Você está na página 1de 11

“O outro duelo”: uma narrativa da violência em Jorge Luis Borges

Umberto Luiz Miele (aluno especial)

PPGL-UFPR
LETR 7087 – TÓPICOS ESPECIAIS IV
Profa. Patrícia da Silva Cardoso

Introdução
“O outro duelo” conta a história do ódio entre dois gaúchos, Manuel Cardoso e
Carmen Silveira, que atravessa os anos e as fronteiras entre Argentina e Uruguai no século
XIX, e só se resolve no campo de batalha, numa corrida final, quando são degolados pelo
exército vencedor. O chefe deles, Nolan, é uma das fontes pelas quais o relato se constrói –
são quatro, ao todo: o narrador, o “filho do romancista Carlos Reyles” e Laderecha, que
“acrescenta detalhes”, além do próprio Nolan. Este texto, curto e direto, é de uma violência e
crueldade inéditas na obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), que decidiu
publicá-lo duas vezes no ano de 1970: primeiro na revista Los Libros, como avant première
de “O informe de Brodie”, livro de contos e primeira obra puramente ficcional que o autor
publicou depois de “O Aleph”(1949’), onde seria publicado pela segunda vez no mesmo
ano.
Em “O outro duelo”, Borges resgata não só a história da “confusa formação das duas
pátrias”, mas também um pouco da história familiar e de ancestrais de origem ibérica, como
seu avô materno, que participou de conflitos e batalhas naquele século. Ao retomar fatos
históricos ocorridos há exatamente um século, trazer para o presente da escritura um passado
supostamente guerreiro e heroico, aproximar história familiar e nacional, em fronteiras
indefinidas e personagens errantes como Cardoso e Silveira, Borges elege a violência como
elemento constitutivo formador da nação argentina.
Quando escolhe contar a saga de guerras e conflitos pessoais sangrentos como tema
principal de suas ficções maduras, Borges o faz através de a desestabilização do narrador e da
sua confiabilidade, recorrendo a um recurso narrativo que atribui muitas e incertas fontes ao
relato, situando-o distante no tempo e no fragmentado da memória (somos alertados que o que
se conta provem de diversas fontes, que o relato é confuso e romanceado, e até mesmo pode
ser falso e mentiroso), desfocando assim o registro histórico e acentuando a perenidade e
atemporalidade do tema.
Por outro lado, no próprio texto que será analisado, confrontado com outra instância
narrativa - o Prólogo, que precede os contos do livro -, encontramos pistas que contradizem
essa negativa ao real imediato defendida como proposta estética pelo autor, como referências
explicitamente político-partidárias ou da adoção de um estilo “realista” nos contos. A própria
decisão de antecipar “O informe de Brodie” com a escolha do seu texto mais violento não é
isento de intenções e referências ao factual, como veremos mais adiante. O objetivo desse
estudo, portanto, será entender como essas instâncias se articulam no conto e como ele
dialoga, pela temática da violência, com os demais contos de “O informe de Brodie”, que
pode ser considerada a obra mais violenta e ao mesmo tempo a mais política do escritor
argentino.

1. “O informe de Brodie”: violência e política


Publicado em 1970, “O informe de Brodie” é apresentado com um Prólogo e reúne 11
contos, curtos e diretos, sendo primeira obra em prosa ficcional que o autor publicou depois
de “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949), livros que revelaram a originalidade do escritor
para o mundo e que fariam parte da sua herança cultural paterna, culta e universalista, livresca
e filosofante. Entre essas obras, separadas por mais de duas décadas, o argentino publicou
ensaios e poesias, numa produção intensa (“Outras Inquisições”(1952), livro de ensaios; “O
Fazedor” (1960), que reúne poemas e pequenos textos em prosa; e “O outro, o mesmo”
(1964), “Para las Seis Cordas” (1965) e “Elogio da Sombra”(1969) , todos poemas). Porém,
em “O informe de Brodie”, Borges estaria privilegiando uma outra vertente das suas
narrativas, baseada esta principalmente na herança materna, guerreira e militar, de origem
ibérica e que sempre esteve presente na sua obra, mas não com o protagonismo que ganha
agora. Operando como um duplo, estes temas fazem parte de uma “tradicioón ideológica que
ha pensado la história y la cultura argentina bajo la máscara dramática de la lucha entre
civilización y barbárie”. (PIGLIA, 1979, pg. 4), e que remetem à oposição entre o ideal
europeizante, citadino e letrado, defendido principalmente em “Facundo”, de Domingo
Sarmiento (1811-1888), e o conteúdo gauchesco e, portanto, local, inspirada nos poemas El
gaucho Martin Fierro (1872) e La vuelta de Martin Fierro (1879), de José Hernandez (1834-
1886), figura literária que representa o lado criollo, campesino e semi selvagem que dá forma
ao outro mito fundador da nação argentina,
Nesse retorno ao conto ficcional, Borges faz uma releitura dessa oposição entre
civilização e barbárie e abre espaço para os embates nacionais violentos e para o acento local,
escolhendo como locus o processo de formação nacional baseado na violência reinante num
século XIX de conflitos e guerras. Embora nem todos os contos dessa coletânea se
desenrolam naquele espaço e naquele tempo, seus personagens e contexto onde acontecem
sofrem diretamente as consequências daquele período histórico. A violência está presente, ao
longo dos 11 relatos, em suas mais diferentes formas e abordagens. Verdadeira protagonista,
ela surge implícita ou explícita de uma forma ou de outra, seja em atos e gestos violentos que
se revelam nos duelos a facas, nas degolas dos vencidos, no feminicídio dos irmãos que
recusam o duelo, mas sacrificam a amante; na crucificação do citadino letrado ou mesmo no
relato dúbio sobre uma tribo selvagem que talvez fosse mais civilizada que as sociedades
modernas, que pode ser lido como uma referência aos bárbaros e extremamente violentos
anos 1960-1970, período em que a maioria dos seus contos foram escritos, um período que se
caracterizou pelo acirramento da luta política e por atos de grande impacto e repercussão,
como o sequestro e execução do ex-presidente argentino Pedro Aramburu (1903-1970) pelo
grupo guerrilheiro Montoneros (SARLO, 2001), ocorridos no mesmo ano que Borges
escolheu exatamente este conto, o mais brutal e violento, como prelúdio – ou como outro
prólogo - à sua obra inédita.
“O informe de Brodie” pode ser considerada também a obra mais explicitamente
política de um autor que sempre disse recusar a abordagem política e a realidade imediata na
sua literatura. A tomada de posição política inequívoca começa de forma direta já no
Prólogo: “minhas convicções em assuntos políticos são por demais conhecidas: filiei-me ao
Partido Conservador..... Acredito que com o passar do tempo merecemos que não existam
governos” (p.16). Essa atitude, inédita e surpreendente, é seguida de uma explicação ou
justificativa: “o que é uma espécie de ceticismo”, e de algumas negativas, do que Borges não
é: “e ninguém me tachou de comunista, de nacionalista, de anti-semita....”. Essa discussão
política trazida pelo próprio autor nessa instância literária ensaística que é Prólogo é reforçada
por um comentário sobre as narrativas que viriam adiante no livro: “meus contos são realistas,
para usar a nomenclatura hoje na moda. Conservam, creio, todas as convenções do gênero”.
(p.16). Borges reforça ainda que sempre foi claro sobre o que pensa: “nunca dissimulei
minhas opiniões, nem mesmo nos anos árduos”, para novamente negar qualquer
contaminação dos relatos pelos acontecimentos da realidade imediata - “não permiti que
interferissem em minha obra literária”.
Porém, logo adiante, num dos contos mais discutidos e analisados do escritor, ao
retornar ao tema dos duelos, Borges reescreve a história de “Homem da Esquina Rosada”
(publicado em “Historia Universal da Infâmia”, em 1935), dando ao prelo “História de
Rosendo Juárez”, uma versão com novo ponto de vista narrativo e onde faz exatamente o que
acabara de negar, trazendo novamente temas políticos e de filiação partidária ao centro do
relato e do destino do seu personagem principal. Nesta segunda versão, incluída em “O
informe de Brodie”, Rosendo Juárez, antes um valentão temido, torna-se um obediente e
poderoso cabo eleitoral, “de valor nas praças da capital e da província”, muito útil e
necessário no jogo de poder, pois naquela época “as eleições eram violentas” (p.37). Assim,
neste conto que é a reescritura de uma outra ficção, a questão da violência regulando as
relações sociais e de dominação também está presente, revelando uma sociedade em
formação, onde os agentes e órgãos administrativos e controladores do Estado estão distantes
ou simplesmente ausentes, onde a justiça é exercida pela lei do mais forte e a força física e
bruta predominam. Encontramos aqui, portanto, política e violência entrelaçadas, discutidas
no Prólogo (enquanto manifesto de princípios políticos) e desenvolvidas narrativamente
(enquanto comportamento violento) no enredo de “História de Rosendo Juárez”. Um
procedimento criativo do autor que o crítico brasileiro Davi Arrigucci Jr definiu com precisão
como uma “conjunção insólita de arte com pensamento”, que o autor argentino exercitou ao
longo de toda sua obra, tendo criado “um novo gênero literário que participa do ensaio e da
ficção: ensaios que exploram suas possibilidades ficcionais e ficções que são verdadeiros
tratados filosóficos” (ARRIGUCCI JR, 1996, s/p).

2. “O outro duelo”: a violência extremada


Se a coletânea que “O informe de Brodie” reúne tem como acento dominante a
violência e a política, o conto “O outro duelo” se destaca por ser o mais cruel e violento deles
todos, e também a narrativa mais enxuta e direta, a mais breve do livro. Conta a história de
um conflito que atravessa décadas. Ou, como diz o narrador, “a crónica de um ódio e seu
trágico fim” (p. 71). A fonte do relato é Juan Patrício Nolan, “que ganhara fama de valente,
brincalhão e malandro”, e os protagonistas “eram dois gaúchos de Cerro Largo”, Manuel
Cardoso e Carmen Silveira. Ambos tinham “terrinhas contíguas” e um ódio que ninguém
sabia explicar muito bem - “fala-se de uma disputa por causa de animais sem marcar ou de
uma corrida em pelo” (p.72), conta-nos o narrador, que teria sido acirrada por uma “longa
partida de truco a dois”, quando estiveram a ponto de “se pegarem”. O relato prossegue
elencando outras razões vagas e imprecisas, ressaltando que a inimizade entre os dois não era
causada por um motivo objetivo ou relevante, mas por situações corriqueiras, intrigas que
mantêm a animosidade ao longo dos anos, constituindo-se como algo inevitável e imanente
àqueles personagens. O narrador prossegue em comentários sobre os antagonistas até que “por
volta do inverno de setenta, a revolução de Aparício encontrou-os na mesma taberna de
truco”, (p.73), onde são recrutados para lutarem pelo mesmo lado no conflito que se passa no
Uruguai na década de 1870, pois “a pátria precisava deles, a opressão governista era
intolerável.....” (p.74). Cardoso e Silveira “aceitaram sua sorte; a vida do soldado não era mais
dura que a do gaúcho” (p. 74), afinal, entre a lida no campo e na guerra, não há muita
diferença, uma vez que “matar homens não custava muito para a mão que tinha o hábito de
matar animais” (p.73). Apesar da valentia, os dois são derrotados no campo de batalha por um
inimigo que tem por hábito bárbaro e selvagem o de levantar como troféu a cabeça degolada
dos vencidos. A fama do ódio entre os contendores atravessa os anos e o pampa, e chega ao
chefe do bando vencedor, que vem a ser exatamente Juan Patrício Nolan, fonte da nossa
história. Este promete aos seus guerreiros um espetáculo cruel como recompensa pela vitória:
uma corrida de degolados, que resolveria finalmente a disputa entre os dois oponentes de
Cerra Alto. O fato é coberto de expectativa, o narrador monta a cena do duelo com audiência
e expectativa, e os personagens principais e secundários agem conforme uma peça dramática–
o carrasco, as vítimas, o público, o líder Nolan, todos cumprem seu papel e função narrativa
neste espetáculo macabro. Tiram a sorte para ver a quem caberá degolar cada um da dupla -
“Cardoso ficou para o degolador habitual”, que tinha o estranho hábito de animar suas vítimas
lembrando que muito mais sofrem as mulheres na hora do parto; Silveira coube ao Pardo
Nolan, que “envaidecido por sua atuação, exagerou e abriu um corte vistoso....”). Os dois
competidores se alinham para a largada, Nolan dá o sinal e o duelo afinal acontece, não no
enfrentamento direto à arma, mas numa competição esportiva, numa corrida de morte, quando
os dois caem de bruços após darem alguns passos. ´Cardoso, na queda, estirou os braços.
Ganhara a corrida e talvez jamais soubesse disso”(p.76), conclui o narrador.
Assim, como antecipa no Prólogo - “renunciei às surpresas de um estilo barroco;
também às que querem proporcionar um final imprevisto. Preferi, em suma, a preparação de
uma expectativa ou a de um assombro”. (p.17) - Borges realiza nesta ficção exatamente a
preparação e encenação de um grande ato final, criando expectativa para seu desenlace –
“Nolan, à maneira crioula, deixou-os esperando uma hora” (p. 75), conta-nos o narrador -
onde o seu final não é imprevisto - ao contrário, é bem previsível para uma sociedade que
tinha por hábito resolver à faca e com morte seus conflitos -. E é também assombroso, pelo
que contêm de crueldade e frieza, de repetição e tradição, narrado como um ritual que se
repete como que num ritual bárbaro e sanguinolento.

O narrador incerto
O “O outro duelo” poderia ser lido somente como um relato histórico de um momento
conturbado do processo de formação das nações sul americanas, não fossem os inúmeros
alertas do autor espalhados pelo texto acerca da sua incerteza, da confusão dos fatos e
narradores. A análise mais detida do papel do narrador, e principalmente dos primeiros quatro
parágrafos do conto, nos abre caminho para uma interpretação um pouco mais ampla.
Inicialmente, o autor situa a ação num passado remoto e distante, adotando uma certa
fabulação logo de início – “Já faz muitos anos....” (p. 71). O tom de relato incerto de um
tempo distante é reforçada por uma referência ao “romancista Carlos Reyles”, o que acentua
seu caráter novelesco e romanceado, e pela declaração do autor de que se trata de uma história
escutada a partir de um relato oral (sujeito portanto às variações e lapsos da memória ),
recontado por um dos personagens principais da trama, uma testemunha dos fatos, o que
compromete a sua imparcialidade e confiabilidade. O tom vago e diáfano retorna na frase
seguinte: “em minha memória se confundem agora a longa crônica de um ódio e seu trágico
fim com o odor medicinal dos eucaliptos e o canto dos pássaros”, misturando sensações e
lembranças, aprofundando o clima onírico e mágico, memorialista e nostálgico do relato.
A narração continua jogando incerteza sobre os fatos, e o segundo parágrafo começa
falando da “confusa história das duas pátrias” (Argentina e Uruguai), assinalando que ela
acontece no entrelugar incerto de guerras de fronteiras das duas nações flagradas no momento
da sua formação no século XIX. Em seguida, o texto prossegue com a reprodução de uma
pergunta dirigida ao narrador – se este conhecia a fama de Nolan. “Respondi-lhe, mentindo,
que sim”, diz “Borges”, assumindo de forma explícita as possibilidades falseadoras – e
portanto inventivas - do relato e deixando claro a imprecisão do que vamos ler a seguir, da sua
assertividade e fidedignidade ou não. Mas Borges ainda não está satisfeito, pois discorre por
mais algumas linhas procurando embaralhar ainda mais o discurso do que é ficção e o que é
realidade desta longa introdução metaliterária. Introduz então uma pergunta de destinação
ambígua: “Como recuperar, depois de um século, a obscura história de dois homens...”,
dirigindo-se a um interlocutor imaginário – que tanto pode ser o leitor como o próprio autor,
buscando estabelecer cumplicidade entre eles. Mais adiante, um novo depoimento vem se
agregar ao relato, o de Laderecha (citado como o capataz do pai romancista de Reyles),
responsável por acrescentar “certos pormenores” à história. Pormenores que, no entanto, o
narrador faz questão de avisar que transcreve “sem maior fé, já que o esquecimento e a
lembrança são inventivos”.
É só a partir deste ponto, do convite à cumplicidade do receptor de uma história que se
quer fabular, e da referência à invenção artística e à criação literária, e depois de termos
percorrido praticamente ¼ desta curta narrativa apreciando a preparação do relato, é que ele
finalmente deslancha, os fatos se sucedem e nossa “história” se desenrola: ficamos sabendo o
porquê do ódio entre Cardoso e Silveira, como e em que contexto ele foi se acumulando e
onde o destino foi encontrá-los, para só então acompanharmos com expectativa a preparação
do duelo final e sua execução. A partir da formulação da pergunta – “Como recuperar.....” - o
narrador funde as instâncias, agrupa os discursos e unifica a voz narrativa, juntando os relatos
de Borges, Reyes, Nolan e Laderecha em um só – o de “Borges”, o narrador final, o autor
que reúne as diversas versões dos fatos recebidos e coletados ao longo dos anos e que ao
longo da narrativa as vai consolidando numa voz única até o desenlace final, quando essas
várias vozes desaparecem num relato solidificado.
A insegurança em relação ao relato e ao seu referencial é acentuado por outros
aspectos do texto. A ação, como já dito, se situa na fronteira incerta, em formação, entre
Argentina e o Uruguai, por onde transita também o brasileiro “amulatado” que recruta os dois
personagens principais, que carregam a ambiguidade até no nome – um é de origem
portuguesa, Manuel Cardoso, e outro de origem hebraica e derivação latina, que tanto pode
referir-se ao gênero masculino quanto feminino - Carmen. Por fim, e não menos significativo,
é a negação ao direito ao duelo final imposta pelo inimigo, que impede que ele aconteça
enfrentamento pessoal, no corpo a corpo, duelando com armas brancas como manda a
tradição (e que se realiza em outro conto do livro, “O encontro”). O confronto final só
acontece como espetáculo, como competição esportiva, como um ritual público de celebração
da violência e prevalência da barbárie, que afinal vence. A metáfora da degola, da cabeça
cortada, é também a representação da derrota do processo civilizatório num mundo dominado
pela violência – é o braço que ganha a disputa, o mesmo que é uma extensão da mão que
manuseia as armas e a tradição violenta desta sociedade.
Borges opera portanto em mão dupla. Ao apoderar-se de um recurso retórico que
normalmente é utilizado para dar maior veracidade e maior fidedignidade aos fatos narrados –
o depoimento de um terceiro, o testemunho supostamente imparcial e verídico de quem
“viveu” a história, com direito à referência ao ano, local e ao fato histórico realmente
ocorrido-, ele carimba seu texto com o referencial histórico-político da ação. Mas a
veracidade dos fatos é precedida por tantos alertas sobre a incerteza do ocorrido e do que está
narrando, que o efeito é jogar suspeita e imprecisão sobre os acontecimentos, num movimento
onde o real se ficcionaliza e instaura um referencial mítico e atemporal.

3. A violência como herança


O referencial histórico do seu relato traz em si parte da herança e da história familiar
materna – seu avô, a quem dedicou o poema “Isidoro Acevedo”, participou das lutas entre
províncias que levaram à organização da nação argentina e frequentava sua casa na infância -,
e o conto “O outro duelo” remeteria a esta tradição. “Los antepassados, los mayores, son los
héroes, los guerreiros que han hecho la história” (PIGLIA, 1979, p.4), num processo onde a
história nacional se confunde com a familiar e a violência faz a conexão entre elas. Retomar
esse passado, portanto, e projetá-lo ao presente significa falar de uma história que é mais
ampla e antiga que a narrada, pois a violência que permeia “O outro duelo” reforça um
procedimento que vem de há muito tempo e está incrustrado na nossa história desde a
ocupação, conquista e exploração dos territórios e dos povos originais desde a chegada dos
conquistadores ibéricos. E que pode ser rastreado tanto nos fatos que perduram em 1870
quanto um século depois, quando Borges decide antecipar com seu conto mais cruel a
publicação do seu novo livro.
O processo de ocupação das colônias – baseado na conquista do território, na
exploração e/ou extermínio dos indígenas e seus bens materiais visando a rápida ascensão
social e enriquecimento através de métodos violentos, está na origem de conflitos como os
que acontecem em contextos sociais e políticos como os encontrados em “A intrusa”, “O
encontro”, “Juan Muraña” e, claro, em “O outro duelo”, todos de “O informe de Brodie”. Eles
ocupam um lugar no ordenamento social de um território que está sendo conquistado, com a
lei do mais forte e o poder da violência impondo sua ordem. Segundo o cientista político
Francisco Weffort, embora a violência não fosse novidade para as populações locais, e
práticas como escravização e o canibalismo fossem conhecidas, foi com a chegada de
portugueses e espanhóis que ela foi praticada de forma metódica e articulada como política de
Estado. Sua origem está em práticas que permitiram a Reconquista da Península Ibéria aos
mouros (processo que começou no século VIII e prosseguiu até a tomada de Granada em
1492), a partir de uma “cultura na qual a violência na vida cotidiana e o saqueio na guerra
eram recursos habituais” (WEFFORT, 2012, p.172), e que foram transplantados para o longo
processo de dominação do Novo Mundo.
A permanência dessa questão na literatura praticada no continente foi analisada pelo
crítico e ensaísta chileno Ariel Dorfmann, que dedicou um livro ao assunto (e um capítulo
específico a Borges). Em “Imaginación y violência em América”, ele afirma que “la novela
hispanoemricana refleja esa preocupación (sobre a violência) se advierte em cada página
escrita em nuestro continente, essas páginas que son como la piel de nuestros pueblos, los
testigos de uma condición siempre presente”. Para ele, o tema encontra no continente uma
repercussão e predominância que são inéditas no mundo, e adquire um caráter existencial ao
se perguntar, no fundo das suas formulações, ”como el hombre americano há enfrentado el
problema de su muerte y su liberdade, y como, derrotado o vencedor, há sabido buscar em la
violência su ser mais íntimo, su vinculo ambíguo o imediato com los demás”(DOFRMAN,
1968, pg 9).
Ao explorar literariamente uma saída violenta para a solução dos conflitos nacionais,
ao trazer o tema para o centro da sua obra nessa fase da vida, “nas fronteiras da velhice”,
Borges não esconde porém a contradição dessa opção. Se ele manifesta sua contrariedade a
qualquer tipo de regime ou filosofia política autoritária ou ditatorial – a referência aos regimes
comunistas, nazistas ou nacionalistas, feita no Prólogo, atesta esse comentário– ele opta
porém por uma saída radical via violência extremada, bárbara e reveladora de uma sociedade
com práticas tão primitivas quanto as descritas no conto aqui analisado. “Borges se considera
empanantanado em uma época miserable, donde el heroísmo y el coraje ja no existen, siente
nostalgia – y la pasión – de la aventura, recuerda sus antepassados, sus muertes
victoriosas....”, (DORFMAN, 1968, p.54), analisa o crítico chileno, para concluir que essa
opção pelo individualismo heroico de uma Argentina que ficou no passado é também uma
opção política por um individualismo liberal um tanto arcaico, que se contrapõe como mundo
ordenado e articulado àquele vivido pelo autor nos conflagrados anos das décadas de 960 e
1970.

A violência presente
A conexão entre a violência extrema de “O outro duelo” e a violência política que se exaspera na
Argentina de 1970 foi feita pela crítica argentina Beatriz Sarlo, que analisou esse texto borgeano em
“A Paixão e a Exceção”. Ela recupera o contexto da época para trazer o factual imediato como uma
das referências inescapáveis na análise do conto - “em agosto de 1970, a revista Los Libros publicou
“O outro duelo”, de Borges. A nota editorial dizia: No dia 24 de agosto Jorge Luis Borges completa 71
anos. Coincidindo com a data, será publicado pela Emecé um novo livro de contos...”– e propor assim
uma interpretação do ato do escritor e da narrativa escolhida: “depois de muitos anos, Borges
escolhia como antecipação a “O informe de Brodie” essa história bárbara, e mais uma vez afrontava
seus leitores com a narração diáfana de um acontecimento brutal e remoto”. Por que então, nesse
momento, o escritor retorna a esse mundo bárbaro e confere a ele esse caráter factual? Para Beatriz
Sarlo, a decisão de publicar o conto e elegê-lo como antecipação de sua obra ficcional inédita depois
de muitos anos remete diretamente ao conturbado momento vivido pela Argentina, em plena
ditadura militar e que via explodir a luta armada e o movimento guerrilheiro liderado pelos
Montoneros, que exatamente em 1970 realizaria seu ato mais espetacular, o sequestro e execução
do general e ex presidente da Reepública, Pedro Aramburu. . Como ela mesma afirma, “a Argentina
já não seria a mesma depois dos acontecimentos de maio e junho de 1970”, referindo-se ao evento
redefinidor da história do país partir de então, e que colocaria a violência política em outro patamar.
A publicação do conto por Borges acontece dois ou três meses depois desse ato, e antecipa uma
coletânea onde o recrudescimento político e atrocidade dos atos se percebe nas atitudes bárbaras e
violentas dos seus personagens. Ao retomar no final da vida o tema da vingança, dos duelos e lutas
cruéis, Borges procura num passado idealizado, mítico-heroico, um sentido e uma ordem para o caos
daqueles anos. Reconhece também que a ideia da violência, vivida como um destino inescapável,
continua a definir a cultura argentina : “Em este mundo criollo, el coraje tomó el lugar de otras
virtudes, más “civilizadas”. (SARLO, 2007. P. 161).
O tema do “destino” domina a vida dos personagens da literatura hispano americana
está presente de forma mais acentuada em outro texto deste volume de contos, intitulado “O
encontro”. Também de estilo direto e narrativa concisa, este relato tem em comum o tema da
lembrança, do relato de um acontecimento perdido no passado e que a instável memória tenta
recuperar. Como “O outro duelo”, o tema aqui é de um duelo, mas desta vez a disputa se
realiza no corpo a corpo, com armas brancas, num confronto de morte. Temos também um
público que assiste como plateia o confronto (“Nove ou dez homens, que já morreram, viram
o que meus olhos viram” (p. 48)), que atravessa os anos como aquele entre Cardoso e
Silveira., numa narrativa que se desenvolve célere, com acontecimentos que se precipitam
enquanto os presentes assistem impotentes ao conflito. Os amigos começam a brigar e o duelo
a punhal é inevitável: “- Estão se matando. Não os deixem continuar”, grita alguém do grupo,
porém “ninguém se atreveu a intervir”(p.46). O aço da arma procura o rosto do adversário. O
conflito que atravessa os anos é de outra ordem -: “as armas, não os homens, lutaram”, afirma
o narrador, para logo em seguida insistir: “as duas sabiam duelar – não seus instrumentos, os
homens” (p. 48). O desenlace do duelo é ainda mais surpreendente – “Maneco Uriarte
inclinou-se sobre o morto e pediu-lhe que o perdoasse. Soluçava sem fingimento. O que
acabara de cometer o dilacerava. Agora sei que se arrependia menos de um crime que da
execução de um ato insensato” (p/ 46).
Vemos representado novamente aqui a violência através de um conflito que é mais
forte que a vontade humana e transcende os fatos, instaurando-se como um destino histórico,
onde a luta e o embate corpo a corpo ritualizam as relações, impõem uma ordem baseada na
força e na coragem, e definem os limites de uma sociedade onde “la única ley es el código de
honor porque las insittuiciones formales del estado están ausentes”(SARLO, 2007, p. 159).

Conclusão
Ao criar em “O outro duelo”uma narrativa apoiada em várias instâncias – o narrador
(“Borges”) escuta a história do filho do romancista que por sua vez reproduz o relato de
Nolan, detalhado pelo capataz Laderecha –, Borges estabelece um jogo entre a fidedignidade
aos fatos históricos narrados e a impossibilidade de fazê-lo . Com dados objetivos e precisos,
nos indica que quer falar da história da formação das nações americanas no século XIX, onde
seus antepassados tiveram participação corajosa e relevante, mas, ao se deter tantas vezes em
sinalizar ao leitor sobre insegurança do seu relato, a impossibilidade de captar depois de tanto
tempo como os fatos efetivamente aconteceram, ao assumir a confusão e a falsidade como
disparo da sua narrativa e da ação do enredo, o escritor argentino também tenta nos dizer que
não devemos nos ater aos fatos, não é bem dessa época e dessa região que ele está falando. É
também, mas não só. Ao fazer da violência o fio condutor e o protagonista desse conto mais
do que em outros de “O informe de Brodie”, e ao decidir por este relato específico para
antecipar naquele momento histórico a sua nova obra ficcional, a ao dar voz a múltiplas fontes
e narrativas, Borges reafirma que “há uma espécie de permanência do passado ao longo do
que se entenderia por presente. Essa permanência é proposta como ausência de superação do
passado, como expressão de um desespero para uma distinção entre a percepção mediada pela
memória e apercepção imediata da experiência” (GINZBURG, 2017, p. 155).

Bibliografia
ARRIGUCCI Jr, Davi – Borges ou do conto filosófico. Folha de São Paulo. São Paulo: 03
abr 1996. Folha Especial, s/p.
BOOTH, Wyne – A retórica da ficção. Lisboa: Editora Arcádia. 1980
BORGES, Jorge Luis. Obras Completas 1923-1972. Buenos Aires: Emecé Editores, 1974.
- O informe de Brodie. São Paulo: Editora Globo, 2001.
DORFMAN, Ariel – Imanginación y violencia en America. Barcelona: Editora Anagrama.
1968.
GINZBURG, Jaime – Crítica em tempos de violência. São Paulo: Edusp. 2017.
PIGLIA, Ricardo – Ideologia y ficción en Borges. Revista de Cultura. Buenos Aires, ano 2,
número 5. 1979. ..........
SARLO, Beatriz – A paixão e a exceção – Borges, Eva Perón, Montoneros”. São Paulo:
Editora UFMG-Cia das Letras. 2005.
- Borges, um escritor em las orillas. Buenos Aires: Editora Seix Barral. 2007.
WEFFORT, Francisco C. Espada, cobiça e fé – As origens do Brasil. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2012.