Você está na página 1de 33

A Coleção dos

Sentidos
Le
L yP
eccy erre
Pe aS
eiirra ou
So ussa
a

Neolivros
A Coleção dos Sentidos

A Coleção dos Sentidos


Lecy Pereira Sousa

2
A Coleção dos Sentidos

Título: A coleção dos sentidos

Autor: Lecy Pereira de Sousa

lecysousa@contagemtem.com.br

O copyright dos livros digitais (ebooks) publicados na Neolivros


permanece na posse dos respectivos autores. É
permitida a reprodução caso o formato original deste
PDF seja preservado. É proibida a venda, aluguer ou
qualquer outro tipo de aproveitamento comercial.

Editor: Neolivros

Edição nº: 2005/2-CNL

3
A Coleção dos Sentidos

O Autor

A Coleção dos sentidos é constituída por mini-contos ou flashes


narrativos que têm como fio condutor os sentidos humanos mais
conhecidos: visão, tato, olfato, audição e paladar.

A proposta é criar atmosferas ficcionais a partir das inúmeras


referências que compõem meu universo imaginário, não sem
acrescentar pitadas generosas de ironia, sarcasmo e humor. Algumas
vezes os sentidos se confundem, intencionalmente, revelando a
constante oscilação em que vive o ser humano e como um
determinado sentido ganha mais importância na ausência de outro.

É perceptível o contorno de universalidade, uma atemporalidade e


uma ausência de limites geográficos que o pós-modernismo nos
propõe. Não há personagens marcantes, mas sensações e situações
que ganham intensidade e relevância em narrativas primárias e até
banais. Para mim, a visão é o sentido que mais se destaca e os
demais estão em pé de igualdade.

O objetivo é que esses arremedos de contos ganhem uma


continuidade no cérebro do leitor ou sejam reinventados, deletados
ou esquecidos ao seu bel prazer. Ninguém é mais “senhor” daquilo
que publica.

4
A Coleção dos Sentidos

ÍNDICE

VISUAIS

1 –15 de janeiro, 14 horas

2 –Cegueira

3 –Vouyer

4 –Palavras da destruição

5 –Festa animal

6 –Fotos de um álbum inexistente

7 –A narrativa do desencanto

8 –O azul em movimento

9 –Meio-dia abstrato

10 –Imitando Picasso

OLFATIVOS

1 –A essência ausente

2 –O jogo dos sete erros

3 –Odores e andanças

4 –Coisa de cinema

5 –Último desejo

CINESTÉSICOS

1 –Vida em trânsito

2 –Voando baixo em Xangai

3 –Ode à inutilidade

4 –Lúcia que retesou os músculos

5 –Uma doce sensação

5
A Coleção dos Sentidos

AUDITIVOS

1 –Ao pé do ouvido

2 –Coquetel de ruídos

3 –Penélope e o som do sentimento

4 –Sussurro vegetal

5 –Enquanto as baleias cantam

GUSTATIVOS

1 –O sabor que não diz seu nome

2 –Memorável banquete

3 –Existência estomacal

4 –Sabor de liberdade

5 –Sonho de uma noite de Verão

6
A Coleção dos Sentidos

VISUAIS

15 de janeiro, 14 horas

Júnia não tira seus óculos de armação preta e grossa para nada. Seu
formato é aquele que as pessoas chamam de olhos de gato. Nesse
caso são olhos de gata. Bem, não sei. Em suas mãos, uma carta que
havia chegado mais cedo. A propósito, embora essa observação seja
sintaticamente inútil, ela chegou a ter um affair com o carteiro que
jamais fez estágio para santo.

Ela abre o envelope, sem remetente, lê o conteúdo e, em segundos,


sua glote se fecha. Sem ar, Júnia começa a se debater. Caem os
óculos e, na seqüência ela cai desfalecida no chão de paviflex. Está
morta. Na carta, ainda entre seus dedos, os dizeres: “Querida, minha
ânsia é enorme por ver-te. Por favor, aguarde-me em casa, pois devo
chegar no dia 15 de janeiro, pelas duas da tarde. Beijos.”

No calendário de parede: 15 de janeiro. No relógio de mesa: 14:05.

Cegueira

Dia amarelo-ouro.

Um exército de formigas selvagens marcha rumo à guerra sangrenta.


Ninguém presta atenção no louva-a-deus.

7
A Coleção dos Sentidos

Vouyer

Na sala, tira os pesados brincos feitos de cavalos-marinhos.


Facilmente livra-se da blusa. Suspirando, desabotoa a calça com
lycra. Quase em transe, coloca a mão sobre a zona erógena e,
subitamente, enfia o olho no buraco da fechadura da porta do quarto.
Isso foi o que consegui ver.

Palavras da destruição

Elas chegaram feito cumprimento de profecia.

Alongaram-se pelo asfalto das ruas e ramificaram por vielas e becos ,


ostentando uma bandeira: destruição.

Algumas ardilosas, outras mascaradas, mentirosas, pestilentas. Suas


formas vinham recheadas de objetos puntiformes e cortantes.

Elas romperam líquidas e sulfurosas. As palavras meigas e doces


foram tomadas de assalto (uma das palavras mais em voga na
atualidade). A palavra respeito e suas derivadas foram literalmente
dissolvidas. Claro estava que não ficaria mágoa sobre mágoa.

Todos e tudo sofreram a corrosão daquelas palavras ácidas.

Enquanto isso, Jeremias, o profeta, pressentindo o fim verborrágico,


gritava, em tom de advertência, sobre um monte: - EU ESCREVI! EU
ESCREVI!

Festa animal

Então, meio sem querer, o cavalo dançava sem sair do lugar. A sua
atitude era suspeitíssima, posto que ele se mantinha afastado da

8
A Coleção dos Sentidos

galinha, do cachorro, da oncinha, do gato, da zebra enfim, da fauna


que bombava aquela balada. O DJ, que era uma foquinha de nariz
vermelho, havia discotecado de tudo, desde Asa Branca de Luiz
Gonzaga até Bring on the night de Sting.

O mundo dava voltas absurdas na cabeça do cavalo que, além de ter


tomado quase todas, sentia-se rodopiando com aquela túnica cor de
vinho. Seus olhos se mantinham fixos na gatinha vestida de veludo
azul, enquanto sua mão direita roçava uma pistola preta, automática
e com silenciador. Uma coisa de cinema. Traição? Alta espionagem?

A gatinha correu através do salão de chão quadriculado em formato


de tabuleiro de xadrez em preto e branco. Gritos da bicharada. O
cavalo apontou a pistola numa direção. A gatinha saltou do janelão
branco daquela mansão e escapou pelo telhado colonial.

Era noite de inverno. Festa à fantasia. Devido a fuga alucinada da


gatinha, o leão da festa decidiu comer o cavalo.

Fotos de um álbum inexistente

Essa da esquerda, a de tubinho preto é a Jéssica, que cursa Biologia


na universidade, viu? A que está à direita dela é a Josefa que fugiu da
casa dos pais, alugou um apartamento de um quarto e tem tudo
sobre a cantora Marina Lima. Ela já me enviou uma carta dizendo
que também se amarra no visual da cantora americana K.D. Lang.

Esse sou eu olhando para o céu, tentando entender o mistério da


madrugada na festa de aniversário da minha amiga Leila. Naquela
altura da festa, todos estavam dizendo eu te amo até sem querer.
Olha essa lua... São Jorge é uma figura bem egoísta. Imagina,
galopar sozinho nessa bola elétrica...

9
A Coleção dos Sentidos

Agora é a fazenda do seu Afonso. A gente passou umas férias lá. Essa
foto é mágica. Vê essa mocinha de branco atrás do ipê amarelo? Ela
não estava lá quando eu cliquei o cenário. Todos testemunharam,
mas ninguém explica coisa alguma.

Você está vendo essa loira de calça jeans justíssima? Essa foto foi
tirada num fórum . Para começar, os cabelos dela não são realmente
loiros. Eles são castanhos-escuros. Depois, ela foi, até pouco tempo,
Leonel Jean Siqueira, mas continua sendo pai de dois filhos. Ele ou
ela , dependendo do ponto de vista, é um antropólogo
respeitadíssimo no meio acadêmico e publica diversos artigos em
revistas científicas.

Aqui, eu novamente. Após uma preparação psicológica à base de


malte e álcool destilado, eu estava na portinhola do avião, pronto
para o meu primeiro salto de pára-quedas solo. Um dia antes, li O ser
e o nada de Sartre. Quando saltei, não sabia se gritava “Jerônimo”ou
“Ai, Jesus!”

Nessa sessão de recuerdos não poderia faltar essa: eu no centro da


cidade, um sorriso maroto no rosto e um muro ao fundo pintado com
os dizeres “Dona Esperança. Ela revela seu destino com paciência.”

A narrativa do desencanto

Lillith perdeu o amor, assim como se perde um diamante raro no


meio da rua. Simples. Normal.

Simples uma pinóia. Lillith saiu, desembestada, pela zona boêmia,


trajando um modelito sadomasoquista. Uma verdadeira mulher-dama
hi-tec. Tudo nela era vermelho. A sombra nas pálpebras, o batom
molhado, o chiclete de frutas, o bustiê , a calcinha cavada e com um
pomponzinho traseiro. Para completar, aquele par de botas à altura

10
A Coleção dos Sentidos

dos joelhos. Faltou falar das falsas unhas de porcelana e daqueles


cabelos longos e intensamente vermelhos. Dizer que ela estava
pegando fogo não seria nenhuma metáfora.

O espetáculo não estava completo. Lillith pensou em tudo. Contratou


um serviço de som profissional com microfone auricular e caixas
acústicas enormes. Ela parou com aquele verdadeiro trio elétrico em
frente a fachada do prédio em que seu ex-amor devia estar no
momento.

-Alô, som –ela gritou e deve ter sido ouvida a uns quatro quarteirões.
–Juarez do terceiro andar, eu sei que você está aí, seu cachorro vira-
lata. Eu sou aquela fruta que você comeu até se fartar e jogou fora o
caroço. Pois é, o caroço está aqui pra dizer que...pra dizer que... você
é um desgraçado e que... e que... droga... eu... eu te amo, Juarez, eu
te amo , Juarez, eu te amo... droga... eu te amo, EU TE AMO, EU TE
AMO!

Com a platéia garantida, como num imenso teatro de camarotes,


uma senhora, usando lenço na cabeça, surge numa janela do terceiro
andar e grita: -Olha, querida, eu sei o que você está sentindo, mas o
Juarez, meu filho, se apaixonou por outra e viajou hoje cedo com ela
para Cabo Frio, sem data para voltarem. A coisa entre vocês acabou.
Parta para outro.

Olhando para o vazio, Lillith portou-se como uma surda. Foi como se
o mundo tivesse acabado. Ela desceu do trio elétrico e andou, olhar
fixo no vazio, rumo à Avenida Principal. A noite chegou e com ela
uma forte chuva. Lillith continuou andando, encharcada, atraindo a
atenção de todos que passavam por ela. As pessoas achavam que
aquela figura era uma atriz de algum filme de arte, cujo diretor
aproveitou o mal tempo para rodar algumas cenas. O segundo

11
A Coleção dos Sentidos

pensamento que passava por suas cabeças era que aquela mulher
era a louca mais atraente que eles já viram.

Ela andou rumo a um destino ignorado, até sumir na esquina mais


próxima. Algumas pessoas afirmaram ter visto lágrimas vermelhas
rolando ininterruptas dos olhos daquela estranha mulher que perdeu
o amor. Simples. Normal.

O azul em movimento

De tudo, restou um teatral e gigantesco fundo azul. Algo capaz de


provocar admiração em qualquer discípulo shakespeariano. Um
palco de amores e humores e horrores se sobrepondo em finíssimas
camadas de imagem.

Eu apareço, circunstancialmente, como tudo nesse mundo. Por


acaso, meus olhos encontram os seus. Pronto. Você chegou nesse
parágrafo e agente se olha agudamente e eu enxergo a estrutura do
seu ácido desoxirribonucléico. Ficamos por minutos eternos, feitos
dois idiotas em meio ao azul como se um fosse ao outro decifrar.
Sendo mais casto, ficamos feitos deuses numa guerra de egos de dar
inveja aos humanos. A disputa era por quem baixaria os olhos
primeiro. Enquanto não dávamos o braço a torcer, uma chuva
repentina tomou conta do azul. Raios. Ventos. Trovões.

Agora, os trilhos de uma antiga linha férrea surgem. Cada dormente


vai passando por meus olhos como se eu estivesse a conferi-los um a
um. Na superfície de cada um desses dormentes está escrito um
verso que, na sofreguidão do movimento, vai compondo um poema e
nos conduzindo a alguma estação de qualquer cidade de qualquer
lugar do mundo. Mas eu acabo vendo que na é bem isso, posto que
uma nova imagem se sobrepõe à anterior. Trata-se de um palco
elisabetano, onde um melodrama é encenado e alguém se destaca no

12
A Coleção dos Sentidos

papel de palhaço sofredor. O palhaço sente as dores d’


alma,
enquanto seus lábios exibem um sorriso mascarado. O maior prazer
da sua vida é provocar o riso em seu próximo. Quanto mais raro for
esse riso, maior será o seu prazer.

Gradativamente vou enxergando mais que percebendo a dimensão


dessa sobre e superposição de imagens animadas e gelatinosas,
surgindo ad infinitum, nas quais eu me fundo. E se esse é mesmo o
fim, agradável ou não, ele é azul, azul, azul e você e eu nessa
“queda” de olhos. Acabo constatando que o fim não pára e eu e você
entramos nele de olhos abertos, ao som dessas imagens
surpreendentes e polifônicas.

Meio-dia abstrato

Então, o mundo é uma bola azul viajando por aí sem rumo definido e
eu aqui, feito besta, a buscar explicações para o Triângulo das
Bermudas e para o lay-out dos biquínis de bolinhas.

Que horas são? O sol voa alto com seus distantes bilhões de
quilômetros terrestres, enquanto um ônibus sorridente atravessa a
rua. Se você reparar bem não se trata de um ônibus comum, mas de
um comprido traço de tinta verde feito por um pincel inquieto. É
possível ver pequenos quadrados que se assemelham a janelinhas.
Além disso, o suposto ônibus parece sorrir. Tudo é como um livro de
testes psicológicos aplicados em ingênuas cobaias humanas.

De repente noventa e nove balões pairam sobre os ares da cidade.


Multicoloridos e silenciosos. Formatos curiosos: castelo, árvore,
melancia, um enorme falo e seus testículos com uma faixa e os
dizeres “Faça amor, não faça guerra, mas use camisinha”. Balões
gelatinosos, disformes como um ensaio a giz de cera e mais riscos e

13
A Coleção dos Sentidos

rabiscos mediúnicos produzidos por uma genialidade pós-


modernista.

Dizem que o papel aceita tudo. Sendo assim, este é um papel-cenário


e eu sou um manequim dionisíaco que passa os dias a ver o mundo
através de uma vitrine de uma loja sofisticada e a cada semana uma
estilista chamada Alice vem trocar minhas roupas e passa suas mão
insaciáveis sobre meus músculos e, às vezes, lambe o meu queixo e
beija minha boca que está sempre estampando um sorriso sedutor.
Foi ela quem trouxe um relógio-cuco e colocou na vitrine para me
fazer companhia. O interessante é que nesse relógio os dois
ponteiros estão sempre sobre o número 12, o que significa que pelo
menos duas vezes em vinte e quatro horas ele tem razão. Tudo o que
sei é que essa história segue viajando por alguma rua abstrata.

Alguém sabe me dizer que horas são? Lá vem a Alice com aqueles
olhos gulosos tirar meus trajes de Verão...

Imitando Picasso

Aqui os fatos passam como se numa tela estivessem.

Os olhos de Mirela, a dama dessa história, passeiam soltos no ar,


sendo um ligeiramente maior que o outro e ambos riscados a creiom
formando um desenho geométrico. Esses são os olhos losangais de
Mirela e seus cílios gigantescos. Retangulares são as lágrimas que
descem sem rolarem por sua face. Suas mãos pousam triangulares
num colo diagonal. E não falamos das dores. Ah, as dores afiadas,
constantes e cortantes, dentro do seu peito, feito faca de carne
vermelha. Dói-lhe o peito trapézico e voador.

São tantas as cores e as estrelas de cinco pontas estilizadas naquele


que é, presume-se, o firmamento.

14
A Coleção dos Sentidos

A boca vermelhíssima de Mirela paira triste à esquerda da tela. Suas


pernas longas e desenhadas com traços firmes passeiam à direita.
Mirela está despedaçada, qual figura enigmática. Mas tudo parece
tão esteticamente elaborado...

É como se um deus meio Pablo Picasso tivesse projetado tudo!

15
A Coleção dos Sentidos

OLFATIVOS

A essência ausente

Entre as muitas certezas do personagem que já não sabia quem era,


estava uma lembrança instantânea do cheiro da coisas em
determinados momentos da sua vida.

Por exemplo, uma manhã outonal exalando folhas secas no quintal e


o jornal arremessado pelo entregador, que vinha montado numa
motocicleta com motor ecológico.

Como ignorar as fragrâncias utilizadas por sua irmã, uma menina


sempre às voltas com revistas de produtos cosméticos? E mais o
feijão cozido em dias e horas sagradas; baratas invadindo o quarto
da sua mãe e ela armada com um potente inseticida; aquelas flores
sensuais plantadas com profundo senso estético no jardim da vizinha
japonesa.

Ao entrar em casa, seu pai trazia o cheiro de madeira nobre que


ganhava novas formas na marcenaria. Mas havia fias em que os
cheiros se misturavam em seu cérebro ganhando um aspecto
liquidificado e distinguir qualquer coisa assemelhava-se a descrever
um inferno. Ainda que soubesse quem era quem em sua família,
sobre si mesmo sequer o sabonete botânico usado no banho lhe
revelava coisa alguma.

Naquele estágio de esquecimento acerca de si mesmo, o personagem


não se importaria se fosse uma porta, um coelho ou um urso de
pelúcia enfeitando a cadeira de balanço na varanda. Quanto mais de

16
A Coleção dos Sentidos

si esquecia, talvez por não possuir um cheiro característico, mais


feliz ficava com o cheiro alegre das moças que deixavam a escola de
balé, banho tomado, na rua em frente à sua casa. Elas recendiam à
liberdade, tudo que ele sempre desejou.

O jogo dos sete erros

A porta da sala , escancarada, não combinava nada com aquelas três


horas da madrugada.

Um aparelho de som gritava Blues, quando deveria sussurrar música


clássica.

Bacon e calabresa era o sabor da pizza sobre a mesa de centro.


Ridículo. Fulano de Tal amava animais e vivia usando camisetas em
defesa da fauna.

O vídeo exibia um filme de terror, quando até a vizinhança sabia que


naquela residência só entravam filmes do tipo Love Story. Uma
garrafa de cachaça, pela metade, só aumentava o nível de
incoerência. O morador estocava suco de uva natural e concentrado.

Cartas de baralho, espalhadas pelo chão, contradiziam o espírito


organizacional de Fulano de Tal.

O quê? Uma festa de arromba acontecendo no quarto do seu Fulano,


cuja esposa fora sepultada na manhã anterior?

Definitivamente, alguma coisa ali estava cheirando muito mal e eu


não conseguia entender droga nenhuma.

Odores e andanças

17
A Coleção dos Sentidos

O andarilho levava a vida como muita gente desejava, ou seja, sem


bússola.

Ao saber que alguém escreveria umas poucas palavras sobre sua


falta de rumo, aprontou uma correria. Parou numa rua de alho
descascado. O cheiro era tão intenso que volvia o estômago de
qualquer um. Dobrou a esquina e pimentas malaguetas forravam o
asfalto, os postes e as paredes das casas. Coloquei uma ardida na
boca e chorei e saltei e rolei e abanei a boca, aberta, com uma das
mãos. Poderia ter me contentado com o cheiro, apenas. Daí ele
entrou na rua de uvas paulistas. Menos mal, mas eram tantas as uvas
que o cheiro me deixou bêbado. E assim fui seguindo o andarilho.
Carambolas. Aquilo mais parecia uma feira aberta. Coentro.
Figurativamente, ele vegetava por aí. Limões. Tanto mais eu me
perdia. Melancias.

Para fazer jus à rota do andarilho, subimos uma rua de carne bovina,
descemos uma de carne suína seguimos retos por uma de galinhas,
dobramos um de bacalhau e desembocamos numa de piranhas. A
tour alimentícia parecia não ter fim. Estando eu decidido a escrever
sobre a mudança das nuvens no céu, o andarilho me surpreendeu
dizendo:

-Acho que agora você tem alguma inspiração para escrever sobre
minha vida errante.

Coisa de cinema

E chegou o dia em que, na incansável busca pelo realismo mágico, o


cinema incorporou os cheiros às cenas dos filmes.

E todos estávamos numa enorme sala de projeção. Um filme de


guerra. Conflito religioso, para variar. Homens-bomba se

18
A Coleção dos Sentidos

despedaçavam ante nossos olhos. Cheiro de pólvora umedecida.


Aplausos. Passaram para a artilharia pesada. Metralhadoras que
nunca descansavam. Homens soltavam seus últimos gritos, abriam os
braços e eram arremessados ao chão pela força dos balaços. Cheiro
de sangue e fumaça. Aplausos. DIAS DEPOIS...(mostrou o letreiro na
tela) Os corpos, incontáveis, permaneciam insepultos. A
decomposição fazia sua festa na carne inútil e os corvos reinavam
imbatíveis. O mau cheiro ganhou tamanha proporção que nós fomos
obrigados a sair da sala de projeção às pressas.

Ninguém aplaudiu aquele fim encarniçado.

Último desejo

Adepto confesso da numerologia, Julho (recebera esse nome em


homenagem ao sétimo mês do ano) fez algumas exigências.

Ele pediu sete rosas brancas, sete rosas vermelhas, sete rosas rosas
e mais sete damas da noite, sete cravos, sete magnólias e sete
odaliscas para uma dança do ventre(esse desejo a família não
entendeu muito bem).

Certo de que passaria a comer capim pela raiz em definitivo, Julho


exigiu que conferissem o túmulo adquirido pelo cartão de crédito.
Sete palmos exatos abaixo do chão.

Ninguém ousou descumprir a vontade do falecido, naquele dia trinta


e um de Julho.

19
A Coleção dos Sentidos

Cinestésicos

Vida em trânsito

Dezenove horas, vinte e três minutos e quinze segundos.

Preciso pegar a estrada. Se chover, não vou. Chove. Vou. Seja o que
Deus quiser. Atitude, sempre. Pingos grossos. Pára-brisas, que nada.
Pára-tempestades. Deixo a loja de conveniência para trás e através
da vitrine de vidro temperado, além das prateleiras com desenho
futurista, vejo a garçonete em seu uniforme sedutor. Ela me olha
docemente. Não são as primeiras coisas que deixo para trás. O céu é
liquido e cai pulverizado sobre os meus óculos de marca estrangeira.
Tudo fica para trás, raios! Raios, mesmo, daqueles finos que parecem
os vasos cerebrais do céu. O céu é um cabeção que, ao ficar nervoso,
saia debaixo! Olha, eu não sei bem aonde isso vai parar, posto que
não disponho de mapas. Afinal, quem não se perde uma vez ou
outra? Gostei do eco ou ou, gramaticalmente condenável, mas
lembra alguém perdido num canyon qualquer gritando por socorro.

Eu imagino uma cama com colchão d’


água e mulheres helênicas à
minha espera, mas resta um CD da cantora Madonna no CD Player
do carro e músicas que vão de “Vogue”à “Like a virgin”. Essa é uma
viagem sem retorno e não há quem possa contestar isso. Não falo da
viagem psicotrópica. O mundo como está é mais que uma droga.
Mas, ânimo, siga em frente. Vamos para o Oeste. Vamos para o
Norte. Que tal a Chapada dos Guimarães?Dizem que os anjos descem
do Norte. Uma suposição poética. Se assim o for, é lá que existe um
galpão com asas disponíveis para todos nós. O céu está em prantos.
Deve lamentar minha rebeldia. Essa necessidade de estar ao volante.

20
A Coleção dos Sentidos

Correr = esquecer, mal amanhece. Que dia é hoje?Que hora é


essa?Haja velocímetro para suportar minha gana por quilômetros
rodados. É uma madrugada de domingo, após alguma safra de vinho
tinto servido e sorvido em taças de cristal.

Poucas vezes segui por uma BR tão plana, plena, macia e triste.
Garoa singela. Sinto que alguém morreu, mas não sei quem, quando,
como, onde ou porquê, não necessariamente nessa ordem. Eu
consigo ouvir o silêncio do vazio e, francamente, é de arrepiar.
Quantos amanheceres deixaram de existir minutos atrás e quantos
sonhos deixaram de cumpri suas agendas?

A loja de conveniência, a garçonete loira e linda e uma música


instrumental que ela ouvia enquanto organizava embalagens de
chocolate, chicletes e drops ficaram para trás. Fluiu feito sangue. Eu
e essa imaginação. Intensa é a sensação de dor e prazer localizado
em minha boca, enquanto consumo balas adquiridas naquela loja.

Ansioso, pergunto-me o que pode surgir no próximo quilômetro


dessa vida transitória.

Voando baixo em Xangai

Até agora passaram umas tantas horas digitais.

Eugênio, egóico como sempre, procura traçar uma interseção entre o


céu e a Terra em seu caderno com folhas de seda. Um dos seus
gestos, ligeiramente brusco, enruga a folha. Sua vontade não é a de
Arquimedes que planejava deslocar o mundo feito uma bola de gude.
Quer mesmo romper limites geográficos e deslocar-se ao extremo
onde houver um pedaço de chão.

21
A Coleção dos Sentidos

Enquanto isso, Ela o fita com aquele olhar grávido com quem diz:
vamos elaborar nosso romance na terceira pessoa. Os dois estão num
Café de um mega centro urbano e se você está achando esta
seqüência descritiva por demais, vá ver um filme mudo ou ler uma
coletânea de poemas concretos dentro de um apartamento de
alvenaria. E tem mais, eles estão ouvindo lounge. Se você detesta,
tanto melhor. Abandone esse conto agora e experimente um a
história em quadrinhos. Soou infantil? Vá-se deliciar com a literatura
de Habermas ou Spinoza. As mesas do Café são de madeira rústica.
Ela está sentada a três mesas de Eugênio e o Arco do Triunfo reina
na secular Paris. O autor é meio metido a burguês emergente e tem
o hábito esnobe de usar signos europeus em suas composições, sem
jamais ter “pisado”no oceano Atlântico, como se isso fosse o must.

Assim, Eugênio sentiu-se passeando pelo espaço entre o queixo e a


boca d’
Ela. A distância entre os dois não era grande coisa, mas no
meio poderia se interpor um abismo.

Nessa incerteza, o garçom toca o ombro de Eugênio e lhe entrega


um cartão que Ela, discretamente, envia-lhe. Nome, endereço,
melhor horário. Pronto. Eugênio fecha os olhos e sente-se dentro do
vagão de um trem voando baixo em Xangai, só para trocar fluidos
com Ela.

E se você não gostou desse desfecho asiático, escolha outro


continente. Afinal, o mundo é uma bola bem parecida com o design
do meu relógio de pulso digital.

Ode à inutilidade

Sob um céu desnudo, o Escritor Deslumbrado, descobriu a


inutilidade da literatura.

22
A Coleção dos Sentidos

Primeiro sentiu uma desolação abissal. O vazio recheou tudo à sua


volta.

A seguir, um virtual gosto de sangue visitou-lhe a boca. Foi como se


um lutador peso-pesado tivesse lhe enfiado um cruzado de direita no
maxilar. E agora, pensou, como justificar tantas noites insones,
tantas páginas escritas, rasgadas e arremessadas na lixeira
transbordante. Aqueles livros redigidos e editados com tamanho
zelo, todos inúteis e enfeitados com letras mortas. Por falar em
morte, foi exatamente no que pensou o Escritor Deslumbrado. Se ele
escrevesse uma espécie de Manual Básico para o Suicídio, talvez
fosse útil a um desesperado pouco criativo. O ramo da auto-ajuda
poderia lhe conferir um senso de utilidade pública. Mas descrever os
diversos matizes das estações do ano e explorar os pensamentos
sutis de personagens fictícios soava inútil. A frustração lhe tocou o
dedão do pé, subiu-lhe às pernas, lambeu-lhe as costas e ficou
circulando por seu globo ocular indefinidamente. Todo aquele visgo
depressivo, o aborrecimento típico dos escritores pessimistas, tudo
que ele sempre renegara entrou em ebulição. Deus morreu, a
História acabou, o Romance ganhou túmulo de mármore e epitáfio
em Latim e, no dia dos mortos, um bando de escritores órfãos usando
indefectíveis óculos escuros, na maior falsidade, depositavam textos
inéditos sobre sua lápide e cantavam poemas tristíssimos.

Restou o Escritor Deslumbrado com seu olhar fundo e uma


indescritível sensação de fim. Num rasgo de esperança, típico dos
ingênuos que vivem negando as evidências, o Escritor deslumbrado
tomou de um papel e uma caneta e passou a escrever a sua Ode à
inutilidade.

23
A Coleção dos Sentidos

Lúcia que retesou os músculos

Em meio a uma festa que parecia não ter fim (nota-se que esse autor
adora narrar festas improváveis), baixou uma inesperada escuridão.

Inevitáveis os gritos de surpresa e um certo apavoramento. Fez-se


um breu de noite sombrio, Nem mesmo o contorno dos seres e dos
objetos era perceptível. O desconforto revelou-se incontornável. E
como narrar o invisível? O único esforço possível seria capturar o
audível.Alguém gritou que estava morrendo. Voz feminina. Um
ataque cardíaco. Calou-se. Alguém pediu luz pelo amor de Deus. Era
Lúcia (chamemos assim essa personagem) que retesou os músculos.
Outro alguém a tocou suavemente, carinhosamente até. Lúcia
pensou em gritar por socorro, mas só engrossaria o bloco dos
aterrorizados, que solicitavam um socorro remoto, uma vez que
estavam ao ar livre, bem distante de qualquer interruptor de energia
elétrica. E depois, ninguém a tocava daquela maneira fazia uns bons
dez anos. Sequer um abraço carinhoso ela havia recebido por todo
esse tempo. Enquanto pessoas tropeçavam umas nas outras, Lúcia,
embriagada por aquela situação, desistiu de pedir luz e viajou no
amparo daquele alguém, que agora a beijava com fúria e a despia
sôfrega e Lúcia lhe entregou a língua e uma criança gritava que
queria sua mãe e um cachorro latiu e uma vovó disse que nunca mais
iria à festa alguma se a luz do mundo voltasse e Lúcia, que não via
coisa alguma, não queria deixar aquela outra boca por nada e que a
luz não voltasse em hipótese alguma, porque ela estava pertinho de
um orgasmo. Alguém gemeu longamente. Aquele gemido foi ouvido a
quilômetros de distância. A vovó, que possuía uma audição
espetacular, disse que aquilo só poderia ser mesmo o fim do mundo.
Ninguém respeitava a tragédia alheia. Bastava faltar luz e tudo
virava um bordel.

24
A Coleção dos Sentidos

Refeita, Lúcia sentiu-se bem mais leve. Sobre a escuridão? Nada é


para sempre, pensou.

Uma doce sensação

Um simples vento lhe pareceu um furacão pressionando seu


levíssimo corpo, a ponto de alterar sua rota.

Um pingo de chuva assemelhou-se a uma bomba líquida de


assustadora proporção, dificultando seu vôo.

Mesmo assim, seu maior orgulho era ver o mundo com uma
autonomia de 180 graus e extrair das flores o que nelas houvesse de
mais doce.

Afora a certeza da dor que sentiria e provocaria ao ser atacada por


qualquer humano, aquela abelha procurava levar uma vida
religiosamente saborosa.

25
A Coleção dos Sentidos

AUDITIVOS

Ao pé do ouvido

A jovem Alexa não consegue mais enxergar e, como é comum nesses


casos, aflora-se nela uma capacidade auditiva incomum e nada fica
sem passar por seu crivo sonoro.

Sua amiga Bárbara gritando de horror e dor por ser atropelada por
um caminhão naquele fim de tarde.

O som de um sino centenário dobrando no Natal daquela cidade


histórica.

Uma prostituta, cheia de penduricalhos barulhentos, dizendo ao


marinheiro que seu programa básico era tanto e o completo outro
tanto. Enquanto isso, ondas agitadas quebravam no cais do porto.

Aquele ultraleve zumbindo todo fim de semana, praticamente no


quintal da sua casa. O praticante parece saber que o barulho a
incomoda e nem pára para almoçar. Se ela tivesse uma espingarda,
atiraria nele sem olhar.

O crepitar de uma fogueira, um violão e alguém cantando Pais e


filhos do grupo Legião Urbana. Mais adiante, um cheiro de mato
amassado e alguém gemendo de... prazer. Isso mesmo, de prazer.

Um amigo de escola lendo um trecho do romance O perfume de


Patrick Suskind e Alexa hesitando em dizer-lhe o quanto está
apaixonada. O medo da rejeição a leva a esmurrar a mesa e seu

26
A Coleção dos Sentidos

amigo fica boquiaberto com aquela atitude pré-menstrualmente


tensa.

Faz-se um silêncio aterrador. Alexa está só em sua cadeira de


balanço. Sutilmente ela ouve o barulho de animais saltando. Então,
dorme.

Coquetel de ruídos

CLOCK-CLOCK-CLOCK-CRUMM-VRUMM-CRUMM. Pedras de gelo


numa taça vazia. Um bebê chora ao sair da barriga materna. Rodela
de limão. Sapatos de salto alto. Uma mulher corre-foge pela rua de
paralelepípedos. Sapatos de salto baixos e de pelica. Ela é
perseguida por um homem de estatura mediana.
MIAU!MIAU!AU!AU!!TRIIMMM!Alô, é da polícia?O quê, engano?
Então me liga com a Aeronáutica, Marinha, Exército, Guarda
Costeira, ex-Combatentes, sei lá. Tem um cão acuando um gatinho
de estimação. RÁTÁTÁTÁ. Execução sumária. Monitor de batimentos
cardíacos. Alguém mascando chicletes e estourando bolinhas.
Descarga. Beijo na boca. Papel sendo rasgado. Na TV, um herói de
desenho animado diz: “Eu tenho a força!” POCOTÓ !POCOTÓ ! Uma
dezena de cavalos, montados, galopa pelo asfalto insuportavelmente
quente, graças ao sol de Verão. Donde surgiram cavalos nessa cidade
tomada por fios de alta tensão, apartamentos de dois quartos e
escritórios condicionalmente arejados? Uma britadeira anuncia, com
toda antipatia, o início de obras públicas na esquina mais próxima.
UÓ M-UÓ M-UÓ M. Ambulância enlouquecida. Alguém necessita de
doadores universais de sangue. Alguém derrama uma bebida na taça.
Quase todo dia é assim. Faltaram as azeitonas para completarem o
charme do coquetel. COCORICÓ CÓ ! Parece que os galos cantam por
acharem a vida bel em qualquer lugar.

27
A Coleção dos Sentidos

Penélope e o som do sentimento

Crepitava no coração da soprano Penélope, a chama ardente da


paixão.

Ela sabia que tal fogo se arvorava intenso, dada a secura da palha
em que rompia a fagulha. Mas era da ilusão que ela gostava.

Sabido que novo era o sentimento reinante, Penélope impunha um


ritmo estacato ao diálogo erótico com seu homem apolíneo. A
vibração era de um alegro em uníssono.

Num movimento andante, Afrodite, uma mesosoprano, entrou para o


coral cativando os olhares gravíssimos daquele Adônis. Penélope
passou a sofre crises agudas de estourar cristais. Tornou-se
impossível suportar tantos falsetes.

Tamanha dor e melancolia, Penélope passou a destilar nos cânticos


de missa de sétimo dia. Mas o tom fúnebre da soprano duraria
somente até o próximo incêndio. Bastaria uma fagulha.

Sussurro vegetal

Aquela garota descobrira-se ouvindo, no mínimo, diferente naquele


momento.

A começar pelo som do raiar da aurora, acompanhada pelo nascer do


sol. Depois foi a ação da clorofila na superfície das folhas orvalhadas
e aquele gemer delirante dos caules crescendo. Difícil foi entender
besouros discutindo por uma migalha qualquer. E aqueles vultos,
então? Era um tal de roçar galhos de árvores e chutar arbustos,
capazes de eriçar os cabelos.

28
A Coleção dos Sentidos

Os ouvidos daquela garota não se enganavam jamais. Tudo aquilo


estava lhe soando bastante sobrenatural.

Enquanto as baleias cantam

Gabriel decidiu quebrar o silêncio de anos a fio.

Tomou de um lápis e de um caderno com capa grossa e, num impulso


seminal, derramou palavras pauta após pauta. Choro, lamento, raiva,
dor, prazer, sensação de vingança, mas vingar-se do quê? Página
após página, aquele era o grito de Gabriel e ele sentia-se no topo do
Monte Everest.

A surdez era sua companheira desde o nascimento, mas difícil lhe


era pensar em Beethoven cravando os dentes no piano para sentir as
notas musicais e surpreender o mundo com melodias vindas de um
reino inconcebível.

Lápis e caderno transformavam-se em ferramentas mágicas pelas


quais ele deu vazão às mágoas antigas e às frustrações por jamais
ouvir o diálogo bem humorado dos golfinhos e o cântico misterioso
das baleias.

Assim, Gabriel esperava ansioso que, ao lerem seu desabafo, as


pessoas ouvissem, em alto e bom tom, cada decibel, cada nota
variável, cada címbalo mágico do seu mundo silencioso.

29
A Coleção dos Sentidos

GUSTATIVOS

O sabor que não diz seu nome

O jovem Lucas Kind passava seus dias tecendo experiências e bem


conhecia a diversidade dos sabores do mundo. Dos morangos
silvestres aos trilhos das locomotivas, ele já provara. Tudo que
soubesse à aventura ou ao inusitado passava na ponta da sua língua.

Mas havia algum tempo que um certo sabor lhe visitava e seu
computador cerebral não conseguia identificar.

Mesmo com toda energia juvenil vibrando nos músculos de Lucas, o


incolor, o inodoro e o insípido reclamavam algum espaço em sua
vida. Fora o estilo sedutor da solidão com aquela boca carnuda e
aquele olhar de Narciso.

Memorável banquete

Tudo pronto.

A tarde desceu sutil e promissora.

Uma mesa branca e comprida feito uma ponte exibia sua farta
iguaria. Aves, pescados, quadrúpedes, massas, saladas, sucos, vinhos
e champanhes estavam preparados para o que desse e viesse. O som
divinal de uma harpa dominava o cenário.

30
A Coleção dos Sentidos

Batendo fortemente suas asas e soltando gargalhadas ecoantes, eles


baixaram, cada um em sua respectiva cadeira. Assim beberam. Assim
comeram e jogaram conversa fora e filosofaram.

Saciados e embriagados, eles agitaram as longas asas, batendo em


retirada.

Para o alto, sempre.

Existência estomacal

Por todos os lados que se quisesse olhar, o vislumbre era único. Tudo
eram bocas cheias e fechadas pela mastigação. O mundo se resumiu
numa única coisa: vontade de comer! Muito embora, nem sempre
essa vontade fosse concretizada. Dormia-se, acordava-se, lia-se e
escrevia-se, odiava-se e amava-se somente para comer. Afinal, o que
poderia garantir uma sobrevida, uma continuidade, um orgulho
incorrigível?

Comiam as paredes de concreto, as árvores dos jardins, as placas


comemorativas, os bustos de bronze de mortos ilustres e bigodudos.
Numa incessante antropofagia, comiam os homens, as mulheres e os
andróginos. Não havia traça ou verme que se comparasse.
Devoravam as esquinas, as manequins das vitrines e as vitrines de
sobremesa.

Um bom título para narrar a ânsia febril por consumo seria Nascidos
para comer. Por todos os lados que se quisesse olhar, como num
espelho, só se viam olhos vazados de fome e bocas incrivelmente
nervosas. Não havia nada que pudesse matar a fome.

31
A Coleção dos Sentidos

Sabor de liberdade

Acabou de tomar um sorvete de abacaxi com framboesa.

Após trinta anos atrás das grades, devido a um erro judicial, Efraim
sentiu o sabor tardio da liberdade.

O seu primeiro desejo, após uma vida inteira vendo o sol nascer
quadrado, foi tomar um sorvete de duas bolas com casquinha na
sorveteria
Bom Gosto
. Em flashback, toda tragédia da reclusão, os dias absurdos e as
noites agonizantes tomaram conta da sua cabeça. Até se lembrou do
livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, um dos muitos que
lera naqueles eternos invernos.

Efraim estacou na porta da sorveteria e, tal pássaro que só sabe o


que é gaiola, pensou: “Puta que pariu! E agora, direita, esquerda ou
centro?”Para completar, um gosto amargo tomou conta da sua boca.
De tão saboroso, o sorvete lhe provocou repugnância.

Caminhando, ainda meio sem rumo, Efraim lembrou-se de uma frase


que muito ouvira na cadeia: “Rapadura é doce, mas não é mole.”

Sonho de uma noite de Verão

Nada como o gosto majestoso das vestes de um rei dos contos de


fadas, pensava o Devorador de Histórias.

Todas as tramas, os momentos tétricos e as descrições suaves dos


cenários orvalhados se transformavam em inigualáveis petiscos.

32
A Coleção dos Sentidos

Que viessem os romances medievais, bucólicos, urbanos ou


futuristas. Que servissem os contos com aroma de metáforas,
metonímias e anacolutos. Que viessem os castelos, as princesas,
príncipes, sapos, reis, rainhas, madrastas, magos e anões. Que não
faltassem os sonetos empanados, uma delícia, acompanhados de
poemas caudalosos em calda (ele preferia as de maracujá e limão
pelo gosto ácido).

Ah, o famigerado Devorador de Histórias também revelava suas


fragilidades e sonhos. Adorava passear descalço nas noites de lua
cheia, pela praia de areia clara, marés intensas, enquanto comia um
conto de Verão escrito por um jovem escritor, numa cidade
tecnológica e poluída.

Nada como um conto fresco, enquanto imaginava que gostos teriam


aquelas incontáveis estrelas, oscilando no firmamento, longe do seu
fantástico apetite.

33

Você também pode gostar