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T.

Ravanello et all 110

OS CAMINHOS DA PESQUISA PSICANALÍTICA: DA


EPISTEMOLOGIA AO MÉTODO
THE PSYCHOANALYTIC RESEARCH PATH: FROM EPISTEMOLOGY TO METHOD

Tiago Ravanello1, Isloany Dias Machado, Marisa de Costa Martinez, Luiza


Maria de Souza Nabarrete

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

RESUMO

A reflexão sobre a pesquisa em psicanálise se concentra em geral: (a) num embasamento


epistemológico no qual o conceito de verdade esteja diretamente ligado à teoria do inconsciente;
(b) num debate entre a pesquisa psicanalítica e os diferentes modelos de pesquisa científica, no
qual as teorias em psicanálise podem ser colocadas em questão quanto ao seu método. O presente
estudo propõe, em linhas gerais, a discussão sobre a construção de conceitos em psicanálise e,
por consequência, seu estatuto epistemológico. Nesse sentido, voltamos às origens da teoria que
surge no final do século XIX, com Sigmund Freud, a fim de questionar o contexto histórico de
construção científica e os possíveis modelos de ciência de sua época. Na sequência abordaremos
a questão a partir da proposta lacaniana do inconsciente estruturado como uma linguagem que só
poderia ser abordado a partir de seus efeitos (sonhos, atos falhos, sintomas).

Palavras-chave: Psicanálise; Epistemologia; Inconsciente.

ABSTRACT

The reflections regarding the psychoanalysis research generally focus on: (a) an epistemological
basis, on which the concept of truth is directly connected to the theory of the unconscious; (b) a
debate between psychoanalytical research and different models of scientific research, in which the
psychoanalysis’ theories can be put in question regarding their methods. The present study proposes,
in general, a discussion about the construction of psychoanalytic concepts and, consequently, its
epistemological status. In this sense, we return to the origins of the theory, developed in the late
nineteenth century, by Sigmund Freud, in order to question the historical context of scientific
construction and the possible models of science available at the time. Following, we will discuss
the issue based on the Lacanian proposal of the unconscious structured as a language, which could
only be approached from its effects (dreams, Freudian slip, symptoms).

1 Contato: tiagoravanello@yahoo.com.br

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INTRODUÇÃO e obras de uma subjetividade singular que por


meio deles se propõe a conhecer (Silva, 2012).
Partindo de uma abordagem ampla,
Desta forma, o presente estudo tem
podemos considerar que a epistemologia
por intuito propor uma discussão acerca do
teria como intuito propor referências sólidas
estatuto epistemológico da psicanálise, tendo
que traçariam o caminho que nos levaria dos
como mote a seguinte reflexão: em que sentido
seus princípios internos até a metodologia da
sua implicação no campo da linguagem retira
construção do conhecimento, assim como à
o seu estatuto do modo de configuração
elaboração de princípios organizadores da
epistemológico das ciências da natureza? Vale
práxis. Tratar-se-ia, portanto, de princípios
destacar que, posteriormente, retomaremos
norteadores da realidade e da visão de
a discussão por meio das contribuições
sujeito, que acabariam por culminar na
da proposta lacaniana do inconsciente
produção de determinadas teorias e propostas
estruturado como uma linguagem – e que só
metodológicas específicas (Japiassu, 1981).
poderia ser abordado a partir de seus efeitos
Neste sentido, Freud provocou
(sonhos, atos falhos, sintomas) –, fazendo
inúmeras reações adversas ao propor uma
recorrência, então, a uma concepção de
teoria do inconsciente, deparando-se com
sujeito desejante e assujeitado pela linguagem
diversas dificuldades para que sua teoria
e, consequentemente, constituindo uma
fosse reconhecida no meio científico de sua
posição epistemológica própria. Portanto,
época. Isso porque a psicanálise colocou a
levando isso em consideração, defendemos
sexualidade no cerne de sua teoria, situando o
neste estudo a hipótese de que o estatuto
homem como um ser em conflito entre forças
epistemológico da psicanálise, partindo da
antagônicas (as pulsões e a cultura repressora)
teoria do inconsciente estruturado como uma
e atribuindo grande importância aos
linguagem, deve ser radicalmente repensado,
acontecimentos da infância e sua relação com
contribuindo, portanto, para uma concepção
a constituição do psiquismo, características
de epistemologia condizente com uma
que o aproximavam da episteme romântica e o
fundamentação mais rigorosa no campo da
afastariam das ditas ciências naturais. A crítica
linguagem.
a sua teoria residia justamente no fato de que,
assim como as ciências naturais, os saberes psi
POR UMA ABORDAGEM
também deveriam fornecer um conhecimento
EPISTEMOLÓGICA E
“útil” que visasse à previsão e controle dos
METODOLÓGICA EM PSICANÁLISE
eventos psíquicos e comportamentais e que
A psicanálise surge no século XIX, em
garantissem a sua validez e neutralidade. Para as
um período histórico de construção científica
matrizes inspiradas no pensamento romântico
no qual o modelo vigente era o da ciência
de oposição ao racionalismo iluminista e ao
moderna. O nascimento desta ocorreu no
domínio do método, o objeto da psicologia
século XVII e Descartes pode ser considerado
não se refere a eventos naturais, mas trata-se de
um marco da nova ciência, pois representou um
formas expressivas, isto é, as ações, produtos
ponto de partida na discussão da valorização

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de um sujeito racional e sede da experiência um sujeito epistemológico pleno, consciente


do saber. Segundo Figueiredo (1995, p.16), de si e senhor absoluto de sua vontade. Nesse
“a dominância, tipicamente moderna, das sentido, temos a proposta de um sujeito que
tradições teóricas e epistemológicas, em seria conduzido pela razão em oposição às
que emergem e avultam as questões da paixões mundanas. A partir deste rigor temos,
fundamentação, e do método, reflete uma conforme Figueiredo (1995), uma cisão
nova posição do homem [...]”. Voltando à entre um sujeito ascético e tudo aquilo que
proposta original da ciência moderna em seu comprometesse a confiabilidade desse sujeito,
principal autor, apresentamos a afirmação ou seja, tudo que pudesse remeter aos seus
de Descartes (1641/2008), segundo a qual a desejos e afetos, bem como sua variabilidade
dúvida hiperbólica é o encaminhamento da e singularidade. De acordo com o autor,
certeza, sendo o sujeito enquanto resultante do afirmamos que é possível notar o fracasso
cogito uma “coisa que pensa” e, expandindo reiterado dessa cisão, a partir da história
a definição a partir da noção de coisa: “uma construída sobre o projeto epistemológico
coisa que duvida, entende, concebe, afirma, moderno e suas diferentes versões.
nega, quer, não quer, e também imagina e
Consideramos a psicanálise fazendo
sente” (p. 92). Logo, segundo Descartes,
parte, segundo Garcia-Roza (2009), de um
tudo isso faria parte do que o autor chama
“conjunto de saberes sobre o homem, que
de “natureza humana”. Por consequência,
se formou a partir do século XIX” com a
Descartes propõe um método científico que
proposta de descentramento da razão (p.
pudesse orientar essa coisa pensante, que
22). Isso não quer dizer que a psicanálise
expurgasse as variabilidades desse sujeito
desconsidere a razão consciente, fruto da
para que não incorresse em erros. O rigor do
purificação do método, mas esta passa a não
método serviria para controlar, o que pode ser
ser mais a base primordial do saber na teoria
notado no seguinte trecho:
psicanalítica. Portanto, nesta temos uma razão
Mas vejo bem o que se passa; meu espírito é um
calcada no inconsciente, que sobredetermina
vagabundo que gosta de se perder e não poderia
suportar que o prendam nos justos limites da a consciência, sendo que a teoria freudiana
verdade. Soltemos-lhe, pois, mais uma vez as
apontaria para a sobredeterminação
rédeas e, dando-lhe todo tipo de liberdade,
permitamos-lhe considerar os objetos que lhe inconsciente, o que implica dizer que o sujeito
aparecem externamente, para que, vindo mais
não é senhor em sua própria morada, ou
tarde a retirá-la lenta e convenientemente e a
detê-lo na consideração de seu ser e das coisas seja, não tem pleno controle de seus desejos,
que encontra em si mesmo, ele se deixe depois
pensamentos, sentimentos e afetos. Assim,
disso mais facilmente governar e conduzir.
(Descartes, 1641/2008, p. 93) a psicanálise enfatiza a variabilidade em
detrimento da regularidade e generalização
A ciência moderna, tendo como
dos fenômenos, o que implica em repensar
marco a obra cartesiana, propôs a ênfase no
a relação com os modelos científicos. Nesse
sujeito como fruto de um método de expurgo,
sentido, a citação abaixo apresenta um
do rigor científico, em que o objetivo principal
panorama das questões a serem abordadas no
das correntes epistemológicas era o de buscar

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artigo, quais sejam, a constituição do estatuto epistemológico psicanalítico marcado pelo


epistemológico da psicanálise e a construção papel estruturante da linguagem em todo
dos conceitos a partir de uma teoria do o seu caráter dialético e inatural. É nessa
inconsciente ,que aponta para o sujeito, a seu conexão que retomaremos, ao longo do
modo, desejante: texto, o questionamento feito por Freud, nos
Significa apenas dizer que, reorientada limites da teoria psicanalítica, a respeito da
através dos esforços, como os de Lacan, prevalência da observação (haja vista que o
para uma leitura inovante de Freud, a
psicanálise pode se tornar uma teoria bem inconsciente não pode ser observado se não
posicionada epistemicamente para substituir pelos seus efeitos: os lapsos, chistes, sonhos
uma certa visão ‘ortopédica’ do sujeito da
ciência – forjado nas cadeiras do cogito e atos falhos) e a reflexão lacaniana quanto ao
cartesiano – por uma visão ‘profilática’, das sujeito da ciência.
relações entre um ego cogitante e um sujeito
desejante, entre o imaginário da sua cognição
Lacan (1998), em A ciência e a verdade,
e a verdade do seu desejo. Tal convicção
significa, pois, apenas querer ver o campo afirma ser “impensável que a psicanálise
da ciência inclinar-se ‘epistemologicamente’
como prática, que o inconsciente, o de Freud,
à evidência do inconsciente. (Beividas, 2000,
p. 17, itálicos do autor) como descoberta, houvessem tido lugar
antes do nascimento da ciência” e que não
O caráter inventivo da releitura
foi um pretenso rompimento de Freud com
lacaniana1 da teoria de Freud, ao propor uma
o “cientificismo de sua época” (p. 871), mas
subversão do cogito cartesiano a partir da
esse mesmo cientificismo o teria conduzido
invenção do inconsciente em função do desejo
à produção das bases da teoria psicanalítica.
se sobressair em relação à razão consciente,
Porém, ainda que tenha surgido nesse contexto
destaca-se também pelo reposicionamento do
de expurgo da variabilidade dos sujeitos
analista diante do seu objeto de pesquisa e as
pelo rigor do método, segundo Figueiredo
características que delimitam sua práxis. É nesse
(1995), a psicanálise se ocupa justamente do
sentido que destacamos a seguinte passagem
que é colocado de lado pela ciência, pois o
do texto lacaniano a respeito do caráter fugidio
desconsiderado é algo que não cessa de se
do objeto de pesquisa em psicanálise: “Mas
escrever, ou seja, de se fazer presente por
esse princípio, ao articulá-lo de um modo
meio das formações do inconsciente: sonhos,
que, ao longo da análise, não se apresenta
lapsos, chistes e sintomas. Isso implica
jamais como encerrado, fechado, completo,
que, mesmo sendo suprimido pela ciência
satisfatório, esse perpétuo movimento,
moderna, o “resto” dessa ciência está presente
deslizar dialético, que é o movimento e a vida
em nossas ações cotidianas por meio das
da pesquisa analítica” (Lacan, 1958-59, p.
manifestações do inconsciente. Se para Lacan
259). Ao contrário das tentativas de implicar
(1998) o sujeito da psicanálise não pode ser
o texto freudiano em abordagens realistas do
outro se não o mesmo da ciência, trata-se aqui
mundo externo, seja por meio das reduções
do sujeito “não da desrazão e sim da razão
biologizantes do aparelho psíquico, seja pelo
inconsciente, cuja lógica é também apreendida
retorno a um inatismo de ordem instintual,
através do método psicanalítico” (Quinet,
Lacan nos propõe uma leitura do estatuto

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2000, p. 12). argumento aponta para o aspecto político do


argumento freudiano, já que a comprovação
Voltando à história da construção do
material dos fenômenos psíquicos, em
saber psicanalítico, segundo defende Assoun
conformidade com o que era exigido como
(1983), ela teria seu nascimento marcado
científico à época, tornaria o próprio modelo
pelo conflito entre saberes pertencentes às
de pesquisa passível de validação. Para Assoun,
ciências da natureza (Naturwissenschaften) e às
é somente a partir da ruptura com a base
do espírito (Geisteswissenschaften). Enquanto as
fisicalista que a psicanálise passa a ter uma
últimas ainda buscavam o reconhecimento
“epistemologia própria”: a metapsicologia
da comunidade científica, o estatuto
como tentativa de “reconstrução exaustiva
epistemológico das primeiras já estava bem
do edifício metapsicológico que vai
estabelecido de acordo com os critérios de
condicionar a elucidação dessa identidade”
validação da época. Embora a formação de
(p. 84). Entretanto, convém questionar o
Freud como pesquisador tenha se dado sob
que seria uma epistemologia própria. Neste
a lógica naturalista, o quanto tal formação foi
trabalho, visamos opor duas posições: ou
ou não abandonada é um problema complexo
bem a psicanálise se apresenta como uma
e de contornos difíceis de precisar, uma vez
teoria com validade externamente de acordo
que o texto freudiano apresenta, como pano
com os modelos científicos impostos por
de fundo, o conflito entre diferentes matrizes
outros campos de saber (sendo aí notória a
epistemológicas referentes aos dois modelos
aproximação com as neurociências), ou bem
de ciências. Foi nesse contexto que Freud
será levada a questionar o peso subversivo
(1895) escreveu o seu Projeto para uma psicologia
da tese do inconsciente e da linguagem
científica (1895) que, segundo Assoun (1983),
como estruturante dos fenômenos psi como
seria um escrito de base fisicalista no qual se
releitura de seu papel no rol das visadas sobre
buscava na diferença entre tipos de neurônios,
a epistemologia. Retomaremos essa questão
ou seja, na matéria “sistema nervoso”, as
quando abordarmos a posição lacaniana sobre
explicações para eventos psíquicos, tais
o tema.
como os da sexualidade e da psicopatologia.
Ainda segundo esse autor, no período inicial O ponto de partida do argumento
de sua obra, Freud faz uma analogia entre o não poderia ser outro senão a maneira como
objeto da psicanálise e o da química, dizendo Freud (1915/1996)2 vai paulatinamente se
que o determinante químico é subjacente ao aproximando das estruturas discursivas de
determinante psíquico. Conforme Assoun seus pacientes, de sua clínica, diferente de
(1983), a intenção inicial de Freud era a de propostas de redução do fenômeno em seus
colocar “o saber psicológico sob o rótulo de determinantes de cunho biológico.3 Assim,
provisório, aguardando que o saber químico estabelece uma nova posição epistemológica
tome seu lugar, fornecendo-lhe seu substrato. de ultrapassagem em relação aos projetos
Uma química integral seria, pois, o futuro iniciais de instauração da psicologia
da psicanálise” (p. 65). Nesse sentido, seu centrada na consciência: a metapsicologia.4

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Devido às críticas recebidas, o autor faz de seus próprios textos. Porém, para Freud,
um questionamento quanto ao que define neste momento, a construção do conceito
uma ciência, para tanto, em seu artigo diferencia-se da constatação da realidade, ou
metapsicológico As pulsões e seus destinos ele diz: da coisa em si, mas sim, enfatiza-se o corte
Ouvimos com freqüência a afirmação de radical feito pela psicanálise, seguindo a
que as ciências devem ser estruturadas leitura lacaniana, entre saber e verdade. Um
em conceitos básicos claros e bem
definidos. De fato, nenhuma ciência, encaminhamento possível nesse caso seria o
nem mesmo a mais exata, começa com retorno ao conceito freudiano de realidade
tais definições. [As] ideias [...] devem,
de início, possuir necessariamente certo psíquica, que traz a possibilidade de evitar
grau de indefinição; [...]. O avanço do a construção de elementos mentais que
conhecimento, contudo, não tolera
qualquer rigidez, inclusive em se tratando sejam vistos como simulacros do externo, os
de definições. A física proporciona quais, a verdade ou erro seriam medidas por
excelente ilustração da forma pela qual
mesmo ‘conceitos básicos’, que tenham critérios de aproximação. A nosso ver, este é o
sido estabelecidos sob a forma de encaminhamento dado por Freud, o que pode
definições, estão sendo constantemente
alterados em seu conteúdo. (p. 123) ser notado na citação a seguir:

Isso implica que, “nem mesmo a mais A distinção nítida entre neurose e psicose,
contudo, é enfraquecida pela circunstância de
exata” das ciências teria o poder (e quiçá a que também na neurose não faltam tentativas
pretensão) de construir verdades absolutas na de substituir uma realidade desagradável
por outra que esteja mais de acordo com os
elaboração de seus conceitos. Freud aposta desejos do indivíduo. Isso é possibilitado
no movimento atribuído por ele à ciência, pela existência de um mundo de fantasia, de
um domínio que ficou separado do mundo
de revisão conceitual sistemática, dando a externo real na época da introdução do
sua teoria status de ciência e não de dogma princípio de realidade. (Freud, 1924/1996, p.
208)
(imutável). Nesse sentido, Beividas (2000)
aponta que “a obra de Freud é tão polivalente Por outro lado, a disjunção entre
e a investigação da realidade psíquica o levou a saber e verdade, tal como consta na releitura
atravessar tantos domínios da mente humana lacaniana sobre o tema, possibilita uma
que há sempre flancos, nas entrelinhas do abordagem da realidade psíquica como
seu texto” (p. 27). Um exemplo da revisão regime de existência independente do que
teórico-conceitual tal como operada por seria uma realidade externa. Sua relação com
Freud (1897/1996) é quando ele, na Carta 69, a verdade, nesse sentido, não se daria em
escreve a Fliess que não acredita mais em sua termos de aproximação positiva com um
neurótica, que é a primeira teoria das neuroses objeto existente e independente da realidade
como teoria da sedução, passando a formular psíquica, mas sim obedecendo aos critérios
a teoria da fantasia. Vale ainda acrescentar que de desejo e investimento, o que leva Freud
Freud (1905/1996) faz adendos consideráveis a supor o inconsciente como “verdadeira
ao texto na forma de notas de rodapé nos realidade psíquica” e sobredeterminante em
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, sendo relação à consciência (Freud, 1900/1996).
mais um exemplo de revisão teórica do autor Nesse caso, o discurso clínico em psicanálise

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coloca o saber proferido pelo analisando de apresentar os parâmetros por meio dos quais
como real, factual e presentificado na medida esta, então, se daria. Isso porque, ressaltamos,
da intensidade de sua expressão. Assim, a a hipótese do inconsciente como verdadeira
experiência do discurso analítico enquanto realidade psíquica é contraditória com a
método clínico possibilitou a Freud sua posição de um realismo representacionista
construção teórica, tomando os casos clínicos que acabaria por colocar a similaridade com
como dados passíveis de interpretação, uma o externo como prioridade na construção do
vez que toda clínica produz teoria e toda psicológico. Assim, Freud defende um regime
teoria visa produzir dispositivos clínicos. Tal de realidade psíquica autônomo, porém,
intersecção entre teoria e clínica está presente não totalmente alheio ao externo. Neste, o
desde os primórdios da psicanálise, como no conceito de determinismo psíquico possibilita
texto Estudos sobre a histeria (1893), no qual se uma abordagem tanto entre os sistemas
nota que a pretensão freudiana estava para (inconsciente, pré-consciente, consciente)
além da cura, ou seja, remissão dos sintomas como também no que diz respeito à
histéricos. reconstrução psíquica dos elementos externos.
Ao afirmar que o inconsciente é a verdadeira
No processo de construção da teoria
realidade psíquica, Freud (1900/1996) aponta
freudiana, o movimento de revisão conceitual
para uma gradativa alteração de uma matriz
permitiu, igualmente, a mudança dos critérios
de pensamento realista para uma matriz
de legitimidade e das formas de compreensão
discursiva. Em A perda da realidade na neurose
dos fenômenos epistemológicos. Se Freud
e na psicose, o autor (1924/1996) aponta
buscava inicialmente em sua pesquisa uma
mais uma vez para a máxima da realidade
correspondência orgânica para o aparelho
psíquica, uma vez que assevera que tanto na
psíquico, conforme uma base inicial fisicalista,
neurose como na psicose “em ambos os casos
na posição acima descrita como a da busca
serve ao desejo de poder do id, que não se
da verdade por aproximação, a teoria vai
deixará ditar pela realidade” (p. 206). Desse
gradualmente apontar para os indícios da
feito, para Lacan (1966/1998), o conceito de
impossibilidade dessa correspondência.
realidade psíquica de Freud “deve ser lido
Um exemplo disso é a passagem do texto O
como de fato é designado, ou seja, como a
inconsciente, na qual Freud (1915/1996) defende
linha de experiência que o sujeito da ciência
a impossibilidade de localização cerebral do
sanciona” (p. 871), reafirmando que esta cria
inconsciente enquanto substância ou matéria
um sujeito autônomo, artificial e provisório.
objetivável e observável enquanto tal.
Nesse sentido, a releitura operada por Lacan
Portanto, se a construção teórica nos possibilitaria pensar a ciência como
das relações entre aparelho psíquico e estando na origem de uma ordem peculiar de
realidade vai paulatinamente abandonar a regime de existência imanente ao desejo como
possibilidade de uma relação ponto a ponto estruturante do sujeito.
entre representação e objeto representado, a
consequência epistemológica é a necessidade Assim, Freud (1923/1996) formula

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claramente a definição de psicanálise no início portanto, sobre a necessidade da causa para os


do artigo Dois verbetes de enciclopédia, em que o filósofos e afirma que “entre a causa e o que ela
autor afirma que a psicanálise é o nome: a) do afeta, há sempre claudicação” (p. 29). O autor
procedimento para a investigação de processos indica com o inconsciente e com a repetição
mentais que, de outra forma, são praticamente que “nossa concepção de conceito implica ser
inacessíveis; b) do método, baseado nessa este sempre estabelecido numa aproximação
investigação, para o tratamento de distúrbios que não deixa de ter relação com o que nos
neuróticos; c) da série de concepções impõe, como forma, o cálculo infinitesimal”
psicológicas adquiridas por esse meio e que (p. 27). É nesse sentido que se dá a retomada
se somam umas às outras para formarem crítica quanto ao pensamento de Descartes e
progressivamente nova disciplina científica. a necessidade de subversão de um sujeito da
Diferencia a psicanálise da filosofia e defende racionalidade consciente. Segundo Lacan:
que, apesar de primeira se aproximar de uma O termo maior, com efeito, não é a verdade.
ciência do espírito, não pode ser equiparada É Gewissheit, certeza. O encaminhamento de
Freud é cartesiano – no sentido de que parte
com a segunda. do fundamento do sujeito da certeza. Trata-
se daquilo de que se pode estar certo. Para
A partir disso, podemos afirmar que o este fim, a primeira coisa a fazer é superar
o que conota tudo que seja do conteúdo do
advento da psicanálise freudiana propôs uma
inconsciente – especialmente quando se trata
revisão epistemológica das ciências existentes de fazê-lo emergir da experiência do sonho
– de superar o que flutua por toda parte, o
até então quanto ao estudo do ser humano.
que pontua, macula, põe nódoas no texto de
Isso não quer dizer que as ciências daquele qualquer comunicação de sonho – Não estou
certo, tenho dúvidas. (Lacan, 1964/2008, p. 41)
tempo foram forçadas a se reestruturarem
epistemologicamente com finalidade de Descartes é retomado por Lacan
serem bem empregadas no estudo da mente não necessariamente pela ênfase na razão
humana, seguindo os parâmetros freudianos, derivada do cogito – “penso, logo existo”, –
mas sim que a suposição do inconsciente e a uma vez que há uma inversão lacaniana do
sua entrada no universo da pesquisa questiona cogito cartesiano “sou onde não penso”.
os parâmetros de construção dos critérios Nesse sentido, a proposta lacaniana é a de
epistemológicos das ciências de maneira geral. subversão do sujeito, o que implicaria em
Isso ocorre em função do questionamento pensar o sujeito do inconsciente não como o
sistemático que a psicanálise faz ao sujeito do da razão do pensamento, mas sim um efeito
saber e da lógica da razão. da linguagem que o estrutura, ou seja, uma
Lacan (1964/2008), ao destacar os consequência do encadeamento significante.
quatro conceitos fundamentais da psicanálise Lacan, por fim, recupera a dúvida como apoio
– o inconsciente, a repetição, a transferência da certeza, uma vez que a certeza que interessa
e a pulsão – questiona o status científico da à experiência analítica é a de que tenho dúvidas
psicanálise e argumenta contra a suposição as quais comportam um desejo, dito de outra
de que toda ciência possuiria objeto definido, forma, o inconsciente seria do âmbito da
considerando que esse objeto muda. Interroga, certeza antecipada. Nessa perspectiva, não

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podemos considerar a antecipação da certeza experiência, mas sim de construir os conceitos


como avessa ao conceito de ciência, pois, a partir da verdade da operação do desejo, já
como podemos destacar na citação do texto que o campo da verdade seria reestruturado
freudiano feita anteriormente, toda ciência de forma subversiva por meio dos sintomas,
seria igualmente constituída de elementos atos falhos, sonhos e chistes.
antecedentes e impostos à pesquisa, tais
Assim, Lacan propõe que a forma
como hipótese, intuição, ideia, implicados na
de acesso à verdade seria pelo discurso
construção conceitual. Dito de outro modo,
e não a partir da razão e do pensamento
a teoria torna-se anterior ao objeto de estudo,
necessariamente consciente. Assim, uma
na medida em que é vista como um fenômeno
possibilidade de articulação entre as teorias
discursivo. A afirmação referente ao sonho
de Freud e de Lacan sob o ponto de vista
e sua relação com uma certeza da dúvida
epistemológico reside na subversão do cogito
pode ser estendida para os demais processos
cartesiano a partir da invenção do inconsciente.
inconscientes, quais sejam, lapso, chiste, ato
Tal posição lacaniana é afirmada no texto
falho e sintoma.
da seguinte forma: “função mais digna de
Retomando a perspectiva de constante ser enfatizada na fala que a de disfarçar o
reelaboração, Lacan propõe um retorno pensamento (quase sempre indefinível) do
à teoria freudiana, cuja consequência é o sujeito: a saber, a de indicar o lugar desse
axioma do inconsciente estruturado como sujeito na busca da verdade” (p. 508), ou
linguagem, também influenciado pelo diálogo ainda, “é com o aparecimento da linguagem
com a linguística de sua época. Freud, a que emerge a dimensão da verdade” (p. 529).
partir da teoria do inconsciente, questiona O fundamento disso é que Lacan sustenta o
a concepção filosófica do sujeito de saber axioma do sujeito do inconsciente estruturado
ocidental. Somemos a esses dois processos como uma linguagem, a qual aponta para a
de rompimento com os saberes estabelecidos verdade peculiar do inconsciente. Surge, daí a
a proposta lacaniana de reposicionamento questão, a saber, sobre o papel de imanência
da causalidade psíquica quando movida pelo designado ao campo da linguagem nas obras
desejo, o desidero, ou seja, o desejo como de Freud e de Lacan. Nossa hipótese seria a
causa. Desse feito, o estatuto da psicanálise de que tanto para Freud quanto para Lacan,
diante da epistemologia deve ser visto como a linguagem transcende tanto a possibilidade
paradigmático justamente na medida em que de redução a fatores materiais e exteriores
implica numa concepção de sujeito diferenciada: ao campo em questão quanto a concepção
a do sujeito do inconsciente como efeito do simplista de ser apenas uma ferramenta na
significante, o falante assujeitado e torturado mediação entre o pensamento e os objetos
pela linguagem, que aborda a verdade na fala do mundo. Se na obra do primeiro estão
a partir de seu lugar na hiância, tendo o desejo presentes os conceitos de representações e
como causa. Portanto, em teoria psicanalítica, associação livre, e na do segundo temos uma
não se trata de buscar o real natural e externo à preponderância dos conceitos de significante,

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linguagem, discurso e deslizamento dos “coloca em oposição aquilo que os seres são e
significantes como articuladores e substratos suas potencialidades, sugerindo um estado de
da clínica, é igualmente fundamental afirmar limitação, bem como a necessidade de superar
que, em nenhum dos dois casos, a prática tal estado em direção a outro” (p. 366-367).
analítica se ordene em função de reduções Esse conceito se aproxima da psicanálise pelo
biologizantes ou materializantes do psiquismo, fato de que o sujeito desta também se constitui
às quais o conceito de observação serviria enquanto negatividade, ou seja, é a partir do
como fiador de sua existência objetificada. A que lhe falta que se constitui seu desejo, que
partir de tal semelhança que é apontada em o faz mover-se. A concepção estruturalista
Garcia-Roza (2008) e na própria obra de Lacan de Lacan permite justamente a suspensão do
(1957-58/1998), que a assume diversas vezes questionamento ontológico sobre a realidade
durante seu ensino, por exemplo, em “ainda positiva do ser em oposição a sua definição
que Freud, em seu tempo, está no ponto onde ética como sujeitos desejantes demarcados
as coisas podiam se dizer em um discurso por uma verdade da ordem da falta: somos
científico – esse Vorstellungsreprasentanz é falta-a-ser.
estritamente equivalente à noção e ao termo
A concepção filosófica hegeliana,
significante” (p. 34). Nesse caso, o mais
assim como a psicanálise, caminhou na
importante a ser ressaltado é que tanto na
contramão das tentativas de estabelecimento
teoria freudiana quanto na lacaniana os
de um “sujeito epistêmico ascético”. Ambas
conceitos respectivos de representação e
subvertem a concepção de sujeito pleno.
significante levam ao questionamento radical
Segundo Garcia-Roza (2009), “o que a
da materialidade da coisa em si no psiquismo.
Fenomenologia do Espírito nos ensinou é que
Em ambos os casos, trata-se da autonomia do
não é pela Razão que o indivíduo se tornou
fenômeno de linguagem em detrimento da
humano, mas pelo Desejo. [...] O homem seria,
reprodução da realidade externa.
pois, esse efeito-desvio do Desejo” (p. 16).
A partir da discussão sobre o escopo Temos aqui mais uma aproximação possível
da ciência moderna, notamos que não se nas duas concepções de sujeito, pois em Hegel
pode situar a psicanálise em nenhum campo encontramos um sujeito cuja estruturação está
preexistente, mas, em alguns aspectos, calcada no desejo. No contexto em que surgiu,
podemos encontrar algumas aproximações. a teoria de Hegel também subverte a ideia
Temos na dialética idealista hegeliana, por da época: de que o desejo era da ordem do
exemplo, a partir das contribuições de que deveria ser expurgável. Mas é importante
Lacan, uma possibilidade de releitura da ressaltar que, apesar da marca hegeliana da
epistemologia da psicanálise. Podemos citar o constituição de um sujeito a partir do desejo,
conceito de potência no sujeito hegeliano, na Garcia-Roza (2009) afirma que “não há
medida em que a potência é o que ainda se lugar para a Selbstbewusstsein toda consciente
tornará, por isso o sujeito é visto como um vir- na teoria psicanalítica” (p. 23). A expressão
a-ser: ele é enquanto negatividade. Para Savioli Selbstbewusstsein significa autoconhecimento, a
e Zanotto (2007), a negatividade em Hegel

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diferença está, portanto, no fato de que este do entendimento de verdade para Hegel, no
não pode ser alcançado segundo a psicanálise. qual a verdade surge a partir da negação e
E sobre o selbstbewusstsein hegeliano, o autor não numa consciência ingênua e não crítica,
afirma que “o fim da história é o saber mas, sim, a partir da dialética do desejo. Assim
absoluto” (p. 95), não há concordância desse como pode ser destacado na obra freudiana
aspecto da teoria com a psicanálise, pois nesta (1925/1996), o acesso à verdade do sujeito
estamos no campo do inconsciente, daquilo pode se dar por meio do caráter performativo
que é unbewusste (não sabido), desconhecido da negação. É a partir desse ponto que o
pelo sujeito. Sobre esse aspecto, Freud filósofo hegeliano Jean Hyppolite, por ocasião
afirma que o eu não é senhor em sua própria de um debate com Lacan (1955) publicado
casa, isso quer dizer que existem conteúdos nos Escritos, relaciona o conceito negação –
inconscientes que não são passíveis de serem Auphebung – para Hegel, com o conceito a
observados em sua face positiva e material de Negativa, ou Denegação – Verneinung – para
objeto de uma existência plena. Freud, e resume:
Não se encontra na análise nenhum “não”
Para Lacan, o corte é feito pela entrada vindo do inconsciente, mas o reconhecimento
do sujeito no discurso social. Essa entrada se do inconsciente, pelo lado do eu, mostra que
o eu é sempre desconhecimento; mesmo
dá com o advento de um significante paterno: no conhecimento, sempre encontramos do
o significante Nome-do-pai, que barra o lado do eu, numa fórmula negativa, a marca
da possibilidade de deter o inconsciente,
desejo da mãe (mostrando a falta materna), ao mesmo tempo recusando-o (Lacan,
permitindo à cria humana se constituir como 1955/1998, p. 902)

sujeito desejante por si e não mais atado ao O conceito de verdade para a


desejo da mãe. Conforme dito anteriormente, teoria lacaniana é complexo, peculiar e
nós desejamos porque somos seres de falta, ambíguo justamente por esta ser tributária
então, só podemos desejar depois que for da concepção estruturalista (a mesma que
inaugurada em nós uma falta. Isso ocorre embasa os movimentos linguísticos de
no momento em que miramos no Outro sua época) em sua principal proposta: a
uma falta também. Assim nos constituímos substituição das tentativas de redução aos
como sujeitos e, nessa experiência, a partir objetos supostamente reais pelo estudo das
do corte radical feito pela linguagem, há relações ordenadas e encadeadas, como forma
algo que significamos como perdido (ao que de suspensão da orientação direta da realidade,
Lacan chamou de objeto a). O objeto a é da sendo essa perspectiva derivada diretamente
ordem da miragem, já que na verdade nunca da tese saussuriana da arbitrariedade do signo.
existiu, portanto, não temos como reencontrá- Dessa forma, “no momento em que digo eu
lo. Assim, o selbstbewusstsein hegeliano não minto (da metalinguagem), digo-o a respeito
tem correspondência na teoria psicanalítica do eu minto da linguagem-objeto: se minto,
porque nunca teremos acesso aos conteúdos dizendo que minto, é que estou dizendo a
inconscientes, ou a um autoconhecimento. verdade. Mas como digo não a estar dizendo,
é que estou mentindo” (Arrivé, 1994, p.
Cabe ressaltar que Lacan compartilha

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120). No entanto, a verdade como busca do o período em que consideravam os neuróticos,


conhecimento tem seus limites apontados principalmente as histéricas, como farsantes:
também na filosofia de Kant (1787) e em seu Mas nunca nos devemos permitir ser levados
questionamento quanto à verdade: estaria ela erradamente a aplicar aos padrões da realidade
a estruturas psíquicas reprimidas e, talvez por
relacionada com o conhecimento empírico ou causa disso, a menosprezar a importância
com o conhecimento puro? das fantasias na formação dos sintomas, sob
o pretexto de elas não serem realidade, ou a
Cabe ressaltar que o conceito de verdade remontar um sentimento neurótico de culpa a
alguma outra fonte, por não haver provas de
por nós aqui utilizado perpassa o caminho de que qualquer crime real tenha sido cometido.
Freud, sobretudo o fato de a psicanálise operar Somos obrigados a empregar a moeda-
corrente do país que estamos explorando;
na realidade psíquica. No percurso freudiano, em nosso caso uma moeda neurótica. (Freud,
o autor conclui que os relatos de cenas 1911/1996, p. 285)

supostamente de sedução de suas pacientes


Entretanto, Freud (1920/1996), apesar
estariam atrelados ao desejo inconsciente
de sua sede de verdade, como aponta Lacan,
delas, sendo que uma parcela considerável dos
apresenta-se antipragmático ao colocar em
relatos indicaria acontecimentos ocorridos
primeiro plano não o fato observável, mas
apenas no plano psíquico, porém, não menos
uma condição ética de posicionamento diante
reais de acordo com o peso dado à fantasia na
do próprio descentramento. Contudo, o mote
consideração freudiana. Caberia à psicanálise,
das ciências ditas modernas ainda é buscar uma
portanto, o trabalho diante do papel do
resposta única que, tal qual um conhecimento
inconsciente na relação com o desejo e com o
religioso, apaziguaria nossas angústias. A
princípio de prazer, sem colocar em evidência
psicanálise caminha, portanto, na contramão
se determinada lembrança aludia ou não a
desta postura dos “sábios de laboratório”, pois
acontecimentos reais na infância, o que Lacan
propõe como objeto de estudo justamente o
(1964/2008) destaca:
rebotalho desta ciência “normal”. Roudinesco
Freud, em sua sede de verdade diz – O que quer (2000) conta a história de um psicólogo norte-
que seja, é preciso chegar lá – porque, em alguma
parte, esse inconsciente se mostra. É isso que americano que propôs a Freud medir a libido
ele diz dentro de sua experiência daquilo que dando-lhe o nome de “um freud” (p. 34), no
era para o médico, até então, a realidade mais
recusada, mais coberta, mais contida, mais que o autor recusa e solicita “não dê meu nome
rejeitada, a da histérica, no que ela é – de a sua unidade. Espero poder morrer, um dia,
algum modo, de origem – marcada pelo signo
do engano. (p. 40) com uma libido que não tenha sido medida”
(p. 35). Destarte, fica claro que Freud não
Primeiramente, tal citação nos remete só desacreditava no homem como máquina,
às histéricas, começando por seu histórico como também sabia que a pulsão, o desejo,
em que por muitos anos foram consideradas o inconsciente, a angústia só são possíveis de
pelos leigos e pela medicina como farsantes, se conhecer por seus efeitos, e isso é o que
fingidoras. Contudo, a fantasia ou realidade Lacan teorizou como metáfora, uma vez que
psíquica é formada inconscientemente com os processos simbólicos funcionam à revelia
resquícios de realidade, o que a diferencia da dos sujeitos em relações de arbitrariedade com
mentira ou da invenção. Freud comenta sobre

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o que poderia vir a ser uma realidade natural metapsicologia.


e objetiva.
Pode-se considerar, então, que a
No entanto, seja como ciência abordagem psicanalítica se constitui a partir da
material ou do espírito, é inegável que Freud dúvida como apoio da certeza na organização
não abandona o desejo de que a psicanálise do campo da verdade. A psicanálise pode
fosse reconhecida como ciência: “não, ser concebida, então, como instrumento
nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria ou até mesmo um método para se pensar a
imaginar que aquilo que a ciência não nos dá ciência e sobre sua busca de conhecimento,
podemos conseguir em outro lugar” (Freud, se convertendo em busca de uma verdade,
1927/1996, p. 63). Notório torna-se, então, o enquanto ética (Silva, 2012). Esse aspecto
peso da revolução freudiana como forma de metodológico da psicanálise culminou por
rompimento com os saberes estabelecidos atribuir-lhe um estatuto de inacabamento e
pela racionalidade científica e filosófica, já de renovação constante ao seu corpo teórico,
que aponta para a racionalidade do desejo permitindo-nos questionar e defender a revisão
inconsciente em detrimento da razão da acerca de seus princípios epistemológicos.
consciência. E ainda, permanece a suportar
inúmeras tentativas de refutação:
É bem possível que esta primeira parte do CONSIDERAÇÕES FINAIS
nosso estudo psicológico dos sonhos nos
deixe um sentimento de insatisfação. Mas Pode-se considerar que neste trabalho
podemos consolar-nos com a ideia de que
fomos obrigados a construir nosso caminho visamos questionar o modo como a teoria
nas trevas. Se não estamos inteiramente psicanalítica, a partir da tese freudiana do
errados, outras linhas de abordagem hão de
levar-nos aproximadamente a essa mesma inconsciente e de sua releitura na obra de Lacan,
região, e então poderá vir um tempo em que propõe desafios próprios à epistemologia. Isso
nos sintamos mais à vontade nela. (Freud,
1900/1996, p. 579) porque o seu surgimento, além de trazer uma
revisão epistemológica, colocou em debate
Devemos levar em consideração que os requisitos de construção dos critérios
o abandono da pretensão, da parte de Freud, epistemológicos das ciências de maneira geral
da instituição de uma ciência orientada pelo ao questionar esse sujeito do saber e da lógica
abarcamento da realidade e pela instituição da razão. Mais que isso, procuramos apresentar
de verdades paradigmáticas e invariáveis aspectos que sustentassem nossa hipótese
que pudessem orientar a práxis sem risco de inicial de que o estatuto epistemológico da
erro seja muito provavelmente um traço de psicanálise deveria ser repensado em termos
distinção da teoria psicanalítica. Vale ressaltar de um reposicionamento mais radical diante
que, quando o autor diz da insatisfação dos do campo da linguagem. Isso porque a
estudos do sonho, não são apenas estes que releitura operada por Lacan nos possibilitaria
estão em voga nessa problemática, mas sim pensar a ciência como estando na origem de
toda formulação de sua teoria do inconsciente uma ordem peculiar de regime de existência
e, por consequência, o que viria a ser sua imanente ao desejo como estruturante do

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Os caminhos da pesquisa psicanalítica: da epistemologia ao método 123

sujeito. Isto é, para a psicanálise, o sujeito do Brasileira das Obras Psicológicas Completas
inconsciente é consequência do significante, de Sigmund Freud, Vol. 1). Rio de Janeiro:
Imago. (Originalmente publicado em 1897).
aquele assujeitado pela linguagem, que diz
a verdade, na medida em que toma-o por Freud, S. (1996). A Interpretação dos Sonhos.
desejante. Ou seja, um sujeito que pensa onde (Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud,
não é e é onde não pensa. Desse modo, o
Vol. 5). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente
acesso à verdade se daria por meio da fala e publicado em 1900).
não necessariamente a partir da razão e do
Freud, S. (1996). Três ensaios sobre a teoria da
pensamento consciente. Trata-se, portanto, da
sexualidade. (Edição Standard Brasileira das
defesa de uma abordagem inovadora da leitura Obras Psicológicas Completas de Sigmund
freudiana, que se inicia na obra lacaniana, e Freud, Vol. 7). Rio de Janeiro: Imago.
que busca essa subversão do cogito cartesiano (Originalmente publicado em 1905).
por meio de uma concepção de inconsciente Freud, S. (1996). Notas psicanalíticas sobre
que serve ao desejo e escapa à razão e à lógica um relato autobiográfico de um caso de paranóia
da consciência. (Dementia Paranoides). (Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas
de Sigmund Freud, Vol. 12). Rio de Janeiro:
Imago. (Originalmente publicado em 1911).
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Saussure, Hjelmslev, Lacan e os outros. (1a ed.). São psicanálise III). (Edição Standard Brasileira das
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Obras Psicológicas Completas de Sigmund
Freud, Vol. 12). Rio de Janeiro: Imago.
Assoun, P. L. (1983). Introdução à Epistemologia (Originalmente publicado em 1915[1914]).
Freudiana. Rio de Janeiro: Imago.
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Beividas, W. (2000). Inconsciente et verbum. São Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Paulo: Humanitas-FFLCH/USP. Completas de Sigmund Freud, Vol. 14). Rio
de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado
Descartes, R. (2008). Discurso do método:
em 1915).
meditações. São Paulo: Martin Claret.
(Originalmente publicado em 1641). Freud, S. (1996). Os Instintos e suas vicissitudes.
(Edição Standard brasileira das obras
Figueiredo, L. C. M. (1995). Revisitando as
psicológicas completas de Sigmund Freud,
Psicologias: da epistemologia à ética das práticas
Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente
e discursos psicológicos. São Paulo: EDUC;
publicado em 1915).
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científica – Parte II – Psicopatologia. (Edição
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Completas de Sigmund Freud, Vol. 1). Rio de
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1895). Freud, S. (1996). A perda da realidade na neurose
e na psicose. (Edição Standard Brasileira das
Freud, S. (1996). Carta 69. (Edição Standard

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Freud, Vol. 19). Rio de Janeiro: Imago. ciência. Rio de Janeiro: Garamond.
(Originalmente publicado em 1924).
Silva, A. C. (2012). Os fundamentos freudianos e
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Brasileira das Obras Psicológicas Completas e implicações. Dissertação de mestrado do
de Sigmund Freud, Vol. 19). Rio de Janeiro: programa de pós-graduação em psicologia,
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em 15 janeiro, 2013, de http://www.
Garcia-Roza, L. A. (2009). Freud e o inconsciente. humanas.ufpr.br/portal/psicologiamestrado/
Rio de Janeiro: Jorge Zahar. files/2012/05/Angela-Silva-trabalho-de-
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Japiassu, H. (1981). Questões epistemológicas. Rio
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Lacan, J. (1997) O Seminário, livro 7: a ética Recebido em: 04/09/2013


da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
(Originalmente publicado em 1959-1960). Aceito em: 02/10/2016

Lacan, J. (1998). Função e campo da fala (Endnotes)


e da linguagem em psicanálise. In Escritos. 1 Essa leitura será aqui centrada nos seguintes
Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Originalmente textos: Lacan, J. Função e campo da fala e
publicado em 1953). da linguagem em psicanálise (1953/1998); A
instância da letra no inconsciente ou a razão
Lacan, J. (1998). Apêndice I – Comentário desde Freud (1957/1998); O seminário V: as
falado sobre a Verneinung de Freud, por Jean formações do inconsciente (1957-1958/1998);
Hyppolite. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge O seminário, livro 11: os quatro conceitos
Zahar. (Originalmente publicado em 1955). fundamentais (1964/2008); A ciência e a
verdade (1966/1998).
Lacan, J. (1998). O seminário, livro 5: as formações
2 O nome do texto foi modificado do original Os
do inconsciente. (Originalmente publicado em instintos e suas vicissitudes por As pulsões e seus
1957-58). destinos, em função da ampla literatura na área que
aponta para o erro de tradução de trieb por instinto.
Lacan, J. (2008). O Seminário, livro 11: os quatro
conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Jorge 3 Nesse contexto, até mesmo o texto Projeto
para uma psicologia científica pode ter seu
Zahar. (Originalmente publicado em 1964). caráter reducionista e correlativo às teses
naturalistas questionado, haja vista, por
Lacan, J. (1998). A ciência e a verdade. exemplo, a forma como Lacan encaminha a
In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. sua leitura no seminário sobre ética, retirando
(Originalmente publicado em 1966). de lá o conceito de das ding como o grande
articulador conceitual da desnaturalização do
Quinet, A. (2000). A descoberta do inconsciente: do campo pulsional (Lacan, 1959-1960/1997).
desejo ao sintoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
4 É importante destacar que a metapsicologia
Roudinesco, E. (2000). Por que a psicanálise? Rio como fundamento epistemológico da
psicanálise freudiana não se restringe aos
de Janeiro: Jorge Zahar.
artigos sobre metapsicologia de 1915 contidos
no volume XIV da Edição Standard Brasileira
Roudinesco, E. (2009). Em defesa da psicanálise:
das Obras Completas de Freud, mas abrange
ensaios e entrevistas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. outros textos, tais como: A interpretação dos
sonhos (1900), O Ego e o Id (1923), Além do
Savioli, M. R. & Zanotto, M. de L. B. (2007). O princípio do prazer (1920), entre outros.

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