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386 Notas e Resenhas GEOGRAFIA

CONTINENTE EM CHAMAS: GLOBALIZAÇÃO E


TERRITÓRIO NA AMÉRICA LATINA1

GEOGRAFIA, Rio Claro, v. 30, n. 2, p. 386-387, mai./ago. 2005.

O livro Continente em chamas: globalização e território na América Latina, organi-


zado por María Laura Silveira, geógrafa e professora doutora na Universidade de São
Paulo, traz uma série de textos de pesquisadores latino-americanos que se debruçam
na compreensão do processo de globalização nos territórios nacionais da América Lati-
na.
A obra, que congrega sete trabalhos, destaca, no seu conjunto, como a renova-
ção técnica-material dos territórios latino-americanos, juntamente com uma condução
política historicamente coagida e orientada por interesses de agentes externos, hoje
sobretudo as grandes empresas estrangeiras, reafirmam o caráter também histórico da
América Latina como um “espaço derivado”.
A questão da globalização e os processos de exclusão social no México são trata-
dos no texto de Daniel Hiernaux-Nicolas, onde o autor destaca como o processo de
globalização, principalmente através da abertura dos mercados, transforma a realidade
do território mexicano a partir da década de 80, tornando diferenciadas as formas de
inserção das regiões mexicanas aos novos processos e orientações produtivas do terri-
tório. Exemplo deste processo é a chamada “marcha para o norte”, com a concentração
da indústria maquiladora, ou mesmo na porção sul, onde esta região “menos integrada”
se destaca pelo movimento de resistência zapatista.
O processo de globalização e os desafios impostos à Venezuela são objeto de
preocupação no trabalho de Delfina Trinca Fighera, onde são destacadas a gênese do
território venezuelano e a aceleração de suas transformações no período atual.
O texto de Gustavo Nontañez Gomes versa sobre os equipamentos do território
colombiano, enfatizando as redes técnicas de transporte e de comunicação no país e as
atuais transformações na estrutura produtiva nacional, onde determinadas regiões se
destacam por uma maior inserção na produção globalizada, enquanto outras, que rece-
bem menor atenção do poder público, se destinam por exemplo aos cultivos ilícitos
voltados para o narcotráfico.
Álvaro López Gallero apresenta as transformações no território uruguaio,
enfatizando as características da população e dos setores de maior destaque na econo-
mia do país. A causa da recessão econômica no Uruguai, reforçada neste período de
globalização, é entendida pelo autor como um resultado da política neoliberal que de
forma permissiva acabou por deixar ingressar mercadorias e serviços estrangeiros que
impactaram todos os setores produtivos nacionais.
A política neoliberal praticada no território chileno é tratada por Luis Riffo Perez. O
autor aponta como nos últimos vinte e cinco anos a globalização produziu, na medida
em que o território aprofunda a sua inserção na economia global, profundas mudanças
econômicas e sociais no território chileno.
A modernização corporativa do território argentino, com a instalação de infra-
estruturas técnicas para a produção, se dá de forma orientada para os interesses do
mercado, mostrando uma lógica de uso territorial que é pautada numa racionalidade
alheia às necessidades nacionais, tal como demonstra María Laura Silveira. Assim, a

1
SILVEIRA, María Laura (org.) Continente em chamas: globalização e território na América Latina. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2005. 287 p. ISBN: 82-200-0677-9.
v. 30, n. 2, mai./ago. 2005 Notas e Resenhas 387

Argentina têm o seu território desigualmente organizado neste período de globalização,


ao mesmo tempo em que as contradições nele expressas tornam-se visíveis e mesmo
atuaram como um prenúncio à crise econômica.
O Brasil é analisado por Mônica Arroyo através das relações do território nacional
com o mercado externo. Discute-se a pauta de exportações brasileira, a adição dos
sistemas técnicos que tornam o território mais fluido para as ações do capital produtivo
com vistas à exportação, além das bases normativas que atuam como promotoras e
viabilizadoras do que a autora denomina “porosidade territorial”, expressando sobre-
maneira o modo como a produção para exportação é facilitada no território nacional.
Lia Osório Machado apresenta um texto onde a questão das zonas de fronteira
entre o Brasil e demais países latino-americanos são analisadas. As idéias acerca dos
conceitos de fronteira, Estado nacional e território são destacadas, bem como as formas
de relação entre países limítrofes, onde a autora enfatiza o caso das chamadas “cida-
des-gêmeas” e os seus fluxos e interações (de mercadorias legais e ilegais, trabalho,
etc.).
Retrato da atual situação e dos dilemas enfrentados por estes países no período
de globalização, a publicação se revela de extrema importância, dado a carência de
bibliografia, no Brasil, no que diz respeito a atual situação das formações sócio-territoriais
latino-americanas, e desta forma o livro preenche uma lacuna na produção bibliográfica
sobre a geografia da América Latina.

MIRLEI FACHINI VICENTE PEREIRA


(Professor Substituto do Curso de Geografia, DAH, Universidade Federal de Viçosa, MG. Aluno do Programa de Pós-
Graduação em Geografia, IGCE, Unesp, Rio Claro).

2
SANTOS, Milton. Da Totalidade ao Lugar. São Paulo: Edusp, 2005. 176p. ISBN 85-314-0882-2.

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