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CORTÉS, José Miguel G. Políticas do espaço: arquitetura, gênero e controle social.

São
Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008.

Cortés (2008), em seu livro Políticas do espaço: arquitetura, gênero e controle social,
tece uma análise sobre a produção do espaço urbano por meio da relação arquitetura-gênero-
sexualidade. Para isso, entrecruza dois debates - a criação de espaços dóceis e corpos
ausentes.
Na definição de espaços dóceis, evidencia a função social da arquitetura, enquanto
metáfora espacial da ordem e do poder hegemônico. Ela se manifesta como um sutil
mecanismo de poder. Sutil justamente por se apresentar sob um discurso tecnicista e,
supostamente, neutro, que mascara sua habilidade de manipulação . Logo, trata-se de ''uma
arquitetura vigilante, que tem objetivos disciplinares e que institucionaliza a tecnologia do
poder com objetivos de reprimir os indivíduos, fabricar corpos submissos e adestrados''
(CORTÉS, 2008, p.42).
Sob essa perspectiva, são centrais as contribuições de George Bataille e Michel
Foucault, que compartilham a concepção de arquitetura como expressão de uma sociedade
disciplinar, mas divergem ao apontar as estratégias e mecanismos utilizados no exercício
dessa função.
Para Bataille, a arquitetura representa o autoritarismo, incutindo a lei sobre os corpos,
e operando na formação de sujeitos por meio de representações do autoritarismo,
materializadas em monumentos que inspiram temor e impõe o silêncio (CORTÉS, 2008). A
análise de Foucault, ''centra-se em uma arquitetura que olha, espia, controla e vigia, uma
arquitetura voltada para o interior, que possui objetivos disciplinares e uma tecnologia de
poder sutil que pretende uma transformação mais profunda do indivíduo'' (CORTÉS, 2008,
p.29), atuando de modo difuso no corpo social, por meio de divisões binárias diferenciais -
como louco/não louco, perigoso/inofensivo, normal/anormal, etc - e na distribuição espacial
diferencial dos indivíduos, a fim de torná-los dóceis e úteis. Como ocorre de modo evidente
em instituições disciplinares, encarregadas da tarefa de controlar e corrigir aqueles
considerados anormais.
Nessa última abordagem entende-se que a arquitetura, que projeta lugares cotidianos,
reflete e reproduz diferenças e disputas sociais - como gênero, sexualidade, raça, e/ou classe
social - através da organização do espaço e estabelecimento de fronteiras, determinantes no
modo como lemos e internalizamos determinados conteúdos. Ou seja, cria um entorno
construído bipolarmente, que numa lógica dialética, contribui para legitimar um determinado
ponto de vista, como a exemplo,
''o público e o privado (com os quais se segmenta o espaço de modo que
certos lugares e certas pessoas permanecem sob vigilância, ao passo que
outras ficam mais livres), a segregação e o acesso (por meio de fronteiras e
caminhos que criam espaços privilegiados e lugares segregados por razões
econômicas, políticas ou culturais), a natureza e a história (a partir das
quais a arquitetura usa metáforas e constrói mitologias e significados para
legitimar a autoridade), a estabilidade e a mudança (com o desejo de
produzir a ilusão de permanência, de ordem social estabelecida e da
impossibilidade da mudança), a identidade e a diferença (que simbolizam
e estabelecem identidades sociais por meio de representação espacial), a
dominação e a docilidade (nas quais a escala de massa e volume dos
edifícios não pode ser separadas dos discursos de dominação e
intimidação)'' (CORTÉS, 2008, p.61)

Todos estes elementos constituem um processo de domesticação da vida social,


normatização de espaços e comportamentos, baseando-se em técnicas de controle e domínio
sobre os indivíduos. Aqui, destacamos a relação entre espaços públicos e privados, mas
entendendo que essas medidas são parte do mesmo projeto de caráter social, político e
econômico, que se entrecruzam no corpo individual e coletivo.