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Toco, farofa e marafo

Fábio Borges-Rosario
Marcelo José Derzi Moraes
Rafael Haddock-Lobo

Isso não é um livro.


É um ebó coletivo que arriamos nas encruzilhadas da filosofia para mostrar que
seu ideal de pureza é ao mesmo tempo ingênuo e perverso.
É uma saudação a Exu, patrono da palavra filosófica.
Cada um que chega contribui com seu axé.

Podíamos dizer que se trata de uma reunião de textos apresentados no Seminário


Encruzilhadas ao longo do ano de 2019, somando-se a esse textos algumas
outras vozes. Mas não.
Não é apenas um livro, nem somente uma coletânea.

Cada peça aqui oferecida participa de uma cerimônia de cruzamentos,


perspectivações e descolonizações que tem como objetivo mostrar aos leitores e leitoras
que a encruzilhada representa a maior possibilidade de abertura de caminhos.

Reunindo aqui diferentes tipos de toque, destacamos aqui três principais batidas:
escrituras de cruzo, que buscam exuzilhar sul e norte, amiudando este por justiça
àquele; textos que atingem em cheio o projeto colonial, a fim de derrubar seu edifício
projetado no assassinato e na escravidão; e artigos afrocentrados ou afroperspectivados,
exaltando a radicalidade, no duplo sentido do termo, destas filosofias.

Porém, dizer isso é muito pouco. Há muito mais aqui em jogo.

O fogo no pavio
Quem nos acendeu a chama foi Derrida. Ele, um filósofo do fogo e das cinzas; um
filósofo nascido numa grande encruzilhada que é o Mediterrâneo. Mas, do lado de lá.
Africano sim, porém com qualquer traço de africanidade retirado pelo avanço colonial
no Magrebe.
Africano, então? Nascido na África sem africanidade, com certeza. Por isso,
sensível a toda despossessão, ainda que sem acreditar em propriedades, origens e
nascimentos...
Tentando, contudo, abandonar todos os grilhões desse europeísmo da filosofia,
em um constante flerte com outros saberes possíveis e impossíveis.
Esse morador dos dois lados do mar, e que sempre se sentiu estranho quando
permaneceu em cada um dos lados apenas – e que, depois, passa a transitar também
entre os dois lados do atlântico –, esse atravessador, que é Derrida, esse filósofo de duas
cabeças, como firma seu duplo vínculo e sua dupla ciência, é ele quem nos dá a vela
que, aqui, acendemos.
Filosoficamente, é o fogo do Magrebe que nos ensina a exuzilhar os
pensamentos e que nos move a, aqui em outros tantos lugares, lançarmo-nos nas
travessias.
Vela acesa na encruzilhada.
Salve Derrida, salve Exu.

O dendê na farinha
As travessias marcam nossos pertencimentos, desde a chegada das etnias primevas,
passando pela ocupação lusitana, translado das etnias africanas e imigração de europeus
e asiáticos. Nos oceanos estão soçobradas as memórias das inúmeras vidas que
embarcaram, mas não desembarcaram em nossos portos. Memórias espectrais que
clamam pela confissão do preço que pagaram em navios que não prezavam a dignidade
humana.
Confessar os crimes que foram cometidos contra a dignidade de inúmeras
pessoas sequestradas de suas terras e transladadas para as senzalas e das pessoas que
acreditaram na promessa que seriam colonizadoras numa terra vazia, mas que não eram
ermas, eram habitadas por etnias que chegaram em idos tempos.
Situados na encruzilhada da narrativa que seria oficializada e empenhados na
recusa de reconhecer que suas riquezas foram construídas pelo suor de pessoas
escravizadas e pela exploração das pessoas libertas e das imigrantes, além do genocídio
das etnias primevas, as narradoras oficiais queimaram as memórias documentadas das
lutas populares por libertação e transformaram em heróis nacionais aqueles que durante
a vida haviam sido seqüestradores e assassinos.
As aristocracias não falam pretuguês, não dançam nos calundus e não acendem
vela para Exu. Nunca compreenderam a necessidade de conversar com os fantasmas.
Mas, os guardiões escutam os lamentos dos que sofrem.
Exu atravessou o mar de fogo sem que o fogo lhe queimasse para atender aos
pedidos que lhe eram feitos nesta banda. Não veio sozinho. Trouxe Legba, Aluvaiá e
Bombogira.
Sob os auspícios dos Voduns, Inkisses e Orixás das encruzilhadas, nossos
ancestrais que lutaram contra as opressões coloniais e imperiais continuaram após à
morte a ouvirem os clamores do seu povo. Escolheram as encruzilhadas das cidades,
vilas, cemitérios, matas, etc., para serem suas moradas, suas calungas. As calungas são
os locais sagrados que lhes dão força e onde os seus protegidos lhes ofertam os padês.
Ofertar um padê é comprometer-se com a luta pelo fim das opressões. Significa
narrar às histórias dos heróis que lutaram pela dignidade e libertação de cada pessoa
neste país. É confessar que as condições adversas são superáveis quando a coletividade
dos vivos se une na profissão da memória dos ancestrais e promessa de um mundo
igualitários aos que nascerão.
Preparar um padê é fazer um convite a alimentação comunitária. Significa
convidar a comunidade dos mortos, dos vivos e dos que nascerão à mesa. Alimentação
simbólica, ritual e real que renova, rearticula, fortalece e compromete os participantes
com a vida comunitária.
Os ingredientes simbólicos do padê são as histórias dos que nos antecederam, os
ingredientes rituais são nosso compromisso em contar essas histórias às novas gerações
e os ingredientes reais são nossas ações, nossa luta pelo fim de toda e qualquer opressão
no planeta.
Misturar os elementos, o dendê e a farinha, é conclamar a confluência todas e
todos que sofrem. Padê não é síntese. É confluir os elementos, os pertencimentos, as
memórias, as lutas, as ações.
Preparar o padê, pegar a vela e o fósforo, não esquecer o charuto e o marafo. Ir à
encruzilhada. Eis o se propõe neste livro.

A baforada de cachaça
Diante dessas múltiplas encruzilhadas em que nos encontramos, só nos restou arriar um
padê, uma padê para uma ontologia das encruzilhadas, com charuto, vela, farofa e
cachaça. As escrituras produzidas a partir dessas encruzilhadas têm suas origens
embaraçadas e seus destinos incertos, uma vez que depois que se liberta a escrita, tal
como o vento de Iansã, as folhas que se espalham serão colhidas a partir dos encontros
quase sempre não programados. E essas escrituras das encruzilhadas, com várias
línguas, sotaques, histórias e espaços diferentes nos trazem a potência do que é uma
filosofia popular brasileira, uma filosofia que flerta, que se constitui com múltiplas
heranças, africanas, indígenas, europeias, que fecha junto com o que surgiu desses
encontros; que, sem dúvida nenhuma, foram violentos. Assim, a partir desse encontro, a
filosofia popular brasileira, que parte da encruzilhada, não só a encruzilhada de exu,
mas, também, a encruzilhada do caboclo na mata; a encruzilhada do negro evangélico,
que se vê na aporia de assumir uma nova língua e não conseguir abandonar aquilo que
lhe pertence a escrita do seu corpo; a encruzilhada do texto; a encruzilhada dos
pensamentos; a encruzilhada entre as dicotomias impostas; a encruzilhada das línguas.
Se existe um programa de uma filosofia popular brasileira, esse programa é o de
propor uma coreografia da descolonialidade a partir da própria desconstrução da
colonialidade, uma filosofia que dança, canta, torce ou reza enquanto promove
pensamento.
A filosofia popular brasileira é uma filosofia na qual a separação entre corpo e
espírito se confunde, e que se manifesta na pele, naquela coisa de pele. Considerando,
portanto, os mais diversos espaços – o terreiro, a esquina, o estádio de futebol, o
puteiro, a universidade (puteiro por excelência), o quilombo, a aldeia, a igreja, a favela,
o subúrbio, o fundo do quintal, sambas, sertões e mares –, as escritas das encruzilhadas
se escrevem em corpos, muros, praias, matas, ruas, cadernos e computadores. Nesse
sentido, dançamos, cantamos e giramos nas encruzilhadas. Nossas escritas, portanto,
criam uma verdadeira gira macumbística na qual pensamentos, epistemologias, saberes,
modos de ser e sentidos são forjados para que nossas mandigas e preceitos se
configurem como outros modos de fazer filosofia.
Sabemos a responsabilidade do que falamos e de quem falamos; assim, nossas
consultas e nossas obrigações são pagas nas encruzas, nas matas, nos mares, na
pedreira, na estrada, mas, também, na universidade. Propor escritas desde as
encruzilhadas a partir e de dentro da universidade é uma prática de contra-colonização,
que desconstrói a violenta colonialidade dos nossos seres, de nossos espíritos, de nossos
corpos, de nossas línguas e de nossas escrituras. Essas escritas vão vadiar; às vezes, vão
se perder; às vezes, vão se achar, centralizando quando for o caso, margeando sempre
que possível, correndo gira, virando noite, se banhando à luz da lua, se camuflando à luz
do sol. Mas, tal como os vadios e vadias, essas escrituras estão sempre operando no
limite, na margem, é uma filosofia das margens, e, como toda margem, está sempre
rondando e espectrando o centro. Porém, sem inocência e sem romantismo, essas
escritas entendem o jogo e participam do jogo, sabendo que jogo é jogado, e no jogo das
encruzilhadas, um lance de baralho jamais abole o acaso.
Não se trata de negar nossas heranças europeias, nossas heranças do pensamento
ocidental que também nos constituem. Por esse motivo, não estamos propondo uma
destruição dessa herança, mas um reconhecimento e uma assunção das nossas outras
heranças. É buscar outras lições de escritura, tal como nos ensinou o filósofo do
Magrebe a partir de suas encruzilhadas. É aceitar que a filosofia é sempre feita a partir
de encruzilhadas, basta escolher de qual encruza você quer partir ou a qual encruza você
quer chegar. Desta maneira, nos reconhecemos na lógica do Unheimlich, naquela do
estranho familiar, do estranho no ninho. Assim, desse lugar que estamos, que também é
o nosso lugar, dançamos uma filosofia que escreve macumba, porque a filosofia mora
na encruzilhada.

Rio de Janeiro, abril de 2020


Em meio à pandemia do COVID-19

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