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Secretaria-executiva verde oliva

Os militares ocupam cargos de direção ou coordenação em pelo menos 6 subsecretarias


e departamentos ligados à secretaria-executiva, que têm como missão desde a compra
de insumos estratégicos à saúde aos repasses do SUS a Estados e municípios.

Parte das atribuições pode ser conferida na portaria nº 2.646, que traz a relação
dos titulares de cargos comissionados na pasta.

O Departamento de Logística em Saúde é o que tem o maior número de oficiais. São


pelo menos quatro: o tenente-coronel Alex Lial Marinho, coordenador-geral de
Logística de Insumos Estratégicos para Saúde; o tenente-coronel Marcelo Batista
Costa, substituto na coordenação-geral de Aquisições de Insumos Estratégicos para
Saúde; o coronel da reserva Marcelo Blanco da Costa, assessor especial, e o general
da reserva Ridauto Lúcio Fernandes, recém-nomeado assessor.

Na subsecretaria de Planejamento e Orçamento, por sua vez, estão lotados o coronel


da reserva Paulo Guilherme Ribeiro Fernandes (coordenador-geral de planejamento) e
o capitão Mario Luiz Ricette Costa (assessor técnico).

O Departamento de Gestão Interfederativa e Participativa, responsável por articular


a gestão de saúde com Estados e municípios e também ligado à secretaria-executiva,
é dirigido pelo tenente-coronel Reginaldo Ramos Machado, enquanto a diretoria-
executiva do Fundo Nacional de Saúde (FNS) tem o subtenente Giovani Cruz Camarão
como coordenador de finanças e o primeiro-tenente Vagner Luiz da Silva Rangel como
coordenador-geral de execução orçamentária.

O Departamento de Monitoramento e Avaliação do SUS, por sua vez, é dirigido pelo


major da reserva Angelo Martins Denicoli, e o Departamento de Assuntos
Administrativos era chefiado até recentemente pelo coronel Alexandre Martinelli
Cerqueira.

Ele foi exonerado no dia 19 de janeiro, no mesmo dia da nomeação de Marcos Eraldo
Arnaud Marques, marqueteiro conhecido como "Marquinhos Show", como assessor
especial do ministro da Saúde. O DOU de 21 de janeiro registra que o militar foi
transferido para a reserva.

Com suas subsecretarias e departamentos, a secretaria-executiva tem a função de


supervisionar e coordenar as atividades das demais secretarias do Ministério da
Saúde, além das autarquias, fundações e empresas públicas.

Era chefiada na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta por João Gabbardo dos
Reis, que foi substituído por Pazuello na gestão Teich.

Hoje é capitaneada pelo general da reserva Antônio Élcio Franco Filho. Seu número
2, o secretário-adjunto, é o tenente-coronel da reserva Jorge Luiz Kormann — que
chegou a ser indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para a diretoria da Anvisa,
mas foi internado em janeiro com covid-19.

Pulverização entre os diferentes departamentos


Além da secretaria-executiva, os militares também estão à frente da Secretaria de
Atenção Especializada à Saúde, que tem o coronel Luiz Otavio Franco Duarte como
secretário, e da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena, comandada pelo
coronel da reserva Robson Santos da Silva, indicado ainda por Mandetta. Esta última
também conta com o segundo-tenente Vilson Roberto Ortiz Grzechoczinski, nomeado em
maio de 2020 como Coordenador Distrital de Saúde Indígena.

No mesmo período, o coronel da Polícia Militar Giovanne Silva Aguiar foi indicado
como presidente da Funasa, fundação que promove ações de saneamento para prevenção
e controle de doenças.

Oficiais ocupam ainda posições importantes na Secretaria de Atenção Primária à


Saúde — a tenente-coronel Laura Tiriba Appi, médica, é diretora de programa na área
— e na Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, onde o
oficial de inteligência da Abin Myron Moraes Pires é coordenador-geral do Complexo
Industrial da Saúde.

Um ex-funcionário da pasta que falou sob a condição de anonimato diz que a gestão
desta última área é um exemplo prático do impacto negativo da administração feita
por profissionais que não têm experiência na saúde.

O Complexo Industrial da Saúde, exemplifica, era o setor que poderia ter negociado
com a Oxford/AstraZeneca que a compra das vacinas contra covid-19 incluísse desde o
início a transferência de tecnologia para a fabricação de IFA (Ingrediente
Farmacêutico Ativo) no Brasil.

Com a produção concentrada na China e na Índia, a entrega do insumo prevista para


este mês de janeiro sofreu um atraso e impediu que a Fiocruz iniciasse a produção
do imunizante, atrasando o cronograma de vacinação. Ainda não há uma data
confirmada para a entrega da remessa.

A BBC News Brasil conversou ao todo com quatro ex-funcionários do ministério, que
pediram para não serem identificados. Mesmo não estando mais na pasta, eles temem
represálias — como corte de financiamento de projetos ou atraso em pagamentos, já
que a União é responsável por diversos repasses para Estados e municípios.

Um deles ressaltou que a falta de gestores especializados prejudicou, por exemplo,


a centralização de compras governamentais de itens fundamentais para o combate à
pandemia, como respiradores, testes diagnósticos e equipamentos de proteção
individual. Sem uma organização da demanda por parte do governo federal, além de
pagar mais caro, Estados e municípios chegaram a disputar entre si o acesso a esses
recursos.

As falhas logísticas, na opinião desses ex-funcionários, se expressam também em


episódios como o dos testes para diagnóstico de covid-19 que não haviam sido
distribuídos e estavam prestes a vencer em dezembro — quando faltavam kits em todo
o país.

Ou no episódio da suspensão de exames de HIV e hepatite no SUS, também em dezembro,


por falta de testes de genotipagem — porque o contrato com a empresa que fornecia
os insumos venceu sem que uma nova licitação tivesse sido feita.

"Transformaram o Ministério da Saúde numa caserna. De DAS-4 pra cima [referência a


cargos comissionados de Direção e Assessoramento Superiores] é basicamente militar
— e quem não sabe fazer não sabe mandar", diz um gestor que passou mais de uma
década na pasta.

"Eles não entendem de sistema de saúde", afirma outro gestor experiente, emendando
que mesmo secretarias chefiadas por profissionais de saúde hoje estão muitas vezes
sendo geridas por quadros despreparados.

É o caso, ele diz, da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde.

A secretária Mayra Pinheiro, pediatra, foi apelidada na pasta de "capitã


cloroquina", segundo reportagem da revista Época, por pressionar secretarias de
saúde a distribuir o medicamento usado originalmente contra malária a pacientes com
covid-19.

Não há qualquer evidência de que a cloroquina e a hidroxicloroquina funcionem


contra o novo coronavírus — e os fármacos podem ainda trazer sérios efeitos
colaterais, como arritmia cardíaca.

Sua foto de perfil no Facebook traz os dizeres "eu sou médico e apoio o atendimento
precoce". Já defendido pelo presidente e pelo ministro da Saúde, o atendimento
precoce consiste na administração de medicamentos como os antimaláricos e o
antiparasitário ivermectina, também sem efetividade comprovada contra a covid-19.

Algumas semanas atrás, Pazuello chegou a dizer em uma coletiva de imprensa que o
atendimento precoce consistia apenas na recomendação para que as pessoas
procurassem o mais rápido possível uma unidade de saúde caso apresentassem
sintomas, já que não há tratamento comprovado contra a doença.

O ministério chegou, entretanto, a publicar nota técnica em que recomendava aos


médicos que receitassem cloroquina aos pacientes — o documento foi depois
modificado. O presidente, por sua vez, já foi fotografado e filmado com caixas de
cloroquina e já defendeu o uso do medicamento em suas redes sociais.

Entre os quadros formados por profissionais de saúde, há ainda o secretário de


Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, o médico Hélio
Angotti Netto, admirador do escritor Olavo de Carvalho.

Em um post de 2015 em seu blog, ele dizia que estudava a obra de Olavo fazia 12
anos e que fizera seu curso online "desde o início".

Vigilância e 'lei da mordaça'


Um ex-funcionário da equipe de Mandetta que acompanhou de perto a crise entre o
então ministro e o presidente e o início da militarização do Ministério da Saúde
diz que, além de não terem capacidade técnica para assumir a direção da pasta, os
oficiais instauraram uma espécie de cultura de vigilância que também tem impacto
sobre o desempenho da gestão.

"Técnicos que poderiam trabalhar no planejamento (contra a pandemia) foram


colocados em suspeição", ele diz.

Assim, projetos foram paralisados e alguns processos passaram a tramitar de forma


mais lenta. Em paralelo, servidores passaram a temer que tivessem e-mails e outras
comunicações monitoradas.

A cientista social Ana Amélia Penido Oliveira pontua que a sensação de vigilância é
um dos efeitos da ramificação dos militares nas diferentes instâncias do governo e
tem sido observada em diferentes ministérios.

"Ela inibe os técnicos de falarem", diz ela.

Na Saúde, a chamada "lei da mordaça" fez com que servidores de carreira se


retraíssem, diz uma fonte, e os militares tomassem a frente em diversas áreas para
as quais não tinham competência técnica.

Em alguns casos, afirma esse mesmo gestor, diante da dificuldade de tocar o


cotidiano em algumas áreas, nomeações chegaram a ser revogadas e técnicos foram
reconduzidos às posições — ainda que os militares seguissem acompanhando o trabalho
como uma espécie de eminência parda.

Durante a análise das informações, a reportagem se deparou com um caso em que a


servidora Alexandra das Neves Agapito de Araújo foi exonerada do cargo de
coordenadora de contabilidade do FNS em 19 de maio de 2020 e reconduzida à posição
menos de um mês depois, em 10 de junho, de acordo com os registros do Diário
Oficial.

Nesse período, o cargo foi ocupado pelo subtenente André Cabral Botelho — com uma
remuneração equivalente a quase o dobro da antecessora, de R$ 14,3 mil, conforme o
registro do mês de junho no Portal da Transparência.

Apesar da renomeação da antiga coordenadora de contabilidade, a exoneração do


oficial do cargo não consta no Diário Oficial. Na menção mais recente no DOU, ele
aparece como assessor técnico, subordinado diretamente ao ministro.

A pasta foi questionada sobre o caso e, logo que envie seu posicionamento, ele será
acrescentado a este texto.

original em:https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55923963