Você está na página 1de 8

Alvenaria de tijolos de solo-cimento

A questão da habitação popular brasileira exige tecnologias mais singelas a custos


compatíveis com a conjuntura sócio-econômica atual. Uma das alternativas é a
utilização do tijolo de solo-cimento furado. Esse tijolo apresenta características de
desempenho similares às dos tijolos cerâmicos comuns.

Embora sejam semelhantes, o uso do solo-cimento proporciona uma redução em torno


de 30% nos custos finais das obras (Pecoriello, 2003). Essa redução se deve ao baixo
investimento para implantação da unidade produtora de tijolos, à obtenção de paredes
bem alinhadas e aprumadas e, ainda, à facilidade de construção, proporcionando uma
obra simples com número reduzido de profissionais, se comparado com obras
convencionais que utilizam tijolos cerâmicos comuns.

A utilização de tijolos de solo-cimento demanda, porém, certos cuidados, no sentido de


evitar as patologias mais comuns: fissuras por efeito de retração, desgaste superficial e
percolação de umidade através de paredes.

Pretende-se neste artigo apresentar os parâmetros mínimos para a produção e a


utilização de tijolos de solo-cimento para a obtenção de paredes com a qualidade
desejada.

Como se verá, a tecnologia para a fabricação e uso dos tijolos de solo-cimento é


simples, sendo um material alternativo acessível à população em geral.

Produção
Materiais
A escolha do solo tem grande importância porque é o componente de maior quantidade
na mistura, influenciando diretamente na qualidade e no custo final do tijolo produzido.

Os solos arenosos são os mais adequados, desde que contenham um teor mínimo de silte
+ argila. Os solos com as seguintes especificações são apropriados para o emprego no
solo-cimento:

 Teor de areia: superior a 50%


 Teor de silte: 10 a 20%
 Teor de argila: 20 a 30%
 LL (Limite de Liquidez) £ 45%
 IP (Índice de Plasticidade) £ 18%

Assim, para verificar se um determinado solo atende a esses requisitos, é necessária a


realização em laboratório dos ensaios de granulometria por peneiramento e
sedimentação e dos limites de plasticidade e de liquidez.
Cabe lembrar que, no caso de solos argilosos, é sempre possível corrigir a granulometria
e a plasticidade por meio de adição de areia.

Solos com teores altos de mica não devem ser empregados em solo-cimento porque não
resistirão às expansões da argila durante os ciclos de secagem e molhagem. Os solos
orgânicos e turfosos são inadequados e não devem ser empregados.

Pode-se utilizar qualquer tipo de cimento para a produção de tijolos. Os mais usados são
o cimento Portland comum, CPI, e o cimento Portland comum com adição, CPI-S. A
água a ser utilizada no preparo da mistura do solo com o cimento deve ser potável.

Confecção dos tijolos


Preparação do solo: secagem, destorroamento e peneiramento

O solo, para ser manuseado, deverá ser submetido previamente a secagem ao ar em


local coberto, atingindo ao final uma umidade homogênea. O tempo necessário para
alcançar essa umidade varia em função da umidade natural em que o solo se encontra.

Nos solos mais argilosos existe a tendência de formação de aglomerados mais


resistentes, sendo o destorroamento obrigatório para esse tipo de solo. Para a operação
de destorroamento, é preciso que o solo esteja seco, impedindo a aderência à máquina
ou ferramentas usadas no processo.

Depois do destorroamento, será sempre necessário peneirar o solo para eliminar as


partículas com diâmetros superiores a 5 mm. Matérias orgânicas também não podem
estar presentes na mistura.

Dosagem
A dosagem dos componentes da mistura pode variar de 1:10 a 1:14 de cimento e solo
em volume. Deve-se escolher o melhor traço, que é aquele, dentro dessa faixa, que
apresenta a menor quantidade de cimento ainda atendendo aos requisitos de resistência e
absorção da Norma NBR-8491 da ABNT.

Para a escolha do traço adequado deve-se moldar, no mínimo, seis tijolos (sendo três
para ensaios de compressão e três para ensaios de absorção de água) para cada traço em
volume (no mínimo três traços) e curá-los por sete dias antes de enviá-los ao
laboratório.

No processo de preparação da mistura de solo e cimento para a moldagem dos tijolos,


deve-se acrescentar água até a obtenção da umidade ótima de compactação.

Existem ensaios expeditos que permitem a determinação da umidade ótima de


compactação da mistura sem a necessidade de equipamentos. São ensaios muitos
simples, baseados em análise táctil-visual da mistura, como por exemplo o ensaio
proposto pelo Ceped (1999). Nesse ensaio, toma-se um punhado do material nas mãos e
aperta-se entre os dedos. Ao abrir a mão, a massa deverá adquirir a sua forma. Se isso
não acontecer, é porque a massa deve estar muito seca. Em seguida, deixa-se o bolo de
massa cair de uma altura de aproximadamente 1 m: deverá se esfarelar ao se chocar
contra a superfície dura. Se isso não ocorrer, é porque a massa deve estar muito úmida
(figura 1).

Segundo a Norma NBR-8491, a amostra ensaiada com idade mínima de sete dias não
deve apresentar a média dos valores de resistência à compressão menor que 2,0 MPa,
nem valor individual de resistência à compressão inferior a 1,7 MPa. Por outro lado, a
amostra não deve apresentar a média dos valores de absorção de água maior do que
20%, nem valores individuais superiores a 22%.

Homogeneização
A homogeneização é o processo de misturar o solo, o cimento e a água nas proporções
de cada componente, cessando a homogeneização no momento em que a cor do
compósito ficar uniforme.

Inicialmente, deve-se misturar o solo seco com o cimento na proporção definida pelo
traço. É conveniente que os caixotes (padiolas) utilizados para a medida do solo (e
eventualmente da areia a ser adicionada) sejam proporcionais a um saco de cimento
(@39 dm³). Dessa forma, as partidas de tijolos terão sempre a mesma quantidade de
cimento.

Para melhorar a homogeneização, deve-se passar a mistura no destorroador. Somente


após esse processo é que se adiciona água em gotículas, por chuveiros ou sprays, na
quantidade suficiente para deixar a mistura na umidade ótima de compactação.

Após a colocação da água, o tijolo precisa ser prensado em um prazo máximo de 1 hora,
o início de pega dos cimentos.

Compactação da mistura
A pressão de compactação é fator determinante nas propriedades do tijolo de solo-
cimento. Portanto, é necessário manter pressões constantes e adequadas ao equipamento
para uma produção uniforme dos tijolos.

Prensas manuais, geralmente, requerem baixo aporte de capital para sua aquisição.
Compreendem aquelas derivadas do modelo Cinva-Ram (figura 2), com variações e
aperfeiçoamentos. Consistem basicamente de um êmbolo acionado por uma alavanca
manual, compactando a mistura, disposta na cavidade do molde.
As prensas motorizadas - mecânicas ou hidráulicas - funcionam pelo mesmo princípio
básico das manuais. Apenas a força humana é substituída por outras fontes de energia e
o equipamento torna-se mais robusto para suportar o peso dos mecanismos e maiores
forças de trabalho, além de ter a taxa de produção aumentada.

Os tijolos, após a compactação, devem ser colocados em paletes posicionados ao lado


da prensa, evitando-se o transporte das peças ainda frescas.

Cura do tijolo
A cura, cuja finalidade é evitar a evaporação prematura da água necessária à hidratação
do cimento, deve ser iniciada 8 horas após a prensagem.

Para tanto, os tijolos devem ser empilhados à sombra, de forma que o ar possa circular
entre eles, e regados diariamente com água durante uma semana.

Estoque do produto acabado


Após a fabricação, deve-se aguardar 28 dias para o transporte e utilização dos tijolos.
Durante esse período, devem ficar protegidos da umidade do solo e das intempéries.

Construção da alvenaria

Projeto
Para evitar desperdícios, é imprescindível que no projeto o tamanho dos cômodos
(largura e comprimento) sejam ajustados às dimensões do tijolo. As paredes deverão ser
moduladas em função do tijolo inteiro e do meio-tijolo.

Impermeabilização e fiada de marcação


As fundações da edificação, por constituírem meios potenciais de penetração de
umidade nas paredes, devem ser impermeabilizadas cuidadosamente com argamassa
composta de cimento, areia e hidrofugantes tipo Vedacit, e pintadas com emulsão
asfáltica tipo Neutrol.

A seguir, os tijolos da fiada de marcação devem ser espalhados sem argamassa de


assentamento sobre a fundação, de maneira a verificar a distribuição dos ambientes, dos
vãos de portas, posicionamento das instalações elétricas e hidráulicas, nivelamento e
alinhamento da fundação. Uma vez corrigidas as eventuais falhas de nivelamento e
esquadro, executa-se o assentamento dessa primeira fiada (foto 1).

Construção das paredes


O assentamento dos tijolos da alvenaria é executado em conjunto com os pilaretes,
tubulações, eletrodutos, pontos de luz, água, esgoto e esquadrias (foto 2).

Devem-se evitar práticas como a molhagem dos tijolos antes de sua utilização. Quando
os tijolos estiverem muito secos, a molhagem dos elementos deve ser superficial, sem
saturá-los.

Argamassa de assentamento
A argamassa de assentamento deve receber cuidados especiais, pois é a principal causa
de fissuras em paredes de solo-cimento.

A mistura tem de ser plástica e coesa, permitindo melhor espalhamento e facilitando o


uso. Podem ser utilizados dois tipos de argamassa: uma constituída por cimento mais
solo no traço 1:14 ou cimento, cal e solo, no traço 1:3:12. A resistência deve ser igual
ou inferior à resistência dos tijolos.

Ressalta-se que até a 3a fiada, a argamassa deve conter hidrofugantes tipo Vedacit, para
garantir a impermeabilização. É proibido o uso de cola à base de PVA (acetato de
polivinila) para assentar tijolos.

Juntas de dilatação
Deve-se procurar limitar o comprimento das paredes de tijolos de solo-cimento, no
sentido de minimizar a retração acumulada dos elementos que provoca trincas em
paredes mais extensas. O comprimento máximo de uma parede ou distância máxima
entre as juntas deve ser de 4 ou 5 m.

Na ocasião do assentamento, deve-se deixar para as movimentações dos tijolos uma


distância de 2 mm entre um tijolo e outro, mantendo assim as juntas verticais secas (foto
3).

Detalhes construtivos de alvenarias de solo-cimento

Ligação entre paredes


A ligação entre paredes tem fundamental importância na garantia da rigidez e
estabilidade do conjunto. A ligação dos cantos pode ser feita com o transpasse simples
dos tijolos sem cortes ou por meio de adaptações com grampos colocados nos furos dos
blocos e preenchidos com microconcreto ou graute (foto 4).

Pilaretes
Os furos dos tijolos de cada uma das extremidades da construção, no encontro das
paredes e em torno das aberturas, recebem uma barra de 6,3 mm de diâmetro, engastada
desde a fundação até a extremidade superior da cinta de amarração, sendo
posteriormente preenchidos com graute (foto 4).

Para evitar a ocorrência de vazios na concretagem, o preenchimento dos furos dos


tijolos deve ser feito em etapas (3a, 12a, 21a, 30a e 39a fiadas).

Vergas e contravergas
Nos locais preferenciais de aparecimento de trincas, como as aberturas de portas e
janelas, alguns cuidados especiais precisam ser tomados, devendo-se empregar
armações suplementares, conhecidas como vergas e contravergas, sobre e sob as
aberturas de portas e janelas (foto 5).
Revestimento das paredes
A retração hidráulica ou retração por secagem do solo-cimento é reversível: por ser um
material poroso, tem a capacidade de absorver ou perder umidade em função das
variações de umidade do meio.

A retração do tijolo de solo-cimento é maior que a do tijolo comum e, portanto,


recomenda-se revestir todas as paredes externas e as internas das áreas molháveis (foto
6).

Leia mais

Solo-Cimento na Habitação Popular. (ET-19). 3a edição,


10 páginas. ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland). 1990.

Manual de construção com solo-cimento. (MT-5). Ceped (Centro de Pesquisas e


Desenvolvimento da Bahia). ABCP. 114 páginas. 1999.

Fabricação de tijolos maciços de solo-cimento com a utilização de prensa manual. NBR


10832. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). 1989.

Fabricação de tijolos maciços e bloco vazado de solo-cimento com a utilização de


prensa hidráulica. NBR 10833. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).
1989.

Tijolo maciço de solo-cimento - Especificação. NBR 8491. ABNT (Associação


Brasileira de Normas Técnicas). 1984.

Tijolo maciço de solo-cimento - determinação da resistência à compressão e da


absorção d'água - Método de ensaio. NBR 8492. ABNT (Associação Brasileira de
Normas Técnicas). 1984.

Recomendações práticas para uso do tijolo furado de solo-cimento na produção de


alvenaria. L. A. Pecoriello. São Paulo, Dissertação (Mestrado) IPT (Instituto de
Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo). 86 páginas. 2003.

Trincas em Edifícios. E. Thomaz. Editora PINI. 1990.

Luiz Antonio Pecoriello


Mestre profissional pelo IPT e arquiteto da Ypel Construções e Administração de Obras
e-mail: pecohab@uol.com.br

José Maria de Camargo Barros


Doutor em Engenharia pela Epusp e pesquisador do IPT
e-mail: jmbarros@ipt.br

Envie artigo para: techne@pini.com.br. O texto não deve ultrapassar o limite de 15 mil
caracteres (com espaço). Fotos devem ser encaminhadas separadamente em JPG.

Você também pode gostar