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Compromisso
Abstinência
Agulha
Grávida?!
Amor
Bomba-Relógio
Danos
Frio no estômago
Proposta
Parafuso Solto
Tempo
Laços
Marcas
Afago
Redenção
Paixão
Onde está o amor?
Céu em Chamas
Prelúdio
Falso Positivo

Monique Mendes
Copyright © 2018 Monique Mendes
Todos os direitos reservados.
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ISBN-13:

DEDICATÓRIA

À minha amada mãe e aos meus queridos leitores. Amo vocês.

CONTEÚDO

Compromisso
Abstinência
Agulha
Grávida?!
Amor
Bomba-Relógio
Danos
Frio no estômago
Proposta
Parafuso Solto
Tempo
Laços
Marcas
Afago
Redenção
Paixão
Onde está o amor?
Céu em Chamas
Prelúdio

“Mas é melhor uma verdade que dói do que uma mentira que conforta.”
Khaled Hosseini - O caçador de pipas
Compromisso

— É Hoje! — Exclamei enquanto vestia um vestido hiper apertado na cor vermelha. Ele
fazia um ótimo contraste com minha pele branca.
Senti uma sensação de queimação no meu peito. Eu finalmente iria confrontar Matteo.
Desde que consegui finalmente ficar com ele, eu tentei de todas as formas ter um
compromisso sério. Porém, toda vez que eu tocava no assunto “compromisso” ele fugia. Nós
dois tínhamos vinte três anos e havíamos nos formados na mesma turma de publicidade.
A falta de compromisso estava me deixando louca. Todos os meus amigos me diziam que
eu deveria desistir. Afinal, Matteo só queria diversão comigo. Como não havia mais nada a
perder, decidi de uma vez confrontá-lo sobre compromisso.
É claro que eu tinha um plano, e o vestido sexy era parte dele.
— Você está parecendo uma vagabunda — Minha amiga Carina disse.
— Você poderia ser menos crítica? Estou querendo seduzi-lo Carina!
— Você está com ele a mais de um ano sua doida. Ele já está seduzido — Carina se sentou
na cama enquanto eu fazia minha maquiagem. Deixei meus cabelos recém-tingidos de azul,
soltos e delineei meus olhos castanhos com lápis preto.
— Estamos juntos a mais de um ano, mas, ele não assumiu compromisso comigo! E hoje
vou dar um ultimato a ele. Mas é claro que planejo mostrar a ele o quanto é bom estar comigo!
— Ok. E se não der certo? Você pretender terminar com ele?
— Nossa! Eu ainda não tinha pensado nisto. Estou confiante — falei por fim e terminei de
passar o batom vermelho na minha boca.
— Ótimo. Desejo-te sorte minha doidinha — Carina me abraçou.
— Obrigada — falei e respirei fundo.
Eu tinha um objetivo e iria alcançá-lo.

[...]

Bochechas coradas. Olhos negros estreitos. Lábios franzidos. Expressão séria, uma mecha
do cabelo castanho de Matteo caia sobre sua face. Ele ficou alguns minutos me encarando na
porta do seu apartamento até me dar espaço para entrar.
— Nina... Isso tudo é pra mim? — Ele indagou.
— Sim e muito mais — Falo e sem perder tempo, eu enterrei meus dedos em seus cabelos,
colando rapidamente meus lábios nos dele. Em contrapartida, Matteo apertou meus quadris
enquanto minhas unhas pressionaram sua pele. Eu demorei provando da sua boca, sentindo
seus lábios macios contra os meus. Era tudo tão bom, com Matteo sempre era bom.
Interrompendo o beijo, ele me abraçou por trás e pressionou o membro em minha bunda,
senti a rigidez e vi que ele estava completamente louco de prazer. Virou-se e beijou-me com
avidez, a voracidade de Matteo sendo exposta quando ele me segurou atrás da nuca e me
puxou para intensificar o beijo.
Ele me jogou na cama, traçando uma trilha por meu corpo com beijos molhados, suaves e
intensos ao mesmo tempo. Não me sentia insegura, mas sim, serena. Sabia que dali em diante
nada mais iria atrapalhar nossa relação. Hoje era o grande dia que iriamos firmar um
compromisso.
Logo as mãos grandes de Matteo se apossaram do meu vestido, puxando-o para baixo e
deixando-me trajando apenas a lingerie preta e os saltos altos. Enquanto ele me beijava, soltei
os botões da camisa social e passei as mãos pelo tórax delineado, sentido cada músculo.
Em gestos rápidos Matteo tirou primeiro a calcinha e em seguida o sutiã, em contrapartida
ele segurava os ofegos. Voltou-se mais uma vez aos meus lábios os sugando e mordendo
levemente. Passou as mãos pelas minhas coxas e apertou minha cintura fortemente.
Com a ajuda dos meus dedos, tirei os saltos enquanto ofeguei com o beijo quente.
Matteo dava pequenas mordidas em meus lábios e depois invadia a língua novamente,
exigente, ardente, querendo mais.
Passou a língua de leve por meu pescoço, e foi descendo até ir de encontro com meus seios.
Incidiu a língua devagar em meu mamilo até eles ficarem completamente duros em sua boca.
Arfei enquanto o apertava em meu corpo. Ele juntou os dois seios em sua mão e os sugava
alternativamente. Fiquei alguns minutos fora de mim até eu pedir para que ele descesse um
pouco mais pelo meu corpo.
Logo ele chegou à parte esquerda da minha coxa e em seguida em meu centro feminino. Ele
a acariciava, fazendo-me contorcer em suas mãos, implorando por mais. Ele ia e voltava cada
vez mais rapidamente com dois dedos dentro de mim, em alguns momentos eram estocadas
rápidas e em seguida ele parava para fazer movimentos leves e circulares no clitóris úmido.
Ele levantou-se apenas pelo tempo suficiente para despir-se por completo. E rapidamente
deitou-se colocando seu membro duro dentro de mim. Devagar ele se movimentava em meio
aos nossos gemidos.
De acordo com meus gemidos ele aumentava o ritmo dos movimentos cada vez.
Beijando-me com gestos abruptos, enquanto ficamos minutos dando prazer um ao outro, até
que então ele gozou dentro de mim enquanto gemia. Ele deu um sorriso e caiu de lado na
cama.
Esperei alguns minutos até passar o êxtase do momento. E logo após, resolvi falar.
— Matteo, eu estive pensando. Estamos juntos a mais de um ano. E eu realmente acho que
deveríamos assumir um compromisso — Falei de uma vez enquanto ele quase dormia do meu
lado.
— Compromisso? – ele ficou em alerta.
— É... Compromisso – enfatizei.
— Caramba...
— Ai, por favor, Matteo. Eu não sei qual é a sua dificuldade. Eu passo mais tempo aqui
com você, do que na minha própria casa. – Sentei-me na cama.
— É, eu sei. E gosto disso, mas compromisso? Não, pensei que isto já estivesse bem claro
entre nós – disse por fim.
Respirei fundo. Merda, merda, merda.
— Ok. Então eu vou embora.
— Nina as coisas não precisam ser assim — tentou me puxar de volta pra cama.
— Prefiro ir embora com o pouco de dignidade que me resta... — falei e dessa vez Matteo
resolveu não protestar.
Vesti minha roupa rapidamente e não me despedi para ir embora. Peguei o elevador e rezei
para que ele viesse atrás de mim, porém, isto não aconteceu... Droga.
— Eu te avisei — Carina, minha melhor amiga e colega de apartamento falou quando
cheguei a minha casa.
— Eu sei que você me avisou, mas pensei que depois de um ano Matteo já tivesse resolvido
que queria um relacionamento comigo. — Eu estava decepcionada. Deitei no sofá enquanto
Carina foi fazer algo pra comermos — Sabe o que é pior? Ele sempre disse que o sonho dele é
ter uma família... Ele é louco para ter filhos! — exclamei.
— Certo, ele quer ter uma família, mas não com você — Carina falou da cozinha. O
apartamento era tão pequeno que era fácil conversar estando em cômodos separados.
— Obrigada por jogar isto na minha cara! Mas porra, qual é o problema comigo? Eu
também quero ter uma família. Acho que ele só precisa de um susto. É isto... Eu vou sumir da
vida dele, aposto que ele vai me procurar o mais breve possível! — afirmei.
— Cuidado. Se ele não te procurar, você vai ter que virar essa pagina e dar adeus a esse De
Marco...
Não, eu não iria dar Adeus para Matteo.

[...]

Passou-se um mês.
Como Carina havia dito, era hora de desistir. Fiquei três anos da faculdade pensando que
Matteo iria finalmente ficar comigo e quando isso aconteceu na nossa formatura, eu fiquei em
êxtase. Ele foi o meu primeiro e eu tinha certeza que seria o último, no entanto, depois de um
ano, nada havia mudado.
Eu não conhecia os pais dele. Saímos juntos e todos nossos amigos nos consideravam um
casal. Sexo era praticamente três vezes por semana, já que eram os dias que eu ia pra casa dele.
A meu ver tínhamos um relacionamento monogâmico, apesar de nunca ter discutimos sobre
isto, Matteo não ficava com outras garotas, afinal eu vigiava cada passo dele.
Só de imaginar que durante esse um mês que estávamos separados, ele tivesse arrumado
outra, eu queria surtar. Pensei em aceitar voltar pra ele, mesmo sem termos nenhum
compromisso. Porém, eu sabia que isto não era suficiente para mim.
Arrumei-me para trabalhar e dei pulos de alegria quando vi uma mensagem de Matteo no
meu celular:
“Preciso falar com você, me encontre no café de sempre antes de ir trabalhar”.
Respirei fundo e até troquei o terninho cinza por uma saia lápis preta. Passei uma
maquiagem, deixei os cabelos soltos e tentei meditar positividade durante o caminho do café.
Encontrei Matteo na mesa do canto esquerdo do café e logo que cheguei, ele me ofereceu
um café.
— Como você está? — Matteo indagou. Ele vestia uma blusa social preta e seu cabelo
estava um pouco mais despenteado que o normal.
— Estou bem e você? — Questionei ainda não olhando nos olhos dele.
— Estou bem... Olha, vou ser breve, tem um monte de coisas suas no meu apartamento...
Posso te levar ou você pode buscar — disse.
Todas as minhas esperanças foram por água abaixo.
— Ok. É só isto que você quer me dizer? — Perguntei.
— É... — ele disse desviando seu olhar de mim.
— Mas eu tenho algo importante pra te dizer... Estou grávida! — Joguei a bomba.
Matteo engasgou com o café e me olhou surpreso.
— Grávida? Como? Grávida? Como? — Matteo continuava repetindo as palavras.
— Você sabe, não seja idiota...
— Mas você toma anticoncepcional! — Ele esbravejou fazendo com que todos do café
olhassem para nós.
— Mas pílulas falham. As coisas acontecem...
— Eu... Eu não sei o que dizer... Eu não sei o que fazer. Minha família vai enlouquecer,
eles são tão tradicionais! Que merda — Matteo colocou a mão no rosto.
— Você tem certeza?
— É claro que eu tenho — falei com convicção. Mas na verdade tudo não passava de um
blefe, eu tinha suspeita de estar grávida, pois minha menstruação estava atrasada, mas ainda
não havia feito qualquer teste.
— Você planejou isto? Você planejou ficar grávida para se casar comigo? — ele se
enfureceu.
— Casar? Eu nunca pedi para casar com você! — Aquilo era verdade, eu só queria
namorar.
— Com um filho, não tem outra solução... Vamos ter que nos casar.
Meu coração disparou. Se eu não estivesse grávida, teria que dizer adeus a Matteo. Só um
positivo iria me salvar.
2 - NEGATIVO

Fiquei paralisada por um momento. Na mesma hora, percebi que abri a boca cedo demais.
A ideia de casar, mesmo que hipotética, me fazia suar frio.
Eu me espantei e disse:
— Ah, não seja tão exagerado.
— Pois estou falando sério — retrucou-o com ar melancólico. E depois suspirou e pegou na
minha mão.
— Nina, quero que você me prometa uma coisa.
— Sério? O quê?
— Que vamos cuidar desse bebê, juntos.
— Tudo bem, vamos cuidar dele — assenti extremamente assustada com Matteo.
— Não — disse ele, fazendo um gesto negativo de cabeça. — Isso é sério, Nina. Quero que
você prometa.
— Prometer?
— Exatamente — confirmou.
— Mas Matteo, nós terminamos no mês passado porque você não queria compromisso
comigo! E agora casamento? Não faz sentido pra mim.
— Eu sei. Mas o bebê muda tudo.
— Certo — respondi mais calma, lembrando que não fazia diferença, pois o que eu estava
prometendo era relacionado a algo que não existia.
A expressão no rosto dele iluminou-se, seus olhos brilhavam, seus lábios sorriam, e, mesmo
me sentindo culpada, eu não conseguia deixar de me sentir feliz por conta da reação dele.
— Eu te ligo depois, vamos trabalhar? — ele indagou.
— Vamos — Assenti, me sentindo ligeiramente tonta depois dessa conversa.

[...]

— Porque você está tomando pela segunda vez, uma garrafa de refrigerante? — Carina me
questionou.
Estávamos sentadas no sofá da nossa casa desde que chegamos do trabalho. Ninguém
estava a fim de fazer o jantar, então pedimos uma pizza e três garrafas de refrigerante. A ideia
de ter pedido três garrafas de refrigerante era obviamente minha.
— Preciso fazer muito xixi — respondi.
— E porque você precisa? — ela indagou ainda não prestando muita atenção no que eu ia
dizer, afinal eu sempre fazia coisas estranhas.
— Preciso fazer vários testes de gravidez — falei, tomando o último gole de refrigerante e
acabei soltando um arroto sem quer.
— Credo! E caramba, teste de gravidez? Você toma anticoncepcional sua louca, está
pirando?
— Eu sei que eu tomo anticoncepcional. Mas estou atrasada, e anticoncepcionais falham,
espertinha — joguei uma almofada nela.
— Ok, um teste é suficiente, e tenho certeza que você está pronta pra fazer ele, ande, vai
logo — Carina me empurrou do sofá.
Bufei e fui até o meu quarto que estava afastado à direita, separado da sala por apenas uma
cortina lavanda desde que eu não tinha realmente uma porta.
Peguei a sacola com os cinco testes jogados no meu guarda roupa. Peguei um deles, li as
instruções e corri para o banheiro. Muitas mulheres na minha situação estariam rezando para
um “Negativo”, porém a minha expectativa era contrária, mesmo que eu não estivesse
preparada para ter um filho eu estava louca para estar grávida.
Meu cérebro estava trabalhando em discagem lenta, qualquer coisa pra mim fora Matteo,
eram ignoradas.
Ok. Xixi no teste pronto. Era só esperar alguns segundos...
Fiquei olhando fixamente para o teste enquanto ele aparecia uma tira vermelha no começo,
quase dei um pulo de alegria, mas lembrei-me imediatamente que tinha que ter duas tiras
vermelhas para ser Positivo.
Esperei mais um pouco e vi que mais nada acontecia. Merda! O maldito negativo. Ainda
faltava mais quatro testes, algum ia dar positivo, eu tinha certeza. Joguei o teste no lixo e voltei
pra sala.
— Está grávida? — Carina questionou logo após colocando uma colherada enorme de
sorvete na boca.
— Não, que saco, não estou grávida! — Ponderei irritada.
— Calma estressada. Isto deveria ser uma ótima noticia, deveríamos comemorar, toma aqui
o sorvete — Carina passou o pote pra mim, logo após eu me sentar.
— Não porra, não é uma boa noticia. Eu estou fodida — falei e engoli o sorvete com tanta
raiva que ele desceu queimando na minha garganta.
— Você queria estar grávida? Não estou entendendo mais nada.
— Minha menstruação estava atrasada. Minhas roupas estão um pouco apertadas, e sei lá,
achei que poderia estar grávida.
— Me desculpa amiga, mas você não chegou à conclusão de que: Só está um pouco mais
gordinha?
— Não estou gorda! — sentei no sofá bufando.
Suspirei e decidi contar tudo pra Carina. Assim que terminei ela começou a gargalhar.
— Ele quer casar? — ela começou a rir após a pergunta. — Adorei. Pra quem não queria
compromisso, isto é uma loucura.
— É, eu sei. A família dele é bem tradicional, ele me disse que vem me buscar amanhã —
falei.
— Pra que?
— Conhecer a família dele — Minha voz falhou quando tentei falar.
— Nossa, isto está ficando cada vez mais louco. Você vai ter que falar a verdade, e logo —
ponderou.
— Ainda faltam quatro testes, pode ser que eu esteja grávida, aquele teste foi um erro! —
Eu ainda tinha expectativas.
— Para com essa ideia. É negativo e ponto. Liga pra ele, conta a verdade e vire essa página
— Carina deu seu ultimato.
— Virar a página porra nenhuma! Eu tenho uma ideia, não estou grávida, no momento, mas
vou ficar, isto é questão de um mês! — falei.
— Meu Deus, sério mesmo que você vai fazer isto? Você surtou? Posso te internar? Para
com essa ideia — Carina me fitou séria.
— Carina, você não vê? É a minha chance de ficar com Matteo, então, por favor. Escute-
me — respirei fundo para continuar. — Se Matteo pretender ter um compromisso comigo
depois que descobriu a gravidez, isto é um sinal de que ele só precisa de um empurrãozinho
pra ficarmos juntos. Não é nada demais...
— Nada demais? Sinceramente, eu acho que você vai se enrolar com essa história. Então,
tente resolver isto logo, porque depois, você vai ter que provar essa gravidez com exames e o
mais importante, essa barriguinha ai, vai ter que crescer.
— Eu sei, e por isto pretendo engravidar o mais rápido possível.
— Eu nem consigo lidar direito com essa história. Não vou te apoiar nisto, vou só observar.
Espero que você mude de ideia...
— Certo, vou me virar — falei por fim.
— Se você tentar fazer algo estúpido como se casar com esse cara, eu irei pessoalmente
arrastar você esperneando e gritando para longe do altar.
— Não! Você está certa, lógico. — Eu encolhi de ombros como se não fosse grande coisa,
mas minha garganta estava ficando seca, e eu podia sentir a pele do meu pescoço e bochechas
ficando vermelhas. — Eu não vou me casar, só quero um relacionamento estável...
— Bem, isso é uma droga. Mas cuidado, resolva isto em no máximo duas semanas.
— Ok —, eu forcei um sorriso —, vamos beber.

Eu não tinha certeza se Carina estava ao meu favor, tenho certeza de que ela ia acabar me
ajudando com isto, afinal, não tinha como eu resolver isto sozinha. Peguei meu celular e vi
infinitas mensagens de Matteo. Desde que conversamos no café, ele parecia que ia surtar a
qualquer momento.
“Amanhã cedo vou te buscar, me espere as oito” disse na ultima mensagem. A outras eram
infinitas perguntas sobre a gravidez. Se eu estava bem, como estava me sentindo e etc.
“Estou bem Matteo. Te espero amanhã” respondi.
Peguei uma garrafa de tequila e passei a dividir com Carina. Eu estava tão nervosa que só
bebendo eu poderia me acalmar.

[...]

A manhã veio muito cedo, e eu estava tensa de dormir na porcaria do meu sofá por toda a
noite — eu realmente não tinha conseguido chegar até minha cama. E mais, minha cabeça
estava latejando como se eu tivesse realmente me socado no rosto.
Eu me movi lentamente, me arrastando para dentro e para fora do chuveiro em uma passada
mais lenta do que o normal. Meu cabelo ainda molhado quando veio uma batida na minha
porta.
Achei que Carina tivesse ido abrir a porta, já que pararam de bater. Enrolei-me na toalha,
pois eu tinha certeza que era Matteo.
Fui até a sala e dei de encontro com Matteo vestindo uma jaqueta de couro e jeans surrados.
Ele tinha essa mania de se vestir como mendigo aos finais de semana. Matteo veio de encontro
a mim para me cumprimentar.
Eu me virei para longe dele, agarrando minha cabeça para tentar parar o giro que estava
acontecendo lá dentro, tive que correr de volta para o banheiro, pois não consegui conter o
enjoo que me deu. Merda, eu não deveria ter bebido tanto.
Quando tive certeza que não iria vomitar em cima de Matteo, fui até meu quarto e dei de
cara com ele sentado em minha cama.
— Você está bem? Você vomitou? — Ele indagou invasivo. Aproximou-se de mim e
passou a analisar minha face, logo passou a mão pela minha testa para ver se eu não estava
com febre.
Eu estreitei meus olhos para ele.
— Enjoos matinais são comuns na gravidez — ele suspirou. — Pesquisei na internet, estava
preocupado com você. — Fiquei um pouco assustada com o modo que Matteo estava agindo,
tão preocupado... Paternal. Amável.
— Oh sim. Eu estou bem, fica tranquilo. Eu vou me vestir e podemos ir — falei.
— Está bem — disse. Após vestir a roupa fui até o quarto de Carina.
— Estou indo conhecer os pais dele, daqui dois dias estou de volta — falei.
— Boa sorte e lembre-se do que te falei — disse enfiada nas cobertas.
Tentei mentalizar o que eu iria fazer a casa da família de Matteo. Eu mal sabia onde eles
moravam, Matteo falava muito pouco sobre eles.
— Pra onde vamos exatamente? — Indaguei quando entramos no carro.
— Bem, é uma cidade do interior. Fica há uma hora daqui — Matteo respondeu.
— Certo, e qual o nome dos seus pais?
— Vincenzo e Emanuela e também tenho um irmão, Martim — ele respondeu rapidamente.
— Nossa, não sabia que tinha um irmão também... — Vi que não sabia tanto da vida de
Matteo quanto imaginava.
Tivemos que parar algumas vezes no caminho, pois pelo tanto que eu havia bebido na noite
anterior, não aguentava e tinha que parar de meia em meia hora para fazer xixi. Meu estômago
estava horrível e um pouco antes de chegar à cidade, Matteo parou para comermos.
Comi um hambúrguer com batatas fritas enquanto Matteo me observava tomava um café.
Fiquei constrangida imediatamente.
— Tem maionese no meu rosto? — Indaguei.
— Não — ele riu.
— O que foi então? Estou ficando com vergonha.
— Nada —disse e focou em seu café. Eu não entendia muito bem Matteo, sabia que ele
queria ter filhos um dia, mas, do jeito que ele estava agindo era um pouco surreal. — Tenho
que te avisar algo, meus pais não sabem sobre sua gravidez. E gostaria que você não falasse
nada, por enquanto.
— Certo. Eu falo o que pra eles?
— Vou te apresentar como minha namorada. E depois quando for a hora, nós vamos contar
— disse.
— Ok — assenti.
Percebi que realmente não sabia nada de Matteo quando chegamos à sua casa.
Com jardim verde repleto de flores e fachada branca, com curvas presentes na estrutura,
janelas e portas de vidro, a primeira impressão que tive é a de uma residência que exala luxo.
Isto me assustou, pois Matteo tinha um jeito tão despojado, o apartamento dele era igual ao
meu minúsculo e minimalista.
Matteo quase me arrastou até a casa, pois fiquei extremamente envergonhada de entrar na
casa. Aquilo não era pra mim. Matteo tocou a campainha e um senhor veio nos atender.
— Bem vindo Matteo — ele disse, parecia ser o mordomo.
A primeira impressão do interior dessa casa não poderia ser diferente da que já tive ao ver
a fachada: luxo, elegância e bom gosto presentes em composições criativas e projetadas com
muito cuidado: Um lustre redondo no teto extremamente branco, com vários feixes de luz.
Quase fiquei cega ao encarar.
No centro havia uma mesa com uma escultura de vidro — que eu não tive certeza se era um
cervo ou um cavalo. — Além de dois estofados de couro modernos.
Encarei Matteo após olhar o cômodo.
— Você está suando — ele constatou após pegar na minha mão.
— Estou um pouco nervosa — admiti. Antes que Matteo pudesse dizer outra coisa, uma
senhora de cabelos e olhos negros apareceu. Ela estava trajando um vestido de linho branco,
como se estivesse combinando com a casa.
Novamente fiquei com vergonha da roupa que eu coloquei de manhã. Uma calça jeans, um
pouco velha demais e uma camiseta verde. Simples e que me deixava com cara de desleixada.
Eu estava tão zonza que não pensei na escolha da roupa.
Pela aparência tive certeza que era a mãe de Matteo.
— Meu amor, que milagre você vir nos visitar — ela o abraçou.
— Mãe, essa é a Nina — Matteo disse logo que a mãe dele me olhou.
— Namorada? — ela indagou vindo me cumprimentar. Matteo assentiu.
— Que linda, é um prazer te conhecer — ela disse me dando um abraço.
— Igualmente — falei dando um sorriso constrangedor.
— O seu pai não passou muito bem está manhã e está dormindo no quarto ainda. E o
Martim saiu correndo logo cedo também — Emanuela se dirigiu a Matteo. — Mas no almoço
nós nos reuniremos — ela disse animada.
— O que o papai teve?
— Ah o de sempre, você sabe Matteo, mas ele não da o braço a torcer — disse. — Mas,
está tudo bem, vamos até a sala de estar.
Fomos até o cômodo principal da casa, que conecta todos os demais: o predomínio do
branco na decoração, a bela escadaria em curva, os móveis sofisticados e a iluminação natural
abundante do espaço.
Sentei no sofá branco, totalmente desconfortável, pois tinha medo de suja-lo.
— Como vocês se conheceram? — Emanuela indagou. Olhei para Matteo e vi que ele iria
responder.
— Na faculdade, ela era da minha turma de publicidade — Matteo disse. Senti minha
cabeça girar novamente. Minha visão começava a ficar embaçada.
— Matteo... — minha voz saiu quase inaudível. Eu estava ficando, muito, muito enjoada.
Fiquei irritada por ter me permitido comer aquele hambúrguer inteiro. — Matteo — o chamei
de novo quando vi que ele não tinha me escutado.
— O que foi? — ele indagou.
— Eu vou vomitar — sussurrei.
— O que? — ele ainda não tinha escutado.
— Eu vou vomitar! — Exclamei. E antes que eu pudesse correr pra qualquer lugar, vomitei
no carpete.
Vergonha, total constrangimento! Que merda que eu fiz?
— Oh meu Deus — A mãe dele exclamou.
— Eu te levo até o banheiro — Matteo me puxou até o outro cômodo. Entrei no banheiro
com ele vindo atrás de mim.
— Você pode me deixar sozinha? — Pedi, parecia que ele ia ficar lá, assistindo tudo. Não
sei quanto tempo fiquei no banheiro, estava tentando recolher minha dignidade até então.
Quando sai e voltei pra sala de estar. Estava tudo limpo, carpete trocado, como se nada tivesse
acontecido.
— Me desculpa — falei indo de encontro a Emanuela. Ela me olhou, seus olhos brilhavam.
— Você está grávida! — Ela exclamou.
Droga... Eu estava cada vez mais enrolada.
Abstinência

Eu estava cada vez mais enrolada na rede de mentiras que criei. Agora que a mãe de Matteo
sabia, em poucos segundos a família dele toda saberia, e logo mais eu teria problemas com
meus pais se eles sonharem com a ideia da gravidez antes de eu contar.
— Você quer deitar um pouco querida? Gravidez no começo é difícil, enjoo, desmaio... —
Emanuela foi atenciosa.
— Ah, claro — respondi. Deitar era uma ótima ideia, eu precisava reorganizar meus
pensamentos. Matteo me guiou na escada junto com Emanuela, ambos segurando minha mão.
Fiquei assustada com aquele exagero todo, mesmo que eu estivesse grávida, não precisava
dessa euforia.
— Este é o meu antigo quarto — Matteo disse. O quarto não era igual aos outros cômodos
da casa, com uma decoração bem peculiar, pôsteres de bandas de rock, aparelhos de som e as
cores monocromáticas mostravam claramente que este era o quarto de Matteo.
— Vou pedir para trazerem água pra você — Emanuela disse e saiu do quarto.
Deitei na cama, eu estava tendo uma ressaca daquelas. Meu estomago doía, minha cabeça
ainda girava, era uma sensação horrível.
— Descanse um pouco, eu venho te ver daqui um tempo, você vai ficar bem? — Matteo
perguntou.
— Vou sim... — sussurrei.
O rosto dele abriu-se em um sorriso, e ele deu um beijo rápido na minha têmpora. Pouco
depois ele saiu e eu peguei no sono.
Eu sonhei com Matteo. No sonho, eu estava no quarto dele e assistíamos a um filme brega,
não lembro qual, e Matteo se virava para mim e acariciava minha barriga. Ele sorria e me
beijava delicadamente. Porém nos assustávamos com alguém abrindo a porta do quarto. Esta
pessoa apontou o dedo na minha direção, olhou para Matteo e falou: “Ela não está gravida, está
mentindo pra você”.
Quando acordei, vi que o lençol estava encharcado de suor, e fiquei encarando a parede à
minha frente. Respirei fundo, bebi um pouco de água e fiquei pensando. Não queria voltar a
dormir, não queria voltar aos pesadelos que me esperavam. E foi quando eu percebi — o
pesadelo não estava na minha cabeça; estava aqui, no mundo real, e por minha culpa.
Eu queria admitir a verdade. Era a coisa certa a fazer — assumir o meu erro, porém eu era
covarde demais pra isto. Não havia bebê algum e eu só tinha uma saída: Ficar grávida de
Matteo, o mais rápido possível!
Quando Matteo apareceu para me ver, decidi sair da cama, ajeitei minha aparência no
banheiro e desci com ele para o almoço. Sentadas à mesa estava Emanuela conversando com
uma moça de longos cabelos ruivos amarrados em um rabo de cavalo com franjas
emoldurando seu rosto e olhos expressivos. Ela sorriu docemente quando me viu.
— Sou Clarice, a esposa de Martim — ela me abraçou ao levantar.
— Prazer, Nina — falei. Matteo não havia citado que o irmão dele era casado.
— Então, estou sabendo da novidade! Fico tão feliz, vou querer acompanhar de perto — ela
continuou conversando. Não, nem pensar que ela iria acompanhar de perto.
— Oh! Pois é, a gente queria deixar em segredo, por enquanto, porque está no comecinho
ainda — não sabia o que falar, Matteo puxou a cadeira para que eu sentasse e sentou-se do
meu lado.
— De quanto tempo você está? — ela questionou. O pânico se instala como um nó em meu
estômago.
Fiquei muda, tentando fazer a conta. Fazia quatro semanas que Matteo e eu transamos,
então, seriam quatro semanas?
— Eu acho que são quatro semanas — falei.
— Você acha? Tem certeza que está grávida? — Eu a fitei com as sobrancelhas
arqueadas. Deus, ela estava desconfiada!
Todos me fitaram sem expressão. Parecia um daqueles pesadelos em que você está fazendo
uma prova e as perguntas continuam mudando assim que você as responde. Ou um daqueles
sonhos em que você aparece no baile da escola e percebe que se esqueceu de se vestir.
— Ela é muito nova, não sabe muito ainda, querida quando foi à data da última
menstruação? Você conta a partir dela — Emanuela explicou.
— Ah, certo, então são seis semanas — respondi. Assustei-me com o fato da minha
menstruação estar atrasada há tanto tempo, eu definitivamente deveria ir ao ginecologista.
— O papai não vai descer? — Matteo indagou.
— Ele está muito indisposto, é melhor deixa-lo dormir — Emanuela justificou. A comida
começou a ser servida, fiquei aliviada por ser fettuccine com molho branco. Não tive vontade
de pegar salada e a carne mal passada me deu arrepios.
Peguei um pouco de vinho branco para tomar, era minha bebida favorita.
— Não! Você está louca? — Matteo puxou a taça antes que eu tomasse.
— Que foi? — Indaguei sem entender.
— Grávidas não podem tomar bebida alcoólica — justificou. Droga que gafe a minha!
Emanuela e Clarice me encararam.
— Nossa! Eu me esqueci — Encho minha voz de confiança, mas estou sentindo qualquer
coisa, menos isso. Meu coração dispara mais a cada segundo.
— Cuidado — Matteo advertiu com um olhar cauteloso.
— Você pretende ter filhos? — Perguntei a Clarice tentando tirar o foco da atenção de
mim.
— Não posso ter filhos — respondeu séria. Hesitei por um momento.
— Ah que complicado — foi o que consegui falar. Isso dizia bastante pra mim, a família só
poderia ter um neto através dele, já que a esposa de Martim não poderia ter.
— Tudo bem, tem coisa que não é pra ser — Clarice disse com um olhar melancólico. Senti
pena dela, pois me pareceu claramente que ela queria ter um filho.
O silêncio ao redor da mesa tornou-se desconfortavelmente mais profundo. Estava com
medo de falar alguma coisa, pois tudo parecia ir contra mim, resolvi ficar calada e só falei
quando alguém puxou assunto comigo.
Quando o almoço acabou Matteo subiu junto comigo até o quarto dele, fiquei feliz de
finalmente ficarmos a sós.
Matteo se senta na cama e bate de leve na coxa. Vou até lá e me acomodo no colo dele. Ele
afunda o rosto nos meus cabelos para inspirar meu perfume e passa o braço pela minha cintura
para me trazer mais perto.
— Mais tarde, no jantar, Martim e meu pai vão estar juntos, vamos dar a noticia... —
Matteo disse.
— O seu pai não vai se assustar? — Questionei.
— Vai... Mas é melhor nós contarmos, se não minha mãe vai acabar falando.
— Entendo. Seu irmão queria ter filho?
— Ele e a Clarice queriam, já fizeram de tudo, até mesmo inseminação, acabou dando certo
uma vez, mas ela perdeu um tempo depois...
— Caramba, que barra — falei e logo após me deu um calafrio, e se eu tivesse problemas
pra ter filhos? Isto explicaria o problema com minha menstruação.
— Você é impossivelmente linda — Matteo diz analisando minha boca. Fico tensa e
indecisa sobre ele. Havia mudado tão der repente.
— Porque está me bajulando?
— Porque eu gosto de você — diz. E eu penso que é a melhor declaração do mundo.
— Há um mês você me deixou.
— Eu sei, mas você estava me pedindo algo absurdo...
— Absurdo? E casamento é o que agora?
— A situação é outra Nina.
— Matteo, por favor. Eu não quero que fique comigo só porque estou grávida — falar com
tanta convicção me fazia pensar que eu realmente estava.
— Nina, não pense nisto — Matteo diz passando a mão pelos meus cabelos.
Ele passa as mãos pelas minhas pernas, dos tornozelos à parte de trás das coxas, e então me
puxa com força ao encontro de sua boca. Sua invasão me reduz a gemidos, enquanto ele passa
a língua em cada centímetro de mim — com conhecimento, com vontade. Minhas mãos vão
parar em seus cabelos, e meus quadris ondulam em direção a ele, sem a menor contribuição do
meu cérebro. Matteo se afasta tirando sua camisa.
Ele me observa com olhos cheios de desejo e promessas, ao mesmo tempo em que baixa
sua calça, libertando seu membro ereto. Perco a respiração. Não sei por que, já o vi nu várias
vezes, mas ainda perco o fôlego. Subo os olhos passando pelos músculos peitorais perfeitos.
Nunca vou me cansar de admirar o físico fantástico do homem diante de mim – nunca.
— Quer brincar um pouco? — ele sussurra puxando minha blusa.
— O que tem em mente? — eu o acaricio com o rosto enquanto ele lambe minha orelha,
fazendo a pulsação em meu sexo começar, sutil e lenta. Ele se afasta para puxar minha calça, e
a ausência do calor de seu corpo me faz sentir frio e querer puxá-lo de volta.
Eu o encaro, e meu coração começa a bater a toda velocidade, estava certa que engravidaria
nesse momento. Havia dado pausa no anticoncepcional para vir minha menstruação e como
não veio, resolvi parar o anticoncepcional até então.
Ele puxa os bojos do meu sutiã para baixo, expondo meus seios, e passa a palma das mãos
pelos meus mamilos. Meus seios doem com aquele toque, estavam estranhamente inchados.
Passa um tempo fazendo grandes círculos no meu ventre e então continua descendo, o calor de
suas mãos se aproximando do meu ponto mais sensível, me deixando tonta de desejo.
Ele projeta o quadril para frente e para cima, colidindo e se esfregando contra o meu sexo.
Eu suspiro de prazer puro e desinibido.
Sinto um movimento brusco, ouço algo se rasgando e então vejo minha calcinha pendurada
em seu dedo indicador, diante de mim. Ele a joga no chão e a outra mão vai parar no meu
quadril. Eu me contorço de leve, e ele ri no meu ouvido. Seus dedos se movem para dar a volta
no meu quadril, me expondo.
Meu sutiã é removido e jogado de lado. Inclinando-se, ele beija minha nuca e sopra seu
hálito fresco nela, provocando um arrepio com a mistura do calor da língua e do frescor do
sopro. Inclino a cabeça para o lado e giro os ombros para aliviar a agitação do meu corpo todo.
— Você está tão molhada — ele murmura na minha orelha enquanto enfia um dedo em
mim. Imediatamente contraio meus músculos em volta dele, Matteo retira o dedo e esfregando
o líquido no meu clitóris, antes de me invadir novamente com dois dedos. Solto um grito.
Sinto seu membro forçar a entrada do meu sexo e, na intenção de estabilizar minha
respiração, inspiro profundamente, tentando relaxar e esperando a penetração a qualquer
momento. Esta é a pior forma de tortura. Ele se inclina sobre mim, sua língua quente e úmida
tocando as minhas costas, lambendo uma linha reta na minha coluna, terminando com um beijo
leve na minha nuca.
— Está pronta para mim, Nina? — ele pergunta com a boca na minha pele, a vibração de
seus lábios mandando tremores de prazer direto para o meu sexo.
Sinto sua mão pela minha nádega enquanto ele se posiciona e então levo o maior susto da
minha vida, alguém abriu a porta do quarto dele.
Matteo deu um pulo com o susto e quase caiu da cama.
— Oh meu Deus! Desculpem-me, me desculpem... — era a mãe de Matteo, no mesmo
segundo que ela entrou ela saiu batendo a porta do quarto.
— Nossa, não acredito que minha mãe nos viu desse jeito — Matteo diz passando a mão
pelo rosto e depois ri.
— Você está rindo, eu estou quase morta de vergonha! — Exclamei.
— Eu vou sair e ver o que ela quer, me espere — diz depositando um beijo em meus lábios,
logo após colocou sua roupa.
Eu não sabia aonde iria enfiar minha cara. Já havia vomitado no carpete da mãe dele e
agora ela tinha nos visto pelados. Nunca mais iria sair daquele quarto. Peguei uma coberta para
me cobrir e pouco depois Matteo voltou.
— Nós não podemos transar — disse sentando-se ao meu lado na cama.
— Aqui?
— Não só aqui, enquanto você estiver grávida não vai ter sexo...
Congelei.
— Por quê? Não estou tão desejável? — Indaguei, está certo que eu estava mais gordinha
que o habitual.
— Não é isto, mas isto pode prejudicar o bebê... Vamos nos abster. — disse.
— Não, isto não faria mal ao bebê, quem te falou isto?
— Minha mãe...
— Aaah Matteo, por favor, isto não é verdade — falei tentando beija-lo.
— Não — ele advertiu. — Vou tomar um banho pra acalmar.
Fiquei perplexa, mas estava pronta para convencer Matteo do contrário e vencer essa
batalha. Sexo. Apenas sexo preenchia minha cabeça naquele momento. Levantei da cama e fui
até o banheiro atrás de Matteo, vi que a porta estava aberta e corri para entrar. Porém, Matteo
me viu e fechou a porta na minha cara.
— Droga! — Exclamei.
Agulha

Meus nervos estão em frangalhos. A primeira coisa que fiz no dia seguinte foi pensar nas
possibilidades que eu tinha para engravidar. Cheguei a pesquisar no Google na noite anterior
se sexo era permitido na gravidez. O ponto positivo era que era permitido, o negativo era que
sexo sem camisinha não era recomendado. Logo retornei a estaca zero, como eu iria convencer
Matteo a transar comigo?
No café da manhã tive a surpresa de ver o pai de Matteo sentado à mesa. Emanuela estava
do lado direito dele, fiquei tão envergonhada ao vê-la que mal pude olhar em direção a ela.
— Estou muito feliz em te conhecer — Vincenzo me disse ao me cumprimentar.
— É um prazer te conhecer — falei e sentei-me ao lado de Matteo. O cheiro de pão estava
fazendo meu estômago roncar.
— O que quer tomar? — A empregada indagou.
— Ah um café, em uma xicara bem grande — pedi. Eu era viciada em café.
— Está louca? Você não pode tomar café, faz mal para o bebê — Matteo disse.
— Como sabe disso? — Perguntei, Matteo estava bem informado sobre gravidez.
— Baixei o aplicativo Gravidez Plus, você deveria baixar também.
— Ok... Então um suco de laranja — pedi desolada. Como eu iria sobreviver sem café?
— Então Nina, sua família reagiu bem? — Vincenzo indagou. Meu coração começou a
bater em ritmo acelerado e fiz o possível para ignorar aquela sensação.
— Acho que ela ainda não teve tempo pra contar pra família — Emanuela interrompeu.
Fiquei aliviada em não precisar interromper. Neste momento percebi que Clarice e nem
Martim estavam no café.
— Ainda não contei, meu pai é um pouco difícil de lidar.
— Se precisar de ajuda, Emanuela e eu vamos falar com eles, afinal vamos ser uma família
em breve — Vincenzo disse sorridente. Neste momento Martim e Clarice apareceram.
Levantei para cumprimentá-los, ainda não havia tido a oportunidade de conhecer Martim.
— Prazer em conhecê-la, desculpe por não cumprimentá-la ontem, cheguei muito tarde do
trabalho ontem — Martim disse.
— Ah, tudo bem, que bom conhecê-lo — falei. Clarice simplesmente ignorou minha
presença e se sentou no lado esquerdo da mesa. Ela parecia bem irritada.
— Papai, acordou disposto hoje? — Martim questionou sentando-se ao lado dele.
— Estou melhor, como estavam os negócios? Demorou pra chegar ontem...
— Ah pai, eu te conto mais tarde no nosso escritório. Vamos tomar café — Martim
desconversou.
— Está bem. Matteo... — Vincenzo voltou sua atenção a nós. — Pra quando está
planejando o casamento?
Inclinei a cabeça para trás e dei um suspiro.
— Daqui uns seis meses — Matteo respondeu. Opa! Nem disso eu sabia.
— Não, não, não — Vincenzo maneou a cabeça, contra a ideia. Merda! — No máximo em
três meses devem se casar. A barriga da moça vai aparecer Matteo, tem que se casar antes que
apareça — Vincenzo foi enfático. Arregalei os olhos com a ideia, casar em três meses? Meu
Deus, isto era mais do que eu estava esperando.
— Vamos ter que apressar isto. Já estou preparando a cerimônia — Emanuela disse. Pensei
que Matteo fosse interromper e dizer que era loucura, porém ele apenas assentiu.
—É preciso ter calma com o casamento, saber se é a pessoa certa... Porque depois, você
casa e aquela pessoa que você tanto confiava, acaba mentindo pra você! — Clarice disse.
Fiquei espantada com a dureza das palavras dela.
—Clarice, por favor... Já conversamos sobre isto — Martim tentou amenizar.
— Se o seu casamento é ruim, não tente atrapalhar o dos outros — Matteo rebateu.
— Se acalmem a Clarice está certa. Se têm algo que não tolero é a mentira! — Vincenzo
disse e eu estremeci.
Dei um sorriso amarelo e concordei com a cabeça. Senti o coração disparar, será que eles
estavam sabendo de algo? Ah não, era impossível...

[...]

Mais tarde chamei Matteo para conversar no quarto dele.


— Matteo... Não acha que estamos sendo precipitados? — Cruzei os braços e olhei para ele
atentamente.
— Com o casamento? Não há saída Nina. Quando se têm um filho à única saída é o
casamento... — ele sentou-se ao meu lado na cama.
— Mas... Você vai casar comigo somente pelo bebê, é isso? — Franzi o cenho. A ideia de
que Matteo estava se casando comigo só pela gravidez me deixava triste.
— Eu gosto de você... É o melhor que podemos fazer. — disse, baixei a cabeça, estava
chateada. — Nina, por favor, não fique triste, você queria ficar comigo, não é? Vamos ficar
juntos... — pousou a mão sobre minha barriga. — Você, eu e nosso anjinho... — ele disse
sorrindo. A culpa estava me corroendo imensamente, porém a ideia de ficar com Matteo era
muito maior que qualquer culpa.
Fitei-o por um momento. Então pigarreei para aliviar o nó na garganta.
— Nina... Eu andei pesquisando e vi que podemos transar na gravidez...
— Ótimo! Vamos então?
— Calma... Podemos transar com camisinha... — disse e toda minha esperança foi por água
a baixo.
— Ah, ok... — Eu me senti uma tola; queria cavar um buraco no chão para esconder minha
cara. Mas, consegui forçar um sorriso.
— O que foi? Está com tanta vontade assim? Fiquei calma, à noite a gente fica juntinho —
Matteo disse beijando suavemente meu pescoço. Mordi meus lábios e logo após nos
entregamos a um beijo.
A boca dele busca a minha e sua língua pede passagem, incentivando meus lábios a se
abrirem e aceitarem-na. O calor que emana dele dissipa qualquer estresse. Tudo o mais fica
esquecido quando ele me reivindica, mas ainda sem pôr as mãos em mim. A dança de nossa
língua é o único contato que temos, mas esse toque me consome como sempre. Meus sentidos
estão saturados, minha mente está confusa e meu corpo pede pelo dele, que mantém a língua
em ritmo lento e fluído, afastando-a de vez em quando, apenas para me provocar, antes de
mergulhar outra vez.
— Vamos nos arrumar? Minha mãe convidou umas pessoas para o almoço e pretendo
passar no centro da cidade antes — Matteo disse cortando nosso momento.
— Está bem, vou me arrumar— falei.
Minha tentativa de vestir a calça jeans foi em vão, pois o botão mal fechou e apertava
demais minha barriga. Definitivamente eu precisava fazer uma dieta. Optei por um vestido
preto de malha, que era o único que eu trouxe. Matteo ficou pronto rapidamente, porém eu
fiquei enrolando com a maquiagem, estava mais pálida que o normal.
— Você já comprou o ácido fólico? — Matteo indagou.
— Pra que?
— Ora, para o bebê, é uma vitamina... Aliás, você precisa se consultar com o ginecologista
urgente, quer que eu marque um pra você?
— Não, não precisa, eu vou ligar pra minha ginecologista, segunda feira estarei lá — falei.
— Que bom, vamos passar na farmácia — Matteo disse.
Quando fiquei pronta, fomos para o centro. Foram dez minutos andando de carro, porém
foram tantas subidas e descidas que me deixaram enjoada. Desci do carro um pouco zonza.
Peguei uns lenços umedecidos na farmácia e pedi o ácido fólico no balcão, vi que Matteo
pegou umas camisinhas e logo depois fomos pagar.
— Matteo, que bom te ver! — A garota que estava no caixa disse.
— Mari, quanto tempo eu não te vejo... Como estão seus pais? — Matteo indagou, percebi
que ele focou os olhos no decote da garota. Ela era bem bonita, cabelos ruivos e longos, olhos
verdes e o rosto estava perfeito com uma boa cobertura de maquiagem.
— Estão bem, andaram perguntando de você... Faz tempo que não aparece lá... — ela
estava se insinuando. Pigarreei e coloquei as coisas no balcão.
— Ah, essa é minha namorada, Nina. — Matteo apresentou.
— Namorada? Meus parabéns Matteo, ninguém acreditava que você seria fisgado... —
Nesse momento ela olhou pras coisas que eu comprei. E reparou no acido fólico. — Aaah
entendi... Bem, espero te ver outras vezes Matteo... — disse por fim. Eu poderia enlouquecer
naquele momento. Quem era essa tal de Mari... Será que Matteo saia com ela enquanto estava
comigo. Não é possível!
No mesmo instante que saímos da farmácia comecei o interrogatório com Matteo.
— Quem é essa tal de Mari?
— Uma amiga. — Matteo se limitou na resposta.
— Amiga? Você já saiu com ela? — falei enquanto entravamos no carro.
— Já...
— Quando?
— Algumas vezes.
— Não perguntei quanta vezes, eu perguntei quando. — Matteo ficou em silêncio.
— No ano passado. — ele respondeu. E no mesmo momento me arrependi de ter
perguntado.
— Eu não acredito que você me traiu. Eu não acredito! Eu não acredito! — Exclamei
abrindo o vidro do carro, precisava tomar um ar ou iria me sufocar de tanta raiva. Como eu não
percebi isto? Eu vivia atrás dele, mas que merda! É claro que ele arrumou escape na casa dos
pais.
— Nina... Eu não te trai, nós não éramos namorados ainda. E na época nós havíamos
brigado, lembra? Você ficou irritada por não assumirmos nada e me deixou por três semanas.
— Não quero falar com você. Tenho vontade de chorar. Sinto-me idiota e muito, muito
magoada.
— Nina, por favor, para de besteira...
— Se limite a dirigir Matteo, não quero ouvir nada, absolutamente nada de você.
— Ok, tente se acalmar.
— Me acalmar? Eu quero te matar. Eu não acredito que você me traiu... — Naquele
momento meus olhos se encheram de lágrimas, tentei me controlar, porém eu comecei a
chorar, ali na frente de Matteo.
Meus ombros tremem e eu choro sem parar, como se não tivesse controle sobre mim.
Matteo encostou o carro espantado com minha reação.
— Nina, por favor, porque está chorando desse jeito?
— Eu não sei — respondi.
— Ei, acalme-se. Me desculpe, está bem? Foi à única vez e foi quando nos separamos. —
disse me abraçado cada um de seus músculos rígidos me amparam quando ele me aninha em
seus braços. Eu soluço incessantemente grudada no pescoço dele.
— Você me deixa tão furiosa – eu sussurro, lamentavelmente. Tento formar frases, mas só
consigo chorar mais. Sinto a mão dele deslizar pelo meu pescoço até segurar a minha nuca,
virando meu rosto para ele.
— Nina, nós vamos nos casar. Você vai ser a única mulher da minha vida, isso se o bebê
não for uma menina... — Matteo baixou a mão para o meu ventre.
— Você promete que nunca vai me deixar?
— Eu prometo, para de chorar — ele pediu. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo
e porque eu estava chorando compulsivamente. Eu nunca chorava na frente das pessoas.
Suspirei e comecei a enxugar minhas lagrimas rudemente.
— Me desculpa. Eu quero ser melhor pra você, de verdade.
— Tudo bem, é melhor irmos, os seus pais devem estar nos esperando para o almoço —
falei. Matteo assentiu. Peguei um lenço e limpei meus olhos borrados, estava com uma cara
péssima, porém não tinha o que fazer, os pais de Matteo haviam feito uma reserva no melhor
restaurante da cidade. Chegamos e encontramos somente os pais de Matteo, Clarice e Martim
não vieram.
— Que bom que chegaram, Clarice e Martim não vieram é um desrespeito, pois sabem
como é difícil seu pai sair de casa — Emanuela disse nos recepcionado.
— Os deixe Emanuela, estão com problemas no casamento — Vincenzo replicou.
No sentamos e pouco depois chegou uma bandeja com as bebidas na mesa.
— Tomei a liberdade de pedir suco de laranja pra você — Emanuela disse se referindo a
mim.
— Ah ótimo, adoro suco de laranja — falei.
— O que vão comer, então — Emanuela se interessa. — Acho que vou querer um prato de
frutos do mar.
Inclino-me para o lado de Matteo, compartilhando o mesmo cardápio, com a mão no joelho
dele. Ele a pega e beija sem cerimônia, sem tirar os olhos do cardápio.
— O que vai querer, Nina?
—Não tenho certeza.
— Vou pedir mexilhões ao alho — Vincenzo declara, apontando para um dos quadros que
detalham uma seleção de pratos de frutos do mar de dar água na boca. — Delicioso — ele
estala os lábios e bebe um gole generoso de seu vinho.
Estou indecisa. O prato de frutos do mar, cheio de mariscos, mexilhões, siri e camarões
grandes ou os mexilhões regados à manteiga com alho, acompanhados de pão saído do forno.
Meu estômago ronca, exigindo que eu o encha.
— Não consigo decidir.
— Diga-me entre quais opções está indecisa e eu ajudo você — Matteo olha para mim e
aguarda que eu exponha meu caso.
— Mexilhões ou o prato de frutos do mar — pondero. Os olhos dele se arregalam.
— Nenhum dos dois! — ele brada, chamando a atenção dos seus pais, que param com seus
copos a caminho da boca.
— Por quê? — viro-me e olho confusa para ele, mas logo percebo o motivo: ele leu algo
naquele maldito aplicativo.
— Ah, qual é, Matteo! —Ele balança a cabeça.
—De jeito nenhum, Nina. Sem chance. Tem um tipo de mercúrio em peixes e frutos do mar
que pode causar problemas ao sistema nervoso do bebê. Nem tente me contrariar nessa
questão.
— Você não vai me deixar comer nada? — minhas sobrancelhas estão grudadas uma na
outra. Amo frutos do mar.
— Claro! Frango. Um filé... Ambos são ricos em proteínas e isso é bom para o bebê. Solto
um ruído de protesto e pego meu suco.
— Já decidiram? Olho para cima e vejo uma garçonete armada com um bloco e uma caneta,
pronta para anotar nossos pedidos. Ela sorri amplamente, e sorri para Matteo.
— Eu quero o filé, por favor — digo, e minha mão pousa instintivamente no joelho dele,
indicando o início de minha sessão de pisoteio. Ela não faz a menor menção de anotar e não
pergunta como eu quero a minha carne; fica ali, parada, com olhos sonhadores, olhando com
gula para o meu Matteo. — Eu quero o filé — repito — ao ponto.
— Perdão? — ela tira os olhos de Matteo, que esconde um sorrisinho enquanto finge ler o
cardápio.
— O filé. Ao ponto. Quer que eu anote para você? – pergunto, seca, ouvindo Matteo rir
baixinho.
— Ah, claro — a caneta entra em ação. — E para vocês? — ela pergunta, olhando para os
pais de Matteo. — Mexilhões para mim – Vincenzo grunhe.
— E o prato de frutos do mar para mim –— Emanuela diz. —E outra taça de vinho – ela
ergue a taça vazia. A garçonete anota tudo, antes de se virar de novo para Matteo. Ela sorri
outra vez.
—E para o senhor?
— O que você me recomenda? — ele a faz dar alguns passos para trás quando a
bombardeia com aquele sorriso reservado para as mulheres. Reviro os olhos e a assisto ajeitar
o rabo de cavalo e corar profusamente.
— O cordeiro é bom.
— Ele vai querer o mesmo que eu — recolho os cardápios e os entrego a ela, sorrindo com
doçura. — Ao ponto. Ela olha para Matteo, buscando confirmação.
—Vou querer o mesmo que minha noiva — ele passa o braço pelos meus ombros, mas
mantendo os olhos na garçonete. — Faço o que me mandam, então, acho que vou comer filé.
Eu bufo, debochando dele, e seus pais riem, enquanto a garçonete suspira para o bloquinho,
certamente desejando ter o meu Matteo. Que piada. Ela se afasta, enfiando a caneta e o bloco
no bolso do avental. Pelo menos tenho a satisfação de ouvir Matteo me chamando de noiva.
— Você é impossível — digo em voz baixa.
— Adoro ver você em cenas de ciúme — ele sussurra ao meu ouvido. — Poderia te jogar
sobre essa mesa e te foder com força.
— Para de dizer a palavra foder, a não ser que tenha a intenção de me foder mesmo – digo
com a boca colada no ouvido dele.
—Vamos erguer um brinde! — a voz alegre de Vincenzo nos tira de nosso momento
íntimo.
—Ao nosso neto! —Emanuela brada, e todos brindamos a minha mentira. Matteo era muito
disputado, todas o queriam, e isto me fazia ter a certeza de que eu deveria definitivamente
continuar o meu plano e amarra-lo.
Carina havia me dito que uma amiga dela furou as camisinhas com uma agulha antes de
transar com o chefe dela e assim conseguiu engravidar. E se eu fizesse o mesmo?
Era uma ideia maluca. Mais que isso. Mas talvez eu devesse tentar, nem que fosse para não
pensar mais nesse assunto; para não ficar pensando depois: “E se eu tivesse feito”?
Grávida?!

Mais tarde no domingo eu estava deitada novamente no quarto de Matteo. Eu estava mais
sonolenta do que de costume. Matteo veio até o quarto e deitou-se ao meu lado.
— Hey dorminhoca. — ele beijou minha têmpora. — Está tudo bem? Eu não queria te
magoar, sinto muito por tê-la feito chorar hoje.
— Tudo bem... Eu só estou um pouco sensível.
— Eu sei, mas me perdoa... Vamos começar uma vida juntos e não quero que você tenha
mágoas por algo que eu tenha feito. Eu gosto de você, gosto muito, mais do que imaginava.
— E porque só percebeu isso agora?
— Não sei, acho que estava reprimindo esses sentimentos. Eu queria uma liberdade e você
queria um namoro e eu não achava que estava preparado pra isso.
— E porque agora está preparado? Por causa do bebê?
— Não me acho preparado pra ter uma família agora. Mas eu estou pronto para cuidar de
você e dele, porque é minha responsabilidade e se eu não gostasse de você, não iria querer
formar uma família.
— Eu tenho medo... — falei com os olhos marejados.
— Medo do que?
— De que você me deixe...
— Nina... Eu não vou te deixar, nunca.
Com cuidado, indaguei:
— Mesmo que eu não tivesse grávida?
— O que quer dizer com isso?
— Se eu não tivesse grávida, você não iria se casar comigo. — Tentei controlar a
preocupação e a irritação.
— Bom, talvez não, mas eu senti sua falta no tempo que estivemos separados. E esse bebê
me abriu os olhos. Fez-me perceber o quanto você é importante pra mim... — Matteo segurou
uma lágrima dos meus olhos com o polegar.
— Hey, não chore. Vamos ficar juntos minha princesa. — ele sorriu e me afagou.
Eu queria dizer muito mais. Porém não tinha coragem, deveria dizer a verdade, ou tentar
ficar grávida? Prometi a mim mesma que se eu não engravidasse essa noite iria desistir desse
plano e terminar com Matteo.

[...]

À noite quando Matteo estava tomando banho peguei as camisinhas que estavam na gaveta
e furei com uma agulha – pedi uma agulha para a mãe dele, com a desculpa que meu vestido
tinha descosturado. Fiz alguns furos no meio sem abrir a embalagem e fiquei rezando para que
passasse despercebido por ele.
Passei o perfume que ele adorava e coloquei uma lingerie preta. E estava preparada.
Esperava que por um milagre eu engravidasse nessa noite. Quando Matteo saiu do banheiro
sorriu. Ele não estava vestido, somente com uma toalha na cintura. E quando me viu ele tirou
rapidamente a toalha e deitou ao meu lado.
Com meu coração batendo descontroladamente e meu corpo quase tremendo de
expectativa, virei-me para que eu pudesse envolver o pescoço dele com os braços. Com um
meio sorriso, Matteo me beijou. No começou foi doce e macio. Então ele abriu os lábios e
nossas línguas se encontraram numa dança lenta, porém faminta para dar e receber, exigir e
entregar.
Capturou as pontas sensíveis dos meus seios com as mãos, rolando-as nos dedos,
brincando com elas até os espasmos de prazer migrar dali diretamente para mais embaixo no
meu corpo.
Minhas coxas tremeram. Impulsionei os quadris. Um instante depois, ele se inclinou mais e
cobriu um seio com a boca, sugando com força, profundamente.
— Huum... — gemi, enredando os dedos em seu cabelo. Erguendo o outro braço, eu o
pousei atrás de mim, apoiando-o no ombro forte de Matteo. Cravei os dedos em sua pele
musculosa, apertando e arranhando enquanto ele me dava prazer.
Matteo reagiu deslizando a mão pelo meu corpo, acariciando sob meus seios e então
envolvendo minha cintura, a parte superior do meu quadril. Finalmente ele chegou às coxas e
deslizou a mão entre elas, os dedos roçando levemente em meus lábios inchados e doloridos.
Arfando de encontro à boca dele, arqueei em sua mão, desejando mais. Ele aquiesceu,
encontrando meu clitóris e acariciando-o até eu estar quase chorando por causa da sensação
deliciosa. Mantendo o polegar lá para continuar aquele prazer, ele baixou mais os dedos,
explorando, brincando.
Quando ele finalmente deslizou um dedo e depois outro para dentro do meu corpo estreito,
eu me contraí, cerrei os dentes e cheguei ao clímax tão rapidamente. Tombei meu corpo para
trás enquanto tremia com espasmos lentos de prazer cálido que pareciam se prolongar e
ampliar, mais e mais, mais intensos do que qualquer orgasmo que eu já havia experimentado.
Fiquei confusa, eu nunca tinha chegado a um orgasmo tão rapidamente.
— Quer continuar? — ele indagou rouco.
— É claro — falei. Eu ainda preciso concluir o meu plano.
Matteo sorriu e então, ele pegou a camisinha, meu coração começou a bater fortemente.
Pensei que fosse enfartar. Matteo abriu a camisinha, e respirei aliviada quando ele colocou. E
então ele puxou a ponta da camisinha e fez uma cara estranha.
— Essa camisinha esta estranha...
— Estranha como? — senti minhas mãos suarem de nervosismo.
— Não sei, está esquisita, diferente... Vou colocar outra — disse e tirou a bendita
camisinha. Quase chorei nesse momento. Eu havia furado somente uma camisinha. Merda!
Matteo colocou outra e se preparou para entrar em mim. Eu estava completamente
decepcionada. Eu senti o coração apertado no peito. Mas isso não me impediu de transar. Eu
estava com um desejo incontrolável.
Ele resistiu por um momento, longo o suficiente para pousar a boca em meu seio e sugar
meu mamilo de volta a um pico de sensações latejantes. Então, com um gemido baixo e
impotente, ele agarrou meus quadris e começou a me penetrar devagar. Eu estava
completamente úmida e mais excitada do que nunca.
Então, passando os braços em volta do pescoço dele, eu impulsionei o corpo, aceitando-o
numa investida profunda que me preencheu até o âmago.
— Nina? — sussurrou ele, enquanto beijava meu pescoço e continuava as investidas doces
e alucinantes que tinha ido de curtas e superficiais a lentas e profundas, depois retornando ao
ritmo anterior. — Está tudo bem?
— Ótimo — respondi. Envolvendo minhas pernas firmemente em torno de sua cintura, eu
beijei seu rosto, sua têmpora, permitindo que ele nos levasse cada vez mais alto. Tremendo, eu
sabia que essa poderia ser a nossa última vez.
Depois novamente, ele recostou-se, mudando o ritmo, roçando contra meus lábios,
lentamente, suavemente. Uma bagunça de hormônios e emoções se fundiam em mim, mas
Matteo não pareceu perceber. No ápice do prazer ele me deu um beijo suave e deitou do meu
lado.
Cansada fisicamente, exausta emocionalmente e sem ter mais como lutar eu fechei os olhos,
sentindo-me derrotada.

|... |

No dia seguinte me despedi da família de Matteo. Estava na hora de ir pra casa. Peguei a
manhã de folga do meu trabalho para ir ao ginecologista. Enquanto Matteo iria para o trabalho
dele. Matteo subiu comigo até o apartamento, pois fez questão de levar a mala para mim. Não
encontrei Carina no apartamento, pois ela estava trabalhando.
— Vou te ligar mais tarde pra saber como foi no ginecologista — Matteo disse dando-me
um beijo logo em seguida.
— Tudo bem — sorri.
— Não quer mesmo que eu vá com você?
— Ah não precisa. É uma consulta simples, só quero tirar algumas dúvidas... Na próxima
você vai — falei, tentando amenizar.
— Ok, até mais. Cuida-se e cuide do nosso bebê. — ele sorriu passando a mão pela minha
barriga. Ele estava realmente feliz por ser pai. Nunca havia visto Matteo tão feliz.
— Vou cuidar... — falei e percebi que estava na hora de acabar com essa farsa. — Eu te
amo — falei. Sabendo que era a última vez que poderia dizer o quanto o amava. Depois que
ele soubesse que eu não estava grávida, tudo iria acabar.
— Amo vocês — disse. Duvidava que Matteo me amasse, mas eu sabia que ele amava esse
filho. Ele me beijou e saiu.

Fechei a porta e cai na cama, liguei para minha ginecologista Vivian que também era uma
grande amiga.
— Hey, preciso me consultar hoje — falei.
— Oi querida, estou com a agenda cheia... Pode ser na próxima semana?
— É urgente, estou com problemas hormonais, eu acho. Minha menstruação esta atrasada,
me sinto sempre enjoada, tive crise de choro, minhas roupas estão apertadas...
— Você já fez um teste de gravidez?
— Claro e deu negativo... — falei e então Vivian riu.
— Esses testes de farmácias podem errar. Olha Nina, eu aposto que você está grávida...
Passa aqui mais tarde, vou te dar a guia para fazer um exame de sangue, que é bem mais
confiável.
— Ok... Obrigada — quase não consegui falar.
Meu coração palpitava. Será que eu estava realmente grávida e por estar tão obcecada em
engravidar não havia percebido? Meu Deus! Eu estava prestes a surtar.
Amor
Meus sentimentos em relação à gravidez eram confusos, em um momento eu desejei não
estar grávida, estava com medo, muito medo, afinal, eu não me sentia preparada para ser mãe,
mas ao mesmo tempo depois da mentira que criei, eu desejava não ser pega. E por este motivo
eu queria estar grávida.
Após fazer o exame eu esperei um dia para buscá-lo. Não contei para Carina, pois ela ia
achar desnecessário. Senti um frio na barriga e uma pressão no baixo ventre. Queria vomitar e
por isso mal consegui pegar a senha na fila da recepção do hospital.
— Moça, você está bem? — uma jovem me perguntou. Ela parecia ter menos de dezoito
anos, tinhas cabelos castanhos médios e um sorriso doce.
— Estou bem... — falei, sentindo que minha pressão tinha caído levemente, eu estava
muito nervosa.
— Deixa que eu pego pra você, sente-se — ela disse e me levou para sentar no banco. Logo
após ela pegou a senha e me deu.
— Tem certeza que está bem, não quer que eu peça a ajuda de uma enfermeira? — Ela
indagou.
— Ah não precisa. Eu só estou um pouco nervosa. — Respondi.
— Entendo. Está esperando o resultado de algum exame?
— Estou...
— Me desculpa a curiosidade, mas que tipo de exame?
— De gravidez... — falei. Ela sorriu e o olhar negro dela se iluminou.
— Um bebê, que felicidade — Ela vibrou.
— Eu ainda não sei.
— Eu aposto que está, suas bochechas estão tão coradas — ela me analisou.
— E você, o que faz aqui? — Questionei, já que ela havia perguntando de mim, surgiu uma
estranha curiosidade no momento.
— Estou esperando um resultado de gravidez também... — surgiu uma súbita vergonha em
sua face.
— Entendo... — Não sabia muito que dizer.
— Você vai querer o bebê? — ela perguntou.
— Eu quero, claro. Quer dizer, eu não esperava, mas eu quero sim — afirmei, não sabendo
exatamente quais eram meus sentimentos em relação a gravidez.
— Eu não sei, meu namorado é um babaca e meus pais são extremamente conservadores...
Mas não me sinto confortável sobre aborto... — a garota não tinha nenhuma vergonha de falar
com uma desconhecida.
— Eu acho que é melhor você esperar o resultado e pensar com calma — falei.
— Me desculpa o intrometimento, contudo, já que estamos conversando, qual é o seu
nome?
—Nina Proença — respondi.
— Oh que coincidência, meu nome também é Nina, Nina Prado. — Ela sorriu.
— Tomara que tenhamos sorte hoje — falei. Sentindo que minha vida e a dessa garota logo
iam mudar.
A senha dela e a minha foram chamadas consecutivamente. Recebi um envelope lacrado e
ela também, com preocupação Nina Prado me levou até o meu carro.
— Você quer uma carona? — Perguntei. E sem cerimônia a garota aceitou. Entramos no
carro e deixei o meu envelope no banco de trás, e ela fez o mesmo.
— Estou com medo de abrir — ela disse.
— Fique tranquila, não podemos mudar o resultado desses exames, temos que aceitar e
seguir em frente — Falei. Não muito longe, chegamos em frente à casa dela.
— Não se esqueça do seu exame — falei entregando o exame que estava no banco.
— Muito obrigada pela carona, espero muito que seja feliz com o seu bebê. — ela disse e
acenou.
Minhas mãos suavam e meu corpo parecia estar paralisado, eu mal conseguia dirigir. Eu
lutei tanto para ficar grávida que agora estava com medo de isso realmente acontecer. Quando
cheguei à minha casa, posterguei a abertura do envelope e fui para o trabalho.
Estava atolada de designers para entregar e tinha reunião com a equipe na parte da tarde, eu
não podia ver o resultado do exame no momento, iria me desestruturar emocionalmente.
Apesar dos meus esforços para me manter focado, perdi a concentração ao receber uma
mensagem de Matteo.
— Estou sentindo Saudades... Encontro-te no seu apartamento às 19 horas. — ele disse.
Uma gota de suor escorreu pelas minhas costas. Eu estava louca para vê-lo e fazer certas
coisas. Pelo menos eu não iria me focar em engravidar essa noite, pois eu sentia que já estava
grávida.
Na hora do almoço me reuni com Daniel, meu amigo e colega de trabalho e sua namorada
Marcele. Ela trabalhava no shopping e frequentemente almoçávamos lá. Sentamos em uma
mesa e aguardamos uma pizza que Daniel foi pedir. Em poucos minutos ele voltou com um
sorriso enigmático.
— Ai eu não consigo me controlar. Parabéns Mamãe! — Marcele disse, mais alto do que eu
já a ouvi dizer na vida. Os olhos azuis dela cintilavam de alegria — Meu coração foi direto
para a garganta.
— Marcele, Matteo pediu segredo — Daniel advertiu coçando a cabeleira loura. Porém era
tarde demais, pois para o meu azar, logo atrás de nós estavam sentados o meu gerente e a
minha supervisora. Agora tudo estava ferrado de vez!
Rezei para que eles não tivessem escutado e esbocei um sorriso envergonhado para meus
amigos.
— Me desculpa a indiscrição — Marcele de desculpou.
— Tudo bem...
— O Matteo estava tão feliz dando a notícia, nunca o vi tão feliz! — Daniel disse. Nesse
momento eu não me sentia culpada, pois acreditava fielmente que meu exame havia dado
positivo.
— Eu também estou muito feliz — meu estômago se contorceu, aquela felicidade que eu
dizia, não me parecia real. Eu não conseguia definir o que estava sentindo.
Quando a pizza chegou, dei duas mordidas e depois corri para o banheiro. Não sabia se era
o nervosismo ou a gravidez, talvez os dois. Mas eu realmente estava passando mal. Ao voltar
para o trabalho, fiquei com receio de pedir para voltar para casa e aguentei firmemente, até que
minha supervisora me chamou na sala.
— Desculpa te chamar abruptamente, porém, não pude deixar de ouvir a conversa no
almoço — Eleonor disse.
— Ah... Eu iria contar, é que descobri recentemente. — falei.
— Fique tranquila, sei que você deve estar processando a notícia, mas quero te parabenizar
e dizer que se precisar de algo pode falar comigo — disse. Ela estava sendo tão gentil. Fiquei
feliz e sorri de gratidão. — Mas não se esqueça do prazo do nosso projeto, se precisar de ajuda,
me avise. E me avise com antecedência às consultas — falou. E eu assenti feliz por tudo estar
correndo bem.
A seguir após saindo da sala, peguei uma água com gás e um pouco depois meu estômago
melhorou. E assim consegui terminar o meu trabalho até às dezoito horas. Fui pra casa e a
primeira coisa que fiz foi tomar um longo banho. Carina não estava em casa, pois iria passar na
casa dos seus pais.
Passei um perfume e creme nas pernas. Vesti um vestido simples e confortável e para
surpreender Matteo, não coloquei lingerie. Na escrivaninha estava meu exame, tive vontade de
vê-lo logo e o peguei. Na frente do envelope estava escrito “Nina P.”
Não contive minhas mãos tremendo e quase enfartei quando ouvi a campainha. Guardei o
exame correndo na gaveta e fui abrir a porta.
— Sentiu minha falta, amor? — Matteo beijou minha testa. Desde quando Matteo me
chamava de amor?
— É claro que senti e muito, meu amor — falei o trazendo para dentro do apartamento. E
então nossos lábios se encontraram. Abriram-se. Provaram-se.
Gemendo, fiquei na ponta dos pés, amando o jeito forte e estável como ele segurava minha
cabeça, acariciando meu cabelo enquanto sua língua mergulhava fundo. Eu saboreava, lambia
e sugava, compartilhando cada respiração com ele. Rapidamente o puxei até o meu quarto, eu
o queria logo e senti que ele queria o mesmo.

— Você está apressada — ele disse. Capturei seu lábio inferior entre os meus, suguei e
mordisquei. Levemente. Porém deliberadamente. E assim ele entendeu o meu recado.
— Você sabe o que eu quero.
—Você é muito linda. — Colocando a mão no meu rosto para poder raspar o polegar no
meu lábio inferior, Matteo acrescentou: — E eu a quero tanto. — Sem mais delongas, ele
enfiou a mão embaixo do meu vestido e sorriu descaradamente. Puxou-me até a cama e me
deixou esperando até tirar tudo, rapidamente eu puxei o meu vestido e fiquei nua. Logo após
sentou na cama e me colocou em cima dele. Suas mãos acariciaram meus quadris e sua boca
partiu avidamente para chupar e mordiscar meus mamilos. Logo após me deitou na cama, para
ficar em cima de mim.
— Você tem camisinha ai? — ele disse, sem poder aguentar a excitação. Seu membro
estava duro e eu sentia meu baixo ventre latejar de ansiedade.
— Não — Minha resposta era sincera.
— Porra, eu preciso muito disso — disse e sem pestanejar colocou seu membro dentro de
mim. Então, com um gemido baixo e impotente, ele agarrou meus quadris com força e
começou a me penetrar devagar. Levando a mão ao meu rosto, me puxou para um beijo doce e
entorpecente.
Então, passando os braços em volta do pescoço dele, eu impulsionei o corpo, aceitando-o
numa investida intensa. Enquanto beijava meu pescoço e continuava as investidas doces e
alucinantes que tinha ido de curtas e superficiais a lentas e profundas. Eu cheguei rapidamente
ao prazer enquanto Matteo continuou a me penetrar, e saiu antes de gozar.
—Não posso correr o risco de gozar dentro, pode fazer mal — ele disse e correu para o
banheiro. Não me senti frustrada, pois eu tinha um exame que poderia comprovar minha
gravidez. Impulsivamente abri a gaveta e rasguei o envelope rapidamente. Meu coração
palpitava, eu sabia que estava gravida, conseguia sentir, eu ia ser mãe...
Abri o exame, abaixo do nome Beta HCG estava escrito: Negativo.
Joguei o papel debaixo da cama quando vi Matteo e nesse momento eu chorei.
Bomba-Relógio
Eu chorei de verdade, chorei por saber que todos os meus anseios e planos haviam sidos
esmagados com o negativo. Eu menti, eu fiz a escolha errada ao mentir, e agora... Agora
eu teria que assumir as consequências e perder Matteo. Eu o amava, o amava
profundamente, eu queria tanto que as coisas dessem certo entre nós que acabei
inventando uma mentira, somente para tê-lo perto de mim. Eu não planejei que as coisas
tivessem tamanha proporção, eu não imaginava que a atitude dele fosse tão drástica, e
agora, eu havia confundido tudo e perdido qualquer chance de desfazer esse mal
entendido.
No dia seguinte, pela noite, pedi que Carina me ajudasse. Eu deveria falar a verdade não
é? Mas não tinha coragem o suficiente para fazer isso. No jantar, sentei-me com ela e
resolvi pedir ajuda.
— Eu preciso que você me ajude a fingir que perdi o bebê... — falei.
— O que? Você vai fingir que teve um aborto espontâneo? — Ela quase engasgou com o
macarrão que estava comendo.
— Sim, eu preciso que você finja que foi comigo ao médico após eu ter um
sangramento...
— Nina... — Carina suspirou. — Você não pode simplesmente dizer a verdade? — Ela
indagou me encarando.
— Eu não posso Carina, isso vai me matar. Eu não posso dizer ao Matteo que menti pra
ele e pra família dele, ele nunca me perdoaria. Eu prefiro viver com a minha mentira e
assumir as consequências que posteriormente podem acontecer, do que dizer que menti...
— É sério? E Como você acha que ele vai se sentir ao saber que você perdeu o bebê? Não
acha que isso vai devasta-lo? Por favor, pense bem — pediu.
— Se você não me ajudar, eu vou fazer sozinha. — disse por fim e levantei.
— Nina... Se realmente for fazer isso, faça logo. Chega dessa mentira — ela disse e eu
assenti.
Uma fisgada em meu baixo ventre fez com que eu soltasse um grunhido e eu corri para o
banheiro. E então quando vi uma borra com uma cor escura em minha calcinha, eu vi que
realmente tudo estava acabado, minha menstruarão desceu, muito atrasada, mas desceu.
Tirei a roupa e entrei no chuveiro sentindo umas pontadas de cólica. Fechei meus olhos e
respirei fundo, eu iria acabar logo com isso, por mais difícil que fosse.
[...]

A semana passou dolorosamente. Não vi Matteo, pois ele estava muito atarefado com o
trabalho, ele iria promover uma festa no trabalho de confraternização no sábado, e pela
primeira vez ele me apresentaria formalmente como sua noiva. Eu só queria sentir um
pouco mais da sensação de ser a mulher dele.
O sangramento que eu havia tido na semana foi ligeiro e no dia seguinte havia
desaparecido, porém já era mais uma das confirmações que eu não estava grávida. Foi
difícil encontrar um vestido para usar na festa, meus vestidos eram muito justos e o pouco
que eu havia engordado na cintura e no quadril já era perceptível.
Peguei um vestido de Carina emprestado, ela não o usava há anos, mas ficou confortável
o suficiente para mim. Ele era azul de lã acetinada e aberto nas costas, havia um decote
generoso que eu tive que fechar com um alfinete. Vesti um sapato scarpin e deixei meus
cabelos soltos. Quando eu estava quase finalizando a maquiagem com um batom nude,
Matteo chegou. Fui abrir a porta e o encontrei um conjunto despojado, não era um terno,
mas sim a camisa social com uma calça de sarja preta. Ele havia colocado um cinto da cor
da calça e a blusa estava dentro da calça. Como sempre, bonito.
— Você está linda — ele disse depositando um beijo em minha bochecha. Havíamos
combinado de não dizer nada sobre minha gravidez, pois ninguém do trabalho de Matteo
sabia, o que eu preferia. Menos gente enganada por mim. Um pouco depois de eu
terminar de me arrumar fomos até a festa.
O salão estava decorado com o tema de 45 anos de empresa. Matteo entrou na empresa
como estagiário e estava prestes a ser promovido a coordenador da área de Marketing.
Cumprimentamos todos os colegas dele e sentamos a mesa com os nossos nomes e de
mais algumas pessoas. Uma garota ruiva de óculos se sentou ao meu lado esquerdo,
seguida por quem eu deduzi ser seu namorado, ele tinha cabelos brancos em linha reta
com uma tonalidade azul-claro. Cumprimentaram-nos e se apresentaram para mim.
— Sou Alessandra, trabalho como Analista de Marketing e esse é meu namorado Miguel
— ela apresentou. Os cumprimentei e Matteo logo após cumprimenta-lo pediu licença
para falar com seu gerente.
— Hey, que prazer conhecer a namorada do Matteo, quer dizer noiva! Pensamos que isso
nunca ia acontecer! — Alessandra disse.
— Bom, ele foi difícil de conquistar — falei.
— Imagino, o Matteo é um pouco fechado quando o assunto é romance — ela disse.
— O cara já sofrer um pouco, por isso é assim — Miguel opinou. Matteo sofreu? Como
assim sofreu e por quem?
— Miguel você não está falando demais? — Alessandra o fuzilou com o olhar.
— Todo mundo sabe da história Alessandra. O Matteo foi apaixonado por uma garota por
quatro anos e ela o chutou. — Miguel soltou a bomba. E grunhiu, pois Alessandra deu
um puxão de orelha nele.
— Ah tudo bem, eu já sabia — falei, para que Alessandra não matasse seu namorado.
— Falando no diabo, olha ela — Miguel apontou para uma garota que estava chegando.
Nesse momento Alessandra quase quis matá-lo, mas eu não olhei, pois estava ocupada
demais olhando para a garota que Matteo sofreu. Ela estava se aproximando de nós.
— Hey pessoal, chegaram cedo — ela cumprimentou Miguel e Alessandra.
Minha mente ainda estava processando seu cabelo perfeito e olhos azuis brilhantes
quando ela veio me cumprimentar.
— Emília, ela é a Nina, noiva do Matteo — Alessandra nos apresentou, visto que eu ainda
não tinha conseguido falar nada.
— Muito prazer — ela sorriu radiante. Consegui esboçar um sorriso falso e cumprimentá-
la. Logo após ela se moveu para outras mesas.
Eu fechei meus olhos e respirei fundo. Medo. Paranoia. Eu estava entrando em pânico. Eu
precisava falar com Matteo, Quem era ela? De onde havia saído essa tal de Emília?
Levantei-me e percorri meu olhar pelo salão até encontrar Matteo conversando em uma
roda com vários homens. Eu tinha que conversar logo ou iria explodir de tanta raiva. Fui
até ele e cochichei em seu ouvido que precisávamos conversar urgentemente.
Achando que era algo relacionado à gravidez Matteo saiu comigo para fora da festa.
— O que aconteceu, você quer que eu te leve para o hospital? — Indagou colocando a
mão na minha barriga.
— Não aconteceu nada com ele — me referi ao bebê imaginário. — Eu só quero saber
uma coisa. Quem é Emília? — A face de Matteo mudou de repente de preocupação para
estranheza.
— É a coordenadora dos Recursos humanos — ele respondeu como se não tivesse mais
nada para falar.
— Matteo, quem é Emília? Eu nunca soube sobre ela.
— O que falaram pra você? — ele questionou. Ele queria averiguar o que eu sabia antes
de dizer qualquer coisa.
— Me disseram que você era apaixonado por ela e que sofreu por ela — dizer isso me
embrulhava o estomago. Eu queria vomitar de tão nervosa que eu estava.
— Ok... É verdade — ele afirmou. Respirei fundo, sabendo que não deveria dar tanta
importância, afinal ela não o quis...
— Vocês ficaram? — eu não pude conter a minha curiosidade e para minha supressa
Matteo respondeu.
— Sim.
— Quando? Você me traiu? — Novamente eu comecei a pirar.
— Nina, calma.
— Meu Deus, você me traiu com essa garota, o tempo todo você pensava nela... Por isso
que não queria compromisso comigo — eu comecei a enlouquecer.
— Nina, pare. Tem hora que você parece desequilibrada. — ele colocou a mão na cabeça.
O medo era tão real que lágrimas pressionaram nos meus olhos sem qualquer esforço da
minha parte. Eu balbuciei, pânico erguendo-se e asfixiando as palavras. Ele me puxou
contra ele, me apertando mais forte, forte o suficiente que realmente doeu, e um pequeno
calafrio de mal-estar subiu na minha coluna.
— Me fala Matteo, você ficou com ela quando estava comigo?
— Não, eu não fiquei — ele respondeu. — Foi antes de ficarmos juntos, por favor, se
acalma.
— E você ainda gosta dela? — Aquela pergunta não deveria ter saído da minha boca, pois
eu não consegui a resposta. Matteo não me respondeu.
— Para de ser insegura, nós vamos ter um filho, vamos nos casar, o que mais você quer?
— mordo os meus lábios e me dou conta do caos que eu havia criado.
— Eu... Eu não posso continuar com isso... — murmurei, me afastando completamente
dele.
— Nina o que você está falando?
— Eu não vou me casar com você...
— Porque Nina? Por quê? Não leve as coisas nesse ponto. — ele tentava me puxar para
ele, mas eu me afastei. Eu não podia conviver com a minha mentira sabendo que estava
prendendo Matteo somente por conta do bebê, ele não me amava, ele amava a ideia de ser
pai.
Prestes a explodir como uma bomba-relógio eu disse:
— Porque eu não estou grávida.
Danos
Os danos que uma mentira pode causar são irreversíveis. Não tinha volta e eu sabia que
nada seria como antes. Existe um momento em que pensamos se devemos contar uma mentira
e bom, eu pensei nos prós e contras, e acreditava que essa mentira não machucaria ninguém,
pois eu iria encobri-la. Eu iria ficar grávida, quer dizer tentaria.
Sinto-me péssima, arrasada. E com muita raiva de mim mesma, aonde eu cheguei? Porque
eu fiz tudo isso pelo Matteo? Somente para prendê-lo? É errado, eu sei e me dói. E nesse
momento eu me perco pensando se devo dizer a verdade, dizer que nunca fiquei grávida ou se
digo que perdi o bebê.
Uma vez vi uma frase que diz:
“É melhor ouvir uma verdade dolorosa do que uma mentira reconfortante. No final, a
verdade vai acabar vindo à tona e vai machucar muito mais do que se tivesse sido contada
antes. ”
E é o que está acontecendo agora, a verdade está vindo à tona e é muito dolorosa para
suportar. Acreditava que, quaisquer que fossem as consequências, eu as merecia.
Penso nas duas situações e sei que nenhuma era boa. Talvez eu devesse ter ficado quieta,
contudo, não consigo viver acreditando que Matteo estava comigo somente por conta da
criança. Eu pensei muito nisso, mesmo que eu estivesse grávida, ele não ficaria comigo por
amor a mim, mas sim, amor ao filho.
Quando me recordo de todas as situações que vivemos um aperto súbito em meu peito me
faz anelar. A primeira vez que vi Matteo foi como se uma paixão boba surgisse de repente e eu
fiz de tudo para conquista-lo. Fui sua parceira em todos os trabalhos da faculdade e contei tudo
sobre minha vida. O pior era que ele nunca me disse nada sobre a vida dele, até há pouco
tempo eu mal sabia sobre seus pais e nem cogitava que ele tinha um irmão. Era como se só eu
vivesse nosso relacionamento.
Minha expressão ficou séria e eu disse:
— Eu menti. Nunca estive grávida. Quer dizer, por um momento achei que estivesse, mas
não. Eu não estou grávida — falei. Minha voz não falhou. Eu não chorei, estava chocada
demais por dizer à verdade que não tive nenhuma reação de desespero.
Matteo me fitou incrédulo e semicerrou os olhos para mim.
— Vamos até o carro, não quero que ninguém presencie essa cena — pediu, fazendo
menção para que eu o seguisse. Assim que entramos no carro ele virou-se para ficar me
encarando.
— É brincadeira, não é? Me diz que não é verdade, fala que não mentiu pra mim? — Sua
voz estava alta, o suficiente para expressar sua raiva.
Hesitei.
Ele me fitava, uma expressão séria, dura. Seus olhas transmitiam uma tristeza profunda.
— É a verdade Matteo, não estou grávida... — eu não iria desistir de dizer o fato.
— Eu não vou ser pai... — ele disse e seus olhos marejaram, ele pareceu se segurar — Eu
não vou se pai... — ele sussurrou novamente. Depois, os lábios dele se contraíram e lágrimas
marejaram seus olhos. E então pela primeira vez eu vi Matteo chorar. Meu coração doeu, cada
partícula do meu corpo doeu.
— Eu sinto muito, eu sinto muito — falei. Prestes a desabar eu tive que inspirar e expirar
para não desmoronar de angústia.
— Eu não acredito que mentiu pra mim desse jeito, mentiu pra minha família! Eu iria
mudar minha vida por você. — ele disse e machucou. É claro que machucou, ele estava
escancarando à dimensão que a minha mentira causou.
— Eu sei que menti, mas as coisas tomaram uma proporção maior do que eu esperava.
Quando eu te disse que estava grávida eu acreditava que podia estar! E quando descobri que
não, não tive coragem de dizer... — tomei fôlego para continuar. — Eu só queria prolongar a
sensação de estarmos juntos... — Não importa o que eu dizia tudo parecia tão ridículo quando
saia da minha boca.
E então Matteo deu a partida no carro.
— O que está fazendo? — Questionei.
— Vou te levar embora. Não quero que fale nada durante o caminho — ele pediu e eu
assenti.
Pelo caminho vi que lágrimas rolavam vagarosamente pela face de Matteo. Eu quis secá-
las, quis pedir perdão. Contudo, eu sabia que não era hora, sabia que eu não podia fazer nada.
Quando Matteo parou de frente para o meu apartamento, seu semblante ficou sombrio e
disse:
— Eu não quero te ver nunca mais...
Meus olhos se enchem de lágrimas imediatamente. Fecho os olhos, contendo as lágrimas
quentes. Quase desmoronei. Observei o rosto dele, o cabelo, os braços, subitamente
recordando de nosso primeiro encontro, o som da música alta que sempre tocava em seu
apartamento, o leve perfume de limão. E respirei com dificuldade.
Eu queria pedir perdão, contudo não tinha esse direito e desci do carro e vi Matteo ir
embora. Mal consegui subir até o meu apartamento.
Fiquei na porta, ofegando. Então fechei os olhos, reprimindo as lágrimas, deixando minhas
mãos caírem nos joelhos quando me dei conta do que havia perdido. Eu perdi Matteo, o
homem que eu tanto amava... eu sentia aquele vazio no estômago horrível ao pensar que eu
não estava grávida. Acreditei tanto que era como se eu realmente tivesse perdido meu bebê.
Carina apareceu assustada com o barulho do meu choro e de imediato ela entendeu a
situação. Eu chorei alto e tentava dizer algo, mas somente palavras desconexas saiam da minha
boca. Carina abaixou-se e me afagou.
— Está tudo certo agora. Vai ficar tudo bem.
Mais lágrimas quentes e idiotas escorriam dos meus olhos imbecis, e eu as secava e dizia a
mim mesma que eu era culpada por tudo. Naquela noite eu podia deitar no travesseiro e não
sentir que era a pior pessoa do mundo por estar enganado alguém, mas isso não me confortava.
A verdade não me confortava, muito menos a mentira.

[...]

Eu fiquei deitada em minha cama todo o final de semana até decidir que precisa fazer algo.
— Eu preciso colocar a minha cabeça no lugar... Preciso da minha mãe — falei para Carina
que estava sentada ao meu lado na cama, ela estava preocupada, pois meus enjoos não
pararam. E eu não tinha conseguido comer nada desde então.
— Tudo bem, mas e o trabalho? — Carina questionou, meus pais moravam um pouco
longe, eu teria que dirigir por umas duas horas.
— Eu vou pedir uma folga de três dias para a Eleonor, dizer que não estou bem. — O que
era verdade. Na situação em que eu estava não conseguiria trabalhar. Mandei uma mensagem
para Eleonor e rezei para que ela aceitasse. Para minha sorte pouco depois ela respondeu:
“Tudo bem, mas não deixe de me enviar o cronograma do projeto”.
Levantei e joguei algumas roupas do armário em uma mala. Prendi o meu cabelo em um
coque e estava pronta para sair, eu iria de pijama mesmo.
— Promete que vai ficar bem? — Carina indagou indo comigo até o carro.
— Eu vou... Eu só preciso de um tempo, tudo esta sendo doloroso demais e eu seu que a
culpa a minha.
— Tudo bem, dê um tempo. Nenhuma dor dura para sempre — Carina disse e eu a abracei
antes de entrar no carro.
No caminho eu tive que parar diversas vezes para fazer xixi, parei em restaurantes e
conveniências. E acabei pegando refrigerante para tomar. O gás do refrigerante iria me ajudar
com o enjoo. Consegui chegar à casa dos meus pais por volta das oito da noite. Desci do carro
e bati na porta. Meus pais eram simples, possuíam uma casa pequena e vivam com a
aposentadoria e artesanato que minha mãe fazia.
Uma mulher alta, com pele clara, ombros altos, e cabelos loiros atende a porta. E eu
desmorono a abraçando.
— Mãe... — Sussurrei. — Eu sou tão idiota — eu choro e não consigo parar de chorar ao
abraça-la.
— O que aconteceu? — Assustada minha mãe questiona.
— Eu perdi o Matteo — falei enquanto fungava. Minha mãe sabia de Matteo, eu sempre
falava dele.
— Menina boba, pare com isso — minha mãe me segura para encarar-me. — Você não vai
morrer porque um garoto idiota não te quis, ande, venha para dentro. O que aconteceu com o
seu cabelo? — Minha mãe resmunga enquanto entro em casa.
— Eu preciso ir ao banheiro — falo e corro em direção ao banheiro antes de conseguir
cumprimentar meu pai. Transpiro e ofego. Eu definitivamente precisava comer algo, pois não
conseguia vomitar, somente o que saia era uma água com gosto amargo. Enxaguei a boca e vi
como minha aparência estava péssima no espelho, meus olhos estavam com olheiras
profundas, mas minhas bochechas pareciam inchadas.
Ao sair do banheiro vi a feição preocupada do meu pai.
— Querida o que faz aqui de repente? — Ele questionou.
— Eu senti saudades pai — falei o abraçando.
— Eu também, precisa nos visitar mais vezes — ele diz sorrindo.
— Vem aqui na cozinha Nina, estou te preparando um leite com mel — minha mãe disse.
Meu pai foi para a sala e se ajeitou em sua poltrona. E então eu me sentei na cozinha e contei
para minha mãe tudo o que eu fiz.
Ela estava totalmente em choque, mas ouvi tudo atentamente.
— Não podemos forçar alguém a nos amar, e filho, filho não segura nenhum homem. Mas
sabe o que é pior de tudo isso Nina? — Ela questionou me entregando uma xícara de leite
quente.
— O que? — indaguei.
— Você está grávida. — disse com convicção.
— É claro que não, eu já fiz todos os testes, eu até menstruei, não estou grávida. Minha
mãe riu.
— Eu te conheço. Eu sei quando uma mulher está grávida, ainda mais sendo minha filha.
— Um nó se formou em minha garganta.
— Mãe para de brincar comigo, eu sei que não estou. Tenho exames pra comprovar.
— Eu não me importo com esses exames, o que eu sei é que minha filha está grávida e
precisa de mim. — disse e foi até a mim. Sentou-se ao meu lado e segurou minha mão. —
Estamos nessa, juntas.
Frio no estômago

Não posso afirmar que lembro o exato momento em que contei uma mentira, mas me
recordo de várias. Por exemplo, nas redações escolares pós-férias, eu dizia que viajei para
vários lugares e que conheci a Disney, mas a verdade era que fiquei em casa assistindo
televisão e ajudando minha mãe com artesanatos. Era uma mentira boba, afinal as redações dos
outros colegas eram tão empolgantes, e a minha eu não queria que fosse diferente.
Partindo do pressuposto que aquela mentira era boba, na adolescência eu cabulava as aulas
para encontrar um namorado secreto e mentia para minha mãe que estava com uma amiga. Não
era nada demais – eu pensava. Afinal eram só uns beijos.
Quando entrei na faculdade eu tinha vergonha de afirmar que era virgem. Até mesmo
quando comecei a ficar com Matteo, eu não tinha coragem de dizer a ele que ainda não tinha
perdido a virgindade. E então quando aconteceu de verdade, eu não precisava omitir, nem mais
mentir. Eu não era mais virgem e também nunca disse o contrário. Não era algo tão importante
– pensava. O que mudaria se eu dissesse que era virgem? Nada.
E depois de banalizar por tanto tempo minhas mentiras, ficou fácil dize-las. Eu não estava
machucando ninguém. Mas agora, depois da última e desastrosa mentira eu percebo que
machuquei não só outra pessoa, mas também a mim.
Revirando-me na cama pela madrugada, fiquei me questionando se minha mãe estava certa.
Grávida ou não eu precisava de uma confirmação, algo sólido. O modo mais correto e sem
erros era um ultrassom. Eu queria que as coisas não passassem de coincidências, uma gravidez
nunca esteve em meus planos e agora as coisas tinham ficado tão ruins que eu não sabia o que
fazer se houvesse um positivo.
Meus olhos ficaram pesados, e eu virei de lado, dobrando as pernas em posição fetal.
Quando a manhã chegou, com urgência sai da cama e corri para tomar um banho e me
arrumar para ir ao hospital. Antes de sair, dei uma olhada furtiva para meu reflexo de corpo
inteiro no espelho. Eu não gostei do que vi. A única coisa que via era um reflexo de uma
garota mentirosa e dependente. Não disse a minha mãe que ia ao hospital. Precisava fazer isso
sozinha.
Peguei o carro e dirigi até o centro que era onde se localizava o hospital mais próximo, com
a carteirinha do convênio em mãos eu entrei no hospital. Foi uma longa espera. Até que o
médico me chamou na salinha. Falei que estava com dores na barriga e o médico apalpou.
Minhas mãos suavam a tensão cada vez mais inquietante. Até que por fim ele pediu um
ultrassom – após minha insistência. Indicou-me para ir até a sala de ultrassonografia e esperar.
É claro que demorou. O hospital estava muito cheio e eu era prioridade baixa. Até que eu
fui chamada.
—Nina Proença — uma mulher me chamou. Levantei e a segui até a salinha. — Deite-se na
maca que o médico já vem vê-la. — ela disse e saiu. Deitei-me e posso dizer que foram os
segundos mais torturantes da minha vida. Inspirei e expirei. Sequei minhas mãos na calça e
fiquei olhando para o teto. Até que a porta se abriu e o médico entrou.
— Olá — ele disse. Era um homem de meia idade, cabelos levemente grisalhos. — Na sua
ficha está dizendo que você reclama de dores abdominais. Vamos fazer uma Ultrassonografia
de abdome total... — ele disse e eu mal escutava, estava em pânico. Um líquido gelado se
esparramou pela minha barriga e com uma pressão o médico começou a mexer o aparelho. Ele
não falou muito e só marcou alguns pontos na tela.
— Bom, boa parte das suas dores abdominais são causadas por gases — ele disse. E eu
fiquei encabulada. — Não se acanhe, é normal para quem está grávida — falou e eu achei que
estivesse ouvido demais.
— Grávida? Eu estou grávida? — balbuciei.
— Pensei que soubesse. Veja... — ele moveu o aparelho em direção ao meu baixo ventre.
— olhei para a tela e não conseguia entender os borrões claros. — Esse é o seu bebê... — ele
indicou com o cursor. Em um estalo em minha mente eu quase acreditei que estava sonhando,
mas a pressão do aparelho em minha barriga era real. O médico com as sobrancelhas
semicerradas me encarando era real. A minha mentira se tornou realidade.
— Eu não sabia — sibilei.
— Bom, marque o pré-natal com seu médico. É muito importante que comece logo. Fora
isso, está tudo bem, daqui uma hora você pode pegar o resultado — disse e entregou papel para
que eu me limpasse.
Ainda perdida e sem assimilar os fatos eu levantei da maca. O médico foi para outra sala e
eu caminhei pelo corredor do hospital sem chão. Senti as lágrimas ardendo em meus olhos.
Ansiei tanto pelo momento de confirmar uma gravidez, mas agora vejo que nunca foi o que eu
queria.
As coisas não estavam saindo como eu planejara, e o momento de euforia tão aguardado foi
desaparecendo até morrer.
Em silêncio sai do hospital e fui até o estacionamento. Entrei no meu carro e fiquei lá
sentindo a ferroada quente das lágrimas que escapavam e desciam por meu rosto. Desolada,
perdida e brava. Eu estava muito brava comigo mesma. Como pude me por nessa situação? E
como os resultados puderam ter dado negativo? Seria algum tipo de castigo? Castigo por todas
as mentiras que contei ao longo da minha vida?
Eu não sabia a resposta. Furiosa, enxuguei as lágrimas com as costas da mão. Com as mãos
entrelaçadas em minha barriga, murmurei: Desculpe-me.

[...]

Com o exame em mãos voltei para casa. Minha mãe fez um chá e sentou-se comigo na
varanda de casa.
Ficamos ali sentados, bebendo nosso chá em silêncio. Minha cabeça começava a parecer
pesada demais para o pescoço, e por diversas vezes esfreguei os olhos, o que dava a sensação
de estarem cheios de areia quente.
— Por que você não sobe e tenta dormir um pouquinho, amor? —sugeriu. Balancei a
cabeça.
— Não posso, mãe, tenho muito o que fazer, muito sobre o que pensar… Preciso me
organizar, contar a verdade a Matteo... Saber se ele está bem.
—O quê? — perguntou mamãe rispidamente. —Você vai atrás dele?
— Eu não sei, você pode não entender, mas ele precisa saber a verdade. — Minha voz
falhou. Claro que ela não poderia entender…
— Não vou te impedir de fazer isso, mas no momento, pense em você e na criança. O que
você precisa fazer?
— Voltar para casa e iniciar o pré-natal — respondi.
— Exatamente. Não é o momento para pensar em Matteo. Deixe as coisas se acalmarem.
Você sabe quais são as prioridades. Você não pode se desvalorizar dessa forma. Está perdida
em uma obsessão por um garoto que nunca demonstrou que queria algo sério com você. Está
na hora de enxergar a realidade! — Palavras duras e sinceras.

Eu senti vontade se sumir. De acordar no dia seguinte e viver outra vida. Não ser mais Nina
Proença.
|...|
Após dois dias tive que voltar para casa, prometendo para minha mãe que voltaria no
próximo final de semana. Cheguei ao apartamento as sete da noite e encontrei Carina
esparramada no sofá comendo pipoca e assistindo algum filme. Debaixo do meu braço estava o
envelope do meu ultrassom e também um exame de beta HCG que fiz no dia seguinte. Joguei a
mala no canto da casa e fui até o sofá.
— Está melhor? — Carina deu espaço para que eu sentasse no sofá.
— Estou. Dê uma olhada nisso aqui — falei para ela e entreguei o envelope. Carina abriu e
me olhou com as sobrancelhas arqueadas. Ela olhou a primeira folha. Com letras em negritos
estava escrito: Positivo.
Carina olhou para o exame e depois para mim. Ela maneou a cabeça para o lado:
— Tá de sacanagem comigo? — Ela indagou e pegou o papel do ultrassom. Virou algumas
páginas e me fitou: — Você não falsificou isso né?
Meus olhos marejaram.
— Não — respondi.
Ficamos apenas nos fitando, olhos transbordantes das lágrimas que ainda não tinham sido
derramadas. Por um longo momento, nenhuma de nós se moveu. Então deixei escapar um som
que era parte risada parte soluço, enquanto nos jogávamos nos abraços uma da outra.
— Como é possível? — Carina indagou.
— Eu já estava, desde o momento que fiz o primeiro teste — respondi.
— Meu Deus, Nina — Carina se afastou e fez uma expressão pensativa. — E agora? O que
vai fazer? E o Matteo? — Questionou. Todas as perguntas que eu fazia a mim mesma.
— Por enquanto... Nada. Eu pensei muito sobre isso, e a única coisa que posso fazer é
cuidar do bebê.
— Sua barriga vai crescer, uma hora o Matteo vai descobrir.
— Eu sei, eu só preciso de um tempo. Tempo para as coisas se acalmarem. — falei. E
Caruba concordou. — Espere um minuto, esqueci os Cupcake que minha mãe fez pra gente no
carro. — disse. Levantei e desci pelo elevador. No hall da entrada do prédio vi uma figura
conhecida.
Frio no estômago.
Sabia que ele tinha me visto. Era provável, até, que tivesse notado meus olhos se
arregalarem de surpresa. Mas o único sinal de reconhecimento que deu foi uma discretíssima
inclinação de cabeça.
Proposta
Era estranho o irmão de Matteo estar ali. Quando ele se aproximou fiquei receosa sobre o
que queria. Será que Matteo já havia contado tudo para ele? Será que ele estava ali para brigar
comigo? Semicerrei as sobrancelhas e fiquei com os braços cruzados.
— Nina, podemos conversar? — Ele indagou.
— Sobre o que? — Perguntei.
— Sobre sua falsa gravidez — ele chegou perto do meu ouvido para sussurrar. Senti um
frio na espinha.
— Não tenho nada pra falar — disse.
— Matteo me contou e eu não acreditei que alguém fosse capaz de fazer isso. Ele está
péssimo, você acabou com ele — Por um momento sua voz se exaltou.
— Martim, aqui não é lugar para falar disso. Eu não devo explicações a você. — me afastei
para ir embora.
— Matteo não teve coragem de dizer a verdade para nossos pais. Nosso pai está mal e está
querendo te ver. Ele acha que não vai dar tempo de ver o neto — Martim passou a mão pelo
rosto. — Coitado, não sabemos o que fazer.
— E por que você veio falar isso pra mim? Para que eu me sinta mais culpada?
— Porque eu pensei que talvez você tenha ficado com raiva do Matteo e mentiu pra ele
sobre uma falsa gravidez. Pensei que fosse uma brincadeira dita em uma hora de raiva.
— Me desculpe. Eu queria consertar o que fiz, mas não posso. — Falei. Não sabia se
deveria dizer que estava grávida e que tudo não passou de uma confusão inventada por mim.
— Me desculpe — frisei e voltei a entrar no elevador. No entanto, Martim me seguiu.
— O Matteo não quis te pedir, mas eu vou. Por favor, venha ver o nosso pai. — Pediu.
Enquanto o elevador fechava as portas.
— Como você acha que posso fazer isso? Como posso encarar Matteo depois de ter
mentido pra ele?
—Do mesmo jeito que você agiu para mentir pra toda minha família. — Martim virou para
me encarar. — Você mentiu, você deve isso a nós.
O elevador chegou no meu andar e eu sai seguida por Martim.
— Eu preciso pensar — falei.
— Aqui, meu número. Ligue-me avisando. — disse.
— O Matteo sabe que você veio me procurar?
— Não, mas ele vai entender. — Matteo apertou o botão para entrar no elevador. — Não se
esqueça de que deve isso a nós. — Frisou e quando o elevador abriu-se ele entrou. Fui em
direção ao meu apartamento e me certifiquei se Martim não estava me seguindo. Abri a porta e
entrei.
—Cadê os Cupcake’s? — Carina indagou.
— Encontrei o Martim no térreo. — falei, sentando-me ao lado dela no sofá.
— Quem é Martim? — Indagou.
— O irmão do Matteo. — Suspirei.
— Ah sim, é que só ouvi esse nome uma vez, tinha me esquecido. Enfim, o que ele queria?
— Ele veio me pedir para visitar o pai dele que está doente.
— Não acho uma boa ideia. Você precisa se afastar um tempo dessa família.
— Eu sei. Não me faria bem encontrar com Matteo. O problema é que ferrei com tudo. Eu
os enganei, e acho que devo algo a eles.
— Nina, você está grávida. Precisa pensar no que vai fazer. Mas, o conselho que dou é,
conte a Matteo que está grávida. Você já mentiu pra ele, é melhor não omitir a verdade.
Carina estava certa. Cedo ou tarde a verdade apareceria. Eu não tinha por onde fugir e não
seria covarde, eu tinha que dizer a verdade.
— Vou contar que estou grávida.
— Tem certeza? — Carina perguntou.
— Sim. Tenho certeza.
Só que eu não tinha. Nem um pouco.

[...]

Uma pessoa que já sofreu muito por amor, torna-se empedernida. Ela dificilmente confia e
passa a não acreditar mais no amor. Ela sofre e consequentemente faz alguém sofrer mais
tarde. É um ciclo, penoso e doloroso.
Eu acreditei no amor. Contudo, acho que o levei a sério demais. Na verdade perdi o
equilíbrio na linha tênue que é o amor e a loucura. Eu chorei muito naquela noite, não posso
negar que não sofri. As lágrimas de frustração rolavam pela minha face e molhavam meu
travesseiro. Meu nariz ficou trancado e eu fungava enquanto apertava as cobertas.
Eu preciso de um rumo. E sabia que esse rumo deveria ser seguido sem Matteo. Eu iria
contar a verdade a ele, iria visitar seu pai e viveria minha vida. Sem culpa. Sem mágoas. Eu
precisava me encontrar, e para isso iria resolver todas essas pendências.
No dia seguinte mandei mensagem para Martim confirmando que iria visitar o pai dele. Ele
respondeu a mensagem rapidamente dizendo para ir até a casa deles no sábado à tarde.
Eu não esperava fazer as pazes com Matteo. Eu só queria dizer a verdade. A verdade estava
presa em minha garganta e queimava.
Fui para o trabalho com medo de que Matteo tivesse dito o que aconteceu para Daniel,
porém para minha surpresa ele só me cumprimentou sorridente e marcou almoço para o meio
dia. Antes de dizer a ele o que aconteceu eu queria esperar e dizer primeiramente a Matteo para
que ele não soubesse nada por terceiros.
Passei a manhã correndo para terminar o slogan da campanha. Tudo tinha que estar
perfeito, pois eu queria pedir umas férias para Eleonor. Minhas férias haviam vencido e ela
havia me dito para escolher um mês, e nesse momento eu precisava urgentemente das minhas
férias.
Almocei com Daniel e Marcele e no final da tarde pedi a Eleonor para falar com ela.
Expliquei que estava muito estressada e precisava muitos das férias que estavam pendentes.
Como o feedback da campanha no meio da tarde foi bom, Eleonor me cedeu 15 dias, contando
a partir da próxima semana. Aliviada fui para casa.

[...]

Os dias pareciam passar em um borrão, e o final de semana chegou dolorosamente rápido.


Levou uma vida até eu ter coragem e dar partida no carro. No meio do caminho eu já
considerava seriamente a opção de dar a volta e voltar pra casa. Eu sabia que grande parte da
minha ansiedade se devia à culpa.
Coloquei uma música alta e agitada no carro e dirigi. Parei em alguns momentos pra fazer
xixi e comer. Querendo melhorar minha saúde e a do bebê, optei por um sanduíche de frango e
suco de laranja. Afinal eu não podia viver de fast food estando grávida.
Quando cheguei a meu destino fiquei um tempo dentro do carro. Não tinha coragem de sair
dali. O que eu deveria fazer? Sair, tocar a campainha? Era o óbvio, porém nada fácil.
Distraída, levei um susto quando alguém bateu no vidro do meu carro. Abri o vidro e vi a
expressão vazia de Matteo. Senti meu coração se apertar e minhas pernas tremerem.
— Sai do carro — ele disse.
— Pra que? — Indaguei.
— Você não veio fazer seu teatro? Vamos, não tenho o dia todo. — Falou. E eu pensei em
retrucar, porém tinha prometido a mim mesma que iria fazer o que tinha me pedido, dizer a
verdade e ir embora. Peguei o envelope com os resultados dos meus exames. Sai do carro e
caminhei na frente de Matteo até chegar à porta da casa dele. Ele a abriu para mim e entramos.
De imediato vi Emanuela.
— Nina, querida, que bom que veio nos visitar. — Ela me cumprimentou e logo após deu
um abraço em Matteo. — Venha até a sala, por favor. — ela pediu. A segui e na sala vi Clarice
e Martim sentados. Clarice me olhava e seus olhos demonstravam que ela sabia sobre a
mentira. Ela disse oi, mas sem se levantar para me cumprimentar. Martim apenas maneou a
cabeça para mim.
— Meu marido não para de falar sobre o neto. Ele sente que não vai vê-lo nascer. E isso
está sendo muito difícil para nós — falou enquanto nos sentávamos.
— O que ele tem? — Perguntei. Até o momento não sabia o que o pai de Matteo tinha.
Emanuela estreitou os olhos e disse:
— Pensei que você soubesse... Ele tem insuficiência cardíaca congestiva. O coração dele
não consegue mais bombear sangue para o corpo como deveria. Os médicos sugeriram
cirurgia, mas ele é teimoso e está difícil convencê-lo.
Não pude deixar de ficar irritada por não saber disso, porém permanece resiliente. Engoli
em seco tão ruidosamente que tenho certeza de que os quatro ouviram.
— Entendo. Posso vê-lo? — Questionei.
— É claro, eu te levo até o quarto. — Emanuela disse. Matteo se levantou.
— Eu prefiro ir sozinha Matteo — falei e relutante ele sentou. Subimos as escadas e
viramos à direita. Emanuela bateu duas vezes na porta do quarto e abriu.
— A Nina veio te visitar — Emanuela disse. Vincenzo estava deitado na cama e levemente
sonolento. Ele me indicou para que sentasse ao lado dele e coloquei os exames em cima de
uma cadeira.
— Vou deixá-los a sós — Emanuela disse e fechou a porta.
— Me sinto péssimo por vê-las nessas condições. Porém minhas pernas estão inchadas —
ele disse.
— Tudo bem, eu estou feliz por ter vindo. Vincenzo deu um meio sorriso.
— Já estão dizendo que estou morrendo, não é?
— Não é isso, sua família se preocupa com você. E eu também, quer dizer nós. — Peguei
os exames e folhei as páginas. Deixei aberta na do ultrassom e mostrei a Vincenzo. — Ele quer
muito te conhecer — falei.
— É um presente de Deus — Vincenzo falou. Lutando para reprimir as lágrimas.
— Por favor, lute por sua vida — pedi.
Sentia a pressão de uma vida inteira de lágrimas crescendo em meu íntimo, e cada soluço
de Vincenzo era como um martelo arrebentando minha própria fortaleza emocional.
— Não sei se vou conseguir, mas eu vou lutar para ver o meu neto — disse.
— Não só vê-lo, você vai conversar com ele, contar histórias. Ele vai te amar muito —
falei. Vincenzo apertou minha mão.
— Você é uma boa menina. Estou muito feliz por meu filho ter te encontrado. – falou,
engasgando de emoção.
— Obrigada — falei, não podendo negar aquele momento a ele. Alguém bate na porta e
vejo Martim entrar.
— Pai, está na hora do seu remédio — ele disse trazendo um copo de água.
— Não seja boba, poderia ter pedido a umas das empregadas trazerem para mim. —
Vincenzo articulou.
— Estou encarregado de cuidar da sua saúde — Martim disse e antes que eu pudesse
esconder, ele olha meu ultrassom.
— O que é isso? — Martim indaga.
— É o primeiro ultrassom do meu neto — Vincenzo responde. E Martim entrega o copo de
água a seu pai, logo após pega o ultrassom. Ele olha e um lampejo de dúvida nublou em sua
expressão. Ele folheia as páginas e depois olha o restante do conteúdo do envelope.
Após pegar o copo vazio Martim diz:
— Nina, quer comer alguma coisa? O café está na mesa. — Diz.
— Ah não, eu estou falando com seu pai — falo.
— Por favor, desça e coma, depois conversamos — Vincenzo pede, e não vejo outra
alternativa a não ser aceitar. Recolho meus exames e sigo Martim para fora do quarto. Ele
fecha a porta e seguro a respiração com medo.
— Isso é sério? — ele aponta para os exames.
— Sim, eu estou grávida. Sempre estive, porém eu não sabia — disse de uma vez. Não
tinha mais como negar.
— Porra, você é muito pirada. O que pretende fazer?
— Vou contar a verdade a Matteo...
— A verdade? Depois de ter ferrado com a cabeça dele? Garota você é muito
desequilibrada. — Ele sussurra com medo que alguém nos ouça.
— Não me ofenda. Eu fiz o que pediu. Eu vou dizer a verdade a Matteo e ir embora.
— O que você quer, o nosso dinheiro? Por isso está fazendo todo esse joguinho? —
Inquiriu. As palavras de dele foram tão completamente inesperadas que levei alguns segundos
para registrá-las.
— Não. Em hipótese nenhuma— Falei e caminhei em direção contrária a ele.
Porém, Martim me segurou pelo braço e disse:
— Vou te fazer uma proposta irrecusável. Matteo diz que sonha em ser pai, mas ele não
entende nada disso, é irresponsável e vive em um lixo de apartamento e depois da sua
mentira ele nunca vai te perdoar. Mas, Clarice e eu, sonhamos com isso e temos estrutura para
tal. Você tem o bebê, entrega a nós e lhe damos uma boa quantia de dinheiro. Matteo vai poder
visitar o bebê nos finais de semana e você vai ter o dinheiro que tanto deseja.
Fiquei em choque. Prendi a respiração em um esforço para controlar o corpo trêmulo. Meu
coração começou a bater loucamente e minha boca de repente ficou seca.
— O que está acontecendo? — Uma voz grave soou. Olhei para trás e vi Matteo.
Parafuso Solto
O aparecimento de Matteo foi o estopim. Eu não estava aguentando a raiva que sentia. Eu
sei que eu errei, estava lidando as consequências dos meus atos, no entanto, eu não merecia ser
tratada daquela forma.
— Vai para o inferno Martim. Você não tem o dinheiro de dizer isso — falei o encarando.
— Que merda você está falando pro meu irmão? — Matteo questiona ao ver que nem eu,
nem Martim damos atenção a ele.
— Pergunte a ele — digo. — Vamos Martim, fala pro seu irmão o que estava me dizendo...
— Eu não disse nada. Você que está surtando! Matteo, essa menina precisa de tratamento
psicológico. — Martim disse. — Você é louca!
Sem aguentar mais ficar ali. Fui até Matteo e entreguei os exames para ele.
— Toma. Eu até iria me explicar, mas não vou mais perder o meu tempo. Eu não mereço
ser tratada dessa forma. — falei e fui andando pelo corredor.
— Espere. — Matteo segurou meu braço. Suas sobrancelhas se uniram enquanto observava
meu rosto — Nina, você está tremendo! O que há de errado?
Mordi o lábio e engoli em seco antes de responder.
—Eu já disse — insisti com uma trêmula voz. — Pergunte ao Martim. — Detestava aquela
sensação de descontrole.
— Martim, quer me dizer o que está havendo? — Matteo perguntou a Martim.
— Eu já disse, ela é descontrolada. — Martim respondeu. — Tenho medo de como ela vai
criar o seu filho, quer dizer, se ele for seu mesmo.
— Me solta — falei a Matteo e puxei o meu braço. Fui até Martim e parei de frente a ele.
— Você é um filho da puta que não tem o menor direito de falar algo sobre mim! — Levantei
a mão e encarei o olhar sínico de Martim.
Uma explosão de raiva me atingiu fortemente.
— Ih, calma lá, está querendo me bater? Não disse que ela é desequilibrada Matteo?
— O que está acontecendo aqui? Do que vocês estão falando? — Matteo não conseguia
entender. Ele veio até mim e me puxou. — Chega Nina, não estou afim dos seus teatros.
Havia uma bola compacta de dor em meu peito, e eu podia senti-la queimando como um
cometa raivoso quando olhei para ele.
— Me solta! — Gritei. — Eu não vou ficar aqui enquanto vocês dois ficam falando merda
contra mim. — Encarei Matteo, sua expressão estava confusa.
— Eu só quero saber o que aconteceu para você estar tão irritada. — Disse. E antes que eu
pudesse dizer algo, Emanuela apareceu;
— O que está acontecendo? Por que não desceram ainda? — Ela perguntou. Percebendo
que eu não deveria mais ficar ali resolvi ir logo embora.
— Não é nada. Eu preciso ir — falei e antes que alguém protestasse eu corri pelo corredor.
Senti falta de ar um suor repentino e tive que me apoiar em uma parede. Minha visão ficou
turva e eu sentei no chão. Quase que apagando eu ouvi:
— Nina? Isto é alguma brincadeira?
Um filete de angústia me invadiu, era como se eu estivesse em um pesadelo do qual não se
consegue acordar.
E então eu apaguei.

[...]

Abri os olhos devagar. Meus olhos lacrimejaram um pouco, buscando ajustar-se à luz. Senti
meus braços pesados e percebi um acesso preso no direito. Eu estava no hospital. Olhei ao
redor e não vi ninguém de imediato, até que uma médica surgiu seguida de uma enfermeira.
Percebo que minha bolsa está em cima de uma prateleira, alguém havia trazido ela, seria
Matteo, ou a mãe dele? Onde eles estavam?
— Sente-se bem? — A médica perguntou.
— Sim. — Falei. Estava bem, só sentia a boa um pouco seca. A enfermeira colocou o
aparelho para medir pressão arterial. — É muito perigoso desmaiar na gravidez? — Averiguo.
— Os desmaios são normais e mais comuns no início da gravidez, pois é quando a placenta
está sendo formada e o corpo da mulher ainda não conseguiu produzir todo o sangue que o seu
corpo, a placenta e o bebê precisam. Não se preocupe — ela responde.
— Ok, obrigada.
— A pressão dela está normal — a enfermeira diz enquanto anota.
— Vamos te deixar em observação está noite, ok? Vou permitir que seu acompanhante
entre — disse. — E não deixe de fazer o pré-natal — advertiu e eu assenti. A enfermeira e ela
saíram do quarto e pouco depois Matteo surgiu. Fiquei com medo, nesse momento eu pude ter
certeza que ele sabia da gravidez. Ele veio até a mim e parou de frente, não tendo coragem
para iniciar uma conversa.
Ele ficou ali parado, desajeitado, e em seu rosto havia uma expressão que eu nunca vira.
Rezei para que nada jamais acontecesse em nossa vida que me fizesse voltar a ver aquela
expressão. A mesma expressão que ele fez ao descobrir sobre a falsa gravidez.
— Senta aqui, vamos conversar. — Digo. Por um momento penso em dizer sobre a
proposta de Martim, mas sabia que não cabia a mim falar algo, além do fato de que Matteo
podia não acreditar e me acusar de tramar algo contra o irmão.
— Eu queria te entender. — Matteo murmura. Tento descobrir algo em seus olhos, mas ele
desvia, não conseguindo me encarar. — Já cansei do seu parafuso solto.
— Eu não queira que as coisas tivessem tomado essa proporção. Eu queria te dizer que não
sabia da gravidez até esses dias... — tento encontrar as palavras certas para me explicar.
— Eu não sei o que se passa pela sua cabeça. Mas o que você fez é muito absurdo. E
quando começo a lembrar de tudo percebo algumas coisas. Quando você pedia para fazer sexo
sem camisinha, estava tentando engravidar? — Uma expressão de angústia perpassou o rosto
dele.
Não consigo responder à pergunta com palavras, então eu somente assinto com a cabeça.
Uma expressão de angústia cruzou suas feições.
— Meu Deus. Como você pode me enganar? Isso é horrível Nina, você tem noção de
quanto ruim isso foi? Como você pode dizer que me ama ao me enganar dessa forma? — Ele
me olhou nos olhos. Uma amargura me invadiu.
— Eu te amo. Eu te amei demais. Perdi todo o meu controle. Só que eu já estava grávida
quando planejei toda essa mentira. Então Matteo, não é tão ruim... Não é tão ruim quanto
parece... — Digo e ao me ouvir dizendo, percebo o quão ridículo soou.
— Eu queria muito ser pai. Mas com a pessoa certa. — As palavras me atingem de uma
forma que baixo a cabeça instantaneamente para que ele não veja as lágrimas em meus olhos.
— Tenho que encarar essa situação e me casar com você. — Me assustei quando Matteo disse
isso. — É uma merda, vou ter que casar com uma pessoa que não confio.... Que se mostrou
desequilibrada, totalmente fora do controle. Mas farei isso, pelo meu filho.
— Não — protestei, balançando a cabeça e negando. — Não, não, não! Eu não vou me
casar com você — Me assusto com minha coragem de proferir aquilo. No passado eu nunca
teria negado um casamento com Matteo.
— Não? Até nesse momento você consegue ser puramente egoísta. Não pensa no nosso
filho que vai ser criado por pais solteiros? Viver em duas casas, sem estrutura financeira, eu
não quero isso pra ele.
— Não é só que você quer, é algo que ambos precisamos querer.
A expressão vaga em seu rosto clareou, e em seguida foi substituída por uma leve carranca
de desprazer.
— Eu vou te deixar pra pensar, mas volto amanhã para te buscar. Vamos conversar.
Coloque a cabeça no lugar Nina. Eu não estou te aguentando mais. — Ele se levantou.
Eu mal podia enxergar por causa das lágrimas.
— Vai embora logo — Digo e viro para deitar de lado na cama. Eu não queria fazer nada
por impulso, mas naquele momento eu tomei uma decisão.
Fechei os olhos, mas a dor ainda estava lá, atrás de minhas pálpebras cerradas.
Não lembro o exato momento em que dormi, senti uma leve dor de cabeça ao despertar,
haviam trazido o jantar. Comi uma sopa levemente sem sal e uns pedaços de pão, logo após
dormi novamente. Ao levantar na manhã seguinte, tive a sorte de receber rapidamente a
liberação. Vesti minhas roupas muito rápido. E depois de assinar os papéis pedi um Táxi pelo
meu celular. Em dez minutos o carro chegou, como também vi o carro de Matteo estacionando.
Antes que ele me visse eu entro no carro e peço para me levar até o endereço que deixei meu
carro.
O motorista dá a partida e vejo Matteo entrando no hospital. Murmurou baixo “Adeus”.
Ao chegar na casa, percebo que meu carro estava no mesmo lugar que deixei da última vez.
A chave estava dentro do carro e eu entrei rapidamente antes que alguém percebesse. Ligo o
carro e vou embora.
Sentia-me suja, triste, à beira de um ataque de nervos. Mas eu não desistiria do meu filho e
nem de mim mesma. Matteo era minha fraqueza e minha loucura e eu estava decidida a deixa-
lo.
Era o nosso fim. No fundo eu sempre soube que esse momento chegaria. O soluço pareceu
vir de algum lugar bem fundo dentro de mim, de um poço que eu havia tentado selar.
Tudo parece entrar em colapso. Eu sinto um vento frio. Suspiro. Acabou.
Tempo

Submersa. Era como se eu estivesse dentro de um tanque de água, mas não estava batendo
no vidro para conseguir ajuda, permanecia resoluta em ficar ali. Afogando, me sentindo sem
saída, carregando uma dor que só me afundava, essa dor era como uma corrente, eu precisava
me soltar, eu sabia. Contudo, essa corrente só se desprendia com uma coisa: Tempo.
Dediquei o meu tempo a planejar o meu futuro. Conversei com Carina sobre o apartamento
e se estava tudo bem para ele criar meu filho ali. É claro que ela nem pestanejou e afirmou que
jamais seria um incomodo. Eu tinha uma poupança, mas não havia muito dinheiro, a minha
meta era guardar dinheiro suficiente para comprar uma casa. Minha mãe ofereceu ajuda, claro,
contudo não era certo aceitar, ela e meu pai fizeram muito esforço para cuidar de mim e manter
uma vida digna, e havia chegado a minha hora de fazer o mesmo.
Meu primeiro passo foi mandar uma mensagem para Matteo explicando o porquê de eu ter
ido embora do hospital:
“Matteo, sei que deve estar muito bravo comigo por ter ido embora sem avisar, mas eu
preciso de tempo. Eu preciso que você fique longe de mim. Eu jamais vou te privar de ser pai,
contudo eu não quero te ver se não foi algo relacionado ao nosso filho. Se que nunca me verá
como a menina dos seus sonhos, por isso não quero um relacionamento forçado. Sei que pensa
em casar como um bem maior, como algo digno, mas acho que isto seria bom somente pra
você, pois iria se achar correto. No entanto o mais correto é nos separarmos. Vou lhe enviar
minha agenda com os compromissos da gravidez, ultrassons e exames. E se algo importante
acontecer, você será avisado. Eu te amei muito mais que a mim, mas agora eu tenho algo a
fazer que não envolva você. Eu vou me amar.”
Após enviar essa mensagem, Matteo me respondeu, curto e grosso: “Ok”. Esse foi
definitivamente o nosso fim. Era de recomeçar. Durante quinze dias fico na casa da minha
mãe e a ajudo com artesanatos, desanuvio meus pensamentos e relaxa por um tempo.
Três meses se passam, estava perto da consulta para descobrir o sexo do meu bebê. No
trabalho tudo estava correndo normalmente e Carina estava saindo com uma pessoa, eu não
sabia muito sobre ele, na verdade ela dizia que não gostava dele e que por enquanto estava se
divertindo, mas eu sabia que não era verdade, ela estava apaixonada, dava para perceber no
olhar dela quando falava dele, seu nome era Rodrigo.
Eu via Rodrigo algumas vezes quando ele ia ao nosso apartamento trazer ela. Porém não
tive a oportunidade de falar com ele, pois Carina dizia que não era sério.
Quanto a mim, eu entendia que meu psicológico não estava nada bom. Eu estava fazendo o
pré-natal, mas também resolvi fazer acompanhamento psicológico, minha mãe recomendou e
Carina também. Era uma conversa semanal, eu desabafava e com isso acabava pensando e
repensando na minha vida.
Sai do trabalho ás quatro e meia da tarde e fui até a clínica, as quinze pras cinco cheguei e
fui atendida por Lívia, minha psicóloga.
— Tudo bem Nina, como passou a semana? — Lívia indagou abrindo a porta de sua sala.
— Estou bem, me sinto muito cansada, mas estou bem — respondo. Sento-me de frente
para ela e suspiro.
— E o que mais? — pergunta, sabendo que eu tinha algo a mais para dizer.
— Eu não sei. Sinto-me sobrecarregada, sabe? É como se tivesse um peso preso a mim.
Não sei se vir aqui e conversar está ajudando — digo.
— Com a sequência de consultas, você vai se tornar apta a tomar decisões que afastam o
sofrimento.
— Você me disse isso no começo, só que está difícil. Eu penso demais, penso que estou
construindo minha vida em cima de um erro — digo e me arrependo imediatamente pelas
palavras. — Não que eu considere meu filho um erro, só que não era a hora certa. Foi um erro
neste momento.
— Você não se sente preparada para ser mãe?
— Não, eu não me sinto.
— Isto é absolutamente normal, é algo novo que você precisa se acostumar. — ela diz.
— Sabe, eu fico pensando que meu filho é uma lembrança constante dele. — Eu me referia
a Matteo. — A lembrança de que um dia estivemos juntos e que não estaremos mais.
— Você sabe o porquê de não estarem juntos, certo?
— Porque eu surtei, porque eu o amei mais do que a mim mesma — tiro minhas próprias
conclusões.
— E o que mais você sente sobre isso?
— Eu não me sinto suficiente. Era como se eu não fosse boa o bastante pra ele. Como se o
meu amor não fosse o bastante. Eu queria entender o porquê de eu não ter sido suficiente. Mas,
talvez só não era pra ser. Ele não me amava, não era reciproco.
— E você aprendeu que não tem como forçar a pessoa a sentir o mesmo que você. — ela
objetou.
— Sim. Eu projetei a minha felicidade nele. Eu vivi por ele.
— E por isso agora está tão perdida...
— Sim... Sinto-me submersa. — Digo, sinto um caroço subindo na minha garganta e me
desmancho em lágrimas — Preciso ir agora — resolvo de maneira abrupta.
— Mas ainda temos tempo — ela diz.
— Tenho um compromisso — digo, enxugando as lágrimas com as mãos. — Te vejo na
próxima semana.

[...]

No dia seguinte acordo mal-humorada para o trabalho. Algumas espinhas haviam surgido
em meu rosto e eu me sentia mais inchada que o normal. Minha barriga havia crescido
ligeiramente, eu colocava sempre uma blusa bem soltinha para que não marcasse demais.
Sentia-me incomodada, nos meus seios apareceram alguns grânulos nos mamilos, na área
da auréola. Essa área também estava mais escura e meus seios aumentam consideravelmente
de tamanho. Algo de bom havia surgido, meus enjoos haviam desaparecido.
Após tomar um banho e tomar meu café dirijo até meu trabalho e quando chego apenas
cumprimento brevemente alguns colegas, havia chegando muito cedo e então sento e pego meu
celular para fuçar nas redes sociais, pela primeira vez em três meses vejo uma atualização de
Matteo, era uma foto. Estava Matteo, três colegas de seu trabalho e aquela garota, Emília. Na
legenda estava escrito: “Obrigada equipe e em especial Emi por ter me apoiado, hoje eu
agradeço a todos que me ajudaram a trilhar um caminho na empresa. Finalmente
promovido...”.
Perco alguns segundos olhando para foto. Matteo ao lado de Emília extremamente feliz.
Sinto meus olhos marejarem e vou correndo para o banheiro.
Eu mal fecho a porta do banheiro e as lágrimas começam a escorrer. Ligo a água e dou
descarga algumas vezes para abafar os enormes soluços que não consigo mais segurar.
Eu sabia que precisava superar toda essa situação, mas não era fácil. Só estando na minha
situação para saber o quanto era difícil. Eu estava sozinha, eu amava um homem que nunca me
amou. E sempre soube disso, mas eu fui fundo, eu investi em um relacionamento que só era
vivido por mim.
Lavo meu rosto e seco com papel toalha. Respiro profundamente e imagino que tudo vai
ficar bem. Saio do banheiro e dou de cara com Guilherme, ele havia entrado recentemente na
empresa e trabalhava no TI.
Fico com o rosto virado para ele não ver que meus olhos estão inchados.
— Você está bem, Nina? — ele indaga. Eu sempre o chamava porque meu computador
andava mais péssimo que eu.
— Estou, acho que meio gripada — falo para justificar meu nariz vermelho.
— Quer tomar um café? Trouxe bolo — ele diz e eu resolvo aceitar, só a palavra bolo me
dava fome.
Vamos até a cozinha e Idate me dá duas cápsulas de leite com chocolate para preparar na
maquininha. Assim que preparo me sento e como um pedaço de bolo silenciosamente.
— Está ansiosa para descobrir o sexo do bebê? — ele indaga, eu havia comentado a ele que
iria descobrir hoje.
— Ah, eu não. Me dá um frio na barriga ao pensar se é menino ou menina, mas não é algo
eu esteja pensando muito — digo.
— E o pai do bebê, seu namorado... O que ele pensa? — Questiona.
— Eu não sei o que ele pensa. Não estamos juntos — respondo.
— Me desculpa pela intromissão.
— Tudo bem...
— Não querendo ser invasivo, mas porque vocês terminaram?
— Ele sempre foi ensimesmado e distante, e nunca quis se comprometer.
— Você está bem?
— Eu não sei. Por que tem de ser tão torturante? Por que eu me sinto como se estivesse em
estado de choque? — Eu estranhamente estava me abrindo para ele. Idate concentra seus olhos
castanhos escuros em mim.
— Você pode estar sentindo uma angústia agora, e vai sentir por um tempo, mas, no longo
prazo, isso vai ser a melhor coisa que aconteceu a você, Nina.
Não digo nada e lanço um olhar cheio de dúvidas para ele.
— Nina, estou falando sério. — Ele coloca o rosto bem pertinho do meu e me olha bem nos
olhos. — Você vai superar tudo isso.
Reclusa, me recuo e pego meu chocolate quente.
— Obrigada pelo café, preciso voltar ao trabalho — digo e saio da cozinha. Tinha muitas
coisas para me preocupar, a ideia de superar e esquecer Matteo eram difíceis de superar. Meu
celular apita e recebo uma mensagem.
“Ás quatro estarei te esperando no hospital para o ultrassom” Era Matteo, a primeira
mensagem recebida durante esse afastamento.
Minhas mãos começam a suar e eu me sento para trabalhar. Porém minha mente devaneia e
eu fico impaciente. Mesmo na hora do almoço não consigo comer direito, só fico pensando no
ultrassom e que veria Matteo. Meu trabalho fica acumulado na parte da tarde e eu corro para
entregar. Logo acabo saindo atrasada para a consulta.
Dirijo até o hospital e quando chego logo vejo o carro de Matteo estacionado. Paro no
estacionamento e fico alguns minutos sentada tomando coragem para sair. Respiro fundo e
desço do carro, logo indo em direção à entrada do hospital.
Entro e ouço alguém atrás de mim.
— Nina — Viro-me e o vejo parado ali, com expressão impaciente. Meu estômago dá um
salto. Matteo olha brevemente para o meu rosto e seus olhos passam a olhar para minha
barriga. Ele fica ali encarando, era como se a minha gravidez se tornasse real para ele naquele
momento.
— Vamos para a sala de espera — Digo. E então Matteo me segue. Não digo mais nada e
ele também não diz. No sentamos e ficamos em silêncios. De acordo com minhas sessões
psicológicas, eu deveria ser resiliente, lidar com meus próprios problemas e superar essa
situação.
— Está passando bem? — Matteo questiona.
— Seu pai está bem? — Pergunto junto com ele.
— Sim... Está tudo bem — digo.
— Meu pai está bem. Vai fazer a cirurgia no próximo mês... — ele diz e faz uma pausa —
Precisa de alguma ajuda financeira? Eu queria propor de pagar o seu convênio... — ele diz.
— Não precisa. Eu estou lidando muito bem com tudo. — Respondo.
— E o berço, as coisas para o bebê? — Ele continua insistindo.
— Tranquilo. Eu iria comprar.
— Você não tem que ser tão orgulhosa — contrapôs.
— Eu estou bem Matteo. Não tem nada que eu precise, não é orgulho — digo. E antes que
ele rebata, meu nome é chamado.
Entro na sala seguido de Matteo e cumprimento o doutor. Deito na maca e fico aguardando.
Minha mente vaga e eu tento não olhar muito para Matteo. O líquido gelado escorre pela
minha barriga e o doutor faz uma pequena pressão com o aparelho. Ouço o coração do meu
bebê e de soslaio olho para Matteo. Sua expressão era incógnita.
Viro de um lado, depois viro de outro, conforme o médico solicita.
— Seu bebê está em uma posição perfeita para descobrimos o sexo. Vocês querem saber?
— O doutor indaga e eu aceno que sim. Poucos segundo depois ele diz: — É uma menina...
—Meu Deus — eu digo. Eu jurava que era um menino. Olho para Matteo e posso afirmar
que seus olhos estavam marejados.
Queria poder chorar e saber que ao levantar daqui receberia o abraço mais gostoso do
mundo e ia enxergar os olhinhos dele de felicidade ao saber que a tão esperada filha está por
vir. Mas não era assim que as coisas iriam funcionar.
As coisas mudam, assim, de uma hora para outra. Antes era “estou grávida e amo meu
bebê” e agora, é estou grávida da “minha menina”. Estou mergulhada nessa sensação de
estranheza e euforia.
Pela primeira vez em semanas eu me vejo ansiosa pelos meses seguintes.
Laços
Com o coração apertado de tanta alegria eu saio do hospital. Tudo estava bem com a minha
menina e eu já iria conseguir preparar o quarto dela. Quer dizer, o meu quarto, não havia muito
espaço no apartamento e não havia cômodo sobrando.
Quando cheguei ao estacionamento fiquei em dúvida sobre o que falar para Matteo, porém,
ele foi mais rápido.
— É uma menina... — ele diz. O olho por um instante. Percebo que ele está diferente. Com
olheiras profundas.
— Sim. Uma menina — confirmo. É claro que ele não sabia o que dizer, fazia tanto tempo
que não conversávamos.
— Eu quero frisar que se precisar de ajuda, não hesite em me chamar. — Ele mira o chão,
como se não conseguisse olhar nos meus olhos.
— Tudo bem — digo. — Vou indo — falo e vou para a direita onde estacionei meu carro.
— Nina, espere, preciso falar algo com você — Matteo me chama e eu viro para ouvi-lo.
Fecho os olhos por um segundo, pensando que talvez seja um pedido de desculpas.
— Os meus pais não sabem que estamos separados — ele diz e isso me surpreende. — Eu
não pude dizer a eles ainda. Meu pai vai passar por uma cirurgia muito delicada no próximo
mês, e saber que não estamos juntos iria deixa-lo péssimo — sem jeito Matteo coloca as mãos
no bolso.
— Ok. Mais cedo ou mais tarde você vai ter que contar pra ele, Matteo — falo. Não tinha
como esconder o nosso término por muito tempo.
— Eu sei, só que não é fácil. Vamos lá Nina, pare de besteiras. — Insiste.
— Que besteiras?
— Eu te dei o seu tempo, certo? De colocar a cabeça no lugar, se é que isso é possível —
ele diz e ao perceber que minha face endurece ele muda o tom de voz e muda a conversa —
Quer dizer, pensa no que é certo. Vamos ter um bebê. Eu não quero que você seja mãe solteira.
— Por que não?
— Porque não é fácil. Eu posso te ajudar.
— Matteo, eu posso ser mãe solteira, o que eu não posso é ficar com alguém que não me
ama.
—Você mentiu pra mim Nina, você me fez de idiota. Agora vem falar de amor? O quanto
você me amou? Se me amasse não mentiria. Eu estou disposto a passar por cima disse por
conta da nossa filha, mesmo que eu não confie em você.
— Eu te amava, e foi por isso que menti. Mas chega, não vou falar sobre isso.
— Estamos conversando, não tem que ficar fugido.
— Ok. Se quer conversar, então você vai ouvir tudo que tenho pra dizer. Você nunca
assumiu compromisso comigo, mas me enrolou durante um ano, me fazendo acreditar que
nossa relação era monogâmica.
Matteo soltou um forte suspiro.
— Nina, precisa se controlar. — Disse, mas agora que eu tinha começado a falar iria dizer
tudo logo de uma vez.
— Você nunca me disse nada sobre sua família, eu nunca soube de nada sobre eles. Depois,
quando nos separamos por pouco tempo você fica com uma garota chamada Mari. — Matteo
ouvia tudo, calado. — E ah pra fechar com chave de ouro, aparece tal de Emília, por quem
você sempre foi apaixonado. Muito bom né Matteo? Quer-me falar sobre amor? Quer-me falar
sobre confiança? Logo você que sempre me enganou. — Ergui meus úmidos olhos para os dele
e funguei.
Durante um interminável segundo, observo o choque envolver o rosto dele.
— Já que estamos citando tudo que foi ruim no nosso relacionamento desastroso. Vou dizer
a verdade. — Disse encostou-se ao carro. — Eu nunca falei sobre minha família pra você,
porque não tinha certeza se ficaríamos juntos. Você foi à primeira garota que conheci de
verdade. A que fiquei por mais tempo, mas você me pressionava demais, estava sempre à
espreita, me apertando, afogando, não me dava espaço. — arfou — Sabe o que eu pensava? Se
você já estava assim quando não tínhamos um compromisso, imagina se tivéssemos?
— Eu agia dessa forma, porque você sempre foi frio. Só me queria pra transar. —
Justifiquei.
— Não é verdade. Você distorce as coisas demais. Eu sou um cara reservado Nina, sempre
fui. Mas nunca te tratei mal. Nós nos separamos sim, eu fiquei com a Mari, mas rolou só um
beijo, e foi ela que chegou a mim.
— Não adianta ficar se justificando agora — disse com total incredulidade.
— A Emília é uma amiga, que sim, já houve interesse, mas não rolou.
— Porque ela te chutou.
— E o que isso importa? — A boca de Matteo estava contraída de reprovação.
— Importa muito. Porque você gostou dela, gostou de verdade. — O meu desconforto de
foi multiplicado por dez. Fiquei rígida e Matteo permaneceu em silêncio. — Eu vou embora,
ok? — disse com uma voz trêmula, porém, isenta de gagueira.
— Ok. Quando é o próximo exame?
— Que você precisa participar? Tenho o ultrassom Doppler nas 32 semanas de gravidez.
Só daqui três meses — digo e Matteo arregala os olhos.
— Todo esse tempo? Eu preciso saber como está minha filha.
— Você vai saber se acontecer algo.
— Você não pode fazer isso comigo Nina, não pode me privar de ser pai. — falou
enquanto passava a mão por seu bagunçado cabelo preto.
— Eu não estou te privando de nada? Enquanto ela estiver na minha barriga, você não tem
muito que fazer. Ou vai ficar me seguindo pra todos os cantos?
— Eu vou — ele disse para minha surpresa.
— Não, você não vai. Eu não quero estar com você.
— Para com isso Nina. — O maxilar de Matteo se contraiu.
— Você quem disse que era obrigado a ficar comigo. Eu não quero nada por obrigação.
Então, cuide da sua vida, que eu cuido da minha! — Exclamo disposta a sair logo dali, porém
Matteo me segura.
— Eu estou cuidando da minha vida — disse com a voz rouca. O rosnado da voz dele
causou um frio involuntário na minha barriga. Quis deixar a sensação de lado. Resistir à
atração por Matteo tinha que se tornar era algo tão natural quanto respirar. Mas era difícil,
principalmente pelo fato de que por um momento ele coloca a mão em minha barriga e isso faz
com que todas as emoções que eu sentia, se aflorassem, por cada centímetro do meu corpo.
O cálido olhar dele se fixou no meu. Apesar de eu estar tentando ser racional, meu coração
de palpitou. Minha face se aqueceu. Então, seu bom senso sobrepujou. Respiro, e tento colocar
em minha cabeça que Matteo só se importava com nossa filha. A vida dele era ela.
— No momento não há nada que você possa fazer. Quando nossa filha nascer vamos
resolver tudo legalmente — me afasto recuperando minha sanidade.
— Ok... Estou vendo que não tem como conversar com você — Matteo aceita.
— Não. Vou embora — digo e desta vez ele não faz nenhum protesto. Vou até meu carro e
entro. Perco alguns minutos tentando acalmar minha respiração até dar partida no carro.
No caminho como um modo de dissipar os pensamentos sobre Matteo acabo parando em
uma loja infantil. Perco o tempo olhando roupas para meninas e cogito a ideia de comprar um
macacão rosa.
— Esse é lindo — um homem fala, até assusto, pois estava concentrada demais.
— Ah sim... É bonito — digo. O homem era jovem, devia ter no máximo vinte e cinco
anos.
— Me desculpe à intromissão. Mas meu sobrinho acabou de nascer, você acha que se eu
levar um desses — ele pegou um macacão verde e me mostrou. Havia um desenho de carrinho
nele.
— Eu acho que sim, não entendo muito... — fico com vergonha. Ele era bonito. Alto, olhos
verdes e cabelo castanho claro.
— Vou levar. Er... Qual o seu nome? — ele indaga.
— Nina. — Respondo.
— Obrigada pela ajuda Nina — ele sorri. Fico encabulada. E vou até o caixa pagar pelo
macacão que eu escolhi para minha filha. Na fila acabo ficando atrás do homem, e
estranhamente ele resolve continuar conversando.
— Está ansiosa pra ver seu bebê? — ele indaga.
— Estou...
— Eu trabalho na clinica aqui perto. Seu pediatra. Se precisar... — ele me entrega um
cartão. E percebo que ele apenas está se vendendo, por isso puxou papo comigo.
Dei um meio sorriso e aceito o cartão. Olho para o cartão e leio o nome: Doutor Luís
Fernando Martins.
Assim que pago pela compra volto para meu carro. Vejo o doutor saindo e ele dá um breve
aceno para mim. Logo após sai com seu carro. Não demoro muito para chegar a minha casa.
Quando chego, deito no sofá e mando mensagem para minha mãe avisando que descobri o
sexo do bebê. É claro que ela fica muito feliz e pede para que eu a visite no final de semana.
Porém naquele momento eu não me sentia muito animada e acabo dormindo no sofá.
Acordo com Carina me chamando.
— Está se sentindo bem? — ela questiona.
— Eu estou... Só peguei no sono. — me levanto e fico sentada.
— E então qual é a noticia? — ela indaga sobre o sexo do bebê.
Pego a sacola e tiro o macacão rosa.
— Ah uma princesinha! — Carina vibra. — Vou comprar tanta coisa pra ela — Ela sempre
quis que o bebê fosse menina. — O que foi? — ela pergunta ao perceber que estou
desanimada.
— Eu o vi hoje — digo.
— Entendo. Só que você vai ter sempre que vê-lo. Está esperando uma filha dele, sabe?
Tem que encarar a situação. Eu sei que durante esses três meses você não o viu, e eu apoiei,
você precisava de um tempo — ela se senta ao meu lado. — Só que não dá pra fugir pra
sempre.
— Eu sei que não.
Sentia-me uma completa idiota.
— Vamos pedir uma pizza, assistir um filme. Que tal assistirmos Bebê a bordo? — Carina
mudou de assusto.
Pensei na ideia e senti uma fagulha de empolgação.
— Pode ser, mas eu quero metade da pizza de abobrinha — digo e Carina faz uma cara de
reprovação.
— Ok, mas o restante vai ser de Pepperoni — contrapôs.
— Fechado. Vou tomar um banho. — Digo e vou em direção ao banheiro.
Não importava o quanto eu pensasse sobre Matteo ou sobre minha vida, a única coisa que
eu podia fazer é aceitar o que vivia e seguir em frente.
[...]

Um mês se passou. Cheguei ao quinto mês de gravidez, vinte e uma semanas para ser exata,
a ansiedade está enorme.
Quanto mais as semanas passam, mais parecem demorar a passar.
Fisicamente, o meu corpo mudou muito. E os sintomas estão me matando, congestão nasal,
sensação de entupimento do ouvido, prisão de ventre, azia, dificuldade de digestão e câimbras.
Meu Deus, quantas câimbras. Meu apetite tinha mudado, aumentou consideravelmente e a dor
nas costas? Doía demais. Mas como dizia minha ginecologista Vivian, eu deveria ver algo
bom no meio disso: Eu não tinha inchaço, como a maioria das grávidas.
E, emocionalmente, é quando cai à ficha e a realidade bate à porta. Sentia uma maior
instabilidade emocional, irritada, e com muita raiva. Às vezes eu chorava, só por chorar. Às
vezes, eu só ficava deitada. Na verdade, no último mês eu dormi muito mais do que no
começo da gravidez.
Eu via a minha barriga crescendo, e embora eu amasse muito minha filha, não conseguia
me sentir mãe. A ideia de conhecer o meu bebê era incrivelmente feliz, mas ser mãe me
deixava instável, com medo.
Sinceramente quando penso em tudo que eu fiz com a ideia de ter um bebê, me deixa brava.
Eu não sabia se queria ser mãe naquela época, mas estava disposta a tudo para ser. Só que
agora, eu vejo que nunca estive preparada. É claro que eu não falo isso pras pessoas, tinha
medo de ser julgada, afinal, todos pensam que grávidas devem ser felizes e empolgadas com a
maternidade. Mas pra mim, a maternidade me assustava. Eu sentia um peso tão grande em
minhas costas que era difícil acordar todos os dias e encarar a realidade. Mesmo sendo contra
livros de autoajuda, eu acabei comprando um guia sobre Pais e Bebês na Amazon.
Era o dia de visitar Vincenzo. Ele havia feito cirurgia e tudo havia corrido bem. Não posso
negar que perdi horas no espelho tentando encontrar algo que me caísse bem, mas com cinco
quilos a mais, boa parte das minhas roupas não serviam, apenas alguns vestidos folgados
podiam ser usados. Acabei optando por um vestido preto que me deixaria mais magra. Já meus
cabelos estavam desbotados, meio azulados, meio louros, voltando a cor natural, sinceramente
estava ridículo. E por fim, tentei esconder umas espinhas com base, mas o contrário aconteceu,
salientou ainda mais. Desistindo, lavei o rosto e passe um batom clarinho para esconder a
palidez da minha boca. Pronta, sai de casa.
Mesmo indisposta eu dirigi até a cidade dos pais de Matteo. Eu iria visitar Vincenzo no
hospital, mesmo que eu estive que encarar Matteo e até mesmo Martim. Ao chegar ao hospital,
acabei encontrando com Emanuela na recepção.
— Nina, há quanto tempo eu não te vejo — ela veio me abraçar. — Fiquei tão angustiada
após vocês cancelarem o casamento. Me diz, o que aconteceu? — Ele me guiou para que eu
sentasse.
— Ah, eu queria esperar o bebê nascer — inventei uma desculpa rápida.
— Mas por quê? Se tivéssemos feito antes, ninguém iria perceber a sua barriga — disse, ela
achava que eu tivesse vergonha de casar grávida.
— É melhor assim, não queria fazer algo corrido — justifiquei.
— Tudo bem, mas vamos pensar com calma. Queria te propor de passar os últimos dois
meses da gravidez, aqui com a gente, Vincenzo ficaria muito feliz, todos nós, na realidade. —
Ele pegou em minha mão. — Queremos curtir esse momento com você.
— Eu vou pensar, preciso ver se vão e liberar do trabalho — Invento. Estava tudo certo que
eu parasse de trabalhar com oito meses de gravidez.
— Bom, Matteo, Martim e Clarice estão no quarto com Vincenzo, assim que eles saírem,
você pode entrar. — Ela diz.
— Ótimo. — Digo.
— Por que você não dorme em casa hoje? É sexta-feira, Matteo iria gostar muito. Sei que
não estão se vendo com frequência.
— Eu não sei, combinei de ver minha mãe nesse final de semana — falo. Eu precisava fugir
da situação.
— Por favor, eu sei que tem algo acontecendo entre vocês, mas Matteo não me diz — ela
insiste.
— Não há nada acontecendo. — falo e para minha surpresa vejo Matteo seguido de Martim
e Clarice.
A respiração ficou presa em minha garganta quando o vi. Ele estava tão bonito, a camisa
branca engomada que eu nunca o vi usar. O cabelo escuro e espesso dessa vez estava quase
domado no lugar. Seus cálidos olhos negros foram direto para o meu rosto.
Alguma coisa dentro de mim instantaneamente se acalmou e aquietou quando eu o vi.
— Nina — Matteo diz. Levanto-me e ele me cumprimenta. Sabia que devia agir
normalmente, porém era difícil. Ainda mais quando Martim vem me cumprimentar.
— Cunhada, que bom te ver — ele diz, era realmente cínico. Não consigo dizer nada,
Clarice somente me olha e acena brevemente. Sabia que ela não gostava de mim, e eu
conseguia perceber o quanto ela tinha inveja por eu estar grávida e ela não.
— Vamos tomar um café, quer vir com a gente, Emanuela? — Clarice pergunta.
— Claro. Matteo leve a Nina para visitar seu pai — Emanuela diz se levantando para
acompanhar Martim e Clarice.
— Sua barriga cresceu — Matteo diz.
— Claro, era de se esperar — digo.
— Vamos na recepção te registrar — ele diz e eu o sigo. Assim que me registro eles
liberam meu acesso ao quarto. Matteo me guia e abre a porta do quarto. Vejo Vincenzo deitado
na cama, muito frágil.
— Ele não está falando muito, pois está se recuperando — Matteo fala.
— Entendo. — Digo e vou até a cama. Vejo que os olhos de Vincenzo muda ao me ver.
— Que bom eu veio — ele arfa. Sento na cadeira ao lado dele e Matteo senta em uma
poltrona.
— Não podia deixar de vir.
— Por que.... — Vincenzo respira. — Cancelaram o casamento? — Ele tem dificuldade
para falar. Vejo que Matteo me olha com medo de que eu dissesse algo sobre o nosso término.
Penso com cuidado nas palavras que ia dizer.
— Queremos fazer as coisas com calma. Tudo a seu tempo. — Digo.
— Matteo, o que... — Vincenzo arfa novamente. — O que você fez? — ele questiona.
— Nada pai. Nós só vamos fazer as coisas com calma, como a Nina acabou de dizer. —
Aflito Matteo diz. — Não se force a falar desse jeito.
— Minha filha... Passe o final de semana conosco... — Vincenzo pede. Eu sabia que não
poderia negar. Matteo me olha aguardado minha resposta.
— Tudo bem, eu fico — respondo.
A expressão de Vincenzo se suaviza. Alguém bate na porta e logo após abre, é uma
enfermeira.
— Está na hora da medicação dele — ela diz a nós. E entendemos que era hora de encerrar
a visita.
— Eu vejo amanhã — digo a Vincenzo e ele mexe um pouco a boca, como se tentasse dar
um sorriso. Saio do quarto seguida por Matteo.
Andamos pelo corredor em silêncio até que Matteo diz:
— É verdade que vai ficar na minha casa esse final de semana?
— Vou ficar na cidade, mas não na sua casa.
—Por que não na minha casa?
— Porque não me sinto confortável lá, sua mãe vai nos obrigar a ficar no mesmo quarto e
isso não me agrada.
— E sobre a minha proposta? — Matteo diz e para de frente a mim no corredor.
— Matteo, eu já tomei uma decisão. —Me afastei para criar uma distância necessária entre
nós, antes de acrescentar: — Tenho certeza de que o melhor seria você participar da vida do
bebê apenas como visita.
— Não acha que seria melhor considerar a minha proposta antes de ter certeza da sua
decisão?
—Você me ama? – Pergunto sem rodeios. Mesmo sabendo da resposta, queria que ele
enxergasse a situação. Matteo ficou calado. — O seu silêncio é a prova de que eu estou
fazendo a escolha certa. Você agiu com integridade e me propôs casamento. Portanto,
considere o seu dever cumprido.
A expressão em seu rosto era de frustração.
— Quer que eu te leve até algum hotel? — Questiona.
— Não precisa — digo e saímos do hospital.
— Nina, por favor, eu não me sinto bem sabendo que você vai dormir em qualquer lugar —
Matteo me para no estacionamento.
— Matteo, é um hotel, nada demais. — Digo e uma câimbra me faz endurecer a perna. —
Ai que droga — falo.
— O que foi, o que dói? — Matteo arregala o olhar. — Vamos voltar para o hospital. —
Ele tenta me envolver com os braços.
— É só uma câimbra idiota — digo. Esperamos que passasse logo.
— Vamos até minha casa. Você deita um pouco, come algo... Por favor, não tem ninguém
lá. — Ele diz e sou obrigada a aceitar. Dou a chave do meu carro para que ele dirija. Matteo
me ajuda a entrar no carro. Mordi o lábio e me endireitei.
— Estou nisso, Nina, cem por cento, completamente comprometido. — Matteo diz após
ligar o carro.
— O que quer dizer?
— Mesmo que não queira se casar, eu quero estar com você nessa gravidez.
— Você não consegue respeitar minha decisão?
— Você que não consegue me respeitar. O que tem de tão ruim eu estar junto? Eu quero
acompanhar, quero poder fazer algo por vocês. — Ele insiste.
— Está bem Matteo — Aceito. Sabendo que não podia mais lutar com essa questão.
Mesmo que eu quisesse me afastar de Matteo, minha filha me unia a ele. E isso era um laço
profundo e duradouro que nos ligava da forma mais íntima que poderia existir e que jamais
poderia ser quebrado.
Marcas
Durante o caminho até a casa de Matteo minha mente buscou uma saída para não pensar
tanto nisso. Eu imaginei como seria pegar minha filha no colo e naquele momento meu
coração se enchia de amor e minha mente viajava pintando o mundo com cores mais claras.
No entanto, ao mesmo tempo, eu sentia uma pontada de angústia, era como se o tempo
estivesse passando rápido demais, logo menos, meu bebê estaria comigo completamente
dependente de mim, e isso me assustava. Assustava-me saber que eu não era boa o suficiente.
Ao chegarmos a casa pedi para Matteo para me deixar no quarto de hóspedes, não queria
ficar no quarto dele, mesmo protestando pelo fato da mãe dele poder desconfiar, Matteo
aceitou. Deitei na cama sentindo a cãibra passar e peguei no sono.
Acordei um pouco depois e vi que já era seis da tarde. Fiquei no quarto e fiquei mexendo
no celular, até que alguém bateu na porta. E sem que eu dissesse algo, entrou.
— O que você quer? — Questionei logo ao ver Martim entrar.
— Vim em paz. Quero conversar com você... — ele diz.
— Não temos nada para conversar — retruco sentando-me na cama.
— Bom, eu tenho. Vou ser breve. — ele suspira e para perto da cama. — A proposta que eu
te fiz... Você pretende contar para o Matteo? — Indaga. Penso na resposta. Eu deveria contar
ao Matteo, para que ele soubesse que tipo de pessoa é o irmão. Contudo, isso não cabia a mim,
não agora. Eu preciso de paz. E dizer ao Matteo que o irmão queria comprar nossa filha, não
era um acordo de paz.
— Não pretendo falar nada — respondo.
— E o que quer em troca? — ele pergunta. Inspiro e ao soltar a respiração me acalmo.
— Seu respeito. Quero que me respeite — digo. Por um segundo percebo um meio sorriso
nos lábios de Martim.
— Vou ficar de olho em você — ele diz e vira-se para sair do quarto. Penso em dizer algo,
mas logo vejo Matteo.
— Está tudo bem aqui? — Matteo inqueri.
— Sim, só estava vendo como minha querida cunhada está — Martim responde e dá um
tapinha nos ombros do irmão logo depois sai encostando a porta do quarto. Matteo senta em
uma poltrona de frente para mim e me olha por uns segundos.
— Precisa de alguma coisa? Está confortável? O que posso trazer para você? — ele fala tão
depressa que não consigo responder rapidamente.
— Matteo, calma, não preciso de nada... — respondo.
— Tudo bem, você quer conversar?
— Sobre? — indago.
— Qualquer coisa. Como foi sua infância? — Ele pergunta e não entendo o porquê dele
querer saber sobre isso.
— Por que quer saber sobre minha infância?
— Porque não sei muito sobre você, quero partir do básico.
— Não quero falar sobre minha infância... —digo.
Respirei nervosa. Sentia um peso em meus ombros. Matteo me olhava, seus olhos negros
não tiravam os olhos de mim. Eu não queria olha-lo nos olhos, me sentia estranha.
— Eu sempre achei que você tivesse algo pra dizer, mas nunca diz. Que segredo você
guarda Nina? — Matteo questiona.
— Segredo? Eu não tenho segredo. Eu já te contei tudo. Se está achando que eu estou
escondendo algo de novo, eu não estou — enfatizo.
— Calma. Eu só quero entender o que se passa na sua cabeça.
— Você não tem esse direito, pois eu não sei o que se passa na sua. Não sei o que passou
em todo esse tempo que estivemos juntos. — objetei.
— Fiquei sabendo que você está indo no psicólogo.
— Como sabe disso?
— Daniel me contou.
— Que fofoqueiro!
— Eu perguntei pra ele, não é nada demais.
— Então você está perguntando de mim para outras pessoas?
— Estou, tem algo de errado em eu querer saber o que a mãe da minha filha está fazendo?
— Não te diz respeito se não for relacionado à gravidez.
— É claro que sim. Você vai ser o maior exemplo pra nossa filha. Quero saber qual o seu
problema, porque tantas crises emocionais. Porque é tão desequilibrada.
— Me deixa em paz. — digo. Mesmo sabendo que em meu secreto íntimo tinha algo que
ninguém sabia, que eu nunca tive coragem de dizer. Mas agora estava me sufocando mais do
que nunca. — Eu quero ir embora — mesmo que Matteo tivesse me deixado com raiva, não
era por ele que eu queria sair dali.
— Me desculpa, eu não vou mais te aborrecer.
— Por favor, me leva embora. — Me sinto tão sufocada que começo a respirar com
dificuldade.
— Nina, o que foi? Está passando mal, quer ir ao hospital? — ele pergunta se aproximando
de mim.
— Eu... Tenho medo. Eu tenho medo Matteo. Medo de que alguém possa fazer mal a nossa
bebê. — Minha respiração foi ficando mais acelerada, e eu comecei a sentir tonta.
— Porque está falando disso? Nós vamos protegê-la. Fique tranquila — Matteo por um
segundo passa a mão na minha cabeça.
— Existem pessoas ruins no mundo Matteo. Não podemos confiar em ninguém.
— Tudo bem, vamos manter nossa filha segura. Não há o que temer — Matteo diz e nesse
momento eu caio em choro.
— O que foi Nina? — Matteo envolve seus braços em mim querendo me abraçar.
— Quando eu tinha dez anos e meus pais trabalhavam fora, eles me deixavam na vizinha.
Àquela senhora sempre fazia cupcake de framboesa pra mim... — Lágrimas percorriam minha
face. — Eu brincava, e tomava leite quente com os bolinhos enquanto fazia a lição. E quando a
senhora dormia, o marido dela me colocava em seu colo, ele dizia que era uma brincadeira só
nossa... — Matteo me olha horrorizado.
— Ele abusou de você?
Os olhos de minha Matteo se encheram de lágrimas. Num segundo, parecia ter
compreendido o segredo que eu escondia de mim mesmo, minha dor silenciosa e represada por
tanto tempo.
— Eu não sabia que era abuso, ele fazia carinhos em mim e dizia que eu era a garota mais
linda do mundo. Naquela época eu não percebia que era algo errado.
— É claro que era abuso! Ele chegou a... — Matteo ficou com medo de perguntar.
— Não, isso não aconteceu. Um dia ele me beijou..— Aos poucos, as palavras foram
saindo espaçadas, soluçadas, engasgadas. — E eu percebi que aquilo era errado. Porque eu
sabia que só adultos podiam se beijar... Era o que meu pai dizia... Nesse dia corri pra casa me
tranquei em meu quarto e jurei que nunca mais iria deixar que algo assim acontecesse comigo.
— Lembrar de tudo me fazia estremecer.
— Não foi sua culpa. Você não tinha como se defender.
— Eu sei, é só que, eu sinto que fui inocente demais... Antes eu sentia que deixei que isso
acontecesse comigo. — Revelei coisas que eram dolorosas só de se pensar, e mais ainda de se
contar para alguém que significava tanto para mim. — Mas, quando me tornei adulta eu
entendi que eu não era culpada, mesmo que me sentisse assim.
Sentia-me aliviada por contar o que meu secreto íntimo guardava. Fui tomada por uma
extraordinária sensação de paz, como se meu âmago tivesse simplesmente fundido e ganhado
uma nova forma.
Nesse momento eu entendo que cada um tinha a própria forma de lidar com a dor. Eu
guardei tudo dentro de mim. Me tornei uma garota mentirosa porque não me sentia bem com a
verdade. A verdade sempre foi dolorosa demais. Quando adolescente eu beijei vários garotos
na tentativa de apagar aquele beijo. Eu queria ser uma tela em branco, queria ser uma garota
que nunca conheceu carícias. Eu sentia nojo, vergonha de parecer bonita. Então, eu mentia.
Mentia sobre qualquer coisa, porque não queria ser a Nina. Eu queria ser outra pessoa.
—Nina, por que nunca me disse isso antes? — Ele se inclinou para trás. Lágrimas
escorriam pelo seu rosto.
— Porque me dói... Por que não quero me sentir frágil. Não quero sua pena — Respondo,
tentando me desvencilhar dele. Mas Matteo me segura e me abraça fortemente. — Eu estava
marcada por um passado que não ia mudar e precisava encarar a realidade.
— Eu vou proteger nossa filha. Mas, eu também quero te proteger. Você precisa de mim...
— Matteo enxuga os próprios olhos e em seguida seca os meus.
— Não Matteo, por muito tempo eu precisei de você. Coloquei todos os meus anseios e
deixei que minha felicidade se resumisse a você. Eu não posso fazer isso de novo...
— Você ainda é a mãe da minha filha. E… e eu não suportaria se alguma coisa acontecesse
com você. — Matteo toca meu rosto. E mesmo que tivéssemos nossos problemas e mesmo
que nunca mais ficássemos juntos, Matteo sempre foi o homem que mais confiei, o homem
que nunca tive medo que me tocasse. Eu o amei, ainda o amo, e que vou lutar para esquecer.
Viro o rosto e Matteo me abraça forte.
— Não quero sua pena Matteo — Digo quando percebo que seu abraço forte está me
deixando inebriada. O cheiro tranquilizador da sua camisa quente, o tom grave da sua voz...
Percebi que se esse abraço durasse mais tempo, eu nunca mais seria capaz de deixa-lo.
— Eu não estou com pena. Eu estou triste por não saber disso antes. Por nunca ter
descoberto nada sobre você. Eu quero te entender e te conhecer de verdade, vamos nos
permitir? — ele questiona e eu não sei o que dizer.
Ao sentir o olhar de Matteo sobre mim, tive a impressão de que mundo se fechava ao meu
redor. Senti uma enorme pressão no peito.
Eu te amo, penso. No entanto, eu preciso antes aprender a me amar .
Afago
Narrado por Matteo

Sexo. Essa era a premissa inicial do meu relacionamento com Nina. Contudo, depois de um
ano que iniciamos essa aventura, as coisas estavam ficando bem complicadas. Eu gostava dela
— muito. No entanto, não acreditava que nosso relacionamento pudesse seguir para um
namoro. Muitas vezes a Nina era controladora, queria saber todos os meus passos, me vigiava
e carecia demais da minha atenção, isso me assustava. Nós não tínhamos ainda um
relacionamento concreto, e ela já estava surtando demais. Imagina se fossemos namorados?
Nunca namorei nenhuma garota, e acreditava que se um dia namorasse, essa seria a garota
com qual eu iria planejar um futuro, e consequentemente me casar.
Sabia que algo estava por vir assim que ela me enviou uma mensagem dizendo que estava
indo para meu apartamento. Quando a campainha tocou eu estava preparado. Abro a porta e
me deparo com tamanha beleza.
Olhos castanhos incompreensíveis, cabelos azulados que davam um tom de ousadia, maças
do rosto levemente coradas e um sorriso malicioso. Não posso deixar de acrescentar que o
vestido vermelho que ela estava usando acentuava todas as curvas do seu corpo. Confesso que
fiquei alguns segundos hipnotizado. Não deu outra, nos agarramos no mesmo momento.
O sexo com ela era sempre bom, não sentia vontade de transar com outra garota, nosso
relacionamento era bom para mim, do jeito que estava. Após transarmos, Nina aproveitou do
meu momento de fraqueza. Eu estava prestes a cair no sono, quando Nina jogou a bomba:
— Matteo, eu estive pensando. Estamos juntos a mais de um ano. E eu realmente acho que
deveríamos assumir um compromisso – ela falou muito rápido e logo após arfou.
— Compromisso? – Indago, pensando realmente que estivesse pegado no sono e estivesse
sonhando.
— É... Compromisso – enfatizou.
— Caramba... — eu não tinha resposta, não que eu não tivesse pensando nisso. Pensava, e
muito. Contudo após muita analise eu havia decidido que nossa relação não poderia ser mais
do que casual;
— Ai, por favor, Matteo. Eu não sei qual é a sua dificuldade. Eu passo mais tempo aqui
com você, do que na minha própria casa. – Ela se sentou. Seus olhos me encararam e eu me
senti intimidado.
— É, eu sei. E gosto disso, mas compromisso? Não, pensei que isto já estivesse bem claro
entre nós – Eu havia ensaiado essa frase, caso ela tocasse no assunto “compromisso.”.
Ela respirou fundo. Estava ficando muito vermelha, fiquei com medo de que surtasse e
começasse a jogar coisas em mim, ao contrario, ela permaneceu calma.
— Ok. Então eu vou embora. — ela me pegou de surpresa, pensei que fosse mudar de ideia
como sempre e voltasse a deitar comigo.
— Nina, as coisas não precisam ser assim – falo tentando a puxar de volta pra cama.
— Prefiro ir embora com o pouco de dignidade que me resta... — falou. Sabia que se eu
ficasse implorando as coisas não iam se resolver, por isso a deixei ir embora para que se
acalmasse e posteriormente mudasse de ideia.
Nina era minha garota. A garota sorridente e ligeiramente maluca que me fazia feliz.
Contudo, um relacionamento sério não estava em meus planos.

|... |
Um mês se passou.
Fiquei irritado, Nina nunca ficou tanto tempo sem falar comigo, acreditava que ela fosse
mudar de ideia logo, mas um mês? Era tempo demais. Será que havia acontecido algo com ela?
Cheguei a abrir seu facebook e vi algumas fotos recentes com sua amiga Carina.
Então ela estava bem... Será que ela não queria mais voltar comigo? Ok... De qualquer
forma, preciso de espaço no meu apartamento e as coisas dela estavam atrapalhando. Eu
precisava de espaço!
Pego meu celular e mando uma mensagem.
“Preciso falar com você, me encontre no café de sempre antes de ir trabalhar”.
Não era desespero para vê-la. Jamais.
Pouco depois ela me respondeu: “Ok”. Só um ok? Putz, ela estava querendo zoar com
minha cara. Vou até o café e peço um expresso enquanto a espero.
E então ela chega. Vestindo uma saia bem colada, ela só poderia estar de brincadeira!
Queria fazer jogo duro comigo. Ah se queria. Ela se senta e baixa o olhar.
— Como você está? — Faço uma pergunta simples.
— Estou bem e você? — perguntou. Não olhava para mim, era como se fingisse que eu não
se importava. Fiquei puto.
— Estou bem. Bem, vou ser breve, tem um monte de coisas suas no meu apartamento...
Posso te levar ou você pode buscar — falei bruscamente. Ela pareceu se afetar, pois mudou a
posição na cadeira.
— Ok. É só isto que você quer me dizer? — pergunta. Penso em pedir para que ela parasse
com essa brincadeira, mas sou orgulhoso demais para isso.
— É... — falo e desvio o olhar. Deixo escapar um suspiro audível.
— Mas eu tenho algo importante pra te dizer... Estou grávida! — disse. E naquele momento
engasgo com o café quente. Porra, como ela pode fazer uma brincadeira dessas?
Definitivamente ela estava passando dos limites!
— Grávida? Como? Grávida? Como? — minhas palavras saíram desconexas.
— Você sabe, não seja idiota... —ela fala facilmente.
— Mas você toma anticoncepcional! — esbravejei. Não tinha como ela estar grávida.
— Mas pílulas falham. As coisas acontecem... — tentou explicar.
Senti um misto de confusão. Eu amava a ideia de ser pai, era tudo que sempre sonhei na
vida, no momento certo, com a pessoa certa. Mas, ser pai agora? No auge da minha carreira,
com alguém que eu tinha tantas dúvidas...
— Eu... Eu não sei o que dizer... Eu não sei o que fazer. Minha família vai enlouquecer,
eles são tão tradicionais! Que merda — Coloco a mão no rosto. Tantas duvidas e anseios me
assombravam nesse momento.
— Você tem certeza? — pergunto. Sabia que tinha que tomar uma decisão, a melhor
decisão para a criança e para a Nina. Mesmo que nosso relacionamento fosse incerto, ela não
merecia ser abandonada em um momento tão importante, por isso eu precisava de certeza.
— É claro que eu tenho — ela falou com tanta convicção que não pude deixar de acreditar,
mas ao mesmo tempo em que eu queria fazer o certo, me intrigava o fato do anticoncepcional
ter falhado. Será que ela planejou isso para se casar comigo? Minha mente estava entrando em
parafusos.
— Você planejou isto? Você planejou ficar grávida para se casar comigo? — pergunto. Eu
precisava ouvir a verdade dela.
— Casar? Eu nunca pedi para casar com você! — ela disse. Pareceu sincero. E então eu tive
a certeza de qual decisão deveria tomar. Mesmo com medo de que nosso relacionamento não
desse certo, a ideia de ter um filho preenchia meu coração de alegria. E mesmo com temor,
mesmo que minhas mãos não parecem de tremer, estranhamente eu estava feliz com a noticia.
— Com um filho, não tem outra solução... Vamos ter que nos casar. — sabia que era o pior
pedido de casamento do mundo, mas eu não tinha jeito para isso. A expressão de Nina se
iluminou. Vamos ser pais... Há um mês eu não tinha certeza se queria Nina em minha vida, e
agora eu estava prestes a se casar com ela.

|... |
A única garota que pensei ter amado na vida foi Emi Ikeda. Nós trabalhávamos na mesma
empresa, eu era apenas um estagiário quando entrei e ela Analista de Recursos Humanos.
Como na época eu ainda não tinha carro, ia e voltava para casa com o fretado da empresa e no
fretado que eu me aproximei de Emi. Ela me dava dicas e sempre era muito simpática comigo.
Eu pensava que ela era a garota perfeita. Era linda, seu sorriso iluminava o meu dia. Durante
três anos eu fiquei na mesma. Éramos amigos. Devo dizer que praticamente me tornei o
melhor amigo dela. Emi me contava tudo.
Eu queria beija-la, namora-la, pela primeira vez senti vontade de namorar alguém, até que
confessei meus sentimentos. Emi me dispensou, ela dizia que éramos melhores amigos e não
poderíamos ser nada mais.
Mas tudo mudou quando na festa da empresa de final de ano ela se lamentou comigo que
não tinha sorte com os homens e que definitivamente eu era o único que prestava, e foi ai que
ficamos.
Não, não chegamos a namorar, uma semana depois Emi decidiu que tudo foi um erro e
terminou comigo. E depois disso eu me fechei para relacionamentos, até que chegou Nina,
com sua personalidade evasiva e descompensada. Eu sabia que a estava magoando assim como
Emi me magoou, mas eu não queria abrir mão dela, contudo também não queria namorar. Eu
me sentia bloqueado quanto a isso.
Até que tudo mudou quando eu soube da gravidez, naquele momento eu senti vontade de
acolhê-la em meus braços e pedir perdão pelo tempo que a fiz sofrer com minha indecisão.
Não sabia com ela podia ter engravidado mesmo tomando anticoncepcional. Por isso
acreditava que Deus nos uniu por meio do nosso filho para mostrar que devíamos ficar juntos.
Que nós éramos para ser.

O tempo que passamos juntos na casa dos meus pais, o tempo em que ela e eu estávamos
nos preparando para formar uma família, foi os melhores dias da minha vida. Minha Nina, meu
filho. Era tudo que eu precisava para que todos os meus anseios desaparecessem.
[...]

Eu estava muito animado para apresentar Nina formalmente como minha noiva, ela estava
linda e muito feliz por estar comigo. Na festa de confraternização da empresa, confiei em
deixa-la com Karin e Suigetsu na mesa enquanto eu conversava rapidamente com uns
fornecedores. Contudo, me assustei quando ela veio até a mim, pedido para conversarmos
urgente.
Meu coração disparou e eu fiquei aterrorizado de que algo pudesse ter acontecido com
nosso filho. Fui atrás dela enquanto ela saia.
— O que aconteceu? Você quer que eu te leve para o hospital? — pergunto rapidamente, já
preparado para sair da festa.
— Não aconteceu nada com ele — disse e fez uma pausa. — Eu só quero saber uma coisa.
Quem é Emília? — Estranhei a pergunta. Suigetsu e Karen abriram a boca! Puta merda. Fui
cauteloso, queria saber o quanto eles haviam dito para ela.
— É a coordenadora dos Recursos humanos — respondo.
— Matteo, quem é Emília? Eu nunca soube sobre ela. — Nina não desistiu da pergunta.
— O que falaram pra você? — questionei.
— Me disseram que você era apaixonado por ela e que sofreu por ela — ela disse e fez uma
cara estranha, como se estivesse prestes a vomitar.

— Ok... É verdade — afirmei. Queria dizer a verdade e logo após conforta-la.


— Vocês ficaram?
— Sim.
— Quando? Você me traiu? — ela começou a pirar e fiquei com medo de que aquilo
fizesse mal para o bebê.
— Nina, calma. — peço, mas ela se descontrolou mais.
— Meu Deus, você me traiu com essa garota, o tempo todo você pensava nela... Por isso
que não queria compromisso comigo — ela pirou, sabia que quando ela pirava não havia nada
que a parasse.
— Nina, pare. Tem hora que você parece desequilibrada. — coloco a mão na cabeça já
desesperado.
Ela começou a chorar, sinto um aperto no meu coração, pois não a suportava vê-la
chorando. A puxo para mim e a abraço.
— Me fala Matteo, você ficou com ela quando estava comigo?
— Não, eu não fiquei — respondo. — Foi antes de ficarmos juntos, por favor, se acalma.
— E você ainda gosta dela? — ela perguntou e um monte de perguntas se passou pela
minha cabeça. Eu gostei muito da Emília, mas o sentimento que eu sentia por Nina era
diferente, algo que eu não sabia explicar se era amor.
— Para de ser insegura, nós vamos ter um filho, vamos nos casar, o que mais você quer? —
digo. Eu estava ali para ela e meu filho, isso era a forma de expressar o meu amor.
— Eu... Eu não posso continuar com isso... — ela murmurou e começou a se afastar.
— Nina o que você está falando? — fiquei confuso, mas deixei que ela se afastasse para se
acalmar.
— Eu não vou me casar com você... — ela diz e eu sinto um peso em minhas costas. Ela
não estava falando sério. Pensei em sair dali e leva-la para casa até que se acalmasse.
— Por que Nina? Por quê? Não leve as coisas nesse ponto. — tentei a puxar para mim, para
conforta-la e para que ela entendesse que eu estava ali para ela. Somente para ela.
— Porque eu não estou grávida.
O meu corpo congelou. Quis acreditar que era só uma brincadeira e que a Nina estivesse
com raiva e por isso queria me ferir.
— Eu menti. Nunca estive grávida. Quer dizer, por um momento achei que estivesse, mas
não. Eu não estou grávida — falou, sua voz não falhou e sua expressão era séria demais para
ser brincadeira. Senti um nó na minha garganta se formando.
Incrédulo a pedi para que fosse comigo até o carro. A situação estava ficando ruim demais e
não queria que alguém ouvisse.
— É brincadeira, não é? Me diz que não é verdade, fala que não mentiu pra mim? —
Supliquei. Senti que tudo que eu pensei em construí estava desmoronando. Mesmo que aquilo
fosse uma brincadeira, Nina estava indo longe demais.
Por segundos intermináveis eu a fitei, ela me encarou. Era como se a mente dela estivesse
vagando.
— É a verdade Matteo, não estou grávida... — disse.
Foi então que eu percebi que ela estava falando a verdade. Comecei a sussurrar para que
conseguisse acreditar que não iria ser pai. A garota que eu pensei que seria a mulher da minha
vida se tornou uma grande mentirosa, e o meu sonho havia se tornado um pesadelo.
Eu chorei. Tentei segurar as lágrimas, mas quanto mais eu tentava segura-las, elas insistiam
em cair. Dirijo duramente até a casa de Nina. Sabendo que era a última vez que queria vê-la.
Mesmo que a expressão dela me doesse, eu tive que dizer:
— Eu não quero te ver nunca mais...
Nina desceu do carro e eu saio dali o mais rápido que pude, contudo, não consegui chegar
até minha casa. Engasgando com as lágrimas paro com o carro na esquina. Meus ombros
começam a tremer incontrolavelmente, e sinto um rio de lágrimas correndo em linha sinuosa
por minha face.

[...]
Por alguns dias eu permaneci em estado de choque, contudo tive que voltar a realidade
quando recebi uma ligação da minha mãe avisando que meu pai havia passado mal, outra vez.
Quando chego para vê-lo a única coisa que ele pede é que precisa ver a Nina, urgentemente.
Em seu estado debilitado eu não tive coragem de dizer que ela era uma farsante, mas também
não pude acatar ao seu pedido de chama-la. Não me sentia forte o suficiente para isso.
Contei a verdade somente para Martim, pois precisava desabafar, mesmo com raiva perante
o que ela fez, ele decidiu contata-la. Eu não intervi, era pelo bem do nosso pai. E não
acreditava que ela fosse até que a vejo dentro do carro parada na frente de casa.
Seguro toda a minha raiva e imagino que era por um bem maior.
Tudo pareceu correr bem, ela foi conversar com meu pai, e quando percebo que está
demorando muito subo para verificar se aconteceu algo e percebo que há uma discussão entre
ela e Martim, contudo, não consigo entender sobre o que era.
Desestabilizada, Nina grita com meu irmão e logo após sai correndo. Tento atrás dela para
pedir satisfações, mas estranhamente ela desmaia. Um aperto subiu em meu peito e eu a
peguei no colo. Corro para baixo e com a ajuda da minha mãe vou com ela até o hospital. Na
emergência consigo atendimento rápido.
Penso que ela tenha tudo um pico de estresse alto, pois ela surtava muito rápido, contudo
uma hora depois o médico surge com a noticia:
— Os desmaios são normais no início da gravidez, vamos mantê-la em observação. — ele
diz.
— Gravida? Ela está grávida? — questiono. Sinto meu corpo retesar. Completamente
desnorteado eu não entendia o que havia acontecido. Até que a enfermeira me deixa entrar. Eu
estava prestes a explodir! Como ela pôde fazer isso comigo? Confundir-me, me ferir, me tratar
como um idiota?
— Senta aqui, vamos conversar. — Nina diz a me ver, ela estava muito pálida.
— Eu queria te entender — digo pronto para começar o meu discurso — Já cansei do seu
parafuso solto.
— Eu não queira que as coisas tivessem tomado essa proporção. Eu queria te dizer que não
sabia da gravidez até esses dias... — nada que ela dissesse iria me acalmar.
— Eu não sei o que se passa pela sua cabeça. Mas o que você fez é muito absurdo. E
quando começo a lembrar de tudo percebo algumas coisas. Quando você pedia para fazer sexo
sem camisinha, estava tentando engravidar? — Eu não podia suportar a ideia de que ela podia
ser tão dissimulada.
Ela somente acena que sim com a cabeça. E eu explodo de raiva.
— Meu Deus. Como você pode me enganar? Isso é horrível Nina, você tem noção de
quanto ruim isso foi? Como você pode dizer que me ama ao me enganar dessa forma?
Ela tenta arrumar desculpas, mas as palavras dela mal eram ouvidas por mim.
— Eu queria muito ser pai. Mas com a pessoa certa. Tenho que encarar essa situação e me
casar com você É uma merda, vou ter que casar com uma pessoa que não confio... Que se
mostrou desequilibrada, totalmente fora do controle. Mas farei isso, pelo meu filho. — digo,
eu sentia que mesmo que Nina fosse uma garota maluca, o meu filho não merecia ser deixado
de lado.
O filho que eu tanto quis e que por um momento eu perdi.
— Não, não, não! Eu não vou me casar com você — me assusto com a negação dela.
Depois de tudo que ela fez, como poderia negar fazer o bem para o próprio filho?
— Não? Até nesse momento você consegue ser puramente egoísta. Não pensa no nosso
filho que vai ser criado por pais solteiros? Viver em duas casas, sem estrutura financeira, eu
não quero isso pra ele.
— Não é só que você quer, é algo que ambos precisamos querer.
Com desprazer eu decidi deixa-la em paz, porque se eu insistisse ela poderia passar mal, e
consequentemente isso faria mal para meu filho.
— Eu vou te deixar pra pensar, mas volto amanhã para te buscar. Vamos conversar.
Coloque a cabeça no lugar Nina. Eu não estou te aguentando mais.
Ela ergue os olhos para mim, e há lágrimas neles. Aperto meu peito expressando empatia
por ela. A encaro e decido ir embora.

[...]
A garota mais egoísta, dissimulada e desequilibrada que eu conheci, era sim que eu poderia
descrever Nina. Quando fui busca-la no hospital no dia seguinte, ela havia sumido! Pensei em
ir atrás dela, talvez ela estivesse voltado para casa, contudo, recebo uma mensagem pedindo
uma separação, pedindo para que nos víssemos somente em casos de extrema necessidade. Eu
fiquei com tanta raiva que decidi que não iria contata-la. Queria distância.
Três meses se passaram e mesmo angustiado eu não fui atrás de Nina. Vivi minha vida, me
dediquei ao trabalho e com o plano de carreira que Emília montou para mim, consegui a minha
sonhada promoção. Eu não sentia mais raiva por Emília ter me dado um fora, eu sentia que ela
era uma amiga, alguém que me ajudava. Mas também não era mais apaixonado pro ela, sentia
que depois do que Nina me fez eu não iria amar ninguém.
Quando chega o dia do ultrassom de Nina, mal me aguento de ansiedade, não conseguia me
focar no trabalho e isso era evidente. Saio mais cedo e fico aguardando no hospital uma hora
até que a vejo.
Eu acreditava que a veria e ela iria dizer:
“É brincadeira de novo Matteo, eu não estou grávida”.
Mas quando a vejo, meus olhos passam direto para sua barriga. E neste instante a gravidez
dela se torna real para mim, era como se o tempo todo eu estivesse em negação. Após tantas
mentiras era difícil acreditar. Mesmo com exames, mesmo que médicos dissessem, eu estava
incrédulo, até aquele momento.
Converso pouco com ela na sala de espera, estávamos tão travados, parecia que estávamos
pisando em ovos para não falar nada que machucasse.
Quando o médico finalmente chama, eu fico parado sem saber aonde me encaixar. Vejo
alguns borrões na tela e sinto que lágrimas começam a se formar em meus olhos. Enxugo os
olhos e dou uma olhada ao redor para ter certeza de que ninguém notou minhas lágrimas
bobas. Até que o médico diz:
— Seu bebê está em uma posição perfeita para descobrimos o sexo. Vocês querem saber?
— o doutor indaga e Nina acena que sim. Poucos segundo depois ele diz: — É uma menina...
Meu pensamento vaga e é como se todos os momentos que passei com Nina se
embaralhassem em minha cabeça. Toda a confusão que ela me causou, todos os sentimentos
que eu senti que foram tantos confundidos. Eu ia ter um filho com ela. Mais especificamente
agora sabíamos que era uma menina.
A minha filha. A amada filha que eu tanto desejei se tornou real. E mesmo que a minha
situação com Nina não fosse a melhor, meu coração não pode deixar de se encher de alegria.
[...]

Nina dificultou tudo. Mesmo com o meu pedido de casamento — Novamente eu tentei agir
corretamente — ela não quis aceitar. Eu tive que respeitar a decisão e me foquei novamente
em meu trabalho e em meu pai.
A cirurgia dele foi realizada e como prometido Nina foi visitá-lo. Após minhas insistências
ela decidiu ficar em minha casa, afinal estava se sentindo mal e era meu dever ajuda-la. Deixei
que ela se acomodasse no quarto de hóspedes e um tempo depois fui ver com ela estava.
Encontrei Martim saindo do quarto. Queria entender o que ele e Nina falavam e se tinham
se entendido, afinal o ultimo encontro deles havia sido devastador. Contudo, quando entrei no
quarto, decidi que queria ter uma conversa com Nina, uma conversa de verdade. Queria
entende-la, queria entender suas crises emocionais e tentar de alguma forma ajuda-la.
Mas eu não estava preparado para ouvi-la dizer que sofreu abuso na infância. Era como se
toda a dor dela fosse minha. Eu senti que mesmo que tivéssemos diferenças e mesmo que ela
tivesse mentindo tanto para mim, eu só queria conforta-la.
A aninho em meu colo e afago seus cabelos.
Neste momento eu decido deixar todo rancor de lado e a peço para cuidar dela.
— Obrigada — Ela sorri para mim, revelando duas covinhas profundas logo abaixo das
maçãs do rosto. — Mas eu não posso. Seria errado, eu preciso me resolver antes.
Eu sabia que não deveria questiona-la, por isso a aperto ainda mais em meu colo. Sentindo
toda sua essência. Deito-me ao lado dela e ela me deixa ficar ali, apenas acariciando sua
barriga. Fechos os olhos.
— Nós vamos ficar bem — sussurro. Querendo acreditar no que estou dizendo.
Mas ainda não consigo abrir os olhos. Fico deitado ali, com lágrimas quentes e salgadas
pingando dos olhos, enquanto repasso na cabeça os últimos momentos — o toque familiar que,
de algum modo, milagrosamente, parecia novo outra vez.
Redenção
Ali deitada com Matteo, de alguma forma começo a acreditar que podíamos ficar bem.
Lado a lado. Não sabia se ia conseguir dormir. Matteo pareceu perdoar as minhas mentiras,
mesmo que eu tenha mostrado o meu pior lado para ele.
Busco seus olhos com ansiedade e encontro-os profundamente focados nos meus. Logo
depois, de repente, estamos nos beijando, e sinto o gosto de seus lábios suaves, tão doces e
familiares, enquanto meu coração dispara freneticamente.
Não nos beijávamos, nem nos tocávamos há tanto tempo...
Chego mais perto, e os beijos vão se intensificando, se alongando, minha cabeça cai no
esquecimento, o corpo ardente. É isso. É disso que eu preciso. Uma escapatória. Simplesmente
me perder por completo. Esquecer. Beijo-o mais forte.
— Nina... — ele diz. Chego ainda mais perto, minha língua deslizando contra a dele,
escorregando as mãos dentro do... — Nina, não! — ele exclama, afastando-me e deixando
meus lábios vazios no ar.
— Matteo? — questiono sem entender.
— Desculpe — suspira, passando as mãos no cabelo. — Desculpe, não posso... Não posso
fazer isso.
— O quê? — Ele desvia o olhar, e eu tento encará-lo, franzindo a testa, mas ele não para
quieto, não foca. — Matteo?
—Eu não posso. — Ele me olha, pesaroso, depois vira a cabeça e suspira. Então eu me dou
conta.
— Você não me deseja. — Engulo em seco, dolorosamente, com a garganta amarga e
sentindo um calafrio repentino. — Nunca me quis.
— Nina não distorce as coisas.
— Como eu fui burra. Deixa-me, sai daqui — jogo os travesseiros nele.
— Me desculpa.
— Sai daqui Matteo! — Exclamo. Com o peito apertado, empurro-o para sair.
A lágrima cai.
|...|

Com seis meses de gravidez eu ansiava todos os dias pelo parto. Queria muito ver minha
filha, além disso, estava muito cansada. Eu estava bem grandona e os meus pés estavam me
matando. Queria ficar de pernas pra cima o dia todo, contudo, minha licença estava agendada
somente para o oitavo mês.
Na consulta com a psicóloga, contei a ele sobre o que passei, e de certa forma foi um alivio.
Contudo o meu medo maior era dela diagnosticar que eu era depressiva.
— Vou precisar de antidepressivos depois da gravidez? — questiono.
— Você não precisa de antidepressivos, porque você não é depressiva. Veja bem, quero que
você faça algo. Escreva uma carta para o senhor L. — Senhor L era o nome que dei para o
vizinho que me abusou. Não quis citar nomes na consulta e nem para Matteo.
— Eu não sei se ele está vivo, provavelmente morreu — digo. O senhor L e a esposa dele
se mudaram há alguns anos.
— Essa carta não é para ele. É pra você. É um exercício, para se perdoar — ela diz. Não
sabia se isso era uma boa forma de terapia, mas não havia nada a perder.
— Tudo bem — digo. — Sabe, eu estou mais contente. Consegui comprar o enxoval da
minha filha. E estou pesquisando nomes...
— Ótimo. Deixe que o pai também participe da escolha do nome.
— Eu não sei.
— Lembra o que conversamos? Você não deve limita-lo.
— Eu sei... Nós trocamos algumas mensagens. Mas sabe, parece que nosso relacionamento
morre a cada dia.
— E como se sente?
— Bem. Na verdade, não me preocupar com Matteo, me faz sentir bem — reflito. E
percebo que Matteo está ficando cada vez mais pra trás em minha vida. Depois daquela noite
não havia mais nenhum resquícios de Nós.

[...]

Senhor L,
Quando eu estava na quarta série, eu gostava de espantar as pessoas, pegava insetos e
colocava dentro das minhas roupas. Não gostava que me tocassem, e por isso sempre me
mantia suja.
No último ano, eu parei de tomar banho. Mas, minha mãe me obrigava a ir para o
chuveiro, só que não contente eu corria para me jogar na lama. Quando eu fiquei um pouco
mais “mocinha” decidi cortar meu cabelo sozinha. Eu o deixei quase no zero. Minha mãe
perguntava: “Por que você trata seu corpo com tanto desrespeito?”.
Eu não tinha a menor ideia. No entanto, agora eu tenho.
Você provavelmente acha que eu esqueci, mas eu me lembro de tudo que você fez comigo.
Quando você aparecia aos domingos para ver futebol com meu pai, eu me trancava no quarto.
E você perguntava: “Onde está a princesa?”.
Às vezes eu pensava que você se esquecia. Todavia, você era um adulto na época que
abusava de mim. Você enganou toda minha família, você me arruinou.
Estou pensando... Será que você morreu? Por que eu não consigo sentir pena alguma. Não
sei se sou uma pessoa ruim por isso. Dizem que devemos perdoar a quem nos fez mal. Mas eu
não sei perdoar. Acho que somos pessoas ruins, não é? Mas, acho que você é pior.
Paro a carta. Percebo que não há mais nada a dizer.

[...]

Comecei a medir o meu quarto com Carina para saber o tamanho certo do berço que eu
deveria comprar. Estava na hora de começar os preparativos para receber minha filha. Há
pouco tempo pesquisei na internet todos os itens que eu precisava e me assustei com o tanto de
coisas. Carina sugeriu que eu fizesse um chá de bebê. E eu fui contra.
— Faz muito tempo que não vejo algumas amigas, e sei lá, me sinto envergonhada por ser
mãe solteira — acabei dizendo.
— Não há nada pra você se envergonhar. Podemos fazer algo bem íntimo. Sua mãe,
Marcele, nossa amiga Laís que não vemos há algum tempo, ah e a Elena também. Sabe, elas
nunca te julgaria — Carina sugeriu.
— Vamos ver. O problema é que a mãe do Matteo me mandou uma mensagem falando
sobre isso. Ela quer que façamos algo, ou pelo menos quer contribuir com o quarto do bebê.
— Deixe que ela dê o berço, você não deve proibi-los de ajudar.
— Eu sei. Só que ela precisa saber que o quarto do bebê será aqui, e não na casa que ela
ajudou Matteo a comprar.
— Você ainda não contou que estão separados?
— Não. Mas pretendo contar logo. — digo, pensando em qual momento eu teria coragem
para isso.
[...]

Eu estava com 38 semanas e cinco dias de gestação. Ao acordar, percebi que perdi o
tampão mucoso que reveste o útero.

Eu lia muito e sabia que aquele poderia ser o início do trabalho de parto. Fui a médica naquela
tarde, ela fez o toque, mas ainda não tinha sinais, nem de afinamento, nem de dilatação. Ela
disse que ainda poderia levar uma semana.
Fiquei chateada, pois estava ansiando demais por isso. Quando voltei para casa encontrei
um caixa na sala.
— O que isso? — pergunto a Carina.
— É mais um dos presentes. Como não fizemos o chá de bebê, as pessoas estão mandando
mesmo assim — responde.
Pego o cartão que veio junto e vejo que foi Emanuela quem mandou.
“Matteo me contou o que aconteceu entre vocês, disse que se separaram, eu não sei o
porquê, mas espero que após o nascimento do bebê vocês se entendam” disse.
— Bom, pelo menos agora a Emanuela sabe que Matteo e eu nos separamos.
— Ela sabe o motivo?
— Não — respondo e me sinto aliviada por Matteo não ter dito a verdade. Já vejo pela
caixa que Emanuela enviou o berço.
Eu sabia que o apartamento era muito pequeno para comportar tudo que minha filha
precisava. Contudo, não havia outra saída. Eu tinha um dinheiro guardado, mas não chegava
nem perto do que eu precisava para comprar uma casa. Meus pais queriam me ajudar, com isso
me deram o terreno que meu avô deixou para eles. Eu ainda não conseguiria começar a
construir, mas era um projeto que eu queria trabalhar no próximo ano.
Entrei no meu quarto. Eu havia pintado a parede de vermelha romã junto com Carina. Já
havia combinado com Emanuela o tamanho do berço que eu precisava. Planejava de pedir para
montarem logo no dia seguinte.
Matteo mantinha contato comigo, mas tudo de modo muito amigável. Estávamos
caminhando para uma relação muito madura.
Vincenzo estava muito bem e quase recuperado e com isso eu não precisava ir visitar os De
Marco com tanta frequência. Eu me sentia confortável com a separação minha e de Matteo,
meus sentimentos por ele aos poucos se tornou tão calma que conseguia viver com nossa
separação sem me sentir sufocada.
Carina havia ido para uma viagem urgente no trabalho e só chegaria no sábado. Era sexta
feira e com medo de que eu entrasse em trabalho de parto a qualquer momento, Matteo decidiu
ficar comigo. Não fui contra, afinal, estava com medo de ficar sozinha.
À noite eu senti uma leve cólica, mas nada fora do comum. Liguei o chuveiro para tomar
um banho quente. Encostei a porta do banheiro e tirei minhas roupas vagarosamente. Estava
frio, e eu me sentia tão pesada e também machucada... Sentia-me tão frágil. Entrei de baixo do
chuveiro e deixei a água cair pelo meu corpo. Suspiro.
Em algum momento eu sempre me perguntava se estava preparada para ser mãe, se seria
tão difícil quanto eu imaginava ou se eu era paranoica demais. Fecho os olhos. Inspiro e
expiro. E então uma cólica perpassou pelo meu baixo ventre. Solto um grunhido. Passo a mão
pela minha barriga e sinto que ela está um pouco retesada.
Acabo derrubando um sabonete, e sabia que a ideia de tentar pega-lo seria ruim. Eu mal
podia ver os meus pés!
— Nina? Está tudo bem? — Matteo bate na porta do banheiro.
— Está, eu só — novamente uma cólica surge e então antes que eu pudesse dizer algo,
Matteo entra no banheiro. O box estava aberto, eu sempre o mantinha aberto para não me
sentir sufocada.
Não senti vergonha de Matteo, eu estava muito cansada pra isso.
— Me desculpa, mas fiquei preocupado — Matteo tampou a visão.
— Tudo bem. Não precisa tampar a visão Matteo. Esse é meu corpo, esse é o resultado de
toda mudança que ele passou — digo e Matteo engole em seco.
— Você está bem? — Ele pergunta, tirando a mão do rosto.
— Estou, pega o sabonete pra mim, por favor — peço. Desligo o chuveiro e Matteo entra
no box.
— A sua barriga está tão enorme... — ele diz. Pego a mão dele quando se vira pra mim e a
coloco na minha barriga.
— Sinta — digo. — Está bem retesada, eu acho que está perto... — dou o meu palpite.
Mesmo sendo mãe de primeira viagem, eu sabia que meu corpo esta emitindo sinais.
— Caramba... — Matteo diz. Seus olhos param longamente sobre os meus, e sinto o
estômago embrulhar de repente com a lembrança da última vez que estivemos tão próximo.
— O que foi?
— Você mudou...
— É claro que eu mudei.
— Me desculpe e obrigado — ele diz e logo após sai do box. Decido sair também e Matteo
me dá a mão para me ajudar. Ele pega a toalha e enrola em mim. Por trás ao envolver a toalha
em meu corpo. Ele me abraça.
— Nina... O que acha do nome? — Pergunto a ele. Nina é um adjetivo feminino italiano
que quer dizer “alegre”. E ela nos traria muitas alegrias.
— Nina — ele diz. — Eu gosto.
— Não acha que podemos ser uma família? — Matteo questiona.
— Sabe Matteo, fiquei um bom tempo sozinha, o que mais fiz foi pensar, refletir sobre
minha vida. E sabe qual a conclusão que cheguei?
— Qual?
— Que hoje estou melhor sem você. Puxo um pouco a toalha, para que ele entenda que
devemos nos separar. Matteo entende o recado e me deixa sair do banheiro. Vou para o meu
quarto e visto o pijama. Pego cobertor e travesseiro e levo para a sala.
— Aqui pra você dormir — digo a ele. — Vou me deitar.
— Tudo bem, está sentindo alguma coisa?
— Eu não sei dizer ao certo, mas estou sentindo que não passa de amanhã — estou
esperançosa. Sabia que minha filha iria nascer em breve. Mas além de tudo eu estava muito
exausta.
— Me chame qualquer coisa — diz.
— Ok... Boa noite.
— Durma bem — ele diz e eu vou para o quarto.
Passei um tempo lendo um livro, depois sentei e logo após deitei. Sentia-me muito
inquieta. Não tinha uma posição que eu me sentisse confortável para dormir. Tudo era ruim,
pois a minha barriga estava grande demais.
Deitada no escuro sinto meu coração pesado mais uma vez.

Às cinco e meia da manhã de sábado eu acordei. Senti como se fosse um estalo na barriga, e
um liquido desceu bem devagar, era quente. Parecei que eu havia feito xixi, mas sem controle
próprio. Minha cama estava um pouco molhada. Vou até o banheiro e coloco um absorvente.
Respiro fundo, precisava ter muita calma. Fui até a sala e decidi avisar Matteo. Ele estava
dormindo no sofá.
— Matteo — cheguei perto dele e o chacoalhei. Ele abriu os olhos um pouco desnorteado.
— Minha bolsa estourou, está na hora. — digo e nesse exato momento ele desperta.
— Meu Deus, vamos já para o hospital!
— Eu vou ligar para minha médica antes — digo e logo após, pego meu celular.
Falo com Vivian e ela me pede para preparar as malas da maternidade e depois ir para o
hospital. “Tudo calmamente” disse. Calma? Eu não estou nada calma. Está certo que no pré-
natal conversamos sobre como seria o parto, e eu decidi por parto normal porque minha mãe
convenceu que era a melhor coisa. Contudo, agora eu estava em pânico. Eu deveria ter
escolhido Cesária! Seria tudo marcado, com menos dor.
Eu sempre fui uma pessoa muito medrosa, principalmente ao que se ligava a dor. Sei que
tem bastante gente que tem o limiar para dor alto, que aguenta bastante coisa tranquilamente,
mas eu passo bem longe disso.
Ligo para minha mãe e a aviso.

Estava sentindo um misto de ansiedade e medo. Ainda às sete da manhã as contrações


seguiam um ritmo lento. Eu ainda não estava entrando em um trabalho de parto efetivo.
“Tenha calma, conte o intervalo das contrações” – Vivian me mandou mensagem.
Às 7 horas da manha as contrações já estavam mais fortes. Minha mãe fez um chá de cravo
e gengibre; e ao sair do banho as contrações estavam mais fortes e com aproximadamente 5
minutos uma da outra.

Era hora de ir pra a Maternidade. Chegamos à maternidade às 8 horas da manhã e a intensidade


das contrações aumentaram proporcionalmente à minha ansiedade.

Tentei comer um pouco, mas aos poucos parecia que não existia mais intervalo entre as
contrações. Enquanto Matteo preenchia a ficha do hospital eu fui encaminhada para o quarto.
Não encontrava posição em que a dor parecia melhorar e meus sentidos estavam à flor da pele.
Fizeram o exame de toque e ainda estava com quatro cm de dilatação.
Minha mãe ficou sentada do meu lado na cama.

— Quando sentir dor respire, se concentre em sua respiração que a dor passa. — a enfermeira
disse.
Me deitei na cama, de lado, com a mão na barriga. Fechei os olhos e me focalizei nas
minhas respirações. Pensava inspire, expire, dentro, fora... Nesse momento eu me fechei no
meu mundo. E acabei dormindo um pouco.
Colocaram-me no soro com ocitocina no mesmo minuto as contrações aumentaram muito
de intensidade. Elas vinham a cada 4 min, com 1min de duração. Eu não estava suportando
tanta dor, ainda estava com 7cm de dilatação!
Vivian entrava com frequência no quarto, me examinava, examinava o bebê. Não achei
que fosse possível, mas as dores aumentaram muito mais.

— Está tudo correndo bem, não falta muito. Se quiser posso pedir a anestesista peridural —
disse com muita calma.
— Quero, agora, por favor — peço.
— Precisamos esperar só mais um pouco. — disse. E eu assenti.
— Quem vai acompanhar o parto? — Vivian indagou. Minha mãe e Matteo se
entreolharam.
— Ele vai. — Para minha surpresa minha mãe disse. Matteo engoliu em seco.
Eu queria que fosse minha mãe, mas estava sem forças para questionar sobre isso.
Matteo estava em pé e se perdeu um bom tempo olhando para mim. Ele estava perdido, sem
saber o que fazer, de tempo em tempo ele perguntava se eu precisava de algo. Deve ter se
passado umas duas horas. Entre contrações e nervosismo.
A emoção e a dor eram tantas que lágrimas escorriam de meus olhos e eu achava não que
não conseguiria. Foi assim até me levaram para a sala de pré-parto com 9 cm de dilatação para
aguardar a anestesista.

Na sala de parto me aplicaram a anestesista. A dor diminuiu aproximadamente trinta por


centro, apesar de parecer pouco, me ajudou muito. Deitaram-me na cama com as pernas
apoiadas como se eu estivesse em uma consulta ginecológica.
— A anestesia vai atrapalhar sua percepção. Mas eu vou te ajudar — Vivian disse.
— Ok... — murmuro. Eu ainda não tinha vontade de fazer força, mas iria me esforçar para
isso. Matteo estava ao meu lado.
Eu gritava entre uma contração e outra.
— Você precisa fazer força — Vivian advertiu.
O meu útero contraia e eu fazia mais força.
Parecia que o bebê não estava descendo e que a força que eu estava fazendo não era
suficiente. Realmente achei que não fosse conseguir, que havia algo errado comigo ou com
meu corpo. Então me lembrei de tudo que passei para chegar até aqui. Das mentiras, das
mágoas, da minha mudança interior. Não foi fácil, mas se eu não acreditasse em mim mesma
naquele momento, não teria como conseguir.
Matteo estava do meu lado ainda silencioso. Agarrei as suas pernas numa contração.
Agarrei e fiz a maior força que meu corpo poderia aguentar. Senti que tinha chegado a hora.
Em cinco respirações Nina nasceu. Foi um momento inexorável, as dores desapareceram
quase que completamente, a doutora Vivian enxugou o bebê e o colocou no meu colo, e então
ela parou de chorar.
Seu rosto era redondo e estava muito avermelhado. Ela estava ainda de olhos fechados. A
aninhei perto do meu rosto. Minha menina... Que iria depender exclusivamente de mim. Olho
em volta, com a respiração presa na garganta. Matteo estava tão assustado. E então recebo um
sorriso tão familiar.
As lágrimas que se sucederam naquele momento foram de desespero. Fiquei ali naquele
momento ainda esperando a expulsão da placenta. Sim, eu estava com medo, com medo de
encarar o futuro sabendo que meu passado foi uma mentira. Minha vida iria começar
novamente, do zero. Era o começo e uma redenção.
Mal posso acreditar que a minha vida tenha mudado tão rapidamente e de maneira tão
dramática. Meses atrás tudo parecia tão ermo, tão vazio... E agora estou aqui, o futuro grita por
mim, com empolgação, com promessas.
O que vai ser nós filha...? Fecho os olhos.
Paixão
Maternidade é uma dicotomia de extremos. O mais alto dos altos e o mais baixo dos baixos.
Intensa realização e alucinada frustração. Amor e exaustão que te domina por completo.
Quando Nina nasceu eu fiquei um tempo na casa da minha mãe. Eu estava perdida. Boa
parte da minha frustração era porque dar de mamar estava sendo o meu martírio. Após dois
meses tendo dificuldades de dar de mamar para minha filha tive um consulta com o pediatra.
Recomendado por Vivian percebi que o doutor Luís Fernando Martins era o mesmo que
encontrei um dia em uma loja quando tentei comprar uma roupa para Nina, logo quando
descobri que era uma menina.
Chego a clinica e aguardo até que ele chama.
— Oi Nina, tudo bem? — ele questiona enquanto eu sento.
— Eu estou bem, mas desde a última consulta da Nina percebo que ela está perdendo peso
— digo.
— Bom, vamos ver isso — ele diz. E então faz a consulta de rotina. E quando termina
coloca Nina em meu colo. Ele me olha, seus olhos verdes são convidativos e depois sorri para
mim.
— Ela está bem. Contudo, você está com problema para dar de mamar, certo?
— Sim, está ardendo muito, parece que não está saindo nada. Ela sempre chora... — digo.
— Bom, você tem que se esforçar. Mesmo que doa — disse. — Pelo menos até os três
meses.
— Eu sei, mas ela não está magra demais?
— Não. O peso dela está normal.
— Então estou fazendo o certo?
— Sim, ela é saudável Nina — ele diz e começa a prescrever algo.
— Ela precisa de remédios, doutor? — pergunto.
— Não, isso é pra você — ele responde. Pego o papel e vejo o que está escrito.
“Grupo de apoio para mães de primeira viagem.” Vejo que há um endereço.
— Tenta ir. Vai fazer bem pra você.
— Ok, obrigada — digo. Mesmo que não gostasse da ideia de um grupo de apoio. Que tipo
de mãe eu era? Além de ir ao psicólogo eu ainda tinha que frequentar um grupo de apoio?
Essa não era uma opção.
Naquela tarde fui para o apartamento e um pouco depois recebi a visita de Matteo. Ele nos
visitava regulamente. Afinal, antes de Nina completar seis meses, não teria como ele leva-la
para sua casa.
Nina estava um pouco inquieta e Matteo quis acalma-la. Ele a pegou no colo —
ligeiramente desajeitado — e a balançou lentamente. Suspirei, cansada.
— Você quer tomar um banho, enquanto fico com ela? — ele indaga.
— Você vai ficar bem com ela? Sozinho? — me preocupo.
— É claro, não se preocupe tanto — diz. E eu acabo aceitando. Se eu não tomasse banho
agora, não conseguiria até Nina dormir, e mesmo que ela dormisse eu tinha medo de deixa-la
sozinha.
— Tudo bem, serei rápida — digo. E vou para o quarto. Pego um vestido confortável e vou
para o banheiro. Não estava sendo fácil perder o peso da gravidez. Mesmo dando de mamar eu
não conseguia ficar magra. Afinal, sempre que ficava nervosa comia muito. Quando tiro a
roupa e olho para o espelho é como se eu não me reconhecesse mais.
Ligo o chuveiro e deixo a água cair. Mesmo que eu tenha passado por todo um processo de
aceitação pessoal e aceitação materna, ainda não me sentia plena. Contudo eu sabia que tinha
que mascarar como eu estava me sentindo. As pessoas não queriam saber como eu estava, elas
não vinham me visitar para me ver, mas sim para ver minha filha.
E quando perguntam como estou não querem saber a verdade. Pras pessoas era: “Você teve
um filho, deve estar imensamente feliz”.
Não é fácil ser mãe. Às vezes eu tenho vontade de fugir, às vezes tenho vontade de me
trancar em um quarto e dormir por uma semana. E quando milagrosamente estava de bom
humor eu queria começar tudo de novo. Mudar-me, conhecer novas pessoas, apagar meu
passado.
Depois me dou conta que nada mudou. Que estou na mesma casa, sendo a mesma pessoa.
Porque não importava onde eu estivesse, eu continuaria a mesma pessoa. A pessoa que tenta
ser o melhor de si mesma, mas que comete erros.
Assim que saio do banho e troco de roupa vou até a sala. Por sorte Matteo havia conseguido
fazer Nina dormir bem na hora em que eu havia acabado de chegar à sala. Ele caminha até meu
quarto e a coloca no berço.
Vou até a cozinha e preparo um chá. Passo a mão pelo meu cabelo molhado e o coloco atrás
da orelha. Matteo aparece e eu ofereço uma xicara de chá.
— Você quer um chá? — questiono.
— Ah não. Sou adepto a cafeína. — ele responde.
— Quer que eu faça pra você?
— Não. Pode deixar que eu preparo. Senta um pouco. — ele pede e eu assinto. Sento-me na
cadeira da cozinha e espero Matteo preparar o seu café enquanto meu chá ferve.
Assim que fica pronto Matteo serve uma xicara para mim e senta-se ao meu lado com uma
xicara fumegante de café.
— Você está bem? — ele questiona. A típica pergunta.
— Estou bem — respondo naturalmente.
— Não. Eu quero a resposta verdadeira e não a mentira — diz. Matteo me encara e é como
se eu desabasse. Eu choro. Fazia um tempo que não me perguntavam como eu me sentia
verdadeiramente.
— Eu estou derrubada — não sabia se ria ou se chorava. Foi um misto das duas reações.
— Nina, você sabe que pode contar comigo.
— Eu sei, mas você já está fazendo o possível. Essa fase é difícil. Eu me sinto perdida.
Meus mamilos doem tanto, toda vez que tento dar de mamar é como se meus mamilos se
rachassem. — digo. Matteo me olha e não sabia muito que dizer.
— Você quer que eu marque um médico pra você?
— Não. Vai melhorar. É que eu preciso reclamar um pouco sabe.
— Eu sei. Você é forte. E sei que vai conseguir. — ele pega na minha mão e a beija. —
Você me deu a minha filha. E sempre será especial pra mim. Estarei com você sempre que
precisar — diz.
Respiro aliviada de ter desabafado. Em seu olhar vejo o brilho do desejo de estar ao meu
lado. Mas em meu olhar brilhava a desilusão.
Cinco anos depois...

— Allegra fique quieta para a senhora tirar suas medidas! — Peço. Meu casamento
aconteceria em três meses e Allegra não conseguia parar quieta. Ela seria a dama de honra.
— Mamãe eu odeio vestidos! — ela protesta.
— Eu sei, vai ser rápido. Depois da cerimônia você vai poder trocar — digo.
— Seu noivo vai vir provar o terno hoje? — a senhora questiona.
— Sim, logo mais ele estará aqui. Só está um pouco atrasado — falo e pego o celular para
ligar para ele.
— Papai! — Allegra grita assim que vê Matteo entrar no ateliê.
— Oi princesa! — ele diz e a abraça.
— Vou buscar o terno para ele experimentar — a senhora diz.
— Matteo! — protesto. Era pra ele chegar depois que a senhora tirasse as medidas de
Allegra, pois assim que o via, ela só queria brincar.
A senhora Mariah chega com o terno e eu percebo que ela se confundiu.
— O seu noivo é tão lindo — ela diz.
— Mariah, esse é o pai da minha filha, contudo não é o meu noivo — digo e a senhora se
assusta.
— Oh me desculpe, eu realmente pensei que fosse ele.
— Tudo bem, mas fique tranquila que o meu noivo chegou — digo. Na entrada da loja Luís
Fernando aparece.
Luís Fernando me dá um beijo rápido nos lábios e depois cumprimenta Matteo. Ele tenta
dar um beijo em Allegra, mas ela se esquiva. Logo ele cumprimenta a senhora, que ainda sem
graça mostra o terno a ele. Luís Fernando vai até o provador enquanto eu fico esperando.
— Papai, você e a mamãe nunca se casaram? — Allegra questiona a Matteo.
— Não. — ele responde.
— Mas por quê? Na escola me disseram que para ter um bebê os pais se casam.
Vejo que Matteo não sabe o que dizer para Allegra, por isso decido intervir.
— Allegra, se terminar de tirar as medidas, eu deixo você tomar sorvete — digo. E então
em um passe de mágica ela fica parada e deixa Mariah tirar a medida de sua cintura.
— Tudo bem Matteo? — questiono, pois não havia tido tempo de cumprimenta-lo.
— Estou bem. Um pouco atolado com o trabalho. Preciso falar brevemente com você. Vai
haver uma excursão no próximo final de semana da escola da Allegra. Ela me pediu para ir —
diz.
— Pensei que estivesse certo que eu ia — falo.
— Sim, contudo ela quer que nós dois esteja lá.
— Mas não tem necessidade — articulo.
— É o aniversário dela. Ela pediu como um presente. — Matteo me encara. Ele estava
sério. Nosso relacionamento no decorrer dos anos foi mudando. Podia dizer que éramos —
quase — amigos. Se não fosse pelo fato dele implicar com Luís Fernando .
“Um pediatra não deveria dar em cima da mãe de uma paciente” — ele dizia.
Aos poucos eu fui mudando. Tornando-me o melhor de mim mesma. Não podia dizer que
era a melhor pessoa do mundo. Mas podia afirmar o quanto me amava.
— Tudo bem, são dois dias. Vou falar com Luís Fernando — falo.
— Ótimo. Princesa, vamos pra casa, a vovó está esperando. No caminho compramos
sorvete. — Matteo diz e Allegra pula no colo dele. Dou um beijo em Allegra para me despedir.
Luís Fernando sai do provador e sorri.
— Como estou noiva?
— Lindo — digo.
E então vejo Matteo ir embora. O homem que um dia pensei em me casar ficou apenas na
lembrança. Agora ali na minha frente, eu via o homem real, o que seria meu marido e
companheiro.
E agora vejo que mesmo a mais forte paixão tem o seu tempo de vida.
Onde está o amor?
Nossas vidas são uma coleção de momentos. Alguns completamente dolorosos. Alguns
esperançosos e cheios de promessas.
Na primeira vez que Allegra ficou muito doente, Matteo e eu ficamos três dias sem dormir
direito. Ela tinha somente seis meses e foi a primeira vez que ficou com Matteo sozinha.
Naquele dia eu já havia percebido que ela estava resfriada, contudo não quis ser contra em
leva-la para ficar com Matteo, pois isso seria um motivo de uma grande briga.
Matteo estava morando em uma casa, vendeu o apartamento e estava demonstrando ser um
pouco mais responsável, afinal foi o acordo que fez com sua mãe. Ela financiaria sua casa e ele
tomaria todas as responsabilidades propostas por ela.
Quando cheguei à casa de Matteo, ele pediu para que eu ficasse um pouco para conhecê-la.
Com Allegra no colo eu fui entrei e vi que era uma casa simples, com uma decoração
minimalista, branco e com paredes destacadas na cor café.
— A casa é linda, Matteo. — Falo e ele retribui o elogio com um sorriso.
— É um investimento para o futuro da Allegra.
Matteo me guiou até o quarto dela. Ele era perfeito. Tinha um espaço muito maior que o
meu quarto. O berço era de madeira e tinha uma cama de solteiro. As paredes eram amarelas
bem clarinhas e com uma destacada vermelha da cor romã. Havia alguns ursinhos de pelúcia e
um carpete marrom.
— Gostou do quarto? — ele perguntou.
— Gostei, quem que escolheu a decoração? — questiono.
— Eu mesmo, achou estranho?
— Peculiar. Mas gostei — respondo.
— Os cobertores do berço estão lavados?
— Sim, sem perfume conforme você pediu. — ele respondeu. Decido colocar Allegra no
berço já que ela estava dormindo.
— Que bom — digo e a coloco ela de lado no berço.
— Essa cama é pra você. Sei que não quer deixa-la sozinha — Matteo diz e eu fico muito
feliz por ele ter pensado em mim.
— Sério? — Não imaginava que Matteo pensaria em mim — eu estava preocupada de
deixa-la sozinha.
—Eu imaginei que ficaria preocupada. Mas estou feliz de pelo menos ficar mais tempo com
ela — Matteo disse e senta-se na cama. Sento-me ao lado dele. — Como está indo?
— Geralmente estou com o pensamento acelerado. Durmo pouco e acabei de voltar para o
trabalho. Por enquanto estou deixado Allegra com Carina, porque ela ficou recentemente
desempregada. Contudo, preciso arrumar uma babá ou coloca-la na creche logo.
— Minha mãe pode ficar com ela Nina.
— Não queria dar esse trabalho para sua mãe.
— Não é um trabalho. Vai ser um prazer pra ela. Por favor? — ele pede.
— Preciso pensar — digo. Afinal, deixar Allegra perto do casal Martim e Clarice não era
algo que me agradava. Principalmente por conta da proposta dele. Proposta da qual Matteo
ainda não sabia.
— Está bem, vamos pensar em conjunto — ele diz e eu assinto.
—Vou fazer um café, você quer?
— Eu quero — digo. Matteo se levanta e sai do quarto. E logo depois Allegra começou a
chorar. A pego do colo e vejo que sua testa está um pouco quente. Coloco-a de volta no berço
para pegar o termômetro. Assim que meço sua temperatura percebo que está com febre. Não
era a primeira vez no dia que isso acontecia, como eu já havia medicado ela—, conforme
orientação do médico —, decido que era melhor leva-la ao hospital.
Matteo aparece no quarto com as xicaras.
— Vou ter que leva-la para o hospital, ela está com febre e é a segunda vez hoje. —digo de
imediato.
— Vamos leva-la. Eu dirijo — ele diz.
— Pega a bolsa dela. Vamos — falo. Assim que Matteo pega a bolsa e fecha a casa vamos
até o hospital.
Quando chegamos vejo que o pediatra de plantão era Luís Fernando. Logo Allegra é
atendida e ele diagnostica que ela esta com Bronquiolite.
— É grave doutor? — questiono.
— Os sintomas são muito parecidos com resfriado. Mas fique tranquila. Você só precisa
seguir minhas recomendações.
— E como ela pegou isso?
— Contato físico. O vírus é transmitido através de contato físico, ou seja, circula facilmente
em ambientes fechados, berçários, escritórios e até dentro de casa. Ele pode sobreviver por seis
horas, então a boa higiene é fundamental para combatê-lo.
— Como sou descuidada! — resmungo.
— Não se culpe. Pode ter sido até mesmo um visitante que passou a doença pra ela.
Lembre-se de pedir a todos que a segurarem para sempre lavar bem as mãos.
— Tudo bem.
— Aqui a receita. Não cobre tanto de si mesma, se cuide Nina — ele diz. Pego Allegra no
colo e saio do consultório. Matteo se levanta da cadeira da sala de espera, sua expressão era de
preocupação.
— E então? — ele questiona.
— Ela vai ficar bem, está com bronquiolite — respondo. Matteo faz uma expressão confusa
e eu acabo explicando tudo que o médico disse durante o caminho até a casa dele. Allegra já
estava dormindo, pois já havia sido medicada no hospital.
Naquela norte permanecemos ao lado dela, ambos acordados.

|... |
Seis meses depois do ocorrido eu deixei Allegra sozinha novamente com Matteo. Foi difícil
para mim, estava muito estressada com a volta ao trabalho, e também tive que aceitar que
Emanuela ficasse com Allegra, eu não era a mulher maravilha, então, de alguma forma eu
precisava ceder.
As coisas pareciam finalmente estar se encaixando, Matteo e eu estávamos planejando o
primeiro aniversário de Allegra. De certa forma, eu deixei que a mãe dele organizasse tudo,
todos estavam muito felizes por Vincenzo estar com a saúde boa e pela neta.
Entreguei o convite de aniversário para o pediatra de Allegra, Luis Fernando. Apesar de ele
ser o médico dela, acabou me ajudando muito na minha trajetória como mãe. E para minha
surpresa ele acabou aceitando o convite.
Quando o dia chegou, até eu fiquei surpresa com o tamanho da festa. A parte dos fundos da
casa dos De Marco estava completamente decorada. Havia balões vermelhos, rosas e brancos.
Uma mesa central com um bolo gigantesco e alguns docinhos, e no fundo havia uma foto de
Allegra.
Emanuela e Clarice haviam organizado quase tudo. Com o passar do tempo Clarice se
tornou mais agradável, e fazia de tudo para ser a melhor tia para Allegra. Ela até a mimava
demais.
A festa começou às duas da tarde. Logo Allegra estava no colo do avô e eu fiquei
recepcionado as pessoas.
Daniel e Marcele chegaram, eles estavam radiantes, pois souberam a três meses que
também seriam pais. Os cumprimentei e aceite o presente. Matteo também ficou na entrada
comigo para recepcionar os convidados.
Carina chegou histericamente feliz com seu namorado, parecia que todo mundo havia
encontrado o seu “final” feliz.
Pouco depois Luís Fernando chegou. Não pude disfarçar a felicidade de vê-lo chegar. Ele
era uma pessoa tão boa, e tinha me ajudado tanto, que de alguma forma eu queria que ele
entrasse em minha vida.
— Está linda Nina — ele me cumprimenta. Era estranho vê-lo fora do consultório e de uma
forma tão informal.
— Obrigada — falo, tentando disfarçar a vergonha.
— Olá doutor Luís Fernando, que bom que veio — Matteo diz.
— Não poderia faltar. Onde está a princesa? — ele questiona.
— Está ali, sentada com o avô. Ela está terrível querendo andar, mas ainda não ter firmeza
o suficiente — digo.
— Ela precisa ter paciência. Mas puxou a mãe, é impulsiva — Luis Fernando diz. Matteo
nos fita, parecia desconfortável.
Sorrio para Luís Fernando e ele retribui.
— Estão servindo salgadinhos doutor, se quiser se servir — Matteo corta novamente.
— Ah, claro. Vou cumprimentar a todos. — ele diz e entra na festa.
— Um pediatra não deveria dar em cima da mãe de uma paciente — de imediato Matteo
diz.
— O que? Ele não está dando em cima de mim! — falo espantada.
— Ah, por favor, Nina, você é bem esperta, e eu vi que você está correspondendo-o.
— E se eu estiver? Algum problema? — Questiono. Se ele dissesse que sim, eu iria
confirmar que ele não havia desistido de nós.
Um lampejo de dúvida nublou sua expressão.
— Não. Você é adulta e faz o que bem entender. — fala. — Eu vou ver se estão precisando
de algo — ele sai e me deixa sozinha.
Mais alguns convidados chegam e por fim recebo meus pais. Era a primeira vez que eles
visitavam a casa de Matteo, mesmo que eles já conhecessem Matteo e seus pais.
Minha mãe me abraçou muito forte, apertando o ar dos meus pulmões, mas eu não me
queixei. Fazia muito tempo que não me abraçavam tão bem.
— Não sabia que eles eram tão ricos — meu pai comenta.
— Mãe, pai, venham comigo, vou mostrar a mesa que está reservada pra vocês — digo. Na
mesa em que meus pais sentaram, estava Carina, Rodrigo, Daniel, Marcele e Luís Fernando.
Sento-me também ao lado da minha mãe e logo chega Emanuela entregando Allegra para mim.
— Ela está pedindo por você — ela diz.
Pego Allegra no colo e lhe dou suco. Mas ela continua inquieta. Levanto-me para andar um
pouco com ela no colo. Mas o pouco que ando, percebo que ela não quer ficar no colo. A
desço do meu colo e a seguro em pé. Matteo caminha até nós. E percebo que Allegra se
anima. Ela quer andar. Aos poucos solto a mão dela. E ela dá alguns passinhos. Até que ela
chega perto do pai. Ela se agarra na perna dele e dá um sorriso.
O mais belo sorriso.
Quando criança passei a maior parte do tempo me sentindo solitária ou amedrontada. Mas
queria que com Allegra fosse diferente, queria que ela se sentisse segura e amada.
Matteo a pega no colo e a abraça.
— Te amo demais filha — ele diz. Meu coração se enche de amor.
Mesmo com todos os meus erros, Matteo era o melhor pai que Allegra poderia ter. Percebo
que todos estão observando e batem palma pelos passos que Allegra deu. A festa seguiu e foi
muito bom ter amigos e familiares reunidos em um momento tão importante.
Quando a festa acabou, me despedi de todos e peguei Allegra para dar um banho. Ela
estava toda suja de chocolate. Matteo ficou conversando com os pais dele e eu fui para o
banheiro. Preparei a banheirinha com água morna e retirei a roupa de Allegra e a coloco na
banheira. A porta do banheiro estava aberta e vejo que alguém se aproxima.
— Arrumou outro otário para explorar? — Martim indaga.
Allegra bate os braços na água que respinga em minha face.
— Do que você está falando? — questiono. Estava cansada das indiretas de Martim.
— O pediatra da Allegra.
— Ele é um bom amigo, e se fosse algo a mais, não lhe interessa. — Pego o shampoo.
— É bom que ele seja seu namorado, não quero que volte a enganar o Matteo.
— Enganar o Matteo? Qual é o seu problema Martim? Prometemos deixar o passado de
lado. Eu não toco mais naquele assunto e você também não deveria. Estou tentando manter
nossa relação amigável.
— Agora você é a santa Nina...
— Santa Nina? Vai se foder. Você também não é um santo, diz que quer proteger o Matteo,
mas tentou comprar a Allegra. Você a quis tirar de mim e do Matteo. — Deixo o shampoo de
lado e só seguro Allegra na banheira.
— O que está acontecendo aqui? — Matteo aparece repentinamente.
— Não está acontecendo nada — respondo de imediato.
— Nina, não minta. Eu ouvi tudo — Matteo me olha enfurecido. — Martim, o que você
disse a Nina?
— Eu só estava tentando fazer o melhor para minha sobrinha.
— É serio que você tentou compra-la?
— Eu ofereci uma quantia pra Nina entrega-lo a mim e para a Clarice. Eu fui idiota, eu sei.
Mas só queria ajudar. — De repente Matteo dá um soco no irmão. Tudo aconteceu tão rápido,
pego Allegra no colo, que no momento está chorando.
Martim não revida, para meu alivio.
— Eu não podia deixar você ser enganado por essa mulher. Você não tinha estrutura
Matteo, morava em um lixo de apartamento, era um moleque. E além de tudo não gostava da
Nina. Vocês não tinham estrutura pra cuidar da Allegra — Martim se defende.
— Eu não quero ouvir suas desculpas. Sai da minha frente — Matteo diz.
— Como quiser. Mas ouça o que estou te dizendo, cuidado com essa garota, ela é mentirosa
— Martim se retira.
— Por que nunca me contou? — Matteo questiona, desvio o olhar e pego uma toalha pra
secar Allegra.
— Porque está no passado. E estou aprendendo a seguir em frente. — Respondo.
— Isso não diz respeito só a você. Mas também a mim. Como posso confiar em você se
continua omitindo as coisas?
— Não era a minha intenção.
— Não era a sua intenção? Eu não sei mais o que fazer. Você omite, mente. Eu não te
conheço mais, não sei quem é você Nina. — Matteo diz.
Eu queria dizer algo, mas falar parecia difícil, então eu olhei desajeitadamente e
desconfortavelmente.
— Você não tem nada pra me dizer? Como vamos construir uma relação desse jeito?
Como vamos conseguir ficar juntos?
— Eu não quero. Eu não quero nada com você, Matteo! Eu não quero me casar com você,
não quero ficar com você. Não há mais nada entre nós. Eu não te amo mais.
Uma única lágrima caiu na minha bochecha, e eu virei na outra direção para evitar que ele
me visse chorar.
As palavras saíram mais dolorosas do que eu podia imaginar, e mesmo que eu me
arrependesse no mesmo segundo em que falei, eu não poderia voltar a trás. É tarde demais para
fazer algo sobre nós.
— Está bem. Eu nunca mais falarei sobre nós. — Matteo decretou antes de ir embora.
Meus lábios se separaram para falar novamente, mas nenhuma palavra saiu. Algumas
lágrimas caíram pelas minhas bochechas e meu corpo tremeu.
Há um momento na vida em que passamos por mudanças. Neste momento podemos não
nos conhecer mais, as pessoas que convivem em nosso redor, também não nos reconhecem,
mas se é essa mudança é pra melhor, não importa o que nos digam. Eu sabia o que tinha
mudado dentro de mim, e sabia que eu não era a melhor pessoa do mundo, e não queria ser. Eu
só queria ser a melhor para mim.
Segurando minha filha no colo, tento acalma-la. Novamente tenho a mesma sensação. Eu
podia amar Matteo, ama-lo com toda força e com toda a devoção do mundo, mas eu não o
queria mais. Eu o amava, contudo, eu era melhor sem ele.

|... |
Dias atuais.
Allegra estava radiante com a excursão escolar. Matteo e eu iriamos acompanha-la, pois foi
o seu pedido de aniversário, embora eu estivesse muito atolada com os preparativos do meu
casamento, não poderia negar esse pedido a ela.
A maioria dos alunos foram no ônibus junto com os professores e alguns pais que
ajudariam a supervisionar. Mas, Matteo fez questão de ser o motorista. Ele achava que
viajarmos com Allegra seria uma forma dela sentir sua família reunida novamente, afinal, isso
só acontecia em datas comemorativas.
Matteo foi nos buscar em minha casa. Eu estava levando uma mala com minhas roupas e a
de Allegra. Coloquei no porta malas e abri a porta do carro para Allegra entrar. Contudo ela
fica relutante.
— Não quer ir pra excursão, Allegra? — Questiono.
— Eu quero ir à cabana do vovô. — ela pede.
— Allegra, podemos ir outro dia, hoje vamos à excursão — retruco. Neste momento
Matteo sai do carro, pois percebeu que estávamos em um impasse.
— Querida, vamos nos atrasar — Matteo diz para Allegra.
— Papai, por favor, quero ir à cabana de vovô — novamente ela pede. — É meu
aniversário. — insiste. Eu não sabia o que tanto ela queria fazer na cabana do avô. Lá só tinha
arvores e um balanço velho.
— Se sua mãe quiser, podemos ir — Matteo responde Droga! Como eu iria negar agora que
ele cedeu?
— Eu posso ligar pro Luis Fernando, ai vamos todos... — acabo tendo a ideia.
— Não! Ele não, mamãe.
— Mas ele é o futuro marido da mamãe... Vai estar sempre nos acompanhando — digo. E
pra que fui dizer isso? Allegra faz um escândalo. Começa a chorar sem parar.
— Eu só quero a mamãe e o papai — ela pede. Sua expressão já está vermelha, e começo a
me sentir culpada por ser contra.
— Ok... Mas Allegra, é a primeira e última vez que aceito isso. — falo e rapidamente ela
entra no carro. Fecho a porta e entro na frente. — Você tem que se acostumar com o Luis
Fernando. Ele está conosco desde que você nasceu! — falo. Afinal ele era o pediatra dela. Eu
sabia que Matteo estava colocando coisas na cabeça da menina.
— Um pediatra não deveria se relacionar com a mãe de um paciente — Allegra diz. E fico
chocada, ela copiou as palavras do pai.
Neste momento Matteo cai na gargalhada.
— Allegra! Nunca mais repita isso. — protesto. — Matteo, olha o que você está ensinando
pra sua filha.
— Ela só disse a verdade.
— Você dois, vamos parar com isso. Se não, não vai ter passeio nenhum — decreto. E foi o
suficiente para os dois não tocarem mais no assunto.
Matteo liga o rádio e dirige.
Eu sabia que Allegra estava planejando algo com o pai, contudo, eu queria ver o que é que
eles estavam planejando.

[...]

Quando chegamos à cabana percebo que está arrumada, havia lenha na fogueira e quando vi
os quartos, percebi que eles estavam com os lenços trocados. Minhas suspeitas estavam certas,
Allegra havia planejado tudo de antemão com o pai.
Allegra logo correu para os fundos pra brincar com o velho balanço. Ela já ficou muitas
vezes com o pai e o avô na cabana, era um dos seus passeios favoritos — mesmo eu não
entendo o porquê.
Matteo foi atrás dela. E eu peguei as sacolas do mercado — havíamos parado em um
supermercado no caminho, — peguei o leite e o chocolate para preparar chocolate quente para
nós. Logo após pego meu celular para avisar Luis Fernando aonde estávamos, contudo percebo
que não há sinal.
Deixo o celular carregando e decido tentar mandar mensagem mais tarde. Assim que
termino de preparar o chocolate quente, chamo Allegra e Matteo para tomar. Estava bem frio e
não era bom que Allegra ficasse muito tempo no vento.
— Querida, vamos fazer algo aqui dentro? — questiono.
— Quebra cabeça! — ela pede para o pai. E então Matteo sai e surge com uma caixa
enorme de quebra cabeças.
— Caramba, isso deve demorar a vida toda pra montar — advirto.
— Não se todos fizermos juntos. — Matteo diz. Aceito a proposta, afinal, eles planejaram
essa viagem e o mínimo que eu podia fazer era participar.
Reunimo-nos na sala e sentamos todos em cima do tapete. Matteo acendeu a lareira e
conversamos com Allegra. Ela adorava falar sobre a escola e sobre seus amigos, ela tinha uma
amizade peculiar com Lucas — filho de Daniel e Marcele. Os dois brigavam muito, mas não
se desgrudavam.
Desliguei-me um pouco da minha rotina corrida e foquei em passar aquele momento com
eles. Matteo conversou e brincou conosco. Ele preferiria qualquer coisa a ter que conversar
sobre… tudo.
Mais tarde, deixei o jantar por conta dele. Permiti comermos macarrão instantâneo dessa
vez. Allegra estava tão feliz, que eu não podia deixar de acompanhar tal felicidade. Depois de
comermos, deito no sofá com ela. Matteo senta perto de nós e Allegra coloca os pés no colo
dele. Não demorou muito para que ela pegasse no sono, como um sorriso no rosto.
— Ela ficou muito feliz hoje — Matteo diz.
— Fazia muito tempo que não nos reunimos...
— Sim, e isso vai cada vez mais difícil agora que você vai se casar — Matteo toca no
assunto.
— Luís Fernando vai fazer parte da família, não vamos deixar de nos reunir por isso.
Matteo ficou em silêncio por um período imensurável de tempo, fazendo com que eu me
contraísse.
— Você o ama?
— Luís Fernando esteve ao meu lado em muitos momentos difíceis. Sempre me deu força e
carinho para seguir em frente...
— Nina, eu perguntei se você o ama. — ele insiste.
— O que você acha que é o amor Matteo? — Questiono.
Matteo deu um suspiro longo. As palavras ficaram presas na garganta dele.
— Você não sabe, então não me venha perguntar se eu amo o Luis Fernando.
— Você não enxerga nada Nina. Eu também estive ao seu lado o tempo todo!
Olho para Matteo, sua pele estava pálida demais, seus olhos estavam pesados demais. Eu
soltei a respiração que eu estava segurando.
— Onde está o amor que você um dia sentiu por mim? — ele interroga.
Uma paixão é fulminante e vicia, mas a paixão tem um curto tempo de vida e quando ela
morre, pode surgir o amor. Contudo, Matteo e eu não tivemos a oportunidade em transformar
uma forte paixão em um amor estável.
— Vamos mudar de assunto, Matteo? — Peço. Esse assunto já estava indo longe demais.
— Ok, eu vou pegar mais lenha lá atrás para a lareira — ele diz e se levanta do sofá.
Fico sozinha acariciando a cabeça de Allegra. Até que percebo que Matteo está demorando
muito fora. Estava escuro e era estranho a demora em pegar algumas madeiras. De repente
ouço um estrondo, como se algo estivesse caído. Ou até mesmo Matteo estivesse caído.
— Matteo, você está bem? — Questiono. Contudo ele não me responde.
Meu coração acelera e eu deixo Allegra no sofá. Corro até os fundos para ver se algo havia
acontecido. Quando abro a porta, vejo as madeiras caídas no chão e percebo que Matteo está
olhando para o vazio.
Fico irritada por ele não ter me respondido.
Ele se virou para me encarar, um pouco trêmulo, ele esfregou o rosto, escondendo as
lágrimas que brotavam em seus olhos. Qualquer irritação que sentia desapareceu e foi
substituída por uma intensa preocupação. Enquanto corri para ele, eu tropecei sobre meus
próprios pés e seu braço estendeu a mão, me pegando.
Abri a boca para falar, mas fiquei em choque com a aproximação de Matteo, pressionando
sua pele contra minha pele, pressionando seu dedo contra meus lábios. Contra a minha testa.
Contra meus lóbulos das orelhas. Contra mim.
Meus dedos agarraram a camisa de Matteo, puxando-o para perto de mim. Eu solucei em
sua camisa e ele só segurou mais apertado.
Shh... Shh...
Neste momento percebo que o amor estava aqui o tempo todo.
Céu em Chamas
Narrado por Matteo
[...]
Mas ainda não consigo abrir os olhos. Fico deitado ali, com lágrimas quentes e salgadas
pingando dos olhos, enquanto repasso na cabeça os últimos momentos — o toque familiar
que, de algum modo, milagrosamente, parecia novo outra vez.
Nina me olha e então todas as minhas inseguranças morrem. Todo o medo que eu sentia de
me relacionar com ela morreram. Senti que deveria afagá-la, percebi que deveria finalmente
cuidar dela. Eu conseguia sentir quem era Nina Proença, pela primeira vez...
Quase que instintivamente nossas bocas se aproximam. Sinto seu cheiro, íntimo. O cheiro
que me fazia tão feliz... Tão seguro e tão desconcertado. Suavemente, deliberadamente nossos
lábios se provaram, sinto que algo dentro de mim me pedia parar, me pedia para não magoa-la
mais. Ela sofreu tanto... E eu tenho uma grande parte da culpa.
Conforme os beijos vão se intensificando, a voz interior da culpa vai ficando mais alta.
Mais estridente e acusatória. Às vezes somos nossos próprios piores inimigos. Eu não era a
pessoa certa para Nina e isto ficou mais do que evidente. Ela precisava de alguém para entrar
em suas memórias e apagar todo seu sofrimento, alguém que não agisse por impulso, e alguém
que sabia que a queria acima de tudo. Ela merece mais.
Ela me beija mais forte e sinto algo se partindo dentro de mim.
— Nina... — digo em um suspiro. Eu precisa me afastar, precisava deixa-la. Mas aquela
sensação era tão boa... Percebo que as coisas vão perder o controle quando ela escorrega a mão
sobre mim. Era hora de parar, era hora de deixa-la ir... — Nina, não! — exclamo. Percebo seu
olhar assustado assim que nos afastamos.
— Matteo? — ela questiona desnorteada.
— Desculpe — suspiro. Quase que perdendo o controle. — Desculpe, não posso... Não
posso fazer isso.
— O quê? — Ela interroga. Seus olhos fixos nos meus. Desvio o olhar, pois se a
continuasse encarando, não conseguiria suportar. — Matteo?
—Eu não posso. — as palavras mal saiam da minha boca.
— Você não me deseja. — Seus olhos ficaram sombrios. Um grande engano, eu sempre a
desejei, e esse foi um dos meus erros. — Nunca me quis.
— Nina não distorce as coisas. — peço, tentando amenizar a situação, embora soubesse que
não poderia estancar sua ferida.
— Como eu fui burra. Deixa-me, sai daqui — ela joga os travesseiros em mim.
— Me desculpa. — mais uma vez peço perdão. Quero dizer algo, mas engulo
dolorosamente às palavras.
— Sai daqui Matteo! — Exclama e então me empurra para que eu a deixasse.
Sabia que a estava magoando, mas era melhor magoa-la pela ultima vez do que magoa-la
para sempre.

[...]

Havia pouco menos do que dois meses que não a via. Apesar de termos nos encontrado na
última semana para uma consulta médica, ela não me olhava, era como se eu não existisse, e
embora isso me trouxesse uma infelicidade imensa, eu não podia voltar atrás na minha decisão
de me afastar.
Ocupei minha mente com o trabalho e com o meu projeto de comprar uma casa. A pessoa
que eu fui que um dia gostava de não ter compromissos havia morrido, e agora eu iria me
comprometer com uma divida imensa de casas, móveis. O compromisso de assegurar que Nina
estivesse bem. E além de tudo meu maior compromisso: Ser pai.
Quando vou visitar meus pais no domingo de manhã sinto um grande alívio ao perceber que
meu pai estava bem melhor, e que eu não iria perdê-lo. Apesar desta felicidade percebo que
Clarice e Martim ainda estão em pé de guerra. Chamo meu irmão para conversar no escritório,
pois queria entender o que estava se passando em seu casamento. Sento-me em uma poltrona e
Martim senta em outra.
— Aconteceu alguma coisa? — Martim questiona.
— Eu só quero conversar — pondero.
— Não me diga que aquela garota aprontou outra — Martim foi incisivo.
— Quero que tenha mais respeito pela Nina. — peço e suspiro em seguida. Eu sabia que
Martim não tinha uma boa impressão sobre a Nina, pois ele foi o primeiro a saber sobre a
mentira dela. E depois disso, ele nunca a perdoou.
— Ok... Desculpe — ele diz. Aceito e logo mudo de assunto:
— O que está acontecendo com você e a Clarice? — Questiono prontamente.
Ele franziu a testa.
— O mesmo de sempre... O fato dela não conseguir engravidar... — ele anela, cansado.
— Você precisa dar uma folga pra ela Martim. Esquece esse assunto, quem sabe seja isso
que está barrando a possibilidade dela engravidar.
— Eu não sei... Matteo... — por um momento seu olhar fica vago. Era como se ele quisesse
me dizer algo. — Eu fiz merda — ele diz, suspirando.
— O que você fez? — pergunto.
— Eu tive um caso.
Pisquei meus olhos algumas vezes. Não consegui reunir palavras suficientes para
demonstrar minha indignação. Clarice era da família, ela era apaixonada por Martim, sempre
foi. Além do fato de ser totalmente leal a ele.
— Foi uma estupidez. Eu sei — Martim tentou se justificar.
— Porra Martim — Exclamo. Passo a mão pela minha têmpora a esfregando. — ela sabe?
Preparo-me para o drama do qual não podia escapar.
— Ela desconfia... Por isso as brigas.
— E o que você vai fazer?
— Eu estou ferrado Matteo.
— Conta pra ela. É melhor uma verdade dolorosa do que viver uma mentira. — Eu sabia
muito bem o que era isso.
— Não posso. Porque não foi só um caso.
— Você gosta dela? Dessa outra mulher?
— Não é isso. Eu amo a Clarice... — diz. Isso não passava de palavras vazias. Pois tudo
que ele fez matava qualquer amor.
— Então o que? — Questiono já revoltado com aquela situação.
— A minha amante está grávida. — O olhar de desespero em seus olhos me surpreendeu.
Um suspiro alto saiu de meus lábios. Um silêncio constrangedor se elevou. Levanto-me e
caminho de um lado para o outro.
— Que merda Martim, como você pode fazer isso com a Clarice?
— Eu não sei, foi um impulso, foi uma besteira. E eu não sei como consertar.
— Um filho... Isso não tem conserto. Você vai ter que dizer pra ela!
— Eu não posso. Isso vai devasta-la. Ela já sofre o suficiente por não poder ter filhos. E
saber que eu terei um filho com outra irá mata-la. Eu não posso Matteo — senti o pesar em sua
voz.
— E o que pretende fazer? Vai esconder esse filho para sempre?
— Eu preciso de um tempo para pensar.
— Eu não posso compactuar com essa traição.
— Não estou te pedindo isso, só peço que não diga nada para a Clarice, por enquanto.
Você, mais do que ninguém sabe os danos que uma mentira pode causar. — Diz. E ofego.
— Eu sei. E por isso peço para que você conte a verdade, o quanto antes — falo. Por fim
dirijo-me até a porta deixando Martim com seus próprios pensamentos conflitantes.
[...]
A gestação de Nina estava perto do fim. Eu ansiava todos os dias pelo parto.
Definitivamente eu estava muito mais nervoso que Nina. Fiquei aliviado quando ela me ligou
na sexta feira pedindo para ficar em seu apartamento. Eu queria acompanha-la e ficar alerta
assim que os primeiros sinais do parto surgissem.
Levei umas peças de roupas e me acomodei para ficar no sofá, Nina foi tomar um banho eu
continuei em vigilância. Percebendo que ela estava demorando mais do que o costume no
banho, decidi bater na porta para ver se ela precisava de algo.
— Nina? Está tudo bem? — pergunto.
— Está, eu só... — ela responde, mas não completa a frase. Com medo de que algo havia
acontecido decido abrir a porta.
A porta do box do banheiro estava aberta e vi Nina nua.
Percebo que deveria tapar a visão, pois ela poderia não gostar de se sentir exposta.
— Me desculpa, mas fiquei preocupado — digo.
— Tudo bem. Não precisa tampar a visão Matteo. Esse é meu corpo, esse é o resultado de
toda mudança que ele passou — ela diz. Realmente, Nina estava mais madura.
— Você está bem? — Averiguo, tirando a mão do rosto.
Sua aparência era frágil, sua barriga estava tão grande. Sua respiração era pesada. Eu ficava
cansado só de vê-la. Essa era a aparência de uma mulher guerreira, a mulher que estava
carregando minha filha.
— Estou, pega o sabonete pra mim, por favor — Ela pede, logo após desliga o chuveiro.
— A sua barriga está tão enorme... — falo. Ela pega minha mão e eu me surpreendo, logo
após coloca-a sobre sua barriga.
— Sinta, está bem retesada, eu acho que está perto... — ela palpita. E eu novamente me
surpreendo com seu amadurecimento.
— Caramba... — digo. Estávamos tão próximos. Eu não conseguia parar de olha-la, queria
decifrar seu olhar.
— O que foi?
— Você mudou...
— É claro que eu mudei.
— Me desculpe e obrigado — Sinto que tenho a obrigação de pedir desculpas e agradecer
por ser a mãe da minha filha. Saio do box e a ajudo a sair. Pego uma toalha e a enrolo em seu
corpo. E instintivamente a abraço.
Ela não protesta.
— Allegra... O que acha do nome?
Não havíamos parado para decidir o nome da nossa filha, mas esse parecia o melhor nome
para nossa menina.
— Allegra... Eu gosto — Sorrio ao imaginar minha filha no colo. Minha mente divaga, e
sonho com Allegra e Nina. Com a família que eu tanto aspirei.
— Não acha que podemos ser uma família? — Questiono. Mesmo sabendo que seria
negado.
— Sabe Matteo, fiquei um bom tempo sozinha, o que mais fiz foi pensar, refletir sobre
minha vida. E sabe qual a conclusão que cheguei? — ela questiona. Tenho medo da resposta.
— Qual?
— Que hoje estou melhor sem você.
A sua resposta foi como um tapa estalado em minha cara. Percebo que não devo insistir e a
solto quando ela puxa a toalha. Saio do banheiro e me deito no sofá. Pouco depois Nina volta
com cobertor e travesseiro. Me entrega e volta para dormir.
Eu sempre achei que conseguia lidar muito bem sob pressão. Mas Às cinco e meia da
manhã Nina apareceu na sala dizendo que havia chegado o momento.
Nina estava tão calma, mas eu estava eufórico, com medo, assustado. Queria correr para o
hospital, mas disse que deveríamos esperar.
A médica dela pediu para ter calma e aguardar as contrações. Eu li muito sobre o assunto,
mas era como se minha mente ficasse em branco. Um suor descia pela minha testa e eu não
conseguia me manter calmo. A mãe de Nina apareceu e a ajudou, fez um chá e deu pra ela
após o banho. Eu estava nervoso, pra que um bendito chá? Ela precisava de médicos! Não
queria conflitar em um momento tão delicado, apenas aguardei impacientemente.
Eu já havia colocado as malas no carro e só estava esperando Nina decidir que deveria ir
para hospital. Tentei segurar minha excitação, mas se dependesse de mim já teria pegado Nina
no colo e levada para a maternidade o quanto antes.
Finalmente quando foi decidido que era hora de ir pra maternidade eu sai em disparada.
Ajudei Nina a entrar no carro e dirigi o mais rápido — com cautela — possível.
Eu obviamente não sinto as dores do parto. Mas devo dizer que a cada contração que Nina
tinha, meu coração acelerava. Assim que chegamos, estacionei o carro e o mais rápido que
pude. Mebuki pegou uma cadeira de rodas e Nina se sentou nela, fiquei na recepção
preenchendo sua ficha, estavam demorando tanto! Eu não queria perder um segundo do parto
da minha filha.
Assim que consegui terminar as pendências na recepção fui guiado até o quarto. Estava
com medo do parto já ter começado, mas quando entrei vi Nina deitada de lado e sua mãe em
uma cadeira segurando sua mão. Ambas estavam tão... Calmas. Como é possível isso?
Meu coração faltava sair pela boca. Mas eu precisava parecer calmo para não assustar Nina.
Algumas semanas antes Nina me convidou para uma das aulas de preparação para o parto,
então eu achava que estava preparado. No entanto, constatei que não estava, de forma alguma.
O tempo todo a enfermeira entrava, outrora a médica, chegavam a examinar a Nina, mas
nada de começar o parto. Até que em um momento Tsunade entrou e fez uma pergunta que eu
estava apto a responder.
— Está tudo correndo bem, não falta muito. Se quiser posso pedir a anestesista peridural —
disse a Nina, eu queria responder: Sim! Óbvio que ela quer! Meu Deus, aquilo era surreal.
— Quero, agora, por favor — ela pediu e suspiro aliviado. Nina era durona, mas precisa de
uma ajuda.
— Precisamos esperar só mais um pouco. — ela disse. Esperar mais? Mais do que
esperamos? Eu estava prestes a criar raízes ao lado da cama.
— Quem vai acompanhar o parto? — Tsunade indagou. Olhei para a mãe de Nina naquele
momento. Eu queria ficar, mas ao mesmo tempo sabia que não podia insistir, afinal, Nina
provavelmente iria querer sua mãe.
— Ele vai. — Mebuki disse. Engoli em seco me preparando para a tensão.
Olhei para Nina e percebi que ela não iria protestar. Uma fina camada de suor descia pela
sua testa e ela estava tão pálida... Eu queria fazer algo por ela, no entanto, estava de mãos
atada, apenas permaneci ali, firme.
Meu coração se partia quando a via choramingar. Mas um alívio percorreu o meu corpo
quando a levaram para a sala de pré-parto para aguardar a anestesia.
Um pouco depois na sala de parto aplicaram a anestesia e na expressão de Nina percebo
certo alívio. A colocaram na cama com as pernas apoiadas e então eu percebi que havia
chegado o momento.
Eu tive muitos momentos na minha vida, momentos que me mudaram, me desafiaram, me
assustaram e até mesmo me engoliram, mas em todos esses momentos, Nina estava presente. E
agora ela estava protagonizando o momento mais importante de nossas vidas.
— A anestesia vai atrapalhar sua percepção. Mas eu vou te ajudar — Tsunade disse para
Nina.
— Ok... — Nina diz quase em voz. Permaneci a seu lado e ela gritava entre uma contração
e outra.
— Você precisa fazer força — Tsunade advertiu. Eu queria dizer algo, queria dizer a ela
que Nina já estava se esforçando o suficiente, mas permaneci em silêncio.
Os cabelos de Nina ao redor da testa estavam ensopados de suar e sua expressão estava
muito avermelhada. Em um momento Nina agarrou mina perna em meio a dor, permaneci
imóvel, certo de que ela precisava que eu ficasse quieto.
Depois de algumas respirações, esforços, Allegra nasceu.
Assim que Tsunade enxugou o bebê e a colocou no colo de Nina ela parou de chorar. Senti
um misto de emoções ao ver aquele rostinho vermelho e redondinho, ainda com os olhos
fechados ela parecia tão serena... Tão bonita.
De repente Nina olha para mim, embora assustado eu esboço um sorriso, um sorriso para
que ela se sentisse acolhida e soubesse que eu estaria ali para apoia-la e cuidar tanto dela
quanto de nossa filha.
Ali, naquele momento olhando para elas, não consigo deixar de fazer a pergunta mais
intrigante do universo: “E agora?”.

[...]

A responsabilidade de ser pai fez com que eu amadurecesse a marteladas, de um dia pro
outro. Eu sabia que ser pai exigia comprometimento. Que Allegra precisava de atenção, tempo,
respeito e mais do que tudo, meu amor.
Além do fato de que eu precisava estar com Nina, para ajuda-la acima de tudo. Sempre que
possível eu visitava Allegra no apartamento de Nina, e aproveitava para ver se Nina não
precisava de alguma ajuda.
Assim que vi Nina percebi o quanto ela estava cansada, Allegra estava inquieta e eu me
voluntariei prontamente a acalma-la. Mesmo que eu não soubesse exatamente como fazer isso.
— Você quer tomar um banho, enquanto fico com ela? — perguntei a Nina. Ela estava com
o cabelo emaranhando e havia olheiras abaixo dos olhos.
— Você vai ficar bem com ela? Sozinho? — preocupada, ela pergunta.
— É claro, não se preocupe tanto — falo. Ela precisava confiar em mim, mesmo que um
pouco. Afinal, tínhamos que fazer isso juntos.
— Tudo bem, serei rápida — diz e sai em direção ao quarto.
Fico feliz em poder ajudar e feliz por ficar um tempo com Allegra. Aninho minha filha em
meus braços e tento cantar algo, mesmo que minha voz não seja algo encantador. E então, ela
fica serena, seu rosto se suaviza e seus olhos negros começam a se fechar.
E então, pouco depois ela dorme. Assim que caminho até o quarto percebo que Nina sai do
banheiro. Coloco Allegra no berço e vou até a sala, percebo que Nina está na cozinha e vou até
ela.
— Você quer um chá? — pergunta.
— Ah não. Sou adepto a cafeína. — respondo.
— Quer que eu faça pra você?
— Não. Pode deixar que eu preparo. Senta um pouco. — peço, sabia que ela estava cansada
e não queria exigir mais, tudo que eu pudesse fazer, faria.
Assim que fica pronto sirvo uma xicara de cá para ela e sento ao seu lado com o meu café
em mãos.
— Você está bem? — sabia que era uma pergunta retórica, entretanto, precisava fazê-la.
— Estou bem — ela responde, mas eu sabia que não era verdade, ela parecia perdida, o seu
olhar se tornou cada vez mais vago.
— Não. Eu quero a resposta verdadeira e não a mentira.
— Eu estou derrubada — ela ri e logo depois percebo uma lágrima cair em seu olhar.
— Nina, você sabe que pode contar comigo. — digo, mesmo sabendo que ela era orgulhosa
demais para pedir algo de mim.
— Eu sei, mas você já está fazendo o possível. Essa fase é difícil. Eu me sinto perdida.
Meus mamilos doem tanto, toda vez que tento dar de mamar é como se meus mamilos se
rachassem. — a olho e sei que não posso fazer nada sobre isso, mesmo querendo.
— Você quer que eu marque um médico pra você?
— Não. Vai melhorar. É que eu preciso reclamar um pouco sabe.
— Eu sei. Você é forte. E sei que vai conseguir. — pego sua mão e a beijo. — Você me deu
a minha filha. E sempre será especial pra mim. Estarei com você sempre que precisar — sinto
a necessidade de agradecê-la.
Olho-a e mesmo que eu desejasse estar ao seu lado, percebi que esse não era mais o seu
desejo.
Um pouco mais tarde vou embora e recebo uma mensagem do meu irmão:
“Preciso conversar, estou indo encontra-lo em seu apartamento”.
Pouco tempo depois após chegar em meu apartamento, alguém toca a campainha e percebo
que Martim já havia chegado, provavelmente estava no caminho quando me mandou a
mensagem. Até o momento ele não havia contado sobre o seu caso para Clarice e era difícil ele
me dizer algo sobre sua amante ou até mesmo sobre o filho que ela estava esperando.
— Ele nasceu... Mas não sobreviveu — Martim diz e eu logo percebo que ele estava
falando de seu filho.
— Calma... Como assim não sobreviveu? Martim... Você quer dizer que... — não consigo
nem dizer algo sobre isso.
Martim não consegue olhar para mim. E apesar de eu dar espaço ele não entra em meu
apartamento.
— Você está bem? Precisa de algo? — Questiono.
— Eu só preciso que você respeite o meu pesar e não conte nada para Clarice — ele pede e
eu não pude negar encontrando-o nessa situação.
— Tudo bem, eu não vou dizer nada! Você quer entrar, conversar mais?
— Não... Preciso ir. Obrigado. — ele agradece e vai embora.
Eu fiquei estarrecido. Martim almejava tanto ser pai, e mesmo que fosse à pior situação ele
não merecia perder um filho.
|... |
Um tempo depois minha casa ficou pronta e eu pude vender o apartamento. Nina a visitou
e eu passei um tempo junto com ela e Allegra. Mesmo que naquele dia nossa filha tivesse
ficado doente e nos dado um belo susto, eu fiquei feliz por tê-las junto a mim.
Quando Allegra estava prestes há completar um ano, pedi para Nina para deixar que minha
mãe planejasse uma festa, não havendo objeção dela, uma festa linda foi organizada.
Chamamos todos os nossos amigos e parentes.
Na entrada da festa recebemos nossos convidados, e um em especial me chamou a atenção.
O pediatra de Allegra, Luís Fernando, compareceu. Não consegui esconder minha frustração e
curiosidade. O que ele estava fazendo ali? Isso era muito mais do que uma relação entre
médico e mãe de um paciente.
— Está linda Nina — ele a elogio, e novamente constato que ele queria algo a mais com
Nina.
Nina pareceu constrangida, mas de certa forma, percebi que ela respondeu ao flerte, assim
que ele sai decido dizer algo, de forma impulsiva.
— Um pediatra não deveria dar em cima da mãe de uma paciente — de imediato digo.
— O que? Ele não está dando em cima de mim! — ela se finge de desentendida.
— Ah, por favor, Nina, você é bem esperta, e eu vi que você está correspondendo-o.
— E se eu estiver? Algum problema? — Questiona.
Seguro minha fúria.
Por um momento eu quis dizer que havia um problema, que eu não queria, porém, logo
após, a voz da culpa soa novamente na minha mente, me acusando de ser a pedra no caminho
de Nina, me acusando de ser um empecilho da sua felicidade.
— Não. Você é adulta e faz o que bem entender. — digo, sabendo que não podia mandar
em sua vida. — Eu vou ver se estão precisando de algo — a deixo sozinha, pois não conseguia
suportar imagina-la com outro.
Entro em casa e me sirvo uma dose de Uísque, sinto uma cólera me invadir... Precisava me
acalmar, colocar a cabeça no lugar. Minha mãe aparece segurando Allegra no colo.
— Não deveria estar bebendo hoje — ela adverte.
— Eu sei, eu só preciso de um tempo sozinho — peço.
— O que está acontecendo Matteo? Me diz, porque vocês terminaram? — novamente ela
tocou no assunto, eu não contei nada para ela sobre as mentiras de Nina e não diria nunca. Não
queria que minha mãe tivesse raiva dela, ou interpretasse de maneira errônea sua mentira.
— É complicado mãe. Só me deixa sozinho um pouco, por favor — digo e aperto os meus
dedos sobre minha têmpora.
Minha mãe passa a mão pelas minhas costas e percebo que Allegra também encosta suas
pequenas mãos em mim. Naquele momento eu percebo que precisava ser forte, por ela.
— Já estou indo pra fora — digo. Minha mãe cede e sai para os fundos com Allegra no
colo. Encaro minha bebida e decido jogar fora.
Respiro fundo e saio. Converso com alguns amigos e depois percebo que Nina está
segurando Allegra em pé. Paro para olha-las e logo após caminho até elas e chego o mais perto
possível. Neste momento percebo que Allegra quer caminhar até a mim, em passos curtos e
desengonçados ela chega a me encontrar.
E ao chegar perto ela se agarra em minha perna, levanta a cabeça e me olha, e nesse
momento esboça o sorriso mais lindo. Ela tinha meus olhos negros, e o mesmo belo sorriso de
sua mãe, que me fazia curvar a cada necessidade dela. Eu a amava tanto.
Aprendi que ser pai exige responsabilidade e autoconhecimento. Não existem regras pré-
formatadas, foi preciso que eu me conhecesse para saber se conseguiria lidar com a situação,
embora estivesse disposto, o primeiro ano de vida da Allegra não foi fácil. Éramos pais de
primeira viagem, Nina estava passando por um momento de aceitação e eu tive que suportar a
dor de não tê-la mais ao meu lado. Às vezes eu a ouvia chorar, mas sabia que era melhor
deixa-la em paz.
Em um momento eu me sentia perdido. Em outro me sentia confortável. A paternidade é
pragmática. Eu não sabia relatar isso em palavras, antes mesmo de ser pai eu tinha outra visão,
agora nesse momento eu vejo tudo com outros olhos. Com os olhos de um pai.
Eu tinha a certeza que depois de um dia cansativo, iria ter uma recompensa: o sorriso mais
sincero e belo do mundo. E sempre podia comprovar de que nada é impossível.
Quando a festa acabou fiquei um tempo do lado de fora conversando com meu pai e logo
depois eu subi para ver se Nina precisava de ajuda. Subo as escadas e paro perto do banheiro,
pois escuto a voz de Martim.
— Agora você é a santa Nina...
— Santa Nina? Vai se foder. Você também não é um santo, diz que quer proteger o Matteo,
mas tentou comprar a Allegra. Você a quis tirar de mim e do Matteo.
Congelo. Do que eles estavam falando? Decido intervir rapidamente.
— O que está acontecendo aqui? — Questiono, estava furioso.
— Não está acontecendo nada — percebo que ela não quer me conta a verdade.
— Nina, não minta. Eu ouvi tudo — pergunto. Não era possível que meu irmão fosse tão
traiçoeiro — Martim, o que você disse a Nina?
— Eu só estava tentando fazer o melhor para minha sobrinha. — cínico.
— É serio que você tentou compra-la? — eu não conseguia nem dizer essas palavras.
— Eu ofereci uma quantia pra Nina entrega-lo a mim e para a Clarice. Eu fui idiota, eu sei.
Mas só queria ajudar. — A fúria foi tomando conta de mim. Aquilo era um soco na minha
confiança.
Sem controle eu ergo os punhos e enfio a mão na cara de Martim. E covardemente ele não
revida.
— Eu não podia deixar você ser enganado por essa mulher. Você não tinha estrutura
Matteo, morava em um lixo de apartamento, era um moleque. E além de tudo não gostava da
Nina. Vocês não tinham estrutura pra cuidar da Allegra — Martim se defende.
— Eu não quero ouvir suas desculpas. Sai da minha frente — digo, eu não queria começar
um escândalo.
— Como quiser. Mas ouça o que estou te dizendo, cuidado com essa garota, ela é mentirosa
— Ele vai embora, mas antes não deixa de intimidar Nina.
— Por que nunca me contou? — pergunto, Nina pega uma toalha para secar Allegra e
percebo que seu olhar não foca.
— Porque está no passado. E estou aprendendo a seguir em frente. — ela responde.
— Isso não diz respeito só a você. Mas também a mim. Como posso confiar em você se
continua omitindo as coisas? — Porque tantas mentiras? Porque ela não conseguia dizer a
verdade, pelo menos uma vez?
— Não era a minha intenção.
— Não era a sua intenção? Eu não sei mais o que fazer. Você omite, mente. Eu não te
conheço mais, não sei quem é você Nina. — na fúria as palavras saem.
Ela me olha e não consegue dizer nada.
— Você não tem nada pra me dizer? Como vamos construir uma relação desse jeito?
Como vamos conseguir ficar juntos? — Uma relação era feita na base da confiança, e
sinceramente eu não podia confiar na Nina.
— Eu não quero. Eu não quero nada com você, Matteo! Eu não quero me casar com você,
não quero ficar com você. Não há mais nada entre nós. Eu não te amo mais. — Foi como um
soco no estomago.
— Está bem. Eu nunca mais falarei sobre nós. — Decreto.
E então eu vou embora, novamente com dúvidas e sem entender qual era o seu caráter.
|... |
Com três anos de idade Allegra era uma garota muito ativa. Ela acordava muito cedo e
dormia muito tarde, e isso acabava com minhas noites de sono, e também as da mãe dela.
Pela manhã Allegra acordava e dizia:
"Olha papai está claro, é hora de acordar" e quando vê que não levanto ela diz: “Levanta
papai, não está escuro". Ela sempre me acordava, e eu ficava feliz por isso, por tê-la. Minha
pequena e amada filha.
Nina eu mantínhamos uma relação amigável, embora eu estivesse um pouco tenso desde
que soube que ela começou a namorar o pediatra da nossa filha. Fazia pouco mais de um mês e
eu não acreditava que isso fosse adiante.
Algo sempre martelava em minha mente, me perguntando se me livrei de uma cilada ou se
perdi o amor da minha vida. No entanto, eu precisava me manter focado em cuidar da nossa
filha e do meu trabalho.
Eu não consegui me relacionar, sexo não era mais sexo. Era estranho com outras mulheres.
Nenhuma me fazia querer um relacionamento, e nenhuma me trazia paz.
O ano passou e Luís Fernando e Nina permaneceram juntos, não posso negar o quanto isso
me aborrecia, contudo, eu havia feito à promessa de que a deixaria em paz. Um dia, Nina veio
trazer Allegra em casa e estava muito mais arrumada do que o normal.
— Oi, menina linda — disse, agachando-me no piso de madeira e abrindo os braços.
Allegra correu em minha direção. Então, peguei-a no colo. Ela me deu seus melhores beijos e
se aconchegava ainda mais. — Sentiu minha falta? — Questiono. Nina a levou de férias para a
casa de Luís Fernando, no campo. E fazia mais de quinze dias que eu não a via.
— Sim! — Allegra diz.
— Bom, me dá um beijo que a mamãe precisa ir — Nina disse a dando um beijo.
— Está bonita — Não pude deixar de elogiar. Ela trajava um vestido esverdeado com
decote discreto e com o comprimento acima do joelho.
— Obrigada... Bom, vejo vocês amanhã — ela diz e vai embora, deixando seu doce
perfume no ambiente.
— O que você quer fazer hoje? — Questiono, colocando Allegra no chão.
— Biscoitos! — ela pede. Ela adorava fazer biscoitos comigo. Caminhamos até a cozinha a
pego no colo para ajudá-la a lavar as mãos, depois a coloco em cima do seu banquinho, mais
alto que as cadeiras de casa. Ligo uma música, a preferida de Allegra, logo após, pego os
ingredientes e coloco-os na bancada. Assim que preparo a massa dou para que Allegra os
modele. — Como pai, aprendi a fazer algumas coisas que ela gostava.
— Gostou da viagem? — pergunto pra ela.
— Não. — Allegra disse enquanto se matinha focada a modelar um biscoito.
— Por quê?
— Chato. — ela diz.
— Você prometeu que iria se comportar.
Ela baixa o olhar e depois esboça um belo sorriso.
— Eu não amo ele — ela diz e eu quase caio na gargalhada.
— O Luís Fernando?
Ela concorda com a cabeça.
— Eu amo papai.
— Filha, me promete que vai ser uma boa menina com ele, tudo bem? — Questiono e
coloco gotas de chocolate no biscoito que ela acabou de moldar.
— Sim papai.
Sorrio e continuamos a tarde juntos. Brincamos no quintal enquanto os cookies assavam,
depois comemos e logo mais tarde li uma história para ela.
Era quase meia noite e eu finalmente a consegui fazer dormir. Cansado deito no sofá para
assistir esportes, até que a campainha toca.
Abro a porta e vejo que era Nina. Ela estava estranha, parecia bêbada.
Abro o caminho e deixo-a entrar. Percebo que ela está meio cambaleando então eu a ajudo
a chegar até o sofá.
— Nina, o que aconteceu? — Questiono muito preocupado. — O que aquele cara fez pra
você? — Eu já estava pronto para ir atrás do canalha.
— Ele me pediu em casamento.
Estarrecido. Eu arregalei os olhos e não consegui pronunciar qualquer palavra. Casamento.
Não, ela não podia aceitar.
— E você aceitou? — Estava com medo da resposta.
— Ainda não. — ela mexe a cabeça e parece que vai vomitar. A apoio em meus ombros e a
levo até o banheiro. Ela encosta-se ao vaso e eu seguro seu cabelo na tentativa de ajuda-la. E
então ela vomita e seguro um pouco mais sua cabeça para cima, pois em um momento ela
havia engasgado.
— Tenha calma — digo a ela.
Assim que percebo que o vomito cessou a ajudei a se limpar e sentamo-nos no sofá.
— Por que você bebeu tanto? — Não pude deixar de questionar.
— Eu não sei lidar com escolhas — ela responde. — Ele estava lá, sendo muito legal
comigo e quando fez o pedido eu meio que surtei e sai. Fui embora, bebi muito e não sabia pra
onde ir.
— E então eu sou o primeiro a saber sobre isso?
— Sim. Eu só achei que devesse te contar.
Será que ela esperava uma objeção minha?
— Eu queria te contar, porque não quero que se intrometa nisso — ela completa.
— Nina... — Sabia que era o momento de dizer algo, de tentar impedir, mesmo que ela não
quisesse isso.
— Não Matteo. Por favor, não fala nada. Não influencie em minha decisão.
— Nina, por favor — digo e coloco minhas mãos em seu rosto. Seguro seu queixo fazendo
que ela olhasse direto para mim.
— Não Matteo, não! — ela chacoalha a cabeça. — Chega de me confundir.
— Eu te amo Nina. Eu te amo, você está me ouvindo? Eu te amo droga! Eu amo tudo em
você. Eu fodidamente amo você. — as palavras saiam desconexas, mas sinceras. Era como se
eu tirasse um peso do meu peito.
Nina arregala os olhos e franzi o cenho. Ela levanta as mãos e as coloca sobre as minhas.
Por um momento acreditei que seria correspondido.
— Você não tem o direito de dizer isso. — ela puxa minhas mãos.
— Eu sei que não tenho direto. Mas eu precisava dizer, eu só precisava dizer... — suspiro,
cansado. Lembro-me do quanto a machuquei, e um nó se forma em minha garganta.
— Eu estou mal agora Matteo, só me deixe aqui — Nina se deita no sofá, e eu dou espaço
para que ela colocasse os pés.
Eu sabia que não podia a bombardear com palavras nesses momentos, mesmo que meu
sangue fervesse e minha alma suplicasse por um perdão.
Sento-me no chão e permaneço ao lado dela, até que ela adormecesse. A pego no colo e a
levo para o quarto de hóspedes. Meu coração doía enquanto eu caminhava. Coloco-a na cama
virada de lado e tiro uma mecha de sua franja de sua face. Naquele momento eu prometi,
mesmo que de longe, continuaria cuidando dela.
Na manhã seguinte, acordo cedo e preparo um café forte, além de panquecas — as favoritas
da Allegra.
Allegra — como sempre, — acordou cedo e ficou me vendo preparar o café da manhã. Um
tempo depois vi Nina parada na porta da cozinha, com o cabelo bagunçado e com uma
expressão de vergonha.
— Mamãe! — Allegra correu para o seu encontro. Nina a abraçou.
— Posso tomar um banho? — ela questiona para mim.
— Claro, tem toalha dentro da segunda gaveta do banheiro e um par de escovas de dente
novas. — digo. Eu sempre deixava algo para ela. Fazia muito tempo que ela não dormia em
minha casa, isso só aconteceu no inicio de vida da Allegra, depois Nina ficou confiante o
suficiente para me deixar com ela. — E bom, tem um vestido seu aqui. — lembro. Era a única
roupa que ela havia deixado para trás, e eu guardei com muito carinho.
Nina agradeceu e um tempo depois voltou para tomar café.
Ela me olhou desconcertada por um momento. Ela trajava o vestido amarelo, um pouco
largo demais.
— Esse vestido é da época que eu ainda não tinha conseguido emagrecer. É horrível — ela
resmunga e eu a sirvo uma xícara de café.
Percebo que Allegra a olha estranho, ela não imaginava o que sua mãe estava fazendo ali
pela manhã.
— Mamãe, dormiu aqui? — Allegra pergunta.
— Precisei vir mais cedo querida — ela responde.
— Vamos brincar — Allegra puxa a barra do vestido. Nina massageia a têmpora.
— Depois querida...
— A mamãe está com dor hoje, eu brinco com você depois do café, está bem? — sirvo uma
panqueca para ela.
Allegra vibra e pega um pedaço da panqueca com as mãos. Mais tarde Nina se deita no sofá
e eu lhe dou um analgésico. Brinco um pouco com Allegra e perto do almoço, se sentindo
melhor Nina decidi que é hora de ir embora.
— Marquei um almoço com meus pais. Precisamos ir — ela me diz. Allegra está brincando
com uma boneca no sofá enquanto estou arrumando a bagunça da cozinha.
— Você está melhor? — Pergunto.
— Com uma bela ressaca. Eu não me lembro o suficiente sobre o que fiz ou falei ontem. —
Nina deu uma pausa para anelar. — Me desculpe qualquer coisa. Por ter vindo de repente, ou
não sei o que de ruim eu possa ter dito.
— Tudo bem...
— Nos vemos em breve então... — ela diz.
— Nina... Espere. — Peço. Ela me vira, seu olhar cheio de indagações.
— O que foi?
— Você vai realmente se casar?
— Sim... Estou indo dar a noticia para meus pais...
—Você está feliz? — Se por um momento ela dissesse que não, que havia algum lampejo
de dúvidas, eu iria lutar.
— Fora a ressaca... Estou feliz, como nunca estive antes. — ela não hesita. Meu peito
doeu.
Percebo que havia perdido. Perdi a batalha como também a guerra.
Nina vai até a sala e pega as coisas de Allegra, já prontas.
— Quero ficar — Allegra esperneia quando Nina a pega no colo.
— Você vai comigo. Já falamos sobre isso — Nina resmunga.
— Meu amor, obedece sua mãe — a beijei na testa.
Com o olhar pesaroso fixo nos dela, os olhos de Nina novamente desvia de mim.
— Até mais Matteo — ela se despede. Ofereço-me para ajudar a levar as coisas para o seu
carro, entretanto, ela pega a bolsa na mão esquerda e mantêm Allegra agachada do lado direito
de sua cintura.
Penso em ir atrás dela. Não que tivesse algo a dizer, a conversa da noite anterior e a de
momentos atrás deixou claro que ela não me queria, que o passado era passado, e que havia
seguido em frente e me superado há muito tempo.
Algumas lágrimas caíram pelas minhas bochechas e meu corpo tremeu. Ela seria a única
garota que eu amaria até sempre.
Fecho a porta. Caminho até o meio da sala, e caio no chão. Eu estava de bruços sobre o
tapete. Abri a boca. E eu gritei. O meu céu estava em chamas e de repente, tudo se tornou
sombras. Tudo se apagou..
|... |
Existe uma flor chamada popularmente de “Flor-da-Ressurreição” ou até mesmo Kananga-
do-Japãopor ser originária da Ásia. Na primavera surgem do solo flores brancas e lilás,
lembrando orquídeas. Cerca de dois meses depois, já desaparecidas as flores é a vez de
surgirem folhagens características, longas, eretas e pontiagudas, como um "renascer".
As flores nunca se encontram com as folhas, parecem brincar de esconde-esconde: quando
uma está à vista, a outra se esconde. E é exatamente assim que são os meus sentimentos e os de
Nina. Quando o dela está à vista, o meu se esconde. E quando o meu está à vista, é o dela que
se esconde. E os sentimentos nunca se encontravam, nunca se tornavam mútuos.
Faltavam poucos meses para o casamento de Nina e tanto Allegra quanto eu não estávamos
satisfeitos com isso. Perto do aniversário dela, Allegra me pediu para leva-la até a cabana do
meu pai.
— Por que você decidiu isso de repente? — Questiono.
— Por favor, papai.
— Mas você não quer ir à excussão?
— Não. Quero ir à cabana — ela insiste. Não consegui entender de o porquê ela inventar
isso de ultima hora, estava tudo certo para que Nina e eu a acompanhássemos na excursão da
escola.
— Quem colocou isso em sua cabeça? — Sabia que ela não iria inventar isso sozinha.
— A vovó — ela disse.
— A vovó Mimi? — era o jeito de Allegra chamar minha mãe, Emanuela.
— A vovó Mebi — ela diz. Mebi era o jeito de Allegra chamar a mãe de Nina, Mebuki.

Neste momento me questiono do porquê a mãe de Nina querer nos juntar em um lugar
afastado. E de repente uma pontada de esperança atinge meu peito. Sabia que não podia pedir
pra Nina ir conosco, mas talvez ela escutasse sua filha, então eu acabei não me opondo a isso.
Mais tarde naquele dia levo Allegra para a casa de Nina. Depois vou até a padaria comprar
o jantar. Estranhamente vejo o carro de Martim parado. Decido não sair do carro quando o vejo
de mãos dadas com uma criança. O garoto parecia ter quase a mesma idade de Allegra. E ele
era idêntico a Martim, olhos e cabelos negros, magro e seu semblante com toda certeza era
igual ao do meu irmão.
Naquele momento eu tive a certeza que mais uma vez, meu irmão mentiu pra mim.

|...|
No dia seguinte quando fui busca-las, Allegra conseguiu convencer sua mãe de irmos até a
cabana, naquele momento eu fiquei tão feliz. Fiquei em poder ficar com Nina, mesmo que seja
por um pequeno instante. Nunca ficávamos juntos, desde que ela ficou noiva de Luís
Fernando.
À noite consigo conversar com Nina.
— Ela ficou muito feliz hoje — digo, me referindo a Allegra.
— Fazia muito tempo que não nos reunimos...
— Sim, e isso vai cada vez mais difícil agora que você vai se casar — Não pude deixar de
tocar no assunto.
— Luís Fernando vai fazer parte da família, não vamos deixar de nos reunir por isso.
Senti meu corpo tremular com essa frase. Não consegui reunir as palavras para dizer algo,
até que decido fazer a pergunta que segurei muito tempo. Que dependendo da resposta, me
devastaria.
— Você o ama?
— Luís Fernando esteve ao meu lado em muitos momentos difíceis. Sempre me deu força e
carinho para seguir em frente...
— Nina, eu perguntei se você o ama. — insisto.
— O que você acha que é o amor Matteo? — Questiona.
Ela me subestimava novamente, como se eu fosse uma criança que nunca soube o que é
amar e se dedicar a alguém.
— Você não sabe, então não me venha perguntar se eu amo o Luís Fernando.
— Você não enxerga nada Nina. Eu também estive ao seu lado o tempo todo! — Exclamo.
Eu fiz tudo que podia, sem esperar nada em troca, todavia, eu não conseguia guardar isso pra
mim. Eu estive ao lado dela e estaria pra sempre.
— Onde está o amor que você um dia sentiu por mim? — interrogo, na esperança de
encontrar resquícios de sentimento.
— Vamos mudar de assunto, Matteo? — pediu.
— Ok, eu vou pegar mais lenha lá atrás para a lareira — digo. Sabendo que não iria
aguentar ficar ali, ouvindo-a elogiar outro homem.
Encontro algumas madeiras no fundo. Sabia que meu pai havia estado lá no final de semana
anterior e ele sempre deixava algumas madeiras de reserva.
Pego as madeiras, mas desisto e as deixo cair no cão. Irritado começo a socar as madeiras.
Até que minhas mãos ficam raladas a ponto de escorrer um filete de sangue.
— Matteo, você está bem? — ouço a voz de Nina, mas não consigo responder.
A porta se abre e eu viro para olha-la.
Esfrego o rosto e tento esconder as lágrimas. De repente ela corre em minha direção,
estendo a mão para pega-la. Pressiono todo meu corpo contra ela, tentando suprir a
necessidade de tê-la.
Seus dedos agarraram minha camisa e me puxa mais contra ela, enquanto soluça e me
segura ainda mais apertado.
Minhas mãos tremiam nas dela, e as suas tremiam nas minhas. Aproximo minha face na
sua, eu não consegui lutar contra as lágrimas e ela não conseguia lutar também. Nossos rostos
descansaram um contra o outro.
— Me diz a verdade — eu imploro. — Diz o que sente por mim. Diga-me a verdade que
eu a deixo em paz. Mas, por favor, Nina, não me deixe mais uma vez no escuro. Eu não
consigo mais suportar.
— Não me peça isso.
— Chega Nina, chega de se proteger contra mim, pois eu não estou aqui para te ferir. Fala
que não me quer que eu te deixo em paz.
— Estou te deixando no escuro como você me deixou. — ela responde.
Em poucos segundos o meu passado e presente se chocaram. Assim como eu a deixei sem
saber sobre meus sentimentos, ela estava fazendo o mesmo.
Eu vi a mudança em seus olhos. Eu fiquei chocado com sua resposta. Ferido. Sentindo sua
respiração contra a minha.
— Estamos dizendo adeus. — ela murmura. Até que então ela se afasta. Deixando-me
novamente em um vazio profundo. A dor no meu peito estava me lembrando de todos os
momentos.
Eu balancei minha cabeça. Agarro sua mão.
— Jamais vou te dizer adeus — digo e a puxo novamente para mim. Cada respiração estava
cheia de urgência, emoção. Eu não iria desistir, eu a amava e sentia intimamente que ela não
tinha deixado de me amar.
Desta vez é para sempre.
Prelúdio
Nossos rostos descansaram um contra o outro.

— Me diz a verdade — ele pede — Diz o que sente por mim. Diga-me a verdade que eu a
deixo em paz. Mas, por favor, Nina, não me deixe mais uma vez no escuro. Eu não consigo
mais suportar.
A sinceridade em seu olhar, a dor estampada em sua face, esse é o Matteo real, que poucas
vezes ele me deixou conhecer.
— Não me peça isso. — digo, sabendo que havia tantas coisas em jogo.
— Chega Nina, chega de se proteger contra mim, pois eu não estou aqui para te ferir. Fala
que não me quer que eu te deixo em paz.
Desde que nos conhecemos Matteo havia me deixado no escuro sobre seus sentimentos. E
mesmo ali, com o misto de sensações que eu sentia, não consegui dizer a verdade. Não
consegui dizer que o havia perdoado há muito tempo. A sensação de a ferida estar sendo
queimada, outra vez, era o que me bloqueava.
— Estou te deixando no escuro como você me deixou. — digo.
Eu não podia acreditar que após tantos anos, Matteo e eu podíamos ter um final feliz. Na
realidade acreditava que era hora de dizer adeus. Adeus a todos os sentimentos que chegaram a
existir. Eu o amava. Eu sempre o amei. Mas, depois de tudo, o amor não é suficiente.
— Estamos dizendo adeus — murmuro e me afasto.
Não obstante, Matteo agarra minha mão.
— Jamais vou te dizer adeus — ele me puxa novamente para ele.
Uma ação, Uma reação e Uma decisão. Desta vez foi diferente.
Eu levantei uma sobrancelha, cautelosa sobre abraçar Matteo de volta. Ele me abraçou
muito forte, apertando o ar dos meus pulmões, mas eu não me queixei. Fazia muito tempo que
não me abraçavam tão bem.
Matteo sussurrava, pedindo, querendo algo que era difícil ter volta.
— Matteo... Matteo, por favor — peço.
— Nina, não faz isso. Não... Não! — ele murmurava.
— Quando for à hora certa, eu vou te procurar — me afasto com toda a força interior e
exterior que tinha.
— A hora é agora — ele diz.
— Não. Não é. A decisão de estarmos aqui, hoje, não partiu de mim, e acredito que nem de
você. — Matteo ainda está me segurando pelo braço.
Ele morde os lábios, os olhos se fecham por um instante para então dizer:
— Então você quer que eu espere?
— Não. Quero que siga sua vida. E se algum momento sentirmos que realmente é a hora,
vamos ficar juntos. — constato.
— Mas, mas e o Luís Fernando?
— Luís Fernando foi minha âncora, que sempre me levou para casa. Eu o amo. — Matteo
se vira de costas, escondendo as emoções. — Mas, ele é o meu porto seguro. Não o meu
grande amor.
Essa era uma constatação que eu já havia feito há muito tempo, porém, acreditava que o
amor que eu sentia por Luís Fernando era fácil de respirar, um amor que não foi sustentado por
mentiras, um amor que não era Amor.
Matteo se vira e me olha. Eu o olho de volta evidenciando todas as verdades que estavam
em meu intimo. Pego a mão de Matteo, querendo que ele sinta palavras que não podem ser
ditas.
Amávamo-nos, mas eu tinha a sensação de que estivéssemos separados por milhas e milhas.
Suas lágrimas, tão raras, o silenciaram.
Separamo-nos e olhando para o vazio entro de volta a casa.
Pego Allegra no colo e a coloco na cama, Matteo vai até o quarto, beija Allegra na testa e
me deseja boa noite, então ele saiu e desligou a luz. Não dormi nada. Eu deitei, e me virei e
choraminguei por um longo tempo. Eu me sentia cansada.
Meus olhos doem de estar acordada por tanto tempo, mas essa dor não era nem de longe a
dor sentida em meu peito.
O monstro da mentira ainda me assolava.
|... |
No dia seguinte fomos embora, pedi para que Matteo ficasse com Allegra, pois eu tinha
algo para resolver.
— Eu vou estar te esperando — ele murmura no meu ouvido antes de me deixar em casa.
Suspiro, e antes de entrar, dou um beijo em Allegra.
Entro em casa e tomo um banho longo. Recebo mensagens atrasadas no celular. Algumas
delas de Luís Fernando, outras da minha mãe:
“Está na hora de traçar o seu destino, espero que faça a escolha certa.” — ela disse.
Estranhamente, minha mãe, desde o meu noivado, vem falando sobre escolhas e destino.
Entendo o que ela quer dizer, e era exatamente isso que eu iria fazer.
Mando uma mensagem para Luís Fernando, pedindo para que ele me encontrasse. Logo que
saio do banho, recebo a mensagem que ele estava vindo me ver. Sento-me no sofá brincando
com o anel em meu dedo, que parecia tão pesado quanto nunca.
Em alguns minutos, abro a porta para Luís Fernando. Seu sorriso se abre a me ver.
— Pensei que não iria te ver esse final de semana. — ele me abraça. — Cadê a pequena? —
ele questiona e seus lábios frios tocam o meu em seguida.
— Está com o pai. — respondo ao separar meus lábios dos dele. — Sente-se. — Peço,
sentando-me no sofá, em seguida, dele.
— O que foi? — Ele questiona, seus olhos verdes cheios de indagações.
Retiro a aliança do meu dedo e coloco na palma da sua mão. Todavia, não deixo de apertar
a mão dele ao entregar.
— Me perdoe. — Peço.
— Nina? — Ele pergunta, incrédulo. — O que aconteceu meu amor? — Já sinto as
lágrimas rolarem pela minha face.
— Eu não posso Luís Fernando. Desde que começamos eu te disse que meu coração
pertencia a outra pessoa. — digo, era o momento de ser sincera, ele merecia.
Desde que começamos a sair, eu deixei claro que sentia algo por alguém. Esse alguém, que
Luís Fernando tinha certeza que era Matteo.
— Não faça isso. — Ele pede, apertando minha mão e olhando diretamente para mim. —
Ele já te fez tanto mal, não acredite em promessas falsas.
— Luís Fernando... Eu não espero que me entenda. Porém, não quero te enganar, jamais.
— Vocês ficaram juntos? — ele questiona, sua expressão endurece.
— Não. Eu prometo que não. Eu te respeito, acima de tudo — respondo.
Luís Fernando se levanta deixando a aliança em minha mão.
— Quando estiver pensando direito, me procure. — diz e sai batendo a porta em seguida.
Respirei fundo. Limpei as lágrimas e deito-me no sofá, tentando assimilar tudo que foi e
estava por vir.

|... |
Uma tempestade estava prestes a se formar, Matteo trouxe Allegra no exato momento em
que a chuva começou. Eu me sentia inebriada e sem rumo. Assim que Allegra dorme, pego a
mão de Matteo e o levo até o meu quarto.
— Nina... — ele diz, mas coloco a mão nos seus lábios.
— Shh — peço. — Faça amor comigo Matteo. Como só você sabe fazer.
O meu pedido é aceito selado com um beijo arrebatador. Matteo segura meu queixo e sua
boca quente desvenda a minha. Um beijo que expressava o desejo reprimido há tanto tempo. O
toque familiar, e ao mesmo tempo novo era tão gostoso... O gosto era o mesmo, ele me beija
como se nunca tivesse parado de fazer isso.
Ele segura minha bunda com as duas mãos e me puxa com força contra ele. Eu o beijo de
volta, um beijo após outro, suave e depois intenso, uma carícia profunda da língua. Ele se
afasta e me beija o queixo, a bochecha e a têmpora.
As roupas que vestíamos em poucos segundos foram deixadas de lado.
Deito-me na cama e ele deita-se sobre mim, nossas peles queimando contra a outra.
Estavam ali, nos encarando, nus. Tantras indagações, que não deveriam ser respondidas
naquele momento. Agarro suas costas, ele suga meus seios com avidez, mas ao mesmo tempo
com carinho.
Ele enfia a mão entre minhas coxas, abaixa e sua boca vai direto em meu íntimo, fazendo
um carinho que só ele sabia fazer, traçando uma linha de prazer. Depois enfia dois dedos,
pressionando o clitóris com o polegar, não muito, exatamente como eu gostava. Ele agarra
minha bunda, minha cintura, meus seios, desesperados por mais e mais.
Ambos desesperados para chegar um ao outro.
E então em apenas uma estocada, Matteo entra em mim. Seu pênis duro, era tão gostoso.
Em movimentos rápidos ele entra e sai, em meio a nossos gemidos silenciosos. Eu fecho
minhas pernas em torno dele e envolvo meus braços em seu tronco.
Não há ninguém no mundo como ele, mas aquela ferida que eu tinha estava começando a
doer.
Divago. Entre o prazer e a razão.
Um tempo depois, suados e cansados. Matteo deita-se ao meu lado.
— Precisamos conversar — ele pede. Abraçando meu corpo contra o dele.
— Não, não ainda — respondo. Eu não sabia se era o momento certo, porque, se
voltássemos, era para sempre .
Lágrimas quentes molham o meu rosto, mas eu não as limpo.

[...]
Três meses se passaram; Todos já haviam sido avisados sobre o término do noivado. E,
mesmo assim, eu não havia tido a coragem de falar com Matteo sobre nós. Eu ainda estava
tentando colocar a cabeça no lugar.
Mando uma mensagem para Matteo, avisando-o de que iria buscar Allegra. Assim que paro
o carro do outro lado da esquina, vou andando até a casa; estava um transito caótico, não sabia
exatamente o porquê.
E de repente percebo Matteo parado na rua conversando com Martim. Meu coração da um
salto quando vejo um garotinho que parecia ter a idade de Allegra perto deles. O menino tinha
cabelos negros e feições muito parecidas com a da família De Marco.
Fico observando, do outro lado da rua, esperando a conversa acabar. Matteo parecia
nervoso e Martim segurava a mão do menino. Tentei ligar os pontos, seria esse garoto algum
parente deles, ou até mesmo filho... De Martim.
Fico chocada com a minha suposição. Mas, não podia ser verdade.
—Moça, sabe onde fica a padaria Express? — Uma senhora questiona e viro-me para
respondê-la.
— A padaria Express? — Paro um tempo para pensar. — Bom, ela fica na próxima
esquina, à senhora segue em frente, e vira a esquina, vai dar de encontro com a padaria —
respondi.
— Ah, muito obrigada, querida — ela agradeceu.
De repente ouço buzinas e quando me viro vejo o garotinho correndo entre os carros,
Martim e Matteo saem em disparada. Os dois, juntos. O garoto para no meio da rua, tento
correr para ajudar, mas estava longe. Matteo e Martim o alcançam, mas, de repente, um carro
freia.
Os irmãos abraçam o garoto na tentativa de amenizar o impacto sobre ele. Tarde demais.
Num piscar de olhos, num breve momento, tudo se tornou névoa.
Eu grito, me senti sufocada. Em disparada, tento ir até o acidente, mas um homem me para.
— Senhorita! Pare, é perigoso — ele dizia, mas eu me desvencilhei-me dele.
E a cena a seguir fez com que meu mundo ruísse. Tive um sobressalto, senti medo. Em
meio ao caos, eu tropeço e caio. Senti minha garganta queimar com o grito que dei. Todo o
meu corpo tremeu.
Meu coração quase saiu pela boca. Fiquei paralisada; parecia incapaz de respirar
novamente.
Sangue... havia tanto sangue. Vejo os olhos negros se fecharem após me olhar. Chorei e
solucei de forma incontrolável. Lágrimas de dor brotavam do meu coração destroçado. Tudo
em mim doía; tudo estava destruído.
Eu havia esperado tanto pelo momento certo, que não havia percebido que nós fazemos o
Momento. E agora, não havia mais nada.

[...]

Dois meses depois


Allegra estava impaciente ao meu lado no carro. Foram meses difíceis e tortuosos. Um
funeral doloroso agoniava minhas memórias.
Nesse tempo eu refleti tanta coisa... que passamos a vida toda nos amargando pelo passado,
e deixando o presente morrer. O futuro era apenas cinzas de más escolhas.
Eu passei muito tempo me perdoando pelos meus pecados, e perdoando aqueles que um dia
me machucaram. E ao me levantar e olhar no espelho todas as manhãs, eu não tinha mais
aquela sensação de não me pertencer.
Eu me pertencia. E era alguém de que me orgulhava.
Ao descer do carro, Allegra sai em disparada.
Matteo, pela primeira vez, após o acidente, iria deixar o hospital.
Logo o avisto sendo deixado pela enfermeira na porta do hospital, sentado em uma cadeira
de rodas.
Meu coração dá um pulo quando ele se levanta. Matteo estava tão magro.
Sua expressão era de cansaço e tristeza. Desde o acidente, eu sempre o visitava, e era difícil
para ele aceitar a morte de Martim.
— Papai, papai — Allegra o abraça.
— Cuidado — peço ao ouvir Matteo grunhir.
O garotinho que descobri ser filho de Martim, Giovanni conseguiu sobreviver, graças ao
pai. Ele absorveu grande parte do impacto e Matteo também o protegeu.
Eu entendia a dor de Matteo, pois os dois haviam brigado poucos segundos antes do
acidente. A família De Marco estava desolada. E mesmo descobrindo a traição e um filho
bastardo, Clarice não deixou de ama-lo. E estava pronta para dar todo o apoio a Giovanni.
E com isso, eu compreendo que há tantas vertentes sobre o amor. É muito maior do que
possa ser dito e expressado.
Olha para Matteo e em um suspiro o abraço.
— Eu te amo, Matteo De Marco — Sussurro em seu ouvido.
— Você me perdoa, por tudo? — Ele questiona com a voz embargada.
— Eu perdoo você. Já te perdoei há muito tempo — respondo.
— Agora é para sempre — ele murmura.
— Sempre foi...
E então, sem muito pensar, eu o beijo. Em meio a sorrisos ao ouvir Allegra vibrando.
Matteo retribui o beijo com ansiedade e brevemente me afasto, olhando diretamente em seus
olhos, a intensidade em seu olhar, o cheiro de limão e a força da sua presença, era tudo que eu
precisava.
Seguro a mão dele e pego a mala ao lado da cadeira de rodas. Allegra segura à mão do seu
pai e caminhamos juntos, nossos primeiros passos, o prelúdio para o nosso futuro.
Meus cabelos novamente tingidos de azul esvoaçaram com o vento. A sensação de
liberdade e amor era incrível.
O meu amor por Matteo se moldou de outra forma. Eu não sou a mulher que o amou no
passado, mas, a intensidade do meu amor é outra.
É calma, é bela e concisa.
Nossa história era sobre um homem e uma mulher que se amavam, mas não se amavam.
Uma história de autodescobertas, paixão e amor. De mentiras e verdades que começaram com
um falso positivo.

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