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3/06/2016

A Alfabetização (Isabel Solé)


   "Com frequência, ao falar de alfabetização, este termo é assimilado ao domínio dos
procedimentos de leitura e escrita. Talvez para você “alfabetização” signifique exatamente isso.
Embora não pretenda convencê-lo de outra coisa, gostaria de lhe explicar por que esta definição
do processo me parece restritiva e mesmo sutilmente enganosa.
     A alfabetização é um processo através do qual as pessoas aprendem a ler e a escrever. Estes
procedimentos, porém, vão muito além de certas técnicas de translação da linguagem oral para a
linguagem escrita. O domínio da leitura e da escrita pressupõe o aumento do domínio da
linguagem oral, da consciência metalinguística (isto é, da capacidade de manipular e refletir
intencionalmente sobre a linguagem; deveremos nos ocupar dele ao longo deste capítulo) e
repercute diretamente nos processos cognitivos envolvidos nas tarefas que enfrentamos (para
não mencionar o que significam em nível de inserção e atuação social). Tolchinky (1990) analisou
recentemente alguns destes aspectos.
    Por outro lado, a restrição da noção de alfabetização à linguagem escrita pode ser fruto de uma
interpretação errônea, segundo a qual esta requer instrução formal, enquanto a linguagem oral se
desenvolve de forma natural; isto explica que exista um processo concreto, o da alfabetização,
que integra essa instrução e seu resultado.
    O errôneo da interpretação anterior não recai precisamente no fato de se considerar que a
linguagem escrita requer uma instrução explícita, mas em considerar que a linguagem oral a não
requer. Em ambos os casos é necessária a presença de um adulto, de um meio social, que ajude
a criança em um processo de aprendizagem que ocorre na interação educativa, seja de tipo
formal, como acontece na escola, seja informal, como no caso da família.
    Gostaria de acrescentar também que é frequente apontar a repercussão da linguagem oral na
aprendizagem do sistema da língua escrita, e com isso todos concordamos. Entretanto, o que a
definição tradicional de “alfabetização” não acolhe é a repercussão do segundo sobre o primeiro.
É provável que você concorde se eu disser que as pessoas que aprenderam a ler e a escrever
costumam ser usuários mais competentes da linguagem – de todo a linguagem – do que os que
não passaram por essa aprendizagem.
    Por isso proponho a definição de Garton e Pratt 91991) como a mais ajustada àquilo que
realmente seria a alfabetização:

“[...] O domínio da linguagem falada e leitura e da escrita [...]. Uma pessoa alfabetizada tem a
capacidade de falar, ler e escrever com outra pessoa e a consecução da alfabetização implica
aprender a falar, ler e escrever de forma competente (p. 19-20)”.

   É lógico que existem diferenças substanciais entre a linguagem oral e a linguagem escrita, que
não serão tratadas por enquanto. Mas o fato de dispor de uma definição ampla de alfabetização
pode ser útil quando se pretende avançar na compreensão do processo que nos leva a ser
leitores eficientes.
   Neste processo, um marco fundamental é o constituído pela aprendizagem das habilidades de
decodificação. Devo lhe confessar – acho que agora já posso fazer isso – que a abordagem deste
tema sempre me preocupa. São tantas e apaixonadas as discussões que se suscitam sobre o
fato da necessidade de ensinar ou não tais habilidades e, em caso afirmativo, sobre a forma em
que é preciso fazê-lo, que não posso evitar uma certa prevenção na hora de manifestar-me em
torno de um assunto polêmico como esse. No entanto, darei minha opinião".

SOLÉ, Isabel. Alfabetização. In: ______. Estratégias de leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998. p.
50-51.