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UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ

ADRIELLY OLIVEIRA DE SOUZA

AS FIGURAS FEMININAS NAS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE DE


HOLLANDA

CURITIBA

2013
ADRIELLY OLIVEIRA DE SOUZA

AS FIGURAS FEMININAS NAS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE DE


HOLLANDA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


curso de Letras da Faculdade de Ciências
Humanas, Letras e Artes da Universidade Tuiuti
do Paraná, como requisito para a obtenção do
grau de Licenciada em Letras Português/Inglês.

Orientadora: Prof.ª Ms. Isadora Dutra

CURITIBA

2013
AGRADECIMENTOS

Acima de tudo, gostaria de agradecer a Deus, por ter me concedido o dom de

viver, por ter me sustentado em Seus braços em todos os momentos da minha vida.

Agradecer também a todos os meus familiares, que conseguiram me amparar

com carinho, afeto e paciência.

Sou imensamente grata a todos os meus amigos, que como anjos Deus

colocou em minha vida. Vocês fazem parte da realização desse trabalho, pois é com

este que finalizo essa etapa de minha história. Muito obrigado pelos melhores três

aos juntos. Nossas histórias se encontraram e de uma maneira toda especial fomos

construindo uma vida juntos. “Galerinha de Letras” estará comigo para sempre, em

cada caminho que eu percorrer. Que nossos laços nunca desatem. Que possamos

nos reencontrar sempre e a cada data especial, lembrarmos uns dos outros.

Também agradeço a todos os professores que passaram por essa etapa, em

especial aqueles que fizeram com que me apaixonasse ainda mais por Literatura.

Àqueles amigos de infância que caminharam comigo desde os primeiros

passos e àqueles que encontrei pelo caminho, muito obrigada pela força, pelo

carinho, por acreditarem em mim e suportarem todos os meus momentos de surtos.

Obrigada pelo amor incondicional. Vocês são dádivas de Deus em minha vida e

essa conquista também é para vocês.

E, mais do que tudo, não estaria aqui se não fosse pela MINHA família: Mãe,

Pai e Fran. Obrigada Fran por tudo que passamos e passaremos juntas. Aos

melhores pais do mundo, serei eternamente grata pela educação que me deram.

Pelo amparo, pelo amor de Pai e de Mãe que jamais eu deixarei de sentir.

Dedico essa, como todas as minhas demais conquistas, a vocês!


“Ah, se eu pudesse te diria, na boa

Não sou mais uma das tais

Não vivo com a cabeça na lua

Nem cantarei: eu te amo demais

Casava com outro, se fosse capaz”

Se eu soubesse - Chico Buarque


RESUMO

O presente trabalho ―As figuras femininas nas canções de Chico Buarque‖,


trata-se de uma análise das canções ―Com açúcar, com afeto‖ e ―Cotidiano‖,
pensando em compreender como se configura a imagem da mulher nas
obras. Os objetivos que norteiam o trabalho são destacados pela relevância
do compositor no cenário cultural; a importância da figura feminina na obra
do cantor; e também, o interesse do compositor pela voz feminina. Pretende -
se analisar as características femininas encontradas na obra; identificar a voz
feminina também presentes; e reconhecer os tipos de imagens de mulher nas
canções. A partir de pesquisas bibliográficas e tendo como corpus , as
canções, descreve-se o perfil de mulher encontrada relacionada a época da
composição da música. Faz-se também, uma breve reflexão sobre o papel da
mulher e a construção desde na sociedade.

Palavras-chave: Figura feminina. Chico Buarque. Sociedade. Música.


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 6

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ........................................................................... 9

2.1. CHICO BUARQUE.............................................................................................. 9

2.2. O INÍCIO DA CARREIRA .................................................................................. 14

2.3. PERFIL MUSICAL DE CHICO BUARQUE ....................................................... 15

3. RELEVÂNCIA DA OBRA DE CHICO BUARQUE .......................................... 23

4. IMPORTÂNCIA DA PRESENÇA FEMININA NA OBRA DE CHICO BUARQUE


........................................................................................................................... 27

5. INTERESSE PELA VOZ FEMININA NA OBRA DO AUTOR EM “COM


AÇÚCAR, COM AFETO” E “COTODIANO” ..................................................... 29

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 35

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 39
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1. INTRODUÇÃO

Há tempos a música vem assumindo um lugar privilegiado na história cultural

brasileira. Fato este observado nas diferentes camadas socioeconômicas que

atinge, revelando através de um recurso poético e musical, as peculiaridades

cotidianas e os sentimentos.

Neste sentido, o presente trabalho objetiva fazer uma leitura do gênero

feminino em algumas músicas de Chico Buarque de Hollanda, devido a sua

importância no cenário sociopolítico brasileiro a partir da década de 60.

Considerando que a música é a mais abstrata de todas as artes, pois o seu

conteúdo se transmite de diversas maneiras e não é claramente delimitado como o

da literatura ou as artes visuais, percebe-se que este recurso foi importantíssimo no

período simbólico em que Chico Buarque apareceu no contexto brasileiro.

Diante de tais aspectos mencionados, vê-se nas várias composições

buarqueanas, precioso conteúdo poético relacionado à mulher, que são valorizadas

pela sensibilidade do eu poético do compositor.

Este projeto tem por finalidade apresentar a relevância do compositor no

cenário cultural, à importância da presença feminina na obra de Chico Buarque, bem

como, o apontar o interesse pela voz feminina em suas obras, fazendo uso para isso

de diversas leituras que visem contribuir para melhor esclarecimento do estudo.

Busca-se, então, uma análise mais sistemática das canções escolhidas, observando

mais claramente como a figura feminina foi se configurando por uma visão do autor.
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Tais atributos assinalados para discussão pretendem realçar a atitude de

valorizar a mulher como ser humano com todas as suas particularidades e

peculiaridade e, que podem ser muito bem identificadas nas canções buarqueanas.

No universo, onde se destacam as diferentes mulheres é fundamental

propiciar a reflexão acerca do valor especial que deve ser dado ao desejo feminino e

compreendido numa sociedade tirana e preconceituosa.

É possível entender os acontecimentos históricos da época, marcados pelos

perfis dos comportamentos que eram especificados às mulheres. A submissão aos

maridos era algo bastante demarcado. Apontava-se muito ao dever de ser obediente

e fiel ao marido, já que eram estes os provedores do lar.

A partir desses apontamentos e, considerando que haveria muito a analisar

nas canções de Chico Buarque, fez-se uma escolha que analisará as canções ―Com

açúcar, com afeto‖ e ―Cotidiano‖.

Entende-se que as interpretações construídas em alguns trabalhos

referendados e de leitura aqui presentes para embasar o trabalho que se pretende

realizar, ilustram a identificação da ―alma feminina‖ em canções de Chico Buarque −

com todas as peculiaridades e ambivalências.

Em algumas canções de Chico Buarque uma característica ainda atual é

identificável: a singularidade desta mulher submissa e apaixonada nos diferentes

contextos sociais e culturais da sociedade. Entretanto, que não foge do arquétipo da

mulher idealizada de certa forma pelos homens, e que fica implícito nas

composições de Chico Buarque, como o modelo desejante.


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A partir de diversas interpretações e buscando em Chico Buarque um modelo

de figura feminina é que busca-se analisar tais músicas.

Pode-se dizer que a mulher objeto das canções de Chico Buarque é

estereotipada de acordo com as perspectivas do compositor, porém retrata todas as

particularidades e sensibilidades do gênero, a partir de uma visão pontual de

amor/ódio; posse/falta.

A figura feminina com as características trazidas nas composições, permitem

constituir uma reflexão da mulher consigo mesma nas condições reais da sociedade

brasileira. Haja vista que é impressionante a quantidade de canções de Chico

Buarque que trazem um eu lírico feminino com tanta riqueza e, que, se ilustra na

qualidade de uma figura feminina com tanta veracidade.

Podem ser evidenciadas nas letras das duas canções escolhidas de Chico

Buarque, situações reproduzidas frequentemente nossa sociedade - mulheres

amadas e desamadas, em situações de poder doméstico e submissão, paixão,

esperanças, enfim, tudo aquilo que particulariza os humanos, ou melhor, dizendo, o

universo feminino.

Ao concretizar na música uma visão estabelecida sobre um ‗arquétipo‘

específico de mulher, pode se decifrar o que se espera do desempenho feminino na

visão do compositor.
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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. CHICO BUARQUE

Chico Buarque é um compositor da geração pós-bossa-nova que inclui, além

da bossa nova, instituída por João Gilberto, outros elementos do repertório musical

brasileiro como o tropicalismo por movimento que se inspira na antropofagia do

modernismo de Oswald de Andrade. Assim, recusa estéticas conformistas e, com

seu estilo intimista, convida o público para uma nova concepção musical entre e

além das composições brasileiras de até então.

Depois de tantas, a TV Globo emitiu pela última vez no país os festivais de

grande sucesso após a apresentação de uma série. O derradeiro foi chamado VII

Festival Internacional da Canção, em 1972 e contou com a participação de Maria

Alcina cantando "Fio Maravilha", de Jorge Bem.

Os atos institucionais foram sucessivos e desastrosos, provocando muitas

dores através de atitudes covardes e requintes de crueldade (principalmente o AI-5)

como sequelas físicas e psicológicas, quando não, mortais na sociedade brasileira.

O último dos AIs foi instituído no país em 13 de dezembro de 1968, durante a

gestão de Arthur da Costa e Silva. Foi regulamentado através deste, a permissão de

recessão do Congresso Nacional, interposição em Estados e municípios, interrupção

de direitos políticos, interdição de expressão sobre temas políticos, cancelamento da

garantia do Habeas-corpus.

Neste mesmo ano em que o Congresso é fechado, aparece o disco

―Tropicália – Panis Et Circenses‖. Neste participam Caetano, Gil, Gal, Nara Leão, Os
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Mutantes e Rogério Duprat, instaurando o Tropicalismo. O manifesto surge como a

proposta musical inovadora que, inspirada na concepção antropofágica de Oswald

de Andrade e da Semana de Arte Moderna de 22, possui como ícones uma

instalação de Hélio Oiticica chamada ―Tropicália‖, a música que Caetano compôs de

mesmo nome e que levou ao título do movimento e a peça de José Celso Martinez

Corrêa chamada O Rei da Vela.

Em busca da conservação da música brasileira, o tropicalismo congregou a

guitarra elétrica com bolero, carnaval, as músicas de raiz e elementos do rock.

Assim, músicos, cantores e compositores firmaram seus nomes na MPB até os dias

atuais.

Em 70, novos artistas aparecem para contribuir com a mesma qualidade

musical do país como Djavan, Fagner, Alceu Valença, Zé Ramalho, Pepeu Gomes,

Elba Ramalho. Outro grande marco na música brasileira foi o aparecimento da maior

intérprete do país, Elis Regina, que trouxe consigo diversas personalidades como

Ivan Lins, João Bosco e Aldir Blanc, Belchior e Renato Teixeira.

Nesse período de grande brutalidade por parte da ditadura militar, em que se

combatiam acirradamente os movimentos estudantis e sindicalistas, nascem no Rio

de Janeiro os bailes funk, contribuindo para o surgimento de nomes como Tony

Tornado, Tim Maia, Sandra Sá etc. Além disso, novos sons como o funk melody e o

charme, que passeia pela ―estética do barulho‖ presente no hip-hop (rap).

O ―Milagre Econômico‖ fortalece o empedramento militar e político em 1971 e

assim possui um caráter ―concentrador de renda, milagre pauperizador dos que já

eram pobres‖ (BUARQUE, 1980, p. 94-5). Favorecendo abertura para a chegada do


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"Clube da Esquina", em que os mineiros Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio

Borges tomam frente e abrindo espaço para Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Flávio

Venturini e Beto Guedes.

Em 1974, Médici cede a presidência ao general Ernesto Geisel. Nessa época,

insurgem diversas bandas de rock no Brasil como O Terço, Joelho de Porco, Moto

Perpétuo, Casa das Máquinas, Som Nosso de Cada Dia e o fabuloso Made In Brasil.

Ney Matogrosso destaca-se nos vocais de Secos & Molhados (com), que atingiu

estrondoso sucesso nacional.

Os militares gozaram de poderes absolutos, através dos quais estabeleceram

a censura absoluta quanto aos assuntos políticos, que era mascarada por poemas

épicos de Camões, por exemplo. Nada do que se fazia entre os militares era

repercutido pela imprensa.

Por conta disso, as canções panfletárias e proibidas viviam sobremaneira

entre os inconformados com os rumos nacionais. Em relação ao ―Milagre

Econômico‖, Julinho de Adelaide: ―O compositor Chico Buarque de Holanda foi

obrigado a criar um personagem, ao qual deu o nome de Julinho da Adelaide‖

(MAGALHÃES, 2007, p.1) compõe ―Cadê o meu, ó meu?‖, em 1973:

Cadê o meu?
Cadê o meu, ó meu?
Dizem que você se defendeu
É o milagre brasileiro
Quanto mais trabalho
Eu menos vejo o dinheiro
É o verdadeiro ―boom‖
Tu ta no bem bom
Mas eu vivo sem nenhum (apud BUARQUE, 1980, p.95).
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Vozes e nomes e rostos sofreram represálias na nação sob o domínio dos

militares que se tornava assombrada pela inescrupulosa ditadura que deixava

rastros de uma época em que o obscurantismo cerceava a possibilidade

contestatória de intelectuais e artistas. No entanto, contribuiu para o empenho em

lutar pela cultura nacional, incentivando os mesmos a desafiarem suas habilidades

criativas e inconformadas com os desajustes do país. Nesse sentido, registrou-se:

[...] o esforço do obscurantismo para impedir o desenvolvimento da cultura


nacional. Esse esforço, operado por meios cirúrgicos e brutais, de início, e
concretizado em inquéritos, cassações, demissões de mestres, exílio de
intelectuais, prisões, apreensões de livros, etc., toma, a partir do ano em
curso, forma organizada, pela valorização sistemática da mediocridade, pela
glorificação do conformismo, pela premiação dos passivos ou dos
renegados ou dos corrompidos. Mas este é um dos lados do problema, e
não é o único. Seria cego aquele que não observasse, também, o
extraordinário esforço da cultura nacional para sobreviver [...] (SODRÉ,
1966, p.159-60).

Os militares, assim que deram o golpe em 1964, declararam que Jango

desvirtuou moralmente o país. Afirmando isso, eles estavam buscando fundamentos

no pensamento positivista de August Comte que inspiraram o regime republicano no

Brasil:

Foram numerosas as influências do positivismo na organização formal da


República brasileira, entre elas o dístico Ordem e Progresso da bandeira; a
separação da Igreja e do Estado; o decreto dos feriados; o estabelecimento
do casamento civil e o exercício da liberdades religiosa e profissional; o fim
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do anonimato na imprensa; a revogação das medidas anticlericais e a


reforma educacional proposta por Benjamin Constant (SÊGA, 2007, p.1).

Nesse sentido, alegou-se que o lema da Bandeira Nacional ―Ordem e

progresso‖ não estava em pleno exercício durante o governo presidencial de João

Goulart. Entretanto, Comte e seu pensamento eximem-se da influência sobre a

crueldade praticada pelos seus porta-vozes posteriormente.


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2.2. O INÍCIO DA CARREIRA

O compositor, cantor e escritor Francisco Buarque de Hollanda nasceu na

cidade do Rio de Janeiro, em 1944: ―O meu pai era paulista/ Meu avô,

pernambucano/ O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano‖. Mas tornou-se um

homem do mundo, sobretudo do Brasil, do qual é porta-voz de suas mazelas e

curas, angústias e alegrias, enfim, um ―artista brasileiro‖ (BUARQUE, 2007, p.1).

Viveu seu início de carreira, aos 20 anos, juntamente com o processo

histórico do Brasil que se desenvolvia através do golpe em 1964 e dava início ao

período de ditadura militar em que tais anos sessenta foram marcados pelos

festivais e o surgimento de diversos artistas de talento reverenciado até os dias

atuais.

Dentre eles, surge Chico, que se especializou em artesão da palavra para

driblar a censura e atingir seu objetivo que era o de ter suas letras espalhadas pelo

país, justificando seu verso de O que Será? Que Será?: ―O que anda nas cabeças,

anda nas bocas‖ (HOLLANDA: 1980, p.93).


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2.3. PERFIL MUSICAL DE CHICO BUARQUE

O compositor afirma não ser um cantor de protesto, na medida em que sua

intenção primeira não é ser político e sim representativo, em suas canções, de uma

sociedade que, já se sabe, é sobremaneira desigual. Nesse sentido, os assuntos

acabam indo de encontro às mazelas sociais, como assevera o mesmo:

Minha música não é política, diz ele. Às vezes, tem um conteúdo social.
Mas não me considero um cantor de protesto, no sentido usual da palavra.
Claro que as coisas acabam se misturando. O artista não faz,
necessariamente, crítica social. Mas a leitura dos jornais, a observação do
quotidiano, aproveito tudo. A leitura dos jornais, principalmente, é essencial
para o meu trabalho. Tanto quanto a fantasia. E com isso vem a fusão,
confusão, transfusão (HOLLANDA: 1980, p.3).

O artista que compõe com maestria fatos e personagens e lugares e

circunstâncias das mais variadas não escreve como autobiografia, mas cria sempre.

Como em Maninha, que a lembrança é pura metáfora de uma sensibilidade que a

torna real:

Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões?...
Se lembra da jaqueira
A fruta no capim... (HOLLANDA: 1980, p.3).
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Não havia jaqueiras em São Paulo, assegura Sérgio Buarque de Hollanda,

seu pai. O mesmo acontece com as diversas mulheres registradas em canções

inesquecíveis. As Ritas e as Carolinas, mesmo a Geni, em Geni e o Zepelin, que era

um travesti, ninguém (ou quase ninguém) fez parte de sua vida realmente. Mas

muitas das Genis, até hoje, sofrem com tal estigma e refrão tão marcante e

pejorativo.

Claro que em se tratando de Luísa, a situação é bastante diferente. Sua filha

não tem esse nome por acaso. Como diz o pai: ―Bem, é claro que pra filha da gente

sempre se abre uma exceção‖. E, assim, derrama-se todo paterno em versos doces

que contam:

Por ela é que faço bonito


Por ela é que faço o palhaço
Por ela é que saio do tom...
É pra ela que eu faço cartaz
É por ela que eu espanto
De casa as sombras da rua
Faço a lua
Faço a brisa
Pra Luísa dormir em paz (HOLLANDA: 1980, p.3).

O tom selecionado para a última estrofe de ―Meu caro Amigo‖ foi o de

despedida. Nota-se o beijo, cumprimento tradicional de término de diálogo, que

aproxima os ―amigos‖ interlocutores, além do compositor, intencionalmente,

selecionar nomes conhecidos de parentesco — Marieta, ex-esposa de Chico — que

deflagram a intenção de registrar intimidade:


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A Marieta manda um beijo para os seus


Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus (BUARQUE: 2007, p.1).

Quando o compositor diz ―a todo pessoal‖, pode remeter tanto à grande

quantidade de exilados os quais se aproximavam, na medida em que dividiam suas

dores e acabam por formar nova família longe do país, como, também, à morte de

tantos homens e mulheres, que foram sucumbidos pela ditadura cruel que reinava

no Brasil.

Além disso, a palavra ―adeus‖ é usada para um cumprimento de despedida.

Tal saudação de separação deflagra um final pessimista em que está contida a

dificuldade da proximidade entre eles, desde o início da canção.

Assim que se pretende desmitificar a concepção de que Chico é apenas

letrista, haja vista que a poesia é arte de brincar com as palavras e transcender a

realidade através de uma alquimia com as palavras. E Chico é esse mestre que

metaforiza a vida quando produz signos novos e subverte o sistema linguístico.

Também outro caso em que a exceção lhe escapa é o de Zuzu Angel, mãe de

um preso político (1971) que, como muitos, foi morto. Em Angélica, Chico comove-

se e comove a todos quando aponta: ―Quem é essa mulher/ Que canta como dobra

um sino/ Queria cantar por meu menino/ Que ele já não pode mais cantar‖

(HOLLANDA: 1980, p. 3).

Essa sensibilidade e facilidade em expor suas concepções acerca da vida e

através de palavras foram construídas desde menino, por uma família intelectual em
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que seu pai Sérgio Buarque de Hollanda é historiador e crítico literário respeitado em

todo Brasil e sua mãe, pianista-concertista Maria Amélia Buarque de Hollanda.

Por conta dessa ascendência, sua casa era ponto de encontro de diversos

artistas e intelectuais, com os quais Chico aprendeu muito e tornou-se, em alguns

casos, parceiro como Tom Jobim e Vinícius de Morais: ―Meu maestro soberano/ Foi

Antônio Brasileiro‖ (BUARQUE, 2007, p. 1).

Além de ter com incentivadora, sua irmã Heloísa (Miúcha) que já tocava e

cantava com seus amigos quando surgia o grande nome da bossa nova, João

Gilberto, seu futuro cunhado. Este trazia a música e a poesia como cúmplices desse

novo ritmo em sua desafinação articulada.

[...] ao introduzir um registro musical intimista semelhante ao do cool jazz, a


bossa nova harmonizar-se-ia com o ideário de racionalidade, despojamento
e funcionalismo que teria caracterizado várias manifestações culturais do
período. Vale acrescentar que se valoriza, nesta tendência, o procedimento
bossa-novista de ruptura com tradições anteriores da música popular no
Brasil. Assim, tal como os poetas concretos, que teriam rompido com as
tradições retórico-discursiva e subjetivista na literatura, os músicos da bossa
nova, notadamente João Gilberto, pautariam o seu trabalho pela rejeição
dos sambas-canções e dos boleros melodramáticos do período anterior, e
da maneira operística de interpretar estas canções, ao estilo de Dalva de
Oliveira e outros cantores do período (NAVES: 2007, p.1).

Muito do que se ouvia em rádios ou vitrolas até então era modinhas, chorinho,

samba, marchas e serestas. E João Gilberto trouxe nova concepção musical, uma

inovadora maneira de tocar e cantar, que destoava de tudo o que se tinha feito. Por
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isso que Chico ficou tão deslumbrado com o compositor a ponto de não se esquecer

de seu primeiro disco Chega de saudade:

Fiquei horas e horas e horas ouvindo e tal, e foi só a partir daí que eu
comecei a pegar no violão, a tentar imitar a batida da bossa nova, a fazer
minhas primeiras músicas, imitando a bossa, cantando à la João. É um cara
que fez a cabeça de uma geração inteira (HOLLANDA: 1980, p.4).

O escritor perspicaz que se debruça sobre os problemas de uma sociedade

cheia de desigualdades, vê-se cada vez mais abastecido, com um repertório musical

tão vasto quanto a quantidade de marginalizados e excluídos de um país que ignora

o sofrimento alheio. Tal atitude tão apartada deste intelectual comprometido contribui

para que suas personagens tenham alguma vez ou alguma voz na terra de ―alguns‖:

E um perfil das personagens mais freqüentes [sic] em suas canções nos


levará à figura do marginal, do desvalido — pondo assim a nu a
negatividade da sociedade. Uma galeria imensa que engrossará a ―romaria
dos mutilados‖ de que se fala em O que será, daqueles que foram mutilados
física ou socialmente: os infelizes, as meretrizes, os bandidos, os desvalidos
— ao que vêm se acrescentar as mulheres abandonadas, os pivetes, os
operários, os pedreiros, o malandro. O mesmo tipo de personagem que o
poeta arrolará para o seu festival, em Mambembe: ―cigano, mendigo,
malandro, moleque, molambo, bem ou mal/ escravo fugido, louco varrido;
vou fazer meu festival/ mambembe/ cigano/ debaixo da ponte/ cantando/ .../
na boca do poço/ cantando/ poeta, palhaço, pirata, corisco, errante judeu/
cantando/ dormindo na estrada, não é nada, não é nada e esse mundo é
todo meu‖. Também na Ópera do Malandro surgirá essa gente, na passeata
que fará vacilar a ―desordem estabelecida‖, tecida da cumplicidade entre o
poder policial e o explorador (HOLLANDA: 1980, p.98).
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No entanto, Chico é muito consciente quando observa o caráter essencial

representado pela subversão do artista, peça fundamental na engrenagem criativa

que possibilita a modificação de uma realidade que se quer preterida:

Eu acho que o homem vai ter que se modificar, pelo próprio instinto de
sobrevivência. Não acredito que isso vá acontecer por influência de um
indivíduo, muito menos por ordens superiores. A sociedade é que deve se
aperfeiçoar por uma dinâmica própria, de baixo pra cima, com a
participação da grande massa de indivíduos, certo? Quer dizer, o homem
modificando a sociedade para a sociedade modificar o homem. Isso pode
parecer utópico, mas, como eu já lhe disse, eu sou artista e não político;
nem sociólogo. É nessa utopia que entra a contribuição da arte que não só
testemunha o seu tempo, como tem licença poética pra imaginar tempos
melhores (BUARQUE: 1976, p.4).

Essa característica de ―meter a boca no mundo‖ de Chico é marcada pela

força de suas letras desde os primórdios de suas composições bem vincadas em

preocupações relevantes e fundamentais incessantemente discutidas pela

sociedade brasileira, sobretudo, na atualidade, que se demonstra em regresso total

— principalmente em relação ao desequilíbrio social.

Nesse sentido, o compositor não deixa de ser político, mas também não

aponta saídas. Sua função é a de retratar suas inquietações, como fotos, expostas

para serem analisadas por quem não vê ou finge não ver ou acredita não precisar

enxergar.

Seguindo esse pressuposto, Chico reconhece sua responsabilidade como

artista, estandarte de sua pátria, levando alento e desvendando as mascaradas


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falhas de um país de marginalizados. Com a convicção de estar cumprindo seu

papel, o cantor assume:

A ordem é uma palavra que não rima com a arte, nem nunca vai rimar. Os
artistas estão aí justamente para perturbar a ordem e nisso sempre
estiveram - não adianta agora querer mudar a História. De alguma maneira,
nós, os artistas, sempre vamos perturbar a ordem, e note que não estou
falando nem da arte diretamente política, do tipo ―canção de protesto‖
(BUARQUE: 1977, p.5)

Esta habilidade discursiva quando incorporada ao seu talento criativo, é a

mola-mestra de sua produção artística que descreve e registra sua existência

artística na sociedade e, sobretudo, na época em que vive, a qual o encharcou (e

encharca) de angústias e o predispôs à criação.

A multiplicidade de atividades e demonstrações de inumeráveis aptidões que

vão desde compositor, dramaturgo e escritor acaba por convergir em uma

personalidade que de tão especial, transpassa fronteiras e classificações de gêneros

e estilos, sob o signo de poeta.

Esse manipulador da palavra vai buscar sua fonte na ‗boca do povo‘,


tentando captá-lo através da pulsação profunda de sua vida, que é a sua
fala. Daí a utilização tão frequente [sic], por Chico, do lugar-comum, dos
ditos, dos provérbios, das frases feitas. Que se pense no emprego saboroso
do dito popular ‗o que era doce acabou-se‘, presente não apenas em A
Banda, mas também em Você não Ouviu: ‗Ai eu lhe trouxe rosas/ Ai eu lhe
trouxe um doce/ As rosas vão murchando/ E o que era doce acabou-se‘ No
entanto, Chico não utiliza passivamente esses ‗lugares-comuns‘, mas age
ludicamente: brinca com eles, parodia, cria trocadilhos, frustra expectativas
montadas (HOLLANDA: 1980, p.101).
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Em suas letras que buscam um retrato ou uma retratação, Buarque caminha

pela poesia nostálgica que rejeita a realidade presente, pela poesia utópica, em que

se faz um trajeto fora do real, sempre incomodado com a situação concreta e atual

dos dias em que se vive, assumindo uma postura crítica que verte à sátira social.

Nesse sentido, o poeta tem o domínio discursivo quando lapida a palavra a

ponto de torná-la imagem, construindo, sempre incisivamente, um ambiente tão

próximo ao legítimo que, ao contato com sua música, deflagra-se a realidade.


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3. RELEVÂNCIA DA OBRA DE CHICO BUARQUE

Como se vem referenciando esta pesquisa objetiva através de uma

releitura de textos, apontar e identificar a relevância das obras de Chico

Buarque, ressaltando sua importância como representante da música popular

brasileira – MPB, recebendo prestígio no meio musical devido a sua habilidade

com a música, principalmente nos anos 1960, época marcada por muita agitação

política.

Chico Buarque ressalta a singularidade da geração a que pertence e, sem

dúvida, o cenário musical enriquece com suas contribuições musicais e literárias.

Além de caracterizar como uma figura emblemática deste momento, não só pela

importância como constituído do gosto musical do período, revelando-se um

hábil artesão ao trabalhar com música e letra.

Chico Buarque é uma figura de destaque entre os músicos dessa geração,


integrando inclusive a parcela engajada na luta pela democracia e por
reformas sociais. O surgimento de Chico Buarque como músico ocorreu
num período de intensas transformações na sociedade brasileira, de
crescente urbanização, industrialização e acesso aos bens culturais.
(PINTO, 2007, p. 28).

Foi no período em que ocorreu a ditadura militar, onde a política brasileira era

governada por Generais (1964 - 1985) que a carreira de Chico Buarque iniciou-se.

Note-se que a carreira do cantor e compositor foi muito marcada nesse período,

assinalada pela falta de democracia, por perseguição política e censura. Neste


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tempo as suas canções e peças teatrais foram vetadas pelos órgãos censores da

época, sendo liberados somente alguns anos depois. (AMARAL e SOUSA, 2012, p.

06).

Hoje em dia, Chico Buarque dispõe de mais de 300 composições e

aproximadamente 35 discos gravados. Conforme SOARES, (2007, p. 4):

Chico Buarque, desde os anos 1960, vem compondo canções, sozinho ou


em parceria. Participou de festivais de Música Popular Brasileira, publicou
livros e escreveu textos de dramaturgia, além de assinar uma extensa
discografia como compositor e intérprete, tornando-se um profissional de
alta apreciação, reconhecido por público e crítica no Brasil e no exterior.

Baseado na leitura de AMARAL e SOUSA (2012) sobre Chico Buarque

percebe-se que o compositor foi um dos mais perseguidos pelo regime militar, visto

que suas composições denunciavam o país em vários aspectos: sociais, culturais e

econômicos. Tendo música com algumas palavras e frases substituídas e outras

proibidas.

Segundo os mesmos autores, no período entre 1969 e 1970, Chico morou

novamente na Itália, onde se exilou, passando por momentos difíceis

financeiramente, porém, esse tempo de exílio proporcionou o contato com

compositores estrangeiros com os quais ele pode trocar experiências, o que resultou

no seu aperfeiçoamento enquanto compositor.

Nesse contexto, Chico Buarque se transformou em um dos maiores

representantes da Música Popular Brasileira, representando o Brasil através de suas


25

canções, por meio das quais mostra as suas percepções em relação à realidade

brasileira da época. (AMARAL & SOUSA, 2012)

Vale ressaltar que as obras de Chico Buarque o levaram a conquistar grande

reconhecimento pelas suas composições e obras literárias, bem como, se tornar um

dos maiores representantes desse gênero musical, destacando-se pela qualidade da

elaboração crítica de suas obras.

Vê-se que num momento em que a sociedade brasileira tinha sua liberdade

de expressão restringida e sofria com a repressão imposta pelo governo militar,

eram os artistas que exerciam um importante papel como formadores de opinião,

como porta-vozes de um povo que lutava pela redemocratização do país. (AMARAL

& SOUSA, 2012)

Tem-se na obra musical buarquiana elementos de várias discussões e objeto

de estudos, buscando fazer as interpretações da mesma sob vários olhares e

percepções, devido as letras que são bem elaboradas, nas quais utiliza-se uma

linguagem simples e, ao mesmo tempo sofisticada, com muita atenção na

combinação das palavras, de tal modo que atingem todas as classes sociais.

Ressaltando também sua melodia, ritmo e harmonia que aparecem em suas

canções de várias formas, permitindo várias interpretações acerca das mesmas.

O trabalho de Chico Buarque já foi analisado por especialistas das mais


diversas áreas do conhecimento além da Sociologia. Literatos, linguistas,
historiadores, psicólogos e, obviamente, musicólogos, dedicaram-se ao seu
estudo (PINTO, 2007, p. 14).
26

Visto que é um autor tão relevante no contexto brasileiro e os diversos temas

que poderíamos destacar em um estudo, optou-se por objeto de discussão aqui, a

presença da mulher nas obras de Chico Buarque, pela capacidade que ele tem de

incorporar o feminino, falando dos desejos reprimidos e dos anseios desse gênero.
27

4. IMPORTÂNCIA DA PRESENÇA FEMININA NA OBRA DE CHICO BUARQUE

Chico Buarque além de ser um autor de várias composições, é um grande

ilustrador do universo feminino. Daí a importância aqui de realizar uma leitura do eu

feminino nas letras devido a sua importância no cenário sociopolítico brasileiro.

Percebe-se que a mulher é sempre uma presença marcante na natureza

dessas letras. Contudo, a inter-relação da mulher interpretada e bem demarcada,

não pode ser poetizada sem a presença masculina na composição Buarqueana.

Uma não existe sem a outra. (CUNHA et. al.,2010)

CUNHA et. al. (2010) refere que as figuras de mulheres presentes em suas

composições são idealizadas e estereotipadas, de importância imensurável na

história cultural brasileira, assim como a complexidade e encanto nas letras ser um

fator de aproximação de um público quase não leitor ao universo poético, no

entanto, atraído pela musicalidade das poesias.

E mesmo quando busca a função referencial - causar a impressão ao leitor


de, realmente, ouvir, no texto, a voz feminina – tem total liberdade para criar
a sua própria imagem do feminino, já que, na realidade, o feminino nada
mais é do que uma extensão do humano, cuja característica fundamental é
a singularidade, que não permite estereotipá-lo, já que o humano é instável
e mutável no tempo e no espaço. (MAGALHÃES, 2009)

A figura do feminino na lírica do autor e compositor contemporâneo Chico

Buarque, apresenta-se popular por cantar com apreço e sensibilidade a alma das
28

mulheres. Essas impressões percebidas aludem uma realidade que o discurso de

Chico Buarque causa no leitor.


29

5. INTERESSE PELA VOZ FEMININA NA OBRA DO AUTOR EM “COM

AÇÚCAR, COM AFETO” E “COTODIANO”

É inegável, o interesse delineado nas obras de Chico Buarque acerca da

mulher como voz. Tal situação se repete na obra de Chico Buarque, principalmente

aquela anterior a 1980, na figura da mulher que monologa e, ao monologar, inscreve

no horizonte de seu discurso, um homem, não raro, uma espécie de algoz-amante

ou amante-algoz. (JUNIOR, 2008, p. 05). Este aspecto fica implícito nas

composições selecionadas para análise.

Em ―Com açúcar, com afeto‖, observa-se o ―sujeito amoroso‖ se anula em

inseguranças para com o outro, e, sobretudo, a certeza de ter o seu amor ferido.

Este personagem da canção não lamenta com lágrimas a falta do outro, ela

simplesmente espera. Consequência da vida a dois. A devoção para com o outro,

de ―Com açúcar, com afeto‖ manifesta-se vítima do cotidiano. Preso ao rito do

costume, o marido retorna ao lar, sôfrego, pede desculpas, chora o perdão da

esposa, que pacientemente perdoa. A comida, feita anteriormente o esperava ao

fogão, e o beijo no retrato do marido evidencia que a perfeição deste existe apenas

na fotografia:

Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança


Pra chorar o meu perdão, qual o quê!
Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer? Qual o quê!
30

Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato


E abro os meus braços pra você. (BUARQUE, 1966).

CRUZ & GABRIEL (2008) referem que:

A autora toma como exemplo a música ―Com açúcar e com afeto‖ (1966).
―Com açúcar, com afeto/ Fiz seu doce predileto? Pra você parar em casa
[...] diz pra eu não ficar sentida/ Diz que vai mudar de vida/ Pra agradar meu
coração/ E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho e maltratado/ Ainda quis
me aborrecer [...] logo vou esquentar seu prato/ Dou um beijo em seu
retrato/ E abro meus braços pra você‖. Esta música inaugura uma nova
feição, evidenciando a vida modesta do assalariado [...], o surgimento do
confronto entre a mulher e o samba. Com a diferença que nesta a voz é
feminina e, enquanto ela espera, preparando o doce do amante, ele
aproveita a noite com os seus amigos e com o seu samba.

A expressão construída por uma voz feminina nestas duas obras

especificamente, está pautada à impressão de realidade que o discurso de Chico

Buarque causa no leitor. Com açúcar, com afeto (1966) e Cotidiano (1971), canções

escolhidas para este trabalho, retratam histórias que se aproximam de experiências

cotidianas, o que permite estabelecer certa empatia e identificação entre o público e

as canções, não deixando de ressaltar a presença da mulher fortemente valorizada

por Chico Buarque.

As músicas de Chico valorizam a mulher através dos olhos do homem. A


atitude de valorizar a mulher como ser humano é revelada na pluralidade de
poemas que, de maneira direta ou indireta, revelam comportamentos que
fogem aos padrões aceitos socialmente. Nota-se a sensibilidade do eu
31

poético do compositor em relação ao sofrimento da mulher identificando-a


como ‗malcasada‘, ‗mal-amada‘, desvalorizada e desrespeitada
socialmente. (CRUZ & GABRIEL, 2008, p.04)

Estas composições são caracterizadas por textos que marcam a temática

amorosa e do cotidiano como já dito anteriormente, porém, de alguma forma isso

inscreve o modelo feminino que era legitimado pela própria sociedade: a mulher

submissa e apaixonada que sofre pelo amor perdido. (FONTES, 2003).

Entretanto, as canções buarqueanas ajudaram na visualização do desejo de


liberdade feminina. Através das letras politizadas e com seu eu lírico
feminino, instigava o universo das mulheres. A atitude de valorizar a mulher
como ser humano transparece nas canções buarqueanas que diretamente
fazem alusão à infração das leis morais, como na mulher prostituta ou
homossexual. Neste universo, destacamos várias mulheres: a mulher
possessiva, a romântica, a dona-de-casa, a desafiante, a homossexual,
dentre estas, valor especial recebe a parcela transgressora do sistema
social. (CRUZ & GABRIEL, 2008, p. 07).

Quem sabe o que mais seduz na poesia de Chico Buarque, referente a figura

do feminino, repousa na extensão das expressões, que não atém apenas o ser-

mulher, mas consente transitar entre os diferentes sentimentos humanos realçados

através de poesia de uma forma suave e melódica. Levanta-se a pressuposição de

que Chico Buarque sabe o que o público feminino gosta de ouvir.

Percebe-se que a voz do feminino percorre uma quantidade significativa de

composições de Chico Buarque, ora através do homem que se feminiza em busca

de seu objeto de desejo, ora através das mulheres, que colocam o protagonista

diante de sua falta original.


32

Ora, Chico Buarque, como excelente poeta que é apenas descreve uma
situação com a finalidade de conduzir o leitor às próprias conclusões.
Mostrar a realidade da maioria das mulheres brasileiras não é ser machista
tampouco desleal com a figura feminina. (MAGALHÃES, 2009, p.08).

A voz do feminino pode ser encontrada nas protagonistas competentes de

"Com açúcar, com afeto" e "Cotidiano", que remata seu homem num abraço de ferro

de um cotidianismo insuportável, metafórico e literal ("me aperta pra eu quase

sufocar"), presente sempre no contexto de uma relação afetiva que se desvenda o

fundamental da mulher. (MENESES, 2003).

A mulher tantas vezes cantada por Chico Buarque ainda aguarda


passivamente o marido, o senhor, o homem da casa, enquanto se dedica
aos afazeres domésticos – logo vou esquentar seu prato. O que se percebe
é uma figura feminina depositária de um modelo familiar privado, separando
o espaço público e a casa, tornando-os complementos de uma estruturação
social assimétrica. Ao homem, o direito à rua, à liberdade de ir e vir. À
mulher, o lar e o direito à obediência. Sempre de bom grado, afinal, ela é
amorosa e submissa por ―natureza‖ – dou um beijo em seu retrato e abro os
meus braços pra você. (FARIA & SILVA,2010).

Ainda no trecho da composição ‗Com açúcar, com afeto‘ percebe-se, de

acordo com (FARIA & SILVA, 2010), que durante este eterno imaginar, a mulher

buarquiana dos anos 60 aceita passivamente, entre outros fatores, a traição

conjugal, presa a uma visão romântica como justificativa da histórica passividade

feminina:
33

Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol

A mulher que ganha voz nessa letra de canção é diferente de outras figuras

femininas buarquiana, que dão vazão a sensualidade e sexualidade (MAGALHÃES,

2009, p. 07). Já neste outro estereótipo de mulher, pode ser encontrada na

composição ‗Cotidiano‘, a mulher que cuida da casa, que espera o seu homem,

porém que agora se apresenta como alguém que possui desejos e que os manifesta

– diz que está muito louca pra beijar. (FARIA & SILVA, 2010, p. 12).

Ainda na composição ‗Cotidiano‘, vê-se que ao lado do homem romântico que

convida a mulher para dançar, persistiria a figura do macho tradicional, para quem a

relação doméstica é pautada na repetição das cotidianas assimetrias (FARIA &

SILVA, 2010, p. 12):

Todo dia ela faz tudo sempre igual


Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

No seu estudo FARIA & SILVA (2010, p. 12) mencionam que na mesma

canção é apresentada uma mulher menos submissa e mais disponível à descoberta

de sua sexualidade, marcando em meio às contradições que vem definindo

historicamente o processo de liberação feminina:


34

Seis da tarde como era de se esperar


Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão

Por fim, de acordo com FARIA & SILVA (2010, p. 13) a voz feminina em Chico

Buarque passa a fazer coro com esse masculino em processo de revisão. Uma vez

ultrapassado o limite da janela, as mulheres ganham o mercado de trabalho, o

espaço público, a vida política.


35

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nas considerações finais aqui descritas, buscasse um levantamento de tudo

aquilo que foi visto no decorrer do trabalho. Ressaltasse a importância de Chico

Buarque no contexto brasileiro e sua obra; a presença da figura feminina em suas

canções; e como esses personagens, essa ―voz‖ se configurou nas músicas, como

aspectos norteadores da pesquisa.

Quando falamos em Chico Buarque, muitos ainda podem se perguntar:

―Quem é este?‖; ―Que importância o mesmo tem na sociedade brasileira?‖ etc.

Optou-se por destacar Chico Buarque, embasados na figura de destaque que é

entre os músicos da geração que o mesmo pertence.

Francisco Buarque de Hollanda começou sua carreira, aos 20 anos, na época

em que surgia e se desenvolvia a ditadura militar no Brasil. O músico, compositor e

escritor, iniciou suas composições tomando como exemplos os artistas consagrados

da Bossa Nova. Com seu talento inegável, destacou-se entre tantos devido a sua

contribuição nas lutas pela democracia e por reformas sociais.

Teve sua ascensão justamente nesse período de grande brutalidade da

ditadura militar, em que se combatiam acirradamente os movimentos estudantis e

sindicalistas. O artista compunha e compõe com maestria fatos e personagens e

lugares e circunstâncias das mais variadas, não escrevendo como autobiografia,

mas criando.

Quando retomado aos temas encontrados em suas canções e o destacam

como músico que compõe ―músicas de protesto‖, o próprio não afirma ser um cantor
36

de protesto, já que sua intenção primária não é ser político, e sim, um individuo

representativo em suas canções de uma sociedade desigual. Os assuntos, portanto,

vão de encontro as realidades sociais, por representação.

Pelo destaque em suas canções, Chico foi por vezes perseguido pelos

militares, muitas vezes se exilando. Teve diversas canções com palavras

substituídas e outras até mesmo proibidas, visto que denunciavam, poeticamente, a

realidade da época.

Dentre esses e tantos outros aspectos é que justifica a escolha desse autor

para analise. O que se buscou aprofundar, entretanto nesse trabalho, foi a

presença da figura feminina nas canções de Chico.

As músicas escolhidas para análise, como visto, foram ―Com açúcar, com

afeto‖ e ―Cotidiano‖. Os motivos que levaram a escolha de tais músicas foram,

primeiramente o destaque à voz feminina presente, e também, a visão que se tem

da mulher nas canções.

―Com açúcar, com afeto‖ foi a primeira canção feita por Chico em que a ‗voz‘

que se mantém, o eu lírico da canção, é uma mulher. O que se analisa é a

habilidade que o compositor com sua poética e visão, portanto, masculina,

conseguia e consegue descrever e esmiuçar tão delicadamente os sentimentos e

sensações femininas. A mulher que ganha voz nessa canção é, pois então, aquela

mulher submissa, que passivamente espera o marido, o homem em casa,

dedicando-se também aos afazeres domésticos. O que se percebe é uma figura

feminina totalmente apartada da relação com o espaço público, sendo caracterizada


37

e pertencente ao modelo familiar privativo. O homem, entretanto, com plenos direitos

de ir e vir, o lar e o direito de obediência da mulher.

Esse olhar para a mulher nos dias atuais, seria brutalmente menosprezado,

afinal são comportamentos que fogem aos padrões aceitos socialmente. Contudo,

destaca-se a sensibilidade do eu poético do compositor em relação ao sofrimento da

mulher identificando-a como ‗malcasada‘, ‗mal-amada‘, desvalorizada e

desrespeitada socialmente. É a partir dessa análise que pode se entender também a

ascensão de Chico Buarque e o destaque de suas canções. A mulher começa a

perceber essa desvalorização e a buscar, na sociedade, seu destaque, seus

méritos, seus direitos igualitários.

Chico Buarque sendo conhecido como o músico que entende da alma

feminina, muitas vezes foi criticado por descrever em suas canções aquilo que as

mulheres gostariam de ouvir, portanto, segundo críticos usava disso para que seu

prestígio fosse rápido. As hipóteses existem sim. E com o que se estuda das

canções e contextos da mulher na sociedade, pode-se até concordar com tais

opiniões. No entanto, o fato é que usando da razão ou não para se ―promover‖, ele

consegue poetizar e descrever os sentimentos femininos e suas peculiaridades.

A segunda canção ―Cotidiano‖ foi escolhida propositadamente, como recurso

de continuação ao tema da primeira escolhida. ―Cotidiano‖ também revelará esse

universo feminino submisso àquele que é provedor do lar, submissão ao homem.

Arquétipo de mulher idealizada, por muitos, até mesmo nos dias atuais.

Em ―Cotidiano‖, porém, o eu lírico não é uma mulher, e sim a voz masculina

descrevendo os comportamentos femininos. Contudo encontramos essa ‗voz‘


38

feminina que é nossa busca de análise também, e é nesse pequeno trecho que a

mulher ganha voz que contextualizamos a mulher e seu começo de luta por aquilo

que deseja e busca. A mulher ainda é aquela que cuida da casa, que espera o

marido, como visto em ―Com açúcar, com afeto‖, porém agora se apresenta como

alguém que possui desejos e que os manifesta – diz que está muito louca pra beijar.

Nos é apresentado não mais aquela totalmente subordinada e que aceita até

mesmo a traição do marido. Agora temos uma menos submissa e mais disponível à

descoberta de sua sexualidade. Marca-se nesta, aquilo que dificultosamente vem se

definindo na história que é o espaço feminino conquistado.

Muitas músicas do compositor poderiam ser escolhidas, mas optou-se por

aquelas que foram exemplos do início da jornada feminina pelos seus direitos. Um

exemplo clássico da submissão e um exemplo daquela que começa a ganhar voz no

lar, na sociedade.

A partir dai, fazemos uma retrospectiva do papel feminino e pensamos na

mulher pós-moderna, totalmente independente e livre.

Por fim, destacando o autor, Chico consegue descrever e contextualizar

poeticamente, de maneira suave e melódica, situações reproduzidas frequentemente

na sociedade, e sentimentalismos essenciais que particularizam os humanos, e

sobremaneira o universo feminino.


39

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