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J.J.

Gremmelmaier

Por Favor...
Não olhe o Espelho...
Não me peça isso...
Não me deixe só...

...João

Primeira Edição
Curitiba
2015

1
Autor; J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Primeira Edição
2015
Por Favor... ...João
------------------------------------------
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte
-----------------------------------
Gremmelmaier, João Jose
Por Favor... ...João, Ro-
mance de Ficção, 340 pg./ João
Jose Gremmelmaier / Curitiba,
PR. / Edição do Autor / 2015 Por Favor...
1 - Literatura Brasileira – ...João
Romance – I – Titulo
-------------------------------- Crises de criatividade criam
85 – 62418 CDD – 978.426 historias como esta, vamos a noite
As opiniões contidas no livro, são de Curitiba, vamos invadir outras
dos personagens, e não obrigatoriamente historias, vamos nos divertir entre
assemelham-se as opiniões do autor, esta Laikans, Morois, Yawaras, Manás.
é uma obra de ficção, sendo quase todos
os nomes e fatos fictícios.
É vedada a reprodução total ou
Agradeço aos amigos e
parcial desta obra sem autorização do colegas que sempre me deram
autor. força a continuar a escrever,
Sobre o Autor; mesmo sem ser aquele escritor,
João Jose Gremmelmaier, nasceu
mas como sempre me repito,
em Curitiba, estado do Paraná, no Brasil,
formação em Economia, empresário a escrevo para me divertir, e se
mais de 15 anos, já teve de confecção a conseguir lhes levar juntos nesta
empresa de estamparia, ele escreve em aventura, já é uma vitória.
suas horas de folga, alguns jogam, outros
viajam, ele faz tudo isto, a frente de seu Ao terminar de ler este li-
computador, viajando em historias, e nos vro, empreste a um amigo se
levando a viajar juntos.
Autor de Obras como a série Fa-
gostou, a um inimigo se não
nes, Guerra e Paz, Mundo de Peter, os gostou, mas não o deixe parado,
livros Heloise, Anacrônicos, cria em histo- pois livros foram feitos para
rias que começam aparentemente nor- correrem de mão em mão.
mais, mundos imaginários, interligando
J.J.Gremmelmaier
historias aparentemente sem ligação
nenhuma;

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©Todos os direitos reservados a J.J.Gremmelmaier

Capítulos:
Uma Noite em Curitiba Pag. 005
Confusões Pag. 027
Bebendo para Esquecer Pag. 059
Odeio Covardes Pag. 079
Magia Pag. 105
Guará Pag. 167
Ponta Grossa Pag. 201
Lobos Pag. 233
Yawara Pag. 273
Morretes Pag. 289
Por Favor... ...João! Pag. 335

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O autor abre mão de mais um João,
numa historia que atravessara outros
contos do autor, mas agora falando de
lendas novas, ou uma possibilidade nova,
preparando-se para os processos, prepa-
rando-se para as criticas, para o falso e
inevitável, “Não tem direito de Difamar
um Gênio”.
Bem vindos a uma aventura, numa
Curitiba de hoje, referente a uma Curitiba
de ontem, referente a uma Curitiba que
só existe na mente de J.J.Gremmelmaier.
Bem vindos ao conto, “Por Favor...
...João”, vamos falar de Manás, de Feli-
nos, de segredos de uma Curitiba, de um
Paraná que os Paranaenses ignoram.

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J.J.Gremmelmaier

Uma Noite em
Curitiba!

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Curitiba, 29 de Novembro, moro no Sitio Cercado, como
sempre, nos fins de semana, o agito é no centro da cidade, na ver-
dade queria agitar aqui no bairro, mas não fui convidado a festa que
queria, as vezes, quase sempre, acontece isto, quando passamos
dos 40 as festas minguam, os com nossa idade estão em casamen-
tos estáveis, ou em enrosco estáveis, e nós sozinhos não temos mais
os grupos de amigos para as baladas.
Os mais jovens nos acham velhos, e obvio, não nos convidam
as festas, então como todo sábado, vou ao centro, vou agitar a noi-
te, talvez pegar um cinema, ou procurar um livro novo para ler.
Meu nome, esquece, um João qualquer em uma Curitiba que
cresce a cada ano, um João que não se vê por ai, pois estou aos
meus 47 anos, separado, sentindo minha alma ainda jovem, o corpo
já não tão jovem, mas inteiro, ejaculação precoce, adoro ler um
livro por semana, ver um filme, nem que não tão bom, mas um por
semana no mínimo, os filmes dependem do animo interno, não
gosto muito de drama, mas fora estes, consumo de quase tudo.
Gosto da minha cervejinha no sábado, então eu pego ônibus
para ir para o centro, deixando o carro na garagem, a volta, sempre
de “madrugueiro”, ou pela manha, depende da noite, depende do
que acontecer.
Olho o relógio, saindo do banho, 18 horas, lá vou eu por uma
camisa polo, um tênis e uma calça jeans já surrada. Caminho até o
ponto final do Sitio Cercado, que fica aqui ao lado, todos chamam
esta parte da cidade de Osternack, é como se existisse um bairro
dentro do bairro, coisa de Curitibano.
Olho as pessoas arrumadas prontas para a festa, penso se vou
direto ao centro, paro dois pontos depois mesmo falando para mim
que iria direto, tomado por aquela esperança burra, passo a frente
da festa, que não fui convidado, comprimento o Nelson que estava
a frente, pergunto como estavam as coisas, mas não consigo o intui-
to, ser convidado, então já contrariado pego o ligeirinho no sentido
do centro.
Se você está no Sitio Cercado, sempre se diz que é mais rápi-
do chegar no centro de Ligeirinho do que em bairros vizinhos como
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Alto Boqueirão ou Umbara, pois para qualquer bairro destes demo-
raria no mínimo 45 minutos, para o centro, 25 minutos estava des-
cendo na Praça Rui Barbosa.
As pessoas as vezes me olham a rua, e tenho a sensação de
que perguntam com os olhos, “o que este velho está fazendo aqui”.
Era cedo, paro para ver o show do coral do HSBC, gente boni-
ta, crianças talentosas, mas não estava em espirito natalino, foi
bonito, mas a solidão pesa quando recordamos de natais passados,
de uma infância num passado distante, de uma vida que para mim,
era apenas uma nevoa no passado.
Não gosto de lembrar do passado, as escolhas que fazemos as
vezes nos definem o ponto que estamos, nunca me dediquei a ser
algo diferente do que sou, e quando olho para trás, sempre me de-
paro com escolhas, que definiram o estar só neste momento.
Posso parecer melancólico, as vezes, posso parecer alegre,
disfarce, posso parecer até legal, mas é engano seu, nunca fui legal,
sou chato, intransigente e um pouco mesquinho.
O pouco é pois sou eu falando, não os que convivem comigo.
Subo para o Largo da Ordem, como velho, e ainda cedo, paro
no bar do alemão, peço um Eisbein e um Submarino, e depois de
uma hora, com o estomago cheio, saio dali. Uma coisa que não gos-
to de ter passado de uma idade, é que antes, segurava meus siste-
mas digestivos e urinários mais que agora, então hoje, aos 47, tenho
de pensar sempre se existe um banheiro decente por perto.
Olho o relógio, ainda perto das 21 horas, desço até o Mueller,
o descer é forma de falar, Curitiba é uma cidade bem plana, nada
comparado as subidas do Rio de Janeiro ou mesmo de Salvador,
entro no Shopping e subo a parte dos cinemas, se me perguntar se
vou muito aos shoppings, terei de dizer sim, pois os cinemas nas
grandes cidades estão neles, e as boas livrarias também estão ali,
olho os títulos, nada me atrai, normalmente teria entrado em uma
fila normal, mas parecia que hoje não estava para um filme, talvez
no dia seguinte estivesse pronto para um destes filmes. Passo no
banheiro antes de sair do Shopping, esvaziar tudo antes de começar
a noite em um banheiro limpo.
Saio a caminhar, primeiro pela Inácio Lustosa, a ideia, achar
um bar para beber uma cerveja, subo a Trajano Reis, paro a ouvir
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um roque, não que fosse parar ali, mas quando barrado na porta do
Villa Bambu, por um amigo de infância, estranho olhar o Carlos,
hoje Carlão, em sua veste de Punk, estranho como pode existir um
punk de 47 anos, o cumprimentei, ele perguntou se pagava uma
cerva, pedi uma e fiquei a ouvir o pessoal tocar, gosto de lugares
onde as pessoas tocam com naturalidade, onde se ouve o som de
cada instrumento, entrei no bar, pedi mais uma cerveja, já que a
primeira saiu pela porta com Carlão, um copo plástico, e encostado
no balcão fiquei a olhar para a banda tocar.
Estava ali há um bom tempo, um rock bem tocado, não sabia
quem estava tocando, mas nitidamente as pessoas conheciam as
musicas, lugar apertado, eu estava encostado no balcão, a minha
direita a porta da cozinha, ao lado dela a do banheiro, este bar nun-
ca teve um bom banheiro, por isto não lembro de ter parado nele
muitas vezes. A minha frente, o pessoal sentado, 3 guitarristas, um
rapaz em um tamborim de precursão, um dos guitarristas gritava
letras demoníacas que eu sempre achei engraçadas ao microfone.
As costas deles, um espelho que dava para ver quem entrava
no bar, ao lado esquerdo, a entrada pouco as costas do bar e pouco
a frente, uma janela, por onde saia o som, e as pessoas se aglutina-
vam tomando suas cervejas.
Foi-se o tempo que conhecia os donos de bar pelo nome, hoje
em dia, eu não tenho parada, cada dia em um canto, e não ligo mais
para isto, garçons ainda sei alguns nomes, mas os donos não mais.
Estranho como o local tinha uma energia marginal, ao final da
segunda cerveja, tive de encarar o banheiro deste lugar, fedido, um
banheiro unissex de uma porta só.
Volto ao meu encosto, peço mais uma cerveja, e um senhor
para ao meu lado e fala:
— Novo por aqui?
Eu estava em minha terceira cerveja, já alcoolizado, obvio,
tomar cervejas sozinho sempre nos alcooliza mais rápido, do que
conversando, do que jogando conversa fora.
Eu olhava para uma moça fazendo o show do lado de fora,
não dei muita atenção e apenas respondi olhando o senhor, de ne-
gro, cabelos negros, um sorriso discreto;
— Novo em lugar nenhum.
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Voltei o olhar para a banda, não dando atenção ao senhor,
mas quis saber se ele estava ali ainda, olho o espelho, não estava
mais ali, um chato a menos, me concentrei na musica, uma musica
acaba, quando me viro para pedir mais uma cerveja, o senhor me
olhava e fala.
— Mas não vem todo dia aqui.
— Não entendi o interesse.
— Afastamos problemas.
Não falei nada, o atendente me alcançou uma outra cerveja,
eu nunca fora problema em lugar nenhum, esqueci de citar outro
grande predicado que tenho, sou um covarde.
Voltei a olhar a banda, mas olho o espelho e meus pensamen-
tos se perdem, o senhor não estava refletido no espelho ao fundo,
acho que ficou evidente que reparei isto, pois meus olhos foram ao
do senhor que sorriu.
— Ainda sóbrio o suficiente, bom saber. – O senhor sai pela
porta, vi ele cumprimentar Carlão.
Tomei minha cerveja, deveria estar bêbado, olhado errado,
não tivera muito que constatar, ele saíra rápido do ângulo do espe-
lho, mas fiquei como um bobo olhando se as pessoas que entravam
estavam todas refletidas no espelho, elas estavam lá, maluquice,
deveria ter sido uma falsa impressão, alias, contos de fadas em Curi-
tiba, sempre me atraíram, era deste tipo de confusão, não brigas ou
problemas normais, sorri, quem ouvia meus pensamentos pode ter
me achado um maluco ou alguém especial, não me considerava
nenhuma das coisas.
Sorri dos meus pensamentos, uma cerveja a mais, desci a Tra-
jano Reis novamente, e sentei em um bar na Paula Gomes, a meia
quadra da Trajano, pediu uma cerveja, e reparei na parede de en-
trada, um espelho, pode ter sido impressão minha, mas o garçom
parecia olhar quem entrava pelo espelho.
Estranhei pois todos ele atendia prontamente, mas vi um ca-
sal sentar-se ao fundo e ele não se apresentou a lhes atender, vi
que de dentro veio um outro rapaz que os atendeu, mas o garçom
nem olhou para o casal, estranhei pois logo em seguida entrou ou-
tro casal e ele os foi atender prontamente.

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O Casal estava discutindo algo sobre o que fariam ao ama-
nhecer, pensei comigo, vampiros não amanhecem, e sorri dos meus
pensamentos, mas poderia não ser um vampiro, já que nunca vira
um, mas existiam seres mais estranhos na noite, eu.
O Garçom depois de umas 5 cervejas, disse que iriam fechar,
olhei o relógio, perto das 3 da manha, sabia que a noite curitibana
estava acabando, ela geralmente acabava neste horário.
Não estava a fim de ir para casa, não antes das 6 da manha,
pois a hora ajudava chegar aos terminais de ônibus de Curitiba já
em funcionamento, e se lembram, vim ao centro de ônibus.
Sai a porta e ouvi alguém falar algo;
— Jota, você por aqui?
Estava meio alcoolizado, meio é forma de falar, eu já trançava
as pernas e não tinha muito mais nos bolsos para ser roubado.
Olho quem falou, era Vitor, um dia no passado trabalhei em
um banco estatal, Vitor era dos colegas daquele lugar, vi outros
olhos virem sobre mim e falei.
—Por aqui Vitor?
— Já conhece a Dani.
— Sim, vão para onde?
— Tem uma festa mais a frente, na Almirante Barroso, vai
com a gente? O pessoal foi em uma festa do banco.
— Ainda fazem isto?
— Sim, mas vai recusar um convite Jota?
— Não tô muito legal.
Dani me olhou e falou com aquele olhar certeiro, olhando na
alma, ela sempre pareceu ler a minha alma.
— Vamos lá Jota, não vai ficar ai curtindo sozinho.
Não soube dizer não a algo tão impositivo.
Caminhamos não mais de duas quadras, estranhei um pouco,
pois em uma porta baixa, que todos que entraram tinham de se
abaixar, numa casa quase na esquina com a Treze de Maio, entra-
mos em um porão.
A música era punk, a muito não ouvia aquilo, Ratos de Porão
não tocam em todo lugar, olhei uma moça chegar aos dois e me
apresentaram, nem dei bola, eu me considero um velho, então nem

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me iludo com sorrisos jovens, mas a menina ficou ali, pior, eu não
prestei atenção ao nome dela quando me apresentaram.
Vi que a festa era bem fechada, vi quando o casal que o gar-
çom não atendeu entrou no local, as paredes todas pintadas de
negro, uma luz negra, piso branco, minha visão de 47 anos, não
ajuda nestes lugares.
Um garçom todo bem vestido, em um smoking me ofereceu
uma bebida, perguntei se tinha uma cerveja, não iria começar no
uísque, pois misturaria e meu estomago não é mais de uma criança.
O garçom veio com uma bandeja e tinha uma bem gelada,
me sentei em um canto e a moça perguntou.
— Seu nome é Jota?
Sorri, eu estava tomando um cerveja, ela pega um copo, e vi-
ra ele de vez, me olha e falo;
— Não, meu nome é João, mas quantos Joãos você deve co-
nhecer por ai.
— Muitos mesmo, mas nunca o vi por aqui?
— Tem sempre festa aqui?
— Sim, o dono dá uma festa a cada mês, sempre tem festas
boas aqui.
— Vem sempre?
— Desde muito jovem.
Sorri, ao meu ver a moça não tinha muito mais de 18 anos,
muito jovem deveria a remeter a infância.
— Quantos anos tem, não parece ter idade para vir a muito
tempo a uma festa assim, desculpa o atrevimento? – Pensando no
perguntar da idade.
— Mais que aparento, muito mais que aparento.
Lembrei que estava bebendo a muito tempo, pelo menos
umas 5 horas, sei o que o álcool faz, ele transforma as pessoas em
bonitas ou muito feias, depende do ponto do alcoolismo.
— Eu me sinto um velho, tenho apenas 47, mas sinto-me um
velho.
— Pelo jeito não sabe mesmo onde está.
— Não entendi a pergunta?
— Não vou explicar o básico, mas é bonito, não é de se jogar
fora, o que faz sozinho a noite.
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— Como sempre digo, sai de um casamento de 18 anos, sou
pobre, chato, intransigente e falo demais, acabo sempre sozinho
mesmo se tentar algo.
— Se culpa por isto?
— Não, eu gosto de ser sozinho, eu não me sinto só, eu vivo
só, a diferença é imensa.
— Então escolheu estar sozinho hoje?
— Não, queria estar no outro lado da cidade, mas quem que-
ria que me convidasse ao seu aniversario não me convidou.
— Alguém encantou este coração?
— Sim, uma criança como sempre falo para ela.
— Ela lhe acha velho?
— Eu me sinto velho, não é questão de achar, me visto, me
sinto, me comporto como um velho. Mesmo que ela não me cha-
masse de velho, me sentiria um.
— Certo, não o vou convencer fácil de que não é velho.
— Tem um banheiro por aqui?
A moça sorriu e falou;
— Lhe levo lá.
Estranhei, mas ela me conduziu a uma parte ao fundo, a luz
do banheiro estava acesa, até bem limpo, tinha até papel higiênico,
pia limpa, toalha para secar a mão, estranhei o banheiro, bem boni-
to, mas não tinha um espelho, olhei em volta e sorri.
Ainda estava impressionado com o que vi antes, não sei por
que, mas aquilo ainda me martelava na cabeça, fiz o que tinha de
fazer ali, lavei a mão, a sequei, e sai a porta, olhe a moça que olhava
o agito, pareceu perceber minha saída, obvio, a luz do banheiro era
clara, contrastando com aquele clima dado por paredes negras e luz
negra, olhei o piso, o mesmo do banheiro, um porcelanato claro,
que dava o contraste e boa parte do brilho do local.
Caminhamos ate onde tínhamos sentado e Vitor estava lá a
olhar em volta.
— Pensei que tinha ido embora?
— Me procurando? – Estranhei.
— Queria lhe apresentar o dono.
Me virei para onde Vitor olhava e me deparo com o senhor
do bar, o senhor que não vi a imagem no espelho.
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Minha cara de você ai de novo, deve ter sido desanimadora.
— Sinta-se em casa, vejo que minha sobrinha grudou em vo-
cê, mas sinta-se a vontade.
— É um prazer, não sabia nem que existia este espaço.
— Oficialmente não existe, sobre nossas cabeças em dias
normais, uma pré escola funciona normalmente.
— Agradeço o convite, não devo demorar muito, acho que já
bebi demais.
— Os rapazes tem refrigerante se precisar.
Estranhei, o senhor parecia o do bar, mas muito mais educa-
do, muito prestativo, e não me olhou aos olhos como o anterior.
Sentei-me e olhei a moça.
— Então corre por estes corredores desde a infância? – Per-
guntei.
— Sim, meu tio é bem legal.
— Posso fazer uma pergunta estranha?
— Já? – A moça com cara de que esperava uma pergunta difí-
cil de responder.
— Seu tio tem um irmão gêmeo? – Eu perguntei e me toquei
antes mesmo da resposta, o que foi estranho, pensei junto com ela
a mesma coisa.
— Conheceu meu pai?
Deixei o corpo encostar na parede e ela sorriu.
— Pelo jeito sim, pensei que não conhecia ninguém aqui. – A
moça me olha serio.
— Deixar claro que não conheço seu pai pessoalmente, ape-
nas vi um senhor muito parecido com o seu tio. – Não entrei em
detalhes e ouvi Vitor falar.
— Conheceu Tudor pessoalmente, eu venho aqui a alguns
anos e nunca o vi.
Sorri por dentro, não poderia ser Tudor, ou poderia, se tinha
um irmão, Tudor Filho, não o pai, olho em volta, reparo nas pessoas,
não parecia nada além de uma festa normal, mas existiam os que
pareciam mais da casa, e os que pareciam tentar impressionar al-
guém da festa.
— Talvez o tenha visto Vitor, mas não tenha reconhecido.
— Não entendi.
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— Gêmeos idênticos, se não me engano. – Falei olhando para
a moça, que não esqueçam, não lembrava o nome.
Vitor no lugar de olhar para a moça olhou para Dani que fa-
lou;
— Sempre disse que este disfarce de bêbado do Jota, o deixa
observar muitas coisas, você que não repara muito.
— Disfarce não, estou mesmo bêbado. – Falei sorrindo. Olhei
a moça e falei com um tom baixo – Desculpa, não prestei a atenção
no seu nome quando nos apresentaram.
— Me chamam de Dara.
— Dara, um nome não normal, Romeno se não me engano.
— Sim, não existe tanta Dara quanto João?
Olhei para Dani e perguntei;
— Primas por acaso?
Vitor sorriu, ela não entendeu, nariz é algo que para mim se-
para as famílias, quer dizer, eu acredito que separe, é o nariz para
mim que determina mais a genética de uma família do que um teste
de DNA, mas esta era umas das minhas teorias malucas, e nem to-
dos ouviam elas.
— E deduziu como isto? – Dara.
— Dara, Jota escreve, e ele tem uma teoria que famílias anti-
gas, tem nariz igual, não tinha reparado, mas as duas tem o mesmo
nariz. – Vitor.
— Alguém leu o meu texto, já ganhei o dia! – Sorri.
— Nada conclusivo, devem saber. – Dani.
Fiz sinal para o garçom e pedi mais uma cerveja, elas estavam
estupendamente geladas, gostosas mesmo.
— Não ia parar? – Dara.
— Disse que estava bêbado, não que queria ficar sóbrio.
— Verdade.
A moça olha em volta, com se procurasse algo.
— Sabe que meu pai deve estar chegando por ai. – Dara.
— Quer que vá embora eu vou. – Falei sem pensar.
— Discutiu com ele?
— Não, apenas ele disse que afastava problemas, e falava se
referindo a mim, não foi um boa noite, foi um, some daqui.
Dara sorriu e Dani falou;
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— Ele pelo jeito gostou de você, não estranhe, mas é que ele
não fala com muitos.
— Imagino, e faz truques incríveis. – Falei olhando para Dara,
queria saber onde estava, embora estranhava o como a minha men-
te estava ficando límpida naquele lugar, parecia que mesmo beben-
do estava ficando sóbrio, e queria saber se as duvidas que me pas-
saram a mente eram reais, sorri até da ideia.
Dara me olha serio, e pergunta;
— O que quis dizer com isto?
— Não sei ainda, mas tem lindos olhos, de família?
— Sim, os olhos de minha mãe, mas ela não vem a estas fes-
tas, elas sempre se resguarda destas bebedeiras.
— E como acabam as festas aqui?
A moça sorriu, não entendi, ela não respondeu, enchi meu
copo e o dela e vi ela tomar outro gole imenso e me olhar.
— Porque todos em volta olham para você Jota?
— Quem disse que estão olhando para mim?
— Estão, e você não sabe onde está mesmo, estranho isto,
mas não sabe, estranho um amigo de Vitor, que ele não havia trazi-
do aqui, e parece não se preocupar.
— Teria de me preocupar com oque?
— Com sua vida.
Olhei em volta e alguns me olhavam, não entendi, estávamos
em uma festa, mas Vitor falou;
— Vai o por para correr, não entendi? – Vitor olhava Dara.
— Ele tem alguém no coração, isto não é certo! – Dara.
Olhei os dois como se perguntasse o que estava acontecendo,
vi Dani olhar para um senhor se aproximando e vi ele fixar os olhos
em mim.
— O que este intruso faz aqui filha?
Dara estranha, seu pai nunca tratava as pessoas assim, e pelo
que eu tinha falado, ele já o fizera uma vez.
— Desculpa senhor, o convidei. – Vitor.
O senhor olha para Dani e depois para Vitor e fala;
— Sejam vem vindos, mas este senhor não é bem vindo nesta
casa.

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Me levantei, deixei a cerveja, olhei os demais me olhando,
não queria confusão e falei.
— Não quero atrapalhar. - Apenas me despedi com a cabeça
de Vitor e de Dani, evitei olhar para Dara.
Comecei a sair, vi que muitos continuavam a me olhar, abri-
ram caminho, abaixei a cabeça naquela porta baixa e me deparei
com a rua, dois degraus altos.
Não sei o que aconteceu do lado de dentro, mas comecei a
retornar ao Largo, sabia que a maioria dos lugares já fechara, era
perto das 4 da manha, e se ouvi os primeiros galos cantando, onde
não sei, mas sorri da ideia de alguém ainda ter um galo em pleno
bairro de São Francisco.
Termino de subir a Rua, olho os bares fechados, não teria on-
de acabar a noite, hora de ir para casa, atravesso a praça João Can-
dido, e começo a descer a Ébano Pereira, o pessoal da prefeitura
montava as barraquinhas para a feira do Largo de domingo.
Quando chego a esquina da Saldanha Marinho, vi um carro
parar ao lado e buzinar.
Instintivamente pulei de susto, sorri vendo Vitor na posição
de carona me olhar e falar;
— Quer uma carona?
— Não beberam demais para dirigir?
— Dani só faz de conta, ela nem bebe.
Este era um problema nas noites, bêbados no volante.
— Vão para onde?
— Mandaram cuidar de você! – Vitor.
— Mandaram, alguém manda em você Vitor.
Ele sorriu e falou serio.
— Entra ai.
Quando abri a porta vi que encostada na outra porta, daquele
Fit quatro portas Amarelo estava Dara.
— Estraguei sua festa, desculpa? – Falei sem sentir, e sentei-
me, não sabia o que estava acontecendo, estava andando no senti-
do da Carlos Gomes, onde pegaria um madrugueiro, era sedo para ir
para casa, mas as vezes é melhor seguir o caminho ditado.
— Acho que você foi o primeiro expulso em... – a moça pen-
sou antes de falar – anos, da festa de meu tio.
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— Não quero atrapalhar, sei que atrapalhei algo, desculpa. –
Eu pedindo desculpa uma segunda vez até me estranhei, mas o
lugar era legal, a cerveja legal, mas não era o tipo de festa que eu ia.
— Meu pai falou ríspido com meu tio, nunca havia visto os
dois discutirem, você realmente é alguém que meu pai não quer por
perto.
— Nem sei qual parte da fama sua ele soube Jota, mas real-
mente o clima ficou pesado depois que saiu de lá. – Vitor.
— Então sai tarde, como adivinhar, né?
— Vamos parar na Dina para comer uma pizza, nos acompa-
nha? – Dani.
— Algo está acontecendo, e não me explicaram.
— Se for bonzinho comigo lhe explico. – Dara.
— Se eu for bonzinho, vocês desencanam, mas não entendi o
que seu pai viu em mim, você que falou que todos me olhavam.
— Jota, sabe o que é um Moroi?
— Conto infantil de J.J.Gremmelmaier? – Sorri, eles iriam pelo
caminho que minha cabeça tentava negar desde que ouviu o nome
Tudor.
— Ali é romance, mas pelo menos sabe do que estou falan-
do?
— Vai falar que eles existem de verdade? – Duvidei da minha
pergunta, a lembrança do espelho veio a mente e ela falou.
— Sim, e se sou filha de um Moroi, o que seria?
— Moroaica se não me engano. – Olhei para Vitor que pare-
ceu boiar na historia.
— E não tem medo?
— Você tem medo de lendas?
— Não sou uma lenda.
— Não falava de você.
— De quem estava falando então?
— Começo a entender porque seu pai me colocou para fora,
você deveria ficar longe de mim e está aqui a minha frente.
— Porque deveria ficar longe, ele me gritou que não queria
eu ao lado de um Bruxo, que eu iria sofrer.

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— Não sou um bruxo, não sou nada Dara, eu sou um fracasso,
mas que atraio os seres mais incríveis, não disse que não és incrível,
mas teria coragem de disputar meu coração?
— Nós tomamos os corações, não entendeu?
— Não entendi, pois para mim, submissão não é amor, eu
procuro um amor, eu procuro algo que me complete, não que me
domine, não que se imponha, não sei o que tinha naquela cerveja,
mas pareço sóbrio, não gosto de acordar cedo no Domingo porque
não bebi o suficiente.
Ela me olhou, ela parecia tensa com o que iria falar;
— Porque minha mãe sempre acerta?
— Tens o nome dela? – Perguntei.
— Sim.
— Ela sabe mais que eu e você, e seu pai juntos, por isto ela
acerta, mas lembra da lenda que falei?
— Sim.
— Sou apaixonado por uma, e sabe que paixões são terríveis,
ela disse que tem outro, não me convidou a seu aniversario, eu que-
ria estar lá, e como não fui convidado, sai beber.
— Lenda.
— Uma pagã chamada Keka.
A moça me olhou serio, ela olha para Dani que fala;
— Não sabia prima, como adivinhar algo assim.
— Meu pai sentiu o cheiro disto, por isto o chamou de bruxo,
ele tem o cheiro das linhas de vivencia, o cheiro de uma bruxa.
Ri, talvez você tenha comprado minha definição no começo
da historia, e não entendeu o que sou. Vou ter de explicar, ou não,
me apaixonei por uma criança, a esperei crescer, e quando ela che-
gou a maioridade, me deu um pé na bunda, ela anda por ai com um
namorado, mas sei que algo está errado, e não sei oque, mas sei
que aquele sorriso é para mim, todos falam que sorrimos demais
quando um diante do outro, sabemos que nossa historia não come-
çou ainda, mas em meio a isto, acabo de me deparar com uma mo-
ça, parece uma adolescente, é uma das moças que tem um escritor
curitibano que definiu, mas na historia, ela nasceu a mais de 1700
anos, e está a minha frente me olhando com lindos olhos cor de
mel.
19
— Não tem graça. – Dara.
— Keka riria se a chamassem de Bruxa, ela se denomina de
Pagã, sabe disto Dara.
O carro para a frente da Pizzaria da Dina, já no Sitio Cercado,
entramos e o que parecia impossível acontece, Keka estava ali com
a mãe e com o namorado, a comer uma pizza.
Vitor não conhecia, queria sentar no outro lado, mas olhei os
espelhos, não iriam para lá, olho a mesa ao lado de onde Keka esta-
va, e sentamos na mesa ao lado, apenas cumprimentei os demais e
a senhora me olhou;
— Não foi na festa João?
— Não fui convidado senhora, fica para outra vez.
Olhei nos olhos de Dara que me olha indignada.
— Não me olha assim, não fui eu que escolhi o lugar. – Falei
tentando não olhar para Keka, a mesa ao lado, Vitor entendeu, mas
fiz sinal para o garçom e pedi uma cerveja, e pedimos uma pizza, e
ouvi Dani falar.
— Estamos falando da lenda de Wasser?
— Ele renasceu na cidade Dani, apenas não se sabe onde ain-
da, mas é desta lenda que falamos.
— E a menina ao lado é a chave da porta dos poderes de Wa-
sser?
— Não, a menina ao lado, é... – segurei as palavras, sorri e
não terminei a frase, passei o braço no de Dara e falei Baixo.
— É serio que tem mais de 1700 ciclos?
Vitor olha a moça que sorri e fala;
— É rápido no raciocínio, mas sim, e verdade, com o tempo
paramos de contar, mas os demais insistem em nos lembrar disto.
— Desculpa se a chamei de criança, não imaginava. – Sorri.
— Tem de ver que realmente ela lhe olha, sei que o namora-
do dela está lhe encarando, e que a mãe dela também lhe olha.
— Tenho de tentar parecer normal, mas diante dela não con-
sigo Dara, ela sempre mexeu comigo, algo dentro dela me atraia
mesmo antes de a ver como uma mulher, primeiro via como alguém
que gostaria de ajudar a ser alguém na vida, depois ajudar a se posi-
cionar referente ao que fazer na vida, e no fim, surge esta pedra no
meu caminho.
20
— Pedra?
— O rapaz se chama Pedro.
Vitor mediu a moça na mesa ao lado e falou;
— Sempre bom gosto.
— Podemos ficar velhos amigo, mas não perdemos o gosto
pelas coisas boas, mas não entendi – Olhei Dani – Pensei que ele
soubesse onde estava.
— As vezes as pessoas acreditam em lendas, mas inventam
tanto que não dá para explicar.
— Um espelho explicaria por si. – Falei olhando Dani aos
olhos.
Ela olha em volta, vê que bem no fundo havia um, eles senta-
ram-se longe dos espelhos, mas vi a moça sorrir.
— E o que vai acontecer agora? – Dani.
Sorri e olhei nos olhos de Keka, ela me encarou e falei sem
desviar os olhos.
— Cada um toca a sua vida, um dia a vida mostra que o que
está nas linhas de cheiro, como seu pai sentiu, não se altera.
— Estranho como ele lhe tocou de lá, diziam que ele se dava
com este Wasser.
— Não conheço a historia.
Era evidente que Keka estava prestando atenção, e a senhora
Rose olha para nossa mesa e pergunta;
— Não querem juntar a mesa?
— Como foi o aniversario? – Perguntei.
— Duas meninas se pegaram no tapa lá e acabou o clima de
festa.
— Acontece senhora! – Dani.
— Conhecem João de onde? – Rose.
— Vitor trabalhou com ele.
Keka olha para mim e pergunta:
— E quem são estas amigas que conheceram Wasser.
— Elas não conheceram, mas o pai de Dara aqui do meu lado
conheceu. – Falei.
— Seu pai conheceu meu mestre? – Vi que Pedro não gostou
da frase.
— Sim.
21
— Quem é seu pai? – Keka era direta, era evidente que está-
vamos falando dele.
— Tudor de Buzau.
Keka me olha atravessado e pergunta;
— Vai se envolver com isto agora?
— Cada um carrega a cruz que consegue.
— Não teve graça.
— Quem brigou na festa Keka?
— Nane e uma menina que estava dando encima do marido
dela.
— Outra criança grande.
— Não sou mais criança.
Sorri e olhei a pizza chegar a mesa e comecei a comer, não
por fome, havia comido bem no Alemão, mas já fazia mais de 7 ho-
ras.
— Quem é você que minha namorada não tira o olho?
Olhei para Keka e falei.
— Alguém que estava numa festa no centro, e Tudor de Bu-
zau me colocou para fora, porque disse que tinha o cheiro de uma
bruxa na minha vida, algo que não queria ver sua filha perto, pois
ela sofreria, pois caminhos ditados pelo cheiro, não se apagam.
Keka desviou o olhar, talvez somente ela da mesa que estava
entendeu, vi duas moças sentarem a mesa delas e o olho de Nane
estava vermelho.
— Tem de parar com isto Nane, não é mais criança.
— Até você vai pegar no meu pé?
— Onde está o marido, o deixou sozinho na mão da Tati?
Keka me olhou, ela não falara quem era a moça que brigou e
eu sabia, ela parecia querer falar algo.
— Soube da briga pelo jeito.
— Soube! – Olhei para Jenifer e falei – Agora se juntando a
família finalmente?
— Eu sim, e você, perdido por aqui?
— Me convenceram a comer algo depois de 7 horas de bebe-
deira, mas já estou ficando bom. – Dei um gole a mais.
Dara me olha e fala.
— E como ficamos?
22
— Sei lá, como é ter Tudor de Buzau como inimigo de seu re-
lacionamento com a filha.
— Ele acostuma.
— Ele me mata, mas pelo jeito, é o normal.
— Sim, é o normal.
Parei de olhar para a mesa, parei de me preocupar, e quando
Dara aproximou os lábios, a beijei, sabia que Pedro beijava Keka na
outra ponta da mesa.
Depois de mais duas cervejas, nos levantamos, e saímos, Vitor
e Dani queriam acabar em um motel, mas não fui neste caminho,
me despedi e fui para casa, andando.
Era um pouco longe, mas quando as seis da manha embiquei
na minha rua, o primeiro ônibus passava a rua, sorri.

Quando cheguei ao portão vi alguém sentada ali, Keka, ela me


olha e fala.
— Foi boa a noite?
— Um porre, o que faz aqui Keka?
— Jessica, não aprende nunca?
— Jessica Talyze Trindade Duarte, o que faz aqui?
— Pensei que estaria com a moça.
— Sabe bem onde queria estar, você foi bem clara, não quero
você em minha festa de 18 anos.
— Sabe que não gosto de o ver com outra.
— Dara de Buzau não é outra, é apenas uma lenda.
— Está falando serio?
— Sabe que sim, ela é mais velha que toda a minha linha he-
reditária.
— Achou alguém a altura em idade?
— Sim, vou descansar, o que quer?
— Conversar.
Olhei o relógio, 06:06hs, abri o portão e falei.
— Entra.
Os gatos geralmente sumiam quando um estranho entrava no
portão, mas eles não sumiram, pareceram vir a cheirar, e ela me
olhou.
— Tem quantos gatos?
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— Nem todos são meus, os dos vizinhos vem comer aqui.
— Esta grosso hoje.
Eu a olhei, eu não estava grosso, estava cansado e arredio.
Fui a cozinha e coloquei um café para esquentar e falei.
— O que quer conversar.
— Porque cai na provocação, porque não foi lá.
— Eu fui, mas sem convite não poderia entrar, não iria forçar
a porta, então apenas fui beber.
— Tá cheirando a cerveja. – Ela querendo já controlar meu vi-
cio, sorri disto.
— Sua mãe sabe onde você está?
— Não, ela acha que estou ainda conversando com Nane.
— O que posso falar Jessica, sabe que você me encantou, sa-
be que não chegaria perto antes, sabe que nunca me dá espaço,
que não é certo, realmente, sou um velho.
— Sabe que não é, se veste como um, parece me querer con-
vencer que é, mas sei que não é.
— Sabe.
— João, sabe que não sei como avançar, sabe que não sei re-
cuar, Pedro avança, você recua, quer oque?
Peguei as mãos dela, ela as puxou, sorri e a olhei aos olhos.
— O que quero, não sei, ter nascido 30 anos depois, mas não
tenho como, então apenas olho, você vem aqui, provoca, mas tem
medo de mim, eu, tenho medo de lhe machucar, com os dois recu-
ando ainda, fica difícil.
Eu coloquei as mãos na mesa, ela me olha e segura minha
mão esquerda e fala.
— Sabe que não vai ouvir de mim o que quer?
— Então o que faz aqui Ke... Jessica.
— Não sei, tento fugir de você e você não força a porta, não
sei se você me ama João.
— Não vai me ver forçar a porta, principalmente porque não
me dá espaço para algo que eu não me machuque, mas não me
entende. – A olhei aos olhos, ela segurava minha mão, senti ela a
apertar e falar.
— Todos avançam e você recua, porque tenho de olhar para
um velho.
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— Não lhe entendo Keka, você me chama de velho, dai quan-
do eu falo que sou velho, diz que eu não sou velho, sei que sou ve-
lho, principalmente pelo olhar de sua mãe, de seu padrasto, mas
ainda não lhe esqueci, sei que falou ontem para sumir de sua vida,
mas no lugar de você estar lá em sua casa, está aqui.
— E foi procurar uma Moroi?
— Fui beber, hoje foi estranho, pense em olhar para um espe-
lho e o rapaz ao seu lado não estar lá, e todo resto na festa estar.
— E acabou conhecendo a filha de uma lenda.
— Eles lhe chamam de lenda, então sem falar seu nome, de
você, me expulsaram de lá.
— Sabe que não sei por onde atravessar este muro que criei.
A puxei aos lábios e beijei, deveria estar com um baita mal
hálito, mas ela me beijou.
Esta manhã conversamos como nunca havíamos conversado,
quando a deixei em casa, perto das oito da noite, todos estavam
preocupados, não sei o que será amanha, mas finalmente domingo
estava acabando, e eu acabado, tomo um banho e caio na cama.

Boa noite.

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J.J.Gremmelmaier

Confusões

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Já sabe, meu nome é João, o que faço da vida, trabalho por ai
fazendo bicos, onde moro, vila Osternack, Curitiba, porque estou
escrevendo? Acabo de ser preso.
Se me perguntar se sou inocente, não, se sou culpado do que
me acusam, não me considero culpado.
Quando se fala em Justiça no Brasil, se fala em ricos e pobres,
eu sou pobre, o policial arrogante que me jogou nesta cadeia, um
servidor publico incompetente, sou novo nesta cadeia e não tenho
cara de marginal, mas acho que dormirei aqui está noite, onde, não
sei, banheiro, esquece, acho que nem vou comer aqui.
Se alguém me perguntar se acho que o Brasil é justo, respon-
do sim, se me perguntar se as leis e justiça no Brasil funcionam,
somente para ricos.
Fui acusado de assediar uma menor de idade, engraçado me
acusarem disto, dois dias depois de ter me acertado com alguém,
como se diz, armaram e eu cai.
Se me perguntarem se assediei uma menor de idade, somen-
te quando era menor de idade, estranho eu ser preso por algo que é
normal no país, mas que não é normal a minha pessoa, certo, se me
perguntar se fui assediado nos últimos anos por menores, a respos-
ta seria sim.
Mas não adianta argumentar contra quem não quer argu-
mento, e sim, falsa moral, não adianta falar para estes que me
olham como um intruso a cela, que sou inocente, pois não sou ino-
cente.
As vezes acho que um dia morro disto, mas ainda não sei o
que pensar, o que me chateia não é terem me acusado e sim aque-
les olhos me perguntando se era verdade.
Estava a duas horas ali quando um rapaz da policia fala meu
nome;
— Seu advogado o espera.
Sai quieto, eu não tinha advogado, chego a sala e olho o se-
nhor, não conhecia, poderia ser um problema a mais ou a menos,
olhei ele e perguntei.
— Sabe que não tenho dinheiro para lhe pagar?

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— Sei senhor João, mas estamos determinando sua liberdade
condicional, é réu primário não te passagens anteriores, mas terá de
se manter quieto no interrogatório.
— Quem vai lhe pagar?
— Está pago senhor, me adiantaram a não entrar neste tipo
de discussão com o senhor, se não aceitar minha ajuda, já fui pago
mesmo.
Olhei o advogado, deveria ter uns 30 anos, jovem demais,
sorri, eu não era velho, mas sempre me sentia um velho.
— Pelo jeito não tenho alternativa.
— Todos temos, mas elas geram os frutos de nossas escolhas.
— Vamos lá então! – Não estava confiante, e não sabia se
conseguiria manter a boca fechada. Olhei o advogado e falei. – Se
não conseguir ficar quieto, me esquece, tudo bem?
— Pelo jeito não entendeu a encrenca que se meteu.
— Acho que quem me acusou não me conhece, mas como
explicar para uma criança, coisas de velho?
— Coisas de velho?
— Senhor, eu fiz exame antes de entrar aqui, vai demorar pa-
ra sair, mas quando sair, saio pela porta da frente, mesmo com um
relato chorado de uma criança.
— Sabe que provas circunstâncias às vezes caem nas mãos de
delegados antigos.
— Desculpo o senhor, não o delegado, que para estar no car-
go deveria ser advogado com carteira da OAB, o que quer dizer,
conhecer leis, sem as interpretar.
— Pelo jeito vai se complicar.
— Não tenho como me complicar mais do que já estou.
O advogado foi a parte frontal, eu esperei ali um pouco e fui
chamado a uma sala, as coisas normais, nome completo, ocupação,
onde residia, uma identificação que em nada falava sobre a minha
pessoa.
— Senhor João, temos uma denuncia contra o senhor refe-
rente abusar de uma menina, o que tem a relatar sobre isto.
— Inocente, como os exames vão revelar.
— Conhece a menina que lhe acusa.

30
— Sim, saberia o nome completo dela, da mãe dela, da irmã
dela, e até do caçula de 5 meses.
O advogado me olhou, pois eu estava afirmando que não fora
eu, mas conhecia a suposta vitima.
— Já teve intimidades com uma menor de idade?
— Não.
— Tem um processo de racismo contra o senhor, pelo jeito é
um encrenqueiro.
Olhei para o advogado e ele falou;
— Processos anteriores em andamento e não julgados não di-
zem respeito a esta falsa denuncia de abuso.
— O senhor não pode se ausentar da cidade sem notificar a
policia de onde vai senhor, será chamado a depor outras vezes, e
dependendo do resultado dos exames, a julgamento, tem ciência
disto?
— Sim. – Fui seco, não sabia ainda se sairia, mas estava ten-
tando não me complicar, meu histórico é de problemático, embora
tenha apenas um processo civil criminal de racismo, que não vai dar
em nada, digamos que não sou bom, e um dia bebendo me chama-
ram de alemão azedo, e eu chamei o senhor de preto fedido, estra-
nho, o rapaz me chamar alemão azedo pode, já eu não posso cha-
mar de preto fedido, nunca entendi isto, já que eu não estava fe-
dendo azedo, mas o pretinho estava fedendo a pinga.
O advogado me conduziu a porta, depois de assinar um mon-
te de documentos, saio a porta da delegacia, um caso tão sem re-
percussão que não tinha nem repórter de porta de cadeia.
Olho aqueles olhos cor de mel me olhando e olhei o advoga-
do, ele não falou nada, talvez a visão de vampiros de vocês seja
diferente da minha, mas vi a forma diferente que o delegado olhou
o advogado, vi a forma até temerosa de o dirigir a palavra do escri-
vão, enquanto me tratavam como um culpado.
— Você que pagou o advogado?
— Sabe que alguém teria de pagar.
— Sabe que não esperava sair de lá antes de 15 dias, normal
a pobres como eu.
— É pobre porque quer.
— Não, sou pobre porque não fiz força para não o ser.
31
Ela sorriu, estranhei, mas não sabia como me portar.
— Esta sempre na defensiva?
— Quer oque Dara, ainda estou tentando entender como me
meto em encrencas assim.
— Sabe que o delegado ficou com medo de o deixar lá, ele
não sabe que é apenas um encrenqueiro.
— Por isto ele me liberou?
— Por isto ele nem falou a ninguém que você iria ser liberado,
e já está do lado de fora.
— Então tenho de lhe agradecer? – Falei a olhando aos olhos.
— Não quero esmola.
— Bom saber, mas não entendi porque me tirar de lá, mas se
não quer agradecimento, e não tenho dinheiro, como pago minha
divida.
— Ainda não estou cobrando nada.
— Pode estar perdendo a única chance Dara.
— Sempre arisco?
— Me conheceu alcoolizado, bem menos arisco.
Ela fez sinal para que eu entrasse no carro, vi o delegado
olhando pela janela, não sei o que pensou que eu era, mas por al-
gum motivo, ele me deixou sair, lembrei que lendas tem este poder.
Não entendi para onde estávamos andando, vi o carro pegar
a rápida para o centro, e pouco depois, paramos em uma casa no
Agua Verde, olhei um rapaz abrir o portão, entramos e Dara falou
olhando o advogado.
— Fica atento a este caso Roberto, não sei ainda se isto é
uma armação infantil ou algo maior.
— Fico de olho, não entendi quem é este senhor, vi seu pai o
por para fora de uma festa, e agora você o protege.
— Roberto, sabe como eu, que quando entrou lá, eles não
olharam mais os dados, eles sabem quem você representa, pode
não entender porque nos respeitam, mas João sabe.
— Ele é do esquema, mas e seu pai, concorda com isto?
Olhei um senhor entrar na peça e olhar o rapaz.
— Sim Roberto, eu estou ciente disto, não se preocupe.
Os olhos de Roberto pareceram desviar do senhor, ele se
despediu de Dara e saiu, eu estava novamente em um mundo que
32
desconhecia, e tudo me indicava problemas, para qualquer lado que
eu andasse.
— Novamente onde não gosto rapaz.
— É só me apontar a porta de saída senhor! – Eu não sabia
recuar, e sei que algo este senhor sabia que não o deixava gostar de
mim, e eu nunca fui de forçar ninguém gostar de mim.
— Temos de conversar João, hoje sei seu nome, antes apenas
um invasor.
— Conversar?
O senhor entrou, Dara fez sinal para entrar, vi uma senhora,
deveria ser a mãe de Dara, ela me olha e fala;
— Este ai é o problema filho?
Errei, esta era a avó de Dara, ela era Neta direta de uma len-
da, mas se Tudor Filho estava ali, Dara mãe estava ali, só faltava
uma pessoa entrar pela porta.
Dara olha meus olhos e fala;
— Perdido?
— Pelo pouco que sei, só falta entrar Tudor Pai pela porta, o
pai de toda a lenda, o senhor por trás de todos os mitos modernos.
Vi um rapaz, não daria 25 anos a ele, sorri, Dara não parece
ter entendido meu sorriso, mas olhei o rapaz, seu nariz, a disposição
da barba, o sorriso de séculos e falei.
— Desculpa atrapalhar senhor, não queria incomodar.
Dara me olha intrigada, e ouço.
— Sabe que poucos que conheci, mantem um raciocínio aber-
to a este ponto, de não se prender a uma forma física. – O rapaz
que olha-me serio e estica a mão, o português meio estranho aos
ouvidos – Prazer, Tudor de Buzau.
— Prazer, João.
— Não entendi como ele pode ter esta firmeza, parece ape-
nas um nada, não entendo pai! – O senhor Tudor, o que me coloca-
ra para correr.
— Ele não tem cheiro de uma bruxa filho, e sim de uma pagã,
sei que nunca falamos da diferença.
— Verdade pai.

33
— Bruxas se aprisiona com sal, pagãs, por não terem a vida
presa a nada, não se dedicarem a eternidade, vivem seus no máxi-
mo 80 anos, mas não há força descomunal que as prenda.
— E porque está interessado nele avô? – Dara.
— Nunca conheci um humano com traços de ligação pelo
cheiro a uma pagã, mesmo uma bruxa já seria muito, mas uma pa-
gã, muito difícil, ele pode não saber neta, mas tem de ter uma arvo-
re forte que o gerou.
Eles estavam falando de mim, estava estranhando, estavam
me tratando como uma anomalia a ser estudada, mas obvio, não
me considerava nem anomalia, nem normal, apenas um João.
— Porque acha isto vô?
— Não pense que pessoas normais atraem pagãs, ele pode
querer negar, pode querer não ser, mas sabe que uma pagã o fis-
gou, ele sabe que estão com as historias entrelaçadas, vamos ape-
nas observar, pois se ele for apenas um humano, este amor o mata-
rá, ele colhe as pragas de ter esta ligação com uma naturalidade e
resistência que não é normal aos humanos.
Olhei eles e falei;
— Acho que estão me confundindo, não sou grande coisa.
— E não se preocuparia em ficar lá, mesmo sendo inocente?
– Tudor falou me olhando serio.
— Eu gosto de provar minha inocência, se os demais aceitam
ou não, não posso fazer nada.
— Gostaria de lhe deixar claro rapaz, que estou de olho em
você, se quer saber por quê? Pois quando viemos ao Brasil, foi fu-
gindo de confusões com bruxos, sei que meu filho não gosta de
nada que tenha ligação com Wasser, e parece que você está enre-
dado com uma das meninas que ele iniciou, mas uma que tem chei-
ro do Eterno, na minha historia, não confio no Eterno, ele nos amal-
diçoou, não gosto de ninguém que cheire ao Eterno, entendo o re-
pudio que meu filho tem de você, pois você tem o cheiro que ten-
tamos esquecer, que um dia um Moroi brigou com o eterno, e este
nos condenou, mas como estou há muito tempo nisto, tento olhar
para o presente com calma, para não deixar uma trégua passar,
Wasser afirmava que tínhamos uma forma de sair da maldição, mas
ainda ando no planeta, com minha amada, não sei ao certo como e
34
quando vamos descansar, mas por cordialidade a uma cidade que
nos aceitou, nos acolheu, apenas alertando que estamos de olho.
Vi o rapaz olhar o senhor, idades invertidas, deve ser ruim ver
os filhos envelhecerem e estar ali na mesma posição, deve ser ruim
vê-los morrer, os dois saem e vi a senhora olhar para Dara e falar.
— Vamos deixar vocês conversarem neta, mas saiba que seu
pai, sua mãe, seu avô, eu, não somos a favor disto, sei que isto lhe
incita a nos provar que estamos errados, mas tenta entender, pa-
gãos não são um caminho para Morois.
A senhora saiu, Dara me olhou e faz sinal para que me sente;
— Pelo jeito eles não vão lhe querer por perto mesmo.
— O que não falaram Dara?
— Porque eles teriam algo que não falaram? – Ela pareceu se
agarrar a esta frase.
— Dara, eles lhe deram carta branca para me tirar de lá, eles
não teriam de se meter, sei que a forma que Keka fala do Eterno,
apenas ela fala.
— Ela fala do Eterno?
— Quando quer me atacar, quando quer me chamar de velho
inútil, quando quer me afrontar.
— O que ela fala?
— Que algumas pessoas ganharam o dom do Eterno, no pas-
sado nesta cidade, pessoas que andam naturalmente a rua, pessoas
que os demais não dão nada, mas que somente os tocados pela luz
do Eterno, podem entender o futuro, cuidar do caminho, mas de-
pois disto sempre agressões.
— Gato e rato, nunca entendi este tipo de relação.
— Nem eu.
— Mas falou em Luz do Eterno, sabe que a definição de Eter-
no de Tudor, é diferente de algo com Luz.
— Sei, segundo ela, Wasser via o eterno como duas entida-
des, mas ela se viu diante do Eterno, no mundo dos Lobos, ele a
lavou com conhecimento, não entendo, ela fala que o ser que a deu
conhecimento não é o mesmo que seu mestre pregava.
— Ela duvida que foi o verdadeiro Eterno que a tocou?
— Não, mas ela e uma prima dela, falam que terão de ensinar
a Wasser o novo caminho.
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— Elas acham que superaram o mestre?
— Não entendo disto, na verdade não sei ainda o que faço
aqui, como saber o que elas sabem referente alguém que vi poucas
vezes.
— Você conheceu Wasser?
— Sim, a uns 4 anos, antes dele morrer.
Dara me olha e fala;
— Pensei que você não sabia quem eu era, naquele dia você
deixou Vitor boiando, é raro alguém entender disto, mas logo de-
pois me deparei com a verdade, alguém comprometido pelo cheiro.
— Não é um compromisso, mas é um caminho de provações.
— E não se nega as provações?
— Não, mas isto sempre me mete em encrenca.
— E como vai se livrar da acusação?
— A acusação é mesquinha, mãe, filha e tia, querem um pai
para a criança que a menina parece estar esperando, e escolheram
o pai, porque eu? Não sei, alguém fácil de culpar, poucos me ou-
vem, falo sempre demais, mas odeio a ideia de ser preso por isto.
— E como sabe que ela está gravida?
— Pode ser apenas uma observação errada, mas é minha
desconfiança, acha que não fugi de uma armação da mesma menina
antes, que não sei que ela estava tentando algo?
— E o que Keka achou?
— Sei lá, não gostei das perguntas dela, mas não posso con-
denar alguém por não acreditar em mim, nem eu acredito.
— E vai fazer oque agora?
— Apelar, esperar os exames, ver elas mudarem a versão, a
menina falar que foi antes, que não tinha falado antes, proporem
um acordo para não me incriminarem, que teria de assumir a crian-
ça, acho que alguns acham que sou rico.
— Fala como alguém experiente.
— Um maluco apenas.
— Porque me beijou aquele dia?
— Queria saber se estava mesmo interessada, mas não en-
tendi ainda você, parece querer, mas não beija com paixão, e sim
com duvida, não parece interessada em mim, e sim em algo que
emana de mim.
36
— Sabe que sua força é incrível para um velho bêbado, como
você se definiu.
— Certo, um velho aos 47 é um elogio, pois vivi mais que mui-
tos, meu pai trabalhava para a CR Almeida quando eu era pequeno,
então em meio a um verão daqui, pegamos um avião, e passamos 4
anos em Portugal, volto falando estranho.
Penso se deveria contar minha historia.
— Chego a um Brasil em golpe militar, escolas publicas na
maioria, mas meu pai voltou, pois havia passado em um concurso
para fiscal federal, a Curitiba dos meus 10 anos não existe mais, mas
vivi muito, viajei muito, estudei muito, me dei mal na escolha de
meu amor eterno, e estou a 4 anos sozinho.
— 4 anos e não se envolveu com alguém?
— Não tinha nada que me levasse a frequentar o Sitio Cerca-
do, mas como dizem, se está no seu caminho, você vai cruzar com a
pagã de sua vida, 4 anos a vendo crescer, estranho como algo que
era carinho de filha, ela conseguiu mudar, mas obvio, olhar para ela,
fez outras meninas de mesma idade ou mais novas acharem que eu
era fácil.
— E pelo jeito foge, pensei que deixaria eu tirar uma casqui-
nha no sábado?
— Eu não sou bom em romances, em mentiras, mas sei que a
sinceridade as vezes atrapalha.
— Quem manda falar algo com deboche, dá a sensação inver-
sa do que está falando. – Dara fala isto com malicia.
— Dara, quantos namorados teve na vida?
— Porque acha isto importante?
— Porque eles devem ter morrido feliz, mas eu ficaria malu-
co, só de pensar no que você viveu me deixa confuso.
— Você é diferente, tenta entender, a maioria apenas vive.
— Acho que não sou tão diferente, mas é que gosto de saber
onde piso, e neste momento, estou quase em uma confusão, pois a
dois anos não metia-me em encrenca, meu processo que corre de
racismo já está a mais de 2 anos para ser terminado, mais 4 meses e
vai perder validade, vai ser arquivado.
— E porque acha que esta entrando em uma confusão?

37
— Dara, você quer entrar em minha vida, Keka quer sair da
minha vida, uma menina chamada Thamis fala que estou na vida
dela, uma criança de 14 anos.
— E tudo na mesma hora?
— Tudo depois de 4 anos sozinho, com certeza as luzes pis-
cam reluzentes “confusão”. – sorri da frase.
— Acha que a imprensa vai se manter fora, as vezes eles
atrapalham.
— Dara, eu represento roupas e calçados, dois dos meus re-
presentantes me afastaram, dizendo que não podem ter a imagem
vinculada a uma pessoa como eu, mas não sei ainda o que fazer.
— Tem reservas?
— Terei de conter meus gastos, apenas isto.
— Certo, não vai me dar bola?
Olhei em volta, um pensamento bobo passou por minha ca-
beça e falei.
— Mora aqui?
— Sim, moro aqui, não me respondeu João.
— Eu tenho de resolver problemas sérios agora Dara, sei que
deve pensar que nada é serio diante da vida, mas eu acredito que
muitas das coisas sejam, talvez tenha a conhecido no dia e hora
errada, sabe que as vezes não é o que sentimos, mas em que peda-
ço de nossas vidas estamos, e se estamos preparados para ir em
frente.
— Não parece apaixonado, parece num discurso, mas não na
pratica.
— Não preciso estar apaixonado Dara, minhas linhas estão
cruzadas com a menina, estão cruzadas com você, estão cruzadas
com Tudor, e provavelmente no futuro com o próprio Wasser, mas
tenho de pensar em como sobreviver a isto.
— Sempre racional demais, estranho pessoas racionais.
— Dara, como sabe que gosta de mim? Mal me conhece, mal
entende meus problemas.
— Sempre duvida das pessoas?
Pensei antes de falar, não queria ofender, embora estivesse a
um passo de descriminar, achei melhor não o fazer.

38
— Tem de ver que sou uma criança comparando a você Dara,
e não estou lhe chamando de velha, mas o que eu entendo de vida,
se parte do que você viveu, para mim é lenda, e para você, passado.
— Sabe que tempo não nos proíbe de errar, mas os erros
doem mais tempo, são lembrados mais tempo, mas temos o mesmo
tempo para mudar as coisas, às concertar.
— Sei que precisa pensar sobre tudo isto, e talvez você esteja
certo referente a entrar em sua vida numa hora conturbada, mas
tem de entender, somos teimosos, acho que nos apegamos a tei-
mosia para dar sentido a esta eternidade de tempo.
As palavras não foram tão amistosas, mas não foram como
pensei que fosse, até segurei a língua.
Peguei o ônibus na Avenida Republica Argentina, no sentido
do bairro, depois o Circular Sul e depois o Ligeirinho Bairro Novo.
Cheguei em casa, meus pensamentos estavam voando, ligo o
computador, sem entrar na rede social, apenas acesso a conta ban-
caria, verifico como estão os trocados, e faço uma planilha de gas-
tos, teria de reagir.
Toda vez que estou meio chateado, tenho um amigo ali no Al-
to Boqueirão, vou lá conversar, ele também acaba de separar-se da
esposa, ele também se chama João, ele também, como eu, passa
desapercebido da maioria.
Caminho ate a casa dele e o mesmo me atende a porta e per-
gunta;
— Como está maluco, perdido por aqui?
— Precisando trocar uma ideia.
— Problemas?
— Sim, acabo de ser solto da Delegacia do 10º, de uma acu-
sação que sou inocente, mas preciso trocar uma ideia.
— Problemas?
— João, o que você entende de Morois?
Vi o rosto do senhor mudar, não era falar de futilidades do
bairro.
— Cruzou com um?
— Tudor de Buzau.
— Pai ou filho?

39
— Os dois, conheci uma moça a uns dias, tomando uma cer-
veja, e fui expulso da festa pelo pai dela, dai nenhuma novidade,
mas depois soube que era Tudor filho.
— Se envolveu um uma Moroaica?
— Digo que adoro você João, nada você leva pelo lado nor-
mal, o que é isto? O que é aquilo? Vai direto ao assunto, mas sim,
uma neta direta de Tudor de Buzau a lenda.
— E porque quer conversar?
— Você que entende disto, o que esta acontecendo de dife-
rente na cidade.
— Porque deveria ter algo diferente?
— Eu me acerto com Jessica Talyze, depois de 4 anos espe-
rando, e cruzo no mesmo dia com Dara de Buzau, 2 dias depois, sou
acusado de assedio por uma criança que nunca cheguei perto.
O senhor me olhou, pareceu pensar um pouco e falou;
— Esta encrencado, tem de saber algumas coisas João, eu es-
crevo, mas nunca vi Tudor, nunca vi Keka, e muito menos Wasser,
eu escrevo o que parece acontecer, mas não sei ver auras, não sei
fazer fogo, ou truques legais.
— Certo, você escreve apenas, mas nunca os viu, eu não es-
crevo e estou sempre em contato com estes seres, mas o que pode
ser isto, algo vai vir por ai, não sei com quem falar.
— Se livrou fácil da acusação?
— A acusação é vazia, mas os Morois me mandaram um ad-
vogado para me tirar de lá.
— Se esta menina que fala, for um por cento do que escrevi,
ela sabe mais para lhe ajudar que eu.
— Sei que vou discutir com ela então estou me preparando.
— Não sabe João, você acha, não é a mesma coisa.
— Acha que ela pode ajudar?
— Pelo menos alertar quem pode, não sei ao certo, mas pode
ter razão, parece coisa de historia ditada pelo tempo, e não sei ao
certo se saberia encarar minha vida assim, como algo ditado e que
por mais que tentasse não conseguisse mudar.
— Eu encaro com naturalidade, apenas não deixo que eles fa-
lem o que acham que vai acontecer.

40
— Você é especial João, mas vai lá, sei que deve estar que-
rendo falar com a moça e está tomando coragem.
— Sempre tentando ser esperto, mas nem sempre consigo.
Sai dali, caminhei uns 12 minutos e bato a porta de Keka, ela
me olha pela janela e a mãe vem a porta.
— O que quer aqui senhor?
— Falar com sua filha.
— Ela não vai falar com o senhor.
Olhei para a janela e ela não estava mais lá, pensei em deixar
um recado, mas sabia a resposta, “Não sou carteiro para dar reca-
dos!”, então apenas olhei para a senhora e me virando falei.
— Que nunca caia em uma armação desta senhora!
Dei as costas e comecei a me afastar, não sabia para onde ir,
quarta feira não se bebe, minha conta me induzia a não querer gas-
tar dinheiro, atravessei duas quadras, passei sobre um riacho por
uma ponte de madeira, passei sobre o trilho de trem e comecei a
caminhar na Rua São Jose dos Pinhais, parei mais a frente em uma
Lan House, fiquei muito pouco tempo, não sabia o que fazer, mais a
frente parei na praça das Tendas.
Olhei a praça, quarta feira a tarde, um rapaz parou ao meu
lado e perguntou;
— Perdido aqui João?
— Pensando, talvez precise pensar, embora não saiba ainda o
que vou fazer, tenho de pensar.
Meu telefone tocou e era uma das lojas que atendia, o senhor
educadamente fala;
— João, tudo bem?
— Fala Rogerio.
— Mandaram um representante novo, queria saber se ele é
da empresa, pois o cara não entende nada de moda inverno, ainda
quer vender a moda verão.
— Rogerio, eu não conheço o novo representante da região,
tive problemas e me afastaram, mas tá precisando de que?
— Começar a montar o mostruário de Inverno, sabe que este
sol em Curitiba nunca dura.
— Estou mudando de empresa Rogerio, mas o problema é
que a empresa que estou entrando, não dá prazo, sei que é difícil.
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— Me complica assim.
— Os preços e a qualidade são melhores, mas eles ainda não
tem como dar prazo.
Uma ideia me passou a mente, e comecei a esquematizar ela
enquanto falava com o senhor, que fala.
— E vai passar aqui quando com este mostruário?
— Terça feira que vem, estou ainda me inteirando das peças,
sabe que gosto de fornecer o melhor.
— Lhe espero, sei que sempre me indica a moda do ano se-
guinte, quantas brigas até lhe ouvir João, mas espero você semana
que vem.
Sorri, e ouvi o rapaz falar.
— Uma moça vem ali que parece brava?
— Não a culpo, sei que a encrenca deve estar por perto, e
ainda bem que não vazou.
— Aprontou pelo jeito? – O rapaz de nome Agnaldo.
— Quem dera, e dai, já definiu qual das 300 meninas que deu
encima esta namorando?
— Elas querem algo serio João, eu só tenho 19.
— Verdade, seu bisavô a esta altura já deveria estar traba-
lhando, com 3 filhos para criar.
Ele sorriu e olhei para traz, vi Nane chegando e me olhando
com reprovação.
— Pensei que o safado ai ainda estivesse preso. – Nane.
Não respondi, talvez a visão que os demais fizessem de mim,
viesse a tona, mas não estava para me lamentar muito e muito me-
nos para pegar leve.
— O que tem com isto Nane? – Fui ao ataque.
— Não vai negar?
— Adianta, vocês já me condenaram, vocês já estabeleceram
minha culpa, sei até de lojista que ligou para o meu chefe e este me
afastou das vendas, mas tudo bem, o que faz aqui Nane?
— Você fez minha prima sofrer.
— Fiz? Ou ela sofreu por não acreditar em mim, é fácil julgar
alguém Nane, mas o que faz aqui?
— Soube que minha tia não deixou você falar com ela.

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— Se ela quisesse, ela estaria já aqui para conversarmos, ela
não quer, novamente fugindo, mas melhor assim, não a envolvo nos
meus problemas.
— Acha que escapa?
— Nane, pensa um pouco, estou livre antes do fim do dia da
acusação, nem a acusadora, que está bem ao fundo agarrada com o
namorado, espera por isto, mas não é com estes que me preocupo,
e sim com gente que insiste em entrar em minha vida.
— Vai por outra ao seu lado, Keka lhe mata e amaldiçoa a
moça.
— Seria legal, eu morto, uma amaldiçoada, e tudo que ela
aprendeu, dado a ela, retirado por quem ela respeita.
— Ninguém iria se meter, sabe disto.
— Tô falando do Eterno Nane, não destes meninos de rua se
achando gente.
— Você tem algo com a Keka? – Agnaldo.
— Digamos que o que tenho com ela, nem ela e nem eu po-
demos fugir Gui, pois foi ditado pelo mestre dela, não por mim,
Nane se faz, mas... – estava olhando a moça nos olhos – sabe que
não sou o que ela quer se convencer que sou, pois senão já teria
rolado a muito tempo.
— O grupo com a moça que falou tá vindo ai, mexeu com o
Paulinho João, tá maluco.
— Cai em uma armação, quem vem junto?
— Aquela Thamis, o Jonathan, e dois rapazes que não conhe-
ço, mas que devem vir dar apoio.
Olhei para Nani e falei;
— Só avisa a Keka que na segunda que vem estou na cidade
de novo, vim falar com ela antes de ter de defender os trocados
fora daqui, mas se ela não quer falar, fica para semana que vem.
— Aquele Pedro está lá tentando se aproximar.
— Avisa ele Nani, que ela lê auras, que ela sabe identificar
uma mentira, uma angustia, um mau agouro e mesmo palavras de
inveja, senão ele não vai ter chance.
Senti alguém me empurrar fui a frente e me virei para quem
me empurrara, Paulinho com certeza, olho ele nos olhos e falo.
— E dai Paulinho, resolveu vir brigar?
43
— Soube que deu encima de minha namorada.
— Encima, desculpa, o que ela falou para o delegado, é que
você vai criar meu filho, Paulinho, ou posso chamar de corninho.
— Eu te quebro?
— Trouxe outros 3 para garantir que consegue bater em um
velho Paulinho.
Eles estavam me cercando, lá ia eu apanhar provavelmente,
não poderia agredir o rapaz a frente que responderia por agressão a
menor, e o mesmo menor a minha frente, se me batesse, a lei naci-
onal o defende, pois é menor, estranho pois eles estavam me cer-
cando e não via isto com bons olhos.
— Como se atreveu a tocar nela?
— A pergunta Paulinho, como se atreveu a engravidar uma
criança como ela, tá jogando encima de mim, entrou na conversinha
dela, quer oque, dinheiro, esquece, um DNA diz que você é o pai, diz
que vai pagar pensão, e não adianta querer sair para a saia da ma-
mãe Marta, que agora ela lhe põem para trabalhar na marra, ela
não vai ter como sustentar mais duas bocas em casa.
— Não fala besteira.
— Besteira né, me acusar tem coragem, me bater tem cora-
gem, mas assumir a criança, se duvidar a ideia foi até sua, um co-
varde, mas ... – olhei para Thamis – Se continuar assim, eu crio a
criança, mas não vera a cor do dinheiro, com certeza a criança terá
tudo de bom, mas não verá a cor do dinheiro, nem você e nem
aquela capitalista da sua mãe.
— Não fala besteira.
— Menina, você fez falso testemunho, se não tivesse gravida,
garanto que conseguia uma instituição de menor para cuidar da
marginal que está se tornando.
— Eu não menti.
— Garanto que os exames vão provar que não foi comigo, seu
namoradinho não vai assumir, então inventará outro culpado, mas
dai o delegado já está vacinado contra as suas mentiras.
Paulinho estava ali, se via gente ao longe parando e obser-
vando, estava esperando ele me bater, já que como expliquei, não
poderia reagir.

44
Odeio sentir minha mente vasculhada, mas era a sensação
que eu tinha, e não parecia ser Nani ao lado que o estava fazendo,
mas estava em um impasse e não teria como dar as costas a eles,
jovens são valentes em Curitiba, eles atiram pedras pelas costas,
coisas pesadas, e saem correndo.
Thamis me olha e fala;
— Vai continuar negando que deu encima de mim.
— Thamis, os exames vão falar isto, não eu, o advogado já me
alertou que vocês provavelmente vão mudar a versão, a criança
assustada vai mudar a versão, estava com medo de falar, mas qual-
quer coisa que fale, só vai se complicar, pois sabe, nunca cheguei
perto, por mais que você tentasse, ainda bem que nunca nem cai
nesta provocação.
Olhei para Jonathan e falei.
— Cai fora pirralho, seu pai me autoriza lhe dar um corretivo.
Olhei os dois rapazes e apenas falei;
— Vão querer a policia aqui, com este cheiro de maconha da
veste de vocês?
— Vai nos denunciar?
— Melhor os dois caírem fora, ou falo para o Diguinho não
vender mais nada para os dois. – Diguinho era o fornecedor de Ma-
conha em 6 praças da região, ele gostava daquela pois esta praça
dividia metade de seu espaço com uma escola.
Os dois olham para Paulinho, na duvida, eles sabiam quem eu
era, eu não sabia quem eram, mas eles não precisavam saber.
— Acha que vai levar a melhor João?
Olhei para Thamis e falei;
— Melhor ir para casa, que daqui a pouco vou lá falar com
sua mãe, sei que este seu namorado não vai encarar, mas some
para casa, agora.
Paulinho viu ela soltar a mão e falar;
— Mas se não é seu porque vai lá falar com a minha mãe.
— Quer mesmo que fale na frente do Paulinho? Esquece.
Paulinho não entendeu, mas é que iria jogar, e jogar com no-
mes era algo que sabia fazer. Vi ela beijar Paulinho e sair dali.
Paulinho sozinho, os dois se afastaram, Jonathan ficou mais
ao longe, resolveu segurar seus impulsos.
45
— Mas ainda te pego João.
— Melhor vir pronto para me matar Paulinho, pois se não o
fizer, sabe que estará bem encrencado.
— Não tenho medo de você.
— Sinal que não me conhece.
Olhei para Nani e falei;
— Ainda ai?
— Tenho de falar com minha prima, mas ela está furiosa.
— Sei disto, eu também estou, odeio falar uma coisa e a pes-
soa lhe virar e perguntar o que ela, você, e todos a volta sabem, que
esperei 4 anos, para poder falar para ela o que sentia, e o que ela
faz, me acusa de ter feito, algo que não faria de forma alguma.
Me despedi de Agnaldo e caminhei pela rua no sentido do
CAIC, duas quadras depois, uma antes de chegar no CAIC eu bati em
uma porta.
A senhora me olha no portão e fala gritado;
— O que faz aqui estuprador de crianças.
— Grita mais alto senhora, quem sabe se convença, mas gos-
taria de conversar, antes que sua filha lhe coloque em uma encren-
ca maior.
— Encrenca maior do que estar gravida aos 14 anos.
Sorri, confirmado o que achava, mas encarava a senhora que
vê a filha olhar para ela na janela e fala;
— Vamos conversar mãe, não era o que a senhora queria?
A senhora saiu para fora, olha em volta, não se via os vizi-
nhos, mas todos deveriam saber que eu estava ali.
— Veio conversar, pensei que ainda estava preso.
Não respondi, entrei, casa simples, estranho casas quando
são mais simples que a minha, pois sempre acho que pior que a
minha é difícil, olhei Thamis e falei.
— Vamos conversar menina, me acusou de que?
Ela olha a mãe a porta, olha para mim e pergunta;
— Disse que minha mãe vai se dar mal, por que?
— Você a induziu mentir em um depoimento oficial para a
policia, você não responde, é de menor, ela é alvo fácil, pobre, sem
advogado, eles adoram se fazer sobre estes, como se fossem santos
defendendo a sociedade.
46
— Mas como sabe que menti? – A senhora.
Olhei em volta, olhei uma sala em anexo, era sala coxinha e
sala de jantar tudo na mesma peça que não deveria ter 12 metros
quadrados, se via 3 portas na parede a direita, uma aberta que dava
para ver que era um quarto, com 3 cama, as outras duas deveriam
ser um banheiro pequeno e outro quarto, olho 3 cadeiras junto a
mesa encostada a parede, puxo a mais para a parede e sento, olho a
senhora e falo ate meio áspero.
— Senhora Ribeiro, melhor sentar um pouco, temos de con-
versar e chegar a um acordo que não a coloque em confusão, sua
filha pode ter contado uma historia bonita, mas ela se desmonta
com a prova que ela está gravida de pelo menos 2 meses, que não é
meu, que ela não fez relação sexual nos últimos 4 dias, o problema,
é não se meter em encrenca, porque ela está escondendo algo.
Os olhos da senhora foram para a menina, Thamis me olhou
como se querendo me condenar.
— Mas como se atreve a dizer isto.
Voltei os olhos para a senhora e falei;
— Senhora, ela não é minha filha, assim como não fui com ela
para cama, mas a pergunta é, porque eu? O que ela quer com isto,
vi que a cara de assustado do namorado dela induz que nem ele é o
pai, ou pode não ser o pai, a pergunta, o que ela esconde?
A senhora que ainda olhava a filha pergunta;
— Porque acusou o senhor João filha, se não é ele, sabe que
me induziu a dizer que vi ele aqui na segunda?
A menina desvia o olhar e olha depois de um tempo para
mim.
— Não pensei em fazer uma denuncia mãe, só queria que a
senhora o chamasse para conversar, não colocar o delegado nisto,
depois que a senhora falou em ir lá, eu não tinha como recuar mais.
— Mas porque filha? – O tom foi quase gritado.
A menina baixa a cabeça e fala;
— Eu gosto dele mãe, mas ele não me dá bola, ele agora está
quase casando de novo, não é justo.
— Filha, quem é o pai da criança?
Ela desviou os olhos, mal sinal, ela não sabia, coisas que ainda
hoje acontecem no Sitio Cercado, devem acontecer em bairros po-
47
bres do Brasil aos montes, senhores tidos como respeitáveis, ofere-
cerem um dinheiro que as meninas acham alto, por sexo, geralmen-
te sem proteção.
— Senhora, o problema é pior do que pensei, mas – Olhei pa-
ra Thamis – as coisas não se resolvem assim, e tem de me deixar
ajudar, não me denunciar a policia, ou falar para o namorado me
bater, isto não vai dar certo.
— Paulinho nem sabe de nada! – A frase saiu quase como um
desabafo.
— Mas quem é o pai – Gritou a mãe.
Olhei a senhora tentando manter a calma, mas também não
queria me posicionar muito.
— Senhora, acho que não entendeu o problema, e pelo jeito
bateu em sua filha gravida, para ter uma resposta, isto não ajuda.
— Não se mete na educação da minha filha.
— Vou ter de me meter, pois a surra que você deu nela, a fez
me apontar, a senhora é parte do me colocar nisto, e se não apren-
deu que ela está perdida, acho que o que não deu a ela foi educa-
ção senhora.
— Sai daqui, se não é o pai da criança, não tem nada que fa-
zer aqui.
Eu não me levantei olhei a menina e falei;
— Tem de querer ajuda Thamis, mas tem de parar com as
coisas que tem feito, sei que não tem como apontar o pai da crian-
ça, mas tem de mudar.
— Mas... – ela olha em volta, não tinham nada, fogão velho,
televisor de tubo, nitidamente limpo demais para 3 crianças terem
comido ali – como posso parar João.
— Precisa pedir ajuda para as pessoas certas, e duas pessoas
no seu caso não são certas, nem o Pastor Ricardo, e nem o seu tio
Vitinho, mas tem de quer ajuda.
A senhora estava me olhando, mas eu não me levantei, ela
começava a não entender a historia e pergunta;
— Porque o pastor Ricardo, um homem de Deus não seria al-
guém para a ajudar?
Olhei serio para a senhora e falei, seria algo que não queria
ser eu a falar;
48
— Porque aquele filho do Diabo, pagou sua filha para ficar
quieta depois de abusar dela, é um dos candidatos a pai, mas obvio,
o culpado vai ser o demônio, nunca aquele asco de pastor.
A menina me olha intrigada e a senhora grita;
— Agora vai desmoralizar o pastor, o problema é que esta
menina não me ouve.
— E a observa e ouve, ou vai deixar ela seguir o caminho da
Thais?
— A Thais é uma boa menina, ela coloca o bruto da comida
na mesa, graças a Deus ela conseguiu um bom trabalho.
— Sim, aos 16 abandonou os estudos para virar domestica, e
para sustentar a casa, pelo jeito as duas vão lhe dar o futuro que
quer senhora, um asilo de idosos de 5ª qualidade.
— Mas o que faz aqui?
— Vim falar com Thamis, a senhora não quer que converse
com ela na praça ou na minha casa, isto sim seria complicar a meni-
na, mas é bom a senhora ouvir.
— Não vou mais deixar você entrar na casa, acha que pode
destratar todos.
Olhei a menina e falei;
— Fala com sua mãe, se ela a bater, joga nela a culpa, diz que
ela lhe induziu dizer que era meu, se ela quer lhe complicar lhe mos-
tra do que você é feita, mas quero lhe ajudar menina, e sei que não
é o tipo de ajuda que você quer, pois sei que vai perder mordomias.
Thamis me olha e fala;
— Mas está com a Jessica.
— Quase esqueci que ainda tenho de falar com ela, se sair vi-
vo da conversa, dai vou dar um jeito de lhe ajudar.
— Já disse que não vou deixar. – A senhora, eu a olhei serio e
falei.
— Ou me deixa ajudar sua filha senhora Ribeiro, ou vou a
processar por calunia, difamação, falso testemunho e violência con-
tra sua filha, dai se você acha que as coisas estão ruins, vão ficar
muito pior.
Vi no rosto da menina o susto e a senhora falou;
— Mas porque ajudar se não é seu filho.

49
— Torça que não seja do seu irmão senhora, que o capo, en-
tão vai dar uma volta que preciso falar com a menina.
Os olhos da senhora se arregalaram e me olharam serio, tal-
vez o olhar para baixo da filha a fez se tocar que era uma das possi-
bilidade, e que a filha não falaria, ela sempre falava maravilhas do
irmão, um homem de Deus, um santo irmão, algo estava errado e
ouvi a menina falar.
— Posso saber no que ele pode ajudar mãe, ou não?
A senhora contrariada levanta-se e sai pela porta.
A menina foi até a janela e só veio a mesa quando ouvi o por-
tão frontal de metal fechar, a senhora já deveria estar a calçada.
— Porque falou isto para minha mãe?
— Falei alguma mentira?
— Mas como sabe?
— Homens são seres que não prestam, e ouvi uma conversa
de bar entre seu tio e o pastor, eu quando ouvi não sabia que se
referiam a você, pensei que estavam falando de sua irmã, mas tudo
me indicou você depois da confusão que armaram.
— Mas porque tem de ficar com aquela bruxa.
— Ela não é bruxa, sabe disto.
— Todas minhas amigas a chamam de bruxa.
— Thamis, sei que não estamos aqui para falar de Keka, mas
toda vez que você falar mal através de inveja, ou difamação de uma
filha da terra, ela fica mais forte, e vocês mais fracas.
— Mas o que quer falar?
— Saber quais as possibilidades sobre quem é o pai?
— Porque?
— Eliminar problemas, vai ter de parar com isto, já fez um
pré-natal?
— Não ainda.
— Então vamos registrar você no Mãe Curitibana, e você vai
fazer todos os testes, nunca se sabe Thamis, uma doença venérea,
um problema genético, se visto sedo, não complica a criança.
— Mas não vai casar comigo?
— Primeiro você não tem idade para casar, segundo, mesmo
gravida, vai estudar, terceiro, vamos ter de cuidar desta criança e

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vou por todos os adultos que podem ser pai da criança a parede, e
vou os chantagear, eu não sou santo menina.
— Mas...
— Cada um deles vai entrar com no mínimo um salario míni-
mo por mês até a criança nascer Thamis, e não é você que vai co-
brar isto, sou eu, e se forem muitos, não me interessa, isto é entre
eu e você, ninguém mais.
— Mas uma hora terei de fazer um teste de DNA.
— Sim, dai saberemos qual deles vai pagar a pensão da crian-
ça, não antes, não depois.
— E se não quiser?
— Sabe o peso de ser mãe solteira criança, sabe o quanto te-
rá de ser forte para aguentar isto?
— Mas você vai estar com a Keka.
— Isto é um talvez menina, não uma certeza, já não era uma
certeza antes, agora que não sei mais.
— Mas dizem que ela gosta de você.
— Dizem por ai que ela lê auras, ela sabia que não estava
mentindo e mesmo assim, não falou comigo.
— Não sei como alguém pode fazer algo assim.
— Também não sei, mas que ela faz, isto faz.
— E ainda não quer que a chame de Bruxa?
— Ela nunca foi uma bruxa, sabe disto, esquentada, mas nun-
ca alguém do mal.
A menina segurou minhas mãos e falou me olhando nos
olhos, as vezes é difícil controlar todos os fatos.
— Mas porque nunca deu bola para mim?
— Você ainda é uma criança Thamis, nunca vai entender.
— Não sou mais uma criança. Sou uma adolescente.
— Uma “aborrescente”?
— Não, eu cresci.
— Sou um velho, mas sei esperar menina, se não sabe espe-
rar as coisas, a vida nos tira o pouco que conquistamos, pois esta-
mos correndo atrás do que queremos as pressas.
— Mas está aqui.
— E quero cuidar de você, mas não seremos mais que ami-
gos, talvez mais íntimos que isto, mas tem uma criança a criar ai.
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— Íntimos? – O sorriso malicioso da menina mostrou que ela
não entendeu minha ideia, mas sorri e falei.
— Somente se topar entrar nesta briga saberá como vamos
nos virar.
— Mas olha em volta?
— Vai lá dentro e pega uma folha de papel, coloca todos os
nomes que você irresponsavelmente levou a cama, ou lhe levaram a
cama, e a quantidade de vezes que ficou com eles, daqui a uma
semana vamos conversar.
— Uma semana?
— Sim. Seus pais pagam aluguel aqui?
— Thomas não é meu pai, mas parece que ele está saindo de
casa, minha mãe brigou com ele a dois meses.
— Ele não estará na lista? – Perguntei serio.
— Pensa que sou oque, João.
— Menos mal.
A menina foi para dentro, 22 nomes, para uma menina de 14
anos, muitos nomes, eu não tive relações nos meus 47 anos com
mais que 4 mulheres, sinal que a menina até nisto me colocaria
como um principiante.
Sorri dos meus pensamentos, coloquei a lista no bolso e falei
antes de sair.
— Cuida com o que fala, mantem a calma, diz que vou ajudar
um pouco, tenho que me organizar, mas em uma semana, acredito
que as coisas começam a mudar.
— Vai fazer oque?
— Eu perdi o emprego menina, tenho de me ajeitar também
antes de conseguir lhe ajudar.
— Compliquei a sua vida.
— Depois eu cobro isto com juros.
— Olha que pago. – A menina queria me provocar com aque-
le sorriso maroto, mas estava tentando ser frio.
Saio pela porta e olho a senhora.
— Melhor não bater nela senhora, que vai se complicar, eu
vou me ausentar uma semana, mas volto para conversar.
— Ela está impossível.

52
— Sei disto, mas na volta conversamos, ela está lá dando algo
para o Thomas Junior, que parece que acordou com uma vontade
de gritar também.
Eu sai dali, o que conversaram não sei, mas fui novamente no
sentido da praça, vi Paulinho sentado e sentei ao lado, e falei.
— Temos que conversar menino.
— Não quero conversar.
— Vai desistir dela assim tão fácil? – Provoquei para ver se ele
topava uma conversa.
— Ela não vai me trocar por você.
—Mas eu estou afim de ajudar ela, se não está afim de a aju-
dar, quem vai no fim nem poder chegar perto dela, é você.
— Você a seduz e vem conversar.
Olhei o pessoal jogando bola e falei.
— Estou lhe convidando para tomar um refrigerante e con-
versarmos.
Eu levantei, passei ao fundo da quadra de futebol, e sentei no
banco de uma lanchonete, pedi um salgado e um refrigerante.
Olhei o rapaz me olhar ainda sentado a praça, ele não teria
coragem de ajudar, talvez nem soubesse como ajudar, estava a
olhar o menino ao longe quando uma moça senta-se a minha fren-
te.
— Pensei que estaria na casa da criança! – Keka me olhando
com aquele jeito que sempre me encantou.
— E você, o que faz aqui, não está na saia da Rose? – Me re-
ferindo a mãe dela.
— Não seja grosso.
— Keka.
— Jessica. – Ela sempre me corrigia.
— Se os demais não acreditassem em mim, eles não me im-
porta, poderiam se matar, sabe que apenas a sua posição me ma-
goou.
— Tem um caso com aquela criança e quer que aceite.
Não respondi, apenas a olhei, eu não sabia o que ela estava
pensando, quando a vi a minha frente, pensei em conversar, mas
era obvio, ela não queria conversar.
— Não vai responder?
53
— Se acha isto “Keka”, - ressaltei o Keka – o que faz aqui,
pensei em conversar, não vou me defender para você referente a
isto, pois sabe mais que todo o resto em volta, que não avanço as-
sim, que não sou fácil.
— Eu não ia vir mesmo, a Nane que falou para observar direi-
to, mas não vejo nada diferente do que antes de ontem.
— Então vai para os braços do Pedro, “Keka”, melhor para
você, péssimo para mim, mas quem sabe espero mais 4 anos al-
guém.
— Me esquece João, não tivemos nada mesmo, então me es-
quece. – Ela levanta furiosa, o meu copo é lançado ao chão, ela bra-
da alto, e sai pela praça.
Fabio, o rapaz da lanchonete me olha e fala;
— Eu pago Fabio, eu pago, apenas vê um pano e uma vassou-
ra que recolho a bagunça.
— Não precisa João, mas dizem por ai que você andou apron-
tando com aquela maluca da Thamis.
Olhei a moça no balcão, estava afastada, e falei;
— Não é uma hora boa para falar daquela maluca Fabio, ela
tá gravida, e não é meu Fabio. – Olhei o senhor, a esposa as costas,
ele deveria ter uns 55 e a senhora ao fundo, uns 30, não falei mais
nada, mas o senhor entendeu, era um cala a boca, e ouvi.
— Mas como sabe que não é seu.
— Fabio, eu não fui a cama dela, o namoradinho dela ali na
praça, achava que ela era virgem ainda, ela não fala destas coisas
com muitos, mas falamos disto em uma hora melhor.
— Vi que aquela maluca brigona da Keka também brigou com
você.
— Desta não espero nunca o caminho fácil, mas o que fazer,
crianças são assim.
— Ela não me parece uma criança.
— Mas é, e se comporta como uma, agora vamos ver se os
adultos vão se comportar como adultos, ou mais crianças que como
você falou, a maluca da Thamis, que engravidou.
Vi que Paulinho vinha naquele sentido, paguei a conta e sai
dali, o menino me barrou e falou.
— Já vai fugir?
54
— Quer conversar menino?
— Não sei o que você quer conversar.
Olhei ele e o mesmo apenas acompanhou-me, subi para a São
Jose dos Pinhais e peguei a esquerda, entrei na Assembleia de Deus,
aquele senhor ao culto, se fazendo de todo certo, não olhava as
pessoas nos olhos, mas assim que ele parou o teatro, cheguei a
frente dele e falei.
— Podemos conversar Pastor Ricardo?
— Quem é você, o que quer comigo?
— Nada que possa ser falado a frente destas senhoras se-
nhor, pode ser em um lugar mais reservado?
Entramos em uma sala lateral e o senhor me olhou, olhei Pau-
linho e falei. – O que falarmos aqui, não sai pela porta.
O menino não sabia o que fomos fazer ali, mas concordou
com a cabeça, e falei.
— Vou falar uma única vez Pastor, então preste atenção.
— Não entendo quem é você?
— Digamos que me nomeei hoje protetor de Thamis Ribeiro,
e o senhor, como pai da criança que ela esta esperando, vai pagar
todo dia 6 para Paulinho aqui ao lado, dois salários mínimos, se não
pagar, eu vou lhe desmascarar, depois vai apanhar, e no fim, pode-
mos até o capar seu filho da puta.
— Não pode me acusar.
— Estamos no dia 02 de Dezembro, tem até o dia 6 para le-
vantar os primeiros dois salários, e vamos cobrar isto senhor, e se
abusar de mais alguém, pode ser que tenha de entrar por aquela
porta novamente, então, é bom entender, Paulinho aqui, vem as 2
horas da tarde do dia 6, de cada mês, ele não vem conversar, você
vai por em um envelope 2 salários mínimos e ele vai sair e levar
para a mãe da menina, e se falar algo, citar algo, difamar a menina,
o preço vai aumentar, e lembre, está defendendo sua vida, melhor
não duvidar.
Olhei Paulinho e falei.
— Vamos, temos de conversar.
O rapaz olhava para o pastor, era de sua igreja, ele parecia
perdido, não sei o que passou na mente dele, mas saímos.

55
Andamos 4 quadras na São Jose e sentamos em um boteco
estávamos quase no fim da rua, e o rapaz perguntou;
— Entendi direito o que falou?
— Paulinho, vou perguntar de novo, quer ajudar a Thamis?
— Sim, não imaginava que o filho era do Pastor.
— Eu não sei se é dele Paulinho, mas por isto temos de con-
versar.
— Não entendi.
— O pastor, em algum momento, filmou a relação com sua
namorada, e começou a apresentar aos amigos ela, e a chantagear
que iria entregar a mãe e a transformar no demônio do bairro, en-
tão com as graças daquele filho da puta, ela foi abusada por 22 se-
nhores, vou nomear você como representante dela, e vai a cada um
deles, pegar um salario, do pastor será dois pois ele começou isto,
entendeu.
— Mas ela...
— Ela foi a vitima, sabe bem como a mãe dela pensa.
— Mas porque ela não falou isto, e indicou você?
— Pois fui alguém convidado a isto, e não me prestei a isto,
ela apanhou da mãe, e não iria indicar alguém que ela sente nojo,
como pai da criança, pelo que entendi.
— E vai querer extorquir todos?
— Sim, até o dia do nascimento da criança. Isto não é tanto
dinheiro como vai aparentar, mas vai dar para ela cuidar da gravi-
des, depois pensamos nas consequências.
— Pensei que você era culpado, a Keka foi lá brigar.
— Eu nem falei para ela que iria ajudar Thamis e ela já brigou
comigo, não posso fazer as pessoas entenderem Paulinho, mas pre-
ciso de alguém para ir aos locais e pegar um envelope em cada lu-
gar, eu não sei quanto tempo eles vão pagar, geralmente eles com o
tempo param para pensar, começam a conversar e param de forne-
cer dinheiro, mas cada coisa a sua vez.
— Certo, e o que faria se eles parassem.
— Penso em cada caso, não gosto do que eles fizeram, mas
também não gosto do que vou fazer.
— E apanharia e não falaria nada?

56
— Não tinha falado com a mãe dela, mas esta, não saberá de
tudo, apenas de parte.
— E como vai dar o dinheiro para Thamis sem a senhora sa-
ber?
— Ela está com dois meses de aluguel atrasados, elas preci-
sam deste dinheiro rápido, então vamos ajudar agora, certo Pauli-
nho?
— Certo, quase bati em você, e quer ajudar minha namorada.
— E não adianta sentir ciúmes, ela para mim é uma criança
ainda, podem me acusar de abusar dela, mas não seria eu.
Tomamos um refrigerante, passei em 20 endereços naquele
dia, e fui para casa, não sabia o que faria ainda, mas precisava pen-
sar, e sabia que teria de sobreviver, este dinheiro não seria para
mim, e sim para a menina.
Amanhece quarta feira e pego o carro e fui a rodovia, preci-
sava tocar minha vida, mesmo que não gostasse de me afastar nes-
ta hora.

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J.J.Gremmelmaier

Bebendo para
Esquecer

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Passei quatro dias entre Joinville, Brusque, Jaraguá do Sul e
Blumenau, comprando roupas, volto com o bagageiro lotado de
moda inverno 2015, um pouco de outono, pouco de verão, pois
pelo menos quem eu conhecia no mercado, já tinha vendido a cole-
ção verão, sabia que muitos reclamavam, mas não ficariam sem
estoques, pois precisavam dele.
Quando cheguei liguei para um destes sistemas de cartão de
credito, para vendedor autômato, fiz meu cadastro e na terça teria
como vender em 10 vezes as coleções, fiquei a tarde daquele sába-
do fazendo calculo de como venderia, seria corrido a partir da terça,
mas iria invadir um mercado que eu abri no Sitio Cercado, Alto Bo-
queirão e Umbará, minhas vendas no Pinheirinho eram bem poucas.
No fim daquele dia, fui ao centro, bar conhecido, Stylicus Bar,
um amigo do banco, quer dizer, de antes dele, mas que não deve
lembrar de mim de antes, que interpreta The Cure tocaria ali, não
gosto do preço deste lugar, mas precisava pensar.
Sento do lado de dentro, quem não conhece o Stylicus, é algo
que não tem 10 mesas internas, cheguei cedo e pedi uma cerveja, o
forte deles é o Chopp, tomei a primeira cerveja, foi inevitável ver
que no balcão ao fundo, havia um espelho, estava começando a
ficar curioso, e olho Andrei Coelho chegar a mesa e me cumprimen-
tar, estava produzido para o show, estranho, mas vi ele me apresen-
tar a banda, e ir ajustar os instrumentos, a poucos metros da mesa.
Olhei o espelho, sorri, ele era um dos que não apareciam no
espelho, vi que ele me olhou, deve ter estranhado o sorriso, mas vi
que ele não olhou mais para o espelho.
Estava sentado ali, quando vi Vitor entrar pela porta, não
lembro de ter visto ele e Coelho se cumprimentarem na vida antes
daquele dia, mas somos refugo daquele banco de iniciativa publico-
privada, os 3, Vitor sentou a mesa e pediu outra cerveja, o Jean
Pierre, o garçom, anotava cada conta em uma comanda separada, o
que nos dava a independência dos gastos dos demais.
— Perdido por aqui Jota.
— Apenas vim beber onde não desse para encher a cara, o
preço não me deixaria.
— Certo, sozinho, não entendi a historia do fim de semana
passado, pensei que não deixaria aquela gata sozinha.
61
— Tem coisas que não se explica, conhece o Coelho de onde?
— Do banco, mas ele é estranho.
— Não imagina quanto.
— Vai falar daquelas suas aventuras na noite Curitibana?
— Ele não lembra de mim daquela época Vitor, eu fiquei 10
anos longe de tudo, acho que foram quase 20, mas ele não vai lem-
brar de alguém com 20 anos a menos, não vai o achar em mim.
— Ele fala que trabalhou numa empresa dos seus primos,
nunca entendi isto.
— Ele lembra disto, mas pergunta para ele, qual o único con-
tato que temos em comum nas redes sociais.
— Sei lá, não o tenho nos meus contatos.
— Eu teria independente de ter entrado no Banco Vitor, isto
que estou falando.
— Certo, mas veio beber?
— Deveria ter conversado com alguém, deveria ter resolvido
problemas, mas resolvi ficar longe hoje.
— Problemas?
— Passei um dia na cadeia na segunda, por um mal-
entendido, sabe que odeio mal-entendidos.
— Veio beber pelo jeito para conversar com alguém, ou para
beber?
— Vitor, hoje não teria me recusado ao que me indicava
aquela noite, mas não devo ir por este caminho ainda, odeio cami-
nhos eternos, e isto não me facilita nada.
Vi uma moça parar ao lado de Vitor que me apresenta;
— Jota, está é Matilde, uma colega do banco, CSO.
A olhei e perguntei;
— Senta conosco ou está acompanhada?
—Vim assistir o Andrei, ele se transforma em palco.
— Então senta ai Matilde. – Falou Vitor, que pareceu olhar
para a porta, e me dirigiu o olhar – Pelo jeito o negocio vai pegar
fogo.
Não olhei para a porta, o som começava a agitar, as pessoas
sentaram-se as minhas costas, pois virei minha cadeira ao pequeno
espaço que tocavam.

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Nunca gostei de The Cure, uma musica em sei lá quantas que
eles cantam eu conheço, mas as vezes, quer dizer, sempre, é melhor
que um pseudo funk de barzinhos.
O copo esvaziou e me virei a mesa, aqueles olhos cor de mel
me olharam e sorri, não sei o que ela pensou, pois ela estava com a
cara fechada, e pareceu se perder, e sorrir sem graça.
Ao lado dela, duas moças, tive que me segurar para não olhar
para o espelho que tomava a parede alta.
— Perdido aqui? – Dara.
— Sim, perdido.
— Já bebendo?
— Tenho de recomeçar a vida na segunda, não é hora de
pensar, apenas beber.
— Conseguiu as respostas que parecia procurar?
— Nem consegui que me ouvisse.
— Meu pai pergunta se o vi todo dia.
— Me escondi onde ele não consegue ver ou ouvir.
— Onde se escondeu?
Sorri e falei.
— Ia mentir, mas dai você saberia que menti e não quero bri-
gar hoje com ninguém.
— Mas acha que vai brigar?
— Vou ter de a defender, então terei de me meter em en-
crenca novamente.
— Não preciso de proteção.
Não entrei na discussão, mas servi o copo e perguntei.
— Vão beber conosco?
— Elas procuram uma vitima para lhes pagar uma cerveja.
— Então alerta apenas uma coisa elas.
— O que?
— J.J. Ferreira vem a região hoje, alguém falou que haveriam
seres da noite na região hoje.
— Mais um maluco, mas aviso elas, dele que quer me prote-
ger, não entendeu nada.
— Com certeza, conhece Coelho há muito tempo?

63
A moça olha para Coelho e lhe cumprimenta com um sorriso
distante, estávamos entre uma musica e outra, parados por uma
microfonia na primeira musica.
— Ele era um rapaz legal, mas por anos não desenvolveu na-
da, alguns achavam que ele era normal, alguns nascem normais,
você não entende, mas não somos tão diferentes assim.
— Não foi o que perguntei.
— Quando chegamos a cidade, estranhamos um grupo que
não mantem as tradições, mas tem todo o dom dentro deles, algo
forte, algo descontrolado.
— Devem ter se deparado com famílias antigas, como a dos
Coelho, eram brancos condenados mandados a região, que acaba-
ram tomando a região e tendo filhos como os descendentes de
Guairacá.
— Não conheço esta historia, sempre pensei que não houves-
se Morois nesta parte do planeta.
— Não sei se eles são Morois, mas J.J. Ferreira, conhece pes-
soalmente Coelho, ele lhe deu o primeiro emprego na cidade, mas a
lenda diz que Guairacá mesmo depois de morto, comanda os lobos
da região para resistir a tomada branca da região.
— Algo que todos desacreditam.
— Algo que a religião Cristã transformou em lenda, mito, ou
demônio, mas na maioria, depois de matar todos, apenas lenda.
— Nem todos tiveram um Tudor para os guiar.
— Mesmo Tudor, se adaptou, mas em 1800 qualquer vila iso-
lada europeia, era considerada de humanos, na América ainda eram
considerados animais.
— E J.J. Ferreira vem falar com Coelho?
— Provavelmente falarão também, mas com certeza tem his-
toria ai que não me faz parte.
— Certo, e vai fugir.
— Sabe bem Dara, que se eu avançar, você vai recuar, ainda
não estamos em condição de nos encontrarmos, sabe ou não? – O
não foi gritado, pois o som voltava ao local atravessando tudo.
A musica ficou alta, a moça ficou ao meu lado, sorri e ela pas-
sou o braço no meu, o olhar de Vitor era de que não esperava ela

64
estar ali, pelo jeito marcou com a Matilde, e tinha medo de que
Dani ficasse sabendo.
Estava abraçado a ela, quando vi um senhor entrar no local, vi
Jean Pierre olhar o dono que olhou o senhor e falou;
— Sem encrenca hoje Joni.
— Vim apenas entender o que está distorcendo a energia
desta cidade, tudo indica seu bar, mas não vim brigar.
— Então bebe algo?
Ele me olha, a musica estava alta, era obvio que ele viria a
mesa, vi que Dara afastou o corpo, ela deve ter tido a impressão
errada do caso, mas olhei aquele senhor, tão velho quanto eu, dois
rapazes que no fim do século fizeram bagunça nesta cidade, se fora
mais de 20 anos, ele me estica a mão e fala.
— Perdido aqui, pensei em encontrar qualquer um, não você
Jota.
— Veio fazer oque aqui?
— Dizem que a região está tomada de seres estranhos, por-
que não me falaram que era apenas o Jota.
— Ainda nesta historia de caçar fantasmas Joni?
— Não caço mais fantasmas, aquele seu amigo parece que es-
tá transformando a cidade em um conto de fadas.
— Melhor que descobrirem que não temos graça.
— Sozinho, sua esposa?
— A 4 anos estou separado dela.
— Durou, pensei que ela lhe dava um chute no primeiro ano,
mas esqueço que os loucos e tortos como nós elas querem endirei-
tar.
— Sozinho num bar em Curitiba?
— Vim verificar as coisas, mas parece que meu menino é o
único que é diferente aqui. – Joni.
— Joni, famílias de lobos sempre andam juntos, sabe como eu
que é regra, apenas não está observando direito.
Vi ele procurar um espelho e olhar para o mesmo, das mais
de 40 pessoas para a parte interna do bar, apenas ele, dois instru-
mentistas, eu, o proprietário, o garçom e 4 pessoas ao fundo, entre
elas Vitor, apareciam no espelho.
Ele me olha assustado e pergunta;
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—E corremos perigo Jota, você não se mete em problemas
pequenos.
— Não corremos perigo, apenas você não entende disto, sua
especialidade são seres mais estranhos, mas estes não entram em
bares para beber.
— Gosto de saber de coisas diferentes, os 4 J.J. de volta a ci-
dade, a ativa, será que a cidade aguenta?
— Acho que ninguém nem mais me nota.
A conversa era aos gritos, Joni sorri e terminei.
— Senta ai e tomamos uma cerveja.
Fiz sinal para Jean Pierre e falei;
— Vê mais duas cervejas, mas põem na conta deste Joni, ele
tem mais que eu.
— Quem lhe acompanha?
— O que entende de Morois Joni?
— Apenas lenda distorcida por aquele nosso amigo de infân-
cia.
Olhei para Dara e falei;
— Dara, este é Joni Jair Ferreira, um caçador de Laikans, ele
não entende nada de Morois, ou melhor, entende o tanto quanto
eu, literatura barata.
Joni a olha aos olhos, e fala;
— Pelo jeito gero medo e receito, mas vim apenas ver um
amigo que está tocando e olhando para cá, mas não sou de grandes
aventuras como este que parece ter enredado.
Dara sorriu, uma apresentação formal de outro ser e me olha;
— Conhece J.J.Gremmelmaier?
— Sim, trocamos ideias de vez em quando, outro que entrou
na linha dos solteiros livres da cidade.
O Show avançou, cervejas, pouco dinheiro, o Chopp a 10 reais
o copo não era para mim, começo a enrolar com a cerveja, já que
teria que pagar couvert artístico.
Dara me abraçou e vi o fim da apresentação, não estava bê-
bado, estava contendo gastos, quanta mudança em uma semana,
mas vi Coelho chegar a mesa e falar.
— Joni, veio ao meu show?

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— Sim, esta cada vez melhor Andrei, mas quase não o reco-
nheci produzido.
O rapaz sorriu e me olhou;
— Conhece o Jota de onde Joni?
Joni sorriu e falou;
— Bom ver que o passado está no passado, deixa para lá, mas
como o Jota fala, cara de fuinha dá nisto, todos esquecem.
Sem o som a conversa deixa de ser gritada, Joni olhou que es-
tava enrolando com a cerveja, e fala para Jean.
— Põem mais 3 cervejas na mesa.
— Tô com o dinheiro curto Joni! – Falei, pois sabia que Jean
iria anotar na minha ficha, e ouvi.
— Anota na minha conta, pois hoje terá de nos varrer para fo-
ra Jean.
As cervejas vieram e Coelho olha para Dara e pergunta;
— E conhece este maluco de onde?
— Lembra da semana passada?
— Da briga entre seu pai e seu tio?
— Sim, meu pai colocou João para correr de lá, mas a maioria
discute, ele apenas saiu.
— Porque teu pai não gosta dele?
— Digamos que ele tem uma Pagã na vida dele, e os Morois
não gostam de pessoas que cheiram a pagãs.
— Não entendi. – Joni me olhando.
— Lembra da literatura do nosso amigo?
— Sim, mas o que tem haver?
— Joni, está é Dara de Tudor, filha de Tudor Filho, o sétimo,
digamos que ela deve saber mais de historia que qualquer aficiona-
do por historia, pois a viveu.
Joni a olhou e falou sorrindo, se viu que tanto Vitor quanto
Coelho voaram na historia.
— Então quem está agitando a energia local são eles?
— Não amigo, sou eu mesmo, mas para entender o que esta-
va acontecendo, tive de viajar a Joinville, desculpa, comprar roupas
para vender, objetivo, falar com uma senhora, Margarida de Lemu-
rie.

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— Foi para lá falar com uma pagã, por isto se ausentou? – Da-
ra me cobrando com o tom de voz.
— Teria de saber o que estava acontecendo, uma coisa foi
útil, descobri que sou humano, não sou um bruxo, nem pagão ou
um Moroi, desconfiava disto, mas a senhora falou que minha aura
era poderosa e não era Fanes também, não era imortal, e tinha
como problemas na minha vida, um cheiro forte de bruxa.
— Quis dizer pagã? – Dara.
— Não, de bruxa mesmo, dai perguntei o que me perguntou
Dara, ela não foi precisa na resposta, em si disse que em minha
nascença, algo espetacular havia acontecido, que ela não entendia
disto, fomos a casa de uma vizinha dela, que falou coisas malucas
que nasci no dia de um alinhamento estranho, inofensivo em sua
quase totalidade de 32 minutos, mas eu nasci no único momento
que algo poderoso aconteceu, uma linha forte de energia cósmica
distorcia toda a energia do planeta, sabe que ri disto Dara.
— Mas ela não recebe qualquer um.
— Sei que poucos passam lá, acho que poucos sabem onde fi-
ca o Rio Cubatão nos arredores de Joinville, mas me receberam
bem.
— Estão falando do que? – Vitor.
— Que este seu amigo está se metendo em encrenca. – Dara.
— Mas não entendi o cheiro de Bruxa.
— Nem eu, não sinto meu cheiro diferente, para mim ele é o
mesmo desde que me lembro por gente, mas algo sobre a conjura-
ção estabelecer uma bruxa, de energia, uma pagã em força, e uma
estrela em brilho e persistência, em minha nascença, algo que se
manifestaria apenas depois de meus 47 anos, to lascado, e não en-
tendi nada.
— Está dizendo que está amarrado a alguém bem mais pode-
rosa do que posso imaginar? – Joni tomando um gole a mais.
— Quer dizer que estou encrencado amigo, e não posso es-
capar, é o que elas falaram, mas sabe como eu, quando a coisa fica
monótona, eu sumo, desapareço.
— Lembro, sumiu e nem olhou para trás.
A cerveja paga pelos outros, estabelece depender dos outros
pedirem, então fui controlando, sou chato com isto, não gosto de
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depender de outros, mas estava em uma condição que não entendi,
eu poderia jurar que entendi tudo errado, mas obvio, beber nunca
foi uma parte difícil em minha vida, deveria, mas não fora nunca.
Coelho me olhou e perguntou;
— De onde conhece Joni?
— Não lembra mesmo Andrei, confusões de um moto-boi de
uma empresa chamada TSS.
Ele olha ao lado e Joni sorriu;
— Calma Andrei, ninguém mais lembra destas historias.
— E você envelheceu João.
— E você não cantava além de cantos evangélicos.
— Verdade.
Os demais pareceram não entender, mas isto foi a muito
tempo, não era mais minha vida a mais de 20 anos, não tinha por-
que lembrar.
Vi quando a policia fechou a rua, e olhei para os senhores en-
trarem pedindo que todos encostassem a parede e começam a
olhar os documentos, sorri e olhei para Dara.
— Mantem a calma.
— Sabe que está encrencado.
— Não tenho condenação para estar encrencado, mas estou
a observar, e não é a mim que procuram.
Os rapazes pediram os documentos e saíram, a parte de fora
tinha um cheiro mais forte de maconha, mas como saber quem dali
estava fumando, ou quem não estava.
A festa ali esvaziou, o que facilitou a conversa.
Joni olha uma moça e pergunta;
— Posso fazer uma pergunta bem indiscreta?
— Faz. – Uma das moças, aparentava uns 19 anos, aqueles
olhos cor de mel característico dos Moroi.
— Qual de vocês é a mais jovem, parecem todas com uma
idade muito semelhante.
Dara sorriu e a moça, fala;
— Eu sou alguém jovem no grupo, mas Carmen ao seu lado é
a mais jovem.
— Mais jovem? – Andrei.

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— Coelho, sabe que não somos inimigos, mas sabe que nossa
linha evolutiva é mais duradoura.
— A linha direta de uma lenda, mas porque mexer nisto? –
Coelho.
— E quantos anos seria este mais jovem? – Joni.
As três moças sorriram, estava afim de aprontar naquela noi-
te, mas era obvio, novamente me passou uma coisa a mente, ali
também deveria ser dos menos experientes.
Dara me beijou e falei;
— Sabe que não conversamos ainda.
— E vamos conversar quando?
— Não sei ainda, como acabou aquela noite com Vitor?
— Tá com ciúmes?
— Ele parece preocupado com algo, não eu.
— Ele nunca entendeu Dani, mas acha que esta moça ao lado
dele, vai aguentar a noite inteira?
— Sei lá, eu estou a fim de sair da defesa, mas com medo de
magoar três pessoas. – Eu falei isto e a minha mente veio algo que
não havia pensado antes, a olho e falo.
— Me responderia uma coisa Dara?
— Se souber?
— Porque todos chamavam sua avó de Bruxa, se ela nunca o
foi, porque a chamavam assim.
— Bruxa tem vários sentidos, na região que nasci, vem de um
termo local, “a que sabe”, os cães sentem o meio, pelo cheiro,
mesmo de olhos fechados, e as Bruxas eram os seres que tinham a
visão da águia, a velocidade das panteras, e a sensibilidade ao chei-
ro dos cães. Minha avó nunca foi rápida como uma pantera, mas
todas as panteras da região, nunca a desafiaram, acreditavam que
perderiam dela, ela sempre sentiu mais que os demais, e o senso de
percepção dela é incrível, ela pode não falar, mas ela lhe olha e sabe
cada detalhe seu, e nunca vai confundir você com outro, pois cada
um tem um físico diferente, mas principalmente, um cheiro próprio.
— Então a chamavam de bruxa porque ela encaixava no que
eles determinavam como sendo uma.

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— Ela sempre foi especial, mas ela está envelhecendo, e o
avô não, ele não quer deixar sua amada para trás, mas teme o dia
que isto vai acontecer.
— O dia que Diana reapareceria em sua vida? – Perguntei.
— Esta sombra sempre está por perto, e tudo que ela quer, é
algo que não vai ter, pois ela nunca foi nem uma Moroaica e nem
uma Bruxa de verdade.
Eu estava me inteirando do problema, e via que o problema
iria muito além de um caso com a moça, começava a pensar se o
que a senhora Margarida quis dizer, é que nasci amarrado a 3 vidas,
e não a uma, a soma das três é o cheiro da bruxa, não uma, tentava
achar motivos para não acreditar nisto, mas olhava aqueles olhos
nos meus.
— Você acha que entendeu algo, parece longe pensando.
— Dara, o que acontece se no lugar de estar amarrado a um
destino, como o meu cheiro parece afirmar, não fosse bem isto que
o cheiro mostra.
— Não entendi.
— Enquanto Margarida falava em cheiro a amiga dela, Esme-
ralda, falava que aquele segundo foi complicado de explicar, pois a
conjunção de 25 astros, me indicava uma trilha antiga, uma trilha de
força, que poderia ser minha ou da pessoa a que meu cheiro estava
atrelado, a manifestação rápida, indicava alguém muito jovem e
imatura, alguém capaz de loucuras, e que a abrangência da conjun-
ção me lançava no meu 47º aniversario, como começo de tudo,
através de uma iniciada pelo Eterno.
— Todos falam que a menina é uma iniciada pelo eterno.
— Mas ela não tem cheiro de Bruxa, ou ela tem de desenvol-
ver este lado este ano, ou não é o que pensamos.
— E no que está pensando.
— Que vou parar de fugir um pouco.
— Está confuso, mas imagino, dizem que o desequilíbrio de
forças do sul da cidade está pior do que quando Wasser resolveu
renascer.
— Eu não entendo de forças, mas sou atraído, mas parece
que todos esperam que eu dite o caminho, e estou liso hoje.
— Pobre por escolha, não é o que fala.
71
— Sim, pobre por escolha, já que dizem que as minhas esco-
lhas, por mais que as tome, não são minhas mesmo, não me parece
isto, mas é o que todos vocês falam.
Vitor estava conversando com Joni, e ouvi a pergunta dele;
— Conhece o Jota de onde?
— Tivemos uma empresa juntos a uns 22 anos atrás.
— Empresa? – Vitor estranhou, vi que até Dara prestou aten-
ção, era algo de meu passado que não falava.
— Sim, uma empresa que chegava a gerar 8 mil dólares dia.
— Uau, e pararam por quê?
— Eu continuei, mas ele parece ter se apaixonado e se afas-
tou, ele nem falou tchau, ele saiu pela porta e não voltou mais.
— Mas o que fazia esta empresa que dava tanto dinheiro. –
Vitor se interessando.
Joni me olha, sacudi negativamente a cabeça, ele olha as mo-
ças e apenas fala;
— Um dia faz ele beber 40 cervejas no mínimo que ele lhe
conta.
— Não é aquela historia que uma moça do banco contava,
que ele fora cafetão quando bem mais jovem? – Vitor atravessou
com aquilo a conversa, todos me olharam, até Dara.
— Cafetão ele nunca foi Vitor, posso garantir, mas ele quando
colocava algo a cabeça, era difícil de segurar, e o ramo de diversão
na década de 90 dava mais dinheiro, não tinha tanto falso moralis-
mo como hoje.
— Não vai falar?
— Vitor, se fosse uma festa nos anos 90, os policiais não re-
vistavam ninguém, eles só pediam a identidade, entravam e saiam
sem nem olhar nada além da identidade, hoje parece que existe
muitos dentro querendo avacalhar com quem vive da noite, das
festas, não dá para ganhar um dinheiro sem molhar umas 10 mãos
com dinheiro, fica caro.
— Mas faziam festas na época? – Uma das moças que estava
com Joni, a que não sabia o nome ainda.
— Vários tipos de festas, mas este papo está tirando a con-
centração do Jota, ele não quer falar disto hoje, parece mais preo-

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cupado com outra coisa, o que lhe preocupa amigo? – Ele me olhou
e falei.
— Nesta hora não tem nenhum rio para tomarmos banho to-
dos nus, não tenho dinheiro para um motel, e estamos eu, você e
mais 4 moças, se colocar o Vitor e a Matilde, 3 rapazes e 5 moças,
pena estar em fase de economia.
Dara me beliscou, olhei ela aos olhos e sorri.
— Não tinha pensado nisto ainda, mas olha que é uma ideia e
tanto para um fim de noite.
Joni olha Coelho e fala.
— 4 Rapazes e 5 moças quer dizer.
— Não falei nada, apenas sugeri. – Falei sorrindo, embora
soubesse que as moças que entraram com Dara, pareciam querer
aprontar mesmo.
Coelho me olha e fala;
— Sempre dando ideias malucas. Eu entro com parte da con-
ta.
O bar estava esvaziando, Coelho viu duas moças a porta, pa-
reciam não querer ir embora, e quando elas chegam ao rapaz, Coe-
lho sempre fora muito mais alto que eu, senti que o clima iria dar
cama, pois acho que eles se divertiriam, eu dormiria.
— Vamos para o apartamento no Cabral. – Joni.
Olhei para ele como se perguntasse que apartamento, ele
sorriu e vi ele beijar uma das moças e falar algo ao ouvido dela, Dara
viu que o grupo iria pegar fogo, vi Vitor levantar quando a Matilde
pareceu falar que iria embora, ele a acompanhou a porta, sorri e
Joni perguntou.
— Ele é de confiança?
— Nem eu sou Joni, mas acho que ele volta.
— Já terei de dividir uma das três com ele, sacanagem. – Joni
sempre se dera bem em cantadas, eu sempre me dera mal, eu me
considerava o desajustado, e não fazia questão de não o ser.
Vitor voltou e olhou para mim;
— Ela foi embora, assustou-se com o papo.
— Você me chamou de cafetão na frente dela, esperava oque
Vitor, ela ficou pensando, “Que merda vai dar isto!”.
Dara me olha e fala ao meu ouvido;
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— Vai ter de ter calma comigo João.
— Calma?
Ela levantou e pegou o celular, foi inevitável Joni olhar o es-
pelho, e Vitor acompanhar o olhar.
— Um dia me explica isto, mas ela foi onde?
— Se Matilde não vem, ela está ligando para Dani, Silvia e Ro-
se, que estão no Pensador a 3 quadras.
Joni sorriu, e foi assustador aquele sorriso branco de Joni, Co-
elho estava perdido, parecia não saber o que iria acontecer, mas era
obvio, poderia não acontecer nada.
Vi que Vitor não entendeu, havia um amigo de Coelho, que
quando viu a mesa cheia de mulheres tentou chegar perto, Dustin
sempre fora assim, mas depois de duas geladas de uma das moças
que estava junto com Coelho, ele se despediu e saiu.
Tem gente que não gosto na noite de Curitiba, alguns que vie-
ram da mesma região que eu, mais que outros. Pobres que o tempo
jogou como classe media, mas éramos todos pobres na década de
oitenta, vivendo no fim da cidade, região central de hoje, como
Cabral, Alto da XV, Cristo Rei, Cajuru, a cidade passou por nós, mas
alguns pareciam arrotar alto demais, criancice.
Saímos dali, a festa dos demais começou, uma cobertura no
Cabral, tríplex, dos caros, prédio de 6 andares com dois tríplex por
andar, de frente ao Graciosa Country Club.
Dara me abraça e fala;
— Vai me explicar, ou vou embora.
— Dara, eu iria pedir para ter calma comigo, mas se quer ir
embora, sabe que não vou reclamar, mas queria falar, trocar uma
ideia, não entendi nada, mas está linda.
— Vai querer todas.
Fiz sinal para ela andar, fomos a uma pequena cozinha em
anexo, as pessoas estavam a sala ao fundo, vi Joni sair dali com uma
garrafa de whisky, estavam a dançar e se provocar em uma imensa
sala a frente.
— O que quer falar?
— Dara, se eu fosse a sala, não seria eu, mas na minha vida,
tive experiência com apenas 4 mulheres, como mais sedo estava
pensando, você deve ter tido mais experiências que isto, quer dizer,
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muito mais que isto, a menina que resolvi proteger, já foi abusada
por mais de 22 homens, eu sou o inexperiente aqui, posso saber me
portar, provocar, mas sou bom em pular fora.
— Mas parecia que queria ir lá.
— Como disse, não seria eu, mas o que entendi disto é que
me preocupa, diz que tudo isto se abriria em minha vida.
— E quer conversar.
— Pensa, sabe o Joni ali a frente?
— Sim.
— Tivemos uma empresa de acompanhantes que chegou a
agenciar 150 meninas trabalhando para nós, e mesmo assim, não
me envolvia, ele já era bem mais atirado.
— Disto que Vitor falava?
— Sim, por telefone agenciávamos na media de 80 encontros
por dia, a nossa parte dava 8 mil dólares, a delas outros 8 mil dóla-
res dia.
— E está me contando isto por quê?
— Porque vi a forma que me olhou, nunca me abri referente
a isto, não falo para ninguém, para mim é passado, mas vi que as
coisas estão cruzando minha vida novamente, e se ficar inerte, não
vou entender o que está acontecendo.
— E porque provocou isto?
— Precisava conversar, eu não me preocupo se as pessoas es-
tão fazendo sexo na sala ao lado Dara, eu não me preocupo com o
que não é referente a minha vida.
— E algo o calou a fundo.
— Hoje pensei que a bruxa que cheiro, pode não ser uma
pessoa, mas três pessoas.
— Como assim?
— Como falei, Keka não cheira a Bruxa, todas as moroaicas,
pelo que conheço da historia, falavam que sua avó cheirava a uma
bruxa.
— Sim, falam isto.
— Você tem o cheiro de sua avó Dara, a união das três, seu
cheiro prevalece, mas como falei, não fui com nenhuma de vocês a
cama, sou lento com isto, a família de Keka acha que já aconteceu,
no dia que ficamos a conversar um dia inteiro, mas não, eu sou de
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dar tempo ao tempo, as vezes perco o foco, durmo, mas não sou de
avançar, mas não me deixe no comando que coisas como o que vai
acontecer na sala, acontecerão aos montes.
— E não tem ciúmes do que aconteceu no fim de semana
passado?
— Dara, a pergunta é seria, quer entrar nesta encrenca?
— Pelo jeito você acredita que nem você nem eu teremos
como sair disto.
— Eu provoquei isto Dara, eu tenho de mudar, mas não sou
alguém que se preste a mudança.
Senti os lábios dela e ela me sorri após.
— E me diria não mesmo assim?
— Eu e Joni chegamos a mergulhar em rios da região metro-
politana com mais de 12 moças nuas, e da minha parte, não aconte-
ceu, algumas até tiravam sarro de mim.
— E não ligava?
A beijei e falei.
— Vai ter calma comigo?
— Pelo jeito terei de cuidar de um senhor bem sistemático,
mas provocou um monte de gente vir, e os vai deixar se divertir.
— Vamos conversar e observar, quem sabe você me ensina
como ser diferente.
— Mas não quero você lá.
— Mas você quer ir, me explique isto Dara.
Vi o sorriso malicioso dela que fala.
— Como sabe que quero?
— Não sei, apenas acho, quem dera soubesse de algo.
Ela me beijou com força, mergulhamos no sofá da antessala,
vi ela tirar minha camiseta e falar.
— Alguém mais branco que eu e Vitor juntos.
Sorri, senti ela vir sobre mim, as roupas sumirem em algum
sentido, estava a anos apenas na mão, e de repente estava com
aquela moça linda sobre mim, me tomando para ela.
Como disse, tenho um problema na primeira ereção, muito
rápida, ela sorriu e me abraçou forte.
— Isto é vontade ou problema?
— Comigo sempre problemas.
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Estava de frente para ela lhe beijando quando senti dois seios
nus as minhas costas, e ouvi Dani cochichar no meu ouvido.
— Pensei que iria fugir mais uma noite.
— Se livrou do Vitor já? – Dara meio como se cobrasse dela a
posição.
— Possessiva como sempre! – Senti Dani me beijar as costas e
falar depois – hoje vou tirar uma casquinha, acha que vou deixar de
saber se ele é bom nisto?
A olhei nos olhos e falei;
— Dani, calma, já nos enturmamos, apenas conversando.
— E está esperando oque para se enturmar?
— Estamos colocando os pingos nos is, já chegamos lá.
Estava despistando, eu não conseguia com uma, como daria
conta de duas, vi que Vitor estava mergulhado em dois corpos, Coe-
lho deve ter levado as moças para um quarto, e Joni se divertia com
outras 3 garotas, realmente deveria estar muito chato para as mo-
ças, pois tinha muita mulher para pouco homem.
— Se não forem lá eu volto.
Ela me olhou com muita malicia, vi que Dara não gostou, mas
pelo jeito era cena.
Vi Dara ir falar com ela, coloquei a camiseta e depois de um
tempo vi as Duas voltarem, mas Dara trouxe algo para que bebesse,
não discuti, me sentia muito sóbrio, estranhei, pois era um suco,
mas me senti muito mais ativo, olhei o pozinho no fundo do copo,
soube mais tarde que puseram um Viagra ali.
A noite pegou fogo naquele apartamento, eu e Dara saímos
do apartamento próximo das 10 da manha, os demais nem sei, mas
a deixei a frente da casa no Agua Verde e fui para casa.
Manha de domingo, ônibus, lá vou eu, uma hora depois esta-
va descendo no terminal do Sito Cercado, domingo tudo é mais
lento em Curitiba, estava quase pegando o Ligeirinho Sitio Cercado,
quando meu celular toca, ele raramente toca.
Olho ele, atendo já prevendo trovoadas.
— João?
— Sim.
A voz meio chorada do João já me pôs em alerta, a voz era de
Thamis, e como todos falam, as bombas vinha todas na sequencia.
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— Temos como conversar João?
— Onde fica melhor Thamis?
— Paulinho veio com um papo estranho ontem, minha mãe
foi falar com o pastor Ricardo, não entendi, ela brigou comigo.
— Tô pegando o ônibus para ai, já chego.
— Ônibus?
— Estava indo para casa menina, não dormi ainda.
— Lhe espero.
Desliguei e liguei para Paulinho, ele não atendeu, sinal que al-
go estava errado, bomba com certeza, dinheiro demais na mão de
uma criança as vezes dá nisto.
Peguei o Bairro Novo A e me mandei no sentido da casa da
menina.
Como alguém que adora confusão passo na praça antes de ir
para a casa da menina e olhou Paulinho drogado, com um bando de
babacas, viciados a volta, era quase meio dia, liguei para o juizado
de menores, domingo foi difícil me atenderem, a policia não viria,
paciência.
Como alguém que entrou na praça cansado, não reparei em
muita coisa, olhava para Paulinho, ele sorriu, não entendi, mas senti
algo me perfurar as costas, lembro da dor, depois de algo me acer-
tar a cabeça.
Eu não senti cair no chão, mas soube mais tarde que fui ao
chão tão rápido, sobre o gargalhar dos demais.

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79
J.J.Gremmelmaier

Odeio Covardes

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Tento abrir os olhos, não consigo, tendo me mexer, não sinto
meu corpo, dor, sorri por dentro, mas como falei, odeio depender
de outros, e estou não sei onde, talvez na grama da praça, nos meus
últimos segundos de vida, se for isto, quantos teriam errado, até eu
em esperar para que as coisas se realizassem calmamente em mi-
nha vida, raramente forçando a porta.
Muitos me chamam de acomodado, mas nunca fui bom em
forçar a porta, passei coisas estranhas por isto, algo sempre geriu
minha vida, o medo, lembro de ter a vida inteira, incrível que neste
instante não o tenha, talvez por não depender de mim este momen-
to.
Os pensamentos em ser meus últimos segundos me deparo
com recordações boas, talvez o caminho que tomei foi calmo de-
mais, não lembrei de desgostos, apenas de coisas boas, mesmo não
tendo vivido muito.
A dor foi sumindo, mesmo sem querer, dormi, assim que a
dor sumiu.
Quanto tempo se passou não sei, mas estava ainda de olhos
fechados, vim a consciência pela dor, mas parecia um sonho, três
vozes que não via, discutiam algo sobre um quarto, um tratamento,
que alguém teria de ficar ali, mesmo tentando abrir os olhos não
conseguia, minha imaginação conseguia montar a cena com as vo-
zes, três vozes conhecidas, mas onde eu estava não sabia, senti a
dor sumindo novamente, e adormeci.
Um sonho estranho, um caminho, uma serie de planetas, uma
serie de nomes que não sabia o que significava, via os nomes, as
conjuntos de astros entrando em sintonia, via a energia vindo, uma
linha gravitacional, estava tudo preparado, vi 3 crianças nascerem,
três meninos, três crianças em um hospital, nascendo com segun-
dos de diferença, em 3 salas de cesarianas, e sou puxado para outro
quarto, onde pareço nascer e abrir o berreiro.
Olho os olhos de minha mãe, uma lagrima me veio aos olhos,
ela me fazia falta, Deus a levou, mesmo que não entenda de Deus,
sei que existe algo, mas os olhos dela vieram aos meus e fala.
— O que mais esta acontecendo filho?
Olho em volta, mesmo no quarto, via o céu estrelado, como
se o material não fosse parte daquele sonho, estava toda a conjura-
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ção pronta e olho em volta, e aquela luz chega forte, algo muito
rápido, foi ver a luz e ouvir os três choros, não entendi, mas algo a
mais interferiu naquele momento, olho em volta e a dor forte na
altura das costas me fez sentir meu corpo e abrir os olhos assusta-
do, com dor.
Olho com os olhos cheios de lagrimas, não sabia quem estava
ali, não consegui mexer os braços para limpar a lagrima que correu
aos olhos e vi uma pessoa ficar a frente da luz e ouvi.
— Nane, fala para a enfermeira que ele acordou.
Minha vista turva viu Jessica ali, estávamos brigados, iria bri-
gado com ela, e mesmo isto não me chatearia.
— Deu um susto em todos.
— Tá doendo muito as costas.
Vi alguém entrar e olhar para a moça ao corredor e falar;
— Me ajuda aqui Clara. – Não sabia quem era esta, mas senti
elas me colocarem de lado, e a enfermeira mexeu nas minhas cos-
tas, uma saiu e a moça olha para Keka e fala.
— Só ajuda ele a não deitar, os pontos as costas abriram, por
isto da dor, mas já suturamos novamente.
Senti a moça limpar e refazer os pontos e me colocarem de
bruços e fiquei sem jeito, pois estava com a roupa de um hospital,
fiquei de bunda de fora.
Sorri de minha preocupação infantil.
Ouvi um senhor a porta;
— O que aconteceu Regina?
— Dois pontos das costas abriram, apenas suturando de no-
vo, mas tem de avaliar se precisa de nova limpeza e sutura.
O senhor tocou na cicatriz e falou;
— Está firme, mas o deixa de bruços, pois não veríamos o
abrir e ele poderia perder muito sangue.
— Estamos o colocando de bruços senhor.
— Tem plano médico?
— Não, mas as contas estão pagas doutor.
— Particular?
— Sim, mas tem determinação da direção para darmos aten-
ção ao caso, não sei quem é, mas nos pressionaram a cuidar bem
dele.
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— Famoso?
— Não, esfaqueado no Sitio Cercado pelas costas.
Ouvi aquilo e tentei achar a imagem do esfaquear, não achei,
foi tão rápido e discreto que não vi quem me esfaqueou.
O sono foi me tomando e novamente apaguei.
Quando senti alguém tocar em meus poucos cabelos, fui tra-
zido a realidade, de bruços sem conseguir mexer nada.
Abri os olhos e vi Dara que fala;
— Não se agita, tem de se recuperar.
— Onde estou?
— Hospital Cajuru, o evangélico estava fechado, foi uma cor-
reria o dia de ontem.
— Não entendi, estava atravessando a praça, não lembro
nem de ter caído.
— Aquele Paulinho, cobrou uma grana de alguns senhores, e
pagou para lhe esfaquearem.
— Merda, penso em uma coisa e faço o inverso.
— Tem de se cuidar.
— Tenho de tentar melhorar, mas pelo jeito foi fundo?
— Tem um hematoma na cabeça as costas, alguém o esfa-
queou e depois lhe acertou com uma espécie de bastão, levou sorte
de um grupo de evangélicos ver ao longe e chamarem uma ambu-
lância do SAMU, o que facilitou em muito as coisas.
— E estamos em que dia, segunda ou terça?
— Entrando em minutos na terça.
— Tudo atrasado, mas pelo jeito não terei como sair andando
daqui.
— Tem de se recuperar, sabe que levou sorte, mas tem de ci-
catrizar bem o corte, para lhe darem alta.
— Pelo jeito vou ter de lhe dever mais esta.
— Não entendi, mas quando cheguei aqui a conta já estava
paga, o hospital não falou quem pagou, mas estão lhe tratando co-
mo cliente preferencial, com tudo de mais moderno e sem pergun-
tar sobre gastos e quem vai pagar.
— Então vou dever a alguém que nem sei ainda.

83
Alguém entrou na peça, senti a pessoa puxar a colcha e me
cobrir, e ouvi, estava de bruços, com a cabeça virada para um lado,
difícil me mexer.
— Já com outra? – Jessica.
— Já. – Sorri da resposta, infantil e ouvi ela ralhar.
— Se mete com este pessoal e dá nisto.
Tentei erguer o pescoço para a olhar, não consegui, então
não tinha como a olhar, as forças não estavam boas, os braços pre-
sos a cama para que não me virasse, isto me dava pouca movimen-
tação, pelo menos nesta hora não tinha dor, apenas coceira no lu-
gar, o que seria pior.
— Desculpa mãe, não queria gerar problemas.
— Tá melhor, já respondendo com malcriação. – Jessica.
— Tentando entender como cheguei aqui.
— Aquela menina Thamis, tá lá em casa. – Dara. – A mãe dela
andou falando com o pastor, ela chegou judiada lá, pelo jeito apa-
nhou.
— Obrigado por ela, mas se está cuidando dela, menos mal,
mas sinal que o dinheiro de Paulinho vai escassear.
— Depende em quanto tempo ele gasta e com o que gasta.
— Que dinheiro está falando?
— Paulinho estava conseguindo recursos para ajudar a namo-
rada, mas pelo jeito o pessoal do trafico chegou a ele antes da me-
nina, vai torrar em drogas. – Dara.
— Não entendi como o pegaram tão desprevenido. – Jessica.
— Quantas vezes atravessei aquela praça, e nunca nada acon-
teceu. – Menti e ela me olhou.
— Mente para mim ainda.
— Se mente para mim, porque não posso mentir, pior, mente
pelas costas, já que não tenho como me virar nesta bosta de cama.
Eu estava me forçando uma posição, mas estava calmo.
— No que menti.
— Jessica, o que faz aqui? – Falei sem pensar.
— Me preocupo com você, não é porque o quero longe que
não me preocupo com você.
— Me manda sumir e lhe esquecer, e se preocupa?
— Sabe que sim.
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Vi Dara sair e olhar para a moça;
— Conversem, mas não se matem.
Dara me piscou, não sei como foi a cara de Jessica, mas ima-
ginei, ela continuou onde estava, então não a via.
— Vai continuar sendo grosso comigo? – Jessica.
— Tentando algo que sei que não consigo, me afastar, você
pediu para lhe esquecer, tá difícil, achei que seria para sempre, mas
a dor me trouxe de volta.
— Eles estão lhe deixando em observação pela batida na ca-
baça João, pois os pontos em poucos dias tira.
— Pelo menos não sinto dor de cabeça.
— O que a moça quis dizer com este proteger de quem lhe
acusa de abuso.
— Jessica, eu não sou santo, mas não toquei nela ainda, e to-
da vez que chegou perto de alguém, sempre dá errado, sempre
disse, você sabe, se uma pedra caísse de um prédio e tivesse um
milhão de pessoas ao chão, ela me acertaria, em cheio, se algo for
dar errado, sou sempre o escolhido como vitima, devo ter quebrado
mais ossos que todas as crianças da minha escola junto quando
adolescente, e não era por ossos fracos, e sim, por que sempre con-
seguia levar o pior.
— Não respondeu.
— Quando sair daqui, se sair.
— Não fala besteira, porque não consigo lhe ver como ino-
cente, sabe que nunca o vi assim, quando não avançou no fim de
semana passada, pensei que você não me queria, e depois vem a
noticia que abusou da menina, fiquei insegura.
— Se você não visse auras, eu lhe perdoaria fácil Keka.
— Jessica.
Não a via, mas fiquei quieto, ouvi ela dar a volta na cama, ela
sentou-se em uma poltrona, para visitas no quarto, e me olhou aos
olhos, lindos olhos.
— Não consigo olhar sua aura João, sei que nunca lhe falei is-
to, mas não consigo, você é alguém que sempre me colocou insegu-
ra, todos os demais tem auras, tem duvidas, tem medo, sinto suas
mentiras mais fáceis, mas não vejo sua aura.

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— Jessica, você é uma pagã, você tem um futuro brilhante,
um caminho de luz, a verdade sempre me mantive perto, mas se
não avancei era por não achar certo, talvez tivesse que mudar, qua-
se morro e não fiz o que queria.
— Mas... – ela parou a frase – sei que pedi para me esquecer,
mas não era para morrer e não fazermos as pazes.
— Ainda me quer longe? – Perguntei, estava perdido mesmo.
Ela me olha e sorri.
— Não tenho como lhe esquecer Keka, e não adianta recla-
mar, pois não sei como lhe esquecer, mas se quer, vou me afastar,
mesmo sabendo que nada vai ser como quero, mas queria dizer que
continuo a amando, mesmo sem ter acontecido nada de mais, como
você falou, esta em meu coração.
Ela sorriu, vi uma lagrima em seu olho, e ouvi o medico che-
gar a porta;
— Como está a celebridade do hospital.
— Celebridade? – Jessica.
— Alguém está pagando os gastos deste senhor, você que vai
ficar a noite hoje?
— Sim, mas como alguém, não sabem quem?
— A direção não nos forneceu nomes, apenas ordens de for-
necer o melhor.
— E quem o conhece não dá nada por ele. – Jessica.
— As vezes as pessoas tem amigos. – O medico me olhando,
depois descobrindo o corpo, e olhando os pontos.
— Como ele está senhor?
— Agora começa a fechar, amanha ele já pode ficar solto,
mas terá de dormir de lado por um tempo, a cabeça desinchou bem
neste dia a mais, vamos tirar uma ultrassonografia da cabeça ama-
nha, se estiver tudo bem, em uns 3 dias vai ser mandado para casa.
— Bom saber senhor.
— Boa noite, até amanha cedo, mas não se preocupe, ele es-
ta bem assistido aqui. – O medico.
Olhei Jessica se ajeitar naquela poltrona, que deitava quase
como uma cama, a fiquei olhando, e ela falou;
— Deve estar sentindo-se frágil.
— Desconcertado, não frágil.
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— Não iria lá tentar de novo?
— Acho que esta resposta não precisa ser respondida, não faz
mais sentido pensar nisto.
— Preciso saber. – Jessica.
— Eu iria lá falar que lhe amo, e que a esperaria, mas sabia
que você tendia me mandar embora novamente.
— Acha que me ama, a moça também parece lhe amar, ela
tem uma aura de cuidado com você.
— Eu tenho um carinho por ela também, minha aura está
aqui Jessica, talvez seja algo que apenas você não possa ver.
— E não vai negar que tem carinho por ela?
— Ela não foge de mim, ela não me manda a esquecer, não fi-
cou com esta historia de duvidar de mim, ainda fez algo que não
esperava, deu proteção para a menina, sabe que sempre tentei lhe
defender, mas parece que já esqueceu.
— Vai esperar outros 4 anos sozinho? Até ela ficar adulta.
— Acho que no caso dela, não vai funcionar, mas ainda não
falei com ela depois de ter ido a casa dela a uma semana.
— Daqui a pouco vai dizer que me ama, mas vai ficar com
uma delas, por favor... não me pede que aceite isto... – ela me olha
aos olhos – João, eu sei que sinto o que não admito, mas não me
pede isto, que aceite você com elas e eu de fora.
— Keka, acho que nem eu e nem você vamos fugir disto, os
dois vão sofrer, mas tenta não se machucar com isto.
— Vai me afastar, sabe que falo da boca para fora, que Pedro
não é para mim, quero alguém que não saiba o que vai falar antes
de abrir a boca, alguém que me olhe nos olhos, não para o chão ou
para meu decote.
Olhei o decote dela e falei voltando os meus olhos aos olhos
dela;
— Provoca e depois diz não gostar, bem Keka isto.
Ela sorriu.
— Você nem se preocupa com o decote, mas você não vale,
sabe mais de minha vida que qualquer um.
— Acho que ninguém lhe conhece Keka, você é brava por fo-
ra, carente por dentro, nem eu lhe entendo.

87
— Você tenta pelo menos, aquela pirralha que resolveu pro-
teger fica me chamando de bruxa, qualquer dia quebro o nariz dela.
— Cadê a moça que cresceu, que conquistou a calma, largou
a angustia? – Falei para provocar.
— Deve ter ficado no Sitio Cercado, pois por aqui não apare-
ceu não João, mas como você está, as vezes faz cara de dor.
— Eu não sei o que aconteceu, mas algo me indicava que te-
ria problemas quando voltasse, que não conseguiria retomar minha
vida tão facilmente, mas não esperava você aqui.
— Pedro tá dando pulos de raiva.
— Mais um para me agredir pelas costas pelo jeito.
— Não sei, você caiu e os rapazes correram, acho que não
queriam ficar para serem reconhecidos, dizem que aquele Paulinho
fez um acordo com o pastor, depois que pegou o dinheiro, foi a
alguns endereços e forçou um pagamento de caixinha, não sei o que
esta aprontando, mas logo saberemos.
— Amanha me preocupo, já que hoje nem dormir direito vou
conseguir.
— Deve ser horrível dormir assim.
— Nem imagina, pior é que não sei a gravidade disto, mas
quando não dói, coça, então se não está latejando de dor, está late-
jando de cocegas.
— O Eterno fazendo nossos caminhos mais fáceis.
— Mas não explicou porque veio.
— Quer mesmo falar disto?
— Apenas conversar, sabe que não falamos sobre o que nos
trouxe a crise.
— Porque você não se defende?
— Eu me defendi dos demais, não de você Keka, sabe que de
você espero mais que apenas uma desconfiança ou uma cobrança
pra pular fora na primeira chance.
— Todos dizem que você fez, como posso duvidar?
— E vão falar mais ainda agora, o namoradinho da menina e
os amigos me esfaquearam em praça publica.
— E não pretende se defender?
— Pretendo retomar minha vida, mas não posso obrigar al-
guém a estar ao meu lado, e não vou ficar jurando inocência por ai.
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– Minha mente foi para os problemas, queria relaxar, mas estava
difícil, a posição não ajudava, e a soma de dividas iria aumentar.
— Tem de se defender, calar estes fofoqueiros.
— Eu nunca gostei de fofocas, mas nunca me atingiram, mas
odeio mais os covardes do que os fofoqueiros, tem de escolher em
que lado vai estar Keka, pois eu estarei do lado que sempre tive, e
não vou mudar porque uma leva de adultos, abusou de uma crian-
ça, e vão continuar a fazer com outras, quer achar um culpado, e fui
escolhido para desviar a atenção.
— Sabe que vai se complicar assim.
— Keka, quando estava quieto, e fazendo tudo certinho, fui
acusado de estupro, preso, sou afastado de duas representações,
pois alguém se deu ao trabalho de ligar para elas, para me ferrar,
viajo para entender o problema, e me deparo na volta com os mes-
mos problemas, mas agora, alguém resolveu me acertar pelas cos-
tas.
— E vai enfrentar?
— Vou reagir, não me complicar, pois estava quieto e me
complicaram, devem estar rindo de mim agora, mas algo ainda está
fora do contesto, pois alguém está pagando o hospital.
— E não sabe quem ainda?
— 3 possibilidades, mas com certeza terei uma divida com es-
ta pessoa quando sair.
— E porque quer saber meus motivos.
— Por que te amo, e não vou esquecer isto, por mais que ten-
te, como disse, o Eterno mexendo nos nossos caminhos, como pos-
so ir contra algo que nem sei definir como ser, como posso ir contra
o universo que me cerca.
— Tem de descansar.
A olhei sério e ela falou.
— Vim porque você estava precisando, sabe disto, você sem-
pre aparecia quando eu estava precisando, mas agora é você que
está precisando.
Olhei ela nos olhos e a única coisa se saiu foi um:
— Obrigado. – Ela sorriu e fechei os olhos, teria de tentar
dormir.

89
De olhos fechados demorei para relaxar e dormir, acordei
com a voz de duas pessoas falando alto, no inicio não consegui en-
tender, até ouvir a frase;
— O que quer com ele sua bruxa.
— Sabe o que quero com ele, e você, colocou todos contra
ele e agora o quer terminar de matar?
— Ele vai ser meu, se está pensando que vou desistir porque
está aqui, não me conhece bruxa.
Estava de olhos fechados e fiz barulho com a boca;
— Hum humm...
As duas me olhavam quando abri os olhos e falei.
— Bom dia para as duas também.
— O que ela faz aqui? – Thamis.
Não respondi, a olhei.
— Sei que você disse que sou uma criança, mas quem vai cui-
dar de mim, aquele Paulinho é um idiota.
— Não me ouve Thamis, já falei antes, chamar uma pagã de
Bruxa, a tratar com inveja, a destratar, a dá forças, e se já falei e
esta fazendo isto, vou ter de agradecer.
— Não entendi.
— Esta nos ligando mais, você a está dando motivos para fi-
car, motivos para querer e força para superar adversidades, obriga-
do pelo apoio.
Jessica sorriu, e me olha aos olhos;
— Andaram me chamando de Bruxa.
— Expliquei para ela que você não é uma bruxa, mas ela não
me ouve, lembra uma menina de quase 14 anos, uns anos atrás.
— Vocês estão juntos, Dara disse que vocês não tinham como
ficar juntos, e os dois estão.
Não esqueça leitor eu estou de bruços, ainda imobilizado, e vi
a menina me olhar com raiva.
— Você não pode me deixar só... – ela me olha com um misto
de raiva e carência, não saberia fazer um rosto destes, mas a olhei,
e ouvi o fim. – Se me abandonar agora, para onde eu vou, minha
mãe me colocou para fora de casa, Paulinho tá lá naquela praça a
mais de 4 dias, drogado, quem vai cuidar de mim.

90
— Nós vamos. – Falou Keka, eu a olhei, estranhei, talvez so-
mente Thamis tenha estranhado mais.
Vi uma enfermeira entrar no quarto, ela olhou as moças e fa-
lou;
— Dariam um momento?
Era a hora constrangedora, elas me lavavam a cama, bem de-
sagradável, mas necessário, depois a moça passou algo as costas,
nos pontos, senti quando gelou as costas, os pelos arrepiaram, logo
depois ela falou.
— Estamos colocando uma compressa isolando a região, para
que possa se mexer, mas não consiga coçar, e seus movimentos não
consigam puxar os pontos.
Senti eles rasparem a pele em volta do local, passaram algo
que gelou a região novamente e colocaram, senti a pele repuxar, e
doeu naquele momento.
— Calma, a dor é para vivos! – A enfermeira.
Sentei na cama, com a ajuda da moça, estava em pelo, elas
não pareciam preocupadas com isto, mas me deram um avental
hospitalar lavado, bem conservado, diria que aparentava novo.
Ajeitei-me na cama, a moça ergueu as costas da cama, e pela
primeira vez vi me servirem algo, pois antes era via canudinho, as
vezes temia comer para não ter de evacuar, pois é estranho ter von-
tade de cagar e saber que cagaria sobre mim.
Não falei nada, comi pouco, mas me senti melhor, Keka en-
trou e vendo-me sentado sorriu.
— Já melhor?
— Depende.
— Do que? – Jessica.
— Se falar que sim e sair pela porta, digo que não.
— Sabe que gosto de discutir com você, tento não discutir,
mas é inevitável, sempre discutimos.
— Quando pararmos de discutir teremos de decidir o que fa-
remos nas mesmas ocasiões.
Jessica me olha e olha Thamis entrar;
— Ela estranhou o que falei, você também, mas Dara está
certa, temos de cuidar de você, está muito desleixado para deixar-
mos solto por ai.
91
Sorri, ela já queria controlar minha vida, será que teria como
ir contra isto nesta hora?
Estávamos nos olhando quando Dara entrou com Dani pela
porta, este quarto parecia não respeitar as regras do hospital, real-
mente deveria ter alguém influenciando, só conhecia um ser que
poderia interferir assim, mas porque ele interferiria em minha vida,
não tinha motivos para isto.
Dara me olha sentado e fala;
— Finalmente sentado?
— Sim, finalmente sem mostrar a bunda para todos. – Falei
sem sentir, e sorri disto, estava melhorando.
— Mais uma que quer lhe tirar de mim. – Thamis.
Dara olha a menina e me olha;
— As vezes até eu duvido do caminho João, esta ai reclama
de tudo, 30 segundos são de admiração, depois vira porque não tem
isto, porque não faz aquilo, porque não some, e coisas assim.
— Ela não entendeu o que você é.
— E você não entendeu, o que ela é. – Dara.
Bomba, só poderia ser bomba, pois algo falado assim, não era
para enrolar, era para falar.
— O que ela nos esconde? – Perguntei.
— Tudo nem eu sei, mas duvido que ela desconfie.
— O que estão falando, vão me largar, não pode me deixar,
por favor... – aqueles olhos nos meus – não pode me abandonar.
Sorri e olhei para Dara.
— O que não desconfiei.
— Você desconfiou, apenas não tem dados, para se posicio-
nar.
— Dados?
— Os seres desta parte do planeta, se denominavam de Guai-
racás, só que eles não evoluíram como lá.
— Porque não?
— Algo sobre um perdão sobre todos os seres, uma trégua de
paz com o eterno, mas as moças do grupo escolheram a paz, os
homens, a guerra, elas se misturaram e deixaram herdeiros, eles,
apodreceram ao chão.
— Não entendi.
92
— O poder foi distribuído, mas sem a pena de vagar, elas fi-
cam invisíveis aos olhos, muitas nunca são iniciadas e morrem nor-
malmente como os humanos.
— De quem estão falando? – Keka.
— Uma linha de descendentes dos Coelho e dos Ribeiro, que
nesta cidade, trazem o sangue de Guairacá, os seres equivalentes na
cultura Moche aos Morois, na América. – Dara.
Pensei na frase, não era uma representação única, e foi obvio
perguntar;
— Somente estas duas famílias? – Perguntei sem pretensão.
— Porque?
— Não sei, lembrei de um cara incrível, Paranaense, que é o
responsável pela imagem de Guairacá e o lobo, - Paro um momento
pensando no que conhecia sobre um escultor - embora o que me
impressionou, não foi a estatua, mas a ligação dele a coisas indíge-
nas, a Lobos, a Tigres, uma coleção de referencias e de estudos so-
bre lobos, tigres, rostos humanos, e principalmente, uma fissura por
Tigres. – Minha cabeça tentava achar uma saída, mas mesmo eu
não acreditava ser algo assim.
— Acha que pode ter uma família equiparada?
— Quem estudou isto, iniciou os estudos no Brasil, nasceu
junto as montanhas, no litoral, aficionado por lobos, onças e águias,
ele deve ter algumas representações da onça matando a cobra.
Terminou os estudos na Europa, algo estranho, divergências refe-
rente aos nomes dos pais, como se fosse algo criado, inventado.
— Porque acha isto?
— Não tenho certeza, mas quando somos parte de algo gran-
de, escondemos as origens, ou vai dizer Dara, que na sua identidade
de entrada no Brasil, está sua data de nascimento real, os nomes
dos pais reais, e coisas assim?
— Não, não caberia a verdade em algo assim, mas porque da
desconfiança.
— Um dia no passado, bem no passado, um amigo meu en-
trou nesta pesquisa, de descobrir a arvore de algumas pessoas fa-
mosas, e descobriu que o primeiro Turin que chegou ao Brasil foi de
vapor em 1891, mas quem chegou, já tinha 19 anos. Ano que um
menino de 19 anos surge em Curitiba, e começa suas primeiras au-
93
las na Escola de Artes e Ofícios. Mas quem surge em Curitiba, ofici-
almente teria nascido no Paraná em 1878, muito tempo antes, do
primeiro registro oficial dos Turin no Brasil.
— Acha que ele era um Moroi? – Dara.
— Pode ser, João Turin oficialmente vai a Europa depois de
1906, e lá se especializa na Academia de Bruxelas.
— Não entendi a ideia? – Dara.
— Sabe que estamos divagando Dara, eu não vivi isto, mas
que saiba, nos anos de 1800 a 1900 os felinos procuraram locais
mais seguros para viver, a Europa estava segundo eles, com cheiro
de morte, eles fugiram, gatos não vivem ao lado de algo que cheira
a morte, eles geralmente mudam.
— Certo, acha que ele poderia ser um representante dos Feli-
nos em sua terra?
— Se ele for, os que estavam com ele na época eram os Lan-
ge, e os Zaco, todos integrantes de algo que acho incrível, e que se
perdeu no Paraná, a vontade de uma identidade própria, mas algo
me chama atenção, não sei, segundo meu amigo, uma coisa sempre
o incomodava. – Falei olhando para Keka.
— O que incomodava ele, que me olha como se eu soubesse
a resposta.
— O primeiro lugar que João Turin dá como residência e nas-
cimento, é Porto de Cima Keka, aos pés do Pico Marumbi, dai Frede-
rico Lange, quando vivo, deixa a seus familiares a instrução para ser
enterrado de pé, adivinha olhando para onde?
— Não entendi.
— Ele pediu para ser enterrado de pé olhando o monte. Co-
mo se esperasse algo.
— E porque seu amigo achava que tinha algo estranho nisto?
— Turin se dedicou aos Tigres, amigo e incentivador de Lan-
ge, que quando morre, pede para ser enterrado olhando para o
Marumbi, mais exatamente, pela posição, para a ponta do Tigre,
eles queriam criar uma identidade própria ao estado, pode parecer
algo bem aceitável hoje, mas estávamos no inicio da Democracia,
onde eles caçavam estas ideias de estados com identidade própria.
— Mas acha que eles tem ligação com que grupo? – Keka.
— Manás se não me engano.
94
Keka olha para Dara e fala;
— Se ele estiver no raciocínio correto, ambos tiveram ligação
com o poder da terra local, e tiveram contato com seres que so-
mente quem os vê consegue acreditar, esta serra entre São Paulo e
Santa Catarina, tem forças que muitos tentam desacreditar.
— Forças? – Dara.
— Somente iniciados entendem, e raramente eles se apre-
sentam, somente quando existe risco a sobrevivência.
— Mas estão falando de que? – Dara.
— Talvez da representação que confundiu os que vieram
olhar, e permitiu os Guairacás passarem desapercebidos. – Jessica
me olha e fala. – Acha que isto que está nos unindo?
— Quem dera nossa união fosse algo assim, fácil de entender
Keka, sabe que estamos nisto por alguém maior, um ser que não
entendo. Mas faz sentido, ele olha para Guairacá e o representa
com um cão aos pés, não com um Lobo Guará, que é bem maior e
bem diferente do cão que ele representa, ele não viu os lobos, ele
não ligou a lenda ao que procurava, ou a omitiu, não temos como
perguntar para ele.
— E porque acha que faz sentido? – Dara.
— Só conheço uma pessoa Dara capaz de fechar um corredor
de um hospital para que vocês tenham acesso qualquer hora, que
esteja isolado, cuidado com o melhor.
— Acha que descobriu quem está pagando sua conta? – Dara.
— O mesmo que fez a pesquisa sobre João Turin.
— O mesmo?
— Joaquim Moreira. – Falei e olhei para a moça que me olha.
— Vai dizer que também conhece estes seres estranhos. –
Dara.
— Conhece Moreira, como? – Jessica.
— Amigos de infância de um Colégio, da minha infância, no
Capanema.
— Estudou com ele, mas porque ela chamou de ser estranho.
– Pergunta Jessica, via que Thamis estava perdida ali.
— Sabe o que são Fanes Keka?
— Aquela Jessica de Lemurie me explicou algo assim, seres
com aparência humana, mas que nada tem de humanos.
95
— Joaquim é um Fanes Keka.
— E sabe disto como?
— Quando se conta as historias desta cidade, todas estão
aumentadas por João Loco, mas eu, João Loco, Joaquim Moreira e
Joni Ferreira, fomos amigos de infância, somos 4 lados de uma his-
toria que não se conta, ou não se revela, ou acha que aqueles livros
de Loco definem algo do que você viveu Keka, algo sobre o hospital
São Vicente, aqui em Curitiba, todos nascidos na maternidade de lá,
no dia 30 de Outubro do mesmo ano?
— Não, fantasia, mas é que entendo, ele tinha de traduzir
coisas complexas em palpáveis, mas realmente não é fiel.
Olhei para Dara.
— Já leu Wallachei?
— Não, mas meu avô me explicou a historia, ele teve uma vi-
são bem complexa da historia, ele sempre dizia que admirava estes
seres que veem o passado e o conseguem traduzir, meu avô diz que
as vezes até usa a definição do Livro, para definir para alguns sua
historia, mas é que estamos falando de mais de dois mil anos.
— E você Thamis, tá entendendo algo?
— Não, pareciam que iriam falar de mim, mas não falaram.
— Vou ter de falar com uma moça, pois Keka não a iniciaria,
mas tem de entender, todos neste quarto, estamos falando de su-
posições, mas se for o que Dara acha ser, começo a temer a encren-
ca que vem ai, pois não se dispõem de forças, de graças divinas nes-
te nível de poder em uma cidade, se o enfrentamento não fosse
forte.
— Vai me abandonar? – Thamis.
— Vou ter de lhe apresentar alguém, e esta pessoa vai lhe
ajudar a se preparar para o futuro.
— Quem? – Thamis.
— Paulo de Lemurie.
— Acha que vou me interessar por ele e lhe esquecer, não en-
tendeu nada mesmo. – Thamis.
— Não, e cuidado, Paulo tem duas grandes pagãs em suas vi-
das, e elas não são como Keka que não vê minha aura, elas veem o
que ele vê, sentem e ouvem o que o amor da vida delas vive.
— Duas pagãs, que cara é este? – Dara.
96
— Interessada? – Falei a olhando e sorrindo.
— Não, mas dizem que uma já é peso suficiente.
— Para mim sim, para um James, que escolheu o sobrenome
das amadas, algo que ele encara com naturalidade.
— Um James, e conhece assim? – Dara.
— O conheci na semana passada, mas o problema é que não
sinto nada de magia, energia, de coisas da terra, mas tudo me indica
que algo grande vai acontecer.
— E como está, parece melhor hoje? – Dara.
— Melhoro quando não estou de bunda para cima.
— Mas como descobrir o que está acontecendo? – Thamis.
— Pelo que entendi, João vai atrair o problema, ele sempre
atrai os problemas Thamis, ele encara, mesmo quando magoa-se,
mas se ele vai atrair, temos de estar preparadas a algo forte, ele
tem razão, não se dispõem de forças do bem, onde não existirá
forças do mal. – Jessica.

Sei que aquele dia se arrastou. Em um Hospital parece que as


coisas não andam, o tempo não passa, com remédio reduzido, me-
nos sono, comida de hospital, mesmo nos bons quartos, é algo que
odeio, comida sem sal, coisas saudáveis, quantidades que emagre-
cem qualquer um.
A tarde cai, apenas Dara ficou ali, estava quase entediado
quando vi Joni entrar pela porta com Moreira, olhei os dois e per-
guntei.
— Dois problemas juntos, o que está acontecendo J.J.?
— Pensei que você me falaria. – J. J. Moreira.
— Sei que algo grande deve ser atraído para a cidade, oque
não tenho ideia.
— Alguma ideia, pois nem você em nem Francisco me facili-
tam assim, os dois falam que algo vem sobre a cidade, mas os dois
não me falam oque. – Moreira.
— O que ele acha Moreira? – Perguntei olhando para o se-
nhor, empresário nacional, conhecido do submundo as rodas mais
caras do país.
— Ele deve estar chegando ai, não sei se a moça pode ouvir
isto João.
97
— Joaquim Jose Moreira, está é Dara de Buzau, neta de Tudor
de Buzau.
Joni sorri a cara de espanto do senhor, sorri também.
— Tem haver com eles? – Moreira.
— Acho que não, mas é você que está pagando as contas aqui
Moreira? Porque, como vou poder lhe pagar isto.
— Não, entendeu errado, mas o problema maior vem por ai,
algo que mexeu com todas as pessoas estranhas da cidade.
— Então quem está pagando o hospital?
— Não sei se conhece, Pedro Rosa.
— Quem mais? – Olhei os dois sérios, Dara me olhava, pois se
toda a magia da região estava envolvida, algo mais poderoso ou
mais revelador se faria.
— Não sei ao certo, não sei o que você andou falando, mas
estão falando em João Turin, os herdeiros começaram a perguntar o
que estava acontecendo.
— Lembra da carta assinada por João Turin?
— Sim.
— Não é dele Moreira, aquilo foi feito por alguém Canhoto,
Turin era Destro. Mas a carta fala sobre algo que deveria ter sido
enterrada juntamente com a base da estatua, ele fala a oeste, mas a
estatua estava a leste, e em 1970, a prefeitura cercou a estatua para
limpeza e conservação, algo tão isolado que alguém fez um molde
da estatua para a recriar em Ponta Grossa.
— Acha que desviram o que acharam?
— Acho que quase nada da praça original se manteve, a carta
que estava dentro do vidro, parecia algo plantado, e não o original,
estava lá a mais de 80 anos, olha o papel, não parece ter 80 anos.
— Nada conclusivo João.
— Sei disto, estou aqui pensando, ainda sem condições de
pegar dados em lugar nenhum.
— E quando sair daqui vai onde?
— Museu do olho, tem uma exposição de João Turin lá, e
quero ver se entendo algo, pois muita coisa me passou desaperce-
bida.
— Mas o que acha que esta acontecendo?

98
— Amigo, é tudo muito vago, mas ... – Parei a frase, vi aquele
rapaz entrar pela porta, uns 18 anos, me olha, sabia quem era, mas
estava curioso – a peça que pode me dar a pista final.
Moreira olha para Pedro Rosa e fala;
— O que está acontecendo Pedro?
— Todos querem saber isto Moreira, e João é quem parece
estar no centro do problema desta vez.
— Porque acha que ele está no centro do problema?
— Digamos que pessoas com pulmão e coração furado, mor-
rem antes dos paramédicos chegarem, ainda mais inconscientes e
inertes por algo que danificou a cabeça dele.
— Não conclusivo! – Moreira.
— Há dois dias estávamos vendo um agito entre Morois, e
Pagãos na cidade, ele viaja para comprar roupa, mas entra em con-
tato com a família Lemurie em Joinville, e algo dentro dele quer
contar algo, mas temos de descobrir se nos fará mal ou bem, se nos
é apenas um aviso ou uma arapuca para vida.
— Por isto pagou o hospital? – Perguntei.
— Não gosto de historias estranhas saírem por ai, quando um
relato de um senhor desacordado, com hemorragia no pulmão e no
coração, atingido por algo cortante de mais de 20 centímetros, sur-
ge nos relatórios como recuperação milagrosa, eu sempre olho.
— Vai dizer que foi coisa de um Querubim? – Moreira.
— Parecia, por isto isolei e paguei a conta João, mas quando
peguei o relatório e vi visitas de Morois, de Keka e de uma descen-
dente direta da linha dos Guairacás, reparei que era algo maior, algo
que não estava entendendo.
— Mas não entendi oque ainda! – Estava pensando, e olhei
para Francisco entrar, aquilo não parecia um hospital, entrava todo
mundo ali.
— Chegou mais um encrenqueiro. – Falei olhando Francisco.
— Bom lhe ver também João, pelo jeito já está melhor.
— Tentando entender porque estão todos aqui.
— Tentando entender porque uma leva de energia surgiu no
sul da cidade novamente, os Laikans sumiram da região, dizem que
os Morois estão por ai, e você surge ferido e recuperado como se
fosse um milagre, todos que olham o inacreditável olharam.
99
O olhar de Francisco foi para Dara e falou;
— Uma Moroi lhe protegendo ao quarto e quer dizer que não
tem nada acontecendo.
— Deve ter, mas oque nem eu desconfio.
— Mas vejo que todos estão inteirados, menos mal, pelo jeito
teremos mais um destes enfrentamentos malucos.
— Francisco, você que entende disto, porque todos falam em
distorção de energia no sul da cidade, e não vejo nada diferente
acontecendo.
— João, tem de ver que distorção de energia é algo muito
simples de provocar, mas falaram em problemas em Curitiba, sem-
pre damos uma olhada.
— Quem mais falta entrar nesta historia. – Perguntei olhando
os presentes, vi que Pedro olhou para seu lado, como se olhasse
para baixo, e depois para a porta do quarto, não entendi, mas por
um momento eu vi tudo ficar estático, depois o silencio, e um brilho
ao lado da cama, olho aquele menino, deveria ter uns 10 anos pelo
tamanho, ele estava nu, brilhava forte, vi surgir as costas asas que
lhe cobriram o corpo e me olhou.
— João, tem de entender, nem tudo é feito para ser dividido
entre tantos, o caminho é mais simples quando o percorremos, pois
não somos desviados pelas ideias alheias.
— Quem é você?
— Alguns, bem poucos, me conhecem por João, entre os se-
res alados, Nemahiah, um Arcanjo de Deus.
— Porque eu?
— Olha em volta João, os que lhe olham estáticos, são a pro-
teção desta cidade, muitos na rua nunca os verão, nunca saberão
que eles existem, não tem nem ideia do poder deles juntos, mas
eles não vão lhe facilitar o caminho, apenas o atrasar.
— E o que está acontecendo?
— Isto não posso falar, cada um constrói a sua historia, eu a
construí, e cheguei a Deus, cada um aqui, chegou a um pedaço dele,
ao lado de Pedro, tem um Querubim, o que um dia teve coragem de
duvidar de Deus, tem um Bruxo de comunicação, que é como
chamo este Francisco, ele para mim de religioso não tem muita
coisa, tem um empresário com poder, um amigo com ligações peri-
100
gosas, mas nenhum destes vai lhe responder suas duvidas, eles
apenas ampliarão o caminho a tomar.
— E Dara?
— Seres que não entenderam que o que os condena, é a pró-
pria memoria, não mais Deus, mas ela está em sua vida, estes por
mais que nos atrasem, nos geram frutos, boa sorte João.
Vi o ser sumir da minha frente, olhei para Pedro, e vi tudo
voltar a se mexer, com som e olhares.
— O que o protege que Beliel lhe olha admirado?
— Uma lenda que não levava a serio.
— Lenda?
— O existir de um caminho, que pode lhe levar a ser um dos
seres ao lado de Deus, por suas ações, pois para Deus, a inexistência
de ontem, hoje ou amanhã, faz que ele busque algo no futuro para
lhe representar no passado.
— Não entendi. – Moreira.
— Estes nomes são difíceis para mim, pois falar “Nemahiah”,
me parece sempre falando algo errado.
Vi Pedro olhar para o lado e sorrir e depois falar;
— Beliel lhe deseja sorte, pois vai precisar.
— Sorte?
— Digamos que ele considera que ele foi expulso do paraíso,
e readmitido, Nemahiah não foi expulso, mas todos que olham para
ele, acham que Deus o deveria ter punido.
— Talvez isto explique porque tudo dá errado para mim.
Dara sorriu e falou;
— Mas o que vai fazer?
— Melhorar, ir a uma exposição, depois a biblioteca estadual,
depois a Ponta Grossa, depois a região de Morretes, e por fim, sei
lá, fazer as pazes com seu pai.
Dara sorriu e olhou os demais.
— Viemos só avisar que estamos a disposição João, pois vai
precisar de toda a ajuda, e se precisar de ajuda, pede, pois sabemos
que as coisas nesta cidade poucos veem, mas quem a vê, sofre na
pele. – Pedro.
Joni me olhou e falou;

101
— Não sei a encrenca que se meteu amigo, mas sabe que coi-
sas como a que vi lá em casa, é de assustar pessoas normais, você
nem está ligando.
Sorri, Moreira me olhava intrigado;
— Pelo jeito está pensando muito.
— As vezes acho que não entendi nada, as vezes que entendi
tudo, mas se entendi tudo, nada vai acontecer, se entendi nada,
tudo vai acontecer, então provavelmente será um meio termo.
— Com certeza algo vai acontecer! – Francisco.
— Não acredito que um Arcanjo intervêm por alguém, se na-
da vai acontecer. – Moreira.
— Ele acha que vai acontecer, mas ele não sabe oque. – Fran-
cisco, que deveria estar tentando analisar minha aura.
Sorri novamente, depois de um tempo as pessoas começaram
sair, Pedro estava ali quando Jessica entrou e olhou ele e pergun-
tou;
— O que faz aqui rapaz? – Jessica.
— Tento entender o que está acontecendo.
— Estão agitando o lugar, tinha uma porção de repórteres lá
embaixo tentando descobrir quem todos vocês vieram ver, isto não
está ajudando Pedro.
— Tiro alguns daqui, mas tem de ver que algo está aconte-
cendo Jessica, temos ainda distúrbios dos últimos enfrentamentos,
e este seu amigo surge com uma proteção que não sabia existir.
— Proteção?
— Um Arcanjo chamado Nemahiah!
Olhei Jessica que sorri e olha para o rapaz, não entendi, mas
ouvi ela dizer;
— Se temos mais um João nesta historia, pelo menos temos
um honrado e que valoriza a família Pedro.
Vi que o rapaz não entendeu, eu não entendi, mas o sorriso
dela estabeleceu que não falaria mais, ela me olhou e terminou.
— E quem dera eu e João fossemos apenas amigos Pedro, o
dia que alguém entender nossa ligação, vamos já estar cansados de
tentar explicar.
— Vocês estão juntos? – Pedro.
— Ainda não, eu fujo dele, e ele se esconde de mim.
102
— Mas...
— Pedro, some, temos de conversar, e ele não está contente
com esta confusão, mas fica de olho em tudo, algo vai acontecer,
mas espero que seja no sul de Curitiba, pois tudo indica Leste.
— Leste onde?
— Se soubéssemos não teríamos de conversar.
Pedro saiu e Dara olha para Jessica.
— O que está acontecendo?
— Temos de ter calma, mas o medico disse que seu caso é ra-
ro, alguém lhe furou com a capacidade cirúrgica de não afetar nada
essencial, eles querem se livrar de você rápido João. – Fala Jessica
me olhando.
— Então está acabando nossa trégua? – Perguntei para ela
com um sorriso, não queria a seriedade da frase.
— Sabe que temos de conversar, mas parece que teremos um
problema maior.
Olhei Dara e falei.
— Encosta a porta para nós?
— Problemas? – Dara.
Olhei a porta e ela foi até ela e a fechou, e chegou perto.
— Não sei se posso confiar em vocês, mas não tenho saída,
mas Dara, nada do que falei, vou fazer.
— Nem fazer as pazes com meu pai?
— Isto talvez faça, mas o que me intriga, é que este Pedro fa-
la coisas que não entendo, ele nomeia gente que não consigo en-
tender, e – olhei Jessica – quem é este João que se denomina de
Nemahiah.
— Lenda da cidade, dizem que um menino morreu nesta ci-
dade na década de 70, aos 10 anos, este menino, percorreu o cami-
nho da fé sem religião, o caminho da perfeição, do correto, e o
Eterno o escolheu para ser um dos seus representantes, está ideia é
difícil até para mim João, pois ela se baseia em o Eterno buscar no
caminho que vai acontecer, os seres que vão ser os 72 anjos iniciais,
e um destes, saiu das ruas de Curitiba, conhecido como João Nin-
guém, não sabem o sobrenome dele, pois ele era um menino que
fora roubado da sua família inicial, criado como um escravo por
quem o roubou, e que acabou por lhe matar, então a historia não
103
lhe estabelece um sobrenome, este menino que definem como
Nemahiah, um arcanjo de Deus.
— Vai dizer que realmente João Ninguém caminhou nesta ci-
dade KeKa? – Perguntei para ter certeza.
— Pelo jeito já sabia.
— Duvido sempre, lembra?
— Sim, mas teremos de verificar estas coisas.
— Keka, o que falar a frente destes seres, provavelmente não
farei – olhei Dara – vale também para você, pois alguém me alertou
que eles apenas me tirarão do caminho, mas preciso ainda de um
caminho a caminhar, não o que eles me indicarem.
— E pretende fazer oque?
— Não vai adiantar antecipar, se eu que tenho de caminhar
este caminho, não adianta antecipar ele, somente criará resistência
a mais.
— E vai caminhar quando?
— Somente quando tiver alta, e terei de falar com 3 pessoas,
pois elas estão neste caminho, mesmo não gostando umas das ou-
tras – Olhei para Jessica – tem de ver que ai começa o problema.
— Só deixar claro que não gosto disto João. – Jessica.
Foram dois dias ainda para ter alta.

104
105
J.J.Gremmelmaier

Magia

106
A bagunça do meu quarto, reparo apenas de relance, não era
hora de arrumar isto, olho aqueles olhos me encararem a porta,
olhar a bagunça e falar.
— Isto tá um ninho de rato.
— Os ratos são mais organizados. – Falei olhando para Jessica
que me pergunta.
— Quando vai começar a se mexer.
— Temos de conversar, mas antes de a casa estar cheia Keka.
— Certo, o que quer falar.
— Tem de saber que vamos a uma aventura que desconheço
as consequências, só quero que mantenha a calma, sei que em de-
safios assim você consegue.
— Onde vamos?
— Pega na sala um caderno na estante, e o computador pes-
soal sobre a mesa, quero trocar uma ideia.
Vi Jessica sair, levantei e olhei para mim no espelho pequeno
do guarda roupa, coloquei uma calça, a barba mal feita, meu cheiro
não estava agradável, mas este era dos menores problemas.
Me vesti, estiquei o cobertor sobre a cama, e olhei Jessica en-
trar no quarto, sentei a cama e ela sentou-se ao lado.
— Vai continuar fugindo?
— Tô um trapo ainda Keka, mas vamos ver onde vamos pas-
sear.
Peguei o caderno e testei a caneta, e escrevi algumas coisas
nele. Acessei a internet pelo sem fio do notebook e olhei Jessica.
— Toda nossa historia Keka, começa em algo que aconteceu
em 1970, algo mudou nos caminhos ditados, alguns sabiam disto, e
outros ignoravam totalmente.
— O que aconteceu em 1970? – Jessica – Não esquece que eu
não tinha nascido.
— Eu tinha 3 anos Keka.
— Certo, passado para os dois. – Jessica.
— Eu gosto de calma, e pretendo avançar com muita calma,
nesta historia.
— Pedindo para que tenha calma, sabe que isto não funciona
comigo João.

107
— Disse que eu vou com calma, se quer correr na frente, eu
lhe alcanço, mas tem de saber, eu vou com calma.
— E vamos começar por onde?
— Descobrindo o segredo da estatua de Tiradentes.
— Segredo?
— Alguém colocou ela lá, como aniversario da republica, tem
de ver que nem tudo é contado como deveria.
— E vamos onde?
— Vai comigo?
— Vou, acha que vou lhe deixar sozinho com esta Dara?
— Pensei que ia sim.
Ela me bateu ao braço e sorri.
— Vamos começar por Ponta Grossa, depois vamos sentar e
ver o que temos.
— E estes que lhe observam?
— Keka, eu ainda não acredito que algo grande vai acontecer,
mas pode ser que algo grande seja revelado.
— E não vai falar isto para eles?
— Conhecendo quem está me olhando, não falarei nada em
lugar algum que tenhamos uma câmera, ou algo assim. Eles nos vão
vigiar pelas câmeras publicas e privadas, que estão na rede.
— Paranoico.
Sorri para ela, estava linda;
— Fica linda preocupada, fica linda sorrindo, fica linda ate
quando quer chorar, como posso não me apaixonar por ti Keka?
Ela me beijou, acho que estes lábios me prenderão por uma
vida, ou melhor, por um bom tempo.
Saímos no sentido do contorno Sul, para variar paramos um
tempo no contorno, rodovia 277, quase 3 horas, obras, reformas de
coisas mal feitas, sei lá, no Brasil se gasta muito mais remendando
do que fazendo bem feito, chegamos a Ponta Grossa, paramos em
uma casa e Keka me olha desconfiada.
Ciúmes é algo que não entendo, pois não tenho, as coisas são
feitas para serem vividas, não desconfiadas, saio do carro e olhou
aquela menina, cresceu, agora com mais de 18, mas estranho olhar
alguém como se ainda tivesse os 11 anos que a conheci e falei.
— Engordou, esta terra está lhe fazendo bem.
108
Jessica sorriu da cara da moça que me olha e fala;
— Olha quem fala, um balofo falando que estou gorda.
— Vai ajudar ou não Anabell?
— O que precisa?
— Soube que seu padrasto manda nesta cidade.
— Mandar não é bem a palavra.
Olhei para a rua, e vi um carro parar mais ao longe, Jessica
acompanhou o olhar e falou;
— Previsíveis, mas sabe qual deles está ai?
— Ainda não, mas já saberemos.
Anabell olha o carro e pergunta;
— Alguém tá interessado em você, as coisas mudam mesmo!
– Fala a moça me olhando, senti Jessica passar o baço no meu e
olhar para ela e falar – Sim, e não adianta olhar, tem 3 já neste ca-
minho, não vou abrir a mais ninguém.
— Mal gosto não se discute! – Fala a moça com cara de pou-
cos amigos.
— Podemos falar com seu “Pai”. – Esta foi para provocar, e
ela me olhou serio.
— O que vamos fazer, parece querer algo ilegal?
— Não posso roubar uma estatua de praça publica assim, sem
cumplices.
— Para que quer roubar uma estatua? – Anabell.
— Sei lá, para minha coleção de bagunça que tenho em casa.
— Não cairia bem naquela bagunça! – Jessica.
Entramos e o senhor me olhou e falou;
— Minha filha falou que precisava me falar, não sei quem é,
mas até o prefeito me ligou e falou para lhe dar estrutura.
Olhei para Jessica e falei;
— Viu, eles assim fazem ficar mais fácil, se pedíssemos, eles
estariam perguntando oque faríamos.
Jessica sorriu e falou.
— Verdade, mas o que faremos?
Olhei o senhor e falei esticando a mão;
— Meu nome é João, e preciso de algo que não é padrão, em
1970, alguém tirou de Curitiba um artefato, que alguns acham ser
importante para a historia do Paraná, mas toda vez que falamos isto
109
abertamente surgem tantos proibindo que obrigam que descubra-
mos as coisas que me mandaram fazer as escondida.
— O que precisa fazer?
— Cercar a estatua de Tiradentes na praça Rui Barbosa. Di-
zem que algo foi deixado ali, para ser encontrado, algo que nos le-
vará a uma procura, mas pode ser apenas a primeira procura, o
primeiro ponto, pois é algo impensado terem tirado algo de Curitiba
e escondido em Ponta Grossa embaixo de uma estatua, para mim
isto é lenda, mas mandaram olhar, eu vou olhar.
— E quem está por traz desta busca? – O senhor.
— Os herdeiros de João Turin. – Menti, o senhor não enten-
deria a confusão que estava a minha mente.
— E de onde conhece esta maluca?
— Sitio Cercado, a mais de 7 anos.
— Vou dar umas ligações, quer olhar quando?
— Quanto antes melhor, mas tem de ser discreto, sem nin-
guém além do senhor como testemunha quando estivermos lá, é
como o que fizeram em 1970, sem testemunhas.
— Por quê?
— Todos os caminhos que me indicaram, estou começando
pelos fáceis, tem de ver que nem todos os caminhos vão ser fáceis
senhor, e se acha difícil isolar uma estatua, digamos que tem coisa
bem mais difícil.
— Sabe que estas coisas sempre são difíceis.
— Senhor, estou pedindo pra você não porque o prefeito pe-
diu, eu pediria independente dele ter lhe ligado, estou implorando
para o seu lado patriota, seu lado ligado a aventura, a família, pois o
que tem ali, não e dinheiro, não é fama, é historia, os demais acham
que está aqui, e pode nem estar.
— E vai correr atrás de algo assim? – Anabell.
— Não, vou caminhar, correr é para vocês jovens, eu sou ve-
lho, lembra? – Falei olhando Anabell, que sempre me chamou de
velho gordo. Sei que era carinhoso, mas foi como sempre ela me
chamou.
— Vou ver o que consigo, passe aqui amanha. – O senhor.

110
— Vamos caminhar e passamos aqui amanha. – Falei, sai e
olhei o carro parado, poderia provocar, mas eles não tinham culpa,
estavam cumprindo ordem de alguém.
Caminhamos até a Praça Barão do Rio Branco e olhamos a es-
tatua de Tiradentes em gesso que é uma replica da que tem em
Curitiba, Jessica me olhou e perguntou.
— Eles não seriam malucos de esconder algo ai? Ou seriam?
Caminhei até outro ponto e olhei para ela.
— Não sei, mas realmente é um local muito visível, mas tenho
de eliminar possibilidades.
— E não vai me contar, estou perdida nesta historia.
— Tá com fome?
— Sim, nem sabia que ficaríamos mais de um dia aqui.
— Pensei que minha pequena Keka sabia de tudo.
— Vai tirar sarro?
— Tem um hotelzinho na esquina de cima, que temos uma
reserva, vemos se tem algo para comer no caminho.
— Estanho uma praça – ela falou olhando em volta – que não
tem uma lanchonete.
Começamos a caminhar, dobramos a esquina da Coronel Bi-
tencourt e logo a frente tinha uma panificadora, eu já estava com
fome, mas não vi mais nada por perto, olhei a hora, o restaurante
do hotel já não deveria estar funcionando, entramos e pedimos dois
sanduiches e dois cafés, perto da porta tinha uma mesa de plástico
e sentamos ali.
— O que não entendeu ainda Keka? – Eu vi que ela não que-
ria brigar, pois a mais de um dias a chamava de Keka e ela não me
repreendeu.
— Na verdade não entendi nada, você falou de Joao Turin,
mas o que ele teria haver com esta energia?
— Na verdade não sei, é que a única pessoa que representou
Guairacá foi ele, alguém que mesmo fora do país focou na imagem
do indígena.
— É um chute?
— Aquilo que não sei como acontece comigo, todos pensam
em ir a direita, eu paro porque tenho uma ideia e algo que não me
atingiria se tivesse continuado a caminhar me acerta, me fere.
111
— E o que nos trouxe aqui na cidade?
— Estou pensando e erguendo a historia Keka – Olhei a moça
colocar o café a mesa – mas ainda pensando, e saiba que nem sem-
pre é fácil.
— O que pensou?
— Estamos caminhando as cegas, mas vamos comer algo,
vamos conversar e entrar em problemas.
— Problemas como você diz, atrai todos.
— Nem todos, mas em cada parte da minha vida atrai um cer-
to estilo de confusão, agora dizem que vai mudar aos poucos, não
gosto da ideia de uma estrela definir isto Keka.
— Resolveu me chamar só de Keka?
— Vendo quando vai acabar nossa trégua.
— Não estamos em trégua, eu cedi um pouco, é diferente.
— Eu te amo menina, e sei que todos a volta me olham como
um velho safado, por isto.
— Mas não entendo quem foi João Turin.
— João foi alguém que nasceu na cidade de Morretes, na
época a cidade estava em alta, era o caminho para Antonina e Para-
naguá, e novos ricos se faziam com base na era da Erva Mate, que
fazia surgir cidades como Curitiba, que deixa de ser apenas uma vila
para virar Cidade.
— E o que este senhor tem de especial?
— Lembra quando em 2013 foram restaurar a estatua de Ti-
radentes e acharam uma garrafa com uma moeda e uma folha escri-
ta, que indicava um segundo lugar?
— Sim, mas não procuraram na época.
— Na verdade eles não fizeram nenhum esforço para achar a
outra arca, mas quem planejou a arca, esculpiu Tiradentes, foi João
Turin, teoricamente nascido de Morretes, no Paraná, um dos artis-
tas mais completos que este estado já teve.
— E o que nos traz para cá?
— Quando pediram para procurar a segunda arca, o Patrimô-
nio histórico inventou um monte de argumentos falhos para não
abrir a segunda câmara onde deveria estar moedas, uma carta e
algumas curiosidades, mas eles não quiseram o fazer.
— Acha que tem um motivo?
112
— O mesmo Patrimônio Histórico foi responsável pelo projeto
da atual praça, onde acharam calçamentos antigos, e coisas assim,
eles deixaram a praça isolada mais de 6 meses, acredito que se es-
tava lá alguém já tirou.
— Mas dai não estaria aqui.
— Dai só estaria escondido se alguém o tivesse tirado antes.
— Certo, você não parou na afirmativa que os objetos já ha-
viam sido tirados, e sim que se não foram, estariam em outro lugar.
— Sim, pois a posição original de Tiradentes naquela praça é
onde hoje está a estatua de Getúlio Vargas, e não onde está hoje, a
logica da criação da praça era, Tiradentes olha a praça com seu no-
me, Marechal Floriano o Inicio da Avenida que tem seu nome, Getú-
lio Vargas para o Paço, onde ficou hospedado quando por 3 dias
regeu o pais dali, Inverteram as posições, isto lá em 1932, então
quando fizeram a copia da estatua, já não estaria as coisas lá, e sim
em outro lugar.
— Ou mudaram de local na época.
— Sim, mas ninguém escreveu esta historia, dai entra um
nome que nos traz a esta cidade.
— Quem?
— Affonso Guilhermino Wanderley, descendente de Holande-
ses vindos do Nordeste Brasileiro, e que tem em Affonso um grande
pintor, ele fez as primeiras pinturas da Catedral da Praça Tiradentes,
alguém que teve contato com os projetos da praça no inicio, alguém
que tem sua historia inicial nesta cidade, e depois tem a historia
arrastada para Curitiba, mas que tem algo interessante.
— Interessante?
— Quando você lê uma biografia de qualquer pessoa no Bra-
sil, eles vão dizendo, filho de um, filho do outro, vão nomeando os
pais, mas dai tem a historia narrada da filha de Affonso, primeira
mulher a estudar em uma escola em Curitiba, primeira mulher a
lecionar em Curitiba, primeira mulher a um cargo eletivo de gover-
no em Curitiba, e se ler a historia dela, se narra as origens femini-
nas, e não as masculinas, e o que se destaca é a origem dela, vir em
parte, do Litoral de Santa Catarina, região de São Francisco, com
passagem por Morretes.
— E esta mulher tem uma estatua de João Turin?
113
— Sim, na praça Santos Andrade, olhando para a Universida-
de recém ampliada.
— Acha que vamos revirar tudo isto?
— Acho que estou tentando lhe impressionar Keka, mas não
sei ainda o caminho a tomar.
— Sabe que não precisa disto.
— Eu não sei, fica me mandando embora.
— Ainda bem que você é teimoso e volta.
— Ainda bem que sou azarado e você volta para cuidar de
mim!
— Acha que esta cidade guarda parte disto?
— Keka, o que estou falando, é que com certeza, esta família,
se foi uma família com interferência dos Guairacás, ela adquiriu
nesta cidade, não antes, se ela teve interferência dos Manás, foi
quando passaram por Morretes, mas eles podem ter sangue de
pagão da região de São Francisco, que é encostado em Joinville, e
quem narra a família pelas mulheres, são os Judeus ou os adorado-
res de Amaná, a Deusa local.
— Uma senhora mistura.
— Sim, mas o senhor Wanderley era um amante das Demo-
cracias, e tinha um comercio, na Casa Verde, esta parte não conse-
gui erguer com certeza, mas pode ter certeza, não eram da linha
pobre, e mesmo assim, tinham pretensões, mas temos um monte
de peças sem ligação, vamos ter de ir montando o quebra cabeça,
pode ser que fique mesmo assim, sem grandes pedaços sem conse-
guirmos fechar.
A moça trouxe dois grandes sanduiches, a conversa ficou
apensa nos resmungos, meus pensamentos foram passando por
vários trechos da historia e chega a uma imagem que não me saia
da cabeça, estava longe quando Jessica apenas me olha, ela não
olha a porta, mas vi os olhos dela brilharem e falar baixo.
— Mantem a calma, sabe que algo viria a nós.
Sorri, ela apenas fecha os olhos, morde mais um pedaço do
sanduiche e abre seus olhos normalmente, sorrindo.
Dois rapazes entraram na panificadora, um passou as minhas
costas e sentou em um lado da mesa e outro sentou direto na ca-
deira que estava mais para a porta e me olhou.
114
— Dizem que está procurando confusão velho. – Fala um ra-
paz, olho claros, pele branca, cabelos escondidos no boné que mal
dava para distinguir a cor do cabelo, ele tinha alargadores de orelha,
piercing no nariz e pontos de piercing no lábio inferior.
O segundo olhou Jessica e falou;
— Quietinha que não se machuca.
Jessica me olha aos olhos e sorri;
— Eles devem ter lhe confundido João, mas quem manda ser
tão impopular assim.
O rapaz que havia falado primeiro me olha e fala;
— Se nos acompanhar por bem, pode sair inteiro.
Olhei Jessica que falou;
— Sabe que eles não vão me levar junto, apenas entra em
contato, assim que eles verem que não sabem com quem falam,
eles lhe soltam.
— Tem certeza? – Perguntei.
— Por bem senhor, não queremos complicar você!
— Posso pelo menos pagar a conta? – Olhei o rapaz.
— É bom, evita problemas maiores.
Olhei Jessica e falei;
— Tem uma reserva em nosso nome no Pax, na próxima es-
quina, é só me esperar.
— Não demore.
— Não depende de mim, se não aparecer, avisa o pessoal,
pois alguém terá de olhar os lugares em Curitiba.
— Sabe que eles nem desconfiam de nada.
Sorri, levantei, paguei a conta e o rapaz me empurrou para
fora, não olhei, vi um carro parar na rua e me empurrarem no banco
de traz, o rapaz que falara entra após e põem uma arma na minha
barriga e fala.
— Não custa furar você aqui se não for por bem!
— Se era para me furar, podia ter feito ali fora! – Falei sem
pensar, e vi o rapaz me olhar com raiva.
— Calma Dinho, temos de o entregar inteiro, tem gente curi-
osa com a vinda deste senhor a cidade.
— Trabalho fácil este, acha que a menina não vai chamar a
policia?
115
— Pelo que entendi, eles vieram roubar algo Dinho, eles não
vão chamar ou por a polícia nisto.
Ouvi isto e sorri, o rapaz me olhou e falou;
— Não é velho para ladrão.
O carro saiu ao sul, não conheço a cidade, mas não andamos
muito, vi quando surgiu uma praça e uma igreja mais a frente, olhei
que iriamos parar, entramos no estacionamento de um local que
dizia Clube Ponta-Lagoa.
O rapaz da entrada não pediu identificação, fez sinal para en-
trarem rápido, o carro parou, a educação de me empurrarem, acho
que eles estavam se divertindo, mas como Jessica fala, sempre to-
mo tiros, quebro o nariz, a perna, levo facada, então estava em mais
um caminho destes.
Os rapazes me sentaram em uma cadeira, estava em um bar
interno, olhei um rapaz ao fundo falar com um senhor, minha vista
não via tão longe, coisas da idade como já falei.
Estava sentado, quando o rapaz me olha e fala.
— O senhor Souza já vem falar, se comporte, estamos olhan-
do.
Sorri, lá ia eu mentir descaradamente, e olhei o senhor e pen-
sei, se ele for um descendente da linha que penso, ele saberia que
estaria mentindo.
O senhor veio de dentro e falou;
— Desculpa o mal jeito, mas deve ser João Jorge Gomes.
Sacudi afirmativamente a cabeça, raramente vai me ver repe-
tindo meu nome, mas o senhor sabia ele completo.
— Manuel Souza Neto, gostaria de lhe fazer umas perguntas,
não me leve a mal, mas não gostamos de gente mexendo em coisas
que dizem respeito a família.
— Falou Souza Neto?
— Sim, conhece alguém da família?
— Apenas lendas, desculpa, não queria chamar atenção, e
mesmo que pareça que estou mentindo, é que não tenho certeza
do que poderia fazer que mexesse com sua família.
— Dizem que veio verificar algo sobre a estatua de Tiraden-
tes.

116
— Na verdade preciso da historia, mas não preciso provar na-
da, pois não pretendo narrar isto, é apenas o evitar de um proble-
ma.
— Problema?
— O que vou falar, pode ser que você entenda, se as lendas
forem reais você entende, mas quando uma Pagã lhe diz, não tem
como fugir de algo que está em seu cheiro, e algo vai despertar
neste ano e você é o portador, quando um Moroi lhe diz, a energia
que vem da cidade assusta os Moroii, quando uma Moroaica lhe diz,
que uma menina que cruzou minha vida é uma Guairacá, e tudo em
15 dias, dai pessoas do meu passado começam a surgir, e uma Le-
murie lhe fala que teria de achar o motivo de todo este despertar e
atrair, não sei você Manuel, mas eu vou descobrir porque disto,
alguns acham que é uma energia a ser enfrentada, eu não acredito
nestas coisas como eles.
O senhor me olha e olha uma senhora ao fundo, esta senhora
caminha com dificuldade até a mesa e me olha, as marcas do tempo
bem visíveis nela.
— O que quer falar filho?
— Disse que ele mentiria a teríamos de nos livrar do peso,
mas ele não mentiu.
— E acha que isto muda algo filho?
— Sente o cheiro mãe.
Vi a mulher levantar o nariz, respirou lentamente, as marcas
da idade na pele da senhora pareciam ser maiores do que qualquer
ser humano que já tivesse visto.
— Ele está ligado a uma bruxa, mas... – A senhora para a frase
e fala – tem medo das consequências filho?
— Bruxas não são bem vindas, você mesmo disse que rara-
mente se vê uma, que são raras.
A senhora me olha e pergunta;
— Porque veio a cidade?
— Despistar alguns chatos de Curitiba, como J.J. Moreira, Pe-
dro e Gerson Rosa, entre outros.
— Despistar?
— Senhora Laurinda, se não me engano, a mãe de toda esta
família, a senhora que educou a mais incrível das mulheres, se acha
117
que entendeu o problema é porque não entendeu, eu não procuro
riquezas, eu procuro um amor, mas o cheiro que sente no ar, é de
uma Moroaica com os dons da avó, Dara de Buzau, mas no peito,
tenho o amor de Keka Duarte, a pagã, e tenho ainda uma Guairacá
sobre minha guarda, já que a mãe dela a expulsou de casa, eu tenho
de pensar, eles estão pensando em riqueza, mas não entendem, eu
já tenho a riqueza que quero ao meu lado, dinheiro é detalhe, as
moedas de uma época distante, detalhes.
A senhora olha para o filho e pergunta;
— O que eles estão fazendo?
— Cercando para verificar a área da replica de Tiradentes.
— Eles nem sabem o que procuram, mas este senhor é uma
incógnita, ele sabe que não deveria mentir, e não mentiu por isto,
mas escolheu palavras filho, tem mais coisa ai.
— Sei disto mãe, mas tem de ver que toda esta historia é in-
trigante, ouviu a narrativa.
Olhei a senhora, senti algo me tocar o braço, vi que eles não
olharam para mim, mas olhei o menino surgir ao meu lado, o olhar
da moça não estava em mim, o do senhor também não, quando vi a
imagem de uma senhora, muito velha, muito idosa, mas sem a pos-
sibilidade de morrer, ouvi o nome em minha mente e olhe para a
senhora e falei.
— O grande problema senhora, é que quanto mais se sabe,
mais se mente, eu não menti antes pois não sabia da verdade, agora
começo a duvidar se sairei vivo.
— O que entendeu? – Manuel.
— Senhor, está historia começou a mais de oito mil anos, fu-
gindo do subir do mar onde hoje é o mar Negro, quando se aprisio-
nou a primeira Moroaica, esta pessoa, por muitos anos, usou o no-
me de Diana, quando a mais de 300 anos, fugiu para a América,
muda de nome, né Laurinda? – Perguntei olhando a senhora que
me olha assustada, o filho viu que algo foi revelado e que a senhora
pareceu mudar a feição.
— E descobriu isto me olhando? – Laurinda.
— Não, as coisas são me reveladas aos poucos, mas não te-
nho nada haver com sua fuga Laurinda, mas que tal parar esta briga.
— Não tenho como voltar a Europa.
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— Senhora, Tudor de Buzau, neste instante, está em Curitiba,
e você aqui se escondendo.
Vi ela olhar em volta, não sei o que ela pensou, mas ouvi a
frase;
— Tão perto, mas não o senti.
— Talvez porque eles não estão escondidos senhora, mas
queria dizer apenas que não somos inimigos, e talvez, seja a hora de
recomeçar a viver, no lugar de se esconder.
— Tem de entender, o que está escondido é algo grave.
— Senhora, isto vai despertar, eu estando lá ou não, acredito
que pode demorar mais sem eu para atrair a desgraça, mas sempre
acaba acontecendo, todos dizem que sou um mal agouro, e não
duvido, atraio a desgraça mesmo.
— E sobrevive?
— Senhora, não entendi isto, mas isto é anterior a existência,
anterior a Beliel ser expulso e readmitido na cidade de prata, ante-
rior a condenação dos Moroii, anterior ao perdão as Moroaicas, algo
que me fara sofrer mas me levará a passagem próxima, pensei que
a senhora entendesse isto, mas se nem a senhora entende, paciên-
cia.
— O que ele quer dizer mãe?
— Filho, acho que o que ninguém entendeu, é que protejo os
meus, mas não sou condenada a morte, e sim a continuar a viver e
sofrer, ele diz ser algo assim como eu, carrega os pesos, mas não
acredito nisto.
Sorri, a moça olha para os rapazes e fala;
— Se livrem dele, ele estava com alguém lá?
— Uma criança, ela se registrou como Jessica Talize no hotel a
uma quadra de onde o pegamos.
— Não é ninguém que nos faça diferença, mas some com ele,
não o quero ver mais.
Os dois me empurraram, me colocaram um capuz na cabeça,
um me jogou no porta-malas, e saíram, odeio sentir que vou mor-
rer, mas algo me dizia para manter a calma, consegui tirar o capuz,
olhei em volta, no escuro do porta-malas, lembrei de algo e comecei
a chutar a região da luminária traseira, vi quando ela saiu, pus a
mão para fora e comecei acenar.
119
De uma hora para outra o carro parou, não sabia se eles viri-
am verificar, dai me encolhi, vi um senhor abrir o porta-malas, ele
me olha e fala;
— Tudo bem senhor? – Era um policial.
— Agora melhor senhor, eles me jogaram no porta-malas e
não sei para onde íamos.
— Não é da região?
— Hospedado no Pax, no centro.
Fomos a delegacia, não entrei em detalhes, não adiantaria,
apenas contei a historia mal contada, e os policiais me deixaram a
porta do hotel.
Vi a senhora ao fundo e apenas olhei para Keka e fiz sinal que
não com a cabeça, a senhora olhou para traz, mas não me viu, e
cheguei pela outra ponta e ouvi.
— O que é você menina.
Peguei o telefone e disquei para Dara;
— Dara, ouve, estou em Ponta Grossa, acabo de descobrir al-
go que pode ser a causa do que vai despertar.
— O que descobriu?
— Existe uma senhora, ela se denomina de Laurinda, se tives-
se viva só aqui deveria ter mais de duzentos anos, mas ouvi o filho
dela a chamar de Diana.
— Tem certeza disto?
— Por saber disto ela mandou me matar Dara, avisa seu avô,
pode ser um problema.
— E esta onde?
— Ela acha que morri, e está tentando entender o que é Keka,
as duas estão ali a olhar uma a outra.
Ouvi a senhora falar;
— E se acha que aquele fraco vai entrar pela porta, ignora
que a esta hora, ele deve estar morto.
— Não entendi quem é a senhora. – Jessica.
— Ele entendeu e morreu, quer entender realmente?
— Cheira a uma Bruxa, tem um leve cheiro de Moroaica, deve
ter sido uma por um tempo, mas estranho, pois uma vez Moroaica,
sempre Moroaica, tem cheiro do Eterno, com certeza brigou com
ele pessoalmente, nem que no passado, vou ter de descobrir, pois
120
não conheço ninguém que brigou com o Eterno e está... – Jessica
para a frase, um intervalo de tempo - ... tem aquele menino que
brigou com ele, não me lembro o nome, tem uma lenda com o no-
me dele, mas não lembro o nome.
— Está a dizer que na sua terra tem um menino que brigou
com o Eterno e está vivo?
— Senhora, o que quer comigo?
— Só vim ver quem você era, se não era uma Moroaica, mas
não é, não é uma pagã, tem cheiro de Bruxa, mas não tem idade
para ser uma Bruxa, e é virgem, não existem bruxas virgens.
— Não entendo de Bruxas! – Jessica sorriu, a moça saberia
que ela mentira, e foi inevitável rir.
— O que tem de graça nisto?
— É que as vezes esqueço que não devo mentir, mas não me
respondeu, o que faz aqui ainda?
— Esperando quem vai lhe tirar daqui?
Vi Pedro parar ao meu lado e olhar para a senhora, ele sorriu
e passou por mim, senta-se na mesa, dá um beijo no rosto de Jessi-
ca e fala.
— Vamos?
— Vamos, embora não saiba para onde?
— Dizem que prenderam um grupo que matou um senhor no
sul da cidade, quero ver o corpo, embora duvide que algo mate
João.
— Ele não é imortal Pedro, um dia ele vai, acho as vezes que
ele quer isto, acabar com este tormento.
— Tem algo a mais para falar com esta senhora, estou atrasa-
do Jessica.
— Não, vamos!
Jessica levantou-se, vi a senhora segurar seu braço e falar;
— Acho que nos veremos ainda.
— Não duvido, mas senhora, cada um aumenta ou diminuí o
peso que carrega, se mandou matar João Jorge Gomes, vai carregar
mais este peso, pois ele não era um bruxo, um Moroi, um Guairacá,
ele apenas carregava uma determinação do Eterno, quem o matar
ou ordenar ela, carregará o peso que era dele, sabe que o Eterno
não se preocupa com perdas simples, ele pensa no todo.
121
Comecei sair, vi o carro parado e nele Joni, entrei e vi Jessica
e Pedro entrarem.
— Quem é aquela senhora? – Pedro me olhando.
— Alguns a chamam de primeira bruxa, Diana, a bruxa que
aprisionava Moroaicas para viver jovem por uma eternidade. Alguns
acham que ela é Lility, nada leve para alguém que segundo um ami-
go pode viver entre os humanos a mais de 10 mil anos.
— Tudor tem de saber disto. – Pedro.
— Liguei para Dara e falei, agora ela deve estar contando para
o avô.
— Ele vai achar que o atraímos para uma arapuca.
— Ele não é tão irracional assim Pedro, ele é uma lenda, e pe-
lo que vi, uma lenda que tem aparência de mais jovem que eu, e
tem mais de dois mil anos.
— Para onde?
— Tem como monitorar as câmeras locais Pedro? – Pergun-
tei, pois sabia que o rapaz era um gênio na informática.
— Alguma dica?
— Os rapazes presos quando me levavam para a região de
abate deles, devem correr para onde está o segredo e se pudermos
verificar o movimento, facilita.
— Acha que está onde?
— Teoria e pratica é algo diferente.
— O que imaginou? – Jessica.
— Que tenho grande chance de acabar o dia em um hospital,
grande chance de terminar a semana falido, grande chance de ver
você cuidando de mim mais uma semana. – Sorri e ela apenas me
olhou com aquele olhar malicioso.
Pedro olha o motorista e fala;
— Vamos para a cede do jornal.
Não sabia para onde íamos, mas o senhor não saiu do centro
e entramos em um prédio que dizia Correio de Noticias.
O rapaz entrou, e fomos a uma sala, a secretaria nos conduziu
a uma sala e Pedro assumiu um computador, vimos uma tela ao
fundo começar a surgir imagens de câmeras de rua, a noite se apro-
ximava, e vimos as mesmas continuarem a gravar com uma incrível
definição.
122
— Pensei que o agito iria ser amanha! – Pedro.
— Era a arapuca Pedro, eles teriam de saber que iriamos iso-
lar uma região, nem eles sabem onde está tudo, e obvio, alguém
mexendo no segredo que acabamos de descobrir, fez eles se mos-
trarem.
— E porque acha que eles vão a alguém lugar? – Pedro.
— Porque eu era vigiado, Keka era vigiada, eles devem achar
que podemos desconfiar de algo e a tendência, é olhar ou enfren-
tar.
— Mas o que descobriu? – Jessica.
— Que a família que pensei, não era de Guairacás, e sim de
Morois e Moroaicas, então temos um problema maior Jessica.
— Não entendi.
— Se fosse apenas Guairacás e Manás, não teria briga, eles se
entenderiam, deve ter algo haver com disputa de magia, a magia da
terra local, uma guerra de anos.
Vi que Pedro me olhou e perguntou;
— Mas deve apostar em um lugar de ida?
— Nada, eu não conheço a cidade, eu tenho uma desconfian-
ça, mas eles vão demorar para sair, talvez nem saiam hoje.
— O que acha que vai acontecer?
— Tem alguma imagem do Tiradentes da Praça?
— Colocamos 3 câmeras lá hoje mais cedo. – Pedro colocando
a imagem, pensei e sorri, eu nem tinha saído de Curitiba e eles já
me esperavam neste endereço. A imagem mostrava os rapazes ter-
minando de cercar o local, olhei em volta e me levantei, cheguei
perto e perguntei.
— Tem como aproximar este ponto? – Mostrando uma se-
nhora.
A imagem chega perto e mostra a senhora, olho em volta,
mais de 3 rapazes ao fundo, esperando.
— Eles vão fazer algo ai Pedro, não sei oque.
Pedro liga para alguém e ouço;
— Ricardinho, esta vendo uma senhora a sua frente, com ou-
tros 3 rapazes?
— Sim.

123
— Prepara para registrar, não sei o que detêm este tipo de
ser, então apenas observem.
Pedro me olha e fala;
— E se estiver ali.
— Vamos lá. – Falei.
— Mas e se eles lhe verem? – Jessica.
— Jessica, o que veremos ali, é uma guerra, e não sei ao certo
o que esta em jogo.
— Guerra? – Joni que apenas ouvia.
Sorri e saímos, estávamos apenas a 3 quadras, os demais es-
peraram o carro, olhei a casa na esquina e falei.
— Eu vou descer a pé.
— Sabe onde está? – Pedro.
— 3 quadras, mas vão a frente.
Segurei no braço de Jessica que me olha sorrindo e fala.
— Está aprontando.
A beijei e falei.
— Ainda não, como está nossa reserva?
— Paga, mas não sei o que aquela senhora é.
— Tudo que falam dela para mim é lenda, pois não acredito
que Deus povoou com um povo especial este planeta.
— Se ele tivesse feito, quem seria ela?
— A primeira mulher de Adão, a mulher que não baixou a
guarda para Deus, que não se submeteu a um homem por ordem de
Deus, e foi lhe dada a praga, de caminhar no planeta, sem morrer, e
sem ninguém se apaixonar por ela.
— E pensei que sua praga era ruim.
— Não acredito em pragas, sabe disto, você que falou com
ele, deveria saber que pragas não são do Eterno, e sim de seres que
se dizem Deus.
— E estamos esperando eles fazerem oque?
— Keka, o que viemos fazer em Ponta Grossa?
— Em teoria, desviar os olhos.
— Eles enquanto nós arrumávamos as malas, instalavam câ-
meras na praça que viríamos ver.
— E o que estamos fazendo?

124
Não falei, vi a câmera da rua sobre nós e atravessei a rua, ca-
minhamos até a entrada de uma casa, amarela, antiga, deveria ter
mais de 80 anos naquele endereço, batemos e um senhor da segu-
rança atende.
— Não tem ninguém.
— Somos turistas, teria como dar uma olhada, achei linda a
casa.
— É da prefeitura, mas não... – abri a carteira e mostrei algu-
mas notas de 50 e o senhor me fala – posso abrir uma exceção, mas
não podem registrar que estiveram aqui.
Sorri e entramos, casa de dois pisos, olho o senhor e pergun-
tou;
— O que querem olhar? – Pegando as 4 notas de 50 que tinha
na carteira.
— Dizem que esta casa tinha uma adega, antes de virar órgão
publico.
O senhor me olhou e perguntou.
— Não vieram ao acaso?
— Senhor, apenas uma coisas, qualquer coisa que acontecer
aqui, não será relatada, qualquer coisa eu ligo para o prefeito e
explico, mas não aconteceu, entendeu.
— Se tinha permissão do prefeito porque veio me subornar?
— Ele não sabe que estamos aqui, mas se falar que eu estive
aqui, ele vai fazer perguntas, mas nada que faça sentido para ele.
— Não foi claro.
— Tem ou não?
— Sim. – O senhor nos mostrou uma porta pequena por baixo
da grande escada que subia ao segundo piso, abriu e ligou a luz.
— Este lugar é a dispensa do local.
Não falei nada, andei para baixo, realmente muito material na
escada estreita, uma peça pequena, olho a peça e olho os olhos de
Jessica e falei.
— Vamos ver se levamos a sorte de conhecer o lugar mais in-
crível de Ponta Grossa.
Dei uma volta na pequena peça, tocando a parede, estava tu-
do parecendo maciço, batia com o chaveiro das chaves de minha
casa, quando uma parede fez sinal de metálico.
125
Sorri e Jessica me olha.
— O que teria aqui?
— Vamos descobrir. - Olhei o senhor e falei – Nosso segredo
por enquanto.
— O que teria ai?
—Deveria ter uma escada em arco, para uma peça bem abai-
xo deste ponto.
— E se não tiver? – O senhor.
— Colocamos as coisas no lugar e vamos embora.
— E o que teria neste local?
— Se alguém soubesse, não teria de vir ver.
Abri o canivete que estava no chaveiro e achei a ponta do
metal, passei em volta e vi que tanto encima quando embaixo havi-
am encaixes metálicos como se segurassem uma peça. A forcei e o
senhor viu a grande peça de metal sair da parede, ele olha que a
parte oposta dela era uma escultura e falei.
— Primeiro achado do dia! – Olhando o senhor.
— O que é esta peça?
— Se um dia olhar a obra, Os Índios de Joao Turin, ela é uma
replica desta que deve ser a original, se não me engano.
— Mas como saber se esta não é a replica? – Jessica.
— Não saberíamos, apenas João saberia, mas uma réplica
destas já teria seu valor. – Falei olhando o senhor.
Ele olhava o buraco a parede, olhei para ele e falei.
— Teria uma lanterna?
— Estão indo mais longe do que pensei senhor, vou ter de
pedir que saiam.
— Quanto? – Olhei ele serio.
— Posso perder o emprego.
— Senhor, estamos prestes a descobrir algo que não existe,
não aconteceu, mas gostaria de colaboração.
— Tem de entender.
Peguei o celular e disquei para Pedro.
— Pedro, como estão as coisas?
— Eles estão observando, estamos apenas olhando.
— Consegue para mim o telefone do Prefeito?
— Por quê?
126
— Consegue ou não?
— Sim, lhe passo por mensagem.
Desliguei o telefone e olhei para Jessica.
— Era para ser segredo, mas se querem escancarar, o pro-
blema é da cidade, não meu.
Olhei o numero e disquei;
— Por gentileza, Marcelo Oliveira?
— Ele, com quem falo?
— Um senhor de nome João, que esta agitando sua cidade.
— Problemas, pediram para ajudar e não entendi porque?
— Senhor, o que vamos descobrir, pode não vir a publico,
mas se for, gostaria de ter a prefeitura nisto, não grupos de Patri-
mônio Histórico, que geralmente apenas atrapalham.
— Descobriram algo?
— Sim, mas gostaria de permissão sua para verificar uma coi-
sa, ainda em segredo, na Mansão Vila Hilda, na rua Júlia Wanderley.
— Poderia ir lá amanha e conversaríamos?
— Estava tentando convencer o segurança a dar uma olhada,
hoje, sem ninguém me ver aqui senhor, pois eu aqui na cidade é
mais de 12 grupos me olhando, mas ele disse que não teria como.
— E teria de ser hoje?
— Enquanto todos olham para a praça senhor, fazemos o que
viemos fazer na cidade, desvendar um segredo de 40 anos.
— E tem certeza que está na Fundação Cultural de Ponta
Grossa?
— Sim, depois temos de conversar se traremos isto a publico,
ou apenas uma versão bonita.
— Acha que descobrira o que neste lugar?
— O testamento de João Turin, doze peças inéditas, e duas
que são apenas copias dos originais contidos aqui.
— E se não tiver nada disto?
— Teríamos apenas uma replica e alguns ossos.
— Ossos?
— Senhor, nos permitiria fazer isto ou terei de voltar amanha,
mas com muita gente olhando.
— Sabe que pede muito.
— Tudo bem prefeito, amanha nos falamos.
127
— Vai desistir?
— Não forço a porta senhor, e nada do que descobrir sairia
daqui mesmo, mas se não quer, amanha nos falamos.
Olhei para Jessica e peguei em um dos lados da peça que ti-
ramos da parede e a erguemos ao local, a colocamos no lugar, pe-
gamos algumas caixas e colocamos rente a aquela parede.
O segurança olha para mim e fala;
— Vai voltar amanha?
— Não.
Começamos a sair e depois de sair pelo portão olhei para Jes-
sica que falou;
— Tem algo muito ruim naquele lugar.
— Muito ruim?
— Cheira a mortes.
— Que tipo de morte?
— Não sei, sabe aquele cheiro de jaula de leões de zoológi-
cos?
— Sei, mas era de leões ou de felinos?
— Parecia ter os dois cheiros, mas mais para Lobo que para
Felinos, mas forte no que parece Leões.
Estávamos nos afastando quando o segurança nos chamou;
— Senhor, espere.
Olhei para trás, não sabia se entraria onde queria, mas algo
estava mudando.
— Sim.
Ele esticou o celular dele, e atendi.
— Sim.
— Sou eu de novo, o prefeito.
— Fala prefeito?
— O segurança disse que não voltaria amanha, não entendi.
— Senhor, estas coisas não se abre todos os dias, apenas isto,
mas não vou explicar o que nem eu entendo ao todo.
— E se autorizar olhar, promete não retirar nada?
— Senhor, estamos falando de peças de 100 quilos, não de
moedas.
— Certo, vou autoriza sua entrada, mas vou pedir para o se-
gurança me relatar.
128
— Pede para alguém da Fundação falar com ele amanha ce-
do, com certeza, ele apenas está fazendo o trabalho dele senhor,
protegendo a casa.
Estiquei o telefone para o senhor e olhei para Jessica e falei;
— Mantem a calma.
— Não entendi o que vamos fazer ali.
— O que sabe sobre prisão de vida, coisas de bruxas.
— A palavra de boa intenção, quebra os encantos, as palavras
certas salvam muitas almas, as palavras incorretas, aprisionam.
— Então vamos com calma, certo.
— Certo. – Ela sorriu.
O senhor nos olhou e falou;
— Vamos voltar ao ponto inicial, pelo jeito era serio que se fa-
lasse com ele teria a autorização, mas não entendi porque não vol-
taria.
— Como é seu nome senhor?
— Sergio.
— O meu é João, mas as coisas as vezes, tem de ser feitas de
acordo com o ritmo que nos permitem fazer.
Entramos, retiramos as caixas, separamos a peça que não vol-
taria a parede, não como estava, o senhor pegou três lanternas,
daquelas que se por nos olhos não se vê por segundos, nos espre-
memos para passar no buraco a parede, de não mais de 70 centíme-
tros de altura por 90 de largura. Ao passarmos pelo buraco, uma
peça de mesmo tamanho, ao canto uma escada em caracol, para
baixo, ela parecia escavada na terra, seca, mas terra, não era algo
com acabamento, ela descia e ia girando em torno de um centro
que não víamos, desci contando os degraus em silencio, 302 de-
graus uma sala se abriu, na peça inicial, 10 figuras de leões, esculpi-
das, estavam em pedestais de terra, estranho alguém ter feito aqui-
lo, mas no escuro iluminado pelas lanternas, se via o esverdeado
das estatuas, secas, o local estava bem seco, mas não deveria ser
assim sempre.
Caminhamos, e o senhor olha aquilo e fala;
— Isto que queria descobrir?
— Isto é o motivo de alguns, mas acredito que deve ter uma
saída desta peça, no sentido sul. Iluminei meu chaveiro e um pe-
129
queno globo, destas bússolas baratas aponta para um lado, era o
que estávamos andando, chegamos a uma parede, terra, olho para
trás como se procurasse algo que não vira e Jessica fala.
— O cheiro é por trás desta parede, sabe disto.
— Acho, quer dizer.
— Do que estão falando?
— Deveria ter um caminho ao sul, de mais uns... – pensei no
quanto tinha aquela peça, parecia um corredor – uns 140 metros
ainda.
— Acaba de achar algo incrível e quer dizer que tem mais?
— Senhor, estas peças são as que tem Leões, tem as com lo-
bos. – Não tinha esta certeza, mas começo a tatear a parede, senti
que havia algo, pego a faca, passo em uma ponta, a faca sente um
metal a parede, o contorno inteiro, este era grande, deveria ter
mais de um metro de altura, mais de um metro e meio de compri-
mento, depois de o contornar, tentei forçar o local e a faca do cha-
veiro quebrou, xinguei, abri o que tinha um abridor, começo a abrir
na terra a parede lateral, até sentir que terminou a peça, e olho
para o senhor.
— Me ajuda aqui, pois esta é pesada e vamos ter de a dispor
no chão, não vamos conseguir chegar a parede. – Falei apontando
um pedestal no caminho, mesmo de terra, atrapalharia.
O senhor segurou no sentido oposto que eu puxava, e a peça
começa a se mexer, quando consegui por os dedos, senti o cheiro
de podre vir de dentro, prendi a respiração e puxei.
O senhor sentindo o cheiro soltou, e Jessica apenas fez um
gesto com a mão e a peça que iria cair sobre o senhor flutuou, o
senhor olha para ela assustado, e fala vendo a peça encostar na
coluna e ficando de pé, olha a peça e fala.
— Como fez isto?
— Não era para ver isto senhor. – Falei, o cheiro de podre
tomou o local e falei.
— Agora a parte difícil, teremos de passar por um corredor
que deve feder imensamente senhor.
— O que tem nele?

130
— Lobos e Felinos mortos e enterrados, a mais de 40 anos,
deveriam estar secos, mas parece que não aconteceu exatamente
como falaram que aconteceu.
O senhor viu Jessica fazer um gesto com a mão e sentiu um ar
puro entrar por onde viemos e empurrar aquele ar pesado para o
outro lado.
— Vamos.
As paredes eram de ossos, haviam entradas como se fossem
gavetas dos dois lados, em terra, em cada uma destas, na altura de
não mais de dois metros, três gavetas, a mais alta mais recuada, e a
mais baixa quase no corredor estreito de não mais de um metro, as
gavetas de terra dos dois lados, com esqueletos de imensos lobos,
depois de um tempo, esqueletos de imensos felinos, e depois, de
imensos seres que aparentavam leões na face, mas tinham corpos
mais para humanos.
O senhor entendeu que estávamos em uma tumba de ani-
mais, pois ele se calou, as vigas até o teto eram de ossos, as gavetas
de terra, naquele caminho de não mais de 100 metros, nos depara-
mos com uma grande escultura de bronze, parecia uma guerra de
onças, leões, lobos, contra um ser na aparecia humano, que dispu-
nha de exércitos de mortos, a imensa escultura mostrava a batalha,
a vitória da senhora, o subjugar dos seres, Jessica me olha e fala.
— Ela não tinha como se manter viva sem isto.
— Ela não entendeu Keka, do outro lado do mar, ela com isto
teria garantido um corpo jovem, uma vida tranquila, aqui ela não
morreu, mas carregou os pesos da vida, isto que ela não deve en-
tender, e o medo dela, é tirarmos isto dela.
— Mas porque ela não obteve o que tinha do outro lado? –
Jessica.
— Lá eram adoradores de uma representação de bem e mal
tidas como o eterno, aqui, adoradores da mãe dos dois seres, Ama-
ná, ela pode ter obtido a vida, mas não as honras, ela obteve peso e
não entendeu ainda, continua a caçar, pois teme morrer.
— Com certeza seu corpo seria jogado ai.
— Não duvido, se olhar, existem buracos em alguns lugares
que sobe reto, devem dar em bocas de lobo lacradas lá encima,
onde eles lançam os corpos para cá.
131
O senhor olhou aquilo e perguntou;
— Estão dizendo que alguém está matando animais para um
ritual em nossa cidade, por isto estão aqui?
— Não senhor, lembra quando disse que o que visse, seria o
segredo da cidade, nosso segredo, o que está vendo, saberá que
viu, mas não verá gente falando disto.
— E vão deixar esta senhora livre?
Sorri para o senhor e falei.
— Aqui temos de empurrar a escultura, pois tem o mesmo
tamanho da outra, mas está não tem como entrar nesta peça, então
a saída deve ser as costas dela.
Começamos empurrar, vi Jessica apenas mexer a mão, um
vento forte pareceu bater na peça e eu e o senhor vimos a peça
desabar para a peça ao fundo.
Passamos por ela, e olhamos as esculturas de lobos, somente
a de Felinos veio a historia de João Turin, os Lobos e os Leões esta-
vam ali.
Vi a escada no fim da peça, sinto o celular tocar e atendo;
— Fala Pedro?
— Estão abrindo o caminho, o que fazemos, eles vão entrar.
— Só um momento, apenas mantem o pessoal longe.
— Está onde?
— Com certeza acompanha meu celular via satélite, entendi
como me localizaram fácil.
— Não entendeu tudo ainda João – o rapaz olha o rapaz ao
lado e pergunta – Mas como pode estar na peça que está isolada,
nos distraiu para entrar ai?
— Como disse, apenas não se assustem, mas mantem a calma
e isola de curiosos.
Voltei a peça e olhei as estatuas, as duas passagem e lembrei
da escultura da primeira entrada, as crianças olhando os livros e
olhei em volta, em uma parede ao fundo uma escultura em alto
relevo, chego a ela e olho para Jessica.
— Sabe que tem os riscos. – Jessica.
— Comecem a subir, já os alcanço.
— Sempre colhendo as consequências. – Ela sorri e me dá um
beijo e fala.
132
— Quem vem descendo?
— Acredito que a descida aqui deve estar isolada, mas a se-
nhora vai verificar se está e não vai querer falar nada, vamos apenas
olhar do lado de cá e vamos esperar amanha para ver o que eles vão
por ali encima.
— Acha que eles vão corromper o local?
— Jessica, o padrasto de Anabell trabalha para a senhora,
apenas mantem a calma e chegamos no dia de amanha.
— E sabia disto?
— Ele olhava ao longe hoje, no clube, posso ser um azarado,
posso ter problemas com um amor, mas ainda sei observar.
— Se cuida.
— Vão, pois o que acharem, terão de tirar de lá, e por nesta
peça para ser achado.
— Não entendi.
— Vai, temos coisas a fazer está noite.
O senhor olhou-me e falou.
— Tem certeza?
— Sim, vão.
Os dois começam a subir e olho as palavras a parede e falo:
“Amaná, deusa dos Manás, dos Guarás, dos Onças, por estas
palavras, peço pelos seus filhos, pelas almas, pelos corpos ainda
existentes, a força está oculta, os filhos ao lado da mãe, mas a ini-
miga ainda tira do lar crianças, velhos, moças e moços, para se man-
ter viva, dá as almas a liberdade, dá as almas o caminho.”
Senti o frio me atravessar, e ouvi o ruído vindo da peça por
onde passamos, onde por mais de 100 metros, a cada 2 metros,
havia pelo menos 6 corpos, 3 de cada lado do corredor, vi aquelas
almas começarem a se erguer, alguns se ergueram em carne, assus-
tador, vi os seres em espirito me olharem, enquanto os de carne se
refaziam, um para a minha frente e senti o gelo que vinha dele me
atravessar, senti frio e ouvi.
— Quem liberta nossas almas, mesmo sabendo do peso de
nos libertar.
— Apenas recomendo não aparentarem serem mortos, pois
os demais não entenderam ainda o poder da terra local.

133
Os translúcidos pareceram sumir, vi o local ir ficando menos
brilhoso, vi um ser que aparentava um leão na face, um humano de
pelos amarelados, ombros fortes, mais de 2 metros de altura, andar
no meu sentido e emite um esturro, ele aproxima-se como se me
ameaçando com o som, com os dentes e falo.
— Tem meia hora para sair no sentido oposto, depois pode
ser que algo os detenham.
O ser pareceu parar na frase e não falou nada, mas emitiu um
esturro forte e os demais começam a sair, assustadores, imensos
seres, mas somente eles se ergueram, lobos e felinos surgiram em
alma e sumiram.
Senti a energia me atravessar, senti o frio que me tomou, fe-
chei os braços e olhei em volta, começo a subir a escada, chego a
uma sala inferior e o senhor olhava moedas antigas, Jessica chega a
mim e fala.
— Está quente.
— Sei disto, estou com muito frio.
Senti ela pegar em minhas mãos e falou;
— Temos de cuidar de você.
— Keka, me ajuda que nós terminamos isto rápido.
— O que vamos fazer?
Olhei o senhor e falei;
— Consegue trazer aqueles sacos de lixo da sala de limpeza?
— Porque disto?
— Senhor, isto fica abaixo de uma praça, amanha eu tenho
autorização para abrir isto, mas não quero achar nada, quero abrir e
ver isto totalmente vazio.
— E vai deixar isto na fundação?
— Sim, vamos deixar lá, vamos relatar, vamos isolar a região.
O senhor saiu e olhei para Jessica, estava com calafrios.
— O que precisa fazer João.
— Algo me atravessou, não sei oque, algo que mesmo os Ma-
nás querendo me rasgar, não queriam como peso.
— Viu um?
— Sim, você que já lutou ao lado de alguns deles, deve saber
que a visão deles é incrível.
— E os demais?
134
— Se ergueram como espíritos, não como seres.
— A força do Maná se mostrando, mas aqui, o que faremos?
— Fotografa as imagens a parede, e depois vemos o que te-
mos, o resto, não sei o valor.
Ajudei ela a juntar as coisas, havia uma pequena arca que co-
locamos as moedas, juntamos os papeis, juntamos as coisas iguais,
quando o senhor chegou, começamos a por partes em sacos, e de-
pois começamos a tirar dali e colocar na peça que tinha os leões,
depois com dificuldade tiramos as peças de lobo das armações, com
ajuda de Jessica que as fazia flutuar e as colocamos na peça dos
leões, vimos a grande imagem da batalha flutuar, ela parou mais a
frente, e o senhor perguntou.
— Porque disto?
— Senhor, aquela parte será aberta, quero que dê a sensação
de quem entrou, roubou tudo, que é apenas um buraco vazio.
— Mas eles podem descobrir esta parte.
Vi Jessica tocar onde havia a primeira grande peça, que nem
havíamos olhado direito, ela ficou ali de pé, a parede pareceu co-
meçar a se formar, como se a terra brotasse do chão e o senhor viu
que nada ali seria revelado, do outro lado, a lama pareceu tomar
boa parte das gavetas, as deixando como degraus para os dois la-
dos, ela me olha e fala.
— Temos de cuidar de você.
— Vamos sair, não sei como estou.
— Está ficando branco! – Sergio.
— Sergio, este local que vai mostrar para o prefeito, mas diz
que tem de mostrar para ele e alguém especialista.
Peguei os sacos plásticos e derrubamos nos cantos, as ima-
gens dispostas junto as paredes, parecia um esconderijo, não um
local de adoração, como aparentava antes.
Estava subindo quando o meu celular toca.
— Ela está entrando. – Pedro.
— Joni esta ai Pedro?
— Sim.
— Pergunta para ele se tem algo estranho em volta, eu não tô
legal, mas já sai.
Pedro olha o identificador e pergunta.
135
— Vai ter de me explicar.
— Amanha pergunta para o prefeito. – Estava difícil subir a
escada, o senhor ajudou no fim, ele não viu o que aconteceu, mas
viu que eu não estava bem.
Quando saiamos a porta, vi um senhor parar a porta e me
olhar.
— Deve ser João Gomes.
— Sim.
— Parece não estar bem, sou Marcelo Oliveira, o prefeito.
— Senhor, o que falei para o segurança vou falar para você,
eu chamava um especialista, e depois um especialista em João Tu-
rin, você pode ter ai o maior acervo em um único lugar do escultor.
— Achou então.
— Mas acho que uma virose me pegou, estou com muito frio.
Jessica olha o prefeito e fala;
— Isto é para um especialista e não pode ser falado assim, al-
go que não entendi direito, mas parte do que deveria estar ai, está,
ele precisa se medicar, pois amanha ele quer dar uma olhada na
praça.
— Acha que tem mais coisa lá? – Prefeito.
— Não, mas precisava que olhassem para lá, para ter a calma
desta noite para descobrir isto.
Jessica e eu descemos até o hotel, ela me deu um analgésico
e deitei a cama, o frio parecia imenso, algo estava dentro de mim,
sentia aquele fio, sentia a energia em volta, olhei para Jessica e vi
aquele brilho esverdeado a sua volta e falei.
— O que está acontecendo Keka?
— Algo está despertando dentro de você, algo que está se re-
velando, isto faz seu corpo reagir, mas não sei se para bom ou para
ruim.
— Não sabe? – Olhei ela serio.
— Algo que tem uma força incrível, mas tem de ver que quem
transforma as coisas em boas ou más são os portadores, olha esta
senhora, ela tem a ciência de magias do passado, e usa apenas para
um fim pessoal.
— Consegue mais uma coberta? – Falei olhando ela aos olhos.

136
— Deve estar subindo mais uma coberta, pedi para não rece-
ber visita, amanha descobrimos o que aconteceu na praça.
— Devem ter esvaziado a primeira sala, devem ter escondido
a parede de ligação.
— E vamos entrar lá amanha?
— Amanha penso nisto Keka.
Ela me cobriu, deitou ao meu lado, o corpo dela, parecia frio,
mas a abracei e quando o remédio fez efeito, adormeci.
Amanhece e acordo assustado, olho Jessica me olhando, ela
estava com um jornal a mão e fala.
— Vai xingar todos.
Ela me ajuda a sentar, o corpo parecia acabado, e leio a noti-
cia.
— Prefeito anuncia descoberta arqueológica na Mansão Vila
Hilda hoje ao meio dia na Prefeitura.
— Ele pelo jeito teve coragem de descer lá ontem a noite
mesmo. – Jessica.
— Keka, tem de ver que eu sempre colho o caminho, estou
acostumado a estas coisas, penso em um caminho e dá em outro.
— Não entendi.
— Nem eu, mas na minha paranoia, diria que algo ficou lá que
tenho de olhar, no lugar que esvaziaram, ou mesmo no lugar onde
nós esvaziamos, pois senão o prefeito teria segurado a língua.
— Ou tem mais coisa a descobrir.
— Ou isto.
— E como sente-se?
— Quebrado, mas vou tomar um banho, e vamos a guerra.
— Vou descer, tudo bem?
— Me espera, to precisando de alguém cuidando de mim.
— Mas...
— É tão difícil assim. – Perguntei a olhando.
— Sabe que é.
Fui ao banho, quando sai, ela não estava ali, vesti uma roupa,
vi o antitérmico a cômoda, tomei, ainda sentia o corpo quente, vesti
uma roupa leve e desci, estava entrando na peça quando dois rapa-
zes cercavam Jessica, ela me olha e a senhora olha no meu sentido,
ela pareceu não sorrir, e falou;
137
— Acho que os dois não entenderam que não vão espalhar o
que descobriram.
Olhei os dois rapazes e falei;
— Tem uma chance de sair vivos daqui, agora, depois não re-
clamem, não tenho pena de assassinos.
— Acha que temos medo de vocês.
Olhei para Jessica e falei.
— A praga é aos que acreditam, a cura aos bons.
Os dois olham sem entender, mas sentiram os calafrios os
tomarem e os dois começam a tremer, e senhora olha assustada e
fala.
— Hoje vai reagir e mostrar quem realmente é?
— Me responderia uma coisa senhora? – Perguntei a olhan-
do, sem desviar os olhos.
— Talvez, não sei o que quer saber?
— Esvaziou o lugar para que não encontre nada, ou quer
mesmo facilitar a estes que nada sabem?
— O prefeito falou que um casal de Curitiba achou um acha-
do arqueológico na Mansão Vila Hilda, só pode ter sido vocês.
— Estava o distraindo, mas o que faz aqui senhora.
— Não gosto de que espalhe isto.
— Nesta hora senhora, até os seus descendentes no vale do
Buzau já sabem onde se escondeu. De nada adianta me prender ou
matar, em nada ajudaria.
Os rapazes que tremiam caem e olho para o senhor da recep-
ção e falo seco;
— Chama um paramédico para estes lixos.
O senhor olha os dois caídos e pega o telefone enquanto olho
para a senhora e falo.
— Está nos atrasando senhora.
— Não sei o que fez, mas sinto meu caminho mais leve hoje
que ontem.
— Ontem não existe mais senhora, mas temos ainda de achar
um buraco vazio hoje.
— Não entendo você, sabia que eu iria lá, o pessoal seu ficou
me observando e não fez nada, apenas observaram.

138
— Sei lá, quer tudo de graça senhora, corre atrás, ontem es-
tava como aliado, hoje, depois que mandou me matar, apenas não
quero estar por perto depois do meio dia.
A senhora sai e olho a porta Joni e Pedro que olha a senhora e
pergunta.
— O que ela quer?
— Saber oque o prefeito vai revelar, ele nem sabe de nada e
sai falando muito.
— Ele disse que viu uma replica de uma obra de João Turin na
parte que era a adega da casa, e que o segurança falou em papeis e
estatuas de leões.
— Isto é porque pedi sigilo antes de analisarmos, o que seria
se falasse a verdade? – Terminei a frase olhando para Jessica.
— O que foi aquilo que aconteceu ontem na praça? – Joni.
— Não sei, me informe.
— Seres translúcidos, formas de lobos, de felinos, de leões,
deveria ter entre lobos e felinos mais de 200 seres, 3 leões.
— Leões fêmeas?
— Sim, leoas, mas o que foi aquilo?
— Acha que fui lá para que Joni, libertar as almas, mas como
ninguém estava olhando para elas, pois vocês estavam lá, eles tive-
ram o tempo suficiente para serem aceitos pela deusa deles.
— Foi assustador, não entendi o acontecido.
— Nosso inimigo aqui, é uma Bruxa por definição, que perdeu
o dom do “Saber tudo”, e a mais de 600 anos, tenta uma forma de
recuperar seu posto e voltar a perturbar Tudor de Buzau.
— Ela havia aprisionado almas de seres da terra, é isto? – Pe-
dro.
— Você batalhou ao lado de Manás Pedro, aquilo não eram
Leões, eram três fêmeas iniciais, ou três matriarcas dos Manás.
— E os lobos e felinos?
— Não sei ainda Pedro, estou tentando entender, mas eles
devem ter esvaziado tudo.
— Tiraram de lá duas caixas inteiras.
— Só? – Falei sem sentir.
— Só, mas pareciam querer cuidar daquilo, estou com dois
grupos os seguindo.
139
— Cuidado, estes são mortais, e nem sabem de nada. – Falei.
— Por quê?
— Eles não são Morois Pedro, ela não queria ser reconhecida,
são algo que não entendo, pois o senhor que me recebeu no Clube
local, parecia humano, não entendo muito de magia, mas ele cha-
mou a senhora de mãe, mas sinal que em algum momento, ela con-
seguiu energia para gerar, para se refazer, mas ela não deve ter
entendido o sentido do acontecido, e continuou a fazer rituais se-
melhantes, mas sem entender o acontecido.
— E acha que eles deixaram algo?
— A ideia era o prefeito segurar a língua, mas como não segu-
rou, vou ter de verificar o que não entendi.
Olhei para Jessica e perguntei;
— Vamos?
— Vamos, o que está esperando?
— Achei que o prefeito viria a nós antes de irmos lá, mas pelo
jeito... – Não terminei a frase, e vi ele e um senhor ao lado.— Va-
mos demorar mais um pouco.
O prefeito Marcelo me estica a mão e fala;
— Olha que quase não achou aquilo por não o deixar olhar.
Este é Maurício Appel, o procurador dos bens de João Turin - Sorri e
Jessica olhou para Pedro e falou.
— Nem sempre são dias assim prefeito, mas tem de primeiro
verificar a autenticidade, antes de divulgar nos jornais.
— As vezes vemos algo e não seguramos a língua, e acaba no
jornal, cidade pequena.
Olhei para Pedro, sorri, Jessica talvez tenha entendido meus
pensamentos, estranho ver as auras, e mesmo sem as interpretar,
deu pare sentir as pontas de revolta na sua aura.
Olhei para Pedro e depois para o senhor Mauricio e falei;
— Mas pelo menos teremos um entendido em João Turin
aqui.
— Não entendi porque acha que são obras de Turin?
— Senhor, o que tem lá em baixo, precisa de estudo, de câ-
meras de conservação, fotos antigas se desgastam na umidade,
documentos escritos a mão, se danificam, esboços de obras que
estão lá já em metal, esta mesmo esverdeadas, ficam.
140
— Muita coisa? – Mauricio.
— Vocês que montaram a exposição do Museu Oscar Niema-
yer, tem quase tantas obras naquele buraco, quanto o exposto no
museu senhor, por isto não acredito que seja tudo dele, mas tem de
ver que um acervo destes, somado a obra de Joao Turin, ampliaria
em muito a historia do maior escultor paranaense.
— Sabe que na exposição tem quadros famosos, que nem no
Brasil estão.
— Senhor, eu pedi para o prefeito não fazer alarde antes de
falar com um especialista, me parece Joao Turin, mas não entendo
de esculturas, fui lá olhar, me admirou a quantidade, existem do-
cumentos lá, que não tive tempo de olhar, o que me remete a ele
são duas obras assinadas com o nome dele.
O senhor olha para o prefeito e fala;
— E quando vai me mostrar isto?
— Estamos a duas quadras do local, apenas queria lhe apre-
sentar o senhor que achou o artefato antes.
Olhei o senhor e falei;
— Vamos entrar em um segundo buraco, não sei se achare-
mos algo, mas se quiser acompanhar, não é oficial o achado, e
mesmo que for real, somente um estudo detalhado o confirmara
senhor, mas o convite está aberto.
— Gostaria de ver este local, se for semelhante ao que vão
me mostrar depois, curiosidade, mas tem algum perigo?
— Senhor, só vendo para entender, evitamos até fotografar
muito, pois não sabíamos se isto iria danificar algo. – Olhei para
Jessica e perguntei.
— Tem aquelas imagens?
Ela apenas pega o celular e põem algumas imagens que havi-
am tirado de lá, e fala.
— Estas são tiradas apenas de onde dava para ver algo, o lo-
cal é seco, mas muito escuro.
O senhor olha a formação e o estilo e fala;
— E tudo isto está lá embaixo?
— Sim, mas senhor, mantem os pés no chão, acredito que al-
go está oculto, e não acredito em milagres.

141
— Tem o pé no chão, sabe que se não tivesse achado e o pa-
trimônio histórico tivesse conhecimento do risco, talvez proibisse a
retirada dos artefatos.
— Senhor, não posso difamar alguém, mas ainda pretendo
recuperar o que foi tirado da armação por baixo da atual estatua de
Getúlio Vargas, quando da reforma da Praça Tiradentes a 6 anos.
— Esta afirmando que sabe onde estava, mas tiraram de lá?
— Senhor, pensa, o patrimônio histórico isolou a área, para
achar algo, eles não se deparariam com uma calçada antiga, se não
tivessem escavado, porque eles escavariam, se o escavar ao lado de
um pinheiro não estava no projeto?
— E sabe o que tiraram de lá?
— Não, mas por isto eles não querem abrir, abrir e não achar
nada remete ou a um João Turin, muito brincalhão ou a um roubo
anterior, como acredito que Turin não deixaria algo lá que não dei-
xasse a marca que teve algo ali.
— E vai procurar lá?
— Senhor, se procurar lá, mostrarei antes ao senhor que ao
patrimônio histórico, pois eles são burocratas, desculpa, uma carta
de Turin para mim tem mais valor que toda a historia do atual pre-
feito de Curitiba.
— E quando vamos lá?
— Vou ter de passar na casa do representante da prefeitura
que isolou a área, e vamos para lá.
— Porque escolheu aquele senhor?
Sorri, iria mentir e parei no meio, olhei para Jessica e falei;
— Vamos deixar ainda no ar esta afirmativa senhor, eu expli-
co para o senhor Mauricio quando não tiver muita gente ouvindo.
— Então existe um motivo.
— Senhor, eu acredito que talvez hoje não ache nada de valor
financeiro, mas pode ser que tenhamos um pedaço da historia do
Paraná reescrito.
Saímos dali, eu, Jessica, o senhor Mauricio, e o prefeito fez
questão de acompanhar.
Quando batemos a porta de Anabell, a mesma viu que não
seria algo simples, pois ali estava o prefeito, um carro da policia

142
acompanhava nossos movimentos, coisa do prefeito, o senhor Mau-
ricio me olhava como se querendo perguntar algo.
Fomos a praça, o local isolado não chamaria atenção se não
fosse prefeito, a policia isolando o local, ninguém notaria, agora
tinha até repórteres, engraçado, olhei para o padrasto de Anabell e
perguntei.
— Conseguiu as lanternas.
— Nem sabemos o que estamos isolando.
Eu pensei comigo “Nem Eu”, sorri e Jessica me olha e sorri.
— Algo está mudando em você João.
— Já vê minha aura por acaso?
— Sim, por acaso começo ver sua aura.
— Espero que seja um bom sinal, e não um fim.
— Acha que o deixarei por isto?
— Temo lhe perder, mas vamos ver o que temos aqui. – Olhei
para o senhor Mauricio e falei – Eles nos facilitaram em alguns deta-
lheis, nos revelaram onde estava a entrada. – Olhei um bueiro aber-
to a pouco mais de 5 metros da estatua, abri ele, uma escada lateral
e comecei a descer, senti os pés tocarem o chão e iluminei em volta,
os da praça não veriam isto, pois estava para dentro da proteção de
tapumes que ergueram.
Olho o caminho estreito, aberto, deveria ter uma proteção
ali, mas agora estava aberto, eles sabiam que iriamos vir, porque
iriam esconder mais. Parei na pergunta e olhei em volta, sorri, teria
de vir novamente e falei para Jessica que chegava ao buraco.
— Vamos com calma, mas todos não cabem neste buraco.
Ela passa a frente e vai entrando naquele caminho, quase de
joelhos de tão baixo, pensei no outro caminho e fiquei na duvida
que os que estiveram ali soubessem do todo.
Chego a peça por baixo da estatua, se via no topo da sala, es-
cavada na terra, o cano de concreto que segurava sobre ele a esta-
tua de Tiradentes, olhei em volta, vazio, olho para os demais chega-
rem e falei olhando o chão.
— Alguém passou nesta parte antes de nós senhor.
O senhor olha as marcas que haviam arrastado algo pesado
para fora.
— Pelo jeito não vai achar nada hoje.
143
— Pode ser, mas a existência disto já é um achado para mim,
mas sempre tem algo a mais senhor.
Peguei o canivete e comecei a riscar a terra na parede, dei
meia volta e ela enrosca em algo, olho para a parede, sorri, fiz o
quadrado da moldura e olhei a parede oposta, esta estava ao sul, a
parede que queria estava ao norte, olhei para frente e dei passos
contando até a outra parede, bati com a faca e se ouviu o barulho
de metal, passei a faca do canivete a toda volta e forcei uma ponta,
com calma puxei a grande peça, a deitei no chão e o senhor Mauri-
cio olha ela e sorri, parecia uma escultura de índios;
— Este esboço eu conheço senhor, não sabia da execução
desta obra, mas parece que vai me provar que ele o fez.
— Por isto precisamos de calma, podemos não achar nada
aqui, além desta peça.
— Por quê?
— Esta peça não entraria por aquela entrada senhor.
O senhor olha para a entrada e fala;
— Ou tem outra entrada, ou tem algo que não entendeu.
— Senhor, já pensou que eles podem ter posto isto aqui antes
de por a estatua sobre eles?
— Por quê?
— Conversamos depois, muitos ouvidos!
Olhei o senhor, o padrasto de Anabell que me olha atravessa-
do, mas não sabia bem o que acharia a mais.
Passei a peça ao lado e olhei o local todo vazio, olho para o
senhor e falo.
— Eles esvaziaram aqui senhor, não vai nos servir de nada.
— Mas é incrível algo assim, eles fizeram um buraco em terra
para proteger isto.
Olhei um canto e falei olhando uma sobra de papeis, deixara
estes ali no dia anterior, sabia que estaria ali, olho para o Padrasto e
peço gentilmente.
— Consegue uma caixa plástica ou algo assim?
O senhor pega o comunicador;
— Pessoalmente, não queremos mais ninguém aqui embaixo.
– Fala Jessica.
Ele concorda e sai pela porta, olho para o senhor e falo;
144
— Senhor, esta sala, era a que tinha os lobos, mas atrás –
apontei a parede, está um caminho para a outra sala, onde deixa-
mos as coisas, mas é importante que achem que não achamos nada
aqui.
— Por quê?
— Eles achavam que nem chegaríamos aqui, que iriamos a
peça ao lado e sairíamos, mas enquanto eles nos dão um caminho,
eu os dou a duvida, e existem outros 2 caminhos não trilhados.
— 2? – Fala Jessica.
— Podem ser 3 ou 4, mas temos 2 bem evidentes, mas o que
queria mostrar, está aqui.
O senhor chega ao canto, e começa a olhar os escritos, as
imagens e me olha.
— E mesmo o pouco, é algo incrível.
— Se temos a propaganda de algo incrível, fica mais fácil ain-
da.
O padrasto de Anabell chega ao local e Mauricio entendeu
que não falaríamos com testemunhas.
— Senhor, me ajuda aqui, mas se forem relatos originais, te-
mos um achado incrível nesta peça.
— Acharam o que queriam?
— Eles estão pensando, mas não sei no que.
Olhei o senhor e falei.
— Que se não está aqui, pode estar ainda na Praça Tiradentes
em Curitiba, mas o problema é onde.
— Lá eles vão lhe proibir mexer.
Peguei o celular e liguei para Pedro e falei;
— Me ouve Pedro.
— Fala.
— Põem alguém a vigiar a Praça Tiradentes, o que queremos
ainda não saiu de lá, mas não sabemos onde está.
— E o que queremos?
— Um segredo que valha o dom de Tudor de Buzau, a eterni-
dade jovem, gerando filhos para a eternidade.
— Acha que está lá? – Pedro.
— Vigia também a Praça Santos Andrade, mais explicitamente
a estatua da professora Julia.
145
— Certo, acharam algo?
— Documentos, precisamos de algo que proteja a caixa que
estamos enchendo da Luz, enquanto estudamos os documentos.
— E vão demorar?
— O prefeito está em cólicas? – Perguntei.
— Sim, quem manda ele falar demais, agora parece estar se-
gurando a língua.
— Quem manda os aliados não segurarem os próprios repór-
teres Pedro, pois para ele falar algo para alguém que é do grupo,
não era para dar primeira pagina com foto do local.
— Serviu para não acreditarem em grande coisa.
— Mas consegue algo para isolar, vamos deixar aqui dentro
até ter o material isolado, mas se conseguir uma escada destas
desmontáveis, gostaria de olhar uma coisa ainda.
Jessica me olha, o senhor Mauricio me olhou, e falei;
— Quero ter a certeza que esta peça não dá em lugar ne-
nhum senhor, se olhar aquele canto, parece degraus para os dois
lados, parece que algo ligava ao local, e foi esvaziado, porque tenho
a sensação de ter chego tarde.
Comecei a dar a volta no local, o senhor começou a me
acompanhar e falei.
— Parecia que havia peças expostas, peças as paredes, esta a
marca ai, nas pilastras, nas – Cheguei ao local onde na noite anterior
havia ossos, escavo um pouco a terra e quando paro no primeiro
osso, afasto a faca, olho em volta e falo.
— E se isto foi uma catacumba senhor?
Olho para cima, os buracos que iam até a rua, por tuneis de
concreto, dois deles, largos, e falo.
— Achei por onde tiraram.
O senhor olha para cima e fala;
— Bem visível, temos de ver o que tem por cima.
Pego o sinalizador e falo com Pedro.
— Pedro, mais uma coisa.
— Fala.
— Localiza o ponto exato do meu celular, e vê que tampa de
bueiro dá neste ponto e isola.
— Tem uma entrada direta?
146
— É o que parece, parece que tiraram tudo daqui.
— Estou localizando.
Olhei para Jessica que fala;
— Mas o que achou ai?
— Uma ossada, nem sei se humana, mas são ossos com cer-
teza.
— Pelo jeito vai gerar problemas.
— Somente se a ossada for humana, mas é mais gente tendo
de entrar aqui, então vamos ver o que eles não podem ver.
— Achou mais alguma coisa? – O Padrasto.
— Não, mas algo me diz que tem algo a mais.
— Em que sentido? – Jessica.
Olho para a parede que ela tocou e falo.
— Aqui parece que eles estavam construindo aos poucos, ca-
da vez mais para dentro, mais covas.
O senhor ao fundo olhou e falou.
— Mas quem está morto ai?
— Sorte não ser eu. – Falei olhando para Jessica.
Pedro olha para a entrada e vê um senhor que não conhecia e
fala;
— Área restrita.
— Mandaram entregar uma escada que fosse pequena para
carregar e que se ampliasse em muito.
Olhei o senhor, peguei a escada e comecei a montar, como
existia uma área circular alta, antes do topo de terra encostei a es-
cada e falei.
— Melhor não arriscar mais gente, melhor ficarem próximo a
saída.
Ouvi um barulho e o que era escuro, recebe um tubo de luz
na parte onde estava antes com o celular.
A luz fez com que olhasse em volta, em uma parede alta ao
fundo, vi que tinha algo e encostei a escada ali.
Subo com calma e passo o canivete e falo para quem esta em
baixo.
— Melhor saírem de baixo, sei que não é padrão, mas algo vai
cair.

147
Não esperei a discussão e soltei aquela peça de uns 60 centí-
metros de altura por uns 90 de comprimento.
O barulho do cair foi forte, mas se era para não ter um acha-
do ali, acabara de achar.
Olho para baixo e falo olhando o senhor.
— Agora só olhando para entender, não entendo disto.
Desci a escada e o senhor subiu;
Eu estava olhando a cara de espanto do senhor e ele desce e
me olha.
— Pelo jeito agora teremos de isolar tudo.
— Não entendi aquilo.
— Ali tem documentos da época, diários, moedas antigas,
pedras preciosas da região.
— Se entendi a logica vamos dar mais uma olhada.
— O que acha que entendeu.
O lado que estava aquele buraco era ao norte, encostei a pa-
rede ao sul, abaixo dela estava a entrada da peça, mas a frente não
deveria ter mais de 6 metros para o tubo de concreto que segurava
Tiradentes.
Passo a faca, algo se desprende, mas não era uma placa, pa-
recia algo leve, até começar a inclinar, dai todos se afastaram com
meu grito para recuarem, a escada foi afastada para tras pelo peso
e desmoronei de uns 5 metros no chão, senti a perna ficar presa, a
cabeça doendo, pelo impacto da escada, estranho, foi tão rápido
que não acompanhei, um momento estava lá encima, no outro no
chão, passo a mão na cabeça e senti o sangue na mão.
— Como está? – Jessica.
— Meu pé está preso.
Os rapazes ficaram tensos, e viram um trecho da parede vir a
baixo tampando o caminho que entramos, a poeira da terra seca,
sobe, o lugar fica bem estranho.
— Ajuda a erguer um pouco Keka, mas só força física.
Ela me olha, olha os demais e faz um pouco de força, puxo o
pé que sai, senti a dor e falei.
— Posso estar enganado, mas quebrou.
O senhor Mauricio chega a ele e fala.
— Tem de ir com calma, estamos presos.
148
— Saímos por onde não entramos.
Meu celular toca e atendo;
— O que aconteceu João? – Pedro.
— A entrada desmoronou, vamos ter de sair por aquela mani-
lha que arrombou.
— Estamos mandando gente lá, melhor saírem.
— Melhor para eles, pois vou ter de sair pulando, quebrei o
pé Pedro.
— E o resto?
— Bem.
Os rapazes jogaram um escada de corda, e o senhor que não
deveria estar ali e o padrasto de Anabell saem pela escada, Mauricio
olha-me e pergunta.
— Esta bem, a batida na cabeça foi forte.
— Senhor, estou ainda meio tonto, mas vamos ter de ter cal-
ma com este lugar.
— A primeira caixa está na parte que entramos, mas tem de
se cuidar.
Jessica me toca o pé, o senhor vê a aura dela correr no meu
pé, senti a dor do ir para o lugar e vi o pé começar a desinchar, olho
para ela e falo;
— Obrigado, facilita.
— Estranhei a virose de ontem, não era me permitido ajudar.
— Não era virose Keka, mas no fim do dia conversamos sobre
isto.
Pego o celular e disco para Pedro;
— Mais problema?
— Prende 4 caixas daquelas que mandaram antes, com sacos
plásticos negro, antes de sairmos vamos levar algumas coisas com a
gente.
— Não para nunca? – Pedro.
— Rápido, tem de pegar a outra caixa na outra entrada, por
aqui não tenho mais como chegar lá.
Ouvi ele gritar com alguém e depois de um tempo vimos as
caixas serem baixadas, colocamos as joias, papeis, moedas, escritos
na primeira, com calma acho um local para encostar a escada na
parede que desmoronou, pego um saco de lixo e subo a escada,
149
coloco a mão no meio da bagunça e começo a tirar papeis dobra-
dos, enrolados, encadernados, depois de um ponto, mais moedas,
quando achei que estava pesado demais para o saco, desci, coloquei
em uma caixa e subi novamente, termino de por os papeis, esvazi-
amos as duas parte, colocamos nas caixas, as fechamos e o pessoal
puxou para cima.
Com calma, prendi a primeira peça que tinha nos revelado os
primeiros documentos, com a corda, e o pessoal puxou para cima,
depois fizemos isto com a segunda peça, o senhor me olhou quando
começou a subir a escada de cordas.
— Tem um espirito quase suicida.
— Senhor, ainda vamos voltar aqui, mas sem testemunhas.
— Acha que entendeu.
— Acho que nem quem esvaziou a peça ao lado entendeu,
mas tem haver com Magia isto senhor, e logico, isto não vai ao pa-
pel, pois eles acreditarem, não quer dizer, vamos dizer ser possível.
— Possível como o toque da moça?
— Possível como um acidente programado, alguém armou
para desmoronar senhor, não foi acaso, estas peças não caíram por
anos, de repente, não suportam o peso que aguentaram por déca-
das, muito estranho. – Menti nesta hora, mas o senhor não sabia
onde pisávamos, se até eu duvidava, como ele teria a mínima ideia
sobre isto.
Com dificuldade subi a escada logo atrás de Jessica, cheguei a
rua o senhor falava com o prefeito, e uma ambulância cuidava dos
demais, vi trazerem a caixa do outro buraco e olhei para o Padrasto
de Anabell e falei;
— Se der para deixar isolado, quero fechar o caminho antes
de liberar a região, eles nem viram por onde entramos, mas viram
por onde saímos.
— Por isto tirou tudo de lá?
— Estava vazio, achava que iria achar ali as peças que não
achamos na residência ontem a noite, mas somente papeis, alguém
tirou antes da gente.
— Acha que tiraram por estas tampas de bueiros.
— Pode ser, não sei, tenho de cuidar do pé antes.
— O rosto está judiado, tem de cuidar.
150
— Já cuido, mantem a informação que estava vazio entre nós,
deixa eles acharem que tiramos algo de valor, mesmo sabendo que
nada ali era de valor.
— E as pedras?
— Uma arapuca, que minha forma desmedida fez cair, pode-
ríamos ter morrido ali se a região estivesse mais húmida.
— Dai seria alguém que o conhecesse.
— Não descarto esta possibilidade.
O senhor se afastou, e Jessica falou;
— Mente com uma naturalidade que me assusta.
— Finalmente acabou esta limitação, mas porque agora?
— Não sei, mas vamos descobrir.
A beijei e falei.
— A testa tá doendo.
— Tá feio, o rapaz ali já vem limpar, estamos avermelhados,
de tamanha terra que subiu ao ar lá em baixo, acho que se tossir
agora, sai um tijolo. – Fala Jessica sorrindo.
— Pelo menos estamos juntos. – Falei com um sorriso, o que
não é minha característica, dizem que quando sorrio, pareço bravo,
é falta de pratica com momentos felizes, geralmente momentos
assim, pé latejando, cabeça doendo e a felicidade a frente, nunca
numa sincronia total.
O paramédico chega e me faz deitar, toca a cabeça, doido, e
saímos no sentido do hospital, não sei que hospital, dentro de uma
ambulância deitado, com dor, se perde noção de onde estava indo,
radiografia, nada além de uma luxação, era por volta das 18 horas
quando voltamos ao hotel, sem almoçar novamente, fui a um ba-
nho, estava precisando, estranho aquela terra toda, sorrio, mais um
dia para ficar na historia, visto uma roupa leve, e sento-me a cama,
vendo Jessica sair enrolada do banheiro, em uma toalha, o sorriso
dela é encantador, a forma que me olha, sempre vai me prender,
fazer oque, não tenho como escapar dela, não quero escapar dela, e
mesmo assim, sempre pregado, sempre quebrado, sempre pela
metade.
— Não sei o que o medico passou no hospital, mas está bem
melhor a sua testa. – Jessica.

151
— Acho que ele somente limpou a região, era muita terra
dando uma impressão horrível.
— O que descobriu nesta segunda aventura.
— Que tenho de voltar lá, ainda hoje.
— Não para?
— Não, e quando chegarmos para jantar aquela senhora deve
estar por ai.
— Ainda não descolou de nós?
— Acho que vai ter mais gente, mas como estamos em um
hotel pequeno, barato, não sei o que os demais vão pensar.
— Para mim tá bom este.
— Não disse que não tá bom, é que as vezes as pessoas não
tem a sorte de ter uma pessoa especial como você ao lado, e ficam
observando os detalhes.
— Você também é especial, mas pelo jeito o dia não acabou.
— Se considerar que esta hora já queria estar em Curitiba de
volta, estamos atrasados.
Terminamos de nos vestir e descemos para a janta, eu estava
com fome, sempre digo que fome não combina comigo, mesmo
tendo passado fome as vezes, odeio ter fome.
Mal pegamos os pratos, já avistei o senhor Mauricio entrando
na peça, ao seu lado um policial, pelo jeito teria encrenca.
Olho para as costas do senhor, e ali estava a senhora entran-
do, estranho, pois ela sorria.
— Vamos nos complicar pelo jeito! – Jessica.
— Não esquece, eles não sabem de nada, e acham que sabem
de tudo, mas vamos comer que estou precisando.
Sentamos em uma mesa e o policial para de pé e fala;
— Senhor João Jorge Gomes?
— Sim.
— Nos acompanha a delegacia por gentileza?
— Sem problemas senhor, só uma pergunta, posso jantar,
pois nem almocei levando quem o acompanha a buracos da cidade,
e estou com fome.
— Come em outra hora.
Jessica olha para mim e fala;
— Pior que é serio que fica mal humorado com fome.
152
Peguei o papel que o policial tinha a mão e olhei a acusação.
— Desculpa senhor, mas me acusam de roubar oque exata-
mente?
— Artefatos históricos da cidade.
— Roubei e coloquei onde?
— Senhor, não tenho os dados, cumpro ordens.
— Certo... – pensei em destratar o senhor, mas não me leva-
ria a nada, então apenas me levantei, e falei.
— Então vamos, já que sei que algo está errado.
— O que está errado? – Jessica.
— Os demais não estão aqui Jessica, a senhora ao fundo esta
sorrindo, o policial sabe que a intimação não é para me arrastar
para lá, mas não me deixa nem jantar, e a esta hora o delegado de
plantão já está em casa, não na delegacia, e ainda tem este procu-
rador de João Turin ao lado do policial, policia não carrega ao lado
dela o acusador do roubo.
O policial me olha mais serio.
— E não tenho medo de cara feia, pelo jeito seria mesmo me-
lhor ter morrido ontem.
Ele não pareceu entender a frase, mas como eu saberia, co-
mo poderia saber, as vezes é apenas um a mais, a calma daquela
energia que o cercava, esverdeada, que eu acho que é a aura do ser,
pode não ser isto, mas parecia muito calma, isto que não combinava
com a ação.
— Poderia nos acompanhar senhorita, para esclarecimento
de onde estava ontem, a noite, durante um roubo na Secretaria de
Turismo da cidade? – O soldado olhando Jessica que fala.
— Vamos, se já acabou com nossa janta, o que custa destruir
ela de vez.
Levantamos, olhei a porta, o senhor do local estranhou, mas
não falou nada, sai a porta e vi a viatura em fila dupla, entramos na
parte do fundo, havia um outro policial ao volante, o senhor Mauri-
cio não entrou na viatura e olhei para Jessica.
— Fica bonita preocupada.
— Sabe que algo continua errado.
Sorri, ela me abraçou e perguntou;
— Vamos onde?
153
— O delegado quer falar com os dois.
Estranhei, mas o rapaz não estava mentindo, e não sabia até
onde iria esta aventura, para quem queria fazer muita coisa ainda
antes de terminar a noite, fiquei sem saber onde acabaria o dia.
Paramos mais a frente na delegacia, estranhei, estava bem
calma, entramos e olhei policial nos acompanhar.
— Delegado, trouxemos os dois que pediu.
— Confirma que não tem mais ninguém por ai, não quero
ninguém sabendo da conversa Investigador.
— Não entendo porque senhor.
— Segura aquele procurador lá fora, e daqui a pouco falamos,
preciso me inteirar do problema.
— Certo senhor.
O senhor me olha e fala;
— Devem estar estranhando, mas ontem o prefeito me fez
uma determinação para ficar de olho da Fundação Cultural, nem
tínhamos terminado a conversa e este senhor estava a cidade, pe-
dindo para ver o que tinham.
— Realmente não estamos entendendo. – Jessica.
— Ele deu parte de roubo, de algo que não é dele, se existe
uma escultura aqui, ela é do município, não dele, para dar parte,
mas ele afirma que os documentos a mão dele provam a proprieda-
de.
— Porque o prefeito deixou ele ir junto hoje então? – Jessica.
— Uma determinação do Patrimônio Histórico do Paraná, que
se ele não estivesse junto, eles embargariam a ida. – Eu ouvia isto
tentando pensar, sem olhar a aura, sabia que o senhor estava preo-
cupado e perguntei.
— E qual a preocupação Delegado, está nos detendo ou que-
rendo ajuda.
— Ajuda, o senhor Silvio, que esteve com vocês como repre-
sentante da prefeitura, parece que andou falando com alguns, e
parece que as duas peças que deveriam ter chego a fundação, não
chegaram lá.
— Disto não posso ser acusado, estava no hospital.
— Sabemos, mas eles inventaram que saiu do hospital e foi a
fundação e viram você tirando algo pesado de lá.
154
— O prefeito não deixou eles verem as peças por acaso?
— Mostrou uma peça, e uns papeis, apenas isto. – Delegado.
— E no que podemos ajudar senhor? – Jessica.
— O que tinha lá que eles roubaram?
— Duas peças, mas os papeis eram o que mais valia, tinha
uma soma de pedras e estudos de alguém, ninguém teria como
afirmar em horas que eram de João Turin, aposto que não são, mas
se eles roubaram, porque não os detém.
— Não entendi, eles lhe acusam, este Mauricio, tem certeza
que você os roubou.
— Ele mente descaradamente senhor, mas não tenho como
explicar porque afirmo que ele mente, mas tem possibilidades, e
como não tenho as peças a mesa, estava jantando senhor, eu não
comi nada hoje, eu não estou legal ainda, mas nem sei se entendi a
ideia, para lhe ajudar, mas tudo que achamos, posso estar engana-
do, mas é uma pequena parte do achado, e não tem haver apenas
com João Turin, o que vi ali é peças de João, mas pelo passar do
olho, tinha documentos assinados por Romário Martins, o que te-
mos acesso provável senhor, é o maior acervo de obras de artistas
paranaenses, obtidos por alguém que os juntou, não sei o motivo,
para entender quem está expressado ali, mas tem haver com um
movimento de valorização do sentimento de ser paranaense, cha-
mado Paranismo, ali tinham obras de vários autores, as peças que
os demais historiadores sempre disseram não existir senhor, os que
diziam não existir um movimento real de identidade no Paraná, que
eram apenas invenções de Romário Martins.
— E porque este Mauricio teria interesse de dar sumiço nis-
to?
— O único grande nome do Paranismo, é João Turin, e a exis-
tência de um grupo, alimentaria mais nomes, e não o destaque de
quem ele representa, embora fosse vontade de João Turin de que o
Paraná tivesse uma identidade, lendas, crenças, musicas próprias,
aos seus representantes atuais não existe esta vontade, eles que-
rem representar alguém superior a tudo, e não um membro de uma
ideia forte.
— E onde eles esconderam o que tiraram?

155
— Onde está o prefeito Delegado? – Perguntei olhando ele
nos olhos.
— Vindo ai.
— Sozinho?
— Ele vem com o senhor Silvio. – Desculpa o leitor, Silvio é o
nome do Padrasto de Anabell, mas sou péssimo em nomes, então as
vezes descrevo pessoas pela posição, e não pelo nome.
— Senhor, deve ter o dado que me tiraram do porta-malas de
um carro a 1 dia, este Silvio, tem ligação com o grupo que me mata-
ria naquele dia, não vou abrir dados se o senhor estiver no lugar,
tudo que falar, vai a quem quer parar esta historia, e não sei se o
prefeito falou algo a ele, se falou, tudo que descobrimos na funda-
ção, está sobre risco de roubo.
— E porque da importância?
— Senhor, o Paranismo não aconteceu, não foi pregado, não
foi concretizado, pois existiam interesses que eram nacionais, e não
em nos dar identidade, que nos levaria mais como parte de um sul
com características muito semelhantes, o medo da identificação do
sul com esta bandeira chamada Paranismo, a fez sumir de quase
tudo, pois é uma bandeira forte ainda hoje.
— Quer dizer que é referente a obras que roubaram, escon-
deram para não virem a ser achado.
— Senhor, se você quisesse que alguém achasse faria parede
de barro ou de pedra?
— Pedra.
— Lá é tudo terra senhor, não era para durar, era para deixar
de existir, mas é que junto com isto se omitiu muitas lendas indíge-
nas, que não era de agrado da igreja Católica que viessem a publico,
quando todos querem que não aconteça, gerou isto.
— E tem tudo isto ali?
— Mais, nem chegamos a olhar e eles querem dar fim nisto.
— E parece despreocupado.
— Senhor, eu não confio ainda no senhor, para abrir a histo-
ria.
O delegado sorriu e falou;
— Então omitiu descobertas.

156
— Senhor, quando o prefeito chegar vou ter de descobrir se
estou encrencado, ou não.
— Porque?
— Se entendi, teríamos o maior acervo histórico Paranaense
entre os anos de 1890 e 1942 em propriedade da secretaria de cul-
tura da cidade de Ponta Grossa.
— Maior acervo? – Falou o prefeito entrando pela porta
Sorri e olhei para o senhor e perguntei;
— Você que pediu minha prisão prefeito? – Olhei ele nos
olhos.
— As vezes queremos entender o tamanho do problema.
O delegado olha para o prefeito e fala;
— Marcelo, vou deixar os dois conversarem, acho que não
entendeu o problema, e tem de se inteirar antes de continuar.
O prefeito olhou o delegado e perguntou;
— O que quer dizer com isto delegado, pelo jeito ele já lhe
enrolou, não entendeu, ele roubou tudo que estava na peça da
adega da Fundação Cultural.
Olhei o delegado e perguntei;
— Consegue localizar aquele senhor, Sergio, fazia segurança
na fundação, se entendi, ele corre perigo de vida senhor.
— Vou pedir para o trazer aqui, quem mais?
— Todos que fizeram parte desta busca, estão correndo peri-
go, aquele local onde subimos a rua, deve ter mais de 60 ossadas
humanas, algumas de mais de 100 anos, umas de menos de 10 me-
ses senhor.
— Isto que eles escondem? – O delegado.
— Uma das coisas, aquilo foi armado para desmoronar sobre
eu e Jessica, se o senhor Silvio morreria, eles não estão preocupa-
dos com um informante de pequeno custo, ou mesmo se aquele
Mauricio morreria.
O delegado olha para Silvio e fala;
— Podemos conversar senhor?
— Mas não fiz...
– Não estamos o acusando senhor, apenas o prefeito precisa
falar com o senhor ai, se ele descobrir o que precisamos ficará mais

157
fácil, mas como ele falou que só vai falar para o prefeito, vamos os
dar um tempo.
Olhei o prefeito, vi os demais saírem e ouvi;
— Acha que vou acreditar que não nos roubou.
— Não é tão burro prefeito, quem está oferecendo pelo pou-
co que viu, quer mesmo ficar somente com um pedaço disto por
que quem pediu para desviar isto não sabe o que está lá.
— Esta me acusando de algo que sei que foi você.
— Senhor, estou conversando em respeito a quem me indi-
cou seu telefone, se não quer falar, depois que as gravações da rua
mostrarem eles tirando de lá, não venha implorar o que não terei
como ajudar.
O prefeito olhou para mim e falou;
— Mas eles ofereceram uma fortuna por aquela peça, aque-
les documentos.
— Senhor, não entendeu, todos que se venderem, serão mor-
tos após eles terem tudo que querem, eles não estão querendo que
isto venha a tona, existe ai, crimes, uma fortuna em obras, em estu-
dos, em ideias.
— Não entendi.
— Senhor, mandar me prender é traição da feia, mas quando
quiser saber o que está acontecendo, terá de recuar prefeito.
— Acha que vou acreditar em você?
— Não sei, não sei o que você vendeu, o que entregou, o que
viu, na verdade queria perguntar e ter respostas para me posicio-
nar, mas parece que veio no discurso pronto senhor.
— O que queria falar comigo?
— Senhor, qual peça vendeu para este pessoal do Mauricio?
— A peça que estava no centro da peça, e aquele saco plásti-
co de documentos antigos.
— E quanto eles ofereceram pelas duas peças que tiramos do
buraco na praça.
— Esta me acusando.
— Prefeito, uma coisa é ser esperto, outra coisa ser burro,
não posso lhe chamar de inteligente, ajuda a desviar obras sem
preço, sem as identificar, quer me deixar preso, saio em duas horas

158
pois todos sabem que estava no hospital, sei que é fácil acusar um
desconhecido, ainda mais um judiado como eu.
— E quanto valeria cada peça daquelas?
— A assinada por João Turin, com certeza algo perto de 5 ou
6 milhões de reais, a outra, não sei quem o assinava, então não
tenho como estabelecer um preço.
— Quanto? Falaram que eram replicas.
— Senhor, mandei manter a calma, não sair achando que en-
tendeu o problema, sei que o problema de registrar é que deixa de
ser algo a negociar, mas nem tem ideia do que achamos e acha que
fez um bom negocio.
— Tem mais?
— Me ouviu falar, podemos estar na trilha do maior conjunto
de obras desaparecidas, entre 1890 e 1942, não estamos falando de
uma obra senhor, e sim de mais de 50 obras esculpidas, tendo como
objeto de escultura, pedra, metal e madeira, temos obras modernis-
tas com símbolos Paranistas, mas temos relatos que podem nos
levar a uma grande descoberta de arte.
— Quanto valeria isto?
— Senhor, se isto estiver aqui na sua cidade, liga para aquele
menino, Pedro, ele pagaria todas as obras e criaria um museu na
cidade, mas não seria um milhão de reais, seria, perto de mil vezes
isto em obras de arte, um dos maiores acervos de obras em Valor
do País.
— Está falando sério?
— Vai me prender por trocado, dai eles levantam quanto te-
nho nas contas, em patrimônio e chegam a conclusão que não vendi
nada, não sabe com quem fala senhor.
— Mas aquele Mauricio me disse que este achado era incrí-
vel, mas que não gostaria de ter isto revelado.
— Senhor, de que lado está? – Fui direto, vi que a aura do se-
nhor foi mudando, ele estava querendo mais.
O delegado chega a porta e fala;
— Acharam o senhor Sergio morto, em casa, dizem que foi
roubo, mataram ele e a esposa.
— Vai começar a feder Delegado, mas alguém viu algo?
— Não.
159
— Acho que terei de apelar senhor.
— Por quê?
— O prefeito está a favor de vender isto, se entendeu Dele-
gado, quando eles tiverem o que querem, eles vão terminar de lim-
par o campo, odeio ser o responsável por uma morte, mas se não
tivesse ido a Fundação, o senhor Sérgio estaria vivo.
— O senhor Silvio tentou ligar para casa e ninguém atendeu,
ele saiu para lá desesperado.
— Manda reforço para lá, eles não entenderam, protege
também a família do prefeito, pois eles vão pressionar de todas as
formas.
— E com paramos isto? – Delegado.
— Vou para a praça, preciso de algum radialista ou repórter
online lá para narrar que vamos entrar novamente na área que de-
sabou, pois tem coisas a mais para tirar de lá.
— Vai jogar.
— Vou entrar na historia, odeio a ideia de ver pessoas morre-
rem senhor, e não poder fazer nada.
— Mando o rapaz deixar você e a moça na praça, acha segu-
ro?
— Eu colho as consequências, os tiros, os arranhões, os ossos
quebrados, sempre foi assim, não vai mudar tão rápido isto.
Olho para Jessica que fala;
— Nem sempre não perdemos pessoas, sabe que guerras
como esta, onde todos os que se fazem de amigos, podem mudar
de ideia, gera mortes. – Jessica.
— Vamos.
Saímos e olhei para a rua, do outro lado da mesma dois car-
ros parados, olho para as câmeras, todas focadas em nós e falo;
— Delegado, vamos terminar isto, se temos de tirar as coisas
de lá e sumir, melhor.
— Algo a mais?
— Manda vigiarem todos os pontos, não sei qual eles vão ten-
tar esvaziar, mas com certeza, não vão ficar olhando.
— O que vamos pegar lá João? – Jessica.
— Sabe que o que nos motiva não é o que os motiva, temos
gente querendo o dinheiro, gente querendo esconder a historia,
160
gente querendo ser dono de algo, que não lhe pertence, tem aquela
maluca que acredita que sabemos como ela pode viver melhor, e
nossa missão.
— Não respondeu.
— As câmeras estão em nós Keka, sabe que vou lá disfarçar.
— Sei.
O Delegado sorriu e indicou uma viatura, saímos no sentido
da praça novamente, e falei para o delegado.
— Quando acabar o dia, posso estar um prego.
— Pensei que já estivesse.
Sorri, paramos na praça, vi uma viatura da policia militar pa-
rada mais a frente, os tapumes ainda estavam lá, parecia que foi a
uma eternidade que sai dali, sorri para mim de meus pensamentos.
— Quem vai entrar?
— Senhor, nem sei se vou entrar de verdade, mas vou entrar
na área protegida, vou dar uma olhada, estou só esperando aqueles
repórteres mais a frente se posicionarem.
Sai por uma porta, vi Mauricio a falar com um policial militar a
frente e perguntei;
— Quem é este senhor de verdade? – Olhando para Jessica.
— Mãos de quem nunca trabalhou no pesado, humano, ele
esconde algo, mesmo quando não está conversando sobre algo
importante, parece se preocupar com algo, como se esperasse que
alguém entrasse a qualquer hora e o surpreendesse.
— Vamos a bagunça. – Comecei a andar no sentido do policial
militar acompanhado do Delegado.
O senhor me viu e falou gritado;
— Porque este marginal não está preso.
O militar olha para mim, e depois para o delegado que per-
gunta;
— O que este senhor está fazendo aqui Sargento Rodrigues?
— Disse que tem de ver o local, temos ordens de não deixar
ninguém entrar sem autorização, mas ele falou que tinha autoriza-
ção do prefeito.
— Prenda este senhor sargento, ele está tentando roubar
nossa cidade, e acredito que ele tenha participação na morte de um
segurança da Fundação Cultural.
161
— Não pode me prender.
— E tira digitais e compara com os documentos, algo está er-
rado, e ele não está ajudando, deveria, mas está só atrapalhando.
O policial fez sinal para outro, pediu educadamente para o
senhor os acompanhar, enquanto o delegado ligava para o Investi-
gador e pedia para receber o senhor para averiguações.
— Vão entrar? – Sargento Rodrigues.
— Estamos com problemas Sargento, e não sei ainda quem
está envolvido, mas lembra as duas peças pesadas que tiramos do
buraco ali a frente?
— Sim.
— Ninguém me soube dizer onde está, enquanto o senhor
que está ao meu lado era levado ao hospital, aquele senhor deu
parte do roubo das peças, como se fossem dele, que saiba, tudo que
sair daquele buraco, e da cidade, não de um engravatadinho de
Curitiba.
— E vai verificar oque lá?
— Estamos puxando para cá o problema Sargento, mantem o
pessoal atento, não sei o que esperar, algo me diz que teremos agi-
to esta noite.
— Mantenho o perímetro, vou avisar o comando.
— Já passei as instruções, deve chegar um grupo de reforço.
— E vão entrar?
— Sim, mas não vamos tirar nada de lá, talvez nem entremos
no buraco.
Estava ouvindo, não sabia o que iria acontecer, mas algo me
dizia que seria uma daquelas noites que não estaria na historia da
cidade, mas estaria na lembrança dos presentes a praça.
Jessica olha em volta e fala;
— A praça esta enchendo.
Olhei e não entendi, estava vazia ainda.
— Não vejo nada Keka.
— Existem neste instante mais Laikans aqui do que vi na mi-
nha vida inteira João, existe um grupo de almas de lobos ao fundo e
alguma coisa cheirando a leão ao longe.
— Morois?

162
— Não, almas estranhas, lobos grandes, parecidos com os
Laikans, mas sem os rostos agressivos, parecem maiores, mais es-
guios, menos agressivos.
— As peças estão entrando no tabuleiro, o cheiro de Leões eu
sinto, é real, não são almas.
— O que vai acontecer? – O delegado estranhando a conver-
sa.
— Senhor, apenas mantem a calma, pelo jeito o problema
aqui não será financeiro, e sim, algo que somente vendo para acre-
ditar, alguns chamam de magia, outros de dons de Deus.
O senhor me olhou estranho, não sei se aquela aura dizia
descrença ou medo, mas entramos na área interna e ouvi uma voz
ao fundo, o senhor ouviu, parecia um estrondo de tão alto.
Olhei a senhora e fiz sinal para o delegado recuar, e ele olhou
meus olhos, Jessica me olha e fala.
— O que ela quer?
— Já tem, agora entendi o que fazíamos ali que não entendi.
— O que entendeu.
— O rosto dela, está rejuvenescendo Keka, ela os aprisionou,
mas não tinha como o fazer, quem comete o crime não pode o con-
certar, ela está livre dos pesos de Amaná, o que a separa do brinde,
não sei, mas ela acha pela aura, que passa pela morte de quem os
soltou.
— Quem é esta senhora? – O delegado olhando uma linha de
lobos na praça.
— Mantem a calma senhor, um tiro e entramos numa guerra
que vai ser contra seus netos, pois estes seres não se explica com o
tempo.
— Mantenham as armas travadas! – Grita o delegado, vendo
os policiais apontando para os lobos.
Sorri, esta era minha parte, minha indagação de tempo, meu
caminho a frente.
— O que quer Diana? – Falei olhando a senhora, e saindo da
parte interna, os demais lobos me olham, ela me fita e fala.
— Sabe que pensei que não estaria aqui, cadê aquele ser que
me prometeu a peça de interação.

163
— Diana, não entendeu, aquele é um farsante, o verdadeiro
Mauricio Appel nem sabe do acontecimento da cidade.
Senti o olhar de Jessica, do Delegado, mas não desviei o olhar
da senhora.
— E quem era o senhor?
— Um mandatário da Secretaria de Cultura, sei lá, nome é al-
go que não interessa muito, por isto sempre me apresento apenas
por João, alguém que o João define por si, não precisa de mais.
— E o que temos aqui?
O Delegado olhava a senhora, parecia rejuvenescer lentamen-
te, se a conheceu antes, não reconheceria a mesma mulher, menos
arcada, uma aparência que não passava dos 50 anos neste momen-
to.
Eu olhava a senhora e pensava no que falar e descarreguei a
bomba.
— Uma arapuca Diana, o que mais?
Os olhos dela se aguçaram e olha em volta, os lobos se ouvem
e vi uma das lobas se erguer, deveria ter aproximadamente a mes-
ma idade na aparência de Diana, todos estavam envelhecendo, to-
dos estavam morrendo, isto que mudara, todos deveriam estar re-
juvenescendo.
— Não vejo nada mãe.
— Vocês não veem espíritos, não veem o básico e querem fa-
lar que são Bruxas, que tipo de Moroaicas estão se tornando? –
Perguntei olhando a senhora.
Uma imensa leoa entrou por um lado e outra por outro, o de-
legado ficou tenso, meu olhar para ele pedia calma.
O senhor olhava perdido aquela senhora nua, que antes fora
uma loba, parecia perdido.
Vi as duas Leoas se erguerem, eram imensas mulheres, não
daria a elas mais que 25 anos, mas imensos corpos perfeitos e o
olhar de uma delas estava sobre os meus e ouvi.
— A quem agradeço a liberdade?
— A sua deusa, que deveria as estar afastando da região.
— O que esta senhora é?
— Deve conhecer os Guairacás, eles tem representação na
Europa, e lá se denominam de Morois e Moroaicas.
164
— E porque um Guairacás nos aprisionaria?
— Se quem as lidera fosse por nascença uma Moroaica, nun-
ca a atacaria, mas ela é uma humana, a primeira humana, o ser de
uma crença que não é minha, nem a sua, mas que para se manter
jovem do outro lado, aprisionava dos seus, mas ignorava totalmente
que aprisionando uma filha da terra, não seria assim.
A moça olha para Diana e fala;
— Melhor se manter longe dos meus senhora, não sei o que
pretendia, mas está longe da magia desta terra, pelo jeito, entendo
o que aconteceu aqui.
“Entendeu” – Pensei olhando a moça.
Um terceiro felino imenso se aproxima, era um rapaz, que
veio se transformando e dá a mão as duas, estavam nus, em praça,
cercados pela policia, cercados de vários lobos, Diana me olhava e a
eles, e ouço.
— Łééchąą'í Hastiin, Łééchąą'í Asdzání, Tó, Shá, s Sss. Pss Diné
Tł'éhonaa'éí. – O conjunto, os 3, falam aquilo repetidamente, um
som toma a região, estranho uma língua que não entendo, me fazer
sentido, estranho pois nunca ouvi algo semelhante, olho em volta,
olho nos olhos de Jessica e a estico a mão, olho em volta e vi o que
ela via, os seres translúcidos chegando perto, os seres na forma de
grandes lobos guarás chegavam perto enquanto os mais furiosos, se
afastavam, dois seres, senti aquela energia me atravessar, vi os
olhos de Jessica nos meus e comecei a olhar cada um dos seres, os
mesmos começam a brilhar, a surgir a praça, as Moroaicas que se
achavam em quantidade, se veem cercadas por mais de 200 guarás,
e Diana me olha, os três seres nus no centro da praça continuam
cantando aquilo baixo, olho a alma de vários felinos se aproxima-
rem, Jessica solta minha mão e continuo a os ver, os seres se apro-
ximam tomando matéria, o susto estava nos olhares humanos,
quando ando até um deles e o toco a cabeça, olho em volta e sinto
aquela energia me atravessar, minha vista fica turva, minhas pernas
parecem amolecer, as firmo, sinto aquela energia, olho os três seres
nus me olharem, olharem em volta, voltarem as suas formas origi-
nais, e atravessam os demais, o leão que eu tocava me olha aos
olhos, afasta a cabeça, sinto tudo mais turvo, olho em volta e olho
Diana se transformar em uma loba e sair dali, ela sorria, não enten-
165
di, mas sorria, meu corpo sente um calafrio, a vista fica turva, e sin-
to o começo da queda do meu corpo, e desabo na praça, sem saber
o que estava realmente acontecendo.

166
167
J.J.Gremmelmaier

Guará

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Acordo assustado, olho em volta e vejo aqueles olhos nos
meus.
Ela levanta e sai pela porta, olha para alguém e fala;
— Ele acordou. – Jessica.
Tento me situar, era um quarto, parecia um hospital, diria
que tinha cheiro de hospital, deveria ter desacordado, pareceu se-
gundos, mas não lembrava nem da dor de ter sentido o chão.
Olho meus braços, intravenoso, sinal que fiquei desacordado,
quanto tempo, nem ideia.
Vi dois médicos entrarem na peça e olhei para Jessica, uma
lagrima que parecia de felicidade estava em seus olhos.
A pergunta que queria fazer, pareceu não sair pela boca, pa-
receu um balbuciar de coisas.
— Calma – ouvi o medico falar – esteve 15 dias desacordado
– olhei para Jessica, entendi a lagrima, deveria estar ali desengana-
do, e de repente abro os olhos, estranho, pois não senti este tempo,
para mim cai a segundos.
O senhor tira minha pressão, tira alguns dados, não fala nada,
sai e foi falar com outro.
— Calma João, pensei que tinha me abandonado, mas todos
perguntam sobre o que aconteceu na praça, ninguém tem como
explicar, os que viram, duvidam, imagina os que não viram, mas
mantem a calma, ficou 16 dias desacordado, sei que tinha planos
para o dia seguinte, mas agora mantem a calma.
Tentei falar novamente, mas saiu algo como um;
— Unmmuhumm – Eu não tinha domínio de minha língua, e
ela parecia não ajudar nada naquele momento, sorri e apenas aper-
tei a mão dela.
— Estou aqui, muitos diziam que não voltaria, não sei oque
aconteceu, mas sei que sua aura esta ai, por mais que eles falassem
que estava inconsciente, que não estava mais conosco, sabia que
ainda estava ai.
Foram mais 3 dias para sair a primeira palavra, pois parecia
que a língua não estava ajudando, como se o ar não saísse na mes-
ma frequência, como pensasse em “o” e saísse “eo”, com calma fui
tentando, em silencio, tentando achar meu corpo, estranho uma
hora os pés estarem ali, no segundo seguinte não mais, e depois
169
novamente, olhei minhas mãos e vi aquela aura esverdeada, forte, a
interior estava forte, a externa, confusa, deveria ser um ajuste, es-
perava que fosse um ajuste, as vezes o medo dizia que não era, mas
não perdia a esperança.
No terceiro dia, consegui sentar-me, olhei para Jessica e falei
balbuciando.
— AAinndda tái diffiço!
Ela sorriu e falou;
— Tem de descansar, o medico disse que está voltando, quer
dizer, ele disse que deveria estar em coma ainda, pois seu cérebro
parece descansando em parte, ativo em outra.
Me sentia com o consciente ativo, o físico, inativo. Algo me
alertava que teria de melhorar, e não poderia mais ficar para de-
pois, por três dias, as coisas pareciam hora estar bem, hora nem as
lagrimas de desespero saiam.
— Teenheo d meliiooraar. – O não conseguir falar direito me
fazia sentir raiva, vi a aura da minha pele, ficou toda perturbada e
olhei para Jessica.
— Por quê?
Olhei as paredes, pareceram ficar turvas, olhei para seres sur-
girem a toda volta, seres que não pareciam amistosos, olhei para
aquela senhora, agora no máximo moça, estanho pois as palavras
não entendi, mas era obvio, ela queria algo a mais, sacudi a cabeça
e olhei a senhora sumir da minha frente, e ouvi.
— Como fez isto? – Jessica.
A olhei, ela vira também, estava em mim algo grande, e falou;
— Isto que vem a ti, mas o que ela quer?
Levantei os ombros, olhei a mão e balbuciei novamente;
— Não ssseii. – A primeira palavra saiu, o sentimento foi
grande, mas a segunda enroscou, do paraíso ao inferno em duas
palavras.
Respiro fundo e olho em volta e aponto o banheiro e ela en-
tendeu, algo vinha agora.
— Mas...
Eu a olhava firme, não conseguia falar, estava sentado a ca-
ma, ela entra no banheiro e vi aquela moça entrar pela porta, ela
pensava que não a reconheceria, mas não conseguia falar.
170
— Dizem que não vai morrer, acha que escapa, não enten-
deu, não tem como ficar vivo e me permitir caminhar, não sei o que
está dentro de você, mas estou presa a cidade, não consigo me
afastar mais de 7 mil passos de você, somente sua morte me liber-
tara de você.
Um outra moça ao lado me olha e fala;
— Ele nem consegue falar mãe.
— Ele fez algo incrível filha, mas ele não é iniciado, ele é co-
mo algumas bruxas falavam, a porta, ele não serve para além de
abrir um caminho, mas quando aberto, temos de manter a porta
aberta, para que ele não a feche novamente.
Sorri e olhei a moça;
— Diiaanna? – Perguntei, era para provocar.
— Sim, sabe que não sairá deste lugar vivo.
Senti ela puxar uma faca e me atravessar, ela sai, e sinto o
corpo cair, olho a mão no ferimento e olho para a mão, sinto Jessica
chegar rápido, olho a mão, um medico chega rápido e a senhora sai
correndo como uma loba pelo corredor deixando a faca cair.
— Quem era... – O medico vendo a moça mudar de forma no
fim do corredor.
Fechei os olhos, senti o corte, senti o sangue e senti a dor de
alguém longe, abri os olhos e vi que Jessica olhava o espanto do
medico, sentia a pele puxar, dor, e senti a língua solta e falei.
— Calma Keka, calma!
Ela me olha, o medico me olha e fala.
— Está fechando sozinho. – O senhor parecia não entender,
não entendia, mas vi que uma enfermeira chega a porta e fala.
— O que precisa Rogerio?
— Chama a policia, e não deixa ninguém tocar naquela faca
no corredor.
— O que era aquilo? – A enfermeira.
O medico me olha e fala;
— Uma pergunta boa Renata.
— Alguns a chamam de Lility, alguns de Diana, eu apenas de
Moroaica. – Falei olhando o senhor.
— E o que ela queria?

171
— Minha morte, mas ela não entendeu senhor, ela acaba de
me por em sintonia novamente.
Jessica me aperta a mão e fala;
— Sintonia?
— Cérebro e Corpo, tá na hora de sair da cama Keka.
O medico sai pela porta, ele parecia querer tomar um ar, Jes-
sica me aperta a mão e fala.
— Não tem medo de morrer?
— Ela não entendeu Keka, ela não tem mais como me matar
e nem a ti, demorei a entender.
— Por quê?
— Libertamos o peso dela, de Amaná, libertamos e estáva-
mos lá para o reestabelecer da força de Manás e dos Guarás, ela se
liberta do peso, mas se o que ela falou é real, não pode ficar longe
de nós, temos de ter uma forma de a libertar de nós.
— Por quê?
— Ela quer nos matar, isto é doido, mesmo que não seja mor-
tal vindo dela, mas ela pode pagar para alguém o fazer.
— Agora está falando bem.
— Pede uma roupa limpa para a moça, vou tomar um banho.
— Eles não querem que se levante.
— Pede para mim Keka? – Sorri a olhando nos olhos.
Ela saiu e fui ao banho, a moça quando chegou, foi brigar,
mas estava saindo do banho, precisava de um, banho se esfregando
não é o mesmo dos demais lhe esfregando.
Peguei a roupa do hospital e a vesti.
Sentei ao sofá ao lado da cama e Jessica sentou ao lado;
— E como estão as coisas?
— Dizem que Tudor está indo para a Romênia de novo.
— Covarde. – Falei sem sentir, mas não entendia da historia,
sinal que Dara iria também, vi que um senhor entrou na peça e olhei
ele.
— Delegado, o que o traz a mim?
Olhei o corredor e vi um rapaz tirando a faca do corredor.
— Falando e sentado, uma boa recuperação de ontem inicio
do dia para hoje, mas parece que foi acordar e alguém reaparece.
— Nem a reconheceria hoje senhor.
172
— Nem entendi o que aconteceu aquele dia.
— Eu não lembro do fim daquele dia senhor, acordei 16 dias
depois.
— Algo está acontecendo, mas não entendo oque?
— Por quê? – Perguntei.
— Aquele senhor, não era realmente quem falava, alguém na
fundação Cultural do Paraná não consegue explicar porque nos
pressionaram a ter aquele senhor aqui, e nem era o senhor verda-
deiro, a morte do segurança pareceu gerar um descontentamento
do pessoal da segurança, mas ainda não sei o que tiraram de lá,
temos um processo aberto contra o prefeito por um dinheiro que
foi depositado em sua conta, sem procedência. Temos o autor das
mortes, um dos rapazes que tentaram sua morte no dia que chegou
a cidade.
— Recuperou alguma coisa?
— Um saco plástico com coisas que vão para avaliação, foi jo-
gado no lixo, e por sorte um catador resolveu olhar o que era antes
de tudo.
— E qual a posição da fundação Cultural?
— Resolveu proibir o acesso a todos os locais, conseguiu limi-
nar para isto, e fechou tanto o bueiro que saíram como a estatua
que tiveram acesso, olharam a peça que tiraram o saco e a peça que
sumiu na Fundação Cultural local, ali na Julia Wanderley, mas pare-
cem não ter achado nada, pois nem pediram o isolar do local.
— Senhor, posso ajudar, mas preciso saber, quer desvendar
isto ou apenas terminar de sumir com as coisas.
— Quero entender, eu vi uma moça se transformar em lobo,
uma moça se transformar em uma leoa, vi aquela leva de lobos nos
cercando, e depois aquela leva de lobos e felinos surgindo na praça.
— Ainda bem que não tinha tanta gente na praça delegado,
seria difícil de explicar.
— Não viveu o problema, caiu e ficou lá quase morto, todos a
volta assustados, demoramos para lhe socorrer, mas tinha dois re-
pórteres, tinha policial demais, foi um monte de perguntas sem
respostas.
— Senhor, ter perdido 19 dias, pode ter feito toda a diferen-
ça, e ainda não tenho alta hospitalar.
173
— Mas já é atacado novamente.
— Por isto tenho de me dar alta, alguém pode sair ferido por
estar no caminho deste pessoal, mas como estão as coisas lá fora.
— Complicadas. – Um médico entrou na peça e olhei para ele
e perguntei.
— Estou preso aqui até quando?
— Mal falava há um dia, estava em coma há 4, tem de ver
que lhe dar alta é irresponsabilidade.
— Está arriscando a vida dos atendentes, mas não reclama
depois doutor.
O senhor olha o delegado e pergunta;
— Delegado Francisco, por aqui?
— Verificando uma tentativa de atingirem este senhor, que
pelo jeito cansou de ficar na cama.
— Tem um residente assustado lá dentro, que não fala nada
por nada. – O rapaz me olhava e sorrio e falo.
— Ele me parece bem, mas realmente ele tem razão, as pes-
soas tendem tentar acertar ele.
— É perigoso? – O tom foi se perguntasse para o delegado
sobre mim.
Sorri e ouvi.
— Alguns querem o calar, coisa referente aquele sumiço de
peças de arte obtidas no centro, que envolve o prefeito.
Eu não sabia nada a respeito ainda, então estava ouvindo e
me inteirando.
— Vamos fazer os exames, se estiver tudo em ordem e as
contas pagas verifico se dou alta.
— Verdade, as contas. – Sorri.
O delegado olha o medico e pergunta;
— Que horas temos uma posição?
— Inicio da tarde.
Ele me olhou e falou;
— Pensa por onde e se vai confiar.
O senhor saiu, o medico saiu, fizeram exames, olhei enquanto
comia já ao meio dia, se Jessica me conseguia um telefone.
Ela pegou o meu na bolsa dela e disquei para Pedro.
— Pedro Rosa?
174
— Quem.
— João Gomes.
— Pensei que estivesse em coma ainda.
— Pedro, uma pergunta, quem está querendo sumir com is-
to?
— Não entendi, pressão sem endereço, parece birutice quan-
do olhamos o verdadeiro Maurício Appel, não se mexeu, as pessoas
não estão dando valor para a imprensa não fazer perguntas, diria
que fora o Delegado, ninguém se mexeu.
— E desviaram algo?
— Não estou olhando João, pois tenho outros problemas.
— Tudo bem, se cuida rapaz, volto para Curitiba em 2 dias.
— E vai agitar ai?
— Não, vou ter alta em dois dias.
— Sabe que não vou me meter, mas se sair, terei de ficar de
olho ou pedir que alguém fique.
— Estou pensando, algo está errado, os Moroi se mandaram
Pedro?
— Sim, quase ninguém ficou, eles parecem querer fugir desta
senhora que está ai.
— Este é um problema para a vida, mas encaro. Se cuida! –
Desliguei e disquei para Joni, a pergunta era simples, a que eu que-
ria responder, quem estava ganhando com aquilo. – Tudo bem Joni?
É João.
— Onde se escondeu, dizem que morreu por aqui.
— Dizem?
— Foi o alerta que chegou a uns 10 dias, está bem?
— Quem alertou isto Joni.
— Andrei me falou, disse que você virou um herói para os de-
le, mas que havia morrido.
— Herói morto, não me conhece mesmo Joni.
— É, não combina com você, mas você sumiu, alguém diz que
você morreu, como duvidar?
— Só uma coisa, quem está cuidando daquela maluca da
Thamis?
— Está com aquela sua amiga, que quase acreditei ser uma
Moroi, mas todos os demais foram embora, ela ficou.
175
— Menos mal, uma preocupação a menos, estarei na cidade
em dois dias, dai lhe ligo.
— Certo, quer algo?
— Mortos não querem nada! – Falei e desliguei, odiei a in-
formação, mas deveria ter um sentido, algo que pode ter me permi-
tido me recuperar, a informação de minha morte.
Mas minha mente tentava achar um culpado, um caminho a
seguir e ligo para Moreira.
— Moreira, é Gomes.
— Não morreu João?
— Duvido que você caiu nesta armação, você não Moreira.
— Na verdade sempre olho, mas a informação de sua morte
veio como um rastilho de pólvora de Ponta Grossa, onde está?
— Ponta Grossa, ainda internado, mas me inteirando o que
aconteceu nos 16 dias que estive em coma.
— Pelo jeito precisa de algo?
— Sim, descobrir se alguém ofereceu no mercado de contra-
bandistas de peças roubadas, alguma peça de João Turin.
— Como sabe?
— Quero saber quem roubou isto para saber quem é que pe-
diu minha morte Moreira.
— Aquelas cenas na praça não parece alguém pedindo sua
morte, e sim você indo a morte por vontade própria.
— Bom saber que vazou isto, mas quem está oferecendo isto
e quantas peças Moreira?
— Quantas, porque, tem mais de uma?
Sorri e falei.
— Desviadas que sei ainda preso no hospital, pelo menos 3,
duas inéditas. – Pensei, poderia ter entendido errado e falei – certo,
de quem mais ofereceram uma peça inédita Moreira, eu não vi a
assinatura da segunda.
— Está rápido, mas afirmam ter uma peça de Affonso Gui-
lherme Wanderley, um pintor quase desconhecido, mas as imagens
são de um mural em cobre.
Sorri e olhei em volta.
— Tem certeza da autoria Moreira?
— Não sei quem é Affonso Guilherme Wanderley?
176
— Pai de Julia Augusta de Souza Wanderley, mas sabe quem
está vendendo ou é apenas uma peça oferecida sem credibilidade
de fonte e de valor.
— O escritório de obras de João Turin, que está querendo
uma reforma e vê no vender das duas peças uma forma de conse-
guir os recursos.
— Ultima pergunta Moreira, quem está cuidando do avaliar
das peças encontradas em Ponta Grossa.
— Embargado pelo patrimônio cultural, não entendi, mas eles
parecem não querer que se prove a autenticidade.
— Certo, vou a luta, e se lhe ligar antes de chegar em Curiti-
ba, sinal que estou encrencado Moreira.
— Mais um João vindo ao mundo?
— Um bem estranho, mas... – sorri da frase e terminei – terei
de ter sorte desta vez.
Desliguei e olhei para Jessica.
— O que é esta cara de poucos amigos. – Perguntei.
— Já perguntando da menina.
— Me economizou uma pergunta a mais, mas fica linda com
ciúmes.
— Não gosto de o dividir, mas parece que conseguiu entrar
em uma destas encrencas imensas, e se entendi, se tivesse ficado,
estaria achando que morreu.
— Alguém nos deu cobertura Keka, pois fui tido como morto,
e isto não chamou a atenção de quem queria nos matar, não sei
qual a reação de um corpo de coma, ao mesmo ataque.
— E vamos fazer oque?
— Entender o que aconteceu aquele dia, odeio me sentir di-
ferente, esta coisa não combina comigo.
— Diferente como aquilo que fez antes? – Keka se referindo a
visão.
— Também. – Comida de hospital é algo estranho, você come
e não sente gosto, continua com fome, e dizem que é saudável, se
fosse saudável medico comia só aquilo e pronto. Olhei para a porta
e uma moça entrou.
— Senhor João Jorge Gomes?
Concordei com a cabeça;
177
— Temos uma conta a acertar referente a seu internamento,
e gostaria de saber como acertamos isto.
— De quanto?
— Com despesas extras, quarto, gastos gerais, 38 mil reais.
Olhei serio para a moça e falei.
— Aceita isto como?
— Cartão de Debito ou Credito.
— Me vê descriminado cada gasto, e a conta exata, tenho de
ver como vou pagar isto.
A cara de assustada de Jessica dava o clima;
— Mas o que eles gastaram tanto que deu tudo isto.
— Keka, uma coisa que tem de aprender, hospitais sobrevi-
vem de contratos, ninguém entra neles para atendimento particu-
lar, não no Brasil, eles fazem preços para convênios, para o SUS bem
mais em conta, dai cai alguém no particular eles enfiam a faca, se
fosse um cardiopata, matavam nesta hora.
— E vamos pagar isto como?
— Não sei, estranhei estar em um quarto, quando acordei, se
não tinha quem estava pagando, deveria estar na enfermaria.
— Também não sei, quando liberaram minha visita, no tercei-
ro dia, paguei a conta do hotel, peguei o carro e me coloquei aqui
ao seu lado.
— Obrigado. – Ela me abraçou, unidos e não sei ainda onde
acabaria aquilo, parecia que o que nos aproximava, nos afastava.
Vi um senhor entrar pela porta e falar;
— Senhor João Gomes?
— Sim. – Estranhando um rapaz que não conhecia.
— Mandaram lhe entregar um pacote, só precisa assinar.
Estranhei e peguei o pacote, abri e vi um maço de notas, e
dois cartões, e uma pequena carta.
Abri curioso e lá estava escrito;
“Não nos conhecemos direito rapaz, mas lhe devo o alerta, ai
tem um cartão de credito e uma soma em dinheiro, sei que os valo-
res no Brasil assustam até Morois, imagina humanos como você,
mas lhe devo o alerta, e mostrou coragem em quase morrer para
enfrentar isto, é apenas uma forma de agradecimento.
Tudor de Buzau “
178
Uma divida a mais, duas desde que comecei, e agora sei
aproximadamente o que não soube no primeiro internar, o quanto
custava estar ali.
O medico veio com a alta, passamos na tesouraria e acerta-
mos, a moça parecia surpresa, um preço para ser negociado, pago
no debito, ela ficou nos olhando.
Começamos sair e nos deparamos com o Delegado e dois in-
vestigadores.
— Já saindo?
— Vamos conversar longe daqui senhor.
— Onde?
— Fundação Cultural na Julia Wanderley.
Fomos ao carro, que não queria pegar, ficara 15 dias sem dar
a partida, e carro velho dá nisto, o investigador trouxe uma bateria
e demos partida, dali direto para a fundação.
Quando chegamos, o secretario de cultura estava lá e falou
olhando o Delegado;
— O que quer verificar Delegado.
— A região do achado.
— Quem os acompanha?
— Dois investigadores e um especialista nesta historia.
— Arqueólogo?
— Não temos achados arqueólogos ali senhor! – Falei.
— Sabem que não podem verificar o ponto na praça. – Fala o
senhor.
O Delegado olha para o senhor e fala;
— Isto também quero conversar, quem é o responsável pela
proibição, quem está querendo que não mexamos lá?
— O grupo de técnicos da Fundação Cultural do Paraná!
O delegado me olha e olha o senhor, deveriam se conhecer,
ou não, cidades grandes nem sempre se conhece a todos.
— O senhor é o responsável pela fundação Cultural de Ponta
Grossa? – Perguntei.
— Sim.
— Onde estão as peças tiradas do subsolo desta casa, sei que
está embargado, mas qual a afirmativa do embargo, e onde está?

179
— O delegado Francisco não deixou tirarem da cidade, e um
juiz local está tentando derrubar a prerrogativa.
— Acha que se dermos uma olhada será quebrar a determi-
nação de avaliação? – Perguntei.
— Sim.
— Ultima pergunta antes de ver o local, já que estamos aqui,
pois quem viu aquilo foi morto, a pergunta é fácil senhor, sabe
guardar um segredo?
— Segredo?
— Se tivermos alguém falando, eles vão tirar daqui antes de
sabermos o que tem ali, mas a pergunta, sabe manter o segredo,
gostaria de estar a frente de peças de valor cultural que só existiria
aqui?
— O que tem ali?
— Não sei ainda, mas saberia ou não?
— Sim, não gostamos de ter de trancar num cofre com moni-
toração por câmera o que nem sabemos oque ao certo.
— Eles vão tentar desviar daqui, mas se sabe guardar segre-
do, separa 3 ou 4 pessoas de confiança, uma região aqui dentro que
dê para por peças, e antes de falar que achamos, vamos ver o que
temos.
— Está dizendo que tem mais, mas não vimos nada.
— Espero que ainda tenha senhor, mas temos um acordo ou
não?
— Sim.
— Recomendava dispensar os demais, inventa um motivo, co-
locava os seguranças a barrar todos, e quando nos reunirmos perto
da meia noite para olhar as coisas, conversamos.
— Vou providenciar.
O delegado me olha e fala;
— Tem certeza que tem algo?
— Eles podem ter esvaziado tudo, mas se o tivessem feito, es-
tariam oferecendo as peças, e não as estão oferecendo.
— Vamos onde?
Caminhamos como se soubéssemos, olhei o senhor ao longe
e pergunto.

180
— Consegue tampar estas janelas para fora e umas lanter-
nas?
— Acha mesmo que tem algo.
— Se tiver uma peça de João Turin, já teria gente interessada,
que saiba tem mais de uma.
Descemos e olho a peça, o senhor tinha amontoado as caixas
de material para a parede oposta e colocado a prateleira na parede
que tinha o buraco, sorrio e olho a luz, o delegado chega a meu lado
e pergunta.
— Mas como um lugar destes pode ter algo?
— Senhor, não deixaram olhar o lugar, ou deixaram?
— Não.
Olhei um investigador e perguntei.
— O que tem errado nesta peça?
O rapaz olha a mesma, olha a parede e fala.
— Mudaram o armário de lugar, vamos ver oque temos ao
fundo do armário.
Começaram a tirar as caixa e colocar no canto, levantam o
armário e o ajeitam na outra parede e o delegado viu a passagem a
parede e me olha.
— E o que tem ai?
— A pergunta é se tem algo ai ainda senhor.
Peguei uma lanterna, e passei no buraco, Jessica passou após,
e depois os demais, olhei a peça e toquei a parede, desta vez fiz a
volta inteira, realmente só terra.
— Não tem nada aqui. – Delegado.
— A escada para baixo bem na ponta.
Os demais viram que sabia onde ia, e começamos descer,
descemos aqueles mais de 300 degraus, e nos deparamos com as
peças, as estatuas estavam ali, o delegado olha as estatuas, os sa-
cos, as peças todas encostadas e fala.
— Isto que quer levar lá para cima?
— Sim, documentar, limpar, registrar, e declarar oficialmente
a existência, mas após a secretaria municipal registrar e tomar pos-
se oficialmente dos artefatos.
— E como levamos tudo isto lá para cima, tem coisa que não
passa pela entrada.
181
— Por isto que vai dar trabalho senhor, talvez por isto eles
ainda deixaram aqui, mas está na hora de tirar a parte que dá para
tirar, depois avançar um pouco.
— Avançar? – Delegado.
— Se vamos fazer isto, que seja pelo menos documentado.
— Certo, quer abrir a mente de alguns, mas sabe o risco disto.
— Senhor, isto está aqui a mais de 70 anos, no mínimo.
— Por isto dizem que armaram para cair a outra parte, pois
não cairia tão facilmente.
Comecei a olhar o lugar e bem no canto chego a um buraco
pelo teto, olho para o Delegado e falo.
— Provavelmente colocaram as coisas aqui por esta entrada.
O senhor olha o buraco, mais de dois metros de diâmetro, em
terra, para cima, não sabia-se o que tinha lá encima, mas tinha ar-
mações de ferro na parede, presas ali, enferrujadas, eu comecei a
subir, era pelo menos 60 metros para a entrada lá encima, e quando
cheguei com dificuldades na parte alta toquei o teto, concreto, em
minha mente vem o local, estranho pois não conhecia o lugar, pen-
sei na possibilidade, senti como se minha alma estivesse do lado de
fora, olho para os lados, um coreto interno ao terreno da fundação,
uma laje, a senti inteira e pensei nela começa a andar com o coreto
para o lado, a laje era inteiriça por baixo do coreto. O teto começa a
abrir e a luz vem pelo buraco.
A luz começa a surgir , desço e olho para o delegado.
— Se conseguir discretamente corda e um motor que aguen-
te puxar estas coisas, fica mais fácil.
— Como abriu isto?
— Não viu nada ainda Delegado.
A luz tomou o local e olhei as paredes, na parede do fundo,
existia uma leva de quadros, muito danificados, de artistas parana-
enses do fim do século 19, foram abandonados para apodrecer ali.
— Quanto mais tempo algumas coisas ficarem, menos tere-
mos delas.
— Parece um amontoado.
— Sim.
O investigador olha o buraco e me olha;

182
— Não deve dar 60 metros, acho que tenho corrente e o mo-
tor da caminhonete deve puxar para cima.
— Temos de cuidar para não danificar.
— Começamos por onde?
— Ver se está vazio lá encima, levar o que está em sacos, pois
foram os que nós colocamos, e depois vamos as peças pesadas, pois
300 degraus com tudo isto já seria de matar qualquer um.
Vi o investigador subir pelo caminho preso a parede que tinha
subido, chegar na parte alta e sair do buraco, o delegado pega uma
das sacolas e fala.
— O que tem aqui?
— Senhor, tem mais coisas do que pensava. – Menti.
— Em 10 das peças identifiquei o J. Turin, eles vão vir matan-
do para cima de nós senhor.
Comecei a subir com dois sacos mais leves, e quando passo
pelo buraco, o senhor nos olhava, esperei o Delegado passar e ouvi.
— Tem gente perguntando do Delegado lá fora;
— Se identificou?
— Disse ser Mauricio Appel.
— Eu falo com ele! – O delegado.
— Quer que acompanhe?
— Bom, uma desculpa mais eficiente, eles devem saber que
estamos aqui.
Olhei para o senhor e falei.
— E como estão as coisas?
— Um investigador está estacionando na parte de traz os car-
ros, não é padrão deixarmos, o pessoal já está saindo, em 5 minu-
tos, devem estar alegres e contentes indo para casa mais cedo.
— Verdade, assim que despistarmos, temos um trabalho difí-
cil senhor, e preciso de ideias.
— Acharam?
Passei para ele dois dos sacos, o delegado outro;
— A parte leve é o que tiraremos de lá, mas vamos ao pro-
blema primeiro. – Delegado.
Acompanhei o Delegado e chegamos a entrada do prédio e
um senhor bem conservado e novo ao lado de um procurador de
justiça.
183
— Quem pede para falar comigo? - O delegado.
— Delegado Francisco?
— Sim.
— Temos uma denuncia que está mexendo em algo que exis-
te uma ordem judicial para não mexer.
— Denuncia de quem, sobre o que?
— Que o senhor está a mexer nos objetos que foram retira-
dos de um buraco na praça Barão do Rio Branco.
— Primeiro não estou aqui para isto, segundo, colocaram
uma câmera lá a pedido desta determinação, então não precisam
vir aqui ver isto, e seguir com um procurador de justiça por uma
fofoca é estranho.
— E o que está fazendo aqui?
— Investigando o local onde trabalhava um senhor que mor-
reu, e trabalhava neste local.
— Assassinato aqui? – O senhor.
— Não, mas o morto deixou um escrito, que nos trouxe aqui,
mas em questão de minutos estamos encerrando e saindo, mas era
só isto, pois estão nos atrapalhando.
— E poderíamos dar uma olhada no cofre?
— Se tiverem determinação para isto, pois até para vocês es-
tá vedado o acesso, dispensamos o pessoal para fazer uma acarea-
ção lá dentro, e não queremos testemunhas que podem atrapalhar
um caso de assassinato.
— Existe um suspeito?
— Sim, um senhor que esteve aqui na noite anterior a morte,
e falou com o senhor, um senhor que por sinal se passava na cidade
por Mauricio Appel.
— Desconfiam que ele matou, mas baseado em que?
— No ele dispor para vocês duas peças tiradas daqui, e que o
pessoal do acervo de Joao Turin colocou a venda, peças que sumi-
ram daqui a 20 dias, podem ter certeza, vão ser chamados a escla-
recer como duas peças que estavam aqui, foram parar em Curitiba.
– O Delegado.
— Está nos acusando de roubar?
— Senhor, o estarem aqui, mostra que estão ligados, que tem
informantes internamente a casa, mas o processo ainda está em
184
sigilo de montagem de provas, vamos chamar a depor pessoas co-
mo os senhores, e quando o fizermos, vamos mostrar as provas que
o que o seu atelier, senhor Mauricio, está oferecendo no mercado
de objetos roubados não deveria ter saído daqui, pois para vocês
uma peça de Affonso Guilherme Wanderley pode não ter valor, mas
para a cidade tem. – O procurador de Justiça olha para o delegado e
pergunta.
— Esta afirmando Francisco, que as peças foram postas a
vendas no mercado de peças roubadas, estão esperando oque?
— A venda, pois eles só vão tirar de onde esconderam,
quando venderem.
— E tem um assassinato no meio de tudo?
— Duas pessoas Roberto, é tanta confusão este caso, que re-
solvi isolar para fazer a acareação, não quero deixar um assassino
sair da cidade, e ficarmos com a sensação de que poderíamos ter
feito melhor.
— E vai precisar de ajuda no caso, conte com o ministério pu-
blico.
— Estamos tentando derrubar a determinação do Ministério
Publico referente a não mexer, não verificar esta historia, pois é
bem o que eles devem ter medo, algo que diga por que que isto
está acontecendo.
— Soube do caso do senhor na praça, alguns dizem que ele
morreu, não sei o que está acontecendo, mas alguns falam tantas
maluquices sobre aquele dia na praça, que chegam a falar em leoas,
onças e lobos andando amistosamente a rua.
— Posso lhe garantir Roberto, o medo de que atacassem al-
guém foi grande.
— Vou relatar que não estão mexendo, realmente ele tem
uma câmera lá, mas não se tente a mexer delegado.
— O dia que souber quem está pressionando, falamos de
quem vai ter de se conter Roberto.
Os dois saíram, não precisei falar, vi que eles não sabiam
quem eu era, e resolvi ficar quieto, e vi os últimos saindo, vi os se-
guranças ficarem mais a rua, e o investigador ao fundo, começar a
descer uma corrente pelo buraco, ninguém estava olhando para ele
mesmo, mas logo olhariam.
185
O senhor que ainda não sabia o nome, mas que era o secreta-
rio de cultura da cidade, nos olhava a porta.
— O que são aqueles quadros?
— Vamos lá senhor, a segurança está postada, e vamos ver o
que pode nos ajudar.
— Ajudar?
Descemos e vimos o rosto do senhor de admiração, começa a
ler as autorias e fala.
— Como algo assim fica abandonado?
— Senhor, o que me preocupa, é que temos quadros ali no
fundo, que estão jogados ao chão a muito tempo, não sabemos
como tirar dali, se pedirmos autorização, podem negar, e perder-
mos nem que parte de uma grande obra paranaense.
O senhor chega a peça e olha a assinatura e fala.
— Tem de Poty, Alfredo Andersen, Raul Mendes Silva.
— Mas parecem bem danificados. – Falei.
— Sim, quadros sumidos e que podem dar uma conotação di-
ferente, mas pelo jeito é serio que tínhamos aqui o maior acervo de
cultura paranaense do fim do século 19 e inicio do 20.
Começamos amarrar a primeira peça o senhor entendeu
quando viu o buraco, e falou;
— E vão tirar tudo por aqui?
— Senhor, quando estiver vazio, quero documentar a exis-
tência disto.
— Registrar isto antes que proíbam, entendo, mas o que te-
mos mais aqui.
— Primeiro vamos tirar a parte que sabemos e vamos avançar
aos poucos.
As peças foram sendo colocadas na traseira da caminhonete
coberta, os sacos fomos subindo, e o senhor foi organizando em
uma peça, existiam varias mesas, tinham cadeiras também, mas ele
encostou nas paredes as mesas e fomos dispondo ali o que tiramos
dos buracos.
O tempo pareceu voar, quando sentamos a sala, meia noite e
7 minutos, era o que meu celular falava, olho para as peças e para o
senhor da secretaria de cultura.
— Entendeu o problema senhor?
186
— Entendi, um trabalho de mais de 3 anos para documentar,
para identificar algumas coisas, alguns papeis precisam ser analisa-
dos e isolados o mais rápido possível, não temos recursos para tal
investida.
— Verifica quem e oque precisa, vamos ter de cuidar disto, e
documentar, vamos ter de registrar para não sumir nada.
— Verdade, os demais preocupados com aquele saco no co-
fre, e temos mais de 50 sacos com mais conteúdo que aquilo.
— Senhor, eu não entendi isto, mas aquele quadro ali atrás,
narrado como de João Turin é o que me preocupa.
— Por quê? – Delegado.
— Senhor, tem a imagem de 4 estatuas que estão aqui e uma
em Curitiba estilizadas, e as costas você reconhece, lobos, felinos,
leoninos e humanos. Parece uma iniciação, ao centro, 3 crianças,
que são representadas com a cabeça humana, mas os corpos dos
três tipos de seres.
Jessica me abraçou, estava cansado, e com fome, enquanto
carregava, corria, não pensei na fome, mas agora estava sendo re-
presentada pelos ruídos assustadores de meu estomago.
— Acha que aquilo que aconteceu na praça é algo referente a
isto?
— Aquilo ainda não entendi senhor, sempre acredito que an-
do as cegas e os demais conseguem desvendar, toda vez que tento
entender demais, acontece o que aconteceu, me tiram do ar.
— E pretende fazer oque referente a isto, sabemos que al-
guns vão querer embargar isto.
— Fotos, documentos, vamos documentar tudo que temos e
nas regras locais, vamos documentar, inicialmente como copias,
depois vamos pedindo autenticação.
Andei até uma das estatuas de lobo e olhei em volta, o delga-
do me olha, odiava isto, vinha de mim, aquela miragem se forma,
mas era algo confuso, vi os seres entrarem na peça, olho o celular,
vi as grandes panteras a se posicionar e olhei para a que vinha a
frente, uma líder de matilha, ela se ergue e vejo uma moça, seios
pequenos, corpo definido e musculoso, cabelos e olhos negros, ela
me olha, ela iria falar algo, quando vejo entrar algo a mais na peça,

187
vi aquela loba se erguer, Diana, a moça olha assustada e tudo some
a volta, olho para o delegado e falo.
— Vamos ver novamente estes seres senhor.
— O que foi isto? – O senhor da secretaria.
— Quando entender o que é isto, talvez ele não seja mais im-
portante, mas dispõem as 4 peças que temos, vamos ter de encarar
isto, e não pense senhor, a senhora que surgiu por segundo, é o
nosso perigo, então recua os demais, melhor ter poucos na peça.
— E um dia vai ter de me explicar quem é você?
— Me definiram como uma porta, que uma vez aberta, perde
a utilidade, pode ser arrancada e jogada fora, mas não sei se já abri-
ram esta porta Delegado.
— E acha que... – olhei o celular, enquanto o delegado parava
a frase pelo uivo de lobos do lado de fora.
— Sim.
— Se cuida. – Jessica, a olhei e falei.
— Mantem o foco, tem de ter alguém a pedir ajuda.
— E acha que eles veem para que?
— Estes querem a magia, não as peças. Uma historia a ser
contada, que não foi ainda.
— E como vamos enfrentar? – Delegado.
— Mantendo a calma, não esquece, eu sou alvo, pois é mais
fácil me matar que a Diana, mas se estamos unidos, minha morte, é
algo a se pensar como útil.
Os rapazes olharam o quadro ao fundo e um fala;
— Vamos ter extras chefe?
— Sim, embora o que verão aqui pelo jeito não existe na his-
toria, mas pelo jeito vamos nos meter em problemas.
Olhei o senhor e falei.
— Fecha a sala do cofre, pois se tiver uma cena de um lobo
passando perto dele, teremos o lugar cheio.
— E estes?
Olhei para fora e vi a leva de lobos guarás chegando ao local,
eram mais de 100 deles, eles avançavam, vi aquela líder a frente,
entrar e me olhar, vi ela se levantar, desta vez não a medi, sabia já o
que tinha ali, e ouvimos um segundo uivo, os lobos olham como se

188
virando-se para fora, e vi Diana se erguer e me olhar, a moça recuou
e falei.
— Até parece difícil me achar assim Diana?
— Eu o matei.
— Uma informação, sabe o que sentiu, sabe o quanto doeu,
mas não fui eu que fiz esta ligação, é Amaná não querendo que
volte ao caminho anterior.
— Esta deusa deles está me enchendo.
— Quer voltar a condição anterior, é só pedir.
Diana se calou, ela não sabia o que estava acontecendo, olha
as peças e fala.
— Pensei em coisas de força, isto é só arte de humanos.
— Sim, e o que quer aqui?
— Tentando entender o que estes seres procuram, sei que
eles vieram no seu sentido, mas eles querem algo, e não sei oque
ainda.
— Cada um procura o que precisa, e melhor estar pronta para
viajar depois de amanha, pois vou a minha cidade natal.
— Vai no sentido de Tudor, mas o conhecendo ele já fugiu de
mim.
— Acho que não entendo nada deste problema de vocês, mas
se quer tentar, em dois dias.
— E se o matar?
— Quem sabe consiga me provar que é mais burra do que as
lendas falam, que tem coisa que não se deixa arrastar por uma vida,
e sim, se resolve.
— Acha que o Eterno voltaria atrás?
— Quer tentar?
— Mas eu morreria.
— O que veio fazer aqui Diana?
— Sei que algo voltou o tempo, o meu interno, e quero en-
tender, pois voltei a forma que tinha, uns 600 anos atrás, mas lá me
custou muitos aliados, agora não sei o que foi, você parece não ter
feito nada, sua aura continua de um mortal humano, mas não me
culpe de querer saber como posso viver nesta forma por mais uns
600 anos.

189
— Não sei ainda, e melhor segurar os seus, que já não são
tantos quanto no passado.
— Não entendi, os homens nesta terra não se tornam Morois
Mort, aqui a praga parece ser apenas minha.
— Como já falei, não entendo de pragas dos anos iniciais.
— Vou observar, sabia que não tinha morrido ainda, mas não
quero viver presa a um humano pela eternidade.
— Humanos não vivem uma eternidade.
— Mas minha trégua é com você, não com estes filhos do
tempo ai, eles não me obedecem e não me respeitam.
— Tem de ver que quem invadiu a terra deles foi você, o res-
peito deveria ser da turista, não dos donos da terra.
— O planeta me pertence, o planeta da minha praga.
— Talvez esteja ai o problema, o que você entendeu de sua
praga, e qual a delimitação de sua praga.
Aquela moça as minhas costas cheirava a medo, e isto não fa-
cilitava, eles tinham medo de Diana, isto os tornava frágil, não en-
tendi o caminho este momento, e estava apenas enrolando, não
tinha como me posicionar antes de saber o que realmente estava
acontecendo.
— Vai os defender?
— Eu e eles colhemos as intempéries Diana, eu e eles somos
pelo caminho que nos ditam, não por um que inventamos no passa-
do e que não nos permite andar a frente, pois esbarra na nossa
vontade.
— Mas vai os defender?
— Eu sei o valor da dor Diana, sabe o valor da dor, terei de a
alertar que vai doer, para valer, como mais cedo, quando me esfa-
queou?
— Como sabe que senti uma dor imensa? – Diana.
— Como não tenho como responder, mas tira os seus daqui,
está chamando atenção demais, está atrapalhando, está se dispon-
do como inimiga da terra, nas terras de Amaná, eu não posso com
você, mas conheço uma filha da terra que tentaria lhe por para cor-
rer, que tal não sofrermos dores excessivas enquanto podemos as
evitar?
— Não acredito que exista algo que possa comigo.
190
Eu senti aquele ser me tocar o braço, eu não o via, os demais
não desviaram o olhar para ele, então não deveria o olhar, mas vi
que Diana recuou, não sei, olhei minha mão, a aura foi para um
Branco, intenso, uma uniformidade perfeita, um branco tão branco
que Diana que me olhava através de sua visão de cão, desvia o
olhar.
— O que você é?
— Tem de entender Diana, não sou inimigo, mas ainda não
sei a resposta, dou a sua definição de quem sou aos demais, mas
não quer dizer, que eu concorde ou aceite ela.
Vi aquela senhora voltar a forma de um lobo, ela uiva para
trás, muitos uivos se ouviram e vi ela sair andando de costas, não
padrão a cães, até chegar a porta, se virar e correr no sentido da
rua, pulando a grade frontal com tamanha naturalidade, e eu era
quem não sabia o que estava fazendo, mas os demais pareciam não
saber disto, olhei para o meu braço, sinto a mão solta-lo e olho mi-
nha aura voltar ao que era.
— Depois vai ter de me explicar isto! – Jessica.
— Tento explicar, tento, juro.
Olhei a moça que estava as minhas costas e perguntei.
— Com quem falo?
— Yany, líder desta matilha.
— No que posso ajudar?
— Não sei quem você é, mas aquele ser do mal parece o res-
peitar um pouco, embora já o tenha tentado matar.
— Eu sou João, apenas alguém tentando ajudar.
— E o que são estas peças, pensamos não ter mais nenhuma
das 5 estatuas, agora nos mostra 4 delas.
Pensei, lembrei da águia na praça Santos Andrade, onde a
mesma foi disposta, e tentei lembrar o que tinha no sentido que ela
olhava, pensei inicialmente que ela olhava para o antigo passeio
Publico, que é oque teria após duas quadras atuais, de prédios e
estacionamentos, mas poderia ter pensado errado, sorri, pois era
isto que estava errado.
— O que acha que entendeu. – Jessica.
— Quando visualizei a quinta estatua em Curitiba, a da águia,
pensei que ela olhava no sentido do Passeio Publico, pensei isto pois
191
ele tem um portal do Cemitério de Cães, em uma de suas entradas,
mas não, ela está olhando a estatua ao lado de Julia Wanderley, é
isto, a iniciação, a junção de 5 espécies, os Cães, representados pe-
los Lobos, denominados de Guarás, os Felinos, representados pelas
Panteras, os Leoninos representados pelos Manás, e a quarta repre-
sentação é uma Moroaica, na forma de águia, a forma que Diana
não consegue mais tomar, desde que deixou de ser uma Moroaica,
mas que toda Moroaica consegue representar, diante de um quinto
elemento, apontei para a forma de indígena, representado por um
indígena da região, Guairacá, o guerreiro, sentado esperando,
olhando o infinito.
— Mas e esta senhora que saiu? – Pergunta a moça.
— Ela um dia teve o poder das Moroaicas, mas acredito que
ela seja um elemento a parte da historia, ou não entendi a historia
direito.
Jessica que estava ao meu lado, olha as estatuas e fala;
— Quatro fêmeas, mesmo a águia, uma fêmea, e um macho
humano, parece uma iniciação o quadro.
— Iniciação? – Perguntei, sabia que Jessica não falava tudo
que sabia, mas tinha muita informação que ela não compreendia,
ter a ciência do Eterno, é ter as respostas, mas sem a pergunta cer-
ta, ela não tem a resposta, ela fechou a cara, algo não parecia a
agradar.
— Temos de conversar, mas se for uma iniciação, precisaría-
mos das 5 estatuas, primeiro problema, segundo, teríamos de des-
cobrir quem é o humano que estaria nesta encrenca, pois teríamos
de ter um que fosse aceito pelas 4 linhas como um líder, e este seria
o representante humano da iniciação.
— Agora entendi o que pensou, porque não gostou da ideia,
mas isto é apenas uma das possibilidades.
— Sim, e teria de ser realizada em um chão de cães, como vo-
cê falou, aquela era a região da entrada para o cemitério dos
Laikans, das almas fortes, guardado pelos felinos, o caminho que
dava direito a uma incursão no passado, um novo caminho ditado.
— E como faríamos isto? – Perguntei pois ignorava como fa-
zer isto – E o que exatamente estamos destinados a fazer, pois não

192
me adianta chegar a um lugar, montar um circo, se não sei oque
teremos de fazer?
— Estamos aprendendo, e não esquece, tem gente demais
ouvindo, mas pelo que entendi, voltar a unir as forças naturais da
região, para que Amaná os proteja.
— Não tinha algo mais simples para mim? – Sorri e Jessica
sorriu.
— Teria, pode voltar a qualquer momento a ser quem era Jo-
ão, sabe disto, esta e a diferença da Deusa local, ela não obriga nin-
guém a seu caminho, ela o chama, mas não acredita em amor por
obrigação ou medo, é uma diferença crucial do cristianismo, ela não
vai fazer uma seleção, ela apenas lhe aceita em seu caminho, e nele
lhe protege, mas não obriga ninguém a o seguir.
— E porque eles perderam o caminho? – Perguntei, Jessica
olha a moça que fala.
— Estávamos em um caminho, os homens de nossa região re-
solveram pela guerra, as mulheres, por sofrer na carne, a represen-
tação não é de Guairacá, é de um indígena em conversa com a
grande deusa. Temos a separação de dois grupos, os felinos e os
lobos, a guerra, os Manás se isolam e tocam suas vidas em segredo,
eles são bons em se omitir, em se esconder, nós nunca nos escon-
demos, as guerreiras Guarás e Onças não foram a guerra, os seus
machos foram, a derrota, o implorar de Guairacá as forças da terra,
tem ouvidos apenas em Yolokantamulu, a primeira vitória, a segun-
da vitória, e o coração dos guerreiros foi sendo tomado pelo medo,
pelo lado negativo de Yolokantamulu, que nunca se preocupou em
os ajudar, apenas estava levando os nossos a uma miscigenação,
mas nos deixou fracos, meia força não nos deu um rumo para avan-
çar.
— Porque não se uniram aos guerreiros? – Jessica tentando
entender o que tinha acontecido.
— Os ventos sopravam o novo cheiro, vindos do oeste e do
leste, depois o cheiro veio do norte e por ultimo do sul, não éramos
mais os dominantes, o cheiro do ar, nos dizia, já estamos mistura-
dos, resistir é morte.
— Mas porque deste ritual?

193
— Este é o ritual da fertilidade, existiam 4 rituais mágicos, to-
dos eles dispondo de 5 representações como estas, mas não em
metal como estas, e sim com argila, vocês chamam de outra forma.
— Cerâmica? – Jessica.
— Sim, eram estatuas em argila, queimadas e pintadas, cada
qual na cor dos seres que representam, sobre a cabeça de cada ser
existia uma pequena tampa, que omitia ser oco o ser, onde cada um
dos seus colocava a essência referente ao período do ano.
— Mas o que se ganhava com isto? – Jessica.
— O direito a andar e correr pelo campo, como seres do
campo, nunca tivemos a representação da águia, mas a deixávamos
ali, não sabíamos quem ela seria, muitos lideres nossos acharam no
inicio que os brancos poderiam ser a representação que faltava da
águia, mas não sabíamos, já que cada um dos grupos, chegou ao
grupo em uma época.
— Quer dizer que vocês tem o poder de se tornar um lobo
porque fez parte deste ritual algum dia? – Perguntei, pois ela falava
que não se fazia isto a muito tempo, precisava falar.
— Sim, mas a mais de 132 anos que não existem mais novos
lobos, o que nos força a ver filhos morrendo, isto não é nada bom.
Me calei, a moça acabara de dizer que era alguém como Dia-
na, mas era assim pois passou por um ritual de iniciação, não era
como os Morois, que nasciam Morois independente de uma inicia-
ção.
— Acha que saberia fazer um novo ritual? – Jessica.
— Memorias temos, mas disse que teria uma pessoa repre-
sentando a águia.
— Sim, mas terei de falar com a pessoa antes de qualquer
coisa, e ela terá de falar com o avô dela antes de participar.
— Quantos ciclos tem este senhor que merece tamanha de-
voção da moça.
— Mais de dois mil ciclos.
— Ele é muito velho? – A pergunta foi quase instintiva.
— Não, ele aparenta mais jovem que eu moça.
Os lobos se olharam e ouvi.
— Então teríamos a quinta parte, a que nos uniria definitiva-
mente com Amaná.
194
— Não entendo destas lendas moça.
— Explicamos depois, existe um cheiro forte de humanos
chegando em todos os sentidos.
Olhei o delegado que olha os rapazes e estes começam a por
panos sobre as estatuas, e olhei para a moça voltar a forma de um
lobo Guará e sair pela porta, ela não pulou a grade, ela distorceu a
cabeça, passou pela fresta e passou o corpo como se fosse quase
liquido naquele sentido, tão ágil e rápido, que a observação deixou
furos em minha visualização.
Olhe o delegado e falei;
— Acho que se me algemar fica mais fácil sair daqui sem per-
guntas extras.
O delegado olha o investigador e fala;
— Vamos a sala principal, e algemem ele.
A algema a frente do corpo fazia parecer que haviam me
prendido, as janelas foram sendo fechadas e vimos 3 carros da poli-
cia militar cercar a casa.
Lá vinha o senhor Mauricio e o procurador de justiça, e uma
leva de policiais.
Olhei em volta, sempre tinha a sensação de que vinham mais
pessoas para aquele ponto, olho dois carros da policia federal, e um
carro da policia do exercito, a rua parou devido a tantos carros.
Os senhores se olham, eu observava tudo pela janela, o dele-
gado ao meu lado.
— Quem vem ai?
— Uma determinação para tirarem os documentos do cofre e
protegerem em um local mais adequado.
— E os demais?
— Teremos de ver, não entendi ainda.
Na sala principal, o senhor Mauricio entra e me vê algemado,
uma coisa a nosso favor, o procurador ao lado, olha descrente e
pergunta.
— O que tanto se demora aqui delegado.
— O mesmo que o traz aqui de madrugada, entender o que
estes dois estão fazendo, um atira para um lado, o outro atira para
o mesmo lado, o que eles querem conosco, com nossa cidade? – O
delegado olhando o procurador Roberto.
195
— Saiu a pouco uma determinação de mudança do endereço
das peças no cofre.
— Quer ser preso procurador Roberto, pois não vai tentar me
convencer que um juiz, assinou isto depois das 18 horas por bem?
— Como você disse, quando entender o acontecido, mas ain-
da não entendeu Francisco, é gente grande. – Fala o procurador de
justiça entregando a intimação para o delegado Francisco.
O delegado olha a peça e fala.
— Temos um problema neste documento Roberto, e sabe
qual é.
— Sei?
— Sim, se eu o entregar um saco de lixo com um papel e um
peso dentro, tem de aceitar.
— Mas...
— É o que diz aqui, irracionalmente proibindo de olhar o con-
teúdo, apenas o transferir sem contestar a ordem.
— Se está lá dentro, e querem transferir sem olharmos, nos
livramos do problema.
— Não, apenas ficamos com o problema, com as mortes, e
eles levam embora o que nos poderia decifrar o problema.
— Sabe que tem de cumprir a ordem?
— Não, quem tem de cumprir é o senhor ali atrás, ele que é o
representante legal do local, ele que vai assinar a saída, eu nem
quero olhar o plástico, para não me acusarem de nada. – Delegado
Francisco.
— E vai prender este dai, já pode nos adiantar por quê?
— Porque eu quero, já que vocês não estão ajudando, vou ter
de seguir a investigação sem a ajuda de falou estar disposto a dar
Roberto.
— Cumpro ordens.
— E este Mauricio, cuidado, tem gente maior que eu de olho
nele, boa sorte Roberto, pois se algo acontecer a ele, você que esta-
va ao lado que terá de justificar.
Um senhor do exercito aparece a porta e fala;
— Senhor Mauricio Appel, temos ordens de Brasília para lhe
dar segurança para chegar á Curitiba.
Mauricio sorriu, ele achava que estava por cima, e falou;
196
— Assim que pegar o que vim pegar aqui, sairemos.
O diretor da fundação foi a peça do cofre, abriu o mesmo, pe-
gou o saco, sem olhar, o senhor colocou em uma pasta, ninguém
olhou o que tinha lá, todos viram os mesmos saindo com escolta
federal, exercito e policia militar, muita gente para um plástico que
não deveria ter tanta coisa assim.
O diretor da Fundação me olhou e perguntou;
— Eles sabem o que tem lá?
— Desconfio que não, mas como ninguém aqui olhou o con-
teúdo, o senhor olhou o cofre e verificou que somente o plástico
estava guardado ali, não podemos ser acusados de sumir com o que
não fomos permitidos olhar o que era.
— Acha que voltam?
— Senhor, a pergunta que preciso fazer, nos autoriza fotogra-
far as quatro peças a nível 3D, para criação de replicas em cerâmi-
ca?
— Vão tentar fazer algo lá, mas não entendi porque eles que-
rem o que está naquele saco.
— Foi achado junto com um quadro, que não sei qual a repre-
sentação, mas devem imaginar que reflita algo sobre o que eles já
tem em mãos, para dar autenticidade ao quadro.
— Não entendi. – Delegado.
Olhei o delegado, Jessica, os rapazes e falei;
— A peça, sem nada ligando ela a nada, é uma peça em bron-
ze, de não mais de 2 mil reais, se ligarmos ela a algo histórico, pode
ser uma peça que valha no mínimo mil vezes mais.
— E acha que aquilo tem alguma ligação com a peça?
— Tem com o tempo, não com a peça em si, dependendo
quem assina o documento, eles comprovam ser do fim do século 19
e assim ligam ela aos Paranistas e conseguem uns 3 milhões pela
mesma peça. – Falei chutando dados.
— E não lhe preocupa isto? – Delegado.
— Acha senhor que o que vimos nesta sala se explica com
aqueles papeis? – Olhei em volta, ainda estava algemado, o delega-
do abriu a algema – Ou seria tido como lenda local e apenas jogado
em uma gaveta?

197
— Lendas, pois mesmo vendo fica difícil de narrar. – Diretor
da Fundação.
Terminamos de documentar, um sistema de câmeras fotogra-
fou para reprodução em 3D as 4 peças e saímos dali, já passado da
uma da manha, paramos na única lanchonete aberta e pedi algo
para comer.
Jessica me olha e fala;
— E quando vamos conversar?
— Deixa só jogar algo no estomago e vamos conversar.
— Sabe que me deu medo o que acho que entendi.
— Imagino, saber não sei.
— E você não se negaria a isto.
— Uma pergunta, você se negaria a fazer algo que o Eterno
lhe determinou a fazer?
— Por favor... – ela me olha aos olhos - ... não me peça isso?
Não quero lhe perder, não por algo assim.
— Não disse que vai acontecer, mas obvio que nada do que
vimos aqui é como aconteceu, e nada parece suficiente para que as
paredes daquele lugar se mantenham muito tempo, algo está segu-
rando aquelas paredes, podemos ter um desmoronamento a qual-
quer hora, e se não desmoronou ainda, é porque algo precisa ser
descoberto.
— E vamos para Curitiba quando?
— Espero que amanhã, mas estou estudando a possibilidade
de depois de amanha.
— Acha que pode ser uma linha de pessoas especiais?
— Pelo que entendi, cada filho de qualquer dos grupos, era
apresentado ao grupo geral, e passava pela iniciação, mas o que
mudaria na iniciação se tivessem o quinto elemento?
— Acha que sabe a resposta. – Jessica olhando para mim.
— As Moroaicas vivem a eternidade, sem envelhecer, já os
Morois morrem normalmente, acho que daria aos Morois a condi-
ção de passar com suas companheiras mais tempo, e aos demais, a
iniciação a Eternidade.
— E porque não seria você o ser ali parado?
— Mesmo que fosse, não tem a conotação que você pensou
Keka, é uma iniciação para os demais, não para mim, é a busca deles
198
da raiz, não de proliferação, eles seriam apresentados a mãe maior,
e ela nos diria o caminho.
— E se ela lhe mandar me trair?
— Acha mesmo Keka, que sexo tem haver com estar juntos,
que ser companheiro de alguém, tem haver com sexo, é como as
pessoas pensam por ai, dai qualquer um que sente-se desconfortá-
vel a nível sexo, sai da relação.
— Não disse isto, mas sabe que tenho ciúmes.
— Seu ciúmes sempre me põem com um pé atrás se realmen-
te sente, ouço muitos falarem que ciúmes faz parte do amor, eu
acho que carência faz parte do amor, mas ciúmes, não, ele é insegu-
rança, e me sinto culpado por seu ciúmes, pois acho que não confia
em mim suficiente.
— Tem de ver que você se mete com pessoas lindas.
— Acho que no fundo, ainda não lhe conquistei suficiente a
ponto de confiar em mim, sei que tem seus motivos, mas não é por
isto que vou lhe trair por ai, na verdade, não considero nada que
vivi antes do dia que nos acertamos, como traição.
— Mas não fala sobre isto.
— Sim, não falo sobre isto, pois isto é referente a outro rela-
cionamento que está no passado, não vou focar no que não deu
certo, e sim no que sinto por você.
— Mas foi inevitável lembrar que tem outras duas lhe espe-
rando em Curitiba, uma Moroi e uma Guairacá, e quer que não ligue
as historias.
Me aproximei dela e olhei aqueles olhos carentes, cheios de
malicia, e falei.
— Sabe que prefiro quando fala o que está sentido, não estou
falando isto para que não fale, e sim que tenha liberdade de dizer o
que sente, mas não espere que vou deixar de ser eu por causa disto.
— Mas olha, você transformou aquela senhora de sei lá quan-
tos anos, em uma moça de uns 25, você encara elas de frente, o que
gera nelas admiração, isto me gera ciúmes.
Pedi a conta e voltamos ao hotel, pedimos um quarto e subi-
mos, tomei um banho, olhando a cicatriz no peito, Jessica ficou me
olhando ao banho, fico ainda sem jeito com este olhar matreiro
dela, talvez ela tenha me conquistado com este olhar.
199
Aquela noite foi muito encantadora, gostosa, definitiva, algo
foi selado entre nós e dormimos abraçados naquela cama.

200
201
J.J.Gremmelmaier

Ponta Grossa

202
Acordo e vejo aquela moça aos meus braços, linda, nua, aca-
ricio seus cabelos e ela abre seus imensos olhos e me encara.
— Temos de conversar mais como ontem a noite! – Jessica
com um sorriso malicioso.
— Espero conversar com você toda noite, até ficar bem velhi-
nho.
— Ou eu ficar bem chata.
— Acho que esqueceu que o chato aqui sou eu.
A abracei e fiquei a pensar no que tínhamos de fazer.
— Pensando em qual delas?
— Na entrada que não verificamos, o caminho que ficou lá na
praça sem ninguém entrar.
— Tem um caminho a mais lá.
— Sim, mas acredito que olhando direito, na sala onde tira-
mos as peças, tinha mais duas saídas, não sei se quem a usava sabia
delas, mas sempre tem de se supor que alguém fez, e passou a al-
guém o que fez.
— As vezes perde-se a historia por não se ter a chance de
passar a frente, nos não tínhamos passado a frente ainda referente
as peças, e já tínhamos sido atacados. – Jessica fala me olhando.
— Sim, mas toma um banho, vou pensar um pouco e ver se
conseguimos acesso ao local, sei que o Diretor da Fundação Cultural
deve estar lá olhando sem saber o que fazer.
— Existe lá mais do que conseguimos ver no dia, muito se
perdeu ali.
— Sim, existem obras que estão todas negras, ou grudadas
umas nas outras, ou simplesmente apodreceram ao chão, quadros
que nunca virão ao conhecimento dos demais.
Eu a vejo ir ao banho e começo anotar algumas coisas, olho
umas fotos tiradas na praça e olho para o mapa da região, um Print
Screen na tela e começo anotar dados.
Dados que iria aperfeiçoar, as vezes o que nos falta é encarar
as coisas por uma perspectiva plana, o que todos aqueles objetos
estavam fazendo ali.
Eu achava que tinha um motivo, começava a duvidar dos
meus primeiros pensamentos, comecei pensando que queriam es-
conder a existência de uma identificação forte regional no sul do
203
país, agora olhando as peças, lembrando das palavras do dia anteri-
or, trocadas com aquela moça que parecia qualquer coisa, menos
um ser normal, poderiam querer esconder ou proibir que voltassem
a fazer o ritual, alguém levantou o ritual e algo aconteceu, algo que
eu ainda não tinha ciência.
Jessica veio do banho e eu fui a ele, banho rápido e descemos
para tomar o café da manha.
Estávamos tomando café quando uma leva de policiais arma-
dos entram no hotel.
Um dos senhores me aponta e veio um policial me apontando
uma arma calibre doze e fala.
— Levanta com calma.
Sorri, pois era muita valentia do senhor a minha frente, me
levantei já levantando as mãos.
Um dos rapazes me revista e fala;
— Limpo.
— Algema ele e vamos a delegacia.
Eu não olhei para Jessica, pois não queria que eles a reparas-
sem, fui conduzido a um camburão e saímos dali.
Chego a delegacia da Policia Militar, para poucos vou explicar,
policia militar não tem cadeia, pois não é parte da corporação deles
mantar presos, esta parte é da civil ou da federal, mas não da mili-
tar.
Sentam-me em uma sala e fico lá esperando;
Não sei quanto tempo passou, mas um senhor parou a minha
frente e perguntou;
— João Jorge Gomes?
Sacudi afirmativamente a cabeça;
— Sabe do que estão lhe acusando?
— Não existe acusação, senão não estaria numa delegacia da
policia militar, e sim numa da civil.
Senti alguém bater com algo a minhas costas, doeu, mas não
me virei, sabia que teria de decifrar quem pressionava para saber
para onde não deveria olhar.
— Acha-se engraçado? – O senhor a minha frente.
— Não, palhaço sim, engraçado não. – Estava provocando e
olhei nos olhos do senhor.
204
— Sabe a encrenca que se meteu?
— Sei, o senhor sabe a encrenca que me meti ou está só fa-
zendo o trabalho sujo? Pois todos os que souberam, alguém já
mandou matar, bem normal.
— Não sabe mesmo?
Me calei, eu disse sim e ele perguntou a mesma coisa, um idi-
ota querendo motivos para me bater.
— Sabe que vai falar tudo que queremos saber.
— E o que quer saber?
— Onde estão as peças que estavam no cofre da Fundação
Cultural, eles tiraram de lá um plástico, mas não tinha nada de va-
lor.
— Aquele plástico foi o que já tinham jogado fora senhor, sa-
be disto mais que eu, um catador o achou, acha mesmo que eles
não haviam tirado tudo que tinha de valor antes?
— Mas sabe onde está?
— Está em Curitiba, onde ao certo não sei, mas se eles não
conseguirem provar a idade, vão perder uns dois milhões de reais
na venda, se conseguirem, estou morto, mas fiz minha parte.
Ouvi alguém gritar na peça ao lado, e vi o delegado Francisco
entrar pela porta e olhar serio o senhor a minha frente.
— Acha que está fazendo oque Coronel Ribeiro?
O senhor olha assustado para o Delegado e fala;
— Prendemos em flagrante este meliante, roubo de peças da
Fundação Cultural.
— Peças? – Pergunta o Delegado, eu não estava querendo me
meter nisto, mas quase ri, e ouvi.
— Ele tinha um saco negro com ele e estávamos o interro-
gando, e o conduziríamos a você Delegado.
— Saco, posso ver?
— Depois os rapazes mostram para o senhor.
— E...?
— Sabe como eu Francisco, eles querem que este lixo saia da
cidade, vai o defender?
— Não, mas me explique, quer ele preso ou que saia da cida-
de, pois não entendi, saco preto não é algo que a policia militar
prenda alguém, ou quem o quer fora daqui Coronel?
205
— Estou defendendo a família local, pode vir com esta moral
de botequim Francisco, mas este ser vem afrontar a família local,
você indiciou o prefeito, homem de bem por causa deste ser, tem
gente dizendo que ele roubou algo de valor, e vai o defender?
— Não falou nada com nada Coronel, quer um tempo para
pensar o que está fazendo, pois mandaram o por para fora da cida-
de, chego lá e fico sabendo que está preso na policia militar.
— E porque vão por ele para fora?
— Eles não querem que ele ache algo, se pensa que ele já
achou, não entendeu, eles proibiram ele de ir lá, para ele não achar,
estamos falando de corpos, mortos, enterrados abaixo da praça,
mais de 10 mortes.
— Ele os matou?
— Não, mas alguém não quer que descubramos quem, e dai
você se coloca como um dos feitores, estranho isto Coronel.
— Eu não matei ninguém.
— Sei disto Coronel, mas não cai na armação deste pessoal,
sobra para nós, e eles se safam, evita virar problema pessoal, já que
os inimigos deste dai, são mais lisos que tudo.
— Acha que ele vai dar parte?
— Acho que ele não está preocupado com isto, e algo me diz
que ele já se encheu desta conversa.
— Mas quem quer ele fora daqui?
— J.J.Moreira me ligou pessoalmente hoje e disse para o tirar
da cidade, que não queria ele aqui.
— Moreira em pessoa, quem é este traste?
— Um qualquer, como Moreira falou, as vezes as pessoas es-
tão no lugar errado na hora errada.
— E Moreira pediu para o deixar onde?
— Na estrada, que dai não nos preocupássemos.
O senhor sorriu, entendi o pensamento dele, pensou em mi-
nha morte, mas olhei para os dois e falei.
— Pelo jeito vai continuar lá embaixo tudo aquilo.
Os dois se olham e o Coronel Ribeiro me olha.
— Tudo oque?
— As peças desviadas da Igreja do Rosário em 1945.
O Coronel me olha e fala serio.
206
— Isto que queria lá em baixo?
— Não cheguei a olhar tudo, não me deixaram olhar, o Dele-
gado sabe que apenas estava tentando derrubar a proibição, mas se
o problema é com Moreira, pelo jeito desta vez ou saio ou me en-
terram.
— E não vai contestar?
— Delegado, quando precisarem, quando não tiver mais co-
mo esconder, me chamem que apareço.
— Acha mesmo que Moreira lhe deixa vivo, não o conhece
mesmo. – Coronel.
— Senhor, se fosse para ter morrido, já teria morrido, mas
como falei, tem coisa escondida ali, provavelmente parte dos la-
drões, parte dos assassinos, parte das obras, se não me engano,
duas estatuas, uma de nossa senhora e uma de Jesus, ambas com
vestes com fios de ouro, esculturas que por si, suas historias já lhe
dão valor, mas outros virão.
— E não vai falar onde está? – Delegado.
— O que sei já falei, o resto teria de olhar, mas não tive tem-
po, quanta confusão só porque vi umas ossadas, mas e dai Coronel,
vai me soltar ou me prender?
O Delegado olha para o policial a porta e fala;
— Tira este traste daqui um pouco, que preciso falar com o
Coronel sem ele ouvir.
O policial me leva ao corredor, um desconhecido para os de-
mais, então nem tinham o que reparar em mim, fiquei ali uns minu-
tos sentado, olhando o movimento, calmo até demais, quando o
Coronel manda o mesmo policial me levar para dentro novamente;
— Senta ele ai e sai um pouco Cabo.
O rapaz me forçou na cadeira e vi o Coronel falar;
— Tem de ver se quer ajuda senhor, o Delegado aqui até se
propôs em lhe deixar a cidade, se nos ajudar.
“Ajudar?” – Pensei, pois acho que eles estavam pensando em
roubar mesmo as peças.
Os olhei como se esperasse eles falarem, não sabia o plano, e
não tinha como andar a frente sem dar um passo atrás neste mo-
mento.
O Coronel da Policia Militar me olha e fala abertamente;
207
— Pelo que entendi, você sabe o caminho de onde as coisas
estão, poderia nos ajudar a recuperar os artefatos e com isto, ga-
rantimos sua chegada vivo em Curitiba.
Uma proposta tentadora, mas falha, eu não me considerava
ameaçado de morte, mas no jogo, jogue, não deixe os jogadores
dando cartas e fique apenas olhando, pois isto não funciona.
— E como posso ajudar? Nem posso chegar perto da entrada
na praça, pois todo caminho não percorrido começa naquele ponto.
— Temos como abrir uma exceção, e você conduz um de nós
por aquele caminho, dai vemos se tem algo e lhe libertamos.
Eu ouvi o “Se”, mas fiz-me de desentendido, e perguntei.
— Então quando quiserem, pois pelo jeito não tenho outra
saída.
— Realmente não tem.
— Poderia dar uma ligação.
— Não bancando o espertinho.
— Apenas despreocupar alguns para evitar mais problemas.
O Delegado concordou, me deram meus documentos, e meu
celular, liguei para Jessica e pedi para ela voltar para Curitiba, teria
de resolver algo ainda na cidade, e não sabia quando estaria lá.
Jessica evidentemente não gostou, mas precisava avisar que
estava bem, temia por ela, mesmo sabendo que ela sabia se defen-
der, temia a perder.
Os dois pareciam esperar alguém, e provavelmente saberia
assim que chegasse quem estaria ali.
Em uma sequencia de horas sentado, parecia que o mundo
esta estático, o tempo não passava, nunca gostei de esperar, mas
neste momento estava sendo muito chato.
Um cabo entrou na peça e falou;
— Podemos ir Coronel.
— Vamos!
Saímos no sentido da praça, não sabia o que estava aconte-
cendo, vi dois senhores que não conhecia na entrada do local e um
olhou para o Delegado.
— O que pretende com isto Delegado.

208
— Senhor, se existe um túnel de terra por baixo da cidade,
podemos ter desmoronamentos, e isto não seria legal em certos
lugares.
— Certo, vão registrar como? – O senhor que parecia um se-
nhor normal, tênis, calça jeans, camisa polo.
— Estamos com um sinalizador, e este vai ser monitorado via
GPS e vai traçar onde estão os tuneis, deixando de ser pontos sem
sabermos onde estão. – Delegado.
Olhei ao fundo e dois investigadores estavam parados em
uma viatura alta da policia civil, eles monitorariam tudo ali, esper-
tos, o que eu queria, não era o que eles queriam, isto que me cha-
ma a atenção.
Entramos no encanamento ao lado da estatua de Tiradentes,
descemos e vi que haviam fechado a entrada para o Tiradentes,
tiramos uma armação de madeira e nos abaixamos para ter acesso a
peça abaixo de Tiradentes, olho o local, estava eu, o Delegado, o
Coronel, um investigador da Civil, pego o canivete no bolso e passo
a parede, como se não soubesse nada, demarquei a parede onde
deveria ter algo a ser retirado, fiz força em uma das pontas, e uma
placa metálica se solta e olho para o Investigador e pergunto.
— Me ajudaria um pouco aqui?
Ele olha o coronel e depois o Delegado e pergunta baixo;
— Sabe onde vai dar isto?
Sacudi a cabeça negativamente, o rapaz parecia não querer
abrir aquilo, mas não estava ali por peças, e sim por um conheci-
mento que poderia me ajudar.
A peça tinha aproximadamente 90cm/90cm e assim que saiu,
mostra um túnel apertado ao sul da peça, o Coronel olha para o
Delegado e pergunta;
— Sabem o que tem ai?
— Não, fomos ao Norte, mas na peça ao norte, não consegui-
ríamos entrar por aqui, algo desabou no caminho.
— Por isto do afundamento de parte da praça em um trecho?
— Sim, pois as paredes eram de terra, quando começou des-
ceu tudo.
— Tinha mais coisa lá?

209
— Não sabemos, teremos de entrar pela manilha que está in-
terditada para descobrir.
— Acha que tem mais coisa lá? – O coronel me olhando.
— A Igreja é naquele sentido senhor, mas nem terminamos
de esvaziar lá. – Falei olhando o senhor.
— E acha que vai conseguir nos roubar.
— Coronel, se eu quisesse os roubar, teria vindo sem teste-
munha alguma, e teria roubado e ninguém nem saberia, pois nem
tem ideia do que já achamos nestes buracos. – Olhei o senhor, e
entrei naquele buraco a parede, arrastava a lanterna no chão, enga-
tinhando naquele buraco.
Saio em um outro buraco, e olho o rapaz atrás e falo.
— Vê se eles conseguem exatificar onde ficam os 4 extremos
do buraco, para sabermos o que temos aqui.
— Uma peça vazia. – Investigador.
Sorri para ele e balancei negativamente a cabeça, ele olha em
volta, tentando achar o que havia achado, mas não pareceu achar,
olho para ele e falo.
— Tem duas saídas a mais daqui, mas vamos com calma.
Os outros dois chegam e passo no fundo a minha esquerda,
bem na junção das duas paredes, e olho aquele canto, passo o cani-
vete e vejo que é metal, invertido, deveria ter quase a altura da
peça que tinha perto de dois e quarenta de altura, mas parecia que
a peça era inteiriça e avançava um metro em cada parede, ela era
quase rente ao chão, os dois entram na peça e já afastava a grande
peça, eu e o investigador fizemos muita força, para ela começar a se
mexer, o cheiro de podre veio junto, forçamos e a peça ficou de pé
naquele buraco, não sabia como ela entrou ali, não parecia ter um
lugar para ela ter vindo, teria de ter vindo pelo buraco, a peça ficou
de pé e a iluminei, eram somas de rostos, reconheci apenas dois,
Poty e Turin, abaixo a lanterna, e olho em volta, tinha um pinheiro
em cada ponto, e uma soma de rostos saltados, que iam em dois
sentidos, a peça era uma dobra, de 90 graus, de rostos, pinhão ao
chão, pinheiros a ponta, e acho a assinatura, Erbo Stenzel, estra-
nhei, estávamos diante de alguém mais novo que Turin, alguém que
não tinha uma peça assim, lembrei apenas da Agua pro Morro, uma
estatua de autoria deste senhor, teria de estudar mais, sabia que a
210
praça Dezenove de Dezembro, foi um projeto dele, com a escultura
do homem e a mulher nua, destaques da praça ao lado de um mural
de Poty Lazzarotto.
O investigador me olha e pergunta;
— O que o intrigou?
— Esta peça deve ser dos idos de 1960, bem mais recente
que aqueles que vimos antes.
— Quem é Erbo Stenzel? – O investigador.
— Conhece a praça Dezenove de Dezembro em Curitiba?
— Não.
Sorri, sabia que muitos não a conheciam assim e perguntei.
— A praça do Homem Nú?
— Sim.
— Esta é a praça Dezenove de Dezembro. Stenzel é o ideali-
zador das estatuas nuas a praça, ali no passado tinha um colégio, o
Deutsche Shüle, mas as escolas de alemão foram proibidas durante
a segunda guerra, e esta escola virou uma praça, e o menino que
tinha estudado nela, idealiza as estatuas para a praça.
— E o que ligaria ele as demais peças?
— Ele estudou tendo como mestres, Zaco Paraná, João Turin,
Lange de Morretes.
— Mas não esperava uma escultura dele aqui.
— Ele não tem nada assim registrado como de sua autoria,
seria uma peça fora do padrão que conhecemos de Stenzel.
— A aventura fica mais incrível pelo jeito.
— O cheiro que vem ai de dentro me remete a esgoto. – Falei
e o rapaz olha e fala.
— Sim, podemos ter perdido tudo que estava nesta parte,
pois se tivermos algo como no outro ao chão, teria apodrecido.
Sacudi a cabeça e o Coronel perguntou;
— Onde vai dar isto?
— Pelo jeito numa fossa. – Falei arrogante mesmo.
Iluminei o buraco e vi que ia descendo, e depois de um tem-
po, começava a encher de agua.
— Aqui não vamos conseguir avançar.
O Delegado olha e fala.
— Inundado e fedido.
211
— Inundado de merda, para ser mais exato. – Falei olhando o
senhor.
— E agora.
— Vamos ao segundo buraco.
O investigador me olha, sorri, ele não reparara em nada e eu
já estava falando em segundo buraco, não sei o que tinha mudado
em mim, mas minha percepção para detalhes estava incrível, fui a
parede oposta a que entramos naquele lugar, e olhei a parede, bati
na parede com o fundo do canivete e todos ouviram o metal ressoar
e o investigador me olha.
— Porque desconfiou.
— Algo assim na outra peça gerou o problema de desmoro-
namento, mas aqui, ela não esta inclinada como lá, parece um mu-
ral, deve ter não mais de um metro de altura e mais de dois metros
de comprimento.
Fui passando a faca num lado, o investigador no outro e o Co-
ronel perguntou.
— E esta peça, tem valor?
— Inteira tem, mas temos de descobrir, por onde isto entrou
senhor. – Falei olhando para aquele policial militar que insistia na
arrogância.
— Certo, não temos uma saída, e talvez tenhamos de esvaziar
a merda do local ao lado, que parece largo o caminho.
— Sim, aqui também não vai dar um caminho largo.
Desprendemos o quadro e o colocamos no chão, vimos que
existira outro de costas a aquele, uma parede disfarçada dos dois
lados, não só de um, sinal que tinha outra entrada, que dava no
local onde iriamos.
O cheiro do local piorava, teríamos e empurrar a peça a pare-
de, o fizemos e a peça do outro lado, tendeu para baixo, mas não
terminou de cair, como se tivesse batido em algo, metal em metal
foi o ruído.
O investigador passou, eu passei, terminamos de ajeitar a pe-
ça no chão, existiam calços metálicos que seguraram a peça, olho o
corredor, em subida, não subia muito e voltava a descer, se a peça
do lado tinha aparentes 4 por 4 metros, este corredor tinha não

212
mais de um metro de largura, mais de dois metros de altura, a peça
que tinha na sala ao lado, conseguiria sair por ali.
Começamos caminhar e olhar em volta, nada de valor, che-
gamos depois de uns 150 metros em um túnel que acaba em uma
parede, olhei a escultura, tamanho da entrada, deveria ter ali uma
passagem, o investigador olhou as presilhas metálicas que deixavam
aquela peça no lugar, peça que tomava toda a parede, a afastamos
e nos deparamos com uma sala de mais de 10 por 10 metros, olho
para o lado e vejo que tem uma escada que sobe, e uma que desce
dali, o investigador fala olhando o GPS a mão.
— Estamos na esquina da Rua Dr. Dulcídio com a Rua Vicente
Machado.
Olho as paredes, quadros, provável que óleo sobre tela, não
reconheci as assinaturas e o Delegado chega ao local.
— Mais quadros?
O Coronel olha para o Delegado e pergunta;
— Já haviam encontrado quadros?
— Não assim, em bom estado, existiam quadros que pareci-
am ter sido abandonados para apodrecer em outro buraco.
— Estes parecem bem cuidados. – A frase do Coronel me fez
olhar o chão, com a lanterna e falo.
— Sim, aqui alguém sabe da existência.
O investigador olha os cantos e fala;
— Dispensa de alguma casa, ou um segredo de alguém.
— Sim, pois o chão está limpo, agora quero olhar o que mais
temos aqui. – Falei.
Começamos a descer as escadas, curta, não mais de 30 de-
graus, se tinha algo para cima, deveria ser a saída, então queria ver
para baixo.
Chego a uma peça, tecidos enrolados, bem isolados, a ima-
gem de Nossa Senhora do Rosário, em um altar, olho o outro lado e
tinha lá a imagem do Menino Jesus, estranho uma capela em meio a
objetos roubados, mas era o que aquilo era, quando o Coronel en-
trou na peça olhou admirado, pois acabávamos de achar a peça que
haviam roubado da Igreja do Rosário em 1945.
— E olha que duvidei que estava aqui! – Coronel.
— O que temos aqui? – O Delegado.
213
— Peças roubadas, e armazenadas delegado, parecem existir
mais de 50 autores em mais de 120 obras, todas catalogadas e iso-
ladas, esperando o tempo em sacos plásticos transparentes.
— O que pretende? – Coronel.
— Vamos tirar os quadros, vamos esvaziar isto calmamente
hoje Coronel, e quando fecharmos a saída que entramos, deixando
as estatuas da igreja lá na primeira peça, vamos ver quem se mexe,
isto não é roubar para vender rápido, é algo que não entendi.
Olhei as imagens, olho as vestes e fotografo as vestes e o de-
legado pergunta.
— O que não vimos?
Olho para ele e falo;
— Não sei, algo referente ainda aos Paranistas, mas não te-
mos nada que ligue ninguém a eles.
— Sabe que ninguém sabe como isto sumiu da Igreja até hoje.
— Se não tivesse desmoronado parte do caminho senhor, eu
tentava descobrir, quase certeza que tiraram por uma entrada que
poucos conhecem para a igreja.
— Por quê?
— O que tem na sua cidade na esquina da Rua Dr. Dulcídio
com a Rua Vicente Machado?
— Não sei.
— Também não sei, mas sei que vão descobrir, fiz minha par-
te Delegado.
— Vou pedir para o manter sobre nossa guarda, algo me diz
que sabe mais do que falou.
— Quer que continue ajudando, e está me dizendo que no
fim ainda vai me ferrar Delegado.
— Tem a chance de nos ajudar, considerarmos boa a ajuda e
o ajudar, ou não ajudar, e colher os frutos de não nos ajudar.
O Coronel sorriu, não gostei daquele sorriso, mas quem sou
eu para me recusar a enfrentar as intempéries.
O investigador saiu e depois de mais de 20 minutos voltou
com sacos grandes, onde colocamos as obras preservadas e isola-
das, começamos a tirar dali alguns sacos, colocamos as vestes em
um saco, depois as imagens, reparei nos detalhes das peças e as

214
colocamos em sacos maiores, depois de as enrolarmos em plástico
bolha.
Começamos a sair, e quando no fim do corredor, com muita
dificuldades, de quem fazia algo difícil, erguer uma peça de metal
invertida em uma peça que não estava, prendemos um canto e er-
guemos o outro, e quando ela ajeitou, saímos da peça, deixando lá
as duas que não sairiam por onde entramos.
Quando chegamos a sala abaixo da estatua do Tiradentes, o
Delegado olha um dos investigadores e fala.
— Verifica se tem alguém na praça observando, temos de de-
cidir aqui onde vamos por isto para avaliar o valor. – Delegado.
— Sabe que não entendo disto Delegado Francisco. – Fala o
Coronel que me olha.
— Ele saberia o valou?
— Ele tem estimativas, mas existem obras que provavelmen-
te ele nem sabe quem são os nomes dos autores, precisamos de
alguém que possa avaliar obra a obra.
— Acha importante isto? – Coronel.
— Senhor, uma peça rara, vale milhões, milhares de peças ba-
ratas, não valem isto.
— Certo, podemos ter uma de valor incrível enquanto temos
lixo a toda volta, e temos de descobrir o que temos.
— Sim.
O Delegado olha para um dos investigadores e fala.
— Põem a caminhonete de ré sobre a praça mesmo, quero
que poucos vejam o que saiu daqui, eles podem falar, mas não sa-
berão oque.
— Decidiu para onde? – Coronel.
— Vamos lá juntos Coronel, não é questão para principiante.
— E este ai.
— Ele sabe de algo a mais, mas onde pararmos falamos sobre
isto Coronel.
— Me esconde algo?
— Tudo, ainda não sei de que lado está Coronel.
Os rapazes foram colocando na caminhonete que encostou
de ré na área isolada, não olhava para fora, mas era obvio, estáva-

215
mos desobedecendo uma ordem judicial, mas não estava ali por
bem, mas poderiam bem jogar isto sobre mim.
— Vamos, antes que apareça oficiais de justiça por aqui. – O
Delegado, vi que o Coronel concordou, estávamos todos na ilegali-
dade naquele momento.
Vi quando demos a volta, estávamos indo para a Fundação
Cultural, eu estava sentado no banco de trás da viatura da policia
civil, e o Delegado fala para o Coronel.
— Coronel Ribeiro, o único que confio na cidade os segredos
daquele buraco, é o Secretário Guedes, da Fundação Cultural, ele
sabe o valor destas coisas, pedi para ele separar uma peça na Fun-
dação para que guardássemos estas peças, e as avaliasse.
— Vai abrir isto com ele?
— Vamos conversar Coronel, se me convencer, abro o jogo,
pois todos aqui estão escondendo algo ainda.
— Até ele? – O coronel me olhando.
— Viu como eu, que ele sabia onde estavam as paredes, não
perdemos horas procurando, fomos a locais que ele sabia existir,
mas um dos lugares está cheio de merda, amanha quero puxar para
lá um caminhão de desentupimento e começarmos a limpar aquilo,
com todo cuidado, pois estamos falando de paredes de terra, que
podem não ter resistido.
— Certo, podemos ter algo soterrado, ou bem danificado, se
fossem quadros estariam como? – Coronel.
— Vamos lá que mostro algo ao senhor.
Chegamos a Fundação, vi que o secretário nem me direcionou
a palavra, sinal que o delegado pediu segredo de alguma coisa.
Olho a peça que estavam as imagens e estava tudo vazio, será
que todos não eram de confiança?
O que me importava isto, mas entro na peça e me deparo
com Jessica, ela me olha, existiam ali dois senhores, os da praça, ela
me olha e vejo que ela estava calma, a aura ajudava para isto, ela
não sorriu, mas sua aura sorriu, eu sorri e ouvi o senhor ao lado dela
falar.
— A pegamos no Hotel senhor, ela estava querendo sair da
cidade. – Um dos senhores.

216
— E o que ela poderia fazer contra nós Padre Rogério. – Fala
o Delegado.
— Não sei o que acha que está fazendo Delegado, tem noção
da confusão, o como deu trabalho para o pessoal do ministério pu-
blico não estar lá.
— A pergunta Padre, quem daria a eles a cobertura, já que
ele teria de ter lá ou a policia militar, representada aqui pelo Ribeiro
ou eu, para fazerem uma apreensão.
— Mas vão pressionar.
O Delegado olha para o Investigador e fala;
— Traz as duas imagens.
O rapaz foi a caminhonete e colocou na peça as duas estatu-
as, e as desenrolou, o Padre não acreditou, estava mesmo lá as es-
tatuas, entendi quem eles representavam, mas vi a cara de desgosto
do mesmo.
— Tem certeza de serem estas?
— Eu que iria lhe perguntar, por acaso o problema foi um
roubo ou um apoio da igreja ao esconder de algo que representava
um movimento cultural no estado, com vestes com símbolos que
lembram pinhão, que estão sobre um tronco de araucária, que tem
em suas coroas os símbolos Paranistas. – O Delegado.
— Sabe que não nos metemos em politica Delegado.
— Hoje não, década de 40 não era assim senhor.
O investigador desembrulha o segundo e o Coronel pergunta;
— Não entendi, porque está dizendo que a igreja tem parte
disto.
— A atual não Coronel, mas as imagens, doadas a igreja eram
esculturas em madeira de Zaco Paraná, representante e fundador
de uma espécie de identificação cultural do Paraná, tem algo haver,
mas a pergunta, querem as imagens de volta ou adicionamos elas
ao acervo da Fundação Cultural? – Delegado.
— Vejo que descobriu as motivações. – Padre.
— Não, não descobri ainda, não acredito que dispenderam
tanta energia em algo totalmente inútil.
— Porque Inútil? – O Padre.
— A visão dos poucos que queriam o movimento, sempre se
deparou com o grande problema do Paraná, ser um estado em
217
eterna invasão de seres de outros estados, que não olhavam este
movimento com bons olhos. – Falei.
— E o que ele faz aqui? – O padre.
— Ele que achou as passagens senhor, para mim apenas pe-
ças sem saída, para ele, um caminho que percorreu como se sou-
besse todo caminho.
— E acha que eles saem e não falam sobre isto?
— Isto oque? – O Delegado.
— Sobre os achados lá.
— Senhor, Moreira os jurou de morte, mesmo que cumpra-
mos o que prometemos, de os deixar sair em paz, sabe que ali o
negocio é mais violento. – Delegado Francisco.
— Porque ele pediu a morte deles.
— Sei lá, mas não vou perguntar senhor. – Delegado.
A calma minha e de Jessica, não parecia combinar com as pa-
lavras morte, mas eles achavam assim qualquer coisa, menos que
estávamos os levando a serio.
O padre olha as estatuas e fala.
— E as vestes deles?
— Ainda não as achamos senhor. – Mente o Delegado.
O Coronel viu que o delegado não confiava no padre e ouve o
mesmo falar.
— Aceitamos as estatuas, vamos providenciar novas mantas e
algo que cubra a base onde estão, não queremos ter conotação
politica em uma imagem em nossa igreja.
Os dois olham para o investigador e um pergunta;
— Deixaria as duas no carro da paroquia em frente.
O rapaz concordou e o padre olha para Jessica e fala;
— Vamos deixar você aqui, não sei o que são, ele é muito ve-
lho para você menina.
— Mais velho do que pensa. – Falou ela.
Os dois saem e o Coronel perguntou;
— Estamos roubando a igreja?
— Coronel, você é de confiança? – Delegado.
— Porque não seria?
— Fez uma prisão desmedida sem me explicar porque, e pa-
rece ainda querer defender aquele prefeito idiota.
218
— Porque acha que ele é um idiota?
— Ele repassou uma peça de mais de 3 milhões, que foi o lan-
ce final a pouco pela peça, por 25 mil reais senhor. – O Delegado.
— Ele que vendeu mesmo?
— Diria que ele deu, pois desculpa, ele não conseguiu 1% do
valor da obra em dinheiro, quer ficar ao lado destes principiantes
Coronel.
— Mas estamos roubando a igreja?
— Senhor, quando anunciarem que foi achada as duas esta-
tuas, quem eles vão achar que ficou com todos aqueles quadros?
— A igreja, tirando o foco de nós, é isto? – Coronel.
— Sim, para avaliarmos direito, temos de ter calma, não po-
deremos fazer aqui, e quem o fizer, o especialista, nem vai saber
onde está, e nem de quem é a peça, mas se os ladrões acharem que
foi a igreja, fica mais fácil para nós.
— E este ai?
— Senhor, estamos pensando se você é de confiança, pois
quase nada achamos, que tinha valor, da vez anterior – o delegado
olha para o Secretario – tem um daqueles quadros?
— Sim delegado.
O secretario foi lá dentro e pegou um bem danificado e traz
isolado, mas pouco sobrou dele e o Delegado mostra para o senhor
e fala.
— As peças no outro buraco, estavam neste estado Coronel.
O coronel viu que mal se via o desenho, o material todo apo-
drecido, olha com cuidado e fala.
— Quer dizer que os quadros desta vez estavam conservados,
isto que falavam lá atrás, estes não valem quase nada.
— Historia, apenas isto, por isto estamos na fundação cultu-
ral, restos de obras que tem apenas valor histórico, não valor de
mercado.
Os dois investigadores que tinham levado as imagens para os
religiosos trazem a peça de 90 por 90 que escondia a segunda saída
daquela peça e põem no chão e um deles me olha e pergunta.
— Porque toda esta leva de túnel tem este autor com desta-
que?

219
Cheguei perto, Jessica me abraça e me abaixo e olho o autor,
Erbo Stenzel, olho a imagem e estranho, era uma caravela, mas as
madeiras eram todas talhadas, as que formavam a caravela, com
símbolos Paranistas, e o nome da caravela me chama a atenção,
teria de ver isto depois, pois estava no casco da embarcação estili-
zada naquela peça, escrito Zulmiro.
— Algo que seja importante?
— Quero parar a historia e ela se amplia.
— Por quê?
— O que uma representação em Ponta Grossa, de Erbo Sten-
zel, se referindo ao pirata Zulmiro, faz aqui? – Perguntei.
— Mais segredos? – Delegado.
— Disse que não acredito que tudo isto foi pelo esconder de
uma movimentação cultural, não faz sentido.
— E o que eles poderiam esconder?
— O verdadeiro caminho para o segredo do Capitão ou Pirata
Inglês de sobrenome Willian, que se misturou na sociedade de Curi-
tiba aos que dominavam um pouco línguas europeias, como os ale-
mães, se misturando em Clubes como o Concórdia, inglês que viveu
em Curitiba entre os anos de 1840 e 1880, dizem que ele tinha um
sitio onde hoje é um parque em Curitiba, que ele que pagou a es-
cravos para desviarem as pedras de uma construção no Largo da
Ordem, onde hoje são as ruinas de São Francisco, para a construção
da torre principal da Catedral na Tiradentes, tudo me lança na praça
Tiradentes em Curitiba, mas não sei o que procuro, e sem saber
oque procuro, não tenho como encontrar.
— E quem é este Zulmiro?
— Era como dois imediatos dele, que vieram junto a cidade o
chamavam quando bêbados, eles que espalham a historia, eles o
chamavam de Pirata Zulmiro.
— E quer saber oque uma peça destas faz aqui? – O Secreta-
rio de Cultura.
— Sim, saberia me dizer de quem são os quadros que tiramos
deste segundo buraco secretario? – Perguntei.
— Não olhei ainda.
Um dos rapazes da Civil trouxe um dos sacos e o senhor olha
a proteção e fala;
220
— Bem condicionados, mas deixa eu ver.
O senhor abriu um dos quadros e olha a imagem de um impe-
rador, não reconheci aquele imperador, e quando ele olha a assina-
tura em baixo olha para mim e fala.
— Sabe o que é isto?
— Não, nunca vi, não entendi a assinatura.
— Quem assina é Diego Velázquez, que viveu lá por meados
de 1600, tenho de verificar, mas se for um quadro real de Diego
Velázquez, este valeria mais que todos os outros juntos, pois não é
um pintor que tenha muitas obras, mas um pintor que influenciou
Salvador Dali, Pablo Picasso, Edouard Manet, seria algo que se poria
a vender em um grande leilão mundial.
O Coronel olha para o Delegado e fala.
— Disto que falava, algo que tem de ter um especialista, po-
demos ter uma obra rara aqui.
O secretario olha o segundo e me olha e fala;
— De onde roubaram isto, pois os primeiros eram obras naci-
onais, valor local, estas são algo mais expressivo.
— Quem assina este?
— Tintoretto. – Não queria mostrar minha parcial ignorância,
mas olhei para o Delegado e peguei o telefone.
— Joaquim, como estão as coisas?
— Sabe que pedi sua cabeça para disfarçar, mas ainda não es-
tá em Curitiba e está me ligando, problemas?
— Tenho um problema sim Moreira. – Todos me olham, eu li-
gara direto para quem eles achavam que me queria morto.
— Fala, eles estão ouvindo?
— Sim, pensa em um problema, havíamos entrado no subsolo
da Fundação Cultural de Ponta Grossa, entre quadros, esculturas,
mais de 300 peças, que juntas, todas elas, devem valer perto de 500
milhões de reais.
— Um bom dinheiro.
— Certo, mas este não é o problema.
— Vai falar daquela maluquice de Lobos?
— Não, fomos verificar outro caminho hoje, mas pelo que en-
tendi, do que estou vendo na cara do Secretario de Cultura, acha-
mos uma sala com mais de 120 quadros enrolados e cuidados, os
221
tiramos de lá, quem os escondia lá não desconfiou ainda, mas abri-
mos apenas os dois primeiros, e pela cara do senhor a minha frente,
e pelo pouco que entendi, dois quadros precursores do Renascen-
tismo, o que quer dizer, nos dois que olhamos, temos mais uns 110
para olhar, deve ter mais de 200 milhões de dólares em jogo, preci-
so de resguardo, tirar isto daqui hoje, amanha podemos estar todos
mortos pois isto vale demais Moreira.
— Eles não vão gostar disto.
— Sei que não, mas alguém escondia isto aqui, e tudo indica
que isto veio roubado de Curitiba ou foi achado lá ao acaso, a escul-
tura a parede induzia, Capitão Willian, entendeu Moreira?
— Acha que achou parte das obras do pirata Zulmiro.
— Acho não, estou com um quadro de Diego Velázquez, que
pelo que sei, sumiu de Pozman na Polônia, na guerra dos Sete Anos,
dado como destruído na guerra, e que estava escondido em Ponta
Grossa em um buraco com mais de 100 outras obras de arte.
O secretario entendeu que obra era, e olha para o delegado e
fala.
— Ele tem razão, se forem obras assim, teremos de ter onde
as guardar rápido, pois é muito dinheiro em jogo, se for o quadro
que ele está pensando de Diego Velázquez, deve valer uns 100 mi-
lhões de dólares, no mínimo.
O coronel olha para mim e fala gritado;
— Não vou deixar você me roubar isto.
Olhei para o senhor e ouvi Moreira;
— O pessoal está entrando, não sabia o que era, mas quando
a menina me ligou e falou que pediu que ela saísse da cidade, ima-
ginei merda e posicionei os rapazes, quando ela não saiu da cidade,
entendi que tinha dado merda.
O Coronel sacou a arma e me aponta e ouviu um estalo as
costas e vi 4 rapazes armados, um em cada porta e dois a janela.
— Todos paradinhos e ninguém se machuca.
— Quem está no comando é Ricardinho. – Moreira.
— Obrigado Moreira, nos vemos logo.
— Vou preparar um local para os receber, mas não traga to-
dos.
— Vou tentar, nos falamos.
222
Olhei para Ricardinho e falei;
— Perdido Ricardo?
— Tinha de ser você aqui maluco.
Sorri e olhei para o Coronel e falei;
— Vai atirar senhor, a vontade.
— Mandei largar! – Ricardinho a porta.
O Coronel ficou na duvida e um rapaz chega pelas costas e
trava a arma e põem sobre a mesa.
Ricardo me olha e pergunta;
— O que vamos fazer?
Olho o delegado e o secretario e pergunto;
— Podemos conversar na sala ao lado?
O secretario concordou e o delegado olhou os rapazes e fa-
lou;
— Mantem a calma.
Entramos na peça e o senhor me olha;
— Conhece Moreira de onde?
— Estudamos juntos, namoramos a mesma menina quando
tinha 14 anos e ele me quebrou o nariz.
— Certo, mas qual o plano.
Olhei para o secretario e falei;
— O que falei foi um acho, mas parece que não discorda do
que falei? – Falei olhando o senhor.
— Não discordo, e se alguém escondia isto, todos que eles
acharem que estão envolvidos no sumiço da peças correm perigo,
pois é muito dinheiro.
— Não deve ser algo que ele olhe todo dia, mas pode ser que
tivesse um alarme silencioso, não sabemos, temos de tirar agora as
coisas daqui, e não espero que concorde Delegado, não esperava
achar isto lá, não era para ter nada de valor naquele sentido.
O delegado me olha e pergunta;
— Seria perigo a que nível?
— Se tivermos 100 quadros de mais de 50 milhões de dólares,
seria um perigo na casa dos 5 bilhões de dólares, muito dinheiro, eu
tirava as famílias dos envolvidos da cidade, dos seus investigadores,
não sabemos se algo foi filmado, se foi monitorado, se fomos isca

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de algo, temos de ver se levamos a sorte de achar, ou o azar de
achar.
— E como nos protegemos?
— Esquece a logica delegado, tudo que temos a mão, ou da-
mos um jeito de enfrentar ou teremos de sumir, sempre digo que
enfrentar gera processos, fugir gera palavras feias como covardes,
mas o que mais temos no planeta, são covardes vivos.
— E o que recomenda? – O secretario.
— Me passarem uma lista de nomes, onde deve estar seus
parentes próximos, vou passar a frente e vamos os tirar da cidade,
junto deles, vai parte das pinturas, e as obras anteriores, eu vou
ficar Delegado, mas todos vão para um esconderijo por pelo menos
24 horas.
— Porque disto? – Secretario.
— Sabe para quem o prefeito desviou as obras?
— Não.
— Isola o prefeito também delegado, todos viram alvo, eles
não sabem quem eu sou, mas sabem quem vocês são.
Comecei a voltar e olhei o coronel e falei;
— Coronel, o que estávamos falando, é que precisamos pro-
teger as pessoas próximas, todos que entraram naquele buraco, e
seus familiares correm perigo.
— Mas porque?
Olhei o recado no celular, olhei a posição dos demais, e falei.
— Fortunas geram este tipo de coisa, mas vocês vão com as
obras para uma casa em Curitiba, em minutos estaremos parando a
rua e teremos 4 helicópteros saindo daqui, o grupo vai tirar as famí-
lias dos envolvidos também da cidade, e assim que for seguro vocês
voltam com as peças.
— Pensei que iria roubar-nos.
— Senhor, eu sou daqueles malucos que levo tiros, pois estou
sempre olhando para o atirador, mas vocês saem daqui, se prote-
gem, que vou ter de descobrir o que não quero.
Os helicópteros chegaram e saíram, ao final, vi Ricardinho me
olhar e falar;
— Vai ficar mesmo.
— Sim, apenas não levem balas perdidas que eram para mim.
224
— Vamos observar ao longe, não sei o que pretende, mas de-
ve ter algum plano.
— Sim, não morrer.
Jessica olha o pessoal saindo e me olha, enquanto eu ajeitava
um dos quadros que trouxemos do buraco, o que passava pela en-
trada, não muito grande, mas que destacava a parede, não conhecia
aquela obra, não sabia quem era Joshua Reynolds, mas era a assina-
tura da pintura. Tinha a anotação feita para mim pelo secretario
sobre a obra, mas para mim seriam palavras a serem repetidas.
— Vamos ficar para morrer? – Jessica.
— Eu não pretendo morrer Keka, sabe disto, você não quis ir
junto, mas eu preciso saber quem está por trás de tudo isto.
— E vai apelar a algo?
— Sim, mas algo não entendo nesta hora.
Jessica vê um carro de reportagem parar a porta e vê o re-
pórter entrar, não havia mais segurança, o secretario dispensou
tudo, e parecia não entender o que eu queria, mas é que não queria
esperar, e sim, escancarar as coisas.
— Deve ser João, nossa redação e nossa edição da Band News
nos mandou para cá, e não entendi ainda.
O cumprimentei e falei;
— Senhores, eu o secretario municipal e o Delegado, sobre
autorização especial, entramos hoje na peça abaixo da estatua de
Tiradentes na praça Barão do Rio Branco, e nos deparamos com
este e mais alguns quadros, de origem europeias, este é de Joshua
Reynolds, presidente da academia inglesa de Artes, este quadro de
uma jovem, é tido como sumido, a mais de 100 anos, e nos depa-
ramos com ele, em um buraco que temos acesso pelo buraco abaixo
da estatua, o Secretario viajou a Curitiba, para garantir a vinda
amanha de especialistas, para avaliar as obras, ele mandou lhes
comunicar, que esta e mais de 100 obras, todas de autores euro-
peus, foram achadas hoje no Buraco, ele também vai falar com o
secretario estadual de cultura, para conseguir verbas para avaliar e
conservar as peças ali deixadas.
— Porque da importância senhor João?
— Este quadro, deve estar estimado em mais de 3 milhões de
dólares, e estava abandonado abaixo da cidade.
225
— Quanto? – O cinegrafista.
— Este é um dos menos valioso, ele levou apenas uma peça a
Curitiba para avaliação, mas ele me indicou que temos aqui, talvez a
maior soma de artes sumidas do século 18, e que por algum motivo,
estavam ali abandonadas.
— Ele lhe deu uma estimativa do valor das peças?
— Não, é muito cedo para isto, mas algo em torno de 500 mi-
lhões de dólares a soma total de obras tiradas do buraco nos últi-
mos 20 dias.
— Podemos fotografar a obra?
— As três a parede foram tiradas de lá, mas indicamos o não
usar de flash, pois são obras raras.
O senhor tirou umas fotos, o rapaz editou um texto, e meia
hora após, era perto das oito da noite, quando a reportagem vai ao
ar pela radio Band, os rapazes saem e olho para fora, olho aquela
senhora olhando ao fundo e saio pela porta, Jessica sai ao meu lado
e ela avança e pergunta;
— Não sairia hoje da cidade?
— Talvez fugido em minutos.
— Espera algo, pois está ai com a menina, não sei oque você
é senhor, mas vim para cá preocupada que tivesse saído de helicóp-
tero como me narraram e não teria dai mais a ligação com ti.
— Não sou de fugir a guerra senhora, mas o que faz aqui?
— Sentindo o cheiro de morte no ar, alguém vai morrer, acho
que não é seu cheiro no ar, mas algo vai morrer hoje.
— Espero que esteja errada.
— Os cheiros confundem ao futuro, ao passado são mais fieis,
mas algo vem a vocês, e não parecem preocupados.
Jessica olha a senhora e olha os lobos ao fundo, olho ela que
se abaixa e toca o chão, ela fecha os olhos, sente o caminho e fala.
— Eles tentaram por dentro, pelos tuneis, agora estão vol-
tando para tentar pela rua. – Jessica me olhando aos olhos.
— Quanto?
— Armados 6, um senhor de idade avançada, e uma moça,
toda desajeitada.
Olhei para Diana e falei;
— Agora é para mortais Diana, não para você.
226
— Acha que eles conseguem o que não consegui.
— Acho que eles vão tentar. – Respondendo Diana, olhando
para Jessica que me encarava.
Sabia que aquele olhar dizia problemas, e não queria ela ali
para ser alvo de tiros, mas ela não me deixaria sozinho naquele
momento, estranho ter medo por ela estar ali, e estar feliz pelo
mesmo motivo.
— Eles parecem estar querendo tudo de volta, mas eles pare-
cem conhecer os tuneis, não entendi.
— Eles deveriam achar que aquilo era algo a deixar no cami-
nho, foi o mais fácil de achar, foi o mais intuitivo.
— E como vencemos armas?
Sinto aquele toque no braço, olho aquele pequeno menino de
asas me tocando e ouço em minha mente;
“Eles vem lhe apoiar, mas tem de cuidar para não perder o
que soltou, eles não sabiam de tudo, mas eles tem os mapas do
local, cuida para não perder um grande amor.”
Olho para Jessica e falo;
— Vai se cuidar, ou vou ter de sair correndo com você amar-
rada para lhe proteger?
— Sabe que sou apenas uma observadora, não gosto de usar
truques ou magias, mas se for o caso, estou aqui para isto.
Diana olha em volta, parece cheirar o ar e fala;
— Os seus amigos vem vindo.
— Eles nem sabem de nada Diana, para de fazer burrada.
A senhora recuou e sumiu após pular sobre o muro da casa
em frente e aparentemente correr para longe.
Olhei para o pequeno menino, que pelo jeito apenas eu via e
olhei para Jessica;
— Está estranho, é aquele menino de asas novamente?
— Sim, ele está por perto. – Senti ele soltar meu braço e o vi
sumir, só o via quando ele estava tocando-me.
Vi dois carros pararem a frente da Fundação, olhei os telha-
dos, lobos, felinos, leoas, olho em volta, não sabia se Ricardo estava
por ali, mas provavelmente sim.

227
Os carros abrem as portas e vejo pessoas armadas me apon-
tarem armas e um senhor sair do carro calmamente, me olha aos
olhos e pergunta.
— Foi você que me roubou?
— Defendendo uma estada curta no Céu, roubando ladrões.
O senhor não gostou da frase e gritou para os demais;
— Peguem o que é meu, e prendam estes dois.
O senhor olha para Jessica, eu a olho e vejo ela ficar translu-
cida, e sumir da vista, sorri e falei.
— Quem é o senhor?
— Não sabe de quem roubou?
— Nem entendo o que roubei, ou melhor, peguei em um bu-
raco abaixo de um prédio na esquina da Rua Dr. Dulcídio com a Rua
Vicente Machado.
O senhor me encara e fala;
— Sabe muito para o deixarmos contar para alguém.
— Senhor, acha mesmo que as peças ainda estão ai dentro?
— Soubemos que tiraram parte para algum lugar, mas desco-
briremos para onde.
— Na verdade o que saiu de helicóptero, difícil achar senhor,
precisava dar motivos para o Delegado e o Coronel entrarem no
helicóptero, pois estes não verá mais.
— Acha que tem chance contra mim senhor?
— Não sei quem você é para saber se tenho chance, mas o
que fazem aqui, pois não é lugar para visitas esta hora.
— Alguém desmoronou dois trechos do caminho, soube que
o local com peças locais já estava vazio, mas os quadros não vai tirar
de nossa família.
As armas estavam apontadas para mim, quando ouvi um uivo
em um telhado, uma sequencia de uivos a toda volta, fez o senhor
olhar em volta e falar.
— Destes lobinhos sabemos cuidar. – Vi o senhor pegar no
anel, ele pareceu o tocar e seres estranhos surgem a rua, como se
fossem espectros de almas negras, ele aponta no sentido dos lobos
e os seres avançam, os lobos recuam, vendo aqueles seres.
O senhor sorriu e me olhou, ouvi um uivo novamente e olhei
no sentido dos seres, seres translúcidos, mas brilhosos surgiram a
228
todo lado, lobos translúcidos ao lado de seres que tinham seus ca-
belos avermelhados, e os espectros negros começam a andar de
costas, o senhor olha assustado e fala.
— Quem são estes?
— Não falo com estranhos. – Falei para provocar, ele não dis-
sera quem era, os da cidade deveriam o reconhecer, mas eu não o
reconhecia.
Os seres negros começam a sumir, assim como apareceram e
os lobos se aproximam ao lado daqueles seres que pareciam jovens,
cabelos avermelhados, ambos brilhavam.
Quando chegaram mais perto, olhei os pés invertidos e sou-
be, aquilo tinha mão da Jessica, aliados dela, não meus, Laikans
acompanhados de Curupiras que tinham a mão sacos de cor preta,
eles nem chegaram a soltar o que estava nos sacos e os seres ne-
gros não estavam mais lá.
Os telhados voltaram a se encher de felinos e lobos, e olho o
senhor;
— Não vai me explicar esta historia mesmo?
Os rapazes olhavam assustados, pois não sabiam quem eu
era, o senhor deveria ser um industrial da cidade, e o ouço falar;
— Pede para eles recuarem senão eles lhe matam.
— Já falou que não posso ficar vivo, sei que não vai me pou-
par se eles forem embora senhor sem nome, porque faria isto e lhe
facilitaria na missão de me matar.
— Sabe que esta pedindo para morrer?
— Sei que está assustado senhor, sei que está com medo,
mas não entendi, o que lhe geraria tamanho medo, não está rea-
gindo por ganancia, e sim por medo, mas como não sei quem é,
como posso ajudar, como posso parar esta briga.
— Me devolvendo as peças.
— Sabe que isto não resolveria o problema, ou estou engana-
do.
Senti alguém me tocar o braço, olho para o lado, vejo o vulto
de Jessica, ela me tocando conseguia a ver, mas vejo também o
medo dos demais, as armas prontas a atirar.

229
— E se mudássemos o rumo da conversa. – O senhor me
olhando, finalmente a aura dele se acalmou, isto talvez tenha me
posto mais medo que antes.
— Em que sentido senhor.
— Senhor João Jorge Gomes, tenho muitos funcionários,
mostrou um lado que nenhum dos meus funcionários tem, a capa-
cidade de entrar em uma peça e sair de lá com tudo que tem no
caminho, algo que aprecio, alguém capaz de encontrar um tesouro
escondido, sem o mínimo esforço, estava olhando o buraco cheio
de Merda no caminho, nem sabia da existência dele, e o achou co-
mo se soubesse bem onde estava.
— Não entendi.
“Entendeu sim João, ele quer lhe subornar!” – Jessica em mi-
nha mente, ela apenas pensou.
— Uma proposta de emprego, sei que não tem onde cair
morto senhor, sabe que não pode vender estas coisas sem dizer a
procedência, que não tem como vender sem ser acusado de ladrão,
e não me interessa se os demais vão morrer, se tivermos um acor-
do, pode ganhar um bom dinheiro.
— Desculpa a desconfiança senhor, mas nem sei com quem
falo, realmente entrei nesta caça sem conhecer a historia.
— Sou um industrial local, os demais me chamam de Senhor
Oliveira, algum gado, algumas empresas, alguns militares em mi-
nhas mãos.
— Qual o seu envolvimento com Manuel Souza Neto?
— Porque da pergunta?
— Saber se posso confiar em você, ou melhor, enfrentar as
consequências mesmo sendo as desagradáveis.
— São uns metidos, não conhecem nada e se acham, mas são
pobres metidos, não sabe mesmo com quem fala.
— Verdade, alguém que teme as magias da terra, pois parece
temer os Manás, os Guairacás, os Yawara, alguma magia, mas que
parece ter o sangue nas palavras, mas não nas mãos, mãos de co-
varde, que apenas paga a morte, mas não a executa.
— Está me ofendendo.
— Senhor, quando perguntei seu envolvimento com os Souza,
é que eu os temo, o senhor os chamou de Metidos, eu os chamo de
230
problema meu, mas qual seria a quantidade e o serviço que presta-
ria ao senhor?
— Terei de pensar, quanto seria agradável a você.
— Diria que uns 50 milhões e estaria a seu serviço, pode pa-
gar de uma vez ou aos poucos.
— Não tem nem onde morar e vem pedir uma fortuna, acha
mesmo que vou pagar isto.
— Em dólares.
Os senhores se armaram, olhei minha mão, ela ficou translu-
cida, senti as balas passarem por mim, eu os via, mas só tive certeza
que eles não me viam quando ouvi o senhor falar.
— Como ele fez isto.
— Não sei senhor, deve ser uma imagem, os seres ao longe
também sumiram!
Eu caminhei calmamente até os quadros a parede e os to-
quei, eles sumiram a parede e o senhor olhou em volta.
— Que palhaçada é esta?
— Não sabemos senhor, mas porque os seres os defende-
ram?
— Não sei, mas parece que ele não é apenas o que me fala-
ram, me confirmem, me passaram como a descrição de alguém que
não tinha nada. Não sabia nada.
Olho o senhor descer a escada e os rapazes descerem após,
ele queria saber se não escondemos ali, sorri da ideia, alguém sabia
o que tinha ali, mas pelo jeito, não lhe interessara.
Olho para fora, os seres saíram, não sabia como poderia ficar
translucido, invisível aos olhos, mas estava, estranho mesmo trans-
parente, tropeçar, sorri e olhei em volta antes de xingar, pela topa-
da na porta.
Olho a saída, olho a rua, saímos andando, e vejo uma senhora
ao longe, já não parecia a senhora de dias antes, olho ao meu lado
Jessica que me sorri e fala.
— Sabe que eles ficaram intrigados.
— Vamos voltar, está na hora de ir para casa.
Ela sorri, fomos ao meu carro, ligamos e saímos, vi Jessica me
tocar e surgi ao volante do carro, sorri pensando em alguém vendo
o carro andar sozinho.
231
Parei o carro e olhei ela.
— O que não entendi?
— Eu não entendi nada, mas porque paramos?
Olhei a estrada as costas, e olhei aquele lobo correndo deses-
perado, e falei.
— Não sei se isto é bom ou ruim, mas ela vai ser puxada para
lá, e as vezes é melhor ver o inimigo a altura dos olhos.
Abri a porta e sai por ela e olhei Diana e falei.
— Quer uma carona?
Aquele olhar parecia de duvida, mas entrou, não falou, ape-
nas mudando de forma, Jessica abre o bagageiro, pega uma roupa e
joga para ela.

232
233
J.J.Gremmelmaier

Lobos

234
Chegamos em Curitiba a pouco mais de 2 horas, passei em
casa, e fomos ao município vizinho, não sei ao certo novamente o
que estou fazendo, mas quando vi aqueles seres translúcidos se
erguendo a frente de Jessica, não sabia mais se era uma boa ideia
ou não.
O ser olha para ela e fala;
— O que faz aqui, onde está sua amiga? – Laikan.
— Minha prima está se recuperando da ultima aventura, está
bem mais leve que naqueles dias, mas algo induz que teremos algo
estranho na cidade novamente. – Jessica.
O ser parecia com um lobo guará, mas seu rosto era maior e
mais agressivo, eram translúcidos, sabia que Jessica conhecia estes
seres, mas nunca me inteirei desta historia.
— E este ai.
— Alguém que carrega um peso maior que eu, menor que o
seu, Jock. – Jessica.
— Maior que o seu?
— Sabe que meu peso é leve, mas ele colhe a desgraça que
tiver no caminho, se neste campo – ela aponta o campo a volta,
estávamos na Fazenda Rio Grande, estávamos em meio a um imen-
so gramado, abrindo os braços – alguém der um tiro a 200 metros,
vai vir sobre ele, se cair um raio, será ao lado dele, se um avião cair,
será próximo dele, nunca o suficiente para o matar, mas para ele
carregar os pesos.
— E quem estabeleceu um peso assim?
— Dizem que ele caminha as cegas Jock, as energias no sul da
cidade estão todas distorcidas, e é apenas porque ele vive aqui, se
ele vivesse ao norte, estaria sobre ele da mesma forma.
— Então não é como falam sobre a região, é sobre onde ele
estiver? – Pergunta Jock.
Ouvi aquilo e pensei, “Não tinha pensado nesta possibilida-
de.”. Olho para Jessica que fala;
— Sim, é uma das possibilidades João, mas ninguém sabe ao
certo o que aconteceu ou vai acontecer, quando se tem um evento
que gera outro, fica fácil prever, mas não aconteceu nada ainda.
O ser me olha e fala;
— E porque veio nos falar pequena Keka? – Jock.
235
— Para saber se algo diferente aconteceu?
— Tinha uma força estranha na cidade desde o ultimo confli-
to, ela se afastou, mas outra chegou a pouco.
— Tudor saiu da cidade com a família, e quem o persegue e
procura, chegou a cidade Jock, mas algo que não se apresente, tem
de ser algo oculto, o surgir de algo.
— Nem sempre sentimos energias distorcidas, mas repara-
mos que todos os seres de magia, estão agitados.
— Agitados?
— Vi uma leva e Iaras voltar para a parte baixa da serra, vi os
pequenos Saci indo no mesmo sentido, não sei o que os afasta, mas
deve ser algo urgente, pois todos se afastaram, sem olhar para trás,
algo que os incomoda. – Jock.
Olhei ele e perguntei.
— Mas saíram fugidos ou indo a algum lugar, levando o que
precisariam para um tempo longe.
— Levaram tudo, se prepararam e saíram, cada um a sua vez,
tem uma leva de Curupiras que atravessou a serra no mesmo senti-
do, mas não sei para onde, não sinto o que eles sentem.
— Obrigado, desculpa incomodar! – Falei.
— Já de saída? – Jock.
— Tem coisa que não se deixa para depois, mas porque acha
que estavam agitados?
— Seres da terra não saem de seus domínios, eles evitam cru-
zar com outros, para não ter de disputar espaço, mas parece que
não tem medo do seu peso.
— O carregaria com ou sem medo, então medo não me ajuda
em nada.
— E você menina, vai para onde?
— Não sei ainda, mas obrigada.
Saímos dali, Diana ficou em nossa casa, mas poderia estar
aprontando já, mas não sabíamos ainda o caminho a tocar e fomos
ao centro, queria olhar algumas coisas, e somente depois começar a
me aventurar um pouco mais.
Paramos naquela noite gostosa em uma lanchonete na Rua
Itupava, era quinta feira e estava querendo entender o problema,

236
estava vazio ainda, pedimos uma cerveja, um refrigerante e um
aperitivo.
— Vai beber? – Jessica.
— Não, vou me embriagar, preciso pensar.
— E no que isto ajuda?
— Me ajuda a por os pés no inatingível, e a dor de cabeça
amanha me fará saber que ainda sou eu.
— Não gosto de o ver beber João. – Jessica.
— Já quer me mudar?
— Sim, quero o seu bem, e excesso de álcool não faz bem a
ninguém e você sabe disto.
— Sei? – Vi a cara de revoltada da Jessica, mas não pretendia
deixar de ser eu.
Vi Andrei subir ao palco, começaram a cantar, e vi que o local
não iria encher muito, novamente procuro um espelho e nada.
Jessica olha Andrei e pergunta;
— O que viemos fazer aqui?
— Preciso entender o que são estes seres que chamamos de
Guarás, nada como falar com alguém que já me conhece há anos.
Jessica olha o rapaz e fala.
— Ele tem uma aura igual aquela Thamis.
— Sim, em teoria eles são da mesma espécie.
Jessica sorriu e falou com um brilho nos olhos;
— Vai a chamar de bicho?
— Não, nunca entendi esta coisa, eles em si são muito próxi-
mos dos humanos, as auras não deixam de ser verde, como consigo
ver agora, mas a aura deles não mantem o corpo inteiro, estranho
isto.
— Talvez a aura não assuma a forma humana. – Jessica.
— Sabe que a noite com alguém ao lado deve ser bem mais
legal que sozinho como curti nos últimos anos.
— Mas vai sempre beber? Quer me irritar.
— Sabe bem Keka que tudo a volta é novidade para nós, em-
bora soubesse onde este bar é, não tenho ganhos para frequentar
um lugar destes.

237
— Certo, vou aproveitar então, mas não preciso de lugares
assim, mas entendo, as vezes vamos passar em locais pois precisa-
mos.
Olhei eles terminarem a primeira leva de musicas, cover do
“The Cure”, Andrei me olha e vem a mesa.
— Perdido por aqui Jota.
— Sim, precisava conversar Andrei.
Ele fez uma cara de indagação, pois não tínhamos um assunto
pendente, então ele demonstrou estranheza na feição.
— Conversar?
— Sim, mas tem de ver se quer falar disto.
— Referente ao que Dara falou esquece, ela não entende de
nós.
— Sei disto, mas tem de ver se quer falar, pois depois não re-
clamem se alguém sair ferido porque querem se esconder, onde
nada se esconde, Curitiba.
— Não entendeu nada Jota, nem tem ideia da complicação.
— Andrei, sei que você é mais humano que Lobo, sei que tem
a agilidade dos dedos, algo que não é sua parte Lobo que conduz,
sei que tem a percepção de cores de um Lobo, agora entendo as
suas roupas chamativas, você não as distingue, você as usa combi-
nando tons, eu gosto, entendo, a maioria ignora. Sei que não preci-
sa do emprego no BB para sobreviver, sei que esconde tudo refe-
rente a seus pais, que odeia o instrumento que toca, estranho
mesmo você, mas tem de saber se quer trocar uma ideia. – Eu olhei
ele serio, ele não entendia muito de mim.
Ele inverteu a cadeira e sentou-se, fez um sinal para o garçom
que trouxe uma cerveja para ele, ele me encara e pergunta;
— O que precisa saber?
— Porque os seus não saíram do sul da cidade, enquanto os
demais saíram?
— Não fugimos, sabe disto, e passamos desapercebidos da ul-
tima vez, porque nos notariam agora? – Andrei.
— Porque a briga anterior era questão de Magia, de Poder da
Terra, referente ao renascimento de um grande Mago, agora, é algo
que vai reapresentar Lobos, Yawaras, Manás a grande mãe.

238
— Não nos denominamos de lobos, isto confunde estes a vol-
ta, pois eles confundem com Lobisomens.
— Lobisomens não existem Andrei, não como os da lenda,
mas existem dois tipos de Lobos, os dois serão apresentados a
grande mãe, mas algo me diz que algo não vai ser como se espera.
— Não entende nossa força João, é apenas um humano, não
tem como entender que podemos nos defender.
Olhei para o garçom e ele chegou perto;
— Vê a conta, estamos indo.
Andrei me olha, eu não insisto, se eles achavam que podiam
continuar escondidos, não poderia fazer nada.
Jessica olha Andrei e fala;
— Sabe que se precisarem, estaremos por perto, pelo jeito se
perderá muitos Guairacás até que um nos ouça, se perderá muitos
Morois até que nos ouçam, mas se precisarem, sabem onde nos
encontrar Andrei.
Andrei me olha, ele não fala nada e vai o grupo, não sei o que
estava acontecendo, mas vi que ele estava arisco, e escondendo
algo, ele se tentou a contar, mas segurou-se, ele olhou em volta,
havia mais deles ali, menos mal, alertados.
Pagamos a conta e voltamos para o Sitio Cercado, abrimos a
porta e vimos o olhar de Diana sobre nós.
— Pensei que estavam me detendo aqui.
— Se isto detivesse alguém eu responderia Diana, mas vai
ajudar ou continuar nesta briga insensata.
— Não tenho como fugir desta briga, está no desígnio do
Eterno, eu não posso com o Eterno, mesmo Tudor não pode com os
desígnios do Eterno.
Olhei para Jessica e perguntei;
— Porque me parece que seu eterno é diferente do dela?
— Porque não é o mesmo ser, se tem de entender, que exis-
tem milhares de degraus até Deus, um humano simples, olhando o
primeiro acima, acha que são deuses, um ser como aquele Francis-
co, se olhar para cima, verá algo como o terceiro degrau e achará
que é Deus, Diana olha para cima e olha três degraus antes de Deus
e acha que é Deus, o problema não é Deus João, é o como podemos
o entender, se você for um criador de galáxias, você para toda aque-
239
la galáxia, pode ser um Deus, se você for um criador de galáxia, o
criador do mundo que ela se encontra, é seu Deus, se você está em
um aglomerado de Quinhentos Mundos, e você conhece seu cria-
dor, o criador de sua pétala, acha que ele é um Deus, se você é o
administrador de uma das pétalas, e conhece quem criou a rosa a
que fazemos parte, este será seu Deus, se consegue ver o mar de
rosas, e conhece os dois seres que cuidam delas, para você, estas
duas forças, a Luz e a Matéria Escura, são seus Deuses, mas se você
consegue caminhar pelas plantações, e interferir em cada mundo,
como se você não fosse mais um ser, mas fosse milhares deles, você
é um dos 72 seres de criação, alguns conhecem como anjos, se você
é um dos príncipes de Deus, você tem a ciência, um nono da ciência
de Deus, e estes seres, conhecem o Eterno, alguns o chamam de
Amaná, um ser sem sexo, criador do tudo, um ser capaz de desafiar
todo o conhecimento que tenho.
— Desafiar, você acaba dizer que o que chamo de Eterno é
não três, mas 4 degraus abaixo de seu Deus. – Diana.
— Diana, o que você não entendeu, é que tudo que você fi-
zer, ele sabe que acontecerá, não porque o previu, mas porque já o
viveu, este é o ponto difícil de entender, dizem que um menino, que
na minha realidade volta a própria consciência em uns 10 anos ain-
da, estava tentando entender isto, mas pensa, ele viveu não só a
sua existência, ele viveu setenta e duas possibilidades de atos seus,
ele não viveu uma existência dos campos de rosa, dizem que em
outras existências, não são nem rosas, não são pétalas, não são
anjos, mas a ordem é a mesma.
— Mas não muda a minha posição, a posição do que chamo
de Eterno.
— Diana, eu sou uma criança ainda, mas o Eterno que me to-
cou, me transferiu apenas 0,005% do seu conhecimento, eu vivo
cada dia tentando entender o que ele fez, o que ele sabe, apren-
dendo e comparando, para evoluir, e já fazem 4 anos deste toque, e
provavelmente irá uma vida para entender, mas não tenho todas as
respostas, ele acha que se nos der tudo, acomodamos, então ele
cria, ele encoraja, ele mente, ele descontrói, pois estas regras, são
para os demais, não para Deus, pois não existe pecado, para o ser
superior, não existe certo ou errado, ele sabe todas as possibilida-
240
des. Para Deus, seus príncipes, seus anjos, não existe degrau, eles
estão ao seu lado, e ao lado de Deus, é algo complexo de imaginar,
de entender, mas é que os analisamos conforme nossa natureza,
matéria.
Diana me olha, como se eu tivesse de dar a mesma resposta,
e sorri, ela não entendeu e perguntou;
— Não vejo graça nisto, o que tem de engraçado?
— Diana, a força que vê em mim, é a que eu tenho, nenhuma,
e mesmo assim, sobrevivi, se olhar Pedro Rosa, também verá que
ele não tem força, mas maldições são assim, não são forças visíveis,
ela nos apresentam os problemas, e como ninguém vê força em
problemas, em tropeços, somos os fracos.
— E acha graça disto, é maluco? – Diana.
— Diana, cada um tem de procurar seu caminho, e esconder
ou se apoderar do dom dos demais, nunca é o caminho apoiado
pelo Eterno, ele lhe deixa agir, lhe dá motivos para recuar, mas so-
mente se você não acha o caminho, ele amaldiçoa alguém como
João, ele não ri, ele debocha, ele sabe que carrega os pesos por isto,
mas prefere ter o Eterno lhe pondo problemas no caminho e cres-
cendo, do que ficar parado.
Ela me olha, não deveria ter entendido nada, se até eu estava
perdido, imagina ela.
— Vai fazer oque João?
— Tenho uns probleminhas a ajeitar.
— Vou dar um pulo em casa, não me decepcione.
— Sabe que não domino meu caminho, e já lhe machuquei
por isto, apenas tenta não ir pela fofoca, se tiver acontecido, sabe
que falo, eu não nego o que aconteceu, apenas o que não aconte-
ceu.
Jessica me beija e sai pela porta, Diana me olha e fala;
— Não entendo o que é você, porque estou presa a você?
— Nem eu Diana, vou dar uma saída, não bagunce muito a
casa.
— Dá para bagunçar esta bagunça?
— Sei lá. – Sai pela porta, eu estava com vontade de chutar
alguém e liguei para Joni.
— E dai Joni, já está em Curitiba?
241
— O que vai aprontar?
— Vou precisar de uma arma, e de umas dicas.
Conversamos um pouco enquanto eu andava no sentido da
Igreja do Pastor Ricardo, chego a porta dele e dois rapazes me bar-
raram. Culto noturno com muitos fieis.
— Tem de sumir daqui senhor, não é bem vindo.
Olhei para a igreja, gente entrando, e olhei para os senhores
e falei.
— Sei que este merdinha do Ricardo tem medo de mim, mas
avisa ele, que ele mexeu com a pessoa errada, e se ele não sabe
com quem mexeu, ele vai descobrir hoje.
O senhor me empurrou e falou auto;
— Acha que não damos um jeito em você senhor?
Senti alguém me tocar a mão, não olhei aquele menino nu de
asas, eu estranhava ele, mas vi ele apenas olhar para a igreja, e o
letreiro escrito Igreja Universal do Reino de Deus começa a pegar
fogo e vi na minha mente os demais chegando as minhas costas e
uma frase que me fez olhar para ele.
Eu olhar para o chão, ao meu lado, deve ter deixado os se-
nhores, que distraídos comigo não viam a placa queimar, e pensei:
“Como um dom, pensei sempre ser uma praga!”
“Pragas são dons, apenas poucos conseguem ver João, que
carregar o justo as mãos, não é fácil, vingança não indica o caminho,
deixa aos demais as vinganças!”
“Mas...”
“Se afasta e sorri, sempre digo que o não agredir, o não rea-
gir, o amar quem nos odeia, gera problemas maiores que os ódios!”
Eu olhei para os senhores e sorri, sai dali e os dois me olha-
ram e depois de um grito, eles olham a frente sendo tomada pelas
chamas, que eu não tinha provocado.
Eu desviei dois rapazes a rua, sem olhar, e um me barrou;
— Pensei que iria lá tomar satisfações.
Levantei a cabeça, estava pensando, olhava a calçada, mas
estava distante, e demorei a ver que era Ricardinho.
— As vezes tento não me complicar muito, sabem que posso
ser acusado de tudo, se eu não entendi o problema, como eles vão
entender.
242
Continuei a caminhar pela Rua São José, entrei a direita na
Rua Jussara e duas quadras a mais me deparo com a Praça e olho
para Paulinho, Ricardinho vinha mais ao fundo, o que fez os rapazes
as costas de Paulinho não se meterem, Paulinho soube que eram
perigosos pela reação dos demais.
— O otário tá vivo?
— Sim. – Peguei o telefone e liguei para Moreira e perguntei
– Moreira, conseguiria uma coisa?
— O que precisa João?
— Uma clinica de reabilitação para um Menor de Idade, e o
afastar dos seus rapazes do trafico do Sitio Cercado.
— Sabe que está pedindo muito?
— Quer que os mate então Moreira?
Não sei o que Moreira pensou do outro lado, e apenas ouvi;
— Me dá um momento.
Ricardinho atende o telefone as costas e um rapaz mais ao
fundo também, não sabia para quem ele ligara, mas ambos não
falaram, soube mais tarde que foi apenas uma mensagem de texto,
e ouvi um rapaz ao fundo falar.
— O que é você, que Louco me liga pessoalmente?
— O pesadelo de um tratante a minha frente, que vocês vicia-
ram para não ajudar a namorada, coisa de dono de ponto que mor-
re em 2 anos no máximo, não de líder do trafico.
O rapaz me olhou com raiva e ouvi Ricardinho falar ao fundo;
— Nem inventa nada Diguinho, que morre.
— Vai o defender Ricardinho?
— Já tentaram o matar Diguinho, não sei quem em volta foi,
mas com certeza ninguém por perto, pois eles não sabem o peso de
algo assim.
— Quem é isto dai? – Diguinho se referindo a mim.
— O que é este lixo ai? – Um rapaz ao fundo.
Não olhei, mas deveria ser alguém do trafico local e Ricardi-
nho fez sinal para os rapazes manterem a calma e olhou o senhor e
falou.
— Sabia que tinha de ter gente podre com você Diguinho,
pensei que tinha entendido o recado.

243
— Louco não manda nada aqui Ricardinho. – Diguinho, meus
olhos estavam em Paulinho, não tinha nada com os demais, não
estava nem ai se eles se matassem, sempre fui radical no que se
refere a trafico, ter um amigo que comanda isto não é o mesmo de
gostar disto.
Meu nariz disse que estávamos sendo cercados, e olho para
Ricardinho e falo;
— Mantem a trava nas armas.
Ricardinho me olha e pergunta;
— O que agora?
De noite estes seres são bem visíveis, vi os espectros de
Laikans se erguerem a volta e um me olhar, conhecia aquele e falo,
vendo os demais a rua pararem, os traficantes olharem em volta,
pensam em sair e veem uma leva de lobos, Morois, entrarem na
praça, e olho para Diguinho e falo;
— Quem atirar, pode se considerar morto, e não posso fazer
nada por estes.
Olho para Jock e pergunto;
— Jock em meu bairro, o que o traz aqui Jock?
O ser me olha, não sei o que pensou, olhou em volta, prova-
velmente procurando Jessica, me olha e fala;
— Tem uma disfunção de Morte neste ponto, que tudo indica
para tentar evitar, nem sempre conseguimos, mas sempre apare-
cemos quando uma disfunção desta surge.
— Não entendo de disfunções, não as sinto. – Respondi.
Senti o cheiro ficar forte, o rapaz ao fundo olha em volta, Pau-
linho estava totalmente dopado, pois ele não olhara mais que nos
meus olhos, e bem distante, tentava aparentar bem, mas estava em
algum mundo e não ali, então não me adiantava querer que ele se
posicionasse, e nem era a posição dele que precisava.
Olhava para Paulinho quando ouvi a voz de Dara as costas;
— Nos traiu, a trouxe a nós.
— Bom saber que está do outro lado Dara. – Falei sem a
olhar, os rapazes devem ter estranhado, pois o som saiu de uma
loba, e Jock me olha.
— Quem trouxe para a cidade, que os Morois o querem mal.

244
— Eles não me querem mal Jock, mas quem veio a cidade, al-
guns chamam de Lility, outros de Diana, e outros de “a primeira
bruxa”.
— E não vai negar? – Dara.
Os rapazes deveriam achar que fumaram demais, ou algo as-
sim, nem sei o que usaram.
— Ela está presa a mim até que dê inicio a reconciliação, não
sei quem escreveu isto Dara, mas ela não pode ficar a menos de
dois mil metro de mim em linha reta.
— E viria mesmo se Tudor estivesse aqui?
— Se ele não fugisse disto talvez fosse mais fácil, mas não sei
ao certo como solucionar um problema que não é meu, já que a
briga dela com Tudor não é o meu problema, é o deles.
— Descobriu o problema? – Dara.
— Diana desenvolvia em Ponta Grossa uma linha de conser-
vação da vida, ela aprisionou a 150 anos 3 fêmeas de Manás, isto a
restituiu a aparência, mas isto fez com que achasse que poderia
reter a magia dos demais para obter a juventude, e o que era um
ganho nas primeiras 3, vira um peso nos próximos 3, e tentativas
frustradas, leva a captura de quase que 300 seres em 150 anos,
quando libertei isto, o peso da vida dela, está sobre o peso da mi-
nha vida, já que somente poderia os libertar mediante uma doação,
e não doaria mais nenhuma vida.
— Por isto Manás subiram a serra, para verificar as energias a
dois dias?
— Não sei, mas o que faz aqui Dara?
— Estava indo lá por ela para correr.
— Preciso de uma solução, não de uma guerra Dara.
Diguinho estava olhando isto e saca a arma e atira no sentido
de Dara, ela sente a bala, não vi qual pulou sobre ele mordendo o
seu pescoço, outros foram sacar armas e foram sendo jogados no
chão, uma moça chega ao lado de Dara e a toca, e ela se transfor-
ma, Paulinho olhava impávido, a moça alcança um vestido leve que
Dara joga sobre o corpo, o transformar-se fez a bala sair e a ferida
se fechar.
Frock olha para mim e fala;

245
— Então sua morte seria o problema inicial, que teríamos de
evitar, o ser que mataria as forças da primeira fêmea, não sei o que
é um peso destes, mas estaremos de olho.
O ser olhou os seus e passou pelos que estavam caídos que
desacordam, como se tirando suas forças, os Morois se afastam e
em meio a uma praça que todos me olhavam olho para Ricardinho.
— Vai ajudar ou vai apenas fazer de conta?
— Não sei o que pode lhe ajudar, não conto com estes aliados
que você tem João.
Olho para Dara e pergunto;
— E você, vai ajudar ou não?
— Não entendi, para libertar pelo jeito a raiz dos Manás, dos
Guairacás e dos Yawara, colocou sua vida como peso, é maluco?
— O que é a vida de um humano, azarado, apaixonado, com-
parado a imortalidade das lendas, o ressurgir dos seres de magia do
meu estado?
— Você é maluco, mas o que precisa?
Ricardinho me olha;
— Não sei para que Moreira me passou um endereço de clini-
ca de recuperação.
— Pega este mané a minha frente Ricardinho e leva para lá, já
chego lá.
— Vai onde?
— Resolver um problema, e tentar ajudar.
Os rapazes chegam a Paulinho que não entendia nada, estava
viajando, ele esperneou, mas somente ele estava de pé, Jock já ha-
via saído, os Morois foram sumindo, e Dara me olha.
— Vai mandar lhe esquecer?
— Sabe desde o primeiro momento que tinha outra no cora-
ção, ou não?
— Sim, alguém que nem as maiores forças do universo, como
a gravidade, conseguiriam tirar.
— A gravidade pode me matar, então ela conseguiria, mas se
quer caminhar, vamos andar um pouco.
Caminho duas quadras e bato a uma casa, vi aquela senhora a
porta, e falei;
— Podemos conversar Marta?
246
— O que quer aqui, estão falando que você vende drogas pa-
ra meu filho.
— Vim conversar, já que preciso de sua autorização para o
que acabo de fazer a força na praça.
— O que fez, meu filho está bem?
— Alguns amigos colocaram aqueles traficantes para correr e
estão o conduzindo a uma clinica de recuperação Marta, ele está
tão distante que não se acharia.
— Se arrependeu?
— Marta, eu estou tentando ajudar, mas eu nunca vendi dro-
gas para seu filho.
— Não é o que o Pastor Ricardo falou.
— Senhora, eu não sei o que aconteceu, mas quem deu di-
nheiro ao seu filho foi o pastor, porque não sei, voltei hoje a cidade,
e apenas resolvi ajudar, mas se não quer, eu lavo minhas mãos.
Dara estava ao meu lado e a senhora olha para ela;
— Você que é a namorada dele que todos estão falando?
— Não, cheguei tarde senhora.
— E quem é a pessoa que dizem estar agitando a cidade, e
que está ao lado deste dai.
— Ele estava fora da cidade senhora, com Jessica, a namora-
da, ela não poderia estar agitando.
— Outra maluca, era da Igreja, e se afastou a uns 4 anos, um
casal de maluco, mas ela é uma criança.
— Sim, mas quer que ajudemos seu filho senhora, ou não? –
Falei para acabar com aquela fofoca.
— Em que clinica meu filho foi colocado?
Estiquei o cartão para ela e falei;
— Tem de fazer o cadastro dele lá, até amanha cedo, se não
fizer eles vão o por na rua novamente.
Comecei a sair, não queria discutir, pelo jeito todos haviam
falado horrores de mim nesta ausência e não sabia ainda o que fa-
ria, estava pensando, e nada parecia o caminho.
Dara se põem ao meu lado e pergunta;
— Vamos onde?
— Enfrentar a sogra.
— Não a enfrentou ainda?
247
— Não, não sei ao certo o que o pastor falou de mim, mas é o
melhor lugar para descobrir.
— E se sua Kekinha se deixar levar pela propaganda.
A olhei e sorri, não comentaria as pontas de inveja na aura
dela, olhei em volta e falei.
— Dara, ainda não sei o problema, mas pelo que entendi,
apenas desviei a atenção, não acredito que algo que estava em Pon-
ta Grossa fosse o nosso problema.
— E qual seria o problema?
— Não sei, onde esta a pequena Thamis?
— Estava ali como um lobo, mas não deve ter notado.
— Pensei que ela viria junto, mas ficou lá olhando os demais
caídos?
— Ela faz parte do seu bairro, conhece este pessoal, sabe dis-
to, ela tem pena deles, não consegue atacar.
— Acho que não é isto, mas... – Paramos a porta da casa de
Jessica e bati palmas – A senhora parece na porta e fala gritado.
— Não é bem vindo aqui.
— Posso saber porque senhora?
— Porque você é um mal exemplo.
— Certo, vou estar na Dina, sei que não vai avisar Keka, mas
ela já ouviu, e senhora, não posso ser culpado de coisas que não fiz,
e que estava ao lado de sua filha, quando aconteceram, para de
idiotice, não lhe cai bem.
— Não sou idiota.
Eu já estava dando as costas e saindo, sabia que se estavam
discutindo não ficaria, vi uma moça surgir a minha frente, e falar;
— Quem é esta?
— Dara de Buzau, como está Nane?
— Pensei que iria forçar a entrada.
— Não preciso isto, vi o estrago que minha estada longe fez,
mas Jock perguntou de você, parece meio perdido, não vai mesmo
ajudar o pessoal e ficar de fora desta aventura Nane?
— Não entendi ainda o problema?
— O problema também não, mas vieram a vida novamente 3
das matriarcas dos Manás, mais de 100 Guairacás e mais de 200
Yawara, os Tudor tem um representante em Dara ao meu lado, Lility
248
está a cidade em carne, atrelada a minha vida, e todos estão apenas
olhando para mim, falando que fiz coisas que não teria como fazer,
sinal que terei problemas com o delegado, mais problemas, mas
estes são físicos, não entendo quase nada ainda Nane.
— Se Wasser estivesse aqui para perguntar, mas pelo jeito
entrou nesta historia também João.
— Sim, mas o que o Pastor está espalhando?
— Que você roubou aquela atrapalhada da Thamis da casa
dela. E que está a mantendo longe dos olhos para não despertar a
fúria e nem a justiça local.
— Sinal que ele quer saber onde ela está, será que ele enfren-
taria uma Guairacá, agora com os dons despertados Nane?
— Não, ele não enfrentaria.
— Mas porque sua tia está tão brava?
— Keka não falou que passaria perigo.
— E algo ameaça ela, eu estou um caco e ela está inteira.
— Ela está lá tirando o couro dela, querendo saber oque
acontece entre vocês dois.
— Ninguém foi lá para passar perigo, e passamos. Mas o que
aconteceu entre nós é e continua sendo apenas entre nós.
— Se ela não abrir a boca! – Dara.
— O que ela está fazendo ao seu lado?
— Fui lá conversar, mas se não podemos conversar, vamos
comer uma pizza, aproveitando que ela tem dinheiro para pagar a
conta e conversamos.
— E como Jock está?
— Ele sempre foi meio perdido mesmo, mas parece que está
estranhando, parte dos Laikans desceram a serra, com Sacis, Manás,
Iaras, e outros seres que não conheço.
— Mas eles não me parecem estar fugindo? – Nane.
— Sei que entende mais disto que nós Nane, mas quando os
que entendem ficam de fora, sobra para o que não entende, eu.
— Sabe que aquele Pedro está lá em casa.
— Sei que ele é gente de bem Nane, você sabe disto, por si-
nal, pensei que você ficaria com ele, não Keka.
— Estou tentando entender onde o problema está.
— Pega sua prima e nos encontra na Dina, lá na Izaac.
249
— Vou lá falar com ela, não estranhe se Pedro aparecer junto.
— Eu não temo o que não posso controlar Nane, eu temo o
que posso e não controlo.
— E onde está aquela maluca da Thamis? – Nane.
— Se entendi, na praça cuidando daquele lixo do Diguinho.
— Porque, algo o feriu, você bateu nele?
— Mordida de Moroi, para minha infelicidade não faz nin-
guém virar Moroi, como nas lendas, mas bem poderia, um Moroi
viciado em cocaína ia ser estranho.
— Você o mordeu? – Nane olhando para Dara.
Dara sorriu e falou me olhando;
— Como podem seres assim serem os dos escritos?
— J.J.Gremmelmaier não os conhece Dara, ele realmente sen-
te a historia, mas não conhece ninguém por aqui.
Nos despedimos e caminhamos até a Rua Izaac Ferreira da
Cruz, alguns estranham, muitas vezes me perguntam porque dentro
do bairro não pego ônibus, sou assim, prefiro conhecer, ser quem
sou, do que ficar indo de carro a lugares que não preciso.
Entramos na pizzaria e sentamos a frente, de frente as janelas
para a rua, se via o terminal do Sitio Cercado do outro lado da rua,
Dara me olha e pergunta.
— O que está pensando?
— Querendo agradecer seu avô por ter me ajudado em Ponta
Grossa, estava sem saída e ele apontou a saída, mas ainda penso
sobre tudo que quero fazer, e sei que algo virá a nós, mesmo não
sabendo oque, os caminhos estão ainda atraindo a mim, em linha
reta estou quase no limite de Diana, o que quer dizer, ela deve estar
incomodada e vir também.
— Qual o desafio então?
— Descobrir o que temos de fazer. – Falei, chamando o gar-
çom, pedi uma cerveja e uma pizza, queria pensar e beber, sabia
que estava começando a provocar.
Estava pensando, algo me indicava o caminho, e tinha duvida
de como o tomar, tinha algumas perguntas a fazer, a esclarecer
antes de tudo, mas algo me dizia que precisaria me organizar e olhei
para Dara.

250
— Dara, o problema é que preciso reagir, e ao mesmo tempo,
não aparentar que quero reagir, não posso distorcer realidades, não
devo tirar de mim o peso, mas para isto preciso de ajuda.
— O que precisa, fica enrolando.
— Vamos descer a serra amanha, mas preciso terminar de es-
vaziar a Fundação Cultural de Ponta Grossa, preciso saber o que
tinha lá, de um lugar onde possamos dispor de 4 peças da coleção, e
provavelmente indagar a presença que não sei indagar.
— Quem vai evocar?
— Amaná.
— A deusa pagã?
— Sim, a deusa de lobos, Yawaras, Manás e Morois.
— Ela não é nossa Deusa.
— Então está tudo perdido Dara.
— Não é tão fácil crer em algo assim.
— Não pedi ainda que creia, um amigo meu diria que crer é
para não conhecedores, os verdadeiros escolhidos, sabem da exis-
tência, não creem na existência da Deusa.
Joni bate no vidro e faço sinal para entrar, ele dá a volta e
comparece a mesa.
— Me assustou com aquele papo de arma.
— Mudei de ideia, mas onde estão os senhores que vieram a
Curitiba Joni? – Perguntei olhando ele.
— Todos assustados, estão na casa de Moreira em Tijucas.
— E temos autorização de ir lá ou vamos ter de olhar eles de
longe? – Perguntei.
— Ele quer lhe falar, não entendeu, ele falou que aquilo valia
quase o valor de peças que ele tinha a sala da biblioteca que tem
em casa.
— Quase, um bom sinal, é menos do que pensei que valia,
menos mortes no caminho.
— Mas o que você achou, estão chegando especialistas vin-
dos de São Paulo e Rio de Janeiro amanha cedo a cidade.
— Nem eu sei ao certo, vi poucas peças, mas preciso saber,
guardou as peças que vieram antes?
— Sim, estão na cobertura no Cabral.
— Espero que tenha segurança lá.
251
— Do jeito que as coisas estão, tem tanta gente me olhando
que não posso nem trabalhar direito.
— Você trabalhou até os 26 anos Joni, depois viveu a vida.
— Não reclamo dela não, mas o que está esperando?
— As confusões chegarem, para ir até pelo jeito seu aparta-
mento e depois até a casa de Moreira, para amanhecer em Porto de
Cima.
— Pelo jeito teremos uma noite longa.
— Pelo jeito sim. – Respondi.
Dara me olha e pergunta;
— E vai ter festa hoje ou só problemas?
— Sei lá, deixar claro que não sei o problema, já falei isto tan-
tas vezes, que pareço um papagaio falando, estou juntando peças,
vamos ver se desta vez uns seres surgem na historia.
— Uns seres? – Joni.
— Alguém que possa ajudar, pois não sei ao certo o que va-
mos fazer, não sei se devemos avançar sem entender.
— Por quê? – Dara.
— Porque os deuses são diferentes, estranho uma historia
parecer a mesma, mas os personagens terem representações, no-
mes, sexualidade diferente.
— E quem acha que vai entrar na historia? – Dara.
Vi Pedro Rosa me olhar, para mim uma criança aos olhos, ele
não tinha mais de 19 anos, ele estava a calçada, ao seu lado, um
senhor, Jorge, uma boa surpresa finalmente, ao lado dele, uma mo-
ça, não sei se era quem pensei, mas se fosse, teria de entender o
que eles queriam.
Eles deram a volta e Pedro chega a minha frente e fala;
— João, este é Jorge, não sei se conhece?
— A fama, e a moça?
Pedro olha em volta olha a mesa e fala;
— Dalma.
Estiquei a mão para a moça e falei;
— Calma, ninguém aqui está tentando lhe ferir, embora não
acredite que conseguisse, sou Joao Jorge Gomes, agora curioso, pois
não esperava duas lendas a mesa.

252
A moça me sorri, vi a gola levantada, evitei olhar, mas Dalma,
era a famosa Bruxa de Piraquara, nada haver com bruxas como você
conhece, ela enfrentou ao lado de Pedro e Jorge a mesa, Magog em
carne, não sei o que foi este desafio, como humano, vemos apensa
as reportagens após, corpos achados em uma área abandonada,
barragens estouradas, vendaval que derrubou meia cidade, filma-
gens distorcidas de uma realidade desmentida pelos especialistas, a
vantagem das coisas hoje, é que se você quer que desmintam, afir-
me ser real e todos provarão que não é.
Jorge atualmente é um dono de Jornal, assim como Pedro Ro-
sa a minha frente, somente olhando para ele para entender o rosto
dele, pois ele foi acusado de matar e esquartejar dois corpos, man-
dado para a Penitenciaria de Piraquara, sobreviveu, mas em seu
rosto, milhares de cicatrizes, agora menos visíveis, mas que desta-
cam seu rosto como único, alguém que sorri, e parece não se preo-
cupar com as cicatrizes.
— Viemos pois sentimos e vimos amigos descendo o antigo
caminho de Itupava, na serra, no sentido do Marumbi, não sabemos
se existe ameaça, mas como a serra do mar foi sempre um caminho
de retorno de Magog, precisamos nos inteirar. – Jorge.
— Acredito que não seja Magog querendo voltar, acredito
que seja algo a ser revelado, não sei nem se não tem haver com
Magog, algo que ela deixou presa para ganhar força. – Falei.
— Algo? – Jorge.
— Jorge, quando se fala em Manás, se falava nas 8 mães, as
matriarcas da família, achei 3 delas presas em uma maldição de
Bruxa em Ponta Grossa, estranhamente, as que vieram neste senti-
do, foram também no sentido do Marumbi, uma delas seria sufici-
ente para deixar um recado do Eterno, ou um caminho de volta, ou
uma duvida na força de um povo como o Maná ao ponto de os do-
minar.
— Este é o problema? – Jonas.
— Não, apenas estão fugindo para um lugar que eles sentem-
se seguros, mesmo sem entender porque, mas o problema vai se
desenvolver sobre os gramados entre Curitiba e Fazenda Rio Gran-
de, acredito que do lado de lá, não em Curitiba.
— Mas qual é o problema? – Joni.
253
Sorri, olhei a cara de descontente de Jessica ao fundo de Joni,
ele deve ter pensado que era para ele, quem manda estar ao lado
da janela, e alguém estar as suas costas.
Ao lado dela vinham duas pessoas, Thamis e Mariane, a Nane,
então o grupo estava ficando perigoso. Sorri do meu pensamento.
Joni quando viu que meu movimento de olhos saiu dele para
continuar em algo, se vira e sorri, vi que o outro Pedro veio junto, e
falei.
— Eu não sei Joni qual o problema, como alguns falaram, o
Eterno não junta tantos para não existir problema, não me faria ir a
Ponta Grossa tirar de uma maldição de mais de 200 anos, mais de
300 seres entre Manás, Guairacás e Yawaras se não fosse para es-
tarmos fortes, pior, todos caminham no sentido de Curitiba, mesmo
pensando que alguns iriam ao Interior.
— Yawaras? – Dalma.
Eu olhei os seres translúcidos, os demais não pareciam os ver,
mas vi que Dalma os olha, me olha e fala;
— Viu Jock por ai? – Dalma.
— Sim, está por perto. Mas o que sabe sobre os Yawaras, pois
a única pessoa que me falou sobre eles, foi Jessica Duarte, que está
chegando ai, que disse ver almas de alguns na porta da entrada de
Entre Mundos do Cemitério de Cães.
Dalma olha para trás, conhecia a menina, estava crescendo,
mas a mesma menina.
— Os gatos tem uma lenda sobre os gatos maiores, nunca en-
tendi, mas os Laikans sempre acreditaram que os Yawaras tinham se
extinto, que algo havia preso suas almas, algo recente para eles,
menos de 300 anos, Jock gostaria de ver que eles ainda existem.
— Não sei, eles pareciam espíritos andando, como os Laikans,
não pareciam seres, e sim espíritos.
— Eles são carne quando preciso, espirito quando precisam,
pode ter certeza João, eles se quiserem, pode se aparentar com
humanos, não são espíritos.
Vi Jessica olhar para Dara, estávamos em meio a uma reunião
de para descobrir o caminho a tomar e o olhar e a aura dela me
diziam “ciúmes”, olhei para a de Pedro, o que veio com ela, e pare-
cia confiante, olhei para ela e falei.
254
— Demorou, estava onde que demorou tanto?
— Sabe onde estava, não entrou, mas já bebendo?
Fiz sinal para o garçom e falei;
— Quem tá pagando é o Joni, vou aproveitar.
— Eu? – Joni como se sendo surpreendido.
Pedi mais duas pizzas, e mais umas 4 cervejas e uns dois refri-
gerantes.
Jessica sentou-se do outro lado da mesa e Pedro sentou-se ao
seu lado e Nane sentou-se ao meu lado.
— Do que falam?
— Conhece Dalma? – Perguntei a Nane.
— Tudo bem Dalma? – Nane a olhando.
— Cada momento mais poder a mesa, e fico mais intrigada, o
que pretendem fazer? – Dalma.
— Olhar umas peças e gostaria que me falasse sobre elas, se
elas lhe significam algo?
Pedro Rosa me olha depois de olhar o Telefone e fala;
— Sabe o problema que está gerando?
— Sim, mas Pedro, eu não entendi o problema, quando se vai
a alguns lugares, é para olhar, não para ver um quadro de 50 mi-
lhões de Dólares, parece uma força forte tentando desviar parte do
que conseguimos.
Olhei os olhos de Joni, ele estava interessado nas peças, ago-
ra ouvindo milhões, ele grudou os olhos em mim, sem ele saber,
pedi para Pedro Rosa esvaziar o prédio dele, tirar de lá as peças, não
sei quanto tempo demoraria para ele receber esta noticia, mas sou-
be que havia uma oferta de duas das peças no mercado de peças
artísticas, mercado de peças roubadas, vindas dele, não queria que
sumissem, estava criando ou ressaltando uma briga, mas não pode-
ria deixar isto sumir agora, coisas que não deveriam sumir sumiram,
mas as 4 estatuas básicas não poderia deixar sumir.
Então sentado, tomando uma cerveja, vi que Jessica se man-
teve longe, o olhar de posse de Pedro sobre ela, era algo que me
incomodava, eu a amava, mas odiava este tipo de situação, ela iria
conseguir o que queria, me distrair, estava tentando ignorar e não
estava dando certo.
Olho para Nane e pergunto;
255
— Quando fizeram o evento em Morretes, Frock realmente
se manifestou?
Nane me olha e pergunta;
— Não entendo a importância.
— Também não, mas todos os cães, lobos, felinos, estão sen-
do atraídos para aquela região, dai as demais forças começam a
sentir aquela sensação boa de região protegida e começam a ir para
lá, porque isto está acontecendo lá, e o que isto tem haver com o
que temos aqui?
— O que temos aqui? – Jessica.
— Digamos que uma força descomunal está começando a se
soltar, eu não a sinto, mas ela está sobre o sul da cidade, esta força,
vai gerar alguma coisa, mas esta mesma força, é capaz de afastar o
que ela acha importante, pois eles não estão fugindo, eles estão
indo para uma região e ficando lá, ignorando diferenças, regiona-
lismos, rixas antigas.
— Mas que tipo de força acha que vai surgir? – Nane.
— Não sei, este é o problema, todos os caminhos me afastam
da cidade, e todos me dizem, está ficando mais forte, é como se
todos soubessem, mas estivessem duvidando.
Pedro Rosa me olha.
— Qual o nível do problema João, estou tentando ajudar, mas
você não tem ajudado, parece cada dia com um problema diferente.
— Pedro Rosa, como dizem, você na mesa, é o único que se o
mundo fosse acabar em segundos e fosse avisado, sairia vivo, então
tem de ter calma, não sei, o que mais está acontecendo, porque
está acontecendo?
— Olhou todos os problemas ou ainda está os gerando?
— Ampliando, mas qual a sua posição Pedro?
Ele me sorri, aquela aura estável e calma, me dava inseguran-
ça, e sorri.
— Tem de ver que não confio em todos, mas tem um rapaz
chegando ai, e não vai facilitar nada.
— Alguém? – Perguntei e ouvi o estalo de algo metálico do
lado de fora, vi aquele imenso avatar surgir a calçada, quer dizer, vi
parte da perna dele, muitos saem para fora para olhar, os da rua,
dos carros, dos ônibus, olham aquela imensa maquina de guerra na
256
forma de um guerreiro mecânico a porta, todos ouvem o estalar do
abrir de algo e vejo um rapaz vir de cima, como se tivesse saltado a
rua, da parte alta, ele olha para Pedro e entra.
Pedro me olha e fala;
— João, este é Kevin Pereira!
Estiquei a mão, o rapaz não deveria ter 17 anos, e falei;
— Sabe parar um lugar com sua chegada.
— Vim conversar João, soube que algumas coisas estão erra-
das, sei que Pedro Rosa ao seu lado não é de pedir ajuda, mas que-
ria lhe falar.
— Fala.
— Acha bom abrir assim as coisas?
— É grave? – Perguntei, pois estava diante de uma lenda, a
minha frente, me falado que precisava me falar.
Ele olhou em volta e vi um segundo avatar surgir na calçada,
o negocio começava a chamar atenção, sabia que em pouco tempo
teria policia local, e coisas assim por ali, ninguém saiu do grande
avatar a porta, mas imaginava que deveria ser Mary, a namorada de
Kevin a minha frente.
— Vamos a uma mesa mais para dentro, sentamos e conver-
samos. – Falei.
Pedro olha para Kevin, a aura dizia que existia uma rixa entre
os dois, não queria por isto em ação e olhei Pedro.
— Depois conversamos, e vemos o que faremos.
Ele sorriu e Kevin me olha desconfiado.
Sentamos em uma mesa na parte alta do fundo da pizzaria.
— O que quer falar? – Fui direto.
— João, não nos conhecemos, crescemos nas mesmas ruas,
frequentamos os mesmos lugares, mas nunca nos falamos, sabe
disto.
— Sim, mas agora você é Crazy for Salt e eu apenas um João,
não sei me portar diante de tanta lenda, e surge mais uma.
Ele olhou em volta e falou;
— João, quando a 3 anos, tivemos de defender a existência,
em outro mundo, um grande segredo eu escondi por baixo dos
gramados da divisa de Curitiba e Fazenda Rio Grande, meu alerta, é
tentar não despertar aquilo.
257
— Aquilo?
— Somente vendo para entender.
— Veio para me tirar daqui?
— Brevemente, gostaria que entendesse o que acho que está
atraindo para cá o problema.
Me levantei e olhei para Jessica, ela soube que sairia, não sei
se ela conhecia Kevin, nunca entendi a historia dele, pois não cabe
na cidade que vivo, conheço a lenda, conheço as aparições, o conto,
mas não a verdade.
Saímos dali, muitos me olharam sair, olhei ele me dar a mão,
não entendi, mas senti tudo meio turvo e me vi surgir dentro da
maquina, a volta, comandos, olho o rapaz e ele estava com braços e
pernas em comandos, e senti o empuxo, olhei para baixo a rua se
afastando, vi o avatar surgir ao lado no ar e em segundos estávamos
pousando sobre um gramado no sul da cidade, se via ao longe o rio
Iguaçu, se via o vale de exploração de areia, via-se as luzes a toda
volta, senti o avatar começar a afundar, estava olhando ao fundo e
não notei o piso se abrir e afundar.
Paramos e vi o rapaz me olhar;
— João Gomes, esta base não existe oficialmente, toda vez
que souberam da existência de alguma estrutura de sobrevivência
os demais tentam a desativar, mais por medo que por razão.
Vi que ele me esticou a mão e o avatar se abrir e surgirmos no
chão.
Vi a moça parar a nossa frente:
— Este é o senhor Kevin?
— Sim, João, está e Mary, viemos aqui para que entendesse
que acima de nós, quando do renascimento de Wasser na cidade, se
concentrou graças a energia contida nos cristais, mais de 30 mil
seres, de varias espécies, observamos aqui debaixo, achando que
eles nos perceberiam, que perceberiam de onde vinha parte da
energia, mas não, não viram.
— Acha que eles vieram aqui pela energia que tem aqui?
— Achamos que sim. – Mary.
Olhei em volta, se via a toda volta autômatos a parede, estra-
nho o lugar, as paredes pareciam de cristal, avermelhado, dava uma

258
sensação estranha, olhei minhas mãos, pareciam mais avermelha-
das, não tinha noção da profundidade que estava, e perguntei.
— E que profundidade está esta base?
— Uns 200 metros da superfície. – Mary.
— Acredito Kevin, que todos estão tentando descobrir o que
está acontecendo, mas desconfio que não foi esta sua base que
atraiu para cá o problema, e não se assuste, acredito que novamen-
te teremos muitos seres que se reunirão nesta região.
— Motivo?
— Não sei, estou tentando descobri, mas tá difícil de montar
as peças, mas obrigado por observar, mas preciso saber, seus ins-
trumentos sentem alguma energia em volta?
Mary olha Kevin, eles não falaram nada, mas vi o rapaz chegar
a um controle e clicar num painel, não entendi a pergunta, estava
em uma língua que ignorava.
Vi que um painel baixou e ele me olhou;
— Sim, tem uma fonte de energia local, não é nosso, mas es-
tou tentando identificar de onde vem, pois parece estar sobre o
local.
O gráfico mostrava uma grande área, que se esticava para o
sul, em um circulo perfeito, olho minha casa no gráfico, não falei
nada, e olho para o sul, uma área de mais de 10 quilômetros de
raio, muito grande, algo grande e perguntei.
— Tem a forma desta energia, não sei se o seu sistema con-
segue identificar, pois para mim só o gráfico me serve, a linguagem
é estranha.
— Linguagem Claues Magenta, mas diz no sistema uma pala-
vra que é proibida em muitos mundos.
— Palavra? – Mary e eu quase juntos.
— Magia seria a tradução.
— Tem certeza? – Perguntei descrente.
— João, quando se fala em Claues, que é como todo o univer-
so chama esta linha evolutiva de primatas, eles temem certas pala-
vras, Magia é algo que define para eles algumas coisas, o poder do
cristal quando interage com alguém, como o que fiz a pouco, po-
dendo desmaterializar-me e surgir pela programação e energia do
cristal onde quero, eles chamam de magia, mas eles chamam a
259
energia vital de um universo de magia, e tudo que eles não compre-
endem de magia, eles não creem em Deus, pois esta ideia para eles
parece sem sentido.
— Então Magia para eles pode ser algo até divino.
— Sim, mas esta proteção, ou esta magia como o sistema fa-
la, vem de alguém, algo protegendo a região, e realmente, não vem
de nós e sim de algo a mais.
— Vou ter de descobrir o que é isto antes que isto se mani-
feste, mas obrigado por ficarem de olho.
— Sempre ficamos, mesmo de longe, hoje foi mais para dei-
xar claro que estamos olhando e prestando atenção.
— Obrigado, mas tenho de voltar lá.
Vi o rapaz chegar a mim e me tocar o ombro, não sei o que
ele fez, mas vi meu corpo surgir no restaurante, olhei em volta, al-
guns se assustaram e olhei a mesa.
Caminhei com calma e olhei para Pedro Rosa.
— Ele está confundindo as coisas Pedro.
— Onde ele está?
— Sei lá, nem sei como algo assim pode acontecer, alguém
lhe transportar para onde bem entende.
— Tecnologia, proibida, mas existente. – Pedro me olhando.
— Como está a confusão?
Pedro olha a mesa e fala;
— Tem de ver que nem todos sabem o que fazem aqui, mas
você deve saber.
— Pedro, onde foi Joni?
— Recebeu uma ligação e saiu correndo.
— Então vou ter de fazer uma vaquinha e parar a festa! – Fa-
lei olhando para o rapaz.
— Ele deixou uma parte paga, mas vamos fazer oque?
— Nem sei chegar de dia naquela casa de Moreira, será que
ele nos receberia a noite?
— Ele nos espera lá, assim que achar que podemos, vamos.
— Agora seria o melhor momento. Mas me dá um momento.
Chego a mesa e olho para Dara e pergunto;
— Vai conosco na casa do Moreira?
— Porque a dúvida.
260
Olhei para Dalma e Jorge perguntei:
— Vão com a gente?
— Sim, queremos conversar.
Olhei para Jessica e Nane e perguntei;
— E vocês, vão ou não?
— Acho que não entendeu nada João! – Jessica.
— Eu não vou discutir isto, mas vão?
— Sim.
Olhei para Pedro e falei;
— Como podemos chegar lá rápido?
Vi Pedro pegar um celular e ouvi Thamis perguntar;
— Não vai me convidar?
— Você vai junto, não está em discussão. – Respondi firme e
no lugar dela reclamar sorriu e falou.
— As vezes não entendo vocês.
— Quando alguém entender, sinal que já me compliquei.
Acertamos a conta e na rotula de carros mais a frente, vi um
imenso helicóptero descer, olhei para fora e vi Diana e falei;
— Pensei que tinha esquecido de vir?
— Não me convidou, onde vamos?
Apontei o helicóptero, e saímos no sentido de Tijucas do Sul,
região metropolitana, a noite, desviando a oeste fazendo um grande
circulo de oeste para leste, para evitar o trafico do aeroporto de São
Jose dos Pinhais, vi aquela imensa casa, a luz interna a transformava
em uma imensa armação metálica com vidros, abraçando a monta-
nha, não se via a antiga pedreira que diziam existir ali, pois a casa
abraçava todo o vão da montanha.
Descemos em um heliporto, os rostos de encanto, o rosto de
Jessica me olhando.
— Vai me explicar?
— Não entendi Pedro ai ao seu lado.
— Sabe que minha mãe acalma com ele aqui.
— Eu não, está conseguindo menina, me tirando o foco.
— Tem de entender João.
— Entender?
— Ele é um disfarce, todos estão falando mal de você, quer
oque, que ela me proíba de sair.
261
— Ela nem quando se aventurava na fazenda de Wasser lhe
proibiu isto.
— Pensei que entenderia.
Ela apressou o passo e entrou na casa, eu olhei para cima, era
imensa aquela casa olhando de fora e Dalma chega ao meu lado e
pergunta;
— Qual o perigo?
— Dalma, eu não entendi ainda, mas algo vai despertar, algo
vai gerar algo que se não controlado, pode ser bem perigoso.
— Não entendi.
— Dalma, fica atenta, acho que o problema serei eu, mas eu
não sinto, não sou ainda nada, mas o que aconteceria se alguém
como eu, recebesse uma energia que me é determinada, para uma
batalha e me recusar a batalhar?
— Porque se recusaria?
— Acha que sou melhor que qualquer a volta, não me acho, o
mais imprestável, sei que podem achar normal uma guerra, eu não
quero uma guerra, e pelo jeito, não terei paz.
Jorge olha-me e pergunta;
— Sabe que não tememos matar inimigos.
— Então não bobeiem, e se acontecer, que seja rápido.
— E porque você correria atrás do problema se você é o pro-
blema? – Jorge.
Olhei ele, ele abraça Dalma, um casal estranho, mas sentia-se
o carinho de um pelo outro, olhei para a porta ao longe, vi Moreira
recebendo os demais e falei.
— Apenas alertando de uma das possibilidades, alguém tem
de pensar nesta possibilidade, pois não achei ainda algo que pudes-
se criar tamanha força, e ao mesmo tempo, não a sinto.
Os dois se olham e começo a caminhar, uma entrada suspen-
sa sobre um pequenos foço, entre a grama verde da frente do ter-
reno e aquela casa imensa, olho para Moreira e pergunto.
— Desculpa a demora Moreira e o horário.
— Soube que até aquela criança do Kevin se meteu nesta his-
toria.
— Ele achava que poderia ajudar, mas o coloquei para fora do
problema Moreira, já temos gente demais.
262
Ele olha os demais, faz sinal para entrarmos e fomos a parte
interna onde ele apresentou a esposa, vi o delegado mais ao fundo,
estavam a sala, parei olhando aquela imensa queda d’agua em meio
a sala, saia de uma parede de pedras de mais de 40 metros de altu-
ra, e caia numa piscina em plena sala.
As vezes paramos em uma imagem e nos deparamos com al-
guém nos esticando a mão.
— Veio, como estão as coisas?
— Confusas, amanha teremos problemas na cidade, então es-
tão em um lugar seguro, tenho de resolver isto para que possamos
entender onde tudo acaba.
— O senhor Moreira nos recebeu bem, esta casa é imensa, de
se perder mesmo, mas ele isolou as peças, um pessoa que ele trou-
xe do Rio de Janeiro está isolando e limpando as peças, não sabe-
mos ainda a situação, mas talvez tenhamos realmente uma soma de
quadros que em teoria sumiram em algumas guerras do século 19.
— E o pessoal, chegou todos?
— Sim, até minha esposa veio, está cuidando das crianças em
um dos quartos, mas o que quer conversar.
Olhei para Moreira que me fala;
— Qual a ideia?
A hora seguinte foi de ajeitar as coisas, de arrumar as estrutu-
ras, tinha naquela casa um teatro para duzentas pessoas, nem pre-
cisávamos de muito.
As pessoas foram entrando e Moreira me perguntou;
— Pensei que Joni estaria aqui.
— Este nosso amigo sempre é pouco confiável Moreira, ele
tentou desviar algumas peças que achamos, não sei se conseguiu,
mas enquanto aquele menino, Kevin me distraia, ele sumiu.
— Ele está chegando ai, ele parece totalmente perdido.
— Lá vem armação. – Falei vendo Thamis vir rápido em meu
sentido.
As pessoas se ajeitando e ela sobe no pequeno palco, onde
sentei e parou a minha frente.
— Não entendo, quando acho que não terei você, está sozi-
nho, e não está me dando bola.
— Thamis, nosso problema ainda nem começou.
263
— Vai me gelar porque fiquei dando atenção para Diguinho?
— Ainda bem que sabe o problema, mas senta-se lá, aqui é
apenas encenação.
Vi Joni sentar ao fundo, ele não chegou perto, e liguei o proje-
tor e comecei a falar, que havíamos encontrado peças como aquelas
em tuneis de terra por baixo de Ponta Grossa, que estes eram repli-
cas em metal de algo que os indígenas faziam em cerâmica como
parte de um ritual religioso.
Vi que Diana ficou prestando atenção.
Expliquei que estas peças precisariam ser analisadas, mas es-
tavam na casa de um amigo, e que sairia de lá apenas quando fosse
seguro.
Comecei a falar sobre as obras encontradas e que Moreira me
passara o estado, bem maltratadas, algumas perca quase total, e
por fim as obras que eram tidas como parte do patrimônio de um
Pirata que viveu em Curitiba no século 19, o que havíamos encon-
trado em um túnel, mostrei a imagem para os demais, estava espe-
rando que algo acontecesse, como digo, sempre espero que algo
me guie, mas começava a duvidar que precisava ter ido naquele
ponto, as peças estando seguras, não me preocuparia.
Olho a porta e vejo Moreira olhando para o segurança, sorrio
e vi ele pegar uma arma e sair, apenas encostou a porta e saiu.
Poucos viram isto, olhei para os demais e Dalma perguntou;
— Porque queria que viéssemos?
— Na verdade não queria perder ninguém dos olhos, pois es-
tamos na sexta, segunda feira quero ter resolvido isto, e ter todos
aos olhos facilita, mas algo me diz que não será como quero.
— Porque não? – Jessica.
Senti o toque no braço, estranhei pois vi todos olharem para
o meu lado, olhei para o menino surgir ao meu lado, desviei os
olhos, ele brilhava intensamente, vi em minha mente que os segu-
ranças da casa estavam cercados, um grupo bem armado, olho os
demais, depois vi os quadros sumindo um a um e surgirem replicas
no lugar, estranho, o pequeno Arcanjo sorri e vendo novamente a
casa sendo cercada falo.
— Esperem aqui, é mais seguro.

264
Sai pela porta, fiz sinal para o segurança reter os demais, olho
para o corredor que dava para a sala, escavada na pedra, o lugar era
seguro, acelero o passo e chego a sala e olho para os seguranças e
olho para Moreira e falo.
— Mantem a calma Moreira, protege os demais.
— Quem são estes?
Não respondi, eu não tinha certeza, a imagem ainda vinha a
minha mente, embora o menino não estivesse ali mais, olho para a
saída, e após abrir a porta vejo dois helicópteros no ar e uma leva
de carros parados ao fundo, um bando de armas apontando para
mim.
Não sabia quem atiraria, mas sempre que entro em algo as-
sim, sei que acabo ferido, então sempre me coloco a frente, olho
para o grupo e pergunto.
— Alguém ai quer receber o salario no fim do mês, pois este
Oliveira se continuar a me encher o saco, termina a semana falido.
Um rapaz destravou a arma e ouvi uma leva de destravas, não
olhava as costas, mas sabia que se alguém começasse, eu morreria
ali.
Vi um senhor vir do fundo e falar em um alto-falante:
— Sua casa?
— Não é tão mal informado seu Oliveira.
— Me informaram que minhas peças estão nesta casa.
— E demorou tanto por quê?
— Vai me devolver?
— Senhor, ainda não veio conversar, quando vier, conversa-
remos, mas se acha que vou devolver apenas porque tem uma leva
de armas miradas em mim, por um bando de mortos, pois se eles
não sabem quem dá segurança a casa, posso apostar, eu morro,
eles na sequencia, e tudo por mais dinheiro senhor Oliveira.
— Eles são os melhores.
Olhei em volta e falei alto;
— Se querem morrer, é só dar um primeiro tiro, eu não me
preocupo se levarei tiros, mas podem ter certeza, vai feder.
O senhor olha para mim e fala;
— Vamos entrar.

265
Ouvi o primeiro tiro, nem sei de onde veio tanto tiro, estava
estático, vi lança misseis trazerem os helicópteros ao chão, vi armas
tiros em braços, pernas, e alguns atingiam a lamina de vidro da pa-
rede externa da casa, a película não deixava ela estourar, mas ia
deixando furos em todo caminho.
O senhor que me olhava, vê os seus sendo abatidos, e me
olha, ouço o helicóptero estourar ao fundo, quando toca o chão.
— Acha que vou desistir disto?
— Quando vier conversar senhor Oliveira, sei que roubei o
senhor, mas quem manda deixar lá para ser achado, quem facilitou
foi o senhor, não eu.
— Nem sabia daquela entrada, os papeis diziam existir, mas
sempre duvidei.
— Então não reclama, pois sinal que nem foi o senhor que es-
colheu o lugar, sinal que estou roubando um ladrão.
— Não sei ainda quem é você, mas vou reaver meus quadros.
— Talvez isto aconteça senhor, mas não hoje.
Os seguranças da casa foram avançando, desarmando, e de-
pois de imobilizados, chegou uma leva de atendentes que fizeram
curativo nos que se deixaram tratar, alguns saem sangrando com
aquele senhor, que entrou em uma caminhonete bem ao fundo e
foi embora.
Moreira chega a mim e fala;
— Maluco, não sabe o risco de tomar um tiro?
Olho para mim mesmo, as vezes a adrenalina não nos faz
pensar ou sentir dor, mas incrivelmente nada havia me acertado,
algo realmente estava mudando, pois sempre colhi as consequên-
cias, sempre dizia que as balas vinham em minha direção mesmo eu
tentando não ser atingido.
Entro novamente e volto ao auditório, olho os demais e falo;
— Agora voltou a ser seguro.
O delegado me olha e fala;
— O que aconteceu?
— Uma troca de tiro entre os homens de Oliveira e a segu-
rança da casa, nada de mais, poucos feridos, para um enfrentamen-
to aberto.
— Ele já sabe que estamos aqui? – Delegado.
266
— Devem ter os seguido, ou me seguido, mas calma, a casa é
segura, e as peças vão ficar em segurança, mas sei que ainda terei
problema com este senhor, mas voltando ao assunto.
— Voltando? – Dara – O que era aquele menino que surgiu ao
seu lado, todos estávamos olhando para ele quando resolveu sair,
quem era e como posso confiar em alguém que tem um emissário
do Eterno, ao seu lado?
— Nunca pedi para me seguirem, se querem confiar, descon-
fiar, verei apenas como um obstáculo a mais, o menino, algo que
não entendo, uma coisa é falar, Nemahiah, outra entender, mas se
quer não confiar Dara, o que um senhor de 47 anos pode fazer,
diante disto?
— Uma coisa é falar, outra ver! – Dara.
— O que era aquilo? – Dalma.
— Aquilo era um anjo? – Thamis.
— Vai dizer que um anjo o protege? – Delegado.
Os olhos de Joni sobre mim sem palavras não era um bom in-
dicio, todos querendo respostas que eu não tinha, estanho como
algo assim muda a ênfase da discussão.
Olhei para Dalma e falei.
— Aquilo que surgiu, alguns chamam de Arcanjo Nemahiah,
ser angelical que tem como grande discórdia onde eles vivem, não
sei como definir aquele lugar, Gabriel, eu carregava até pouco tem-
po este estereotipo, este dom de Deus, sempre que algo acontecia,
o pior vinha sobre mim, mas algo mudou, não sei oque, mas não era
este o assunto.
— Acha que algo de que nível vai acontecer, pois o Eterno
não coloca um arcanjo ao lado de um humano, se nada fosse acon-
tecer.
Não sabia a resposta, mas ele se por um lado estava pondo
poderes a disposição estava colocando provações e falei;
— Dalma, para quem olha, parece que apenas forças do bem
estão dispostas, mas estão em jogo a ganancia, a influencia, o di-
nheiro que compra morte, devem se apresentar ainda outros limi-
tadores, mas não os conheci ainda.
— Limitadores? – Jessica.

267
— O senhor que nos atacou, você viu Jessica, tinha um con-
junto de pessoas com seres dos lagos, aprisionados, para enfrentar
os lobos, não é apena dinheiro, é poder, mas não entendi ainda
quem são estes seres.
A chamei de Jessica depois de alguns dias, não sei se ela no-
tou, mas a posição dela também estava me incomodando, vi que
Nane olhou para ela, não queria discutir.
— Quer dizer que quem nos atacou, atacou apensa com ar-
mas hoje, mas poderia faze-lo diferente? – Nane.
— Sim.
— Com oque? – Dalma.
— Nem ideia, sei o que vi, espécies de grandes serpentes, ou
algo assim sendo tiradas de sacos, os lobos, felinos e Yawaras recua-
ram, eles sabiam o que era, eu não tenho ideia.
Vi que Dara me olhou e não falou nada, sorri da aura dela, e
olhei para os demais e falei.
— Eu recomendava aos que vieram com a família, se mante-
rem na casa até segunda ordem, eles não sabem o que enfrentam,
nesta casa, por isto é um lugar seguro.
Pedro Rosa estava quieto, não sabia o que ele estava pensan-
do, muitos estavam me olhando, sai pela porta e fui a sala, do lado
de fora, as luzes mostravam o atendimento a feridos, alguns vidros
frontais começaram a ser trocados, mesmo a noite e olho para Mo-
reira.
— Se achar que não é seguro, estão sobre sua responsabili-
dade.
— Está na hora deles acalmarem, e você, vai para onde?
— Vou descer a serra, amanha cedo quero estar em Porto de
Cima em Morretes e começar a descobrir o problema.
— Acha que entendeu?
— Moreira, acredito que vou resolver o problema e alguém
vai me perguntar isto, eu não terei notado a mudança, mas as coisas
vão mudar, os demais vão relatar e quem sabe, esteja vivo no fim.
— E vai quando?
— Não sei ainda, estou abusando de Pedro Rosa, ele qualquer
hora me dá um pé na bunda.
Moreira sorriu e perguntou;
268
— Vai falar com o Joni?
— Moreira, um entre tantos dos que estão aqui entregaram
onde estavam as coisas, alguém e sei que tem como descobrir se foi
dentro da casa, então se não foi um dos que estão aqui, foi alguém
de fora, que sabia onde as peças estavam.
— Desconfiando dele?
— Ele não falou nada sobre o sumiço das peças, mas tirou a
venda do sistema de peças antigas em Paris, tem muito dinheiro em
jogo, preciso das peças, se depois quiserem vender, se matar, o
problema é de vocês, eu já não estarei por perto.
— Poucos conseguem voltar as suas vidas.
— A minha tá um caos mesmo, não preciso voltar para ela,
mas vou voltar à vida.
Sai pela porta vendo que os rapazes estavam sendo cuidados,
e que ao longe, tiravam os restos dos dois helicóptero, nem seria
narrado que isto aconteceu, não sabia o que fariam, mas com certe-
za, aqueles destroços surgiriam com corpos bem longe dali.
Fiquei pensando no que poderia fazer, senti alguém passar o
seu braço no meu, não olhei, pelo cheiro era Thamis, ela olha a ba-
gunça e pergunta.
— Vamos onde?
— Morretes.
— Fazer oque lá?
— Comer barreado e frutos do mar.
— Para isto não precisaríamos ir a Morretes.
A olhei e vi que duas pessoas vinham no mesmo sentido, não
olhei, estava estranhando, fechei os olhos, cheirei o ar, senti o chei-
ro e pude dizer onde estavam as coisas, as pessoas, Jessica e Pedro
que chegavam, cada cheiro a volta, olho no sentido dos que eram
atendidos e falo.
— Aprendeu alguma coisa com aquela Dara?
— Sim.
— Não sabia que sabia fazer isto?
— Isto? – Perguntei a olhando novamente.
— Sentir as coisas pelo cheiro, ela explicou que é uma forma
de defesa ou de ataque, saber usar isto nos aguça os demais senti-

269
dos, mas você acaba de fazer isto, não lembro de lhe ver fazendo
isto antes.
Olhei ela e falei.
— Fecha os olhos então e me diz, quantas pessoas nos cer-
cam?
— São muitas.
— Tenta e me diz se estou errado no que senti, sei que vocês
sabem fazer isto com mais naturalidade.
Ela fecha os olhos, não poderia saber o que ela sentiu, mas
ela olhou ao longe e falou;
— Ainda tem gente nos observando, gente armada, cheiro de
pólvora em suas roupas, os que atacaram ainda estão ao longe.
— Eles não sabem o que aconteceu Thamis, eles achavam
que estavam em maioria, e estavam, mas levaram um golpe certei-
ro.
— Como assim?
— Fecha os olhos novamente Thamis.
— Vai me ensinar algo?
— O cheiro ainda está no ar, começa a prestar atenção, e me
conta o que consegue perceber, tenta sobrepor os cheiros mais
ralos, e não esquece, quanto mais ralo, mais ao passado está indo,
quanto mais vivo, mais agora está.
Ela fechou os olhos e vi Pedro chegar perto e me olhar, Jessi-
ca ia falar algo e falei baixo;
— Só um momento.
Thamis ficou de olhos fechados, abriu eles e falou;
— Os demais chegaram com muitos, cheiro de combustível,
de ar removido, deve ser os helicópteros, eles cheiravam muito, e
achavam pelo inalar que seria fácil, pois estavam confiantes, não
estavam suando e nem cheirando medo quando chegaram, os rapa-
zes ao fundo estavam tão discretos junto as armações e aos pontos
de observação a volta, que seus cheiros passam quase desapercebi-
do, não consegui contar quantos, mas não tinha metade dos que
avançavam, os helicópteros avançam, eles não atiraram, mas ouve
uma grande, duas grandes explosões, deve ser o que os derrubou,
os tiros começam no mesmo momento, para cada 10 tiros perdido
dos rapazes que chegavam, a segurança deu um tiro, não foram
270
mais de 500 tiros, e o combate se encerrava, não entendi, seu chei-
ro estava ali, mas parecia que não estava.
— Está ficando boa nisto! – Falei olhando Pedro e Jessica.
— E o que os demais querem fazer agora?
— A treinando? – Jessica.
— Não, aprendendo, mas o que discutem lá dentro?
— Que os quadros não podem ficar sobre a guarda de Morei-
ra, que é muito dinheiro para roubarem da cidade de Ponta Grossa.
Sorri, olhei para Jessica e perguntei.
— Vai com a gente?
— Não entendi o que pretende?
— Deixa eles se matarem pelos quadros, pelo dinheiro, não
estamos aqui pelo dinheiro, ou estamos.
Jessica sorri e ouvi Pedro ao lado de Jessica perguntar;
— E o que faremos?
— Algo que o pastor de sua igreja chamaria de bruxaria, mas
se vamos, preciso de poucos, não de todos.
— E aquela Dara, vai também? – Thamis.
— Ela vai estar lá de qualquer jeito Thamis, mesmo que não a
levemos, ela sabe o caminho, os como ela ou saíram do país ou es-
tão sendo atraídos para lá.
— E vamos como? – Pedro.
Como responder o que eu não sabia, eu não estava planejan-
do, estava deixando me guiarem, vi que Moreira chega perto e per-
gunta;
— O que acha que faço referente as peças?
— Moreira, isto fica entre os poucos que estão perto, o que
está ali dentro são copias, não os originais.
Moreira me olha e pergunta;
— Mas quando alteraram?
— Não sei, mas se um arcanjo me mostra copias, acredito ne-
le, talvez isto que tenhamos que passar, ver se afastar os que que-
rem apenas o dinheiro.
— E se morrerem?
— Mantem a oferta de moradia e proteção, os que querem
sair com as peças ignoram que os demais ainda estão a toda volta.
— E como sabe disto, o anjinho ainda está ai? – Moreira.
271
— Não, mas Thamis é uma Guairacá, ela sente o cheiro como
poucos, e me falou, estamos ainda cercados e sendo vigiados.
— E vai para onde?
— Morretes, mas não sei ainda como.
— Bem seu estilo, desligado de tudo que interessa João.
— Talvez esteja certo, mas não me preocuparia com as peças,
se eles insistirem, avisa dos riscos, se eles acham que podem com o
perigo, depois falo com aquele Oliveira.
Vi Dalma e Jorge chegarem ao grupo e falei;
— Vamos?
— Vamos! – Dalma.
Jessica olha para mim, não entendeu, mas todos dentro viram
nós brilharmos e sumir dali, como se tivéssemos sido desmateriali-
zados, um segundo estávamos em Tijucas do Sul, no segundo se-
guinte, estávamos surgindo em meio a praça da igreja em Porto de
Cima já em Morretes.
Dalma me olha e pergunta;
— Como fez isto?
— Não fiz, isto segundo um menino, é tecnologia, ele nos ob-
servava, senti o cheiro da tecnologia nos cercando, e apenas vi o
que viu, ela nos desmaterializar lá e nos materializar aqui.
Olhei a pousada ao lado de uma rodovia simples e fomos a
ela e pedimos quarto para cada um e fui a um banho, mesmo sem
roupa limpa, um banho caia bem depois do dia corrido que fora
aquele, não sabia como seria a manha seguinte, mas olhando a pis-
cina interna fico pensando em como enfrentar algo que desconhe-
cia, depois de um tempo me tranquei em meu quarto, esperando o
dia que viria, não queria confusão na noite anterior a algo que pro-
vavelmente me tiraria todas as energias.

272
273
J.J.Gremmelmaier

Yawara

274
Acordo suando, o clima bem acima do normal, olho em volta,
ainda escuro, vou a um banho, coloco algo confortável, olho para o
local, bem ao fundo o casarão que continha a recepção, quartos e a
região do restaurante, caminho calmamente naquele fim de noite,
onde os primeiros raios de sol começavam a surgir, não se via o céu,
uma neblina baixa tomava a região, sento-me no restaurante da
pensão para um café da manha, verão e fim de semana, o local es-
tava agitado.
Olho o agito, vejo uma moça atendendo as mesas, e foi im-
possível não olhar sua aura, encantadora, quase me perdi a olhando
e me toquei que ela me olhava e desviei o olhar.
As vezes nos deparamos com nomes, com pessoas, que sa-
bemos o nome, mas não sabemos nada da vida delas, aquela aura
só poderia ser de Suzi, mas me perdi e vi ela chegar a mesa e per-
guntar.
— Posso lhe servir algo a mais?
— Obrigado, apenas esperando os demais acordarem.
— Vi que me olhava, algum problema?
Sorri, olhei para ela e falei.
— Melhor ficar mais para dentro hoje Suzi, tem muitos estra-
nhos que grudariam na sua aura, e lhe complicariam.
Ela me olha e pergunta;
— Acha que alguém mais vê isto?
— Se eu vejo, pode ser que quem tentará chegar a mim tam-
bém veja, sabe que de tempos em tempos algo acontece aqui.
— E veio passear?
— Vim verificar se algo estanho está acontecendo mais para o
Marumbi, mas ainda estou aqui embaixo.
— Estranho?
— Ainda não sei moça, mas apenas me distrai com sua aura,
desculpa se incomodei. – Desconversei, e sai pela porta caminhando
beirando a estrada no sentido do rio Nundiaquara, olhei uma pedra,
a ponte de ferro sobre o rio, e sentei a olhar.
Estava ali, o dia ainda fresco, quando vi um senhor me olhar
ao longe e me apontar.
Me acharam rápido, olho a moça ao lado dele, uma aura po-
derosa, não sabia quem era, tentei lembrar de quem poderia ser, e
275
lembrei da imagem do senhor saindo pelo outro caminho com uma
moça, que não foi a fundação cultural em Ponta Grossa, será que
era uma das peças que faltava, não me preocupei com os seres ar-
mados, não sentia nada a volta, até os espíritos deveriam estar lon-
ge, quando vi aquele senhor vir a frente, e dois rapazes tentando
não parecer armados mais as costas.
— Meu problema, pensei que estaria escondido senhor João.
Olhei a moça e falei. Vendo a aura dela e perguntei.
— Senhor Oliveira, veio conversar ou continua querendo per-
der dinheiro com aqueles malucos de Ponta Grossa?
— Acha que não vai me dar o que quero?
— Vai tentar na força novamente senhor Oliveira? – Desviei
os olhos para ele, reparando que ele deveria ter mais de 80, a aura
dava 83, mas eu não era de confiar ainda em minha interpretação, a
moça, não parentava 18, mas a aura dizia ser uma Yawara, e de
mais de 50 anos.
— Não entendi o como sumiram ontem?
— Senhor, quando entender se o senhor é de confiança, pos-
so dividir algo, mas não antes.
Ele me mediu, deve ter pensado que eu poderia sumir dali,
mas não dependia de mim, nem sei se Kevin não estava dormindo
aquele horário, mas minhas duvidas não me facilitavam nada, toda
a minha percepção me mostrava que teria de abrir uma comunica-
ção e o senhor estava mais receptivo que no outro dia.
— E porque deveria ouvir?
Quase sai dali nesta frase, e ouvi a moça falar;
— Tem de entender, não somos de negociar com pessoas que
soltam seres que aprisionaram magias da terra, os Morois o defen-
dem, então é parte do grupo daquela Diana, não a via há anos, mas
você a soltou.
— Com quem falo? – A olhando aos olhos.
— Meu nome é Cristiane Oliveira.
— Interessante, a segunda Oliveira que conheço e as duas são
parte da força das terra, certo que Thamis é uma Guairacá, você
uma Yawara, mas o que posso ajudar moça?
O senhor me olhou, mas não devolvi o olhar;

276
— Disse que ele sabia mais do que os demais pai, mas não en-
tendi o que veio fazer aqui?
— Talvez conhecer a linha que não conheci da historia, mas
ainda montando a historia, mas todos querem o que não tem im-
portância, e ficam pedindo as coisas que não me interessam.
— As coisas?
— Como as peças perdidas do Paranismo, as peças de João
Turin, os quadros do pirata Willian.
— Sabe até a procedência? – O senhor.
Olhei ele e senti as energias se erguendo as minhas costas,
não olharia, o senhor e os seguranças pareceram ter os olhos vidra-
dos e a moça me olha.
— Uma arapuca?
— Talvez para mim, se não me tivessem distraído Cristiane,
mas porque ainda não sei.
— Eles estão encantados.
— Não, apenas inertes, se estivessem encantados estariam
babando, eles não lembrarão de as terem visto.
— E quem estaria as suas costas, pois se olhar, não lembrarei
também.
— Moça, tenho de entender como trazer a paz entre as 4 for-
ças da terra local, dos irmãos que os índios usavam sua denomina-
ção para chamar a todos, desde os Guairacás, dos Manás, dos Mo-
rois, e os Yawaras.
— Não estamos em guerra.
— Não quer mesmo ajuda moça? – A olhei e ela falou.
— Não sei se posso confiar em você.
— Uma dica, as obras são para desviar atenção dos ganancio-
sos, mas ali só tem copia.
Ouvi o agito as costas aumentarem e ouvi;
— Quem perturba a magia local, viemos descansar e alguém
veio nos provocar.
— O que faz aqui Honty, não deveria estar serra acima? – Fa-
lei sem olhar para a Iara que surgira no rio as costas, não queria
discutir, mas sabia que teria de deixar claro, sabia quem estava ali.
— Quem acha que é para me chamar pelo nome.

277
— Vim com Dalma tentar entender o que esta acontecendo
na região do Marumbi.
— A rainha veio, onde ela está?
Talvez somente neste momento a moça a minha frente, te-
nha pensado, não escolhi pessoas ao acaso, e sabia que as peças
certas poderiam me dar a posição que queria ali.
— Quem é você, que traz alguém com eles que as Iaras cha-
mam de Rainha? – Cristiane.
— Cristiane Oliveira, estou tentando ajudar como falei, mas
ainda não é hora de grandes revelações. – A frase ficou bonita, mas
eu não acreditava no que estava falando, vi Dalma vir caminhando
calmamente pela estrada, senti o cheiro de maresia no ar, embora
estivesse longe do mar, senti ela olhar Honty se aproximando e fa-
lar.
— Desculpa a intromissão Honty, viemos verificar porque tan-
tas energias descem a serra. – Dalma.
— O porque não sabemos, mas descemos um pouco mais,
pois até os Otatos subiram para o caminho da montanha.
— Sabe o que os atrai lá?
— Um cheiro de paz, sabe que descemos para verificar, algu-
mas das irmãs até ficaram lá um dia, mas cheiro de paz não é para
Iaras.
— Quem está ali?
— Tem gente que a séculos não via, rainhas Yawaras, Manás
com suas famílias, Guairacás, que parecem sorrir, estranho estes
seres, muita gente estranha para um trecho tão estreito de mata.
— Alguma força anormal Honty?
— Não, sei que os sacis se afastaram, mas quando vimos os
Otatos indo para lá com famílias inteiras e sem discutir com os de-
mais estranhamos.
— Mantem as nossas longe Honty, e não se preocupe com es-
te senhor, ele apenas não sabe o que veio fazer aqui ainda.
— Bom ver que está bem Dalma, as vezes precisamos de uma
guerreira como você para nos guiar.
— Bom te ver também Honty, melhor não chamar a atenção
por enquanto.

278
Não vi, mas as Iaras uma hora estavam ali, noutra não esta-
vam e vi Dalma olhar para Cristiane e perguntar;
— E de onde saiu uma Yawara, pensei que era papo que ain-
da existiam Yawaras por aqui?
— Não sei quem vocês são, mas não gosto de sentir medo, e
Iaras não são nossas amigas.
— Eu não sou apenas uma Iara moça.
— Não?
Dalma olha a calma ainda, eram as primeiras horas do dia, o
senhor volta a consciência, e os seguranças também, enquanto
eram cercados por Laikans, seres translúcidos, e Dalma olha para
Jock chegando e me olha.
— Descobriu algo?
— Quanto mais caminho menos sei Dalma, não sei se vocês
aprendem muito, mas pareço ainda sem função nesta historia.
Vi a moça olhar os demais, olhar o senhor e falar calmamen-
te;
— Manda seus seguranças se manterem calmos.
O grupo de Laikans chega a volta, Jock me olha e olha Dalma
e pergunta;
— Ele também lhe tirou da inercia Dalma?
— Vim verificar Jock, o que está acontecendo, porque tanta
energia sobre um ponto, porque tantos dos seus por aqui?
— Estamos chegando agora, este dai também estava em Curi-
tiba ontem, mas se está aqui, sinal que as Iaras vão se meter.
Dalma olha para Jock, e foi crescendo, o rosto da moça se
tornando uma caveira, o corpo, de um grande cão, as patas, de um
felino com garras afiadas, aquele rosto era de dar medo, e tenho de
confessar, tive medo, mas até Jock recuou, uma coisa era falar que
Dalma era uma Iara, mas ela estava na forma de Frock, o cão de
Gog, o Deus das grandes caçadas de almas, o Laikan recua, se eu
estava com medo, os demais também estavam, e ouvi aquele som
dela falando, difícil de definir;
— Porque me ofende Jock, depois vai dizer que não queria,
que não pensou, mas porque me ofende?

279
Os demais viram que Jock se perdeu, ele nunca entendera o
que era Dalma, mas era obvio para ele, a força, a firmeza e frieza
dela.
— No que posso ter lhe ofendido?
“Seus pensamentos Jock, não suas palavras!”
Não sei como ela fez isto, mas ouvi os pensamentos dela, e a
vi voltando ao seu tamanho e sua roupa toda rasgada jogada sobre
o corpo, olho ela que fala.
— Quando vamos?
Vi os lobos translúcidos se afastarem, o senhor que parecia
ser pai de Cristiane, estava branco, os dois seguranças o ajudaram, o
afastando para o carro.
— Dalma, o problema é que estou caminhando as cegas, mas
não entendo a rixa entre vocês, espero não gerar uma guerra maior,
este é meu segundo medo.
Olho Jessica chegando ao fundo, ela procurava algo com os
olhos, me olha e parece andar no meu sentido, vi Pedro acelerar e
pegar em sua mão, e virem juntos.
— Sabe a encrenca que escolheu, não tem do que reclamar! –
Ouvi Dalma falar, não olhei para ela, a aura de Jessica parecia con-
trariada, mas não queria brigar com ela.
— Aqui que se escondem?
— Esperando os adormecidos para subir a serra.
— Preciso lhe falar uma coisa João.
— Fala?
Não sei o que ela pensou, ela olhou os presentes, mas estava
pensando em o que falaria, ou os sentimentos mudaram, pois ela
nem reparou na moça, olha para mim e fala;
— Não vou com vocês.
— Porque não Keka? – Dalma.
— Liguei para minha mãe e discuti com ela, sei que não é o
que ela pensou, mas vou lá acalmar minha mãe.
A olhei, não sabia o que perguntar, ela veio, agora, depois de
uma noite que não sei se ela passou sozinha ou não, ela está falan-
do em subir a serra e não estar com a gente.
Dalma me olha e pergunta;
— Não vai insistir para ela ficar?
280
Olhei para Jessica e respondi a olhando;
— Dalma, eu caminho as cegas, não posso culpar alguém por
não nos acompanhar, se nem sei se algo vai acontecer, pois é uma
divergência que pode nos tirar do caminho.
— Então entende porque não vou ficar.
— Não, apenas falei que vou pelo caminho que me ditarem,
se não ira conosco, sinal que terei de tomar cuidado redobrado,
mas acalma sua mãe, até imagino o que ela falou, mas se nem es-
tando com Pedro ela compreendeu, não posso ajudar ela.
— Entendeu tudo errado.
— Jessica, sabe que viemos ver algo naquela montanha ao
fundo, não vou obrigar ninguém a ir ali, mas começo a entender que
certas pessoas não precisava trazer, então só acalma sua mãe.
— Depois temos de conversar.
— Temos. – Falei a olhando aos olhos.
Ela ficou me olhando como se perguntando algo, não sabia o
que falar, vi ela abrir um caminho no ar, atravessar, se via as ruas de
Curitiba do outro lado daquela espécie de porta que surgiu ali, e vi
ela e Pedro atravessarem por ela.
— Quem é esta que abre caminhos assim? – Cristiane.
— Alguém que vou levar no coração por uma vida, mesmo
que não a tenha ao meu lado.
— É velho para ela, uma criança! – Cristiane.
— E sou uma criança para você, não é? – Eu ainda olhava para
aquela porta com uma esperança infantil de que ela voltasse, meu
coração não estava feliz, estava ali porque tinha de concertar algo,
que só tinha sentido, se estivesse feliz, com alguém que amo, lem-
bro que toda esta disfunção começou no dia que não entrei na festa
de Jessica, ela não me convidara, eu fui ao centro, fui expulso de
outra festa por uma ligação, naquele momento surgiu a disfunção,
ninguém falava dela antes, e continuava a se ampliar, eu não fora
fiel, algo aconteceu, minha mente tentava achar o começo, pois se
estava sobre mim, quando na região sul de Curitiba, estaria logo
sobre mim ali, olho para o rio, alguém falou algo mas não ouvi, olho
o mesmo e penso, “as Iaras foram atraídas para cá, e não foram
atraídas por Dalma, elas não vieram para brigar, tanto que nem
encantaram, apenas imobilizaram”, começo a pensar e ouvi.
281
— Não vai responder? – Cristiane.
A olhei, não tinha prestado atenção, devo ter feito uma cara
de bobo.
— Desculpa.
Somente mais tarde entenderia que ela achou que lhe pedi
desculpa, mas estava olhando em volta e olhei para Dalma.
— Quem mais está por perto, sei que sinto algo diferente,
mas não vejo, pequeno, com uma força incrível, atraído para cá, só
tenho de saber por que veem para cá.
— Somente os conhecendo ou tendo magia nas entranhas
para ver os pequenos sacis.
— Pequenos?
— Isto é um problema de interpretação, quando Monteiro
Lobato financiou seu Saci Pererê, ele uniu duas lendas, em uma,
mas os Saci eram crença local, Indígena, o Pererê era uma lenda
Negra, que juntou-se as lendas locais.
— Mas o que os atrairia para cá?
Dalma olha em volta e fala;
— Eles vivem nesta região, eles tem cidades em uma curva
espaço tempo, feita em magia, nas copas de algumas arvores, mais
de 100 cidades.
— Então aqui ainda existe a magia? – Perguntei.
— Eles chamam de dons de Amaná.
— Para eles o dom da Magia é Deus?
— Algo assim, não exatamente isto.
Cristiane me olha e pergunta;
— Porque parece procurar algo?
— Não procuro, tento entender, então caminho, mas porque
os seus usariam vermes das sombras para deter os demais grupos,
isto para mim é magia da terra, das fortes.
— E conhece esta Iara que parece um ser da morte, de onde?
— Cristiane, esta é Dalma, uma herdeira em sangue, como al-
guns dizem, uma linhagem de Frock.
— E quem é Frock? – A moça.
Dalma sorri e me olha;
— Já ouviu sobre a lenda de Magog e Gog?
— Dois deuses pagãos da Europa.
282
— Dois caçadores de almas para um ser de criação, não um
Deus, um ser que precisava das almas para continuar vivo.
— Nunca entendi esta historia.
— Longa, mas segundo a lenda, Gog tinha um cão, ou um ser
em inteligência que se manifestava nas caças como cão, este ser
deixou herdeiros para defender a volta de Gog, que não aconteceu,
e Magog foi para o outro lado, ele voltará, mas temos mais uns 20
mil anos. Este ser, gerou descendentes, que podem ser manifesta-
ções masculinas, como Jock, que viu, ser em espirito, mas que pode
adquirir matéria em batalhas, e seres femininos, seres como Dalma.
— E como posso confiar em uma Iara? – Cristiane olhando pa-
ra Dalma que sorri.
— Ninguém aqui confia cegamente em ninguém, mesmo este
senhor, João, ele não confia nem nele mesmo.
Cristiane não entendeu, olhei para a trilha que daria no Ma-
rumbi e comecei a caminhar, os demais vieram junto, mas nem falei
nada, era uma caminhada de quase 5 horas, pois era subida, daria
para fazer da forma fácil, mas para que facilitar.
Dalma viu que não fiquei para a discussão, eles só se tocaram
que estava indo depois de um tempo, e outros foram se colocando
na estradinha que dava na montanha, íngreme, caminho para hu-
manos, não para carros modernos.
Vi a moça me alcançar e falar;
— E vai sozinho a este desafio? – Cristiane.
Thamis chegava ao mesmo tempo, passa o braço no meu e fa-
la;
— Acha que vou deixar sair por ai me traindo?
— Thamis, pensei que tinha ido embora com Jessica.
— Não entendi porque ela foi embora?
— Ela deve ter discutido com a mãe, mas... – olhei para Cristi-
ane – tem de ver que quantidade não é o que importa, e sim desco-
brir se tem algo importante aqui.
— Acha que não?
— Acho que Amaná está os protegendo de algo, mas ainda
não entendi do que.

283
A subida naquele calor, me fez parar algumas vezes, o que fez
com que outros surgissem no caminho, olho para Dara descendo a
trilha e olho para ela.
— Demorou.
Ela olha em volta e pergunta;
— Keka não veio?
— Está em casa na saia da mãe.
— Alguém a quer conhecer.
— Alguém?
— Yamaje, a mãe dos Yawara, ela disse que o Eterno falou de-
la e que seria alguém a ouvir.
— Ela não está, então Yamaje está esperando Jessica?
— Ela me falou que existe uma linha que deve ser respeitada,
a que defendeu a existência, que defendeu os novos Pagãos, e que
enfrentou o cemitério de cães para dar a todos os Yawaras uma
chance de chegar ao Eterno.
— E quem seria esta pessoa? – Cristiane.
Dara olha a moça e sente o cheiro e fala me olhando;
— Esta que tentou nos matar em Ponta Grossa, já se aliando
a eles João.
— Sabe bem que não escolho aliados ou inimigos, talvez o
caminho nos mostre que deveria ter sido diferente, mas não teria
sido eu.
O olhar de três moças estavam sobre mim, mas não quem eu
queria, quer dizer, não era santo, mas estava com meus pensamen-
tos em Jessica, meus sentidos me dizendo para não fazer burrada,
minhas escolhas neste momento, me fariam ir ao futuro ou a uma
guerra, mas queria ela ali para trocar ideias, nos entendíamos com
poucas palavras, mas ela não estava ali.
As vezes me deparava com um trecho mais íngreme, parava
um pouco, o sorriso das demais me chamando de velho, dava o
clima, eu estava pregado quando chegamos a atura da ferrovia, na
estação de Engenheiro Lange, olho o local, os demais foram passan-
do, eu não, sentei na rampa da estação, e sorri, Thamis sentou-se ao
lado e falou.
— Tá se fazendo de mole, mas deve querer algo.

284
— Thamis, ainda não conversamos, mas o meu destino é este,
o deles, uma reunião que um humano não é bem vindo, então o
meu caminho vem até aqui.
— O que veio fazer aqui?
Depois de tomar folego, levantei e olhei para a estação, mal
conservada, mal cuidada e com adendos mudados, olho para o ou-
tro lado da estrada de ferro, uma casa, olhando mais acima, o sol
começava mostrar a montanha, Thamis me olha, sabia pelo cheiro,
isto também estava mudando, eu estava prestes a dizer que não era
mais apenas João, olho para dentro da estação e paro na visão.

Thamis olha o vitral e me olha, sabia que ela percebeu;


— Qual o cheiro disto Thamis?
— O local está abandonado, tem uns vidros trocados, e uma
disposição para cada ser.
— Não entendi? – Não havia entendido mesmo, embora ela
tenha me olhado com a indagação de “como não?”

285
— Um vitral, 4 visões, mas eu só vejo uma, pois sou apenas
uma Guairacá, mas o quadro tem um cheiro em cada posição, em
cada disposição.
— E o que você vê nele? – A olhei, era serio.
— Como sabe, os cães veem tons de cinza, então eu vejo as
curvas, não as cores, com mais realce, uma grande curva de ferro-
via, com uma formação por traz de outra, mas visto de longe, como
se fosse de um local com lajes, parece um cemitério.
Olho em volta e aponto a montanha e pergunto.
— Qual das formações você vê no vitral?
— A que fica ao lado do que se destaca a esquerda.
— Sabe que as vezes até eu me assusto com estas coisas.
— Porque?
— Eu induzo o caminho Thamis, mas ter de o trilhar, é dife-
rente de entender o que aconteceu.
— Como assim?
— Esta estação se chamava Volta Grande, até 1940, ninguém
fala do porque, tem tanta historia escondida nesta estrada, que me
admiro que nunca alguém a levantou de verdade.
Olho o desenho, não sei porque consegui ver em um virado a
esquerda, até entortei a cabeça, o que ela via, olhei para o outro
lado da estrada, uma caixa d’água com cara de abandonada, ao lado
restos de uma antiga residência, atravessei o trilho, talvez somente
neste momento Dara e Cristiane tenham olhado para traz me vendo
se mexer, e pareceram apressar o passo, acharam que iria no senti-
do delas.
— Vamos ver se temos sorte.
— Você não caminha pela sorte, e ainda tem de me dar um
espaço, mas sempre tem gente demais por perto.
286
— Elas estão indo a uma reunião, eu não.
Entrei na parte baixa da caixa d’água, erguida em pedras
grandes e argamassa, olho para a estação, e olho para o outro lado,
a curva, Thamis olha para mim e para o local e fala.
— O que procura?
— Thamis, temos de entender o que está acontecendo, mas
acredito que não seja algo para todos ouvirem, alguns estão sendo
atraídos, mas não entendi porque ainda.
— Atraídos?
Olhei para a estação e falei.
— Este lugar tem algo, mas não entendi oque.
Vi um trem que descia passar a poucos metros de nós com
mais de 30 composições, olhei para ele, vagões sujos, sem a magia
que se tem sobre ferrovias.
Olho para a menina e pergunto;
— O que viu em mim Thamis?
— Um senhor que não me olhava pelo corpo, alguém que fa-
lava maluquices, que ficava defendendo o que acreditava, mesmo
os demais não gostavam, todos dizem que você é inteligente João.
— Inteligência neste país não dá dinheiro, então resolvi que
deveria sobreviver, mas não respondeu.
— Você é legal, animado, mas se mostrou muito mais do que
pensei, achei que não reagiria, mas não esperava a covardia do pes-
soal de Paulinho.
— Ninguém me viu reagir Thamis, alguém me alertou a não
ser eu, não reagir, não me deixar levar pelo meu pior lado, algo que
ele não quer que se revele, algo que não precisa ser revelado.
O trem termina de passar e olho para ela e falo.
— E se tudo for para ser revelado aos poucos, Thamis.
Ela me olha e lhe estico a mão, ela estava para fora, eu abaixo
da caixa d’água, ela entra, me olha e toco as duas laterais do vão em
arco por onde entramos, olho para ela e falo.
— Mantem os instintos a toda.
Ela me olha, olha para fora, pareceu escurecer, sai para fora,
e olhei em volta, a frente uma parada em madeira, atravesso o tri-
lho e olho para a construção, olho para traz e vejo a luz sobre o
pico, a lua surgia as suas costas, uma visão incrível, o céu estrelado,
287
sinto aquela luz sobre mim, Thamis me dá a mão e vejo tudo mudar,
um túnel de luz, caminhamos e ela falou baixo.
— Isto me dá medo.
— Calma, não existe perigo aqui.
— Mas onde estamos?
— Num atalho, dizem que existem, eu não entendo disto.
— E algo afastou quem entende.
— Thamis, se somente nós dois estamos aqui, é para nós este
caminho.
Ela me aperta a mão e caminhamos por aquele túnel, e vimos
uma caverna, um lago ao centro, e uma luz vinha do fundo, senta-
mos, não esperava este caminho, sentei ao chão, ela sentou-se e
perguntou;
— Onde estamos?
Estava na duvida, toquei a agua e vi aquele rosto translucido
surgir na agua, azulado, Thamis pareceu ter muito medo, e olhei
para o rosto e falei.
— No que posso ajudar Eterno?
— Sejam bem vindos, pensei que Keka estaria ao seu lado Jo-
ão.
— Sabe dos desafios, mais que eu, mas no que posso ajudar
Eterno?
— Apenas lhe abrindo um pouco mais deste caminho João,
deve estranhar estar em um caminho destes.
— Sei que não sou digno Eterno, não creio como os demais,
não sou certo ou errado, apenas sigo meus caminho por teimosia.
O ser pareceu crescer a frente e fala;
— As vezes esqueço que existem seres fortes, e seres fracos,
mas nem todos tem um caminho fácil João.
Vi duas mãos saírem da agua, vi os olhos de medo de Thamis,
não entendi, mas senti a mão sobre minha cabeça, muitos pensa-
mentos rápidos, como se saíssem informações rápidas, olho as
mãos, sinto a fraqueza, fecho os olhos, e sinto o corpo tocar o chão
as costas.

288
289
J.J.Gremmelmaier

Morretes
A narrativa passa a ser a partir de um narrador, a histo-
ria muda da visão única do personagem João, para ganhar
maior amplitude e se explicar o que ele não conseguiria.

290
Rose olha a filha e fala;
— Não entende filha, este senhor não é para você, é um ateu,
um ser que não tem Deus, que não vai estar aqui quando você pre-
cisar, alguém que todos falam mal, sabe que é para seu bem.
Pedro olhava as duas e fala;
— Ela sabe senhora Rose, mas insiste em dizer que não é co-
mo pensamos.
— Não vai falar nada?
Jessica olha em volta, ela estava sentindo algo diferente, não
sabia oque, mas estava afim de sumir dali, e a discussão se arrasta-
va, ela não estava prestando atenção quando viu seu telefone tocar,
estava sobre a mesa e ela olha sem atender, sua mãe olha e fala.
— Está é outra maluca, não sei de onde surgiu, mas dizem
que ela tem um caso com aquela maluca da Thamis, a recolheu em
casa depois que a mãe a pois para fora.
— Esta quem? – Pedro.
— Eles a chamam de Dara, vê se isto e nome de gente. – Ro-
se.
Jessica olha para a mãe, faz um gesto com a mão, sabia que
sua mãe odiava isto, mas o celular veio a sua mão e ela atende.
— Problemas Dara?
— Pode falar?
— Você não me ligaria se não fosse problema, pior, problema
com João.
— Sim, fomos mais a frente, ele vinha caminhando mais ao
fundo, avançamos, todos queriam chegar ao ponto que os demais
estavam, mas algo aconteceu Jessica.
— Tá enrolando.
Jessica sente uma fraqueza, segura-se a mesa e senta-se, ela
olha para Pedro e fala.
— Vê uma agua, e depois chama Nane!
— O que aconteceu? – Pedro.
Ela fez um gesto com a mão para Pedro ir e ouve;
— Quando eles não chegaram a nós, e vimos os seres ficarem
atordoados, meio perdidos, assim que chegamos ao ponto, milhares
de seres como se estivessem desorientados, Dalma olhou para trás
e nem sinal de João e Thamis, ela voltou pelo caminho e achou os
291
dois desacordados, próximo a estação de Engenheiro Lange, os dois
estão sendo levados para Morretes, mas o pulso dos dois está pró-
ximo do zero, teriam morrido se não tivéssemos chegado a eles,
mas não sabemos o que aconteceu.
— Como os demais estão Dara?
— Aturdidos.
— Era uma arapuca, vou para ai, mas mantem a calma, se ele
se for, é porque era hora dele, sabe disto.
— Não fala assim menina, sei que gostava dele.
— Sim, mas cada um colhe as escolhas, ele me queria ai, mas
não fiquei, não sei oque aconteceu, mas mantem ele na região Da-
ra.
— Pensei em levar a Curitiba.
— Se foi uma arapuca Dara, a alma dele está por ai, vagando
ou inerte, se o tirar dai, ele morre. – Jessica olhando para a mãe,
que não sabia o que falaria.
Jessica desliga e a mãe olha para ela;
— Já vai lá ajudar, não entendeu nada.
— Mãe, não entendo, falam em amar o próximo nesta igreja
da senhora, mas só falam mal dos demais, onde esta o amar, o aju-
dar, o compreender, mas referente a ele ser um ateu, ele não é,
mas ele pode terminar esta aventura um, pois sinto as energias, e
não gosto do que estou sentindo, tenho de falar com alguém.
— Vai onde?
— Falar com a Jessica.
— Que Jessica?
Nane entra pela porta, Jessica levanta-se, pega um copo de
agua e olha a prima;
— O que acontece ai fora Nane?
— A energia da cidade cresceu, não sei oque aconteceu, mas
algo a soltou.
— João está a beira da morte em Morretes Nane, desconfio
que toda esta energia era dele, ele estava entrando na fase da vida
que a energia dele lhe encontraria, ou ele a absorveria, ou morreria,
se ele morrer, sabe que vamos ter aquelas malucas das Bruxas de
novo na cidade, elas nem sabem diferenciar de quem é a magia,
mas vão encher aos montes as ruas.
292
— Mas porque acha que são energias dele?
— Acho que terei de brigar com alguém, mas preciso ir a
Joinville e depois ir a Morretes.

Joni recebe a noticia da quase morte de João e olha para um


senhor a porta;
— Me convenceu que foi João que roubou, mas alguém quase
o matou, então não foi ele.
— Tem de ver que a logica diria que foi ele. – Appell.
— João não era de gestos como roubos, ele abandonou uma
empresa de rendimento bruto incrível, pois ele não nasceu para
isto, ele corre atrás da felicidade, mas poucos entendem isto.
— Mas se não foi ele, quem foi?
— Não sei, todos os demais tem muitos bens para deixarem
transparecer fácil, e são mais perigosos que João.
— Aquele Oliveira?
— Não sei, algo está errado.
Joni liga para Pedro Rosa e pergunta;
— O que sabe do acontecido com João?
— Ele estava subindo com as demais, dizem que ele parou
para descansar, os demais pensaram que ele estava apenas descan-
sando, mas quando não apareceu, ele e a menina que estava com
ele, foram encontrados abaixo de uma caixa d’água velha caídos e
inconscientes.
— Vão trazer para Curitiba?
— Não, e não me pergunte por que, mas parece que Dalma e
Jorge assumiram a proteção, as ruas da cidade de Morretes estão
com carros do pessoal do Jorge.
— Digo que este amigo é dos mais incríveis, ele não se prende
a coisas assim, mas sempre surgem pessoas que o protegem.
— Joni, tem de ver que ele sabia que você tinha desviado as
peças, mas ele esperava que você falasse para ele, assim como sabia
que Moreira desviou os quadros originais deixando copias, ele não
estava correndo atrás das peças, se vocês que o conhecem a muito
tempo, não lembram de como ele é, quem vai conseguir ajudar.
— Ele sabia?

293
— Ele disse que não precisava me preocupar, pois ainda não
era aquilo que ele procurava.
— E o que o acertou?
— Não sei, mas Jessica Duarte está em Joinville neste instan-
te, Tudor de Buzau está voltando ao Brasil, a energia no sul da cida-
de, fez um grupo de Bruxas dos Alpes Suíços saírem a pouco de lá
para cá.
— Não entendi?
— Ninguém entendeu, mas uma magia imensa foi liberada no
sul da cidade Joni.

Nane chega com Pedro a região de Fazenda Rio Grande, uma


área imensa estava seca, como se a grama a altura do chão, as arvo-
res, tudo tivesse seco, se via a rachadura na terra que perdeu agua
muito rapidamente e rachou toda.
Ela chega ao centro daquele campo que antes era verde e
olha para o chão, tudo seco num raio de mais de 5 mil metros, plan-
tações ao longe se via secas, cavas de areia, geralmente cheias de
agua, secas, peixes secos ao chão.
— O que gerou isto Nane?
— Tem um caminho assinado, a magia e força é a de João
Gomes, mas como ele não está aqui, ela se espalhou sobre a terra,
está solta, não a sente, mas esta a volta, uma força capaz de criar
um mestre ou um louco, mas toda esta energia estava presa dentro
de um ser que passava desapercebido, ou ele ainda não tinha ab-
sorvido isto, mas esta força, a que causou isto, vai secar tudo a vol-
ta, sem explicar, vamos, vou ter de falar com alguém.
— Alguém?
— Pedro, desencana de Keka, sabe que ela não lhe ama.
— Mas se ele morrer?
— Teremos um problema, pois ela vai se culpar, e nosso mes-
tre ainda nem lembra quem é.
— Mas a amo.
— Não entendo este tipo de amor, onde se abandona o amor
próprio em prol de uma conquista, para mim isto não é amor, pois
meu mestre falava que o primeiro amor que temos de ter é o pró-
prio.
294
Moreira olha para Rosa a esposa e fala;
— Vou a Morretes, algo está acontecendo e acho que vai dar
merda.
— O que aconteceu?
— O que era apenas um subir de montanha hoje cedo, acaba
de registras duas pessoas quase mortas, que foram levadas para o
hospital de Morretes.
— Vai os trazer para cá?
— Não, algo que pelo jeito não falarão por telefone, mas algo
está acontecendo.
Moreira pega um helicóptero descendo a serra do mar.
Moreira estava no helicóptero quando o seu telefone toca;
— Fala presidente?
— Me fala o que está acontecendo Moreira, pois acabo de re-
ceber uma ligação do presidente Norte Americano, perguntando
por que estávamos desenvolvendo uma nova arma no Paraná.
— Nova arma?
— Estou lhe passando a imagem.
Moreira olha a imagem, de satélite se via aquela linha de for-
ça saindo do planeta, muito fina, mas que brilhava imensamente,
como seria aquilo ao anoitecer, pois era evidente que algo estava
chamando atenção sobre aquele lugar.

Pedro Rosa chega ao hospital e pergunta;


— O que está acontecendo Jorge?
— Segundo o que Dalma falou, tem cheiro do Eterno no lugar,
algo forte aconteceu ali, mas Moreira está chegando ai, parece que
o pessoal de Los Alamos está olhando para cá, e não sabemos o que
está acontecendo, mas temos dois porta-aviões norte americanos
vindo para o Brasil neste momento, não sei o que eles estão pen-
sando, mas não teria como perguntar ao seu anjinho?
— Ele não está por perto, não sinto nenhuma presença divina
próxima, é estranho, pois sempre temos os anjos de proteção, do
dia, mas esta cidade não o contem, ele não se manifestou nem aqui
e nem em Curitiba. – Pedro.
— Então quem está coordenando isto?
295
— Vamos segurar as coisas, Keka deve chegar no começo da
noite, mas não sei ainda o que está acontecendo. – Pedro.
— Ela foi onde?
— Falar com as Lemurie, ver se tem algo que não entendeu,
pois ela pela primeira vez sentiu que a ciência que ela tem, não é
divina. – Pedro.
— E o que seria?
— Uma força que queria estar ao lado, uma magia que ela pa-
rece querer entender. – Pedro.
— E porque ela desconfiou? – Jorge.
— A energia dela foi tirada, ela acredita que João não morreu
porque tem uma ligação com ela, senão estaria morto, e a menina,
não morreu por que tem uma ligação com João, então a energia de
Jessica está sendo a força que os mantem, pelo menos foi o que
entendi. – Pedro.
Se vê o helicóptero vindo do Oeste, parar a uma praça em
frente e viram os seguranças de Jorge se agitarem, duas seguranças,
a imprensa começava a se agitar, novamente segurança em um
lugar que não tinha ninguém conhecido, e novamente uma segu-
rança que não fazia sentido.
Moreira chegava e olha um carro parando a frente, olha sem
entender, um rosto conhecido, mas que não esperava ali, Jorge não
conhecia, mas era um hospital, eles apenas faziam segurança, não
barravam.
Moreira apura o passo e olha aquela senhora, sorri e pergun-
ta;
— Por aqui Dani?
— Vim ver como ele está, o agito é grande em Curitiba, não
sei o que ele aprontou, mas as imagens dos gramados ao sul da
cidade, estão indo ao ar na reportagem do Jornal Estadual, e não
sei, algo me diz que ele precisa de ajuda Moreira.
— Imagens?
Moreira vê ela pegar um tablet a bolça e coloca as imagens,
gramados secos, parte dos lagos secos, uma ausência de vida, que
parecia afastar até os insetos da região ele olha detalhadamente,
pensa um pouco, pega seu celular acessando um arquivo e fala;

296
— Olha o que esta região gera quando olhada do espaço Da-
ni.
Daniele olha a formação de uma coluna de luz, que de terra
não se via, mas que ficava bem visível, Jorge e Pedro olham admira-
dos.
— Mas porque acha que está relacionado a ele? – Moreira.
Daniele pega a imagem do córrego que dividia dois bairros na
região, seco, com uma camada muito fina de agua que vinha ainda e
se perdia, como se evaporasse, as plantas começando a murchar, e
fala.
— Moreira, a casa dele no Sitio Cercado, ele chama de Oster-
nack é o centro de um raio de 5 quilômetros, pedi para um amigo
tirar os animais do zoológico, as pessoas estão entrando em postos
de saúde na região como se estivessem desidratando, a temperatu-
ra em Curitiba, hoje, 26 de Janeiro chegou a 31 graus oficialmente,
extra oficial dizem que na região da casa dele passou dos quarenta,
não estamos falando de Rio de Janeiro, estamos falando da capital
mais fria do país.
— Temos de ajudar! – Pedro pegando o telefone e ligando
para o Pai, passa o recado e sem estes verem, uma porção de pes-
soas começam a distribuir agua no Sitio Cercado, operações de aju-
da e cuidado.
Dani olha o rapaz e fala;
— Quando esta tal pagã chega?
— Deve estar chegando.
— Tenta isolar o que ela fara Pedro, não sabemos o que será,
mas não pode ser filmado, documentado ou atrapalhado.
Ele concorda, Jorge não a conhecia, mas fala;
— Pelo jeito veio organizar?
— Digamos que João é um amigo, e nestas horas que preci-
samos de amigos, não nas horas felizes e divertidas.
Daniele entrou no hospital, e caminhou até o quarto, a im-
prensa começava a ficar intrigada, olha Dalma e fala olhando João
entubado;
— Meu nome é Daniele, como ele está?
— Entubado, se tirarem os equipamentos não sabem se ele e
a menina resistem.
297
— Estou dando estrutura Dalma, tem medico, equipamento,
estrutura vindo de Curitiba para cá, bem para não precisar os trans-
ferir, vai ser uma correria, mas preciso de ajuda.
— Não sei quem você é, mas toda ajuda é bem vinda, ele pa-
recia bem segundos antes de acontecer.
— Também não entendi, mas Keka precisa de tempo, para
conseguir entender o problema, e somente depois disto saberemos
se ele terá salvação.
— Ela teme que não?
— Ela teme pela vida dela Dalma, mas não vou falar isto lá fo-
ra, pois o que o mantem vivo é a ligação com ela, qual o próximo ser
atacado para se obter a energia que parece estar desencadeando
um imenso problema em Curitiba?
Keka olha para Jessica em Joinville e pergunta;
— Preciso de ajuda, poderia me ajudar?
A lagrima corre nos olhos de Jessica, ela não sentia-se bem,
viu a senhora Margarida chegar a porta, Jessica foi rápida vendo que
Keka cairia e chega rápido impedindo que ela desabe.
Sentaram-na no sofá, e Margarida trouxe uma xícara de chá e
falou;
— Toma lentamente. – Olha a filha e fala – Chama sua irmã,
Carlos e Paulo, algo está acontecendo.
Margarida com suas roupas sempre muito simples, passaria
por uma mendiga em um centro de cidade, mas todos que a conhe-
ciam, sabiam que ela fez cada peça de roupa que vestiu, que ela
plantou ou colheu cada erva que tomou, e raramente comprou algo
que pudesse ter feito com suas mãos.
Jessica olha para a mãe, não deu minutos e os demais entra-
vam pela porta, a comunicação era mental entre os quatro, e se viu
o imenso ser de pedra a porta, que olha para dentro e para Marga-
rida e pergunta.
— O que está distorcendo tudo Margarida?
— Pelo jeito alguém veio pedir ajuda, mas a distancia de algo
a está fazendo mal, e tudo no caminho vai distorcer um pouco, mas
poucos sentem isto amigo. – Margarida pega nas mãos de Keka e
pergunta.
— Qual o problema menina?
298
— Deve saber Margarida, eu tenho uma ligação com um se-
nhor, ele passou uns dias atrás por aqui.
— Tem algo com quem? – Jessica.
— Ele disse que passou aqui, não parecia mentir, João Jorge
Gomes.
— Tem uma ligação carnal com um “Domes”? – Jessica.
— O que é um “Domes”?
— Alguém que as estrelas definiram seu caminho inteiro, mas
porque está aqui? O que aconteceu?
— Algo o atraiu para uma busca no litoral do Paraná. – Keka
tentava manter a consciência, sentia o corpo fraco, algo estava re-
almente distorcendo sua força. Ela tentou pensar, parecia mais
branca. – Uma grande concentração de energia foi solta, assim que
algo tentou o matar, ou o desviar do caminho, ele está quase morto
em Morretes, e preciso saber Margarida, porque me sinto fraca e
traída, como se o cheiro da ação tivesse sido do Eterno.
Margarida olha em volta, sabia que nem tudo era fácil, mas as
vezes as coisas eram difíceis, passou por coisas terríveis, quase per-
deu uma das filhas, quase desmanchou sua família, dentro de sua
crença.
— Tem de entender menina, nem tudo que acontece, é real-
mente feitos do Eterno ou de Amaná. – O olhar de Margarida foi
para Carlos que falou. – Estamos verificando senhora, existe uma
força imensa em Curitiba afastando tudo, um circulo de 5 quilôme-
tros de raio, pelo que parece, os noticiários começam a falar disto.
— E quem está protegendo o senhor?
— Cheiro estranho, aquele cheiro estranho de Dalma, a moça
que tem cheiro de Lobos e Iaras.
— Qual a força disto?
— Vai atrair bruxas senhora.
— Mais problemas, mas qual a origem, consegue sentir da-
qui?
— A distorção parece mesmo a de um ser de poder, já pensou
Margarida, que ele poderia não ser um “Domes!”
— Pensou em que?

299
— Todos os desvios, dizem que tem a mão do Eterno, o abai-
xo da grande Deusa, ou era um escolhido, para ser um dos braços
do eterno, ou ele parece querer a energia.
— Não faz sentido, ele sempre distribui.
— Por isto não faz sentido, a vida e força de uma amada, não
seguraria a vida dele, muito menos de alguém mais, pois o que está
tirando a força da moça ai, é que tem duas vidas penduradas no
poder dela, mas se fosse apenas um Domes ele teria morrido.
— Do que estão... – Keka pega folego – falando. Porque estou
tão fraca, parecia bem em Curitiba.
— Está distante da energia dele, e dele, isto que faz Carlos
pensar que ele não era um “Domes”, alguns chamam de amaldiçoa-
do, aquele que colhe todas as dores para que o caminho de outros
siga bem e feliz. – Jessica. – Ele sugeriu que fosse um candidato a
ser Angelical, mas não acredito nisto, o Eterno geralmente escolhe
pessoa no inicio da vida, para que elas não tenham filhos, amores
anteriores, problemas grandes a resolver, que os desvie do cami-
nho. – Jessica parecia conversar com os demais trocando olhares e a
moça a porta, de nome Sheila, irmã de Jessica e também filha de
Margarida fala.
— Mãe, independente do que for, temos de a levar para per-
to dele, ela está se desgastando, e se isto acontece aqui, pode pio-
rar por lá, ela está ficando fraca demais aqui.
— E o que acha que é filha? – Margarida que viu o olhar de
Sheila sobre Keka.
— Mãe, não esquece, ela é Jessica Talyze Trindade Duarte,
Jessica lhe dá o abraço de Deus, Talyze, a ligação com a religião que
tenta se achar, o abraço ao Cristianismo, ou como dizem, alguém
capaz de Ressuscitar Jesus, ou como outros creem conectado a
Trindade, lhe dá o poder dos três poderes, pai, filho e espirito santo,
sendo que o Pai seria o Eterno, filho, o Cordeiro de Deus, e o Espi-
rito de Deus, dai termina o nome com Duarte, que vem de deriva-
ção de Eduardo, lhe cabendo o peso de guardar o peso desta união.
Todos olham Suelen, Margarida olha a filha e fala;
— Uma união, um começo, é o que está falando?
— Somente isto faria o Eterno se mexer mãe, mas temos de ir
agora.
300
Keka estava fraca, mas foi colocada em um carro, ela nem re-
parou qual era, e saem no sentido do Paraná.

Em Curitiba, surgem duas bruxas, vindas do Rio de Janeiro,


representantes do Conselho de Evolène para assuntos referente a
Brasil, que geralmente eram tidos como problemas de Wasser, e
olham para a parte da grama queimada e da temperatura quase a
trinta graus em pleno inicio da noite, Mary que assumira o posto de
controle da região olha a filha e fala;
— O que é esta energia, só pode ser pelo poder, parte do que
diziam não ter ficado na cidade, o poder de Wasser.
— Acho que não sei sentir isto mãe, parece algo muito recen-
te, e está sugando o poder, tanto da vida a volta quanto dos líquidos
próximos para ampliar o poder de penetração e abrangência, mas é
estranho mãe, a energia vai para o espaço, não se perde, parece
uma coluna, nunca havia visto algo assim.
Mary olha para cima e fala;
— Bem estranho, não é física ainda, não é tocável, ela está
crescendo ainda, como se ainda não estivesse solta, e tem uma as-
sinatura que não é de Wasser.
— Um novo bruxo mãe?
— Este poder em tubo filha, é o que falam ser o nascer de um
anjo, mas nunca soube que anjos nascessem, eles falam de coisas
que nunca viram, mas o aprisionar de uma força destas, nos torna
em pé de igualdade com o Eterno dos Pagãos, poderíamos dominar
toda a existência e sermos nós.
— Seria um ganho e tanto.
— Isto deve encher a cidade rápido de bruxas filha, mas ainda
é intocável, não tem um cronograma de tempo, então é alguém
definhando, não sabemos onde, mas este ser já está quase do lado
de lá, e pelo jeito não desenvolveu o que precisava, pois deveria ter
passado, não ficado no meio do caminho, por isto raramente ve-
mos, é para ser algo rápido, não algo demorado.
As duas sorriram, e se destinaram a um hotel no centro de
Fazenda Rio Grande, era mais próximo.

301
Moreira pega o helicóptero e volta a Curitiba, chega a frente
do hospital Evangélico, põem segurança na porta, reforça a segu-
rança nas ruas, preparam uma clinica próxima com um espaço de
heliporto, começa um agito a volta do local, os repórteres começam
a tentar entender o que aconteceria, começam a desviar o foco, e
com um helicóptero pousando a cada 15 minutos no local, come-
çam a surgir indagações de quem estava sendo tratado ali, carros de
vidros escuros, começam a chegar e entrar pela entrada do atendi-
mento particular do Evangélico.
Moreira olha para fora por uma janela e liga para Pedro Rosa.
— Estou agitando o Evangélico, se o seu pai puder dar uma
ajuda.
— Jorge está colocando gente a toda volta, e meu pai está co-
locando gente na rua para tentar descobrir o que está acontecendo,
sem falar nada, gente que ligue para outros, e agite mais ainda ai
Moreira.
— Tomara que belisquem a isca.
— Aqui começa a acalmar, mesmo com equipamento che-
gando, com gente técnica entrando, está calmo, mas tenta acalmar
o presidente Moreira.
Moreira olha para fora e fica pensando no que estava aconte-
cendo.

Kevin estava na base que ele montara na região que tudo se-
cava por cima dele quando recebe uma ligação.
— Kevin, é o General Dallan, o que estão aprontando ai?
— Aprontando?
— Bem onde você montou uma base, está emanando uma
energia grande, se for você para, o presidente norte americano está
ficando paranoico.
— Não sou eu Dallan, e todos a volta estão tentando enten-
der o que gera algo tão poderoso.
— Como não é você?
— Dallan, o centro disto, fica a mais de 3 quilômetros da mi-
nha base, o que ouvi de alguns, me assusta, pois não é tecnologia, é
algo que não entendo.
— O que não entende?
302
— Ouvi dizer que Curitiba está sem proteção dos anjos, isto é
sinal ou que um anjo nascerá, ou haverá uma grande soma de mor-
tes, e eles não tem o que fazer, então estão todos tensos.
— Sabe que não acredito nisto.
— Pedro Rosa falou isto Dallan.
— Vou ligar para o presidente, mas porque estaria aconte-
cendo ai?
— Se alguém soubesse respondia, mas ignoro o que está fa-
zendo isto, mas não é energia física ainda Dallan, não se detecta
ainda, mas tudo a volta está morrendo ou se afastando, sinal que é
o que Pedro chama de energia etérea, não acredito nisto, sabe bem
como penso e que não gosto deste Pedro Rosa.
— Vou verificar, pois se for Etéreo, não tem fonte, é apenas
uma energia, e não a conseguiremos numerar, embora os números
no espaço deixam de ser etéreos, estão derrubando satélites.
Dallan olha para a tenente a sua frente e fala;
— O que temos?
— Sem dados Dallan, é uma energia sem procedência, sem
energia aparente para fazer estrago, mas desviamos 5 satélites na
ultima hora, pois perdemos dois deles que passaram perto, e não
seio onde eles estão, sumiram.
— O presidente ira odiar isto.
— Ele e as empresas que tinham aqueles satélites.
Dallan liga para o presidente norte americano, tenta não falar
o que não sabia, mas ficou claro ao presidente que Dallan ignorava
totalmente o que causava aquilo.

Margarida dirigia sua Brasília 74 voando ao norte, olha a es-


trada, vai diminuindo a altura e numa rodovia não muito movimen-
tada diminui a velocidade e olha para Keka e fala;
— Ela está voltando a ter uma aura, melhor assim.
— Concordo mãe, uma aura destas não pode sumir assim,
mas isto nem sempre é agradável a todos.
— Ela sabe Suelen, mas se for o que falou, ninguém em volta
vai entender, pois não existe como pegar uma energia destas, mas
isto é ou indicio de guerra, paz ou reinicio, é algo tão poderoso que
gera não hoje a lenda, mas dentro de 300 anos, ou 500 anos.
303
— Acha que tem uma grande coisa ai mãe?
— Odeio quando isto acontece, mas podemos aprender filha,
nunca um pagão observou o nascer de um mito, de um possível
humano, que será tido como Deus.
— E porque acha que é isto mãe? – Jessica.
— Porque a regra põem eles como coletores de pragas, que
diante deles se manifesta, mas as levam com eles, aliviando as do-
res dos demais, são caminhos de incerteza, caminhos que mesmo os
amigos não admitindo, admiram.
— Teremos de falar mais sobre isto! – Keka levantando a ca-
beça e se ajeitando no banco, olha em volta e fala.
— Eles estão muito fracos, mas não é onde o corpo está que
tenho de estar Margarida.
— Sei disto, mas se o que está acontecendo em Curitiba for a
força que estava presa nele se manifestando, vamos o achar.
Keka olha para ela e fala.
— Então vamos.
O carro da senhora passa por Morretes pegando no sentido
de Porto de Cima, ainda no município, ao lado de uma pousada,
pega uma outra estrada e começam a subir por uma estrada estrei-
ta, a escuridão total, em uma estrada pouco usada, Jessica (Keka) vê
a estrada terminar em uma estação de trem, lê na fachada, Porto de
Cima, ninguém por perto, com dificuldade sai do carro, não sabia-se
como tanta gente se acomodara ali tão bem, mas Margarida olha
em volta e olha a oeste deles, e aponta.
— Deve ser o caminho.
Keka olha para um clarão em meio ao escuro, começam a
caminhar pelos trilhos, ela ia devagar, Margarida ia ao seu lado,
Carlos e Jessica mais atrás, e Suelen e Paulo terminavam o grupo,
caminham por aquele trilho mais ou menos uma meia hora, viram
quando a luz ficou mais a frente, mas não estava no trilho, olham
uma trilha e caminham por ela.
Margarida olha os Yawara, os Lobos, os Morois, os Manás,
todos a volta de um grande clarão, olha em volta, muito mais seres
de magia, e olha aquele clarão e para, Keka a olha;
— É seu este caminho Jessica Talyze Trindade Duarte, ele tem
de ser trilhado por você, estamos aqui para manter o caminho aber-
304
to, mas tem de voltar antes do amanhecer, não sei se o tempo ali a
frente passa como aqui fora, mas tem de caminhar.
Margarida olha uma moça mudando de forma, de um lobo
para uma humana chegando a eles, viu uma outra lhe alcançar uma
roupa, que jogou sobre a cabeça e olha Keka.
— Veio, mas o que faremos?
Keka olha para Margarida que fala;
— Somente pessoas com ligação com ele e com você sairão lá
de dentro, todos os demais que tentarem, vão lá ficar.
Keka olha para Dara e fala;
— Vamos então, mas com calma, ainda não sei a força que
posso ter perdido nestas ultimas horas.
As duas começam a andar no sentido da luz, todos a volta
olhavam a luz e veem as duas sumirem da vista, como se um mo-
mento estivessem ali, no outro não mais.
Dara olha para Jessica e pergunta;
— O que faremos?
Jessica olha em volta, parecia a caverna que fora tocada pelo
Eterno, olha o lago e fala;
— Vamos sentar, temos de conversar Dara.
— Conversar?
— Sabe o que os pagão desconfiam lá fora?
— Não, Margarida de Lemurie a trouxe ao local, mesmo os
mais descrentes da importância do evento, irão chegar próximo.
— Pelo que começo a sentir, pois estive quase fora do ar por
me afastar daqui, ela veio para tentar manter o corredor aberto
Dara, se o corredor se fechar, eu, você, João e Thamis deixaremos
de existir nesta existência.
— Uma morte ou oque?
— Dara, é serio, tudo que olhar, não esquece, eu, você, João
e Thamis, ou saímos juntos, ou não saímos, pois juntos, somos o
que somos, sozinhos, apenas uma parte, aqui ou lá fora, juntos,
somos o problema, a solução, mas não entendi ainda o problema, e
nem sempre sabemos como nos portar.
Dara olha para a moça, jovem, quase uma criança, ela estava
falando que estavam ligados, ela tentava negar, ela não dera a pro-
teção para João, sabia que em parte era ciúmes, desta que estava a
305
sua frente. Se todos estavam bem, a moça a sua frente parecia fra-
ca.
Dara viu a agua a frente das duas se erguer e um rosto olhar
para as duas e falar;
— Sempre é bom contar com a surpresa de uma boa compa-
nhia Keka.
— Quem é? – Dara.
— Dara de Buzau, uma nova surpresa, mas Keka, minha filha,
o que a traz ao caminho novamente.
— Sabe como eu, que esta caverna não existe mais.
— Acho que não entendeu a passagem anterior pequena Ke-
ka.
— Sabe qual o problema de me por aqui Eterno, de me atrair
a meu fim?
— Não quero seu fim.
— Tem certeza Eterno, pois me atraiu para cá, ou não?
— Não a atrai para cá, nem sei por que vem a mim.
Keka olha a forma do ser, parecia com o primeiro ser, mas
olha para ele e sorri, ela observava o ser em agua, mas vê uma aura,
sobre o ser, e fala.
— Pode me dizer o que fez com João Jorge Gomes e Thamis
Oliveira Eterno?
— Não sei de quem fala Keka.
A luz ficou forte, ela os iria atravessar, com as mãos que sur-
giam ao lago, Jessica estica a mão para Dara e fala;
— Não tema, pois nada tem fim, nem o menor dos espíritos é
desperdiçado, tudo se recicla, todas as almas renascem.
Dara sente a mão os atravessar, sente o corpo ficar e olha pa-
ra Jessica, ambos os corpos tenderam para traz, ficando ali o espi-
rito das duas, Jessica olha o ser a frente e fala.
— Porque disto?
O ser olha as próprias mãos, não sabia por que estava pare-
cendo que algo estava errado, Dara e Jessica veem o local na mão
do ser que lhes atravessou, surgir dois grandes buracos e Jessica
fala;
— Os pregos são para lhe lembrar quem sigo Wasser, se acha
que vou entregar minha vida para você voltar antes, ou interceder
306
através de um corpo que não é seu até ter tamanho para ter tudo,
se engana.
O ser grita, enquanto Dara vê seu espirito ser puxado para o
corpo as costas, e abre os olhos em seu corpo enquanto Jessica
apenas deita e abre os olhos, olhando o ser se desfazer em luz azu-
lada.

Margarida ouve um grito se virando para o local onde a luz


estava, a luz muda de cor, para um azul puro, olha dos demais seres
encantados com aquela luz, para muitos era um sinal do eterno,
olha para Suelen e fala;
— Vamos ter de isolar até a volta, mas agora não sei quanto
tempo durará, já que a menina transformou em um espectro visível
mesmo de dia, o que quer dizer, pode demorar mais do que ela
pensou.
— O que fazemos mãe?
— Alerta todos, não sabemos ainda o que está acontecendo.
Suelen e Carlos saem no sentido de Morretes, enquanto os
demais ficam ali, cercados de muitos seres e poderes da floresta.
Carlos olha para Suelen e pergunta;
— O que ela desconfiou que não vai falar lá?
— A energia liberada, é a do nascer de um ser especial, po-
dendo ser um angelical, um mestre ou um grande bruxo, mas a for-
ça induz a um ser imortal, então tem de ser um angelical, dos reais,
aqueles que não veem ao planeta, não como seres, e sim com parti-
cipação e caminho, mas alguém distorceu a formação deste ser,
pois ele não deveria ter ido tão longe, mas estava escrito na historia
deste João que ele atravessaria os problemas, e acharia um grande
amor, mas isto foi escrito após ele encarar a morte aos 10 anos, ele
tem ali uma curva, ele deveria ter absorvido esta energia aos 10,
mas não absorveu, quase morreu, sobre ele tinha uma carga de
desgraça, mas sem morte, alguém queria que ele fosse juntando as
forças mais ainda, e a segunda curva, a do mestre ou da morte, che-
gou aos 47 anos do senhor.
— Não entendi.
— Carlos, o que viu naquela luz?
— Uma energia descomunal.
307
— Aquela coluna ali, não é nada comparada a coluna que sur-
giu em Curitiba, onde as energias dele estão concentradas e presas.
— Continuo sem entender Suelen.
— Aquela luz tenta aparentar com uma coluna do Eterno,
mas a energia da coluna do Eterno seria mais forte que a do senhor,
então minha mãe acha que alguém está se passando ali pelo Eterno,
na esperança de absorver toda a energia do senhor, quem o fizer, se
tornaria um imortal, teria o poder de viver quase que a eternidade
na posição e forma que quisesse, teria contato com o Eterno, para
interceder por alguém no mundo das bruxas, até imperar sobre
eles, escolher um mundo superior e se passar por um Deus, é um
caminho que pode gerar um messias, ou Deus, ou uma guerra.
— Sua mãe desconfia de alguém?
— Sim, Peter Wasser, a menina estava com todas as energias
frágeis, mas ela sabia, que precisava de uma Pagã mantendo o ca-
minho aberto, depois de falar com Dalma no hospital, vamos fazer
compras e começaremos a manter o lugar seguro.
Chegam ao hospital e aquela menina olhando Dalma ela olha
para Daniele a porta e depois fala;
— Os Lemurie estão nisto também?
— Dalma, minha mãe está lá na montanha para manter um
caminho aberto, mas vim primeiro conversar.
— Caminho aberto?
— Onde os dois foram encontrados, um luz de passagem se
formou, atraindo toda a força a volta, Dara e Keka entraram na pas-
sagem, que está atraindo forças naturais para lá, mas precisamos
nos organizar, e manter dos nossos longe de lá.
— Por quê?
— Minha mãe acha que tem cheiro de Peter Wasser aquilo.
— Uma traição?
— Uma tentativa de se apropriar da força de um anjo real.
— Ele quer ser Deus?
— É o que minha mãe desconfia, mas a energia vai atrair as
pessoas para lá, mas se o conseguirmos deter, ele pode tentar se
apoderar do máximo de energia a volta, não esquece que os lobos,
felinos, cães e manás só estão soltos porque Keka soltou tudo que

308
tinha no cemitério de cães, então ele pode tentar se apoderar da
força dos que por perto estiverem.
— Gosto da forma de pensar de sua mãe menina, ela se pre-
para para o pior, mesmo quando não acontece, mas se foi premedi-
tado por Wasser, melhor nos prepararmos, vou reunir as Iaras, Sacis
e Laikans para conversar.
— Avisa todas as energias que conhecer, e vamos tentar man-
ter a fenda aberta, para que ele também não tente as aprisionar,
forçando a morte do senhor ai.
Suelen e Carlos saem dali indo a um mercado local.

Jessica (Keka) olha o lago a sua frente, se transformar em um


grande buraco, as paredes não eram azuis, e sim rochosas, olha pela
beira do buraco para baixo, Dara chega ao lado e fala.
— Não sinto minha águia, não sei onde estamos.
Jessica olhava em volta procurando um outro caminho, olha
para as costas, não tinha a entrada normal da caverna que entrara
antes, olha para um túnel do outro lado do lago, pensa em o con-
tornar, olha o canto que iria e ouve a pergunta;
— Acha que fomos atraídos para uma armadilha de Peter
Wasser?
— Sempre digo que sou uma péssima observadora, João fala-
va que me recusava a fazer as perguntas certas, quando confiava
em alguém, mas uma pergunta me veio a mente.
— Qual?
— Porque Peter Wasser tentou renascer, se ele vivia a 1700
anos na idade que os bruxos consideram a ideal, e não parecia pre-
cisar renascer?
— Provar que é possível?
— Acho que não, acho que ele queria Iniciar um caminho,
pois ele não ressuscitou, ele renasceu, ele escolheu morrer e nascer
com a ciência de quem ele era, nunca me fez sentido, mas agora
parece que tudo ficou claro.
— Claro?
— Ele talvez queira o poder de João para refazer o mundo das
bruxas, ou o de escorpião para os pagãos, mas ele vai me odiar por
isto, pois não posso deixar que ele use João, não posso ir a favor.
309
— Não entendi, todos falam que ele nunca falha, porque não
deu certo?
— Ele projetou isto a mais de 4 anos, eu não tinha passado
pelo mundo dos Cães, a aparência que viu da formação do Eterno, é
como ele me contava que seria, e não como foi realmente no cemi-
tério dos cães, ele se foi antes de saber que eu passaria ali, e tudo
que aconteceu lá, apenas duas pessoas sabem.
— Quer dizer, isto é um Entre Mundo, uma atalho criado por
ele? – Dara olhando Jessica passar bem rente a parede, para chegar
no ponto onde parecia ter uma saída.
— Não, isto é uma Possibilidade de Fato, um prender de
energia para absorver a mesma, normalmente estas Possibilidades
são tão rápidas que ninguém nem vê.
— E vamos onde?
— Não sei, mas a única saída é neste sentido, o buraco talvez
seja um caminho para um Entre Mundo, sinto ausência de vida nele,
sinal que é um atalho para algum lugar.
— E se ele os tiver jogado ali? – Dara.
Jessica estava chegando a entrada de um túnel, e olha para
Dara e fala;
— Não entendeu, isto não é algo criado por Wasser, sinal que
ele esperava que eu entrasse com João, para tentar nos mandar a
sei lá, pelo buraco, no sentido de algum lugar onde ele pudesse
receber as energias, como o cemitério dos cães, mas o cemitério
não está mais lá, isto que ele não sabe, assim como a caverna que
isto representa, só pode ser uma imagem criada, um atalho que
deveria ser rápido, mas que teremos de o percorrer.
— Aquela senhora falou que teríamos de ser rápidas.
— Quem dera alguém entendesse o que realmente precisa-
mos fazer, mas se tem um único caminho que sinto vida, vou por
ele.
— E se não der em nada?
— Vagamos pela eternidade, dai me explicará o que é Eterni-
dade, pois não tenho nenhuma experiência nisto.
As duas entram naquele estreitar da caverna, caminho difícil
e começam a avançar no sentido da montanha, sem saber o que
encontrariam.
310
Dalma olha para Jorge que fala;
— Onde vamos fazer isto?
— Aproveitamos a noite, pois de dia tem muitos olhos, mas
vai ser difícil mantar os olhos distante, então vamos fazer em Anto-
nina, que olhem para o lado, não para a montanha.
— Onde?
— Rio do Nunes, vamos assustar alguns turistas, mas tem de
considerar que podemos estar realmente diante de um problema
maior do que pensei Jorge.
— Não entendi o problema.
— Cada um olha por um lado, mas se for algo arquitetado por
Wasser, temos muito poucas chances de vencer, pois não o conhe-
cemos, mas uma peça entrou no tabuleiro, tendo Wasser como
mestre, João como amor, vai ser algo dentro de Keka que vai definir
o caminho, mas se ela está enfrentando, as Lemurie vieram apoiar e
isolar a área, hora de preparar o pessoal para ajudar.

Quando Suelen chega perto do local que agora aparentava


ter mais de 3 mil seres de varias linhas de magia, com aquele carri-
nho de supermercado flutuando as suas costas, e Carlos olhando em
volta, Margarida se levantou.
— Começa pela esquerda, eu faço pela direita, teremos de fa-
zer o mais arredondado possível, nos encontramos aqui, neste pon-
to, você faz o circulo interno e eu o externo filha.
Jessica pega uma panela, põem essências de rosa, cravos, ál-
cool etílico, goma, porções de ervas, na primeira panela, e com aju-
da de Paulo colocam para ferver, na segunda, essência neutra, sal
grosso, pimenta, glicose liquida, liga a segunda panela e começa a
colocar agua e mel nela.
Suelen olha para o caminho, dá uma volta inteira naquela cla-
ridade, passa ela inteira marcando com uma fita, que foi derruban-
do, fita amarela.
Pega uma veste e um senhor para a sua frente e pergunta:
— O que pensam que vão fazer?
— Ajudar, algum problema Maná?

311
— Estão isolando a luz do eterno, não gostamos disto, viemos
atraídos pela energia, por alguns dias pensamos que era um alarme
falso, dai quando surge o sinal na cor do eterno, vocês surgem.
— Como é seu nome Maná?
— Guerreiro Ianou!
— Filho da terra, não viemos atrapalhar sua devoção, viemos
apenas garantir que ninguém se perderá a mais neste caminho.
— O caminho do Eterno é o que muitos almejam.
— Tem de ter coragem para evocar o Eterno em seu interior
Guerreiro Ianou, externamente é orar, esperar, internamente, é
saber que toda a sua devoção estará em jogo.
— Mas estão isolando.
— Para quem quiser entrar, não existe magia ou proteção
que possa segurar, mas... – Suelen olha dois seres as costas, pareci-
am querer apoiar, enfrentar – eu, Suelen de Lemurie, não tenho
certeza se quero um dia atravessar por este caminho.
Suelen passou pelo ser e continuou, eles se olham, era uma
menina, mas todos sabiam quem era Suelen de Lemurie.
Começam os preparativos, os líquidos foram colocados em
galões com um bico fino, Suelen para ao lado da mãe, sabiam que
os demais ainda estavam pensando em interferir, se fossem rápido
não teriam impedimento, se demorassem seriam interferência,
sentiam a discórdia vindo do interior da coluna de luz.
As duas se dão as mãos, mais ao fundo Jessica pega na mão
direita de Paulo e na esquerda de Carlos, e ouvem Margarida falar;
— Amaná, nos dê sua proteção, discórdia nunca veio de você,
então nos proteja dela.
Suelen olha para a mãe e fala;
— Para a mãe das mães, receba nossa ajuda, e nossa devo-
ção.
Cada uma delas brilhou e começam cada uma para um lado,
Suelen derrubando o liquido na parte interna da fita, e Margarida na
parte externa.
As duas sentem a proteção lhes cobrir, Jessica pensou estar
tranquilo, agora nada as deteriam quando sentiu uma mão em seu
ombro.
— Vão parar agora, vocês estão isolando o Eterno de nós.
312
Jessica olha para as costas e viu Diana e muitos seres estra-
nhos, não eram nem Lobos, nem Morois, os 3 se viram para eles,
ainda de mãos dadas, e ouvem um Maná.
— Ou param isto ou os matamos.
— Se um Lemurie tivesse medo de morrer, não teria nascido
senhor, se acha que ameaçar de morte, de retalhar alguém como
eu, e os demais, sinal que não entenderam, não somos eternos,
somos apenas a defesa de vocês, e os defenderemos mesmo de
vocês.

Kevin Pereira, olha para Mari e fala:


— Temos de ajudar, e temos de manter a paz, sabemos que
vamos ter problemas.
— O que John falou?
— Que não gosta do poder que parece estar surgindo aqui, e
que gostaria de não se meter.
— Ruti? – Mari.
— Querendo ajudar, mas sem saber se consegue, pois todos
lá parecem estar sendo pressionados a não ajudar.
— Que bela porcaria estes aliados, são aliados apenas quando
não ameaça a naçãozinha deles.
— Sim, mas vamos ajudar.
Kevin programa uma ordem no sistema e se viu uma imensa
nave surgir do espaço, se estavam com problemas e ninguém ajuda-
ria, ele usaria o que ninguém gostava, um poder que assustava mui-
tos.
A nave desce no campo ao fundo, e se viu milhares de autô-
matos começarem a sair, eles começam a entrar nas ruas com agua,
com cabanas, com estrutura, foram dando ajuda e estrutura para os
que adoeciam pelo calor, pela desidratação provocada por aquela
energia que não se via.
— E quando vamos lá?
— Assim que o sistema estabelecer que podemos, eles não
sabem onde fica exatamente esta base Mari, e não os quero dar isto
de bandeja, se antes eles tinham motivos para não a ter aqui, estão
provando que é mais necessária, pois eles se omitem de nossos
problemas.
313
— Acha que virá retaliação?
— Se estiver ao meu lado, tudo bem.
Nas imagens da TV dos jornais locais, mostravam autômatos a
rua, montando e apoiando todos os hospitais e postos de saúde, a
noite avançava e nas ruas de Curitiba, se mostrava aquela força que
eles odiavam, o exercito de Crazy for Salt, o menino, que os curiti-
banos conheciam por Kevin Pereira.

Moreira recebe a ligação do Presidente da Republica;


— Fala presidente?
Moreira abre seu computador pessoal parando a uma mesa
do hospital e ouve se atualizando dos acontecimentos.
— O que pensam que estão fazendo?
— Sobre qual posição quer?
— Sobre a existência de autômatos na rua na região que pa-
rece emitir agora uma coluna azulada, cada vez mais brilhosa.
— Senhor, Kevin Pereira pediu ajuda aos Americanos, eles
não deram, sabe que ele é de Curitiba, ele vai tirar todos os que
quiserem sair da região, e vai os dar agua, alimento e estrutura, se
eles acharam que tinham um problema, eu, agora eles tem dois, e
esclarece a eles, que ainda estamos apenas nos defendendo.
— Mas eles estão nos ameaçando.
— Senhor, não os atacamos, estamos vendo os porta-aviões
deles, estamos vendo o exercito deles se preparando, mas ainda
estamos apenas olhando, manda o amigo Americano acalmar, ou
terá problemas.

Dalma olha o pessoal chegando na região do rio Nunes, esta-


va parando o carro na região de uma lanchonete, olhava os curiosos
olhando o sair das aguas calmas daquele rio, Iaras, o surgir de pe-
quenos seres, parecidos com pássaros, pequenos, mas com corpo
humano, os Sacis, e o tornar visível de milhares de Laikans, a toda
volta.
Jock para a frente de Dalma e pergunta;
— Fugindo novamente Dalma?
— Sempre, tenho carne, mas temos um problema Jock, estou
esperando o chegar de alguns, mas preciso falar com vocês.
314
Ela espera todos chegarem e começa a explicar o que preci-
sava de cada um deles, distancia e prontidão, mais um enfrenta-
mento, talvez sem grandes ameaças, mas estavam se preparando,
talvez o respeito do nome Peter Wasser fez eles se prepararem mais
do que o normal.

Paulo olha para Jessica e fala;


— Calma, tem algo estranho no ar.
— Estranho? – Carlos – Diria inesperado.
Os demais se olham, Diana olha o surgir de todos os lados os
Yawara, e uma moça olha para ela e fala;
— Finalmente sei quem apoiar, pois se a senhora ai, é a favor
de invadir, sinal que temos de nos por ao lado dos que nunca apoi-
amos. – Cristiane na forma humana, mas as grandes onças as costas
faziam os demais se manterem apenas ao longe, um impasse, mas
se existiam muitos a apoiar Diana, dois para cada Onça, mas a dife-
rença de tamanho dava quase um meio a meio.
De um momento para outro, o ar se encheu de águias, Cristi-
ane se assustou, com o surgir de milhares de lobos as costas, não
havia sentido a presença deles, viu ursos e estranhou, nunca tive-
ram ursos na região.
Diana não entendeu, sabia que aqueles eram Morois, e que
não eram parte dos seus, Dara estava no interior da luz, os demais
haviam se afastado, mas algo estava errado.
— Quem os comanda Moroii? – Diana para os seres, ela olha
uma grande fêmea abrir caminho, e olhar para Diana, esta dá um
passo atrás, se Cristiane estava tensa, começa a se perder na histo-
ria.
— Quem mais seria Diana? – Dara, a companheira de Tudor, o
ser que neste momento estava entre as onças, algo que somente
ele fora na vida, um ser de todas as espécies, um ser que poderia
ser mais.
— E vai apoiar esta dai? – Diana.
Dara olha para uma imensa onça macho e a vê chegar, os
demais olham aquele ser, os demais ao longe se posicionavam,
quando o grande ser foi se tornando um humano e olha para Diana.

315
— Diana, sabe que o dia que entender quem sou, não será
apenas uma bruxa.
Cristiane olha aquele macho, um dos Morois joga para ele
uma veste, e este a joga sobre o corpo. – Quem é você?
— Tudor de Buzau, para os que não me conhecem.
— Mas você é um Moroi ou um Yawara?
— Eu sou uma lenda moça, tento fugir da própria lenda, mas
esqueço, lendas não fogem, elas apenas distorcem a realidade para
que continue funcionando, mas se olhar em volta, Dalma chega com
as Iaras em seu apoio, os Sacis apoiam sua ideia, e agora os Morois
de verdade, não estes falsos seres, que mal sabem o que é ser um
Moroi. – Tudor olha em volta e vê um ser translucido chegar a eles
e olhar para Tudor.
— Não fugiu Tudor? – Jock, que nunca fora simpático, ele era
um líder, mas falava sem pensar mesmo.
— Vem em apoio a quem Tudor?
— A quem está dentro da luz, Jessica Talyze!
Tudor cresce de tamanho para um imenso Maná e olha para
o líder deles e pergunta;
— Vão enfrentar ou recuar Guerreiro?
Diana sabia que deveria sair, começa a recuar, Tudor olha pa-
ra a manobra, mas não teria o que fazer, não queria a guerra, mas
precisava dar apoio, o Maná olha para aquele imenso ser e fala.
— Nunca entendi como faz isto Guerreiro Tudor, mas estas
estão tentando nos isolar do Eterno.
— Guerreiro, elas estão protegendo o manter do portal aber-
to, se querem entrar e se perder, a vontade, não vou ao mundo do
Eterno tirar ninguém, mas os atacar por achar que são poucos, é
não saber quem estão enfrentando.
Os Manás sabiam quem estava se posicionando e ouvem a
pergunta de Tudor;
— Quem foi tentar achar a alma de João Gomes?
Jessica olha para Tudor e fala;
— Obrigada pelo apoio, mas foi Dara, sua neta e Keka.
— Não entendi ainda a ligação de Dara com aquele senhor,
juro que tentei a afastar, mas o que é este enfrentamento?

316
— Ainda não aconteceu, sabe disto Tudor, dois lados sempre
geram crise, quanto mais tempo, mais tensão.
— Mas parece faltar algo, não entendi ainda. – Tudor olhando
a companheira ainda na forma de um Maná de mais de 3 metros,
um leão com uma cabeça mais humanizada, com dedos peludos
próximo a uma mão.
Dara olha o companheiro e fala olhando para Cristiane;
— Não entendeu ou se recusa a aceitar Tudor? – Dara.
— Sei que para alguns é padrão amar, mas não me peça para
ser assim, sabe que está forma de ver as coisas é estranha para
mim.
— Tudor, para de pensar como um humano, estamos falando
de uma ligação, posso estar errado, mas é o trazer de toda a linha
Yawara para as leis. – Dara.
— Não entendi. – Cristiana.
Dara olha para Jessica que olha para Paulo.
— Pelo jeito todos desconfiam de algo, mas se for o trazer
dos Cães ao paraíso, é uma mudança nos cães. – Jessica.
— Mudança? – Um Guairacá ao fundo.
— Se for uma mudança, quem a revelará ainda está entre a
vida e a morte, dai seria o surgir de um messias, e não de um anjo
como alguns induziram. – Jessica.
— Na verdade a força indica um eterno, mas um eterno tem
sempre uma mensagem a passar, ou um caminho a tomar, todos os
grandes mestres, foram desviados do caminho, e nem todos eles
eram bons, nem todos viram mestres, podemos citar o caso de
Adolf Pölzl, que nasceu no dia 20 de Abril de 1889 no anoitecer,
alguns dizem que ele nasceu no dia 21 para os anjos, uns que estava
no dia 20 ainda, filho de uma governanta estuprada pelo patrão,
primo dela, gera alguém capaz de juntar a força visão profética e a
sabedoria e proteção material, este ser só não virou um ser de força
divina, pois não morreu aos 10 anos, seus ódios o transformaram
em alguém capaz de induzir uma grande destruição, mas melhor
uma imensa guerra a uma guerra alada. – Tudor.
— Guerra alada, de quem vocês estão falando? – Cristiane.

317
— Que uma criança que se tivesse morrido, aos 10 teria a for-
ça de um anjo, mas ela não morreu em 1899 e anos mais tarde ge-
raria a segunda guerra entre humanos, pelo nome de Adolf Hitler.
— Quer dizer que alguém intercedeu por isto?
— Um anjo que não gostou do que viu, mas mostrou ao seu
criador, ao seu pai, como ele chama, que pequenos erros com os
humanos podem gerar milhões em mortes, quem intercedeu foi um
pequeno anjo chamado Beliel, o ser que o Eterno mandou um mes-
sias que vocês chamam de Jesus, mas em nada era um Deus, e sim
uma representação de Metatron, que anunciava o fim dos pecados
de todos os seres, mas para isto teríamos de aceitar este perdão de
Deus, e este chamar dos revoltosos novamente ao perdão.
— Acha mesmo que ele olha tão de perto? – Cristiane.
— Sim, mas é algo que não esperava, um dos grupos locais
apoiando as Lemurie. – Tudor.
O sorriso de Cristiane faz Dara olhar para a moça, enquanto
Suelen e Margarida terminavam a oitava volta e param uma diante
da outra.
— Que o mundo proteja o que é do eterno, que o caminho
mostre os frutos, que os bons tenham chance de amar, e os inimi-
gos, nossa ignorância os deixe longe.
Suelen olha em volta, não eram mais as mesmas pessoas ali,
pensa em como algo simples as vezes pega toda a concentração de
uma pagã, e sente a energia subir, e olha a coluna de luz azulada
ficar forte, não ampliou o diâmetro, mas ficou muito mais forte.
Em Curitiba o que era uma coluna de luz que se via da janela
do evangélico ao sul, muitos olhavam aquela coluna azulada de luz,
quando ela simplesmente sumiu.

Margarida olha para Tudor e pergunta;


— Como estão as coisas Tudor?
— Meus respeitos a família Lemurie, mas parte dos meus fi-
caram em Curitiba, não tinha saído do país ainda, quando soube do
acontecido e voltei.
— Problemas em Curitiba?
— Muitos a cuidar, mesmo que tudo recue, podemos ter
mortes por lá se demorarmos muito.
318
O olhar sobre a Moça a fez pensar.
— Talvez eu não entenda tudo o que está acontecendo Tu-
dor, mas temos talvez um evento único, que pode se tornar apenas
um evento que poucos viram, ou o surgir de algo forte, que pode
complicar todos nós.
— Vamos isolar todos, mas parece que tem um grupo mais ao
longe, não entendi.
— Se todos brigarem, e o criador deste evento quiser se ma-
nifestar, estes que estão ao longe interviriam Tudor, não tem haver
com brigas pessoais e sim defender de algo pior.
— Acha que elas saem?
— Acho que teremos de esperar para saber.

Jessica havia caminhado um grande trecho e senta-se em


uma pedra e olha em volta, as pernas pareciam ter andado horas,
ela começa a pensar se era o caminho.
Dara olha para ela e fala;
— Já vamos descansar?
— Dara, temo ir pelo caminho errado, e mesmo assim enfren-
to, mas muitos medos surgiram em mim, e isto que está me deixan-
do inquieta.
— Duvidas?
— Eu amo o João, acho que isto é evidente.
— E vai para cama com outro?
— Ele foi com você para a cama, sei disto Dara.
— Ele não queria, ele segurar-se-ia, mas pensei que vocês
acabariam juntos, e não cada um num caminho.
— Ele sempre disse que me esperaria, ele sempre disse que
talvez não fosse a hora, que seria apenas quando eu tivesse certeza,
e mesmo assim, acho que nós ainda não nos entendemos.
— E está esperando o que para se entender com ele?
— Que ele seja sincero Dara, ele olha para você, para Thamis,
de uma forma a me deixar insegura, ele mostra uma sincronia entre
vocês que me deixa insegura, você entende mais disto que eu, até a
pequena Thamis entende mais disto que eu.
— Thamis é uma criança carente, que está esperando outra
criança Jessica, sabe disto.
319
— E você vai desistir?
— Acho que nem eu e nem você vamos conseguir, você
mesmo disse, somos um grupo, mas em meio a um senhor que não
é de avançar, mas estranhei você, pois nem reparou na moça que
estava lá com ele, deveria estar pensando em algo.
— Que moça?
— Cristiane Oliveira, uma moça com olhos azuis claros, mais
velha que você, mais nova que eu, e que estava ao lado de Dalma.
— Qual a importância?
— As peças estavam ali, mas obvio, não conseguimos ver to-
dos os dados, todas as peças atraídas, deveríamos ter afastado al-
guém, não sei o que lhe afastou Jessica, mas provavelmente estaria
a cama, ou morta esta hora, se não tivesse ido para casa.
— Ou teria o defendido.
— Para se defender, tem de estar com as defesas erguidas, as
pessoa não andam com ela erguida, por isto morrem.
— Acho que tem de conhecer João melhor Dara, mas tem ra-
zão, algo muito poderoso, pois ele não baixava a guarda, algo que o
atingiu, acredito que o que o ser fez ali atrás, para mim é uma inici-
ação básica o sair dali, mas ele não é um pagão, ele não é um bruxo,
mas não entendi o que vocês acham.
— Para mim não importa o que eles acham Jessica, não en-
tendeu, estou aqui por ele, não sei por que você está aqui, mas
acredito que por ele, a moça lá fora, está de olho em seu amado
também, e Thamis sempre olhou para ele.
— Ele terá de escolher.
— Provavelmente o que escolheu, ficar sozinho e enfrentar,
mesmo colocando sua vida em perigo, ele contava com uma certe-
za, que não morreria, talvez isto o tenha pego de surpresa.
Jessica se levanta, olha para Dara e fala;
— E se entendemos tudo errado?
— Como assim? – Dara.
— Se o grande objetivo não é a força dele, mas a força que
nós sentimos ser nos tirada por ele, não seja ele que está tentando
tirar, para sobreviver.
Dara olha sem entender, e Jessica olha em volta;

320
— Tem de saber, se como falou, ele tiver ligação carnal com 4
ramos dos cães, mesmo que eu sendo uma representante indireta,
uma ligação com os Laikans, você com os Moroi, Thamis com os
Guairacás, e esta moça que falou com os Yawara, se alguém está
nos usando para concentrar a partir dele estas energias, para as
absorver, para tentar não o fazer um anjo, mas para usar uma força
semelhante para prender novamente estes serres, recriar o cemité-
rio dos cães e voltar com uma força que nenhum pagão ou bruxo já
teve.
— Jessica, já ouvi falarem de você, você não seria a ligação
com os Laikans, e sim com o verdadeiro Eterno.
— Pior ainda, isto explicaria a força que surgiu em Curitiba, e
toda a energia lá contida, que não é força de criação, minha prima
disse que estava matando tudo lá.
— Acha que pode ser inversamente proporcional, alguém o
está usando como canalizador de nossas energias, e isto será a par-
te perigosa?
— Temos e achar eles rápido, e teremos de sair por outro lu-
gar, não por onde entramos.
— Não entendi.
— Se nós sairmos por lá, a proteção que Margarida fez, vai re-
ter nosso poder e deixar nós passarmos, mas as duas almas não
sairiam, e isto seria o surgir do ser que quer este comando, algo que
não podemos deixar.
— Desconfia de alguém? – Dara.
— De todos. Mas tenho de escolher um caminho, e não me
adianta acreditar que tudo vai dar errado, pois senão nem sairia
daqui.
— Certo, mas o que está pensando?
Jessica olha para Dara e pergunta;
— Como sente-se aqui dentro?
— Humana, até demais, pernas doendo por um esforço que
para um Moroi é nada.
— Então vamos com calma, mas vamos começar a perturbar
todos.

321
Jessica pega no bolso da calça um pequeno pedaço de tecido,
olha em volta, nada de líquidos, nem uma gota, pega no outro bolso
um punhado de sal e fala.
— Fica perto?
— Vai fazer?
— Tentar alertar Margarida de minha desconfiança, e vamos
mudar os planos.
— O que faremos?
— Depende da reação dela, do entendimento dela, mas va-
mos aguardar um pouco, devem surgir seres, mas não esquece, isto
não é um mundo para ter gente, no máximo pessoas de passagem,
então temos de ter calma.
Dara viu Jessica jogar sal no pano e cuspir nele, sentiu como
se as mãos dela brilhassem, ela olha em volta e fala;
— Viață scurtă, viață lungă, cale ușoară sau grea, totul opus.
Dara vê as paredes brilharem, as paredes que pareciam soli-
das começam a parecer pó, chega perto, e vê elas esfarelando, co-
mo se fossem sal. Olha Jessica por no chão aquele pano que pare-
ceu tomar tamanho e forma se tornando em um pequeno cordeiro,
o mesmo olha eles e sai andando por um caminho.
As duas começam a seguir aquele Cordeiro, em meio a uma
caverna que tomou a cor azulada de um sal fino que parecia as ve-
zes prestes a desmanchar sobre eles.

Margarida olha para a cor da luz mudar para um tom muito


menos vivo de azul, quase azul bebe, e olha para Jessica.
— Vamos a cidade, tenho de falar com Dalma.
— Problemas?
— Não, mas tenho de falar com ela! – Margarida olha para
Cristiane e Tudor e pergunta.
— Acham que podem manter isolado por uma hora no máxi-
mo, enquanto vou a cidade?
— Desconfiou de algo?
— Não, é que não tive tempo de saber oque João havia falado
para Dalma sobre o que ele pretendia.
— Cuidamos aqui, vai com calma! – Tudor.
— Vai lá mãe, cuidamos das coisas aqui. – Suelen.
322
Margarida entra no seu carro, os demais estranhavam aquele
carro ali, em meio a um descampado, mas viram o mesmo começar
a andar e flutuar, viram ele andar calmamente no sentido leste.
Pouco a frente vendo a estrada de terra, Margarida desce a
Brasília e olha para Jessica.
— Precisamos conversar onde ninguém nos ouça, preciso
pensar e trocar ideias filha.
— O que aconteceu?
— Keka alterou a crômica da cor, sinal que continua achando
que Wasser está por trás disto, mas ela desconfia que é o inverso,
mas como pode ser o inverso?
— Inverso?
— É um pedido de ajuda filha, algo que não a deixaria sair se
for o que pensa, ela não alterou ainda a potencia da força, então ela
não achou quem quer, mas desconfia de algo.
— E vamos trocar uma ideia com Dalma?
— Preciso falar com alguém que me deixe pensar, pois a me-
nina lá dentro está induzindo para um pensamento diferente, algo
que não pensei e não consigo imaginar.
Margarida para o carro e olha para Jorge a entrada e fala;
— Conseguiria um lugar calmo, para conversarmos?
— Problemas Margarida?
Aquela senhora passava algo estranho a todos que a viam,
não a davam o valor pelos olhos, e sim pelos atos, alguém que era
simples, e que parecia sorrir naturalmente.
Ela acena a cabeça, Jorge olha o segurança que fez sinal que
estava tudo tranquilo, entram e Dalma olha para Margarida, e fala;
— Veio o ver?
— Entender, pois algo está errado, como ele está?
— Estabilizado, mas muito fraco.
— Estabilizado? – Jessica.
Margarida olha uma senhora ao quarto e fala;
— Não nos conhecemos, Margarida de Lemurie.
— Apenas uma amiga de infância de João.
Margarida toca a mão de João, olha em volta e olha para a
menina na outra cama e pergunta;
— E a menina?
323
— Parece muito mais estável, mas parece mais frágil, as vezes
tem convulsões, embora não esteja mais nos aparelhos, não voltou
a consciência.
Margarida fecha os olhos um momento e depois olha para
Dalma e pergunta;
— O que ele pretendia lá?
— Entender, ele sempre dizia ser alguém sem muito poder,
mas o que está acontecendo em Curitiba, é algo muito forte.
— Lá desfez Dalma, agora toda a energia está em uma coluna
de não mais de 6 metros de raio, muito mais concentrada.
— Mas o que acha que está acontecendo? – Dani.
— Não sabemos ainda, mas Jessica e Dara estão no interior
desta coluna, e a cercamos e a protegemos para não haver interfe-
rência local.
— Estão isolando a entrada de energia? – Dalma.
— A saída, pois queremos apenas a parte certa saindo Dalma,
não esquece, tem muito poder em jogo.
— Acha que entendeu? – Dalma.
— Não, mas mantem o pessoal alerta, algo vai acontecer e
não vai vir a publico.
Margarida se despede e sai, Jorge viu que a visita foi rápida,
pararam mais a frente em um mercadinho, e Jessica perguntou.
— O que aconteceu mãe?
— Ele está sendo sugado de energia filha, não deveria ser o
contrario?
— Se o poder das demais está o mantendo sim.
— Esta é a contradição que nos levou a conclusão errada fi-
lha, ele realmente está sugando a energia delas, 3 doadoras, erro
primeiro, deveriam ser 4, ou até cinco, não 3, mas aquela formação
foi isolada quando isolamos a de cá, não faria sentido isto se algo lá
fosse absorver a energia, esperavam que nós isolássemos a saída,
não a entrada, mas não tenho como baixar a defesa, viraríamos
todos alvo, mas podemos nos preparar para uma abertura rápida se
for o caso.
— Não entendi o problema mãe?
— A proteção, se fosse a vida do senhor que estivesse em jo-
go, quando elas chegassem com ele, o mesmo sairia, a menina sairia
324
e tudo voltava ao normal, mas como parece que alguém está usan-
do o corpo dele como acumulador de energia, ele não sairia, ele
morreria, e quem fez este preparo, absorveria toda a energia dele,
de Jessica, de Dara e da menina, a união dos 3 elos, faria o dilatar da
energia e com o cair das 3 que morreriam deixando seu poder, ele
absorveria tudo em um raio que já foi definido pela interferência
em Curitiba, 5 mil metros, tudo neste raio morreria.
— E faremos oque?
— Vamos deixar um caminho de saída possível, e vamos aler-
tar a menina que entendemos.
— Como?
— Sabe a resposta filha.
Jessica sorriu vendo a mãe pegar algumas coisas, e saíram no
sentido daquela coluna de energia novamente.

Dara estava andando sem prestar atenção, quando vê Jessica


correr e vê dois corpos flutuando em uma sala, olha os dois corpos,
não parecia Joao e nem Thamis, mas era um adulto e uma criança,
seres sem forma, sem rosto, energias flutuando deitadas em meio a
uma sala, na forma de corpos.
— Como sabe que é ele?
— Os dois tem auras Dara, se um dia sairmos, lhe ensino a ver
auras, fica fácil identificar um amigo ou inimigo, mesmo disfarçado,
pois cada pessoa tem uma aura diferente.
Jessica toca em Thamis e sente a energia dela correndo para
João e fala.
— A ligação e absorção continua mesmo em alma, mas se o
que está acontecendo com ela, estiver acontecendo comigo e com
você Dara, não sentiríamos, e somente quando toda a energia se
esvair vamos sentir.
— E porque não sentimos?
— Dara, você é quase imortal, eu, uma ligação como você fa-
lou com o Eterno, ou paro isto, ou vai ser um desandar geral.
— Um poder que muitos cobiçariam.
— Uma força que não deveria estar presa a – Jessica toca Jo-
ão, uma lagrima lhe correu aos olhos, Dara viu que a lagrima caiu
sobre o ser, que pareceu mudar de cor, as paredes mudaram de cor.
325
— Como os tiraremos daqui?
— Não é questão de os tirar daqui Dara.
Dara olhava a menina, para ela uma criança, mas com um po-
der que nunca teve, mesmo sendo poderosa, sem entender o que
ela faria.
— Tem de crer que o melhor caminho é este, pois não terá
como concertar Jessica.
— Dara, o que não podemos é deixar acontecer, quer que to-
das nós morramos?
— Também não.
— Espero estar certa Dara, mas se estiver errada, vou sentir
na alma o erro, se estiver certa, mesmo assim teremos problemas.
Jessica olha para Dara e fala.
Pega na mão da menina e na outra não de João.
— Quando começar, mesmo que sentir vontade de soltar,
não solte, não sei como vai ser, mas não acredito que seja boa a
visão.
Dara meio desconfiada pega na mão de Thamis e na outra de
João, ou daqueles seres que pareciam com eles.
Jessica pega um pouco de sal do bolso e os aperta com a mão
que não estava dada a João, olha para o pó a mão, e o sopra ao ar.
— Libertate, libertate, a reveni la iubirea lumii, nu lăsați calea.
– Jessica olha o pó se dispor sobre os dois corpos e fala baixinho
vendo o mesmo cair sobre os corpos. - Te iubesc. – Uma lagrima lhe
correu ao rosto e viu o pó de sal começar a desfazer os corpos, a
imagem deles se desfazendo, da dor, do corpo dos dois ali se desfa-
zerem fez Dara olhar serio para Jessica, a sensação de que os esta-
vam matando, era na alma, uma sensação horrível.

Dalma olha para os corpos, e o aparelho de João começa a


reagir normalmente, ela chama um medico que olha para os dois
corpos e fala.
— Estão reagindo juntos, não sei o que foi que os atingiu, mas
estranho os dois voltarem junto.
Dalma olha Thamis abrir os olhos, assustada, olha para João
ainda de olhos fechados, e fala baixo;
— Onde estamos?
326
— Um hospital?
— Onde está Jessica, tive a sensação de ouvir a voz dela?
Dalma olha para Daniele e fala;
— Melhor ainda manter a informação contida.
— Por quê?
— Não sabemos o quanto estamos sendo observadas.
João abre os olhos, olha para Dalma, olha em volta, procu-
rando Jessica, ela não estava ali, vê os olhos de Dani e pergunta
também com pouca força.
— Como viemos parar aqui?
— Descansem. – O medico estranhando.

Margarida chega ao local e a cor da formação foi para o ver-


melho, os demais se assustaram, não era mais uma formação do
Eterno, era uma linha de magia negra, como alguns acreditavam.
— O que aconteceu? – Margarida olhando para Paulo.
— Uma força saiu, não sei oque, mas assim que saiu, a força
do cone diminuiu, em um terço, e está perdendo força.
Os olhos da senhora foram aos de Tudor e fala;
— Afasta todos Tudor.
Ele não discute e olha os seus, Cristiane também se põem a
afastar os demais, se antes eles queriam ficar perto, agora começam
a recuar.
— Qual a distancia?
— Evacua as cidades dos Saci, 5 mil metros Tudor, vai atingir
tudo, ou tentar.
Os seres ouviram aquilo e Jessica falou;
— O que faremos mãe?
— Mantem os olhos abertos, pois temos pessoas perto que
vão querer ficar para ver, e não posso salvar estes. – Margarida.
Tudor olha em volta e fala;
— E vamos ficar protegidos?
— Vamos fazer uma mistura, para permitir duas pessoas saí-
rem de lá Tudor, mas pode não dar certo.
Jessica começa a preparar mais uma porção, ela colocou em
uma espécie de borrifador, olha a mãe e pergunta;
— Como fazemos?
327
— Temos de esperar agora, agora o trabalho é da menina lá
dentro.

Em Curitiba o grupo de autômatos de Kevin, com o sumiço


daquela força, se unem em auxilio ao grupo de Gerson Rosa, no
ajudar dos afetados por aquela energia, as pessoas começam a me-
lhorar, enquanto a cidade enxia de bruxas, que não sentiam mais a
força, as pessoas melhoravam.

Jessica olha para Dara e pergunta:


— O que viu naquele velho?
Dara olha para Jessica.
— Você sempre é dura assim com ele?
— Ele para me manter longe por anos, me chamava de crian-
ça, eu era mesmo, dai para me defender, o chamava de velho, ele
entende, pelo menos não vejo mal em o chamar assim.
— Ele sempre nos situando na realidade, mas ele não é da-
quele tipo de gente que fica com cantadas idiotas, não faz questão
da conquista, as vezes nos colocando na curiosidade, muitos teriam
avançado na primeira noite, ele nem deu espaço para acontecer.
As duas estavam paradas, e Dara perguntou;
— Você o matou?
— Não Dara, ele e Thamis acordaram em Morretes.
— Como sente assim as coisas?
Jessica chega ao lado de Dara e lhe toca o ombro e esta vê a
cena do hospital, onde os dois acordam meio fracos, mas ainda es-
tranhando as coisas.
— Tem de entender Dara, eu amo este homem, não sei como
me portar ao seu lado, e não sei ficar longe, mas ainda não saímos,
e se olhar para ele, ainda está fraco, pois alguém ainda está absor-
vendo a energia dele através deste campo formado.
— Por isto estamos aqui?
O lugar começa a se desfazer, como se a gruta de sal come-
çasse a se desfazer.
Jessica olha em volta e pega ao chão um punhado do sal e o
cheira, e fala.

328
— Quando os cheiros me forem normais Dara, como são para
você, saberei dizer quem exatamente fez isto, por isto acho que
fazemos parte.
— E vamos caminhar?
Jessica sorriu, não precisava mais estar ali, mas queria estar,
as duas viram o chão se desfazer e olha para seu corpo começar a
cair, os dois corpos começaram a acelerar em meio a tudo se desfa-
zendo.
— O que faremos? – Grita Dara.
Jessica olha em volta, muito sal, teria de descobrir de onde
veio tanto sal, olha para Dara e grita de volta.
— Quando mergulharmos no lago, tem de tentar sair por vo-
cê, não posso ajudar Dara, e tem de ser rápido.
— Que lago?
— Um que está abaixo de nós, entraremos nele com tudo a
volta, mas teremos de nos localizar e chegar a margem, rapidamen-
te.
— Se não conseguirmos?
— Você é mais forte que eu Dara.
— Mas se não conseguirmos?
— Sinal que quem nos prendeu não entendeu o acontecido
ainda, ele está arriscando a vida em uma ideia.
— A vida?
— Dara, uma criança vive, talvez sem a ideia de quem é, mas
pode ser que saiba.
— E se souber?
— Se ele nos enfrentar com traição, nos permite reagir na
mesma moeda sem os pesos da magia, se ele nos quer mortos, e
usar de tudo o que pode para nos matar, isto será cobrado do ser
que carrega sua alma, independente do ser ter poucos anos, ele vai
definhar pela vida que tomou.
— Não entendi.
— Uma criança não iniciada, que é o caso do menino que car-
rega hoje a alma de Peter Wasser, não tem energia e nem ciência
para definhar 1700 anos, ele morreria.
Jessica sente o corpo mergulhar na agua, junto com muitos
pedaços grandes de sal, tenta nadar para cima, a agua cada vez mais
329
densa, parecia reagir a seus movimentos, sente a energia correr por
ela, nada rápido para cima e se apoia em um pedaço de sal maior,
olha em volta, não tinha beira, sacanagem, olha para Dara ao longe
e fala.
— Fica ai, vou neste sentido.
— Não tem beira.
Jessica nada no sentido da moça, a salinidade dava a cada
braçada um valor grande de empuxo, chega a ela, olha em volta e
aponta um lado.
— Mas não tem nada lá.
Jessica não discutiu, e começa a nadar para aquele lado.
Dara não sabia onde estava, mas sabia que a menina sabia
muito sobre estas coisas, a fama dela era referente a alguém que
por ser um pedaço do eterno, via o mundo diferente.
Viu quando Jessica parou, entendeu quando deu a próxima
braçada, batendo em algo, viu a menina tocar aquilo, pareceu afun-
dar um pouco.
Jessica olha aquela formação, parecia uma visão dimensional,
bem onde não deveria ter nada, a toca, sente a energia do lado e
olha para Dara.
— Vai ter de aguentar um pequeno choque.
— Não sei o que é isto, mas se temos de sair por ai, vamos.
Jessica sente a energia do lago de sal, e toca as duas mãos, a
corrente elétrica corre por ela, olha para Dara, ela tremeu com o
choque, mas a parede começou a rachar, se desfazer, viu uma parte
a frente, rocha que não parecia sal, e olha para Dara.
Ela estava tonta, mas era regra de mundos de iteração, ou se
sai pelas próprias forças, ou se deve ao outro sua vida, ela não que-
ria aquela divida, mas se fosse preciso, a tiraria dali.
Jessica chega a rocha, a escala, olha para o lago, olha para Da-
ra ao longe, parecia flutuar desacordada, parecia inerte, olha em
volta, e dispõem as mãos ao ar, iria fazer algo quando a viu se me-
xer e fala.
— Por aqui.
Dara pareceu olhar perdida para ela;
— Não vou conseguir.
Jessica sorriu e falou;
330
— Vai o deixar só para mim Dara?
Dara encara Jessica, estava já numa parte mais alta, parecia
rocha, lembra da menina falando que ela teria de sair dali por suas
forças, não entendia porque, mas achou forças e começa a nadar
naquele sentido, com dificuldade chega a parte que Jessica estava e
deita no chão.
— Tenho de descansar.
— Foi bem, descansa.
— Não ia me ajudar mesmo?
— Me deveria sua vida Dara, não quero esta divida, talvez
ajudasse, mas se for sair daqui, que seja por suas pernas, pois não
me deverá nada.
Dara olha a menina e deitada olha em volta e fala.
— Está de noite ou estamos onde?
— Um entre mundo, agora sei onde estamos Dara, precisa-
remos andar um pouco, para depois de uns dias andando, chegar no
dia de hoje no ponto que entramos.
— Fora do tempo?
— Num entre mundo de tempo.
— Porque disto?
— Porque nossa saída teria que ser por algo que nos igualasse
Dara, em força física, um entre mundo de força física, você venceria,
um de magia, eu venceria, um de agilidade mental, nos desgastarí-
amos mentalmente, e talvez não saíssemos, um de seres estranhos
como o dos Macaco Prego, não teríamos a saída direto, teríamos de
o atravessar, dizem que aquelas meninas Lemurie atravessaram ele,
e o entre mundo do purgatório, não sei se eu e você resistiríamos,
teria de decidir, uma parede, teria de dar em algum lugar, um co-
nhecido, escolhi um que não fosse além de uma existência inerte.
— Você que escolheu, e quem fez aquilo?
— Não posso mais intervir por ele.

Mari chega a uma casa no Cajuru, bairro de Curitiba, vê a


ambulância do SAMU saindo, e olha a senhora a porta;
— O que aconteceu senhora?
— Meu filho, ele ficou fraco, está perdendo força, levaram ele
para o hospital, não sei o que está acontecendo.
331
Os dois veem o casal entrar no carro e partirem no sentido
que a ambulância saiu, e Pedro olha para Mariane (Nane).
— O que aconteceu Nane?
— O que não queria acreditar, que tudo isto foi porque ele
achava mesmo que Jessica era apenas uma chave, apenas uma peça
descartável, ele queria voltar com a força de um exercito em magia,
ele agora está batalhando entre a vida e a morte com Jessica, se ele
viver, ela morre, se ela viver, ele morre.
— Tem certeza?
Nane passa a mão no ar e Pedro vê a magia, um rastro fraco
de magia, olha para o carro ao fundo, faz um gesto com a mão, o
portão se abre, a porta da casa se abre, eles entram no terreno e o
portão se fecha, Mari foi entrando, sabia que não era correto legal-
mente, mas chega a um quarto de criança e vê um brinquedo de
vidro, olha para dentro e vê tudo desabando, olha procurando a
prima, olha bem e Pedro pergunta;
— Parece uma grande caverna.
Nane aperta nas duas pontas do vidro e este vai se encolhen-
do, ela olha para a porta e começa a sair com aquele vidro na mão,
sai pela rua e fala.
— Vamos, o problemas é que Keka já havia saído do mundo
que ele criou, assim como os espíritos, ela já os tirou de lá.
— Mas vai manter isto?
— Tenho de ter certeza que todos saíram para destruir Pedro.
Ele concorda e os dois começam a retornar para casa.

Margarida vê a luz começar a diminuir, a cor foi ao branco


por segundos e desapareceu.
A senhora se abaixa no limite e fala;
— Vamos para a cidade filhas!
— O que aconteceu?
— Acabou a ameaça aos demais, mas as duas não estão mais
neste caminho, mas mesmo assim, não estão nesta existência tam-
bém.
— E ela nos procura para a proteger? – Carlos.

332
— Alguém que presa a vida destes que nos olham acima da
sua própria, alguém que não sei o que fez, mas a energia parece ter
sumido.
— Energias não somem.
— Sei disto Carlos, disse parece, ou está com elas, ou alguém
a recebeu.

333
334
335
Por Favor...

...João!
Voltamos a primeira pessoa, voltamos a
João, voltamos a uma visão parcial, para en-
cerrar este conto rápido.

J.J.Gremmelmaier

336
Olho para Daniele com dificuldade e pergunto;
— Quanto tempo desacordei?
— Está a quase 6 horas desacordado João.
— Onde está Keka?
— Ninguém sabe ainda, ela foi a um enfrentamento com
aquela Dara, e ninguém sabe ainda onde estão.
— E você por aqui?
— Vi que está bem cercado de amigos.
— Não sei se amigos, eles somem, quando preciso trocar uma
ideia, sei que sou difícil. – Tentei me mexer a cama e foi difícil, senti
o corpo ainda fraco.
Olho em volta e olho para Thamis que fala;
— Está bem?
—Sim, e você, desculpe de a colocar lá.
— Odeio o cheiro que tinha aquele lugar, cheirava a morte, a
sangue seco, mesmo parecendo tudo branco.
— Não sei o que era aquilo ainda Thamis, mas aquele não era
o Eterno. – Olho para a porta, um pequeno ser surge ali, ele surgiu
visível, sei disto pois todos os olhos foram a ele, ele caminha até
mim, não sei o que os demais pensaram, mas vi Jessica e Dara an-
dando em um mundo, estavam caminhando a dias, mas eu estava
ali a poucas horas, o ser olha para mim e sinto as minhas energias
voltando.
O pequeno anjo some e Daniele me olha;
— O que foi isto?
— Dizem que este menino é minha proteção.
— Um anjo, quis dizer um anjo, não um menino? – Dani.
Sorri, vi Dalma entrar pela porta e me olhar sentando-se.
— Vai com calma, ainda não sei onde está a Keka. – Dalma.
— Chegando ao mundo neste instante Dalma, ela fez algo que
não entendo, ela conduziu Dara por um entre mundos de ausência
de tempo, ela deve chegar em breve.
— Como sabe? – Dalma.
— Pergunta para Pedro, os anjos voltaram, sinal que o perigo
é mínimo agora.
— E vai fazer oque agora? – Thamis.

337
— Que tal conversarmos antes de começarmos a fazer co-
branças? – Falei a olhando.
Ela sorriu e vi aqueles olhos azuis entrarem na peça, Cristiane,
não sei o que ela queria, mas senti a aura insegura dela, o que esta-
va acontecendo, eu não gerava insegurança, sempre gerava medo
ou repudio, não insegurança.
— Melhorou, sabe a confusão que gerou? – Cristiane.
— Imagino.
Estava olhando em volta, sentindo as coisas estranhas, pare-
cia que estava mais leve, olhei para o médico entrando pela porta e
me olhar, pede para os demais saírem, fazem todos os exames e
fala;
— Esta em observação senhor, algo o tirou a consciência por
mais de 6 horas, a menina no fundo também, melhor não abusar.
— Tudo bem senhor.
O medico saiu e Thamis me olhou.
— O que não entendi.
— Thamis, o que quer, isto que não entendi até agora.
— Sabe o que preciso, não o que quero, preciso de um pai pa-
ra meu filho.
— Isto é fácil, mas quer um verdadeiro ou um qualquer?
— Quero você, mas vai fugir ainda. Por favor João, não me
deixe só, preciso de você.
Sorri e deixei o corpo escorrer na cama, era madrugada, dei-
tei tentando dormir.

Acordo assustado e sinto uma mão segurando a minha e abro


os olhos rapidamente. Tudo turvo e escuro ainda, nem sei quanto
tempo passou, mas foi como se fosse um cochilo, daqueles que
acordamos assustados.
Aqueles olhos sobre os meus me fizeram sorrir.
— Saiu de lá? – Perguntei sem jeito.
— Como está? – Jessica.
— Estranhando, não sei que peso tirou de mim Keka, mas
obrigado, não precisava ir lá.

338
— Sei que não entendeu, sei que fujo de você, daqui a pouco
fujo novamente, mas tem de saber João, ainda mora em meu cora-
ção, lembra o que falou a primeira vez que disse isto.
— Que você era muito criança para ter alguém no coração.
— Sim, e falei que você era velho demais para entender de
meus sentimentos. Mas sabe que fujo, que não sou de tomar a di-
anteira, saiba que lhe amo, que lhe respeito, mas ainda fico insegu-
ra, saio rápido e tem mais uma a suspirar na entrada.
— Sabe que até aquele caminho, não controlava meu destino,
algo mudou, sabe disto.
— Temos de sentar e conversar, mas pelo jeito ainda vai ficar
em observação.
— Sei que te amo Keka, sei que não tenho nem ciência do
que aconteceu lá, sei que cai e acordei aqui, vi a cara de assustado
de todos, mas algo você fez, algo que me mudou por dentro, algo
que não sei explicar ainda.
— Por favor João, vê se não me abandona, e não pede coisas
que não vou aceitar, pelo jeito terei de aguentar aquela Dara em
sua vida, não entendi, mas por algum motivo, não foi você que a
colocou para dentro de sua vida, e ainda tem esta teimosa ai que
vive fazendo burrada.
— Nem sei ao certo o que farei, esquece que tenho de reco-
meçar minha vida Keka.
— Tem de ver que nada será como antes.
— Nada é muita coisa.
Ela sorri, fiquei naquela cama mais dois dias, soube pelas no-
ticias que uma leva de desidratação e doenças de pele atingiu a
região sul da cidade, soube por Moreira que os olhos saíram da
cidade, que Kevin sumiu novamente, quanta coisa mudou.
Chego em casa, a bagunça de sempre, já de cara um carro da
policia civil a porta, teria problemas a resolver.
O senhor foi bem delicado a me encostar na parede e me re-
vistar e levar a delegacia, soube que haviam tentado entregar uma
intimação em minha casa, como não estava lá foi decretada minha
prisão.
Não falei nada pois não me foi perguntado nada, novamente
na carceragem do 10º Distrito.
339
Duas horas para o escrivão e o delegado me interrogarem, es-
tranho pois não parecia o mesmo, estava tão leve que nem me pre-
ocupei com nada, mas estranho que não houve um advogado, ape-
nas a constatação do delegado que de cama não poderia receber
uma intimação, todas as determinações da lei e sai sem falar com
ninguém.
Caminho para casa novamente, caminhar é bom para pensar,
mas nem sempre funciona.
Estranho ter uma pessoa no coração e estar sozinho, saber
que não posso ir a casa dela que serei destratado, estranho saber
que minha vida está ligada a outras, ainda não entendo esta parte,
mas em fim, estou sozinho.
Estranho saber que minha sobrevivência representou o fim
de uma era, a de Peter Wasser, estranho alguém querer mais do
que o que tem, e arriscar a vida por isto, estranho ainda pessoas
próximas, elas querem o que não posso dar, mas estão ali, a altura
da mão, estranho em si, estar só.
Chego em casa, arrumo minha bagunça, a campainha toca,
vejo 4 pessoas a porta, estranho, faço sinal para entrarem, logico
que minha casa não impressiona nada, mas eu não me preocupava
antes com isto, continuava sem me preocupar.
Por duas horas, eu, Keka, Dara, Thamis e Cristiane conversa-
mos, não entendi toda a conversa, mas sinal que não entendi nada,
muitos pedidos estranhos, muitas declarações estranhas, acho que
vou ter problemas.

Fim...

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