Você está na página 1de 93

OBRAS DO AUTOR

Abandonar-se a Deus para ser Igreja, 3a ed.


Apelo ao amor, 5a ed.
As fontes da vida, 2a ed.
Autolibertação, 5a ed.
Caminhar sobre as águas, 4a ed.
O canto do pássaro, 8a ed.
O enigma do iluminado vol. I, 2a ed.
O enigma do iluminado vol. II, 2a ed.
Quarenta e três maneiras de orar, 6a ed.
Quebre o ídolo, 3a ed.
Sabedoria de um minuto, 4a ed.
Verdades de um minuto, 2a ed.
Baseado nos Exercícios de Oração de

Antony de Mello, SJ

AUTOLIBERTAÇÃO

Tradução: J. A. Ceschin

Edições Loyola
Apresentação

Em junho de 1987, faleceu em Nova Iorque, aos 56 anos, o conhecido jesuíta


indiano Anthony de Mello. Além de suas obras, traduzidas em todo o mundo, Mello
ficou famoso também por causa dos seus cursos, exercícios e conferências sobre a
libertação interior. De fato, ele conseguiu realizar uma magnífica síntese entre a
espiritualidade do Oriente e do Ocidente, em benefício da liberdade e da realização da
pessoa humana. O despertar era a meta de todos os seus esforços, e a esse fim dirigiam-
se as suas antologias de contos, tomados tanto da tradição cristã, como da budista e sufi,
sem que ele jamais tivesse escondido sua opção por Jesus.
Tony de Mello estava se preparando para ministrar um curso de autolibertação
interior em Madri, quando a morte, devida a um ataque cardíaco, o surpreendeu.
Mello não apreciava muito a ideia de gravar seus cursos e conferências, porque,
como tinha vontade de atingir o ponto mais profundo da pessoa, algumas vezes fazia
afirmações um tanto radicais. No entanto, o conjunto do seu trabalho de síntese da
espiritualidade e o valor de sua ação pastoral são referendados por centenas de
testemunhos em todo o mundo, e pelo inacreditável sucesso dos seus livros.
Felizmente todos nós temos oportunidade de ler agora o curso que Antony de
Mello não pôde ministrar em Madri, e isso graças às anotações quase taquigráficas de
uma das participantes em outro curso que ele ministrou em Barcelona, entre os dias 19 e
26 de agosto de 1986.
Se há algo que nos impede de viver intensamente o caminho de Jesus dentro da
Igreja, sem dúvida são nossos próprios grilhões e cadeias interiores. Às vezes pode ser
até a própria religião, mal entendida, a fonte de bloqueios psicológicos que impedem de
viver a liberdade interior e a entrega a um ideal autenticamente cristão. De qualquer
modo, sempre se manifestam os nossos egoísmos e preconceitos. Tony de Mello nos
oferece aqui mais um caminho, que não é único, mas que tem diversos pontos de
contato com todas as vias mais profundas e os mestres mais destacados de
espiritualidade de nossa história e nossa tradição. Algumas vezes, mais do que à
informação, é preferível dedicar espaço e tempo à formação. É esta a finalidade desta
obra.
1

Desperte em você a felicidade!

Despertar representa espiritualidade, porque só despertos podemos entrar na


verdade e descobrir quais correntes nos impedem de atingir a liberdade. Isto é
iluminação. É como o surgimento do sol no meio da noite, a luz no meio das trevas. É a
alegria que se descobre a si mesma, nua de toda forma. Isto é iluminação. Místico é o
homem iluminado, aquele que tudo vê com clareza, porque está desperto.
Não quero que acreditem no que digo só porque eu esteja dizendo. Quero que
toda pessoa que me ouve questione cada palavra e analise seu significado, assim como
tudo o que ouve na sua vida pessoal; mas que o faça com sinceridade, sem enganar a si
mesma, sem acomodação ou medo.
Importante é o Evangelho, não a pessoa que o prega e nem as suas formas.
Tampouco importa a interpretação que ele tenha tido sempre ou que mereça desta ou
daquela pessoa, por mais canonizada que esteja. O leitor é que tem de procurar
interpretar a mensagem pessoal que o Evangelho encerra para ele, no momento em que
o lê. Não deve preocupar- se com o que a religião ou a sociedade estejam pregando.
A sociedade canoniza aqueles que a ela se conformam. Era assim no tempo de
Jesus e continua sendo agora. Não conseguiram canonizar a Jesus, e por isso o
assassinaram. Quem o leitor acha que matou Jesus? Os malvados? Não. Jesus foi
assassinado pelos bons de plantão, os mais respeitados e acreditados da sociedade. Jesus
foi morto pelos escribas, os fariseus e os sacerdotes; e você, caro leitor, se não tiver
cuidado, acabará assassinando a Jesus enquanto estiver dormindo.
VOCÊ ESTÁ DORMINDO

E como vou saber se estou dormindo? É o próprio Jesus quem o diz no


Evangelho: "Por que me chamais 'Senhor! Senhor!', mas não fazeis o que eu digo?" Se
não fazemos o que Deus quer e nos dedicamos a fabricar um deus "tapa- -buracos", é
porque estamos dormindo, importante mesmo é responder a Deus com o coração. Não
vem ao caso se o leitor é ateu, muçulmano ou católico; o que importa é a circuncisão ou
o batismo do coração. Estar acordado é trocar o coração de pedra por um que não esteja
fechado à Verdade.
Se você sofre por causa do passado, é porque está dormindo. É muito importante
levantar para não tornar a cair. A solução do problema está em nossa capacidade de
compreender e de ver além daquilo que nos permitimos enxergar. Na capacidade de ver
o que existe por trás das coisas. Quando os seus olhos se abrirem, você verá que tudo
muda, que o passado está morto e que aquele que dorme no passado está morto, porque
apenas o presente é vivo, se você está acordado nele.
Metanóia quer dizer despertar, e não perder a vida. É vivenciar o presente. E
para saber isso existe um critério: Você está sofrendo? É porque está adormecido. Não
importa que você saiba muitas coisas e se dedique a salvar outras pessoas. "O cego que
guia outro cego" é uma expressão que significa que os dois estão dormindo. Se você
sofre é porque está dormindo. Por certo vai dizer que a dor existe. Sim, é verdade que a
dor existe, mas não o sofrimento. O sofrimento não é real, mas uma obra da sua mente.
Se você sofre é por estar adormecido, porque, em si, o sofrimento não existe, é um
produto dos seus sonhos, e, se você está dormindo, verá um Jesus também adormecido,
imaginado por você, que nada tem a ver com o Jesus real, e isso pode ser muito
perigoso.
Calderón disse: "Tudo nos parece ter a cor da lente através da qual enxergamos".
Se você está adormecido, só será capaz de ver coisas que dormem, e só poderá perceber
isso quando despertar. A vida inteira passará ao seu lado sem que a possa viver.
Se você tem problemas é porque está adormecido. A vida não é problemática. É o "ego"
(a mente humana) que cria os problemas. Você deve entender que o sofrimento não está
na realidade, mas em você mesmo. Por isso, em todas as religiões, prega-se que é
preciso morrer para o "eu", morrer para si mesmo, para voltar a nascer. Este é o
verdadeiro batismo que faz surgir o homem novo. A realidade não causa problemas,
mas os problemas nascem da mente, quando estamos dormindo. Você mesmo é quem
cria os problemas.

DESPERTE

Você acha que nos últimos dias não tem se sentido como uma pessoa livre e
feliz, sem problemas, sem preocupações? Não tem se sentido assim? Pois você está
dormindo. Que acontece quando você está acordado? Nada se modifica, tudo fica do
mesmo jeito, mas é você quem muda para entrar na realidade. Então você passa a ver
tudo bem claro.
Os discípulos perguntaram a um mestre oriental: "O que foi que lhe
proporcionou a iluminação?" Ele respondeu: "Antes eu sentia depressão, e hoje sinto a
mesma depressão, com a diferença de que, agora, não me importo mais com ela".
Estar desperto é aceitar a tudo, não como lei, nem como sacrifício, e muito
menos com esforço, mas por iluminação. Aceitar a tudo porque vemos as coisas com
clareza, e nada nem ninguém consegue mais nos enganar. É despertar para a luz. A dor
existe, e o sofrimento só aparece quando resistimos à dor. A dor não é irresistível,
porque tem um sentido compreensível no momento em que desaparece. Irresistível é
termos o corpo aqui e a mente no passado ou no futuro.
Insuportável é querermos distorcer a realidade, que é inamovível. Isso sim é
insuportável. É uma luta inútil, como é inútil o seu resultado: o sofrimento. Não se pode
lutar por aquilo que não existe.
Não se deve procurar pela felicidade onde ela não está, nem tomar a vida pelo
que não é vida, porque, neste caso, estamos criando um sofrimento que é apenas o
resultado de nossa cegueira e, com ele, o desassossego, a angústia, o medo, a
insegurança... Nada disso existe, a não ser em nossa mente adormecida. Quando
despertamos, tudo acaba.
IMPORTANTE É A VIDA

Ir contra a realidade, vendo todas as coisas como problemas, é acreditar que o


"eu" seja muito importante. Na verdade, o "eu", como personagem individual, não tem
importância alguma.
Nem eu, nem minhas decisões ou ações importam coisa alguma no
desenvolvimento da vida; é a vida que importa, e ela continua seguindo o seu curso.
Apenas quando conseguimos compreender isso e nos entregamos à unidade é que nossa
vida adquire sentido. E este conceito está bem claro no Evangelho. Por acaso
adiantaram alguma coisa todas as transgressões e desobediências para a história da
salvação? Adianta alguma coisa assassinar um homem? Adiantou terem assassinado
Jesus Cristo? Os responsáveis por sua morte acreditavam estar realizando um ato
"bom", um ato de justiça, e tomaram sua decisão depois de muito "discernimento".
Jesus era portador da luz, e por isso pregava as coisas mais estranhas e contrárias
ao judaísmo, às suas crenças e interpretações religiosas: Ele falava com as mulheres,
comia com ladrões e prostitutas. Mas, além disso, interpretava a Lei em profundidade,
responsabilizando-se pelos regulamentos e suas formas. Os "sábios" e os "poderosos"
tinham de acusá-lo. Poderia ser de outra maneira? Era necessário que ele morresse
daquele modo, assassinado, e não de doença ou velhice.
Conta-se que um rei godo emocionou-se ao ouvir a história de Jesus, e disse: "Se
eu estivesse ali, não o teriam acusado!"
Por acaso o leitor pensa do mesmo modo que esse rei godo? Então está
dormindo.
A morte de Jesus descobre a realidade em uma sociedade que está adormecida,
e, por isso, sua morte é luz. É o grito para que despertemos.
NÃO SE PRENDA

O que está faltando para que você desperte? Por certo não falta esforço, nem
juventude, nem meditar muito. Só falta mesmo uma coisa: a capacidade de pensar em
algo novo, de ver alguma coisa nova, de descobrir o desconhecido. A capacidade que
nos permite atuar fora dos limites estabelecidos, de saltar para além desses limites e
observar, com olhos novos, a realidade que não muda.
Aquele que pensa como marxista não pensa; o que pensa como budista não
pensa; quem pensa como muçulmano não pensa... e até quem pensa como católico,
tampouco pensa. Todos eles são pensados por sua ideologia. São escravos, porquanto
não podem pensar acima e além dessas ideologias. Vivem dormindo e pensando por
meio de ideias pré-concebidas. O profeta, por outro lado, não se deixa levar por
qualquer ideologia, e por isso é tão mal recebido. O profeta é o pioneiro, que se atreve a
colocar-se acima dos esquemas vigentes, abrindo novos caminhos.
A Boa Nova foi rejeitada porque os homens de Israel não queriam a libertação
pessoal, mas um caudilho que os guiasse. Não temos coragem de voar por nossos
próprios meios. Temos medo da liberdade e da solidão, e preferimos ser escravos de
determinados esquemas sociais. A eles nos prendemos voluntariamente, atando-nos a
pesadas correntes, e depois nos queixamos de não ser livres. Quem poderá nos libertar,
se nós mesmos não temos consciência das cadeias que nos prendem?
As mulheres prendem-se aos maridos e aos filhos. Os maridos, às esposas e aos
negócios. Todos nos deixamos prender, e nosso argumento, a justificativa que usamos, é
o amor. Mas, que amor? A realidade é que só amamos a nós mesmos, e com um amor
adulterado e raquítico, que envolve apenas o "eu", o próprio ego. Nem ao menos somos
capazes de amar a nós mesmos em liberdade. Então, como vamos saber dar amor aos
outros, mesmo sendo nossos cônjuges ou nossos filhos? Todos nos acostumamos à
prisão das coisas antigas, e preferimos dormir, para não descobrir a liberdade inerente
ao que é novo.
NÃO CONFUNDA OS SONHOS

Você está dormindo, porque, caso contrário, não precisaria vir a este curso. Se
estivesse vendo tudo com novos olhos, não precisaria vir aqui para despertar.
No entanto, se você é capaz de reconhecer que está adormecido, se tem
consciência de que não está acordado, já deu pelo menos um passo. Pois a pior e mais
perigosa manifestação daquele que dorme é achar que está acordado e confundir seus
sonhos com a realidade. A primeira coisa de que alguém necessita para despertar é saber
que está dormindo, que está sonhando.
A religião é uma coisa muito boa em si mesma, mas, nas mãos de quem dorme,
ela pode fazer muito estrago. E podemos ver isso com bastante clareza, através da
história de uma religião que, em nome de Deus, cometeu tantas barbaridades,
acreditando que fazia o bem. Se você não sabe empregar a religião na sua essência, em
liberdade, sem fanatismos nem ideologias de uma cor ou de outra, pode acabar
causando muitos estragos, como de fato estamos vendo por toda parte.
Para despertar é preciso que estejamos dispostos a ouvir tudo, muito além dos
padrões de "bondade" ou "maldade", com receptividade, que não significa credulidade.
É preciso que questionemos a tudo, embora nos mantenhamos atentos para descobrir as
verdades que podem estar contidas em todas as coisas, separando-as daquilo que não é
verdade. Se nos deixamos identificar com as teorias sem questioná-las com a razão —
sobretudo com a vida — e não as assimilamos, limitando-nos a armazená-las na mente,
é porque continuamos dormindo. Não aprendemos a assimilar essas verdades para
estabelecer nossos próprios critérios. É preciso enxergar as verdades, analisá-las e pô-
las à prova, uma vez questionadas.
"Fazei o que vos digo" — disse Jesus. Mas não podemos fazê-lo sem antes nos
transformar em uma nova pessoa, acordada, livre, que já pode amar.
"Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que
entregasse o meu corpo às chamas" — disse São Paulo — "se não tivesse a caridade,
isso de nada me adiantaria". Esta forma de ver do apóstolo Paulo, nós também a
podemos alcançar, e esse modo de ser nasce quando despertamos, quando nos tornamos
disponíveis, sem enganos.
QUE CONFUSÃO!

Nossa vida é uma confusão. Mas, temos capacidade para reconhecer isso?
Devemos ter receptividade. Estaríamos dispostos a ver que o sofrimento e a angústia
são fabricados por nós mesmos? A partir do momento em que somos capazes de
compreender isso, estaremos começando a despertar.
Em geral, nós procuramos por alívio, e não pela cura total. Assim, quando
sofremos, estaríamos dispostos a nos separar desse sofrimento, de modo a poder
analisá-lo e descobrir sua origem? É preferível deixar que soframos um pouco mais, até
que nos cansemos e estejamos dispostos a enxergar. Ou despertamos por nós mesmos,
ou a vida acabará nos acordando.
Mesmo quando o relacionamento entre amigos não funciona tão bem quanto
você esperava, é possível melhorá-lo. Você pode parar e começar uma trégua, mas, se
não trouxer à tona as premissas que prejudicaram esse relacionamento, o problema
continuará existindo, e ainda dará motivo a sentimentos negativos.
Há artifícios comerciais do "bom comportamento", que foram enfiados em nossa
mente por nosso senso de "boa educação". Se os examinarmos com os olhos bem
abertos, veremos que nada mais são do que uma manipulação, um "toma lá, dá cá", uma
espécie de chantagem, hipocrisia. Ao conseguir enxergar isso, vamos querer erradicar
de uma vez o tumor, ou apenas tomar um analgésico para aliviar o sofrimento? Quando
a gente se cansa de sofrer, é chegado o momento ideal para despertar.
Buda disse: "O mundo está cheio de dor, que gera sofrimento. A raiz do
sofrimento é o desejo. Se queremos nos livrar desse tipo de dor, temos de erradicar o
desejo".
A base do sofrimento é o desejo, o apego. Quando sentimos um desejo
compulsivo por alguma coisa, colocando nisso todas as nossas ânsias de felicidade,
estamos nos expondo à desilusão, caso não alcancemos o que pretendemos. Se não
desejamos tanto que um amigo nos receba, nos agrade e se lembre sempre de nós, se
não desejamos isso de maneira compulsiva, não nos importará nem um pouco a
indiferença ou até a rejeição que possa ser manifestada por essa pessoa, em relação a
nós. Onde não existe esse tipo de apego, não existe medo, porque o medo é a face
oposta do desejo, sendo ambos inseparáveis.
Sem esse tipo de desejo, ninguém jamais poderá nos intimidar, nem controlar ou
roubar, porque, se não temos desejos, não vamos temer que nos roubem qualquer coisa.

O AMOR NÃO DORME

Onde existe amor, não há desejos. Por isso, ali não existe medo algum. Se você
de fato ama seu amigo, deve poder falar com ele abertamente e dizer: "Desta maneira,
sem as lentes coloridas dos desejos, eu o vejo como você é, e não como eu gostaria que
fosse. E é assim que lhe dedico minha amizade, sem medo de que você venha a afastar-
se de mim ou me magoar, sem medo de não me corresponder". Porque, na realidade, o
que é que realmente desejamos? Amar a essa pessoa como ela é, ou a uma imagem que
não existe? Se você conseguir desprender-se desses desejos ou apegos, poderá amar.
Aquele outro sentimento nem ao menos pode ser chamado de amor, pois é contrário a
tudo o que significa amor de verdade.
Apaixonar-se também não significa amar, mas desejar para si uma imagem que
se cria da outra pessoa. Tudo é apenas um sonho, porque essa pessoa não existe. Por
isso, quando se conhece a realidade dessa pessoa, como ela não coincide com o que se
estava imaginando, a paixão deixa de existir. A essência de tudo fica circunscrita aos
desejos. Desejos que dão origem ao ciúme e ao sofrimento porque, não estando
assentados sobre a realidade, vivem na insegurança e na desconfiança do medo de que
todos os sonhos se acabem e desmoronem.
Quando alguém se apaixona, experimenta certas emoções e uma exaltação que
agrada às pessoas que sofrem de insegurança afetiva, alimentadas por uma sociedade e
uma cultura que fazem disso um verdadeiro comércio. Uma pessoa apaixonada não se
atreve a dizer toda a verdade, por medo de que a outra se desiluda porque, no fundo,
sabe que essa paixão só se alimenta de ilusões e de imagens idealizadas.
Apaixonar-se supõe uma manipulação da verdade e até da outra pessoa, para que
se sinta e deseje o mesmo que nós, podendo então ser possuída como um objeto, sem o
medo de que nos venha a desiludir. A paixão nada mais é do que uma enfermidade e
uma droga, experimentadas por aquela pessoa que, em virtude de sua própria
insegurança, não tem capacidade para amar livre e satisfatoriamente.
As pessoas inseguras não desejam a verdadeira felicidade, porque temem os
riscos representados pela liberdade. Por isso, preferem a droga dos desejos. Com os
desejos vêm o medo, a ansiedade, as tensões e... consequentemente, a desilusão e o
sofrimento contínuos. A pessoa passa da exaltação para o desespero.
Quanto tempo dura o prazer de acreditar que conseguimos o que desejávamos?
O primeiro trago de prazer é um encanto, mas está irremediavelmente preso ao medo de
perder tudo. Assim, quando as dúvidas tomam conta de nós, chega a tristeza. A própria
alegria e exaltação, experimentadas quando o amigo chega, são proporcionais ao medo e
à dor de quando ele vai embora... ou quando o esperamos e ele não vem... Será que isso
vale a pena? Onde há medo não existe amor. Esteja certo disso.
Quando despertamos de nosso sono e vemos a realidade como ela é, nossa
insegurança acaba e desaparecem os temores, porque a realidade é, e nada pode
modificá-la. Então estamos em condição de dizer ao nosso próximo: como não tenho
medo de perdê-lo, pois não é um objeto de propriedade de quem quer que seja, posso
amá-lo exatamente como ele é, sem desejos, sem apegos, sem condições, sem egoísmos
e sem querer ser dono dele. E esta forma de amar representa uma felicidade sem limites.
Que fazemos quando escutamos uma sinfonia? Procuramos ouvir cada uma das
notas, nos deleitamos e a deixamos passar, sem tentar garantir a sua permanência,
porque é no passar das notas que está a harmonia, sempre renovada e sempre fresca.
Pois, no amor, é a mesma coisa. Quando nos agarramos à permanência, destruímos toda
beleza do amor. Não pode existir casal nem amizade que seja tão seguro quanto aquele
que se mantém livre. O apego mútuo, o controle, as promessas e o desejo levam
inexoravelmente aos conflitos e ao sofrimento e daí a muito ou pouco tempo ao
rompimento definitivo. Porque os laços que se baseiam nos desejos são frágeis demais.
Só é eterno aquilo que se constrói sobre um amor livre. Os desejos sempre nos tornam
vulneráveis.
APRENDER A GRATUIDADE

Existem dois tipos de desejos ou dependências: o desejo de cuja satisfação


depende a nossa felicidade, e o desejo de cuja satisfação nossa felicidade não depende.
O primeiro é uma escravidão, uma cadeia, pois nós fazemos com que dependa de sua
satisfação, ou não, a nossa felicidade ou nosso sofrimento. O segundo deixa aberta uma
alternativa: se ele é satisfeito nós nos alegramos e, se não, procuramos outras
compensações. Este desejo nos deixa mais ou menos satisfeitos, mas não devemos jogar
tudo nele. No entanto, existe uma terceira opção, outra maneira de viver os desejos,
como os estímulos para a surpresa, como um jogo no qual o importante é participar, e
não vencer ou perder.
Há um provérbio oriental que diz: "Quando o arqueiro dispara gratuitamente,
tem consigo toda a sua habilidade". Quando ele dispara esperando ganhar um troféu de
bronze, está meio nervoso. No momento em que dispara para ganhar uma medalha de
ouro, fica louco pensando no prêmio e perde metade de sua habilidade, pois já não vê só
um alvo, mas dois. Sua habilidade na verdade não mudou, mas é o prêmio que a reduz,
pois o desejo de ganhar tira do homem a alegria e a felicidade de realizar o disparo.
Ficam presas à sua habilidade as energias que ele precisaria ter livres para fazer um bom
disparo. O desejo do triunfo e o resultado para conseguir o prêmio transformam-se em
inimigos que lhe tiram a visão, a harmonia e o prazer.
O desejo sempre assinala uma dependência. Num certo sentido, todos nós
dependemos de alguém (do padeiro, do leiteiro, do agricultor etc., pessoas necessárias à
organização de nossa vida). Mas, depender de outra pessoa para nossa própria
felicidade, além de ser uma coisa nefasta para nós mesmos, representa um grande
perigo, pois, com isso, estamos afirmando algo contrário à vida e à realidade.
Portanto, depender de outra pessoa para estar alegre ou triste é remar contra a
correnteza da realidade, pois a felicidade e a alegria não podem vir de fora, já que estão
dentro de nós. Só nós mesmos podemos tornar reais as forças de amor e felicidade que
existem dentro de nós, e apenas aquilo que conseguirmos expressar, a partir dessa nossa
realidade, pode nos tornar felizes. De fato, o que vem de fora pode vir a nos estimular
mais ou menos, mas não nos dá uma gota sequer de felicidade.
Dentro de mim soa uma melodia quando chega um amigo, e é essa melodia que
me torna feliz. Quando o amigo se vai, fico cheio da sua música, e essas melodias não
se esgotam, porque em cada pessoa produz-se uma melodia diferente, que também nos
torna felizes e enriquece nossa harmonia. Talvez haja uma melodia ou várias que me
agradem de maneira particular, mas não me apego a elas: de fato, são agradáveis, quer
estejam ou não comigo, pois não tenho a enfermidade da nostalgia. Estou tão feliz que
não sinto falta de coisa alguma. A verdade é que não posso sentir a falta de um amigo
porque tenho sua presença comigo. Se sentisse sua falta, estaria reconhecendo que,
quando ele partiu, teria deixado um vazio no meu peito. Pobre de mim, se cada vez que
uma pessoa querida partisse minha orquestra deixasse de tocar!
Quando amamos alguém, amamos independentemente de nós mesmos: não
estamos apaixonados por nosso ego, mas pela vida. Não é possível caminhar quando
temos uma pessoa agarrada a nós. Diz-se que todos temos necessidades emocionais, que
precisamos nos sentir queridos e apreciados, que devemos pertencer a outra pessoa, a
alguém que nos deseje. Não é verdade. Quando um indivíduo sente esse tipo de
necessidade, está sofrendo de uma enfermidade que vem de sua insegurança afetiva.
Tanto a enfermidade — a necessidade de sentir-se querido — como a cura que
se deseja — o amor recebido — baseiam-se em falsas premissas. Não existem
necessidades emocionais para conseguir a felicidade externa. Isto porque você,
enquanto pessoa, é o amor e a felicidade em si mesmo, e apenas mostrando esse amor e
desfrutando dele você vai ser realmente feliz, sem vontades nem desejos, pois você já
tem em si mesmo todos os elementos para ser feliz.
A resposta do amor externo agrada e estimula, mas não nos dá mais felicidade
do que aquela que já temos, pois nós mesmos já contamos com toda a felicidade que
somos capazes de desenvolver. Deus é a Verdade, a Felicidade e a Realidade, e Ele é a
Fonte, sempre disposta a nos completar à medida que, livremente, nos entregamos e nos
abrimos a Ele.
VOCÊ JÁ É FELICIDADE

Despertar é a única experiência que vale a pena. Abrir bem os olhos, para ver
que a infelicidade não vem da realidade, mas dos desejos e das ideias equivocadas. Para
ser feliz não é preciso fazer coisa alguma, além de desfazer-se de falsas ideias, das
ilusões e fantasias que não nos permitem ver a realidade. Uma pessoa só consegue isso
mantendo-se acordada e chamando as coisas por seus verdadeiros nomes.
Você já é felicidade, assim como é amor, mas não vê isso porque está dormindo.
Esconde-se atrás das fantasias, das ilusões, e também das misérias das quais se
envergonha. Nós todos fomos programados para ser felizes ou infelizes (dependendo de
apertarem o botão do elogio ou da crítica), e isso é o que nos confunde. É preciso que
reconheçamos isso, saindo dessa programação e procurando dar às coisas os seus nomes
verdadeiros.
Se você insiste em não despertar, nada se pode fazer: "Não deves empenhar-te
em tentar fazer um porco cantar, pois estarás perdendo o teu tempo e o porco acabará se
irritando". Todo mundo sabe que o pior cego é aquele que não quer ver. Se você não
quer ver e despertar, continuará programado; e as pessoas adormecidas e programadas
são mais fáceis de ser controladas pela sociedade.
2

Desprograme-se! Seja você mesmo!

É muito importante você reconhecer que até agora foi um ioiô, subindo e
descendo de acordo com os problemas, os desgostos ou depressões que enfrenta; que foi
incapaz de manter um nível de estabilidade. É preciso aceitar que passa a vida à mercê
de outras pessoas, de coisas ou de situações. Que está sendo manipulado ou que pode
manipular os outros, as coisas e as situações. Que não é dono de si mesmo, nem
consegue olhar as situações com sossego, sem pressa nem ansiedade.
Toda essa atitude depende apenas de nossa programação. Nós somos
programados desde a infância pelas conveniências sociais, pelo que chamam de
educação, ou cultura. Assim, vivemos dentro de uma programação, e damos as
respostas esperadas, diante de determinadas situações, sem parar para pensar o que
existe de correto na situação e se ela está de acordo com o que nós somos de verdade.
Damos uma resposta habitual e mecânica.
Somos programados conforme um conjunto de ideias convencionais e culturais,
que tomamos como verdades, quando não o são. Por exemplo, a ideia de pátria, de
fronteiras e de hábitos culturais, que inclusive nos levam a conflitos bélicos, quando
nada têm a ver com a realidade.
DESPROGRAME-SE!

Quando viajava para cá, no avião, alguém me disse: "Olhe, já saímos da índia.
Ali está a fronteira". Cheguei à janela e, por mais que olhasse, não vi linha alguma, nem
barreiras naturais de separação. Por acaso existem fronteiras na natureza? Elas estão
apenas na nossa mente. A terra inteira é de todos, e toda cultura nada mais é do que
ideias que nos separam.
"Era uma vez um menino branco que se perdeu na selva e foi criado por uma
tribo, de cultura diferente. Quando cresceu, casou-se com uma nativa daquela cultura.
Aconteceu que, um dia, uma amiga de sua mulher perdeu o marido na guerra. Naquela
noite, ao pensar na amiga sozinha, a mulher nativa disse ao marido branco: 'Eu gostaria
que você fosse consolar minha amiga, que ficou sozinha, e, como ela já não tem marido,
que você se deitasse com ela'. O marido, que ainda tinha na mente alguns traços
originais de sua cultura, recusou-se, horrorizado. Mas, por fim, acabou concordando e
fez o que a mulher pedira. Quando voltou, a esposa nativa lhe disse: 'Sabia que era um
bom homem e agora o amo ainda mais, porque você é caridoso, e me sinto ainda mais
orgulhosa do marido que tenho"'.
Que cultura maravilhosa! Mas como é difícil para nós compreendê-la e imitá-la!
Não existe separação alguma nas raças, além de diferentes culturas, programadas nas
nossas mentes. Não existem fronteiras na natureza. A honra, o sucesso e o fracasso não
existem, assim como não existem a beleza e a feiura, porque tudo está na maneira com
que encaramos a nossa cultura. E o aspecto cultural que provoca essas emoções diante
das palavras pátria, raça, idioma ou povo. São formas diferentes de ver que estão
programadas na nossa mente. A pátria é produto da política, e a cultura é a maneira de
nos doutrinar.
Quando somos produto de nossa cultura, sem questionar coisa alguma, nós nos
transformamos em robôs. A cultura, a religiosidade e as diferenças raciais, nacionais ou
regionais foram impressas na nossa mente, e nós as interpretamos como se fossem reais.
Ensinaram-nos uma religiosidade e uma forma de comportamento que nós mesmos não
escolhemos, mas que foram impostas de fora, antes mesmo de termos idade ou
discernimento para tomar nossa própria decisão. E continuamos aqui, com essas ideias
penduradas no pescoço, como uma pedra.
Apenas aquilo que nasce e é decidido de dentro para fora é autêntico e pode nos
libertar. As coisas que fazemos por hábito e que não podemos deixar de fazer porque
nos dominam são coisas que nos tornam dependentes, escravos daquilo em que
acreditamos, porque assim fomos programados. Só podemos assumir e considerar como
nosso, alcançando assim a liberdade, aquilo que vem de dentro, que é analisado,
comparado com nossos critérios e por nós posto em prática.
Temos de nos libertar de nossa história e da programação a que fomos
submetidos para poder responder por nós mesmos, e não de personagem para
personagem.
O mesmo acontece com aquilo que pensamos ser amor e que nada mais é do que
um mero modelo cultural aceito pela mente. Não se pode viver sob as influências do
passado. O mínimo que se pode fazer pelo amor é ser sincero, ter clareza de percepção e
chamar cada coisa por seu nome verdadeiro, isto é, ser capaz de dar a resposta correta
sem enganar aos outros nem a si mesmo. Por amar a uma pessoa, partimos de nossa
realidade e podemos dar uma resposta que corresponde a essa pessoa e à sua realidade
do momento presente. Ninguém sabe o que poderá acontecer mais tarde, e por isso não
devemos fazer promessas que não sabemos se poderemos cumprir.
Assim, o mínimo que se pode exigir do amor é sinceridade. A espiritualidade
consiste em ver as coisas como elas são, e não através de lentes cor-de-rosa. A
espiritualidade deve nascer de dentro de nós mesmos; e quanto mais autênticos formos,
mais espirituais seremos.

NÃO SEJA UMA FOTOCÓPIA

Não devemos imitar a ninguém, nem ao menos a Jesus. Cristo não era uma cópia
de ninguém. Para sermos como ele, devemos ser nós mesmos, sem copiar a ninguém,
pois tudo o que é autêntico é real, como Jesus era real.
A culpabilidade e a crítica só existem na mente da cultura. As pessoas que
menos se preocupam com a vida de agora, em viver o presente, são as que mais se
preocupam com a vida futura. Devíamos estar nos concentrando em nos manter
acordados, em viver o momento de agora, e não pensando no futuro. Quando nossa
mentalidade muda, tudo se transforma para nós e ao nosso redor. O que antes nos
preocupava tanto de repente não importa mais nada. Em contrapartida, vamos
descobrindo coisas maravilhosas, que antes nos passavam despercebidas.
A maior das preocupações das pessoas programadas é ter razão. Elas têm medo
de perder as ideias em que se apoiam, porque têm pavor aos riscos, às mudanças, às
novidades, e agarram-se às suas velhas ideias porque estão fossilizadas.
Nossa vida se transforma numa grande confusão porque aceitamos como
realidade as coisas que não passam de programações, que servem para nada, e a elas nos
agarramos porque não sabemos como descobrir outras coisas. No fundo, padecemos de
uma enorme insegurança e, para nos sentir melhor, vamos consultar aqueles que
acreditamos saber mais do que nós, certos de que vão solucionar todos os nossos
problemas. No entanto, os problemas, que só existem na nossa imaginação, só podem
ser solucionados a partir do momento em que despertamos.

FÁCIL E DIFÍCIL

"Conta-se que existia um grande professor chamado Buso, que era casado e tinha
uma filha. Todos da família eram conhecidos por sua grande sabedoria e santidade. Um
dia, um homem aproximou-se do professor e perguntou: 'A iluminação é fácil ou
difícil?' E Buso respondeu: 'É tão difícil quanto chegar à Lua'. Inconformado, o homem
foi falar com a mulher de Buso e lhe fez a mesma pergunta. Ela respondeu: 'É muito
fácil. Tão fácil quanto tomar um copo d'água'. O homem ficou intrigado e, para livrar-
se das dúvidas, fez a mesma pergunta à filha do professor, que lhe respondeu: 'Ora, se o
senhor torna as coisas difíceis, é difícil, mas se facilita tudo...'"
Difícil mesmo é a capacidade de ver, isto é, de ver com simplicidade, com
sinceridade, sem nos enganar porque ver significa mudar, ficar sem nada a que se
agarrar. E nós estamos acostumados a procurar apoio, a andar com muletas. Quando
chegamos a ver com clareza, temos de voar. E voar significa nada temer, andar sem se
agarrar a coisa alguma. Precisamos desmontar a tenda em que nos refugiamos e
continuar pelo caminho que está adiante de nós, sem procurar apoio.
O pavor maior reside justamente na aniquilação de todo tipo de medo, já que ele
sempre é o manto no qual nos envolvemos para não ver e não sermos vistos. É duro
deixar tudo para trás e enfrentar a felicidade, quando não queremos ser felizes a esse
preço. Neste caso, trata-se de uma felicidade que deve ser expressada por nós mesmos,
sem esperar que nos seja entregue já pronta e embrulhada para presente. Embora todos
digamos que procuramos pela felicidade, na verdade não queremos ser felizes.
Preferimos voltar ao ninho ao invés de voar, porque temos medo. E o medo é uma
sensação que todos conhecemos, enquanto a felicidade é desconhecida.
Vejo isso todos os dias na minha profissão de psicólogo. A primeira coisa que o
bom psicólogo deve entender é que as pessoas que a ele recorrem não procuram a cura,
mas o alívio; elas não querem mudar, porque a mudança nos expõe e compromete.
É como aquele que estava mergulhado numa fossa, com sujeira até a altura do
queixo, cuja única preocupação era que ninguém aparecesse para fazer ondas, não se
importando em ser ou não tirado dali. O problema, portanto, é que a grande maioria das
pessoas compara a felicidade com a conquista dos objetos que desejam, quando, ao
contrário, a felicidade reside precisamente na ausência dos desejos, e no fato de pessoa
alguma ter poder sobre nós.

CONHECER-SE A FUNDO

Para que possamos despertar, o único caminho é a observação. Devemos


começar observando a nós mesmos, nossas reações, nossos hábitos e as razões pelas
quais reagimos assim. Devemos fazer uma auto-observação sem críticas, sem
justificações nem sentimento de culpa ou medo de descobrir a verdade. Devemos nos
conhecer a fundo.
Indagar e pesquisar sobre a pessoa de Jesus Cristo é algo bastante louvável, mas
de que serve? Poderá isso valer alguma coisa, se não conhecemos a nós mesmos?
Valerá alguma coisa, se continuarmos sendo controlados e manipulados sem ao menos
saber?
A pergunta mais importante do mundo, a verdadeira base de todo ato maduro é
esta: Quem sou eu? Porque, se não conhecemos a nós mesmos, não poderemos conhecer
a Deus. É fundamental para uma pessoa conhecer a si mesma e, no entanto, não existe
resposta para a pergunta: quem sou eu? Porque é preciso descobrir quem não somos,
para então chegarmos ao ser que já somos.
Existe um provérbio chinês que diz: "Quando os olhos não estão bloqueados, o
resultado é a visão. Quando a mente não está bloqueada, o resultado é a sabedoria, e
quando o espírito não está bloqueado, o resultado é o amor".
É preciso tirar as vendas para enxergar. Se não vemos, não temos como
descobrir os impedimentos que não nos deixam enxergar.
Observar a nós mesmos é estarmos atentos a tudo o que acontece dentro de nós e
à nossa volta, como se estivesse ocorrendo a outra pessoa, sem pré-julgamentos, nem
justificativas ou esforços visando mudar o que está acontecendo, e sem formular críticas
ou com autopiedade. Todos os esforços que possamos fazer para mudar as coisas só
servem para piorar tudo, pois estaremos assim lutando contra determinadas ideias. Na
verdade, o que se deve fazer é tentar compreendê-las, para que elas caiam por si
mesmas, uma vez que percebemos sua ausência de realidade. É preciso questionar tudo,
para ver se essas coisas podem ser vistas como realidade. Uma vez feito o
questionamento, devemos observar a nós mesmos.

A VIDA OBSERVADA

Às vezes nos sentimos mal, confusos, sem conseguir agir sozinhos, e então
procuramos um psicólogo que possa resolver tudo. Mas o psicólogo nada pode fazer por
você mesmo. Ele não pode conseguir aquilo que nós mesmos não estejamos dispostos a
fazer. Pode nos ouvir e ajudar, para que nós mesmos esclareçamos tudo enquanto
falamos. Na verdade, o que fazemos ali é observar a nós mesmos, e é isso que devemos
fazer, mas de maneira contínua. Sou psicólogo e posso afirmar que a terapia, na maior
parte dos casos, só representa uma troca de problemas: ela tira um, mas nos apresenta
outro.
A espiritualidade é que tenta encontrar soluções para nós. Procura resolver o
problema do "eu", onde está a verdadeira origem dos problemas que nos levam ao
psicólogo e até ao psiquiatra. A espiritualidade vai diretamente à raiz de tudo, para
resgatar o nosso "eu", o autêntico, que está cercado por barreiras que não nos deixam
existir livremente.
É contraproducente fazer esforço para mudar, pois o que vai nos transformar é a
verdade: temos de observar a verdade para compreender que nossa programação não
permite que sejamos nós mesmos. E a observação que vai nos mudar. "A vida não
observada, não examinada, não vale a pena ser vivida, porque não é vida", dizia
Sócrates.
É preciso reconhecer todas as reações que surgem quando se olha para uma
pessoa, para uma paisagem ou para si mesmo. É necessário observar como se costuma
reagir ante determinadas situações. Deve-se olhar com objetividade, como se fosse outra
pessoa observando, tomando consciência do que acontece dentro e fora de si mesmo,
com toda a atenção (como ao dirigir um carro). Isso deve ser feito sem julgamento
qualitativo, porque, se dermos rótulos às coisas, não as veremos como elas são. E
necessário entender as coisas, sem qualquer tipo de pré-julga- mento.
Precisamos compreender que, com a palavra, ou com o pensamento, temos o
costume de rotular as coisas e as pessoas, e depois, como consequência disso, passamos
a viver o personagem do rótulo, e não a pessoa em si. Pôr- -se em contato com a
realidade é olhar para ela sem querer interpretá-la nem mudar nada, deixando que a
realidade modifique a ordem das coisas, brilhando por si mesma.
Se não mudamos espontaneamente, é porque resistimos a isso. No momento em
que descobrirmos os motivos da resistência, sem reprimi-la nem rejeitá-la, ela
desaparecerá sozinha. Quando existe sensibilidade em nós, não é preciso violência para
conseguirmos as coisas de que necessitamos, pois tudo é resolvido através do
entendimento e da compreensão. E seremos até surpreendidos ao ver como as coisas se
resolvem de acordo com a nossa compreensão da realidade, sem que tenhamos de lutar
contra ela.
MÉTODOS PARA ACABAR PARA SEMPRE COM A INFELICIDADE

1°. Reconhecer a dor, a aflição ou o desassossego que sofremos e quais os seus


motivos; ver de onde vem, de fato, o sofrimento. Se nos sentimos mal, devemos
reconhecer logo isso e identificar a origem do mal-estar. (Se dizemos estar magoados
porque alguém nos tratou mal, é difícil entender por que nos castigamos como reação ao
mau comportamento de outra pessoa. No fundo, deve estar escondido outro motivo,
mais pessoal. Temos de encontrá-lo.).
2°. Reconhecer que o sofrimento ou o mal-estar devem- -se à nossa reação
diante de um fato ou uma situação concreta, e não da realidade daquilo que está
acontecendo. (Se pretendemos ir à praia e chove, nossa contrariedade não está na chuva
— que é a realidade — mas na nossa reação, porque a chuva contrariou nossos planos.)
Temos o costume de pôr a culpa na realidade e não queremos reconhecer que
são nossas reações programadas que de fato nos contrariam. Todos temos alguns hábitos
gravados na mente que se repetem de maneira automática, como uma máquina. Para
certas perguntas, determinadas respostas. E acabamos agindo como robôs. A cultura
grava na nossa mente algumas leis muito rígidas, cuja única razão é que "sempre se fez
assim". E, com este argumento tão frágil, somos capazes de matar para defender a
"honra", a "pátria", a "bandeira", a "raça", a "família", os "bons costumes", a "ordem",
os "ideais", a "boa imagem", os "interesses nacionais", e uma série de outras expressões
que nada encerram além de uma falta real de sentido, gravada em nossa mente como
"cultura". E o mesmo ocorre com as ideias religiosas.
O importante é ser, e não aparecer. A verdade é que estamos de tal maneira
mergulhados nessa programação, que agir com clareza de percepção — a partir dessa
"cultura" — parece quase um milagre. E pior ainda se pretendemos reagir sem desgosto.
É preciso despertar antes, para compreender que o que nos faz sofrer não é a vida, mas
as nossas alucinações. Quando conseguirmos acordar e separar os sonhos, nós nos
veremos face a face com a liberdade e com a verdadeira felicidade.
O certo é que a dor existe porque rejeitamos a ideia de que a única coisa
importante é o amor, a felicidade, o prazer. Quando não somos capazes de encontrar o
caminho livre para esse amor-felicidade que somos, deparamos com a dor, que nada tem
de concreto nem substancial por si mesma, a não ser a ausência de percepção do amor -
felicidade. É como a escuridão, que não existe em si, mas é apenas resultado da menor
percepção da luz.
Em si mesma, a vida é satisfação pura, e nós somos amor- felicidade como
substância e potencial a ser desenvolvido. Apenas os obstáculos da mente nos impedem
de desfrutar plenamente desse potencial. São as nossas resistências, impostas pela
programação a que estamos sujeitos, que nos impedem de ser felizes. Se não
tropeçássemos nas resistências, onde estaria a dor? Haveria uma harmonia completa em
nós, semelhante à que existe na natureza. Uma harmonia até maior, porque somos os
reis dessa natureza, dotados de sensibilidade para captar a bondade, a felicidade e a
beleza, que nos torna criativos e capazes não apenas de ser felizes, mas de dar amor-
felicidade em abundância.
A mera observação de tudo isso já representa um passo no sentido do despertar.
Tudo depende de nossa reação, e esta, por sua vez, depende da nossa programação.
Sendo capazes de observar e compreender isso, já teremos dado um grande passo.
3

Reconheça os seus preconceitos!

Toda programação e condicionamento que nos são impostos nos transformam


em robôs. Os hábitos servem para coisas práticas (a capacidade de andar, de falar outros
idiomas, de dirigir um carro...), mas em se tratando de ver as coisas em profundidade,
no amor e na comunicação, os hábitos são como uma anestesia sobre a criatividade,
sobre o que é novo, contra a ideia de viver os riscos do presente.
O problema é que até mesmo a espiritualidade tornou- se objeto de programação,
de desfiguração, pois a espiritualidade existe, como a realidade. Mas tudo o que é
valioso está sujeito a diferentes interpretações e manipulações.
Cada pessoa tem uma forma de reagir e de interpretar. Conheço um sacerdote
que tem vontade de contrair câncer para morrer sofrendo... enquanto outros, quase todos
os homens, teriam enorme desgosto se soubessem que têm câncer. Na verdade, tanto
uma atitude como a outra não deixam de ser produto de uma programação religiosa ou
cultural.
Quando uma pessoa programada nos ofende sem motivo aparente, estamos tão
programados quanto ela ao nos deixar ofender, porque as duas reações são igualmente
absurdas e irreais. Acontece que, quando estamos adormecidos, nos deixamos magoar
pelas pessoas que também dormem, porque a programação delas afeta a nossa, faz com
que nos lembremos dela, e isso é o que mais incomoda, embora não queiramos
reconhecer. Se uma criança, ou mesmo um macaquinho nos faz uma careta e reagimos
com rancor, é sinal de que somos tão crianças ou macacos quanto ela ou ele. Estar
acordado é não se deixar afetar por coisa alguma, nem por ninguém. E isso é ser livre.
Nós é que devemos escolher as nossas reações diante das coisas, das situações e
das pessoas, e não os nossos hábitos ou nossa cultura. Se continuarmos obedecendo à
nossa programação, teremos de entender que essa programação é o controle do qual a
sociedade se vale para nos impor seus critérios. Estamos sendo controlados, na medida
em que continuamos adormecidos: pelo consumismo, pela política, pelo poder, pelo
trabalho e pela preguiça. As competições deixaram de ser jogos divertidos e saudáveis,
para transformar-se em atos de ódio. Antes as pessoas jogavam pelo prazer de jogar,
mas agora, com as competições, contaminou-se o esporte com o veneno de vencer
sempre, pisando sobre os vencidos.
A melhor qualidade do homem é o amor, e não bater um recorde, humilhando os
derrotados. "Eu sou melhor do que você", e por isso consigo a admiração e a fama...
Mas, em que o outro é melhor do que eu? Correndo? Saltando? Acertando a bola no
meio das traves ou num cesto? E qual a grande vantagem disso? O outro demonstra
amor com essas vitórias? Torna-se uma pessoa melhor? Na verdade, o mais pernicioso
de tudo são as comparações que medem o homem, tomando por base uma medida ideal,
rígida. E os atletas gastam todas as suas energias para aproximar-se desse modelo de
ídolo. Para quê? Para que brilhem os valores autênticos, genuínos.
Vivemos em uma era de doutrinação. Até o Santo Padre, ao assistir à
consagração de um grupo de cardeais, deixou escapar esta frase: "Estes 150 cardeais
tiveram a 'honra' de ser escolhidos..." Por acaso é mesmo uma honra ser cardeal? Não
seria mais um serviço?
Somos doutrinados e nos deixamos levar pelas programações. Viver livremente,
sendo donos de nós mesmos, é não nos deixar levar por pessoa nem situação alguma, é
saber que ninguém tem poderes sobre nós nem sobre nossas decisões. Quem vive assim
vive melhor do que um rei, sabendo ouvir a maravilhosa sinfonia da vida e desfrutando
dela.
Às vezes podem manifestar-se emoções ou depressões devido a transtornos
físicos ou psíquicos, mas isso não nos incomodará mais, porque não tirará a nossa
capacidade de ser felizes e de nos alegrar com tudo de maravilhoso que se produz diante
dos nossos olhos a cada momento. A depressão estará ali, e nós a poderemos observar,
mas não nos identificaremos mais com ela. Para nós, a depressão será algo que acontece
por um motivo que conhecemos e, portanto, estará sob controle. Nada poderá nos
perturbar, pois estará ocorrendo fora de nosso ser.
QUANDO VOCÊ INTERPÕE O "EU"...

Santa Teresa disse que Deus lhe concedeu o dom de desidentificar-se de si


mesma, podendo ver as coisas a partir de fora. Este é um grande dom, pois o único
obstáculo e raiz de todos os nossos problemas é o "eu". Desidentificar-se significa não
se deixar afetar por aquilo que está ocorrendo — vivendo o fato como se ele
acontecesse com outra pessoa — pois quando colocamos o nosso "eu" em qualquer
pessoa, situação ou coisa, devemos nos preparar para sofrer. Viver desidentificado
significa viver sem desejos, esquecido do "ego", responsável pelo egoísmo, pelo desejo
e pela inveja, e pelo qual entram todos os conflitos.
Outra coisa que nos mostra estarmos programados é acreditarmos que cada
pessoa tem a posse da verdade. Cada uma das religiões acredita possuir a verdade e ser
a única e exclusiva. Por quê? Por causa do medo de perder a verdade, se reconhecerem
que ela pode existir em cada uma das religiões. Se vivêssemos desidentificados de
nossas crenças, não teríamos de nos preocupar por aquilo que possam ter de correto ou
não. As crenças podem mudar. O importante é descobrir o que temos de essencial em
nós, que nos leva a procurar pela verdade e saber que ela é de todos.
Despertar é abrir os olhos para a realidade de que não somos aquilo que
acreditamos ser. É o que chamamos de desidentificação. E só poderemos conseguir isso
a partir do momento em que formos capazes de atribuir nossas tribulações às
programações que nos são impostas, e não à realidade. Quando nos afligimos, tentamos
mudar a realidade para que ela se amolde à nossa programação, pois achamos que essa
será a solução do nosso problema. Mas, como não conseguimos, a frustração acaba
somando-se à nossa aflição, e o problema cresce, em vez de se solucionar.
Se o problema está na nossa programação, não podemos mudar a vida e as outras
pessoas. Temos de procurar nos desprogramar, ou, pelo menos, ver claramente de onde
vem o problema. Se mudarmos, abrindo-nos para a realidade, veremos como tudo muda
à nossa volta, pois era a nossa mente que estava enganada. Ao mudarmos nossa mente,
abrindo-nos para a realidade, mudará também a nossa maneira de ser e de viver, e
passaremos a chamar cada coisa pelo seu verdadeiro nome.
Lembre-se do ditado que diz: "Em vez de acarpetar o mundo inteiro para não
tropeçar, é melhor que você calce seus sapatos". É possível conseguir a felicidade nesta
vida? Ao abandonar nossas alucinações, veremos que a felicidade sempre esteve em
nós, mas fomos obrigados a engolir determinadas exigências da cultura, dos desejos,
dos medos, com todos os seus mecanismos de defesa, e a felicidade foi-se afogando.
Reconhecer isso já é um grande passo.
Com tantas exigências e problemas, uma pessoa não pode amar nem encontrar a
felicidade, porque já tem muito trabalho em defender-se de tudo que acha que a está
atacando. Nessas condições, aquilo que chamamos de amor, na verdade, é egoísmo, ou
seja, amor ao nosso "ego", interesse próprio. Nós nos sentimos tão mal e com tantos
temores que só conseguimos enxergar a nós mesmos, vigiando-nos com receio, porque,
na verdade, tampouco nos amamos.
O amor é pura gratuidade, e nós impomos condições a nós mesmos. Assim,
como não iremos impor condições aos outros? Esse sentimento que chamamos de amor
acaba sendo transformado em um egoísmo refinado, do qual nos utilizamos para sentir
prazer ou para evitar sensações desagradáveis, como as de culpa ou de medo à rejeição.
Para evitar esse tipo de atitude, acabamos fazendo um verdadeiro comércio com
o que chamamos de "amor". Se somos capazes de perceber isso e chamar as coisas pelos
seus nomes corretos, já estaremos vendo com clareza.

RECONHEÇA OS SEUS PRECONCEITOS

Só se pode encontrar a Deus por meio de um processo de subtração. Sabendo o


que Ele não é, sem lhe dar nomes, conceitos, rótulos, encontraremos a Deus. Deus é, e
por isso é inapreensível, não pode ser enquadrado nem classificado, porque escapa a
toda objetivação. Por isso, o ser humano também é inapreensível, por ser semelhante a
Deus. Quanto mais preconceitos acrescentarmos à pessoa, menos a conheceremos.
Temos de nos livrar de todos os preconceitos. E o mesmo é válido em relação à
realidade. Se estipularmos condições à realidade, se lhe impusermos ideias
preconcebidas, estaremos nos afastando da verdadeira realidade, indo sempre ao
encontro do que é falso.
Os místicos são os que mais confiantemente se abrem para a realidade, sem se
preocupar com o resultado dessa atitude, porque sabem que é apenas na realidade que
habita a verdade.
A única maneira de viver a realidade da vida é lançar- -se à batalha da
existência, mas com o coração em paz. Assim cumprimos a vontade de Deus. O
primeiro passo para isso é reconhecer os preconceitos que carregamos, encarando
nossos bloqueios e obstáculos com toda a sinceridade.
O segundo passo é olhar para suas causas, sabendo que estão fora da realidade,
sem nos culpar nem nos justificar. Não temos culpa pelas programações a que somos
submetidos, e quando nos deixamos levar pelo hábito, não o fazemos de maneira
proposital. Somos vítimas de nossa própria programação. Não temos de nos revoltar
contra nós mesmos, porque isso em nada nos ajudará. E, se sofremos, se temos alguma
aflição, não devemos tomá-la como parte de nós. Temos de nos desidentificar com esse
sofrimento.
Quem é o "eu"? Um corpo? Não, porque as células de meu corpo renovam-se de
modo contínuo. Assim, depois de sete anos, já não existem as células anteriores, embora
eu continue sendo a mesma pessoa. Não sou meu corpo, mas tampouco sou meus
pensamentos, pois eles também mudam continuamente, e eu não. Tampouco são minhas
atitudes, nem a forma como me expresso ou ando. Não é possível que eu me identifique
com o que é mutável, isto é, com as formas do meu "eu", mas que não sou eu.
Eu sou o ser, o que é. O céu é, e não muda, mas as nuvens sim. A única coisa
que podemos mudar é aquilo que não somos, porque, se algo pode ser objetivado, já não
é parte de nós, mas uma forma, uma expressão daquilo que realmente somos. Podemos
procurar o que não somos, e, no processo de separar as formas e os preconceitos que
carregamos, vamos nos libertando de ideias erradas a nosso próprio respeito. Ao deixar
tudo isso para trás, veremos o surgimento de nosso ser.
Portanto, o terceiro passo é não nos identificar com as formas que mudam, nem
nos apegar a elas ou rejeitá-las, tampouco rotulá-las, e menos ainda valorizá-las, dando-
lhes uma importância que de fato não têm. Temos de chamá-las por seu nome real: são
formas, nada mais. Se lutamos contra elas, acabam adquirindo uma importância que, em
si, não têm. Quando as vemos do modo como de fato são, elas perdem sua importância e
voltam ao seu devido lugar. É preciso compreendê-las, entender por que estão ali, para
que deixem de nos incomodar e atrapalhar. Então a importância que lhes damos cairá
por terra, porque elas não são reais, não existem. Vamos descobrir que não passam de
alucinações, de sonho de alguém que dorme. Não devemos nos deixar violentar por
nada, nem para melhorar nem para mudar. Aquilo que é, é, e só é por sua própria causa.
Nada nos pode fazer mal, se estamos acordados.

RESULTADO DE NADA

Para poder entrar de novo no Paraíso, o místico primeiro vomita o fruto da


árvore "do bem e do mal". Não devemos julgar as coisas, mas sim compreender a sua
razão de ser e o seu lugar. A felicidade não é resultado de coisa alguma. Em si mesma
ela é, e a descobriremos quando nos livrarmos de todo julgamento e preconceito.
Quando queremos resolver os nossos problemas, temos o hábito de colocar neles o
nosso "eu" endemoninhado, os nossos desejos. E acabamos piorando tudo. Na verdade,
o que temos de fazer é cair na realidade. Não devemos nos apegar nem mesmo à
libertação, porque ela não é apreensível, não se deixa prender. Assim, estaremos criando
mais correntes, outro tipo de escravidão. Basta procurar ver as coisas como elas de fato
são.
As coisas só se tornam reais quando devem ser, e não adianta tentar apressá-las.
A realidade não é uma coisa que se possa forçar nem comprar. Trata-se de vê-la como
de fato é. O certo é que já estamos nela, sempre estivemos, embora a continuemos
procurando, como o peixe que vai nadando como louco em busca do oceano. Só não
vemos com clareza por causa de nossa programação e de nossas exigências.
Ninguém comete o mal sem algum tipo de justificativa. E é essa justificativa que
engana as pessoas. Do mesmo modo, ninguém se prejudica de maneira consciente, mas
inconscientemente. Aquele que faz o mal é um louco, que não merece castigo, mas a
cura. Não se pode condenar a pessoa que peca, mas ao pecado, que é um erro. As ações
podem ser boas ou más, e o resultado sempre dependerá da maturidade e do bom senso
daquele que as pratique. Não podemos chamar de mau alguém que comete erros,
acreditando que os faz por bem, ou aquele que faz isso de modo compulsivo,
defendendo-se de perigos que só existem na sua imaginação. Este é um louco, ou uma
pessoa adormecida que devemos despertar. Ou então um doente, que deve ser curado.
Ninguém comete atos de maldade de propósito e com a mais completa frieza,
pela simples razão de que o componente substancial de nosso ser é o amor, a bondade, a
felicidade, a beleza, a inteligência como luz da verdade. Se esse componente substancial
estiver sufocado pelos medos, pelo sofrimento, a única solução será remover o que
estiver atrapalhando.
As coisas devem ser descobertas, para que possamos ver a verdade que existe
atrás das formas que as encobrem. Uma pessoa pode ter nas mãos um pedaço de papel
sujo e pensar que é um cheque de grande valor. Se fizermos com que renuncie ao papel
ou o tirarmos dela antes que descubra não ter valor, a pessoa continuará acreditando que
lhe tiraram uma coisa que valia muito, e seu comportamento será o de alguém que foi
roubado, enganado, despojado, com uma reação de autodefesa. Desse modo, jamais
despertará para a realidade. Primeiro é necessário despertá-la para que, por si mesma,
jogue fora o pedaço de papel sujo e sem valor, rindo do engano que cometeu. Daí em
diante, será uma pessoa livre.
Se alguém renuncia voluntariamente a alguma coisa, acreditando que tinha valor
e que fez um sacrifício com a renúncia, sempre se vangloriará do que fez, esperando
pela aprovação e admiração dos outros. Mas, se despertar primeiro e compreender que
nada existe de valor nessa renúncia, agindo apenas para encontrar-se consigo mesmo,
como irá vangloriar-se, tendo renunciado a uma coisa que nada valia? Muito pelo
contrário: a pessoa sentir-se-á bem por ter conseguido libertar-se de alguma coisa que a
impedia de ser autêntica. Além do mais, com muita humildade, terá maior compreensão
por aqueles que ainda se sentem apegados ao objeto de sua renúncia, a partir do
momento em que despertou.

NÃO TENHA MEDO

Como era Jesus, para que todas as pessoas simples se sentissem tão à vontade
perto dele? Jesus não se sentia superior aos outros, porque vivia na realidade. O sinal de
que estamos em contato com a realidade é a simplicidade.
É o medo que nos leva a permanecer mergulhados na programação a que somos
submetidos. O contrário do medo é o amor. Onde existe amor não há espaço para medo.
E quem não tem medo não teme a violência, porque não tem violência em si. Toda
violência vem do medo e gera mais violência.
Aquele que se aborrece tem medo. Fugimos dos aborrecimentos porque eles
provocam os nossos temores e, ao mesmo tempo, nos tornam violentos. Nós nos
assustamos com a agressividade porque ela faz despertar a nossa própria agressividade.
Não nos defendemos por justiça, mas por medo.
O místico é capaz de libertar-se completamente do medo, e por isso não é
violento. O inimigo do amor não é o ódio, mas o medo. O ódio é apenas uma
consequência do medo que, por sua vez, também gera desejos. Assim, os desejos são
outra consequência do medo. Aquele que nada teme está seguro e nada deseja.
Há um desejo comum, que é a realização daquilo que acreditamos que dará a
felicidade ao "eu". Esse desejo é apego, porque a pessoa deposita nele a segurança, a
certeza de sua felicidade. É o medo que nos leva a desejar agarrar a felicidade com as
mãos. Mas ela não se deixa agarrar. Ela é. E só descobrimos isso observando bem
acordados, vendo a maneira como os temores nos conduzem e até que ponto as nossas
motivações são reais. Se nos agarramos aos desejos, é sinal de que em nós existe apego.

O PEIXE TEM SEDE

Há duas maneiras de ver, de observar: uma é intelectual, teórica, sem


aprofundamento; a outra é existencial, com a pessoa olhando a partir de sua própria
vida, do seu ser. São Paulo diz: "Realmente não consigo entender o que faço; pois não
pratico o que quero, mas faço o que detesto". Ao dizer isso, refere-se à maneira
intelectual de ver, que não compromete, porque não é uma visão reveladora. Quando
vemos existencialmente, estamos vendo a partir da liberdade que a verdade nos dá, e
então vemos tudo com clareza. E essa revelação nos faz despertar para a realidade.
"Era uma vez um árabe que viajava de noite, e seus escravos, na hora do
descanso, descobriram que tinham apenas 19 estacas para amarrar seus 20 camelos.
Quando consultaram o amo, este respondeu: 'Fazei de conta que estais cravando uma
estaca, quando chegardes ao vigésimo camelo, porque, como se trata de um animal
estúpido, achará que está amarrado'. Eles obedeceram e, na manhã seguinte, todos os
camelos estavam nos seus lugares, inclusive o vigésimo, que ficara perto do que
pensava ser uma estaca, sem se mover. Quando foram desamarrados para retomar a
marcha, todos obedeceram, menos o vigésimo camelo, que continuou parado no mesmo
lugar. Então, o amo disse: 'Fazei de conta que o estais desamarrando, pois o animal
ainda acha que está preso à estaca'. Fizeram isso e o camelo levantou-se e reiniciou a
marcha, como os demais."
Esta é uma ótima imagem para ilustrar a nossa estupidez, quando estamos
programados, incapazes de enxergar por nós mesmos e tomar nossas próprias decisões,
a não ser de acordo com nossos hábitos, conforme gestos determinados, por costume e
em obediência à programação que nos foi imposta. A história do peixe que tinha medo
de afogar-se serve como definição do homem ante sua realidade. Quando estamos
adormecidos, não temos medo dos sonhos, mas tememos despertar para a realidade,
porque isso supõe uma mudança. Imagino que preferir o sonho em lugar da realidade é
uma atitude imbecil, mas é assim que agimos.
Camus dizia: "Quase morri de rir quando vi que o peixe, dentro d'água, tinha
sede". Assim é nossa própria realidade de adormecidos. Só acordam mesmo aqueles que
desejam acordar. Tentar convencer as pessoas que não compreendem isso é o mesmo
que irritar um porco.

ALÍVIO INSIGNIFICANTE

O sofrimento que sentimos é equivalente à nossa resistência diante da realidade.


Resistir à verdade nos leva a um choque com a realidade, que nos diz estarmos no
caminho errado, que devemos reexaminar nossas prioridades para que se ajustem à
verdade. Compreendendo as coisas dessa maneira, estaremos crescendo. Se não as
compreendermos, empenhando-nos em continuar obcecados e adormecidos, vamos
sofrer irremediavelmente. No momento em que entendermos isso por meio da
observação que nos dá luz para descobrir nossa realidade, ter-se-á acabado o nosso
sofrimento e irritação.
Portanto, é muito importante ver, observar o que nos perturba, para entender o
que há de errado em nós. Quando você descobrir isso, verá como muda a sua escala de
valores. Você encontrará tesouros por toda parte, ao mesmo tempo em. que verá
desmoronar por si só tudo o que não tem valor. As pessoas não sabem bem o que
significa a paz que alcançam quando deixam cair a carga do seu superego, a partir de
uma posição que se esforçavam por manter, e que compreendia tantos esforços e
frustrações: a razão que sempre queriam ter, o esforço em defesa de sua imagem, de seu
nome, de seu "prestígio" e de tudo o que era mantido com a finalidade de impressionar
os outros, para que as valorizassem ou considerassem. Ufa! Para que servia tudo aquilo?
Um alívio insignificante, quando se joga tudo para o ar.
E o mais paradoxal é que alimentamos tal mecanismo porque procuramos nisso
o remédio para nossa insegurança, quando a verdadeira segurança só é alcançada a
partir do momento em que abandonamos tudo. Esse é o prêmio com o qual a realidade
nos surpreende. E o resultado é que temos motivo para estar sempre contentes, pois as
boas experiências são sempre gratificantes, enquanto as más nos proporcionam
crescimento por nos apontar os obstáculos do caminho. Até mesmo as pessoas que nos
viram o rosto são motivo para que mudemos, pois permitem que nos conheçamos
melhor, sem que procuremos mudá-las.
Não existe clarividência maior do que a do amor. Em contrapartida, a emoção do
desejo, que interpretamos como amor, nos torna cegos. Se nos apegarmos a um amigo,
não poderemos vê-lo, porque a emoção nos impedirá disso. A emoção do desejo ou do
apego traz consigo determinadas reações, não ações. Para as ações temos de estar
acordados e com a mente clara.
4

Amar é ouvir todos os instrumentos

Não somos nada daquilo que acreditamos ser: nossas coisas, nosso corpo, nossos
sentimentos... O nosso "eu" é indefinível, porque nada existe que o defina. Quando nos
relacionamos com outra pessoa, com quem estamos nos relacionando? com uma
imagem? Na verdade, quando nos relacionamos, temos noção dos outros como
experiências, lembranças. E com essas noções construímos sua imagem. Assim, não nos
relacionamos com a pessoa, mas com a lembrança que temos dela. Quando abraçamos
um amigo, quem estamos abraçando? Na verdade, abraçamos uma lembrança. É assim
mesmo, e o certo é que, se fixarmos a pessoa à lembrança que temos dela, nós a
estaremos fixando a um preconceito.
E é assim que vivemos, julgando conforme nossos preconceitos.
Consequentemente, se conhecemos uma pessoa só por seus hábitos, quando ela mudar a
mudança só será notada pelos que estão acordados ou pelos que acabaram de conhecê-
la, porque, para nós, continuará presa aos seus hábitos, que representam sua lembrança.
Por isso, como regra geral, ninguém é profeta em sua própria terra nem no seio
de sua própria família. Porque, nesses ambientes, prevalecem os dados anedóticos, as
aparências, e as pessoas apegam-se a essas lembranças em relação a seus vizinhos ou
familiares. Sobre Jesus disseram os seus conterrâneos: "Não é este o carpinteiro, filho
de Maria...?" E Natanael, antes de conhecer a Jesus, disse: "De Nazaré pode sair algo de
bom?"
Levamos nossa existência à base de preconceitos, de lembranças e de lugares-
comuns. É perigoso viver de lembranças, de passado. Só o presente está vivo, e todo o
passado está morto, não tem mais valor. Nem mesmo o futuro existe. Só existe vida no
presente, e viver no presente supõe abandonar as lembranças como algo que já morreu e
viver as pessoas e os acontecimentos como coisa nova, recém-inaugurada, aberta para a
surpresa que cada momento pode revelar. É o agora que importa, porque agora é a vida,
agora tudo é possível, agora é a realidade.
A ideia que as pessoas fazem da eternidade é insensata. Pensam que dura para
sempre porque está fora do tempo. A vida eterna é agora, está aqui, e fomos
confundidos quando nos falaram de um futuro que esperamos, enquanto vamos
perdendo a maravilha da vida que está aqui, neste momento. Perdemos a verdade. O
medo do futuro, ou a esperança no futuro são a mesma coisa, isto é, projeções do
passado. Sem projeção não existe futuro, pois não existe aquilo que não entra na
realidade.
"Conta-se que um indiano, condenado à morte, conseguiu escapar da prisão.
Como era perseguido de perto, subiu a uma árvore que se curvava sobre um precipício.
Seus perseguidores ficaram esperando por ele lá embaixo. O fugitivo não tinha como
escapar. Não demorou mais de um instante para perceber que a árvore em que subira era
uma macieira. Então, foi saboreando as frutas que estavam ao alcance de suas mãos."
Isso é que é saber saborear o presente, sem projetar o passado no futuro. Seria possível
viver sem angústias nem preocupações? Só descobriremos isso quando estivermos
acordados, vivendo no presente.
Quando São João da Cruz fala da purificação da memória, quer dizer purificá-la
de toda emoção, sem prender-se às lembranças nem sofrer de nostalgia, de saudade. Isso
significa libertar-se das emoções do passado, livrar a memória de toda emoção para
receber com limpeza total as coisas novas. A pessoa deve estar disponível para aceitar o
que é novo a cada momento, sempre limpa de lembranças e emoções. Quando nos
encontramos com alguém, temos de deixar para trás todo o passado — tanto as boas
como as más lembranças — para poder perceber o outro com clareza, para nos manter
abertos ao seu presente sem o relacionar com qualquer imagem, a não ser com a
realidade do momento presente.

O SER E A IMAGEM

Se alguém me perguntasse quem sou, eu teria de recorrer a coisas registradas na


memória, para poder responder. Teria de formar uma imagem cheia de rótulos, e na
verdade não sou nada disso. Eu sou. Considero-me um ser imprevisível como a própria
vida, que não cabe em qualquer imagem, porque minhas formas são mutantes e meu
verdadeiro ser é inapreensível, impossível de referir. Quando vivemos adormecidos,
levamos conosco uma imagem própria, um "eu" ideal que nós mesmos fabricamos com
retalhos de lembranças e de outras coisas sonhadas por nosso idealismo. Quando
alguém diz a nosso respeito alguma coisa que não apreciamos, é a imagem que se
ofende, pois ninguém pode ferir aquele que não tem imagem própria. Eu nunca sou a
imagem que tenho de mim mesmo, nem aquela que os outros fazem de mim. Eu sou, e o
ser não cabe em imagem alguma, porque a todas transcende.

O AMOR É

Não se pode desejar uma pessoa, porque, quando temos desejo por alguém,
deixamos de amá-lo como pessoa. Não sou uma coisa nem outra. Não sou desejável
nem indesejável. Sou o que sou, e nada mais. Só chegamos a amar de fato as pessoas
quando não nos importamos com o que elas são ou deixam de ser. O amor é impessoal.
No amor não se pode pôr a personalidade. O amor é, e flui por meio de nós: ninguém o
fabrica, e no amor a pessoa fica de lado. Por isso, o amor nos deixa livres e disponíveis.
O "eu" é um impedimento para amar. Quando escolhemos, ou comparamos, ou pedimos
compensações, é porque precisamos dessa pessoa para nos amar a nós mesmos. Quando
desaparecem as lembranças, os preconceitos e as visões subjetivas, então surge o amor
que flui desde onde ele é.
A personalidade, o "eu", é um impedimento para amar, porque consideramos as
pessoas amadas como propriedade "nossa". Amamos nosso filho, nosso cônjuge, nossa
família, porque os consideramos como algo nosso, distinto de tudo o que está um pouco
mais longe de nós. Assim, estamos transformando as pessoas próximas em objetos,
considerando que devemos amá-las. Mas o amor não impõe deveres nem obrigações ou
compensações, porque o amor é livre e gratuito. "Eu te amo, te quero, preciso de ti, não
posso viver sem ti...": essas palavras significam que a pessoa se agarra à outra porque
esta preenche suas necessidades e satisfaz os seus desejos. Isso é egoísmo. O amor
existe, mesmo que não haja ninguém por perto. Ele é nossa essência e se manifesta em
uma maneira de ser, num estado da alma, e está em consonância com a capacidade de
ver e de existir. Assim, quando conseguimos ver e manifestar livremente a nossa própria
identidade, nada mais podemos ser senão amor.
É assim que Jesus ama. Temos uma ideia completamente errada do que seja o
amor, como se fosse uma coisa mole, doce e que consente. O amor está sempre unido à
verdade e à liberdade, e por isso nunca é fraco. Pode ser brusco, mas também pode ser
suave e mais doce do que qualquer coisa. Jesus sempre foi amor, e em sua vida essa
manifestação algumas vezes foi repentina, até dura, e outras cheia de ternura, doçura e
sensibilidade. O amor sempre tem a resposta correta, jamais está errado.
É por isso que não podemos imitar a Jesus. Como poderíamos imitá-lo? Por
acaso somos Ele? Cada pessoa tem de ser autêntica, tem de ser ela mesma, e Jesus o foi
até o último instante. No dia em que formos tão autênticos quanto Jesus foi, então não
teremos mais de imitá-lo porque a cada instante saberemos o que fazer. No dia em que a
iluminação chegar até nós, seremos amor e viveremos a eternidade a cada momento.

O FOGO É O AMOR

As coisas que a sociedade nos ensinou a acumular nada valem. O que a história
nos legou como honra, pátria, dever etc. nada vale, porque temos de viver livremente o
agora, separado das lembranças que estão mortas; só tem vida o presente e o que nele
vamos descobrindo como realidade. O que chamamos de "eu" não é nós, assim como
não somos nossos parentes, nosso pai, nossa mãe, porque somos filhos da vida. Onde
quer que haja sofrimento existe identificação com o "eu", com uma coisa, e onde existe
conflito manifesta-se uma identificação do "eu" com um problema, com um obstáculo
criado pela mente. Isso é matemático. Da vida nós tomamos o que não é real. Temos
muito medo da verdade e preferimos criar ídolos com a mentira.
"Era uma vez um homem que, na antiguidade, descobriu a arte de fazer fogo.
Cheio de alegria, quis transmitir a nova arte a outras tribos. Foi a um povo do norte, que
passava muito frio, e contou sobre a descoberta. As pessoas aprenderam logo a acender
o fogo e ficaram tão contentes que resolveram agradecer ao mestre. Mas este já tinha
partido, porque era um grande homem que só se preocupava com o bem do próximo.
Ele foi a outra tribo para ensinar a arte de fazer fogo. Mas, nesta sua segunda visita, foi
recebido pelos sacerdotes, que ficaram perplexos diante da nova descoberta. De onde
viria a mágica com a qual aquele homem fazia fogo? Ao ver o sucesso que a nova
técnica fazia entre o povo, os sacerdotes sentiram inveja e assassinaram o mestre. Mas,
para que o povo não lançasse a culpa sobre eles, fizeram uma grande escultura do
descobridor, junto a uma imagem do seu invento, e elevaram a obra a um grande
pedestal, para que toda a tribo o venerasse. E, no seio daquele povo, nunca mais houve
fogo, mas apenas veneração e louvor."
Devemos todos compreender que a verdadeira oração é o fogo, e não a adoração
de uma imagem qualquer. Onde está o fogo? "Eu vim para trazer fogo à terra", disse
Jesus. Existem muitos sacerdotes, mas são poucos os que sabem fazer fogo. O fogo é o
amor. Não podemos ter o amor, mas é o amor que nos tem, que nos muda e nos purifica.
A felicidade e o amor caminham juntos, mas não produzem emoções nem excitação,
porque estas são inimigas da felicidade. Tampouco produzem aborrecimento, porque a
felicidade nunca nos satura quando somos de fato felizes. E não nos satura porque existe
onde não se manifesta o "eu". A felicidade é um estado de contínua consciência. Se
estamos conscientes de uma coisa, podemos sempre controlá-la e vê-la como ela
realmente é. Se não estamos conscientes, essa coisa nos domina.
Só amando é que encontramos a felicidade, e só podemos ser felizes através do
amor. Quem ama de verdade não escolhe a pessoa amada, mas ama por não haver
alternativa: simplesmente porque existe amor para dar.
Se ouvimos um único instrumento na sinfonia do amor, estamos privados da
harmonia do concerto. Amar é ouvir todos os instrumentos.
5

O medo é algo que aprendemos

A felicidade não tem antítese, porque nunca se perde. Pode estar escondida, mas
nunca se vai, porque todos nós somos felicidade. A felicidade é nossa essência, nosso
estado natural, e por isso, quando alguma coisa a ela se sobrepõe escondendo-a,
sofremos por medo de perdê-la. Nós nos sentimos mal porque sentimos falta daquilo
que somos. O que nos faz sofrer é o excessivo apego a coisas que pensamos nos
proporcionar felicidade. Não devemos nos apegar a coisa alguma, nem a pessoa alguma,
nem mesmo a nossa mãe, porque o apego é medo, e o medo é um impedimento para o
amor. Nós mesmos somos os responsáveis por nossos aborrecimentos, porque, embora
outra pessoa possa ter provocado algum conflito em nós, o que de fato nos faz sofrer é o
apego, não o conflito. É medo da imagem que as outras pessoas possam fazer de nós,
medo de perder nosso amor, medo de ter de reconhecer que estamos declarando amor a
uma imagem, e medo que a imagem que nós mesmos fazemos a nosso respeito, aquela
que sonhamos ter, acabe sendo destruída. Todo medo impede o surgimento do amor. E
o medo não é uma sensação inata, mas aprendida.
O medo é provocado por coisas que não existem. Temos medo porque nos
sentimos ameaçados por algo registrado em nossa memória. Todo fato que tenhamos
vivido com angústia, por causa de ideias que nos são impostas, fica registrado em nossa
mente, e surge como alarme em cada situação que lembre esse fato. Não é a nova
situação que nos enche de insegurança, mas a lembrança de outras situações que nos
foram narradas ou que vivemos antes com uma angústia que não soubemos resolver. Se
despertarmos e pudermos observar esse fenômeno com clareza, recordando suas
origens, o medo não se voltará a produzir, porque teremos eliminado a lembrança.
"NÃO TENHAIS MEDO"

Através da religião nos foram incutidos diversos medos que estão em nós e que
precisam ser eliminados. "Não tenhais medo", diz Jesus no Evangelho. Aliás, todo o
Evangelho está cheio dessas advertências: "Não temais...", "não vos preocupeis...", "não
vos aflijais..." Mas nós fabricamos uma religião cheia de tabus e de temores, repleta de
falsas ideias e de falsos ídolos.
"Era uma vez uma mãe que não conseguia fazer seu filho pequeno parar de
brincar e voltar para casa antes de anoitecer. Para assustar o menino, disse-lhe que
certos espíritos costumavam sair pelos caminhos logo que o sol se punha. A partir de
então, o garotinho passou a voltar cedo para casa. Mas, quando cresceu, ainda tinha
tanto medo da escuridão e dos espíritos que não havia maneira de fazê-lo sair à noite.
Então, a mãe lhe deu uma medalha e o convenceu de que, enquanto levasse a medalha
consigo, os espíritos não se atreveriam a atacá-lo. O rapaz então passou a sair no escuro,
sempre apegado à sua medalha. Sua mãe tinha conseguido que, além de temer os
espíritos, o rapaz tivesse medo de perder a medalha." A boa religião nos ensina a nos
libertar dos fantasmas, enquanto a má nos faz confiar nas medalhas. Não devemos pôr
Deus entre os fantasmas.

ESTAMOS PROGRAMADOS

Para mim, muitas vezes é difícil conciliar as atividades de guia espiritual com as
de psicólogo. As pessoas nos procuram para lhes darmos um conceito moral que as
tranquilize. E, se elas precisam de terapia e lhes é dada, mostram-se escandalizadas,
acreditando que foram prejudicadas nos seus sentimentos ou suas crenças. Não fazemos
mal a ninguém, apenas nos limitamos a chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes.
Na verdade, é a programação a que estão sujeitas que fazem as pessoas sofrer.
Um dia veio a mim um senhor desesperado, porque um homem havia tocado as
partes genitais de suas duas filhas pequenas, e ele, que o surpreendera, queria matar o
outro. E as duas meninas estavam morrendo de medo, não necessariamente pelo que
lhes havia acontecido, mas por causa da reação do pai diante do fato. O pai não
conseguia compreender isso e olhava para mim como se eu estivesse louco. A
programação social a que ele fora submetido não lhe permitia ver que, se tivesse reagido
como se nada tivesse acontecido perante as duas filhinhas, estas teriam encarado tudo
como uma brincadeira, e nada de mais alarmante teria ficado registrado nas suas
mentes.
Além do mais, o homem poderia pedir explicações, arrebentar o nariz do outro
ou fazer até coisa pior por ele haver abusado das meninas. Mas, estando programado
para reagir diante de uma atitude que considera pecaminosa, ou porque as filhas foram
alvo de abuso, enfim, num tipo de conduta comum na nossa cultura, ele estará de certo
modo transferindo para elas a sua revolta e seus medos. Será pior para as filhas do que
para o pai, porque elas ainda não estão programadas pela sociedade e, assim, registrarão
na sua mente um alarme associado ao fato em si, sem qualquer explicação, e para
sempre terão medo de tudo que tenha alguma relação com o episódio. Será um medo
inconsciente, irracional, e, portanto muito mais perigoso. Quanto ao homem que tentou
abusar das meninas, na pior das hipóteses deve ter sido uma pessoa doente, cuja
sexualidade não se desenvolveu, e não alguém cheio de sadismo e perversidade, como
se costuma rotular. E preciso que os outros se defendam dele? Sim, mas se estamos
acordados chamaremos as coisas pelos seus nomes verdadeiros e perceberemos que o
medo que projetamos sobre ele são os mesmos que alguém já projetou sobre nós, diante
de atos semelhantes. Se pensarmos de maneira realista, veremos que o próximo —
assim como nós mesmos — é medroso, infantil, egoísta e estúpido. E não que o seja de
fato, mas é sua programação que o faz reagir assim; ninguém nos pode enganar na
realidade. É o julgamento que fazemos das outras pessoas (de como elas "deveriam"
ser) que nos engana. Assim, quando nos apaixonamos por uma pessoa e fazemos dela
certa imagem (a imagem dos nossos sonhos), o mundo da realidade que vivemos (ou
seja, daquilo que acreditamos ser a realidade) é falso, porque depende de determinados
conceitos. E os conceitos nada mais são do que julgamentos inventados por nossa
cultura.
O ARREPENDIMENTO NÃO É UMA ARMADILHA

Na cadeia de verdade, quem tem as chaves é o carcereiro. Mas, na cadeia


psicológica (o cárcere em que somos trancafiados pela programação social a que nos
submetem), as chaves estão nas mãos do próprio prisioneiro. O problema é que ele não
sabe. Ai de quem vê isso com clareza, porque vai irremediavelmente sair de sua prisão
psicológica e mudar, passando a dar nomes corretos a todas as coisas, pessoas e
situações. E não haverá meio de voltar atrás. Vai ser uma experiência difícil, embora
seja muito, mas difícil viver às cegas, dormindo.
Jesus insiste na Metanóia, isto é, na necessidade de vivermos bem acordados,
sem perdermos nada do que acontece. O arrependimento é o mesmo que morrer de
verdade para o passado, instalando-se no presente, que deve ser visto com novos olhos.
O conceito de arrependimento, como nos é explicado por nossa cultura, é uma espécie
de armadilha. Se não houvesse esse "arrependimento", talvez tampouco houvesse o
pecado, porque muita gente peca para poder arrepender-se. É um jogo psicológico que
disputamos com nossa própria mente, e cuja meta é acabar no arrependimento. É uma
maneira de nos desafogar emocionalmente, recebendo aceitação e aprovação por meio
do perdão. Por isso, Metanóia não significa que devemos nos arrepender uma vez
depois de outra, mas despertar para a verdade.

DEVEMOS MODIFICAR NOSSA PROGRAMAÇÃO

Os homens vivem procurando e fugindo de tantas coisas, e não conseguem


entender que tanto o que procuram fora, como aquilo de que fogem está dentro de si
mesmos. Vivem tentando fugir de algo que está no seu interior: no inconsciente, onde
estão gravadas todas as suas programações. E aquilo que procuram — o amor, a
felicidade — também está dentro deles, é a própria pessoa. É despertando para nossa
suficiência que nós nos libertamos. A resolução de todos os nossos problemas está
dentro de nós, e, se conseguirmos esse tipo de autossuficiência, seremos completamente
autênticos. No entanto, enquanto não nos livramos de nossas neuroses de pessoas
adormecidas, não devemos tentar mudar o mundo. Antes, temos de acordar.
Enquanto estamos adormecidos e vivemos num mundo de sonhos, vemos as
pessoas e o próprio mundo do mesmo modo como vemos a nós mesmos. No dia em que
mudarmos, veremos que mudarão também todas as pessoas que estão ao nosso redor,
bem como o momento presente. Então estaremos vivendo num mundo de amor. Aquele
que ama acaba sempre vivendo em um mundo de amor, porque os outros não têm outro
remédio a não ser reagir conforme o impacto que lhes causamos.
Agora, procure pensar um instante nas pessoas com quem você trabalha e
convive, e nos problemas que tem com elas. Sabe qual é a solução? Vou indicar um
remédio mágico, que nunca falha: procure renunciar às suas exigências. O mais
importante de todos os requisitos para viver o presente, tanto consigo mesmo como com
os outros, é renunciar às exigências.
As exigências são a fonte de todos os problemas de relacionamento e
convivência. Temos o costume de exigir que as outras pessoas não sejam egoístas, nem
pretensiosas, e nos convencemos de que o fazemos por seu "bem". Mas, se o fazemos
por seu bem, por que a atitude dos outros nos incomoda? Não estaríamos projetando
sobre elas as coisas que não permitimos a nós mesmos? Não nos enganemos. Temos de
dar às coisas o seu verdadeiro nome. Deixando de exigir de nós mesmos, logo
deixaremos de exigir dos outros. Saindo dessa programação que nos mantém presos à
árvore do "bem e do mal", começaremos logo a aceitar a realidade, sem preconceitos
nem críticas.
Quando nos aborrecemos porque nossos amigos são exigentes, é porque também
o somos. Quando nos incomodamos porque eles não reagem, devemos abandonar as
nossas exigências e não pedir aquilo que não estão dispostos a fazer nesse momento.
Procuremos compreendê-los e não julgá-los, e esperar que eles saibam por si mesmos
como sair de sua passividade. Isso pode ajudá-los, enquanto a nossa exigência não.
Não nos compete apressar os resultados, porque não estamos aqui para mudar o
mundo, mas para amá-lo e compreendê-lo. Por acaso o leitor ainda não percebeu que,
quando procura alcançar determinado resultado, lutando por ele, acaba procurando por
si mesmo? No fundo, o que pretende é ter razão e mostrar isso. Está se esquecendo de
que, para cada pessoa, a vida tem reservado um ritmo e uma ocasião. Procure olhar para
as pessoas como elas são, respeitá-las, aceitá-las e tratar de compreendê-las, dando-lhes
a reação que corresponde a você mesmo: a do amor e compreensão.
EXERCÍCIO DE FANTASIA (para refletir)

Procure pensar em uma pessoa conhecida e lembrar-se de todas as vezes que


você exigiu dela um determinado comportamento. Peça-lhe perdão por ter tentado
mudá-la. Fale com toda a sinceridade, sem medo algum. Diga-lhe algo assim: "Você faz
sua própria vida. Não vou me aborrecer porque você age de modo diferente do que eu
faria. Entendo que é uma pessoa livre para fazê-lo. Mas isso não quer dizer que eu não
vá me proteger das consequências dos seus atos. Eu me protegerei quando achar
necessário, mas não vou tentar proteger você de si mesmo".
Uma pessoa livre é aquela que consegue dizer sim ou não com a mesma
simplicidade, em qualquer circunstância. Se algumas vezes você diz sim para não
desiludir os outros, não está demonstrando amor, mas covardia. Um grande exercício
para o amor é saber dizer não.
Quando alguém pede alguma coisa com insistência, como se sua vida
dependesse disso, e você nada vê de positivo em atender, deve ser capaz de dizer
claramente, e com toda a energia necessária, que não tem o costume de dar presentes ou
fazer concessões às pessoas quando não dispõe dos meios nem dos motivos
psicológicos para isso. Caso contrário, você vai ficar ressentido por causa da imposição
da outra pessoa, e ela vai ser vítima do ressentimento que provocou em você. Além
disso, você estará retardando o crescimento dela e prejudicando sua autonomia como
pessoa.
Estar disponível e aberto para o próximo não é isso. De fato, uma atitude assim
demonstra o medo que temos de prejudicar nossa imagem e covardia perante a verdade,
porque muitas vezes é difícil dizer a verdade. Não queremos dar o remédio, mas
desejamos que a pessoa se cure, ao passo que, por outro lado, não suportamos o seu
comportamento. Covarde, egoísta, hipócrita! O que há de bom em sua atitude? Se você
estivesse completamente livre do sentimento de culpa, teria apenas dito não. É egoísmo
exigir que a outra pessoa faça o que nós queremos. Amor é deixar que cada um faça o
que quiser. No amor não podemos admitir exigências nem chantagem.
Acabam de me perguntar quando vou falar de Deus. Mas eu creio que, nestes
dias, a única coisa que tenho feito é falar de Deus. Só podemos conhecer a Deus pela
vida, que é sua manifestação. Ele está na verdade, e aqui trata-se de despertar para a
verdade.
"Era uma vez um árabe que foi visitar um grande mestre, e lhe disse: 'É tão
grande a confiança que tenho em Alá que, ao vir aqui, nem ao menos amarrei o meu
camelo'. E o grande mestre respondeu: 'Vai amarrar o camelo, idiota, porque Deus não
se ocupa das coisas que você pode fazer!'".
Deus é Pai, mas um bom pai, que ama em liberdade, quer e permite que seus
filhos cresçam em força, sabedoria e amor. O filho que se apega demais aos pais acaba
psicologicamente doente, por culpa dos próprios pais.
As crianças são incapazes de amar, mas precisam ser amadas. Toda criança é um
ser que nasce repleto de espontaneidade, livre para pesquisar e aprender, desenvolvendo
sua experiência com os cinco sentidos e a atenção em alerta para assimilar a vida. Se os
pais condicionam o amor que o filho necessita à obediência a determinadas regras, ele
perderá sua liberdade. Então, por medo de perder o amor dos pais, sua aceitação e seus
carinhos, entregar-se-á ao apego. A criança tem medo da angústia que nela produz a
rejeição dos pais, e só por isso se submeterá.
Isso é o que se chama de chantagem afetiva, e a criança pagará muito caro por
ela durante toda a vida. Crescerá acreditando que o amor e o carinho têm de ser
comprados, e entregar-se-á à dependência e ao apego, que confundirá com o amor. Sua
mente estará programada.
As pessoas programadas passam a vida inteira procurando fazer as coisas de
uma maneira "melhor". Vivem ansiosas pela vitória, por novas conquistas, por bons
resultados, e nunca se dão por satisfeitas. Por isso sofrem tanto quando não alcançam as
metas que suas exigências lhes impõem. São indivíduos que não vivem nem desfrutam
da realidade.
Essas pessoas estendem suas exigências aos outros e por isso não têm
capacidade para o amor. Procuram pela felicidade onde ela não está.
Só em plena liberdade é possível amar. Quando amamos a vida, ou seja, a
realidade, com todas as nossas forças, amamos as pessoas com muito maior liberdade.
Se desfrutamos da beleza e do perfume de mil flores, não nos apegamos a qualquer
delas, mas, se nos agarramos a uma única, desfrutaremos de nenhuma. A causa de nossa
felicidade não está nos amigos, mas brota quando estamos ao lado deles. Antes eu
acreditava ouvir a sinfonia apenas quando estava perto dos amigos, mas agora vejo que
a felicidade não é causal.
Se não lhe impomos barreiras, a felicidade é sempre evidente. Os maiores
obstáculos para a felicidade podem estar nos desejos. O que importa não é você nem eu,
mas o nosso relacionamento, livre das exigências do amor. Faça você o que fizer, eu não
tenho medo de que me ofenda, nem de ofender você. Não tenho vontade alguma de
impressionar os outros. Prefiro ser simplesmente o que sou, com tudo o que tenho, e
quero ser aceito assim.
É nesse tipo de relação que o casamento faz maior sentido, e não nas promessas
e nos contratos. Já que uma pessoa não precisa da outra para ser feliz, não a prende, nem
se deixa prender. O cônjuge é o instrumento predileto, mas nenhum dos dois precisa
deixar de ouvir os outros instrumentos. O amor é uma espécie de sensibilidade que nos
permite ouvir todos os instrumentos, precisamente porque alguém terá tornado mais
profunda essa sensibilidade. E a harmonia é alcançada quando os dois juntos estão
disponíveis e predispostos para ouvir todas as melodias.

EXERCÍCIO

Procure pensar em algum momento de sua vida em que você se sentiu rejeitado,
abandonado ou humilhado. Vamos ver se você consegue entender a situação de maneira
realista, observando-a com sinceridade, em profundidade, para descobrir que, se não
tivesse se sentido ofendido, tampouco experimentaria as sensações de rejeição ou de
humilhação. Talvez você ache que houve de fato rejeição e desaprovação, mas o que
tem a ver a atitude da outra pessoa com o seu ser?
Você é o que é, independentemente do que digam ou pensem os outros. As
atitudes, os pensamentos e os sentimentos mudam, e você continua sendo a mesma
pessoa. Do mesmo modo mudam os pensamentos, as atitudes e os sentimentos das
outras pessoas, ao passo que elas continuam sendo o que são.
Então, o que é que ofende você: as pessoas ou os seus atos? As atitudes dos
outros não nos podem ofender, porque são coisas mutáveis, que não existem. O
julgamento que as pessoas fazem de nós nos fala muito mais claramente das atitudes,
pensamentos e sentimentos delas, do que de nós mesmos. Não faz sentido que nos
ofendamos. Caso contrário, procure lembrar-se do que aconteceu com Buda, quando foi
insultado uma vez e não se abalou: respondeu que aquilo não podia afetá-lo. Em seguida
perguntou: se alguém lhe trouxesse um presente e ele não aceitasse, de quem seria o
presente? Da pessoa que o tivesse trazido, certo? "Portanto, se você não quer se abalar,
não aceite o insulto nem o presente."
O que é o aborrecimento? Significa que não nos conformamos com as
exigências feitas por nossa programação. Que não apreciamos a maneira como os outros
agem. Mas não existe lógica nisso. Ainda que tenhamos a melhor das intenções, não
podemos fazer com que os outros funcionem conforme a nossa vontade. Na verdade,
analisando claramente a situação, veremos que, quando uma pessoa se comporta mal,
sobe a pressão da outra. Entender isso com clareza, sem preconceitos, já é uma
libertação.
Na violência do místico nada entra de pessoal. No místico não existe violência
que venha do medo, nem do desprezo, nem de qualquer tipo de exigência. Ele pode vir a
entrar em choque com outra pessoa para defender-se do mal causado por ela, mas o fará
sem emoções, embora esteja repleto de amor.
Costumamos reagir diante das imagens que os outros refletem. Vemos nas outras
pessoas aquilo que desejamos ver (nós as idealizamos), ou projetamos nelas os nossos
medos (nós as rejeitamos), e assim impedimos a nós mesmos de conhecer os outros na
sua realidade.
O que é o pecado? Quanto maior for o nosso livre arbítrio, menor será a
possibilidade de pecarmos. De fato, o pecado é uma doença peculiar à escravidão; a
pessoa peca quando está escravizada pela Lei. Mas, se tiver consciência de que Cristo a
libertou, estará livre. E a liberdade de que Jesus Cristo fala é a de estarmos acordados.
Antes de querer mudar os outros, nós é que devemos mudar. Temos de limpar a
janela para enxergar melhor. E concentrar nossas atenções nas causas negativas que nos
levam ao sofrimento, e nunca naqueles que nos ofendem.
A causa está na programação. E a programação nos foi imposta desde a infância.
Não temos culpa disso, como tampouco têm culpa as outras pessoas.
Chegando a esse estágio, verá que tudo o que acontece é bom para você. É como
o agricultor que tem poços de água na sua propriedade e que está sossegado porque já
não depende da chuva. Você passará a ver tudo com olhos tranquilos. Se uma pessoa
não sabe a origem de sua doença, não terá como curá-la, mas limitar-se-á a reprimi-la,
sofrendo sempre por causa dela. Se você sabe a origem dos seus males, já tem a cura
nas mãos.
Toda mudança efetiva é realizada sem esforço algum. A pessoa humana é dotada
de fabulosas energias, reservadas para os momentos em que se fizerem necessárias. O
mais importante então é descobrir o que está acontecendo conosco e ao nosso redor,
para saber qual o nosso problema e suas causas. Em outras palavras, importante é estar
acordado.
Não vamos mudar por causa de nossa ida à igreja, nem pelas novenas que
fazemos aos santos. Na verdade, nós é que temos de mudar. Ninguém serve a Deus
quando bate no peito e diz "Senhor! Senhor!", mas sim quando faz a vontade do Pai. E a
vontade do Pai é que sejamos fiéis à verdade, porque só a verdade nos libertará.
É mister despertar. O medo só pode ser eliminado quando procuramos sua
origem. Aquele que se comporta bem à base do medo é um indivíduo domesticado, mas
a origem dos seus problemas não terá mudado em nada. Ele está dormindo.
6

O tesouro está dentro de você mesmo

Ninguém sabe quem é Deus, e Santo Tomás de Aquino diz: "Como é impossível
saber a natureza de Deus, é impossível falar de Deus". Não é possível compreender a
Deus, porque Ele escapa de todo raciocínio. As pessoas me perguntam se o que eu
explico é a Teologia da Libertação, e eu respondo que explico a libertação de toda
teologia. Estou de acordo com a libertação, mas não com a palavra "teologia", para falar
de libertação. Para nos libertar, precisamos reconhecer nossa programação e as falsas
premissas em que se apoiam as nossas atitudes.
Nós nos aborrecemos. Mas, por que nos aborrecemos? Porque somos exigentes.
Você, leitor, é capaz de abandonar as exigências? Procure entender isto: o conflito tem
origem na insatisfação e na intolerância que trazemos conosco. Se não nos aceitamos,
como poderemos tolerar as outras pessoas? Vamos estar sempre exigindo cada vez mais
de nós mesmos e dos outros, e permaneceremos insatisfeitos. Se não mudarmos, ai de
nós e de todos os que estão à nossa volta, porque nos transformaremos em fariseus
intolerantes! O segredo da libertação só chegará a nós quando nos cansarmos de sofrer.
Precisamos encontrar o "tesouro escondido" que está dentro de nós.
É impossível escravizar o homem sábio. A verdadeira liberdade está acima das
leis, das raças, de políticas, de fronteiras e de idiomas. Recordemos as palavras de um
sábio grego, quando estava para ser vendido como escravo: "Aqui está um mestre.
Haverá algum escravo que me queira comprar?"
Gandhi dizia que a liberdade da pátria não tinha para ele a menor importância,
mas exigia a liberdade do homem. Ele tinha uma visão extremamente clara das
prioridades: em primeiro lugar Deus e a descoberta do tesouro que está dentro de todo
homem. O grande mártir indiano dizia: "Estou certo de que a finalidade da vida é a
visão de Deus; e hei de consegui-la, ainda que tenha de sacrificar tudo: a família, a
pátria e até a vida".
Desperdiçamos a vida com bobagens que nada significam. E a vida é o mais
precioso dom que se possa desejar. De que nos adianta tentar impressionar os outros,
acumular riquezas, conquistar honrarias ou prestígio? Mas volto a dizer que é necessário
que cada pessoa entenda isso por si mesma, para poder despertar. Temos de questionar
tudo. E que todos tenham cuidado para não aceitar o que digo sem realizar uma análise
cuidadosa, a partir de si mesmo, para que não se deixem enganar. Ninguém tem de
engolir coisa alguma — correndo o risco de receber outra programação, por cima
daquela que já tem — sem questionar e analisar muito bem o que lhe oferecem. É a isso
que chamamos de abertura. É preciso ser receptivo sem ser crédulo.

A CRIANÇA FELIZ

A pessoa que está no Reino de Deus é aquela que se converteu em uma criança,
mas que está acordada, sem que a possam manipular.
Ao nascer, toda criança tem Deus dentro de si, mas os esforços que
desenvolvemos para mudá-la transformam esse Deus em um demônio. Quando vemos
uma criança, estamos olhando para o egoísmo na sua forma mais pura. Ela só é capaz de
pensar em si mesma, mas é natural que seja assim. O egoísmo da criança é uma coisa
divina, pois ela precisa de toda energia, concentrada dentro de si. Nós tentamos mudar
essa maneira de ser e acabamos estragando os planos de Deus nesse ser. Prejudicamos
sua espontaneidade ao introduzirmos nela os medos. E o medo faz a criança mentir para
não perder a aprovação dos pais.
Devemos deixar que as crianças conservem todo o seu egoísmo. Elas só pensam
em dar prazer a si mesmas, mas vão descobrindo aos poucos que existe um ambiente
exterior e, com ele, descobrem também o prazer refinado de estender o prazer aos
outros. Sua criatividade faz com que elas destruam tudo por curiosidade. Gostam de
movimento e de barulho. O conflito acaba entrando nelas por não haver coincidência
entre aquilo de que elas gostam e o que agrada aos pais.
Toda criança deveria crescer descobrindo cada coisa por si mesma, aos poucos e
no momento oportuno. Ela deve primeiro fartar-se de chocolate, antes de pensar em
oferecê-lo a alguém. Se insistirmos em que deve dividir o chocolate com o irmãozinho,
acabará odiando o irmãozinho. Na verdade, aquilo que chamamos de caridade e
altruísmo, em todos os níveis, nada mais é do que egoísmo refinado.
Sentimos prazer dando alegria aos outros, porque cada pessoa vive procurando
encontrar-se a si mesma. Todos nós somos assim. Damos os nomes mais liberais às
coisas, embora elas tenham explicação e razão de ser. Temos de aprender a encarar a
verdade, dar o nome verdadeiro a cada coisa, para não nos enganar. Cada pessoa vai
procurando encontrar a si mesma, porque, quando nós nos encontramos, já não podemos
nos projetar nos outros.

VILOLÊNCIA CULTURAL

Ficamos aborrecidos com as lembranças, quando elas estão contaminadas por


emoções, porque, se nos esquecêssemos do que passou, com suas respectivas emoções,
tudo nos pareceria sempre novo. Na verdade, o que acontece é que costumamos
petrificar as emoções na memória. Na realidade as coisas estão em contínua mudança, e,
se pudéssemos ver isso, estaríamos sendo sempre surpreendidos por sua novidade.
Se fizéssemos favores ao próximo sem prestar atenção, não ficaríamos
esperando por um agradecimento. Mas nós ajudamos os outros de um modo bastante
intencional, e depois nos iludimos dizendo a nós mesmos que agimos por altruísmo. Se
temos boa vontade ao fazer o bem e se somos felizes ao fazê-lo, por que esperar por um
agradecimento ou retribuição?
Por acaso existe amor desinteressado? Na verdade, é apenas a ele que podemos
chamar de amor. Ninguém quer ser objeto de um amor sacrificado. Cada um de nós
gosta que os outros desfrutem do amor que nos dedicam e também que se sintam felizes
ao nos fazer um favor. Então, por que esperamos por uma compensação quando somos
nós que amamos ou que fazemos o bem? Não basta a alegria de poder amar e de
partilhar com os outros tudo o que temos?
A gratidão é como um gancho. Nossa cultura a transformou em uma
"obrigação", e a sociedade de consumo montou um enorme negócio com isso. Dizemos
"muito obrigado" ao recebermos um favor, numa definição exata do que chegou a ser o
agradecimento. A cultura contamina tudo o que toca, porque é um elemento
manipulador.
A criança é a maior vítima da violência cultural. De fato, a cultura diz
claramente que "temos de reformar as crianças", pressupondo que toda criança é má,
que ela deve ser "preparada para a vida" (que vida?), domesticada para receber a
programação de leis e regras de comportamento. Acontece que toda criança nasce com
sua capacidade desperta, pronta para agarrar-se à vida, pois a vida é precisamente o
único mestre que não se engana e pode educá-la em total liberdade.
Na índia há meninos de seis anos de idade que já ganham o sustento para si
mesmos e para toda a família, e foi a vida e a necessidade que os ensinou.
As crianças têm falta de liberdade. "Mais vale um varredor feliz do que um juiz
ou um grande político infeliz." Embora tenham toda a boa vontade do mundo, as
pessoas religiosas são as mais opressoras. Aquilo que costumam chamar de "respeito" é
uma forma respeitável do medo. É preciso que saibamos dar às crianças de seis anos de
idade o mesmo respeito devido ao presidente da República. A função exercida por cada
um deles não tem importância alguma. Todos nós somos necessários. O valor a ser
procurado é o da felicidade, é que cada um encontre seu lugar na vida.

ODIAR A SI MESMO

"No coração de cada jovem existe um trono que foi usurpado. Quando o trono
for restituído, o jovem estará curado." É preciso aprender só porque se deseja aprender
e, para isso, é necessário respeitar e salvaguardar as demandas inatas de curiosidade da
criança. Essas demandas vêm de dentro. A criança aprecia o ensinamento, e o que
rejeita é o método e a manipulação.
Ensinamos as crianças desde pequenas a odiar seu corpo. Fazemos com que se
envergonhem de determinadas partes do corpo. E é nossa cultura que nos faz agir assim.
Entre os indígenas não existe qualquer problema de estupro nem de infidelidade, porque
não há trauma de fundo sexual.
"Se não houvesse leis, não existiria o pecado." A lei só serve para as pessoas
programadas, não para as livres. Não se pode começar a vida com o autodesprezo. As
crianças vão passando de uma experiência para outra, quando se cansam da anterior. Se
as fazemos parar em uma certa experiência, nós a fazemos acreditar que é algo ruim.
Não apenas criamos um mistério e interrompemos uma evolução natural, mas enfiamos
na cabeça da criança o medo de alguma coisa que ela desconhece, porque não existe
para ela uma razão convincente para que não continue. Se lhe dizemos que está fazendo
alguma coisa "ruim", estamos introduzindo a lei na sua mente e expulsando-a do
paraíso.
Se eu conseguir fazer com que uma pessoa odeie a si mesma, será mais fácil
para que eu a domine e controle, e é precisamente isso que faz a nossa "educação". A
sociedade nos ensina a estar sempre insatisfeitos, para que nos possa dominar e
controlar. A sociedade beneficiou-se com isso, mas pagou um preço muito alto: a
guerra. Nunca .poderemos amar os outros se odiamos a nós mesmos. Amar significa
não praticar a violência e respeitar a liberdade. O amor é: a pessoa que ama está ao lado
da outra, e não contra ela.
As crianças crescem com a sensação de que os pais estão contra elas. Se não
agimos com violência contra a criança, ela tampouco terá vontade de ser violenta com
os outros.
A primeira coisa que se faz para mudar uma criança reprimida é destruir sua
consciência, a lei que lhe impuseram. A consciência "do bem e do mal" é o contrário da
conscientização. Consciência ou conscientização é a sensibilização, ou seja, a
sensibilidade que não precisa da consciência. Se estamos conscientes, estamos
acordados e somos sensíveis a tudo.

O AMOR NÃO CASTIGA

Castigar ou não castigar? O amor jamais impõe castigos. "Respeito" nada mais é
do que medo. Por outro lado, castigo é apenas uma forma de vingança. O ato de
reflexão (que pode ser inclusive violento) não é castigo, mas um ato de amor, porque
tem em si a cura como propósito.
O castigo como vingança é uma atitude de ódio, que gera mais ódio. Quando a
criança não respeita a nossa liberdade ou a de outras pessoas, podemos dar-lhe uma
palmada no momento do desrespeito, para que sua mente faça uma associação da
palmada com o motivo do castigo. Não existe problema nisso, porque a criança
aprenderá e compreenderá, sem que esse tipo de castigo deixe marcas na sua mente. O
ato terá começado e terminado com um resultado lógico, como ocorre na própria vida.
Causamos grandes problemas à criança quando lhe passamos um sermão que ela
não entende, mas percebe o nosso desgosto e nossa rejeição, que compreende bastante
bem, e começa a sentir-se culpada por algo que é a moral, o "dever" e as "normas" que
ela não entende, mas que tem de cumprir para que nós nos mostremos satisfeitos com
ela. Se a criança perceber em nós o ressentimento da vingança, estaremos ajudando-a a
transformar-se numa pessoa violenta, vingativa e ressentida. Não tenha dúvida disso.
Qualquer pessoa que sobe numa árvore, cai e se machuca, aprende a agir com
mais cuidado da segunda vez, sem qualquer sensação de culpa. Assim, quando recebe
uma palmada, a criança associa esse castigo ao que tiver acabado de fazer, sem que
entre em jogo a moral ou a culpa, e sim a realidade. Mas o adulto deve dar a palmada
sem demonstrar ódio, para que não fique gravado na mente da criança qualquer sinal de
recriminação nem de acusação, numa demonstração de amor. Isso não quer dizer que
não possamos consolá-la se ela chorar, como faria se ela caísse de uma árvore. É essa
atitude que faz a diferença.
Se queremos mudar a nós mesmos, temos de procurar fazê-lo com base na
compreensão, na intuição, com consciência e tolerância, sem violência. E todos nós
precisamos agir do mesmo jeito. Todo tipo de repressão tem um único motivo: a
insatisfação que sentimos em relação ao nosso próprio "eu", a nossa intolerância. Quem
não é livre não pode dar liberdade. E quem não ama a si mesmo não pode dar amor. É
impossível fingir amor, porque a boca pode dizer uma coisa, mas nossa voz, nossa
atitude e todo o nosso corpo estarão dizendo outra. Haverá tamanha contradição que
todo o ambiente acabará contaminado. É preferível deixar que os outros vejam a nossa
verdade, mostrando-lhes, com toda a simplicidade, o estado em que nos encontramos e
nossa capacidade real nesse momento.
Quando alguém faz o bem com todo o seu coração, como uma expressão natural
do seu ser, não tem consciência disso. Se estamos conscientes de uma atitude assim e
nos orgulhamos dela, é porque estamos sendo dominados pelo "eu" que tudo complica,
e por isso pensamos ser mais importantes do que os outros. Pior ainda é a hipocrisia dos
pais e dos mestres que se mostram como modelos de um comportamento que não sabem
seguir, dando lugar ao desapontamento e à desconfiança das crianças, quando o seu
ídolo desmorona. Essa desilusão das crianças acabará dando lugar ao ódio.

O AMOR NÃO É UMA DROGA

O amor é a única necessidade do ser humano. Amar e ser é o mesmo. A


sexualidade não é amor. O amor diz: "Não sou eu que amo, mas é o amor que está aqui,
é minha essência, e nada mais posso fazer se não amar". Uma atitude assim surge
livremente quando estamos despertos e nos livramos de todos os nossos preconceitos.
Quando entendemos que nós somos felicidade, não precisamos fazer mais nada.
Apenas deixar cair as ilusões. Os desejos crescem porque criamos em nós mesmos a
ilusão (porque assim nos ensinaram e lemos em muita literatura barata) de que temos de
conseguir a felicidade procurando por ela fora. E isso nos leva a nos agarrar às pessoas
que acreditamos produzir felicidade, com medo de perdê-las. Mas, como as coisas não
são assim, nós nos deixamos dominar pela infelicidade, desilusão e pela angústia
quando essas pessoas falham, ou quando acreditamos que falharam.
A aprovação, o sucesso, o elogio, a valorização representam as drogas com as
quais a sociedade nos viciou. Basta não obter isso para enfrentarmos um sofrimento
terrível. É importante nos livrar de sensações assim, despertando para ver que tudo não
passa de ilusão. A única solução é deixar a droga, embora tenhamos de enfrentar os
sintomas da abstinência. Como viver sem algo que era tão especial para nós? Como
existir sem o aplauso e a aceitação? Trata-se de um processo de subtração, de
desprendimento em relação a essas mentiras. Escapar disso é como fugir das garras da
sociedade.
A pessoa chega a um estado de grave incapacidade de amar, porque é impossível
que veja os outros como de fato são. Para voltar a amar, terá de aprender a ver as
pessoas e as coisas ao natural, sem disfarces. Começando por si mesma. Para amar os
outros é preciso abandonar a necessidade que sentimos em relação a essas pessoas e a
sua aprovação. Basta aceitar a nós mesmos.
Temos de ver claramente a verdade, sem qualquer tipo de engano. Devemos nos
alimentar com coisas espirituais: companhia alegre, amizade sem apegos ou desejos,
praticando nossa sensibilidade com a música, uma boa leitura, a natureza...
Pouco a pouco, aquele coração que era um deserto, sempre cheio de uma sede
insaciável, transformar-se-á num imenso campo que produz flores de amor por todo
lado, ao mesmo tempo em que a pessoa ouve uma maravilhosa melodia: é o encontro
com a vida.
Lembremo-nos de uma das passagens do Evangelho em que Jesus, depois de
mandar a multidão de volta para casa, fica ali sozinho. Que maravilhoso é esse amor! Só
quem sabe manter independência em relação às outras pessoas sabe amá-las como elas
são. Estou falando de uma independência emocional, livre de todo apego e de toda
recriminação, que torna o amor forte e clarividente. A solidão é necessária para que
possamos nos colocar fora de toda programação e preconceito. Somente a luz da
consciência é capaz de expulsar todas as ilusões e os pesadelos que influenciam a nossa
vida, ao mesmo tempo em que expulsa os rancores, as necessidades e os apegos.
Como começar? Dando os verdadeiros nomes a todas as coisas. Temos de
chamar as exigências de exigências e os desejos de desejos, e não disfarçá-los com
outros nomes. No dia em que entrarmos de fato na nossa realidade, quando não
resistirmos mais a ver as coisas como elas são, estaremos começando a nos libertar de
nossa cegueira. É possível que continuemos a ter desejos e apegos, mas já não nos
deixaremos enganar.
Devemos nos alimentar de prazeres naturais, desfrutando da natureza,
exercitando o tato, a audição, a visão, o paladar e o olfato. Existe todo um mundo a
descobrir, a partir dos nossos sentidos atrofiados. Perceberemos então que não
precisamos de muita coisa para encontrar a felicidade, além daquilo que já temos.
Temos de nos sentir livres, autônomos, seguros de nós mesmos, apesar de
reconhecermos as nossas próprias limitações. Ou talvez até por isso mesmo, porque
aceitamos a criatura ilimitada que somos, apesar das formas medíocres em que nos
desenvolvemos. A única maneira de nos tornar fortes, sem necessidade de qualquer tipo
de apoio ou apego, é procurando nossa vinculação com a realidade.
É poder dizer aos amigos que não dependam de nós para encontrar a felicidade,
porque podemos morrer de um momento para o outro e decepcioná-los. E preciso que
cada um encontre sua felicidade na vida, porque, ao ficar livre, terá toda capacidade de
amar. Amar é uma necessidade do ser humano, mas não necessidade da pessoa amada,
nem do desejo. O vazio que temos dentro de nós faz com que tenhamos medo de perder
as pessoas que amamos. Mas esse vazio só pode ser preenchido com a realidade. E
quando caímos na realidade já não sentimos falta de nada, nem de ninguém. Nós nos
sentimos livres e cheios de felicidade como as aves.

DÊ A SI MESMO O GOSTO DE VIVER

O Reino de Deus está aqui e é agora. Ainda que conquistemos o aplauso de todo
o mundo, podemos perceber a vida. De fato, a vida passa, enquanto estamos ocupados
com outras coisas. Se continuamos assim, jamais sentiremos o prazer de viver,
mantendo-nos inconscientes até a morte, sem nunca sermos livres como os pássaros que
voam de maneira majestosa, vivendo e sendo.
Uma vez um grande sábio disse a um imperador romano: "Quando chegar o dia
de tua morte, morrerás sem ter vivido". Devemos despertar, para que o mesmo epitáfio
não sirva para nosso túmulo. Como as pessoas se sentem bem quando fazem o que
gostam de fazer! Enquanto isso, que os burros se reúnam para criticá-las. A liberdade de
estar acordado para a realidade permite que qualquer indivíduo viva como um rei. Se
nós somos os reis da criação, que importância tem o ministro, o cardeal ou o presidente
da República?
Só é preciso procurar nos afastar de nós mesmos — como Santa Teresa — para
perceber a diferença entre os momentos em que nossos preconceitos se manifestam em
nós e quando somos autênticos. Ao reconhecer a programação de preconceitos que nos
envolve e a maneira como atua sobre nós, já estaremos nos dissociando dela, que irá
perdendo sua força e deixará de nos controlar, porque passaremos a ser diferentes dela.
De fato, nossos preconceitos são apenas uma forma de expressão que usamos por força
do hábito, mas que nada têm a ver conosco. Então, quando os observamos, podemos
encará-los com bom humor, sabendo que serão dominados. E não mais nos
aborreceremos, porque os preconceitos deixarão de afetar o nosso verdadeiro "eu".
A vida passa depressa e devemos tratar de aproveitá-la ao máximo. É importante
nos concentrar na ofensa, para aprender com ela, mas nunca no ofensor, que age
conforme sua programação.
Era uma vez um urso que foi trancado numa jaula de seis metros de
comprimento e que ficava andando de um lado para outro, sem parar. Depois de um
ano, foi tirado da jaula, mas continuou andando os mesmos seis metros, de um lado para
outro, ida e volta incapaz de ir além. Estava habituado àquela caminhada limitada. Do
mesmo modo, os homens são incapazes de sair do espaço limitado de seus preconceitos.
7

Ser é o que importa

O homem faz de tudo para descobrir a Deus, mas não move uma palha para
descobrir a si mesmo. Como será a pessoa que procura por Deus? Quem não conhece a
si mesmo não pode conhecer os outros. Sempre age como um robô. Se vem de uma
família deprimida, será uma pessoa dominada pelas depressões. Se a família era
agressiva com ela, considerará a agressividade como norma em tudo.
Em certas culturas, quando um homem decide morrer, escolhe o filho mais velho
para dar a ele o privilégio de preparar a corda com a qual deve enforcar-se o pai. E os
amigos e parentes celebram esse enforcamento com um banquete. Pois isso não passa de
uma espécie de programação como qualquer outra. Não é melhor do que aquelas que
nós enfrentamos. Se não fazemos as coisas que consideramos "más" apenas porque
fomos programados para não fazê-las, qual é o nosso mérito?
A sensação de culpa e o medo que foram enfiados na nossa mente são motivo
para que não façamos as coisas consideradas "ruins". Na verdade, agimos como robôs
programados. Se não estamos bem acordados, toda vez que nos preparamos para decidir
sobre alguma coisa, para calcular a realidade e as consequências que possam advir dos
nossos atos, como vamos assumir a responsabilidade por nossas decisões?
Mas, mesmo quando não temos culpa por uma programação que nos foi imposta
sem o nosso consentimento, temos de assumir a responsabilidade por decisões tomadas
de acordo com o hábito, sem qualquer preocupação com as consequências. Todos nós
temos a obrigação de despertar. E, uma vez acordados e conscientes, teremos liberdade
para decidir o que de fato queremos.
É mister procurar conhecer a nós mesmos antes de considerar qualquer coisa ou
qualquer pessoa "boa" ou "ruim". Deus nos livre daqueles que se consideram santos!
Santa Teresa dizia: "Se esse homem não fosse tão 'santo', seria bem mais fácil
convencê-lo de que está enganado".
Se acreditamos que eram malvados os homens que mataram Jesus, é porque não
entendemos o Evangelho. Os fariseus eram os homens "bons", e os publicanos eram
considerados bandidos porque cobravam os impostos dos pobres e se submetiam aos
ricos. Com razão eram considerados exploradores do povo, pois os ricos nunca
pagavam. Os coletores de impostos eram homens protegidos pelo governo e por isso
eram chamados de "publicanos". Ora, Jesus falava com eles e até tirou dentre eles um
dos seus amigos, que chegou a ser um dos apóstolos.
Dizem que Gandhi falava primeiro e agia depois, e que Jesus agia antes de falar.
Por isso, ninguém podia prever o que ia fazer. Se vivesse entre nós, nos dias atuais,
talvez fosse até capaz de ir almoçar com o presidente dos Estados Unidos,
escandalizando a todos nós, que imaginamos saber de tudo sobre as pessoas.
Jesus desmontou e rompeu todos os esquemas, chegando a questionar até as
palavras sagradas da Bíblia. Colocou em xeque a interpretação das escrituras e a
manipulação que se fazia delas. Jesus não se preocupava em ser reconhecido como o
Messias — isto é, o Messias que os judeus esperavam —, mas insistia em manter-se,
Ele próprio, fiel à verdade.
Na presença de Jesus toda pessoa é revelada por inteiro, não existem meios tons,
porque Jesus representa a mais plena autenticidade. "Aquele que ama pai ou mãe" mais
do que a Jesus não poderá segui-lo. Na verdade, o que Ele está dizendo é que devemos
odiar a figura do "pai" e "mãe", e não as pessoas em questão. Se vivemos conforme o
que nossos pais gravaram em nossa mente, incapazes de nos emancipar, é como se o
pai, a mãe e sua cultura respondessem por nós. Mais vale a consciência do que a
adoração, porque a consciência, em si, é adoração, é despertar para a verdade de Deus.
"O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado", disse Jesus,
atacando o preconceito mais importante para a religião judaica. E por isso mandaram
matar Jesus, acusado de "blasfêmia". E nós, quantas vezes não teremos crucificado a
Jesus com nossas "boas intenções"? Krishnamurti disse: "Todo conhecimento corrompe.
Todo pensamento e conceito corrompe. Somos escravos deles". "Pai, perdoa-lhes: não
sabem o que fazem." De fato, não estavam crucificando a Jesus, mas aos seus conceitos.
Quando dizemos "homem", a quem nos referimos? Se falamos da palavra homem, sem
um conceito, trata-se de um homem genérico, um homem livre de todo tipo de
preconceito, do mesmo modo que acontece quando falamos em árvore. Estamos falando
de um homem sem história, sem cultura, sem sexo, uma palavra que pode aplicar-se
tanto ao homem das cavernas como ao de hoje; ao menino e ao velho; à mulher e ao
homem em si; ao chinês e ao africano. Portanto, quando falamos do homem em geral,
temos de libertá-lo de todo tipo de conceito. Nenhum conceito pode definir a Deus.
Santo Tomás disse que há três maneiras de conhecermos a Deus: na Criação, na
atividade (a vida) e na oração, mas que a maneira mais real é O conhecermos como O
Grande Desconhecido.

POUCO VALEM AS PALAVRAS

A realidade é sempre concreta, mas os conceitos só podem aproximar-se da


realidade se forem abstratos. Cada um de nós tem determinadas peculiaridades que são
essenciais — elas têm origem na nossa identidade essencial, específicas, fazem com que
cada pessoa seja ela mesma, e para sua definição não existem adjetivos. As palavras
nada valem. Então se, ao percebermos peculiaridades específicas de uma pessoa,
formamos uma imagem e a registramos na memória, em forma de lembrança, nós a
estamos cristalizando em um único aspecto do seu ser, além de aprisioná-la a um
conceito que é pequeno demais para ela, porque não basta para definir o que a nossa
intuição captou.
A pessoa está sempre em evolução, em movimento, mostrando contínuas e
diferentes facetas que são infinitas e não podem ser fixadas. Basta parar um pouco para
ouvir uma pessoa — mas com a mente limpa de lembranças e conceitos prefixados a
seu respeito —, para nos surpreender a cada instante com suas facetas desconhecidas,
sempre novas e imprevisíveis.
Agora, temos de reconhecer que, se não se pode classificar o homem, menos
ainda a Deus, que é a Unidade. São os preconceitos que prendem as pessoas. Procure
ver a si mesmo com novos olhos, depois as pessoas e por fim a natureza, e, desse modo,
verá que está mais perto de ver a Deus. E poderá ver a Deus sem conceitos, despojado
dos ídolos em que o transformamos.
O certo é que a realidade concreta é o conceito abstrato, porque a realidade
sempre flui, está sempre em movimento como a pessoa. As células das pessoas
renovam-se a cada instante, ao passo que continuam sendo as mesmas, embora se
mostrem de mil maneiras diferentes, sendo, portanto impossível enquadrá-las numa só.
Assim, nós somos mutantes, como um rio em movimento. Ter conceitos em relação à
realidade é uma injustiça. É como querer congelar as ondas, que não são uma coisa, mas
ação. O mesmo ocorre com a criação e, com mais razão ainda, com as pessoas.
Não podemos enfiar um furacão numa caixa, tampouco encaixotar a realidade.
Os limites da realidade são imensos e móveis. O que acontece é que o mundo no qual
estamos acostumados a circular não é a realidade, mas um conjunto de conceitos
mentais. Só mesmo os místicos são capazes de tamanha liberdade que podem viver a
realidade como ela é.
Na verdade uma liberdade tão grande assusta, é imponente, porque supõe o
rompimento com tudo, ou, pelo menos, o questionamento de tudo. Os místicos
interrogam a tudo. Devemos nos lembrar de que mais vale a dúvida do que a oração. E
acontece que não temos conosco a verdade, mas sim uma fórmula. É preciso passar por
cima da fórmula para alcançar a verdade.

EXERCÍCIO

Recordemos o camelo que pensava estar amarrado a uma estaca. Quais são as
coisas que nos causam medo? Normalmente, é mais fácil arrebentar uma parede de
cimento do que as de nossa mente. É que o homem não quer sair do cárcere, porque
prefere o que é conhecido à mudança. Para ele, é bem mais cômodo fazer o que está
habituado a fazer. Os nossos medos nascem da maneira como vemos as coisas, assim
como dos preconceitos que temos gravados na mente.
Procure analisar com sinceridade, com muita calma onde estão as grades
imaginárias que o prendem e o porquê dos medos que você tem. Trate de questionar
tudo e liberte a realidade que está por trás dos questionamentos. Será um bom sinal o
dia em que você sentir o vazio de ficar sem nada em que se agarrar. A partir de então,
você mesmo pode começar a construir com realidade.
Você verá que as fronteiras só estavam em sua mente, como as fronteiras que
queriam que eu visse do avião. Estabelecer esse tipo de fronteira é querer fragmentar a
realidade, e a realidade é global, é uma unidade. Enquanto nos considerarmos indianos,
ingleses, catalães, portugueses ou italianos, seremos produtos de nossa cultura e
estaremos pensando e agindo como máquinas, como verdadeiros robôs. É preciso saber
ver e agir por nossa própria visão e exercendo nosso livre arbítrio. Será que o fim
justifica os meios? A realidade não conhece fronteiras, e a natureza tampouco. Nossa
essência, o nosso ser, não é espanhol, nem alemão, nem francês. E não existem
fronteiras entre uma pessoa e outra, porque ambas pertencem à unidade. Acontece que,
se não existissem palavras, não existiriam as coisas. Por isso, a realidade é muito melhor
captada no silêncio, quando ela se mostra fluida, em movimento.
Procure estudar a si mesmo, analisando as reações que partem de você, diante
das coisas.
Trate de ver as coisas e as pessoas sem rótulos, sem preconceitos, do jeito que
elas são a cada instante.
Quando você vir uma criança deficiente mental, atenta e admirada ao ver um
pássaro voando, se lhe ensinar a palavra pássaro para definir a ave, a criança ficará com
a palavra, mas deixará de ver o passarinho. Krishnamurti disse: "Vês como as crianças
ficam admiradas ao ver os pássaros? Se deres um nome às aves, as crianças acreditarão
que todos os pássaros são iguais, porque têm o mesmo nome". São os homens que
conceituam as coisas. Se não sabemos o nome de uma coisa, sentimo-nos irrequietos,
como se precisássemos dar-lhe uma classificação.
É preciso entender que temos de dar nomes às coisas porque a prática assim o
exige, embora seja muito perigoso ficarmos no nome, assim como no conceito, porque é
desse modo que funciona a "ciência do bem e do mal", que classifica sem aprofundar-
se. Temos de vomitar a "ciência do bem e do mal" — como fazem os místicos — para
que possamos voltar a entrar no Paraíso.
Vamos olhar tudo que esteja ao alcance de nossa vista sem dar nome a coisa
alguma. Procuremos ir além do conceito e ver a realidade que existe em cada coisa, sem
fragmentação, de maneira global, procurando descobrir a unidade. Não poderemos
explicar com palavras, porque não existem rótulos para a realidade. Por isso o místico
não tem vontade de falar. Como explicaria o mundo que ele descobre vivendo na
realidade que sua sabedoria desvenda? Ele só nos conta parábolas, para ver se
conseguimos captar sua essência.
A mesma coisa fazem os poetas. León Felipe disse: "A distância entre um
homem e a realidade é um conto". Por meio de um conto, o poeta nos faz captar a
realidade sem rótulos. Não se pode narrar o que é inefável, sem disparates que parecem
não ter sentido, que vão além dos conceitos, como acontece nos Evangelhos.
O que os Evangelhos narram é um mistério. Mas depois a Igreja procurou
encerrar esse mistério em uma prisão de conceitos e normas. Se não podemos expressar
a essência da árvore com a palavra "árvore", como podemos tentar expressar a Deus?
"Aquele que sabe não diz. O que fala não sabe." Assim se diz no Oriente.
O próprio idioma é uma forma de programar as pessoas. Na verdade, ninguém
tem capacidade para nos ofender. O que nos ofende é a maneira como interpretamos a
linguagem dos outros. É o que acontece quando relacionamos as palavras que ouvimos
com uma determinada imagem ou conceito. É o rótulo que está pendurado à palavra.
Só uma pequena parte da realidade é desvelada pela palavra que empregamos
continuamente, e com essa fração vivemos, sem ao menos indagar onde fica o restante.
Até os cientistas reconhecem saber apenas de uma pequena parte da realidade. O
conceito e a palavra nos permitem conhecer um pouco, mas o movimento e sua
imensidão, o fato de não podermos expressá-la, enquadrá-la nem defini-la, isso temos
de extorquir, quando queremos exprimir a realidade com palavras.
Quando ao cego se descreve com palavras o que é a cor amarela, ele não faz a
menor ideia de como seria essa cor. O místico, por sua vez, para compreender a
realidade, faz como o pássaro, que não se apega a coisa alguma. A realidade não se
deixa encerrar em fórmulas.
Todas as religiões acreditam que têm ou querem ter a verdade, ser donas
completas da verdade. Mas a Realidade, a Verdade, por ser única, não é propriedade
exclusiva de ninguém, porque é de todos. E é menos ainda daqueles que a querem
congelar, porque o que se deixa prender em armadilhas não é a verdade.
"Quando o sábio aponta para a lua, o imbecil fica olhando para o dedo." Isso é o
que acontece com as religiões que pretendem tomar posse da verdade. E ocorre com os
idealistas da política, assim como sucede com quem quer que pretenda ser dono da
verdade.
Os terroristas são pessoas programadas para morrer por sua pátria, por sua
política, por sua religião ou por alguma coisa que acreditam ser sua verdade. E se
entregam a isso como quem pensa estar libertando o mundo, encontrando nessa atitude
a sua felicidade. A verdade é que não passam de pessoas "doutrinadas", que
desconhecem a sabedoria. É possível que uma ou outra dessas pessoas não seja
doutrinada, mas a grande maioria representa um produto do fanatismo provocado pela
programação cultural ou religiosa a que foi submetida. E o pior é que elas não têm a
menor consciência dos danos que podem causar com todo o seu fanatismo.
Foram pessoas doutrinadas que deram origem a atos tão cruéis quanto o de
queimar na fogueira os que eram considerados hereges ou bruxas, em nome do
fanatismo religioso. A verdadeira religião deveria nos libertar, tirar os nossos medos e
não nos escravizar.
Por acaso não pregamos que a Eucaristia é um banquete de amor? A religião
pretendeu fazer — ou passar — os relatos do Evangelho ao pé da letra. Se tivéssemos
nascido no Oriente, logo perceberíamos que as parábolas do Evangelho e muitos dos
fatos ali narrados são apenas contos, para que deles possamos extrair a realidade. Ali se
fala a nosso respeito. Quando o Evangelho pergunta se uma pessoa é uma cabra ou uma
ovelha, não se refere aos que estão ali por perto, mas a nós. E quando fala da terra árida,
cheia de pedras e de espinhos, não está se referindo a pessoas determinadas, mas sugere
que analisemos até que ponto somos áridos, cheios de pedras e de espinhos, e qual a
porcentagem de terreno fértil que temos em nós.
A Boa Nova não faz referência a um mundo separado, mas a nós, anunciando
que tudo o que é mau será destruído, permitindo a sobrevivência do que é bom. Mas, se
ao invés disso pregássemos medo e regras de terror, que Boa Nova seria essa? Jesus
procurava libertar as pessoas da opressão. A maioria dos religiosos é idólatra. Se
tomássemos ao pé da letra todas as coisas que se diz sobre Deus, onde iríamos parar?
Afinal, que tipo de Deus pregamos? É preciso ter muito cuidado, porque, se não
questionarmos tudo, muito facilmente cairemos nessa idolatria.
Deus é tão inefável que não pode ser explicado. De fato, Deus é o
Incompreensível. É o Mistério Absoluto. Ao nos esquecermos disso, estamos
construindo um ídolo de preconceitos. Deus manifesta-se na vida, e, se enquadramos a
vida numa série de conceitos, acabará sendo para nós tão misteriosa como o próprio
Deus. Só podemos conhecer a vida vivendo e só poderemos chegar a Deus vivendo e
conhecendo a nós mesmos.
São João da Cruz pergunta: O que fazemos quando falamos de Deus? Ele
compreende a impossibilidade de encerrar a Deus em palavras e limita-se a expressá-lo
com poesia, com analogias, que não se parecem a coisa alguma. Santo Tomás de
Aquino diz: "Nem todo o intelecto humano seria capaz de descobrir a essência de uma
formiga. Menos ainda a essência de Deus!" Mas talvez, olhando para a essência da
formiga, possamos nos aproximar um pouco da essência do Criador. São as ideias que
nos confundem, e elas podem ser um grande obstáculo para que conheçamos a Deus.
As próprias perguntas feitas a respeito de Deus são absurdas. Dionísio — o
místico — disse: "Ele não é luz nem trevas; não é pessoa, não é bom nem mau, nem esta
coisa nem a outra, pois Ele não pode ser definido com uma palavra".
Certa ocasião queriam entronizar Krishnamurti como chefe da ordem que o
havia educado. Mas, no discurso que pronunciou quando o pretendiam entronizar, ele
desfez todo o plano, quando disse: "Não me podeis seguir, nem seguir a quem quer que
seja. No dia em que vos decidis a seguir outra pessoa, deixareis de existir de verdade". E
de fato, se seguimos a alguém, acabamos ficando com a fórmula. Importante é que
sejamos iluminados, e não seguir os iluminados. Temos de olhar para a lua, e não fixar a
vista no dedo que aponta.
Talvez seja mais fácil uma prostituta entrar no céu do que uma freira, porque a
prostituta, como vive e conhece a vida, pode amar, enquanto a freira, por procurar amar
a Deus, pode deixar de amar a todo o mundo.
"Quando os olhos não estão bloqueados, o resultado é a visão. Quando os
ouvidos não estão bloqueados, o resultado é a audição, e quando a mente não está
bloqueada, o resultado é a verdade". O amor manifesta-se quando não existe bloqueio
sobre o coração, e a felicidade quando não há apego ou desejo na pessoa. Se olharmos
bem, veremos que não existe o ateu, porque, se não podemos conceber nem expressar a
Deus, tampouco podemos negá-lo. Ninguém nega aquilo que não conhece. O que os
ateus estão negando são os preconceitos.
A vida não tem sentido para algumas pessoas, pois a lei da vida, do mesmo
modo que a lei da selva ultrapassa toda forma e todo conceito. Para os místicos, no
entanto, o fundo da vida — a realidade — é um campo maravilhoso e inesgotável de
luz, de amor, de paz e de felicidade. Como explicar isso?
O que as pessoas desejam de verdade? Sempre estamos desejando coisas, mas,
como a sabedoria está em descobrir o que de fato necessitamos, o que poderíamos dizer
que na realidade não nos faz falta, em tudo que temos diariamente? Devemos procurar,
como se estivéssemos em um supermercado, todas as coisas que não precisamos de
verdade, pondo-as de lado e anotando tudo direitinho.
Jamais poderemos alcançar a paz sem antes descobrirmos os obstáculos que nos
impedem de chegar a ela. A paz está dentro de você mesmo. Descubra-a!
Procuremos fazer também exercícios de sensibilização, ouvindo os sons que nos
rodeiam e o silêncio que existe por trás deles, para que nos sensibilizemos com o que
está acontecendo dentro de nós, descobrindo com novos olhos o mundo que nos cerca.
O mestre não é um guia, mas alguém que pode nos ajudar a nos descobrir, e a
encontrar a realidade. Ele não pode defini-la nem explicá-la, mas pode nos ajudar a
chegar à sensibilidade que nos permita encontrá-la por nós mesmos.
8

Deus está na vida

A palavra e o conceito distorcem a realidade. Se alguém nos mostra apenas o


rabo de um animal que nunca vimos, jamais poderemos dizer como é o corpo desse
animal. Não conhecemos o seu conjunto e, portanto, não podemos saber ao menos o
sentido de realidade encerrado na palavra "rabo", porque, separada do seu conjunto, ela
se perde da realidade global que lhe dá sentido.
A palavra Natal cria em todos nós uma série de emoções e sentimentos que nada
têm a ver com a realidade. Na natureza não existe o Natal. Trata-se de uma festa
programada na mente cristã, do mesmo modo que o Ramadã para os muçulmanos e a
Páscoa para os judeus.
Tudo não passa da ilusão de uma palavra que cria determinados conceitos e
emoções. Do mesmo modo, na prática a religião não existe, posto que, na realidade, ela
é constituída apenas de um conjunto de palavras e de conceitos.
O que tem a ver a palavra "Deus" com a realidade? Esquecemos a realidade com
a substância que a palavra procura indicar e acabamos ficando com a palavra. O que de
fato importa não é a palavra, nem o conceito, muito menos os símbolos. Todos os
símbolos são imprecisos, e o importante mesmo é que eles sirvam apenas para nos pôr
em contato com a realidade que escondem.
DEUS NÃO SE DEIXA PRENDER

Na Universidade aprendemos teorias, fórmulas e técnicas, e a teologia deveria


servir para formar ignotos, ignorantes que questionam tudo antes de aceitar as coisas.
Na Universidade nos ensinam, e na Faculdade de Teologia deveriam apenas nos
despertar, atacando nossos erros e as fórmulas a que fomos submetidos.
"Sabem o que aconteceu com um canibal que devorou um missionário católico,
um protestante e um metodista? Pois teve de enfrentar um movimento ecumênico nas
tripas!" A única coisa que nos separa são as palavras e os conceitos. No fundo, dá tudo
no mesmo. Deus é um só, e não se deixa prender.
Aquilo que chamamos de "eu" não tem resposta, pois o "eu" é nada. Só a
realidade existe, e para entrar nessa realidade temos de nos libertar de nossas
programações e preconceitos, mergulhando na noite escura do não-saber, dos não-
conceitos.
Embora eu tenha dito antes que a criança é incapaz de amar, acho que não o
disse bem, pois as crianças por certo sabem amar de um modo tão puro e sem
preconceitos, com tamanha espontaneidade, que nós, os adultos, não conseguimos
entender esse amor com nossa mentalidade programada. As crianças são as únicas que
têm capacidade para ver as coisas como elas são. Enxergam as pessoas sem rótulos, sem
preconceitos, e reagem com espontaneidade à realidade, sem qualquer tipo de
interferência. Os preconceitos, os rótulos e os medos são impostos a elas depois, por
nós, os adultos, do mesmo modo inconsciente como usamos mecanicamente essa
programação, por mero hábito.
Como a inconsciência é perigosa! Para nos libertar dos preconceitos temos
apenas a consciência, e só ela pode de fato nos libertar. Seremos sempre escravos das
coisas sobre as quais não estamos conscientes.
É preciso estarmos conscientes de que Deus não se deixa prender por conceitos
nem encerrar-se em palavras. Por isso, as crianças estarão mais perto de Deus enquanto
não deformarmos sua espontaneidade com imagens e conceitos de "mal" ou "bem". A
tese de que Deus é incompreensível sempre esteve presente na teologia católica. Para
Santo Tomás de Aquino, isso era evidente. E para Rahner, até mesmo na visão imediata
de Deus, na eternidade, a divindade continuaria sendo incompreensível. A
incompreensibilidade de Deus é o centro de luz que deve iluminar toda teologia. O
melhor teólogo é o que sabe explicar a teologia como Jesus Cristo: por meio de contos,
sem conceitos, através da vida, como fazia Jesus com as parábolas e com seus feitos na
vida cotidiana. Se nos apegamos aos símbolos, acabaremos esquecendo a realidade
encerrada no símbolo.

O VALOR DA REALIDADE

Jesus ensina o que é a vida e, por ela, como é o Pai, seu criador. Que colégios
conhecemos que utilizem, como texto, o homem, a comunicação, o respeito, e como é a
vida, como devemos respeitar nossos filhos e prepará-los para que sejam felizes?
Começamos com certos meios para alcançar determinados fins, mas depois nos
esquecemos dos fins e ficamos enredados nos meios: no final, acabamos fazendo um
fim com os meios. Ou seja, absolutizamos os meios.
A espiritualidade — como a flor — tem de mostrar simbolicamente a realidade,
cuidando para que não fiquemos nos símbolos e acabemos matando o Messias. O
símbolo não está no que é sagrado — como a flor não é sagrada —, mas o que é sagrado
é a realidade que descobre. É o cachorro que balança a cauda, e não podemos nos
concentrar na cauda achando que é ela que balança o cachorro.
Deus não se encontra no templo, mas na vida. A oração é feita para que
tenhamos cada vez maior consciência de nós mesmos. A religião pode ser de grande
ajuda, desde que não a consideremos mais importante do que Jesus Cristo. "Ao ler
minha poesia de Deus, não te deixes levar pela idolatria", diz Tagore. Por causa dessa
idolatria, as pessoas continuam crucificando o Messias. Deus é o Mistério.
Quando o homem se torna "religioso", é capaz de cometer as maiores crueldades
para defender um conceito de "verdade", acreditando que está cumprindo "a vontade de
Deus". O comunista doutrinado fica revoltado quando alguém critica o comunismo. Os
religiosos doutrinados também se revoltam quando se critica a religião. Não só
acreditam possuir a "verdade", como se julgam vingadores e justiceiros junto àqueles
que não a aceitam. Pensam ser os guardiães de Deus e seus advogados. E devemos
reconhecer que é em nome dessa crença fanática que ainda se cometem grandes
crueldades nos conventos. Tudo é feito de maneira inconsciente, como se estivessem
prestando um serviço a Deus.
É preciso despertar para a realidade de que a religião não existe — e pode causar
grandes danos — se nela não estiver a realidade, a vida. Porque só a vida e a realidade
podem nos mostrar a verdade.
Paulo também foi inconscientemente cruel, por mero fanatismo, acreditando que
prestava um serviço a Deus. Era sua programação que o orientava, e ele punha todo o
seu entusiasmo e sua força nas suas ações. Mas foi atingido e despertado pela realidade,
que o derrubou do cavalo e lhe deu a luz. É a realidade que tem de nos despertar. Se
existe tanta crueldade no mundo é porque nos falta sensibilidade suficiente para
despertarmos para a verdade. Temos de cair do cavalo do poder e da violência para dar
com a cara no chão da realidade, despertando para a luz da verdade.

É UM GRANDE COMPROMISSO

Se achamos tão difícil cair do cavalo é porque a religião se identificou com o


poder, endurecendo-se, embrutecendo-se, ao invés de sensibilizar-se com a verdade. A
religião não quer ver a realidade do Terceiro Mundo, porque, se a vir, terá de mudar e
deixar o poder.
Olhar para os pobres não significa fazer um programa de ajuda, de uma posição
de poder, mas sensibilizar-se com a injustiça que provoca essa pobreza. Não é possível
fazer um programa de amor e de ajuda sem se aproximar pobres e viver sua vida, como
Jesus fez. De cima não se pode ver os pobres como eles são. O amor não é feito apenas
de sorrisos e boas palavras que acompanham a esmola. Amor também é fazer aquilo que
mais convém à outra pessoa, nos momentos de maior necessidade.
O místico é amável, porque não deixa de ser enérgico e duro quando necessário.
Ele sabe responder, precisamente porque é livre de preconceitos, de medos, de poderes e
de honras, e por isso é capaz, a todo momento, de ser fiel à verdade. Portanto, nunca
sente amargura, nem se altera.
Nossa ação deve ter origem em nossa sensibilidade, e não na nossa ideologia. As
matanças, as injustiças e as guerras originam-se nas ideologias que cegam as pessoas
para a realidade e as endurece. A teoria pode ter utilidade em certos momentos, mas
sempre que não ultrapasse nem oculte a realidade. Jesus era místico — homem de vida
— e por isso agia sempre sensibilizado com a vida. Portanto, para as pessoas
programadas, Jesus parece um homem inconsciente, imprevisto, inapreensível e
assustador. Elas preferem formar uma ideologia que possa ser programada e controlada.
Algo que não possa fugir da categorização e dos esquemas. Jesus pregava com a vida, e
isso é muito comprometedor.
Não existe a conscientização social. Quando impedimos que os pobres vejam as
coisas por si mesmos e queremos vê-las em seu lugar, é porque somos doutrinados e
manipulados, e não respeitamos o direito que os pobres têm, por si mesmos, à
libertação. Temos de ter o cuidado para que, com a ideia programada de libertá-los, não
lhes tiremos sua espontaneidade, sua alegria e sua cultura original. É muito perigoso o
trabalho social que não surja da sensibilidade e do respeito. Com o nome de salvação
também existem o abuso, a perseguição, a exploração e a crueldade.
Já tive oportunidade de conhecer pessoas pobres, muito pobres, que se sentiam
felizes embora não pudessem comer mais de uma vez ao dia. Encontravam-se em um
nível espiritual muito mais elevado do que o meu. A simplicidade e a alegria, a vida
livre de preocupações futuras, é coisa que tem um sentido muito mais real nos pobres do
que em todos nós, os programados. Eles estão livres dos preconceitos.
Jesus sensibilizou-se com a vida e não com a religião. Como podemos amar se
não vivemos e nem ao menos enxergamos com os olhos despertos? Nossa vocação é
para sermos "Cristo", e não cristãos. Para sermos sensíveis e abertos para as pessoas e
para a vida. Para sermos livres, diretos, inconsistentes, imprevisíveis como Ele foi.

OPÇÃO PELA VERDADE

Por acaso Jesus fez opção de classes? Não é fácil saber onde está o pobre. Jesus
fez opção pela verdade. Ser pobre não é uma condição de felicidade, mas de injustiça.
Existem pobres com os quais temos de ser duros, para que possam despertar. Cada
pessoa tem de ser tratada conforme aquilo de que necessita. Devemos nos sensibilizar
com a injustiça enquanto somos justos, e assim poderemos começar a compreender a
injustiça.
O místico é um revolucionário por excelência. Ele nada faz, porque tudo se faz
por meio dele. Deixa-se levar por uma força à qual não poderia resistir, mesmo que
quisesse: a força da verdade. Já existiram místicos violentos, mas na sua violência não
punham o seu "ego". Cada pessoa saberá o que deve fazer, desde que esteja acordada e
sensibilizada para a verdade, como Jesus. Não importa saber de onde veio ou vem o
mal, mas é necessário saber o porquê do mal que sentimos agora e de onde ele procede.
Uma vez que haja sensibilidade em nós, com relação às coisas, às pessoas e a
nós mesmos, não é preciso que nos digam o que é bom ou o que é mau, porque será
impossível para nós fechar os olhos para a realidade. Por isso, jamais poderemos optar
pelo mal. Então, não poderemos aprovar o que os outros fazem, se se tratar de um mal
objetivo, mas tampouco poderemos obrigá-los a fazer o contrário, nem manipulá-los ou
reformá-los. Devemos ajudar as pessoas para que o mal não exista e esperar que elas
também despertem. Gandhi dizia: "Aquele que quiser ser vir lutar comigo, para
libertarmos a pátria, terá de purificar-se antes porque, do contrário, acabaremos
libertando-nos de uma opressão para cair em outra pior". É preciso nos lançar à batalha
sem nenhum sinal de ódio, para que esta sirva para alguma coisa. A nossa libertação em
relação ao ódio tem o mesmo significado da libertação do medo, pois é o medo que
produz o ódio. E, se temos medo em relação a nós mesmos, é porque nos odiamos. Ao
guardar o ódio em nosso peito, acabaremos odiando a todo o mundo.
Ninguém precisa estar num mosteiro para ser místico. Podemos muito bem ser
pobres e ignorantes em relação às teorias e às leis, e ainda assim ser místicos. O que
importa mesmo é estar acordado para a vida. É importante libertar a nós mesmos, para
que possamos ser autênticos, e isso tanto pode ser feito por um secular como por um
monge. Talvez os monges, com as dificuldades de uma comunidade fechada onde se
originam tantos atritos, tenham maiores oportunidades de descobrir mais claramente
suas enfermidades, e sobretudo de sofrer. O sofrimento é que ajuda a despertar. É o
encontro com a realidade.
Estar acordado e olhar para as coisas sem se deixar enganar não significa ficar
livre da programação dos preconceitos, pois ela permanecerá onde sempre esteve. Só
que, despertos, nós poderemos vê-la com clareza, e passaremos a chamar o desejo de
desejo, e o que acreditávamos ser amor passaremos a chamar pelo seu nome verdadeiro
de egoísmo. O desejo terá perdido a batalha no momento em que o descobrirmos e não
terá mais o poder que a nossa inconsciência lhe dava. Teremos autoridade sobre ele.

EXERCÍCIO

O leitor alguma vez passou por um grande sofrimento? Pois deve recordar essa
situação e tratar de compreender que, se tivesse sabido usar sua compreensão, esse
sofrimento não teria existido.
Que é o sofrimento? É um desejo contrariado. É querer que as coisas aconteçam
conforme a nossa vontade, ou que as pessoas se comportem como desejamos. Quando
isso não acontece, o desejo choca-se com a realidade, e desse encontro nasce o
sofrimento.
O problema todo está em insistir que aconteçam coisas diferentes da realidade. É
a pretensão que temos de distorcer a realidade, para conformá-la aos nossos desejos.
Quando desejamos prender um amigo ao nosso lado e este nos abandona de fato, nosso
sofrimento estará em acreditar que, por ele ter partido, fomos desprezados. Nosso desejo
de ser queridos e nosso apego a determinada pessoa fazem com que nossa felicidade
esteja na sua presença ao nosso lado. E, se não conseguimos isso, a nossa ânsia pelo
amor e o apego à outra pessoa chocam-se com a realidade. E está aí a origem do
sofrimento.
Na verdade, tudo não passa de um engano de nossa mente. Nossa felicidade não
está em nenhuma outra pessoa! É uma grande ilusão acreditar que, se determinada
pessoa estivesse ao nosso lado, seriamos felizes. O fato é que não precisamos de
ninguém para sermos felizes, e o amor não é isso. O amor verdadeiro nos permitiria
reconhecer que desejamos desfrutar livremente da presença dessa pessoa, sem medo de
perdê-la. Em outras palavras, quem ama sabe que pode ter essa amizade, se a interpretar
exatamente como é. O amor se produz em nós e nas outras pessoas de uma forma
distinta, e não podemos exigir que elas sintam o mesmo que sentimos.
Não podemos exigir que ninguém nos ame. E, quando deixamos de ser exigentes
e nos livramos dos apegos, podemos ver com clareza quantas pessoas nos querem
exatamente como nós somos, sem nos exigir coisa alguma. Então começamos a
entender o que é o amor.
A realidade é aquela que ultrapassa todo conceito. Devemos nos observar com
cuidado, nos momentos em que sofremos, para ver o que aparece na tela da nossa
consciência, e reconhecer o que a realidade nos diz, fora de todo preconceito, à parte do
sofrimento. Devemos abrir pouco a pouco a nossa consciência para as coisas que até
então vivíamos por hábito e que, por isso, nos passavam despercebidas. Temos de saber
o que existe por trás de todo preconceito e de todo sofrimento. É esta a libertação da
mística.
Não temos de renunciar a coisa alguma, mas não devemos nos apegar a nada.
Precisamos desfrutar de tudo que nos é oferecido pela vida e pelas pessoas, sem pensar
em reter coisa alguma. Deixar que tudo passe é desfrutar de todas as coisas, renovando a
felicidade a cada instante.
"Deus não morre no dia em que deixamos de acreditar em uma divindade
pessoal, mas morreremos no dia em que nossas vidas deixarem de ser iluminadas por
uma atitude de admiração da realidade, além da razão, com um esplendor constante,
renovado a cada dia." Se não temos isso, morreremos.
O que se pode dizer do conceito de "Deus"? Nós, os cristãos, temos de nos
separar dos conceitos de Deus, como os ateus que, nisso, levam vantagem sobre nós.
Qualquer pessoa pode ter conceitos, desde que não os confunda com a realidade. O
conceito de Deus não deixa de ser um conceito de uma realidade inefável. E, se você
tem esse conceito, que seja pelo menos um conceito de um Deus bom, generoso,
magnânimo e repleto do verdadeiro amor. Que não seja um conceito tão fraco que
transforme a divindade em um Deus justiceiro, poderoso e vingador. Façamos pelo
menos um Deus maior e mais generoso do que nós mesmos.
Quando estava morrendo, o pintor Peruchini disse à mulher: "Deixe-me em paz,
mulher, porque eu quero saber — tenho muita curiosidade em saber — o que acontecerá
se eu morrer sem me confessar... Sempre tive a profissão de pintor, e Deus sempre teve
a profissão de perdoar, e espero que Ele seja tão bom na sua profissão quanto eu fui na
minha".
Muitas pessoas nascidas no Oriente foram iluminadas sem que precisassem ter
um conceito de Deus, nem ao menos falar Dele. O Reino de Deus está dentro de nós, e
não precisamos procurá-lo nem rotulá-lo ao nosso redor porque, se o fizermos,
estaremos fabricando ídolos. Ao falar sobre os sacramentos, o padre Rahner diz: "Não
se trata da invasão de uma força divina exterior a nós, mas da ação por meio da qual o
cristão dá mais força àquilo que já estava ali". O mundo é o corpo de Cristo. O
sacramento é uma força que dá mais eficiência ao que já existia, a algo que já tínhamos
em nós. É assim que Rahner o expressa. Ele é tão radical quanto Hans Kung, e também
seria condenado se fosse tão fácil entendê-lo como se entende a Kung.
Como exemplo do que foi dito acima, pensemos no beijo. O beijo é considerado
como o sacramento do amor, mas não cria o amor. É possível dar amor sem beijo, mas o
beijo sem amor nada representa. No entanto, o beijo pode dar maior significado a um
amor que já existia em nós. Assim, devemos ter cuidado com o conceito que fazemos de
Deus: não podemos ficar apenas no conceito, mas ir além, procurando alcançar a
essência.
"Quando o pai faz alguma coisa por seu filho pequeno, todo o mundo sorri.
Quando um pai ajuda a um filho maior, todo o mundo chora." Não temos o direito de
criar dependências, nem sequer em relação a Deus. De fato, Deus quer que nos
libertemos desses conceitos para nos ajudar a confiarmos em nós mesmos, para nos
libertarmos.
Lembra-se do mestre árabe que disse: "Corre amarrar o teu camelo, idiota...?"
Pois isso acontece conosco: nós nos esquecemos de procurar por nossa própria
identidade e, ao invés de descobrirmos os obstáculos que temos pela frente, clamamos a
Deus para que venha em nosso socorro. Procuramos pela felicidade sem perceber que já
a temos, e ficamos reparando apenas nos obstáculos, sem nos preocupar em descobrir o
que existe por trás deles.
O corpo de Cristo é representado por toda a criação, mas insistimos em acreditar
que Ele está apenas na Eucaristia. O fato é que a Eucaristia aponta para a criação. O
corpo de Cristo está em toda parte, mas reparamos apenas no seu símbolo, que nos
mostra como a vida é essencial. A vida está sendo anunciada na Eucaristia.
Todos sabemos que o amor incondicional é aquele que nos é dado sem nenhuma
exigência, não importa como sejamos ou o que façamos. Pois é assim que Deus nos
ama, e assim também é o sacramento da Penitência, que celebra esse amor
incondicional.
O Batismo é uma celebração da criança que vem a Deus, entregando-se a Deus.
E fazemos esta celebração com a água batismal.
9

O amor; essa maravilha

Quando nos foi dado o presente da vida humana, esqueceram-se de nos dar
também o manual de instruções. Há pessoas que não sentem falta dele, enquanto outros
receberam o manual errado. Estes últimos consideram a vida como um motivo de
angústia, de ansiedade, de medos e de desejos. É o resultado da leitura do manual de
instruções que lhes foi dado por nossa cultura.
Não está na natureza a causa do sofrimento, mas no próprio coração do homem,
cheio de desejos e de medos impostos pela programação que está gravada na sua mente.
A felicidade não pode depender dos acontecimentos. É a nossa reação diante dos
acontecimentos que nos faz sofrer. Nascemos neste mundo para renascer, para nos
descobrir como pessoas novas e inteiramente livres.
A atração que nasce em nós não é amor. Aquilo a que chamamos de amor é uma
atração que sentimos por nós mesmos, um negócio de toma-lá-dá-cá, de
condicionamentos: amamos de acordo com a quantidade de amor que recebemos. No
fundo é uma dependência, é a necessidade de conquistar uma felicidade reclamada de
dentro de nós (porque nós todos somos felicidade e nascemos para ser felizes). No
entanto, nossa insegurança faz com que procuremos por ela no ambiente exterior, e o
façamos com exigências, de maneira compulsiva, com medo de que ela nos possa
escapar. Manifestamos isso com um desejo de posse, uma vontade de controlar a outra
pessoa, de manipulá-la, de nos apegar a ela, pela ilusão de acreditar que, sem essa
pessoa, não poderemos encontrar a felicidade.
QUE É O AMOR

O amor de verdade é impessoal, pois quando alguém realmente ama, o "eu"


programado deixa de existir. Em outras palavras, amor é uma pessoa esforçar-se para
ver como é a outra, procurar compreendê-la e aceitá-la exatamente como é. Isso não
quer dizer que abra mão de suas preferências. Eu, por exemplo, prefiro relacionar-me
com pessoas determinadas, porque é um relacionamento mais satisfatório para mim. No
entanto, essa preferência tem de deixar-me livre para desfrutar da amizade de outras
pessoas, para eu poder ouvir os demais instrumentos da orquestra. Cada relação tem um
sabor e características próprias. Existem projetos que combinam com certos tipos de
relacionamento e não com outros. Porém, nenhum deles pode excluir os outros, quando
se ama de fato.
Quando sentimos amor verdadeiro por uma pessoa, esse amor desperta em toda a
nossa volta. Sensibilizamo-nos para amar e começamos a descobrir beleza e amor em
tudo e em todos que nos cercam.
Por sua vez, a paixão que uma pessoa sente por outra é o que existe de mais
egoísta. O amor de verdade é uma condição de sensibilidade que nos permite abrir o
coração para todas as pessoas e para a vida. E, quando amamos, não há coisa mais fácil
do que perdoar.
No amor verdadeiro, aceitamos as pessoas que todo o mundo rejeita, não por não
vermos os seus defeitos, mas precisamente porque os aceitamos como são, por serem
parecidos com os nossos, que já aprendemos a aceitar.
Também aceitamos o fato de não termos razão, ouvindo com interesse as razões
dos outros. Acima de tudo, sabemos responder ao ódio com amor, não por nos esforçar
para isso, mas como milagre da compreensão do amor verdadeiro, que vê a outra pessoa
como ela é.
São estes os três sinais de que uma pessoa está acordada: perdoar, aceitar e
reagir, antes de mais nada, com amor.
MAIS OU MENOS IGUAIS

Quando sabemos amar, é sinal de que já conseguimos ver as outras pessoas


como semelhantes. Ninguém é melhor ou pior do que nós. É possível que uma pessoa
tenha agido de maneira errada numa determinada circunstância e nós não, mas talvez
tenha sido por causa da programação a que ela está sujeita, ou em virtude de fatos
anteriores que a levaram a comportar-se dessa maneira por medo. Todos nós temos as
mesmas inclinações, e a prova disso é que, se nos incomodamos com as faltas dos
outros, é precisamente porque elas nos fazem lembrar dos nossos próprios defeitos.
Assim, se não nos permitimos falhar, ou se nos recusamos a reconhecer nossos defeitos,
como poderemos aceitar os dos outros? Enquanto não reconhecermos nossas faltas,
vamos continuar incomodados com os defeitos dos outros.
Se eu tivesse sido vítima da violência, da repressão, da crueldade ou do sadismo,
além de estar influenciado por uma programação de preconceitos que me causasse
insegurança e fizesse explodir os meus desejos de poder, quem seria eu? Sem dúvida
um ditador, ou um assassino, ou qualquer outro tipo de malfeitor. Jesus percebia que,
como todos os outros homens, não era melhor que ninguém. E Ele disse isso: "Por que
me chamais bom...?" Na verdade Ele era melhor porque estava bem acordado, com os
olhos abertos para a realidade, porque tinha vivido muito, conhecera muitas pessoas e
aprendera a amá-las de verdade. Mas sabia que isso não significa ser mais do que os
outros. Jesus não rejeitava os maus porque os compreendia. No entanto, rejeitava os
hipócritas que mascaravam a verdade e sujavam a bondade. Rejeitava aqueles que se
submetiam aos poderosos e eram cruéis com os fracos. Rejeitava a atitude deles e lhes
dizia isso na cara, para que despertassem. Enquanto não virmos os outros como
inocentes, não saberemos amar como Jesus amou.

O MAL NÃO EXISTE

Procure pensar se, em algum momento de sua vida, você já fez o mal de
propósito. Se não fez, por que achar que os outros o fazem? Algum doente mental talvez
o faça, mas uma pessoa nessas condições não é responsável por seus atos. Todos nós,
sem qualquer exceção, procuramos o nosso próprio bem, embora procuremos disfarçar.
Acontece que, na maior parte das vezes, esse "bem" não é o que se pensa, não é um
"bem" de verdade.
O receio de perder o "bem" nos torna egoístas e até cruéis. E, na verdade, o bem
é gratuito e está dentro de nós! Quando pretendemos prender o bem, tornamo-nos
vaidosos. Que bobagem! O bem sempre esteve conosco e nem é obra nossa!
O bem existe, é a essência da vida. Quando não conseguimos vê-lo, nem
sabemos desfrutar dele, damos-lhe o nome de "mal". Acontece que o mal em si não
existe: trata-se de um ofuscamento ou de uma menor percepção do bem. E o que
chamamos de "mal" nos causa medo, porque somos todos feitos para o bem e a
felicidade. Perdendo a felicidade de vista, nós nos assustamos; somos tomados por uma
inquietação que nos leva ao sofrimento quando não podemos ver a realidade como ela é.
Compreendendo tudo, perdoamos tudo. E o perdão só existe quando percebemos
que, na realidade, nada temos de perdoar. Assim é o perdão do Pai. A civilização ainda
não-avançou o suficiente para entender que todo criminoso é um doente que não é
responsável por seus atos, do mesmo modo que os loucos. Ambos precisam de cura, não
de prisão.
Na presença do amor todos nós mudamos, mesmo quando o amor é duro. Não
devemos nos esquecer de que a reação do amor é sempre aquela que a outra pessoa
necessita, porque o amor verdadeiro é clarividente e é compreensivo. Sempre está a
favor do outro.
Não existe criança má, não existe homem mau. Existem os enganados, os
programados e os loucos. Batendo no homem ou colocando-o na prisão, não o curamos.
Talvez possamos mudar seu comportamento através da pressão excessiva, causando-lhe
medo, mas jamais mudaremos a doença que o faz agir assim, sua compulsão. Ela pode
ser reprimida, mas voltará mais tarde e haverá de manifestar- se com maior
agressividade e violência.
Na maior parte dos casos, os atos compulsivos têm origem na repressão sexual,
manifestando-se de uma forma simbólica — como a cleptomania — para a satisfação de
desejos que estão reprimidos no inconsciente. Se não os descobrirmos e dermos
passagem livre à sua repressão, os atos compulsivos continuarão ali e jamais serão
curados, por mais que procuremos modificar a conduta da pessoa.
Se conseguíssemos descobrir a origem de nossas repressões, nós nos curaríamos
para sempre. Por isso é tão importante nos conhecer a fundo, estar bem acordados.
Conhecendo a nós mesmos, facilmente conheceremos os outros.
O inconsciente humano tem uma importância enorme. Ele é bastante delicado e
de sensibilidade enormemente complicada, com exemplos de causa e efeito que, se
descobertos, permitiriam resultados quase mágicos. Mas, sem conhecer isso, como uma
pessoa poderá mudar? Fazer o mal aos outros é o mesmo que fazer mal a nós mesmos.
Quando compreendermos isso, o perdão será muito fácil para todos nós. Poderemos nos
defender dos outros, impedindo que nos magoem, mas sem sentir ódio algum, apenas a
compreensão do amor clarividente.
O homem é livre, mas não existe liberdade que nos permita distorcer o bem. Só
fazem o mal os loucos ou aqueles que estão adormecidos — isto é, aqueles que não
sabem o que é a liberdade, ou que não têm liberdade para ser autênticos — porque são
escravos de suas compulsões ou de seus medos. Sua motivação é o ressentimento e o
egoísmo que os torna cruéis. Temos de nos defender dos seus atos, mas não devemos
confundir o doente com sua enfermidade e condená-lo.

EXERCÍCIO

Pense em alguma coisa que você tenha feito no passado e que, quando recorda,
provoca em você sentimento de culpa. Tente entender que, como aquilo que fez tinha
para você uma parte agradável, essa parte não permitiu que você visse a injustiça, ou foi
mais forte do que ela. Você estava agindo sob os efeitos de sua programação de
preconceitos, paralisado e hipnotizado por ela, acreditando que a felicidade estava em
fazer aquilo. Não é mesmo? Então vejamos se você consegue ver o que aconteceu como
consequência de uma doença da qual gostaria de curar-se.
Se você perceber isso é porque está despertando para a realidade, está sendo
sensibilizado. E onde existe sensibilidade — abertura para a verdade — não pode haver
pecado. Talvez você esteja doente e precise da cura, de despertar para a realidade. Mas,
se já consegue ver isso, é sinal de que está conseguindo, e já sabe porque age dessa
maneira.
E veja se consegue perdoar a si mesmo, sem sentir mais nenhuma culpa nem
ressentimento. Se de fato compreendeu a situação e aceitou o seu papel nela, não terá
mais remorsos nem sentirá rejeição ao recordar os fatos passados.
Agora procure pensar em alguma rejeição, ofensa ou injustiça que recebeu de
outra pessoa. Foi mesmo uma ofensa? Ou foi o seu medo e insegurança que o fez sentir-
-se ofendido? Também é possível que a outra pessoa não soubesse como agir. De
qualquer maneira, você deve entender que, agindo desse modo, a outra pessoa
prejudicou mais a si mesma do que a você. Você consegue ver as coisas assim?
A outra pessoa é inocente, muito embora tivesse reagido como louca, nesse
momento em particular. O importante mesmo é que ela não tem capacidade para
ofender você, nem com palavras, nem com atitudes e nem com gestos. Foi a sua
insegurança que se sentiu atacada e colocou em guarda os seus mecanismos de defesa.
Procure recompor a situação e verá que de fato é assim.
Que é o pecado? O pecado existe, mas é um ato de loucura. Você deve
preocupar-se apenas em desmontar a programação a que está sujeito, e não com o que
qualquer pessoa possa dizer.

SIM, MAS...

Existe um jogo psicológico, o do triângulo, que se costuma chamar de jogo do


"Sim, mas..." É como o relacionamento entre duas ou mais pessoas. Um psicólogo que
era um verdadeiro gênio achou que todos nós, nesse jogo, assumimos
irremediavelmente um dos papéis do triângulo: o de perseguidor, o de salvador, ou o de
vítima.
O perseguidor age sob a influência da agressividade.
O salvador é influenciado pela culpa.
A vítima, por sua vez, deixa-se levar pelo ressentimento.
Se você entrar no jogo, sem dúvida alguma acabará sofrendo as consequências:
queimar-se-á. Suponhamos que estou cansado e preciso de algum tempo para mim
mesmo, e você vem a mim com uma expressão de vítima no rosto, reclamando minha
atenção. Eu, incapaz de dizer não a quem quer que seja, vou e marco hora com você
para depois do jantar. A partir daí, vou me sentindo cada vez mais ressentido por causa
da sua intromissão e acabo ficando furioso por ter atendido o seu pedido. Então você
chega; eu me contenho e o recebo bem. Mas, quando vejo que nada havia de importante
no que tinha a me dizer, vou ficando impaciente, até que a raiva me sai pelos poros.
Assim, com violência, acabo interrompendo: "Vamos, pare de me amolar com esse
problema a esta hora!" Aí explode a tragédia. Se eu tivesse dito que não podia atendê-lo,
tudo isso teria sido evitado a tempo. Mas, por não saber dizer não, eu fiz os papéis:
de salvador, quando disse que sim;
de vítima, quando fiquei chateado por dar a você os momentos que não podia
dar;
e de perseguidor, porque acabei agredindo você.
Que há de positivo em tudo isso?
Mas a coisa não para aí, porque, mais tarde, sinto-me culpado e arrependido.
Assim, logo de manhã vou com toda amabilidade e pergunto como você vai indo. Você
então aproveita da minha boa disposição para pedir uma nova entrevista. O leitor
entende o jogo? Querendo fazer- -me de salvador, deixei-me usar e, como
consequência, passei de vítima a perseguidor. E o pior é que você continua com a
mesma atitude, sem ter aprendido coisa alguma.
Na verdade a culpa é toda minha, por ter-me envolvido no jogo e deixar-me
enredar por ele, quando podia ter sido sincero logo no princípio e dito que não. Aí vale
lembrar o provérbio que diz: "Se você deixa a porta aberta, quem entra são os fortes e os
fracos ficam de fora". Em outras palavras deixar a porta aberta para todos, sem qualquer
distinção, é uma coisa muito perigosa.
Temos o costume de nos considerar bonzinhos e atenciosos, mas não
percebemos que o defeito de não saber dizer não é causado pela covardia, egoísmo e
hipocrisia, porque todos gostamos de parecer bonzinhos, muito embora, por dentro,
estejamos a ponto de explodir. Todo o mundo, em algum momento, diz sim, quando na
verdade gostaria de poder dizer não. E agimos assim por causa da sensação de culpa
gravada em nossa mente e pensando na nossa boa aparência, isto é, naquilo que os
outros possam pensar de nós. E desse pecado sofremos a penitência. Só no momento em
que deixarmos de nos importar com o que os outros possam pensar a nosso respeito,
porque não precisamos disso, só então é que começaremos a saber amar as pessoas
como elas são, e a lhes dar sempre a resposta mais apropriada. Na verdade é nosso
"ego" que nos faz sentir a necessidade de que os outros precisem de nós, para que
possamos nos sentir importantes.
Vejamos alguns exemplos de como age o salvador (4 casos que demonstram
claramente):
1°. quando nos dispomos a ajudar outra pessoa, muito embora, na verdade, não
vejamos as coisas com clareza ou não entendamos por que nós temos de fazer aquilo, e
não outra pessoa; ou ainda quando ninguém pede ajuda e nós nos oferecemos.
2°. quando nos dispomos a dar ajuda porque outra pessoa nos pede, embora não
tenhamos o desejo de ajudar.
3°. quando tentamos ajudar, sem antes insistir que a própria pessoa se ajude.
4°. quando alguém precisa de nós, mas não o diz claramente, esperando que
adivinhemos sua necessidade.
10

O texto é a vida

É muito importante nos despojar de ilusões e emoções que não têm cabimento,
porque não são reais. Através das ilusões ninguém jamais conseguirá alcançar a
liberdade nem a mística. Sócrates diz: "A vida não conhecida não vale a pena ser
vivida". É preciso desfrutar das coisas, conhecê-las e escolher aquilo que é mais
construtivo. E importante desfrutar de tudo, mas não apegar-se a coisa alguma. Quando
conseguimos chegar ao desapego total, passamos a desfrutar muito melhor de tudo, pois
somos mais livres para nos divertir com cada coisa, sem apego a nenhuma.
A dúvida é essencial para a fé. O único inimigo da fé é o medo, e não a dúvida
porque, se não duvidamos, não questionaremos nem poderemos fortalecer nossa fé,
podendo cair muito facilmente no fanatismo. Fanático é aquele que não perde uma
oportunidade de questionar as coisas, mas se alguém as questiona na sua presença ele
fica horrorizado, porque teme que o façam duvidar. Não devemos nos esquecer de que
conforme vivemos nesta vida, viveremos na outra. É agora que temos de procurar a
verdade por nós mesmos.
O primeiro questionamento de toda pessoa que caminha na direção da
iluminação é este: Estarei louco, ou loucos são os outros? Se nós nos incomodamos ao
atacar nossa própria doutrina, é um mal sinal. Por que não ouvimos para então
questionar? Não é válido tampouco colocarmos nossa segurança nas mãos de pessoas
que pensam como nós. É importante ouvir e fazer um questionamento a partir de nós
mesmos. Essa responsabilidade é apenas nossa, não podemos delegá-la a outra pessoa,
por maior que seja o seu prestígio e credibilidade. O verdadeiro nome da fé é abertura.
A fé não é inamovível e precisa ser continuamente renovada para que se mantenha vida.
Nunca podemos estar certos do lugar onde a fé vai chegar. E é precisamente essa fé que
redime a vida, deixando morto o passado e empurrando-nos para o presente. O presente
é vida, e só aqui, no presente, está Deus e está a Eternidade. Por isso é preciso viver
acordado, vigilante, para não perder nenhum instante da vida.

QUESTIONEMO-NOS

Para despertar, devemos questionar cada crença que temos e todas as que nos
vêm de fora. Se não nos agarrarmos a nenhum conceito, coisa ou ideologia, será fácil
descobrirmos imediatamente onde está a verdade e a realidade, que é a vontade de Deus
escrita na vida. Mas há pessoas que não estão dispostas a isso. Alguém conseguiria
convencer o capitalista a questionar seu capital? Ou os políticos a questionar suas
próprias ideias limitadas? Impossível, pois estão demasiadamente apegados às suas
razões materiais.
A palavra não descreve a realidade, mas apenas a indica. A realidade não pode
ser expressada na sua profundidade e em seus matizes, porque a palavra não é capaz de
contê-la. Por isso, os místicos garantem que é impossível expressar a realidade de Deus.
Do mesmo modo, a Bíblia apenas nos indica o caminho, como também acontece
com as escrituras muçulmanas, budistas etc. Por isso, já foram cometidos enormes
abusos de interpretação das Escrituras, quando se pretendeu aplicá-las de modo literal.
Já mencionamos o que aconteceu nos séculos passados, como a queima de hereges em
fogueiras e outras barbaridades, por pretender-se dar à Bíblia uma interpretação ao pé da
letra.
Todos os fanáticos gostariam de agarrar-se a seu Deus e torná-lo o único. Até
nós, os católicos, tomamos ao pé da letra a expressão "único Deus", e pretendemos fazê-
lo apenas nosso. Não é costume publicar as barbaridades e crueldades que já se
praticaram em defesa de ideias como a de que "apenas dentro da fé católica está a
salvação", ou a de que as pessoas não batizadas estão condenadas para sempre. Tudo
isso poderá ser revelado nos séculos futuros. Existe ainda muito fanatismo escondendo
erros, por medo de que se possa perder uma imagem à qual as pessoas se prendem.
A mesma coisa acontece com os fanatismos históricos, nos quais a religião
também esteve presente. Colombo não descobriu a América, porque ela descobriu-se
sozinha. Era uma terra povoada, que tinha um tipo de vida e de cultura, além de suas
próprias crenças. O que Colombo descobriu ao chegar ao continente americano foi a
enorme ignorância dos europeus, que não sabiam de sua existência. E não houve, por
parte dos "descobridores", respeito algum com o que já havia ali. Mudaram-se os nomes
e os sobrenomes, as crenças, o modo de viver e de expressar a cultura. Em nome da
"civilização" e da religião tudo foi destruído, sem qualquer tipo de discriminação, e os
tesouros foram todos saqueados, antes mesmo que seu valor fosse conhecido. Nenhum
missionário foi capaz de reconhecer a riqueza das culturas da América e dos seus
conhecimentos, de sua filosofia e de suas crenças. Eles não podiam reconhecer qualquer
cultura ou fé que fosse "diferente", porque haviam sido doutrinados e programados por
seu papel de "salvadores". Apoiavam-se na crença de toda uma Igreja cujo Papa tomou
para si a posse do mundo para repartir aquelas terras entre espanhóis e portugueses, com
a finalidade de "converter" os seus habitantes. E isso tudo foi feito porque as Escrituras
eram interpretadas ao pé da letra.
Outro tanto aconteceu com Galileu, que, em sua reunião com bispos e cardeais,
só pediu que olhassem pelo telescópio. Eles se negaram, porque, para eles, olhar
significava duvidar da Palavra de Deus, já que a interpretação que se dava à Bíblia era a
de que o Sol dava voltas ao redor da Terra. Duvidar disso era considerado heresia.

A BÍBLIA E O TELESCÓPIO

Por isso digo: devemos ter cuidado ao ler a Bíblia! É preciso lê-la com lógica,
tendo em mente a cultura dos povos que a escreveram, cuja iluminação transmitida nada
tem a ver com o contexto de onde eles escrevem. Uma coisa é a mensagem, outra é o
tempo e as formas. É preciso ler com a mente aberta, sem nos apegar às formas,
sabendo compreender sua essência. Jesus também foi rejeitado como um herege. Ao ler
as Escrituras, temos de ter a Bíblia numa das mãos e um telescópio na outra.
Sempre se deve buscar a verdade. O mais importante de tudo é a verdade, venha
de onde vier, seja da ciência, de Buda ou de Maomé. O que importa é a descoberta da
verdade no ponto em que todas as verdades coincidem, porque a verdade é uma só.
Ninguém deve ter medo de olhar pelo telescópio.
Existem muitos santos que, sem conhecer a Bíblia, encontraram a realidade. O
verdadeiro texto é a vida. A Bíblia aponta para a vida, e por isso é um meio. Mas
também é um mito, que trata de explicar com palavras aquilo que é inexplicável, em
forma de histórias, para que possamos tirar dela o significado da vida, que é a
mensagem de Deus.
Alguns mitos são históricos, outros não. A vida de Jonas não é histórica, mas a
de Jesus sim. Nossa mente não está preparada para ver a realidade da vida e fica nos
conceitos que tratam de exprimir a mensagem desses mitos. A vida histórica de Jesus
transformou-se em um mito, e é preciso desmitificá-la para recuperar o frescor de uma
mensagem que está tão viva como sempre esteve. Devemos deixar fora da Bíblia os
fanatismos, os limites culturais, os costumes e os preconceitos do povo judeu daquela
época.
Ao celebrar a Eucaristia, Jesus toma o pão e o vinho, que eram a comida diária
dos pobres, a mais acessível em sua terra. Em outros países até hoje é preciso importar
pão e vinho para celebrar a Eucaristia. Por quê? É que alguns jesuítas missionários se
escandalizaram quando viram povos orientais celebrando com pão de arroz e suco de
frutas, que era a comida mais acessível que tinham. Afinal, o que é mais importante: a
essência ou a forma? A mensagem ou o modo de transmiti-la? Devemos sempre
diferenciar entre o essencial e o adicional, e não considerar os erros como verdades.
Com a sua teoria da relatividade, Einstein conseguiu provar que a linha reta nem
sempre é a distância mais curta entre dois pontos, mas que, em alguns casos, uma curva
pode aproximar esses pontos. Se vemos uma coisa clara e a conseguimos provar, vamos
precisar de muita coragem para demonstrar algo que vai contra as crenças gerais, aceitas
pela sociedade e pela religião. Seremos chamados de loucos. Os cientistas têm a
vantagem de poder demonstrar suas teorias, enquanto os iluminados só podem viver sua
fé. No entanto, as teorias não curam, e a fé sim. Ambas podem estar certas ou erradas. É
preciso tirar delas os preconceitos culturais e fanáticos, para provar a verdade. É
importante olhar não para o dedo, mas para onde ele aponta, se quisermos descobrir a
verdade. Nisso a Bíblia pode nos ajudar muito, pois revela os dados e as atitudes que
nos aproximam da verdade.
O AMOR É CLARIVIDENTE

Perguntaram a Beethoven o que ele pretendia expressar com a 3° Sinfonia, e o


grande mestre da música respondeu: "Se eu pudesse expressar com palavras o que ela
significa, não precisaria expressar com música". Só as pessoas sensíveis são capazes de
desfrutar da beleza. Apenas aqueles que têm muito senso de humor podem compreender
o aparente despropósito da vida. Em virtude de termos a palavra "Deus", e de
associarmos essa palavra às ideias com as quais fomos programados, somos incapazes
de descobrir a Deus na vida atual e cotidiana, e nas pessoas que passam ao nosso lado.
Aqueles que amam a beleza são capazes de captar a Deus, porque amam a vida e as
pessoas. Só o amor é clarividente. Quando não precisarmos mais nos agarrar às palavras
da Bíblia, então as Escrituras se transformarão, para nós, em uma coisa muito bonita e
reveladora da vida e de sua mensagem.
É triste que a Igreja oficial tenha-se dedicado a enquadrar o ídolo, encerrá-lo,
defendê-lo, quantificando-o sem saber olhar para o que realmente significa.
A melhor maneira de nos aproximar da verdade é passar bastante tempo olhando
para o mar, para o campo, para a natureza e, sobretudo, reparando nas pessoas como
seres novos, sem preconceitos nem lembranças, e que as escutemos de dentro, com o
nosso coração escancarado, compreendendo-as e amando-as. Esta é a melhor oração.
Um dia nos veremos diante do assombro de termos sido prisioneiros dos preconceitos e
de nosso próprio "ego". Então veremos como é bela a Bíblia, que nos aproxima da vida
e jamais nos afasta dela. Teremos então encontrado a interpretação da Bíblia e, nela, o
manual para compreender melhor o significado da vida.
"Era uma vez um filhotinho de leão que se perdeu e acabou misturando-se a um
rebanho de ovelhas. Ali ele cresceu e passou a achar que era uma ovelha, como os
animais que o cercavam. Um dia, veio um leão adulto e assustou as ovelhas, que
correram para ficar a salvo. O pequeno leão também correu apavorado. Mas foi
alcançado pelo leão adulto, que caçava as às ovelhas, e lhe disse: 'Não me coma, por
favor!' Sem responder, o leão adulto o agarrou e arrastou até a beira de uma poça
d'água, obrigando o filhote a olhar bem para sua imagem refletida. Ao ver como era na
realidade, o leãozinho despertou de sua ilusão e passou a comportar-se como verdadeiro
leão que era."
Isso é o que tem de acontecer conosco, depois deste curso: despertar para ver
claramente que somos leões, e não ovelhas.
CONTRA CAPA

A sociedade canoniza apenas aqueles que se conformam a eia. Era assim no tempo de
Jesus; por isso o assassinaram. Quem você acha que matou Jesus? Os maus? Não. Ele
foi assassinado pelos bondosos de plantão, os mais respeitados e acreditados daquela
sociedade. E você, se não andar com cuidado, acabará assassinando Jesus enquanto
estiver dormindo. Desperte! Desperte para entrar na verdade e descobrir quais as
correntes que o impedem de se autolibertar. E a alegria que provará estará livre de toda
forma. Desperte!