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Tamar e Judá

Tamar andou por fé, ao crer em uma mensagem, que tinha por alvo todos os
descendentes da carne de Abraão, não em uma promessa feita, diretamente, a
ela. Pela fé de Tamar Cristo é o Leão da Tribo de Judá.

Tamar e Judá
– “Mais justa é ela do que eu, porquanto, não a tenho dado a Selá, meu
filho.” (Gênesis 38:26)

Introdução
Todos os cristãos declaram, com alegria, conforme consta no Livro do Apocalipse,
que o Senhor Jesus Cristo é o Leão da Tribo de Judá!

“E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a
raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos” (Ap
5:5).

Judá foi abençoado por Jacó, seu pai, com a seguinte bênção:

“Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de


teus inimigos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão. Judá é um leãozinho, da
presa subiste, filho meu; encurva-se e deita-se como um leão, como um leão
velho; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o
legislador. dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os
povos. Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta à cepa
mais excelente; ele lavará a sua roupa no vinho e a sua capa em sangue de
uvas. Os olhos serão vermelhos de vinho e os dentes brancos de leite” (Gn
49:8-10).

A bênção anunciada por Jacó aos seus filhos, dizia acerca de um futuro distante
(Gn 49:1) e destaca a linhagem de Judá como leão, no auge da sua força, que a
realeza pertenceria à casa de Judá e dela nasceria o Cristo, o regente dos povos.
Daí advém à designação de ‘Leão da Tribo de Judá’, à raiz de Davi, que é dada ao
Messias.

Entretanto, Judá figura como um dos ascendentes de Cristo, pela ação de uma
mulher estrangeira, Tamar, a nora de Judá. Tamar creu na promessa do
Descendente feita a Abraão, Isaque e Jacó e agiu segundo a palavra da promessa,
quando buscou descendência para o seu marido.

A história
Tudo começou com Judá, o quarto filho de Jacó e de Lia, a primeira esposa de
Jacó, a que foi desprezada (Gn 35:23). Em vez de buscar para si uma esposa, em
meio à sua parentela, como fizeram Isaque e Jacó, Judá apartou-se de seus
irmãos, logo após ele, Judá e seus irmãos, venderem José para os ismaelitas (Gn
37:28).

Judá foi morar em Adulão, na casa de um homem chamado Hira. Em Adulão, Judá
conheceu a filha de um cananeu, Sua, e teve três filhos: Er, Onã e Selá. Judá
escolheu uma mulher para Er, o seu filho primogênito, uma canaanita de nome
Tamar.

O casamento de Er e Tamar não durou muito, pois ele era perverso diante de
Deus, pelo que Deus o matou (Gn 38:7). Judá, com cuidado da sua linhagem, deu
ordem ao seu segundo filho, Onã, para deitar-se com Tamar e assim, o seu filho
do meio cumpriria o dever de cunhado, suscitando linhagem ao seu irmão Er (Gn
38:8).

Onã, por sua vez, sabendo que a linhagem não lhe pertenceria, antes, seria do seu
irmão Er, sempre que se unia a Tamar, mulher do falecido, lançava o sêmen na
terra, com o propósito de não dar descendência ao seu irmão (Gn 38:9). Em
função desse posicionamento mesquinho, Deus matou Onã (Gn 38:10).

Observe que Onã não foi morto em função de utilizar o método contraceptivo mais
antigo da história: lançar o sêmen na terra (coito interrompido), mas, sim, por
negar descendência ao seu irmão. Entender, com base nesta passagem bíblica,
que os métodos contraceptivos constituem pecado, é tremendo equívoco, pois, o
mal praticado por Onã resume-se em:
a) não dar descendência ao seu irmão, e;

b) enganar Judá, se passando por obediente.

Com a morte de dois filhos, Judá não quis dar o seu filho mais novo à Tamar, pois
pensou que Selá também poderia morrer. Com medo, Judá combinou com Tamar
que daria o seu filho mais novo, posteriormente, quando Selá se tornasse homem,
e assim cumpriria a obrigação de cunhado.

Percebe-se, através do pensamento de Judá, que ele inferiu que Tamar poderia
levar o seu terceiro filho à morte, como se o problema estivesse em Tamar. Ele
nem mesmo aventou a maldade dos seus filhos diante de Deus, porque foi a
maldade deles que os levou à morte.

A maldade dos filhos de Judá, que morreram, estava no fato de não quererem
filhos, tanto Er quanto Onã. Alguém pode se perguntar: Onde está a maldade em
alguém não querer ter filhos? Para qualquer outra família na face da terra não
havia e continua não sendo mal algum, mas para os descendentes de Abraão,
Isaque e Jacó a maldade resume-se na falta de confiança na promessa que Deus
fez a Abraão.

Todos da casa de Judá tinham conhecimento da promessa que Deus fez a Abraão,
Isaque e Jacó. Todos sabiam que Deus abençoara a Abraão, o bisavô de Judá,
concedendo a ele um filho, sendo Sara, mulher de Abraão, estéril, que deu à luz
com 90 anos. Com Isaque, que nasceu segundo a promessa, não foi diferente,
pois, Rebeca, também, era estéril e deu à luz gêmeos: Esaú e Jacó.

Como ignorar o fato de que Raquel, também, estéril, tivera dois filhos: José e
Benjamim? Mas, os dois filhos de Judá, Er e Onã não fizeram caso do que
souberam, através de seu pai, pois não se portaram segundo a palavra que
ouviram. Nem mesmo Judá considerou a promessa e a fé de Abraão, ao negar o
seu filho mais novo a Tamar.

“Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou


que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, o ressuscitar” (Hb
11:18).

O rei Ezequias foi outro descendente de Abraão, que esteve à beira da morte, por
não prover descendência à casa de Abraão e Davi. Quando lhe foi dito, por
intermédio do profeta Isaías: “Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa
porque morrerás e não viverás”, tal alerta se deu por Ezequias não ter filhos, até
aquele momento. (II Rs 20:1)

‘Casa’, no texto, refere-se à descendência, diferentemente do que muitos pensam,


que se tratava de alguma dívida, ofensa, mágoa ou dano que Ezequias deveria
reparar. Ezequias não iria morrer por erros cometidos, visto que ele mesmo
declarou que andava em verdade diante de Deus e fazia o que era bom aos olhos
de Deus, antes iria morrer por se postar como obstáculo à linhagem messiânica,
não provendo descendência para si. (II Rs 20:3)

Como Deus prometeu a Davi que lhe edificaria casa, Davi ficou admirado que
Deus falasse acerca da sua linhagem, para tempos distantes (2 Sm 7:19). Ao dar
mais 15 anos a Ezequias, Deus assim o fez, por duas razões: a) o amor ao Seu
nome e; b) pela promessa que fez a Davi (2 Rs 20:6). Se Ezequias acreditava na
palavra de Deus, anunciada a Abraão e a Davi, deveria se preocupar em ter filhos.

Quando Ezequias morreu, o seu filho Manassés reinou em Israel, com apenas
doze anos de idade, demonstrando que, após a palavra do Senhor, Ezequias ainda
demorou três anos para colocar a sua ‘casa’ em ordem! (2 Rs 21:1)

Tamar, por sua vez, apesar de estrangeira, ao ficar sabendo da história da família
de Judá, diferentemente dos seus filhos, considerou as histórias que ouviu, acerca
da promessa feita a Abraão e buscou linhagem para o seu marido.

Por que podemos inferir que Tamar soube da promessa? Porque Abraão ensinou
aos seus filhos e à sua casa, depois dele, para guardarem o estabelecido por Deus,
conforme se lê:

“Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à


sua casa. depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir
com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca
dele tem falado” (Gn 18:19).

A filha de Sua, mulher de Judá, faleceu muito tempo depois da promessa que Judá
fez a Tamar, o que demonstra que Judá não iria cumprir a sua palavra. Depois de
consolado da sua viuvez, Judá, juntamente com o seu amigo, Hira, subiu a
tosquiar as ovelhas. Tamar, por sua vez, foi avisada que Judá estava se
deslocando para Timna, onde ficavam os tosquiadores de suas ovelhas.
Como havia passado o tempo e como Tamar percebeu que o seu sogro não lhe
daria o seu filho mais novo (visto que Selá já era homem), ela tirou os vestidos da
sua viuvez, cobriu-se com um véu para se disfarçar e assentou-se à entrada de
Enaim, caminho de quem ia a Timna (Gn 38:14).

Ao passar por Tamar, por causa do véu, Judá não reconheceu a sua nora e
considerou que fosse uma prostituta e lhe propôs: – ‘Vem, deixa-me dormir
contigo! ’ Sem se revelar, disse Tamar: – ‘Que darás para dormires comigo?’ e
Judá prometeu pagar Tamar com um cabrito do rebanho.

Tamar solicitou uma garantia de que o pagamento seria honrado, então, Judá
aquiesceu e perguntou: – ‘Que penhor é que te darei?’. Na sequência, ela solicitou
o selo de Judá, com o seu cordão, bem como, o cajado que portava. Judá deu o
penhor e, sem reconhecer Tamar, dormiu com sua nora e ela concebeu.

Tamar voltou para a casa do seu pai e cobriu-se com o vestido de sua viuvez!
Judá, por mão do adulamita, enviou o pagamento para rever os objetos
penhorados, porém, Hira não localizou a mulher, que julgava ser uma prostituta
cultual. Após ser informado de que a prostituta não foi localizada, Judá,
preocupado com a sua honra, deixou pra lá o penhor, pois apesar de enviar o
pagamento, não a localizou.

Passado três meses, trouxeram ao conhecimento de Judá que a sua nora Tamar
havia adulterado, pois estava grávida. Judá, de pronto, ordenou que ela fosse
tirada da casa de seu pai e queimada. Mas, enquanto era conduzida para ser
queimada, Tamar, de posse do penhor, informa aos seus algozes que aqueles
objetos pertenciam ao pai da criança e que o seu sogro verificasse a quem
pertenciam os objetos.

Ao ver os seus pertences, Judá os reconheceu e declarou sua nora mais justa que
ele, pelo motivo de não ter dado o seu filho Selá, para cumprir a obrigação de
cunhado, costume que, posteriormente, na lei, foi nomeadode ‘Lei do levirato’.

“Mais justa é ela do que eu, porquanto não a tenho dado a Selá, meu filho.”
(Gênesis 38:26)
Tamar, uma mulher justa
Para a nossa análise, é imprescindível desvencilhar-se da lente moral, própria à
nossa sociedade e ao nosso tempo. Os valores socioculturais, à época, eram
completamente diversos da nossa, e não servem de exemplo para pautarmos as
nossas condutas, hoje, e nem para tecermos críticas aos personagens bíblicos.

A análise do texto deve ter o mesmo prisma do historiador que escreveu o Livro
de Gênesis, que não emitiu nenhum juízo de valor, nem em relação à conduta de
Judá, por buscar uma prostituta, e nem em relação à Tamar, que se disfarçou para
deitou-se com o seu sogro.

Para compreender as relações sociais à época, se faz necessário levar em conta


alguns princípios de análise apontados por Jaeger, em sua obra ‘Paideia – A
formação do Homem Grego’, com relação ao emprego de termos gregos utilizados
na antiguidade, que, devido às transformações culturais, acabaram sendo
considerados hoje com sentido completamente diverso de quando foi utilizado:

“… a unidade originária de todos aqueles aspectos – unidade vincada na


palavra grega – e não na diversidade sublinhada e consumada pelas
locuções modernas (…) Ao empregar um termo grego para exprimir uma
coisa grega, quero dar a entender que essa coisa se contempla, não com os
olhos do homem moderno, mas sim, com os do homem grego”. JAEGER, W.
Paideia – A formação do Homem Grego, tradução de Artur M. Parreira, 4ª
ed., São Paulo, Ed. Martins Fontes, 2001, p. 01.

O único juízo de valor que encontramos no texto é o de Judá que, ao saber da


gravidez de Tamar, mandou queimá-la, quando arguido, reconheceu os seus
pertences pessoais e, de pronto, justificou a Tamar, visto não ter dado o seu filho
mais novo a ela.

Percebe-se, pelo texto, que a moral vigente à época era honrar o contrato,
cumprir como prometido, tanto que Judá não queria ser infamado, por não ter
quitado a dívida com uma prostituta, deixando de mão o penhor que havia
entregue como garantia de pagamento. No entanto, não considerou que cairia em
desprezo, se não cumprisse a palavra que dera a Tamar, acerca do seu filho mais
novo, Selá.

“Então disse Judá: Deixe-a ficar com o penhor, para que, porventura, não
caiamos em desprezo; eis que tenho enviado este cabrito; mas tu não a
achaste” (Gn 38:23);

“Então disse Judá a Tamar, sua nora: Fica-te viúva na casa de teu pai, até
que Selá, meu filho, seja grande” (Gn 38:11).

Judá considerou uma desonra não honrar a sua palavra com uma prostituta, mas
não honrou a sua palavra com a sua nora, que teve que permanecer viúva na casa
do pai dela. Judá teve a vida do seu filho caçula por preciosa, em detrimento da
promessa feita a Abraão e da obrigação de prover linhagem a Er, seu filho
primogênito.

Tamar, por sua vez, sendo estrangeira e participante da família, pelo casamento,
mesmo após a morte do marido, não teve a sua vida por preciosa e buscou
descendência para o seu marido. Podemos afirmar de Tamar, que ela foi uma
mulher sábia, pois edificou casa ao seu marido, mesmo ele sendo perverso aos
olhos de Deus.

“Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias
mãos” (Pv 14:1).

Prover descendência ao marido é o papel da mulher sábia e assim Tamar o fez, ao


deitar-se com seu sogro, como se fosse prostituta e, ao ter a perspicácia de
guardar consigo o penhor.

Outras mulheres, em Israel, não tiveram sabedoria semelhante a Tamar, a


exemplo de Mical, que foi amaldiçoada pelas palavras que proferiu em desfavor
de Davi, justo no dia em que Davi voltava com a Arca do Conserto e tencionava
abençoar a sua casa.

“E sucedeu que, entrando a arca do SENHOR na cidade de Davi, Mical, a


filha de Saul, estava olhando pela janela; e vendo ao rei Davi, que ia
bailando e saltando, diante do SENHOR, o desprezou no seu coração (…) E
voltando Davi para abençoar a sua casa, Mical, a filha de Saul, saiu a
encontrar-se com Davi e disse: Quão honrado foi o rei de Israel,
descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem
vergonha alguma, se descobre qualquer dos vadios (…) E ainda mais do que
isto me envilecerei e me humilharei aos meus olhos; mas das servas, de
quem falaste, delas serei honrado. E Mical, a filha de Saul, não teve filhos,
até o dia da sua morte” (2 Sm 6:16 e 20 e 22-23).

Observe que Tamar se disfarçou de prostituta para alcançar o que lhe era de
direito e não para defraudar o seu sogro. Mical, por sua vez, por ser filha de Saul,
considerou-se da realeza e desprezou Davi, por comemorar o retorno da Arca da
Aliança para a cidade de Jerusalém.

Ouvir bem as histórias da família do seu marido Er, deu a Tamar os elementos
necessários para ela alcançar o que era, por direito, da casa do seu marido. Uma
das histórias foi a de Jacó, que em conluio com sua mãe, Rebeca, enganou seu pai,
Isaque, para garantir o direito que havia adquirido do seu irmão Esaú (Gn 25:33).
Outra, que possivelmente auxiliou Tamar, foi a história das filhas de Ló, que
proveu linhagem ao seu pai após embriagá-lo (Gn 20:32).

Tamar estava convicta de que necessitava prover descendência ao seu marido,


pois quando Er morreu, ficou livre da lei do seu marido, podendo voltar para casa
dos seus pais ou casar-se novamente, mas, não quis. Porém, para honrar Er,
Tamar sujeitou-se ao seu sogro, quando este instou ao seu filho Onã para cumprir
o dever de cunhado, e posteriormente, continuou guardando a sua viuvez na casa
do seu pai.

Durante o tempo que Tamar esperou Judá para dar-lhe o seu filho mais novo, ela
não se desfez do seu luto e nem do vestido da sua viuvez, permanecendo na casa
do seu pai.

Portanto, a atitude de Tamar demonstra que ela era mais zelosa da promessa feita
a Abraão acerca do Descendente, do que Judá e os seus filhos. O titulo ‘O Leão da
Tribo de Judá’, que hoje pertence a Cristo, se deve a Tamar, uma mulher
estrangeira, que proveu descendência a Judá e, assim, figura na linhagem de
Cristo.

“Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão


gerou a Isaque e Isaque gerou a Jacó; Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; e
Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom
gerou a Arão; Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom;
Naassom gerou a Salmom; e Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz
gerou, de Rute, a Obede; e Obede gerou a Jessé; e Jessé gerou ao rei Davi; e
o rei Davi gerou a Salomão, da que foi mulher de Urias. E Jacó gerou a José,
marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo” (Mt 1:1
-16)

Tamar figura entre as três mulheres que aparecem na genealogia de Jesus, desde
a promessa feita a Abraão, até o nascimento de Cristo. Vale destacar que as três
mulheres que figuram na linguagem de Cristo eram estrangeiras:

a) Tamar era cananéia;

b) Raabe, a prostituta, morava em Jericó, e;

c) Rute, uma moabita.

Muito tempo após Tamar prover descendência a Judá, Jacó, próximo da sua
morte, chamou os seus filhos e os abençoou. E assim, coube a seguinte benção a
Judá:

“Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de


teus inimigos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão. Judá é um leãozinho, da
presa subiste, filho meu; encurva-se e deita-se como um leão, e como um
leão velho; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o
legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os
povos. Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta à cepa
mais excelente; ele lavará a sua roupa no vinho e a sua capa em sangue de
uvas. Os olhos serão vermelhos de vinho e os dentes brancos de leite” (Gn
49:8-12).

A bênção concedida a Judá veio através de Peres, que Judá gerou de Tamar e da
Tribo de Judá descende o Cristo.

Tamar, mulher de fé
Percebe-se, pela disposição de Tamar em dar descendência ao seu marido, que
ela não tinha interesse em bens materiais, como herança, dote, recompensa, etc.

Bastou Tamar, uma mulher estrangeira, fazer parte da família de Judá e, ouvir as
histórias dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, para crer na vinda do
Descendente. Ela creu na palavra de Deus e executou a obra exigida: procurou
manter a linhagem do seu marido e, por isso, foi bem-aventurada no seu feito (Tg
1:22-25).

Tamar, como Abraão e Raabe, agiu conforme a palavra de Deus. Tamar agiu
tendo por base a palavra de Deus, assim como Abraão, que ofereceu o seu único
filho em holocausto, porque Deus lhe ordenara. Raabe, a prostituta, ouviu acerca
dos filhos de Israel, mas foi justificada por ter acolhido os espias em sua casa,
pondo em risco a própria vida (Tg 2:21-25).

Para o Descendente prometido a Abraão vir ao mundo, era imprescindível manter


a linhagem dos filhos do patriarca, sendo certo, pelas profecias, que Deus havia
eleito a linhagem de Jacó (Gn 25:23), e, assim, todos os filhos de Jacó tinham
obrigações em relação à promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó, tendo filhos.

“Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à


sua casa, depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir
com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão, o que acerca
dele tem falado” (Gn 18:19).

“E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não te chamarás mais Jacó, mas Israel
será o teu nome e chamou-lhe Israel. Disse-lhe mais Deus: Eu sou o Deus
Todo-Poderoso, frutifica e multiplica-te, uma nação, sim, uma multidão de
nações sairá de ti e reis procederão dos teus lombos; e te darei a ti a terra
que tenho dado a Abraão, a Isaque e à tua descendência, depois de ti, darei
a terra” (Gn 35:10-12).

Parecia improvável o Descendente vir da casa de Judá, visto que ele não
permaneceu junto da sua família e não tomou mulher dentre a sua parentela.
Mas, o engajamento de Tamar, com base na palavra de Deus, anunciada à casa de
Jacó, foi de suma importância para a benção repousar na Tribo de Judá.

Some-se a isso, a possibilidade de Tamar ter ouvido as histórias acerca de Simeão


e Levi, na questão da violação de Diná, em que foram violentos e sanguinários,
sem consideraram que as suas ações expuseram a casa de Jacó ao extermínio (Gn
34:30). Tamar, possivelmente, ouviu acerca de Rúben, o primogênito de Jacó, que
subiu ao leito de seu pai, quando se deitou com Bila (Gn 35:22).

Se a linhagem escolhida por Deus fosse decorrente de Lia, a mulher de Jacó que
era desprezada, a casa de Judá poderia ser eleita, tendo em vista as ações
mesquinhas de Rúben, Simeão e Levi (Gn 49:3 -7), pois nada que fizeram visava à
preservação da linhagem de Israel, mas, sim, atender a interesses particulares.

Analisando a conduta de Tamar, temos que, comer carne e não comer, não é
pecado. Mas, se alguém tem dúvidas, acerca do que comer ou do que não comer,
mas, come, está condenado. O problema não está na carne e nem no ato de
comer, mas, antes, na base do conhecimento de quem come.

Se quem come está certo em Cristo, de que nenhuma coisa é imunda, não está
condenado. Mas, se alguém come, todavia, se não está certo em Cristo, de que tal
comida não é imunda, encontra-se em condenação, pois tudo o que não é
proveniente da fé, é pecado.

“Eu sei e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma
imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda
(…) Mas, aquele que tem dúvidas, se come, está condenado, porque não
come por fé; e tudo o que não é de fé, é pecado” (Rm 14:14 e 23).

Se a ação de Tamar, ao enganar Judá, fosse somente para adquirir algum tipo de
lucro, vingança, vã glória, etc., seria pecado. Mas, como a ação dela tinha por
objetivo a promessa, visto que ela desejava descendência ao seu marido, a sua
iniciativa de conceber do sogro não foi pecado.

Some-se a isso, o fato de Tamar buscar o que lhe era de direito: a descendência
ao seu marido e não os seus sonhos, riquezas, vingança, etc.

Quando a Bíblia diz que o justo viverá da fé, entendemos que a ‘fé’ é a palavra de
Deus:

“Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas, o justo pela sua fé
viverá“ (Hc 2:4);

“E te humilhou e te deixou ter fome, te sustentou com o maná, que tu não


conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que o
homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR,
viverá o homem” (Dt 8:3);

A palavra de Deus é o temor que desvia o homem do pecado:

“E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que
o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis“ (Êx 20:20);
“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti“ (Sl
119:11).

Tamar tornou-se exemplo em Israel e passou a ser louvada pela descendência que
proveu a Judá, porque pautou a sua vida, segundo o que ouvira de sua nova
família:

“E seja a tua casa, como a casa de Perez (que Tamar deu à luz a Judá), pela
descendência que o SENHOR te der desta moça” (Rt 4:12).

Exemplo de fé para os homens de hoje


É comum os pregadores apresentarem a Tamar como exemplo de fé, e isso é
inegável, porém, temos que analisar o que abstrair do exemplo de Tamar, para
não sermos levados por falsos argumentos.

Ler que Deus honrou a Tamar por ela ser viúva e que as viúvas cristãs são
assistidas por Deus por serem viúvas é um equívoco. É um equivoco entender,
com base na história de Tamar, que Deus detém cuidado especial para com as
mulheres viúvas, simplesmente, por elas serem viúvas.

Jesus, com base na história da viúva de Sarepta, de Sidom, evidenciou que, em


Israel, havia muitas viúvas, nos dias em que Elias orou para que não chovesse
sobre a face da terra, mas que, a nenhuma delas foi enviado o profeta, a não ser à
uma viúva estrangeira (Lv 4:25-26).

E por que Elias foi enviado à viúva de Sarepta, de Sidom? Porque ela era
obediente à palavra de Deus!

“Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu
ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1 Rs 17:9);

“Porque, assim diz o SENHOR Deus de Israel: a farinha da panela não se


acabará e o azeite da botija não faltará, até ao dia em que o SENHOR dê
chuva sobre a terra. E ela foi e fez, conforme a palavra de Elias; e assim
comeu ele, ela e a sua casa, por muitos dias. Da panela, a farinha não se
acabou e da botija, o azeite não faltou, conforme a palavra do SENHOR, que
ele falara pelo ministério de Elias” (1 Rs 17:14-16).
Ora, Deus cuidara da viúva de Sarepta, uma estrangeira, porque ela era
obediente à voz de Deus, o que contrasta com as viúvas de Israel, pois não eram
obedientes. Deus não se sensibiliza, puramente, com o infortúnio das viúvas,
antes, Ele socorre somente aos que lhe obedecem:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus


mandamentos” (Dt 5:10).

“E sabemos que todas as coisas contribuem, juntamente, para o bem


daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu
propósito” (Rm 8:28).

A interpretação que Jesus fez da passagem bíblica, acerca do milagre que Deus
concedeu à viúva da cidade de Sarepta, não agradou aos seus ouvintes, pois
intentaram precipitá-lo de um penhasco (Lc 4:29).

O exemplo de fé que temos em Tamar, decorre do fato de dispor da sua vida, para
proporcionar os meios necessários ao cumprimento da promessa da vinda do
Messias. Sabendo-se que Tamar foi recompensada por Deus, por executar uma
obra segundo a palavra da promessa, conclui-se que os cristãos, ao ter a palavra
do evangelho, que promete salvação, como parâmetro para as suas vidas, Deus há
de honrar a sua palavra aos que O invocarem, pois todos que invocarem a Cristo
serão salvos.

Com relação às vicissitudes do dia a dia, temos a seguinte promessa:

“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de
vós” (1 Pe 5:7).

Em Tamar, exemplo de fé, não se deve enfatizar que os cristãos devem perseguir
os seus sonhos. Ora, todos os homens têm sonhos, aspirações, desejos, etc., mas,
um crente de fé, como Tamar, não busca a Deus para realizar sonhos, desejos e
aspirações, antes obedece à palavra de Deus, tendo em vista a Sua promessa.

“E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (1 Jo 2:25).

Tamar trabalhou em prol da linhagem do seu marido, pensando na promessa do


Descendente prometido a Abraão, não em função das suas aspirações diárias.
Tamar não buscou os seus direitos pelos seus direitos, mas, sim, os seus direitos
em função da promessa e, em função da Sua palavra, Deus honrou Tamar.
Deus honra os que creem, concedendo salvação, pois esse é o objetivo da ‘fé’:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pe 1:9).

Quem recebe o evangelho deve estar cônscio de que Deus se propõe, em Cristo, a
salvar almas, não a realizar sonhos, aspirações ou, desejos:

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei


com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas
almas” (Tg 1:21).

Ora, os cristãos podem ser ensinados a não abrirem mão dos seus direitos, como
cidadãos, deixando claro que, direitos decorrentes de cidadania, não são
garantidos por Deus, a seus filhos. O objetivo do evangelho não é garantir, neste
mundo, direito de ninguém, antes, objetiva, exclusivamente, à salvação.

“Mas ele lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre
vós?” (Lc 12:14).

Se alguém tem um sonho, uma aspiração, um desejo, que trabalhe, estude, invista
para realizá-los, mas não atribua a Deus a concretização de suas aspirações
pessoais. Não tenha os seus sonhos, aspirações e desejos como promessa de
Deus, pois o que Ele prometeu em Cristo foi vida eterna (1 Jo 2:25).

Se alguém que se diz profeta de Deus, profetizar que Deus vai realizar os seus
sonhos, aspirações ou, desejos, considere as Escrituras, pois Deus vela sobre a
Sua palavra para a cumprir e não sobre a palavra de profetas, que profetizam
segundo os seus corações enganosos.

Natã era profeta de Deus e, ao ouvir as aspirações de Davi, concluiu que Deus
haveria de realizá-las (2 Sm 7:3). Mas, aquela não era a palavra de Deus que, logo
em seguida, ordenou ao profeta Natã, que voltasse e anunciasse a palavra do
Senhor a Davi.

“Em todo o lugar em que andei, com todos os filhos de Israel, falei,
porventura, alguma palavra a alguma das tribos de Israel, a quem mandei
apascentar o meu povo de Israel, dizendo: Por que não me edificais uma
casa de cedro?” (2 Sm 7:7).

Em nossos dias têm surgido muitos profetas exigindo dos cristãos o melhor para
Deus! Mas, onde está escrito na Bíblia que Deus requer dos seus filhos o melhor?
O que Deus requer do homem é que obedeçam a sua palavra, ou seja, se sujeitem
como servos (humildemente) à Sua palavra (1 Sm 15:22; Mq 6:8).

O apóstolo Paulo, servo de Deus, certa feita foi amarrado por um centurião para
ser açoitado e, como cidadão romano, fez valer os seus direitos (At 22:25). De
nada adiantaria, naquele momento, o apóstolo argumentar com o centurião: –
‘Sou um homem de Deus’.

Conhecer os nossos direitos, bem como os nossos deveres como cidadãos,


possibilita um melhor viver neste mundo e, dependendo do momento, o seu
direito ou, até mesmo, a sua perspicácia (At 23:6), pode livrá-lo de um revés, em
função de perseguição ao evangelho.

Por que o apóstolo Paulo agiu dessa forma, nesses dois eventos? Porque ele cria
em Deus, que tem poder de livrar, mas que, também, pode não fazê-lo.

“Responderam Sadraque, Mesaque e Abednego e disseram ao rei


Nabucodonosor: Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis
que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos
livrará da fornalha de fogo ardente e da tua mão, ó rei. E se não, fica
sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a estátua
de ouro que levantaste” (Dn 3:16-18).

O alerta aos cristãos é amplo:

“As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram


torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor
ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites e até cadeias e
prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada;
andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e
maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos e
montes, pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido
testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb 11:35-39).

Tamar conhecia as regras sociais do seu tempo e, ao providenciar linhagem ao


seu marido, tomou cuidado para ter consigo o penhor, bem como sabia que seria
poupada pelo sogro, quando ele soubesse que o filho em seu ventre, lhe pertencia.
Todos os cristãos precisam ter o cuidado de não se deixarem envolver por um
sentimento pernicioso, de que nada pode lhes atingir, principalmente, quando se
tem a ideia de que Deus tem a obrigação de livrar dos percalços da vida quem
estiver trabalhando em prol do evangelho.

Todos precisam aprender com o apóstolo Paulo, que aprendeu em tudo, ter toda
suficiência!

“Sei estar abatido e sei, também, ter abundância; em toda a maneira e em


todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a
ter abundância, como a padecer necessidade” (Fl 4:12).

Tamar guardou o penhor consigo, pois sabia que aqueles objetos eram a sua
garantia de vida, vez que ela entendia que o fruto do seu ventre era uma das
possibilidades do Descendente vir ao mundo e, não expressamente, uma garantia,
como foi feita a Abraão. Tamar não sabia, efetivamente, que o fruto do seu ventre
era o que possibilitaria a vinda do Messias ao mundo, antes, ela entendia que era
imprescindível constituir descendência a Er.

Tamar andou por fé, ao crer em uma mensagem, que tinha por alvo todos os
descendentes da carne de Abraão, não em uma promessa feita, diretamente, a
ela. Ela agiu como Rebeca, quando procurou garantir a benção, que era de direito
de Jacó, em função da palavra dita a Rebeca que, em seu ventre, havia duas
nações e que a maior (povo) serviria a menor (povo).

“E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre e dois povos se


dividirão das tuas entranhas, um povo será mais forte do que o outro povo e
o maior servirá ao menor” (Gn 25:23).

Se houvesse uma palavra de Deus, afirmando que, do fruto do ventre de Tamar,


viria o Cristo, era certo que ela não necessitaria de penhor, pois ai ter-se-ia a
mesma cláusula do pensamento de Abraão:

“Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou


que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, o ressuscitar“ (Hb
11:18).

Semelhante à confiança de Tamar, deve ser a confiança do cristão, com relação à


palavra de salvação, pois a promessa de salvação engloba todos os nascidos de
mulher, mas ela não se faz acompanhar de uma cláusula de proteção contra as
vicissitudes da vida.

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto.

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