapa cumprir a promessa
em seu lugar, já que em vida ele não pode cumprir o que prometera ao seu santo de
devoção. Ele pediu a sua esposa que deixasse bem claro ao corajoso contratado, que
assim que este montasse no lombo de Romeiro, a sua alma também montaria na garupa
do animal, e ficaria agarrado às costas do promesseiro, já que ele também iria junto
durante todo percurso.

Em uma de suas aparições, Amarante confirmou a Dona Fulô que a viagem deveria
acontecer somente durante o período noturno para que o boi e o seu condutor não
ficassem expostos ao sol como ele havia planejado desde o início. Disse ainda que
desde que morrera a sua alma não havia encontrado luz e que a sua paz de espírito só
seria alcançada depois que alguém pudesse cumprir com o seu pedido.

Dona Fulô ficou desesperada com os constantes pedidos do seu falecido marido, logo
tratou de prometer um bom dinheiro à corajosa pessoa que conseguisse ir até a Lapa do
Bom Jesus cumprir a promessa de Amarante. Como o valor a ser pago se tratava de uma
boa quantia em dinheiro, não demorou para que muitos se prontificassem a cumprir com
a tal promessa.

Minha vó me falou que mesmo com tantos candidatos, nenhum homem foi capaz de
cumprir tal designo, pois, todas as vezes que alguém tentava ir, não conseguiam seguir
viagem, pois assim que subiam no lombo do boi a alma de Amarante também montava
no animal e tais condutores eram acometidos de uma friagem quase que congelante nas
suas costas e estes desistiam por causa do frio e do medo ao qual eram submetidos.
Durante anos muitos tentaram cumprir tal promessa, mas todos desistiram.

Anos depois, Dona Fulô acabou falecendo sem conseguir encontrar alguém capaz de
cumprir a promessa do falecido marido. Romeiro também morreu. Como não tinha
herdeiros, a fazenda foi saqueada por moradores da região e até hoje se encontra
abandonada. Segundo o que Vovó Rôxa me contou, ninguém tem coragem de se
aproximar daquela propriedade, principalmente à noite, devido aos vários relatos de
visagens que por lá aparecem para assombrar os desavisados que por lá passar.

Reza a lenda que até nos dias atuais, é comum à noite se ver nas proximidades daquela
fazenda abandonada, um casal em pé ao lado de um boi escuro como a noite pedindo
aos viajantes para que os levem até a Lapa do Senhor Bom Jesus.
LOURENÇÃO VIVE

O desenvolvimento da região sudeste paraense durante um grande período foi


alavancado pelo extrativismo, principalmente pelo comércio de caucho, de castanha-do-
pará, depois de cupuaçu e açaí, além de pescados, caças e minerais preciosos. No final
do Século XIX, comerciantes e exploradores de tais produtos, fundaram Marabá, que
depois se tornou a mais importante cidade da região.

Contaram-me que nos anos trinta do Século XX, morava em Marabá, um comerciante
conhecido como Lourenção. Ele possuía um barco no qual usava para transportar tudo
que comprava pelo caudaloso Rio Tocantins. Ele sonhava construir fortuna com a
compra e venda de produtos nativos da região.

Lourenção era um homem bastante alto e tinha aproximadamente cinquenta anos de


idade. Possuía a fama de ranzinza e agressivo, além de consumidor excessivo de
bebidas alcoólicas. Quando estava em estado de embriaguez, tratava a todos com mão-
de-ferro e por diversas vezes chegou a agredir pessoas, principalmente sua esposa, seus
filhos e sua sogra que morava na sua companhia.

Por outro lado, Lourenção, apesar de ter a fama de muito ganancioso, era um homem
muito trabalhador e vivia do suor do seu rosto. Quando seus barcos se encontravam
carregados de produtos, ele mesmo, juntamente com seus familiares, embarcava numa
viagem que poderia durar semanas no intuito de revender suas compras em Belém,
seguindo o curso navegável do Rio Tocantins.

Contam que certa tarde de inverno, Lourenção depois de carregar seu barco, decidiu
navegar rio abaixo até a cidade de Belém assim como fazia costumeiramente. Nessa
viagem, embarcou sua esposa e seus quatro filhos, além da sua sogra. Muitos o
aconselharam a não ir, porém como ele não ouvia ninguém além da sua intuição,
ignorando o conselho de outros, seguiu a sua viagem.

Lourenção, como era de costume, bebia durante quase toda a viagem. Nessa não foi
diferente. Mal começou a navegar ele começou a beber e dentro de pouco tempo já se
encontrava completamente embriagado, brigão e agressivo com seus tripulantes. Há
relatos de pessoas que viajavam em outros barcos que durante a viagem, além dele ter
batido nos filhos, ele chegou a agredir sua esposa e sua sogra.

No Rio Tocantins, precisamente no percurso correspondido entre os antigos povoados


Tauri e Ipixuna, há um trecho pedregoso e de difícil navegação e com várias cachoeiras
e redemoinhos no meio do rio. Navegar por aquele local, principalmente durante a noite
e com chuva era arriscado demais. Muitos inclusive já havia perdido a vida tentando
navegar por aquele local.

Naquela noite chovia bastante. O vento era tão forte que por várias vezes chegou a
quase virar o barco. Mas Lourenção, ignorando os avisos da natureza, continuou
prosseguindo sua viagem, colocando em risco a sua vida e a dos seus familiares.

Não deu outra, ao tentar transpor uma cachoeira, o barco de Lourenção foi sugado por
um forte redemoinho e acabou indo parar no fundo do Rio Tocantins. Ninguém
escapou. Até hoje nem o barco e nenhum dos sete corpos foram encontrados. Foi uma
verdadeira tragédia em família.

O local onde foi ceifada aquelas sete vidas naquela tormentosa noite recebeu o nome de
Cachoeira do Lourenção. É um lugar assustador. Muitos navegadores e pescadores
relatam que ao passar pelas proximidades daquela cachoeira à noite, ainda é possível
ouvir sete gritos desesperados implorando por socorro.

Há casos de navegadores desavisados que perderam as suas vidas depois irem tentar
atender aos sete gritos no meio da noite e acabaram naufragando seus barcos e rabetas,
tendo assim o mesmo fim que teve a família de Lourenção.

Se por um acaso, ao navegar por esse trecho do Rio Tocantins durante a noite e ouvir
gritos de socorro, cuidado! É melhor você seguir a sua viagem. Talvez seja Lourenção
querendo te levar para junto dele no fundo do Rio Tocantins.
O CASARÃO ABANDONADO

Meu avô Carolino contava que bem antes dele vir com a família morar no estado do
Pará, tinha como profissão a de tropeiro e que percorria com seus filhos Joaquim, Fidó e
Dedé por todo sudeste baiano comprando, vendendo ou trocando cavalos, burros e
jumentos.

Certa vez, enquanto viajava com sua tropa pela zona rural do município de Ibirapoã ao
percorrer fazendas em busca de negociar seus animais, se deparou com as ruínas de um
velho casarão abandonado rodeado de um antigo pomar formado principalmente por
jaqueiras, mangueiras, cajueiros e cacaueiros, tudo descuidado e sem zelo, o que o fez
acreditar que há muitos anos ninguém morava ou cuidava daquele sítio.

Já se passava das cinco horas da tarde e como na frente daquela velha casa havia um
mangueiro com um pequeno córrego onde os animais poderiam ali ficar confinados
durante a noite que não tardaria chegar, vô Carolino juntos com os filhos, exaustos
resolveram então dormir naquela casa para que no outro dia continuassem a viagem
descansados.

Soltaram os animais no mangueiro, tomaram banho no riacho e voltaram para o casarão


onde desarrumaram as tralhas que estavam guardadas em bruacas carregadas no lombo
de uma mula. Depois cataram restos de madeira e construíram uma fogueira para
prepararem o jantar, fazer o café e também esquentá-los do frio durante a noite.

Não demorou e o jantar já estava sendo servido: carne seca frita misturada com farinha
e pimenta malagueta acompanhado de um café torrado no tacho, quente e forte coado
debaixo de uma jaqueira centenária. Logo em seguida, cansados da viagem, começaram
a arrumar suas camas para dormirem.

Como a noite estava estrelada, o céu sem nenhuma nuvem e enfeitado brilhantemente
por uma lua cheia e hipnótica, eles resolveram dormir ali mesmo no relento ao lado da
fogueira. Meu avô amarrou uma rede entre num esteio da velha casa e num galho de um
cajueiro ancião plantado no terreiro daquele antigo casarão.
Os outros como não possuíam redes, estenderam couros de bois no chão ao lado da
fogueira. Quando se preparavam para dormir, meu avô sentado na rede e seus filhos
ainda sentados nos couros, eis que da porta da antiga casa abandonada saiu um gatinho
branco, tão alvo que mais parecia um capucho de algodão. O bichano passou no meio
deles e subiu em um pé de manga à frete daquela velha casa abandonada.

Todos acharam entranho a aparição daquele animal, afinal de contas naquela casa havia
indícios de que há décadas não existia moradores ali habitando. Em seguida o gato,
como se fosse uma pessoa, começou a balançar aquela mangueira com tamanha força
que as folhas da árvore começaram a cair.

A cena era assustadora pois segundo o meu avô, um gato jamais teria tanta força ao
ponto de segurar uma árvore daquele tamanho com as mãos e balançá-la ao ponto de
derrubar suas folhas. Todos ficaram assustados. Vô Carolino mergulhou dentro da sua
rede e seus filhos se cobriram amedrontados depois de assistirem aquela cena.

Meu avô contava que mesmo amedrontados, seus filhos dormiram, porém ele não
conseguiu devido uma força semelhante a de mão humana puxasse os punhos da rede
toda vez que ele começava a cochilar. Ele ainda me contou que a situação piorou
quando num determinado momento escutou um cochicho com voz feminina de natureza
cadavérica bem próximo ao seu ouvido dizendo:

- Se você pensa que vou te deixar dormir aqui, você está completamente enganado. Essa
casa me pertence e eu não gosto que pessoas venham até aqui.

Em seguida aquela voz soltou uma risada tão medonha que fez com que meu avô
pulasse rapidamente da rede e deitasse no couro ao lado dos filhos.

Ele disse que acordou a todos e passaram o resto da noite sentados agarrados um ao
outro ao lado da fogueira, ansiosos para que amanhecesse logo o dia, para que em
seguida eles fossem embora o mais rápido dali. No outro dia cedinho, arrumaram as
traias, arrearam os cavalos, soltou a tropa e saíram dali o mais rápido possível.

Tempos depois, ao chegar na próxima fazenda, soube através do proprietário que a casa
onde eles passaram a noite pertencera a uma moradora que depois de se enviuvar e ver
seus único filho a abandonar sozinha com o seu gato de estimação, havia se suicidado
há oitenta anos atrás enforcando-se na dita mangueira na qual foi visto o gatinho branco
subir.
O DANÇARINO MISTERIOSO

Meu tio Braz desde a juventude foi um rapaz festeiro. Não perdia nenhuma festa em
Nova Ipixuna. E apesar dos pedidos da minha Vó Rôxa para que ele não fosse àquelas
festas, ele sempre dava um jeitinho de ir. Voltava sempre às altas madrugadas, às vezes
embriagado, inclusive muitas vezes chegou em casa tardiamente carregado pelos outros.

Minha vó, evangélica ferrenha, vivia aconselhando ele para sair daquele caminho sujo
que ele teimosamente insistia em trilhar. Dizia que ele deveria se “encontrar com Deus”
ao invés de mergulhar naqueles antros “sodômicos” que ela comparava a uma espécie
de areia movediça que o imergia vorazmente.

Tio Braz me contou que numa noite de sábado ainda no final dos anos oitenta,
anunciaram que teria uma grande festa no pátio da Escola Maria Irany. Ele disse que
não poderia de modo algum perder aquela noitada, pois contaria com a presença de
muitas mulheres e bebidas, além de uma banda tocando, algo completamente raro em
Nova Ipixuna naquela época.

Contou-me ainda que ao saber que ele iria àquela festa, a minha vó o pediu até pelo
amor de Deus que ele não fosse, pois naquela mesma noite haveria uma festa do Círculo
de Oração da Igreja Assembleia de Deus, grupo na qual Vó Rôxa orgulhosamente fazia
parte. Vovó queria muito levar tio Braz na festa da sua igreja, mas ele sequer deu
ouvidos e contrariando sua mãe, se arrumou e foi para a festa da escola.

Tio Braz falou-me que ao chegar na festa, constatou que havia a presença de muitas
pessoas, inclusive muitas mulheres bonitas, mas segundo ele, parecia que lhe faltava
algo, pois desde que chegara, não conseguia se divertir como antes. Inicialmente pensou
que se tratava de certo constrangimento devido a sua consciência estar pesada em não
ter dado ouvido para os pedidos da sua mãe. Na verdade, apesar de estar na presença de
vários amigos seus na referida festa, ele não estava se sentindo à vontade naquele lugar.

Depois de algum tempo, percebeu sutilmente naquela festa, a chegada de um homem


negro, jovem, todo vestido de branco e com um chapéu que caía sobre os olhos. Aquele
homem começou a dançar sozinho. Dançava tão bem que acabou chamando a atenção
do meu tio. Segundo o que me relatou, ele jamais vira antes, alguém que dançava tanto.
Parecia que não se cansava de dançar.

O maior problema é que parecia que só tio Braz via aquele homem dançando, pois, as
pessoas presentes na festa, estavam todas se divertindo como se não vissem aquele
dançarino misteriosamente estranho que aparecera diante dos olhos do meu tio.

Incomodado, meu tio resolveu sair daquele local e procurar outro lugar naquele mesmo
recinto, na intenção de fugir da presença daquele homem que dançava sem parar.
Quando chegou ao outro local na mesma festa, o homem já se encontrava lá também,
dançando da mesma forma, sozinho e despercebido diante dos olhos dos outros
festeiros.

Tio Braz me contou que naquela noite ele mudou de local festa por diversas vezes, mas
todas as vezes que ele chegava no lugar escolhido, o mesmo homem já se encontrava
dançando como anteriormente. Meu tio se sentiu tão incomodado que acabou indo
embora daquela festa. Ao chegar em casa minha vó já o esperava, pois, tinha o costume
de só dormir depois que ele chegava em casa.

Antes de dormir, meu tio contou para a sua mãe o que vira na festa. Minha vó não teve
dúvida de que aquele homem misterioso seria alguma entidade pagã que aparecera para
o meu tio para dar-lhe uma lição para que este a ouvisse e a obedecesse.

No outro dia, meu tio procurou seus amigos que estavam com ele na noite anterior para
relatar o acontecido, mas grande foi a sua surpresa ao ouvir de todos eles que não
tinham visto tal pessoa na festa. Depois disso tio Braz moderou suas idas às festas pois
temia que aquele homem aparecesse para ele novamente.

Uns quinze anos depois, quando tudo parecia esquecido por meu tio, ao vir de uma festa
em alta madrugada, depois de ter “bebido todas”, tio Braz resolveu sentar num banco
debaixo de uma mangueira na rua. De repente viu quando passou na sua frente o mesmo
homem negro, vestido de branco e de chapéu sobre os olhos. Teve muito medo pois
imaginava que aquele homem não aparecesse mais para ele. Fugiu daquele lugar o mais
depressa possível e foi até a igreja rezar e pedir aos seres superiores para eles
espantassem aquele homem misterioso da sua vida.
Apesar das muitas orações e pedidos, meu tio que possui um bar em Nova Ipixuna, me
disse que sempre encontra o misterioso homem andando pela noite novoipixunenses e
que por várias vezes o vê durante a madrugada no seu estabelecimento e fica por lá sem
pronunciar uma única palavra e acaba desaparecendo sem que ninguém perceba a sua
saída.

A BOTIJA

Quando era criança eu ouvia meu Tio Nezo contar que no interior da Bahia era comum
que fazendeiros, coronéis e comerciantes enterrarem verdadeiras riquezas em moedas de
ouro ou de prata dentro de botijas. Tratava-se de um costume bem antigo, originário de
um tempo em que ainda não existiam bancos. Tais tesouros eram enterrados em casas
abandonadas, matas, etc. Quem enterrava suas riquezas acreditavam que assim estariam
evitando que fossem vítimas de ladrões, saqueadores, bandoleiros e outros tipos de
criminosos que poderiam roubá-los.

Tio Nezo me dizia que o grande problema nisso tudo é que na maioria das vezes as
pessoas que enterravam esses tesouros, o fazia em segredo, escondendo até mesmo dos
próprios familiares. Assim, quando estes vinham a falecer, se tornava muito difícil ou
até impossível alguém encontrar tal riqueza enterrada.

Reza a lenda que se alguém morresse sem antes retirar da terra a botija que outrora
enterrou, seu espírito passaria a viver perturbado no além. Para que não continuasse
vivendo qual alma penada, o falecido aparecia em sonhos, ou até mesmo de forma
materializada, à alguma pessoa escolhida por ele, implorando que desenterrasse o
tesouro que ele havia enterrado quando era vivo.

Daí o espectro indicava o local exato onde estaria o tesouro, que passaria a pertencer à
pessoa escolhida. Diziam os antigos que tal espírito não teria paz enquanto não
revelasse o segredo e doasse a alguém o dinheiro que em vida não usufruiu.

Para desenterrar uma botija era preciso obedecer a certas regras. A pessoa escolhida
teria que ir à noite ao local indicado, sozinho, sem falar com ninguém e em silêncio.
Segundo o que Tio Nezo me falou, o escolhido teria que ser muito corajoso, pois no
momento em que o mesmo fosse em busca do seu tesouro, esse tinha visões macabras,
como fogo queimando o corpo, cobras se enroscando nas penas e fantasmas penados a
mandar que parasse a escavação. 

A explicação das visões era simples: Segundo a crendice popular, o diabo ficava furioso
pela possibilidade da alma poder sair dos seus domínios e se salvar pela boa ação do
desenterramento da botija. Por isso, ele mandava tais visões com intuito de que o
escolhido pudesse desistir da empreitada macabra.

Tio Nezo relatou que em certa noite, atormentado pela insônia, não conseguia dormir.
Estava perdido em seus pensamentos quando de repente sentada aos pés da sua cama,
viu uma mulher de meia idade. Ela se mostrava apavorada e disse que tinha algo para
doá-lo naquela noite.

Apesar de surpreso e de nunca ter visto aquela senhora, meu tio não teve medo. Ela o
revelou que há aproximadamente cento e cinquenta anos atrás, ela era proprietária de
muitas terras naquela região e que antes da sua morte havia enterrado um pote contendo
grande quantidade de moedas de ouro e prata no interior daquela fazenda e que há
décadas estava à procura de alguém corajoso para que o mesmo escavasse tal tesouro,
pois só assim a sua alma teria paz no além.

Em seguida a mulher relatou sobre os tormentos macabros que meu tio vivenciaria
quando fosse escavar sua botija. Disse ainda que ele não deveria revelar a ninguém seu
segredo e que acontecesse o que acontecesse, ele jamais deveria demonstrar medo ou
desviar sua atenção enquanto escavasse. Caso isso acontecesse, o tesouro sumiria do
local indicado.

Em seguida ela indicou o lugar onde estava o pote cheio de ouro e prata e na noite
seguinte meu tio pegou lamparina, pá, enxadão, machado, foice e picareta e foi até o
local indicado escavar sua botija.

O pote estava enterrado entre as raízes de um centenário jequitibá. Mal meu tio chegou
começou a escavação. Não demorou muito as visagens começaram a aparecer: sombras
negras com olhos brancos, bodes pretos com os olhos em brasa, além do som
ensurdecedor de uivos aterrorizantes e de espíritos penados arrastando correntes.

Tio Nezo continuava firme no seu propósito. Cavava sem medo na intenção de
encontrar seu tesouro. De repente viu uma galinha preta cacarejando seguida por uma
dezena de leitões como se esses fossem seus filhos. Em seguida, viu uma porca
gorducha acompanhada de vários pintinhos, como se esses também fossem seus
filhotes.

A escavação continuava em meio àquele alvoroço. Ouvia- se choros e ranger de dentes.


Criaturas esqueléticas surgiam de todos os lados destilando gritos assombrosos e
gargalhadas sinistras. De repente o enxadão tocou algo rígido. Era finalmente o pote.

Nesse momento aumentou ainda mais a quantidade de assombros naquele matagal. De


repente uma bruxa apareceu, apagou a lamparina e tudo ficou escuro. A velha
mandingueira segurava meu tio pedindo para que ele deixasse ali aquele pote. Ele dizia
que não. Em seguida ela montou nas suas costas e começou a dominá-lo para fazê-lo
desistir do seu intuito.

Aquela feiticeira não soltava meu tio e como estava montada nas suas costas, ela
começou a babar seu pescoço como se o quisesse morder, mas como ela não tinha
dente, apenas destilava uma pegajosa saliva sobre ele. Nesse momento Tio Nezo teve
medo e acabou empurrando a bruxa para bem longe e fugiu dali o mais depressa
possível, deixando para trás o seu tão sonhado e valioso tesouro.

Você também pode gostar