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XXXIV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO

Engenharia de Produção, Infraestrutura e Desenvolvimento Sustentável: a Agenda Brasil+10

Curitiba, PR, Brasil, 07 a 10 de outubro de 2014.

ESTUDO ERGONÔMICO NO SETOR DE


EXPEDIÇÃO DE UMA EDITORA: UM ESTUDO
DE CASO

NISSIA CARVALHO ROSA BERGIANTE (UFF )


nissia.rosa@gmail.com
Caroline Machado Silva (UFF )
carolinesilva@id.uff.br
Isabel de Magalhaes Ornelas (UFF )
isabelornelas@id.uff.br
Larissa Oliveira (UFF )
larimenezes.bg@hotmail.com
Vanessa Kranen Pinheiro da Silva (UFF )
vanessakps@hotmail.com

O estudo objetiva apresentar o delineamento da aplicação da metodologia


da Análise Ergonômica do Trabalho em uma editora, mais especificamente
no setor de expedição. Como parâmetros do estudo ergonômico, foi
analisada a comparação entre trabalho prescrito versus o real, a carga de
trabalho física e cognitiva e condições ambientais do posto de trabalho. Para
tal, foram utilizados métodos, como: sistema OWAS, equação de Niosh,
questionário nórdico e diagrama de áreas dolorosas. Mediante aos
resultados encontrados, foram propostas mudanças a fim de minimizar a
probabilidade de o trabalhador em questão desenvolver doenças decorridas
da execução das suas funções.

Palavras-chaves: estudo ergonômico, setor de expedição, postura


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Engenharia de Produção, Infraestrutura e Desenvolvimento Sustentável: a Agenda Brasil+10

Curitiba, PR, Brasil, 07 a 10 de outubro de 2014.

1. Introdução

Para atender aos padrões de produção atual muitas empresas tem imposto aos seus
empregados um ritmo acelerado de trabalho, expondo-os a condições, muitas vezes
desfavoráveis e debilitantes. Neste cenário, a Ergonomia surge como uma das possíveis
respostas a este binômino produção x saúde, uma vez que é o campo de estudo científico que
busca compreender as interações entre o homem e outros seres humanos e sistemas a (IEA,
2000).

No Brasil, a criação da norma regulamentadora NR-17, a qual tem como objetivo determinar
parâmetros que possibilitem a flexibilização das condições de trabalho às características
psicofisiológicas dos trabalhadores, de forma a obter condições favoráveis ao trabalho, como
conforto, segurança e desempenho eficiente (BRASIL, 1990), colocou sobre as organizações,
a necessidade de investir em projetos ergonômicos.

A primeira finalidade de uma ação ergonômica é intervir o trabalho, contribuindo para a


construção de situações que não prejudiquem a saúde do trabalhador, encontrando, portanto,
possibilidades de transformação que valorizem o seu potencial, sem deixar de alcançar os
objetivos econômicos da empresa (GÜÉRIN et al. 2001). Na verdade, o que se observa, é que
os resultados da intervenção ergonômica podem alavancar sobremaneira os resultados
operacionais.

O presente artigo tem como objetivo estudar, através da aplicação da Análise Ergonômica do
Trabalho, o processo de transformação da situação do trabalho adequando-o aos indivíduos.
Para isso, foram analisadas as atividades laborais em uma editora e gravadora do RJ. Em
seguida, realizou-se o diagnóstico ergonômico por meio da análise das condições técnicas,
ambientais e organizacionais e a partir deste, foram propostas soluções de melhoria.

2. Revisão de literatura

2.1 Conceitos de ergonomia

Segundo Zamboni e Barros (2012), o trabalho prescrito se resume no trabalho que a

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organização planeja sobre a execução em termos de determinação para o trabalho, sendo um


conjunto de regras e normas a serem cumpridas. O trabalho real é o trabalho feito pelo
trabalhador e a forma como ele é executado pode diferir do trabalho prescrito.
A ergonomia discute ainda a necessidade de delimitar a análise do trabalho partindo do
pressuposto que existe uma distância entre o conjunto de normas prescritas e aquilo que é
realmente feito pelo trabalhador (VIEIRA; BARROS; LIMA 2007). Sempre levando em
consideração que o trabalhador pode entrar em contato com problemas que não poderiam ser
antecipados ou bem respondidos através dos procedimentos (VIEIRA, 2006).

Durante a execução do trabalho diversas de interações são realizadas, tais como aplicações de
forças e tensões em grupos musculares em uma determinada postura no desempenho da
atividade. Esses comportamentos posturais podem ser fatores que desenvolvem sobrecargas e
aumento do gasto energético, produzindo tensão muscular, ligamentar e nas articulações e
como consequência resultar em desconfortos e dores. (ANJOS, 2008).

A ergonomia objetiva a diminuição da carga de trabalho a que os trabalhadores estão


submetidos. Todas as atividades estão sujeitas às sobrecargas, que são subdivididas nas
dimensões físicas, psíquicas e cognitivas (WISNER, 1993). Essas cargas podem causar graves
danos à saúde do trabalhador podendo levá-lo ao afastamento do posto de trabalho.

A dimensão física corresponde às posturas inadequadas, carregamentos excessivos de pesos e


trabalhos estáticos, podendo gerar doenças musculoesqueléticas. Os trabalhos estáticos, que
exigem muita força ou que necessitam de má postura, são as causas de muitas lesões ao
organismo. O trabalho em pé, apesar de proporcionar grande mobilidade corporal, é danoso
por ser muito fatigante, exigindo elevado trabalho estático da musculatura (IIDA, 2005).

A dimensão psíquica corresponde aos acontecimentos afetivos e relacionais (DEJOURS et al,


1993). Segundo Iida (2005), a sobrecarga mental pode ser desencadeada por tarefas que
exigem uso simultâneo de diversos canais de informação. A dimensão cognitiva está
associada ao constante uso da memória, ao raciocínio rápido, a necessidade de atenção e à
tomada de decisões. Apesar do conceito de carga de trabalho ser muito utilizado, Abrahão
(2009) considera ultrapassado por ser limitado, já que não faz menção a alguns pontos como a
variabilidade.

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O mundo industrializado trouxe como consequências diversos danos à saúde do trabalhador


como, por exemplo, as síndromes conhecidas como LER/DORT que se manifestam
principalmente no pescoço, punhos e braços. Essas síndromes são muitas vezes difíceis de
serem identificadas, por terem fatores multicausais e, quando diagnosticadas, o trabalhador
pode não conseguir a comprovação do nexo causal. As organizações muitas vezes
estabelecem metas de produtividade e isso exerce uma grande influência no adoecimento dos
trabalhadores, pois não levam em conta seus limites físicos (BRASIL, 2006).

2.2 Método e técnicas da ergonomia

Com o intuito de avaliar a carga a ser suportada por um trabalhador, o National Institute for
Occupational Safety and Health desenvolveu a Equação de Niosh. Apesar de possuir algumas
restrições que não serão detalhadas nesse estudo, a equação possui como finalidade
determinar o peso limite recomendável para então prevenir as dores ocasionadas pelo
levantamento de peso. Para tal, em seu cálculo considera as seguintes informações:
coeficiente da distância horizontal, coeficiente de altura, coeficiente de deslocamento vertical,
coeficiente de assimetria e coeficiente de manuseio da carga (WATERS, 1994).

Além da Equação de Niosh outros métodos de análise da postura do trabalhador foram


desenvolvidos, como exemplo o sistema OWAS. O sistema OWAS (Ovako Working Posture
Analysing System) foi desenvolvido na década de 70 pelo grupo Finlandês Ovako Oy e o
Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional (Karhu et al., 1997).

Segundo Ribeiro et al. (2004), consiste no método para analisar as posturas, verificando de
acordo com estas as regiões mais atingidas. O sistema classifica a postura em quatro classes
principais, sendo:

 Classe 1: Postura normal, dispensando ações de correção;

 Classe 2: Postura que pode ser prejudicial ao trabalhador, necessitando possuir uma
ação corretiva futuramente;

 Classe 3: Postura que requer ação corretiva a curto prazo;

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 Classe 4: Postura que requer uma ação imediata, pois pode proporcionar grandes
prejuízos ao trabalhador.

Na opinião de Pinheiro, Tróccoli e Carvalho (2002), outra forma de análise do trabalho e


avaliação da ocorrência de distúrbios osteomusculares nas regiões do corpo humano é a
utilização do Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (NMQ - Nordic
Musculoskeletal Questionnaire). Através da aplicação do mesmo, o respondente deve relatar a
ocorrência de sintomas nas distintas regiões anatômicas no horizonte dos últimos doze meses
e os sete dias antecedentes à abordagem, além de se constatar a ocorrência de afastamento das
atividades rotineiras no último ano (PICOLOTO; SILVEIRA, 2008).

A fim de complementar o diagnóstico, que segundo Fialho e Santos (1995), está relacionado
aos fatores críticos do sistema homem-tarefa que foi delimitado, de onde intervêm aspectos
passíveis de serem obtidos pelos conhecimentos inerentes a ergonomia, foi também utilizado
o diagrama de áreas dolorosas.

A identificação dessas áreas afetadas utiliza tal diagrama proposto por Corlett e Manenica
(1980), o qual divide o corpo humano em diferentes segmentos, facilitando a localização pelo
trabalhador das áreas impactadas e possibilitando identificar os possíveis pontos de tensões
máximas.

3. Metodologia

Para o desenvolvimento deste estudo foram realizadas visitas à empresa a fim de se coletar
informações necessárias para a Análise Ergonômica do Trabalho (AET). Primeiramente,
procurou-se identificar, através de abordagens a vice-presidente e a diretora de recursos
humanos, a visão que a empresa tinha sobre a ergonomia, as práticas relacionadas a esta e os
setores mais críticos, considerando atividades que envolviam levantamento de peso, postura
em pé por longo período, entre outros. E através da entrevista com os gestores, foi definido
como objeto de estudo o setor destinado às atividades relacionadas à armazenagem e
expedição dos produtos o qual era terceirizado.

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O estudo foi desenvolvido através de entrevistas e foram aplicados: o questionário nórdico,


diagrama de áreas dolorosas, sistema OWAS e equação de Niosh a fim de detalhar as
condições de trabalho e a correlação com suas consequências. Além disso, foi comparada a
diferença do trabalho real para o prescrito através da contraposição entre as respostas obtidas
pelas abordagens e a observação direta.

Tais análises resultaram em um diagnóstico ergonômico identificando não conformidades. A


partir de então, foram estruturadas propostas de melhoria.

4. Estudo de Caso

4.1 A empresa

A empresa onde foi realizada a análise ergonômica do trabalho é uma editora e gravadora que
comercializa CDs, DVDs, livros e revistas, possuindo um portfólio com mais de 600 títulos.
O centro de distribuição está localizado em Taquara, Rio de Janeiro onde estão situados os
setores call center, recursos humanos, marketing e armazenagem/expedição, sendo este
último terceirizado.

O presente estudo se concretizou no setor de armazenagem e expedição, no qual a empresa


terceirizada é responsável pelas embalagens dos produtos que serão destinados aos
consumidores finais. Neste setor, trabalham 4 funcionários próprios e 40 terceirizados, sendo
60% do sexo masculino. A faixa etária é de 20 a 30 anos e o nível de escolaridade é
predominantemente ensino médio. A jornada de trabalho no setor de expedição é de 8 horas
diárias, com direito a 1 hora de almoço.

Para melhor entendimento do setor, segue abaixo o layout do galpão da expedição:

Figura 1 – Layout de armazenagem e expedição

Legenda: A
A – Área de armazenagem;
B – Área de armazenagem dos
produtos com alta rotatividade;
A A A
C – Área de separação dos
produtos a serem embalados;
D – Área de Embalagem; A
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E – Área de registro e expedição.
A

A A A
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O galpão é composto por 4 corredores paralelos que permitem a movimentação dos paletes e
da empilhadeira. Além disso, a linha de produção é composta por bancadas, 1 esteira que
atravessa praticamente todo o processo e computadores com sistemas de leitura de código de
barras.

O processo de expedição para entrega dos produtos da empresa resume-se basicamente na


separação dos produtos de acordo com as notas fiscais. Dessa forma, os trabalhadores
possuem metas baseadas na quantidade de notas fiscais por dia, que atualmente é de 1000
notas.

4.2 Situação

A postura em pé do embalador foi definida como a situação crítica do trabalho,


principalmente quando a demanda é alta, pois o trabalhador prefere ficar em pé para não
afetar a produtividade, além da indisponibilidade de cadeiras. A manutenção da postura em
pé, de maneira inadequada, por longo período de tempo pode agravar o estado de saúde e
desconforto do trabalhador.

Além disso, os deslocamentos necessários a todo instante e consequentemente a curvatura da


coluna para se abaixar geram um desconforto propício ao aparecimento de problemas de
saúde. Este mal estar físico pode ser agravado pelas condições ambientais ruins, que embora o
funcionário tenha afirmado ter já se acostumado com a temperatura ambiente do galpão, o
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calor é intenso, sendo prejudicial ao trabalho.

4.2.1 Condições ambientais e mobiliário do trabalho

As atividades desempenhadas no setor de expedição estão concentradas em um galpão onde


há pouca ventilação circulante, além de propensão a inundação em dias chuvosos, poeira e
com espaços estreitos para a realização do trabalho. A presença de poeira no galpão ocorre
devido a movimentação constante de caixas e equipamentos, como paleteiras que transitam
por diferentes ambientes trazendo consigo a poeira de locais externos.

A divisão do trabalho neste setor é similar a uma linha de produção na qual são utilizadas
bancadas e esteira rolante. O processo prescrito do trabalhador segue abaixo:

Figura 2 – Fluxograma da atividade crítica (embalador)

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O trabalho do embalador exige uma bancada alta e uma caixa que fica embaixo desta mesa
onde ele guarda a folha do picking list que é retirada de cada pedido; uma caixa, que fica no
chão, aproximadamente 3 metros de distância do seu posto de trabalho, onde ficam os
enchimentos que ele precisa colocar na caixa que será embalada. Além disso, ele utiliza
ferramentas como estilete (material cortante) e fita durex.

4.2.2 Trabalho prescrito e trabalho real

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A descrição do trabalho real foi realizada pelo grupo de estudo, tendo em vista que a empresa
não possuía registro algum de suas atividades. Através de abordagens e conversas informais
foi possível chegar a fluxogramas que explicassem como cada trabalho deveria ser realizado,
para que então pudesse ser analisado como ele realmente estava ocorrendo na linha de
produção.

A execução das atividades em si e o resultado delas, estava semelhante àquilo descrito no


trabalho real, porém, a postura assumida para realizá-la estava completamente diferente do
previsto. Todas as atividades são realizadas pelos funcionários em pé, enquanto o planejado
era para que fossem realizadas sentadas, porém, à rapidez do processo torna-se inviável. Por
outro lado, mesmo que os funcionários desejassem fazer de acordo com o trabalho prescrito,
isto não seria possível, pois não existem cadeiras suficientes.

Ao longo do processo muitas atividades requeriam o levantamento de peso e o agachamento,


posturas que atualmente são realizadas de forma inadequada indicando a falta de um
treinamento e aconselhamento adequado. A não realização do treinamento proposto provoca a
propagação de erros entre os funcionários e o surgimento de dores resultando em possíveis
afastamentos do trabalho por síndromes como LER/DORT.

4.2.3 Carga de trabalho

Durante a análise ergonômica pôde ser feito o dimensionamento do nível de carga de trabalho
dos funcionários. Em forma de carga de trabalho psíquica a desmotivação foi o fator mais
identificado, devido à excessiva repetição e à operacionalidade do trabalho. Os funcionários
não possuíam então expectativas profissionais. O constante não alcance da meta, referente à
quantidade de notas fiscais a se atender diariamente, devido a sua má estipulação, também foi
um fator relevante no aumento da desmotivação dos funcionários. A meta não é diferente para
nota fiscal de pessoa jurídica e pessoa física, sendo assim, pode variar muito a quantidade de
produtos nela. Logo, os trabalhadores ficam submetidos a uma meta que pode variar muito,
desde ser muito fácil de ser realizada ou até impossível.

Fisicamente, a carga de trabalho era em sua maioria devido à postura adotada para realização
do trabalho. Estar em pé por oito horas, sem pausas causa cansaço e dores aos
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trabalhadores, podendo estar sujeito a realizar horas extras. Além disso, para a função do
embalador o constante agachamento e carregamento de peso se tornam uma carga física
excessiva para esse funcionário.

Com relação à carga cognitiva, para o nível operacional, não há necessidade da utilização da
memória e nem da realização de tomadas de decisão. Em suma, há pouca carga nesse sentido.

4.2.4 Sistema OWAS

Uma das técnicas usadas foi o sistema OWAS, que ao ser aplicado no funcionário que
desempenha a atividade crítica, teve como resultado geral: 3143 o que simboliza que sua
atividade se encontra na classificação 3, ou seja, se trata de uma postura que deve receber
atenção a curto prazo.

4.2.5 Equação de Niosh

Através das medições no posto de trabalho para encontrar o peso da carga limite, verificou-se
que o peso recomendável como limite é 24,5kg e o peso real que o trabalhador carrega é 30kg,
logo, há um excesso de peso carregado pelo trabalhador.

Equação de NIOSH: LPR = LC x HM x VM x DM x AM x FM x CM

LC = 23 kg
HM: H = 30 cm (sendo HM = 25/H), logo
HM= 0,83333
VM: V ≥ 75 cm (sendo VM = (1 – 0,003 [V – 75])), logo
VM = 0,925
DM: D = 5 cm (sendo DM = (0,82 + 4,5/D)), logo
DM = 1,72
AM: A = 45º (sendo AM = 1 – (0,0032ª)), logo
AM = 0,856
FM: F – 1 levantamento/min
Duração da tarefa curta (< 1 hora), logo

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FM = 0,94
CM: Pega Razoável
V ≥ 0,75cm, logo
CM = 1,0 cm
Então,
LPR = 24,5 kg (Carga Limite)
Peso da Carga = 30 kg
Índice de Levantamento = 30/24,5 = 1,22 que é considerado como aumento moderado do
risco.

4.2.6 Diagrama das áreas dolorosas

Foi apresentada a figura abaixo aos funcionários para que esses apontassem onde sentiam
dores. Foi possível perceber que os funcionários sentiam desconfortos preocupantes conforme
mostrado a seguir:

Figura 3 – Diagrama de áreas dolorosas


LADO ESQUERDO VISTA DE COSTAS LADO DIREITO

DESCONFORTO DESCONFORTO
PARTES DO CORPO PARTES DO CORPO
1 2 3 4 5 6 7 Nº Nº 1 2 3 4 5 6 7
11 Ombro Ombro 21
12 Braços Braços 22
13 Ante braço Ante braço 23
14 Mãos Mãos 24
31 Pescoço Pescoço 41
32 Dorsos superior Dorsos superior 42
33 Dorso médio Dorso médio 43
34 Dorso inferior Dorso inferior 44
45 Quadril Quadril 45
51 Coxas Coxas 61
52 Pernas Pernas 62
53 Pé Pé 63

Fonte: Adaptado de Corriet e Manenica, 1980

4.2.7 Questionário nórdico

Foram realizadas entrevistas com alguns funcionários que trabalhavam na expedição e os


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mesmos relataram apresentar dores nas seguintes regiões anatômicas:

Tabela 1 – Questionário Nórdico

4.3 Propostas de Melhorias Ergonômicas

Através das situações identificadas, foi possível estruturar um diagnóstico e a partir então
planejar ações de melhorias visando reorganizar o ambiente de trabalho adaptando-o ao
trabalhador.
Tabela 2 – Recomendações para problemas identificados na situação crítica

O material que o trabalhador necessita alcançar para colocar dentro da caixa se localiza a
alguns metros de distância no chão. Portanto, uma pequena mesa ao lado do posto de trabalho
tornaria o trabalho mais rápido minimizando o esforço por parte da musculatura.

O peso carregado pelo trabalhador por alguns metros dentro da linha de produção também
poderia ser diminuído através da implementação de um palete com mola reduzindo o esforço
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lombar provocado pelo movimento de abaixar e levantar.

Com relação ao sistema de metas, devido à impossibilidade de alcançá-las torna-se necessário


um estudo para prever o número de itens a ser expedido e não apenas as notas fiscais.
Portanto, as metas poderiam ser baseadas na quantidade de itens, tonando-as mais palpáveis.

5. Conclusões

A aplicação do estudo ergonômico do trabalho é essencial para uma organização, pois à


medida que contribui para adaptar as condições do trabalho ao trabalhador traz como
consequência melhores resultados organizacionais.

O estudo apresentado nesse artigo aponta para esta importância e destaca que as empresas
ainda negligenciam o potencial existente no investimento em melhores condições
ergonômicas de suas atividades, como instrumento de redução de perdas e custos em todo o
processo produtivo.

Apesar das limitações, como falta do registro do trabalho prescrito e o registro formal dos
acidentes, a abordagem via entrevistas, questionários e observações diretas possibilitou a
aquisição de informações a respeito das atividades executadas e de aspectos referentes ao
processo de aprendizagem do trabalhador e sua relação com seus pares.

O caso estudado permitiu o uso de métodos da análise ergonômica do trabalho (AET)


oferecendo insumos para a estruturação dos planos de ação. Com o resultado, torna-se
essencial que a empresa realize a revisão de seus métodos de trabalho e busque iniciativas de
implementação das soluções de melhoria propostas possibilitando benefícios diretos ao
trabalhador e consequentemente, aos resultados finais da empresa.

REFERÊNCIAS

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ZAMBONI, Jésio. & BARROS Maria Elizabeth Barros de. Micropolítica da Atividade. Universidade Federal
do Espírito Santo, 2012.

ANEXOS
Questionário - Engenheiro

1. Quantos funcionários há no setor? Qual a divisão por idade e sexo?


2. Como o setor está estruturado? Quais os cargos e funções de cada funcionário?
3. Há algum pré-requisito para exercer as funções? Se sim, quais?
4. Como são organizados os horários de trabalho?
5. Qual a quantidade de horas extras permitidas por dia e por semana?
6. Existem intervalos?
7. Existe sistema de metas? Se sim, existe alguma bonificação ou penalização de acordo
com o alcance ou não da meta?
8. Como funciona a divisão dos funcionários da “empresa terceirizada Y” com relação
aos clientes? Um funcionário fica alocado em apenas um cliente ou pode trabalhar em
diferentes locais ao mesmo tempo?
9. Há alguma expectativa para crescimento na carreira?
10. Quais são os períodos de pico de demanda?
11. Qual a área de atuação dos funcionários? Apenas na editora ou há necessidade de atuar
em algum local externo?
12. Como ocorre o monitoramento de adoecimento e acidentes? Quais foram os acidentes
já presenciados?

Questionário operário

1. Há alguma desconforto/incômodo com relação ao ambiente de trabalho: temperatura


ambiente, iluminação, odor, materiais cortantes, umidade ou outros?

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2. Acha adequada a sinalização dos corredores e vias por onde passam as


empilhadeiras/paleteiras?
3. Quais ferramentas/equipamentos você utiliza? Há algum que seja cortante,
desconfortável, difícil de operar, lento ou que exija alguma atenção especial na
operação?
4. Na maior parte do tempo o seu trabalho é realizado em pé ou sentado? Caso seja
realizado em pé, há algum motivo para não ser realizado sentado?
5. Precisa se curvar para realizar alguma atividade?
6. Você carrega algum peso ao realizar suas tarefas? Se sim, qual aproximadamente é a
quantidade de peso, quantidade de vezes e tempo em que carrega peso? Há algum
equipamento que auxilia nessa movimentação?
7. Sente-se pressionado para a realização das tarefas? Em sua opinião, elas são possíveis
de serem alcançadas? Há algum tipo de bonificação ou penalização de acordo com o
alcance ou não da meta?
8. Já presenciou algum acidente de trabalho? Lembra-se quando e como ocorreu?
9. Precisa realizar alguma atividade que necessite de precisão, forçando a visão ou
audição?
10. Suas tarefas são repetitivas ou muda de atividade periodicamente?
11. Como funcionou o treinamento para iniciar a sua função? Quem o treinou e qual foi o
tempo de duração?
12. Sente alguma dificuldade em dormir? Acorda antes da hora ou durante a noite? Ao
deita-se demora a dormir?
13. Sente-se bem durante o dia? Tem algum momento de cansaço ou sonolência?
14. Há alguma expectativa para crescimento na carreira?
15. O seu trabalho é realizado apenas dentro das dependências da “editora X” ou há
necessidade de se deslocar para lugar externo?
16. Você trabalha apenas no setor de expedição da “editora X” ou a “empresa terceirizada
Y” pode lhe enviar para outro cliente?
17. Como você descreveria seu trabalho passo a passo?
18. Ao analisar a figura a seguir, classifique de 1 a 7 as áreas que você sentiu desconforto

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nos últimos 12 meses, sendo 1 para sem desconforto e 7 para muito desconforto.

Figura 4 – Diagrama de áreas dolorosas

Fonte: Adaptado de (Corriet e Manenica, 1980)

19. Considerando a figura abaixo quais as áreas que você sentiu desconforto nos últimos
doze meses e nos últimos sete dias antecedentes a entrevista.

Figura 5 – Questionário nórdico

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